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PENNA, Maura; ALVES, Erinaldo.

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caracterizam, social e culturalmente, essa manifestação.A música A música como cultura e suas inter-relações sociais
transcende os aspectos estruturais e estéticos se configurando como A música, importante meio de expressão e de comunica-
um sistema estabelecido a partir do que a própria sociedade que a ção humanas, destaca-se como fator determinante para a constitui-
realiza elege como essencial e significativo para o seu uso e a sua ção de singularidades que dão forma e sentido a práticas culturais
função no contexto que ocupa. dos mais variados contextos. As performances musicais, em suas
Essa perspectiva tem conduzido importantes reflexões no múltiplas expressões, representam fenômenos significativos nas
campo da educação musical, levando-nos a compreender que um configurações de distintos grupos e/ou contextos étnicos, estando
ensino significativo de música deve entender esse fenômeno não só presente em manifestações diversas dos indivíduos em sua vida
como expressão artística, mas, principalmente, como manifesta- cotidiana.
ção representativa de sistemas culturais determinantes do que o Compreender a cultura, como aspecto fundamental para o
homem percebe, pensa, gosta, ouve, sente e faz. entendimento do próprio homem, tem sido nos últimos dois séculos
A educação musical tem passado por momentos de um dos principais anseios dos antropólogos e de estudiosos de di-
(re)definição, compreendendo a necessidade de incorporar às suas versos campos do conhecimento que buscam entender o ser humano
propostas e ações pedagógicas dimensões dinâmicas de um fazer em suas diversificadas relações sociais. Segundo autores que vêm se
musical que possa conviver de forma inter-relacionada com a pro- dedicando à análise e compreensão dessa temática, a busca de uma
dução da música enquanto expressão artística e cultural nas suas definição do termo cultura vem desde Tylor (1832-1917), que a ca-
diferenciadas expressões e manifestações. Essa atitude nos tem con- racterizou como um todo complexo que inclui conhecimentos, cren-
duzido a caminhos diversificados de práticas educativas estruturadas ças, artes, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade e há-
a partir de propostas que pensam o fenômeno musical e os espaços bitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade
e contextos de atuação do professor de música como mundos em (LANGNESS, 1987; LARAYA, 2002; MELLO, 2001). O conceito
constante processo de (re)construção e (re)elaboração. sofreu, e vem sofrendo, ao longo do tempo, diferentes conotações
Neste estudo, analisamos o papel da música como cultura adaptadas às distintas correntes antropológicas que foram se consti-
refletindo sobre a importância dessa concepção para definições tuindo no decorrer da história, demonstrando a problemática que
metodológicas no campo da educação musical na atualidade. Com ainda permeia os estudos que lidam diretamente com abordagens
base num estudo bibliográfico que explora a música e suas dimen- culturais.
sões performáticas, como expressão cultural diversificada e inter- Pensando numa definição mínima de cultura como con-
relacionada às particularidades de cada sociedade, refletimos so- ceitos e comportamentos aprendidos, e entendendo-a como um sis-
bre perspectivas relevantes para a concepção e a elaboração de tema comum a determinado grupo e/ou contexto, é possível afir -
processos de ensino e aprendizagem da música que nos leve a ações mar que ela é fator determinante para a caracterização de todo
educativas abrangentes e contextualizadas com a complexidade e a processo que envolva relações sociais, dentre os quais os proces-
variedade do fenômeno musical. sos de ensino, aprendizagem, configuração e consolidação da mú-

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sica. Na definição de Geertz (1989, p. 15), a cultura é uma “teia de do que não se tem registro de qualquer grupo humano que não
significados” tecida pelo homem a partir de suas “interações soci- realize experiências musicais como meio de transmissão, expres-
ais”, configurando fenômenos que se estabelecem pelas escolhas são e representação de aspectos simbólicos característicos de sua
dos humanos, realizadas com base nos significados que eles própri- cultura (NETTL, 1983). No entanto, o fato de ser utilizada univer-
os determinam ao lidarem com a natureza, com o meio social e salmente não faz da prática musical uma “linguagem universal”,
consigo mesmo (GEERTZ, 1989; NETTL, 1983). tendo em vista que cada cultura tem formas particulares de elabo-
A música como fenômeno cultural constitui uma das mais rar, transmitir e compreender a sua própria música,
ricas e significativas expressões do homem, sendo produto das (des)organizando, idiossincraticamente, os aspectos que a consti-
vivências, das crenças, dos valores e dos significados que tuem (QUEIROZ, 2004, p. 101).
permeiam sua vida.A etnomusicologia tem ampliado as perspec- Dessa forma, a música como cultura cria mundos diver-
tivas do estudo da música, apontando para a necessidade de com- sificados, mundos musicais que se estabelecem não como univer -
preendermos essa expressão na cultura e, também, como cultura sos e territórios diferenciados pelas linhas geográficas, mas como
(MERRIAM, 1964). mundos distintos dentro de um mesmo território, de uma mesma
Na concepção de John Blacking “fazer música é um tipo sociedade e/ou até dentro de um mesmo grupo. Compartilhando
especial de ação social que pode ter conseqüências importantes do pensamento de Finnegan entendemos os vários universos da
para outros tipos de ações sociais” (BLACKING, 1995b, p. 223, música como:
tradução nossa). Essa ótica deixa evidente que uma prática mu- [mundos] distintos não apenas por seus estilos diferen-
sical tem, em sua constituição, aspectos que transcendem a mú- tes, mas também por outras convenções sociais: as pes-
sica em suas dimensões estruturais, fazendo dela, sobretudo, um soas que tomam parte deles, seus valores, suas compre-
corpo sonoro que congrega aspectos compartilhados pelos seus ensões e práticas compartilhadas, modos de produção e
praticantes nas distintas experiências culturais que compartilham distribuição, e a or ganização social de suas atividades
em seus sistemas sociais. A forte e determinante relação com a musicais (FINNEGAN, 1989, p. 31, tradução nossa).
cultura estabelece para a música, dentro de cada contexto que Inter-relacionada à sociedade e, conseqüentemente, às
ela ocupa, um importante espaço com características simbólicas, escalas de valores e significados por ela estabelecidas, a música
usos e funções que a particularizam de acordo com as incorpora, não só nos seus usos e funções, mas também em suas
especificidades do universo sociocultural que a rodeia dimensões estéticas e estruturais, especificidades do contexto so-
(BLACKING, 1995a; HOOD, 1971; NETTL, 1983; 1997; cial que a produz. De acordo com Merriam, os sistemas musicais
MERRIAM, 1964; MYERS, 1992). estão baseados “numa série de conceitos que integram a música às
A amplitude de manifestações musicais, que diversificam atividades da sociedade como um todo, definindo-a e colocando-a
as formas de caracterização dessa “arte”, faz com que a música como um fenômeno da vida entre outros fenômenos” (MERRIAM,
possa ser considerada veículo universal de comunicação, no senti- 1964, p. 63, tradução nossa).
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A configuração social e os valores estabelecidos pela so- do em vista que cada meio determina aquilo que é ou não impor-
ciedade criam para as expressões musicais bases importantes que tante e o que pode ou não ser entendido e aceito como música.
vão determinar os seus espaços e a suas inserções em situações Esse fato atribui importância fundamental ao universo sobre o qual
específicas da vida social. Para John Blacking: se caracteriza uma expressão musical, considerando que o fenô-
meno sonoro só se tornará musica se o contexto que o pratica
As funções da música na sociedade podem ser fatores
decisivos para promover ou inibir habilidades musicais aceitá-lo como tal (MERRIAM, 1964, p. 66).
latentes, bem como afetar as escolhas de conceitos cul- Dessa forma, fica evidente que a música como cultura é
turais e materiais com os quais se cria música definida a partir de suas inter -relações sociais, sendo também
(BLACKING, 1995a, p. 35, tradução nossa). definidora de aspectos importantes para a caracterização identitária
Ainda segundo o autor, o contexto social é gerador de de uma determinada sociedade. Um estudo significativo da música
aspectos motivadores para a experiência musical, sendo uma ca- como fenômeno sociocultural precisa considerar essa expressão
racterística intrínseca à música dentro do seu sistema cultural. como algo temporal e espacialmente estabelecido, que assume es-
Blacking acredita que “[...] o interesse das pessoas podem estar calas de valores variáveis de acordo com a época, o pensamento e
mais nas atividades sociais associadas à música do que nela em si a visão da sociedade e do meio cultural que a constitui.
mesma.” O autor enfatiza, também, que “[...] habilidades musi-
Dimensões socioculturais da performance musical e suas
cais nunca podem ser desenvolvidas sem alguma motivação
implicações no ensino e aprendizagem da música
extramusical” (BLACKING, 1995a, p. 43, tradução nossa).
Essa visão demonstra a necessidade de incorporarmos às Toda atividade de ensino da música requer o desenvolvi-
praticas educativas da música sentidos que inter-relacionam o fa- mento de práticas que devem se caracterizar como expressões
zer musical a aspectos mais abrangentes da cultura dos alunos, musicais significativas e não simplesmente como um conjunto de
fazendo das atividades educativo-musicais algo relevante e signifi- exercícios para a assimilação de aspectos técnicos e estruturais.
cativo socialmente. Assim, estaremos fugindo da cultura musical Entendemos então que para estabelecermos propostas de ensino e
frágil e superficial consolidada, muitas vezes, dentro das aulas de aprendizagem que possam não só desenvolver habilidades, mas,
música em instituições formalizadas. Cultura que cria “musiqui- sobretudo, concretizar um ensino musical da música, precisamos
nhas” e “brincadeirinhas musicais” sem qualquer significado real caracterizar performances que tenham sentido, significado e ex-
para os seus praticantes, gerando, conseqüentemente, desinteresse pressão, pensadas como produtos oriundos de experiências reais
e descaso dessas pessoas para com as aulas de música. de vivência da música, que possam estabelecer processos significa-
Pensar a música como expressão humana contextualizada tivos e fundamentais para a educação musical.
social e culturalmente é fator fundamental para estabelecermos ações Necessitamos encontrar alternativas para um ensino que
educativas que possam ter conseqüências relevantes na sociedade utilize tanto construções performáticas estabelecidas para fins didá-
e na vida das pessoas que constituem o universo educacional, ten- ticos, quanto manifestações de performance concretizadas como fe-

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nômenos culturais, entendendo que a inter-relação entre essas duas seqüentemente, à sua cultura. Essa idéia não concebe a educação
vertentes cria experiências educativo-musicais de intrínseco valor musical como simples processo de perpetuação de valores cultu-
para a assimilação e a vivência da música enquanto expressão artís- rais de uma sociedade, mas sim a estabelece como alternativa de
tica, social e cultural. (re)conhecimento, (re)integração, e transformação dos materiais,
Manifestações diversas estabelecidas pelas diferenciadas das formas estético-estruturais e dos valores que caracterizam a
experiências humanas configuram práticas que reúnem, em deter- prática musical como expressão representativa da vida humana.
minados eventos, estruturas e significados que constituem fenô- Para Victor Turner (1988, p. 21) o gênero performático “reflete”
menos representativos da expressão do homem em seu meio ou “expressa” o sistema social ou a configuração cultural, fazendo
sociocultural, conforme discutido anteriormente. O termo da performance, freqüentemente, uma crítica direta ou indireta à
performance, usado num sentido amplo, como perspectiva para os vida social, em sua origem e evolução.
estudos culturais, designa uma prática cultural constituída por um Na mesma direção das múltiplas facetas performáticas que
conjunto de elementos (simbólicos e estruturais) que dão forma e se estabelecem socialmente, a música é praticada e vivenciada pe-
sentido à sua existência. los seus executantes e ouvintes como um sistema cultural que ab-
A performance é, então, um intensificado e estilizado sorve, assimila e se adéqua às convenções sociais dos distintos meios
sistema comportamental que reúne em uma manifestação aspec- em que é realizada, desde os informais até os mais formalizados.
tos relacionados e determinados pelo tempo, ocasião, lugares e Dunsby (2003) afirma que a performance musical é uma
padrões de expectativa, diretamente associados ao universo so- propriedade pública, no sentido de que todo e qualquer grupo so-
cial em que esse fenômeno ocorre (ABRAHAMS, 1975, p. 25). cial pode participar em situações performático-musicais variadas,
Numa visão abrangente do conceito, Messner (1992, p. 15; 1993, atribuindo-lhes características e adaptações (estruturais e sociais)
p. 82-88) acredita que toda atividade humana concebida social- idiossincráticas.
mente torna-se performática, no sentido que o homem atribui, a Assim, todo individuo pratica, vive e percebe música de
cada situação vivida por ele, características e funções específi- alguma forma. Quando pensamos no ensino formal precisamos re-
cas, exigindo dos indivíduos comportamentos adequados à oca- conhecer as diferentes vivências musicais como algo relevante para
sião, ao momento e ao lugar. Considerada fenômeno sociocultural, a experiência educativa que se concretizará dentro do processo de
a performance pode ser entendida como um modo de expressão e educação musical. É preciso compreender que não só o domínio
comunicação que faz de um evento social um veículo carregado de habilidades especificas, facilmente desenvolvidas por um pro-
de sentidos e de estruturas determinantes de situações diferenci- fessor experiente de música, são aspectos importantes para a apren-
adas das experiências e vivências cotidianas da sociedade. dizagem, mas também outros fatores que fazem da experiência mu-
Assim deve ser a experiência musical numa prática sical algo de intrínseco valor para quem a vive.
educativa. Uma experiência que seja concebida como resultado da De acordo com S tillman (1996, p. 6), um estudo que
assimilação de aspectos relacionados à vida do individuo e, con- busca ter uma visão ampla da música não pode abranger somente
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aspectos estruturais como afinação, ritmo, melodia e etc. é preci- comunidade para um contexto ou ocasião específicos
so considerar também a relação desses elementos com dimensões (BÉHAGUE, 1984, p. 7).
conceituais, comportamentais, emotivas e cognitivas do individuo. Essas concepções nos fazem entender a performance
Essa idéia evidencia a necessidade de entender o fenômeno a par - musical como um acontecimento que reúne na música característi-
tir de uma perspectiva mais acurada dos diversos fatores que in- cas múltiplas da cultura, inserindo esse fenômeno em um contexto
serem a produção e a vivência musical num contexto amplo da específico (temporal e espacial) e atribuindo a ele dimensões sim-
cultura. bólicas que se juntam aos materiais e às estruturas formais consti-
A ótica da etnomusicologia sobre os estudos musicais tem tuindo, assim, as bases seu do produto final.
contribuído significativamente para ampliar às nossas visões acer- Para a educação musical considerar a performance como
ca da música e da sua relação com o homem. A educação musical processo é fundamental, pois nos caminhos de construção de uma
tem se beneficiado das perspectivas etnomusicológicas enrique- prática se estabelecem momentos e vivências que dão forma a situ-
cendo e ampliando às suas abordagens educacionais e compreen- ações específicas de aprendizagem. Como evento, a performance
dendo aspectos importantes da música enquanto expressão social. torna-se algo significativo, inserindo o aprender musical numa ex-
Tal fato tem trazido novos (re)direcionamentos para o ensino mu- periência real de vida.
sical levando-nos a compreender as práticas da música como ma-
nifestações complexas de saberes que transcendem a estética es- Perspectivas para uma educação musical abrangente
trutural e o desenvolvimento de habilidades para a execução. A partir das questões apresentadas anteriormente, fica
A compreensão da performance musical, segundo Béhague evidente que nas múltiplas dimensões da transmissão musical, con-
(1984, p. 4), ganhou a partir da década de 1970 perspectivas mais solidadas e vividas socialmente e culturalmente, a música enquan-
abrangentes, sendo entendida não só como evento e/ou produto, to expressão humana é integrada a um sistema maior de valores
mas também como processo. Processo que reúne aspectos musi- que a torna contextualizada com o universo dos seus praticantes.
cais e extramusicais, dando ao ato de fazer música um sentido que Esse princípio é importante referência para pensarmos na educa-
transcende a atividade musical restrita às suas estruturas formais. ção musical praticada e sistematizada em instituições que se dedi-
Nas palavras de Béhague: cam ao ensino e aprendizagem da música.
“Deselitizar” concepções, espaços, repertórios, deman-
O estudo da performance musical como um evento,
como um processo e como o resultado ou produto das
das e experiências acerca do ensino musical é na atualidade nosso
práticas de performance, deveria se concentrar no com- maior desafio. Desafio que precisa ser vencido para que possamos
portamento musical e extramusical dos participantes ir ao encontro do que se espera de uma educação que lide com a
(executantes e ouvintes), na interação social resultante, diferença e com a inclusão social.
no significado desta interação para os participantes, e Entendemos que para concretizar ações educativas
nas regras ou códigos de performance definidos pela abrangentes que contemplem a música em suas distintas facetas
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estéticas, sociais, psicológicas e culturais é precisoconquistar mais amplo, mas principalmente como perspectiva que traz no seu
que uma inclusão de repertórios e de atividades relacionadas à di- âmago a idéia de utilizar esses aspectos como ponto de partida
versidade musical. Precisamos buscar de fato uma mudança antro- para algo concebido como uma “formação musical adequada ”.
pológica em nossas instituições. Mudança essa que traga novos Uma formação pensada, na maioria das vezes, de forma restritiva,
valores, novos significados e novas atitudes para os profissionais objetivando o desenvolvimento e o conhecimento de uma única
que definem e atuam no ensino da música formalizado. vertente da música. Essa perspectiva tende a conduzir a prática
Mais que uma perspectiva teórica, essa visão deve nos de ensino a direções que buscam a capacitação de pessoas com
levar a uma (re)definição de princípios e ações que possam condu- competências únicas e específicas, eleitas como essenciais para
zir a educação musical a caminhos democráticos que dêem a essa todo processo de aprendizagem. Propostas que enfatizam essa
área a dimensão social, cultural e humana que ela necessita. idéia levam, mais uma vez, ao erro de considerar o fenômeno
Em qualquer processo educativo-musical é preciso ex- musical, com toda a sua complexidade e variedade, como uma
pandir os conhecimentos do alunado, mas fundamentalmente é linguagem universal.
necessário reconhecer as suas vivências, os seus anseios e as suas A inserção da música popular, ou de práticas musicais que
(inter)relações com a música.Assim, poderemos pensar num en- têm como base expressões musicais de tradição oral, em grande
sino da música de forma democrática e inclusiva, que respeita a parte das propostas que temos assistido nos sistemas de ensino
diferença não para utilizá-la como base para a formação de iguais, institucionalizados se dão por processos semelhantes aos de trans-
mas principalmente para, através dela, construir saberes missão da música “erudita”. Assim, mascaram-se músicas que exi-
contextualizados com o universo particular de cada indivíduo e gem entendimentos, percepções, referenciais de interpretação e
de cada grupo social. assimilação, e técnicas de execução diferenciadas, com um padrão
O reconhecimento da diversidade nos fez perceber que único de competências e habilidades. Precisamos evidenciar na
não existe uma única música e/ou sistema musical, e que, portan- educação musical que, de fato, o que importa não é o transplante
to, não podemos ter uma educação musical restritiva e unilateral. musical de estruturas desprovidas de significados, mas sim uma
Ao longo desses últimos anos temos assistido um avanço educa- verdadeira contextualização das propostas de ensino com músicas
cional em diferentes níveis, valendo destacar a incorporação de diversificadas, em que sejam considerados os valores e as relações
elementos populares aos processos e conteúdos sistematizados mais amplas de cada manifestação, inserindo a prática
de ensino. educativo-musical no universo global das diferenciadas realidades.
No entanto, ainda prevalece a idéia de utilizarmos mani- Propostas como esta não objetivam restringir o universo
festações da cultura popular no ensino da música, de considera- do aluno unicamente ao conhecimento e aprimoramento de
mos o contexto cultural do aluno e de valorizarmos as músicas especificidades musicais do seu cotidiano e do seu contexto cultu-
do seu cotidiano, dentre outras diretrizes que apontam nessa di- ral. Dessa forma, estaríamos dando com uma mão e tirando com a
reção, não como alternativas para o desenvolvimento musical outra. O que é necessário é pensar numa educação musical
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abrangente que reconheça e desenvolva diferentes competências, mas, principalmente, nas propostas e ações educativas que promo-
não entendendo e concretizando a idéia de que uma é melhor que vemos nos variados contextos de ensino e aprendizagem da músi-
outra, mas sim enfatizando as suas dimensões distintas e variadas. ca neste país.
Nessa concepção, a seleção de conteúdos e de competên-
cias no ensino da música deve seguir padrões mais amplos, onde se
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valorize músicas de diferentes contextos, usos e funções, e fazeres
musicais distintos que têm e exigem capacidades e formações esté- ABRAHAMS, Roger D. The theoretical boundaries of
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para a educação musical. Direcionamentos que nos levam a cami- Blacking. London: The University of Chicago Press, 1995b. p.
nhos mais abrangentes, que reconhecem a inexistência de uma úni- 223-242.
ca música e valorizam as distintas e variadas manifestações musi-
cais. A multiplicidades das performances implicam também na di- DUNSBY, Jonathan. Performance. In: MACY, L. (Ed.). The new
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