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Pensar em Pensar

Podemos ver esse momento, como um dos momentos mais propícios para a
atitude mais importante e consciente do ser humano, a atitude de Pensar. Falo isso
porque vivemos em um tempo onde a tarefa de pensar é menosprezada. Tudo parece
nos chegar “mastigado”, pronto. A proposta de raciocinar é vista como cansativa,
desnecessária, estressante e que nos faz perder tempo.
Por isso chegamos aonde chegamos, momento de pandemia, de reclusão, de
convivência constante com nossos pares mais próximos. Fico pensando se estávamos
preparados para uma situação como essa, e olhando ao redor a resposta e clara. Não
estávamos preparamos politicamente, economicamente e muito menos
emocionalmente. Despreparados porque não pensamos, excluímos de nossas vidas a
tarefa de pensar sobre o que estamos pensando. E em momentos onde somos pegos
de surpresa com situações inesperadas, nos vemos abarrotados de medo, angústia,
desamparo, e a maioria parece perder o senso de direção.
Isso é resultado de nosso desinteresse em se esforçar um pouco mais na tarefa
de se conhecer. O autoconhecimento tão falado em redes sociais é mal compreendido,
como se o ato de se autoconhecer fosse somente questão de se olhar no espelho ou
assistir um vídeo curto motivacional que te ensina a se ver como um vencedor
indestrutível.
Engolimos essas exposições assim como comemos qualquer fast food, que
também nos ensinaram a não prestar atenção naquilo que comemos. O que importa é
somente o sabor.
Não estamos desesperados para o que o vírus desapareça, estamos
desesperados em ter nossas vidas de volta, vidas essas acostumadas a não pensar e
simplesmente aceitar tudo que nos é proposto, e assim vivemos com nossas ideias
mastigadas por outros que dominam nossa cultura e maneiras de agir.
Pensar é para fortes, para aqueles que se disponibilizam a entrar num estado
de transformação constante. Pensamos e agimos, nos tornamos mais conscientes de
nossas emoções e assim temos vidas mais interessantes. Não é a toa que a raiz da
palavra emoção é movimento.
Ser consciente não é somente abrir os olhos, podemos nisso de modo mais profundo.
Quando abrimos realmente nossos olhos nos confrontamos consigo mesmos, e isso
pode ser assustador, pois precisamos assumir coisas que não queremos. Precisamos, a
partir dessa conscientização, observar nossa postura diante de nós mesmos e do
mundo.
Que tipo de ser humano eu tenho sido? Esse é o tipo de reflexão que o ato de
Pensar nos leva, e não queremos isso porque da trabalho. Então chegamos a esse
ponto, de perdermos o rumo em meio a todo esse desastre social que estamos
vivendo, porque não conhecemos a nós mesmo, não sabemos até onde podemos
aguentar, não exercitamos nossa resiliência, nem nossa criatividade para nos
adaptarmos a novas maneiras de viver. Não fomos ensinados a fazer isso.
Também nos deparamos com a verdadeira face da convivência, que passar
tempo, muito tempo juntos. Começamos a nos enroscar na tolerância, ficamos
impacientes, então vem o desrespeito e a vontade de estarmos sozinhos, porque os
outros se tornam insuportáveis. Nós não. Nós somos perfeitos.
Não fomos ensinados a ter empatia.
Quando cuidamos de nossa saúde emocional aprendemos a realizar escolhas e
decisões mais conscientes, independente do resultado que teremos. Lidamos melhor
com os fatos que nos são apresentados e assim vivemos mais felizes, sabendo que
nossas vidas jamais serão livres de problemas, mas que também não serão
abarrotadas deles, e podemos sim construir algo relevante, quando isso é baseado em
valores reais e honestos, e com a motivação correta.
Seria muito interessante que nossos movimentos futuros fossem na construção
de pessoas mais cientes de si. Nosso sistema de educação deveria rever alguns
conceitos e incorporar temas de desenvolvimento sócio/emocional em seus currículos
escolares. Desde crianças nossa educação deveria envolver algo que nos ensinasse a
nos expressarmos melhor e sem recriminação. Nossas casas deveriam ser mais abertas
a discussão de temas como diversidade e convivência.
Não deveríamos ter chegado ao ponto de precisarmos de um vírus que nos
colocasse dentro de casa, e assim nos fazer lembrar que temos uma família, pessoas
que nos amam e a quem amamos. Uma pandemia nos tirou de nossa neurose, que
pode ser vista como coletiva, que nos levava todos os dias a passarmos nossas vidas
sem tempo de pensarmos em mais nada a não ser ganhar dinheiro e pagar boletos.
Desaceleramos para enxergar a paisagem, isso está sendo positivo pra aqueles que
estão prestando atenção na viagem.
Em época de crise, vence o mais forte, não no braço, mas no pensar. Pois até
mesmo aqueles que usam de sua força física para alcançar objetivos, precisam de se
organizar mentalmente para fazer o esforço correto.
Tudo começa com nosso desenvolvimento e senso de realidade, onde somos
levados a buscar o meio mais inteligente de se superar e conseguir algo. Isso tudo é
tarefa, mais uma vez digo, do ato de Pensar.
Podemos ser quem nós quisermos ser, aquilo que nos for mais confortável e
que não prejudica a vida de ninguém. E isso conquistamos nos livrando das fórmulas
prontas de desenvolvimento pessoal, onde tudo nos é colocado para que tudo se
realize da forma mais fácil possível.
Enfrentaríamos nossos medos e angústias se estivéssemos mais bem
preparados em lidar com a gente mesmo. Aí sim seria mais fácil, pois é bem mais fácil
enfrentar algo que temos ideia de como funciona. E nada melhor do que compreender
nossa dinâmica de vida. Compreender o modo como enxergamos o que nos rodeia
externa e internamente.
Por isso volto ao início deste texto, onde trouxe que estamos num momento
propício para exercitarmos nosso Pensar, contemplarmos nossa subjetividade através
de nossa autoanálise. Isso nos trará considerações importantes a respeito de nosso
consciente e quem sabe de nosso inconsciente também.
Entramos num período de quarentena totalmente desatentos ao mundo que
vivemos e como o vivemos. Estamos em meio a uma quarentena que nos coloca num
lugar onde não temos certeza nenhuma de como será o dia de amanhã. E poderemos
sair dessa quarentena melhores, porque soubemos utilizar melhor esse tempo, não
nos debatendo, mas pensando.