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ESCOLA DA CIDADE

ARQUITETURA E URBANISMO
HISTÓRIA DA TÉCNICA E CRÍTICA DA ARQUITETURA E DO PAISAGISMO VI

PEDRO FERIS ARAUJO

Em meio a névoa

São Paulo
2017
As fronteiras conceituais e historiográficas que esboçavam limites entre
arquitetura e arte contemporânea se diluíram gradativamente nos últimos anos,
estreitando questões disciplinares e lidando com uma compreensão e debate
relativos a um mundo contemporâneo muito mais intenso.

O enfrentamento a novos parâmetros sociais, tecnológicos e midiático,


cada vez mais complexo, indicam o ponto de convergência nas dinâmicas de
interação entre a arte e a arquitetura, como meios de manifestação, passam a
incorporar essas temáticas nos trabalhos e a compartilhar campos de
discussão comuns.

Esses momentos de intersecções cada vez mais recorrentes tem sido


denominado “campo ampliado”, conceito apresentado pela primeira vez por
Rosalind Krauss no ensaio “Sculpture in the expandede field” que busca rever
os limites do entendimento sobre a escultura, argumentando uma subjetividade
disposta nesse novo conceito de trabalho que se materializa como um plano
neutro que incorpora, através da negação de conceitos arraigados a elas, a
paisagem e a arquitetura, a um só tempo, como espaço de discussão.

Com isso, apresenta-se um novo conjunto de possibilidades ao


compreender o espaço como campo discursivo e propositivo deslocando-se,
para o âmbito da arquitetura, tida como meio e suporte que impulsionou
reciprocamente questões trazidas pelos campos de outros meios de expressão.

Exemplo disso, o relato do escultor Richard Serra, tido por alguns


críticos como o maior artista contemporâneo do século XXI, revela essa relação
de estreitamento entre os avanços no campo da arquitetura – formais,
tecnológicos e propositivos – em relação as pretensões do que se pensava no
campo da escultura:

“Os modelos nos quais eu me inspirei para entender a exploração do aço como
material de construção foram Eiffel, Roebling, Maillart, Mies van der Rohe.
Desde que eu decidi construir com o aço se tornou necessário saber quem
lidou com esse material da forma mais significativa, mais inventiva e mais
econômica” (RICHARD SERRA, In. Forster, p162)

Somado a essa condição, a virada do milênio é marcada por um


momento em que a arquitetura retoma o destaque no cenário midiático
internacional, com a presença de edifícios espetaculares que apresentam
novos vetores no que diz respeito a discussão formal e produção arquitetônica,
amparados pela ascensão de uma economia que compreende o estreitamento
entre arte e arquitetura como um marco atrativo para dar uma marca distintiva
as cidades ou atrair negócios.

Com isso, a retomada dos pavilhões como meio de divulgação, com


forte expressão midiática, representa uma afirmação na poética arquitetônica
como prática central no projeto.

“Do ponto de vista das artes o pavilhão representa uma expansão da instalação
para um todo espacial que passa a envolver também o edifício e, quando
tomado como meta arquitetura, opera também como plataforma de
afrontamento crítico.” (TONETTI, 2013)

Ao considerar o protagonismo centrado na expressão dos edifícios


enquanto forma, fenômeno, experiência ou crítica, permite com que o pavilhão
enquanto programa possua uma lógica própria, capaz de apresentar conceitos
que tencionam os limites disciplinares.

Partindo do entendimento de que um exemplo é efetivamente potente no


momento em que consegue entrelaçar regra e caso, o Blur Building, do
escritório Diller + Scofidio & Renfro, corresponde de maneira singular aos
princípios do campo ampliado na arquitetura.

Trata-se de um pavilhão construído sobre a paisagem do Lago Neuchatel,


Suiça, para a Expo Suiça 2002. O edifício se estrutura através de uma trama de
estrutura metálica vazada, acessível apenas por uma extensa passarela, que
estabelece a comunicação entre a experiência deste espaço e o contexto em
que ele se insere.

Figura 1

Diller Scofidio + Renfro. Blur Building, 2002.


(Lago Neuchatel, Yverdon-les-Bains, Suiça)

Marcado pela interdisciplinaridade, o escritório norte americano Diller +


Scoffidio atua desde a década de 80 com trabalhos que funde arquitetura com
artes visuais e cênicas, abordando de maneira singular e, ora interseccionada,
diversas frentes propositivas dentro destes campos de atuação.

A intenção deste projeto nasce sob o propósito de tencionar as


convenções de espaço e sensação física nos levando a questionar nossa
dependência da visão e a exigência em corresponder a um programa funcional
através do edifício, que, neste caso, se situa como elemento mediador entre
uma experiência sensorial do espaço e o uso racional das tecnologias
emergentes como aparato técnico, pragmático.

Além disso, há uma busca por uma arquitetura que beira o imaginável –
chamado de “arquitetura da atmosfera” pela arquiteta Elizabeth Diller – que não
tem paredes, tetos ou objetos que intercedam nossas relações. A massa de
água é usada não apenas como contexto, mas, sobretudo, como material
primária que intercede a experiência.

Figuras 2 e 3

Diller Scofidio + Renfro. Blur Building, 2002.


(Lago Neuchatel, Yverdon-les-Bains, Suiça)

O pavilhão contém ainda uma série de pulverizadores controlados por


computador, dispostos ao longo de sua estrutura, que borrifam água do lago de
modo a criar uma nuvem que envolve permanentemente o edifício e apresenta
variações de tamanho e densidade de acordo com as mudanças climáticas do
entorno. Dessa forma, esse efeito estético e sensorial, percorre a apreensão do
edifício, apresentando-o como algo indefinido e difuso.

Trata-se de uma proposta que apresenta uma série de particularidades e


resiste a definições, colocando-se em meio ao campo ampliado onde seus
próprios autores o definem não como um edifício, mas sim como uma
“atmosfera”. De maneira efêmera, ao ofuscar a nitidez evidente e redundante em
toda sociedade, como bem definiu Wisnik sobre este edifício, este exemplo
revela de maneira crítica e análoga aspectos de uma sociedade cada vez mais
difusa e sublime:

“Dentro do nevoeiro nós não estamos mortos. Estamos, talvez, com um misto
de temor e encantamento, tateando caminhos incertos através de outros
sentidos que não a visão, já muito comprometida pela nitidez excessiva que,
paradoxalmente, caracteriza o mundo atual. A propósito, e não é exatamente a
nebulosidade – na mão contrária da nitidez atual – a característica
determinante da paisagem moderna desde o Impressionismo, consumando a
vitória do sfumato sobre a perspectiva?” (WISNIK, 2012)

Figuras 4 e 5

Diller Scofidio + Renfro. Blur Building, 2002.


(Lago Neuchatel, Yverdon-les-Bains, Suiça)
BIBLIOGRAFIA SELECIONADA

EISENMAN, Peter. O pensamento de Heidegger sobre arquitetura. In.:


NESBITT, Kate. (Org.). Uma nova agenda para arquitetura. São Paulo: Cosac
Naify, 2006, p.600-607

_________ O Pós-Funcionalismo. In.: NESBITT, Kate. (Org.). Uma nova


agenda para arquitetura. São Paulo: Cosac Naify, 2006, p.97-101.

FOSTER, Hal. O complexo arte-arquitetura. São Paulo: Cosac Naify, 2015.

KRAUSS, Rosalind, Sculpture in the expanded Field. In: October, vol. 8, Spring,
1979, p.30-44

TONETTI, Ana Carolina. Interseções entre arte e arquitetura. O caso dos


pavilhões. 2013. Dissertação (Mestrado em Projeto, Espaço e Cultura) -
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo,
2013.

TSCHUMI, Bernard. O prazer na arquitetura. In.: NESBITT, Kate. (Org.). Uma


nova agenda para arquitetura. São Paulo: Cosac Naify, 2006, p.573-584.

WISNIK, Guilherme. Dentro do nevoeiro: diálogos cruzados entre arte e


arquitetura contemporânea. 2012. Tese (Doutorado em História e Fundamentos
da Arquitetura e do Urbanismo) - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo,
Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012.