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ISSN 2448-1734

HUMANIDADES SERTANEJAS
Revista do Grupo de Pesquisa História, Sociedade e Etnociência. UESB-
CNPq

Volume 1 - Número 1 - 2016


ISSN 2448-1734

HUMANIDADES SERTANEJAS
Revista do Grupo de Pesquisa História, Sociedade e Etnociência. UESB-CNPq
Volume 1 - Número 1 - 2016
GRUPO DE PESQUISA HISTÓRIA, SOCIEDADE E ETNOCIÊNCIA-CNPq.
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO SUDOESTE DA BAHIA.
NUCLEAS/UERJ – Núcleo de Estudo das Américas.
Revista Humanidades Sertanejas.

V. 1, Abril 2016

Reitor UESB
Paulo Roberto Pinto Santos

Vice-Reitor
Fábio Félix Ferreira

Diretora do Departamento de Ciências Humanas e Letras

Francislene Cerqueira Alves

Centro de Documentação e Informação do Campus de Jequié

Maria Luzia Braga Landim

Coordenadores Revista

Maria Luzia Braga Landim


Claudio Lúcio Fernandes Amaral
EXPEDIENTE

Editor responsável

Maria Luzia Braga Landim

Conselho editorial

Alexis T. Dantas – UERJ/BR

Claudio Lucio Fernandes Amaral UESB/BR

Dejan Mihailovic – TEC/MONTERREY/MX

Edna Maria dos Santos-UERJ/IFCH

Maria Luzia Braga Landim - UESB/BR

Tiago Landim d´Avila UFBA/FIOCRUZ

Revisão

A revisão dos textos é de responsabilidade dos autores.


CATALOGAÇÃO NA FONTE

UESB/PERGAMUM

H918 Humanidades Sertanejas – Abril - 2016. Jequié – Bahia: UESB.


DCHL. CEDOIN. 2016.
V.1;
120 p. ilust.

Anual.
Inclui bibliografia.
ISSN 2448-1734

1. América Latina- Periódicos. 2. Ciências Sociais – Periódicos.


3. Etnociência - Periódicos I. Universidade Estadual do Sudoeste
da Bahia. II. Centro de Documentação e Informação de Campus
de Jequié.
CDD 980

Endereço eletrônico: mlblandim@msn.com


SUMÁRIO

Apresentação 6

MELHORAMENTO GENÉTICO PARTICIPATIVO: A UNIÃO ENTRE


AGRICULTORES TRADICIONAIS E MELHORISTAS VEGETAIS COMO PONTE
ENTRE O SABER POPULAR E O CONHECIMENTO CIENTÍFICO. 8
Prof. Dr. Cláudio Lúcio Fernandes Amaral.

REFLEXÕES SOBRE CULTURA, CRENÇA E CIÊNCIA. 31


Profa. Dra. Maria Luzia Braga Landim e Prof. Tiago Landim d´Avila.

MALINCHE, A MALDITA, REPRESENTAÇÃO SIMBÓLICA DO ÓDIO E


TRAIÇÃO NA HISTÓRIA MEXICANA. 50
Profª Drª Maria Teresa Toribio Brittes Lemos - UERJ

HIGIENIZAÇÃO DE MÃOS NA ENFERMAGEM: UMA REVISÃO SOBRE


CONCEITOS E PRÁTICAS. 71
Prof. Dr. Tiago Landim d’Avila, Acadêmicas UNIJORGE, Larisse Maria Ferreira Daltro;
Loiane França Pimentel.

O GOLPE MILITAR E A ECONOMIA BRASILEIRA. 80


Prof. Dr. FCE/UERJ - Alexis Toribio Dantas Prof. Dr. FCE/UERJ - Elias Jabbour.

A PRÁTICA PEDAGÓGICA SIGNIFICATIVA: UM OLHAR SOBRE AS CRIANÇAS


COM TRANSTORNO DE DÉFICT DE ATENÇÃO E HIPERATIVIDADE-TDAH. 84
Prof. Esp. UESB, Edleide Santos Assis.

LAZER E LUDICIDADE NO ENSINO-APRENDIZAGEM DAS ESCOLAS DE JEQUIÉ:


UMA PROPOSTA SOCIAL. 91
Acadêmico UESB Altair Batista de Oliveira.

O ENSINO DA HISTÓRIA DA CULTURA AFRO-BRASILEIRA NAS ESCOLAS DO


MUNICÍPIO DE JEQUIÉ-BAHIA. 98
Acadêmicas UESB, Caroline Alves Lopes, Jamile Menezes Santos, Poliana Carvalho Santos.

DESIGUALDADE SOCIAL E SAÚDE ENTRE IDOSOS BRASILEIROS: A


CONTRIBUIÇÃO DA FISIOTERAPIA PARA O BOM ESTADO DO INDIVÍDUO
LONGEVO. 106
Acadêmicos UESB, Brenaráise Freitas Martins dos Santos, Vileno Santos da Silva.
Apresentação

A Revista Humanidades Sertanejas, lançada em abril de 2016, pelo Grupo de Pesquisa


História, Sociedade e Etnociência, grupo certificado pela Universidade Estadual do Sudoeste
da Bahia, reúne estudos demarcados pelas linhas de pesquisa, e, tem como objetivo divulgar
os primeiros os resultados obtidos pelos participantes durante o ano de 2015.

Relacionadas às linhas de pesquisa, 1.Política e Cultura, 2.Educação Sociedade e


Linguagem, e 3.Etnociência, os estudos demonstrados pelo Grupo visam a conhecer os
contextos históricos e sociais de lugares recônditos da Região Sudoeste da Bahia, aprofundar
o conhecimento sobre as relações do homem, suas diversidades geográficas, climáticas e
culturais, imprimindo uma análise qualitativa da História e da Sociedade.

O Grupo de Pesquisa História, Sociedade Etnociência trata de questões vinculadas aos


povos, sociedades e culturas na América Latina, especialmente no Nordeste brasileiro, e têm
aproximado diversos profissionais e acadêmicos das ciências humanísticas e
interdisciplinares.

Debate as relações intrínsecas entre o global, regional e local, as estruturas culturais e


socioeconômicas considerando o impacto das novas mídias e tecnologias de produção,
distribuição, e consumo de produtos e serviços como fundamentais para o desenvolvimento
do sertão da Bahia.

Dessa forma, o Grupo tem realizado encontros regulares que culminam com o estudo
de temas transversais valorizando os princípios básicos da construção do conhecimento nas
populações humanas, seus ambientes, necessidades e possibilidades que resultam em
correlações entre a diversidade biológica e cultural.

As pesquisas publicadas no primeiro número da Revista Humanidades Sertanejas


evidenciam a necessidade de aprofundamento nos temas transversais que dizem respeito à
cultura, saúde e educação, e fatores que de certo modo podem impedir o desenvolvimento de
novas práticas políticas, econômicas e sociais.
Para tanto, apresentamos à comunidade, a primeira amostra pública do Grupo de
Pesquisa realizada em dezembro de 2015, no Campus de Jequié, quando foi evidenciada a
situação atual da questão nos dados coletados preliminarmente que serviram de embasamento
para a construção de quadros demonstrativos atualizados.

Propor metas e ações que disseminem informações e interaja com a sociedade por
meio de palestras, seminários, e amostras, por certo, desenvolverá o sentimento coletivo e o
espírito de cooperação nos indivíduos associados, e estenderá vantagens particulares à
sociedade, pelo ensino, pesquisa e extensão.

Os textos apresentados pelos participantes do Grupo de Pesquisa CNPq, História,


Sociedade e Etnociência, possuem opiniões e referências de responsabilidade de seus autores.

Os coordenadores.
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MELHORAMENTO GENÉTICO PARTICIPATIVO: A UNIÃO ENTRE


AGRICULTORES TRADICIONAIS E MELHORISTAS VEGETAIS COMO PONTE
ENTRE O SABER POPULAR E O CONHECIMENTO CIENTÍFICO

Cláudio Lúcio Fernandes Amaral, Pós-Doutor em Genética e Melhoramento de Plantas,


Professor Pleno do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade Estadual do
Sudoeste da Bahia e Líder do Grupo de Pesquisa em Biotecnologia Agrícola, Genética
Vegetal e Melhoramento de Plantas (PLANTGEN-UESB/CNPq).

RESUMO: O melhoramento participativo também conhecido como etnofitomelhoramento é


a inclusão dos conhecimentos, percepções, habilidades, experiências, práticas e vivências dos
agricultores, bem como de suas necessidades, preferências e exigências nos programas de
melhoramento genético dos melhoristas. No Brasil, há pouca, ou mesmo, falta literatura
disponível acerca melhoramento participativo de plantas medicinais, o que foi motivo de
inspiração para se ousar escrever sobre esta temática, no intuito de suprir tal deficiência;
tarefa árdua que enche de orgulho quem a realiza, no sentido de poder estar contribuindo para
ampliar o conhecimento nesta área de estudo tão excitante que é as plantas com propriedades
terapêuticas.
É um estudo bibliográfico, no qual se utilizaram fontes primárias e secundárias para a coleta
de dados. A partir da análise destes dados, constata-se que o melhoramento participativo
juntamente com a conservação on farm podem desempenhar um papel preponderante para
promover a sustentabilidade de regiões semi-áridas. Assim, este estudo traz uma revisão da
literatura atualizada sobre esta temática, com o objetivo de mostrar que os conhecimentos de
genética podem e devem ser adequados às estratégias de melhoramento participativo e
conservação on farm de plantas com propriedades terapêuticas.

ABSTRACT: The participatory crop breeding also known ethno-phyto-breeding is the


inclusion of knowledge, insights, skills, experiences, practices and experiences of farmers, as
well as their needs, preferences and demands in breeding programs of crop breeders. In
Brazil, there is little, or even lack literature available about participatory crop breeding of
medicinal plants, which was a source of inspiration to dare to write about this topic in order to
overcome this deficiency; chore that fills with pride who performs in order to be able to
contribute to expand knowledge in this so exciting area of study that is plants with therapeutic
properties. It is a bibliographical study in which we used primary and secondary sources for
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data collection. From the analysis of these data, it appears that the participatory breeding with
on farm conservation can play a leading role in promoting sustainability in semi-arid regions.
Thus, this study provides a review of current literature on this subject, in order to show that
genetic knowledge can and should be suited to participatory crop breeding strategies and on
farm conservation of plants with therapeutic properties.

1. INTRODUÇÃO

O melhoramento de plantas medicinais tem por objetivo melhorar o teor e a composição de


princípios ativos por métodos clássicos e modernos. Porém, há uma abordagem alternativa
que é a conservação on farm e o melhoramento participativo.
O melhoramento participativo é um componente do manejo da diversidade genética das
plantas que, por sua vez, consiste no resgate, avaliação, caracterização, seleção e conservação
dos recursos genéticos. Ambas as estratégias, melhoramento participativo e manejo,
desempenham importante função em comunidades de agricultura familiar onde são comuns os
problemas relacionados à fertilidade dos solos e a estresses nutricionais, entre outras
limitações ambientais (MACHADO et al.; 2002).
Esta modalidade de melhoramento começou a ser delineada no início da década de 1980 e
apresenta como ingrediente fundamental, a inclusão dos conhecimentos, habilidades,
experiências, práticas e preferências dos agricultores. Baseia-se nos conhecimentos da
genética vegetal convencional, da fitopatologia e economia, combinado-os com os da
antropologia, sociologia, conhecimento dos produtores e com os princípios da pesquisa de
mercado e desenvolvimento de produtos (EYZAGUIRRE &, IWANAGA, 1996; SOLERI &
SMITH, 2002).
A produtividade é expressa pelos caracteres quantitativos envolvendo o teor e, pelos
qualitativos, a composição de princípios ativos e seus principais constituintes químicos, tais
como: os alcalóides (Vincristina e Vimblastina) de Catharanthus roseus (Vinca), os
flavonóides de Calendula officinalis (Calêndula), os glicosídeos (Digoxina e Digitoxina) de
Digitalis spp. (Dedaleiras), as mucilagens de Aloe spp. (Babosa), os óleos essenciais
(Chavicol, Eugenol, Estragol e Timol) de Ocimum spp. (Alfavaca, Manjericão) e (Mentol) de
Mentha spp. (Hortelã) e os taninos de Stryphnodendron spp. (Barbatimão). (PALEVITCH,
1991; MARTINS et al., 1994;. VENCOVSKY, 1986).
Em se tratando de conservação on farm e melhoramento participativo tem-se que os
agricultores experimentam suas populações, escolhendo as superiores e fazem experiência de
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selecioná-las, separando-as das inferiores, colhendo as sementes das plantas-alvo ou obtendo


propágulos vegetativos a partir delas, cultivando-as, geração após geração, em suas fazendas,
sítios, chácaras, hortas, jardins e quintais.
Neste processo, a tomada de decisão envolve as ações de cultivar, manejar, colher, processar,
utilizar, transportar, armazenar, distribuir e comercializar, as quais refletem direta ou
indiretamente no o que, como, onde, quando, quanto e porque fazer o plantio de uma ou
outra espécie, população, variedade, cultivar e híbrido? Estas atividades são essenciais para a
pesquisa e o desenvolvimento, a extensão e a implementação e o monitoramento e a
avaliação.
A conservação racional e a utilização sustentável da biodiversidade devem envolver o
levantamento florístico regional, bem como a preservação da diversidade biológica
remanescente, além da restauração daquela em extinção ou ameaçada, seguido pela promoção
da agricultura alternativa e do desenvolvimento sustentado e ainda a criação da riqueza a
partir dos produtos biológicos.
Deste modo, espera-se que as plantas medicinais retornem ao arsenal terapêutico, recebendo a
devida importância científica para contribuir com o equilíbrio da saúde humana. Apesar de
não ser possível relatar todos os casos, exemplos criteriosamente selecionados com plantas
encontradas na composição florística das matas, campos, hortas e jardins, serão abordados por
representarem interesse popular ou comercial, tanto em nível empresarial, quanto industrial.
Neste contexto, esta revisão bibliográfica tem como objetivo abordar as perspectivas, os
avanços, os desafios e as oportunidades desta relevante área para a conservação e utilização
das espécies que além de serem medicinais, podem ser aromáticas e condimentares; das quais
os produtos comerciais obtidos são, respectivamente, fármacos, perfumes/cosméticos e
temperos.
2. METODOLOGIA

Para coleta de dados, foi realizada, quanto aos procedimentos técnicos, uma pesquisa
bibliográfica, segundo critérios definidos por Gil (2002), fazendo uma leitura seletiva, a qual
teve como instrumentos de análise artigos, livros didáticos, dissertações, teses, projetos e
navegações pela internet, a fim de identificar os textos que abordam o estudo do
melhoramento genético participativo e conservação on farm, fazendo uma reflexão sobre
perspectivas, avanços, desafios e oportunidades desta importante área do conhecimento.
Posteriormente, foi realizada uma leitura analítica e, por fim, uma interpretativa.
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3. REFLEXÕES

3.1. PERSPECTIVAS:
O repertório dos genes aproveitados pelo fitomelhoramento por meio de sucessivos ciclos de
seleção e hibridação e, pela biotecnologia, via transgenia, compreende, em última instância, as
espécies cultivadas e silvestres aparentadas encontradas dispersas pelos países ou nações.
Assim, deve-se preocupar em recolher e preservar este germoplasma.
Trata-se de atividade essencial, pois com o avanço da agricultura e pecuária, as raças ou
variedades crioulas, primitivas ou tradicionais tendem a desaparecer, principalmente, devido à
exploração irracional de certas áreas de ocorrência, o que leva a perda de material genético de
maneira irreversível, com prejuízos e efeitos perigosos para o futuro da manipulação genética
das espécies de interesse agronômico e, conseqüentemente, da humanidade.
As espécies agrícolas são frutos da mutação, fluxo gênico, deriva genética e seleção natural.
Em alguns destes fenômenos, é possível demonstrar a importância da participação humana
direta ou indireta, o que influencia os processos de desenvolvimento das culturas, de maneira
que as opiniões, decisões e ações dos agricultores fazem com que a variedade seja cultivada
ou desprezada. No caso de plantas medicinais, o melhor termo seria etnovariedades,
abrangendo vários morfotipos que podem ou não representarem os diversos quimiótipos.
O valor potencial de etnovariedades para o desenvolvimento de uma agricultura sustentável
não estaria apenas na decodificação de
informação contida no DNA destas etnovariedades, mas no fato de existir todo um
conhecimento sobre sua seleção, propagação, coleta e armazenamento de sementes,
crescimento, valores culturais e usos (CLEVELAND et al., 1994).
Os produtores, geralmente, preferem o policultivo, isto é, a diversidade genética inter e
intraespecífica significando, respectivamente, muitas culturas com uma variedade ou uma
cultura com muitas variedades ao monocultivo, ou seja, a ausência de variabilidade genética,
representando uma cultura com uma variedade. Assim, conservam a biodiversidade por ser
uma questão de sobrevivência e perpetuação da própria espécie.
A escolha dos agricultores pela opção de diversificar suas espécies nos cultivos de suas
lavouras visa atender as diferentes exigências dos consumidores pelos recursos genéticos para
suprirem suas necessidades face à alimentação, saúde, moradia, vestimenta, lazer etc. Além
disto, permite restringir as limitações impostas aos cultivos por fatores bióticos (Pragas,
Doenças, Ervas Daninhas) e abióticos (Cheia, Seca, Calor, Frio, Salinidade, Metais Pesados,
etc).
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Os fatores que afetam as opiniões, decisões e ações dos produtores

são: aceitação dos consumidores, produtividade, valor dos produtos, derivados e insumos
agrícolas e perdas causadas por fatores ambientais estressantes. Eles interferem na estrutura
genética das culturas e no meio onde as lavouras encontram-se inseridas de tal forma que, ao
abandonar, substituir ou eliminar variedades, ocorre a perda de genes, em conseqüência, a
erosão genética, culminando na redução da biodiversidade, afetando funções ecossistêmicas
vitais para a saúde ambiental.
A conservação on farm é o contínuo plantio pelos agricultores de suas culturas, safra após
safra, no campo, sob a forma de lavouras. A cada ano, os produtores guardam uma parte de
suas sementes para a próxima safra e a outra parte é destinada à subsistência, sendo que, em
alguns casos, o excedente é utilizado para troca e/ ou venda.
No local de plantio, a cultura está constantemente sendo submetida à seleção por ação
antrópica ou da própria natureza, portanto em evolução dirigida ou não pelo homem. A
seleção é feita no local onde a variedade será cultivada, o que implica em dizer que a
interação genótipo x ambiente é positiva.
O melhoramento do germoplasma é no e, não; para o local de cultivo. Efetivamente,
conserva-se o meio ambiente, isto é, os processos ecológicos de suporte à vida e ao
agroecossistema, as espécies, ou seja, a unidade de seleção evolutiva natural ou artificial,
representando a própria cultura agronômica e, finalmente, os genes, os fatores que codificam
para as características de interesse agronômico, conduzindo à sobrevivência, bem como à
reprodução pelo cultivo e replantio através de gerações.
Os materiais vegetais utilizados possuem adaptação às condições locais de plantio, além de
serem amplamente empregados pelos produtores, aumentando a aceitabilidade dos produtos
pelos consumidores. A adaptação é no tempo e espaço, pois ano após ano a variedade é
testada na área utilizada.
Este processo constitui-se na preservação sítio - específica de recursos genéticos, permitindo
resgatar o germoplasma tradicional, revitalizando a biodiversidade agrícola na comunidade
regional, refletindo no registro do conhecimento etnobotânico sobre o material cultivado no
que tange a valorização da memória cultural do povo. Os produtores são os verdadeiros
guardiões dos recursos genéticos vegetais. Sendo, portanto, a estreita ligação entre
conservação e utilização das culturas agronômicas pelos agricultores, podendo ter a interativa
participação efetiva com os pesquisadores. Suas ações focam-se em conservar parte, isto é, a
agrobiodiversidade, (Conservação On Farm) e/ ou em preservar todo o sistema agrícola
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tradicional, ou seja, a valorização do homem, da lavoura, da prática agrícola e do manejo


cultural (Gerenciamento On Farm).
O melhoramento participativo é a inclusão dos conhecimentos, preferências, habilidades,
experiências, práticas e vivências dos agricultores aos programas de melhoria enética
qualitativa (Mais Freqüente) e quantitativa (Menos Freqüente) dos pesquisadores.
É fruto de ações colaborativas que envolvem o efetivo envolvimento de agricultores e
pesquisadores, sendo feito ao evocar a participação ativa dos lavradores no processo de
melhoramento do início ao fim, o qual compreende selecionar a espécie, estabelecer o
objetivo, hibridizar as gerações parentais e obter as filiais com ou sem retrocruzamentos. Por
outro lado, o que se verifica na prática, é a atuação dos colaboradores em, apenas e tão
somente, algumas fases, mas não em todas as etapas.
O trabalho em conjunto ocorre, pois a maior parte dos recursos genéticos vegetais está sob a
custódia dos agricultores e de seus familiares que os manejam nem sempre de maneira
adequada, alterando-lhes ao longo de séculos e séculos de contínuo plantio de suas lavouras.
Os agricultores passam de usuários dos processos, serviços e produtos gerados para parceiros,
enquanto os pesquisadores, de produtores de ciência, tecnologia e inovação para
colaboradores. Esta labuta envolve várias atividades, dentre elas tem-se:
a) - Identificação pelos pesquisadores dos principais critérios de seleção das variedades
adotados pelos agricultores que decidem se elas serão mantidas e utilizadas ou descartadas e
não conservadas,
b) - Incorporação dos parâmetros elencados e ranqueados pelos agricultores aos programas de
melhoria genética dos pesquisadores,
c) - Promoção do envolvimento dos agricultores no processo de seleção das variedades
oferecidas pelos pesquisadores,
d) - Apropriação mais rápida, por parte dos agricultores, das variedades geradas pela
associação com os pesquisadores,
e) - Redução do tempo despendido entre a geração e a adoção das novas cultivares,
f) - Difusão das variedades entre os vizinhos por meio da compra, venda ou troca de
germoplasma sob a forma de sementes ou mudas,
g) - Avaliação dos pesquisadores junto com os agricultores da utilidade das cultivares já
desenvolvidas,
h) - Validação da adaptação geral e específica de um de dado genótipo em particular, sob os
diversos sistemas de cultivo existentes,
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i) - Absorção de melhor conhecimento por parte dos pesquisadores dos sistemas de produção
em uso pelos agricultores,
j) - Criação de um canal efetivo de intercâmbio de experiências entre agricultores e
pesquisadores,
l) - Multiplicação pelos lavradores com ampliação da variação de fenótipos / genótipos dos
cultivos regionais e condução dos trabalhos de pesquisa participativa com diversas
variedades em vários ecossistemas locais.
Na conservação on farm e no melhoramento participativo, os agricultores são o alvo das
atenções, participam de forma ativa desenvolvendo suas próprias tecnologias com a ajuda dos
pesquisadores que atuam como colaboradores ativos. As culturas agronômicas são manejadas
com baixo aporte de insumos agrícolas, de modo que se modifica a variedade para que ela
possa se adaptar ao local de plantio e não se altera o meio para ajustá-lo ao cultivar, portanto,
a interferência do homem no sítio de cultivo é menor, causando menos impacto ambiental.
Os agricultores são profundos conhecedores de suas culturas agronômicas, avaliando
constantemente suas lavouras e cultivando diversos materiais de várias procedências. Assim,
são fontes de informações preciosas para os pesquisadores. Eles reconhecem, por suas
experiências em decorrência de suas vivências no campo, variedades com diversas
performances em variados meios de cultivo sob uma gama enorme de condições
agroecológicas.
Eles permitem que ocorra a livre polinização entre plantas, favorecendo a produção de
híbridos com enriquecimento da agrobiodiversidade ou, para impedir a mistura, a evitam;
separando um indivíduo de outro, ao afastá-los, estimulando a autopolinização, promovendo a
formação de linhagens, constituindo novas populações de parentais para futuros cruzamentos.
Como exemplo de plantas predominantemente autógamas, tem-se: catharanthus roseus
(Vinca), Ocimum basilicum (Manjericão) e Ocimum selloi (Alfavaca) e, de alógamas, tem-se:
Apium graveolens (Aipo), Cynara scolymus (Alcachofra), Foeniculum vulgare (Funcho),
Helianthus annuus (Girassol), Petroselinum crispum (Salsa), Rheum officinale (Ruibarbo) e
Rosmarinus officinalis (Alecrim).
A seleção é realizada quando as sementes que foram obtidas de uma safra e guardadas, são,
em outra, cultivadas. A intensidade seletiva é alta se poucas plantas são escolhidas e, baixa, se
muitas plantas são selecionadas.
Os pesquisadores podem documentar o fluxo de sementes que entram e saem do campo via
coleta, troca, compra e venda de material vegetal entre agricultores de várias áreas e de
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diversas localidades. Não se pode deixar de mencionar que além das variedades tradicionais,
há as modernas, cujas sementes são obtidas livremente em mercados locais.
Serão escolhidos pelos pesquisadores, os agricultores que demonstrarem predisposição em
colaborar e possuirem conhecimento sobre a prática agrícola e o manejo cultural (Destaca - se
o Ser Humano); os locais de plantio que apresentarem diversidade intra e interespecífica
(Enfatiza-se o Ecossistema) e as culturas agronômicas que apresentarem valores sócio -
econômicos para os membros da comunidade e não tendo sido ainda alvo de programas de
conservação (Valoriza-se as Espécies e os Genes) (ALMEKINDERS et al., 1994).
Com a ajuda dos cientistas, os lavradores vão agregar valor a seus produtos, portanto gera-se
renda e melhora a sua qualidade de vida e a de seus familiares. Cabe evidenciar que para isto
devem ser considerados os seguintes fatores, quais sejam: tipo genérico, faixa etária, grau de
escolaridade, classe social, posse da propriedade e opção religiosa dos atores colaboradores. É
muito importante também destacar o sentido de pertença, a noção de envolvimento verdadeiro
e a visão de informação compartilhada entre eles.
3.2. DESAFIOS:
A biodiversidade constituída por, principalmente, os recursos genéticos, está a cada dia se
tornando um dos elementos mais promissores para a sobrevivência dos seres humanos, o que
sobremaneira justificaria sua preservação. Esta pode ser feita por meio de unidades de
conservação, as quais são de uso direto, se representadas por áreas de proteção ambiental e
reservas extrativistas e, de uso indireto, se representadas por parques federais, estaduais e
municipais, reservas biológicas e estações ecológicas.
A conservação do germoplasma de plantas medicinais é, extremamente, relevante, pois
garante a sobrevivência de espécies ameaçadas de extinção devido à erosão genética causada
pelo desmatamento exacerbado, extrativismo desenfreado, aculturação dos povos e
vulnerabilidade genética.
A importância dos recursos genéticos vegetais, em especial as plantas medicinais, é
reconhecida nacional e internacionalmente, e sua preservação pode ajudar a solucionar
problemas de saúde humana e ambiental. O material vegetal pode ser mantido por
conservação ex situ e in situ. A primeira corresponde à manutenção do germoplasma fora do
seu ambiente original, longe da comunidade à qual pertence, principalmente, por ação do
homem. A decisão de se retirar à espécie de seu habitat natural, levando - a para o meio com
condições artificiais é baseada na estimativa de seu valor potencial e depende de
conhecimento suficiente sobre seu manejo para garantir sua sobrevivência emsituações
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controladas. Nela é exercida, a ação antrópica, com os métodos empregados de cultivo e tratos
culturais, condicionados a espaço e tempo disponíveis para executar este manejo.
A segunda se traduz na manutenção das populações no ambiente em que estão adaptadas,
dentro da comunidade à qual pertencem. Envolve a proteção do habitat, além de permitir a
manutenção da diversidade genética e a evolução das espécies. A decisão de não se retirar à
espécie de seu habitat natural é para garantir a proteção de seus genes, pois, às vezes, faz-se
necessário para tal fim, preservar todo o seu ecossistema, tendo como força seletiva atuando
sobre ela, fatores diversos e adversos.
Esta modalidade de conservação é feita por meio de "reservas genéticas" que são unidades
dinâmicas que permitem o manejo adequado do germoplasma. São os seguintes os critérios
utilizados para a determinação se uma espécie é alvo deste tipo de conservação: distribuição
ecológica restrita, baixas densidades populacionais, reduzida capacidade de regeneração
natural, alto nível de exploração econômica e inexistência de cultivos estabelecidos, além do
habitat está vulnerável ou ameaçado.
Os recursos genéticos são representados pelas espécies cultivadas mais as silvestres que
oferecem genes às lavouras, por hibridação, via fluxo gênico, as doenças e pragas que forçam
a expressão de novas combinações alélicas e mutantes resistentes, e, finalmente, as ervas
daninhas que pressionam a adaptação fenotípica à competição; podendo estimular a co -
evolução. Enfatiza-se ainda, a atuação de componentes ambientais estressantes.
Dentro deste contexto, insere-se a conservação on farm, uma vez que a espécie cultivada está
sendo mantida em seu habitat original, ou seja, seu local de plantio; experimentando tanto a
seleção natural quanto a artificial, portanto em evolução permanente. Assim, caracteriza-se
por ser o contínuo plantio das culturas ou sua manutenção, safra após safra, no campo, sob a
forma de lavouras, pastagens e florestas.
Os agricultores podem descartar ou preservar suas variedades. Se ela é útil, de forma direta ou
indireta, é mantida; caso contrário, se não traz qualquer benefício ou vantagem; é eliminada.
Portanto, se ela tem produtividade associada à estabilidade de rendimento, ela é conservada
(Adoção). Se ela não tem nem produtividade, nem estabilidade de rendimento, ela não é
preservada (Rejeição). Por outro lado, às vezes, para os pequenos agricultores,
principalmente, aqueles envolvidos na agricultura familiar, que primam sobretudo, pela
sobrevivência, estabilidade é preferida à produtividade.
Uma cultura somente é conservada sob o cultivo safra após safra se ela for mais competitiva
que outra, contribuindo para a segurança alimentar de produtores e consumidores, pois se há
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demanda pelos produtos deve haver oferta e, obviamente, verifica-se a possibilidade de novos
mercados.
De acordo com as tradições, costumes e hábitos dos agricultores uma variedade / cultivar com
alto rendimento pode ser descartada se não atender às preferências dos produtores /
consumidores locais. Ao não se eliminar uma planta que não produz bem ou que não tenha
forma, sabor, volume, aroma e textura aceitáveis no mercado, está diminuindo-se o risco das
perdas por extinção e garantindo a segurança alimentar dos agricultores e de seus familiares.
A importância das espécies que não foram abandonadas é dada pela intensidade, tipo e
multiplicidade de uso, grau de facilidade ou dificuldade de substituição de uma cultura por
outra, memória e persistência de uso em relação a mudanças culturais, papel em ritual,
cerimônia, folclore ou como simbolismo. Portanto, cabe enfatizar a influência do componente
sócio - político - econômico e cultural na preservação da agrobiodiversidade.
Um problema a ser enfrentado é a manutenção de genótipos inferiores pelos agricultores e o
outro é substituição de uma variedade primitiva ou obsoleta por outra moderna. O primeiro
reduz a resposta genética resultante da seleção, pois indivíduos não eliminados mantêm sua
contribuição ao fluxo gênico, essencialmente, reduzindo a intensidade de seleção, isto
explicaria a domesticação ser tão lenta, justificando assim a colaboração dos pesquisadores
aos agricultores. O segundo conduz a erosão genética pela perda de variabilidade genética, a
matéria - prima básica da evolução e do melhoramento vegetal por seleção seguida de
hibridação e vice - versa.
Cabe enfatizar que agricultores tradicionais freqüentemente mantém suas variedades antigas
mesmo tendo à disposição variedades modernas, em função de características ecológicas,
sociais e econômicas do ambiente local muito próprias (Bellon, 1996).
Os pesquisadores devem interferir o mínimo possível junto aos agricultores, os melhoristas
podem simplesmente monitorar as práticas de cultivo e manejo dos recursos genéticos, para
garantir a manutenção da variabilidade genética, somente intervindo se houver risco de
abandono do germoplasma com conseqüente erosão genética; fazendo o que for possível para
contornar está situação.
As exigências dos agricultores podem diferir das prioridades dos pesquisadores, pois os
melhoristas freqüentemente não incluem a precocidade como uma característica essencial no
desenvolvimento dos ideótipos, porque ela está geralmente associada à baixa produtividade,
mas os camponeses sim, principalmente, os produtores com menor poder aquisitivo com uma
área reduzida de cultivo que produz pouco, porém rápido e mais vezes.
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Na pesquisa descentralizada e na participativa, há seleção dos agricultores nos campos (A


Igualdade). Já na descentralizada, há seleção dos pesquisadores nos campos e, na
participativa, há seleção dos agricultores em área experimental representada pela estação de
pesquisa institucional (A Diferença).
A seleção pode ser feita ou não no local onde a variedade será cultivada, o que se verifica é
que o germoplasma é melhorado em um sítio e cultivado em outro, o que implica em
interação genótipo x ambiente negativa.
Uma vez que a interação genótipo x ambiente constitui-se fator complicador ao
fitomelhoramento, as variedades com altas médias de produtividade a múltiplos sítios de
cultivo são selecionadas. Assim, variedades com uma performance relativamente "boa" a
alguns, mas nem todos locais onde foram testadas, são eliminadas juntos com as de
desempenho "ruim". Variedades com "boa" performance em locais desfavoráveis e "ruim"
desempenho em sítios favoráveis são também descartadas devido a baixas produtividades,
sendo que podem ser ideais para os pequenos agricultores em áreas marginalizadas de países
em desenvolvimento, especialmente, aqueles que associam-se à agricultura familiar.
Há interesses comuns entre os agricultores nas comunidades rurais. Entretanto, as condições
sócio - econômicas e culturais não são iguais entre eles. Portanto, seus conhecimentos sobre a
prática agrícola e o manejo cultural são variáveis. Contudo, as soluções para os problemas
comunitários devem resultar de consensos entre os seus membros. Desta forma, o projeto de
conservação on farm e melhoramento participativo deve ser elaborado com o envolvimento de
todos os atores, sendo baseado em soluções a serem dadas aos problemas fitotécnicos da
comunidade trabalhada. A identificação pelos pesquisadores em conjunto com os agricultores
dos problemas como o desemprego elevado e a pobreza acentuada que podem ser
solucionados pela geração de emprego e renda, por meio da utilização de espécies mais
produtivas sob condições adversas, poderá levar ao compartilhamento entre ambos das
decisões relativas às características das novas variedades a serem produzidas conforme as
necessidades das populações negligenciadas pela sociedade em geral, composta por pequenos
agricultores marginalizados pelo sistema capitalista vigente.
Para ocorrer à cooperação, devem existir laços de confiança mútua estabelecidos pelos atores
locais e profissionais envolvidos, via análise conjunta dos problemas existentes na
comunidade agrícola e de suas possíveis soluções, de modo a atender as necessidades
prioritárias dos agricultores.
As dificuldades em se obter a participação efetiva dos agricultores são devidas a diferentes
pontos de vista, níveis de conhecimento, métodos e técnicas, necessidades, instrumentos,
19

equipamentos e ferramentas, etc. Para reverter esta situação é preciso identificar os prováveis
colaboradores em potencial, justificar a importância dos procedimentos metodológicos para os
diferentes atores envolvidos no processo de tomada de decisão, realizar uma discussão ampla
sobre o projeto com os seus co- executores, definir os níveis de participação dos parceiros do
trabalho e conduzir exercício participativo com os colaboradores.
O conhecimento tradicional configura-se em vários planos, sendo fragmentado, difuso e
resultante de interações descontínuas entre atores internos quanto externos às comunidades.
Os pesquisadores enquanto agentes externos são participantes efetivos, iniciadores,
estimuladores, facilitadores, mediadores e catalizadores. Os agricultores como agentes
internos são participantes ativos, experientes, criativos e inovadores.
Acomodações, negociações e conflitos entre participantes surgem, normalmente, devido a
interesses distintos dos envolvidos, portanto, a intervenção deve ser administrativa com
aprendizagem dinâmica e adaptativa planejada com recursos negociáveis, a partir do trabalho
colaborativo com diálogo responsável, permitindo negociar propostas; melhorando a
qualidade das decisões, uma vez que as pessoas envolvidas conhecem de perto, via convívio
com a cultura, suas principais características.
O processo de ensino - aprendizagem encontra-se sempre em aberto, sendo que a
compreensão das ações, causas e efeitos da pesquisa se dá pela interação entre os diferentes
atores envolvidos.
Para que se chegue a um futuro melhor, devem ser enfrentados, os seguintes desafios, quais
sejam: o de gerar tecnologia que nos aproxime dos países prósperos. E, não menos
importante, é o de diminuir a desigualdade social e a concentração de renda. O que a questão
do melhoramento genético de plantas medicinais pode contribuir nestes desafios? Como fonte
para pesquisas e geração de tecnologias para produção de substâncias que servirão de matéria-
prima para a indústria farmacêutica a partir de cultivos racionais, evitando o extrativismo puro
e simples.
O uso de plantas medicinais produtivamente mais estáveis, aumentando a confiabilidade da
fitoterapia nas diferentes regiões do país, constitui-se também em um grande desafio a ser
superado. Portanto, cabe salientar que a formação de centros de pesquisa no desenvolvimento
de cultivares adaptadas às necessidades de cada região é uma realidade a ser alcançada, uma
vez que a produção de princípios ativos é imensamente variável em função do local de
cultivo.
As plantas medicinais são encontradas por todo o Brasil, tendo o cultivo facilitado em locais
com comunidades mais pobres, como por exemplo o Nordeste; não necessitando, por
20

conseguinte, de grande dispêndio para esta cultura; além do que, a maioria das espécies estão
próximo ao estado silvestre, o que possibilita a seleção de cultivares para estas condições.
Consequentemente, à utilização dos recursos vegetais, tais como: as plantas medicinais, deve-
se seguir a conservação.

3.3. AVANÇOS:
A seleção varietal implica na tomada de decisão pelos agricultores em manter, incorporar ou
descartar os cultivares, como resultado, tem-se a diversidade das variedades no campo, sob a
forma de lavouras. Assim, a variabilidade genética poderia aumentar se houvesse mais adoção
do que rejeição de germoplasma. As variedades podem ser adquiridas pela compra ou via
troca de sementes entre produtores, sendo mantidas por cultivo.
Os produtores continuamente avaliam suas lavouras. Em um momento, procuram saber como
as culturas agronômicas desempenham-se com base em um único critério de seleção, em
outro, ranqueiam a performance destas, face a cada um dos diferentes parâmetros escolhidos.
Finalmente, testam uma contra a outra. Assim, é para toda e qualquer espécie agrícola,
inclusive as plantas medicinais.
Os interesses dos fazendeiros variam com base em seus perfis sócio- econômicos e culturais e
nas condições agroecológicas de suas fazendas, sítios, chácaras, etc. Desde que as ansiedades,
desejos, necessidades e prioridades dos agricultores alteram-se no tempo e modificam-se no
espaço, tem-se que a performance de uma variedade para um traço pode ser "ótima" e para
outro "péssima". Portanto, é sabido que diversas variedades são mantidas sob cultivo, de tal
forma que umas complementariam as outras.
Esta variabilidade genética constitui-se em fonte estratégica de germoplasma, entretanto, seu
valor apresenta-se aparentemente reprimido pelo desconhecimento de suas possibilidades
sócio - econômicas para o agronegócio loco - regional, o que remete a necessidade de se
realizar pesquisas nesta área de infinitas possibilidades e oportunidades.
Os produtores selecionam as variedades a serem cultivadas e destas escolhem as sementes que
irão compor a próxima safra. Eles as mantêm separadas para garantir a integridade da espécie,
a qual pode ser perdida por hibridação, o que não é problema para as autógamas e as de
propagação vegetativa, mas sim para as alógamas. Cabe enfatizar que há plantas que são
intermediárias entre auto (fecundação) polinização e polinização (fecundação) cruzada.
No melhoramento, busca-se com a reprodução sexuada a variabilidade genética, que é
explorada na tentativa de se selecionar genótipos superiores em detrimento dos inferiores.
Para fixação dos genótipos desejáveis, usa-se a reprodução assexuada, no intuito de se evitar a
21

perda dos caracteres desejados, caso fossem sexualmente propagados; portanto, ambos os
modos de reprodução têm sua devida importância para a melhoria genética de plantas.
As espécies medicinais que apresentam reprodução sexuada são: Artemisia annua
(Artemísia), Bauhinia forficata (Pata-de-Vaca), Calendula officinalis (Calêndula),
Foeniculum vulgare (Funcho) e Plantago major (Tanchagem); sexuadas e assexuada são:
Ocimum spp. (Alfavaca, Manjericão), Rosmarinus officinalis (Alecrim) e Ruta graveolens
(Arruda) e assexuada são: Achillea millefolium (Mil - Folhas), Aloe vera (Babosa), Mentha
pulegium (Poejo) e Mikania glomerata (Guaco). Há espécies que se reproduzem por
apomixia, tais como: Cymbopogon citratus (Capim-Cidreira) e Hypericum perforatum
(Hipérico). Sobre o sistema reprodutivo e seus mecanismos, cabe dar ênfase a trabalhos com
Artemisia annua (Ferreira e Janick, 1995) e Ocimum selloi (Amaral et al., 1996).
As variedades desenvolvidas pelos agricultores são distintas das que foram criadas pelos
melhoristas, pois não podem ser patenteadas, o que também é válido para as plantas
aromáticas, condimentares e medicinais. Para serem oficialmente registradas, elas teriam que
possuir estabilidade, uniformidade e homogeneidade genética. Estes critérios dificilmente são
preenchidos para as variedades tradicionais com suas sementes crioulas por terem ampla
variabilidade genética, portanto, seu uso legal torna-se praticamente impossível, o que é
lamentável em neste país.
A informação é, geralmente, transmitida de um agricultor para o outro através das gerações. A
comunicação entre produtores é fundamental para a manutenção da biodiversidade agrícola,
pois facilita a determinação de práticas mais eficientes de manejo do germoplasma disponível,
ao difundir os conhecimentos tradicionais obtidos para fins tanto conservacionistas quanto
utilitaristas.

3.4. OPORTUNIDADES:

No processo de conservação on farm e melhoramento participativo, toda a atenção é voltada


para o desenvolvimento tecnológico e sócio - econômico dos agricultores com parcos recursos
financeiros, os quais apresentam as seguintes características em comum: realizam agricultura
familiar, ocupam áreas marginais, dedicam-se às culturas de subsistência, dispõem de
pequenas áreas, usam pouca ou nenhuma tecnologia, têm difícil acesso a novas variedades
adaptadas a seus sistemas de cultivo e são resistentes à ideia de mudanças em seus sistemas de
produção.
22

A pesquisa genética participativa serve para garantir o acesso ao germoplasma disponível e


maior controle pelos agricultores do material vegetal sob a forma de variedades e / ou
cultivares por eles utilizadas; melhorando, sobremaneira, as condições de vida destes em áreas
marginais, proporcionando-lhes inclusão social e cidadania pela independência econômica;
preservando a diversidade biológica em todos os seus níveis, quais sejam: espécies, genes e
ecossistemas, estimulando a adaptação das culturas aos locais de plantio e mantendo a
contínua evolução das espécies - alvo que sofrem paulatinamente as pressões seletivas por
parte de fatores bióticos e abióticos.
A melhor estratégia para a conservação racional e utilização sustentável da
agrobiodiversidade é investir no "empowerment" da comunidade local, afim de se obter
sistemas agrícolas mais produtivos, estáveis e sustentáveis, pois os métodos científicos
convencionais e os arranjos institucionais obsoletos nem sempre são eficientes para se lidar
com a complexidade embutida nos fatores biofísicos e sócio - políticos que resultam na erosão
genética pelo extrativismo do germoplasma.
Atualmente, tem-se observado uma crescente confiança das sociedades industrializadas nos
remédios naturais, baseados nos conhecimentos tradicionalmente difundidos pela medicina
popular, fato que aumenta a demanda destes insumos sem que se observem, no entanto,
iniciativas de cultivo daquelas espécies mais utilizadas.
Vários são os exemplos de espécies medicinais brasileiras, em que laboratórios internacionais
possuem domínio da tecnologia de produção, como é o caso do jaborandi, dos quais se
extraem a pilocarpina. Este princípio ativo não pode ser sintetizado, por sua síntese não ser
economicamente viável, sendo assim, como acontece com diversos outros fármacos, ele deve
ser extraído diretamente das plantas.
A exploração de recursos genéticos de plantas medicinais no país encontra-se relacionada, em
grande parte, a atividades extrativistas baseadas em coleta extensiva de material silvestre, com
baixo aproveitamento e considerável desperdício. Muitas plantas até hoje são extraídas de
florestas e matas.
Este extrativismo pode levar muitas das espécies medicinais à extinção, isto é, no futuro
diversas plantas que os ancestrais conheciam poderão não existir mais. Também, plantas
obtidas desta forma, em geral, apresentam grande variação na sua constituição química de
suas substâncias, dadas as diferentes condições ambientais em que são coletadas.
A proibição da importação de ervas e seus derivados gerou enorme pressão sobre os
laboratórios farmacêuticos que manipulam estes compostos. Esta pressão, por sua vez,
incentivou o surgimento de pequenos empreendimentos agrícolas de plantas medicinais.
23

Entretanto, estes agricultores têm encontrado dificuldades tanto na obtenção de mudas e


sementes para o plantio, como na obtenção de informações sobre o cultivo das diferentes
espécies.
A improvisação a que foram obrigados estes produtores tem sido a causa de inúmeros erros,
até mesmo na determinação do nome científico das espécies que cultivam. O cultivo das
plantas medicinais é uma alternativa viável tanto para conservá-las quanto para utilizá-las,
garantindo um fornecimento com qualidade adequada e na quantidade apropriada.
Um passo importante que é preciso para se estabelecer uma proposta racional de trabalho é
definir localmente as espécies medicinais a serem estudadas, em seus diferentes níveis de
prioridades, dadas às necessidades das populações mais carentes.
Outro passo relevante é estabelecer o cultivo seguido do manejo das culturas agronômicas
para a distribuição dos produtos fitoterápicos. Cabe destacar a importância da medicina
tradicional do ponto de vista sócio-econômico-político e cultural bem como ambiental, ao
permitir formulações mais simples dos remédios obtidos a partir de plantas, uma vez que
estes, normalmente, não apresentam efeitos colaterais, sendo amplamente acessíveis, com
baixos custos de obtenção e/ou sem ônus adicional de produção por parte das comunidades de
baixa renda.
Neste sentido, a constituição de pomares domésticos comunitários como verdadeiros bancos
de germoplasma viabilizaria a efetiva conservação das plantas medicinais, ao passo que as
boticas da natureza, os jardins da saúde e as
farmácias-vivas difundem a utilização dos produtos fitoterápicos nas classes menos
privilegiadas, promovendo assim valorização da cidadania pela inclusão social. Portanto,
como impacto dos estudos com plantas medicinais na sociedade, tem-se:
1) Valorização dos conhecimentos tradicionais das comunidades assistidas, na busca por
saúde e bem estar social,
2) Ampliação do conhecimento etnofarmacológico de educadores, pesquisadores e
extensionistas sobre as plantas medicinais mais utilizadas nas áreas estudadas,
3) Promoção da melhoria da qualidade de vida das populações carentes por meio da criação
de farmácias-vivas, as quais são instrumentos efetivos de promoção da inclusão social,
4) Diminuição do impacto ambiental advindo da atividade coletora extrativista, pela
implementação dos jardins da saúde como boticas da natureza, que se tornarão bancos de
germoplasma ativos,
5) Formação de cooperativas para comercialização dos produtos fitoterápicos, fomentada pela
ação integradora entre comunidade e universidade,
24

6) Geração de renda complementar para pequenos produtores e suas famílias, com base na
venda de produtos e serviços das cooperativas, proporcionando desta forma o pleno exercício
da cidadania,
7) Promover o conhecimento para a conservação e a utilização sustentável da biodiversidade e
dos recursos genéticos e a repartição justa e eqüitativa dos benefícios derivados de seu uso
direto e / ou indireto. O extrativismo é a principal atividade econômica dos povos tradicionais,
o que tem se mostrado instável por estar apoiado em um número bastante restrito de espécies
vegetais, apesar da alta diversidade florística regional e de suas potencialidades. A seleção de
germoplasma com reconhecido potencial de uso pelas comunidades locais, visando à
diversificação dos sistemas de produção regional e de ações em conservação, manejo e
utilização das culturas agronômicas é fundamental para a estabilidade desta economia.
No enfrentamento da perda de variabilidade genética, torna-se necessária uma abordagem
integrada, capaz de combinar ensino, pesquisa e extensão com valores humanísticos da
sociedade organizada em prol das comunidades carentes.
Os grupos sociais rurais apartados da modernização são, essencialmente, preservacionistas no
que tange à manutenção da biodiversidade agrícola, face à combinação secular, ou mesmo,
milenar de adaptação cultural e valores éticos superiores aos da sociedade urbana e industrial.
O gerenciamento da pesquisa em conjunto leva ao senso de pertencimento ao projeto, o que
resulta em "empowerment".
A conservação on farm e o melhoramento participativo surgem como uma proposta de
desenvolvimento sinérgico e não hierárquico, que se estabelece através de relações mútuas de
poder entre o pensar e o agir, o decidir e o executar, assumindo como princípio que a
efetividade de um processo está na capacidade de entender que o poder emana da
responsabilidade de cada um e da coletividade e não da posição hierárquica que ocupa na
organização.
Os pesquisadores retornam os achados, as descobertas e os resultados de suas pesquisas à
sociedade civil, representada pelos consumidores e produtores, agregando valor aos produtos
gerados por diversificar o uso dos produtos e de seus derivados, aproveitar os seus
subprodutos e transformar um produto em outro. No caso de plantas com princípios ativos,
pode-se participar de feiras livres, implantar hortas populares, promover as boticas da
natureza, oferecer farmácias vivas e estimular jardins de saúde. Atualmente, também tem-se
os bancos de sementes comunitárias.
Os melhoristas e seus colaboradores ao exercerem o poder de forma cooperativa
potencializam o grupo, o que se estabelece a partir da identificação de objetivos comuns e / ou
25

complementares, efetivando-se com a participação de todos os envolvidos no processo,


possibilitando uma maior coerência entre a teoria pelo discurso e a prática pela experiência,
pois as comunidades locais exploram, preservam e enriquecem a biodiversidade agrícola,
contudo é preciso reforçar e, sobretudo, revitalizar os sistemas tradicionais de produção e os
processos sócio - político e culturais que estimulam e favorecem o desenvolvimento e o
aprimoramento do conhecimento sobre os recursos genéticos vegetais.
Um bom caminho para que se possa valorizar as plantas medicinais é treinar multiplicadores
ética e moralmente comprometidos com a sociedade e com o bem – estar da humanidade.
Prima-se por trabalhos em espécies amplamente utilizadas em todo território nacional, dando
enfoque loco - regional, bem como as que constam das listas oficiais. Nestas espécies pode se
priorizar o óleo essencial, como por exemplo em Artemisia annua (Artemísia), Calendula
officinalis (Calêndula), Chamomilla recutita (Camomila), Mentha spp. (Hortelãs) e Ocimum
spp. (Alfavaca e Manjericão); a produção de alcalóides como por exemplo em Catharanthus
roseus (Vinca), Datura spp. e Solanum spp. (Trombeteiras), Pilocarpus spp. (Jaborandi),
dentre outras substâncias fármaco - ativas.
Das espécies utilizadas, umas são nativas, dentre as quais se destacam: Achyrocline
satureioides (Macela), Ageratum conyzoides (Mentrasto), Cephaelis ipecacuanha
(Ipecacuanha), Lippia sidoides (Alecrim-Pimenta), Maytenus ilicifolia (Espinheira-Santa),
Mikania glomerata (Guaco), Pilocarpus jaborandi (Jaborandi), Pilocarpus microphyllus
(Jaborandi) e Stevia rebaudiana (Estévia) e outras exóticas, quais sejam: Achillea millefolium
(Mil-Folhas), Calendula officinalis (Calêndula), Chamomilla recutita (Camomila),
Foeniculum vulgare (Funcho), Melissa officinalis (Erva-Cidreira), Phyllanthus niruri
(Quebra-Pedra), Plantago major (Tanchagem), Ruta graveolens (Arruda), Salvia officinalis
(Sálvia), Taraxacum officinale (Dente-de-Leão), Thymus vulgaris (Tomilho), Bauhinia
forficata (Pata-de-Vaca), Chrysanthemum parthenium (Artemísia), Cnicus benedictus (Cardo-
santo), Cymbopogon citratus (Capim-Cidreira), Leonurus sibiricus (Macaé), Polygonum acre
(Erva-de-Bicho), Symphytum officinale (Confrei), Aloe vera (Babosa), Catharanthus roseus
(Vinca), Vernonia condensata (Boldo), Bidens pilosa (Picão), Chenopodium ambrosioides
(Erva-de-Santa-Maria) e Tropaeolum majus (Capuchinha).

3.5 – CONTROVÉRSIAS

3.5.1 – VANTAGENS:
26

A maioria absoluta dos recursos genéticos vegetais são conservados on farm, o que por si só
já é uma enorme vantagem para os agricultores familiares. Por outro lado, este tipo de
estratégia para preservação de germoplasma oferece apoio à conservação ex situ e in situ
praticada pelos melhoristas, especialmente quando esta falha por razões técnicas, financeiras
ou administrativas. A vulnerabilidade dos programas oficiais de conservação da
agrodiversidade não é desprezível, principalmente, por razões econômicas. Em todo o planeta,
uma porção significativa dos acessos nas coleções e bancos de germoplasma necessita de
esforços urgentes para sua regeneração devido a perda gradual de viabilidade do material
preservado. Assim, a conservação on farm pode servir para a reposição do material perdido de
forma que um processo complementa o outro. Há coleções que contém alelos e genótipos e a
informação associada a estes, porém recursos genéticos não são mais do que isto;
compreendendo a espécie em equilíbrio dinâmico com seu meio eco-sócio-econômico e
cultural. Os recursos genéticos incluem as populações silvestres e asselvagadas dos cultivos
(que oferecem alelos aos cultivos via fluxo gênico natural), suas pragas e doenças (que
pressionam a expressão de combinações novas de alelos e mutantes resistentes), as ervas
daninhas com que competem (que pressionam a expressão de adaptação genética e fenotípica
à competição), e os sistemas de conhecimento tradicional associados aos recursos genéticos
(ainda pouco catalogados e desaparecendo rapidamente). A conservação on farm permite a
geração continua de novos recursos genéticos via a evolução em seu meio natural e a
domesticação em seu meio social. Isto faz com que a mesma procedência de coleta não
produza a mesma combinação de alelos e genótipos na próxima coleta, o que pode ser uma
grande vantagem para um programa de melhoramento que precisa de novas combinações
alélicas com produtividade, resistentes a pragas ou doenças e tolerância a fatores ambientais
estressantes. Os recursos genéticos on farm estão sempre sendo enriquecidos enquanto estão
sendo amplamente usados. Eles são verdadeiros recursos naturais renováveis (Jana, 1999).
oferecendo um laboratório ideal para estudar a evolução e a domesticação de cultivos.

3.5.2 – DESVANTAGENS:

De fato, a Convenção da Diversidade Biológica ajudou a transformar a conservação on farm


em um novo paradigma para todos os interessados em recursos genéticos. No entanto, a
tentativa em dar certo grau de controle aos agricultores familiares sobre seus recursos
genéticos parece não ter surtido efeito, exceto em casos de projetos e programas visando a
interação de comunidades e instituições para conservar recursos genéticos de commodities.
27

Supõe-se que o novo paradigma dará poder aos agricultores familiares. Não está claro como
isto acontecerá, pois os recursos genéticos tem pouco valor fora (e mesmo dentro!) das
coleções ex situ e os agricultores não tem como obter benefícios (além de subsistência) sem
entregar os recursos. Se não tem demanda para seus recursos fora da própria demanda da
comunidade para sua subsistência, os agricultores não terão poder. Para eles os direitos de
propriedade intelectual ficaram apenas e tão somente no papel.Além disto, será que os
agricultores saberão o que fazer com este poder caso consigam obtê-lo? Afinal, a idéia é que
eles praticarão mais conservação do que já praticam se tem mais direitos. No entanto, o
conceito de conservação da biodiversidade como definido atualmente pelo elite da sociedade
tende a ser irrelevante ao sistema de subsistência destes agricultores, especialmente quando
sua integração ao mercado é limitada.
3.5. 3 – DIMINUINDO AS DESVANTAGENS E AUMENTANDO AS VANTAGENS
Quando estas iniciativas são bem sucedidas, e algumas já são, os agricultores familiares
conseguem uma melhor integração ao sistema nacional de conservação de recursos genéticos,
e podem esperar aumentar seu controle sobre seus próprios recursos genéticos.
Alternativamente, uma iniciativa pode ser bem sucedida sem que haja integração com o
sistema nacional, e o grau de controle depende da organização e educação das comunidades.
Já que a maioria destas iniciativas enfoca o uso, possui a possibilidade de contribuir para
melhorar a qualidade de vida dos agricultores em nível local também. Normalmente, todos os
processos envolvidos na conservação on farm relacionam-se com a valorização das práticas
culturais tradicionais locais, as quais colaboram para aumentar o orgulho comunitário e
podem imprimir um maior discernimento em sua capacidade de relacionamento com eventos
e instituições externos, diminuindo a vulnerabilidade e os riscos à dissociação destes grupos
sociais. Frequentemente, estas iniciativas podem até contribuir para conservar serviços
ambientais, pois mantém processos de formação de solos, reduzem o uso e a poluição por
herbicidas e pesticidas, restringem a disseminação de doenças de plantas etc. a conservação
on farm é complexa e sempre terá extinção e erosão local, mas também sempre terá recriação
e até geração de novidades. Num mundo dinâmico parece-nos apropriado que tenha um tipo
de conservação altamente dinâmica também.

4. CONCLUSÃO
No país, em geral, as plantas exóticas estão em processo de melhoramento mais avançado que
as nativas, no entanto, ambas possuem germoplasma que pode ser explorado com sucesso.
Deve-se estudar, prioritariamente, as espécies nativas para que se possa validar suas
28

propriedades terapêuticas antes que outros o façam, de modo a desenvolver as indústrias


farmacêuticas nacionais, pois se esta tarefa não se iniciar imediatamente, os fortes
concorrentes internacionais sairão na frente e pode-se não alcançá-los mais! Portanto, as ações
conservacionistas e utilitaristas que recaem sobre os recursos genéticos vegetais são a
bandeira da conservação on farm e do melhoramento participativo, traduzindo o ato de
conservar em seu meio e o de utilizar o seu fim.

5. AGRADECIMENTOS

À Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e ao Grupo de Pesquisa do CNPq Sociedade,


História e Etnociência. À Professora Dra Luzia Braga Landim pela oportunidade de trabalho
conjunto e atodos os meus orientandos de graduação e pós-graduação.

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REFLEXÕES SOBRE CULTURA, CRENÇA E CIÊNCIA.


Maria Luzia Braga Landim1, Tiago Landim d´Avila 2

RESUMO
Falar de cultura, crença e ciência, é falar de tradição e de modernidade. Os estudos sobre estes
temas refletem a necessidade de analisar a diversificação de posturas e atitudes
principalmente quando se trata de paradigmas religiosos em regiões brasileiras, onde as
culturas e crenças, vão na contra mão da ciência. As ritualizações, celebrações e cerimônias
de curas e rituais africanos tidos como estranhos por suas origens inquietam pelo lugar inculto
e pelas restrições. Com características diferenciadas a doutrinas que não pertencem a
celebrações hegemônicas às tradições cristãs desenvolvem estranhamentos e
desencantamentos baseados em valores de universalidade e racionalidade da cultura burguesa
moderna. Os estudos bibliográficos feitos para fundamentar as visões e versões feitas pelos
autores podem ser observadas na situação atuegião Sudoeste da Bahia, onde os espaços de
invocação das práticas e permanências antepassadas, continuam a ser repetidas de gerações a
gerações. A falta de compreensão e tolerância aliadas à resistência em manter hábitos e
costumes dos adeptos que lutam para manter a identidade tribal, podem ser repensadas,
oportunizando possibilidades na geração de novas formas de integração. A mudança de
paradigmas no pensamento coletivo é tarefa árdua e so ocorrera a partir do momento que as
discussões e diálogos promovam a desmistificação de estruturas mentais e construam novas
identidades.

Palavras-chave: cultura, crença, ciência

RESUMEN
Hablando de la cultura, las creencias y la ciencia, que es hablar de tradición y modernidad.
Los estudios sobre estos temas reflejan la necesidad de analizar la diversificación de las
posturas y actitudes sobre todo cuando se trata de paradigmas religiosos en las regiones de
Brasil, donde las culturas y creencias van en contra de la mano de la ciencia. Los
ritualizações, celebraciones y ceremonias de curación y rituales africanos considerados como
extraños por sus orígenes inquietos por el lugar sin cultura y restricciones. Con características
diferentes doctrinas que no pertenecen a las celebraciones hegemónicas a las tradiciones
cristianas desarrollan el distanciamiento y el desencanto sobre la base de los valores
universales y la racionalidad de la cultura burguesa moderna. Los estudios bibliográficos de
apoyo a las visiones y versiones hechas por los autores pueden ser vistos en el suroeste de
Bahía atuegião situación en la que las prácticas espacios de invocación y antepasadas se
mantiene, siguen repitiéndose de generación en generación. La falta de comprensión y
tolerancia, junto con la resistencia para mantener las costumbres y hábitos de los aficionados
que luchan para mantener la identidad tribal, puede ser repensada, proporcionando
posibilidades de oportunidades para generar nuevas formas de integración. El cambio de
paradigma en el pensamiento colectivo es un trabajo duro y así sucedió desde el momento en

1 Pós Doutora em História Política, Professora adjunta do Departamento de Ciências Humanas e Letras da Universidade
Estadual do Sudoeste da Bahia e Líder do Grupo de Pesquisa História, Sociedade e Etnociência, CNPq.
2 Doutorando em Ciências da Saúde pela Universidade Federal da Bahia e FIOCRUZ, Professor Assistente do Centro

Universitario Jorge Amado-UNIJORGE.


32

que las discusiones y diálogos promueven la desmitificación de las estructuras mentales y


construir nuevas identidades.

1. INTRODUÇÃO
Estabelecer a ponte entre o individual e o coletivo, o real e o representacional é o meio
encontrado para entendermos as mudanças que ocorrem nas sociedades tradicionais quando se
deparam com técnicas científicas e envolvem assuntos polêmicos de ordem cultural. Assuntos
esses que dizem respeito à adaptação, criatividade, tolerância e consentimento.
A possibilidade de ampliação nos diálogos e debates globais que minimizem os
conflitos relacionados à inclusão por certo, tornará completo e inteiro o ser humano perante a
sociedade, independente de religião credo e cultura, mudando significativamente as formas de
atuação do sujeito histórico.
Em geral, as continuidades e descontinuidades confrontam-se quando analisados
aspectos originários de culturas antepassadas que apresentam ressignificações e readaptações
na modernidade. Alterar o modo de vida dos indivíduos que se aculturam à determinada
sociedade implica em mudança de pensamento, doutrina e fé.
O perpasse de heranças religiosas são elementos essenciais em determinadas
sociedades convictas em preservar e manter suas origens, independentes das correções
efetuadas no percurso da trajetória mistíca.
No entanto, a passagem da tradição para a modernidade agita hábitos, mescla culturas,
e modifica o estado de espírito de quem crê firmemente, diz ou possui subjetividades e medos
que alimentam as supertições.
As características brasileiras destacadas pelas diversidades regionais principalmente na
região Nordeste brasileira cujas características geográficas e climáticas são realçadas pela
superação dos estranhamentos e desencantamentos sócio-econômico-culturais, promovem
formas de resistência interferem nos valores sociais e culturais.
Ao romper os quadros sociais e mentais de referência de suas ancestralidades, o
indivíduo viola suas raízes religiosas e culturais e provoca a ruptura dos elos de identidade
fazendo emergir novas representações.
Os debates nas áreas de cultura e saúde, inclusão e exclusão têm promovido
perspectivas para a efetivação de propostas que erradiquem a pobreza, melhorem as condições
de vida, mas ainda é motivo de divergência ao se tratar da escolha das ações que debelem
mazelas existentes. A pluriculturalidade é um obstáculo que promove consideravelmente a
ampliação das desigualdades, principalmente no Nordeste do Brasil.
33

A relevância de discutir a questão sob o ponto de vista cultural e de saúde pública no


Brasil, sugere compreender as representações simbólicas como contruídas a partir de uma
origem, matizadas por identidades extraídas de modelos antepassados e constantemente
mesclados, pelo movimento social a que estão envolvidos os sujeitos, embora, sem perder
suas raízes.
Este estudo tem como objetivo revelar como a cultura sertaneja é influenciada pelas
tradições religiosas antepassadas de índios e africanos, e a forma pela qual os adeptos às seitas
afrodescendentes e indígenas utilizam estratégias de manutenção para convencer e preservar
sincretismos e crenças herdados dos ancestrais.

2. TRADIÇÃO E MODERNIDADE

Se considerarmos a tradição e a modernidade pela perspectiva linear como estado ou


momento sucessivo do processo histórico, a modernidade se traduziria necessariamente em
avanço e estágio superior da vida humana. Mas, em contrapartida, pelo ponto de vista da
razão evolucionária do pensamento social moderno, as chamadas formas tradicionais de
produção seriam concebidas como atrasadas, estacionárias, pertencentes a uma fase evolutiva
superada pelos avanços da modernidade.

Em estudos contemporâneos, Balandier tem demonstrado como ordem e desordem não


são categorias excludentes, mas dialeticamente complementares e configuradoras da
vida humana em qualquer tempo e espaço na tradição e na modernidade. Balandier,
mesmo adotando-se, provisoriamente, um ponto de vista anti-historicista, isso
significaria afirmar que tais sociedades estariam inseridas de distintas maneiras na não
história3.

O Candomblé, culto dos orixás, de origem totêmica e familiar, é uma das religiões
Afro-Brasileiras tradicionais, praticadas na Bahia. No ambiente religioso particular dos
sectários dessa religião, o primeiro tratamento do “Inquice” reconhecido em nível espiritual
pelos conhecedores dos princípios da seita, como manifestação da alma penada, do espírito
não desenvolvido que vaga pela terra e agoniza as pessoas. Frequentemente é homenageada
nos rituais e celebrações, recebem homenagens, oferendas, cânticos, danças e roupas especiais
mostrando a carga de credibilidade nas cerimônias.
Proibido pela igreja católica, o candomblé originalmente confinado à população de
escravos, prosperou e se expandiu consideravelmente desde o fim da escravatura em 1888. É

3 BALANDIER, G. Antropologia política. São Paulo: Universidade de São Paulo,1969.


34

uma das religiões principais estabelecidas na Bahia e seus seguidores fazem parte de todas as
classes sociais frequentando dezenas de milhares de terreiros espalhados por todo o país,
embora, temido por muitos.
Os estudos etnográficos revelam que o número de brasileiros ultrapassa os quatro
milhões que já se declararam sectários do candomblé e assumem a religião como base para
suas contemplações e orações. Em Salvador, os terreiros registrados pela Federação Baiana de
Cultos Afro-brasileiros passam de dois mil e quinhentos, locais de rezas e oferendas, os
simpatizantes participam ativamente dos rituais do, creem nos orixás e regularmente ou
ocasionalmente utilizam patuás e mandingas para alcançarem desejos e fechar o corpo contra
mal olhado e inveja.
Os orixás, os deuses, os ritos e as festas do candomblé são partes integrantes da cultura
e do folclore brasileiro provenientes da África, embora discriminada por parte significativa da
população que confessa medo pelos atos praticados durantes às sessões de oferendas e
despachos.
Na Bahia as mandingas ou doenças da alma são quebradas pelos banhos de cheiro,
rezas, e oferendas e fazem parte da estreita fronteira entre as crenças e as sandices, entre o
entre o bem e o mal. Os ritos desenvolvem um circuito de credibilidade desenfreada que
impede o desenvolvimento de ações que combatem a proliferação de superstições que
impedem a utilização de meios científicos eficazes no combate, por exemplo, a doenças
endêmicas em cidades distantes da capital do estado.
Em pesquisas realizadas no interior do estado, os fatores sociais e culturais são
apontados como causas e consequências do aumento das doenças endêmicas no sertão baiano.
A população apresenta aspectos discrepantes a aceitar as novas posturas, hábitos e atitudes
que não estejam em consonância com os saberes dos antepassados. A diversidade cultural
implícita na vida e nos hábitos do povo da Bahia de todos os santos provocam situações de
extrema periculosidade, pois, os rituais de cura praticados por leigos ou representantes dessas
comunidades autointitulados curadores, dificultam a introdução dos saberes científicos.
Desta forma, analisar as adequações necessárias às infraestruturas públicas necessárias
que envolvam a população no mutirão de informação, pode resultar em solução dos
problemas que envolvem causas sociais e falta de condições de vida que tem provocado parte
significativa das doenças endêmicas que assolam o Nordeste brasileiro. O território sertanejo
está afetado por considerável fatia negativa de estatísticas de morbidade e mortalidade por
doenças endêmicas, direta ou indiretamente ligadas a práticas culturais que desprezam a
necessidade de procedimentos técnicos em saúde.
35

O clima é quente no verão, principalmente na zona da caatinga e frio no inverno,


principalmente na zona da caatinga. A estiagem costuma prolongar-se de setembro a dezembro e as
chuvas caem, com alguma variação, de janeiro a março.
Na área úmida despontam a mata de cipó, o umbu, o espinheiro, a caceia, a aroeira, o Ouricuri
e o mandacaru, alternando-se com o xique-xique, a macambira, o quipo e a cabeça de frade. A flora
compreende ainda pau ferro, sapucaia, gameleira, juazeiro, ipê, vinhático, jequitibá, bem como o
algodão e a maniçoba que chegaram a representar no passado, boa fonte de renda. As plantas
medicinais encontradas na região na maioria das vezes são plantadas nas próprias casas, e usadas em
rituais como banhos, beberagens e remédios.
O universo pesquisado não se detêm a estatísticas ou dados sócio demográficos,
políticos, econômicos ou etnográficos, mas requer um mapeamento das sub-regiões
sertanejas, que demostre reais condições de vida e abordem diferentes vertentes sobre
identidade, cidadania, etnicidade, trabalho, rede social transnacionalismo, comunidade,
campesinato, fronteira.
Os rituais e crenças curativas se considerados como usuais por boa parte da população
que desconhece seus efeitos, são causadores de perigos iminentes ao utilizarem plantas com
substâncias desconhecidas e nocivas à saude. Pelo conhecimento do senso comum, as
comunidades de baixo poder aquisitivo usam produtos como remédios, que ao invés de
promoverem a cicatrização produzem infecções. Exemplo se dá no uso de pó de pena de
galinha, pó de café, óleo de cozinha, moedas, esterco, fumo, que se transformam em
principais vetores para meios de infecção. Apesar da gravidade e conseqüências prejudiciais à
saúde, estes procedimentos são passados de geração a geração que são envolvidos pelas
crenças que supostamente tem eficiência curativa.
Um dos problemas recorrentes e graves em saúde, é o tétano neonatal, que acontece
pelos acirrados conflitos entre a tradição e a ciência, pois utilizam folhagens, produtos
caseiros para a secagem do coto umbilical do recém nascido. Eventualmente, a descrença dos
adeptos de crenças tradicionais e religiosas se afastam dos procedimentos científicos em
saúde e deixam em algumas ocorrências, os portadores de conhecimento técnico sem opção
de atuação tal a permanência dos rituais que precisam usar a tolêrancia para interagirem com
pacientes que insistem em continuar com essas práticas.
O ensinamento de técnicas apropriadas de higiene e saúde, depende dos meios de
informação e de pessoas que disseminem e divulguem técnicas médicas, visto que pessoas
com crenças difundidas pelos antepassados já tem determinadas por meio dos rituais formas
próprias para o uso de produtos naturais ou caseiros. O papel da conscientização para a
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higienização e controle à saúde, deverão estar sendo difundidos e discutidos nestas


comunidades, porque só a educação e o conhecimento científico serão os meios de debelar os
índices de ocorrências graves que decorrem de práticas curativas inadequadas.
As Leishmanioses são constituidas de um complexo de doenças causadas por cerca de
20 protozoários tripanosomatídeos do gênero Leishmania4, e as enfermidades apresentam
caráter antropozoonótico transmitidas aos hospedeiros vertebrados através da picada do vetor
fêmea infectado, que, ao se alimentar de sangue, inocula na derme do hospedeiro, as formas
infectantes da Leishmania5. O sucesso ou o fracasso do processo de infecção está associado
tanto ao status imunológico do hospedeiro, quanto à espécie parasitária envolvida, produzindo
manifestações clínicas variadas6
As formas clínicas das Leishmanioses são, basicamente, visceral e tegumentar, sendo a
visceral a forma mais grave e potencialmente fatal, acometendo diversos órgãos. A
leishmaniose tegumentar apresenta um amplo espectro de manifestações clínicas que variam
desde a formação de lesões localizadas auto-resolutivas até lesões desfigurantes, como na
leishmaniose cutâneo-localizada, leishmaniose cutâneo-mucosa, e leishmaniose cutâneo-
difusa.
A cada período anual as Leishmanioses atingem cerca de 2 milhões de pessoas em
praticamente todo o mundo. Ciclos silvestres de transmissão de Leishmania entre animais
foram encontrados em todos os continentes, exceto na Oceania, ocorrendo em ambientes
quentes e úmidos de florestas tropicais e subtropicais até em florestas temperadas no
Mediterrâneo e estepes na Rússia7. Cerca de 350 milhões de pessoas vivem sob risco de
infecção em todo o mundo, e se têm registros de aproximadamente 70 mil mortes por ano.
Cerca de 90% dos casos de leishmaniose tegumentar se concentram em países como
Afeganistão, Paquistão, Síria, Arábia Saudita, Algéria, Iran, Brasil e Peru. No caso da
leishmaniose visceral, aproximadamente 90% das ocorrências registradas reunem-se na Índia,
no Bangladesh, no Nepal, no Sudão e no Brasil8.

4 DESJEUX, The increase in the risk factors for leishmaniasis worldwide. Trans. R. Soc. Trop. Med. Hyg., 95: 239-243.
2004; HERWALDT, 1999.
5 SACHS & KAMHAWI, 2001; LAINSON, The economic and social burden of malaria. Nature, v.415, n.6872, Feb 7,

p.680-5, 1987.
6 GRIMALDI, Epidemiologial Specifications. Geographic distribuition (WHO, 1984, 1999)1982.
7 Op. cit. GRIMALDI et al., 1989; LAINSON & SHAW, 1977.
8 MURRAY, H.W.; BERMAN, J.D.; DAVIES, C.R.; et al. Advances in leishmaniasis. Lancet, v. 366, p. 1561-77, 2005 ;

YAMEY, G. Public sector must develop drugs for neglected diseases. BMJ, v. 324, 2002.
37

Figura 1 – Ciclo de propagação da leishmaniose. Os reservatórios da doença podem variar entre animais
domesticos, silvestres e até mesmo o homem, sendo transmitidos pela picada do mosquito vetor.

A doença de Chagas descoberta por Carlos Chagas em 1909, considerado único na


história, pois o mesmo pesquisador descreveu a anatomia patológica, o meio de transmissão, a
etiologia, as formas clínicas e a epidemiologia de nova doença infecciosa9
Essa enfermidade mórbida, causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, de caráter
endêmico, também é conhecida como tripanossomíase americana, por ser uma parasitose
exclusiva do continente americano. Na América Latina, a doença de Chagas tem o quarto
maior impacto social entre todas as doenças infecciosas e parasitárias 10 e, no Brasil, atinge
cerca de 36% do território nacional, atingindo mais de 2.450 municípios, desde o Maranhão
ao Rio Grande do Sul. A Organização Mundial da Saúde estima a existência de 18 milhões de
pessoas infectadas, com aproximadamente 100 milhões de pessoas em risco, em 21 países11
Nas Américas, já foram catalogadas mais de 100 espécies de insetos transmissores da
Doença de Chagas, dentre as quais, apenas cinco são de importância epidemiológica12
A forma mais comum de transmissão é a vetorial, entretanto, as transmissões
congênita 13e oral14também já foram descritas e vêm adquirindo maior importância15
Clinicamente, a doença de Chagas pode apresentar-se sob a forma aguda ou crônica,
ou a infecção pode permanecer sob uma forma indeterminada que pode durar a vida toda 16Na
América Latina, a infecção pelo protozoário Trypanosoma cruzi representa a primeira causa

9 COURA, L. L. DE ABREU, et al. [Comparative controlled study on the use of benznidazole, nifurtimox and placebo, in the
chronic form of Chagas' disease, in a field area with interrupted transmission. I. Preliminary evaluation]. Rev Soc Bras Med
Trop, v.30, n.2, Mar-Apr, p.139-44. 1997.1997.
10 DIAS, Chagas disease, environment, participation, and the state. Caderno de Saude Publica, v.17 Suppl, p.165-9. 2001
11 MONCAYO, From basic research to product development: not an easy way. Infect Genet Evol, v.3, n.3, Sep, p.157-82003.
12 VINHAES, M. C. E J. C. DIAS. Chagas disease in Brazil. Cad Saude Publica, v.16 Suppl 2, p.7-12.2000.
13 LOPES, 1991; DA COSTA PINTO, elevada de transmissão materno-infantil da doença de Chagas entre irmãos. Revista da

Sociedade Brasileira de Medicina Tropical. v. 24, p. 48-49, 2001


14 SHIKANAI-YASUDA, M. A., C. B. Marcondes, et al. Possible oral transmission of acute Chagas' disease in Brazil. Rev

Inst Med Trop Sao Paulo, v.33, n.5, Sep-Oct, p.351-7. 1991; DIAS, 2008
15 PINTO, 1999
16 MICHAILOWSKY, V., N. M. SILVA, et al. Pivotal role of interleukin-12 and interferon-gamma axis in controlling tissue

parasitism and inflammation in the heart and central nervous system during Trypanosoma cruzi infection. Am J Pathol,
v.159, n.5, Nov, p.1723-33. 2001.2001.
38

de lesão cardíaca em jovens adultos em idade economicamente ativa e em certas áreas


endêmicas, a cardiopatia crônica chagásica pode ser responsável por aproximadamente 10%
das mortes17

Figura 2 – Ciclo de transmissão da Doença de Chagas. O inseto vetor pica o homem transmite a doença através das fezes
contendo o parasito. Após cair na circulação, o parasito sofre mudanças infectando células do coração, se mantendo vivo e
podendo ser retransmitido através da picada de outro inseto.

A Malária, outra doença que é causada pela relação mosquito-protozoário, é mais


antiga do que relatam os registros históricos, e provavelmente atormentou o homem pré-
histórico. O primeiro registro de um tratamento para a esta doença é do século XVI, no Peru,
18
que utilizava a casca de árvores locais Para a ciência, seu parasito foi identificado
microscopicamente em 1880 e seu vetor descrito em 189719
No entanto, apesar dos diversificados esforços para controlar esta doença, a malária
está entre as três doenças tropicais transmissíveis com maiores índices de morbi-
mortalidade20. No mundo inteiro, grandes esforços e variado estão sendo feitos para saber
mais sobre esta doença e para determinar como controlá-la. Cerca de 500 milhões de casos
clínicos de malária são registrados a cada ano21sendo que a maioria destas mortes são
crianças. Na África subsaariana, onde a mortalidade da malária é mais elevada, 90% das
mortes relacionadas com a malária são crianças menores de cinco anos de idade22 No entanto,
os números reais da doença, a morbidade e mortalidade podem ser muito diferentes dos
citados acima. A maioria das mortes por malária ocorre no domicilio, onde muitos casos não

17 MONCAYO, A. From basic research to product development: not an easy way. Infect Genet Evol, v.3, n.3, Sep, p.157-8.
2003; CUNHA-NETO, , E., P. C. Teixeira, et al. New concepts on the pathogenesis of chronic Chagas cardiomyopathy:
myocardial gene and protein expression profiles. Rev Soc Bras Med Trop, v.39 Suppl 3, p.59-622006.
18 LAMBERT, M. L. e P. Van Der Stuyft. Editorial: Global Health Fund or Global Fund to fight AIDS, Tuberculosis, and

Malaria? Trop Med Int Health, v.7, n.7, Jul, p.557-8.2002.


19 GOOD, . Towards a blood-stage vaccine for malaria: are we following all the leads? Nat Rev Immunol, v.1, n.2, Nov,

p.117-252001.
20 Op. cit. SACHS & MALANEY, 2002.
21 HEMINGWAY, J. E I. BATES. Malaria: past problems and future prospects. After more than a decade of neglect, malaria

is finally black on the agenda for both biomedical research and public health politics. EMBO Rep, v.4 Spec No, Jun, p.S29-
31.2003,
22 GARDNER, The genome of the malaria parasite. Curr Opin Genet Dev, v.9, n.6, Dec, p.704-8.1999.
39

são diagnosticados e microscópios funcionais não estão disponíveis na maioria das clínicas da
área23.
O programa de erradicação da malária, gerido pela Organização Mundial de Saúde
(OMS), foi cancelado no final dos anos 1960 por causa de crescentes dificuldades, dado que a
natureza complexa e persistente da doença que tem se tornado cada vez mais evidente. Hoje,
as estratégias de gestão incluem o desenvolvimento de vacinas e quimioterápicos, controle de
vetores, inseticidas, mosquiteiros e redes, além da conscientização da população. Resistência
às drogas tanto do mosquito quanto do parasito é um obstáculo crescente na luta contra a
malária, fazendo com que a terapia combinada de drogas tenha eficácia no combate à doença
de chagas24.
Desta forma, ampliar o nível das discussões que agreguem às esferas políticas,
econômicas e culturais, e os problemas de saúde no Brasil, significa alterar composições e
princípios que se referem à qualidade de vida e a inclusão social do povo brasileiro, sem
deixar de registrar o estágio de progressão das dificuldades. Diante de tais perspectivas este
trabalho tem a missão de difundir os modos tradicionais de tratamento e a modernidade
científica da prevenção que podem caminhar juntas na superação de problemas causados pela
falta de informação em saúde.
No “Planejamento Estratégico Nacional: A Preparação do Brasil” sugere que, ações
prioritárias e emergenciais necessárias à Sociedade, devem ser contingenciadas a Planos
Estratégicos de Emergência da União, Estados e Municípios no Brasil, conjuntamente com o
Plano de Contingências do Ministério da Saúde / Governo Federal.
Os piores impactos podem ser percebidos na direta proporção da inadequação dos
serviços e da infraestrutura que não atendem à violenta demanda de doentes e óbitos.
Desenvolver, através de uma abordagem multicultural coordenada a capacidade para detectar,
avaliar e responder questionamentos sobre as reais condições de vida por região, tipos de
religião e rituais utilizados pela comunidade estudada são os pontos de partida para a pesquisa
ora proposta.
Reduzir as oportunidades de propagação de doenças consiste em estabelecer
estratégias para conter o surgimento de doenças, de forma a em primeiro plano prevenirem
sua propagação e assim, reduzir oportunidades de infecções humanas. A prevenção do
comportamento de risco faz parte da redução, bem como também o fortalecimento do sistema
de comunicação, notificação e advertência da população, são essenciais.

23 GREENWOOD & MUTABINGW, Malaria in 2002. Nature, v.415, n.6872, Feb 7, p.670-2. 2002.
24 RIDLEY et al. Winning the drugs war. Nature, v.430, n.7002, Aug 19, p.942-3, 2004.
40

Para tanto, associar meios de informação e desenvolvimento de planos nacionais de


prontidão e aperfeiçoamento às medidas recomendadas pelos órgãos de saúde, que coloque a
própria sociedade como partícipe do processo, propiciará caminhos de cumprimento às
medidas obrigatórias, a desagregação social e econômica, e reduzirá a morbidade e a
mortalidade.
A incursão por esse território tem transformado dificuldades em desafios para
pesquisadores e para as políticas públicas que tem investido em programas e projetos que
funcionariam efetivamente, caso fossem incorporadas ações que interagissem e
conscientizassem a comunidade a interagir em proveito próprio.
Facilitar a rápida detecção de doenças a partir do mapeamento de áreas e regiões
afetadas, e avaliar os sinais potenciais que facilitam a transmissibilidade, guiando as
intervenções para intervir efetivamente nas doenças emergentes que se propagaram além da
zona inicial de surgimento, debelaria por certo a origem do problema.
As responsabilidades primárias das políticas púbicas dizem respeito às atribuições
dadas às instituições: 1) assegurar a rápida reportagem de todos os sinais, e sintomas; 2)
mobilizar o grupo local; 3) prover com suportes de assistência de acordo com exigências
legais nacionais, a fim de facilitar pronta-resposta às atividades de contenção e realização
ativa de vigilância para monitorar a situação.
Os conceitos fundamentais de Pronta-Resposta se referem à rápida avaliação e
resposta de reação de qualquer tipo e qualidade do atendimento após possível início de
atividade ter sido descoberta. Já a Pronta-Contenção, especifica a tentativa de parar a
expansão adicional de endemias emergentes.
As causas e consequências na ampliação de doenças endêmicas na região podem estar
correlacionadas à falta de conhecimentos específicos em saúde ou aliada à resistência em manter
hábitos e costumes tradicionais como forma de identidade.
Uma mudança no pensamento coletivo pode ser gerada se analisadas as formas de
integração entre o conhecimento popular e científico. A partir de ações e enfrentamentos
que promovam a construção de novos pensamentos e condutas culturais que preservem a
identidade, as estruturas mentais serão repensadas de modo a conservar a identidade dos
grupos contanto que mantenham peculiaridades arraigadas no modo de vida dos sujeitos.
41

[...Deriva daí a imagem de que índios vivem em sociedades perdidas no tempo − no limite da
sobrevivência −com um grau de pobreza absoluta decorrente de sua incapacidade para o trabalho e
de sua incompetência técnica vem explorar os recursos naturais. São, inclusive, na visão da teoria
econômica convencional, tidos como pertencentes a “sociedades de escassez” em oposição à
dinâmica capitalista industrial considerada como “sociedade de abundância...]25.

Embora as políticas de prevenção tenham minimizado problemas de saúde em diversas


comunidades nordestinas, ainda assistimos procedimentos populares causarem prejuízos à
saúde da população, pelos acirrados conflitos entre a ciência e métodos conservadores de
práticas tradicionais.
As informações têm alcançado patamares de integração da tradição com a
modernidade, mas não foram capazes de tratar a terrível doença social da discriminação, do
preconceito, que assegurem e aliem práticas populares à medicina científica.
A falta de condições mínimas de saúde como o saneamento básico aliado a fatores
sociais como à falta de higiene e condições humanas de sobrevivência, elevam os índices de
proliferação de doenças nas regiões sertanejas do Nordeste. Doença como a hanseníase,
carregada de estigmas seculares desde os tempos bíblicos é descrita como a doença que
causava horror pela aparência dos infectados, lesões na pele e deformidades nas extremidades,
era considerada como marca da desonra e o infectado isolado da sociedade.

Debruçando-se sobre as representações do homem do campo e da cidade, presentes no imaginário


inglês pós-Revolução Industrial, observa Willians que: ...o campo passou a ser associado a uma forma
natural de vida − de paz, inocência e virtude simples: à cidade associou-se a ideia de centro de
realizações − de saber, comunicações, luz. Também se constelaram poderosas associações negativas: a
cidade como lugar de barulho, mundianidade; o campo como lugar de atraso, ignorância e limitação 26.

O senso comum utilizado como atributo das práticas cotidianas em comunidades


consideradas radicais, adeptos de seitas como o candomblé suspeitam do conhecimento
científico e se utilizam de práticas curandeiras causando em vários episódios, verdadeiros
problemas de saúde pública.
O termo senso comum aparece em praticamente todas as línguas e culturas, e em todos
os períodos históricos. Baseado em línguas antigas é transcrito o termo pode ser rastreada de
no mínimo 3000 anos. Caracterizando as noções de senso comum em piadas e humor27, nas

25 SAHLINS, M. A primeira sociedade da afluência. In: CARVALHO, E. Antropologia econômica. São Paulo: Ciências
Humanas, 1990.
26 WILLIANS, R. O campo e a cidade na história e na literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
27BOREY,V.Sweds Lack Common Sense Norwegian jokes swedes (Part II of II. Suite 101- Enter curious. Its Development

and disorders. http://www.suite101.com/article.cfm/norwegian_culture/90772.2002


42

artes e design28, na política29 na literatura sânscrita antiga, por exemplo, "Aprikshitakaraka" é


o quinto de cinco princípios na Panchatantra.
Grosseiramente traduzido, significa, conhecimento que não é suficiente para a
aplicação do essencial, como conhecimento local em antropologia30, ou nas discussões sobre
medicina e religião durante a Idade Média31.
Para entendermos do conhecimento científico a compreensão das características em
cada condição a ser utilizado pode contribuir significativamente para a explicação subjacente
de mecanismos fisiológicos e moleculares na consciência, memória e funções os mecanismos
oferecidos pela ciência para comprovadamente ter efeito modificador de ocorrências.
Profissionais trazem diferentes bases de conhecimento quando se reúnem para dialogar
ou sugerir sobre determinados temas, problemas não resolvidos e inicialmente propõem meios
que possam explicar questões sociais, econômicos ou ligados intimamente à cultura ou
condições e hábitos de vida, mas, o objetivo principal sempre é encontrar argumentos que
possam eliminar as mazelas e disfunções apresentadas pelo extrato social.
O uso da medicina natural ou tradicional pode ser concomitante com a introdução de
conhecimentos que facilitem e viabilizem a cura que em casos específicos só podem ser
tratadas com o conhecimento científico retardado pela aplicação inadequada de emplastos,
beberagens ou remédios e sem a devida precaução de problemas de ordem social.
Se o termo globalização como processo vincula diversos tipos de sociedades, e como
fenômeno engloba a fragmentação e desconstrução de valores, o caso das tradições religiosas,
o pensamento e o ambiente comum dos adeptos dessas crenças, não produzem o entendimento
necessário para alcançar o entendimento pelos leigos sobre a mensagem emitida pelos
protocolos e homenagens de respeito ou preito de admiração aos deuses do candomblé.

[... Os povos da tradição tendem a ser definidos, na ótica ocidental, por negação ou exclusão, como se,
presos às determinações da natureza, sofressem falta de história, estando assim fadados a desaparecer, a
permanecer atrás (ou para trás). Ou, no máximo, como se fossem iniciantes − recitantes apenas do
começo...] 32.

Com a facilidade de transmissão das informações, as culturas tradicionais vêm


acompanhadas de abordagens, ao mesmo tempo, diferenciadas e complementares sobre a

29LANDRE.Common sense and the art of Norwegian knitting. Knitty – little purls of wisdom.
<http://www.knitty.com/ISSUEspring05/FEATnorwegianknitting.html>.2004; SMITH E SHADEL, 2008,
30 GEERTZ, 1975/1992 Common sense as a cultural system, The Antioch Review 50(1-2) Winter 1992; Section: The Fourth

Decade 1971-1980; GEERTZ, 1983.


31 MULLOOLY, Work, Play And Consequences: What Counts In A Successful Middle School. New York: Columbia

University, Ph.D. Dissertation, School of Arts and Sciences. 2003. MULLOOLY, 2006.
32 BARTHES, R. Cf. Fragmentos do discurso amoroso. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1989.
43

mesma realidade. A cultura de consumo global tem sido propagada pelos satélites e, desde
então substituída por produtos locais em formas distintas.
A velocidade e a intensidade da conexão global com a integração entre os povos nas
últimas décadas, não impediram que debates acirrados continuassem a ocorrer sobre as causas
dos embates culturais, sociais e éticos. As instituições têm procurado inserir programas que
incentivem a sociedade em geral na participação de assuntos que permanecem como tabus. O
terreiro de candomblé e seus rituais, por exemplo, ainda são assuntos que trazem polêmicas
em determinadas áreas principalmente quando se referem integração social.
Neste sentido o século XXI tem priorizado o diálogo que responda os questionamentos
sobre a necessidade de aperfeiçoar a inter-relação da ciência com o senso comum
esclarecendo como as práticas religiosas podem estar engajadas aos da ciência, de forma que a
adequação aquelas comunidades consideradas radicais, sejam feitas paulatinamente e o uso de
normas e procedimentos científicos possam beneficiar as variadas religiões e crenças.

Assim, com base no ideário da civilização moderna transposto para as sociedades da tradição − numa
mera projeção do presente para o passado −, é que tais sociedades são negadas: pela falta de trabalho, de
Estado e de ordem − como se fossem ausentes de história, ausentes de cultura. Sob essa ótica, o
ocidente utiliza o termo selvagem, reportando- se a um estádio suplantado pela história, ou a uma
condição inferior da humanidade em seus primórdios, em oposição à condição de civilizado − quando o
“selvagem” traduzido como animal não é expulso para fora da humanidade −, suprimindo-se a
diversidade cultural. Nesse sentido, ressalta Clastres (1978): “Já se percebeu que, quase sempre, as
sociedades arcaicas são determinadas de maneira negativa, sob o critério da falta: sociedades sem
história, sem escrita...” 33.

As práticas tradicionais são consideradas bálsamos de cura em determinados casos e


comprovadamente para os que creem nos rituais, como eficazes no restabelecimento da saúde
e qualidade de vida, embora não descartem a importância e o vínculo que a crença tem como
complementação às outras práticas. Dessa forma, os órgãos tentam com parcimônia introduzi
plantas utilizadas em unguentos como forma de conciliar a credibilidade com a ciência
permitindo que essas plantas sejam utilizadas para tal fim.
Uma versão mais refinada sob o ponto de vista do senso comum ao modelo tradicional
dos tabus, ritos e curas é baseada em primeiro estágio aos pressupostos orgânicos, e não
orgânicos, na busca de causas biológicas e não psicológicas e os fatores associados à mente e
não à cultura humana são ignorados em estado temporário para que possam ser erradicados ou
curados pela intervenção científica.
A aplicação racional da ciência é, por conseguinte, uma característica da modernidade
à medida que existe dependência ao longo dos últimos séculos de uma poderosa e

33 CLASTRES, P. A sociedade contra o Estado. Rio de Janeiro: F. Alves, 1978.


44

experimental arte de analisar a estrutura e função do corpo para debelar os agentes que o
atacam e o enfraquecem.
Durante o seu curso, a medicina científica tem efetivamente transcendido a medicina
popular ou folclórica. A modernidade está diretamente relacionada à perícia ou habilidade e a
não tradição, diz respeito à inspeção crítica e a regulamentação técnica e científica do corpo e
não dos costumes e as crenças equivocadas de cura, embora a conjunção da ciência com a
crença religiosa pode auxiliar no bem-estar humano.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os estudos de temáticas culturais têm mostrado que a tradição e a modernidade podem


conviver harmonicamente e possuir abordagens culturais e sociais distintas, sem, contudo,
comprometer os resultados e as soluções para os conflitos humanos. A escolha é própria e a
responsabilidade é de quem faz a opção, mas, existem longos caminhos a serem trilhados,
para que o “outro” não se sinta desafiado a eleger entre o bem e o mal, o bom e o ruim e entre
o tradicional e o moderno.
Os preconceitos têm sido vencidos com discussões e diálogos que enfrentam questões
que podem ser resolvidas com a assunção de medidas conjuntas acreditando que a
participação efetiva das comunidades nas decisões, por certo ajudará a debelar problemas
sociais provenientes das culturais. A forma curativa de amenizar as discriminações e
preconceitos é a tolerância. Contudo, a escolha e as formas de opção adequadas podem aliar
os saberes tradicionais aos científicos e propiciar na medida certa o estabelecimento de um
vínculo entre a prática popular e a ciência como forma de melhorar os relacionamentos entre
os humanos.
A heterogeneidade, uma das características da cultura, que vem sendo aprofundada
pode ser verificada em diferentes concepções, se examinada sob a abordagem
multidisciplinar.
Os aspectos que auxiliam a compreensão desse fenômeno complexo e polissêmico
dizem respeito à concepção do povo e da cultura popular podem ser analisados sob diferentes
ângulos. Para tal, propomos o deslocamento do eixo da discussão para o âmbito da política,
explicitando primeiramente seu surgimento e em seguida a concepção dos "cépticos” da
cultura popular e o papel que desempenham na sociedade.
45

Com base nessas reflexões, estarão sendo analisados conceitos de tradição e


modernidade, geralmente apresentados como antagônicos, e que podem ser usados como
complementares.
O distanciamento entre a cultura de elite e a cultura popular, intensificou o processo de
repressão da primeira sobre a última. A implantação de uma política de submissão das almas
com base na doutrina oficial definida pelas igrejas, tanto católica, protestante ou evangélica,
cujo processo de centralização unificado em torno de administração, imposto e segurança,
podem ser identificados como principais fatores que levaram a separação entre as duas
culturas apontadas acima.
Destacamos que a crescente preocupação das autoridades com práticas que podem
gerar protestos, tumultos, como rituais, festas, ou celebrações entre outras manifestações
populares criam desagravo ao trivial burguês.
O processo de estranhamentos e desencantamentos baseado em valores de
universalidade e racionalidade da cultura burguesa moderna, em detrimento da cultura
popular tradicional tem mudado os percursos, e a cultura popular entra no debate moderno
passando a interessar, embora incomode como o lugar do inculto e restrições.
Entender o modelo de convivência das práticas cotidianas e adotar novos valores que
se incorporem às novas formas de organização social, abre a possibilidade de estabelecer
bases indispensáveis à sobrevivência dos hábitos e costumes em perfeita interação com a
medicina científica.
De modo a conhecer as múltiplas faces deste Nordeste que insiste em manter tradições, mescla
o individual com o coletivo, o real com o representacional, entender como tudo se processou a partir
dos desdobramentos culturais, é o primeiro passo para avançarmos na reelaboração dos sistemas de
poder, na alteração do espaço físico e no modo de vida desses sujeitos sociais.
A proposta de incluir à sociedade sertaneja em Procedimentos e Ações Específicas de
Protocolos Operacionais Padrões são estratégias de inclusão e participação de parcela
considerável de comunidades que são atingidas por doenças endêmicas no Nordeste
brasileiro, que podem trazer uma resposta a problemas imediatos em saúde. Entre outras,
envolver as comunidades em atividades de recrutamento de pessoal no corpo a corpo com
representantes comunitários que sirvam de meio de comunicação promovendo palestras,
simpósios e fóruns de discussão que desenvolvam protocolos específicos de apoio à pronta-
resposta e rápida estratégia de contenção às doenças locais e regionais, por certo contribuíra
para a diminuição das endemias.
46

O estudo das diferenças sociais e culturais deve ir além de proposições discursivas e


merecem trabalho articulado que fortaleça o diálogo entre a medicina científica e a prática
religiosa. A cultura intimamente ligada à questão de saúde tem se tornado um assunto de
profunda dicotomia. De um lado o diagnóstico não determina que o tratamento das doenças
tropicais de distribuição geográfica seja efetivado, do outro, as indústrias farmacêuticas não
investem em pesquisas científicas solucionadoras que promovam preços acessíveis à
população de baixo poder aquisitivo.
Desta forma, ampliar o circuito de diagnóstico social nas regiões de proliferação de
doenças endêmicas na região Sudoeste da Bahia tem por objetivo criar condições necessárias
à interação entre tradição e modernidade, entre o cultural e o científico, que possam
intercambiar saberes e formas de erradicar doenças endêmicas, algumas delas consideradas
mazelas brasileiras.
O grande desafio é reconhecer a diversidade como parte inseparável da identidade
nacional e dar a conhecer a riqueza representada por essa diversidade étnica que compõe o
patrimônio sociocultural brasileiro.
As considerações provisórias requerem, sem dúvida, aprofundamentos específicos em
diferentes áreas e sobre diferentes olhares, sejam históricos, sociológicos e antropológicos,
acerca da tradição, da modernidade amplitude que escapa dos limites do presente estudo.

4. REFERÊNCIAS

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50

MALINCHE, A MALDITA,
REPRESENTAÇÃO SIMBÓLICA DO ÓDIO E TRAIÇÃO NA HISTÓRIA
MEXICANA .
Profª Drª Maria Teresa Toribio Brittes Lemos - Universidade do Estado do Rio de Janeiro -
UERJ

1 INTRODUÇÃO

Malintzin é a anti-heroína de uma tragédia que envolveu o Império azteca, provocou a


queda da capital Tenochtitlán. Representada no imaginário mexicano como traidora,
Malinche faz parte das diversas memórias e histórias sobre a dominação azteca e invasão do
México pelos espanhóis. Lembrada como a índia que traiu o povo mexicano34, tornou-se o
símbolo da traição.

Embora a maioria das nações indígenas, algumas aliadas de Montezuma e outras


submetidas à sua tirania, tivessem participado como cúmplice dos espanhóis, somente ela, a
índia Mallinali, foi escolhida para carregar a marca da infâmia e a maldição do deus
Quetzalcoátl.
Essa escolha tinha sentido e esse ódio coletivo tinha explicação para os mexicas.
Mallinali representava um poder que ninguém tivera naquelas terras e, além de conhecer as
línguas indígenas, era a preferida do Capitão Cortés e isso a tornou poderosa. Ela soube
exercer firmemente esse poder sobre os príncipes aliados, embaixadores de Montezuma,
tropas indígenas e soldados espanhóis. Era a sombra de Cortés e sua intérprete. Dela partiram
as palavras que calaram a voz dos mexicanos em nome de um deus e de um rei
desconhecidos. Depois dessa tragédia, o México do Huey Tlatoani Montezumoczin35 -
imperador Montezuma - nunca mais recuperou seus deuses e sua liberdade.
Nesse cenário de heróis e traidores, os príncipes astecas, primos e sobrinhos do Huey
Tlatoani derrotado, como o príncipe Ixtlixóchitl, também fizeram a sua opção. Trairam o seu
Huey Tlatoani, conspiraram contra seus deuses e seus ancestrais. Os tlaxcaltecas, antes
aliados de Montezuma, conspiraram e apoiaram os espanhóis. Todos queriam dominar

Será sempre lembrada para que nunca seja esquecida, pois é possível viver quase sem lembrar, mas é impossível viver sem
esquecer. Nietzsche, F. - Le Livre du Philosophe. Paris, Aubier-Flammarion, 1989
35 - Neste texto chamaremos invariavelmente Montezuma por Montezumoczin. O titulo imperador, usado pelos espanhóis,

não corresponde ao mesmo sentido que Huey Tlatoani. Huey significa grande, tlatoani =senhor. É mais que imperador é um
representante do seu deus. Em relação ao sufixo tzin, empregado depois dos nomes próprios, equivale a don castelhano,
indica respeito, afeto e proteçao.
51

Tenochtitlán. Esses príncipes indígenas foram os artífices poderosos que conduziram milhares
de índios para se juntarem às tropas espanholas e destruírem a grande Tenochtitlán.
O príncipe Ixtlilxóchitl, sobrinho de Montezuma, conspirava contra seu irmão
Cacamamatzin, que era aliado do Tlatoani. Seduzido pela sede de poder e cobiça-o se aliou a
Cortés, enviando seus embaixadores para convidar o Capitão espanhol para visitar sua cidade
Teotlapan, e concedendo-lhe hospedagem. Ele se ofereceu para se unir aos espanhóis, lutar
contra o seu huey tlatoani Montezuma36 e não esperou ser convidado. Para os aztecas,
Ixtlilxóchitl era o mais temido traidor do Império.
Aliados dos espanhóis, os tlatoanis ou caciques fazem parte da memória do
esquecimento do povo mexicano e da história da conquista. Não são mencionados ou
lembrados como Malintzin. Também não foram esquecidos pelos vencedores e, sim,
recompensados. Premiados com cargos e títulos de nobreza para governarem o novo Vice-
Reino da Espanha, fizeram parte da casta indígena-espanhola que controlava a população
submetida. Deles saíram, em muitas ocasiões, ordens para os trabalhos servis. Batizados com
nomes cristãos assumiram os mais altos cargos do Vice-Reino de Nova Espanha e ofereceram
suas filhas como presente, para se casarem com os nobres espanhóis e destacados heróis de
guerra37. Passaram de Tecutli - senhor - para súdito de honra do rei espanhol e receberam
cargos de dignitários no México e na Espanha. Mas por que Malintzin, apenas ela, foi e
continua sendo degradada?
Mas, dessa imensa tragédia, uma pergunta ainda não foi respondida. Ou melhor, não
havia interesse em respondê-la. Malintzin é uma traidora, mas afinal a quem traiu? A que
senhor? Ela não era súdita de Montezuma, nem de nenhum senhor azteca, tlaxcalteca ou de
qualquer outra nação indígena. Era uma escrava que possuiu muitos donos e que tinha
passado pelo mercado de escravos, vendida pelo maior preço e que por sua sorte não foi
comprada para ser oferecida aos deuses. Foi presenteada aos espanhóis pelo cacique maia
Tabs-coob, de Potonchan, junto com mais dezenove índias. Foi oferecido como “dom”, um

36 -Ixtlilxóchitl era sobrinho do Tlatoani Montezuma, chamado de huey tlatoani -em náhuatl, e irmão do tlatoani de
Otompan, reino aliado de Tenochtitlán . Assim que se aliou aos espanhóis foi batizado com nome cristão, recebendo mercê
do Rei da Espanha. Segundo relatos indígenas ele era alto, de rosto agradável e bom porte.Além de atento, era dissimulador e
utilizava a beleza para seduzir. Quando não mais precisava das pessoas, as descartava sem pieda
de. Era um inimigo perigoso, informa Martin del Campo .
37 - Bernal Diaz Del Castillo, op. cit., pp.146/147 e Alva Ixtlilxochitl,op.cit.;, p.370, relacionam as filhas dos caciques.

Também ressaltam que todas elas tiveram filhos e algumas foram para Sevilha, após a tomada de Tenochtitlán.
O costume de presentear os aliados oferecendo suas filhas está descrito no Lienzo de Tlaxcala, p.207.Munõz de Camargo,
mestiço Tlaxcalteca conta que “os proprios caciques e principais davam suas filhas em casamento com o propósito de que
eleas gerassem homens valentes e temidos”,Martin del Campo, op. cit.p.420, nota 15.
As filhas de Xicontencatl: Tecuiloatzin, batizada Luisa, casou-se com Don Pedro de Alvarado; Toltequequetzltzin, casou-se
com Cristóbal de Olid; As filhas de Atlapaltzin: Zicuetzin, batizada Elvira, casou-se com Juan Veláquez de León;A filha de
Tecuanitzin-Huitznahuazihuatzin, casou-se com Alonso Ávila.
52

presente, um reconhecimento pela nova amizade. Por que, afinal, a história atribuiu tanto
poder a Malintzin, inclusive a de ter derrubado um império?
A historiografia liberal do século XIX prescreveu o destino de Malintzin na história.
Ela se tornou uma mulher maldita e perpetuada pela memória coletiva do povo mexicano.
Essa marca da infâmia acompanha a sua sombra. Mas Malintzin não existiu assim. Essa é uma
construção, uma representação daquelas formas de pensar. Malintzin é a fabricação de uma
época que criava ou destruía heróis e mitos nacionais, seguindo os pressupostos básicos do
ideário cristão dominante no México Independente.
Assim, ela se tornou a figura emblemática do mal. A ideologia liberal e nacionalista
não só precisava projetar os heróis nacionais, mas também escolher aqueles que deveriam ser
excluídos e desprezados. Malintzin, a índia representada nos Códices indígenas, não é a
mesma dos textos mexicanos.
Malinche personificou a diferença, a imagem e o reflexo do “outro”, justificando a
alteridade e o preconceito contra indígenas e mestiços. A construção de sua imagem como
maldita fortaleceu o nacionalismo, indicando que a nação exclui aqueles que não se integram
ao perfil ideal de “povo imaginado”. Uns precisavam ser enaltecidos, motivos de orgulho e
reverência, enquanto outros eram odiados. Malintzin atendia a todos esses pressupostos: eram
índia e mulher, além de escrava e subordinada, inteligente e ambiciosa. Além de mulher,
numa sociedade machista, Malintzin era uma índia sem origem, escrava e objeto de troca
entre seus donos. Foi assim que Cortés a recebeu como presente.

1.1 Malintzin – uma personagem de amor e ódio


Na história ou na ficção, a índia Malintzin é mais odiada que amada. Sua personagem
desperta paixão e rancor. Sua participação na história da invasão do Império de
Montezuma38, conhecido entre eles como “povo do Sol”, e na queda da capital Tenochtitlán,
revela a importância que teve para o êxito da dominação espanhola. De “língua” à
colaboracionista, Malintzin marcou seu espaço na história do México.
Tornou-se uma referência para os estudos sobre a invasão do México, constando na
maioria das fontes documentais do século XVI, nos códices indígenas e na historiografia
mexicana. Desde o século XIX até os dias atuais sua participação, junto aos espanhóis,
transformou-se em objeto da história nacional, da literatura e demais ensaios da ficção.

38- Montezuma era o Tecutli ou Tlatoani dos aztecas quando os espanhóis invadiram o México, em 1519, também
chamado de Huey Tlatoani. ( Senhor Imperador) Cortes também era chamado de Tlatoani pelos índios aliados e por Marina.
Entre os maias era chamado de Nacom.
53

Marina e Cortés39, amor, cumplicidade, opção ou submissão são a referência da representação


simbólica do mal, da opressão e da desestruturação da sociedade mexicana.
A história da índia Malintzin foi retratada como um mito negativo. Saiu dos
documentos para fazer parte da memória coletiva da sociedade mexicana. A imagem de uma
mulher traidora, colaboracionista, manipuladora, amaldiçoada e maldita - “La Chingada” - foi
construída pelo imaginário coletivo dos povos submetidos e dos espanhóis colonizadores40. A
história de Malinche também é contada como lenda e a mais famosa delas é a La LLorona.
Segundo essa lenda, Malinche tornou-se uma alma penada que vagueia pelas cidades
em todas as direções, arrependida por trair os mexicanos. É uma lenda marcante para o povo e
muitos afirmam já ter visto o seu fantasma chorando nas margens dos rios, durante a lua
cheia. Aqueles que procuraram saber por que ela chorava, descreveram-na como uma mulher
que mal podia ser vista,
“a claridade lhes permitia ver apenas uma espessa neblina rente ao solo e aquilo que se
parecia com uma mulher, vestida de branco com um véu a cobrir o rosto, percorrendo a
cidade em todas as direções - sempre se detendo na Plaza Mayor, onde se ajoelhava voltada
para o oriente e, em seguida, levantava-se para continuar sua ronda. Ao chegar às margens do
lago Texcoco, desaparecia. Poucos homens se arriscaram a aproximar-se do espectro
fantasmagórico - aqueles que o fizeram sofreram com espantosas revelações, ou morreram”
41
.

1.2 Malintzin – a trajetória da maldição


A trajetória de Malintzin é revelada tanto pelos relatos da memória dos que a
conheceram e conviveram com ela e sabiam de sua importância junto a Hernán Cortés, como
também pela memória daqueles que ouviram falar dela, como registram os códices e as
crônicas do séc. XVI.

39 - Fernando Cortés Monroy Pizarro Altamirano , nasceu em 1485, em Castilleja de la Cuesta, provincia de Sevilla, e
faleceu em 2 de dezembro de 1547. Era filho único de um fidalgo da região da Extremadura, chamado Martín Cortés e de
Catalina Pizarro Altamirano. Pelo lado materno era primo segundo de Francisco Pizarro, que posteriormente conquistou o
império inca (não confundir com outro Francisco Pizarro, quem se uniu a Cortés na conquista dos aztecas). Estudou em
Salamanca , onde esteve por dois anos.
40 - Doña Marina —la Malinche— Segundo os relatos ,Marina se rendeu aos encantos do conquistador espanhol e , como

contrapartida, traiu seu povo. Segundo os especialistas em mitologia mexicana, a Malinche simboliza a mulher mentirosa,
traiçoeira, manipuladora. Má mulher e má mãe. Centro de Información, Documentación y Apoyo a la Investigación (CIDAI
de la Universidad Centroamericana “José Simeón Cañas” de El Salvador. Año 24,número 1062,agosto 27, 2003
41 - A Llorona, Relatos Mexicanos. Mexico, Aguascalientes, 2007.
54

Em todas essas narrativas, destaca-se o papel que desempenhou como intérprete e a


importância de sua atuação para o êxito das alianças dos espanhóis com os inimigos dos
aztecas e, principalmente, para a derrota do Império de Montezuma.
Possuía mais poder que o próprio Capitão Cortés junto ao povo mexicano, que o
chamava de “Senhor Malinche”, invertendo a ordem usual entre eles, que era a mulher ser
conhecida por pertencer a um homem. Ela nunca foi chamada por “a Malinche de Cortés”.·.
Os Anales de Tlatelolco, documento indígena escrito em 152842, confirmam o papel de
Malintzin e a sua contribuição para a derrota do “povo do Sol”. Segundo Léon Portilla,
baseado nesse códice, com a derrota de Montezuma, os “cem anos de glória dos aztecas
haviam terminado”.43
Naqueles Anales encontra-se o relato da prisão do huey tlatonai Cuauhtemoctzin,
sobrinho de Montezum, o grande herói da resistência azteca, após 80 dias de luta. A capital
Tenochtitlán estava cercada pelos espanhóis e seus aliados, sem água e comida. Os habitantes
esfaimados, morrendo de febre, mantinham-se leais ao tlatoani, lutando tenazmente, com suas
armas, arcos e fechas, além dos armamentos confiscados dos espanhóis derrotados, contra as
tropas espanholas e indígenas armadas com canhões e cavalos. Naquele dia da prisão, ao lado
do Capitão espanhol, Malintzin aguardava a chegada do prisioneiro. Segundo o relato contido
no Códice de Tlatelolco,
“[...] cuando salieron del agua ya van Coyohuehuetzin, tepantemoctzin, Temilotzin y
Cuauhtemoctzin.Llevaron a Cuauhtémoc a donde estaba el capitan, y don Pedro de Alvarado
y donã Malintzin[...],
Malintzin estava lá, ao lado de Cortés, esperando o valente Cuauhtemoc, que resistiu
por 80 dias ao cerco dos espanhóis. E só foi capturado porque se entregou para evitar a morte
da esposa e das princesas que a acompanhavam no barco, tentando escapar do cerco dos
espanhóis em busca de refúgio longe da guerra. Esse episódio também é relatado na relação
De Alva Ixtlilxóchitl que confirma a participação de Malintzin atuando junto às tropas
estrangeiras. Ele afirma que ela não só se conformou em traduzir a língua, como também
interpretou para o europeu a psicologia indígena, e inclusive atuou independentemente para
conseguir o triunfo dos espanhóis.44
Apesar da glória e da fama que deu ao Capitão Cortés e à Espanha, sua felicidade foi
efêmera. Condenada pelo destino que a perseguia desde a infância, sequer foi lembrada pelos

42 - Anales de Tlatelolco- Codice indigena do século XVI, In Codices y Documentos Sobre Mexico.Mexico, INAH,1994
43 - Léon-Portilla, Miguel – Los Antiguos Mexicanos.Mexico, FCE, 1998
44 - Nota 13, Martin del Campo, op. cit. P.420
55

espanhóis após sua morte. Maltratada e posteriormente assassinada por Juan Jaramillo, não foi
chorada ou velada por Cortés, pai de seus filhos Martin e Maria.

1.3 Construção simbólica de Malinche ou o paradigma da traição

Os percalços da trajetória de vida de Malintzin sugerem uma maior profundidade


sobre a questão da identidade. Malintzin não sabia ao certo sua origem e também de nada
sabia sobre sua ancestralidade. Aprendeu várias línguas e conheceu diversas culturas, mas não
internalizou nenhuma identidade. Sua identidade estava fragmentada e desde muito criança
trocava de senhor e de cidade. Ao conhecer Cortés e poder servi-lo, foi valorizada pelos
serviços prestados de intérprete e guia para as terras mexicanas. Convivendo com os
espanhóis recebeu um nome cristão e se tornou a mulher do Capitão, do “principal”, do
tlatoani espanhol, como os índios o chamavam. Era preferível adotar a identidade do seu novo
senhor do que continuar como uma índia escrava.
Assim, optou por livre escolha, pela nova identidade que se apresentava, adotando os
valores da cultura e da religião do capitão espanhol, por quem se envolveu. Tornou-se uma
estrangeira entre os indígenas, mas com um poder que jamais imaginou possuir. Esses
pressupostos poderão explicar melhor a personagem Malintzin, naquele contexto de lutas pelo
poder e sobrevivência.45
Sua opção pelo “outro” não impediu que a considerasse uma “índia maldita”, que
ensinou a língua e os caminhos para a derrota dos aztecas, além de contribuir para a
submissão de toda a sociedade indígena. Para os mexicanos, desempenhou aquele papel
como cúmplice dos invasores, mas suas razões e opções explicam sua atitude.

Desde os primeiros contatos com os espanhóis Malintzin se tornou para o povo


mexicano o símbolo da traição, da ambição e da deslealdade. Sua infidelidade ao Império de
Montezuma nunca foi esquecida e foi perpetuada pela memória coletiva do povo mexicano.
Era odiada pelos aliados do Tlatoani azteca, porém respeitada pelos espanhóis e temida pelos
inimigos de Montezuma.

45- Os estudos de Susana A. Montero Sanchez sobre construção das identidades sociais permitiram maior entendimento o
imaginário coletivo e sobre as formas de pensar da sociedade mexicana sobre o papel de Malinche na época da invasão
espanhola e foram fundamentais para o desenvolvimento desta análise.
56

Reconstruir a trajetória dessa personagem que se tornou um mito do mal, da traição e


da desonra, enfim uma mulher maldita é um desafio, sobretudo quando se pretende
desconstruir essa imagem cristalizada no imaginário de grande parte da sociedade mexicana.
É uma tarefa apaixonante, levando-se em consideração a necessidade de se revisitar as fontes
históricas e a literatura produzida sobre essa personagem, procurar, enfim, os traços
identitários que se perderam ao longo dos séculos.
Montero Sanchez afirma que os pensadores e autores de tendência nacionalista, para
impor uma utopia liberal nacionalista no país, construíram uma representação de nação
mexicana sem ambiguidades sociais, ou seja, sem, bandidos-heróis, sem traidores premiados e
castigos justos, e, sobretudo, sem indígenas desvinculados do progresso. Mas também
produziram a imagem de traidores da pátria, como Malinche, com a finalidade de excluir todo
e qualquer indício de malfeitores e indivíduos cuja lembrança pudesse abalar a imagem
fabricada da nação46.
Malintzin e a carga de culpa que carregava em suas costas atenderam a esses
objetivos. Assim, as crônicas, códices indígenas, obras literárias e históricas foram
reinterpretados de acordo com os pressupostos da ética cristã ocidental. E aqueles pensadores
nacionalistas concluíram que Malintzin foi e continua sendo uma mulher maldita, a traidora
do povo mexicano. E todos que traem, os desleais ou aqueles que optam pelos valores do
“outro”, subestimando a sua cultura, têm uma atitude malinchista.
Excluída do grupo dos personagens construtores da nação, Malintzin encontra-se na
contramão de uma sociedade estruturada no ideal conformado basicamente pelos pressupostos
ideológicos da sociedade cristã ocidental, da Ilustração e da Revolução Francesa. Malinche
não faz parte do que Benedict Anderson chamou de “comunidade imaginada” 47
.
Amaldiçoada pela sua aliança com os dominadores estrangeiros encontrou seu espaço na
memória coletiva do povo mexicano.
1.4 De Malintzin à Malinche - o percurso de uma mulher maldita –
Marisol Martín del Campo48 lamenta, em sua história sobre a conquista do México, o
percurso de abandono e desamor de Malintzin. Descreve o relato da criada Ozlaxiuchitl49, que

46-Entre esses autores destacam-se especialmente Ignácio Ramírez, Ignácio Manuel Altamirando e Guillermo Prieto, cujas
obras estiveram sempre a serviço de um projeto nacionalista [...] e se ocultaram sob máscaras narrativas da lenda, dos dados
sobre costumes, romance ou relato ficcional.
A autora considera também que os textos políticos dos intelectuais mais proeminentes são básicos para a delimitação e
caracterização da “ comunidade mexicana imaginada”.
47- Anderson, Benedict – Comunidades Imaginadas.Reflexiones sobre el origen y la disfusión del nacionalismo.Mexico, FCE,
1993, p.22-30
48 -Marisol Martin de Campo é historiadora e pesquisadora. O seu livro sobre Malinalli é uma das melhores história sobre a

conquista do Mexico pelos espanhóis e a vida cotidiana durante o Imperio de Montezuma.


57

conta para a sua filha Miahuaxoxhitl o sofrimento da “poderosa” índia Malinalli. Conta
detalhes de seus últimos dias e como Malintzin era desprezada por Dom Juan Jaramillo: “La
señora Malinalli es mencionada entre los nuestros com rabia, los españoles ni la nombram.” ·.
O sentimento de traição e de deslealdade despertado no povo mexicano é tão forte que
fez surgir o termo Malinchismo50, para explicar as formas de atração que o estrangeiro exerce
no imaginário popular, perdendo o espírito de nacionalidade ao se passar para o lado do
“outro”. O Malinchismo traduz o desprezo aos que se deixam atrair pelos valores estrangeiros,
considerados superiores, de melhor qualidade e dignos de imitação. A força desse sentimento
de repúdio ultrapassou as fronteiras do México, e o malinchismo passou a ser aplicado como
termo técnico, político, enfim para tudo que significasse opção pelo estrangeiro.
Atualmente, os estudos sobre gênero e poder estão alterando a imagem de Malintzin.
E a imagem de Malinche – a traidora – retratada como o poder simbólico “do mal” está sendo
desconstruída. Esses estudos discutem a participação de Malintzin contextualizando-a como
uma personagem forte, uma força de transformação social que se opôs à dominação azteca e à
opressão dos deuses, confrontando-se com as estruturas dominantes de Tenochtitlán.
Malintzin, por essa leitura, foi considerada a primeira mulher mexicana a possuir de fato o
poder no México, desconstruindo o mito de Malinche ''La Chingada'', além de ser valorizada
pela sua mediação, como “intérprete” entre Montezuma e os estrangeiros, e entre as duas
línguas, o espanhol e, sobretudo o náhuatl51 . Os aztecas dependiam praticamente dela e da
tradução de sua língua para não serem completamente destruídos pelos invasores europeus e
seus aliados nativos.
As publicações sobre sua atuação ao lado dos espanhóis são numerosas. Ela é contada
pelos cronistas do século XVI, pelos religiosos e pelos códices indígenas e, retomada até os
dias atuais. Malintzin faz parte da historiografia mexicana, literatura e ficção.

2. MALINCHE – A SENHORA DA PALAVRA - VISÕES E VERSÕES

49 - Martín del Campo, Marisol – Amor y Conquista – La novella de Malinalli mal llamada La Malinche. Mexico, Ed.Planeta
mexicana,1999 e 2002. p.14 . Os nomes das índias escravas constam das obras de Bernardino de Sahagún e Bernal Diaz
Del Castillo. A autora usa os nomes reais de seus personagens, dando a eles um tratamento literário, sem fugir às fontes
documentais.
50 - O mito de Malinche ultrapassou as fronteiras mexicanas. No México e em outros países o termo malinchismo/

malinchista se aplica a todos aqueles que sentem uma atração desmedida pelo estrangeiro e desprezam a cultura nacional.
Também se aplica à política para explicar a opção pelo estrangeiro, como em El Salvador, os partidos políticos de Esquerda
chamam os adversários de “Direita Malinchista”.
51- O náhuatl possivelmente deriva da palavra (de nāhuatlahtōlli; «fala clara») e também é conhecido como mexica ou
azteca . A grande importância desta língua é que ela foi a língua oficial do Império Mexicano desde antes do século XIV
até a sua queda em o de 1521. O náhuatl é a lengua ameríndia mais falada no México, aproximadamente um milhão e meio
de habitantes, do norte do Mexico até a América Central.
58

As versões sobre vida de Malintzin são inúmeras. A maioria reproduz os relatos dos
cronistas do século XVI, em suas narrativas de memória, sobre a invasão e dominação do
Império azteca, como também as obras dos autores que escreveram sobre o que ouviram
contar a respeito das atrocidades espanholas no Novo Mundo. São memórias dos que
participaram diretamente da invasão e também daqueles que ouviram suas histórias.
Enquanto Malintzin viveu ela fazia parte da memória do seu povo, que não a
esquecia, pois lembrar-se dela era uma forma de odiá-la e de alguns espanhóis ligados a
Cortes e ao seu marido Jaramillo. Quando morreu, foi esquecida por todos. Para os
mexicanos, só restou a lembrança da sua traição.
Os relatos sobre sua participação junto aos espanhóis são desencontrados, embora
coincidam em alguns aspectos, especialmente quando tratam do encontro e aliança com os
tlaxcaltecas52, os embaixadores de Montezuma, a entrada violenta em Tenochtitlán, o
massacre da população de Tlaltelolco, a assinatura dos acordos, além da vida cotidiana ao
lado dos soldados de Cortés.
Uma daquelas versões é a Crônica escrita por Bernal Díaz Del Castillo53. Nessa obra
ele relata a história da índia Malintzin, já com o nome cristão de Marina. Os fatos foram
narrados conforme foram surgindo em sua memória. Assim, escreveu sobre a sua infância e o
reino de Paynala, onde ela nasceu e que Marina, desde muito criança, já ostentava o título de
cacica. Era poderosa e herdeira de muitas terras e numerosos vassalos, filha de grandes
senhores, caciques ou tecutlis do reino de Paynala e de outros reinos submetidos à vassalagem
e que se localizavam a oito léguas da cidade de Guazacualco54.
Era muito pequena quando seu pai morreu e sua mãe se casou pela segunda vez com
um índio que também era cacique. Dessa nova união nasceu um menino. Sua mãe e o
padrasto resolveram que ele seria o futuro cacique de Paynala. Para isso, precisaram afastá-la
do reino. Foi quando a ofereceram aos índios mercadores de Xicalango. Malintzin foi levada à
noite, às escondidas, para que não fosse vista por ninguém. Logo após o seu desaparecimento,
eles comunicaram ao povo que ela tinha morrido. E, para confirmarem sua morte, mostraram
o corpo de uma indiazinha que tinha falecido naquele mesmo dia.

52 - Os tlaxcaltecas eram inimigos do Tlatoani azteca Montezuma e se aliaram aos espanhóis para invadir a capital
Tenochtitlán. O apoio desse povo foi fundamental para reunir outras comunidades descontentes e destruir o império mexica.
53 -Díaz Del Castillo, Bernal –Historia Verdadera de la Conquista de la Nueva España, Madrid, Espasa Calpe, 1955, Capitulo

XXXVII –Como Doña Marina era cacica, hija de grandes señores, y señora de pueblos y vasallos, y de la manera que fue
traída a Tabasco, p.83:95.
54 -Guazacualco – atualmente
59

A trajetória infeliz de Malintzin começou no dia em que foi vendida aos mercadores
de Xicalango. Foi a primeira vez que Malintzin foi traída e vendida, porém não a última.
Sua vida foi marcada por traições e sofrimentos. Os pochtecas, mercadores astecas, 55 a
violaram brutalmente e a revenderam aos índios de Tabasco. Em 15 de março de 1519, após a
derrota contra os espanhóis, foi oferecida como escrava ao Capitão Hernán Cortés. A partir
dessa data, Malintzin entrou definitivamente para a história do México espanhol.
Bernal Díaz Del Castillo, quando esteve em Tabasco, afirmou que conheceu a mãe e o
irmão de doña Marina e soube que o padrasto dela tinha morrido e que seu irmão era o atual
cacique. Ele contou que a mãe dela foi batizada com o nome de Marta e o irmão recebeu o
nome de Lázaro. Esse fato ocorreu em 1523 e Bernal Diaz conta que se lembra muito bem,
pois foi quando Hernán Cortés passou por Tabasco e se dirigiu para a cidade de
Guazacualco56. Nessa ocasião os espanhóis já tinham conquistado o México e outras
províncias e o soldado Cristóbal de Olid, que fazia parte da expedição de Cortés, encontrava-
se em Higueras para governar a cidade.
Ao chamar Marina por doña, Bernal Diaz está lhe dando o tratamento de grande
senhora. No século XVI somente eram chamados de don e doña pessoas de famílias nobres e
ricas. Assim, ele confirma o seu status de cacica.
De Tabasco, os espanhóis foram guerrear contra os povos das vilas de Nova España,
Tlaxcala e México-Tenochtitlán, prosseguindo no combate aos aztecas para dominar outras
cidades aliadas do Huey Tlatoani mexicano. Malintzin os acompanhou como intérprete e
participou dos acordos com aqueles povos.
Ela se destacou imensamente nesse confronto, desde intérprete entre os espanhóis e os
tlaxcaltecas, inimigos de Montezuma, à doutrinadora da religião cristã, combatendo os ídolos
mexicanos. Bernal Díaz, em suas memórias, referia-se a ela com orgulho, não se limitando a
exaltar suas qualidades de excelente mulher, mas seu valor como intérprete, envolvendo
completamente o Capitão Cortés. Malintzin foi fundamental para conduzi-los à Tenochtitlán,
capital do Império Azteca, e intermediar as negociações de guerra entre Montezuma e Cortés.
Soube também exercer o poder com autoridade e foi temida pelos índios e soldados
espanhóis. Por esse motivo, Cortés não se separava dela e ainda colocou um soldado para
vigiá-la, além de levá-la para toda parte.
Bernal Diaz escreveu também sobre o casamento que o Capitão conseguiu para ela
com o fidalgo Juan Jaramillo. O ato religioso foi celebrado no povoado de Orizaba, diante de

55 -pochtecas – são os mercadores aztecas.


56 -Idem,op.cit., p.84
60

testemunhas57. Em sua crônica, ele destacou o poder que exercia sobre os índios aliados que a
temiam e os soldados espanhóis que a admiravam, pois ela “tenia mucho ser y mandaba
asolutamente entre los índios em toda Nueva Espana”.·.
No relato, destaca-se o encontro de Malintzin com a mãe e o irmão. Cortés convocou
todos os caciques dos reinos submetidos para uma reunião, na cidade de Guazacualco.
Pretendia submetê-los a fé cristã e exigir fidelidade ao rei da Espanha. Naquela ocasião, a mãe
e o irmão de Malintzin também foram convocados. Quando eles a viram, logo a
reconheceram pela semelhança que guardava com a mãe. Ficaram apavorados diante dela,
pelo poder que exercia junto aos espanhóis, e começaram a chorar pensando que ela iria
mandar matá-los. Ao contrário, foram consolados e perdoados. Bernal Díaz lembra que
Malintzin desculpou a mãe, dizendo que ela não sabia o que estava fazendo, quando a
ofereceu aos índios de Xicalango. E, para mostrar sua generosidade, como boa cristã,
Malintzin lhes ofereceu joias, ouro e roupas e deixou que voltassem ao povoado.
Bernal Diaz, em suas memórias, refere-se à Malintzin com admiração e muito carinho,
lembrando seu completo envolvimento e cumplicidade na guerra contra os aztecas. Ele
demonstra ter gostado muito dela, pois transmite, em seus relatos, a amizade e orgulho que
sente por ela, além de destacar e elogiar sua intensa participação junto aos espanhóis. No
entanto, o que mais o deixa admirado é a fé no deus cristão que Malintzin demonstra,
agradecendo muito a Deus tê-la retirado do contato com os índios idólatras de sua nação. E
lembra como ela falou à sua mãe, quando a encontrou em Tabasco , da fé ao deus cristão e do
amor que sentia por Cortés.
”Dios la había hecho mucha merced en quitarla de adorar ídolos, agora y ser cristiana, y tener un hijo de
su amo y señor Cortés, y ser casada con un caballero como era su marido Juan Jaramillo; que aunque la
hicieran cacica de todas cuantas provincias había en la Nueva España, no lo seria, que en más tenía
servir a su marido e a Cortés en cuanto en el mundo hay. 58

Sobre esse fato, ele afirma que somente poderia escrever isso “certificadamente”, e
não Gomara, pois ele não tinha presenciado nada no México59. Também enfatizou que doña
Marina sabia a língua de Guazacualco, própria do México, assim como Jerônimo de Aguilar
conhecia a língua de Yucatán e Tabasco. Ele finaliza seu relato assinalando que as duas
“línguas” foram essenciais para o êxito da conquista. No trecho final da narrativa ele informa

57 -Sobre o casamento, Bernal Diaz Del Castillo discorda do relato de Gomara.


Francisco López de Gomara escreveu .”Historia de la Conquista de Mexico” para enaltecer a atuação de Hernán Cortés pela
conquista do México. Para ele, Cortés foi o único herói.Os soldados que participaram da invasão foram tratados como
figurantes em seus relatos , o que indignou Bernal Dias Del Castillo, valoroso e reconhecido soldado espanhol, um dos que
mais se destacaram nessa etapa da conquista espanhola no Novo Mundo. Também foi essa indignação que levou Diaz del
Castillo a escrever suas memórias e refutar os fatos narrados por Gomara em sua obra.
58 -Idem, p.84
59 -Nota do editor: Testado em el original “ y lo juro”, idem , nota 1, p. 85.
61

“sin doña Marina no podíamos entender la lengua de Nueva España y México. Donde no
dejaré y volveré a decir cómo nos desembarcamos en el Puerto de San Juan de Ulúa”.60
Além de intérprete, foi mulher do conquistador com quem teve um filho, embora
Cortés a tivesse oferecido em casamento ao soldado Juan Jaramillo, além de batizá-la e
doutriná-la para o cristianismo. Foi com Cortés que viveu o seu intenso amor e fez a opção
identitária pelo estrangeiro. Malintzin, uma índia sem nação, encontrou na cultura do “outro”
as condições para a reconstrução de sua identidade fragmentada. Não foi, portanto, uma índia
mexicana que abriu o México aos espanhóis, mas uma nova espanhola, que conhecia o espaço
e a cultura indígenas, que guiou Cortés até Tenochtitlán, o coração do Império azteca.
Sobre as origens de Malinalli há várias versões, muitas das quais apenas para
corroborar versões já conhecidas por autores da época da conquista. A mais citada é a de
Bernal Diaz, descrita anteriormente, e que se refere ao reino de Paynala. O historiador Gómez
de Orozco, em sua obra, afirma que ela era filha de Malintzin Tenepal e de Cimatl, ambos
nobres e caciques de Olutla e Jaltipac, enquanto López de Gomara assinala que nasceu no
povoado de Viluta, em Jalisco. A versão de Lopes de Gomara foi confirmada por Frei
Torquemada e Mota Padilha. O historiador mexicano Ixtlilxóchitl discorda e afirma que ela
era originária de Huilotoan (Olutla), província de Xalatzingo, enquanto Mariano Somonte e
Orozco y Berra esclarecem que Viluta, Olutla e Huilotla pertencem à mesma província e que
Paynala e Xaltipan se encontram ambas em Coatzacoalco, próxima de Xicalango, cidade
vizinha de Tabasco, portanto no mesmo espaço social.

Pesquisando as histórias contadas sobre Malinalli, Martin del Campo discorda de todas
essas versões, pois encontra contradições em seus relatos e lembra que os nobres no México
não vendiam ou davam seus filhos. Apenas os homens do povo, os macehuales, vendiam seus
filhos devido à miséria ou em época de muita fome ou, conforme costume no México Antigo,
os pais ofereciam ou vendiam seus filhos, ainda pequenos, para mercadores61.
Baseada em Bernal Díaz, a autora acredita que Malintzin inventou essa história, pois
ele relata, em suas memórias, que doña Marina ficou muito impressionada com a vida de José,
vendido por seus irmãos. Segundo relato do autor: “esto me parece que quiere remedar lo que
acaeció con sus hermanos a Josef en Egipto”62

60 -Idem, p.85
61 - Martín del Campo, M. – op. cit. I capítulo
62 -op. cit., p.,
62

A partir do contato com os espanhóis, seus costumes e, sobretudo a sua religião,


Malintzin, vendida para mercadores, que a revenderam para outros senhores, até ser oferecida
pelo cacique maia Tabs-coon como um dom aos espanhóis, foi desconstruindo sua identidade
e os laços com sua ancestralidade. Nem mais seu verdadeiro nome ela sabia, assim como não
se lembrava de mais qual era a sua língua ou seu povo. O nome Malinalli foi dado por
Cacama, o mercador que a comprou de sua família, ainda muito criança, para revendê-la no
mercado de escravos, em Xilonen. Malinalli significa palha trançada, trepadeira, e também é o
nome do décimo segundo dia do mês. Assim Xochiquetzal passou a ser a Malinalli de
Cacama, Malintzin, de sua criada Ozlaxiuchitl, Marina dos espanhóis e Malinche do povo
mexicano.
Martin del Campo conclui que a história construída sobre Malintzin, que fazia
referência à sua descendência nobre, filha do cacique de Paynala, é uma invenção. Trata-se de
uma história inventada por ela para explicar porque falava tantas línguas indígenas. A autora
encontrou na própria crônica de Bernal Diaz a pista para essa conclusão.
Em seu livro, Martin del Campo romanceia a história de Malintzin para dar veracidade
à invenção da personagem. A autora relata que Malintzin contou à sua criada Ozlaxiuchitl
que, depois que se casou com Juan Jaramillo, decidiu que ele não poderia saber sua verdadeira
origem. Ela precisava se apresentar como uma índia poderosa diante de seus olhos para ser
respeitada. Por isso resolveu inventar uma história para explicar a sua vida.

Malintzin estava impressionada com a história de José, vendido, por seus irmãos aos
egípcios, e que chegou a ser profeta da corte. Foi quando lhe ocorreu tornar-se uma “Josefa”.
Com auxílio do soldado Juan Pérez de Artega, aproveitou o dia em que Cortés reuniu todos os
caciques dos arredores de Coatzacoalco, para se submeterem ao seu poder e depois serem
evangelizados e batizados. Junto com esses índios estava uma índia com seu filho, menor de
idade, caciques de Paynala. Com a cumplicidade de Bernardo e de Ozlaxiuchitl, Malintzin
contou a Cortés que aquela índia era sua mãe e o rapaz seu irmão. Foi um segredo entre os
três. Cortés aceitou a versão, pois não entendia a língua náhuatl63.
64
Pela versão do Lienzo Tlaxcala, século XV , Malintzin era realmente de origem da
casta dominante mexicana. Nasceu em Coatzacoalcos, provavelmente em 1502 e morreu em
1529. Ela foi entregue como tributo aos maias, vencedores das guerras com os aztecas, como
era costume entre os mexicanos. Era ainda criança e falava o náhuatl, língua materna, além da

63 - Idem, p. 24:28
64 -Códice náuhatl – Lienzo de Tlaxcala- século XVI. Malintzin aparece em tlacuilo lendo para Cortés.
63

língua maia dos novos senhores. Como escrava do povo maia foi oferecida a Cortés, em 15 de
março de 1519, pelos caciques de Tabasco, com mais 19 mulheres, algumas peças de ouro e
um jogo de mantas. Após ser batizada foi presenteada a Portocarrero, capitão de Cortés. Ele
descobriu que ela falava o náhuatl, quando a viu conversando com outras índias mexicanas.
Assim ela passou a desempenhar a função de intérprete naúhatl-maia. Ela e Jerônimo de
Aguilar foram os dois intérpretes de Cortés. Aguilar era um náufrago espanhol que tinha sido
cativo dos maias e resgatado por Cortés em Cozumel. Aguilar traduzia o idioma maia para o
espanhol. Com o auxílio de três línguas e dois intérpretes, os contatos entre os espanhóis e
aztecas se completaram, até que Marina aprendeu o castelhano.
No Lienzo de Tlaxcala 65 as informações se aproximam do relato de Bernal Díaz. Pela
leitura do Lienzo, Malintzin explicou para os espanhóis os hábitos, costumes sociais e
militares dos mexicanos, além de intermediar as relações entre os dois povos, agindo como
embaixadora. Os relatos também coincidem com o do cronista, destacando-se as relações com
Cortés, o nascimento do filho Martin, o casamento com Jaramillo e a provável data de sua
morte em 152966, quando seu marido se casou novamente.
As representações simbólicas da história de Malintzin e Cortés variam da fantasia ao
mito. Assim, perpassaram pela novela de cavalaria, amor e traição, como:
 Infância novelesca: A versão mais difundida. Filha de nobres caciques,
sequestrada e vendida como escrava, traída por sua mãe e irmão. Encontro da escrava com
o conquistador que a torna mulher e amante, retorna ao lugar de nascimento, onde, em
lugar de vingar-se da mãe e do irmão, preocupa-se em que eles sejam batizados e os enche
de presentes. Uma história digna das novelas de cavalaria que os conquistadores
adoravam.
 Historia de amor – Essa versão é contestada pelos historiadores. Apesar de
importante intérprete, Malintzin era escrava de Cortés e, assim como ela , Cortés possuía
inúmeras escravas, além de lhe serem oferecidas as filhas dos caciques seus aliados. As
relações amorosas no século XVI também não podem ser julgadas pelos critérios atuais.
Cortés teve um filho com Malintzin, como também com Tecuichpo67, filha de
Moctezuma e viúva de Cuauhtémoc.

65 -Richard Matthew Stallman- Enciclopédia Libre Universal en Español Manhattan (Nueva York), 16 de marzo de 1953
66 -Nesse ano Jaramillo, viúvo, pede autorização para se casar novamente.
67- Isabel Moctezuma o Tecuichpo Ixcaxochitzin – Princesa azteca, filha caçula do Tlatohani Moctezuma Xocoyotzin e de

uma senhora de Tecalco. Nasceu em 1509 na Grande Gran Tenochtitlán. Recebeu educação própria dos nobres( pilli)
nos Calmecacs( escolas ). Era a filha mais querida do seu pai. Escapou do massacre espanhol ( 1520- La Noche Triste),
escondendo-se num cesto de roupa. Nesse massacre Hernán Cortés assassinou sua família ( pai,mãe, irmãos, tios e dezenas
de membros do Huey Tlahtocan del Anahuac (Grande Conselho de Anáhuac) . Foi casada simbolicamente com Cuitláhuac,
64

 Traidora e vendilhã da pátria – Predomina na memória coletiva do povo


mexicano. No entanto, a trajetória de Malintzin evidencia que ela não tinha nenhuma
pátria para vender, pois era escrava e oferecida como dom a diferentes senhores. Cortés se
aproveitou precisamente dessa falta de unidade e da grande inimizade dominante entre as
nações mexicanas.
 Mãe fundadora: Malintzin tende a ser evocada como o nascimento de uma
nova pátria, e em sentido geral da maternidade. Está associada à lenda da La Llorona, (um
fantasma clássico na Cidade do México, que em suas aparições grita Ay, mis hijos!), além
de iniciar a mestiçagem.
 Malinche ou Malintzin é também o nome do vulcão localizado no estado
mexicano de Tlaxcala.
A versão de Eugenia Rico68 também segue a crônica de Bernal Diaz. Para ela,
Malintzin, chamada de “Traidora” e “la Chingada”, não poderia trair seu povo, “porque desde
69
os nove anos não tinha povo” . Sua própria mãe a vendeu como escrava. Aprendeu a
obedecer e temer os homens e seus senhores, muitas vezes brutais. Em março de 1519, o
Tecutli de Potonchtlan, derrotado pelos espanhóis, a ofereceu com mais 19 mulheres a
Cortés, “aquellos diablos extranjeros que, según la leyenda, tal vez fueran dioses”.70
Malintzin sabia da inimizade e do ódio que os povos submetidos pelos aztecas tinham
contra Montezuma, devido à cobrança de impostos e o número de cativos que tinham que
fornecer para os rituais aos deuses aztecas. Aproveitou-se dessa inimizade, agiu como boa
estrategista e explicou a Cortés as formas de pensar, as crenças e os rituais dos antigos
mexicanos. Também repassou informações sobre os demais povos amigos e inimigos de
Montezuma. Segundo Otilia Meza e Martin del Campo, partiu dela a idéia de tentar identificar
Cortés com o deus Quetzalcoatl, a Serpente Emplumada, fazendo a população acreditar no
retorno do deus tolteca para se vingar de Huitzoloplochtli, deus azteca. Ela sabia que o povo
temia o poder dos deuses e aguardava o regresso do deus Quetzalcoatl. Por isso, se
acreditassem que Cortés fosse o deus esperado, esse temor o ajudaria mais que as espadas.
Quando estavam em Tlaxcala, os espanhóis descobriram que estavam sendo
espionados por enviados do rei Montezuma infiltrados entre seus aliados. Após a prisão dos

O Invicto. O jovem rei morreu de varíola e aos 12 anos uniu-se ao Tlatohani Cuauthémoc, herói mexicano que combateu os
espanhóis até ser aprisionado em 13 de Agosto de 1521. Tecuichpo teve sete filhos dos três casamentos posteriores com
espanhóis. Entre seus filhos, Juan de Dios Andrade Moctezuma se destacou pelas obras de educação e defesa do povo da
Cidade do México.Tecuichpo participou da defesa da dignidade de sua comunidade . Em 1550 libertou os escravos que
recebeu da Coroa espanhola.
68- Rico, Eugenia - “Malinche, la Traidora Traicionada”. Mexico, 2005
69 -idem, op.cit.p..
70 -Idem, op. cit., p.
65

espiões, Malinalli aconselhou Cortés a cortar as mãos deles para que dessa maneira os
indígenas respeitassem mais os espanhóis e impusessem sua autoridade pelo terror. Por isso
Malinalli era temida, pois os nativos sabiam como era grande seu poder junto aos espanhóis.
Nas cartas de Relación, Cortés narrou esse episódio, omitindo a participação de Marina. Ele
mesmo relata essas atrocidades cometidas, quando escreve suas Cartas de Relación: ”tomé
cinco o seis, que todos confirmaron la traición. Y visto, los mande tomar a todos cincuenta y
cortales las manos, y los envie que dijesen a su señor que de noche y de dia y cada cuando él
viniese, verían qué éramos” 71.
Outro episódio que marca sua participação ao lado dos espanhóis foi o massacre de
Cholula. Também foi ela quem avisou Cortés da conspiração que os aztecas e cholultecas
supostamente planejavam contra ele72. A resposta foi a cruel matança da população. Homens,
mulheres e crianças da cidade morreram transpassados pelas espadas, tiros de canhão e
pisoteadas pelos cavalos. Cortés conta essas crueldades ao rei Carlos V, explicando que foi
obrigado a matar aquela gente para garantir a conquista daqueles reinos para a Espanha. Esse
episódio também é descrito por Marisol Martin del Campo, baseada em Alva Ixtlilxóchitl73.

Malinalli intermediou em Tenochtitlán o encontro entre o Huey Tlatoani Montezuma e


Cortés. O Huey Tlatoani não queria encontrar o inimigo, assim como não queria que ele
entrasse na cidade de Tenochtitlán, pois tinha maus presságios. Malinalli convenceu os
sacerdotes e o Huey Tlatoani, dizendo que Cortés era o deus Quetzalcoátl. Desse encontro,
Montezuma, enfraquecido pelas superstições e por temor ao deus que retornava, recebeu os
espanhóis, sob os protestos de seus sacerdotes.
Montezuma mandou construir um templo para o deus dos estrangeiros. Queria que
eles se sentissem bem recebidos. Ofereceu banquetes, belos aposentos, mas tudo em vão.
Malintzin também estava presente naquelas cerimônias. Após algumas semanas o Huey
Tlatoani foi traído por Corté, que lhe deu ordem de prisão. Montezuma não ofereceu
resistência e também não permitiu que seus capitães matassem os espanhóis. Ele se tornou
74
prisioneiro de Cortés e com três de seus filhos foi levado para o Tecpan de Axayacatl onde
se encontrava o Tepanalli( templo) do deus Huitziloplochtli, submetendo-se completamente
ao invasor, que profanou o espaço sagrado mexica.75

71 - Cortés, Hernán- Cartas de Relación, 5ª carta – e Iturriaga La Fuente, J. , op. cit., p. 23


72 - Alva Ixtlichochitli, F. – la Visión de la Conquista. FCE, 2006
73 - Martin del Campo, Marisol, op. cit., cap.II
74 -Tecpan – palácio real, morada dse nobres.O palacio real tinha vinte entradas e era composto de grasndes salas chamadas

calpolli
75 -Sobre esse episódio consultar Martin del Campo, op. cit, cap...., p.
66

Malintzin também se destacou como aliada de Cortés durante as batalhas da Noite


Triste, quando os mexicanos venceram os espanhóis, submetendo-os a uma grande derrota,
tendo à frente o novo Huey Tlatoani azteca Cuauhtemoctzin, sobrinho de Montezuma.
Perdidos e perseguidos pelos guerreiros aztecas, foram salvos por Malintzin que ajudou
Cortés assim como a alguns soldados a fugir, por caminho que somente os índios conheciam,
para pedir reforços aos caciques inimigos do Huey Tlatoani Cuauhtemoctzin e fazer novas
alianças.
A captura, tortura e morte do último rei mexicano Cuauhtemoctzin selaram o ódio do
povo mexicano contra Malintzin, que foi considerada traidora e maldita. A vitória de Cortés
não foi a sua vitória. Mesmo sua morte, por assassinato pelo seu marido Jaramillo, foi
atribuída a Cortes que queria livrar-se dela, como testemunha de suas crueldades durante a
invasão do México.·.
Malintzin teve um filho com Hernán Cortés. O menino recebeu o nome do avô Martin
Cortés. Foi criado na Espanha e, posteriormente, tornou-se um soldado espanhol. Martin
Cortés foi considerado o primeiro mestiço reconhecido na história mexicana, embora muitas
índias tivessem tido filhos com espanhóis. Também, após o casamento con Juan Jaramillo,
teve outro filho de Cortés, uma amenina chamada Maria. Cortés teve outros filhos com
várias princesas mexicanas que recebeu de presente dos caciques aliados pela sua vitória,
derrotando os aztecas.
Os relatos apresentam Malintzin como uma mulher apaixonada e ciumenta. Também
atribuem a ela participação na morte da primeira esposa de Cortés, que saiu da Espanha para
viver ao seu lado no México76.
No entanto, outros estudiosos, como Juan Miralles77, atribuem a Malintzin o papel
fundamental para o encontro de duas culturas, duas visões de mundo. Miralles considera
Malintzin a “raiz do México”, a” senhora dos dois mundos” e que proporcionou o encontro
das culturas, pela sua habilidade em traduzir do náhuatl ao maia, surpreendendo os espanhóis:
"fue la llave que develo a los secretos de México a Cortés y a su Ejercito”.
Miralles confirma que o caráter negativo atribuído à Malinche e sua má reputação
foram difundidos pelos pensadores mexicanos do século XIX e, posteriormente nos anos 30,
quando buscavam exaltar os sentimentos nacionalistas. Afirmou que pretendia, com seu
trabalho, desfazer aquela imagem, pois entendia que “Malintzin ao ajudar a Cortés estava

76 - A esposa de Cortes se chamada Catalina Xuárez e morreu em 1 de novembro de 1522, em Coyoacán. Ela sofria com as
intrigas de Malintzin por ciumes de Cortés
77- Escritor e diplomata. Publicou “La Malinche, Raiz de México, em setembro de 2006.
67

defendendo os mexicanos dos violentos aztecas e seu deus sanguinário Huitzoloplochtli”.


Dessa forma, o autor pretendeu amenizar a fama de traidora do povo indígena e retirar a
marca da infâmia que Malintzin carrega há cinco séculos.
Laura Esquivel78 também se deixou fascinar pela personagem, e através do discurso
literário teceu a imagem dela de forma romantizada. Além do romance, a autora pretendeu
revisar a história da invasão e dominação do México pelos espanhóis, destacando o
enfrentamento dos dois povos e suas visões de mundo totalmente opostas: a visão indígena
circular de mundo do povo nativo, contrapondo-se à visão de império dos conquistadores, que
se impôs na base do medo, controle e possessão79.
Esse confronto cosmogônico reafirmou o embate de cosmovisões, destacando a
questão material, representada pela riqueza da nação mexicana, e o universo espiritual -
pautado na força dos deuses indígenas. É um tema ainda recorrente na sociedade mexicana.
Esquivel salienta a importância de se revisitar o passado para conhecer melhor a história do
povo mexicano.
Apesar do seu empenho com a pesquisa histórica, a autora reiterou o relato de Bernal
Díaz del Castillo e dos demais autores apresentados neste texto. Ela se afasta um pouco
quando se reporta à ordem cósmica, e nesse aspecto, revela o misticismo que envolve a
profunda espiritualidade dos povos indígenas convivendo com a presença de espíritos e
divindades, onde a água, o fogo e o ar têm uma representação intrínseca na vida cotidiana dos
mexicanos “nos dizem coisas”, explica Esquivel e complementa:
“Esa creencia absoluta de formar parte del todo, de estar en la intemporalidad, se
contrapone a la visión de la temporalidad que llegó con los españoles. Es la idea del imperio,
donde éste no forma parte de nada ni de nadie, sino que todo le pertenece. La tierra deja de ser
la madre para convertirse en algo apropiable, expropiable [...]” .80
Esquivel compartilha com Miralles da visão sobre Malintzin, pois não tem sentido
atribuir apenas à índia a conquista do México, pois se trata de um processo complexo. Na
realidade, Malintzin tinha o controle da informação e conhecimento sobre a região, mas não
poderia fazer nada contra um império se o rei Montezuma tivesse reagido e impedido a
entrada de Cortés em Tenochtitlán, e se Cortés não tivesse conseguido a aliança da maioria
das nações indígenas, além do fato de Montezuma ser demasiado supersticioso.

78 -Esquivel, Laura – Iniciou sua carreira profissional como roteirista de cinema. Para realizar suas atividades profissionais
enveredou-se pela pesquisa histórica, transformando seus textos em obra literária. Autora de vários livros, destacando-se
Como Água para Chocolate, Esquivel caminhou pelos meandros da história cultural. Malinche, sua última produção,
demonstra a preocupação da autora com a história e a literatura.
79 -Esquivel, Laura – Malinche. Mexico, Santillana Ediciones Generales, 2006, p.
80 -Idem, op. cit.,
68

Faz sentido Otávio Paez concluir que foram os deuses que derrotaram o México.
Para Esquivel ela não foi uma traidora e sim uma “colaboracionista” com o invasor,
além de impotente diante do poder dos espanhóis. Para a autora não se pode imputar somente
à Malinalli o processo de queda da capital azteca, pois se tratou de uma ação militar que
contou com a participação de várias nações indígenas aliadas, inimigas dos aztecas, milhares
de índios que odiavam Montezuma, e conclui que: "los españoles no hubieran podido hacer
nada ante cientos de miles de indígenas, si estos no se les alían y nadie los trata a ellos de
traidores” 81
Janice Teodoro também ressalta o valor de Malintzin e apresenta outra versão que se
contrapõe às obras analisadas, especialmente em relação à idade da índia, sua morte e seu
papel na guerra e na vida mexicana. Segundo Teodoro, Malinche:

“Tendo casado com Cortes, morreu aos setenta anos e educou os filhos à sua maneira.
O marido, Cortes, morreu na Europa em meio a uma série de problemas, inclusive de ordem
econômica. Quem ficou rica e garantiu o patrimônio cultural, foi a Malinche, e não o marido.
Códices indígenas revelam que quem recebia os tributos, quem estava à frente no campo de
batalha, até mesmo contra os indígenas, quem definia a estratégia de guerra, era a Malinche, e
não o Corts. Mas, a história só retrata a conquista como sendo Cortes o estratego fundamental
na conquista. Teria conseguido ele dar ordens em campo de batalha para os índios? Seria
possível ser estratego em terra desconhecida?” 82

3. CONCLUSÃO

È difícil concluir algum trabalho ainda mais quando há muito a se escrever sobre uma
personagem tão forte. De qualquer maneira, a visão geral proposta foi apresentada. Como
todos os que conheceram Malinche, através das crônicas, dos códices e ou pelos relatos
populares se deixaram seduzir por ela, também fui seduzida pela sua vida de atribulações,
contradições e traições. O desafio continua, o de entender a personagem naquele contexto
confuso de guerras internas, oferenda sacrificiais aos deuses e oportunidades para se escapar
do infra-mundo a que fora levada pela sua condição de escrava.
Malintzin, a india maldita, recebeu a marca da infâmia porque era escrava, mulher
inteligente e sedutora que vivia numa sociedade arbitrária onde o poder dos homens ditava os

81 -Idem , p.
82 -Teodoro, Janice- Entrevista sobre o Mexico, USP, 1998.
69

costumes ou simplesmente porque a historia precisou construir vilões para justificar a vitória e
os fracassos da nação.
Ao adotar a identidade espanhola, Malintzin passou a ser identificada com o “outro”,
recebendo o mesmo tratamento que os indígenas davam aos espanhóis. Mas, não recebeu dos
espanhóis a receptividade que esperava ao se tornar “espanhola”, nas formas de pensar, agir e
crenças. Nunca foi aceita nem por um ou outro povo, fenômeno com o qual até os dias atuais
se deparam os mestiços, o “cholo” andino ou o mulato brasileiro. Esse drama viveu Garcilazo
de La Vega, no Peru e essa ambiguidade foi bem relatada em sua obra Comentários Reales de
los Incas.
Além da alteridade e do etnocentrismo, Malintzin ficou marcada pela traição e
recebeu a marca da infâmia. Poderá ser compreendida, mas nunca perdoada. Por isso, é
possível que poderá ser vista chorando pelos arredores da cidade que ajudou a derrotar, mas
ninguém se apiedará de sua alma.

4. REFERÊNCIAS

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Mexicana, SA, 2005.
Codices y Documentos sobre Mexico ( Anales de Tlatelolco). Mexico, Inah, 1994
DE Alva Ixtlichochitli, F. – la Visión de la Conquista. FCE, 2006
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Espasa Calpe, 1955, Capitulo XXXVII –
Duran, Fray Diego – Ritos y Fiestas de los Antiguos Mexicanos. Mexico, Editorial
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________________ Historia de las Indias de Nueva Espana e Islas de Tierra Firme.Mexico,
Editorial Porrua, 1984
Cortes, Hernán- Cartas de Relación.Mexico, Editorial Porrua, 2002
Esquivel, Laura - Malinche . Mexico, Santillana Ediciones Generales, 2006
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Porrúa, 1990.
Gomez de Orozco, Federico –Dona Marina, La dama de la Conquista.Mexico, Ed. Xochitl.
70

Iturriaga de la Fuente, Jose- Anecdotario de viajeros extranjeros em Mexico, siglos XVI-XX,


2v. FCE, 1988
Leon Portilla, Miguel –Toltecayotl, aspectos de la cultura nauhatl.Mexico,FCE,1995
Lienzo de Tlaxcala- Século XVI . Ed.Porrúa Mexico, 2005
_____________Los Antiguos Mexicanos.Mexico, FCE, 1998
Madariaga,Salvador –Hernan Cortes.Mexico, UNAM e FCE,1945
Martin del Campo, Marisol - Amor y Conquista – La novella de Malinalli llamada la
Malinche.Mexico, Ed.Planeta,1999.
Menendez, Miguel Angel –Malintzin.Mexico, Ed.La Prensa, 1994
Meza, otilia- Malinalli Tepenal, la gran calumniada.Mexico, Edamex, 1980
Miralles, Juan – La Raiz de Mexico. Mexico, 2006
__________La Malinche.Mexico,Tusquets Ed.,2004
Montero Sanchez, Suzana A. - Construção das identidades sociales.Mexico, 2006
Nietzsche, F. - Le Livre du Philosophe. Paris, Aubier-Flammarion, 1989.
Orozco y Berra- Historia Antigua de la Conquista de Mexico.Mexico, Ed.Porrua, 1980
Rico, Eugenia - Malinche, la Traidora Traicionada- Mexico, 2006
Stallman, Richard Matthew - Enciclopédia Libre Universal en Español Manhattan (Nueva
York), 16 de marzo de 1953
Teodoro , Janice – Entrevista sobre o Mexico,USP, 1998.
71

HIGIENIZAÇÃO DE MÃOS NA ENFERMAGEM: UMA REVISÃO SOBRE


CONCEITOS E PRÁTICAS

Tiago Landim d’Avila83; Larisse Maria Ferreira Daltro84; Loiane França Pimentel85.

Resumo

Introdução: A higienização das mãos é o procedimento mais simples, efetivo e menos


dispendioso para evitar e controlar infecções hospitalares. A equipe multiprofissional de
enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem deve aderir esta prática por prestar cuidados
diretamente aos pacientes. Metodologia: Uma revisão qualitativa de literatura foi elaborada a
partir de artigos, livros e manuais públicos. Os textos foram selecionados através das
palavras-chaves higienização de mãos, infecção hospitalar e enfermagem, entre 2001 e 2013
e excluídos textos de qualquer outra língua que não o português. Referencial Teórico: Dentre
os fatores relacionados à ausência desta prática no ambiente hospitalar, temos alta carga
horária de trabalho, excesso de atividades e procedimentos, ausência de treinamentos.
Disseminação bacteriana favorece o surgimento de infecções hospitalares, causando danos aos
pacientes, aumento do tempo de internação hospitalar e, portanto, custos. Conclusão:
Enfermeiros integrantes da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar devem trabalhar na
educação e promoção da saúde com outros membros da equipe para reduzir os índices das
infecções hospitalares.
Palavras-chaves: Enfermagem; lavagem das mãos; infecção nosocomial.

Abstract
Introduction: Introduction: Hand hygiene is the easiest, cheaper and effective procedure to
prevent and control hospital-acquired infections. A multidisciplinary team of nurses, nursing
technicians and assistants must adhere this practice for provide direct care to patients.
Methodology: A qualitative literature review was drawn from public articles, books and
manuals. Texts were selected using keywords hand hygiene, hospital-acquired infection and
nursing, between 2001 and 2013 and excluded items from any other language than
Portuguese. Theoretical Framework: Theoretical Framework: Among the factors related to
absence of this practice in the hospital setting we have time high workload, excessive
activities and procedures, lack of training. Bacterial spread favors the emergence of
nosocomial infections, causing damage to patients, time increase of hospitalization and
therefore costs. Conclusion: Integrant nurses of Hospital infection Control Committee should
work in education and health promotion with other staff members to reduce hospital-acquired
infections rates.
Keywords: Nursery; hand washing; nosocomial infection.

83 Professor Adjunto da Centro Universitário Jorge Amado e Doutorando do Instituto Ciências Saúde - Faculdade de
Medicina da Bahia – Universidade Federal da Bahia. Pesquisador do Grupo de Pesquisa CNPq-História, Sociedade e
Etnociência.
84Acadêmica do Curso de enfermagem da Centro Universitário Jorge Amado em Salvador, Bahia, Brasil.
85Acadêmica do Curso de enfermagem da Centro Universitário Jorge Amado em Salvador, Bahia, Brasil.
72

1 INTRODUÇÃO
A higienização das mãos (HM) consiste na medida individual mais simples e menos
dispendiosa para prevenir a propagação das infecções relacionadas à assistência à saúde.
Algumas finalidades da HM são: remoção de sujidade, suor, oleosidade, pelos, células
descamativas, microbiota da pele e diminuição de infecções ocasionadas pela disseminação
bacteriana. Existem diversas técnicas, como: higienização simples, antisséptica, fricção de
antisséptico e antissepsia cirúrgica ou preparo pré-operatório, que diferem de acordo com
cada objetivo que se destinam (ANVISA, 2007).
O estudo da microbiota normal da pele é importante para compreensão dos objetivos do
processo de HM. Existem três tipos de microbiota que podem estar relacionadas com a
disseminação de bactérias, sendo estas a residente, a transitória e a infecciosa (SANTOS,
2009) No ambiente hospitalar, as mãos dos profissionais de saúde, inclusive enfermeiros, são
os maiores meios de disseminação de infecções. Nas unidades de saúde, são utilizadas
técnicas e produtos com a finalidade de ampliar a eficácia da assepsia das mãos, prática que
deve ser adquirida pelos profissionais antes e após o contato com o paciente.
Estima-se que, no Brasil, 9% dos pacientes hospitalizados adquirem infecção hospitalar
e destes pacientes 8,5% morrem consequentemente por esta causa (SCHEIDT E
CARVALHO, 2006). O ciclo de propagação e proliferação dos patógenos indica que as mãos
dos profissionais da saúde são tidas como reservatório de micro-organismos responsáveis pela
disseminação bacteriana. A prevenção da infecção hospitalar está diretamente ligada com a
promoção e educação em saúde, pois assegura a qualidade do cuidado prestado. A
responsabilidade da prevenção das infecções hospitalares recai sobre a equipe de
enfermagem, salientando que as ações são interligadas e dependentes de toda equipe
multiprofissional.
As infecções hospitalares ocasionam aumento nos gastos financeiros, sofrimento para o
paciente e é um indicador de precariedade na qualidade do serviço prestado. Em caso de
negligência constatada ao longo da assistência, o enfermeiro pode responder a processos
judiciais. A não adesão dos profissionais de enfermagem a higienização das mãos pode estar
relacionada com a quantidade excessiva de carga horária de trabalho, inúmeras atividades e
procedimentos a serem realizados durante o plantão, ausência de treinamento, jornada de
trabalho dupla, motivos estes que podem tornar inconstante esta prática dentro da equipe de
enfermagem. O enfermeiro faz parte da comissão de controle de infecção hospitalar que
incentiva a prática da higienização das mãos e atende exigências legais e éticas, visando a
redução do índice de mortalidade (BARBOSA, 2007).
73

Segundo a Portaria 2.616/98 na instituição de saúde, para fiscalizar, avaliar, instruir e


corrigir práticas entre uma equipe existe a necessidade de instaurar uma comissão de controle
de infecção hospitalar (CCIH) que deve ser composta por profissionais de medicina,
enfermagem, farmácia, laboratório de microbiologia e administração. Além disso, a utilização
de projetos preventivos na infecção hospitalar e a educação continuada são métodos
primordiais. A maneira correta de HM aumenta a instrução dos funcionários e reduz custos de
tratamento. Assim, o objetivo dessa revisão de literatura é avaliar a importância da
higienização das mãos na redução do índice de infecção hospitalar (BRASIL, 1998).

2 METODOLOGIA

A revisão bibliográfica realizada com abordagem descritiva e qualitativa está embasada


na literatura de publicações referentes à “higienização das mãos”, elaborada a partir das bases
de dados eletrônicos disponíveis a Biblioteca Virtual em Saúde – BVS.
A busca realizada no banco de dados da Scientific Eletronic Library Online (Scielo) e
Literatura Latina – Americana em Ciências de saúde (LILACS) selecionaram publicações
relacionadas com os seguintes descritores: Higienização das mãos, Ambiente Hospitalar e
Risco de Infecção Hospitalar. Os critérios de inclusão são artigos publicados na íntegra entre
o período de 2001 a 2013 e excluídos os artigos que não estavam em português. Os artigos
foram analisados por meio de leitura criteriosa do título, seguida do resumo com produção de
fichamentos para aprofundamento da pesquisa e análise de dados.
De acordo com a Resolução 466/12, do Conselho Nacional de Saúde (CNS), não foi
necessária submissão ao comitê de ética por se tratar de uma revisão bibliográfica e não
envolver experimentações com seres humanos e animais.

3 ANÁLISE E ARGUMENTAÇÃO

A mão dos profissionais de saúde representa o elo entre paciente e profissional, e


consiste em meio de transmissão de microrganismos causadores de infecções hospitalares. A
adoção de hábitos de higiene principalmente das mãos, auxiliam na ruptura de propagação de
microrganismos. Higienizar as mãos refere-se à lavagem com água, sabão comum ou
antisséptico e fricção com álcool a 70%. (BOYCE, 2002)
O processo de higienização das mãos é considerado a ação mais relevante no controle
de infecções hospitalares. Segundo (NESTI; GOLDBAUM, 2007) “há fortes evidências de
que a lavagem apropriada reduz a contaminação das mãos e o risco de disseminação de
74

doenças infecciosas”. A higienização das mãos tem como principal objetivo reduzir o índice
de infecção, propagação de microrganismos multirresistentes e a quantidade de pacientes com
infecção relacionada a assistência à saúde.
Existem três tipos de microbiota: residente, transitória e infecciosa. A microbiota
residente consiste em microrganismos permanentes encontrados na superfície da pele e nas
células superficiais do estrato córneo. A espécie dominante é o Staphylococcus epidermidis
seguido do Staphylococcus hominis, outros estafilococos coagulase-negativo e corinobactérias
que são encontrados em toda a superfície das mãos. A microbiota transitória consiste em
bactérias, fungos e vírus que podem ser encontrados sobre a pele apenas durante curtos
períodos. Eles geralmente não se multiplicam na pele mas sobrevivem e, ocasionalmente,
podem causar doenças como, por exemplo, Klebsiella spp., Proteus mirabilis e algumas
espécies de fungos. Já a microbiota infecciosa é responsável pela maior parte das inflamações,

Tabela 1: Microrganismos envolvidos na maioria das infecções hospitalares


Infecç
Micro-organismo ões Efeitos
(%)
Estafilococos coagulase-
25% Infecção generalizada
negativos
Escherichia coli, Pseudomonas
aeruginosa, Pneumonias e infecções de
23%
Enterobacter e Klebsiella feridas cirúrgicas
pneumoniae
Staphylococcus aureus 16% Pneumonia
Clostridium difficile 13% Diarreias
Enterococcus 10% Infecções de feridas cirúrgicas
Infecções do trato urinário e
Acinetobacter,
7% infecções em
Citrobacter, Haemophilus
feridas cirúrgicas
Infecções do trato urinário e
Candida albicans 6%
sepse
Fonte: Dados do CDC; Vigilância Nacional de Infecções Hospitalares dos E.Unidos.

infecções e disseminações bacteriológicas, como o Staphylococcus aureus ou Streptococcus


beta-hemolíticos, que são frequentemente isolados de abscessos, feridas ou eczemas
infectados (KAMPF E KRAMER, 2004). Os principais microrganismos envolvidos nas
infecções hospitalares estão agrupados na Tabela 1.
Alguns produtos utilizados para realizar a HM são: sabonetes comuns e agentes
antissépticos (álcool, clorexidina, iodóforos – PVPI e triclosan). O sabonete comum possui
baixa concentração de agentes antimicrobianos e a apresentação mais utilizada é a líquida.
Propicia a retirada de sujidade, substância orgânica e microbiota transitória. Os agentes
antissépticos possuem ação antimicrobiana imediata e não são tóxicos, alergênicos ou irritam
75

a pele. As soluções alcoólicas apresentam excelente funcionamento fungicida e bactericida


em relação a todos os agentes utilizados na HM. A clorexidina apresenta efetividade contra
bactérias Gram-positivas, menor eficiência contra fungos e bactérias Gram-negativas e a
absorção através da pele é quase nula. Os iodóforos causam mais reações de dermatite de
contato irritativa que outras soluções anti-sépticas. A atividade bactericida do triclosan é mais
eficaz contra bactérias Gram-positivas do que contra bactérias Gram-negativas (ANVISA,
2009).
Segundo BOYCE 2001, efeitos danosos de substâncias químicas como sabões e antí-
septicos colaboram na redução da adesão dos profissionais de saúde a realizar a HM. Através
de estudo realizado por Pittet em um Hospital Universitário de Genebra, a realização da
prática da HM durante o dia de trabalho foi considerada moderada, com média de 48% e a
menor adesão foi identificada durante as atividades de maior risco de transmissão de
infecções.
Mudanças comportamentais, aprimoramento de normas, treinamentos e propagação das
informações são mecanismos que podem ser utilizados por enfermeiros para identificar
possíveis dificuldades encontradas pelos profissionais de enfermagem para adquirir o hábito
de lavar as mãos. A técnica de higienização das mãos deve ser realizada pelos enfermeiros
antes e após procedimentos com pacientes, sendo estes invasivos ou não. Esta conduta,
simples e eficaz, envolve benefícios para os pacientes, profissionais e instituições de saúde
(GENZ, 1998; TIMBY, 1996).
De acordo com a Portaria Federal/GM/MS nº2.616/1998, define-se como infecção
hospitalar (IH) à adquirida a partir de 72 horas após admissão do paciente, manifestada
durante a internação ou após alta hospitalar, podendo ser interligada com a internação
propriamente dita ou procedimentos realizados no ambiente hospitalar (MINISTÉRIO DA
SAÚDE, 1998).
No Brasil, há fatores que influenciam no aumento do índice de IH, visto que o
investimento financeiro é três vezes maior para o paciente que adquire infecção. Apesar de
haver normas e legislações relacionadas ao controle e prevenção das IHs, o aumento das taxas
é uma problemática relevante, evidenciada pelas altas prevalências de IHs registradas no país,
onde 18,4% são detectadas nas Instituições de Saúde Pública. Nos hospitais brasileiros, 15,5%
corresponde a 1,18 episódios de infecção por cliente internado e são do tipo hospitalar
(PRADE SS et al., 1995).
As infecções hospitalares resultam da interação de diversos fatores, dentre eles:
presença de hospedeiros em condições enfraquecidas, existência de micro-organismos nos
76

ambientes hospitalares e cadeia de transmissão apresentados na Figura 1. Pacientes com


doenças mais graves necessitam frequentemente da realização de procedimentos invasivos,
por esta causa, tornam-se mais susceptíveis a adquirir infecções hospitalares (TORTORA,
2012).

Figura 1: Formação e necessidades das infecções hospitalares. Fonte: Tortora, Funke & Case, 2012.

As infecções hospitalares representam obstáculos relacionados a assistência à saúde


ocasionando a maior causa de morbidade e mortalidade hospitalar, trazendo como
consequências: aumento no tempo de internação, elevação dos gastos hospitalares e redução
do número de leitos. Os principais tipos de infecções hospitalares estão resumidos na Tabela 2

Tabela 2: Principais tipos de infecções hospitalares e suas distribuições.


Valor
Tipos de infecção
(%)
Infecções urinárias 40%
Infecções respiratórias 20%
Infecções em feridas cirúrgicas 15%
Infecções cutâneas 8%
Bacteremia (associada ao uso de
6%
cateteres)
Outros 11%

Fonte: Dados do CDC; Vigilância Nacional de Infecções Hospitalares dos Estados Unidos.
77

4 REFLEXÕES E PERSPECTIVAS
A higienização das mãos é um ato simples e de suma importância para auxiliar na
prevenção e redução do índice de infecção hospitalar. Deve ser realizado não apenas por
enfermeiros e sim por toda equipe multiprofissional, antes e após contato com o paciente.
A HM com técnicas e produtos específicos, reduz a microbiota residente, transitória e
infecciosa encontradas na pele. A ausência desta prática pelos profissionais relaciona-se com
alta carga horária de trabalho, excesso de pacientes, dupla jornada e falta de incentivos e
treinamentos.
A infecção hospitalar ocasiona para o paciente sofrimento, aumento no tempo de
internação hospitalar e gastos financeiros, já para a instituição de saúde, representa
diminuição do número de leitos e é um indicador de precariedade na qualidade do serviço.
Ao enfermeiro integrante de CCIH compete um trabalho de educação permanente de
promoção em saúde, aprimoramento de normas, treinamentos e propagação das informações
para incentivar a equipe a desenvolver mudanças comportamentais.

5 CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES

A higienização das mãos consiste na maneira individual mais simples, relevante e


menos custosa para auxiliar na redução e prevenção do índice de infecções hospitalares e
relacionadas a saúde. As mãos dos profissionais de saúde são responsáveis pela propagação e
disseminação de infecções bacterianas. A infecção hospitalar é responsável pelo aumento do
tempo de internação, maior investimento financeiro, sofrimento ao paciente, além de ser um
indicador de precariedade na qualidade do serviço prestado.
O enfermeiro integrante de uma CCIH tem importante papel de educação e promoção
em saúde para com os membros que integram a equipe de enfermagem. Podemos identificar
esta necessidade ao observar os altos índices de infecções hospitalares e de disseminação
bacteriana.
A revisão de literatura é a primeira etapa do projeto intitulado “Higienização de mãos
na enfermagem: avaliação de conceitos e práticas” que será realizado no Hospital Geral
Roberto Santos da cidade de Salvador no estado da Bahia e tem como objetivo avaliar a
eficácia da lavagem de mãos entre funcionários ligados a enfermagem nos setores de
emergência e internação. O projeto encontra-se em submissão no Comitê de Ética e Pesquisa
da FIOCRUZ.
78

6 REFERÊNCIAS

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de Saúde. Higienização das mãos / Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Brasília:
ANVISA, 2009. 105 p.
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em serviços de saúde/ Agencia Nacional de Vigilância Sanitária – Brasília. Anvisa, 2007.
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JAEGER, H. M. M. A lavagem das mãos no cotidiano da escola: Uma atitude de
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79

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Guimarães da Fonseca. – 10. ed. – Dados eletrônicos. – Porto Alegre: Artmed, 2012. p.400-
421.
80

O GOLPE MILITAR E A ECONOMIA BRASILEIRA

Alexis Toribio Dantas*, Elias Jabbour**

As bases da política econômica iniciada após o golpe militar de 1964 apresentavam


duas bandeiras principais: o combate à inflação, uma das principais reivindicações dos
movimentos favoráveis à destituição do presidente João Goulart do ponto de vista econômico,
e a necessidade de modernização da estrutura da economia brasileira nos âmbitos tributário,
financeiro e monetário. Nesse caso, a ideia era garantir a formação de um ambiente mais
favorável à acumulação de capital e à utilização de instrumentos de política fiscal e monetária.

A política de ajuste contra o crescente processo inflacionário seguiria os ditames


monetaristas mais tradicionais. Desta forma, uma maior austeridade monetária e fiscal seria o
ponto de partida para a mudança da trajetória do nível de preços. O problema óbvio
relacionava-se aos efeitos de uma retração muito forte da atividade econômica sobre o humor
do empresariado, braço fundamental na sustentação civil do golpe de Estado. Optou-se, então,
por uma política de stop and go mais amena, cujos efeitos seriam menos sentidos para o nível
de atividade, buscando uma redução no ritmo de aceleração de preços combinada com algum
nível mínimo de crescimento. As metas definidas por Otávio Bulhões (Ministro da Fazenda) e
Roberto Campos (Ministro do Planejamento) seriam uma diminuição da inflação cadenciada
no tempo, com resultados efetivos de controle em três anos a partir de 1964 (25% em 1965 e
10% em 1966) – o que considerava ainda os efeitos de uma inflação corretiva inicial
determinada pela reforma tributária.

Todavia, o principal instrumento de combate à inflação, ainda que velado, seria a


política salarial, observando dois objetivos: (a) limitar (ou eliminar) o poder dos sindicatos na
negociação salarial resultante de uma predeterminação das bases de remuneração de todas as
categorias; e (b) implementar uma espécie de âncora salarial definida a partir do arrocho dos
salários que permitiria a manutenção (ou aumento) das margens de lucro mesmo em um
ambiente de preços mais estáveis. A definição de salários nominais pela média dos 24 meses
anteriores, com acréscimo do índice de aumento da produtividade e a metade da inflação
esperada, fez com que os salários reais despencassem em um ambiente de aceleração do
índice inflacionário, como ocorreu em 1964, quando a inflação foi superior aos 90%. O
* Professor Associado da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FCE/UERJ).
** Professor Adjunto da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FCE-UERJ)
81

resultado foi uma brutal elevação do nível de concentração funcional da renda, com uma forte
retração da participação do volume de salários.

As reformas monetária e financeira, por seu turno, seriam passo fundamental para
modernizar o sistema econômico brasileiro, tendo como principais medidas os seguintes
pontos: (a) a criação do Conselho Monetário Nacional (CMN) e do Banco Central do Brasil
(Bacen) no intuito de aprimorar a capacidade de gestão da política monetária; (b) a instituição
da correção monetária para garantir aos compradores de títulos do governo remuneração com
taxas reais positivas de juros, com a criação das Obrigações Reajustáveis do Tesouro
Nacional (ORTNs); (c) constituição do Sistema Financeiro da Habitação (SFH), cujas fontes
de recursos seriam as cadernetas de poupança, as letras imobiliárias e o Fundo de Garantia por
Tempo de Serviço (FGTS); (d) a reforma do mercado de capitais e busca de um formato de
instituições financeiras mais especializadas.

O ambiente favorável à acumulação de capital, com a redução dos níveis de inflação


fortemente relacionada com a política de arrocho salarial e a maior capacidade de fluidez de
recursos entre os agentes econômicos, foi importante para a retomada do crescimento a partir
de 1967/8 – mas não seu único ou principal determinante. A condição de financiamento
externo pela alta liquidez do mercado financeiro internacional cumpriu um papel
absolutamente fundamental para os anos do “milagre”, mais que um fenômeno brasileiro, uma
série de eventos na economia internacional, principalmente entre os países periféricos.

Do ponto de vista estratégico, a corrente nacionalista foi claramente dominante ao


longo da ditadura militar, representada pela continuidade da industrialização substitutiva de
importações, sobretudo a partir do governo Geisel iniciado em 1974. O II Plano Nacional de
Desenvolvimento reproduzia exatamente a opção pela complementação do processo de
substituição de importações no Brasil, com a construção de setores industriais chaves para um
crescimento mais equilibrado e menos dependente das importações, sobretudo de máquinas e
equipamentos e outros bens intermediários de peso (como o petróleo). Mesmo a crise do
petróleo de 1973 foi insuficiente para inverter essa dinâmica e, ao contrário, reforçou a tese da
necessidade de uma mudança estrutural em favor da indústria pesada.

A crise apenas inferiu maior importância para programas de redução da dependência


do petróleo na matriz energética brasileira, como o Proálcool e a construção de ferrovias e da
usina de Angra dos Reis, além de maior estímulo à criação de setores de maior capacidade de
exportação. A continuidade de um ambiente de farta oferta de recursos externos ocupou um
82

papel central para a execução do programa, principalmente com a indução dos grupos estatais
de peso à contratação de empréstimos externos que viabilizassem os projetos. A ideia era de
que uma política de administração da dívida externa seria suficiente para a realização dos
investimentos contemplados no plano, situação que seria revertida no longo prazo como
resultado da industrialização: menor necessidade de importações e maior capacidade de
exportar.

Uma mudança no mercado financeiro internacional, no entanto, não foi considerada


com a devida atenção: os empréstimos concedidos pelas instituições financeiras internacionais
após a crise de 1973, mesmo na condição de títulos soberanos, tornavam-se crescentemente
mais voláteis, com a aplicação de várias formas de remuneração pós-fixada. Na condição de
títulos de longo prazo, o nível de risco era obviamente crescente, elevando sobremaneira a
fragilidade externa da economia brasileira. Uma mudança no cenário financeiro internacional
poderia ocasionar um grande impacto nas contas externas brasileiras, mormente para os
principais tomadores, as empresas estatais, induzidas ao endividamento externo por resolução
do Banco Central.

O ano de 1979 será sempre lembrado. Não só os efeitos do segundo grande choque de
preços do petróleo sobre a economia internacional, mas a mudança radical de orientação da
política monetária norte americana, com a brutal elevação das taxas de juros que logo se torna
internacional (dada a necessária resposta dos grandes centros financeiros internacionais). Era
o início da crise da dívida, com efeitos cruciais para a aceleração da espiral inflacionária que
marcaria a economia brasileira até o Plano Real em julho 1994, no governo Itamar Franco.

Em linhas gerais, a herança econômica da ditadura militar, apesar do inconteste


impulso da industrialização brasileira e do efetivo processo de modernização financeira e da
constituição das bases de condução da política econômica, foi uma inflação em níveis
extremamente elevados, uma dívida externa que restringia significativamente a capacidade de
gestão da economia e a grave insolvência financeira de importantes grupos estatais. Vale a
reflexão.
83

REFERÊNCIAS
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Janeiro:Paz e Terra, 1985.
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1981” - in Belluzzo, L. G. M. e Coutinho, R. (org.) - Desenvolvimento Capitalista no Brasil:
Ensaios Sobre a Crise, São Paulo:Brasiliense, 3 ed.
Mello, J. M. C. e Belluzzo, L. G. M. (1982) - “Reflexões Sobre a Crise Atual” - in Belluzzo,
L. G. M. e Coutinho, R. (org.) - Desenvolvimento Capitalista no Brasil: Ensaios Sobre a
Crise, Ed. Brasiliense, 3 ed.
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Principales Problemas” em Adolfo Gurrieri (org.) La Obra de Prebisch en la Cepal, Lecturas,
Fondo de Cultura Económica, 1982, México.
Tavares, M. C (1972) “Da Substituição de Importações ao Capitalismo Financeiro” Zahar, 11a
edição, 1983, Rio de Janeiro.
84

A PRÁTICA PEDAGÓGICA SIGNIFICATIVA: UM OLHAR SOBRE AS CRIANÇAS


COM TRANSTORNO DE DÉFICT DE ATENÇÃO E HIPERATIVIDADE-TDAH.
Edleide Santos Assis,86 Maria Luzia Braga Landim87
RESUMO

Este estudo trata sobre a importância do desenvolvimento de práticas pedagógicas no


processo educacional de crianças que apresentam Transtorno de Déficit de Atenção e
Hiperatividade (TDAH). A abordagem se justifica porque a aprendizagem é um processo
amplo que envolve muitos fatores, sendo assim, os sintomas que caracterizam o TDAH,
podem ser variados e na maioria das vezes o ambiente escolar é a primeira instituição que
possibilita perceber as manifestações de forma evidente, pois na escola a criança deve
obedecer algumas rotinas e regras e ter concentração em determinadas circunstâncias, quando
isso não acontece, é necessário uma observação minuciosa relacionada ao aluno, pois há um
sinal indicando que essa postura precisa ser analisada. O interesse em auxiliar alunos com
TDAH possibilitou a concretização dessa abordagem, desse modo, os objetivos a serem
alcançados com a realização dessa pesquisa serão; investigação minuciosa sobre
comportamentos que possam prejudicar o desenvolvimento cognitivo da criança,
desenvolvimento de práticas pedagógicas que abarcam de fato o aluno que apresenta (TDAH)
e fomentar políticas que propiciem condição de acesso e permanência no sistema de ensino.

Palavras-chave: Transtorno de Déficit de Atenção, Aprendizagem, Aluno.

86 Graduada em Letras pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-UESB, Pós-graduada em Educação Especial pela
Faculdade Integrada Euclides Fernandes-FIEF, Participante do Grupo Pesquisa CNPq-História, Sociedade e Etnociência.
87Pós Doutora em História Política, Professora adjunta do Departamento de Ciências Humanas e Letras da Universidade

Estadual do Sudoeste da Bahia e Líder do Grupo de Pesquisa História, Sociedade e Etnociência, CNPq.
85

1. INTRODUÇÃO

A Prática Pedagógica Significativa tem sido analisada sob o ponto de vista social e
identifica as características pessoais da criança com Transtornos de Déficit de Atenção e
Hiperatividade-TDAH para efetivar ações de inclusão e acolhimento aos portadores dessa
síndrome. Visando estabelecer os parâmetros de comparação que possam orientar as
metodologias a serem adotadas para a melhoria de qualidade de vida, este estudo visa
observar primeiramente o espaço educacional que desenvolve as práticas pedagógicas
significativas para incluir e estimular os alunos com o TDAH, e definir orientação adequada e
integração social.
Tendo em vista que cada aluno possui peculiaridades, as metodologias adequadas
serão específicas. Como problemática verificamos a situação atual da questão e se a escola
dispõe de instrumentos para perceber as necessidades e possibilidades na efetivação dos
projetos a serem desenvolvidos.
A abordagem justifica-se pelo interesse em aprofundar as teorias e práticas pedagógicas,
na instituição uma vez que a escola é a primeira organização social fora do âmbito familiar
que demonstra potencialidades para iniciarmos as questões subjacentes do dilema. Sendo
assim, o conhecimento prévio relacionado aos fatores psicológicos, é o primeiro passo na
escolha das formas de trabalho que estimule as habilidades dos alunos.
Os pressupostos levantados apontam para a importância na construção de
procedimentos e estratégias que promovam o bem-estar da criança e um trabalho eficiente
para sua proteção e proporcione as condições essenciais para resgatar o potencial cognitivo de
cada aluno.
A escolha da metodologia é fundamental para evidenciar os instrumentos e
procedimentos que ajudam o pesquisador a traçar o itinerário seguir e o caminho a escolher
visando conciliar o pensamento e a prática a ser explorada pelo pesquisador.
A revisão de literatura sobre o tema é de extrema importância para o planejamento que
subsidie a resolução do problema e possibilite ao pesquisador, diferentes concepções. O
estudo descritivo, pois, não é apenas uma abordagem educacional, é registro, análise e
interpretação de fenômenos da atualidade. Portanto, a pesquisa descritiva reflete sobre o
funcionamento de ações percebidas na realidade e contribui para o desenvolvimento social.

2. A IMPORTÂNCIA DE POLÍTICAS EDUCACIONAIS NO ACOLHIMENTO DOS


86

PORTADORES DE TDAH
Compreende-se que a buscar de subsídios com o intuito de amenizar as dificuldades
enfrentadas pelos alunos é indispensável para a permanência destes no espaço escolar. Sendo
Assim é possível ressaltar que há uma extrema necessidade de construir estratégias que
possibilitem desenvolver práticas pedagógicas significativas que possam atingir todos os
alunos, nesse sentido, pode-se perceber, que a inclusão deve contemplar pessoas, entretanto, o
que ocorre na maioria das situações é que na prática, incluir e integrar são considerados
“sinônimos”. Mas de acordo com Lima, há diferenças entre os termos, desse modo a autora
evidencia que,
Tanto a integração quanto a inclusão são formas de inserção social, mas enquanto a primeira trata as
deficiências como problema pessoal dos sujeitos e visa à manutenção das estruturas institucionais, a
segunda considera as necessidades educacionais dos sujeitos como problema social e institucional,
procurando transformar as instituições88.

Desse modo, pode-se perceber que a integração pode até buscar recursos para que haja
uma interação entre alunos com deficiência e outras pessoas que fazem parte do processo
educacional, mas é através da inclusão, que são criadas estratégias afirmativas com a
finalidade de possibilitar a adequação da escola para todos os alunos, inclusive os que
apresentam deficiência. De acordo com Mantoan:

O princípio democrático da educação para todos só se evidencia nos sistemas educacionais que se
especializam em todos os alunos, não apenas em alguns deles. A inclusão, como consequência de um
ensino de qualidade para todos os alunos provoca e exige da escola brasileira novos posicionamentos e
é um motivo a mais para que o ensino se modernize e para que os professores aperfeiçoem as suas
práticas. É uma inovação que implica num esforço de atualização e reestruturação das condições atuais
da maioria de nossas escolas de nível básico89.

Com base nessa concepção pode-se perceber que quando se pensa em uma estrutura
educacional bem organizada inclui-se o objetivo primordial de contribuir com a aprendizagem
e o desenvolvimento do ser humano de forma integral, para que isso ocorra é necessário, não
apenas a inserção do aluno no sistema de ensino, mas principalmente condições de acesso e
permanência para o mesmo. Mantoan aponta que,

Melhorar as condições da escola é formar gerações mais preparadas para viver a vida na sua
plenitude, livremente, sem preconceitos, sem barreiras. Não podemos nos contradizer nem
mesmo contemporizar soluções, mesmo que o preço que tenhamos de pagar seja bem alto,
pois nunca será tão alto quanto o resgate de uma vida escolar marginalizada, uma evasão, uma
criança estigmatizada, sem motivos90

88LIMA, 2006, p.24


89MANTOAN, 2007
90Op.cit. MANTOAN, 2007.
87

Sendo assim pode-se notar que as pessoas envolvidas no processo de inclusão escolar
enfrentarão inúmeras dificuldades, mas as oportunidades que surgirem por meio das lutas, são
significativas, que possibilitarão estímulo para vencer outros obstáculos.
Pode-se perceber que a educação é uma ferramenta fundamental para transformar a
sociedade, nesse sentido a educação especial tem como principal objetivo, modificar a
estrutura tradicional da escola, que se baseia em padrões homogêneos, desse modo, Silva
evidencia que:
A Educação Especial passa atualmente por um momento de revisão epistemológica, que se caracteriza
pelo movimento da Educação Inclusiva. Este movimento é consequência de mudanças ocorridas nas
atitudes sociais que foram se estabelecendo ao longo da história, com relação ao tratamento dado às
pessoas com deficiência. Afinal, não se pode falar sobre Educação Especial sem pensar na questão da
deficiência. (SILVA; et al. 2006, p. 9)

Pode-se perceber que nem sempre quando a criança apresenta um grau elevado de
dificuldade a família consegue oferecer o auxílio necessário para ela, na maioria das situações
isso acontece possivelmente por conta de uma negação interna dos familiares ou por causa de
uma limitação de conhecimento dos mesmos em relação à deficiência apresentada, na
concepção de Santos e Paulino, “Os sentimentos da família sobre a deficiência de seus filhos
são cíclicos e podem transitar entre a aceitação e a negação, especialmente”.
Partindo dessa ideia nota-se que, enquanto a Educação Especial visa uma proposta
pedagógica que assegure recursos e serviços especializados para apoiar o processo de
escolarização. A Educação Inclusiva centraliza a mudança, nas práticas pedagógicas e na
eliminação das barreiras para acesso ao currículo. Partes que podem proporcionar ações
significativas para o contexto social nas mudanças de fase da criança.
A dificuldade de aceitação é um fator agravante para a família, pois na maioria das
vezes quando se espera o nascimento de uma criança, não se imagina vivenciar uma condição
excepcional, e sim receber o filho que os pais idealizam, sendo assim, quando a criança nasce
apresentando algum tipo de deficiência, a família despreparada começa a vivenciar uma crise.
Por outro lado, percebe-se que a criança apresenta deficiência também encontra dificuldades
no espaço educacional, dois dos vários fatores que colaboram para que isso aconteça são; o
despreparo dos professores para desenvolver trabalhos com alunos que apresentam a limitação
supracitada e a negação da deficiência dentro do próprio espaço escolar. Acentuando sobre o
TDAH, Rohde ressalta que:
É fundamental que a escola tenha uma equipe de professores e orientadores educacionais que estejam
familiarizados com conceitos básicos sobre o TDAH, ou que, pelo menos, tenham interesse em discuti-los.
Acima de tudo, é importante que a escola tenha disponibilidade para receber um aluno que poderá
apresentar dificuldades de aprendizagem e/ou de comportamento e para desenvolver um trabalho em equipe
88

com os pais e com o profissional da área de saúde mental que irá trabalhar com a criança e sua família91.

O autor define Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade como “um problema de


saúde mental que tem três características básicas: a desatenção, a agitação (ou a
hiperatividade) e a impulsividade”. Por meio das pesquisas extraídas da internet relacionadas
a Associação Brasileira do Déficit de Atenção, percebe-se uma outra definição para (TDAH),
trata-se de “um transtorno neurobiológico, de causas genéticas, que aparece na infância e
frequentemente acompanha o indivíduo por toda a sua vida”. A partir dos conceitos
supracitados pode-se notar que, tem sido frequente a incidência de dificuldades de
aprendizagem, esse fator está relacionado a um transtorno na essência neurológica, cuja
manifestação se apresenta de forma mais evidente no espaço escolar.
Desse modo é possível deduzir que há uma extrema necessidade de construir estratégias
que possibilitem desenvolver práticas pedagógicas significativas no espaço escolar para as
crianças com TDAH, mas é necessário ter conhecimento sobre a limitação do aluno, pois
conhecer as características da deficiência é um subsidio para que a família possa cuidar
melhor da criança e para a escola proporcionar recursos que correspondam às necessidades
educacionais. Sendo assim, os envolvidos no processo educacional devem buscar refletir
sobre recursos que possam potencializar o desenvolvimento dos alunos, de acordo com Santos
e Paulino:
Construir e cultivar políticas de inclusão pressupõe planejar novas formas de atuação, com
intencionalidades e ousadia, afim de que os aspectos criativos do trabalho docente possibilitem
novas formas de intervenção que garantam a participação de todos em diferentes campos de
atuação e em diferentes espaços92.

É preciso ressaltar que no contexto educacional quando o TDAH não é diagnosticado


de maneira correta ele poderá ser um incentivo para o baixo rendimento escolar, entretanto
com o acesso ao diagnóstico, será possível criar medidas que servirão de estímulo para o
aprendizado das crianças que apresentem esse distúrbio, já que espaço escolar deve garantir
não só o acesso, mais principalmente a permanência de todos. De acordo com a concepção de
Sisto e Martinelli:
“Por ser a escola um contexto onde se põe em marcha o processo de transmissão dos
conhecimentos socialmente estabelecidos e a construção dos mesmos pelo sujeito que aprende,
se concebe ao professor um papel fundamental, seja no sentido de orientar e guiar essa
construção mental dos indivíduos, seja no de promover sua estruturação pessoal. A partir
dessas relações professor-aluno, este último recebe uma quantidade de informações que vão
além dos conhecimentos repassados, mas, que também dizem respeito às possibilidades e
limitações e suas competências, bem como valor delas93

91ROHDE,1999, P.79.
92SANTOS E PAULINO, 2008, p. 62.
93SISTO E MARTINELLI, 2008, p.51.
89

A falta de acompanhamento e assistência adequada para alunos com TDAH, pode


provocar graves prejuízos para suas vidas, podando suas habilidades e dificultando ainda mais
seus problemas.
Para que se coloque em prática estratégias que possibilitem desenvolver ações
pedagógicas significativas é necessário fazer uma revisão sobre como está ocorrendo o
processo de ensino-aprendizagem no espaço escolar, desse modo Moraes deixa explícito que:
A busca de novos ambientes de aprendizagem, mais adequados às necessidades de nossas crianças e ao
mundo como ele hoje se apresenta, levou-nos a procurar um novo referencial para a educação, tendo em
vista a gravidade dos problemas enfrentados não apenas no setor educacional, mas também nas mais
diferentes áreas do conhecimento humano.94

Apontar novos métodos de trabalho, na tentativa de contribuir para amenizar as dificuldades


enfrentadas por alunos que apresentam Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade é
indispensável para a permanência e sucesso dos mesmos no espaço escolar.
Segundo José e Coelho:

[...Quando um educador respeita a dignidade do aluno e trata-o com compreensão e ajuda construtiva,
ele desenvolve na criança a capacidade de procurar dentro de si mesma as respostas para os seus
problemas tornando-a responsável e consequentemente, agente do seu próprio processo de
aprendizagem...]95.

Partindo dessa concepção se pode perceber que o professor precisa estimular em seus
alunos a motivação e a coragem para superar os obstáculos, as práticas pedagógicas
desenvolvidas devem proporcionar possibilidades para ampliar o potencial do educando.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Refletir sobre as estratégias que possam potencializar o desenvolvimento dos alunos
com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade é extremamente importante para a
vivência dos mesmos, por isso a escola precisa ter conhecimento sobre o transtorno. É preciso
ressaltar que a ligação entre escola e família é fundamental, pois devem trabalhar em parceria
para possibilitar um bom desenvolvimento para a criança, visto que no período escolar, por
conta das regras de convivência e das determinações estabelecidas pelo o sistema da escola.
O TDAH é considerado um grande desafio, tanto para o aluno que apresenta quanto
para os colegas e professores, por isso todos os envolvidos no processo educacional precisam
ter compreensão para lidar com as situações que irão vivenciar, sendo assim, a observação de
sinais de agitação e dificuldades de assimilação é necessária, pois crianças que apresentam
tais características nem sempre podem ser julgadas como rebeldes ou descompromissadas, já
que muitas vezes esses sintomas indicam determinado Transtorno.

94MORAES, 2004, p.29.


95JOSÉ E COELHO, 1999, p.13.
90

Vale ressaltar que não cabe ao professor ou a escola fazer o diagnóstico, entretanto é
possível observar, levantar suspeitas e solicitar dos pais um acompanhamento de especialistas,
para que estratégias adequadas sejam colocadas em práticas visando promover o
desenvolvimento desses alunos, pois além da inserção à escola deve garantir principalmente a
permanência dos mesmos.
4. REFERÊNCIAS
JOSÉ, Elisabete da Assunção; COELHO, Maria Tereza. Problemas de Aprendizagem, São
Paulo: Editora Ática,1999.
LIMA, Priscila Augusta. Educação Inclusiva e Igualdade Social. São Paulo: Avercamp, 2006.
MANTOAN, Maria Teresa Eglér. Todas as crianças são bem-vindas à escola. Campinas:
UNICAMP, 2007. Disponível em: http://www.pro-inclusao.org.br/textos.html. Acesso em;
23/10/2013.
MIYAZAKI, Maria Cristina O.S e SILVARES, Edwiges F.M. Transtorno de déficit de
atenção/hiperatividade (TDAH). Estudos de Psicologia. São Paulo: PUC Campinas, n 1,
janeiro, 1997.
MORAES, Maria Cândida. O paradigma Educacional emergente. Campinas: Papirus, 2004.
OLIVEIRA NETTO, Alvim Antônio de; MELO, Carina de. Metodologia da Pesquisa
Científica Guia Prático para Apresentação de Trabalhos Acadêmicos, Florianópolis: Visual
Books, 2008.
ROHDE, Luis Augusto P. Transtorno de Déficit de Atenção/Hipertividade: O que é? Como
Ajudar?, Porto Alegre : Artmed,1999.
SZYMANSKI, Heloisa. A relação família/escola: desafios e perspectivas, Brasília: Liber
Livro,2010.
SISTO, Fermino Fernandes; MARTINELLI, Selma de Cássia. Afetividade e Dificuldades de
Aprendizagem, São Paulo: Vetor,2008.
SANTOS, Mônica Pereira dos; PAULINO, Marcos Moreira (orgs). Inclusão em Educação:
culturas, políticas, e práticas. São paulo: Cortez,2008.
SILVA, Adilson Florentino da; CASTRO, Ana de Lourdes Barbosa de; BRANCO, Maria Cristina
Mello Castelo. A Inclusão Escolar de alunos com Necessidades Educacionais Especiais: Deficiência
Física. Brasília: Ministério da educação, Secretaria de Educação Especial, 2006.
Déficit de Atenção tem tratamento. Disponível em: http://www.einstein.br/einstein-saude/em-dia-com-
a-saude/Paginas/deficit-de- atencao-tem-tratamento.aspx.Acesso em; 08/10/2013.
DistúrbiodeDéficitde Atenção (DDA). Disponível em http://www.metas.com.br/dda/disturbio-de-
deficit-de-atencao-dda.Acesso em; 17/10/2013O que é o TDAH .Disponível em
91

LAZER E LUDICIDADE NO ENSINO-APRENDIZAGEM DAS ESCOLAS DE JEQUIÉ:


UMA PROPOSTA SOCIAL.
Altair Batista de Oliveira96 Maria Luzia Braga Landim 97

RESUMO

Os questionamentos sobre as formas de introduzir as atividades lúdicas nas escolas de Jequié


têm sido estudados para que as brincadeiras e jogos possam ser inseridos nos processos
pedagógicos utilizando instrumentos de baixo custo, ambientes adequados nos bairros
periféricos do município, e dessa forma contribuir para o desenvolvimento e inclusão social.
O desenvolvimento de atividades lúdicas, como o jogo tem a finalidade de amenizar ou
atenuar as tensões do dia a dia, e colaborar na socialização de indivíduos, sendo considerado
por profissionais da área de educação física, de vital importância para jovens e adolescentes
na realização de experiências e descobertas sociais. Inserida no ambiente escolar, a atividade
de lazer é uma ação complexa levando em consideração os embaraços existentes nas
estruturas físicas das escolas e na aquisição de materiais adequados ao ambiente
socioeducativo. A abordagem justifica-se pela necessidade de acompanhar as transformações
pedagógicas ocorridas nas últimas décadas pelas quais os atuais déficits cognitivos e motores
estão associados à ausência de atividades de lazer no ambiente escolar, contribuindo para a
melhoria da educação nas escolas do município.

Palavras-chave: Lazer e educação, Ludicidade, Necessidades & possibilidades na educação


física.

96 Acadêmico do Curso de Educação Física da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Participante do Grupo Pesquisa
CNPq-História, Sociedade e Etnociência.
97Pós Doutora em História Política, Professora adjunta do Departamento de Ciências Humanas e Letras da Universidade

Estadual do Sudoeste da Bahia e Líder do Grupo de Pesquisa História, Sociedade e Etnociência, CNPq.
92

1. INTRODUÇÃO
O conceito de Lazer nos dicionários da língua portuguesa pode ser definido como uma
atividade humana no tempo que o homem pode dispor livremente depois de cumpridos os
afazeres habituais. Contudo, essa ferramenta vem sendo utilizada pelos especialistas de
educação em contextos variados associando divertimento e entretenimento para transformar o
processo educacional nas escolas públicas do Brasil.
Porém, o desenvolvimento de atividades lúdicas, como o jogo com a finalidade de
amenizar ou atenuar as tensões do dia a dia, tem colaborando na socialização dos indivíduos
tem sido considerado de vital importância em jovens e adolescentes para torna-los
independentes na realização de experiências e descobertas.
O trabalho com atividades de lazer e entretenimento no ambiente escolar objetiva
estimular a criatividade o desenvolvimento pessoal, social e ampliar o conteúdo pedagógico 98,
vieses diferenciados e caracterizados pela sociedade como aspecto singular para alívio do
stress e/ou diversão.
Inserida no ambiente escolar, a atividade de lazer é uma ação complexa levando em
consideração os embaraços existentes nas estruturas físicas das escolas e na aquisição de
materiais adequados ao ambiente socioeducativo. Contudo, ao mesmo tempo tem adquirido
especial tratamento pelos profissionais de educação física que usam a criatividade para tornar
envolvente e estimulante para os alunos, na perspectiva de qualidade de ensino e
desenvolvimento motor.
Neste ambiente compete ao professor proporcionar vivências e experiências lúdicas
através de brincadeiras diversificadas que venham a contribuir na ampliação do repertório
motor e cultural por meio dos mais variados conteúdos do lazer, possibilitando-lhes a livre
iniciativa de escolha dos conteúdos e jogos para a construção da prática do brincar – aprender
com objetivos de constituírem de forma pessoal e independente suas emoções, sentimentos,
conhecimentos e regras99.
A abordagem justifica-se pela necessidade de acompanhar as transformações
pedagógicas ocorridas nas últimas décadas pelas quais os atuais déficits cognitivos e motores
estão associados à ausência de atividades de lazer no ambiente escolar.

98 MACHADO, V. Influencias da recreação e do lazer no desenvolvimento das aulas de Educação Física. Faculdade
INESUL, Revista eletrônica Saber, vol. 26, out. Nov. Dez/2014.
99 BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: Educação Física / Secretaria de

Educação Fundamental. – Brasília: MEC/SEF, 1997. p. 51-54.


93

A situação atual da questão levanta pressupostos que podem ser observados como: a
associação do projeto pedagógico a prática de atividade de lazer nas escolas públicas de
ensino fundamental em bairros periféricos pode melhorar o desenvolvimento psicomotor dos
alunos. Os fatores pedagógicos e os aspectos associados às práticas de atividades lúdicas
favorecem as condições de ensino aprendizagem e as aulas devem ser conduzidas por
profissional qualificado a fim de adequar a necessidade com a possibilidade e a condição
existente nas escolas.
Objetivamos verificar inicialmente a capacidade, a possibilidade de adequação ao
projeto pedagógico das escolas periféricas e quais práticas poderão ser utilizadas nas
atividades lúdicas que estejam em conformidade no ensino fundamental, e de acordo com as
normas exigidas para o bom desempenho dessas funções.
Outro meio de verificação pode comparar os planos de aulas com as práticas de
atividades lúdicas com finalidades pedagógicas, ou verificar os recursos existentes para
propor mudanças que contribuam na melhoria do aprendizado.
O diálogo com os gestores e professores deverá ser mantido e a possibilidade de
implantar práticas e atividades lúdicas deverá fazer parte da renovação pedagógica no ensino
fundamental das instituições de ensino.
2. A IMPORTÂNCIA DO LÚDICO NO ENSINO-APRENDIZAGEM
Os questionamentos sobre as formas de introduzir as atividades lúdicas nas escolas de
Jequié têm sido estudados para que as brincadeiras e jogos possam ser inseridos nos processos
pedagógicos utilizando instrumentos de baixo custo, ambientes adequados nos bairros
periféricos do município, e dessa forma contribuir para o desenvolvimento e inclusão social.
A análise sob o ponto de vista dos problemas e dificuldades de socialização nos
lugares periféricos das cidades desprovidos de atividades contínuas de lazer, o cenário de
conflitos por vezes configurado nas instituições de ensino, levem a inferir algumas
particularidades dos ambientes para a utilização de práticas que contemplem as necessidades
de jovens e adultos sem acesso as academias e ou programas sociais.
Neste sentido as práticas de lazer tentam buscar soluções para o acolhimento
necessário para a participação da comunidade com liberdade de escolha e dialogando as
questões políticas e sociais, a fim de motivá-los para os aprendizados multidisciplinares e
vivências para a cidadania100.

100 MARCELLINO. Estudos do lazer: uma introdução. 4ª ed. Campinas, SP: Autores Associados, 2006.
94

A escola enquanto instituição social só estará propicia as futuras mudanças que


almejamos para a sociedade quando pensada e vivida na sua complexidade do contexto social,
o que nos faz refletir e contextualizar que o ambiente educacional reproduz as relações que
constitui com a comunidade na qual esta inserida e a desigualdade socioeconômica do nosso
país101, o que nos objetiva trabalhar por uma sociedade mais justa e menos desigual.
O componente lúdico na ação pedagógica é fator decisivo no processo criativo para
transformar imaginariamente a realidade, existindo relações de interdependência em que o
jogo proporcione problema sócio – político, levando-os a uma reflexão, ao diálogo e ao
posicionamento crítico102.
Ações pedagógicas com atividades lúdicas possibilitam movimentos corporais
voltados para a educação global do indivíduo, e os estímulos motores no aprimoramento dos
elementos da psicomotricidade, essenciais na construção da personalidade, ampliação do
círculo de amizades, conscientização de grupo103 inserção de atividades adquire importância
fundamental se estiverem adequados aos contextos e fenômenos sociais nos diversos bairros.
A brincadeira é elemento essencial para o desenvolvimento psicológico da criança e a
motivação para essa atividade busca soluções coletivas para a conscientização e
enfrentamento aos conflitos. Os elementos de fantasia e realidade aliados buscam distinguir os
antagonismos entre o real e o imaginário, e possibilita a construção de ambientes saudáveis e
divertidos direcionados para autonomia cidadã e para a realização de conquistas
democráticas104.
As atividades lúdicas e recreativas têm objetivos específicos de estimular a
criatividade, aumentar as capacidades e habilidades de encarar riscos e desafios, alcançando
as conquistas individuais e coletivas pelo princípio da cooperação e respeito ao próximo105.
A criança ao movimentar-se interage com o ambiente e com as pessoas que a cercam,
além de desenvolver habilidades por meio de gestos as necessidades motoras passam a
descobrir um mundo ampliado de possibilidades.
Dessa forma, condições favoráveis e disponíveis para a concretização das vivências e
práticas evidenciam a socialização do cotidiano e a inserção do ambiente escolar como
elementos prioritários para a realização de atividades que ampliem o senso de comunidade,

101 Segundo MORIN (2000 p. 177), “O homem é um ser biológico-sociocultural, e que os fenômenos sociais são, ao mesmo
tempo, econômicos, culturais, psicológicos, etc.”.
102 Op.cit. MARCELLINO, 2006.
103 LOPES, V. G. Linguagem do corpo e Movimento. Curitiba, PR. FAEL, 2006.
104 MASTROIANNI, E. C. Q. et al. Abcd no Lar: aprender, brincar, crescer e desenvolver no laboratório de atividades

lúdico-recreativas. São Paulo: UNESP; 2006.


105 ANDRIOTTI, V.; AQUINO, L. M. S. Brinquedoteca: o lúdico no ensino e na aprendizagem. Guaíba, 2006.
95

aliados à solidariedade e permitam aprimorar o domínio e o autocontrole nos níveis do


comportamento humano106.
As ações devem ser repletas de atrações e novas situações que contribuam para a
tomada de decisões, afirmando a formação do caráter humano com rendimento intelectual
com superação de limites voltados à construção de uma sociedade democrática.
A ansiedade das crianças no contexto escolar é fator decisivo que contribui de maneira
negativa à melhoria e qualidade do aprendizado, contribuindo para uma condição de aversão
destas crianças a escola, potencializado pela rotina cansativa, ausência de objetivos concretos
e desvinculação da cultura vivida107.
Ao proporcionar a oportunidade de vivenciar atividades lúdicas de lazer com fins
pedagógicos nas escolas, permite-nos com isto, maior assiduidade e prazer de todos que estão
inseridos no processo ensino-aprendizagem, por estarem imersos justamente no ambiente
favorável ao desenvolvimento das individualidades e habilidades, respeitando o histórico e
arcabouço cultural em que estão inseridos.
Estas atividades inseridas com prazer e criatividade no ambiente escolar agregam
parcerias e ações solidárias importantes à educação voltadas para autonomia e a cidadania108,
emanando uma ferramenta importantíssima na construção democrática por uma sociedade
mais justa, afetuosa, inclusiva e de respeito às desigualdades, com finalidade e objetivos
claros de promoção na superação de limites e das desigualdades sociais.
A conquista de um mundo mais justo e democrático articula-se com o desejo pela
ambição de atitudes e decisões daqueles que têm visão e sensibilidade para perceber que o
futuro é construído no presente e a várias mãos. É justamente daqueles que creem numa
sociedade mais justa, lúdica e consciente da importância da participação de todos na
construção de uma sociedade igualitária109.
A inquietação de professores das áreas da saúde tem motivos de sobra que motivam os
estudos e pesquisas que possam aplicar e prescrever atividades lúdicas adequadas que
contribuam na conversão dos dados sobre os aspectos psicomotores e sociais ao
desenvolvimento global da criança, que indicam um aumento considerável.
As crianças em fase inicial de aprendizado acarretam necessidades psicomotoras
essenciais ao desenvolvimento global, sendo assim, as condições de ensino e aprendizagem

106 PINTO, L. M. S. de M. Políticas públicas de esporte de lazer: caminhos participativos. In: Motrivivência, n. 11, a.10, Dez.
1998.
107 MARCELLINO, N. C. Estudos do lazer: uma introdução. 4ª ed. Campinas, SP: Autores Associados, 2006.
108 PINTO, L. M. S. de M. Políticas públicas de esporte de lazer: caminhos participativos. In: Motrivivência, n. 11, a.10, Dez.

1998.
109 Op.cit.
96

são influenciáveis aos fatores pedagógicos nas aplicações e aspectos relacionados às


atividades lúdicas. Faz-se necessário avaliar quanto o projeto pedagógico das escolas e planos
de aula estão associados à importância e relevância das atividades lúdicas de lazer à saúde
mental e física das crianças nas escolas públicas em bairros periféricos para a qualidade do
aprendizado.
3. CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES
Para o desenvolvimento desse estudo a revisão de literatura deu uma visão geral sobre a
situação atual da questão e levantou possibilidades de efetivação dos objetivos elaborados
inicialmente. Os conceitos de Lazer e Ludicidade são conceitos base para a proposição de novas
perspectivas nos jogos e entretenimentos com fins pedagógicos e podem constituir-se como base para
os projetos pedagógicos e planos de aulas a serem elaborados.
A organização do material da pesquisa e a observação do conjunto de documentos foram
analisadas buscando torná-los de fácil compreensão para os professores que estiverem dispostos a
cooperar com as iniciativas e procurar soluções a problemática em questão. Este estudo ocorrerá pelos
preceitos do método da pesquisa documental com análise de contorno qualitativo que segundo
Godoy110 (1995):
A abordagem qualitativa enquanto exercício de pesquisa, não se apresenta como uma
proposta rigidamente estruturada, permitindo que a imaginação e a criatividade levem os
investigadores a propor trabalhos que explorem novos enfoques.
Nesse sentido, a pesquisa documental representa uma forma que pode se revestir de
um caráter inovador, trazendo contribuições importantes no estudo do referido tema. A
análise documental dos planos de aulas se faz necessário pelo enriquecimento e da
importância como fonte de dados para estudo e colocação do pesquisador em contato direto
com o objeto a ser estudado.
111
Ludke e André ressaltam que a análise documental constitui uma técnica
importante na pesquisa qualitativa, seja complementando informações obtidas por outras
técnicas, seja desvelando aspectos novos de um tema ou problema. Com isso, buscaremos
apontar um tratamento critico e analítico à questão apresentada, podendo ser reexaminados a
procura de interpretações complementares para a melhoria da qualidade do ensino-
aprendizagem.

110 GODOY, A. S. Pesquisa Qualitativa: Tipos fundamentais. Rev. de Administração de empresas. São Paulo, v.35, n.3,
p.20-29, Mai/Jun. de 1995.
111 LUDKE, M.; ANDRÉ, M. E. D. A. Pesquisa em Educação: abordagens qualitativas. São Paulo, EPU, 1986.
97

Conscientes das dificuldades que serão encontradas no decorrer da pesquisa, Godoy 112
(1995) adverte que, a maioria dos documentos registra relatos verbais, que representa o ponto
de vista de indivíduos que possuem habilidade para ler e escrever, não provendo informações
sobre comportamentos não verbais, que, às vezes, são imprescindíveis para se analisar o
sentido de determinada fala.
Portanto, estamos antenados aos planos de aulas e dos projetos pedagógicos como
pontos essenciais para transformações, e a uma análise criteriosa dos dados existentes com o
respectivo entendimento de que só poderemos realizar mudanças no sistema educacional se os
profissionais, alunos e a comunidade em geral estiverem dispostos a entender onde a
dinâmica, ensino aprendizado estiver sendo utilizada.
4. REFERÊNCIAS
ANDRIOTTI, V.; AQUINO, L. M. S. Brinquedoteca: o lúdico no ensino e na
aprendizagem. Guaíba,2006.Disponívelemhttp://guaiba.ulbra.tche.br/pesquisa/2006/artigos/pe
dagogia/125.pdf.Acessado em 16/12/2014.
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: introdução
aos parâmetros curriculares nacionais/Secretaria de Educação Fundamental. – Brasília:
MEC/SEF, 1997. 126p.
GODOY, A. S. Pesquisa Qualitativa: Tipos fundamentais. Rev. de Administração de
empresas. São Paulo, v.35, n.3, p.20-29, Mai/Jun. de 1995.
LOPES, V. G. Linguagem do Corpo e Movimento. Curitiba, PR. FAEL, 2006.
LUDKE, M.; ANDRÉ, M. E. D. A. Pesquisa em Educação: abordagens qualitativas. São
Paulo, EPU, 1986.
MACHADO, V. Influencias da recreação e do lazer no desenvolvimento das aulas de
Educação Física. Faculdade INESUL, Revista eletrônica Saber, vol. 26, out. Nov. Dez/2014.
MARCELLINO, Nelson. C. Estudos do lazer: uma introdução. 3ª ed. Campinas, SP: Autores
Associados, 2002.
MASTROIANNI, E. C. Q. et al. Abcd no lar – aprender, brincar, crescer e desenvolver no
laboratório de atividades lúdico - recreativa. 2004. Disponível em
http://www.unesp.br/prograd/PDFNE2004/artigos/eixo10/abcd.pdf. Acessado em 28/12/2014.
MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo, SP: Cortez, 2000.
PINTO, L. M. S. de M. Politicas públicas de esporte de lazer: caminhos participativos. In:
Motrivivência, n. 11, a.10, Dez. 1998.

112 Ibidem
98

O ENSINO D E HISTÓRIA DA CULTURA AFRO-BRASILEIRA NAS ESCOLAS DO


MUNICÍPIO DE JEQUIÉ-BAHIA.

LOPES, Caroline Alves113, SANTOS, Jamile Menezes114·, SANTOS, Poliana Carvalho dos115,
Maria Luzia Braga Landim 116.

RESUMO

A busca por respostas sobre o ensino da cultura afro-brasileira nas escolas brasileiras motivou
o estudo ora apresentado, resultado da pesquisa realizada em duas escolas do município de
Jequié. Com o objetivo de desvelar os problemas enfrentados pelas escolas brasileiras no que
se refere à aplicação da Lei 10. 639/03, iniciamos nosso estudo realizando uma revisão de
literatura para verificarmos a situação atual da questão. Para compreender o status em que se
encontra a aplicação da Lei 10. 639/03, buscamos coletar subsídios a partir da visão de alguns
estudantes e professores lotados em escolas públicas e propomos para as instituições escolares
uma colaboração voluntária para refletir sobre o ensino da pluralidade cultural no ambiente
formal de educação originada de culturas tradicionais. O método etnográfico norteou o
estudo, a pesquisa qualitativa respaldou o entendimento particular dos discentes e docentes a
respeito de temas como o racismo e o ensino da cultura africana e afro-brasileira entre outros,
e direcionou a pesquisa para metas a serem cumpridas como partes voluntárias das ações a
serem aplicadas no ambiente pedagógico que melhorem o rendimento da educação.
Inicialmente priorizamos estudar a Lei 10.639/03 e suas aplicações, para levantar hipóteses e
variáveis a serem corroboradas ou refutadas no ambiente pesquisado.

Palavras chaves: Lei 10. 639/03, Diversidade cultural, Preconceito racial.

113 Acadêmica VI Semestre Pedagogia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. caroline.alveslopes@gmail.com


114 Acadêmica VI Semestre Pedagogia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.. jamilemenezes@gmail.com
115 Acadêmica VI Semestre Pedagogia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.. cpoliana.santos@hotmail.com
116 Pós Doutora em História Política, Professora adjunta do Departamento de Ciências Humanas e Letras da Universidade

Estadual do Sudoeste da Bahia e Líder do Grupo de Pesquisa História, Sociedade e Etnociência, CNPq.
99

1.INTRODUÇÃO
O estudo preliminar inicia com um recorte geográfico de duas escolas do ensino médio
no bairro do Jequiezinho, no município de Jequié, e busca elucidar os questionamentos que se
referem à educação formal sobre o continente para aprofundar as pesquisas sobre a cultura
africana nas escolas brasileiras e sua contribuição na formação do povo brasileiro.
Os elementos culturais importados da história africana presentes na formação da
sociedade brasileira permitem sugerir que o período escravista fundou um elo significativo
entre os artefatos da supracitada cultura e o país que se edificava a partir do século XVI.
A mistura de povos e etnias transcendeu as relações de subordinação e fez erigir um
seguimento étnico singular, os afro-brasileiros. Contudo, a miscigenação de cores, crenças,
histórias e culturas sejam sentidas na pele, na fala, impregnadas de peculiaridades estampadas
nos nossos rostos, não são reconhecidas como importantes nos contextos escolares, em
algumas instituições do país.
A inclusão das contribuições históricas e culturais africanas, nos roteiros de estudos
das escolas pesquisadas inquietam os profissionais da área educacional tendo em vista que, a
Lei 10.639/03, aprovada em 2003, versa sobre a obrigatoriedade das proposições apresentadas
às diretrizes curriculares para o ensino da História e Cultura Africana e Afro-Brasileira.
Compreendemos que propor interlocuções críticas e conscientes sobre o assunto, é
formalizar o preconceito e a desvalorização da História e Cultura africana e afro-descente no
ensino brasileiro especialmente na Bahia, por tratar-se de estado brasileiro com maior número
de descendentes.
A universidade espaço específico para condução do ensino, pesquisa e extensão, e cuja
missão tem como objetivo precípuo informar cientificamente sobre os parâmetros
educacionais e de formação humana, desempenha papel significante para contribuir no
ensino-aprendizagem de integrantes dos segmentos da comunidade escolar e da sociedade em
geral.
O preconceito racial e religioso acrescidos da falta de informação, sobretudo quando
são pertinentes à história e a cultura africana procura balizar as práticas educacionais, e a
construção de uma identidade nacional dando espaço e valoração iguais as heranças culturais
advindas dos europeus, dos índios latino-americanos e africanos.
A observância e cumprimento da Lei 10.639/03 têm como uma das metas utilizar os
ambientes educacionais para multiplicar informações que valorizem as contribuições
praticadas pelo povo africano, no contexto identitário.
100

Os objetivos a serem atingidos foram delineados para averiguar a existência de


metodologias ativas no conhecimento da Lei 10.639/03, e se existem ações que contemplam
as diversidades culturais brasileiras e como os corpos discente e docente lidam com as
questões.

2. A RELEVÂNCIA DO ESTUDO DA CULTURA AFRO-BRASILEIRA


Com a finalidade de verificar as hipóteses traçadas preliminarmente, desenvolvemos a
revisão de literatura para conhecermos a situação atual da questão, levantando conceitos-
chaves que nortearam o nosso estudo e despertaram as variabilidades de interesses sobre o
tema e a interdisciplinaridade nele contidos.
O estudo sobre ensino da história e cultura afro-brasileira abre um leque de opção que
viabilize a efetivação dos pressupostos teóricos que devem ser aplicados a quaisquer
pesquisas. As peculiaridades existentes do assunto dão margem a interpretações relativas às
questões étnicas nas escolas, sobre os preconceitos, além de chamar a atenção para as
estatísticas de violência, falta de acesso e discriminação nos diferentes segmentos da
sociedade, que necessitam de reflexões, iniciativas e políticas públicas que efetivem as metas
legais propostas idealizadas e ligadas às chamadas minorias.
Desvendar como ocorrem as relações de respeito e igualdade de direitos e deveres do
cidadão entre as diferentes culturas busca estabelecer uma identidade nacional brasileira, que
contemple suas complexidades étnicas e raciais. Como consequência pela falta de
cumprimento das normas e procedimentos em algumas escolas brasileiras diretamente ligadas
a aplicação da Lei de 2003 verifica-se o desinteresse em incluir no currículo formal, espaços
de diálogo e informação que versem sobre a herança cultural o que surpreende os especialistas
diante do tempo de promulgação da referida Lei.
As inegáveis contribuições indígenas, africanas e europeias formam o conjunto de
costumes, hábitos, indumentárias, crenças, valores e músicas originárias das influências
africanas precisam ser conhecidos pelas crianças e jovens que farão parte da construção do
Brasil nos novos tempos.
Incluir no contexto curricular das escolas formais e informais assuntos como folclore,
alimentação, lutas de autodefesa, ervas medicinais e a cultura original dos primeiros africanos
a se estabelecerem no Brasil, valorizam o pertencimento e a identidade nacional.
O governo brasileiro em exercício democrático promulgou a Lei 10.639/03 como
conscientização aos povos originários da África, como marco reparador pelos anos de omissão sobre a
origem cultural e segregação racial sofrida pelos povos africanos.
101

[... Estabelece que as escolas brasileiras devem abordar a cultura africana e afro-brasileira, com o
objetivo de debater o preconceito, o racismo e a visibilidade deste universo cultural que muito
contribuiu para a formação da identidade nacional. A lei 10.639/03 cita explicitamente as disciplinas
de História, educação artística e literatura como responsáveis pelos conteúdos a serem
trabalhados...]117

Existem dificuldades de efetivação da Lei, visto que em casos erros sucessivos


acontecem no percurso escolar pela falta de preparação dos profissionais que atuam no
campo, e a visão distorcida sobre o assunto que gera polêmica e às vezes constrangimentos
internos e externos à escola. Fato mencionado pelo SECAD:

Na educação brasileira, a ausência de uma reflexão sobre as relações raciais no planejamento escolar
tem impedido a promoção de relações interpessoais respeitáveis e igualitárias entre os agentes sociais
que integram o cotidiano da escola. O silêncio sobre o racismo, o preconceito e a discriminação raciais
nas diversas instituições educacionais contribui para que as diferenças de fenótipo entre negros e
brancos sejam entendidas como desigualdades naturais. Mais do que isso, reproduzem ou constroem os
negros como sinônimos de seres inferiores118.

Nesse sentido, faz-se necessário citar Oliveira que menciona, “o discurso por parte do
corpo docente sobre o descaso com a educação pública está voltado em sua maioria para as
condições de trabalho, como por exemplo, salário defasado, violência, falta de material e
estrutura precária, deixando de lado as lutas do movimento antirracista, o que é de fato algo
para se lamentar, uma vez que esse assunto deveria estar em evidência nas pautas de
reivindicação de todos nós educadores”119.
A segregação racial, na sociedade é inaceitável se verificada as lutas pela mudança do
cenário e cabe a todos trabalhar por um sistema de ensino equânime de justiça social.
Segundo a Lei 10.639/03 a paridade de oportunidades, entre os diferentes, começa
pela valorização das partes integrantes dos contextos sociais, culturais e econômicos num país
livre e democrático.
[...Uma educação, profundamente vinculada as matrizes culturais diversificadas que fazem parte da
formação da nossa identidade nacional, deve permitir aos alunos respeitar os valores positivos que
emergem do confronto dessas diferenças, possibilitando ao mesmo tempo desativar a carga negativa e

117PETEAN, s/d, p 7.
118SECAD, 2005, p 11.
119OLIVEIRA, 2003.
102

eivada de preconceitos que marca a visão discriminatória de grupos sociais, com base em sua origem
étnica, suas crenças religiosas ou suas práticas culturais...] 120
Embora o preconceito seja efervescente nos nossos dias e em diferentes espaços
sociais, as instituições de ensino e outros espaços de formação, precisam efetivar suas ações
no intuito de combater e observar que existem visões e versões que podem ser dialogadas para
chegar ao denominador comum que admita a importância das origens de povos e culturas
considerados primitivos.
Com relação à identidade, pedagogos e especialistas em educação buscam um preceito
básico:
[...educar para a tolerância de adultos que atiram uns nos outros por motivos étnicos e religiosos é
tempo perdido. Tarde demais. A intolerância selvagem deve ser, portanto, combatida em suas raízes, através de
uma educação constante que tem início na mais tenra infância, antes que possa ser escrita em um livro, e antes
que se torne uma casca comportamental espessa e dura demais..].121
A pesquisa de opinião realizada pela Fundação Perseu Abramo, em 2003, demonstra
que 87% dos brasileiros admitam que exista racismo no Brasil. Apenas 4% reconhecem seus
próprios preconceitos racistas, percentagem conjectura um Brasil repleto de diversidades
culturas e adversidades como um território de tratamentos diferenciados e injustos.
Em Casa Grande e Senzala, (1933), Gilberto Freyre tem uma visão surreal que aponta
para a tese que considera fundamental sob o ponto de vista preconceituoso sobre o encontro
de índios, portugueses e africanos no território brasileiro. Segundo o autor, os habitantes
originais da terra e os visitantes brancos tiveram encontros amistosos, respeitaram-se
mutuamente, e permaneceram convivendo pacificamente sem discriminação e preconceito de
qualquer espécie, e seria exemplo para o resto do mundo.
Nesse mesmo ano, período pelo qual a história oficial encarregou-se de sublimar o
negro como parte integrante da identidade brasileira, e por um prologado tempo permaneceu.
O autor acima referido no livro exemplifica famílias miscigenadas, construídas com laços
afetuosos, que maximizavam um fingimento antagônico entre brancos, escravos e índios.
Freyre menciona que Portugal não tinha predisposição à eugenia, não possuíam orgulho
acirrado quanto às questões de raça e revela o ambiente da Casa Grande como um espaço de
inclusão das diferenças, onde negros e brancos conviviam pacificamente.
Contudo, as expectativas sobre as questões de trabalho segundo o autor, circundavam as
hierarquias sociais onde possuíam dominados e dominadores fossem mulheres, negros ou

120 MOURA, 2008, p 76.


121 ECO, 1998, p.56.
103

índios, empregados ou serviçais e pairava no ambiente uma submissão, e desejo no exercício


da função de domínio e autoritarismo esperados e aceitos pelas minorias dominadas.
A visão gerada por Casa grande e Senzala estabeleceu até certo tempo remoto,
questões preconceituosas que foram paulatinamente descobertos e desvencilhados daquela
imagem discriminatória que fizera surgir o mito da democracia racial e das diferentes
situações pelas quais os preconceitos passaram despercebidos.
A segregação por raça presente em vários espaços, inclusive no lugar mais africano
depois da África nas escolas, quando se observa os materiais didático-pedagógicos utilizados
em sala de aula comumente a predileção pela cultura europeia, e a tentativa de inferiorizar os
saberes relativos às matrizes africanas, afro-brasileiras e indígenas.
Habitualmente as figuras dos negros são personagens em situação de subserviência e
escravidão como referência explícita do período escravista e colonial brasileiro. Na
conjuração baiana os heróis negros são pouco ou quase nunca citados como protagonistas das
conquistas alcançadas nos movimentos que deflagraram liberdades.
Humanos submetidos a violências físicas, psicológicas e morais em nome das de
independências históricas. No entanto, o registro de participação de seus descendentes em
lutas renhidas, vem superando diferenças sociais e culturais em busca de liberdade como
pessoas comuns, sem escravidão, bem sucedidos figurando em diversos extratos da nossa
sociedade.
Na tentativa de minimizar, os já citados estereótipos raciais preexistentes, a Lei 10.639/03
tenciona também,
Garantir que a escola de Ensino Fundamental oportunize aos alunos o acesso ao conhecimento religioso.
Não é seu interesse fazer com que a escola garanta aos educandos o acesso às formas institucionalizadas
de religião – isto é competência das próprias igrejas e crenças religiosas. À escola compete garantir o
acesso ao conhecimento religioso, a seus componentes epistemológicos, sociológicos, históricos. Pode
naturalmente, servir-se do fenômeno religioso e de sua diversidade, sem, contudo, erigir uma ou outra
forma de religiosidade em objeto de aprendizagem escolar. Na aula de Ensino Religioso nossas crianças
têm que ter acesso ao conhecimento religioso, não aos preceitos de uma ou de outra religião. 122.

Assim sendo, toda a revisão de literatura despertou o desejo de investigação, no


ambiente educacional formal, para percebermos os benefícios causados pela Lei e se vem
sendo efetivada depois de tantas lutas para inclusão dessa matéria no currículo escolar. Ou se,
a história relatada no espaço de educação ainda é tendenciosamente e preponderantemente
branca, assim como “a inteligência e a beleza mostradas pela mídia também o são”123.
O estudo sugerido para ser aplicado nas escolas de Jequié contribuirá significativamente na
tomada de consciência dos educadores quanto à disposição dos docentes e discente de acordo com a

122 ZIMMERMANN, 1998, p 11.


123SANTOS, p.22 apud SEED, 2006, p.22.
104

sua visão particular e coletiva inseridas no contexto do acesso e informação aos discentes sobre a Lei,
e por certo facilitará o entendimento sobre a origem dos cidadãos brasileiros em especial dos baianos.
A colaboração dos estudantes do Ensino Fundamental I, II e Ensino Médio, e os
professores trabalham nas escolas estudadas do Ensino Fundamental I e II, e Ensino Médio a
partir das visões particulares foram essenciais para a realização dos trabalhos de mapeamento
e levantamento que servirá para posteriores projetos.
A inclusão de temas nas áreas do conhecimento Humano, especialmente, História,
Geografia, Sociologia, Antropologia, Educação Artística e Literatura, conteúdos
interdisciplinares que adicionem substratos específicos da cultura africana e afro-brasileira, a
podem debelar a falta de informação e desconhecimento sobre o assunto.
A falta de sistematização nos livros didáticos pode ser apontada como resultado para a
falta de disseminação da matéria e por desconhecimento da inter-relação entre os assuntos
e/ou até por temor e receio à reação dos responsáveis pelos estudantes.
Embora as considerações preliminares apontem para informações que vão de encontro
às especificações e obrigações da efetivação de Lei, observamos que o Ensino da História da
África, pode ser trabalhado em aulas de outras disciplinas de forma transversal, pois, existe a
necessidade premente na utilização de conteúdos como textos e imagens que abordem as
questões cotidianas que interaja a escola à sociedade, com a percepção de que a identidade é o
caminho para se conhecer as origens e em sequência adquirir conhecimento.
3. CONSIDERACOES PRELIMINARES
A importância de aplicação de procedimentos na educação que permitam o acesso
indistinto da sociedade em geral às informações que constituem a Cultura Brasileira
Contemporânea, instituídas pela Lei 10.639/03 indica que a ligação entre o sistema
educacional e o povo brasileiro necessita de observância e cuidado com a aplicação de
procedimentos legais e atribui-se às instituições como responsáveis pela falta de disseminação
de informação sobre a formação do povo brasileiro.
Para tal, a tomada de atitude com relação aos planejamentos educacionais devem
mostrar a visão despretensiosa e proporcionar aos educandos opções de escolha para deliberar
sobre tendências, fragilidades e a necessidade de uma atitude proativa com relação aos
problemas cotidianos gerados pelo preconceito e discriminação.
O estudo deverá trilhar caminhos que direcionem a instrumentalização de conteúdos
próximos à realidade e alertar sobre a existência da Lei 10.639/03, necessária, na execução de
uma educação com valores igualitários e humanizados.
A imposição legal precisa ser cumprida e faz parte da história do Brasil que tenta
105

reparar a omissão deliberada de autores e da sociedade em geral, e não pode ser resolvida a
curto e médio, mas, em longo prazo. Um problema que necessita de voluntários dispostos a
trabalhar arduamente em prol de espaços dialógicos e reflexivos onde a humanidade e a
solidariedade sejam o mote para o encontro entre educadores e educandos.

4. REFERÊNCIAS
CARVALHO, L. Lei 10.639/03 e o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana.
Disponível em: <http://educador.brasilescola.com/estrategias-ensino/lei-10639-03-ensino-
historia-cultura-afro-brasileira-africana.htm>. Acesso em 10 de Nov/2014.
OLIVEIRA, Dennis. Um breve balanço dos dez anos da lei 10.639/03. A cor da cultura.
Disponível em <http://www.acordacultura.org.br/artigos/29102013/um-breve-balanco-dos-
dez-anos-da-lei-1063903. Acesso em 11 nov.2014.
PEREIRA, Edmilson de Almeida. Malungos na escola: questões sobre cultura
afrodescendentes. São Paulo: Paulinas, 2007.
PETEAN, Antônio Carlos Lopes. O racismo e a lei 10.639/03.
Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade. Educação antirracista:
caminhos abertos pela Lei Federal n° 10.639/03, 2005.
MOURA, Glória. O respeito à diferença. In: MUNANGA, Kabengele (org.). Superando o
racismo na escola, 2ª edição, SECAD, 2008.
ECO, Umberto. Cinco escritos morais. Rio de Janeiro: Record, 1998.
ZIMMERMANN, Roque. Ensino religioso uma grande mudança. Brasília, Câmara dos
Deputados. Brasília, 1998.
História e cultura afro-brasileira e africana: educando para as relações étnico-raciais/ Paraná.
Secretaria de Estado da Educação. Superintendência da Educação. Departamento de Ensino
Fundamental. – Curitiba: SEED-PR, 2006. -110 p. (Cadernos Temáticos).
Brasil. Ministério da Educação. Secretaria Especial de Politicas de Promoção da Igualdade
Racial. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-raciais e para
o Ensino de Historia e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Brasília, 2004.
REIS, José Carlos. Anos 1930: Gilberto Freyre, o relógio da colonização portuguesa. As
identidades do Brasil: de Varnhagen a FHC. 9ª edição ampl. Rio de Janeiro. Editora FGV,
2007, p. 51-82.
CICONELLO, Alexandre. O desafio de eliminar o racismo no Brasil: a nova
institucionalidade no combate à desigualdade racial. Disponível
em<http://www.portaldoservidor.ba.gov.br/sites/default/files/Racismo%20%20texto%20do%
20Peck.pdf>. Acesso em 05 de Out. de 2015.
106

DESIGUALDADE SOCIAL E SAÚDE ENTRE IDOSOS BRASILEIROS: A


CONTRIBUIÇÃO DA FISIOTERAPIA PARA O BOM ESTADO DO INDIVÍDUO
LONGEVO.

Santos, Brenaráise Freitas Martins dos124, Silva, Vileno Santos da125, Maria Luzia Braga
Landim126

RESUMO

Um dos conceitos que determina as características para uma pessoa ser considerada idosa se
baseia no conjunto das dimensões físicas e biológicas, nas alterações que ocorrem no corpo,
nas formas de pensar, sentir e agir. Se o processo de envelhecimento for observado por outro
ângulo, a expectativa de vida tem ampliado os ditames da arte de envelhecer com qualidade
de vida e saúde, aumentando a sobrevida de setenta e oito anos em países desenvolvidos e
sessenta e oito nas regiões em desenvolvimento, portanto, aumentando significativamente.
Dessa forma, a ampliação do número de idosos no mundo e a preocupação com questões
pertinentes à qualidade de vida são importantes valorizar os parâmetros a serem alcançados
que estão além do controle de sintomas e redução da mortalidade. A abordagem do tema
justifica-se pela importância que tem a fisioterapia geriátrica como função essencial de
propiciar aos idosos a independência funcional como pressuposto de integração social. A
continuidade e realização de atividades que diminuam os riscos, alterações fisiológicas e
patológicas acentuadas pela redução da mobilidade nos circuitos de pró-atividade antes
frequentados, e modificados pelo estado físico do envelhecimento. Portanto, ao percebermos a
necessidade de aprofundar as causas e consequências do fenômeno da longevidade,
objetivamos analisar como a fisioterapia e as clínicas especializadas promovem acesso à
saúde e podem contribuir para a qualidade de vida dos idosos. A identificação das condições
de acesso aos sistemas de saúde, a prática de atividades físicas e de lazer e o acompanhamento
por profissionais habilitados são percursos que informarão a linha de pesquisa a ser seguida,
de forma que possamos informar aos idosos e aos familiares como colaboração parental
influencia no tratamento e bem-estar daqueles que vivem no tempo da sabedoria. A pesquisa
consiste em uma abordagem qualitativa a ser realizada na cidade de Jequié-Ba, com o intuito
de mapear o espaço social nos bairros afastados do centro da cidade propondo
acompanhamento e disseminação da informação a fim de minimizar as dificuldades existentes
para os idosos, proporcionando qualidade de vida.

Palavras-chave: Fisioterapia, Qualidade Vida, Idosos - Bahia.

124 Acadêmica V Semestre Curso de Fisioterapia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.


125 Acadêmico V Semestre Curso de Fisioterapia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.
126
Pós Doutora em História Política, Professora adjunta do Departamento de Ciências Humanas e Letras da Universidade
Estadual do Sudoeste da Bahia e Líder do Grupo de Pesquisa História, Sociedade e Etnociência, CNPq.
107

1.INTRODUÇÃO
Na sociedade contemporânea se observa que há um crescimento da população da
terceira idade, cada vez mais os idosos tem se preocupação com cuidados para o padrão do
aumento da expectativa de vida, ou seja, a ampliação da faixa etária dos cidadãos brasileiros.
Mas, a falta de recursos que disponibilizem as práticas para o condicionamento ideal e dessa
forma, a ampliação da expectativa e qualidade de vida é acessível aos idosos que possuem
poder aquisitivo compatível com o acesso às clinicas particulares de saúde.
Segundo pesquisa divulgada no dia internacional do idoso, o Brasil está em
quinquagésimo lugar numa lista de noventa e seis nações avaliadas, e o fato decorre da
precariedade dos fatores sócios demográficos, condições de saúde, capacidade funcional e
dinâmica familiares indevidamente assistidos.
De acordo com o PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) a
macrorregião do Nordeste compreende aproximadamente 10,5 % da proporção de idosos do
país, entretanto, envelhecer com qualidade ainda não está nas prioridades das organizações de
saúde da região, já que alguns programas relacionados à melhoria da qualidade de vida e
alternativas validades de intervenção na prática não funcionam1.
Em relação a esses aspectos é notório apresentarmos que a cidade de Jequié assim
como muitas cidades do Brasil, possui um sistema de Saúde fragilizado, onde os serviços de
saúde que são ofertados não contemplam toda a demanda da população. Com isso é fácil de
ser observada a superlotação dos estabelecimentos de saúde pública, especialmente do seu
principal hospital que atende não só a cidade como toda a região.
Um importante fator para a melhora na qualidade de vida dos idosos é a integração
destes com a família e seus cuidadores. Nesta idade, as pessoas encontram-se mais
fragilizadas e até mesmo sujeitas a doenças crônicas comuns a idade. É necessário que se
tenha este apoio, para que o idoso em tratamento tenha um bom rendimento e o saudável
mantenha esta condição.
Diante do que foi abordado, observamos que o atual cenário do processo de envelhecimento
tanto mundial como no Brasil, não é diferente da situação presente encontrada na cidade de
Jequié-Bahia, onde também notamos o crescimento do número de idosos da população que
necessitam de atendimentos especializados, visando principalmente à reabilitação funcional,
como também a prevenção e a promoção da saúde.127

127Pesquisanacional por amostra de domicílios, IBGE. Disponível


em:<http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/pesquisas/pesquisa_resultados.php?id_pesquisa=40>. Acesso em 15 de outubro
de 2015.
108

2. PROSPECTIVA DO ENVELHECIMENTO NO BRASIL

Em países desenvolvidos o envelhecimento tem crescido gradualmente por causa dos


padrões estipulados pelas nações e são considerados como fatores que influenciam as
condições de saúde, saneamento básico, alimentação, trabalho que os países passaram a
oferecer. No Brasil, as desigualdades sociais, acesso limitado à saúde, economia frágil, o
processo de envelhecimento é crescente. Para Pereira et al 128(2006), consideram que no Brasil
atual, os idosos representam cerca de 10% da população geral, e estimam para 2025, dezoito
milhões de longevos.
A população brasileira está envelhecendo a cada década, e a busca pelo
condicionamento físico também em larga escala a fim de que doenças crônicas sejam evitadas
ou prevenidas. As enfermidades ocorrem principalmente na faixa etária entre sessenta e
setenta anos. Segundo Campolina et. Al129 a limitação física tem sido o domínio que
compromete significativamente na vida dos idosos, e obtêm índices elevados de morbidades
influenciando outros vários domínios que prejudicam a qualidade de vida na terceira idade.
O envelhecimento humano tornou-se uma realidade inquestionável, nesse contexto é
necessário ter um olhar crítico no que diz respeito a essa transição demográfica e transição
epidemiológica, a qual traz uma mudança no perfil da morbimortalidade da população
Brasil130, já que o país está com o processo de envelhecimento acelerado o que acarreta numa
inversão da pirâmide etária.
Um fator importante a ser citado é que existem pontos positivos e negativos no assunto
sobre o processo de envelhecimento da população brasileira. Por conta desse aumento do
número de idosos, o Brasil precisa de políticas racionais para controlar domínios sociais, na
saúde, econômicos, etc. O ideal é fazer com que o lado positivo e crescente na população
idosa ocupe mais espaço nos artigos e prevaleça131.
Na cidade de Barreiras Bahia Brasil, considerado um dos maiores centros urbanos,
tecnológicos e econômicos, possui 6.695 habitantes com 60 anos ou mais de 129.501 da

128PEREIRA, R. J et al. Contribuição dos domínios físico, social, psicológico e ambiental para a qualidade de vida global de
idosos. Rev Psiquiatr RS jan/abr;28(1):27-38, 2006.
129 CAMPOLINA, G.C et al. Impacto da doença crônica na qualidade de vida de idosos da comunidade em São Paulo (SP,

Brasil). REV. Ciência e saúde coletiva. São Paulo/SP, 2009.


130PESQUISA NACIONAL POR AMOSTRA DE DOMICILIOS, IBGE, 2003. Disponível em:<
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/trabalhoerendimento/pnad2003/default.shtm>. Acesso em 15 de outubro
de 2015.
131GARRIDO, R; MENEZES, P.R. O Brasil está envelhecendo: boas e más notícias por uma perspectiva epidemiológica.

REV. Bras Psiquiatr.(Supl I):3-6. São Paulo/SP, 2002.


109

população total132. A sociedade necessita investir na população idosa para aumento na


expectativa de vida da população idosa, principalmente na saúde133.
Segundo Torres et al134, a expectativa de vida aumentou e espera-se viver além dos
sessenta anos, porém no Brasil, país subdesenvolvido, envelhecer e qualidade de vida não são
equivalentes concomitantemente. Para isso, torna-se necessário desconstruir a ideia de que o
idoso é sinônimo de dependência e se preocupar em preservar a saúde, a integridade,
cognitiva, bem-estar e a funcionalidade da população que está em processo de envelhecimento
e dos próprios idosos.
Avaliar a qualidade de vida dos idosos torna-se algo subjetivo, pois envolve questões
relacionadas à integridade física, relações sociais, estado psicológico, nível de independência,
as crenças pessoais e a relação com aspectos significativos do meio ambiente, deste modo são
necessário providências com alternativas válidas de intervenção, bem como, programas que
envolvam a melhoria na qualidade de vida dos idosos.
Não se pode deixar de ressaltar que é necessário para que o idoso tenha uma boa
qualidade de vida, que este possa se interagir socialmente. O apoio social de familiares e
amigos, até mesmo dos profissionais com os quais eles irão ter contato, é fundamental, até
para evitar a depressão, doença comum nesta faixa etária e que gera uma má qualidade de
vida135.
Segundo Schaffhausser e Castro136 (2005), o envelhecimento tem por natureza as
mudanças fisiológicas que comprometem órgãos e sistemas, com dano de suas funções. Nesse
contexto, fica evidente a importância da fisioterapia na atenção primária ao idoso, pois irá
preservar as suas funções motoras, prevenindo o alojamento de prováveis incapacidades,
próprias do processo de envelhecimento, e tratar as alterações e os sintomas já surgidos.
Ao caracterizar os riscos que levam a degradação da saúde do idoso, facilitará a
criação de um programa para a prevenção de doenças, e evitar a hospitalização. A
participação regular em exercícios, mantém a flexibilidade articular e a atividade motora
adequada, proporcionando ao idoso o envelhecimento saudável. Neste sentido a fisioterapia

132PESQUISA NACIONAL POR AMOSTRA DE DOMICILIOS, IBGE, 2008. Disponível em:<


http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/trabalhoerendimento/pnad2008/default.shtm>.Acesso de 18/10/ 2015.
133JOIA, L.C. Qualidade de vida dos idosos no município de Barreiras. REV. Bras Med Fam e Com. Barreiras/BA, 2009.
134TORRES, G; REIS, L. A; REIS, L. A; FERNANDES, M. Qualidade de vida e fatores associados em idosos dependentes

em uma cidade do interior do Nordeste. Jornal . Bras Psiquiatr. vol.58. Rio de Janeiro/ RJ. 2009.
135CARNEIRO, R.S et al. Qualidade de Vida, Apoio Social e Depressão em Idosos: Relação com Habilidades Sociais. REV.

Psicologia: Reflexão e Crítica, 20 (2), 229-237. Niterói/RJ, 2006.


136SCHAFFHAUSSER, L.A; CASTRO, A. V. Saúde Geriátrica. 2005.
110

tem um papel importante, pois contribuirá ativamente na elaboração desse plano de prevenção
e promoção da saúde137.

3. CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES
É importante salientar que as enfermidades vão influenciar diretamente na autonomia
e independência dos idosos, tais doenças vão gerar incapacidades comprometendo a
funcionalidade dos mesmos, a palavra incapacidade funcional pose ser definida como as
dificuldades que as pessoas tenham para realizar atividades diárias ou até mesmo deixar de
executa-las138.
No ano de 2005, Ferreira et.al.139 concluíram que a colaboração da fisioterapia
contribui de forma eficaz, ajudando aos idosos no desenvolvimento de atividades da vida
diária de forma independente, promovendo qualidade de vida e diminuindo o risco de mais
complicações. Nesse sentido também é importante à implantação de outras profissões de
saúde para que assim o objetivo principal seja alcançado, minimizando os casos de morbidade
e mortalidade da população.
O campo da fisioterapia domiciliar tem sido de importância relevante para a atenção à
saúde do idoso, porque essa modalidade da fisioterapia permite que o profissional promova a
educação em saúde para os cuidadores de idosos. Dessa forma os próprios cuidadores
apreendem os cuidados que devem ser realizados no ambiente familiar contribuindo e dando
continuidade ao tratamento na ausência do fisioterapeuta140.

4. REFERÊNCIAS

ALMEIDA, L.G.D., et al. Promover a vida: uma modalidade da fisioterapia no cuidado à


saúde de idosos na família e na comunidade. REV.Saúde.Com; 2(1): 50-58, 2006.
CAMPOLINA, G.C et al. Impacto da doença crônica na qualidade de vida de idosos da
comunidade em São Paulo (SP, Brasil). REV. Ciência e saúde coletiva. São Paulo/SP, 2009.

137 GONTIJO R.W; LEÃO M. R. C. Eficácia de um programa de fisioterapia preventiva para idosos. REV. Med Minas
Gerais; 23(2): 173-180,2013.
138REIS, L.A., et al. Estudo das condições de saúde de idosos em tratamento no setor de neurogeriatria da clínica escola de

fisioterapia da universidade estadual do sudoeste da bahia. REV. Baiana de Saúde Pública, v.31, n.2, p.322-330,2007.
139FERREIRA F.N., et al. Intervenção fisioterapêutica na comunidade: relato de Caso de uma paciente com ave.

REV.Saúde.Com; 1(1): 35-43, 2005.


140
ALMEIDA, L.G.D., et al. Promover a vida: uma modalidade da fisioterapia no cuidado à saúde de idosos na família e na comunidade.
REV.Saúde.Com; 2(1): 50-58, 2006.
111

CARNEIRO, R.S et al. Qualidade de Vida, Apoio Social e Depressão em Idosos: Relação
com Habilidades Sociais. REV. Psicologia: Reflexão e Crítica, 20 (2), 229-237. Niterói/RJ,
2006.
FERREIRA F.N., et al. Intervenção fisioterapêutica na comunidade: relato de Caso de uma
paciente com ave. REV.Saúde.Com; 1(1): 35-43, 2005.
GARRIDO, R; MENEZES, P.R. O Brasil está envelhecendo: boas e más notícias por uma
perspectiva epidemiológica. REV. Brasileira Psiquiatria.(Supl. I):3-6. São Paulo/SP, 2002.
GONTIJO R.W; LEÃO M. R. C. Eficácia de um programa de fisioterapia preventiva para
idosos. REV. Med Minas Gerais; 23(2): 173-180,2013.
JOIA, L.C. Qualidade de vida dos idosos no município de Barreiras. REV. Bras Med Fam e
Com. Barreiras/BA, 2009.
PEREIRA, R. J et al. Contribuição dos domínios físico, social, psicológico e ambiental para a
qualidade de vida global de idosos. Rev Psiquiatr RS jan/abr;28(1):27-38, 2006.
PEREIRA, R.J et al. Contribuição dos domínios físico, social, psicológico e ambiental para a
qualidade de vida global de idosos. REV. Psiquiatr. RS. Teixeiras/MG, 2006.
PESQUISA NACIONAL POR AMOSTRA DE DOMICILIOS, IBGE. Disponível
em:<http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/pesquisas/pesquisa_resultados.php?id_pesquisa
=40>. Acesso em 15 de outubro de 2015.
REIS, L.A., et al. Estudo das condições de saúde de idosos em tratamento no setor de
neurogeriatria da clínica escola de fisioterapia da universidade estadual do sudoeste da bahia.
REV. Baiana de Saúde Pública, v.31, n.2, p.322-330,2007.
TORRES, G; REIS, L. A; REIS, L. A; FERNANDES, M. Qualidade de vida e fatores
associados em idosos dependentes em uma cidade do interior do Nordeste. Jornal Brasileiro
Psiquiatria. Vol-58. Rio de Janeiro/ RJ. 2009.
112

GRUPO DE PESQUISA HISTÓRIA, SOCIEDADE E

ETNOCIÊNCIA – CNPq.

UNIVERSIDADE ESTADUAL DO SUDOESTE DA BAHIA

SALA CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO E INFORMAÇÃO CAMPUS DE JEQUIÉ.

Anexo à Biblioteca Jorge Amado

Tel: 73 – 35289684
113

Artigos

MELHORAMENTO GENÉTICO PARTICIPATIVO: A UNIÃO ENTRE


AGRICULTORES TRADICIONAIS E MELHORISTAS VEGETAIS COMO
PONTE ENTRE O SABER POPULAR E O CONHECIMENTO CIENTÍFICO. 8
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REFLEXÕES SOBRE CULTURA, CRENÇA E CIÊNCIA. 31


Profa. Dra. Maria Luzia Braga Landim e Prof. Dr.Tiago Landim d´Avila.

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LONGEVO. 106

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