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Estética e

UNIVERSIDADE História da Arte


Núcleo de Educação a Distância
Brasileira I

SEMESTR

ARTES VISUAIS
UNIVERSIDADE
Núcleo de Educação a Distância

Créditos e Copyright
 

MARTINI, Fatima Regina Sans


                 Estéticae História da Arte
Brasileira I. Fátima Regina Sans Martini.  
Santos: Núcleo de Educação a Distância da
UNIMES, 2007. p. (Material didático. Curso de
Licenciatura em Artes Visuais).
                Modo de acesso: www.unimes.br
                1. Ensino a distância.  2. Artes
Visuais.   3. História da Arte
CDD 700

Este curso foi concebido e produzido pela Unimes Virtual. Eventuais marcas aqui
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oriunda da participação dos alunos, colaboradores, tutores e convidados, em
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ARTES VISUAIS
UNIVERSIDADE
Núcleo de Educação a Distância

UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS


FACULDADE DE EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS HUMANAS
PLANO DE ENSINO
 
CURSO: Licenciatura em Artes Visuais
COMPONENTE CURRICULAR: Estética e História da Arte Brasileira I
SEMESTRE: 3°
CARGA HORÁRIA TOTAL: 80 horas

EMENTA
Compreende os estudos dos conceitos estéticos e conhecimentos da História da
Arte brasileira a partir do período da pré-história até o início do século XX,
relacionando a produção artística com o contexto sociocultural e a biografia dos
artistas.
OBJETIVO GERAL:
Conhecer e classificar o período que se inicia na Pré-história do Brasil até o século
XIX e os elementos que constituem a Arte brasileira desse período.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS:
Unidade I
Analisar e refletir as diversas manifestações visuais, em suas relações espaciais e
temporais em suas múltiplas funções, nos diferentes grupos sociais e étnicos,
interagindo com o patrimônio nacional e internacional em sua dimensão sócio
histórica. Contextualizar a cultura em seus aspectos históricos e socioculturais,
geradores de sistemas simbólicos. Valorizar e organizar as produções brasileiras do
século XVI no Brasil.
Unidade II
Analisar e refletir as diversas manifestações visuais, em suas relações espaciais e
temporais em suas múltiplas funções, nos diferentes grupos sociais e étnicos,
interagindo com o patrimônio nacional e internacional em sua dimensão sócio
histórica. Contextualizar a cultura em seus aspectos históricos e socioculturais,

ARTES VISUAIS
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geradores de sistemas simbólicos. Valorizar e organizar as produções brasileiras do


século XVII no Brasil.
Unidade III
Analisar e refletir as diversas manifestações visuais, em suas relações espaciais e
temporais em suas múltiplas funções, nos diferentes grupos sociais e étnicos,
interagindo com o patrimônio nacional e internacional em sua dimensão sócio
histórica. Contextualizar a cultura em seus aspectos históricos e socioculturais,
geradores de sistemas simbólicos. Valorizar e organizar as produções brasileiras do
século XVIII no Brasil.
Unidade IV
Analisar e refletir as diversas manifestações visuais, em suas relações espaciais e
temporais em suas múltiplas funções, nos diferentes grupos sociais e étnicos,
interagindo com o patrimônio nacional e internacional em sua dimensão sócio
histórica. Contextualizar a cultura em seus aspectos históricos e socioculturais,
geradores de sistemas simbólicos. Valorizar e organizar as produções brasileiras do
século XIX no Brasil.
Unidade V
Analisar e refletir as diversas manifestações visuais, em suas relações espaciais e
temporais em suas múltiplas funções, nos diferentes grupos sociais e étnicos,
interagindo com o patrimônio nacional e internacional em sua dimensão sócio
histórica. Contextualizar a cultura em seus aspectos históricos e socioculturais,
geradores de sistemas simbólicos. Valorizar e organizar as produções brasileiras do
final do século XIX ao inicio do século XX no Brasil.
 
CONTEÚDO PROGRAMÁTICO:
Unidade I
Brasil – século XVI - A Pré-História no Brasil, os Sítios Arqueológicos, a Arte
Indígena e o Período Pré-Colonial.
Os elementos culturais e artísticos do período. Arquitetura do século XVI. Quadros
cronológico: Pré-História: Sítios arqueológicos, Os Sambaquis. A Arte indígena,
Descoberta do Brasil. Período Pré-colonial, Produção cultural dos colonos, A
arquitetura do séc. XVI - Métodos de construção.

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Unidade II
Brasil – Século XVII - A presença dos holandeses no Brasil e os pintores do
período de Maurício de Nassau.
Os elementos culturais e artísticos do período. Imagens e a Arquitetura do séc. XVII
no Brasil. Literatura e Arte na Colônia do século XVII: O século XVII. Holandeses no
Brasil, Representação do Nordeste. Nassau, Arquitetura no século XVII, Coberturas
– Torres das igrejas, Igrejas no Brasil, Literatura e Arte na Colônia – Retábulos.
Unidade III
Brasil – Século XVIII - A Arte barroca e rococó brasileira nas diversas regiões
do Brasil.
Conceitos estéticos ligados à Arte brasileira no período: Os bandeirantes exploram o
território, Século XVIII. Arte e Arquitetura – Bahia, Nordeste – Arte e arquitetura, Rio
de Janeiro - Arte e arquitetura, São Paulo – O sul do Brasil, Minas Gerais – Arte e
Arquitetura, Antônio Francisco Lisboa, A Pintura mineira.
Unidade IV
Brasil: Século XIX - Estilos brasileiros nos períodos do Romantismo e
Realismo.
O Neoclassicismo e o ecletismo brasileiro. Conceitos estéticos ligados Arte brasileira
no período. O início do século XIX no Brasil, A Missão francesa. O Neoclassicismo,
O Neoclassicismo. Pintura de Paisagens, O Neoclassicismo na Arquitetura, Arte
Neoclássica, Romântica e Realista. Victor Meirelles e Pedro Américo, Final do séc.
XIX no Brasil. O Ecletismo.
Tema Transversal - Relações entre imagens e o poder.
Unidade V
Brasil – Do final do século XIX ao início do século XX - O Ecletismo e o final do
Neoclássico no Brasil.
Conceitos estéticos ligados à Arte brasileira no período. Literatura brasileira. Final do
séc. XIX. Início do séc. XX- Ecletismo – Minas Gerais – Bahia, Norte amazônico, O
Ecletismo e outros estilos na Arte, São Paulo.
 

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

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PROENÇA, Graça. História da Arte. São Paulo: Ática, 2007.


TIRAPELLI, Percival. Arte Colonial Barroco e Rococó. São Paulo: IBEP Nacional,
2006.
TIRAPELLI, Percival. Arte Imperial do Neoclássico ao Ecletismo. São Paulo:
IBEP Nacional, 2006.
 
BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR
BATTISTONI, F. Duílio. Pequena História das Artes no Brasil. Átomo, 2008.
CAMPOS, Adalgisa A. Arte Sacra no Brasil Colonial. Belo Horizonte: Com Arte,
2011.
COLI, Jorge. Como Estudar a Arte brasileira no século XIX. São Paulo: SENAC,
2005.
PEREIRA, Sonia Gomes. Arte brasileira no Século XIX. Belo Horizonte: Com Arte,
2008.
TIRAPELLI, Percival. Arte Sacra no Brasil. São Paulo: UNESP, 2001.
 
METODOLOGIA:
A disciplina está dividida em unidades temáticas que serão desenvolvidas por meio
de recursos didáticos, como: material em formato de texto, vídeo aulas, fóruns e
atividades individuais. O trabalho educativo se dará por sugestão de leitura de
textos, indicação de pensadores, de sites, de atividades diversificadas, reflexivas,
envolvendo o universo da relação dos estudantes, do professor e do processo
ensino/aprendizagem.
 
AVALIAÇÃO:
A avaliação dos alunos é contínua, considerando-se o conteúdo desenvolvido e
apoiado nos trabalhos e exercícios práticos propostos ao longo do curso, como
forma de reflexão e aquisição de conhecimento dos conceitos trabalhados na parte
teórica e prática e habilidades. Prevê ainda a realização de atividades em momentos
específicos como fóruns, chats, tarefas, avaliações a distância e Prova Presencial,
de acordo com a Portaria de Avaliação vigente.

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Sumário

Aula 01_Pré-História: Sítios Arqueológicos..................................................................9


Aula 02_Os sambaquis – A arte indígena..................................................................11
Aula 04_Produção cultural dos colonos......................................................................14
Aula 05_A Arquitetura do século XVI no Brasil...........................................................16
Aula 06_Métodos de construção.................................................................................20
Aula 07_O século XVII. Holandeses no Brasil............................................................22
Aula 08_Representação do Nordeste. Nassau...........................................................25
Aula 09_Arquitetura no século XVII............................................................................27
Aula 10_Coberturas – Torres das igrejas...................................................................29
Aula 11_Igrejas no Brasil............................................................................................30
Aula 12_Literatura e Arte na Colônia – Retábulos..................................................32
Aula 13_Os bandeirantes exploram o território..........................................................35
Aula 14_Século XVIII. Arte e Arquitetura – Bahia.......................................................37
Aula 15_Nordeste – Arte e Arquitetura.......................................................................41
Aula 16_Rio de Janeiro – Arte e Arquitetura..............................................................45
Aula 17_São Paulo – O sul do Brasil..........................................................................48
Aula 18_Minas Gerais – Arte e Arquitetura................................................................51
Aula 19_Antônio Francisco Lisboa..............................................................................54
Aula 20_A Pintura mineira..........................................................................................58
Aula 21_O início do século XIX no Brasil...................................................................61
Aula 22_A Missão francesa. O Neoclassicismo.........................................................64
Aula 23_O Neoclassicismo. Pintura de Paisagens.....................................................67
Aula 24_O Neoclassicismo na Arquitetura.................................................................70
Aula 25_Arte Neoclássica, Romântica e Realista......................................................73
Aula 26_Victor Meirelles e Pedro Américo.................................................................75
Aula 27_Final do séc. XIX no Brasil. O Ecletismo......................................................78
Aula 28_Final do séc. XIX. Início do séc. XX..............................................................80
Aula 29_Ecletismo – Minas Gerais – Bahia................................................................83
Aula 30_Norte amazônico...........................................................................................85
Aula 31_O Ecletismo e outros estilos na Arte.............................................................88

ARTES VISUAIS
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Aula 32_São Paulo......................................................................................................90

ARTES VISUAIS
Aula 01_Pré-História: Sítios Arqueológicos

Os primeiros colonizadores no Brasil, no sentido de propagação territorial,


foram os povos ameríndios. A origem desses povos ainda não foi plenamente
esclarecida, mas segundo as opiniões há os que acreditam na descendência de
antigas raças asiáticas e da Oceania, que teriam chegado à América pelo estreito de
Bering ou pela navegação no Oceano Pacífico ou, ainda, no parentesco dos povos
que aqui chegaram através da Corrente Malaio-polinésia pelo Sudeste Asiático até a
América Central.
A descoberta de um fóssil de onze mil anos, apelidado de Luzia, em Lagoa
Santa, Minas Gerais, pertence a uma mulher com nítidas características de pessoas 
da Polinésia, indicando que deve ter havido alguma forma de povoamento vindo do
Pacífico Sul.
Acredita-se que, espalhados pelo território que hoje se denomina Brasil,
existiam cerca de três mil nações indígenas. Apesar das pesquisas da arqueologia e
antropologia, não sabemos com segurança como viviam alguns dos diversos grupos,
pois esses não utilizaram a escrita, não deixando, portanto, nenhum documento
sobre seus hábitos ou história. Sabemos, com certeza, que eles viviam da pesca e
caça e que eram nômades, enquanto algumas tribos praticavam a agricultura e se
mudavam quando os recursos alimentares acabavam.
As dificuldades aumentam mais quando se busca pelos artefatos, os quais
eram feitos de madeira, osso e fibra, não resistindo à passagem do tempo. Ao longo
do tempo, principalmente após a conquista do território, muitas tribos foram
dizimadas, restando hoje poucos grupos sobreviventes.
 
SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS
Sítios arqueológicos brasileiros muito antigos foram achados desde São
Raimundo Nonato no Piauí, no Sítio da Pedra Furada, com aproximadamente
60.000 anos até à região dos pampas com 10.000 anos. Existe também um
antiquíssimo conjunto achado na região de Lagoa em Minas Gerais, cujos
descendentes mais próximos, hoje, seriam os índios cariris e botocudos. Alguns

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grupos habitavam o território do Ceará há cerca de trinta mil anos. (Disponível em:
http://www.fumdham.org.br/parque.asp Acesso em fev.2014)

Os grupos étnicos que viveram na Serra da Capivara – Parque Nacional Serra


da Capivara – por cerca de doze mil anos, deixaram como testemunho as pinturas
rupestres. A comunicação social através dos desenhos com uma iconografia e
significação próprias, perdeu-se no tempo. Ficando para nossa leitura somente as
características de cada grupo e a interpretação de alguns desenhos e composições
questionáveis quanto às formas.
 
1          Caverna da Pedra Pintada
Em 1996, foram encontrados vestígios da presença do homem há pelo menos
onze mil anos na Caverna da Pedra Pintada, na região de Monte Alegre, às margens
do Rio Amazonas. As pinturas rupestres sugerem o estágio paleolítico no Novo
Mundo. A partir dos vestígios, os pesquisadores acreditam que os habitantes da
região dominavam o fogo e eram caçadores.

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Aula 02_Os sambaquis – A arte indígena

Na aula anterior, observamos as pinturas rupestres que provam a origem do


homem pré-histórico no Brasil. Ainda há muito a ser descoberto mediante avançadas
pesquisas arqueológicas.
  
OS SAMBAQUIS
No litoral brasileiro, observamos alguns enormes conjuntos formados por
conchas, pequenos e grandes esqueletos de animais e humanos, restos de
alimento, madeira e pedras conhecidos como sambaquis. Esses aglomerados em
geral medem de dois a trinta metros de altura, chegando, às vezes, a cem metros de
diâmetro. Os sambaquis provavelmente se formaram ao longo de centenas ou
milhares de anos em consequência da ação humana.
Através do estudo dos sambaquis, os arqueólogos procuram conhecer os
tipos de cabana, de objetos e costumes dos diversos grupos que ocuparam o lugar.
 
A ARTE INDÍGENA
Os indígenas do nosso território, assim como todas as sociedades humanas,
expressaram suas crenças por meio da pintura corporal, música, dança, cerâmica e
através da arte plumária.
 
1 . Cerâmica Marajoara
Na Ilha de Marajó, no Pará, foram encontradas diversas urnas
funerárias e peças para preparo e guarda de alimentos em cerâmica
ornamentada com desenhos geométricos. Diversas hipóteses surgiram
indicando possíveis origens da cerâmica da ilha do Marajó. Uma delas é a de
que as fases arqueológicas da ilha do Marajó foram cinco, correspondendo,
cada uma, a diferentes culturas, instaladas na região e a diferentes níveis de
ocupação. A fase Marajoara, teria ocorrido, provavelmente, entre os anos 200
e 690 d.C.

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Segundo pesquisas arqueológicas e antropológicas uma parte dos
habitantes da ilha teria se transferido para a região da selva Amazônica.
No Amazonas, no Amapá e ao norte do Pará, em Belém, também
foram encontradas peças ornamentadas, porém, em forma de animais e seres
humanos, o que representa a grande diversidade de povos que habitaram
esse imenso país e que ainda foi tão pouco diagnosticada.

2. Cerâmica Tapajônica
Representando a fauna amazônica
Objetos de cerâmica em estilo Santarém, achados em lugares
distantes entre si, indicam que havia um contato intenso entre os índios
tapajós e as tribos vizinhas, seja pelo comércio, seja pela dominação direta. É
possível que houvesse um poder central exercido por um chefe tapajó,
reunindo tribos vizinhas.

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SAIBA MAIS
 Pesquise sobre as artes primitivas dos diversos grupos indígenas que aqui
viviam na época da chegada do homem branco.
Descubra as tribos sobreviventes e o que eles produzem atualmente em
relação à atividade artística.
  
Leia em:
PROENÇA, G. História da Arte. São Paulo: Ática, 2008.

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Aula 04_Produção cultural dos colonos

Na aula anterior, refletimos sobre a descoberta do Brasil, o período Pré-


colonial e a posse definitiva pelos portugueses.
 
A PRODUÇÃO INTELECTUAL E ARTÍSTICA DOS COLONOS NO BRASIL
A produção intelectual e artística dos colonos no Brasil era controlada pelo
governo que não tinha interesse algum no desenvolvimento dessas áreas. Durante o
século XVI, grande parte do que foi escrito na colônia tinha a finalidade de ensinar a
religião católica ou de descrever os aspectos do território. O padre jesuíta José de
Anchieta destacou-se nesse período, escrevendo poemas religiosos e peças teatrais
sobre a vida dos santos e elaborando uma gramática das línguas nativas.
Dentre os viajantes, destacou-se o aventureiro alemão Hans Staden.
Náufrago, Hans escapou de ser devorado pelos Tupinambás. De volta à Europa, em
1555, escreveu um livro com ilustrações, contando suas aventuras.

AS PRIMEIRAS IMAGENS RELIGIOSAS


As imagens religiosas surgiram no Brasil com a chegada dos portugueses.
Sabe-se que em 1550, Dom João III  enviou, de Portugal para Salvador, uma

ARTES VISUAIS
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escultura de madeira representando Nossa Senhora das Maravilhas, venerada até
hoje. Segundo as pesquisas, as primeiras imagens feitas no Brasil são de barro
cozido executadas em São Vicente por João Gonçalo Fernandes, provavelmente em
1560. Essas imagens seriam a de Nossa Senhora do Rosário que se encontra em
Itanhaém, Nossa Senhora da Conceição, no Museu de Arte Sacra de Santos e
Santo Antônio, na Matriz de São Vicente.
O primeiro imaginário franciscano no Brasil foi Francisco dos Santos,
fundador de numerosas casas de sua Ordem entre 1585 e 1616, em Olinda,
Salvador, João Pessoa na Paraíba, Vitória no Espírito Santo e no Rio de Janeiro.
Grande número de jesuítas chegou ao Brasil entre 1549 e 1759. Com certeza,
os jesuítas trabalharam nos ramos artesanais e artísticos, mas não foram
encontradas informações referentes ao grande número de imagens existentes nas
regiões de Embu, Carapicuíba, Itapecerica, Santos e São Vicente no Estado de São
Paulo.
Na região de São Paulo e litoral, segundo João Marino em Coleção de Arte
Brasileira,
“desde a 2ª metade do século XVI até o final do século XVII, houve uma
cadeia ininterrupta na execução de imagens de barro cozido”,material
estranho e pouco usado em Portugal. Podemos pensar em vários motivos
para a utilização do barro: “é mais fácil modelar a argila, do que esculpir; o
nosso indígena já usava o barro para fazer seus utensílios domésticos”
como também ele sabia onde encontrar. (MARINO, 1983, p. 21)
Você já deve ter percebido que há muito a ser pesquisado, pois é preciso
buscar os conhecimentos que, por questões de tempo, não seria possível adquirir
em aula. Não deixe as pesquisas acumularem. Procure ler com atenção e
documentar os dados principais para que você consiga ter acesso fácil a essas
informações. Bons estudos e até a próxima aula!
  
SAIBA MAIS

MARINO, João. Coleção de Arte Brasileira. São Paulo: Raízes Artes Gráficas, 1983. 

Leia mais sobre a imaginária do século XVI em:

TIRAPELI, P. (org). Arte Sacra Colonial. São Paulo: UNESP, 2005, pp. 82 a 84.

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Aula 05_A Arquitetura do século XVI no Brasil

Vimos um resumo histórico do período da descoberta do Brasil, em 1500.  No


século XVI, além da luta diária pela sobrevivência que os portugueses enfrentaram,
aprenderam a conviver com os indígenas, e desenvolveram estratégias para se
defender dos corsários que aqui chegavam. Referimo-nos também às imagens
sagradas que eram executadas aqui, possivelmente copiadas das originais e
trazidas pelos portugueses.
 
A ARQUITETURA DO SÉCULO XVI NO BRASIL
A precariedade das condições de vida dos colonos no início do século XVI
explica a pobreza das primeiras construções. As obras religiosas iniciaram-se com a
edificação de igrejas e conventos de extrema rusticidade e singelos, construídos
com os recursos naturais disponíveis e mão de obra limitada e inexperiente.
Jesuítas, franciscanos, beneditinos e carmelitas implantaram suas missões de forma
precária e provisória. Na verdade. Isso explica porque tão pouco dessas obras
resistiram ao tempo.
No entanto, segundo Pietro Maria Bardi,
“os improvisados colégios jesuíticos logo deram lugar a construções mais
suntuosas, criadas por artistas itinerantes de várias nacionalidades”. (Arte
no Brasil, 1986, pp.12-13)
Dentre as obras conhecidas executadas no século XVI, podem ser citadas
algumas mais conhecidas:
 
1. Igreja de São Cosme e Damião
Datada de 1535, a Igreja de São Cosme e Damião em Igaraçu (ou Igarassu),
Pernambuco, muito alterada, ainda conserva a estrutura original quinhentista com
uma única nave e uma fachada, cuja parte superior é um frontão triangular. Fundada
a mando de Duarte Coelho, para celebrar a vitória sobre os índios que habitavam
aquelas terras. No século XVII a igreja foi incendiada pelos invasores holandeses.
Na fachada, no centro há dois nichos de cantaria[1] com as imagens dos santos.

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2. Igreja de Nossa Senhora da Graça


A Igreja de Nossa Senhora da Graça foi construída no século XVI, na cidade
de Olinda, Pernambuco e incendiada em 1631 pelos holandeses. Localizada no alto
do Morro do Seminário, foi uma das primeiras a serem construídas no Brasil, para
catequizar os indígenas.

Fig. 6: Igreja de Nossa Senhora da Graça


Olinda, Pernambuco.
 Ref. Imagem: Power Point. Igreja Nossa Senhora da Graça. Gif. 480 x 360 pixels. 8 bits. 92,7 KB.
MARTINI, Fátima R. Sans. 17 set. 2014.
 
1. A arquitetura alterada

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Em 1585, foram iniciados os trabalhos de construção da Igreja de Nossa
Senhora das Neves, com projeto do Frei Francisco dos Santos. Hoje, a igreja
comporta três arcadas e três janelas superiores em verga reta, no estilo do século
XVII.
O primeiro prédio a abrigar a Igreja Matriz, em São Vicente, foi construído por
Martim Afonso de Sousa, em 1532, próximo à praia onde aconteceu a fundação
oficial da Vila de São Vicente. A construção foi destruída por um maremoto, que
varreu a cidade em 1542. A segunda sede foi erguida pelo povo em local mais
distante do mar, mas foi destruída por piratas que atacaram São Vicente. Em 1757,
a atual igreja foi construída sobre as ruínas da anterior, alterando a fachada.
Fundado em 1588, o Convento e igreja de Santo Antônio de Igaraçu, em
Pernambuco, foi atacado e saqueado pelos holandeses, permanecendo abandonado
até 1654. A reconstrução se deu até 1693, no estilo do século XVII.
A igreja, inicialmente dedicada a Nossa Senhora de Misericórdia, passou a
chamar-se Igreja Nossa Senhora de Bonsucesso.  A igreja foi levantada junto à
enfermaria da Irmandade de Misericórdia, em 1582, no Rio de Janeiro. A portada de
lioz português e a sineira são do século XVII.
Dentre as construções do século XVI ainda se encontram a Igreja e o Colégio
dos Jesuítas em Salvador, construídos entre 1561 e 1565 e, posteriormente,
reconstruídos. Também a Matriz de São Sebastião e do Colégio dos Jesuítas, no
Morro do Castelo, no Rio de Janeiro, reconstruídos ainda em 1588 e dos quais, hoje,
nada mais resta, a não ser os altares e retábulos na igreja da Misericórdia.
A igreja jesuítica de Reritiba (Santuário Nacional de Anchieta) no litoral sul do
Espírito Santo e a igreja de São Lourenço dos índios em Niterói, também são do
final do século XVI e início do século XVII.
As cidades em geral eram fundadas sem planificação e cresciam
desordenadamente. Salvador, Rio de Janeiro, Olinda e São Paulo foram edificadas
em locais altos para defesa dos possíveis ataques indígenas. Outras cidades
nasciam na planície costeira, nas proximidades de portos naturais ou rios que
funcionavam como vias de comunicação para o interior.
Os primeiros templos erguidos precocemente nos arraiais dos primórdios da
colonização foram executados à maneira de cabanas indígenas, usando-se folhas

ARTES VISUAIS
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de palmeira sustentadas por traves de madeira. Por muito tempo as igrejas, mesmo
construídas de pau-a-pique ou de taipa de pilão, eram recobertas com folhas de
palmeira. A igreja de São Paulo de Piratininga, inaugurada em 1556 foi edificada em
taipa de mão e coberta com palha.

[1] Cantaria – pedra usada em construção, para dar acabamento de portas ou janelas.

ARTES VISUAIS
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Aula 06_Métodos de construção

Na aula anterior vimos a arquitetura do século XVI. Você deve ficar atento às
mudanças nas fachadas após passarem por reformas e às mudanças de estilo nos
interiores dos edifícios.
  
MÉTODOS DE CONSTRUÇÃO
1.  Pau-a-pique, taipa de mão ou taipa de sebe.
Consistia em criar um suporte de estacas de madeira para reter a terra
molhada que era amassada. A armação compunha-se de estacas verticais,
cravadas na terra, de barras horizontais de madeira e entre elas varetas que
apoiavam o suporte. O barro era socado à mão sobre essa armação.
Todas as construções provisórias do princípio da colonização eram de taipa
de mão.
2 . Taipa de pilão.
A taipa de pilão consiste em amassar a terra ou argila umedecida com água
ou água de cal dentro de moldes. A concretagem se torna mais consistente com o
emprego de materiais aglutinantes, como, palha ou crina, excrementos de animais e
até óleo de baleia. As paredes ficavam com uma espessura de 50 a 60 cm. O teto
era bem avançado na beirada para suportar a água da chuva e não prejudicar as
paredes. A construção também recebia uma calçada ao redor para proteção das
paredes e evitar a erosão.
A igreja de São Vicente, depois do desaparecimento da cidade por uma
enorme ressaca em 1542, foi reconstruída em taipa de pilão sobre fundação de
pedra.
3. Pedra e cal
Encontramos ruínas executadas em pedra e cal nas regiões onde a pedra era
fácil de ser extraída. A cal era obtida dos sambaquis, depósitos de esqueletos e
conchas da época Pré-Histórica, ao longo do litoral.

ARTES VISUAIS
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Sabe-se que algumas construções de edifícios administrativos construídos na
Bahia e Olinda com estrutura em pedra foram confiadas ao arquiteto português Luís
Dias, que trabalhou no Brasil entre 1549 e 1553.
O Colégio construído em Ilhéus, entre 1563 e 1572 foi executado em pedra e
cal de ostra, assim como a segunda igreja do Colégio no Rio de Janeiro, construída
em 1585 a 1588.
 

ARTES VISUAIS
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Aula 07_O século XVII. Holandeses no Brasil.

Na Unidade anterior observamos a arquitetura civil e religiosa do século XVI e


seus métodos de construção. Em 1580, o rei da Espanha Felipe II impôs seu
domínio sobre Portugal, decidindo-se, pela ocupação definitiva do território
brasileiro, por motivos políticos e comerciais.  
O SÉCULO XVII
Para enfraquecer a Holanda, inimiga da Espanha, Felipe II pensou em
destruir o poderio comercial holandês, proibindo que seus navios atracassem nos
portos portugueses. Com a intenção de agir nas Américas, os holandeses criaram a
Companhia de Comércio das Índias Ocidentais. 
HOLANDESES NO BRASIL
Em 1630, os holandeses dirigiram-se a Pernambuco, dominando a capitania e
instalando um governo na cidade de Olinda e depois Recife.
Durante o período da dominação no Nordeste, de 1630 a 1654, os
holandeses mantiveram uma grande área dominada que ia de Alagoas até o Rio
Grande do Norte. De início os senhores de engenho defenderam suas terras,
resultando em destruição das lavouras e fuga de escravos para o quilombo de
Palmares, o qual estava se formando. Cedo os proprietários perceberam que a
Holanda não tinha interesse em terras, mas no comércio do açúcar, assim, se
aquietaram, principalmente depois da chegada de Maurício de Nassau.
A política da Companhia das Índias Ocidentais foi a de relações amigáveis
também com os Tapuias. O próprio Conde de Nassau reconhecia a importância da
amizade indígena, para fins de sossego e conservação da própria colônia. Ao
contrário dos portugueses, os holandeses concederam aos Tapuias uma aparente
liberdade e a não escravização.  Foi financiada nesse período, a vinda de médicos,
astrônomos, cientistas e artistas, resultando em um desenvolvimento cultural até
então desconhecido na região.
Em 1644, porém, Maurício de Nassau se afasta do cargo em desacordo com
a Companhia de Comércio, modificando, desde então, as relações entre holandeses

ARTES VISUAIS
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e colonos. Leia abaixo recorte do texto – O Diário do Conde de Nassau – em que o
Príncipe de Orange, se despede do Brasil:  
Dentro de mais dois dias estarei deixando esta grande terra. Ainda me
lembro, quando aqui cheguei, do estado em que se encontrava a Conquista. A
Companhia, em 1630, tinha tomado Pernambuco. [...] Em 1637, após uma longa
viagem desembarquei em terras do Brasil. Foi um deslumbramento - o verde das
matas, os pássaros, o grande rio, que me lembrou as terras e os canais de
Amsterdam. [...] Não fiquei morando no Recife, estava muito desarrumado para o
meu gosto, fui para a ilha, que se chamou antes de Antônio Vaz. Nela me instalei em
um grande sobrado, perto do rio, e, de onde avistava o Recife. [...] Sobre o seu
telhado, meu amigo [...] instalou um observatório; várias vezes ali subi para observar
os astros e ver, à distância, o mar e as terras em redor. [...] A silhueta de Olinda é
muito bonita, ao se recortar contra o céu. [...] Chegando, naquela antiga vila, pude
percorrer as suas ruas incendiadas; o incêndio da cidade, ateado pelos da
Companhia, em 1631, foi extenso e, não fossem os índios que acudiram os padres,
teriam se consumido totalmente algumas das grandes construções dos religiosos.
Perto da antiga Matriz, bastante arruinada, me deparei, ao lado do mar, com a
grande construção dos padres da Companhia. Que maravilha, - estes jesuítas não
construíam para o momento, mas sim, vendo o futuro. Na Matriz, no Colégio da
Companhia de Jesus e noutras em ruínas ainda pude ver os ricos altares. Não vi
imagens de santos, deviam ter sido tiradas dos altares pelos portugueses. [...]
Quando considerei a minha maior permanência me interessei pelas melhoras das
condições do Recife. [...] Assim logo cuidou-se da construção de dois palácios. Um
para residência oficial, onde seriam os despachos e onde se pudesse receber e,
outro, para repouso, poderia dizer, de inverno. O primeiro deles construído na parte
de terra ao Norte do Forte Ernesto e voltado para o continente, Olinda e o Recife.
Lugar encantador e onde se tem, além do palácio, com suas duas altas torres, um
jardim, no qual, para divertimento dos da casa, instalou-se viveiros, jaulas com
animais e plantou-se coqueiros, muitos dos quais transplantou-se já adultos. Para os
palácios mandou-se fazer móveis e adquirir tapetes, além de orná-los com quadros
pintados pelos nossos artistas. [...] foi encarregado o irmão do pintor Frans Post, o
arquiteto Pieter Post, de fazer o traçado das ruas para a expansão do casario em

ARTES VISUAIS
24
direção ao Forte, e isto deveria ser feito a maneira nova, numa cidade moderna.
Nela, praças ao lado do canal principal, e casinhas pequenas foram construídas.
Como ficou elegante, aprazível - moderna. Dela fez desenhos o Sr. Post. Espera-se
usá-los no futuro. [...] É com tristeza que deixo esta terra e antevejo o seu futuro
grandioso. Eles, os que ficaram, dirão futuramente o quanto devem a esse período
do governo. Hoje, neste instante da partida vejo, comparando com o Recife que vi
quando cheguei, o quanto esta cidade é linda, debruçada no grande rio. […] Dessa
terra levo muitas memórias e dela fixou aspectos extraordinários, de suas paisagens
e da gente, os pintores, Srs. F. Post, Zacharias Wagner, e o notável Albert Eckhout.
Um dia irão falar muito disto tudo. (Disponível em
<http://www.recife.pe.gov.br/cidade/projetos/bairrodorecife/tx3.htm> Acesso em 11
set. 2014.).
Entre 1645 e 1654 os colonos lutaram pele expulsão dos holandeses,
destacando-se as batalhas de Guararapes em 1648 e 1649.
Em 1654, colonos, escravos e índios, com o auxílio de Portugal apoiado pela
Inglaterra, obrigaram os holandeses a se retirarem do Brasil.

ARTES VISUAIS
25
Aula 08_Representação do Nordeste. Nassau.

Observamos na aula anterior um resumo da história da invasão holandesa no


Brasil e a permanência de Maurício de Nassau em Recife.  
REPRESENTAÇÃO DO NORDESTE NO SÉCULO XVII
A presença holandesa originou um período rico para a arte e a cultura no
Brasil.
Na capital de Pernambuco, Recife, chamada de Maurícia, ou Mauritsstad, na
época, Maurício de Nassaucoordenou pessoalmente a ampliação e restauração
urbanística da cidade, deixando, na ocasião de sua partida, mais de duas mil
edificações inteiramente de pedra e tijolo, de estilo tipicamente nórdico, com
fachadas de dois andares e teto pontiagudo. Os materiais das construções vieram
da Europa e das ruínas das construções portuguesas.
Da mesma forma, quando os portugueses reassumiram, demoliram toda
administração anterior.
O período Nassau teve intensa atividade de um grupo de pintores que foram
os primeiros aqui, a ousarem pintar temas de caráter não religioso, representando
paisagens locais, natureza morta com flores e frutos tropicais, indígenas e animais
que para eles eram exóticos. Entre eles estavam os pintores: Frans POST (1612-
1680), de Haarlem; Albert ECKHOUT (1610-1666), de Gröningene, e Zacharias
WAGENER (1614-1668) de origem alemã, os quais possibilitaram referências sobre
o modo de vida dos colonos e são até hoje importantes fontes de pesquisa histórica. 

1. Post
Frans POST (1612-1680), desenhou no Brasil de 1637 a 1644. São
conhecidas cerca de 150 pinturas de Post, a maioria assinada e datada, quase todas
representando paisagens.
2. Eckhout
Albert ECKHOUT (1610-1666) permaneceu no Brasil por sete anos, de 1637
a 1644, desenhando a flora e fauna brasileira.

ARTES VISUAIS
26
Os desenhos e pinturas efetuados no Brasil foram enviados para a Holanda.
Uma parte foi para a Dinamarca, hoje, no Museu Copenhagen,  e outra parte foi
enviada para a Alemanha, permanecendo na cidade de Cracóvia até por volta de
1970.
D. Pedro II, em visita a Dinamarca em 1876, conheceu as obras de Eckhout e,
impressionado com a beleza dos quadros e da importância que representavam para
o Brasil, encomendou cópias em tamanhos menores a Niels Aagaard Lutzen, que
estão hoje preservadas.
Outros desenhos e pinturas fizeram parte dos presentes brasileiros enviados
por Mauricio de Nassau ao rei Luís XIV, da França, que os enviou para a cidade de
Gobelin, como modelos para uma série de tapeçarias, entre 1687 e 1730. Os
gobelins[1] produzidos ficaram conhecidos como Grandes Indes e Petites Indes.
O Caçador índio, da série Nouvelles Indes,  é uma tapeçaria executada sobre
os cartões que o artista François Desportes (1735-1740) elaborou para substituir os
originais de Eckhout, já desgastados. Atualmente, encontram-se  no MASP, em São
Paulo.
  3. Wagener
O desenhista e cartógrafo Zacharias WAGENER (1614-1668) trabalhava na
Holanda quando se transferiu para Recife como soldado da Companhia das Índias
Ocidentais, por volta de 1634. O artista permaneceu até 1641, coletando materiais e
desenhando aquarelas.  
  
SAIBA MAIS
Pesquise sobre as pinturas efetuadas por esses artistas na ocasião da
invasão holandesa do Brasil, no século XVII.
Compare a flora e a fauna executadas por meio de efeitos pictóricos e do
gosto estilístico do momento com a diversidade paisagística brasileira que você
conhece.

[1] Gobelins são tapeçarias executadas com composições em ricos tecidos. Os


gobelins tem origem na França, do século XVII.

ARTES VISUAIS
27
Aula 09_Arquitetura no século XVII
Na aula anterior,conhecemos a história e a importância artística dos
holandeses no Brasil nas figuras de Zacharias Wagner, Eckhout e Frans Post. Seus
desenhos e pinturas permitem, sem dúvida, conhecer um pouco mais do estilo de
vida colonial no século XVII.
Em Arquitetura do século XVI, observaram-se alguns métodos de construção
como a utilização de madeira, folhas e palha nas primeiras obras levantadas; a taipa
de mão ou pau a pique; a taipa de pilão e o emprego de pedra e cal, nas regiões
onde a pedra era natural, assim que a colonização se estabeleceu.
Em algumas construções aparecem técnicas combinadas. Em certas igrejas
encontramos algumas partes de madeira ou taipa de pilão e até mesmo pau a pique
alternados com alvenaria. 
  
MÉTODOS DE CONSTRUÇÃO – OUTRAS TÉCNICAS
1. Alvenaria
A alvenaria é uma espécie de cascalho grosseiro aglomerado com
argamassa. Essa argamassa pode ser de toda espécie de elementos, como por
exemplo, a cal, a argila crua, pedras ou tijolos.
Em Minas, além do uso muito grande da argila, também pode ser encontrada
na argamassa, um minério de ferro extraído da serra de Ouro Preto com o nome de
canga.
2. Adobe
Os adobes são tijolos secos ao sol, de grandes dimensões: 20x20x40. Esse
tipo de tijolo foi menos usado do que a taipa de pilão, que resiste melhor ao tempo
se bem executada.
Os adobes eram normalmente reservados para as partes secundárias da
construção.
3. Tijolo
A partir do século XVII, o emprego do tijolo cozido nas construções tornou-se
comum, principalmente na Bahia. Em 1711, a cidade de Ouro Preto, recém-fundada,

ARTES VISUAIS
28
já tinha uma olaria. No entanto, a região de São Paulo só passou a utilizar o tijolo no
século XIX.
4. Cantaria
O uso da cantaria era reservado às partes nobres da construção, as quais
necessitavam de moldura, como pilastras, soleiras, peitoris de janelas, umbrais de
janelas e portas, cornijas, faixas e frontispício ou fachada.
Do solo brasileiro foram extraídas para cantarias, a pedra Itacolomi e a pedra-
sabão, de Minas Gerais.
No século XVIII, para igrejas mais luxuosas importava-se de Portugal,
principalmente, uma espécie de mármore chamado de Lioz.
  
ARQUITETURA NO SÉCULO XVII
Após a expulsão dos holandeses em 1654, o Nordeste, única região brasileira
economicamente importante, renovou totalmente sua arquitetura. Uma nova
“linguagem espacial, na qual a exuberância da decoração tinha um papel
fundamental, substituía a sobriedade maneirista e as rígidas normas dos
artistas do século XVI”. (ARTE NO BRASIL, 1986, p. 41)
Algumas obras foram reconstruídas e outras restauradas, mantendo-se os
projetos originais, as quais recebiam o novo estilo só internamente.

ARTES VISUAIS
29
Aula 10_Coberturas – Torres das igrejas.

Na aula anterior, observamos as diversas formas de construção no século


XVII no Brasil, técnicas misturadas às mais antigas e outras que chegavam da
Europa e eram assimiladas pelos construtores.
  
TORRES E FRONTÕES
A regra geral eram as coberturas de madeira. As abóbadas construídas em
pedra ou tijolo são raras e, quando encontradas, estão nos conventos do século
XVII.
Os claustros apresentam na maioria abóbadas em berço, instaladas nas
naves únicas ou principais. As abóbadas de arestas são empregadas nas naves
laterais e nas galerias.
No século XVII, os grandes tetos de madeira imitam a pedra. Exemplo
magnífico é a abobada com caixotões, da igreja do colégio jesuíta de Salvador, hoje
a Catedral.
Algumas construções podem ser classificadas quanto ao formato e
localização das torres ou quanto à evolução dos frontões.
  
1. Frontão mais largo ou espaçado
Frontão mais largo ou espaçado era comum no século XVI.
A Igreja de Nossa Senhora da Graça (1580-1592) em Olinda, Pernambuco, foi
restaurada dentro dos padrões do século XVI. Apresenta nave única e fachada com
porta central e Frontão geométrico triangular.
2. Frontão mais alto e mais estreito
Em meados do século XVII, os frontões são altos e mais estreitos, enquanto
no final do século XVII, eles se simplificam e se tornam mais baixos.
3. Torre piramidal
A igreja apresenta uma nave central e duas laterais. A Fachada abriga  uma
porta central e duas laterais. As torres na lateral apresentam acabamento piramidal.

ARTES VISUAIS
30
A Igreja da Sé ou Igreja de São Salvador do Mundo (restaurada em 1584 e 1656)
Olinda, Pernambuco, é um exemplo de torres em formato piramidal.  

Aula 11_Igrejas no Brasil

Vimos, na última aula, mais algumas técnicas de construção empregadas na


arquitetura a partir do século XVII e exemplos de algumas igrejas classificadas por
torres, lanternins ou frontões. 
  
IGREJAS
Algumas construções foram iniciadas no século XVI ou XVII. Algumas igrejas
foram restauradas e mantiveram a planta e/ou fachada originais, outras receberam
inovações arquitetônicas. Outras, ainda,  foram construídas no século XVII e
terminaram as obras no século XVIII, sobretudo com relação à decoração no interior
das mesmas.
Outras vezes, as fachadas já acabadas recebiam decoração posterior. Fique
atento às características das torres e frontões.
  
1. Igreja do Convento de Santo Antônio do Carmo, Olinda, Pernambuco.
A Igreja do Convento de Santo Antônio do Carmo, de 1588, da Ordem dos
Carmelitas em Olinda, Pernambuco apresenta restauração e adição de elementos
no século XVII.
Fachada com uma porta central. Nicho superior central, ladeado por janelas.
Torres laterais com cobertura em forma de meia laranja. Frontão mais largo com
nervuras.
O Convento foi demolido no início do século passado. No 1º andar, está
instalado a Regional de Olinda do IPHAN · Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional.  
2 . Igreja do Mosteiro de São Bento, Rio de Janeiro.
A Igreja do Mosteiro de São Bento, do Rio de Janeiro (1617-1690) apresenta
a fachada composta por formas geométricas, com um frontão triangular, ladeada por

ARTES VISUAIS
31
duas torres em formato piramidal. A fachada de dois andares apresenta no piso
térreo, uma galilé[1] composta por três portais;  no piso superior, três janelas.   
3.  Catedral Basílica Primacial de São Salvador, Bahia.
A antiga igreja Jesuíta de Salvador, em alvenaria, foi inaugurada e
consagrada em 1572 e restaurada na segunda metade do século XVII. A
construção, iniciada em 1604, sobre o projeto original de frei Francisco Dias, foi
completada no final do século XVII. O atual edifício é o quarto construído no local,
hoje Catedral Basílica Primacial de São Salvador.
A fachada apresenta Frontão mais alto com volutas laterais e duas torres com
sineiras. Três portais são decorados com frontão quebrado e nichos com imagens
(os três santos jesuítas: Santo Inácio de Loyola, S. Francisco Xavier e S. Francisco
de Borja). As cinco janelas superiores também apresentam frontão quebrado.  
4. Igreja Nossa Senhora de Bonsucesso, Rio de Janeiro.
A Igreja Nossa Senhora de Bonsucesso, Rio de Janeiro, de 1582. Apresenta
Frontão mais alto e mais estreito, construído na 2ª metade do século XVII.  
  
SAIBA MAIS
É possível contar parte da história do nosso país por meio dos traços da
arquitetura.
Pesquise outras igrejas e veja se você consegue tecer comparações ou
identificar suas características. 
Sobre a arquitetura e a produção artística do século XVII em: ARTE NO
BRASIL, 1986, pp. 31-53.
  
Leia sobre as igrejas paulistas construídas no século XVII em:
TIRAPELLI, P. Igrejas Paulistas: Barroco e Rococó.  São Paulo: UNESP,
   
[1] Galilé ou nartex. Avançado do corpo principal, formando uma espécie de varanda
coberta, constituída por arcos que antecedem os portais, ou pelos próprios portais.

ARTES VISUAIS
32
Aula 12_Literatura e Arte na Colônia – Retábulos.

Nas aulas anteriores aprendemos a reconhecer algumas construções do


século XVII no Brasil.
  
LITERATURA E ARTE NA COLÔNIA DO SÉCULO XVII
No século XVII, além de textos dos religiosos e viajantes, destacou-se o poeta
Gregório de Matos (1633-1695). Perseguido na colônia por causa das sátiras que
escrevia contra as autoridades foi exilado em Angola e só voltou um ano antes de
sua morte. O poeta também escreveu temas de amor e religião.
Também se destacou na literatura o jesuíta padre Antonio Vieira (1608-1697),
que escreveu 207 sermões contidos em 15 livros, editados na Bahia.
No século XVII, a escultura permaneceu ligada à arquitetura religiosa. Os
franciscanos produziram inúmeras imagens de barro cozido durante os períodos de
1650 a 1680, encontradas nos conventos de Santo Antônio, do Rio de Janeiro,
Angra dos Reis, Santos, Itanhaém e Taubaté, entre outros.
Nas missões do Rio Grande do Sul, também foram encontradas muitas
imagens que, certamente, os jesuítas que ali estiveram, no século XVII, ensinaram a
produzir.  São obras diferenciadas por grupos e períodos distintos. Existem as
imagens trabalhadas pelos indígenas com inspiração de esquemas europeus e são
encontradas imagens totalmente executadas com o espírito aborígine.
 Três nomes se destacaram entre os artistas escultores beneditinos: freis
Agostinho da Piedade (nascido em Portugal no final do século XVI-1661), de
Salvador; Agostinho de Jesus e Domingos da Conceição e Silva, ambos do Rio de
Janeiro.
Frei Agostinho da Piedade, nascido em Portugal no final do século XVI e
falecido em 1661, em Salvador, executou todas as esculturas em barro cozido na
Bahia.
Frei Agostinho de Jesus foi o primeiro grande escultor brasileiro. Nascido no
Rio de Janeiro, no início do século XVII, faleceu em 1661. Durante a maior parte de
sua vida esculpiu em São Paulo, Santana de Parnaíba e Santos.

ARTES VISUAIS
33
 O frei, Domingos da Conceição e Silva, trabalhou durante quarenta e oito
anos no Mosteiro de São Bento no Rio de Janeiro, onde faleceu em 1718. Além das
imagens, Frei Domingos produziu grande parte da talha do mosteiro e executou o
retábulo e o revestimento da Capela-Mor, assim como, as grades e os balaústres.
  
RETÁBULOS
Uma primeira manifestação artística realmente nacional aparece
nos retábulos para as igrejas.  
Construído de talha na madeira ou pedra lavrada, guarnece a parede em que
se encosta um altar. Possui nichos e pranchas para imagens ou caixilhos para
quadros.
Com estrutura de colunas ornamentadas por flores e caneluras, ladeiam
painéis e nichos para estátuas e sustentavam uma espécie de frontão com um
painel pintado no centro.
Nas igrejas mais modestas do interior de São Paulo, os retábulos são
executados em madeira talhada e pintada provavelmente por artesãos indígenas. A
decoração é semelhante aos modelos portugueses, do estilo plateresco[1], trazidos
pelos jesuítas.
As pequenas e simples mesas ou armários, colocados ao fundo do altar,
utilizados em algumas igrejas da idade média e que tinham a única função de
sustentar os objetos sacros, foram aos poucos adquirindo uma importância maior. E
é a partir do renascimento Europeu que passam a ter uma atenção maior e assumir
um caráter não só utilitário, mas principalmente estético. Surgem, então,
os retábulos que, do renascimento ao neoclássico, irão se apresentar de diversas
formas. 
1. Capela de Santana, Ouro Preto, 1720.
Colunas torsas (ou retorcidas) profusamente ornamentadas com motivos
fitomorfos (folhas de acanto, cachos de uva, por exemplo) e zoomorfos (aves,
geralmente um pelicano); coroamento formado por arcos concêntricos; revestimento
em talha dourada e policromia em azul e vermelho.
2.  Matriz de Nossa Senhora do Pilar em Ouro Preto.

ARTES VISUAIS
34
Excesso de motivos ornamentais, com predominância de elementos
escultóricos; coroamento com sanefas e falsos cortinados com anjos; revestimento
com policromia em branco e dourado.
3.  Igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto.
Coroamento encimado por grande composição escultórica; elementos
ornamentais baseados no estilo rococó francês (conchas, laços, guirlandas e flores);
revestimento com fundos brancos e douramentos nas partes principais da
decoração. Sofre influência do estilo francês dominante na Europa a partir da
segunda metade do século XVIII. No Brasil, o rococó é uma das fases do barroco,
por ter se desenvolvido paralelamente à sobrevivência desse estilo.
  

SAIBA MAIS
Sobre a produção artística do século XVII em:
MARINO, João. Coleção de Arte Brasileira.  São Paulo, 1983, pp. 37-65.
  
Leia sobre os Retábulos coloniais e as esculturas em barro em:
TIRAPELLI, Percival. Igrejas Paulistas Barroco e Rococó. São Paulo: UNESP, 2003,
pp. 38-53 e 54-57.   
 [1] Plateresco - Mistura de elementos artísticos do mudéjar e do gótico, um estilo
decorativo espanhol e português, no renascimento.

ARTES VISUAIS
35
Aula 13_Os bandeirantes exploram o território

Nas aulas anteriores, aprendemos a reconhecer a arte produzida no Brasil


dos séculos XVI e XVII. Classificamos as igrejas no Nordeste e Rio de Janeiro e
suas características diferenciadas. Iniciamos aqui, uma nova etapa, com a História
do Brasil no século XVIII e a grande produção intelectual e artística do período. 
Depois de um curto período no século XVI, cultivando cana no litoral, os
vicentinos subiram a serra do Mar, fixando-se em São Paulo. Os habitantes do
planalto, muito pobres, desenvolveram uma agricultura de subsistência baseada no
trabalho indígena.
Durante o século XVII, numerosas expedições armadas iniciaram a conquista
do sertão atrás de índios para comercializarem e de ouro, prata e pedras preciosas
para se enriquecerem. Explorando o interior do continente, os bandeirantes
realizaram o maior sonho do governo português: encontraram ouro, quase no fim do
século, na região que hoje denominamos Minas Gerais.  

O SÉCULO XVIII NO BRASIL 


Com a descoberta do ouro, houve uma verdadeira corrida às regiões
mineradoras. Assim, foram fundadas as vilas de Caeté, Sabará, Vila Rica, Ribeirão
do Carmo e outras. Essas áreas se viram, de uma hora para outra, tomadas por
milhares de pessoas.
Entre as consequências da exploração do ouro, surgiram núcleos urbanos e
novos estilos de vida para os colonos, a elevação do Estado do Brasil à categoria de
vice-reino e a transferência da capital da colônia de Salvador para o Rio de Janeiro,
em 1763.
Parte do ouro que ficava na colônia foi utilizado no revestimento dos interiores
das igrejas, na confecção de objetos religiosos e para o enriquecimento e melhoria
de vida, principalmente dos que lidavam com o comércio minerador. A maior parte
do ouro, no entanto, foi para a Inglaterra como pagamento das dívidas da corte de
Portugal. Dessa forma, o ouro do Brasil financiou a Inglaterra e a transformou no

ARTES VISUAIS
36
maior produtor manufatureiro, contribuindo para o processo de industrialização
inglês em meados do século XVIII. 
A Revolução Industrial, a independência das colônias inglesas na América do
Norte e a Revolução Francesa são alguns dos acontecimentos que marcaram o
século XVIII, promovendo mudanças expressivas no cenário mundial e agitaram os
jovens intelectuais no Brasil. Durante o período colonial, o Brasil presenciou, em
diferentes regiões, revoltas contra o governo português e outras entre diferentes
grupos sociais.
 
Revolta de Beckman[1], Guerra dos Emboabas[2], Guerra dos Mascates[3],
Revolta de Vila Rica[4], Conjuração Mineira[5] e Conjuração Baiana[6] foram
conflitos em que prevaleceram interesses particulares, ficando à margem os
interesses dos grupos oprimidos, como escravos e índios.  
 
SAIBA MAIS
Sobre a História do Brasil em:
SILVA, F. de A. História do Brasil. São Paulo: Moderna, 1992.
 
Leia mais em:
FIGUEIRA, D. G. História. São Paulo: Ática, 2005.  
[1] Revolta de Beckman – Também conhecida como Revolta do Maranhão. 1684.
[2] Guerra dos Emboabas – Em 1709 os paulistas são mortos em uma emboscada
por emboabas (pessoas de outras regiões que chegavam a Minas à procura de
ouro)
[3] Guerra dos Mascates - Conflito entre os habitantes de Olinda e Recife. De 1710 a
1711.
[4] Revolta de Vila Rica - Insatisfação dos colonos em 1720. Execução de Felipe dos
Santos.
[5] Conjuração Mineira - Em 1789, revolta das camadas mais favorecidas, com
intelectuais e sociedade mineira. Execução de Joaquim José da Silva Xavier, o
Tiradentes em 1792.

ARTES VISUAIS
37
[6] Conjuração Baiana - Também conhecida por Revolta dos Alfaiates. 1798.
Execução de dois soldados e dois alfaiates.

ARTES VISUAIS
38
Aula 14_Século XVIII. Arte e Arquitetura – Bahia

Na aula anterior, retratamos o Brasil no século XVIII, com um pequeno


resumo histórico, a fim de nos orientarmos em relação à instalação da arte barroca.
A CULTURA NO SÉCULO XVIII
 
Com dinheiro sobrando, os filhos dos ricos colonos foram estudar na Europa.
De volta, a jovem elite trazia os ideais iluministas que agitavam a Europa no período.
Na música, como na literatura, encontrarmos indícios que revelam um leve e oculto
caráter de nacionalidade. Para os críticos mais ferozes, porém, o barroco brasileiro
em termos de música, principalmente, não teria passado de simples cópia
portuguesa, ou seja, uma reprodução do que era criado na Espanha e Itália, na
verdade. Acredita-se que a poesia brasileira tenha-se iniciado com os Árcades no
século XVIII, sendo os mais famosos os de Minas Gerais, pois se relacionaram ao
primeiro movimento de independência no Brasil, no fim do século XVIII. Esses
poetas, no entanto, ainda estavam muito presos aos cânones clássicos e
portugueses das Academias. 
ARQUITETURA DO SÉCULO XVIII NO BRASIL
Além da formação de grupos dinâmicos e intelectuais, a riqueza gerada pelo
ouro possibilitou a produção de um importante conjunto arquitetônico e artístico em
regiões que despontavam política e economicamente no período.
Vale lembrar que o Barroco, nas artes plásticas, chegou com atraso no Brasil
em relação à literatura e à música. Como consequência, quando se trata da
arquitetura, depara-se com um grande número de construções com estrutura
barroca e decoração rococó, um estilo que já se encontrava decadente na Europa
neoclássica, do final do século XVIII. 
BAHIA
Sede do governo, no início do século XVIII, a Bahia produziu uma arte
admirável, mantida ainda pelo comércio do açúcar. A cidade de Salvador, com sua
riqueza e arquitetura inspirada nos modelos Europeus, serviu de base para outras
cidades da Colônia.

ARTES VISUAIS
39
  
1.  Igreja e Convento de São Francisco
O complexo mais famoso de Salvador é constituído pela Igreja e Convento de
São Francisco. O complexo foi iniciado em 1686, com a construção do novo
convento sobre o antigo destruído pelos holandeses. Em 1708, iniciaram-se
as obras da igreja, sob o projeto de Gabriel Ribeiro.

O interior da igreja é formado por talha de madeira com todos os símbolos do


barroco; folhas de acanto, pelicanos, flores, anjinhos e sereias. As pinturas do
teto da nave principal apresentam forma de estrelas, hexágonos e octógonos.
2. Igreja Nossa Senhora da Conceição da Praia.
A construção da Igreja Nossa Senhora da Conceição da Praia foi iniciada em
1739, em pedra de cantaria, vindas de Portugal e numeradas. A obra só
terminou em 1820, após passar por três mestres de obra. Seu interior possui
uma das primeiras demonstrações do barroco de D. João V no Brasil,

ARTES VISUAIS
40
destacando-se a pintura do teto da nave, de autoria de José Joaquim da
Rocha (1737-1807), fundador da escola baiana de Pintura na segunda
metade do século XVIII.
3. Igreja de Nosso Senhor do Bonfim.
A construção da mais popular igreja baiana foi iniciada em 1754 e concluída
em 1772. A fachada é parcialmente coberta por azulejos brancos
portugueses, que chegaram à igreja cem anos depois da construção. A
fachada é rococó e o interior, que recebe pintura de anjos e nuvens, entre
1818 e 1820, já é no estilo neoclássico.
  
ESCULTORES E PINTORES NA BAHIA DO SÉCULO XVIII
Dos escultores que trabalharam para os Carmelitas, em meados do século
XVIII, temos os nomes de Francisco Chagas, codinome Cabra e Félix Pereira
Guimarães. Segundo Arte no Brasil, “o maior escultor baiano da época foi Manuel Inácio da
Costa que se manteve sempre fiel às formas Rococó.” (Arte no Brasil, 1986, pp.58)
Em relação à pintura, Antonio Simões Ribeiro desenvolveu a pintura sob o
conceito da perspectiva nos tetos das igrejas em Salvador, influenciando vários
artistas do seu tempo. Domingos da Costa Filgueira trabalhou, em meados do
século XVIII, nas igrejas de Nossa Senhora da Saúde e Glória e na Ordem Terceira
de São Francisco da Penitência em Salvador.
José Joaquim da Rocha, após decorar o teto da Igreja Nossa Senhora da
Conceição da Praia, ficou tão famoso que se fez necessário passar a pintura para
seus discípulos, após desenhar nos tetos das diversas igrejas baianas. O último
trabalho importante de José Joaquim foi a pintura e o douramento da sacristia da
Igreja do Pilar, construída em pedra lioz, na metade do século XVIII. Dos seus
discípulos destacaram-se José Teófilo de Jesus e Antonio Joaquim Franco Velasco.
  
SAIBA MAIS
Investigue as igrejas brasileiras construídas no século XVIII.
Classifique as diferenças existentes entre suas fachadas e interiores.
Compare e procure fazer um quadro cronológico apontando as diferenças e
semelhanças entre as igrejas brasileiras e as da Europa no mesmo período.
  

ARTES VISUAIS
41
Leia mais em:
ARTE NO BRASIL, 1986, pp. 58 a 62;
ARTE SACRA COLONIAL, 2005, pp.42 a 78.
  
Em relação à arte Barroca na Europa, leia em:
JANSON, H. W. História da Arte, 1992, pp. 503 a 521,
TRIADÓ, Juan-Ramón. A arte Barroca, 1991, pp. 03 a 29.
  
Ao final, você, além de surpreender-se, terá um lindo trabalho em mãos. Guarde-o,
pois ele será digno de uma pós-graduação. Anime-se.
 

ARTES VISUAIS
42
Aula 15_Nordeste – Arte e Arquitetura

Na aula anterior, demos uma passada pela arquitetura baiana e a arte


produzida nessa região no século XVIII. Anime-se em relação a tantos nomes de
igrejas, pois o que conta é você reconhecer o estilo das obras no período. 

NORDESTE
A economia nordestina decaiu no século XVIII, com a queda do comércio de
cana de açúcar. Com a implantação das companhias comerciais, Recife suplantou a
cidade de Olinda, transformando-se em florescente centro comercial, com aumento
da população e novas construções, após as reformas nos templos danificados e
saqueados no período das invasões holandesas. 
PERNAMBUCO
O estilo barroco, exibindo frontões decorados em voltas e contravoltas com
decoração rococó, já aparece em meados do século XVIII em Pernambuco.
1. Igreja Nossa Senhora do Carmo, Recife.
A Igreja Nossa Senhora do Carmo, terminada em 1767, em Recife, apresenta
a mistura do barroco com o rococó. A planta da igreja em forma de salão
caracteriza a maioria das construções em Pernambuco.

Ref. Imagem: Power Point. Igreja e convento de São Francisco. Gif. 480 x 360 pixels.
8 bits. 100 KB. MARTINI, Fátima R. Sans. 17 set. 2014.

ARTES VISUAIS
43
 
2. Igreja da Ordem Terceira de São Francisco do Convento de Santo
Antônio, Recife.
A Igreja da Ordem Terceira de São Francisco do Convento de Santo Antônio,
em Recife, Pernambuco, foi restaurada no século XVII.
A fachada e o pórtico com cinco arcos se destacam de outras construções.
O arquiteto Antonio Fernandes de Matos utilizou a forma de salão na Capela
da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco. A Capela é anexa ao
Convento de Santo Antônio, Recife, Pernambuco e foi inaugurada no século
XVII.
A decoração interna da Capela Dourada, como é conhecida, perdurou por
todo século XVIII e é um dos mais belos exemplos de revestimento de talha dourada
intercalada com painéis pintados, no estilo barroco.

No interior da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco do Convento de


Santo Antônio, de Recife, encontram-se as famosas paredes revestidas de
azulejos portugueses.

ARTES VISUAIS
44
A maioria dos azulejos do século XVIII encontrados nos interiores das igrejas
é apresentada em tons monocromáticos de azul cobalto sob fundo branco, na
forma figurativa ou historiada, segundo Olympio Pinheiro em Arte Sacra
Colonial, “construindo um discurso icônico, uma cenografia teatral de
sedução” com cenas “bíblicas, morais, clássicas, de paisagens, e costumes
locais, exóticos ou europeus.” (ARTE SACRA COLONIAL, 2005, pp. 139). 

PARAÍBA

1. Convento franciscano de Santo Antônio, João Pessoa.


A Igreja de São Francisco começou a ser construída em 1589, a partir de um
pequeno convento de taipa. Apenas em 1602, foi erguida uma construção em
pedra. 
 No século XVII, serviu de residência durante a invasão holandesa. Após o
domínio holandês, iniciou-se a restauração do complexo.
O final da restauração do Convento franciscano de Santo Antônio se deu
somente no século XVIII.  A fachada e o pórtico com cinco arcos se destacam
de outras construções.
A Igreja de São Francisco e o Convento de Santo Antônio, em João Pessoa,
são interligados e no seu interior se encontram talhas em madeira recoberta
de ouro, painéis de azulejos portugueses, cantarias e pinturas.
 
ESCULTORES, ENTALHADORES E SANTEIROS:
Figuram poucos nomes dos trabalhadores contratados para a decoração
interna das igrejas no Nordeste. Entre eles, aparecem os nomes do pintor e escultor
Antonio Spangler Aranha; e o mestre entalhador e escultor João Pereira.
A pintura pernambucana é influenciada pela arte flamenga e espanhola cuja
produção se restringe ao anonimato.
João de Deus Sepúlveda é um dos raros nomes reconhecidos. Sua obra,
mais antiga, é mal conservada e a série sobre a vida de Santa Teresa está na Igreja
de Santa Teresa da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, no Recife.
Sepúlveda pintou também em Recife, o forro da Igreja de Nossa Senhora da
Conceição dos Militares; e o teto da Igreja de São Pedro dos Clérigos , considerada

ARTES VISUAIS
45
a obra prima de toda a pintura colonial pernambucana. A obra, do século XVIII,
mostra São Pedro abençoando o Mundo Católico.  
Na segunda metade do século aparecem os nomes dos pintores Francisco
Bezerra, Manuel de Jesus Pinto e José Elói, entre outros. 

ARTES VISUAIS
46
Aula 16_Rio de Janeiro – Arte e Arquitetura

Vimos, nas últimas aulas, a Arte e a Arquitetura do Nordeste brasileiro.


Observamos alguns nomes de artistas escultores e pintores que trabalharam na
decoração das mais importantes igrejas do século XVIII na mesma região.
 
RIO DE JANEIRO NO SÉCULO XVIII
Após a descoberta do ouro em Minas Gerais, a cidade do Rio de Janeiro
transformou-se no mais importante centro de intercâmbio comercial.
A partir de 1735, foi aperfeiçoado o sistema defensivo da cidade para manter
os piratas distantes e escoar as riquezas. Em 1738, chegou à cidade, o professor de
engenharia militar José Fernandes Pinto ALPOIM (1700-1765), responsável pela
construção de várias obras de utilidade pública, residências e obras para os
franciscanos. O engenheiro permaneceu em Minas Gerais, um tempo, voltando para
construir mais obras famosas no Rio. Entre os diversos projetos de construção de
Alpoim, encontram-se o Convento de Santa Teresa, a fachada interna do claustro de
São Bento, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Boa Morte e o
aprimoramento do Aqueduto da Carioca.
Outro engenheiro militar, de nome José Cardoso Ramalho, foi responsável
também pela arquitetura civil e religiosa do Rio de Janeiro, no início do século XVIII,
introduzindo a planta poligonal de solução barroca.
Na segunda metade do século XVIII, a maioria das igrejas do Rio de Janeiro
apresentava a planta poligonal ou nave retangular com corredores laterais.
Entre as igrejas de planta retangular, destacam-se a Igreja da Ordem Terceira
de Nossa Senhora do Carmo e a Igreja de São Francisco de Paula.
A Igreja de Nossa Senhora da Candelária, projetada por Francisco João
RÓSCIO (1733-1805), em 1775, destaca-se por apresentar uma planta em cruz
latina, decoração e aplicações de mármore inspiradas nos projetos italianos. O
projeto foi ampliado até o século XIX, recebendo detalhes do período neoclássico. 
 
1.  Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência

ARTES VISUAIS
47
A Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, no Rio de
Janeiro, foi construída, com interrupções, entre 1653 e 1773. A construção localiza-
se ao lado da Igreja e Convento de Santo Antônio.
Na fachada, encontram-se quatro pilastras com pináculos de cantaria, ligados
por simples cimalha[1].  A fachada apresenta seis janelas e três portas. Frontão com
óculo central e portal trabalhado no estilo barroco em pedra lioz trazida de Portugal.

O interior, revestido de talha dourada, recebeu decoração de dois nomes


importantes na escultura: Manuel de Brito e Francisco Xavier de Brito.
Manuel de Brito chegou ao Brasil em 1726 e iniciou os trabalhos no retábulo
para a Capela-mór da igreja. Em 1735, Francisco Xavier de Brito foi contratado para
a execução da talha e os dois trabalharam juntos a partir de 1738 até meados do
século XVIII. O arco triunfal da abside é de autoria de Francisco Xavier de Brito, sob
projeto de Manuel de Brito.

Fig. 11: Interior da Igreja Ordem Terceira. RJ.


Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência.
Ref. Imagem: Power Point. Interior da Igreja da Ordem Terceira.  RJ. Gif. 480 x 360 pixels.  8

bits. 165 KB. MARTINI, Fátima R. Sans. 19 set. 2014.    

ARTES VISUAIS
48
A ESCULTURA NO RIO DE JANEIRO
Na escultura, além dos nomes de Manuel de Brito e Francisco Xavier de Brito,
o nome de Valentim da Fonseca e Silva, chamado de MESTRE VALENTIM (c. 1745-
1813) é um dos mais conceituados, depois de Aleijadinho, em Minas Gerais.
Valentim pertenceu à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e trabalhou
sempre no Rio de Janeiro. Suas maiores obras encontram-se na Capela e na Igreja
Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, no Mosteiro de São Bento. O artista
também executou algumas obras para os projetos urbanísticos.  
A PINTURA NO RIO DE JANEIRO
Os representantes da pintura no Rio de Janeiro receberam o nome de Escola
Fluminense de Pintura.
Caetano da Costa Coelho, de origem portuguesa é um dos maiores nomes.
Em 1730, o artista firma contrato com a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco
da Penitência e inicia o douramento dos entalhes e painéis e a pintura do teto da
nave.
Caetano da Costa Coelho foi um dos primeiros artistas, no  Brasil, a pintar os
tetos em perspectiva, muito divulgados na Itália a partir do século XVII.
José de Oliveira Rosa, chefe da Escola Fluminense, pintou cenas sagradas,
alegorias e retratos. Trabalhou para o Convento de Santa Teresa e para o Mosteiro
de São Bento.
João Francisco Muzzi, discípulo de José de Oliveira Rosa, distinguiu-se como
cenógrafo da Casa de Ópera e do Teatro de Manuel Luis e deixou documentos
artísticos e históricos que revelam a moda e mobiliário do final do século XVIII, no
Rio de Janeiro.
Manuel Dias de Oliveira, chamado de brasiliense, foi nomeado regente da
Aula Pública de Desenho e Figura no Rio de Janeiro. São de sua autoria vários
painéis sacros para as igrejas.
José Leandro de Carvalho e Francisco Pedro do Amaral são os dois últimos
nomes da Escola Fluminense de Pintura. Francisco Pedro do Amaral foi considerado
o último dos pintores com tradição colonial e José Leandro de Carvalho foi retratista
oficial da família real.   
[1] Cimalha – O mesmo que arquitrave.

ARTES VISUAIS
49
Aula 17_São Paulo – O sul do Brasil

Vimos, na última aula, a Arte e Arquitetura na região do Rio de Janeiro, no


século XVIII.
 
 
SÃO PAULO NO SÉCULO XVIII
São Paulo passava por um período de estagnação quando as primeiras vilas
mineiras se formaram. O isolamento do litoral e a pobreza geraram uma criação
artística diferente das outras cidades no mesmo período. A arquitetura paulista girou
ao redor dos estabelecimentos agrícolas. As construções das casas em terrenos
inclinados passaram a ser assobradadas com entradas em dois níveis, no sistema
de taipa de mão e pau a pique com muros de pedra.
No litoral, o desenvolvimento proveniente da cana de açúcar, em meados do
século XVIII, gerou a construção de engenhos entre a Serra do Mar, entre eles,
o Engenho D’Água ou Engenho São Matias em São Sebastião. As construções
serviam como habitação e como local de trabalho.
Das poucas construções do período, “destacam-se o conjunto formado pela
igreja e o convento da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência e a igreja e
convento de Nossa Senhora da Luz.” (PROENÇA, 2005, p. 202)
 
A PINTURA PAULISTA
Atuando em São Paulo em fins do século XVIII, encontramos o pintor,
dourador e restaurador José Patrício da Silva Manso. O artista atuou em São Paulo
entre 1770 e 1780, pintando o teto da Capela-mór da nova igreja doMosteiro dos
Beneditinos.
Trabalhou em Itu, na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Candelária  e no teto
da Capela mór[1] da Ordem Terceira do Carmo.
Retornando em 1784, para São Paulo, executou a decoração do teto e pintou
alguns quadros para Igreja daOrdem Terceira de São Francisco, a Ordem Terceira
do Carmo e a Igreja da Ordem Terceira das Chagas do Seráfico Pai São
Francisco até 1793.

ARTES VISUAIS
50
Outro pintor reconhecido que atuou na Igreja da Ordem Terceira do Carmo,
em Itu, foi Jesuíno Francisco de Paula Gusmão, nascido em Santos, em 1764, mais
conhecido como Jesuíno de Monte Carmelo.
Jesuíno do Monte Carmelo foi discípulo de José Patrício da Silva Manso e
atuaram quase em todas as mesmas igrejas.
 
OS RETÁBULOS NAS IGREJAS PAULISTAS
 
Os retábulos executados no século XVIII nas igrejas paulistas são exemplares
da decoração barroca e rococó, em uma combinação de elementos arquitetônicos
executados em madeira dourada e policromada. A
“Igreja de Nossa Senhora do Rosário, do Embu, abriga preciosos conjunto
de talha, no qual se destaca uma mescla entre as formas dos modelos
eruditos e as interpretações com sabor popular.” (ARTE SACRA
COLONIAL, 2005, p. 73-74)
  
O SUL DO BRASIL
Pelo interior do sul do país, seguiram os jesuítas em trabalho de catequese. A
zona de colonização foi chamada de Missões. Estabelecidos nas terras de ninguém,
os jesuítas puderam realizar um trabalho de integração com os guaranis, durante
aproximadamente 140 anos.
Os primeiros povos ou povos originais da região do atual estado do Rio
Grande do Sul já estavam aculturados, em boa parte, especialmente devido ao
estabelecimento dessas missões jesuíticas. 
Em 1753, porém, os bandeirantes, unidos às forças espanholas, atacaram
essas regiões. Finalmente, em 1759 os jesuítas foram expulsos, sendo impossível
qualquer tentativa de reconstrução da cultura original das Missões.
Tropeiros paulistas e mineiros, reforçados com a chegada de casais
açorianos, estabeleceram o domínio português na região.
As pessoas escravizadas de origem africana começaram a ser levadas em
maior número ao estado do Rio Grande do Sul, a partir do final do século XVIII, com
o desenvolvimento das charqueadas, e chegaram a representar metade da
população rio-grandense em 1822.

ARTES VISUAIS
51
Os espanhóis introduziram a criação de gado que, rapidamente, tornou-se a
economia predominante no Rio Grande do Sul. Espanhóis, portugueses e indígenas
deram origem ao tipo regional gaúcho, com uma fusão de costumes. 
  
SAIBA MAIS
Sobre a pintura e a talha dourada colonial paulista em:
ARTE SACRA COLONIAL, 2005, pp. 60 a 78 e 90 a 117.

[1] Capela mór – O mesmo que abside, localizado para dentro da igreja.

ARTES VISUAIS
52
Aula 18_Minas Gerais – Arte e Arquitetura

Observamos, nas aulas anteriores, a Arte e a Arquitetura das regiões do


Nordeste, Sul, Rio de Janeiro e São Paulo. 
 
MINAS GERAIS NO SÉCULO XVIII
No início da formação das vilas mineiras, os construtores utilizaram a mão de
obra mameluca, mulata e negra disponíveis no local.
Os padres mineiros não pertenciam às ordens religiosas e conventos, a
imprensa era proibida e a indústria não existia. Estruturada assim, de modo diverso
das outras regiões, a sociedade de Minas Gerais se subdividiu em brancos, pardos e
negros escravos e em irmandades religiosas ou confrarias. Essas irmandades
lutavam entre si e impulsionaram a Arquitetura, procurando, na ostentação, o poder
e prestígio.
 
Nas moradias foi aplicada a técnica de estruturas autônomas de madeira
preenchidas pela taipa de mão. Pouco a pouco surgiram as construções de pedra,
iniciando pelas casas mais modestas e capelas mais humildes. Com ângulos retos,
paredes brancas, apresentavam molduras nas portas e janelas na cor azul, graças
ao anil de certas plantas das redondezas. 
Mais tarde, foram construídas grandes igrejas de taipa e de pedra. Os
acabamentos evidenciavam as origens culturais. As construções, levantadas pelos
mamelucos, por exemplo, que trabalhavam com os carpinteiros do Reino, peritos em
cortar pedras, apresentava um exterior muito simples.
Apesar do exterior simples, o interior das igrejas apresentava uma decoração
muito rica. Os retábulos compunham-se de colunas torsas, ou retorcidas
profusamente, ornamentadas com motivos fitomorfos, como folhas de acanto e
cachos de uva, por exemplo e  com motivos zoomorfos.
A partir de 1760, os retábulos internos passam a ser executados somente
com elementos do rococó francês: conchas, laços, guirlandas e flores; revestimento
com fundos brancos e douramentos nas partes principais da decoração. 

ARTES VISUAIS
53
Em meados do século, as alvenarias de pedra dura, chamada de
canga[1]foram aperfeiçoadas e as paredes puderam ser mais altas, delgadas e
curvadas à vontade.
As construções possuíam fachadas com soluções decorativas as mais
diversas. Em um processo demorado e difícil, escultores e construtores conseguiram
dar uniformidade plástica aos espaços, tetos e paredes.
“Os vilarejos cresceram muito. Vila Rica, Mariana, Sabará, Congonhas do
Campo, São João del Rei, Caeté, Catas Altas começaram a desenvolver-se
e construir seus primeiros edifícios importantes.” (PROENÇA, 2005, p. 204)
 
O Barroco português influenciou toda arquitetura mineira, no entanto, através
dos artistas e construtores da própria região, as construções foram adquirindo
características próprias.  
1. Igreja de Nossa Senhora do Pilar, Ouro Preto. 
Remodelada em 1736 pelo português Francisco Antônio Pombal, o interior
da Igreja de Nossa Senhora do Pilar, foge às paredes planas e apresenta retábulo
joanino, de autoria de Francisco Xavier de Brito.
O interior antigo foi revestido com um excesso de motivos ornamentais, em
que predominam os elementos escultóricos.
A partir de 1760, os retábulos internos passam a ser executados somente
com elementos do rococó francês: conchas, laços, guirlandas e flores; revestimento
com fundos brancos e douramentos nas partes principais da decoração.  
2. Igreja de São Francisco de Assis, Ouro Preto. 
Construída em 1765, a Igreja de São Francisco de Assis  foi planejada,
esculpida, talhada e ornamentada por Antônio Francisco Lisboa, o ALEIJADINHO (c.
1730-1814). É considerada a obra-prima do período rococó brasileiro.
As pinturas no teto são de autoria de Manuel da Costa Ataíde (1762-1830)  
3. Igreja de Santa Efigênia, Ouro Preto.
A construção da Igreja de Santa Efigênia, em Ouro Preto, é datada de 1733 a
1785. A Capela mór recebeu talha de Francisco Xavier de Brito e a construção
recebeu a supervisão técnica de Manuel Francisco Lisboa.
  
4.  Igreja Nossa Senhora do Rosário, Mariana.

ARTES VISUAIS
54
A Igreja Nossa Senhora do Rosário  substituiu a primitiva capela datada de
1709.
O projeto da igreja atribuído a Antônio Pereira de Souza Calheiros é
composto por duas grandes elipses que se juntam para formar a nave e a abside. O
risco do frontispício e da empena é atribuído a Manuel Francisco de Araújo. 

[1] Minério de ferro contido na pedra mineira.

ARTES VISUAIS
55
Aula 19_Antônio Francisco Lisboa

Vimos, na última aula, o início das construções mineiras com a chegada dos
bandeirantes e o impulso da região graças às minas de pedras e metais preciosos.
Observamos, também, a Arquitetura religiosa de Minas Gerais no século XVIII, no
estilo barroco e rococó.
  
O ARTISTA ANTÔNIO FRANCISCO LISBOA
Escultor, entalhador, desenhista, projetista e construtor. Com um estilo entre o
Barroco e o Rococó, Antônio Francisco de Lisboa (c. 1730-1814), conhecido por
ALEIJADINHO, é considerado o maior artista brasileiro do final do século XVIII e
início do século XIX
Antônio Francisco Lisboa nasceu em Ouro Preto por volta de 1738. Filho do
arquiteto português Manoel Francisco Lisboa e de uma negra, escrava de sua
propriedade, chamada Isabel. De personalidade forte e perseverante, teve noções
de música e latim, aprendeu a ler, escrever, e estudou desenho e arquitetura com os
mestres da época. Em 1812, ficou totalmente paralítico e morreu pobre em 1814.
Seu corpo foi enterrado no interior da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição.
A cidade de Minas Gerais decaía, abarrotada de padres, procissões, cruzes,
festas, tradição. À noitinha, o povo mineiro meditava, passeando pelas ruas mal
iluminadas. 
Aceito como artista de valor, Antônio Francisco Lisboa, segundo Mário de
Andrade, quase não foi reconhecido em seu tempo e esquecido no século passado.
Os que o descobrem tem a tendência a deformá-lo ou a não compreender sua obra,
chamando-o muitas vezes de primitivo, o qual pode significar iniciador de novas
ideias, perturbado ou próximo à feiura.
  
Afirmamos a genialidade do Aleijadinho, mas esbarramos logo com o
conceito de genialidade que nos veio da Europa. [...] Conceda-se ao gênio o
direito de errar, em vez de nos aplicarmos a essa falsificação européia da
genialidade que busca reverter feiuras em subtilezas do belo. [...] Pelo
contrário, o Aleijadinho ainda está sem uma exegese completa. E os

ARTES VISUAIS
56
estrangeiros que nos visitaram, no geral se esqueceram dele, o que inda

mais assusta a nossa timidez. (ANDRADE, 1965, p. 28-30)  

O que os brasileiros conhecem desse artista mineiro é que esculpia com


mãos deformadas e que ajudou na construção de algumas igrejas e é nelas que
aparecem as contradições entre a arte conservadora lusitana e os processos de
uma solução pessoal.
O tipo de igrejas como São Francisco, de Ouro Preto, e São João D’el-Rei,
não corresponde apenas ao gosto do tempo, “como já se distingue das soluções
barrocas luso-coloniais, por uma tal ou qual denguice, por uma graça mais sensual e
encantadora, por uma ‘delicadeza’ tão suave, eminentemente brasileiras”.
(ANDRADE, 1965, p. 34) 
Sobre a individualidade de ALEIJADINHO deve-se determinar e constatar sua
obra e as diversas fases relacionadas à sua doença. Madeira e pedra foram tratadas
de maneiras diferentes, numa variedade assombrosa. E, na escultura, segundo
Mário de Andrade, “é toda uma história da arte. Bizantino, gótico, renascente,
frequentemente expressionista” e continua “o único que se poderá dizer nacional,
pela originalidade das suas soluções. Era já um produto da terra, e do homem
vivendo nela.” (ANDRADE, 1965, p. 44) 
Acredito que esse texto, com as citações maravilhosamente redigidas por
Mário de Andrade, deu uma mostra dos preconceitos que os nossos artistas
sofreram ao longo do tempo, principalmente em termos de características raciais.
Finalizo com mais um pouquinho de Mário de Andrade sobre o artista Aleijadinho.
Mas abrasileirando a coisa lusa, lhe dando graça, delicadeza e dengue na
arquitetura, por outro lado, mestiço, ele vagava no mundo. Ele reinventava o
mundo. [...] Evoca os primitivos itálicos, bosqueja a Renascença, se afunda no
gótico, quase francês por vezes, muito germânico quase sempre, espanhol no
realismo místico.  É um mestiço, mais que um nacional. ... E só é o Aleijadinho na
riqueza [...] de suas idiossincrasias.  E nisto em principal é que ele profetizava
americanamente o Brasil. (ANDRADE, 1965, p. 46) 

A ARTE DE ANTÔNIO FRANCISCO LISBOA


Apesar dos preconceitos em relação aos artistas e aos mestiços,
principalmente, o Aleijadinho obteve celebridade ainda em vida. O artista era
solicitado e disputado por Ordens religiosas e municípios mineiros.

ARTES VISUAIS
57
Antônio Francisco Lisboa efetuou riscos, projetos, esculturas,talhas e/ou
detalhamento de muitas das igrejas levantadas no período. Entre as obras
destacam-se:
 
1. Em Ouro Preto
Igreja de São Francisco de Assis e Igreja de Nossa Senhora da Conceição de
Antônio Dias.
Nos anos de 1769 a 1771, o artista trabalhou nas esculturas em pedra-sabão
da fachada e na porta daIgreja da Ordem Terceira do Carmo.
Entre 1771 e 1794 realizou a decoração das Igrejas, Nossa Senhora das
Mercês e Perdões e Nossa Senhora do Pilar.
2. Em Congonhas
Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição. Construída em meados do
século XVIII, apresenta fachada com duas torres laterais ligadas ao corpo
central. O portal recebe pedra sabão esculpida com volutas. 
Os Doze Profetas em pedra sabão no adro da Matriz de Bom Jesus de
Matosinhos.
3. Em Sabará
Igreja de Nossa Senhora do Carmo. A igreja possui características do Barroco
e Rococó. Construída a partir da década de Sessenta do século XVIII. As
imagens dos irmãos carmelitas, os dois púlpitos, o portal e frontão em volutas
e querubins em pedra sabão, e o conjunto do coro são obras do Mestre
Aleijadinho.
4.  Em Caeté
Igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso. A igreja é uma das primeiras
construídas em Minas Gerais no estilo barroco e decoração Rococó. Antônio
Francisco Lisboa participou da construção e da decoração como aprendiz.
5. Em São João del-Rei
Antônio Francisco Lisboa é o autor do risco do portal da Igreja de São
Francisco de Assis.
6. Em Tiradentes

ARTES VISUAIS
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Igreja Matriz de Santo Antônio. A fachada e o portal da igreja foram
desenhados por Antônio Francisco Lisboa, no início do século XIX.

ARTES VISUAIS
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Aula 20_A Pintura mineira

Observamos a obra do artista mineiro Antônio Francisco Lisboa, mais


conhecido pelo nome de Aleijadinho. Uma obra de influências múltiplas, produzida
por um grande artista, de caráter regional, formado em Minas Gerais.
Com uma defasagem de quase quarenta anos em relação à arquitetura e à
escultura, a pintura mineira sobressai com vários nomes expressivos.
 
A PINTURA MINEIRA NO SÉCULO XVIII
A pintura mineira atingiu uma grande força na cobertura dos tetos religiosos,
com diversos exemplos espalhados por várias cidades.
Na década de Sessenta do século XVIII, podemos citar as pinturas de Manuel
Rebelo e Souza e José Soares de Araújo. Na década de 70, Manuel Antônio da
Fonseca e Silvestre de Almeida Lopes se destacam.
No final do século XVIII, desponta os nomes dos pintores mineiros, Bernardo
Pires da Silva, João Nepomuceno Correia e Castro; Manuel Ribeiro da Rosa,
Antônio Martins da Silveira, João Batista de Figueiredo e Manuel da Costa ATAÍDE
(batizado em 1762-1830), os quais se destacam por pinturas no teto das principais
igrejas das cidades de Minas Gerais.
 1. Manuel da Costa Ataíde
Manuel da Costa ATAÍDE nasceu em Mariana. Filho do militar Luís da Costa
Ataíde e de Maria Barbosa de Abreu. Começou a pintar por volta do ano de 1781,
ano em que há registro de seu primeiro trabalho: a pintura de imagens para o
santuário de Bom Jesus dos Matozinhos, em Congonhas do Campo.
Foi o único pintor mineiro do período a receber destaque. Fiel à temática
religiosa, seus santos, anjos e demais personagens tinham como principal
característica os inconfundíveis traços mestiços, bem brasileiros. O artista buscava
inspiração na Bíblia, nos missais e nos livros que chegavam da Europa,
evidenciando a transição para o estilo Rococó.

ARTES VISUAIS
60
Muitos dos trabalhos de Ataíde foram executados paralelamente às obras do
Mestre Aleijadinho, como por exemplo, o painel que decora o teto da nave (parte
central mais alta da igreja) da Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto.
No teto da nave da igreja, Ataíde representa a Assunção de Nossa Senhora,
com anjinhos mulatos substituindo os rosados querubins dos modelos tradicionais
europeus. A Virgem Maria, também mulata, exibe os traços da mulher que era
companheira do pintor, Maria do Carmo.

 Fig. 12: Assunção de Nossa Senhora.


ATAIDE, Manuel da Costa (batizado em 1762-1830) Assunção de Nossa Senhora, início do século
XIX. Pintura no teto da Igreja São Francisco de Assis em Ouro Preto. 
Ref. Imagem: Power Point. Interior da Igreja da Ordem Terceira. RJ. Gif. 480 x 360 pixels.  8 bits. 142
KB. MARTINI, Fátima R. Sans. 19 set. 2014.  
  

Outra obra notável de Ataíde é a pintura do teto da nave da Igreja do


Santuário do Bom Jesus de Matozinhos, em Congonhas do Campo, onde estão os
Doze Profetas de Aleijadinho. No teto azul voam e se entrelaçam anjos mestiços,
sem dúvida, brasileirinhos. 
ARTESANATO E MOBILIÁRIO BRASILEIRO NO SÉCULO XVIII

ARTES VISUAIS
61
A ourivesaria brasileira no século XVIII, mais precisamente das regiões de
Minas, Bahia e Rio de Janeiro, foi confeccionada com uma grande dose de
ingenuidade, despojamento e criatividade. O estilo sóbrio inicial transformou-se nos
ricos ornamentos do estilo rococó, com folhas de acanto, conchas e volutas.
O número de ourives fiscalizados em rédeas curtas pela Coroa era muito
grande em fins do século XVIII. Apesar do controle severo e dos impostos altos, uma
imensa produção de ornamentos em ouro e prata saía das principais cidades.
Somente a partir de 1815, os ourives puderam trabalhar em paz.
O revestimento arquitetônico à base de azulejos floresceu no século XVIII,
predominando a policromia no azul e branco, representando vidas de santos, temas
marítimos, paisagens, cenas pastoris, quase sempre com molduras barrocas. Os
azulejos ficaram tão famosos que passaram a decorar as fachadas e fazer parte das
construções civis. 
A imaginária no século XVIII torna-se vulgar com uma comercialização
intensa. O mobiliário se define pelos três estilos segundo os monarcas dos períodos.

D. João V, de 1706 a 1750, com um estilo fortemente influenciado por Portugal


D. José, de 1750 a 1777, com um estilo rococó francês.
Dona Maria I, de 1777 a 1792, com um estilo mais simples e sóbrio.
 

ARTES VISUAIS
62
Aula 21_O início do século XIX no Brasil

Na unidade anterior, observamos os conceitos estéticos ligados à arte


brasileira no século XVIII, assim como as obras e os artistas que se classificaram
nessa época. 
  
O INÍCIO DO SÉCULO XIX NO BRASIL
Em 1808, chegou ao Brasil a Corte portuguesa fugindo das tropas francesas
de Napoleão. Com sua chegada, os portos foram abertos às nações amigas, entre
elas, a Inglaterra. Até 1814, os ingleses tiveram exclusividade sobre o comercio
brasileiro, provocando a queda de preço na entrada dos produtos industrializados,
mas limitando as possibilidades de crescimento industrial, restringido a duas fábricas
de ferro em São Paulo e Minas Gerais.
A família real trouxe uma corte parasitária, prepotente e exigente frente aos
habitantes do Rio de Janeiro, transformada em capital do reino português.
Apesar de algumas instituições serem criadas a maioria só serviu de cabide
de emprego. Os costumes se alteraram e a aristocracia rural passou para a cidade
em busca de palacetes e bens importados.
A nova realidade imposta gerou um protesto armado em Recife, em 1817. A
Revolução Pernambucana sentiu a violência armada e a repressão portuguesa,
quando os líderes foram sumariamente executados.
Em 1821, as Cortes portuguesas exigiram o retorno de D. João a Portugal,
permanecendo no Brasil seu filho D. Pedro. A seguir, subordinaram todas as
províncias ao comando direto de Portugal esquecendo-se  da cidade do Rio de
Janeiro, fecharam órgãos públicos, favoreceram os comerciantes portugueses e
tentaram recolonizar o Brasil.
As abastadas camadas sociais urbanas e rurais se uniram para envolver D.
Pedro para que o mesmo realizasse a emancipação definitiva, mantendo o povo à
margem do processo. Em 1822, o príncipe regente aceitou ficar no Brasil,
destacando um ministério tendo à frente José Bonifácio.

ARTES VISUAIS
63
Em sete de setembro de 1822, a independência do Brasil se oficializou sob a
velha estrutura conservadora e escravista dependente dos mercados externos, bem
ao gosto da aristocracia. Os choques políticos entre a elite e o imperador marcaram
o Primeiro Reinado resultando na abdicação de D. Pedro I em 1831, consolidando
uma vez mais o poder dos grandes proprietários de terra.
O período Regencial, de 1831 a 1840, foi marcado por lutas e reivindicações
das camadas inferiores urbanas e rurais.[1]
Em 1840, os líderes no governo se uniram em favor da maioridade do menino
Pedro de Alcântara, restaurando o reinado, mantendo a monarquia e abandonando
os princípios liberais. Assim se iniciava o Segundo Reinado.
            
LITERATURA BRASILEIRA NO INÍCIO DO SÉCULO XIX
Os conceitos românticos portugueses foram introduzidos no Brasil durante a
Regência, com a publicação de Suspiros poéticos e saudades de Gonçalves de
Magalhães, publicado na França, em 1836.
O Romantismo brasileiro divide-se em geração indianista, com Gonçalves de
Magalhães e Gonçalves Dias; geração mal do século, com Álvares de Azevedo,
Casimiro de Abreu, Junqueira Freire e Fagundes Varela; e geração condoreira, com
Castro Alves e Sousândrade.
Os principais romances românticos foram publicados por Joaquim Manuel de
Macedo, Manuel Antônio de Almeida e José de Alencar.
  
SAIBA MAIS
Pesquise sobre a literatura brasileira, pois muito da nossa marca nacional
teve início com a arte voltada para a linguagem escrita. É certo que estou me
referindo à arte que se iniciou a partir da colonização. Ao pesquisar você irá
encontrar as crônicas de viagem e poemas narrativos com traços puramente
europeus.
Perceberá, também, que a segunda geração romântica construiu um perfil de
herói nacional representado pelo índio. O perfil de herói romântico não se aproxima
dos heróis atuais.

ARTES VISUAIS
64
Esse perfil ainda se baseava em padrões europeus da época, mas já
anunciava a necessidade de pontuar os feitos genuinamente brasileiros. Faça uma
pesquisa prazerosa para enriquecimento pessoal. Vale a pena descobrir tais
características.
 
[1] Cabanagem, no Grão Pará, de 1835 a 1839; Sabinada, em Salvador, de 1837 a
1838; Balaiada, no Maranhão e Piauí; e a Guerra dos Farrapos, no Rio Grande do
Sul, de 1835 a 1845.

ARTES VISUAIS
65
Aula 22_A Missão francesa. O Neoclassicismo

Na aula anterior,observamos um resumo a respeito da chegada da Corte


portuguesa ao Brasil, o Primeiro Reinado e a posse de D. Pedro II. Vimos também
uma sinopse da literatura romântica brasileira no início do século XIX.
ARTE NO INÍCIO DO SÉCULO XIX NO BRASIL
A situação política e econômica colonial de feição agrária foi a base que
condicionou e limitou a criação artística no Brasil.  O Iluminismo e as descobertas
arqueológicas na Itália no final do século XVIII já haviam modificado o gosto e a arte
do europeu. Contudo, no Brasil, a infiltração das novas ideias clássicas demorou um
pouco. Com a chegada da Corte portuguesa em 1808, alguns dos elementos do
classicismo expandiram-se ao gosto do próprio regente. A classe média era pouco
numerosa e a elite se resumia às cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, onde a
imigração portuguesa se expandiu. A pintura de temas literários, históricos e
alegorias militares correspondiam ao gosto dos círculos oficiais e da elite. O regente,
embora não fosse culto, estimulou a criação de museus, bibliotecas e escolas.
Professores, cientistas e artistas vieram participar da formação de escolas.
A vinda de artistas e artífices, exilados bonapartistas, para o Brasil acelerou
as transformações nos níveis artísticos.  
A MISSÃO OU COLÔNIA DE JOAQUIM LEBRETON (1760-1819),
Antigo secretário da classe de Belas Artes na França, Lebreton trouxe um
sistema de ensino em academia, onde o ensino de belas-artes se funde aos ofícios.
Com ele chegou à baía da Guanabara, Nicolas-Antoine TAUNAY (1755-
1830), pintor de gênero e de batalhas; Jean Baptiste DEBRET (1768-1848), pintor
de História; o arquiteto Auguste-Henri Victor GRANDJEAN DE MONTIGNY (1776-
1850); o escultor Auguste-Marie TAUNAY (1768-1824); mecânicos, serralheiros,
ferreiros, carpinteiros e comerciantes.
Em novembro de 1820, a Academia e Escola Real das Artes, oficializa-se e
se estabelece no Rio de Janeiro, formada por docentes franceses.

ARTES VISUAIS
66
Não foi fácil para a Missão o convívio e a sobrevivência no Brasil, pois o
neoclassicismo imposto produziu uma grande tensão entre a população colonial que
tendia a rejeitar a arte em níveis aristocrático e burguês. 
1          Nicolas-Antoine Taunay
Nicolas-Antoine TAUNAY (1755-1830), desde cedo um grande artista, iniciou
a vida artística pintando paisagens. Participou da Academia em Roma e na França.
No período de Napoleão, Taunay pintou cenas de batalha em uma intensa atividade
artística. A produção do artista no Brasil compreendeu paisagens, personagens
bíblicos, mitológicos e históricos, em um estilo baseado nos grandes paisagistas
holandeses.
Os filhos de Taunay, Felix-Émile Taunay (1795-1881) e Adrien-Aimé Taunay
(1803-1828), também se destacaram como pintores no Brasil.  
2          Auguste-Henri Victor Grandjean de Montigny
O primeiro trabalho no Brasil de Auguste-Henri Victor GRANDJEAN DE
MONTIGNY (1776-1850) foi o projeto para o edifício da futura sede da Academia de
Belas Artes. O prédio da Academia construído em 1826 foi derrubado em 1937.
Montigny realizou diversos projetos de arquitetura e urbanismo no Rio de
Janeiro.   
3          Jean Baptiste Debret

Fig. 13: Debret


DEBRET, Jean Baptiste (1768-1848) DETALHE. Negros Movimentando um Carro. Gravura extraída
da obra Voyage Pittoresque et Historique au Brésil. Obra publicada em três volumes, entre 1834 e
1839, na França.

ARTES VISUAIS
67
Ref. Imagem: Pranchas de Jean Baptiste Debret. Prancha nº 15. SP: Formar, s/d.
Debret jpg. 1024x715 pixels. 200 dpi. 24 bits. 147 KB. Martini, Fátima R. Sans. 20 set. 2014.

Jean Baptiste DEBRET (1768-1848) viveu no Brasil por 15 anos, não se


deixando abater pela hostilidade e pouco caso do ambiente estranho.
A partir de 1823 viajou pelo Brasil desenhando a natureza e os tipos humanos
de diversos estados, tornando-se professor de Pintura Histórica na Academia.
Realizou gravuras a água-forte[1] , aquarelas e organizou o Primeiro Salão de Belas
Artes no Brasil, no Rio de Janeiro. De volta a Paris, depois de se desentender com o
Imperador Pedro I, editou o livro em três volumes – Viagem pitoresca e histórica ao
Brasil – com aquarelas e gravuras, ilustrando os usos e costumes brasileiros no
período inicial do século XIX.
Debret deixou muitos alunos e aprendizes no Brasil: Francisco Pedro do
AMARAL (1790-1831); Simplício RODRIGUES DE SÁ (1785-1839); José de Cristo
MOREIRA; Francisco Souza LOBO; José da Silva ARRUDA; José dos REIS
CARVALHO (c.1798-c.1892); Guilherme e Auguste MULLER (1815-c.1883);
Alphonse Auguste FALCOZ; Joaquim Lopes de Barros Cabral TEIVE (1816-1863) e
Manuel de Araújo PORTO-ALEGRE (1806-1879)
  

SAIBA MAIS
Sobre a História do Brasil em:
FIGUEIRA, D. G. História. São Paulo: Ática, 2005.
  
Leia sobre a Missão francesa em:
ARTE NO BRASIL, 1986, pp. 148-160.
  
[1] Água-forte - Técnica de gravura na qual se utiliza a ação corrosiva de ácido sobre
as partes postas a descoberto na superfície de uma placa metálica revestida de
camada protetora.

ARTES VISUAIS
68
Aula 23_O Neoclassicismo. Pintura de Paisagens.

Observamos a chegada no Brasil, em 1816, de artistas e artífices por meio da


Missão francesa. Os mestres franceses deixaram alunos que continuaram a
produção neoclássica no Brasil.
A Academia e Escola Real das Artes impulsionaram a pintura neoclássica e
histórica, incluindo a pintura de retratos. O estimulo romântico chegou através de
novos artistas em viagens curtas ou através dos mestres que se fixaram no Brasil a
pedido de D. Pedro II.
Na primeira fase de ação da Academia destacou-se o trabalho dos artistas
Manuel de Araújo PORTO-ALEGRE (1806-1879) e Simplício RODRIGUES DE SÁ
(1785-1839).
  
1. Manuel de Araújo Porto-Alegre
Manuel de Araújo PORTO-ALEGRE (1806-1879) foi contratado como
professor de Pintura Histórica da Academia Imperial de Belas Artes, em 1837, no
Rio de Janeiro. De 1854 a 1857 investido como diretor da Academia reformou os
métodos de ensino e contratou novos professores. Poeta, teatrólogo, tradutor e
diplomata, Porto-Alegre dedicou-se à literatura no Brasil e Portugal, sendo um dos
pioneiros do romantismo.
 
2. Simplício Rodrigues de Sá
Simplício RODRIGUES DE SÁ (1785-1839) estudou com Debret na Academia
Imperial de Belas Artes. Em 1831 foi contratado como professor de Pintura Histórica
e Desenho, onde atuou até 1837. Foi professor de desenho do imperador D. Pedro II
e suas irmãs. Simplício foi acima de tudo um grande retratista.
Outro artista que atuou no mesmo período dos alunos da Missão francesa foi
Miguel Arcanjo Benício de Assunção Dutra, mais conhecido como MIGUELZINHO
DUTRA (1812-1875) escritor, artífice e ourives da cidade de Itu, interior de São
Paulo. Com uma formação interiorana, sua obra foi composta com componentes
intimistas, retratando populares, festas e paisagens de campo.

ARTES VISUAIS
69
  
PINTURA DE PAISAGENS – A PRESENÇA DOS ITINERANTES
Durante o século XIX, veio para o Brasil grande número de pintores
estrangeiros. Alguns integrantes de expedições científicas e artísticas, como a
Missão austríaca e a Expedição Langsdorff, outros por conta própria.
Encantados com a luz e o cenário tropical, eles desenharam e pintaram
paisagens, marinhas e cenas de costume, sobretudo do Rio de Janeiro,
documentando com detalhes aspectos pitorescos da vida brasileira.
Entre os ingleses, estiveram no Brasil: Richard BATES (1775-1856); Henry
CHAMBERLAIN (1796-1844) e Emeric Essex VIDAL (1791-1861).
Dos artistas portugueses destacaram-se: Joaquim Cândido GUILLOBEL
(1787-1859) e Augusto Rodrigues DUARTE (1848-1888), discípulo de Vítor
MEIRELLES.
Do grupo de italianos chegaram ao Brasil: Alessandro CICARELLI (1811-
1879); Luigi STALLONE e Nicollo Antonio FACCHINETTI (1824- 1900), que
permaneceu pintando a serra da Mantiqueira e outros recantos brasileiros.
Entre os franceses: François-René MOREAU (1807-1860), que se fixou no
Rio de Janeiro, produzindo retratos brasileiros e pinturas históricas; Charles Othon
JEAN BAPTISTE (1777-1847) e Hercule FLORENCE (1804-1879) entre outros.
Da Áustria, o pintor Thomas ENDER (1793 - 1875) veio para o Brasil em
1817, permanecendo por um ano, durante o qual pintou aquarelas e desenhos com
observações do Brasil.
O grupo de pintores alemães que veio para o Brasil foi um pouco maior.
Alguns artistas permaneceram no país e outros foram chegando até o final do século
XIX. Dentre eles os que mais se destacaram foram: Johann Moritz RUGENDAS
(1802-1858), Edward HILDEBRANDT, Ferdinand KRUMHOLZ, Fridrich HAGEDORN
e Johann Georg GRIMM (1846-1887), entre outros.
 
1. Johann Moritz Rugendas
Johann Moritz RUGENDAS (1802-1858) esteve no Brasil em 1822,
acompanhando a comitiva da expedição de Langsdorff. Em 1825 voltou para a
Europa depois de ter pintado paisagens e cenas de costumes por várias regiões.

ARTES VISUAIS
70
Retornou em 1831, por conta própria, permanecendo até 1846 no Brasil e outros
países da América Latina.
  
SAIBA MAIS
Sobre os artistas viajantes no site do Itaú Cultural.org.br.
Pesquise mais sobre outros artistas que aqui estiveram e documentaram o Brasil de
forma delicada e sensível.

ARTES VISUAIS
71
Aula 24_O Neoclassicismo na Arquitetura

Vimos, na aula anterior, os artistas viajantes e os primeiros artistas pintores


do Brasil no início do século XIX. Espero que você esteja se surpreendendo com
tantos artistas desconhecidos!
  
O BRASIL EM MEADOS DO SÉCULO XIX
Com a posse do imperador D. Pedro II, em 1840, restabeleceu-se a paz no
Brasil convulsionado pelas rebeliões e consolidaram-se as instituições. A principal
garantia material dessa estabilidade foi a prosperidade econômica, assegurada pela
exportação do café.
Do vale do Paraíba, os cafezais alcançaram São Paulo e o sul de Minas. A
partir de 1870, as plantações chegaram ao Oeste paulista e por volta de 1880, o
Brasil já produzia mais da metade de todo o café cultivado no mundo. Surgia assim
uma nova camada de prósperos senhores de terra: os cafeicultores.
Com um grande volume de dinheiro circulando, na década de 50 foram
fundadas empresas industriais, bancos, caixas econômicas, companhias de
navegação a vapor, companhias de seguro, estradas de ferro, empresas de
mineração, transporte urbano e serviços de gás.
A fase de relativo desenvolvimento só foi quebrada com a Guerra do Paraguai
de 1865 a 1870.
Em meados do século XIX a escravidão começou a ser contestada por
amplos setores da sociedade. As pressões internacionais, principalmente da
Inglaterra se intensificaram. O primeiro passo do governo após muita pressão foi
extinguir o tráfico negreiro em 1850.
Vale lembrar que a partir de 1870, surgiu um cafeicultor com uma mentalidade
mais evoluída, que trocava a mão de obra escrava pela dos imigrantes vindos da
Europa. Os primeiros imigrantes a chegar ao Brasil fixaram-se em algumas zonas
rurais do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, e foram chamados de colonos.

ARTES VISUAIS
72
  
O NEOCLASSICISMO NA ARQUITETURA
Introduzido por Auguste-Henri Victor GRANDJEAN DE MONTIGNY (1776-
1850), o Neoclássico na arquitetura teve numerosos alunos, no Rio de Janeiro,
como Justino de Alcântara Barros, autor do zimbório[1] da Igreja da Candelária; José
Maria Jacinto Rebelo, autor do projeto do atual Palácio do Itamaraty (1851-1855);
entre outros. Foram esses discípulos que difundiram a Arquitetura neoclássica por
toda a Corte como estilo oficial do Império.
As investigações acerca das orientações teóricas da arquitetura produzida no
Brasil da Independência levantam a forma de composição arquitetônica do
Neoclassicismo como causa intelectual e política.
O Neoclassicismo teria sido então adotado no Brasil durante a monarquia
como instrumento civilizador, isto é, como meio de aproximar o país do modelo
europeu de civilização.
Algumas características da Arquitetura Neoclássica: Materiais nobres, como
pedra, mármore, granito e madeiras. Processos técnicos avançados e sistemas
construtivos simples. Esquemas mais complexos com linhas ortogonais. Formas
regulares, geométricas e simétricas. Volumes corpóreos, maciços, bem definidos por
planos murais lisos. Uso de abóbadas de berço ou de aresta. Uso de cúpulas.
Espaços interiores organizados segundo critérios geométricos e formais Pórticos
com colunatas e frontões triangulares A decoração recorreu a elementos estruturais
com formas clássicas, à pintura rural e ao relevo em estuque, acentuando a
intimidade e o conforto nas mansões familiares.
O Brasil do século XIX graças à cultura do café propiciou um conforto para a
sociedade que povoou de casas neoclássicas as regiões de São Paulo, Rio de
Janeiro, Minas e Nordeste.
 
1.  No Nordeste
No Nordeste, comandados pelo alemão Augusto Koersting, cerca de cem
artistas e artífices modernizaram e atualizaram as construções em Pernambuco, a
partir de 1839. “O neoclássico foi introduzido graças a Francisco do Rego Barros,
conde da Boa Vista.” (ARTE NO BRASIL, 1986, p.160)

ARTES VISUAIS
73
O Palácio do Governo de Pernambuco, reformado pelo conde da Boa Vista,
no ano de 1841, é um exemplo de Arquitetura no estilo neoclássico.
2.  Na Bahia
Na primeira metade do século XIX foi concluído o prédio da Associação
Comercial, uma das construções pioneiras do estilo neoclássico na Bahia, com
influência inglesa. O prédio apresenta o pórtico com quatro colunas, frontão
triangular,  escadaria externa com duas entradas e decoração na fachada composta
de guirlandas.
3.  No Rio de Janeiro
No Rio de Janeiro,foi construído pelo arquiteto particular de D. Pedro I, o
francês Pierre Joseph Pézerat, um palacete neoclássico, ao lado do palácio imperial,
para a Marquesa dos Santos, que ali viveu entre 1826 e 1829.

Fig. 14: Marquesa de Santos, RJ. Palacete neoclássico. Século XIX.


Ref. Imagem: Original date/time: 25 set. 2012 13:23 Camera make. model: SONY DSC-
TX1.   766x642 pixels. 96 dpi. 24 bits. ISO 125. Marquesa de Santos Jpg. 127 KB; MARTINI, Fátima
R. Sans. 21 set. 2014.

ARTES VISUAIS
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Aula 25_Arte Neoclássica, Romântica e Realista.

Na última aula, vimos a arquitetura neoclássica desenvolvida nas principais


cidades do Brasil. Voltamos agora para a Arte em meados do século XIX. 
  
MEADOS AO FINAL DO SÉCULO XIX
A Arte Realista, por volta de 1850 a 1860, já se expandia na França, surgindo
como expressão revolucionária, representando trabalhadores e as injustiças sociais,
sobrepondo-se ao Romantismo na era industrial.
No Brasil, o Realismo surgiu em meados do século, nas paisagens, dentro
das limitações estéticas. Como a classe operária e os problemas urbanos e sociais
ainda não ocorriam, os temas sociais não ocuparam espaço, só surgindo no final do
século, mesmo assim de forma indelével e superficial.
Aliás, os termos naturalismo e classicismo encobrem a arte figurativa e o
ecletismo acadêmico tardio aplicado por muito tempo no Brasil.
Dentre os artistas que se destacaram, de meados ao final do século XIX, com
uma pintura em amplos termos figurativa acadêmica, às vezes neoclássica, às vezes
romântica, outras realista, se encontram: Agostinho José DA MOTTA (1824-1878),
Johann Georg GRIMM (1846-1887), Garcia Y VASQUEZ (Espanha,1859-1912);
Joaquim José da FRANÇA JUNIOR (1838-1890); Giovanni Battista Felice
CASTAGNETO (1851-1900), os irmãos Francisco Renato e Luís Augusto
MOREAUX; Hipólito CARON (1862-1892); Vitor MEIRELES (1832-1903), PEDRO
AMÉRICO de Figueiredo e Melo (1843-1905) e José Ferraz de ALMEIDA JUNIOR
(1850-1899).  
1.  Agostinho José da Motta
Agostinho José DA MOTTA (1824-1878), em 1850, tornou-se o primeiro
paisagista a obter o prêmio de viagem à Europa.
Em 1856 funda com outros artistas a Sociedade Propagadora das Belas
Artes no Rio de Janeiro. Foi Professor de Desenho e Paisagens na Academia
Imperial de Belas Artes. 
2. Johann Georg Grimm

ARTES VISUAIS
75
Johann Georg GRIMM (1846-1887) chegou ao Brasil em 1878, executando
estudos das paisagens e iconografias das fazendas de café.
Quando professor na Cadeira de Paisagem, Flores e Animais, de 1882 a 1884
na Academia Imperial de Belas Artes, Grimm introduziu a pintura ao ar livre,
lembrando os Impressionistas franceses e italianos do final de 1870 em oposição
aos acadêmicos.
Em 1884, Georg Grimm, com os artistas Giovanni Battista Felice
CASTAGNETO (1851-1900), Hipólito CARON (1862-1892); Garcia Y VASQUEZ
(1859-1912); Francisco RIBEIRO (c. 1855-1900), Antônio PARREIRAS (1860-1937),
Joaquim José da FRANÇA JUNIOR (1838-1890) e Thomas DRIENDL (1849-1916),
fundou o Grupo Grimm, no Rio de Janeiro.
3. Giovanni Battista Felice Castagneto
Genovês, Giovanni Battista Felice CASTAGNETO (1851-1900) veio para o
Brasil em 1874 e estudou na Academia Imperial de Belas Artes, no Rio de Janeiro.
Em 1882, trabalhou como professor de Desenho no Liceu de Artes e Ofícios.
Em 1885, o artista já pintava com técnicas no estilo impressionista.

ARTES VISUAIS
76
Aula 26_Victor Meirelles e Pedro Américo

Na última aula, observamos os artistas atuando em meados do século XIX.


Continuamos com os dois maiores representantes e consagrados pintores desse
período.
  
VITOR MEIRELES (1832-1903)
Natural de Desterro, atual Florianópolis, Santa Catarina, Vitor Meireles
embarcou para o Rio de Janeiro para se matricular na Academia Imperial Brasileira
(AIBA) em 1846.
Em 1852 com o prêmio de viagem para a Europa mudou-se para Paris.
Autor da mais popular das telas brasileiras: A Primeira Missa no Brasil -
reproduzida em cadernos escolares, selos, cédulas monetárias, livros de arte,
catálogos e revistas.

Fig. 16: A Primeira Missa no Brasil


MEIRELLES, Victor (1832-1903) A Primeira Missa no Brasil, 1860/1. Óleo sobre tela, 268 x 356.
MNBA - Museu Nacional de Belas Artes, RJ. Brasil. 
Ref. Imagem: Power Point. A Primeira Missa. Gif. 480 x 360 pixels. 8 bits. 133 KB. MARTINI, Fátima
R. Sans. 21 set. 2014.

ARTES VISUAIS
77
Em 1862, Meirelles retornou para o Brasil e tornou-se professor de Pintura na
Academia.
Entre outros, foram alunos de Meirelles: Antônio PARREIRAS (1860-1937);
Rodolfo AMOEDO (1857-1941); Henrique BERNARDELLI (Chile,1858-Rio de
Janeiro,1936); BELMIRO BARBOSA de Almeida (1858-1935), José Ferraz de
ALMEIDA JUNIOR (1850-1899), Eliseu D’Ângelo VISCONTI (1866-1944); OSCAR
PEREIRA DA SILVA (1867-1939) e João ZEFERINO DA COSTA (1840-1915).
Além da famosa A Primeira Missa no Brasil, outra obra conhecida de
Meirelles é Batalha dos Guararapes, 1879. Óleo sobre tela, 494,5 x 923. No acervo
do Museu Nacional de Belas Artes, RJ. Brasil. A obra representa a vitória luso-
brasileira sobre as invasões holandesas no Morro de Guararapes, em Pernambuco.
Victor Meirelles deixou um extraordinário acervo, em minuciosos esboços e
estudos em papel e óleo sobre tela.
No entanto ao morrer em 1903, no Rio de Janeiro, o artista estava pobre e
quase esquecido.
  
PEDRO AMÉRICO de Figueiredo e Melo (1843-1905)
Paraibano, natural de Areia, Pedro Américo iniciou os estudos no Colégio D.
Pedro II no Rio de Janeiro e na AIBA.
Em 1859 o estudante partiu para estudar na Academia de Belas Artes de
Paris, sob a tutela de D. Pedro II.
Ao retornar da França, tornou-se professor de Desenho na AIBA - Academia
Imperial Brasileira do Rio de Janeiro.
Pedro Américo viajou para diversos países a trabalho e estudou na
Universidade de Bruxelas, na Bélgica.
Em 1870 foi empossado como Professor de Estética, História da Arte e
Arqueologia na AIBA.
Em 1900, o artista participou da Exposição Universal de Paris.
Entre as obras mais conhecidas de Pedro Américo encontram-se: Batalha do
Avaí, 1872/77. Um óleo sobre tela, 600 x 1100, que retrata a guerra do Paraguai. A
obra pertence ao acervo do Museu Nacional de Belas Artes, RJ. Brasil;
e Independência ou Morte, de 1888, em óleo sobre tela, 415 × 760, encomenda do

ARTES VISUAIS
78
império, para o salão nobre do atual Museu Ipiranga, ou Museu Paulista, em São
Paulo.
A pintura de Pedro Américo é acadêmica e neoclássica.
“Mesmo tendo estado na Europa onde que já começavam as manifestações
impressionistas, sua produção manteve-se fiel aos princípios da Imperial
Academia de Belas Artes.” (PROENÇA, 2005, p. 216)

ARTES VISUAIS
79
Aula 27_Final do séc. XIX no Brasil. O Ecletismo.

Examinamos a arte figurativa nos estilos romântico, realista e neoclássico.


Conhecemos importantes artistas que pintaram os gêneros de pintura histórica,
alegórica, mitológica, sacra, marinhas, nus e retratos. Chegamos ao final do século
com uma grande produção artística, sem, no entanto, alcançar uma forte expressão
individual.
  
FINAL DO SÉCULO XIX NO BRASIL
A Guerra do Paraguai provocou mudanças significativas na História do Brasil.
Uma delas foi a participação mais efetiva na vida política do Exército. Insatisfeitos
com a política do Império, os militares passaram a se considerar mais preparados
que os civis para cuidar dos interesses da nação.
Em 1888, o Brasil aboliu a escravidão em todo o território nacional. Era um
dos últimos países do mundo a pôr fim a essa atrocidade.
Em 15 de novembro de 1889, tropas rebeldes, sob o comando do marechal
Deodoro da Fonseca, marcharam pelo centro da cidade do Rio de Janeiro,
surpreendendo a população. Ao cair da tarde, proclamaram a República e
constituíram o Governo Provisório. Sendo um movimento de cúpula, o novo regime
não se preocupou em promover reformas na estrutura econômica do país. O
governo foi formado por ex monarquistas e poderosos aristocratas.
Em 1891, o Brasil já sofria com a inflação e queda no preço das ações,
causando prejuízos e falências.
No final do século, ocorreu a crise do café, com os preços despencando. No
início de 1906, os governadores dos três maiores estados brasileiros, São Paulo,
Minas Gerais e Rio de Janeiro, se reuniram e firmaram a valorização do café,
estocando e recorrendo a empréstimos, aumentando, assim, a dívida externa.
A balança comercial foi salva graças ao produto primário da Amazônia – a
borracha. Entre 1891 e 1900, o Brasil era praticamente o único produtor mundial de
borracha. Contudo, grupos ingleses introduziram mudas de seringueiras na Ásia, as

ARTES VISUAIS
80
quais aclimatadas passaram a produzir em condições mais vantajosas. Por volta de
1919, a borracha brasileira já não tinha importância no comércio mundial.
No início do século XX, os principais produtos brasileiros de exportação
continuaram  sendo o café, a borracha, o açúcar e o algodão, com o único objetivo
de abastecer o mercado europeu. A falta de capitais, de energia e de matérias-
primas básicas comprometeu o desenvolvimento industrial.
Na virada do século XIX para o século XX, algumas regiões do Brasil
passaram por importante processo de modernização. Grandes cidades foram
reurbanizadas e acelerou-se a industrialização.

ARTES VISUAIS
81
Aula 28_Final do séc. XIX. Início do séc. XX

Observamos a História, a Arte e a Arquitetura do século XIX até próximo ao


seu final. A partir dessa Unidade, estaremos acompanhando a evolução da Arte e
Arquitetura em torno dos anos 80, do século XIX até o início do século XX no Brasil,
pois muito pouco se alterou durante esse período, que abrange a Primeira Guerra
Mundial.
  
O ECLETISMO NO BRASIL NO FINAL DO SÉCULO XIX E INÍCIO DO SÉCULO
XX
Do final do século XIX e início do século XX, o Brasil conviveu com várias
tendências artísticas denominadas ecléticas, correspondendo à falta de decisão pela
filiação a um só estilo, refletindo períodos de transição ou de indefinição artística e,
assim, ressuscitando estilos anteriores. Mas essa indecisão não foi só do Brasil e,
sim, universal. Pesou o fato, porém, de que, no Brasil, a duração do ecletismo foi
maior e mais intensa. 
O ECLETISMO NA ARQUITETURA
Na arquitetura, o termo ecletismo se refere a tolerância no emprego de
diversos padrões de estilos utilizados nas construções nas principais cidades do
Brasil.
O Ecletismo brasileiro também aparece de duas formas: Como erudito e como
popular. Na forma erudita, os edifícios foram construídos por arquitetos europeus
que aqui estiveram ou sob projetos trazidos nas bagagens. Na forma popular, são
aqueles edifícios construídos por mestres de obras, que utilizavam detalhes ao
sabor das novidades, às vezes redecorando alguns edifícios tradicionais construídos
nas grandes cidades.
 
1. São Paulo
Os fazendeiros paulistas foram os primeiros a providenciar casas luxuosas na
cidade, com ornamentação baseada em relevos de estuques pré-moldados e
importada;

ARTES VISUAIS
82
“nos vasos e estátuas de porcelana do Porto, nas grandes vidraças, nos
assoalhos desenhados com finas madeiras de lei e nas ferragens
caprichosamente trabalhadas, importadas da França e da Bélgica.” (ARTE
NO BRASIL, 1986, p.182)
A população, de modo geral, passou a construir suas casas com tijolo e com
afastamentos laterais, ganhando mais arejamento e luz. Durante a Primeira Guerra
Mundial, surgiram as primeiras casas neocoloniais, um estilo também considerado
eclético.
O prédio ocupado pela Pinacoteca do Estado em São Paulo foi projetado por
Ramos de Azevedo em 1897, para abrigar o Liceu de Artes e Ofícios, instituição que
formavam técnicos e artesãos para construir as cidades que se enriqueciam com o
café.

Fig. 17: Pinacoteca.
Pinacoteca do Estado de São Paulo. Projeto de Ramos de Azevedo, 1897.
Ref. Imagem: Original date: MARTINI, Fátima R. Sans. 2005. 640x480 pixels. 8 bits. Pinacoteca. Gif.

218 KB. MARTINI, Fátima R. Sans. 24 set. 2014. 

2. Rio de Janeiro
Capital do país, o Rio de Janeiro reformulou a arquitetura e a estrutura
urbana, de modo geral. Sob a ordem do presidente Rodrigues Alves, a cidade
recebeu grandes melhorias. Foi aberta a avenida central, hoje Rio Branco, a qual
recebeu diversos edifícios com fachadas ecléticas.

ARTES VISUAIS
83
Prefeito do Rio de Janeiro, entre os anos de 1902 e 1906, o engenheiro
Pereira Passos planejou a construção do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.  Todo
o material usado na construção foi importado da Europa: mármores, ônix, bronze,
cristais, espelhos, mosaicos, vitrais e maquinaria de palco.
Os maiores artistas brasileiros da época – Rodolfo AMOEDO (1857-1941);
Henrique BERNARDELLI (1858-1936) e Eliseu D’Ângelo VISCONTI (1866-1944) –
criaram as pinturas e esculturas que enfeitam a sala de espetáculos, a fachada e as
áreas de circulação. 

ARTES VISUAIS
84
Aula 29_Ecletismo – Minas Gerais – Bahia

Na aula anterior, descobrimos prédios executados sob o estilo eclético nas


cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Continuamos com as cidades de Minas
Gerais,

3.  Minas Gerais
Em Minas Gerais, a cidade de Belo Horizonte, uma das primeiras cidades
brasileiras planejadas foi construída inteiramente sob a arquitetura eclética. A cidade
foi inaugurada em 1897.
O Palácio da Liberdade foi construído em Belo Horizonte no ano de 1897.
Com um traçado neoclássico, o palácio mescla estilos arquitetônicos que vão desde
Luís XV ao mourisco. A escadaria principal foi fundida na Bélgica e apresenta um
elegante estilo Art Nouveau. 
4. Bahia
O Palácio do Rio Branco começou a ser construído pelo primeiro governador
geral do Brasil, Tomé de Souza, em meados do século XVI, para ser o centro da
administração portuguesa. No início era de taipa de pilão, mas recebeu
posteriormente pequenas ampliações. Teve várias funções, como quartel e prisão.
Abrigou Dom Pedro II quando visitou a Bahia em 1859.
No fim do século XIX, o palácio ainda ostentava a velha fachada colonial
portuguesa. Após uma profunda reforma; ficou pronto em 1900, quando passou a
exibir um nobre e imponente estilo neoclássico, bem ao gosto francês.
O Palácio do Paranaguá está localizado na cidade de Ilhéus e foi construído
no estilo neoclássico em 1907, no mesmo local onde existiam ruínas de um colégio
jesuíta.  A construção é um dos símbolos da opulência na região do cacau.
Em Salvador encontra-se o Palácio da Aclamação.  A construção exibe uma
bela fachada em estilo neoclássico. Interiormente é decorado com belos painéis
emoldurados, guirlandas, laços e medalhões, pintados por Presciliano Silva (1883-
1965). Seu acervo é composto de mobiliários nos estilos Dom José e Luís XV,

ARTES VISUAIS
85
porcelanas, cristais, bronzes, tapetes persas e franceses e telas de pintores
famosos.
O atual prédio que abriga o Mercado Modelo começou a ser construído em
1854. Foi inaugurado em 1868 para ser a terceira Casa da Alfândega de Salvador.
Com formas consagradas da segunda metade do século XIX, a construção
apresenta uma planta quadrada e uma construção circular ao fundo.

ARTES VISUAIS
86
Aula 30_Norte amazônico

Vimos nas aulas anteriores a arquitetura eclética nas cidades de São Paulo,
Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia. Embora tenham sido apenas poucas
referências, pois, se fôssemos comentar todos os edifícios, páginas e páginas
seriam escritas, as mesmas são exemplos do Patrimônio cultural e artístico do
Brasil. A surpresa na descoberta de palácios e edifícios civis construídos (alguns já
derrubados) vem demonstrar o tão pouco que conhecemos de nossas cidades
maravilhosas, o pouco caso da mídia e o descaso dos brasileiros na conservação
dos mesmos. 
O norte amazônico foi reformulado totalmente de acordo com a visão eclética
no tempo da grande produção de borracha. “Os novos reis da borracha mandavam
vir do estrangeiro suas próprias casas completas, desde tijolos ingleses até os
lampiões belgas e as mobílias francesas” (Arte no Brasil, 1986, pp.183)
  
5. Belém do Pará
O Teatro da Paz ostenta e simboliza a riqueza dos tempos áureos da
borracha.  Seu projeto foi elaborado pelo engenheiro Tibúrcio Pereira Magalhães no
estilo neoclássico. A construção começou em 1868 e só terminou seis anos depois,
em 1874. No espaço interior, piso, teto, paredes, lustres e escadarias atestam a
fama de excelente casa de espetáculos.
O Palácio Antônio Lemos foi construído para ser a sede do poder municipal.
O autor do projeto foi José Coelho de Gama e Abreu, o Barão de Marajó.
As obras começaram em 1868.  A inauguração foi em 15 de agosto de 1883,
quinze anos depois do início das obras.
  
6. Manaus
Trabalhadores de diferentes nacionalidades – brasileiros, portugueses,
espanhóis, italianos, alemães, ingleses, americanos, sírios, libaneses, judeus,
gregos – formavam os fortes elos da cadeia produtiva da borracha, o que fez o

ARTES VISUAIS
87
intercâmbio das atividades econômicas entre Manaus, os seringais e os grandes
centros industriais e financeiros da Europa e dos Estados Unidos.
Artistas, intelectuais, médicos, advogados, engenheiros, professores,
jornalistas, militares, homens de negócio, seringalistas, seringueiros de saldo, todos
falavam com maior ou menor desenvoltura a linguagem das libras esterlinas que
fazia a riqueza de poucos e inseria a cidade na rota internacional dos negócios da
borracha.
O Palácio da Justiça, inaugurado em 1900, possui estilo eclético, inspirado na
arquitetura do Segundo Império francês e do neoclassicismo inglês, com uma
profusão de elementos que misturam vários ornamentos.
O prédio foi construído sobre uma área elevada e é protegido por um espesso
muro com balaustradas. Projetado para ser a sede do Palácio da Justiça, esse
monumento arquitetônico cumpre até hoje a mesma função.
O térreo tem revestimento em alvenaria, janelas e portas em arco pleno e
colunas de pórtico da ordem toscana. O segundo piso tem alvenaria lisa, janelas de
púlpito de verga reta, com frontões curvos e irregulares e colunas do pórtico da
ordem compósita. O aspecto barroco do seu ambiente interno contrasta
acentuadamente com sua fachada sóbria e austera.
Artistas, técnicos e operários vieram da Europa e de outros pontos do Brasil
para trabalhar na obra do Teatro Amazonas, iniciada em 1884 e finalizada em 1896.
Os navios que chegavam da Europa traziam lustres de bronze e de cristal,
tapeçarias, espelhos, estátuas, grades para janelas e camarotes, peças em ferro
fundido, vigas de aço e até a estrutura metálica da cúpula, com telhas cerâmicas.
Crispim do AMARAL (1858-1911) artista pernambucano que vivia em Paris,
foi chamado para cuidar da pintura, do mobiliário e de toda a decoração interna do
edifício. Foi Amaral quem pintou o pano de boca do palco, representativo do
encontro das águas dos rios Negro e Solimões. Sob sua inspiração foram pintadas,
em Paris, as telas que foram afixadas ao teto da luxuosa sala de espetáculos,
alusivas à Dança, à Música, à Tragédia e às óperas do maestro Carlos Gomes[1].
As máscaras afixadas nas colunas que circundam a sala de espetáculos destacam
as grandes figuras da música e do teatro – Esquilo[2], Aristófanes[3],
Shakespeare[4], Rossini[5], Schiller[6], Verdi[7] e outros.

ARTES VISUAIS
88
Construído para ser a residência de um rico comerciante da borracha,
o Palácio Rio Negro foi inaugurado no final do século XIX. A fachada, dividida em
dois pavimentos, com três corpos, apresenta elementos ecléticos com predomínio
de características clássicas.  A porta de entrada é de arco pleno. No interior, objetos
vindos do oriente compõem a ambientação. Uma imponente escada de madeira leva
até o segundo pavimento com uma sacada em ferro fundido.
 
[1] CARLOS GOMES, Antônio (1836-1896).  Foi o mais importante compositor de
óperas brasileiro, com carreira de destaque principalmente na Europa.
[2] ESQUILO (c. 525 a.C.- 456 a.C.). Foi um poeta trágico grego. É considerado o
fundador da tragédia.
[3] ARISTÓFANES (c. 447 a.C. - c.385 a.C.). Dramaturgo grego. Representante da
Comédia Antiga.
[4] SHAKESPEARE, William (1564-1616). Dramaturgo e poeta inglês.
[5] ROSSINI, Gioacchino Antonio (1792-1868). Grande compositor italiano do
romantismo.
[6] SCHILLER, Johann Christoph Friedrich von (1759-1805). Poeta, dramaturgo,
filósofo e historiador alemão, um dos líderes do romantismo literário.
[7] VERDI, Giuseppe Fortunino Francesco (1813-1901). Compositor de óperas
românticas.

ARTES VISUAIS
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Aula 31_O Ecletismo e outros estilos na Arte

Vimos nas aulas anteriores a arquitetura eclética do século XIX e início do


século XX. Apoiada no neoclassicismo essas construções fazem parte do Patrimônio
cultural e artístico do Brasil.
  
FINAL DO SÉCULO XIX AO INÍCIO DO SÉCULO XX NO BRASIL
O ECLETISMO E OUTROS ESTILOS NA ARTE
Artista eclético é aquele que se filia simultaneamente às várias escolas, ou
que, não se filiando a nenhuma delas, busca inspiração em fontes diversificadas.
O ecletismo no Brasil vigorou entre cerca de 1870 a 1922, portanto, entre o
esgotamento da Academia Imperial de Belas Artes e o Modernismo.
Artistas são únicos e suas obras também, por isso, não podemos classificar
todos os artistas e obras produzidas nesse período como ecléticas.
No Brasil o neoclássico se arrastou por um longo tempo se juntando a outros
estilos como o impressionismo e o simbolismo.
Enquanto na Europa a Belle Epoque contrastava com o expressionismo, no
Brasil a arte se situava bem longe da angústia e da experimentação.
Entre artistas desse período destacaram-se: Eliseu D’Ângelo VISCONTI
(1866-1944); Oscar PEREIRA DA SILVA (1867-1939) Antônio Diogo da Silva
PARREIRAS (1860-1937); Rodolfo AMOEDO (1857-1941); Henrique
BERNARDELLI (1858-1936); BELMIRO BARBOSA de Almeida (1858-1935), José
Ferraz de ALMEIDA JUNIOR (1850-1899), Georgina ALBUQUERQUE (1885-1962),
Arthur TIMOTHEO DA COSTA (1882-1923), Lucílio de ALBUQUERQUE (1877-
1939), Benedito CALIXTO (1853-1927), PEDRO ALEXANDRINO Borges (1856-
1942) e João BATISTA DA COSTA (1865-1926)
   
1. Henrique Bernardelli
Senhor de uma técnica com composições livres e elementos essenciais, com
pinceladas largas e espontâneas, Henrique BERNARDELLI (1858-1936) participou

ARTES VISUAIS
90
com outros artistas da reforma da Academia transformada em Escola Nacional de
Belas Artes, em 1890.  
2. João Batista da Costa
Em 1892, João BATISTA DA COSTA (1865-1926) recebeu o prêmio de
viagem pelo Salão Nacional de Belas Artes para a França. De 1905 a 1926 foi
professor de pintura na Escola Nacional de Belas Artes, tendo como alunos Quirino
CAMPOFIORITO (1902-1993), Candido PORTINARI (1903-1962), Francisco
ACQUARONE (1898-1954) e Henrique Campos Cavalleiro (1892-1975)
Entre os brasileiros, o artista é um dos mais importantes paisagistas com
influência da Escola de Barbizon.
 
3. Antônio Parreiras (1860-1937)
As primeiras obras de Antônio Diogo da Silva PARREIRAS (1860-1937)
retratam casas ensolaradas e árvores vislumbradas através de frestas luminosas.
Com o prêmio de aquisição na Exposição Geral de Belas Artes, o artista
viajou para Veneza em 1888. Em 1890 criou, no Brasil, a Escola de Pintura ao Ar
livre, de onde se destacaram os nomes de: Candido de Souza Campos, Hortênsia
Goulart, Paulo de Mendonça, entre outros. Em 1902 abre um curso só para
mulheres: Angelina de Figueiredo, Olga Parreiras, Alzira de Oliveira, entre outras.
A partir de 1906, Antônio Parreiras viaja para a Europa constantemente a
trabalho, exercendo as atividades de desenhista e pintor, ilustrador, cenógrafo e
crítico de arte.

ARTES VISUAIS
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Aula 32_São Paulo

Observamos a estética do Realismo Burguês impregnando toda a pintura


brasileira do final do século XIX e alcançando os primeiros anos do século XX. O
ecletismo se mantinha às margens das renovações pictóricas, refletindo o
deslumbramento da sociedade e a Belle Epoque francesa. Mesmo na França, o
Simbolismo, Impressionismo e outros movimentos de vanguarda se mantinham
afastados do gosto burguês pelo refinamento do desenho e a predileção por temas
religiosos e alegóricos.
  
SÃO PAULO
São Paulo, no final do século XIX, tinha uma população que crescia devagar,
comprimida entre os rios Tamanduateí e o Anhangabaú, divertindo-se com o jogo de
bilhar, peteca e frequentando o Teatro São José. A iluminação paulista apresentava
problemas e os carros e bondes de tração animal corriam na cidade escura e
deserta.
A vida cotidiana era copiada dos hábitos europeus em que a vestimenta
importada pesada contrastava tristemente com o clima brasileiro. A vida noturna era
insignificante e os estudantes animavam as poucas casas alegres existentes.
As famílias de organização patriarcal se isolavam com pretensões fidalgas,
negando-se a quaisquer ofícios, vivendo à custa de cargos públicos. A elite regional
considerava os bacharéis, principalmente aqueles que estudavam fora.
Os artistas bem nascidos e os que iam estudar fora eram apenas toleráveis.
O consumo artístico era copiado da burguesia europeia e aos artistas
brasileiros restava apenas cumprir seu papel.  
1.  José Ferraz de Almeida Junior
José Ferraz de ALMEIDA JUNIOR (1850-1899) matriculou-se em 1869, na
Academia Imperial de Belas Artes com os professores de desenho Jules Le Chevrel
e de pintura Victor MEIRELLES (1832-1903).
Em 1874 tornou-se professor de desenho na Academia. A partir do ano
seguinte fixou residência em Itu, no interior de São Paulo, abrindo um atelier.

ARTES VISUAIS
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Em 1876, Almeida Junior viu-se em Paris graças à bolsa de estudos
proporcionada por D. Pedro II, impressionado com sua obra.
Na cidade dos impressionistas e simbolistas, Almeida Junior manteve-se
próximo aos românticos e aos realistas. De volta ao Brasil chegou carregado de
medalhas e prêmios. A partir de 1883, em São Paulo, com a técnica dominada, os
vínculos com os temas históricos e acadêmicos desapareceram e a obra de Almeida
Junior passou a apresentar primorosas e delicadas cenas caboclas que o
consagraram como o melhor pintor da época.  
2.  Lasar Segall
Lasar SEGALL (1891-1957) foi o primeiro artista a introduzir obras
expressionistas e modernas no Brasil. Com uma mostra pioneira, porém pequena,
no ano de 1913 nas cidades de São Paulo e Campinas, Lasar Segall não teve
condições de surpreender e movimentar a classe artística e a crítica brasileira.  
3. Anita Malfatti
A exposição em 1917, de Annita Catharina Malfatti, ou Anita MALFATTI
(1889-1964), em São Paulo, com uma mostra no campo de Expressionismo e
Cubismo, teve o dom de irritar, entre outros, Monteiro Lobato.
“Medíocre como pintor, mas já consagrado como escritor. Lobato fulminou
Anita com um artigo intitulado Paranóia ou Mistificação?” Em defesa de Anita se
juntaram alguns intelectuais, “além de artistas como Di Cavalcanti, que, anos mais
tarde, se alinharia entre os organizadores e participantes da Semana de Arte
Moderna.” (ARTE NO BRASIL, 1986, p.193).

Fig. 18: Anita Malfatti


MALFATTI, Anita (1889-1964), A Boba, 1915/ 1916. Óleo sobre tela, 61 x 50,6.   MAC – Museu de
Arte Contemporânea, USP, SP. Brasil.

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Ref.
Imagem: http://www.mac.usp.br/mac/templates/projetos/seculoxx/modulo2/modernismo/artistas/malfa/
obras.htm. 25 set. 2014.
 

Com eventos separados e artistas com novas pretensões artísticas surgiram


movimentos intelectuais que decretaram o fim do academismo na Arte brasileira a
partir de 1922.
Mas esse é um assunto para o próximo semestre em Estética e História da
Arte Brasileira II. Aguardem!
Espero que você mantenha o hábito da pesquisa. Agora que chegamos ao
fim, é muito importante rever suas anotações, resumos etc. Bons estudos!

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