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Salmo Dansa/Arquivo da editora

Capítulo 7

Cidadania, política e Estado


EstudarEmos nEstE capítulo:
a cidadania, uma conquista valiosa, fruto da participação dos indivíduos na sociedade. É pelo exercício da política dos
homens e mulheres de diversas idades que acontecem as transformações sociais, uma vez que poder, de modo geral, se
refere à capacidade de agir. No contexto contemporâneo, uma instituição social destaca-se pelo seu papel de permitir
– ou, em alguns casos, coibir – a participação ativa do cidadão em decisões e medidas de grande influência na socie-
dade: o Estado. Veremos como a Ciência Política busca explicar o papel do Estado, sua função e as tensões entre os inte-
resses individuais e coletivos que estão expressos nessa instituição social. A relação entre Estado, governo, partidos
políticos e sociedade civil está entre os objetos de discussão nas páginas que seguem.

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Cidadania é uma conquista
Na década de 1990, o sociólogo Herbert de Souza (1935-1997) projetou
e comandou a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida. Aderiram
à campanha brasileiros e brasileiras de todas as classes sociais, idades, ten-
dências políticas e religiosas, empresas públicas e privadas, artistas, meios de
comunicação e, principalmente, jovens dispostos a recolher e distribuir ali-
mentos. Herbert apostou na juventude como o caminho para abrir espaço
para a solidariedade no país, acreditando que a mudança social passa pelo
combate à fome:

Todos podem e devem comer, trabalhar e obter uma renda digna, ter escola,
saúde, saneamento básico, educação, acesso à cultura. Ninguém deve viver na mi-
Filip
e Ro
séria. Todos têm direito a vida digna, à cidadania. A sociedade existe para isso. Ou,
cha/A
rquiv
o da
edito
ra
então, ela simplesmente não presta para nada. O Estado só tem sentido se é um
instrumento dessas garantias. A política, os partidos, as instituições, as leis só ser-
vem para isso. Fora disso, só existe a presença do passado no presente, projetando
no futuro o fracasso de mais uma geração. [...] Tenho fome de humanidade.
SOUZA, Herbert de. O pão nosso. Veja 25 anos: reflexões para o futuro. São Paulo: Abril, 1993, p. 20-1.

O clamor do sociólogo faz ecoar o quanto a cidadania é fruto da con-


quista de direitos que possam levar a sociedade a se tornar mais igualitá-
ria. A cidadania se relaciona, portanto, com o princípio de igualdade e
com a ampliação da democracia na sociedade, ou seja, o respeito a direi-
tos. Esses direitos são prerrogativas legais baseadas nos costumes e per-
mitidas aos indivíduos dentro de princípios morais e de convivência so-
cial. Por exemplo, o direito de praticar qualquer religião ou de exercer
uma prof issão.
A preocupação com a cidadania se consolidou com o advento da socieda-
de industrial e as lutas sociais surgidas em seu seio nos séculos XIX e XX. Os
avanços científicos desse período de modernização da sociedade, porém, não
trouxeram benefícios imediatos para a maior parte das pessoas. No Brasil,
como vimos nos capítulos anteriores, a ex-
Patrícia Santos/Folha Imagem

clusão desses indivíduos tem razões históri-


cas que remetem tanto ao período de colo-
nização, especialmente no que se refere à
discriminação e marginalização de indíge-
nas e afrodescendentes, quanto às políticas
públicas implementadas após a Proclama-
ção da Independência. Nesse sentido, a
questão da inclusão e exclusão sociais só
pode ser superada mediante a demanda
por direitos e o alcance da cidadania.

O sociólogo Herbert de Souza, o


Betinho, em campanha da Ação
da Cidadania contra a Fome, a
Miséria e pela Vida, em 1995.

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Os direitos, legitimados pelas leis, decorrem da pressão e da mobilização
da sociedade. Só existe cidadania quando há possibilidade de os indivíduos,
com seus direitos e deveres, se tornarem sujeitos atuantes na história. A te-
mática da cidadania vincula-se, assim, à dos movimentos sociais, tema do
capítulo 8 deste livro, no qual estudaremos como a ação coletiva cria novos
direitos e garante o respeito aos já existentes.

Topham Picturepoint/Top Foto/Keystone


O reconhecimento dos direitos humanos, atribuídos aos
indivíduos independentemente de sua etnia, gênero, idade e
religião, está, em tese, na base das atuais democracias. As rei-
vindicações por liberdade e igualdade para todos apareceram
pela primeira vez na Declaração de Independência dos Estados Uni-
dos da América, em 1776, que inspirou a Declaração dos Direitos
do Homem e do Cidadão, votada em pleno processo da Revolu-
ção Francesa, em 1789. Entre os direitos previstos nesse docu-
mento, estava o seguinte: “Todos os seres humanos nascem li-
vres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e
de consciência, devem agir uns para com os outros em espíri-
to de fraternidade”.
Outro documento histórico que procurou garantir a exis-
tência dos direitos humanos foi a Declaração Universal dos Direitos
Humanos, aprovada em 1948 pela Assembleia Geral da Organi-
zação das Nações Unidas (ONU). Esse documento atualizou o
conteúdo das declarações anteriores, dando ênfase aos direitos
individuais, dentre os quais a abolição da escravidão, a conde-
nação da tortura, o direito à liberdade de expressão e de cons- Cartaz produzido pela ONU em 1948, contendo a
ciência, o direito de ir e vir e o direito à educação e à cidadania. Declaração Universal dos Direitos Humanos em
inglês.
É importante ressaltar que, em todos esses casos, a reivin-
dicação dos direitos humanos como ideais não tornou sua prática automa-
ticamente perfeita. Um exemplo disso é o fato de o sufrágio universal só hh sufrágio universal: condição em que
se ter consolidado mais de um século depois das duas primeiras declara- todos os cidadãos considerados maio-
ções citadas, o que signif ica que nem todos os seres humanos eram de fato res de idade, independentemente de
tratados como iguais. O mesmo acontece com os países signatários da de- gênero, etnia ou condição socioeconô-
claração da ONU, que muitas vezes apoiam medidas e políticas internas e mica, têm o direito ao voto.
externas que violam estes direitos.

a cidadania ativa se traduz na busca por participação na sociedade e não


pode ser apenas concedida ou tutelada pelo poder político.

hh
As origens dos conceitos de cidadão e cidadania
Da raiz latina da palavra cidade (civitas) derivaram termos como civilização,
civilizado, civil, cívico, civilidade. Temos na sua correspondente grega (polis) a
origem das palavras político, politizado, polido. Todos esses termos, de alguma
forma, se relacionam à ideia de cidadania. Cidadão, na Roma antiga, era o
habitante não escravo da cidade, do sexo masculino, que participava da so-
ciedade com seu poder de voz e de voto nos comícios e plebiscitos e com sua
participação na administração pública. Portanto, embora essa participação
interferisse na própria dinâmica dos espaços urbanos e rurais, cidadania
não implicava igualdade. Antes dos romanos, pôde-se observar situação pa-

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Filipe Rocha/Arquivo da editora

recida na Grécia antiga: era considerado cidadão quem desfrutava do direi-


to de participar da vida política da cidade, o que era vedado à mulher, ao
estrangeiro e ao escravo.
Durante o declínio das monarquias absolutistas na Europa, deram-se lu-
tas da burguesia por maior influência política, exigência de autonomia para
as cidades e rebeliões sociais pelos direitos da população não nobre. Nesse
contexto, emergiu a ideia da força da cidadania, principalmente por meio
da associação de indivíduos em partidos e sindicatos. Aliás, a etimologia do
nome burguesia se aproxima, pelo sentido, de cidadania, por ter origem na
palavra burgo, que na Idade Média designava o núcleo fortif icado de um
povoado.
Ao estudar essa nova conf iguração da cidadania, o sociólogo britânico
Thomas Humphrey Marshall (1893-1981) af irma que a cidadania não nas-
ce acabada: trata-se de uma construção pela adição gradativa de novos di-
reitos, conquistados por diferentes atores sociais, ao longo da formação da
sociedade capitalista.
Em seu livro Cidadania, classe social e status, publicado em 1950, Marshall
via na cidadania o elemento de mudança social no contexto industrial in-
glês. Tomando por base o desenvolvimento da sociedade inglesa, ele conce-
beu o que denominou direitos sociais no conjunto de direitos presentes ao
longo dos séculos. Esse conjunto de direitos é o que dá garantia à condição
de cidadão.

Os direitos segundo Marshall

Século XVIII Século XIX Século XX

Direitos civis Direitos políticos Direitos sociais


Abrigam as liberdades Expressam o direito Compreendem a garantia
individuais e a igualdade “universal” (masculino) a de trabalho, habitação,
de direitos perante a lei, participar da vida pública transporte público,
entre grupos (o voto). segurança, previdência
considerados “legítimos” social, educação e saúde
(as mulheres, por para a população como
exemplo, estavam um todo.
excluídas).

Os direitos civis, datados do século XVIII, englobam as liberdades pes-


soais de expressão e culto religioso, o direito à propriedade, o direito a um
tratamento legal justo, ainda que estas determinações se aplicassem ape-
nas a um grupo pequeno de pessoas (homens livres, por exemplo). Já os
direitos políticos, conquistados no século XIX, correspondem a formas de
participação no processo político, como o direito do voto (eleger e ser
eleito), de ocupar cargos políticos e administrativos no aparelho do Esta-
do, de participar de júri, entre outros. Os direitos sociais, por sua vez,
aparecem como resultado das lutas do século XX e procuram garantir,
entre outros, o trabalho para todos e a previdência social destinada aos
indivíduos que não se encontram em condições de trabalhar, além dos
aposentados. Os direitos civis também passaram a incluir diversas minorias

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sociais: minorias étnicas historicamente discriminadas
(como os negros e os indígenas, no Brasil), homosse-
xuais, transgêneros, mulheres, pessoas com def iciên-
cia, etc.
A contextualização histórica dos direitos aponta que,
em um primeiro momento, a cidadania cobria os direi-
tos de propriedade e igualdade perante as leis, contra a
arbitrariedade do Estado. No século XX, porém, além de
ter de administrar uma justiça impessoal voltada para to-
dos, o Estado passou a ser responsável por garantir o res-
peito à integridade do indivíduo e de seus bens. Uma das
formas de fazer isto se deu com políticas de intervenção
no trabalho, que visavam regulamentá-lo.
Ao longo do século passado, nas sociedades ociden- Filipe Rocha/Arquivo da editora

tais, o trabalho assalariado foi responsável tanto por uma


nova estruturação das relações de trabalho quanto pela formação de uma
identidade social. O trabalho como requisito para a cidadania, portanto,
recebeu gradativas garantias constitucionais e legais quanto a jornada sema-
nal, remuneração, condições de trabalho, participação de menores de ida-
de, entre outras.

Conquistas da cidadania e trabalho

Danilo Verpa/Folhapress
A esfera do trabalho é primordial ao exercício da
cidadania no capitalismo, por corresponder ao espaço
de sobrevivência material do ser humano. Ela envolve
a produção econômica, o mercado de trabalho, a ge-
ração e a apropriação da renda.
Foi longo o processo social de reconhecimento do
trabalho como condição para a cidadania. O sociólogo
francês Robert Castel analisa a constituição da socie-
dade salarial na França e localiza no século XX a passa-
gem dos trabalhadores assalariados à condição de ci-
dadãos reconhecidos como sujeitos sociais, com
garantias e direitos. Nos séculos XVIII e XIX, receber
salário – pagamento em recompensa dos serviços
prestados – era garantia de reconhecimento no con-
junto social, mas não evitava que o trabalhador vives-
se em uma situação de pobreza e dependência. Para
Castel, isso indicava uma espécie de subcidadania.
Apenas no século XX o fato de “ter salário” passou
a ser requisito de cidadania e de acesso ao consumo.
Na sociedade industrial moderna, a condição de assa-
Manifestação de trabalhadores da construção civil, em protesto
lariado se tornou uma vantagem, permitindo o acesso contra empreiteiras, em São Paulo, 2008.
ao consumo, por exemplo. A obtenção de alguns direi-
tos foi decisiva nesse processo, como o direito ao tra- O trabalho com direitos garantidos por lei possibi-
balho, à greve e à livre organização dos trabalhadores, lita a ascensão na sociedade, permitindo o acesso a
tanto em sindicatos, associações e grêmios, quanto na bens e propriedades, e confere identidade à pessoa,
articulação em vários níveis – local, regional, nacional. que se sente valorizada e reconhecida.

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dEbatE

A relação entre trabalho e cidadania é resultado de séculos de lutas sociais. Leiam o


texto abaixo e, em equipe, discutam o problema ilustrado pelo sociólogo Marco
Aurélio Santana.

hh
banlieues: termo francês para de- Nas chamadas banlieues francesas pode-se ver claramente as digitais dos pro-
signar a periferia de grandes cidades. cessos de transformação no mundo do trabalho, do desmantelamento das formas
Nestas há, em geral, grande porcen- de proteção social, bem como do esgarçamento dos vínculos sociais aos quais são
tagem de imigrantes com renda abai- submetidas as sociedades ao redor do globo, em meio ao redesenhar da produção
xo da média francesa, o que ocasiona e da acumulação capitalista. [...] Nas revoltas de 2005 se faziam sentir, a partir da
um contraste sociocultural e socioe-
ação dos setores mais jovens das classes populares, longos anos de discriminação,
conômico com as áreas centrais.
desemprego e pobreza. O governo buscou reagir lançando mão: primeiro, da polí-
cia, que na verdade foi o estopim da revolta graças às suas ações que beiram o
persecutório contra esses jovens; depois, da derrama de recursos que visam ao re-
modelamento das áreas carentes dos subúrbios e, por último, pela via da abertura
da legislação trabalhista [...] no sentido de supostamente favorecer aos jovens a
possibilidade de acesso ao mercado de trabalho.
SANTANA, Marco Aurélio. Trabalho, flexibilização e ação coletiva: um olhar sobre o caso francês.
30º- Encontro Anual da ANPOCS, Caxambu (MG), 2006. p. 9.
Bernard Bisson/Getty Images

Protestos em subúrbio
de Paris em novembro
de 2005. Na faixa, em
francês, os dizeres “A
recusa da violência” e “A
escolha de viver juntos”
aparecem sobre as três
palavras-símbolo da
Revolução Francesa:
liberdade, igualdade e
fraternidade.

1. Com base no relato do autor sobre os conflitos ocorridos em Paris no ano de 2005
e suas consequências, analisem o processo de reconhecimento do indivíduo co-
mo cidadão mediante o trabalho.

2. O texto traz um exemplo de como o Estado concede cidadania, por meio de


acesso ao mercado de trabalho e ao consumo, a pessoas antes excluídas desta es-
fera social. Citem exemplos de como o Estado fez isso no Brasil, justif icando-os.

Políticas públicas: dilemas da cidadania


Por meio de políticas públicas, o Estado intervém em diferentes dimen-
sões da sociedade. Por vezes, os aspectos econômicos e sociais se confundem
nessa intervenção estatal; nos programas de estímulo a empregos indus-
triais, por exemplo, as garantias dos trabalhadores decorrem mais das ações
de natureza econômica do que das ações sociais propriamente ditas.
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Desde seu surgimento até a atualidade, o Estado se caracteriza por ser a
instituição politicamente organizada responsável pela esfera pública, seja ao
geri-la, seja ao conceder sua gestão e fiscalizá-la.

É possível separar o que é público da esfera privada? Como são formula-


das as políticas públicas? Tudo depende da forma como determinada socie-
dade se organiza. Nas sociedades socialistas, em que certos meios de produ-
hh
socializados: nas sociedades so-
ção são socializados ou coletivos, o Estado assume as necessidades da cialistas, notadamente na União So-
população integralmente. Já nas sociedades capitalistas, onde prevalece a viética, os meios de produção eram,
propriedade privada, o Estado (desde que orientado para tal) procura aten- em geral, ou estatais (gerenciados
der às necessidades sociais básicas, como educação, segurança e saúde. Para por funcionários do Estado) ou cole-
que isso seja possível, cobra impostos e taxas, o que gera, por sua vez, a obri- tivos (gerenciados pelos próprios
gação de fornecer e administrar os bens públicos. trabalhadores).

p E squisa

• Você conhece alguma política pública realizada no Brasil (na sua cidade ou esta-
do)? Se você não conhece, é tempo de conhecer. Em uma equipe, pesquise um
projeto ou uma política pública realizada pelo Estado, identif ique a justif icativa do
projeto (por que ele existe) e a quem ele pretende atender. Sistematize por escrito
os resultados dessa pesquisa e apresente-os para a turma.

As grandes decisões de cunho econômico de uma nação, como obras de


infraestrutura (pontes, barragens, estradas, portos, etc.) e formas de atrair
investimentos, geralmente resultam de opções realizadas pelo grupo políti-
co que está no poder. Não raras vezes, essas decisões e as intervenções delas
resultantes manifestam o padrão de dominação social existente e se guiam
pelos interesses desse grupo. No contexto atual de competição econômica
intensa entre os países, muitas escolhas políticas podem levar o governo a
deixar de atender às demandas mais imediatas da população – educação,
saneamento, etc. Com isso, crescem ainda mais as desigualdades sociais in-
ternas e entre os países.
Miguel Riopa/Agência France-Presse

Manifestantes protestam em
Lisboa, capital de Portugal, contra
as chamadas medidas de
austeridade. Como condição para
receber empréstimos em meio a
uma grave crise econômica, o
governo português aumentou
impostos e cortou investimentos
em áreas como saúde e
seguridade social. Foto de 14 de
novembro de 2012.

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Estabelecer um limite entre o poder político e o poder econômico é
sempre difícil. O poder político diz respeito à distribuição coletiva dos re-
cursos e seu sujeito máximo é o Estado, que opera por meio de um aparato
jurídico-administrativo (leis, órgãos estatais, etc.). Outros sujeitos do poder
político, entre muitos, são os partidos, os sindicatos, os movimentos sociais
organizados. Já o poder econômico tem por base a propriedade, a posse e a
gestão dos recursos econômicos, e o seu sujeito típico é a empresa. A forma-
ção e a distribuição dos bens sociais em nossa sociedade dependem da inte-
ração entre a esfera da economia e a da política. A construção e manuten-
ção da infraestrutura coletiva (como hospitais, estradas e açudes) é um
direito social que exige o uso da tecnologia, dos meios de produção e, às
Rogério Reis/Pulsar Imagens
vezes, até do capital advindos do poder econômico.
Quando o Estado assume os “problemas sociais”
como questões de “sua” responsabilidade, podemos
dizer que está formulando e implementando políticas
sociais. As políticas sociais se voltam a questões do
bem-estar dos cidadãos, destinando-se a garantir um
mínimo de consumo para todos os indivíduos, seja pe-
la provisão de serviços, seja por transferências diretas
de renda. Desse modo, consomem-se serviços de saú-
de, de educação, de transporte de massa, de seguran-
ça civil, de previdência social, de assistência pública e
de proteção social. Atribuição do Estado, cuidados
como esses são capazes de criar empregos (políticas
de trabalho, frentes de trabalho), gerar renda (políti-
cas salariais) e prover moradias populares (políticas
Conjunto habitacional no habitacionais). As políticas sociais decorrem das necessidades da sociedade,
bairro Campo Grande, na
cidade do Rio de Janeiro, na medida em que atendem à demanda de reduzir os níveis de pobreza e
construído por programa do superar desigualdades sociais e regionais de um país.
governo federal de Por outro lado, há sempre chances de que as políticas sociais assumam um
financiamento de imóveis
caráter assistencialista. Isso ocorre quando, em vez de consolidar o direito de
para população de baixa
renda. Foto de 2011. todos – o bem comum –, elas se traduzem em mera assistência, precária e in-
suficiente, aos mais carentes. Programas sociais assistencialistas geralmente
visam desviar a atenção da falta de mudança em estruturas fundamentais para
a garantia dos direitos, como postos de saúde com poucos médicos, farmácias
comunitárias sem medicamentos imprescindíveis, professores mal remunera-
dos, etc. Nesses casos, os usuários dos serviços oferecidos não se veem no di-
reito de dispor de uma melhor atenção às suas necessidades, na condição de
“assistidos”. Referimo-nos a clientelismo quando ocorre uma relação de submis-
são, em que o lado menos favorecido apoia o mais favorecido em troca de al-
gum tipo de proteção ou serviço de caráter imediato. Por isso, para que os
direitos se concretizem em conquista efetiva, é preciso a participação do povo.

os direitos devem estar incorporados às conquistas sociais, em função da


capacidade política de a sociedade se organizar para reivindicar, cabendo ao
Estado zelar por isso.

O desenvolvimento de um país está vinculado à condição da cidadania


de sua população e não ocorre somente com a superação da pobreza socioe-

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conômica, mas se estende à necessidade de ampliar e amadurecer a esfera
de participação política. A conquista da cidadania exige instrumentos de
reivindicação; ela vai além de campanhas e programas específ icos ou emer-
genciais. Cidadania implica vencer os diferentes problemas sociais por meio
da participação política.

paus a para rEflEtir

No texto a seguir, o sociólogo Roberto Véras de Oliveira def ine a qualif icação prof is-
sional como um direito social e, portanto, objeto da ação do Estado que se preocu-
pa com a inclusão social.

A política pública de qualificação profissional, [...] através fundamentalmente


do PNQ [Plano Nacional de Qualificação, 2003], sofre uma reorientação [...]. Em pri-
meiro lugar, a qualificação profissional é afirmada na perspectiva do direito social.
Devendo, nesses termos, ser objeto de uma política nacionalmente articulada, con-
trolada socialmente, sustentada publicamente e orientada para o desenvolvimento
sustentável, a inclusão social e a consolidação da cidadania. Sob tal perspectiva,
mais do que uma ação formativa de conteúdo técnico, visando tão somente uma
inclusão produtiva, a qualificação deve orientar-se para a busca de uma inclusão
cidadã. Trata-se, portanto, de uma qualificação social e profissional [...], em um sen-
tido mais amplo, como práticas e significados socialmente construídos, seja no âm-
bito das relações privadas (estabelecidas no processo de trabalho), seja no âmbito
dos processos públicos (de construção de políticas públicas).
OLIVEIRA, Roberto Véras. Momento atual da política pública de qualificação profissional no Brasil: desafios e inflexões.
Revista Ariús. Campina Grande, v. 13, n. 1, jan./jul. 2007, p. 58.

• Sabendo que políticas públicas atendem a diferentes necessidades de uma popu-


lação, qual deve ser a ação do Estado para garantir a qualif icação prof issional co-
mo um direito social?

Condições da cidadania no Brasil


Cidadania relaciona-se com liberdade, uma noção de inspiração ideo-
lógica da Revolução Francesa (1789), nascida do projeto burguês de so-
ciedade a partir do século XVIII. Segundo a cientista política Elisa Reis
(1946-), cidadania e liberdade só existem quando direitos políticos, civis
e sociais são naturalizados em uma sociedade nacional, ou seja, são uni-
versalizados.
Para que haja cidadania plena, é preciso que os direitos sociais venham
ra
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acompanhados dos direitos civis e políticos. No entanto, isso não aconteceu


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ao longo da história do Brasil. Essa ausência de direitos, que persistiu por sé-
rqu /A
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culos, é responsável por desigualdades de renda e étnico-raciais que se man-


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pe

têm ainda hoje.


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Mesmo após a independência do Brasil, só era considerado “senhor-


-cidadão” aquele que controlava terras, possuía escravos e detinha poder
político local. Para a socióloga brasileira Teresa Sales, eram esses proprie-

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Lula Marques/Folhapress

tários que cediam aos indivíduos pobres a condição de


cidadãos. Por isso, Sales identif ica que os primeiros direi-
tos civis – o de ir e vir, o de justiça, o direito à propriedade
e ao trabalho – nasceram de uma espécie de “cidadania
concedida”. Essa gênese da cidadania brasileira é contra-
ditória, pois, ao mesmo tempo que a elite concedia, nega-
va-se a cidadania ao ser humano livre e pobre, que depen-
dia dos favores do dono de terras para poder usufruir de
direitos elementares.
A primeira Constituição do Brasil republicano, de
1891, estendeu a cidadania a outros setores da popula-
ção, mas não incluiu os analfabetos, as mulheres, os pa-
dres e os soldados como indivíduos atuantes na vida polí-
tica nacional. As mulheres, por exemplo, só tiveram direito
ao voto com a Constituição de 1934, e os analfabetos, com
a Constituição de 1988. Esta última, ainda em vigor, foi
considerada a “Constituição cidadã”, em virtude da am-
pliação dos direitos sociais e do combate à discriminação
social.
Por meio da organização e da associação, os trabalha-
A Constituição de 1988 é apresentada pelo deputado dores brasileiros protagonizaram conquistas sociais. No
Ulysses Guimarães (1916-1992), presidente da Assembleia caso do Brasil, esse processo de lutas e conquistas dos tra-
Nacional Constituinte, em Brasília, 1988. Essa assembleia
foi composta por deputados eleitos pelo povo e teve como balhadores passou por tensões, conflitos e contradições,
finalidade elaborar uma nova Constituição para o Brasil. uma vez que em alguns momentos históricos o Estado
restringiu os direitos civis e políticos. Foi o que aconteceu
no período do governo de Getúlio Vargas entre 1937 e 1945 (o chamado
“Estado Novo”), no qual o Congresso estava suspenso e a imprensa, sob
censura. Apesar dessas restrições à cidadania, o governo instituiu em 1943
o estatuto jurídico denominado Consolidação das Leis do Trabalho (CLT),
que regulamentou o trabalho no país, reconhecendo o direito coletivo e
as garantias dos contratos individuais. A formalização do trabalho assegu-
rou a inclusão social e uma rede de proteção ao trabalhador. No texto a
seguir, podemos compreender como o movimento dos trabalhadores or-
ganizou-se, na forma de greves gerais e mobilizações, a f im de conquistar
esses direitos.

Foi com a urbanização e a industrialização, processos decisivos de 1890 em


diante, que o operariado emergiu como força social significativa nos vários centros
urbanos. Uma identidade operária começou a se forjar então, contrapondo-se aos
interesses burgueses [...]. A luta do operariado pela jornada diária de 8 horas de
trabalho foi constante ao longo do primeiro período republicano. Desde o início do
século XX ocorreram greves pela redução da jornada de trabalho. [...] Em 1907 [por
exemplo], eclodiu em São Paulo e atingiu Santos, Ribeirão Preto e Campinas, tendo
sido desencadeada na construção civil, na indústria da alimentação e metalurgia; a
greve abrangeu posteriormente empregados da limpeza pública, gráficos, sapatei-
ros e operários têxteis. O movimento foi reprimido violentamente e apenas alguns
setores operários obtiveram vitórias parciais.
DE DECCA, Maria Auxiliadora. Indústria, trabalho e cotidiano. Brasil – 1889 a 1930. São Paulo: Atual, 1991. p. 11.

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Embora seja importante valorizar as conquistas obtidas por meio de leis,
esta não é ainda uma realidade efetiva para todos os indivíduos. Vale desta-
car que é permanente o confronto entre a legalidade (o prescrito em lei, o
formal) e a legitimidade (aquilo que é aceito). Essa tensão ocorre também
em relação ao mundo do trabalho. O Estado brasileiro concede cidadania
aos trabalhadores que seguem prof issões regulamentadas, têm carteira pro-
f issional assinada e são f iliados a um sindicato registrado. Para essa situação,
o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos (1935-) utiliza a expres-
são cidadania regulada, ou seja, são cidadãos apenas aqueles que têm ocupa-
ções reconhecidas e def inidas em lei.
Ao estabelecer esta correlação, Santos refere-se à cidadania como uma
concessão na cultura cívica do país, pelo fato de o Estado interferir e regular hh cultura cívica: forma como os indi-
a vida econômica sem deixar de promover o desenvolvimento capitalista. víduos aceitam e se relacionam com o
Apesar das conquistas obtidas na lei, na prática existe um mercado de traba- Estado.
lho situado entre a formalidade e a informalidade, e os trabalhadores excluí-
dos do mercado formal sofrem com a desigualdade de benefícios e uma
crescente marginalização social.
Apenas com a Constituição de 1988 foram ampliados os direitos para
aqueles que estão fora da contratação formal de trabalho, como é o caso
do acesso à saúde pública. Mais recentemente, outras políticas sociais vol-
tadas a esses grupos foram implementadas, como o Bolsa Família (que
transfere renda a famílias consideradas extremamente pobres) e a criação
da categoria de microempreendedor individual (que formaliza trabalha-
dores autônomos, como pipoqueiros, vendedores ambulantes, etc.). Ain-
da há muitas categorias excluídas deste processo, como a das pessoas que
exercem a prostituição – que, embora não seja proibida no país, não é
regulamentada.

José Cruz/Agência Brasil

Manifestação em novembro de 2012, no Congresso Nacional, em Brasília (DF), pela aprovação de Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que
garante às empregadas domésticas os mesmos direitos trabalhistas dos demais trabalhadores. A PEC entrou em vigor em abril de 2013. Além
de estarem sujeitas, até então, a condições distintas de trabalho pela Constituição de 1988, as empregadas domésticas muitas vezes não têm
registro formal de trabalho.

Cidadania, política e Estado • 181

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Poder e política: exercício e participação
hh
persuasão: indução de forma pacífi- Pelo exercício da política – do diálogo, da palavra, da persuasão – os se-
ca ou coercitiva com o intuito de con- res humanos transformam sua realidade. É por ela também que os desprovi-
vencer um indivíduo a aceitar uma dos de direitos e benefícios podem mudar a sociedade e atuar coletivamente
ideia ou realizar uma ação. em prol do bem comum. Mas, quando os meios políticos não estão disponí-
veis, pode ocorrer o uso da força. Nesse caso, a política f ica de lado e o povo
hh
alijado: afastado, excluído. se vê alijado de decidir sobre seus representantes e de participar das deci-
sões sobre o destino da sua cidade, do seu estado e do seu país.
Se você está entre aqueles que pensam que a política se restringe aos
políticos, que ela é cansativa e deve ser deixada para quem entende do
assunto, saiba que, como parte do povo brasileiro, você foi levado a pensar
assim pelo próprio desenrolar histórico de nosso país. Por muito tempo – da
independência até o início do período republicano –, votar e ser votado
eram privilégios dos ricos e poderosos. No decorrer do século XX, existiram,
ainda, regimes políticos autocráticos, ou seja, caracterizados pelo
autoritarismo e pela concentração do poder. Os governos autocráticos
visavam controlar a sociedade por meio da repressão, como no período da
ditadura militar (1964-1985) ou no do Estado Novo (1937-1945). Tudo isso
contribuiu para afastar o povo da política e espalhar a ideia de que ela cabe
apenas aos partidos e políticos eleitos.
O f ilósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.) af irmava que o ser humano é
um animal político e, nessa condição, a política não se restringiria à dimensão
do Estado, mas à vida da cidade como um todo. Nessa concepção, fazemos
política em nosso cotidiano.
Fazemos política quando, no local de trabalho, nos unimos para con-
quistar melhorias ou participamos do sindicato. Fazemos política na escola
ou na universidade quando participamos das organizações estudantis, do
grêmio ou do diretório acadêmico. Fazemos política ao nos interessarmos
pelas coisas do nosso bairro, da nossa cidade, da zona rural, do nosso país;
enf im, quando queremos decidir o que é essencial para nossa vida. A políti-
ca está no nosso cotidiano, desde uma reunião de moradores do bairro para
Alessandro Assunção/ON/D.A Press reivindicar iluminação ou a instalação de um
semáforo, até o envolvimento formal com movi-
mentos sociais, partidos políticos ou grupos re-
ligiosos.
Participar de eleições é somente uma das
formas de atuar politicamente, embora seja
uma parte importante da atividade política. Por
meio das eleições escolhemos aqueles que nos
representam, tomam decisões e agem por nós
em determinadas esferas do poder, sendo re-
munerados para exercer essa função: isso é o
que def ine uma democracia representativa.

Assembleia de alunos, funcionários e professores da Universidade


Federal da Paraíba (UFPB) em 2011, na reitoria da instituição. O
diálogo é parte essencial da política nos Estados democráticos.

182 • capítulo 7

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As propostas, os projetos, as leis e a condu-

Delfim Martins/Pulsar Imagens


ção das políticas de Estado são votadas e concre-
tizadas por aqueles que escolhemos como repre-
sentantes políticos. No caso de repúblicas
federativas presidencialistas como o Brasil, são
os vereadores e prefeitos no nível do município;
os deputados estaduais e governadores no nível
do estado; e os deputados federais, senadores e
o presidente no nível federal. Suas decisões nos
afetam diretamente, desde o custo do pão de ca-
da dia à possibilidade ou não de estudar em uma
escola de qualidade.
Nas repúblicas federativas presidencialistas, diferentes atribuições são Mulher vota em urna eletrônica
na cidade de São Paulo
delegadas aos diferentes representantes. Os membros eleitos do Poder Le-
durante referendo sobre o
gislativo (vereadores, deputados e senadores) formulam leis e def inem o desarmamento no Brasil, em
orçamento anual, ou seja, onde os recursos arrecadados devem ser empre- 2005.
gados. O Poder Executivo, chef iado pelo prefeito (no município), pelo go-
vernador (no estado) e pelo presidente (no país), executa aquilo que as leis
determinam e administra as políticas, obras e serviços públicos. Já o Poder
Judiciário julga o cumprimento das leis pelos cidadãos. No caso do Brasil, o
Legislativo e o Executivo são eleitos pelo voto popular, enquanto os mem-
bros do Judiciário são selecionados mediante concursos públicos.
A divisão de poderes em três esferas foi elaborada pelo pensador ilumi-
nista francês Charles de Montesquieu (1689-1755). Ele defendia que os po-
deres não deveriam se concentrar nas mãos de um só indivíduo ou de um só
poder, pois este tenderia a abusar dele. A ideia era que cada poder funcio-
nasse independentemente, mas sempre sob a f iscalização dos demais.

aprendemos a fazer política também nas relações estabelecidas nos vários


espaços sociais dos quais participamos.

Há outras def inições do conceito de política que a restringem a estraté-


gias específ icas. Max Weber expõe em seu livro Ciência e política: duas vocações
que política é o conjunto de esforços feitos com vistas a participar do poder
ou a influenciar a divisão de poder, seja entre Estados, seja no interior de
um único Estado. Para ele, a política se relaciona ao poder do Estado e aos
indivíduos que aspiram obtê-lo.
Mas o que é o poder? Para Weber, ele tem relação com a capacidade de man-
do de um ser humano ou de um grupo de pessoas sobre determinada comuni-
dade ou país. Porém, o poder não pode ser visto como uma via de mão única.
Ele depende da legitimidade da dominação (conceito que vimos no capítulo 1);
ou seja, é preciso que esta seja aceita pelos dominados para que se mantenha.
Em uma visão mais alargada, o f ilósofo francês Michel Foucault (1926-
Filipe Rocha/Arquivo da editora

-1984) destaca que o poder se encontra em todas as relações sociais, e não


apenas no Estado. Assim, o poder está presente nas microrrelações: na famí-
lia (onde existe a autoridade do pai e da mãe), na sala de aula (na relação
entre professor e aluno), nas instituições religiosas (com a autoridade do
padre, do pastor ou de outros líderes em relação aos seus f iéis), nas relações
de gênero (entre homens e mulheres), etc.

Cidadania, política e Estado • 183

Sociologia_vu_PNLD15_171a198_C07.indd 183 5/28/13 8:43 AM


Podemos identif icar relações de poder e exercício da política em todas
as esferas de nossa vida. O poder está difuso, heterogêneo, na tensão exis-
tente nas relações sociais. Poder é uma prática social, no sentido de que é
algo que se exerce e se efetua, e há sempre múltiplas resistências dentro da
própria rede de poder. Para Foucault, é possível verif icar esses poderes mí-
nimos em qualquer situação concreta.

dEbatE

Quando o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-) nos mostra o princípio da


democracia – o poder de todos –, ergue aos nossos olhos a importância da conquis-
ta da cidadania:

Esta ideia [de cidadão como membro de um corpo político e titular do decidir,
com outros membros, sobre direitos e deveres, prerrogativas e obrigações] foi lan-
çada na fundação da democracia moderna e da visão de república – res publica –
como um corpo político cujos membros deliberam coletivamente sobre como mol-
dar as condições de sua coabitação, cooperação e solidariedade.
Tal modelo de democracia moderna nunca foi completamente implementado.
[...] Enquanto os poderes constituídos promovem o governo de poucos, a democra-
cia é uma constante alegação em nome de todos [...].
BAUMAN, Zygmunt. A sociedade individualizada: vidas contadas e histórias vividas. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. p. 74.

• Quais práticas de nossa sociedade levam a identif icar o caráter político af irmativo
da democracia? Promovam um debate questionando em que aspectos a realidade
atual do país se distancia dessa ideia inicial.

Cidadania: entre o público e o privado


O pensador francês Alexis de Tocqueville (1805-1859), como outros auto-
res clássicos, discutiu a cidadania pela ótica do espaço urbano, pois a cidade é
o local onde primeiro se manifesta a distinção entre o poder público e o po-
der privado. A delimitação entre o espaço público (de interesse geral) e o
espaço privado (restrito a indivíduos) articula-se justamente por meio do Estado.
Karlos Geromy/OIMP/D.A Press Pensar a cidadania entre as duas esferas – a pública e a
privada – torna possível entendê-la como o conjunto de
direitos e deveres na convivência coletiva. A tensão perma-
nente entre indivíduo e sociedade que a cidadania faz sur-
gir é própria da vida política.

a cidadania diz respeito às relações entre o Estado e os


cidadãos, definindo o espaço público quanto a direitos e
obrigações dos cidadãos.

Pessoas participam de mutirão do Dia Mundial da Limpeza das Praias, na praia do


Calhau, em São Luís, capital do Maranhão, em 2012. Por se constituir num espaço
que ao mesmo tempo é de todos e não é propriedade de ninguém, a esfera pública
está sujeita tanto ao descaso dos indivíduos como ao benefício de ações coletivas.

184 • capítulo 7

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A f ilósofa política alemã Hannah Arendt (1906-1975) def iniu a esfera
pública como o “mundo comum” – aquilo que é de todos e, ao mesmo
tempo, aparentemente não é de ninguém. Isso implica respeito e respon-
sabilidade ao que é de todos para que cada um possa usufruir esse “mundo
comum”. Quando os membros de uma sociedade perdem essa noção, há
um declínio da esfera pública com consequências sociais graves para o
conjunto das relações: há a privatização do que deveria ser de todos, a de-
mocracia se restringe e os direitos coletivos f icam diminuídos, dando mar-
gem ao fenômeno da corrupção. A Ciência Política aponta a origem da
corrupção política quando da queda da monarquia absolutista. Até então,
tudo pertencia ao rei; no momento em que o Estado moderno é instituí-
do, os bens do rei são separados dos recursos do Estado, e a apropriação
destes por qualquer indivíduo ou grupo passa a ser proibida e considerada
um ato de corrupção.
A esfera privada corresponde aos interesses particulares. A palavra pri-
vado, originalmente, tem relação com privação, af irma Arendt, no sentido
de que viver uma vida inteiramente privada signif ica ser destituído de ser
visto e ouvido pelos outros. A possibilidade de estar com os outros, de
estabelecer interações com os grupos sociais, insere o indivíduo no espa-
ço público. The Bridgeman Art Library/Getty Images

A esfera pública e a esfera privada


nasceram de uma transformação his-
tórica da propriedade. Na passagem
da era feudal para a moderna, os reis
e seus súditos assumiram publicamen-
te sua condição de proprietários, exi-
gindo proteção para seus bens e pro-
priedades. Com isso, a riqueza se
transformou em capital, ou seja, pas-
sou a ser um proveito para o indiví-
duo. Sociologicamente, isso causou
uma contradição, pois a riqueza que
deveria ser comum (e, portanto, pro-
tegida por todos) se destinava à vida
privada. Na modernidade, essa con-
tradição entre as esferas pública e pri-
vada se agravou. O palácio de Versalhes e seus
A questão dos direitos civis vai além da conquista de espaços setoriais, co- jardins em pintura de Pierre
Patel, de 1668. A pomposa
mo o direito à educação básica, à previdência ou mesmo à sobrevivência ma-
construção foi sede da corte
terial; ela não se restringe aos direitos humanos. Os direitos civis englobam os francesa e símbolo da monarquia
direitos de grupos dentro da sociedade – mulheres, negros, indígenas, idosos, absolutista de Luís XIV.
migrantes, imigrantes, sem-terra, sem-teto, pessoas com deficiência (PCD) e
outros grupos historicamente discriminados ou marginalizados –, que hoje se
organizam para reivindicar tratamentos específicos e espaços que lhes foram
retirados ou negados.

o debate sobre cidadania, promovido também pelas ciências Sociais, contribui


para que ela seja alcançada nas sociedades contemporâneas.

Cidadania, política e Estado • 185

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Tem prevalecido como ideal em nossa sociedade e entre cientistas sociais
a concepção universalista dos direitos do indivíduo. Essa concepção se ba-
hh
dignidade: no campo da ética e da seia no reconhecido valor do ser humano à dignidade, mas articula esses
filosofia política, significa respeito e direitos individuais aos sociais e coletivos. Assim, é necessária a existência de
tratamento ético. leis e regras de convivência que garantam os direitos e a segurança dos cida-
dãos, até mesmo contra ações muitas vezes arbitrárias dos Estados.

pausa par a r E f l E t i r

Observe atentamente a charge de Angeli reproduzida a seguir. Ela faz uma crítica
social e nos reporta aos direitos de cidadania.
Angeli/Acervo do cartunista

1. Escreva, em poucos parágrafos, sobre como você percebe os direitos de cidadania


e as dif iculdades para que todos vivam uma cidadania plena em nosso país.
2. Relate algum caso que você conheça e que tenha signif icado uma conquista ou
uma ampliação de direitos de cidadania.

Estado e sociedade
Desde a Idade Moderna, o exercício do poder político legítimo é consi-
derado em nossa sociedade uma atividade própria do Estado. Um dos pri-
meiros estudiosos a fornecer as bases para essa concepção foi o historiador e

186 • capítulo 7

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diplomata italiano Nicolau Maquiavel (1469-1527), que acompanhou atenta-
mente a centralização política que ocorria em outras partes da Europa. Com
base em análises de fatos de sua época e de outros períodos, Maquiavel bus-
cou orientar aquele que pudesse unif icar as cidades italianas em um Estado,
a f im de que não permanecessem vulneráveis aos exércitos de outras nações.
Embora aconselhe ao soberano que se faça temido pelos governados
(inclusive com o uso da força), Maquiavel adverte que ele não pode ser odia-
do. Vê-se então, desde essa época, a ideia de que, para aceitar a dominação,
a sociedade precisa considerá-la legítima.
Hoje, pode-se af irmar que o Estado tem como função assegurar, por
meio de políticas públicas, certas condições de vida que a sociedade consi-
dera necessárias à população. Não há, no entanto, unanimidade quanto ao
papel dessa instituição social, tampouco quanto às interpretações teóricas a
respeito dela. É fato que esse é um tema controverso.

Concepções de Estado e sociedade civil na Idade Moderna


A primeira definição de sociedade civil foi elabo-

Diosphere Ltd./Diomedia
rada pelo filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679).
Ele acreditava que, em seu estado natural, os homens
lutavam uns contra os outros pelo poder e por rique-
zas. Por isso, os indivíduos abrem mão de sua liberda-
de e concebem regras de convivência a fim de garantir
condições mínimas de estabilidade. Forma-se, assim, a
sociedade civil – que, no pensamento de Hobbes, é
sinônimo de Estado.
Para o filósofo inglês John Locke (1632-1704), a so-
ciedade civil é mais um aprimoramento do estado natu-
ral do que uma solução para ele. O homem, livre e igual
por natureza, precisa de um poder imparcial e legítimo
para mediar conflitos, garantindo os direitos que já tinha
A coroação de Guilherme III, em 1689, como rei da Inglaterra. Para
no estado natural: à vida, à liberdade, à saúde e à proprie- ser coroado após a Revolução Gloriosa, Guilherme de Orange
dade. Além da ideia de igualdade no nascimento, o res- aceitou os termos da Declaração de Direitos, pela qual, na prática,
peito à propriedade como um direito natural do homem repassava o poder político para o Parlamento. Gravura de 1860.
está em conformidade com os fundamentos liberais da
burguesia em ascensão na Inglaterra do século XVII. Se Locke considerava a propriedade privada um
Conforme a burguesia e o Estado moderno se direito natural, para o filósofo suíço Jean-Jacques
consolidavam na Europa, a noção de sociedade civil Rousseau (1712-1778) ela era justamente a origem
foi se distanciando da de sociedade política. Durante a da desigualdade e da corrupção moral. A sociedade
Idade Média, tanto o poder como a propriedade eram civil, instaurada com a invenção da propriedade, se-
hereditários. Na sociedade burguesa moderna, esses ria uma degeneração do estado de natureza, no
dois aspectos se desvinculam: embora, na sociedade qual os seres humanos eram bons, livres e felizes.
civil, a propriedade continue sendo transmitida de pai Para Rousseau, os indivíduos só recuperariam as
para filho, o poder político passa a obedecer a normas qualidades perdidas quando a sociedade civil se
e leis próprias. Segundo o cientista político italiano Lu- transformasse em sociedade política, na qual a von-
ciano Gruppi (1920-2003), garante-se a democracia no tade geral do povo seria soberana – ou seja, na qual
âmbito da sociedade política, desde que esta não in- as leis e regras a serem seguidas emanassem do
terfira na propriedade e na livre iniciativa econômica. próprio povo.

Cidadania, política e Estado • 187

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O que é e como funciona o Estado? Não há uma visão única sobre isso.
Na interpretação do f ilósofo alemão Friedrich Engels (1820-1895), o Estado
é um produto da sociedade e seu papel é amortecer os conflitos sociais, evi-
tar os choques entre as classes e, de certo modo, assegurar a reprodução do
sistema social. Eis a sua concepção:

O Estado não é, pois, de modo algum, um poder que se impôs à sociedade de


fora para dentro; tampouco é “a realidade da ideia moral”, ou “a imagem e a realidade
da razão”. É antes um produto da sociedade, quando esta chega a um determinado
grau de desenvolvimento; é a confissão de que essa sociedade se enredou numa
irremediável contradição consigo mesma e está dividida por antagonismos irre-
conciliáveis [...]. Mas para que esses antagonismos, essas classes com interesses
econômicos colidentes não se devorem e não consumam a sociedade numa luta
estéril, torna-se necessário um poder colocado aparentemente acima da socieda-
de, chamado a amortecer o choque e a mantê-lo dentro dos limites da “ordem”.
Esse poder, nascido da sociedade, mas posto acima dela e distanciando-se cada
vez mais, é o Estado.
ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. São Paulo: Global, 1985. p. 227.

Já o f ilósofo político grego Nicos Poulantzas (1936-1979) pensa o Estado


como uma relação de forças, uma relação de poder entre as classes sociais e
no próprio interior delas. Para Louis Althusser (1918-1990), f ilósofo fran-
cês, o Estado é composto por aparelhos ou instituições sociais (como é o
caso do exército, da administração, do sistema judiciário e do aparato da
polícia) e tem por função a repressão, ou seja, a manutenção da ordem so-
cial. Esta, por sua vez, é moldada pelos interesses da classe dominante, que
faz com que o Estado esteja a seu serviço.
Teresa Maia/DP/D.A Press
Na concepção do sociólogo Max
Weber, o Estado só pode existir quando
os seres humanos se submetem à autori-
dade de um grupo dominante. Nesse
sentido, quando essa instituição se cons-
titui, estabelece-se uma relação de “do-
minação do homem sobre o homem”,
um “monopólio da violência legítima”.
Em outras palavras, trata-se da obediên-
cia da população a um grupo dominante
mediante uma violência reconhecida e
amparada legalmente.
Acompanhe, no quadro da página
seguinte, a perspectiva de diferentes au-
tores sobre a natureza do Estado.

Estudantes entram em confronto com o Batalhão de


Choque da Polícia Militar, durante protesto, em
2012, contra o aumento de passagens do transporte
público na Região Metropolitana do Recife. Para
Althusser, aparelhos como a polícia estão a serviço
da ordem social vigente.

188 • capítulo 7

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Interpretações sobre a natureza do Estado

No Estado prevalece o poder organizado de uma classe social que é dominante por deter a
propriedade dos meios materiais de produção. Há na estrutura da sociedade dois níveis articulados: a
Karl Marx
base e a superestrutura. A base comporta a unidade de forças produtivas e relações de produção; já a
(1818-1883) superestrutura é composta das instâncias jurídico-política (o Direito e o Estado) e ideológica (a moral, a
ciência, a filosofia, etc.).

Friedrich
O Estado é um produto da sociedade e tem como papel amortecer os conflitos, os choques entre as classes
Engels
e assegurar a reprodução do sistema social.
(1820-1895)

Max Weber O Estado existe quando há obediência à autoridade de um grupo dominante e essa relação de dominação
(1864-1920) está fundada na violência legítima, legalmente reconhecida.

Antonio O Estado tem papel importante nos campos cultural e ideológico, bem como na organização do consentimento
Gramsci – ou seja, busca legitimar-se perante a sociedade civil não apenas pela coerção, mas, sobretudo, pela aceitação
(1891-1937) da autoridade.

Louis As relações de poder necessitam de instituições que as reproduzam – escola, família, igreja, veículos de
Althusser comunicação, que são os aparelhos ideológicos do Estado. O poder e a ideologia, fenômenos correlatos, são
(1918-1990) exercidos por essas organizações formais mediante símbolos e práticas sociais.

Nicos Embora o Estado capitalista não seja um instrumento totalmente controlado pela classe dominante, devido
às lutas entre as frações que a compõem, ele fornece o quadro para que os operários não se reconheçam
Poulantzas
como integrantes de uma mesma classe. Isso ocorre com a criação de noções como a de identidade nacional,
(1936-1979) que submetem todos a um conjunto unificado de regras e instituições.

Octavio
O Estado não é apenas um órgão da classe dominante, pois responde aos movimentos das outras classes
Ianni
sociais e age conforme as determinações das relações entre elas. Ele faz parte do jogo de interesses sociais.
(1926-2004)

E ncon tro com os ciEn tis tas s oc i ai s

Max Weber teoriza sobre as características do Estado moderno. Uma delas é a vio-
lência legítima. Leia com atenção e responda à questão.

É conveniente definir o conceito de Estado em correspondência com o moder-


no tipo do mesmo – já que em seu pleno desenvolvimento é inteiramente moderno
– mas com abstração de seus f ins concretos e variáveis, tal como o vivemos. Carac-
teriza hoje formalmente ao Estado o ser uma ordem jurídica e administrativa – cujos
preceitos podem variar – pela qual se orienta a atividade [...] que se pretende válida
aos membros da associação – que a ela pertencem essencialmente por nascimento
– como também toda ação executada no território a que se estende a dominação
[...]. É, portanto, característico: que hoje só exista coação “legítima” desde que a or-
dem estatal o permita ou prescreva.
WEBER, Max. Economía y sociedad. v. 1. Bogotá: Fondo de Cultura Económica, 1977. p. 45. Texto traduzido.

• O monopólio do poder estatal é um traço atual, semelhante à racionalidade da


empresa moderna, segundo Weber. Identif ique situações em que o Estado con-
temporâneo, disputando poder com outras instituições sociais, faz valer seu cará-
ter de coação legítima, amparada pela lei e aceita como tal.

Cidadania, política e Estado • 189

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Estado e governos
Ao mesmo tempo que o Estado se revela necessário na sociedade atual,
é também foco de contradições e problemas de diversas ordens. Na con-
temporaneidade, podemos observar, por exemplo, as disputas pelo po-
der estatal entre as classes sociais e pelos grupos de diferentes partidos
políticos.
Preocupados com teorias que possam explicar o Estado e suas transfor-
mações, os cientistas sociais fazem um balanço histórico sobre essa questão
e se perguntam: que tipo de Estado existia há cem anos, aqui no Brasil, na
Europa, na América do Norte, na África ou na Ásia? O cientista político sue-
Filipe Rocha/Arquivo da editora co Göran Therborn (1941-) responde:

Em quase todos os países tínhamos aparatos estatais oligárquicos, sem partici-


pação da maioria da população, dos trabalhadores. As mulheres estavam excluídas
dos direitos políticos em todos os países independentes do mundo. O racismo
encontrava-se institucionalizado em lei e normas em um grande número de paí-
ses. Uma parte significativa do mundo era governada por forças coloniais ou por
dinastias imperiais. Em comparação com tudo isso, que Estado temos agora? Na
grande maioria dos países, institucionalizaram-se Estados democráticos, onde o
sexismo e o racismo são, pelo menos, vergonhas ilegais, embora, naturalmente,
ainda persistam. Estados onde certos serviços sociais, como por exemplo a educa-
ção, formam parte da rotina cotidiana do aparato estatal. Tal trajetória teve custos
enormes: as duas guerras mundiais, numerosas guerras civis e coloniais, revolu-
ções e contrarrevoluções, ditaduras sangrentas e repressões brutais. [...]. Em um
balanço geral podemos ver como durante essas décadas também se produziram
importantes progressos, assim como um número significativo de lutas pela eman-
cipação e pela liberdade.
THERBORN, Göran. As teorias do Estado e seus desafios no fim de século. In: SADER, Emir; GENTILI, Pablo (Org.).
Pós-neoliberalismo II: que Estado para que democracia? Petrópolis: Vozes, 1999. p. 88.
Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Plenário da Câmara dos


Deputados durante sessão do
Congresso Nacional para
indicação dos integrantes da “CPI
do Cachoeira”. Foto de 2012.

190 • capítulo 7

Sociologia_vu_PNLD15_171a198_C07.indd 190 5/28/13 8:44 AM


Lembremos que, além da centralização da administração da coisa públi-
ca, um dos aspectos do desenvolvimento do Estado moderno é o seu vínculo
mais característico com a democracia – um regime político em que o poder
é legítimo por se originar do povo e se apoiar nele. Independentemente da
forma e do conteúdo que o Estado possa assumir historicamente, trata-se de
uma instituição social arraigada, distinta do conceito de governo. Os gover-
nos são formados pelos grupos que temporariamente ocupam o aparelho de
Estado para gerir o poder político; eles passam, mas o Estado permanece.
Segundo o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), o governo é defi-
nido como uma maneira correta de dispor as coisas para conduzi-las não ao
bem comum, como diziam os textos dos juristas,

[...] mas a um objetivo adequado a cada uma das coisas a governar. O que implica,
em primeiro lugar, uma pluralidade de fins específicos como, por exemplo, fazer com
que se produza a maior riqueza possível, que se forneça às pessoas meios de subsis-
tência suficientes, e mesmo na maior quantidade possível, que a população possa se
multiplicar, etc. Portanto, [...] não se trata de impor uma lei aos homens, mas de dispor
as coisas, isto é, utilizar mais táticas do que leis, ou utilizar ao máximo as leis como
táticas. Fazer, por vários meios, com que determinados fins possam ser atingidos.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 9. ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979. p. 284.

As mudanças no Estado se relacionam em geral com os grupos que estão


no poder e com seus projetos políticos. Essa é a eterna contradição do Estado:
teoricamente ele existe para todos, mas muitas vezes serve apenas a alguns
grupos econômicos, aos mercados e às elites. Quando certos governos buscam
cooptar o Estado e tendem a se confundir com ele, resultam prejuízos para a
cidadania. Assim o vê a Ciência Política, a ciência social que estuda os fenôme-
nos de natureza política, o Estado e suas formas de organização, os processos
de tomada de decisões políticas, os sistemas e regimes políticos, e as institui-
Charge sem data que satiriza a
ções sociais destinadas a garantir justiça, direitos e segurança aos cidadãos.
República oligárquica brasileira.
Os partidos políticos ou certos grupos sociais no poder podem conferir Nela, dois homens, um
determinadas características ao Estado. No Estado corporativo, por exemplo, representando Minas Gerais e
organizam-se corporações para representar politicamente os diferentes inte- outro, São Paulo, oscilam em
uma gangorra.
resses econômicos, industriais e pro-

Reprodução/Arquivo da editora
f issionais. Com isso, muitas vezes, os
interesses desses grupos sociais mis-
turam-se com os do aparelho públi-
co, como ocorreu no fascismo italia-
no entre 1922 e 1943. Outro exemplo
de apropriação do Estado foi a Repú-
blica brasileira entre 1889 a 1930,
chamada por alguns de “República
dos coronéis” ou “dos fazendeiros”.
Esses colocavam o Estado a serviço
de seus interesses particulares, e não
da coletividade e do povo, como pre-
vê o termo república em sua origem –
res publica, em latim, significa ‘coisa
pública’.
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Partidos políticos e o quadro partidário no Brasil
Os partidos políticos são agrupamentos sociais Os partidos políticos são importantes instrumen-
em que se organizam as diferentes correntes ideológi- tos da democracia, pois é por meio deles que os cida-
cas, cada qual com a sua concepção de forma de go- dãos podem participar de um coletivo, discutir pro-
verno, de exercício do poder, de participação na políti- postas, pensar soluções para problemas sociais,
ca e de solução para os problemas de um país. escolher seus representantes para se candidatar nas
Ainda que suas ideologias e propostas apresen- eleições de todos os níveis. No século XX, os partidos
tem muitas semelhanças entre si, a multiplicidade de concentraram as aspirações políticas dos cidadãos, ao
partidos políticos tem sido uma das características da propiciarem condições de participação e de militância
política brasileira neste início de século. Em 2013, mais muitas vezes ligada a movimentos sociais.
de trinta agremiações políticas de diferentes tama- O papel social dos partidos na formação política vem
nhos compunham o quadro partidário, mas apenas as se alterando pela crise das ideologias e pela fragmenta-
bancadas de quatro partidos concentravam metade ção das classes sociais, entre outros fatores. Ainda assim,
dos deputados do Congresso: PMDB, PSD, PSDB e PT. é difícil imaginar uma democracia sem partidos.

hh
Duas visões sobre a atuação do Estado capitalista
Como vimos, as mudanças no Estado e no seu papel têm relação com os
grupos políticos no poder. No último século, em países capitalistas democrá-
ticos, basicamente se sobressaíram duas formas de atuação, conforme a ação
mais ou menos interventora do Estado: o Estado Social (ou Estado do Bem-
-Estar Social) e o Estado neoliberal. O Estado do Bem-Estar Social (Welfare
State), que se estabeleceu em determinados países da Europa, atua no senti-
do de garantir seguridade social e proteção ao indivíduo contra adversida-
des na economia e excessos do mercado. Já o Estado neoliberal propõe a
intervenção mínima na economia e nas relações de trabalho.
A intervenção maior do Estado apresentou-se como solução à crise pela
qual o sistema capitalista passou na década de 1930. Segundo o f ilósofo e
sociólogo alemão Jürgen Habermas, essa e as outras crises que se sucederam
representavam uma ameaça muito direta à integração social.
Bettmann/Corbis/Latinstock

Um especulador da bolsa de
valores de Nova York tenta
vender seu carro após falir
com a quebra da bolsa. O
cartaz diz: “Cem dólares
compram este carro. Preciso
do dinheiro. Perdi tudo no
mercado de ações”. Foto de
outubro de 1929.

192 • capítulo 7

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Até então, os Estados capitalistas pautavam-se pela doutrina liberal do
laissez-faire, pela qual a livre-iniciativa, a livre concorrência e a regulamen- hh
laissez-faire: termo derivado da ex-
tação do mercado por si próprio seriam princípios para o desenvolvimen- pressão “Laissez-faire, laissez-passer”,
to econômico e social. No entanto, a especulação f inanceira gerou uma que significa “Deixe fazer, deixe pas-
grave crise que levou milhões de pessoas na Europa e nos Estados Unidos sar”, sintetizando a ideia de que o Es-
tado deve interferir o mínimo possí-
ao desemprego.
vel na economia.
A formação plena do Estado de Bem-Estar Social ocorreu após a Segun-
da Guerra Mundial, em determinados países europeus, embora sua inspira-
ção tenha vindo de medidas adotadas nos Estados Unidos nos anos 1930.
Nessa conf iguração, ampliaram-se as funções do Estado, dentre as quais se
incluíram: regular a economia, evitando práticas abusivas das grandes com-
panhias; buscar conter as crises econômicas e evitar o desemprego por
meio de subsídios a empresas e investimentos diretos em obras de infraes-
trutura; e ampliar a oferta de serviços de saúde, educação, transporte e
habitação, dentre outros, assegurando condições mínimas de cidadania e
de renda para a população.
O Estado de Bem-Estar constitui-se, então, como um provedor de servi-
ços à população (daí ser chamado Estado-Providência) e como uma rede de
proteção social contra os excessos do sistema capitalista, sem, no entanto, se
opor a ele. Ao contrário: suas políticas de estímulo à economia também vi-
savam garantir que as empresas mantivessem sua produção e seu lucro. Des-
se modo, propiciou (pelo menos na Europa ocidental e, em certa medida,
nos Estados Unidos) uma relativa “paz”, compreendida aqui no âmbito da
luta entre capital e trabalho.
Nos anos 1970, diante de outra crise econômica mundial, economistas
propuseram que o Estado diminuísse seus gastos e seu papel na condução
da economia. Para isso, os investimentos em infraestrutura deveriam ser
conduzidos pela iniciativa privada e os serviços sociais públicos deveriam
ser reduzidos, deixando aos indivíduos o gasto com os serviços que utilizas-
sem. Acima de tudo, propunha-se que a economia fosse menos regulamen-
tada, de modo que as empresas atuassem com mais liberdade.
Casper Hedberg/Bloomberg/Getty Images

Cidadão sueco é atendido por


funcionária de agência do
Escritório Público Sueco de
Emprego, na capital Estocolmo,
em 2012. O órgão auxilia os
cidadãos na busca por trabalho e
é responsável pelo pagamento do
seguro-desemprego, políticas
características do Estado de
Bem-Estar Social.

Cidadania, política e Estado • 193

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Esses preceitos, implementados primeiramente na Inglaterra e nos Esta-
dos Unidos, disseminaram-se mundo afora, especialmente após a queda do
socialismo no Leste Europeu. Com isso, conglomerados industriais e f inan-
ceiros tiveram condições de se expandir e aumentar seus lucros. Ao mesmo
tempo, milhares de pessoas viram-se desempregadas, devido às inovações
tecnológicas e à flexibilização do trabalho (conforme vimos no capítulo 3),
e com pouco amparo social.
As críticas ao Estado neoliberal intensif icaram-se a partir de 2008, quan-
do se instaurou uma nova crise econômica mundial. Para muitos estudiosos,
a desregulamentação f inanceira promovida nas últimas décadas foi a princi-
pal causa dessa crise. Já os defensores do Estado mínimo propõem que se
reduzam ainda mais os gastos públicos para que a economia volte a crescer.

pausa par a r E f l E t i r

De fato não vemos no Estado apenas governantes, ministros, funcionários, ho-


mens e mulheres que falam em nome do Estado e o representam [...]. O Estado não
é nem mesmo uma organização de organizações, a soma das instituições que o
compõem. Pode-se entrar e sair de uma organização [...], mas não há como sair do
Estado. Precede-nos, nascemos nele, somos por ele ministeriáveis ao longo de toda
a existência. Aliás, as duas pontas, nascimento e óbito, começam e terminam no
Ministério da Justiça. Lá vão bater os nossos registros de nascimento e óbito. Da
Justiça, passamos ao Ministério da Saúde, ao tomar vacinas. Em seguida ao da Edu-
cação, ao ingressar na escola e, depois, ao do Trabalho, ao obter emprego.
BETTO, Frei. A mosca azul. Rio de Janeiro: Rocco, 2006. p. 190-1.

1. Como o autor analisa a relação entre você e o Estado?


2. Para você, qual é o papel social do Estado?

hh
Autoritarismos e totalitarismos: ameaças à cidadania

Acervo Iconographia/Reminiscências
A história nos mostra que o Estado
assumiu diversas outras formas, muitas
delas autoritárias – sendo os casos mais
extremos def inidos como totalitários.
Nesse tipo de regime político, o gover-
no é dominado por um grupo que im-
põe a ideologia de que o Estado está
acima da sociedade. Inverte-se, assim, a
lógica da democracia de que o Estado
deve servir ao povo.

Cartaz produzido em 1940 pelo Departamento de


Imprensa e Propaganda (DIP), órgão criado pelo
governo Vargas em 1939 para promover o governo e
aplicar a censura oficial. Embora tenha garantido
diversos direitos sociais aos trabalhadores, Vargas
implementou políticas de controle social inspiradas
nas dos estados totalitários europeus da época.

194 • capítulo 7

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Os totalitarismos ganham espaço em momentos de grave crise, como
nos anos 1930, em que o capitalismo liberal caiu em descrédito. Nas expe-
riências históricas desse tipo de regime, além de uma ideologia of icial, se
constituía uma forte polícia política de controle social, visando garantir a
existência de um partido único e a censura e repressão de qualquer forma
de opinião que se opusesse à dos governantes. Partido e Estado, portanto,
se confundiam com o objetivo de controlar as massas pelos meios de comu-
nicação e da propaganda político-doutrinária. O fascismo italiano (1922-
-1944) e o nazismo alemão (nacional-socialismo, 1933-1945), são exemplos
de regimes políticos totalitários.
Outro exemplo de Estados autoritários foram as ditaduras militares lati-
no-americanas na segunda metade do século XX. Assim como ocorreu no
Brasil, países como Chile e Argentina viveram períodos de repressão e au-
toritarismo com ditaduras desenvolvidas no contexto da Guerra Fria (1945-
-1989). Elas chegavam ao poder com o pretexto de barrar a “ameaça comu-
nista” e, diferentemente dos regimes totalitários, que conclamavam as
massas a apoiá-los, se assentavam na apatia e no conformismo da popula-
ção. Sobre a ditadura brasileira (1964-1985) – uma ditadura militar, isto é
governada e regida pelos militares –, pode-se dizer que conteve a participa-
ção do povo na política, controlou os sindicatos, os meios de comunicação, Cena do filme No, dirigido por
Pablo Larraín e lançado em
perseguiu e torturou centenas de brasileiros que buscavam outro tipo de 2012. O drama, com base em
regime político. fatos reais, se passa durante o
Nesses regimes políticos, totalitários ou autoritários, o direito do exercí- regime militar chileno e retrata
os esforços civis pela vitória do
cio da política é retirado da população. Portanto, a própria cidadania plena
“Não” no plebiscito realizado
também é posta em xeque, na medida em que os direitos civis (como a liber- em 1988, que significava a
dade de ir e vir e a igualdade de direitos), políticos (como a liberdade de abertura democrática do país e
expressão e de voto) e até mesmo sociais são restritos. o fim do governo ditatorial de
Pinochet.

Canana Films/Fabula/Imovision

Cidadania, política e Estado • 195

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diálogo s i n t E r d i s c i p l i nar E s

Reúnam-se em equipes e realizem uma pesquisa sobre a democracia e a


cidadania no Brasil, conforme as seguintes especif icações:
1. Consultem bibliograf ias de Sociologia, Ciência Política, História, Filosof ia e Geo-
graf ia que abordem os conceitos e teorias sobre democracia e cidadania. Com
Filipe Rocha/Arquivo da editora

base nessa visão multidisciplinar, expliquem as relações entre estes fenômenos.


2. Leiam tópicos da Constituição Brasileira de 1988, denominada Constituição Cida-
dã, e identif iquem como ela contribuiu para ampliar e consolidar a cidadania no
contexto da redemocratização do país.
3. Considerando as esferas municipal, estadual e federal do Poder Executivo no
Brasil, suas respectivas instituições e formas de ação, procurem saber sobre as
diferentes possibilidades de participar politicamente:
• na reivindicação de nossos direitos;
• no acompanhamento e controle da ação dos agentes públicos;
• no combate à corrupção.

Para este exercício, cada equipe deverá escolher apenas uma das três esferas.

r E v i s a r E sistEm atiza r
1. Por que a Sociologia considera a cidadania fruto de uma conquista social?
2. Como se deu, na História, o reconhecimento dos direitos do indivíduo?
Destaque documentos e concepções relacionados a esse processo.
3. Justif ique a relação estabelecida entre cidadania e a condição de traba-
lhador assalariado.
4. Discorra sobre a construção da cidadania na sociedade brasileira.
5. Explique por que a política não se restringe às disputas pelo poder, no
âmbito do Estado.
6. O que é poder? Como ele é conquistado e como seu uso se manifesta?
Exemplif ique.
7. Conceitue, em suas palavras, o que é Estado, diferenciando-o do con-
ceito de governo.
8. De que modo o Estado, tal como o conhecemos hoje, se relaciona com
as esferas pública e privada?
9. De que modo o totalitarismo ameaça as conquistas da cidadania?

conceitos-chave:
Cidadania, direitos, direitos civis, direitos políticos, direitos sociais, esfera pública, esfera
privada, Estado, governo, totalitarismo, democracia, política, poder, políticas públicas,
políticas sociais, partidos políticos.

196 • capítulo 7

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dE scubra m ais
As Ciências Sociais na biblioteca

Reprodução/Editora Brasiliense
DALLARI, Dalmo. O que são direitos da pessoa. São Paulo: Brasiliense, 1981.
Este livro analisa as dificuldades e contradições na definição e aplicação dos direitos individuais e
os desafios na busca por garantir a dignidade a todos os seres humanos.
_. O que é participação política. São Paulo: Brasiliense, 1983.
Para o autor deste livro, a conquista da cidadania passa pela participação na política – um direito e
um dever de todos.
GRUPPI, Luciano. Tudo começou com Maquiavel: as concepções de Estado em Marx, Engels, Lênin e Gramsci.
Porto Alegre: L&PM, 1980.
A perspectiva de autores clássicos das Ciências Sociais sobre o surgimento e a constituição do
Estado moderno são analisados neste livro pela perspectiva marxista.

As Ciências Sociais no cinema


O grande ditador, 1940, Estados Unidos, direção e atuação de Charles Chaplin.
Nesta sátira, Chaplin interpreta papéis antagônicos: o de um barbeiro judeu e o do ditador Capa do livro O que são direitos
que persegue o povo judeu. O discurso final é uma apologia do triunfo da razão sobre o mili- da pessoa, de Dalmo Dallari (ed.
tarismo. Brasiliense).
Desaparecido, um grande mistério, 1982, Estados Unidos, direção de Costa-Gavras.
Trabalhando com denúncias políticas, o filme narra a luta de um norte-americano à procura de
seu filho desaparecido durante a ditadura de Pinochet, no Chile.

Photos 12 - Cinema/Diomedia
A corporação, 2003, Estados Unidos, direção de Mark Achbar e Jennifer Abbott.
Este documentário, com roteiro do jurista Joel Bakan, tece críticas à origem e à dinâmica das
empresas transnacionais, comparando-as com pessoas.
O que é isso, companheiro?, 1997, Brasil/Estados Unidos, direção de Bruno Barreto.
Inspirado na história real de estudantes que integraram o MR8, grupo que combateu o regime militar
no Brasil da década de 1960 com ações armadas, como o sequestro do embaixador norte-americano.

As Ciências Sociais na rede


Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e pela Vida. Disponível em: <www.acaodacidadania.com.br>.
Cena do documentário A
Acesso em: 28 nov. 2012.
Página da organização fundada pelo sociólogo Herbert de Souza. corporação, lançado em 2003.

Fome Zero. Disponível em: <www.fomezero.gov.br>. Acesso em: 28 nov. 2012.


Site do programa de combate à fome do governo brasileiro, com ações assistenciais de
distribuição de alimentos e investimentos na produção agrícola de famílias de baixa renda.
Direitos Humanos. Disponível em: <www.dhnet.org.br>. Acesso em: 15 dez. 2012.
Site articulado com redes globais para educação em direitos humanos e cibercidadania.

b i b liografia

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ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1987.
AUGUSTO, Maria Helena Oliva. Políticas públicas, políticas sociais e políticas de saúde: algumas questões para
reflexão e debate. Tempo Social, Revista de Sociologia da USP, 1 (2), 2. sem. 1989. p. 105-120.
BAUMAN, Zygmunt. A sociedade individualizada: vidas contadas e histórias vividas. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
p. 74.
BETTO, Frei. A mosca azul. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.
BIROU, Alain. Dicionário das Ciências Sociais. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1977.
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BÓGUS, Lucia; PAULINO, Ana Yara (Org.). Políticas de emprego, políticas de população e direitos sociais. São Paulo:
Educ, 1997.
CASTEL, Robert. As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário. Petrópolis: Vozes, 1998.
Capa do livro As metamorfoses
COMPARATO, Fábio Konder. A nova cidadania. Lua Nova, São Paulo, n. 28-29, abr. 1993. Disponível em:
da questão social, de Robert
<www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-64451993000100005&script=sci_arttext>. Acesso em: 15 dez. 2012.
Castel (ed. Vozes).
COVRE, Maria de Lourdes (Org.). A cidadania que não temos. São Paulo: Brasiliense, 1986.

Cidadania, política e Estado • 197

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DALLARI, Dalmo. O que são direitos da pessoa. São Paulo: Brasiliense, 1981.
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tificação social. 5. ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1974. p. 61-83.
_. O político e o cientista. 3. ed. Lisboa: Editorial Presença, 1979.

198 • capítulo 7

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Salmo Dansa/Arquivo da editora

Capítulo 8

Movimentos sociais
EstudarEmos nEstE capítulo:
como os indivíduos buscam transformar as condições sociais, econômicas, políticas e culturais por meio dos movimen-
tos sociais. Também estudaremos por que os movimentos sociais surgem e o que os distingue como ação coletiva. Ve-
remos que os movimentos sociais transformam-se nos diferentes contextos e espaços sociais no decorrer da história.
Assim, tiveram uma atuação importante no passado recente, quando contestaram os Estados autoritários em diferen-
tes partes do mundo, e ainda têm, no presente contexto da globalização, ao reagirem às diversas formas de exclusão
social. Os movimentos sociais buscam propor alternativas para uma sociedade mais igualitária. Com base na discussão
sobre o que são classes sociais, analisaremos como elas atuam e formam os movimentos sociais contemporâneos.

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