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As comunas socialistas da Venezuela: política e produção

material sob o controle dos trabalhadores associados


NATALIA SCARTEZINI RODRIGUES*

Resumo: A teoria socialista e as experiências de socialismo real demonstram que a busca pelo
socialismo não deve negligenciar a erradicação de dois aspectos fundamentais do sistema
sociometabólico do capital: o Estado e o trabalho assalariado. Assim, formas de auto-gestão
política e de trabalho associado sob o controle dos trabalhadores organizados são de vital
importância para vislumbrarmos modificações da forma de produção e sociabilidade
capitalistas. Neste sentido, a experiência das Comunas na Venezuela merece atenção especial.
Segundo o governo, elas foram criadas para constituírem formas de auto-gestão produtiva e
política pelos trabalhadores organizados. Possuem um aparato institucional próprio, bem como
empresas de propriedade comunal – mantidas sob o controle dos trabalhadores associados e
cujos excedentes são completamente revertidos em prol da própria comunidade. São
experiências ainda incipientes, mas que parecem possuir uma imensa pertinência histórica ao
instituírem formas de organização política e de propriedade dos meios de produção distintas das
dominantes. Neste trabalho, buscaremos mostrar alguns aspectos das Comunas Socialistas da
Venezuela Bolivariana e sua pertinência para o movimento revolucionário.
Palavras-chave: Comunas, Socialismo, Estado, trabalho assalariado, Venezuela.

Abstract: The socialist theory and the experiences of real socialism show that the search for
socialism must not neglect the eradication of two fundamental aspects of the sociometabolic
capital system: the state and wage labor. Therefore, forms of political self-management and
associated labor under the control of organized workers are of vital importance to discern
modifications in the capitalist form of production and sociability. In this sense, the experience
of the communes in Venezuela deserve special attention. According to the government, they
were build to construct forms of productive and political self-management by organized
workers. They have an institutional structure of their own, as well as communal property
companies – held under the control of associated workers whose surplus is completely reverted
in favor of the community. They are still incipient experiences, but they seem to have an
immense historical relevance because they establish forms of political organization and
ownership of the means of production, different from the dominant ones In this paper, I attempt
to show some aspects of the Communes Socialist Bolivarian Venezuela and its relevance to the
revolutionary movement.
Key words: communes, Socialism, State, wage labor, Venezuela.

*
NATALIA SCARTEZINI RODRIGUES é Docente da Universidade de Cuiabá (UNIC), unidade
de Rondonópolis/MT. Cientista Social e mestra em Sociologia pelo Programa de Pós-graduação em
Sociologia da Universidade Estadual Paulista - UNESP - Campus de Araraquara/SP.

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1. Introdução fundamental para a superação do
sistema sociometabólico do capital: o
Muito se tem dito a respeito da controle dos meios de produção pelos
Revolução Bolivariana na Venezuela. trabalhadores associados.
Porém, nenhuma ou pouquíssima
atenção foi dedicada à principal 2. Conselhos Comunais e democracia
conquista deste movimento direta
revolucionário. Trata-se de instâncias de Desde a promulgação da Constituição
auto-gestão política e produtiva sob de 1999 a Venezuela vem
controle dos trabalhadores associados, impulsionando a criação de instâncias
em construção desde pelo menos de democracia direta ou auto-gestão
meados de 2008: as chamadas Comunas política. Ou seja: desde 1999 o Estado
Socialistas. venezuelano vem criando condições
para a criação, consolidação e difusão
As Comunas são espaços territoriais que
de experiências que gradativamente
aglutinam ambas as esferas de auto-
passaram a assumir o controle e as
gestão, ou seja, são experiências que
funções do Estado burguês.
concretizam a aclamada utopia de
superação do Estado burguês e do É o caso, por exemplo, dos Conselhos
trabalho assalariado. Carregam em si o Comunais (CCs). Os CCs são
cerne de qualquer teoria revolucionária: organizações populares locais onde os
a ideia de que os trabalhadores podem moradores de um determinado barrio1
ter as rédeas de seu destino nas próprias reunidos em Assembleia, definem as
mãos, sem a mediação dos políticos prioridades de sua comunidade (como
profissionais e sem serem apartados dos construção de escolas, acesso à água,
frutos do seu trabalho. Há, desta etc.), e, subdivididos em Comitês de
maneira, uma síntese entre as esferas da Trabalho, elaboram um projeto para o
política e da produção material. enfrentamento de seus problemas
coletivos, o executam e o controlam.
As Comunas vem sendo criadas de Cada membro do CC é eleito em
maneira sistemática desde que sua Assembleia, possui mandato revogável
proposta veio à tona. Porém, sua e de dois anos, e não possui
semente foi plantada com a criação de remuneração.
organizações populares locais desde
2002, cujo foco era a implantação de Nos CCs as decisões são tomadas em
projetos comunitários de maneira Assembleia, instância que busca superar
coletiva, com decisões tomadas via a democracia representativa e a tarefa
instâncias de democracia direta. individual de depositar um voto em uma
urna, através de discussões sistemáticas,
Por isto, dividimos este artigo da da busca pelo consenso e da construção
seguinte maneira: primeiramente de um coletivo político que seja capaz
faremos uma breve descrição da de deliberar conjuntamente, sem a
principal organização popular local (os mediação dos políticos profissionais.
Conselhos Comunais) e de sua
Ramón Casanova (2009) considera que
experiência particular de democracia-
os CCs são instâncias que “sintetizam
direta. Em um segundo momento
entenderemos como esta organização 1
Barrios são os bairros pobres da Venezuela,
foi combustível para a emersão de equivalentes no Brasil às favelas. Os bairros
instâncias inovadoras que agregam à ricos, em contrapartida, são chamados de
auto-gestão política um elemento urbanizaciones.

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valores, práticas e modos de gestão” – ainda que esta esteja longe de rechaçar
que “potencializam a construção de a democracia representativa –
identidades e âmbitos de aprendizagem atualmente atribui importância crucial
participativas” de maneira a repensar às instâncias de desenvolvimento da
“toda a arquitetura do Estado democracia direta. A superação
venezuelano” a partir de construções definitiva da democracia representativa
político-sociais históricas pautadas na é um processo de longa gestação.
referência local. (CASANOVA, 2009. Porém, suas sementes foram lançadas e
p. 64). Segundo Casanova, “ainda e reside neste fato a importância da
com todas as dificuldades e resistências, experiência dos Conselhos Comunais na
tais instituições vêm interiorizando uma Venezuela.
concepção de autogoverno que favorece
Todavia, a alteração da ordem vigente
um salto na subjetividade política das
não foi delegada apenas aos CCs. Estes
massas populares”. (Ibidem. p. 71 – fazem parte de uma nova estrutura
grifos meus).
institucional – ou o que o governo
Concordamos com o argumento de chama de Nueva Geometría del Poder –
Ramón Casanova quando este afirma que é composta por uma experiência
que a experiência dos CCs tem grande mais abrangente: as Comunas
potencialidade para gerar um salto na Socialistas.
subjetividade das classes trabalhadoras As Comunas são novas delimitações
venezuelanas, pois esta experiência faz territoriais onde a organização política,
parte de um movimento que vem
a administração institucional e a
fazendo com que estas classes
produção material ficam sob o controle
interiorizem um espectro ideológico
da comunidade organizada. As
onde a democracia direta possui
Comunas são pensadas justamente para
centralidade para a construção de uma
aglutinar e fortalecer todos os esforços
nova sociedade.
de organização e auto-gestão das classes
Assim, os CCs estão imbricados em um trabalhadoras na Venezuela.
ponto fundamental para o
3. O que são as Comunas Socialistas
desenvolvimento da Revolução
da Venezuela?
Bolivariana: a busca pela superação da
democracia representativa burguesa. De As Comunas Socialistas além de
acordo com o governo bolivariano, os contarem com instâncias de auto-gestão
CCs são uma “nueva forma de Estado, política também constroem formas de
de gobierno, una nueva forma de auto-gestão produtiva, em unidades
sociedad que se está construyendo” (R. socioprodutivas sob o controle dos
B. de VENEZUELA, 2007. p. 11), onde trabalhadores associados. Assim, ao
se discute a “la necesidad de dar un fomentarem a ideologia socialista, ao
salto y de trascender hacía el sistema assumirem as funções políticas e
de gobierno comunal”. (Ibidem. p. 9). administrativas do Estado e ao
delegarem a propriedade e o controle
Percebemos através da disseminação
dos meios de produção material aos
dos CCs e da importância política que a
trabalhadores, as Comunas emergem
eles vem sendo atribuída, que a
democracia participativa e protagônica2
de transformação das esferas e do fazer
democrático na Venezuela, como a
2
Democracia participativa e protagônica é como radicalização da democracia representativa e a
o movimento bolivariano denomina o processo criação de instâncias de democracia direta.

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como a instância mais desenvolvida da que não são necessariamente
Revolução Bolivariana, apesar de seu equivalentes aos bairros, nem mesmo
caráter incipiente. estão circunscritos aos limites político-
territoriais das cidades e\ou dos Estados.
Desde a promulgação da Constituição
São compostos sem se prenderem às
de 1999 o movimento bolivariano vem
delimitações já existentes, e sim
numa toada de construção e
considerando os traços em comum que
fortalecimento das instâncias de
unem a população que ali vive, de
organização popular na Venezuela. Os
maneira a fortalecer seus vínculos
Conselhos Comunais surgiram em
político-culturais. Esta delimitação
2002, porém a idéia das Comunas veio à
territorial não é realizada por instâncias
tona pela primeira vez dentro do pacote
do governo. Quem determina a
de reformas na Constituição proposto
territorialidade da Comuna são seus
em 2007. Entretanto, a primeira
regulamentação para as Comunas é a habitantes em potencial, mediante
Assembleia. Após esta determinação
Lei Orgânica das Comunas, de
dezembro de 2010. coletiva é dado prosseguimento ao
reconhecimento por parte do Poder
Na Lei Orgânica das Comunas ficou Público das Comunas como entes da
estabelecido que estas devem ter como Federação para assim conquistarem
finalidade: a) desenvolver e consolidar autonomia política e institucional,
o Estado Comunal como expressão do possibilitando a captação de verbas dos
Poder Popular e base para a construção Estados, Municípios e Federação, bem
de uma sociedade socialista3; b) como aquelas advindas do sistema
conformar o autogoverno para o sócio-produtivo comunal.
exercício direto de funções na
elaboração, execução e controle da De acordo com a Lei Orgânica das
gestão pública; c) promover a Comunas, após o reconhecimento
articulação e integração com outras institucional da Comuna são criadas
Comunas; d) impulsionar o suas instâncias administrativas. De
desenvolvimento e consolidação da maneira bastante resumida, a estrutura
propriedade social; entre outros. (R. B. administrativa de uma Comuna é
de VENEZUELA, 2010b. - Artigo 7º - composta pelas Empresas de
4
grifos meus). Propriedade Social e pelos Conselhos
Comunais do território abarcado pela
A formação das Comunas é definida a Comuna.
partir da seguinte lógica: as Comunas
são territórios determinados pela De acordo com a Lei Orgânica do
Sistema Econômico Comunal de
afinidade cultural, histórica e política de
dezembro de 2010, o sistema
sua população. São espaços territoriais
econômico da Comuna deve visar a
3 “producción, distribución, intercambio
Segundo o governo, o Estado Comunal a ser
construído deverá ser a forma político-social, y consumo de bienes y servicios, así
cuja célula fundamental seja a Comuna, “en la como de saberes y conocimientos, en
cual el poder es ejercido directamente por el pro de satisfacer las necesidades
pueblo, a través de los autogobiernos
comunales, con un modelo económico de
4
propiedad social y de desarrollo endógeno y As Empresas de Propriedade Social são de
sustentable, que permita alcanzar la suprema dois tipos: direta e indireta. No primeiro caso, a
felicidad social de los venezolanos y propriedade e controle da empresa ficam a cargo
venezolanas en la sociedad socialista”. (R. B. dos trabalhadores associados. O segundo caso
de VENEZUELA, 2010b. p. 8 – grifos meus). trata-se de estatais.

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colectivas y reinvertir socialmente el avanço que tal proposta traz para o
excedente5, mediante una planificación momento histórico atual. Hoje o
estratégica, democrática y controle dos meios de produção por
participativa”. (R. B. de VENEZUELA, parte dos trabalhadores associados, sob
2010c. - Artigo 1º - grifos meus). Este o regime de propriedade social, é uma
sistema econômico comunal é, segundo realidade em construção no país. É uma
esta mesma lei, um conjunto de relações experiência que vem ganhando
de produção, distribuição, intercâmbio e amplitude, concreção e força política ao
consumo desenvolvidas pelos entes do longo dos últimos anos, tal qual a
Poder Público e\ou do Poder Popular própria experiência das Comunas. A
através de organizações socioprodutivas construção de instâncias de auto-gestão
sob regime de propriedade social produtiva faz parte de um processo de
comunal, estando fundamentado na não atribuição de funções de comando e
hierarquização de funções e cargos e direção às comunidades organizadas,
orientando-se “hacia la eliminación de iniciado com as experiências de auto-
la división social del trabajo propio del gestão política.
modelo capitalista”. (Ibidem. Artigo 6º
O que notamos em termos de auto-
- grifos meus).
gestão política é que o movimento
4. Considerações finais bolivariano se propôs a semear desde
A construção das Comunas Socialistas é 2002 novas formas de organização
o momento onde os esforços e as política que carregam consigo a ideia de
experiências de mobilização e que é possível criar distintas maneiras
organização dos trabalhadores de administração e gestão pública, que
venezuelanos assumem um novo estejam sob o controle das comunidades
horizonte: a necessidade de superar o organizadas. É o que entendemos como
modo de produção capitalista através da uma forma ofensiva do movimento de
consolidação de um modelo alternativo massas lidar com as instituições
de produção material. Ainda que as herdadas do passado; uma maneira de se
empresas de propriedade social e o relacionar com estas instituições que
próprio sistema econômico comunal traz à tona a necessidade de erradicá-las.
possuam atualmente pequena relevância Porém, a erradicação completa do
no montante de riqueza produzido no Estado burguês é um processo cujo
país e ainda que o sistema capitalista de tempo de gestação é longo e que se
exploração do trabalho continue encontra, notadamente, em fase
existindo, não é possível negligenciar o embrionária. É necessário amadurecer o
processo, para que neste percurso seja
5
possível ocorrer aquilo que Álvaro
De acordo com a Ley Orgánica del Sistema
Económico Comunal de 2010, “reinversión
García Linera (2010) chamou de
social del excedente” significa: “El uso de los “desconstrução da estatalidade”.
recursos remanentes provenientes de la
actividad económica de las organizaciones
García Linera ressalta que a superação
socioproductivas, en pro de satisfacer las do Estado, não é “como um simples fato
necesidades colectivas de la comunidad o la de vontade ou de direito”, mas sim um
comuna, y contribuir al desarrollo social “longo processo de desconstrução da
integral del país”. (Artigo 6º). Para realizar o ‘estatalidade’ em sua dimensão ideal,
“investimento social dos excedentes”, as
organizações socioprodutivas deverão criar um
material e institucional na própria
fundo, que será mantido a partir do depósito de sociedade”. (GARCÍA LINERA, 2010.
todos os recursos excedentes. p. 27). Ou, o que Friedrich Engels

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configurou como criar as condições relación con el Estado. Deberíamos
sociais para “remover de si todo esse pensar este proceso en su dinámica
entulho estatal”. (ENGELS, como una transición. Lo viejo y lo
FRIEDRICH. In: MARX, 2011. p. 197). nuevo está en disputa. Lo
sorprendente es que dentro de las
O movimento bolivariano carrega viejas instituciones (Ejército, Poder
consigo algo que à primeira vista pode Ejecutivo, Parlamento, etc.) se
parecer uma contradição: um impulsa (o al menos no se impide)
movimento de centralização das el desarrollo de instituciones que
políticas sociais e do sistema produtivo en perspectiva deben reemplazar a
do país (através do fortalecimento das las existentes. (CAVIASCA, 2007.
p. 59-60 – grifos meus).
empresas estatais) no Estado e outro
movimento de delegação por parte deste Aldo Casas (2007), por sua vez, alerta
próprio Estado de suas funções aos que o processo revolucionário não pode
trabalhadores organizados. prescindir de um certo tipo de Estado
para “reorganizar la producción y
Segundo o governo bolivariano:
transformar las relaciones económicas
En este ámbito de la lucha contra y sociales”, mas que é fundamental que
la dominación política en la etapa o movimento revolucionário não
de transición, necesitamos un permita que este Estado se transforme
Estado fuerte que vaya asumiendo em “nuevo Leviatán erigido sobre la
progresivamente diversas esferas
sociedad como un poder separado y
de la economía y la vida social y
cultural. La lucha contra la
autónomo”. (CASAS, 2007. p. 139-
dominación política requiere del 140). Cabe, portanto, ao movimento de
Estado para el apalancamiento del massas, aos trabalhadores organizados,
poder popular y garantizar que la a tarefa de consolidar suas instâncias de
nueva institucionalidad se mobilização e intervenção política e
consolide bajo el signo de la assumirem as funções do Estado,
participación popular, de nuevas evitando que este se transforme em um
organizaciones marcadas por la “novo Leviatã” e que todo o processo
comuna y los consejos de los até hoje construído se perca.
diferentes sectores sociales
(trabajadores, estudiantes, mujeres, Karl Marx já alertava para a dificuldade
indígenas, etc.). Surgirá así un do processo revolucionário, para a
nuevo Estado socialista dirigido dificuldade de passar pelas diferentes
por y al servicio del pueblo, que fases da luta de classes a fim de
terminará por desplazar el viejo erradicar a velha ordem burguesa e
Estado burgués. (R. B. de fazer emergir uma nova sociedade. O
VENEZUELA. 2010a. p. 106-107 – autor afirmava que “as classes
grifos meus).
trabalhadoras sabem que têm de passar
Guilhermo Caviasca (2007) discorre a por diferentes fases da luta de classes”,
respeito do Estado venezuelano: sabem também que:
Las recientes propuestas de poder a substituição das condições
comunal esbozadas por Hugo econômicas da escravidão do
Chávez e impulsadas por los trabalho pelas condições do
sectores revolucionarios del trabalho livre e associado só pode
chavismo abren un universo ser o trabalho progressivo do tempo
práctico de perspectivas (essa transformação econômica),
interesantes en torno a la que isso requer não apenas uma
construcción de poder popular y su mudança da distribuição, mas uma

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nova organização da produção econômicos socialistas tornam-se,
(...) e o estabelecimento de sua pela primeira vez, factíveis como
harmoniosa coordenação nacional e um todo. (...) O único caminho,
internacional. Elas [as classes entretanto, no qual o momento
trabalhadoras] sabem que essa obra histórico da política radical pode
de regeneração será continuamente ser prolongado e estendido – sem,
atrasada e impedida pela resistência eis o ponto, recorrer a soluções
de direitos adquiridos e egoísmos ditatoriais, contra as intenções
de classe. (...) Mas elas sabem, ao originais – é fundir o poder de
mesmo tempo, que grandes passos tomada de decisão política com a
podem ser dados desde já pela base social da qual ele foi
forma comunal de organização alienado durante tanto tempo,
política e que é chegada a hora de criando, por esse meio, um novo
iniciar esse movimento para elas modo de ação política e uma nova
mesmas e para o gênero humano. estrutura – determinada
(MARX, 2011. p. 131-132 – grifos genuinamente pela massa – de
meus). intercâmbios socioeconômicos e
políticos. É por isso que uma
Ao que nos parece, são as Comunas as “reestruturação da economia”
maiores detentoras da potencialidade socialista só pode processar-se na
para o avanço do processo em curso na mais estreita conjugação com uma
Venezuela. Eis a proposta bolivariana: reestruturação política, orientada
atividades produtivas sob o comando pela massa, como sua necessária
dos trabalhadores associados, cujos precondição. (MÉSZÁROS, 2009.
excedentes devem ser investidos no p. 90 – grifos meus).
desenvolvimento da própria
Ainda que a experiência das Comunas
comunidade, sem extração de mais-
seja incipiente, sua existência surge
valia, dentro de um território político
como a efetivação de um longo
dotado de autonomia e também
processo de mudanças através da
regulado e administrado pelos
consolidação de reformas efetivamente
trabalhadores; ou seja, busca-se realizar
estruturais, cuja proposição toca em
a reconciliação da esfera da produção
dois dos três pés de sustentação do
com a esfera da política sob o
sistema sociometabólico do capital: o
controle do movimento
Estado e o trabalho assalariado. E por
revolucionário das classes
este motivo é uma proposta que parece
trabalhadoras. Proposta que se
fomentar a “democracia substantiva”,
aproxima muito daquilo que István
ou seja, uma “atividade
Mészáros tratou como uma
autodeterminada dos produtores
“reconstituição da unidade da esfera
associados tanto na política como na
material reprodutiva e política”, que
produção material e cultural”
seria, segundo o autor, “a característica
(MÉSZÁROS, 2002. p. 849), através da
essencial do modo socialista de controle
reconciliação entre ambas as esferas.
do metabolismo social”. (MÉSZÁROS,
2006. p. 104). Fica como imperativo histórico para o
Ainda segundo Mészáros: movimento bolivariano criar as
condições necessárias para que a
Para o nosso contexto atual, a experiência das Comunas possa se
verdade interna revela-se como a expandir e se fortalecer, a fim de
necessidade de reestruturação superar os padrões burgueses de
radical da própria política, pela qual
produção material e de sociabilidade.
a realização dos objetivos

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