Você está na página 1de 2

ALAIN-MILLER, Jacques.

“Duas dimensões clínicas: sintoma e fantasma” in: Percurso de


Lacan: uma introdução. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.

I
Divisão básica: sintoma diz respeito ao significante. É aquilo que causa desprazer e,
por isto, está no início da análise; fantasia causa prazer, não é buscada na análise, mas diz
respeito ao objeto, e portanto deve estar no fim da análise, num fim além do simples bem-
estar. A fantasia serve como consolo ao sintoma.
O elemento fantasmático não está m harmonia com o resto das neuroses, é
escondido, causa vergonha freqüentemente. A fantasia transforma o gozo – que por seu
próprio movimento tende ao desprazer – em prazer. Lembrando que o desprazer provêm da
ausência do Outro (a mãe), que por sua vez gera desejo do outro, vemos a ligação entre a
fantasia e o desejo do outro, que a desencadeia.
A fantasia não é, como o sintoma, interpretada pelo analista. Ela é construída.
A escassez de livros sobre a fantasia. Um raro exemplo é a obra de Sade, que gira
monotonamente em torno de uma mesma fantasia, e ainda consegue não ser enganada por
elas, as compreender de alguma forma, coisa que o analista busca.

II
A fantasia está ligada ao desejo do Outro, como vimos, e, assim, também à falta,
não apenas falta do Outro, as falta de significante – saí seu caráter reticente, de certa forma
desconectado. Por isto a fantasia “foge” do analista.
A fantasia possui três dimensões: mais claramente a imaginária, as imagens e
aspectos percebidos pelo paciente daquilo que esta à sua volta; a simbólica, já bem
escondida, que diz respeito a uma lógica própria, com seus axiomas fundamentais (frases
que correspondem à fantasia fundamental); e a real
Dizer que a fantasia é um real na experiência analítica é o mesmo que dizer que trata-se de
um resíduo imodificável. No pensamento de Lacan, é um axioma que o real é o impossível.
Aqui, por exemplo, trata-se do impossível de mudar. Por essa razão, para Lacan, o fim da
análise é a conquista de uma modificação da relação do sujeito com o real da fantasia. (113)
Há uma dinâmica do sintoma (todo significante e interligado) e uma estática da
fantasia, fundamental e absoluta, imutável. “[...] no desenvolvimento da cura, a fantasia se
reduz cada vez mais a um instante essencial, ao ponto do instante” (113-114), e, a partir daí,
a utilização, coo instrumento, desta fantasia reduzida. A fantasia surge como uma
formulação destacada do resto do discurso, mas que serve como matriz para todo o
pensamento. Mas não necessita ser uma frase, já que não é significante: é mais que tudo
objeto. Um objeto construído pelo próprio discurso analítico.
As fantasias então se expressam de várias formas: a fobia impede a aproximação do
desejo do Outro; a histeria simultaneamente o atrai e o repele; a obsessão torna o objeto
uma paixão exclusiva, o neurótico se defende do gozo através do desejo; o perverso aceita
o gozo do Outro e se coloca como instrumento dele. Não nos aprofundaremos nestas
diferenciações.

III
[...] para Freud, no texto que me refiro [“Fantasias histéricas e sua relação com a
bissexualidade” (1908)], o método de pesquisa psicanalítica consuz dos sintomas patentes,
visíveis, às fantasias inconscientes, escondidas. Vai do sintoma à fantasia, em um caminho
que faz esta última aparecer como precursora imediata, direta, do primeiro em um sentido
causal. (131)
A crítica de Lacan a esta posição de Freud é que o último não diferencia imaginário
de simbólico. A primeira posição de Lacan foi a de que i imaginário está ligado à fantasia, e
o sintoma ao simbólico. O segundo teria primazia sobre o primeiro, eu se expressa na alta
da cadeia significante. Lacan depois mudou sua posição, e passa a afirmar que a fantasia
possui dimensão simbólica: o sujeito como sujeito significante. Isso implica em uma
aparentemente paradoxal vinculação entre estas duas estruturas diferentes. Paradoxo pois a
fantasia é não-significante e axiomática, mas ao mesmo tempo criada através de um
caminho analítico que passa pelo sintoma e seus significantes
Então o que impluica o axioma fantasmático?
Implica ser uma pura criação significante.
Pois há um criacionismo, um criacionismo do significante, questão já explanada
por Lacan, em seu seminário sobre As Psicoses. Antes de poder dizer “noite e dia”, explica
Lacan, a noite e o dia não existem. Não há nada além de variações de luz. Uma novidade
absoluta, total, surge quando se introduzem no mundo os significantes “noite e dia”. A
própria experiência se estrutura a partir do significante que engendra a oposição, como
começo absoluto. Assim, podemos entender o que significa qie o significante surja ex-
nihilo, do nada. O significante é um fiat, e nada pode demonstrá-lo melhor que o axioma
lógico.
[...]
A fantasia sentimental, para Lacan, está ligada a uma significação absoluta. Uma
separação descolada, separada de tudo. A significação de Batem em uma criança não tem
motivação anterior e é, em si mesma, um começo absoluto: “Faça-se a luz, e a luz se fez”,
eis o que a gente repete cada vez que postula um axioma. (136)
Para um sujeito, uma frase única, sua fantasia, é um começo absoluto, significante sem
contexto, e o problema do analista passa a ser não eliminá-lo, mas mudar a relação do
sujeito com essa verdade, essa fantasia axiomática.