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INTRODUÇÃO

2 O QUE É CIÊNCIA?

Se analisarmos o aspecto etimológico da palavra ciência (scire) seu significado

representa saber/conhecer. Porém, a ciência pode ser considerada sob três aspectos:

“[...] conhecimento ou sistema de enunciados provisoriamente estabelecidos – recebe

o nome de conhecimento científico; como busca da verdade e produtora de ideias

– é a investigação científica; como produtora de bens materiais – é a tecnologia.”

Observamos que esses aspectos estão intimamente ligados e denotam um sentido

amplo de ciência (BARROS; LEHFELD, 2000, p. 47).

Sob uma perspectiva sociológica, a ciência é considerada uma atividade social

desenvolvida por grupos de indivíduos e instituições. Cada grupo, especializado em

determinado campo de conhecimento, estipula seus objetos de estudo/metodologias

e adota teorias e terminologias próprias. Os indivíduos participantes desse processo

Métodos e Técnicas de
Pesquisa
científico como eternamente provisório, pois novas descobertas científicas podem
alterar a maneira como compreendemos e explicamos os fatos e fenômenos. Tais
preceitos caracterizam o uso do método científico no fazer da ciência “[...] entendida
epistemologicamente como essa rede de conhecimento que nos fornece entendimento
sobre o mundo natural.” (VOLPATO, 2015, p. 30). Cabe aos cientistas construir
explicações gerais sobre o mundo natural, ou seja, propor teorias científicas.
Métodos e Técnicas de
Pesquisa
Nos livros de metodologia científica encontramos as seguintes definições
para ciência: Ander-Egg (1978, p. 15) entende a ciência como “[...] um conjunto de
conhecimentos racionais, certos ou prováveis, obtidos metodicamente sistematizados
e verificáveis, que fazem referência a objetos de uma mesma natureza.” Tomando
uma definição mais precisa, Trujillo (1974, p. 8) afirma que “[...] a ciência é todo um
conjunto de atitudes e atividades racionais, dirigidas ao sistemático conhecimento
com objeto limitado, capaz de ser submetido à verificação.” Diante dos conceitos
expostos convém caracterizar a ciência como:
[...] um pensamento racional, objetivo, lógico e confiável, ter como
particularidade o ser sistemático, exato e falível, não final e definitivo, pois
deve ser verificável, isto é, submetido a experimentação para a comprovação
de seus enunciados e hipóteses, procurando-se as relações causais; destaca-se,
também, a importância da metodologia que, em última análise, determinará a
própria possibilidade de experimentação. (MARCONI; LAKATOS, 2011, p. 23).

Diante das concepções expostas, é possível perceber que a ciência tem como
objetivo a construção de um conhecimento seguro, verificável, por meio de caminhos
(métodos) que atestem sua confiabilidade, esse conhecimento é analisado de forma
crítica por todos que se dedicam no fazer da ciência, ou seja, a ciência é feita de
maneira coletiva e universal. A ciência pode ser desenvolvida tanto em laboratórios,
a partir de experimentos e testes de materiais, quanto a partir da confrontação de
teorias relacionadas à observação dos fatos e fenômenos sociais. Assim, a ciência
engloba tanto as ciências naturais/exatas quanto as ciências sociais/humanas.
Por fim, é importante salientar que os objetivos da ciência são determinados
pela “[...] necessidade que o homem possui de compreender e controlar a natureza
das coisas e do universo, compreendendo-as naquilo que elas encerram de certo,
evidente e verdadeiro.” (BARROS; LEHFELD, 2000, p. 46-47).
Na sequência, será apresentando um breve relato do desenvolvimento da
ciência ao longo da história da humanidade, iniciamos no período grego e chegamos
na contemporaneidade. É importante perceber as mudanças que ocorrem na forma
de construir o conhecimento.

A CIÊNCIA E SEUS
PERÍODOS
Ao longo da história da humanidade a ciência passou por diferentes períodos,
por diferentes concepções, paradigmas e modelos teóricos. Podemos dividir a ciência
em três tempos: Ciência Grega, que inicia no século VIII a.C. até o final do século
XVI; Ciência Moderna, que data do século XVII até o início do século XX; e Ciência
Contemporânea, que emerge no início do século XXI até a atualidade (KÖCHE, 2013).
Faremos uma breve retomada de cada período.
Primeiro período (Ciência Grega): dentre os anos de VIII a.C. e IV a.C. na
Antiguidade, na Grécia o conhecimento científico foi desenvolvido pela filosofia, a
ciência era conhecida como filosofia da natureza no qual sua preocupação concentrava-
se na busca do saber, na compreensão da natureza das coisas e do homem. Nesse
contexto, os filósofos pré-socráticos (Tales de Mileto, Anaximandro,
Pitágoras,
Heráclito, Empédocles, Anaxágoras e Demócrito) rompem com uma concepção de
mundo caótico embasado na mitologia e inserem a ideia de cosmos, nele, as forças
espirituais e sobrenaturais exercidas pelos Deuses são desconsideradas diante dos
fenômenos que aconteciam no mundo, passa a imperar a ideia de uma ordem natural
no universo, sendo ordenada por princípios e leis inerentes à natureza. Assim, os
fenômenos estavam relacionados à natureza, sendo possível conhecê-los e prevê-los
usando da especulação racional para se chegar à sabedoria. Os pressupostos dos pré-
socráticos prevaleceram por mais de 2000 anos (KÖCHE, 2013).
Em seguida, surge o modelo platônico, nele “[...] o real não está na empiria,
nos fatos e fenômenos percebidos pelos sentidos. O verdadeiro mundo o mundo
platônico é o das ideias, que contém os modelos e as essências de como as aparências
devem se estruturar.” (KÖCHE, 2013, p. 45). Na sequência desponta a concepção
aristotélica que predominou do século IV a.C. até o século XVII, aqui a ciência é fruto
da elaboração do entendimento em colaboração com a experiência sensível, resultante
da abstração indutiva. Assim, o método aristotélico tem como base a análise da “[...]
realidade através de suas partes e princípios que podem ser observados, para em
seguida, postular seus princípios universais, expressos na forma de juízos, encadeados
logicamente entre si.” (KÖCHE, 2013, p. 47). Essa concepção de ciência contribui
para construção de um conhecimento próximo da realidade, uma vez que se pauta
na observação.
Na ciência grega o processo de descoberta não tem destaque, pois o foco era
justificar e demonstrar os princípios universais, então, “[...] o conhecimento científico
era demonstrado como certo e necessário através de argumentos lógicos [...] ” e o valor
das explicações estava na argumentação. Portanto, os gregos fizeram uma ciência do
discurso e qualitativa, sem que houvesse o tratamento do problema que desencadeia
a investigação, a preocupação residiu na demonstração da verdade racional no plano
sintático (KÖCHE, 2013, p. 47-48).
Segundo período (Ciência Moderna): a ciência moderna é marcada pela
oposição à ciência grega (filosofia) e ao dogmatismo religioso. É a partir do século
XV que os modelos platônico e aristotélico são severamente atacados, principalmente
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no século XVII. Em meio ao Renascimento e à Revolução Científica é introduzida a
experimentação científica, ocasionando uma mudança de compreensão e concepção
teórica de mundo, de ciência, do que vem a ser a verdade, o conhecimento e o método.
Nesse contexto, Galileu e Bacon passam a rejeitar o modelo aristotélico (KÖCHE, 2013).
Bacon advogou que preceitos de ordem filosófica, religiosa e cultural deveriam
ser ignorados no fazer científico, uma vez que distorciam e impediam a verdadeira
visão de mundo. No seu entendimento cabia à experiência confirmar a verdade, o
verdadeiro caminho para o conhecimento era o da indução experimental, assim, Bacon
propôs o método científico, por meio dele se chegaria ao conhecimento. O referido
método é composto pelos seguintes passos: experimentação, formulação de hipóteses,
repetição da experimentação por outros cientistas, repetição do experimento para a
testagem das hipóteses, por fim, formulação das generalizações e leis (KÖCHE, 2013).
Na ciência moderna o método silogístico grego é substituído pelo método
científico-experimental. Assim, “[...] o critério de verdade, para a ciência moderna,
passaria a ser o da correspondência entre o conteúdo dos enunciados e a evidência
dos fatos (verdade semântica).” (KÖCHE, 2013, p. 52). É válido destacar a participação
importante de Galileu na revolução científica moderna, ao introduzir a “[...] matemática
e a geometria como linguagens da ciência e o teste quantitativo-experimental das
suposições teóricas como mecanismo necessário para avaliar a veracidade das hipóteses
e estimular a verdade científica [...]” (KÖCHE, 2013, p. 52), alterando a forma de
produzir e justificar o conhecimento científico. É característica desse período a aplicação
de procedimentos experimentais e matemáticos, e o despontar de uma concepção de
mundo mecanicista e determinista.
Newton, por sua vez, faz uma interpretação do método científico sob um
viés indutivista e positivista, recusando o uso de hipóteses apriorísticas. No seu
entendimento as hipóteses deveriam ser extraídas da experimentação pela indução, as
leis e teorias se originavam dos fatos, “[...] isto é: em física, toda proposição deveria
ser tirada dos fenômenos pela observação e generalizados por indução.” (KÖCHE,
2013, p. 55). Nesse modelo as hipóteses são colocadas à prova e seriam aceitas pela
ciência as que tivessem confirmação do método experimental.
Contudo, observamos que o método científico na modernidade está relacionado
a procedimentos de experimentação que permitem o acesso à realidade, assim, são
criados critérios que determinam julgar quando há ou não o acesso à realidade (KÖCHE,
2013).
Na ciência moderna acreditou-se que o método científico-experimental indutivo
chegaria a verdades exatas, verificadas e confirmadas pelos fatos, e o crescimento da
ciência seria de forma acumulativa diante da superposição de verdades demonstradas
pelas provas geradas pela observação e experimentos. Foi postulado que o único
conhecimento válido é o científico (cientificismo) e que a ciência tudo pode desvendar
e conhecer. É nesse contexto que o modelo científico da física passa a ser adotado
por outras áreas de conhecimento na busca por
status
científico. Observamos, então,
o desenvolvimento de uma ciência quantitativa e experimental (KÖCHE, 2013).
É válido ressaltar que no século XVII a ciência recebeu influência dos valores
puritanos, refletindo aspectos na sua constituição. Na sociedade inglesa, o aumento do
interesse pela ciência esteve relacionado à glorificação divina e ao bem-estar

social, havia um temor que o ócio dos indivíduos pudesse originar pensamentos
pecaminosos e desnecessários. Por meio dessa influência puritana, a ciência incorporou
o utilitarismo e o empirismo em suas práticas, exaltando, assim, a racionalidade,
“[...] a combinação de racionalismo e empirismo que é tão pronunciada na ética
puritana constituiu a essência do espírito da ciência moderna.” (MERTON, 2013, p.
23). Portanto, os conhecimentos teológicos se tornaram insuficientes para responder
questões científicas, pois os fatos devem ser comprovados por meio da observação,
experimentação e ancorados por uma ótica racional, a fé já não bastava (MERTON,
2013).
No mais, os puritanos instituíram academias nas quais a ênfase estava
direcionada para ciência e tecnologia, relacionando-as com questões práticas da
vida. Em suas academias/centros educacionais tinham destaque as disciplinas de
mecânica, hidrostática, física, anatomia e astronomia. Tais estudos se realizavam com
a ajuda de experimentos e observações reais, reforçando, assim, a aplicação prática
dos ensinamentos. A educação puritana estava ligada à vida e seus assuntos tinham
um cunho prático, diferente do ensino desenvolvido nas universidades católicas
que focavam uma educação clássica, teológica, com estudos culturais e pouco úteis
(MERTON, 2013).
Nesse sentido, Burke (2003) enfatiza que no século XVII assistimos ao surgimento
dos institutos de pesquisa, do pesquisador profissional e da própria ideia de pesquisa.
Entre os séculos XVII e XVIII são criadas organizações de fomento à
pesquisa
e
fundadas as academias de artes, engenharia e medicina. Nesse período utilizaram-se
regularmente os termos
investigação
e
experimento
, o que denota a consciência de
certos grupos sobre a “[...] necessidade de buscas para que o conhecimento fosse
sistemático, profissional, útil e cooperativo.” (BURKE, 2003, p. 48-49).
Observa-se que é na modernidade que a ciência se constitui e se institucionaliza.
N es s e p e r í o d o o m o d e l o d e c o n s t r u ç ã o d e c o n h e c i m e n t o t e v e c o m o
base a
experimentação e observação, estando vigente um modelo positivista de ciência.
Terceiro período (Ciência Contemporânea): no início do
século XX as
contribuições teóricas de Einstein e Popper são fundamentais para a transformação da
ideia de ciência e do método científico. A ciência contemporânea rompe com a noção
de ciência moderna para a qual a investigação tem um olhar objetivo dos fenômenos
e cabe a ela apenas descrever a realidade de forma isenta, sem influência das ideias
pessoais. Na contemporaneidade, a ciência é a proposta de uma interpretação, faz-se
uma analogia na qual o cientista se aproxima de um artista e não de um fotógrafo.
Nesse pensamento, o progresso científico deixa de ser acumulativo e passa a acontecer
por meio de revoluções científicas e o método experimental indutivo deixa de ser um
critério para definir o que é ciência e o que não é ciência (KÖCHE, 2013).
Renegado o método científico indutivo e positivista, a ciência contemporânea
passa a ser vista com um olhar crítico, sendo interpretada e compreendida por meio
do método hipotético-dedutivo, que tem como fundamento a testagem das hipóteses
na tentativa de falseamento, para assim aceitá-las ou refutá-las. Assim, o processo
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de conhecer é resultante do questionamento feito pelo sujeito que coloca em dúvida
o conhecimento já existente. “Na ciência contemporânea, a pesquisa é um processo
decorrente da identificação de dúvidas e da necessidade de elaborar e construir
respostas para esclarecê-las.” (KÖCHE, 2013, p. 71).
Köche (2013, p. 71) explica que “[...] a investigação científica se desenvolve,
portanto, porque há a necessidade de construir e testar uma possível resposta ou
solução para um problema, decorrente de algum fato ou de algum conjunto de
conhecimentos teóricos.” As soluções elaboradas para o problema apresentam-se
como modelos hipotéticos, ideias que devem ser testadas e criticadas com base no
conhecimento disponível. No método dedutivo a intenção é sempre colocar a hipótese
a prova confrontando-a com hipóteses concorrentes.
As hipóteses são elaboradas pelo pesquisador e levam em conta o domínio
teórico que esse possui em seu campo de atuação, a lógica da pesquisa volta-se para
criar hipóteses e submetê-las à crítica com o intuito de avaliar sua validade, ou seja, a
correspondência com os fatos (verdades semânticas). No entanto, no desenvolver da
pesquisa caminhos variados podem ser seguidos pelos pesquisadores para produzir
uma explicação (KÖCHE, 2013).
Deve ficar claro que no contexto contemporâneo a ciência é percebida como
uma “[...] investigação constante, em contínua construção e reconstrução, tanto das
suas teorias quanto dos seus processos de investigação. A ciência não é um sistema
de enunciados certos ou verdadeiros.” (KÖCHE, 2013, p. 77). O aspecto transitório
do conhecimento tem como base a submissão permanente à crítica e o fato de ser
um produto criativo do espírito humano, da sua imaginação.
Köche (2013, p. 78) afirma que para existir ciência são necessários dois aspectos:
“[...] um subjetivo, o que cria, o que projeta, o que constrói com imaginação a
representação do seu mundo segundo as necessidades internas do pesquisador, e outro
objetivo, o que serve de teste, de confronto.” Em ambos os aspectos existem leis e
o objetivo é conhecê-las, considerando a constante transformação do conhecimento
científico (KÖCHE, 2013).
O conhecimento científico torna-se seguro/confiável pelo seu caráter metódico,
reflexo da preocupação constante pelo aperfeiçoamento e correção dos métodos de
investigação. Cada área de conhecimento adota métodos que são mais confiáveis,
os quais permitem a eliminação de erros e possibilitam que a comunidade científica
exerça a crítica. No entanto, não existe mais a pretensão de taxar o conhecimento
como verdadeiro, uma vez que esse é falível e a ciência passa a ser entendida como
um processo de investigação consciente de suas limitações, capaz de rever e renovar
seus métodos e teorias sob um olhar crítico (KÖCHE, 2013).
Diante do exposto, é possível perceber que, ao longo dos séculos, o caminho
e a lógica utilizados na construção do conhecimento sofreram alterações, levando
em consideração as transformações sociais de cada período, se há uma mudança de
método, isso reflete a forma de encarar a ciência e produzir conhecimento

SENSO COMUM E
CONHECIMENTO
CIENTÍFICO
Ao longo da vida as pessoas se apropriam do conhecimento para tomar decisões,
desde as atividades mais simples até as mais complexas recorremos ao conhecimento
em suas diferentes formas, seja ele oriundo do senso comum ou fruto da atividade
científica (KÖCHE, 2013). O que distingue o senso comum do conhecimento científico
“é a forma, o modo ou método e os instrumentos do ‘conhecer’”, isso representa
a maneira de se chegar ao conhecimento. Destacamos que ambos os tipos de
conhecimentos podem ser verdadeiros, pois um mesmo objeto ou fenômeno podem
ser matéria de interesse e observação tanto para o cientista quanto para o homem
comum (MARCONI; LAKATOS, 2011, p. 17).
O modo mais convencional do homem interpretar a si mesmo e o universo tem
como base o senso comum (conhecimento empírico ou conhecimento popular). Esse
conhecimento se processa em consequência da resolução de problemas imediatos
enfrentados no cotidiano, sendo elaborado de forma espontânea e intuitiva, sem
aprofundamento racional e crítico. Seu carácter utilitarista se distancia da explicação
e compreensão a respeito das relações entre os fatos e fenômenos. Por exemplo, sabe-
se que o Chá de Marcela ajuda a aliviar a dor de estômago, no entanto, as pessoas
desconhecem a composição química da erva, as dosagens corretas e possíveis efeitos
colaterais (KÖCHE, 2013).
O senso comum é um tipo de conhecimento superficial e subjetivo relacionado
com as crenças e convicções pessoais, subordinado ao envolvimento afetivo e emotivo,
incapaz de ser submetido à crítica isenta de interpretações pessoais. Sua linguagem
não é especializada, apresenta conceitos e termos vagos que não são previamente
definidos pelos sujeitos, não são claros e podem variar de um contexto para outro,
adquirindo diferentes significados a partir das pessoas e grupos que os utilizam. Em
resumo, esse conhecimento é empírico e assistemático, desenvolve-se naturalmente à
medida que a vida acontece, é passado de geração em geração e leva em consideração
as experiências de vida das pessoas (KÖCHE, 2013).
Por sua vez, o conhecimento científico emerge na tentativa do homem de
otimizar sua racionalidade ao “[...] propor uma forma sistemática, metódica e crítica
da sua função de desvelar o mundo, compreendê-lo, explicá-lo e domina-lo.” (KÖCHE,
2013, p. 29). Esse conhecimento vai além da resolução de problemas de ordem
prática, pois o homem deseja compreender a cadeia de relações existentes entre os
fatos e fenômenos, conhecendo, assim, seus princípios explicativos (por que e como).
O conhecimento é considerado científico quando segue o método científico, isso
pressupõe um “[...] procedimento de passos e rotinas específicas que indica como
a ciência deve ser feita para ser ciência.” (KÖCHE, 2013, p. 34), apresentando ideais
de objetividade e racionalidade. Durante seu processo de construção é preciso se
fundamentar em conceitos, teorias e leis, ao mesmo tempo, é necessário demostrar
o caminho para sua obtenção.
O conhecimento científico é revisado pelos pares através de uma avaliação crítica
intersubjetiva, ao mesmo tempo em que seus enunciados podem ser testados através de
experimentos. Esse conhecimento apresenta uma linguagem especializada entre os

membros da comunidade científica, isso significa que seus conceitos devem ser coesos
e universais para todos que pertencem a uma mesma especialidade científica (KÖCHE,
2013). Em resumo, o conhecimento científico caracteriza-se por ser sistemático,
universal (generalizável), verificável, falível, hipotético e aproximadamente exato
(MARCONI; LAKATOS, 2011). Assim, o conhecimento científico tenta se aproximar
de uma verdade, mas reconhece suas limitações e está em constante transformação,
uma vez que a cada nova pesquisa novos conhecimentos são gerados, ocasionando
uma revisão e acréscimo no fundo coletivo de saberes existente.
Santos (1989) esclarece que o conhecimento científico não
surgiu
espontaneamente, mas sim como uma tentativa para atestar o que é racional e
verdadeiro. Para o conhecimento possuir um caráter científico, esse deve ser produzido
a partir de uma metodologia, amparado por um arcabouço teórico, no qual estão
presentes as teorias que sustentaram o processo de pesquisa, descritas as etapas de
pesquisa, explanados seus objetivos e resultados. O que confere cientificidade ao
conhecimento é a aceitação da comunidade científica. A avaliação e o reconhecimento
dos pares são fundamentais nesse processo.
Para fortalecer as diferenças entre senso comum e conhecimento científico,
vejamos o Quadro 1, no qual há uma comparação das características desses dois
conhecimentos.
Quadro 1 - Senso comum
x
conhecimento científico
Senso comum ou conhecimento popular Conhecimento científico
Valorativo
Reflexivo
Assistemático
Verificável
Falível
Inexato
Real (factual)
Contingente
Sistemático
Verificável
Falível
Aproximadamente exato
Fonte: adaptado de Marconi e Lakatos (2011, p. 18 apud TRUJILLO, 1974, p. 11).
Acabamos de abordar dois tipos de conhecimento que são de interesse especial
do componente curricular de Métodos e Técnicas de Pesquisa, mas, além desses,
podemos citar o conhecimento filosófico e o religioso que foram apresentados no
componente curricular de Iniciação Científica.