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Título do original em inglês: Chasing the Dragon Copyright © 1980, Jackie Pullinger. Publicado na Inglaterra por Hodder and Stoughton, Londres. Tradução de Myrian Talitha Lins Primeira edição, 1982 Todos os direitos reservados pela Editora Betânia S/C Caixa Postal 5010 30.000 Venda Nova, MG Composto e impresso nas oficinas da Editora Betânia S/C Rua Padre Pedro Pinto, 2435 Belo Horizonte (Venda NovaX MG Printed in Brazil

Índice
Prefácio Glossário 1. Rastros de Sangue 2. Para a China de "Canoa" 3. Uma Cidade Chamada Trevas 4. O Clubinho 5. Luz nas Trevas 6. As Quadrilhas 7. O "Irmão Maior" Está Olhando por Você 8. Perseguindo o Dragão 9. "Doenças" da Infância 10. É Jesus Mesmo 11. As Casas de Estêvão 12. Acolhendo Anjos 13. Testemunhos 14. E Por em Liberdade os Cativos 15. Andar no Espírito

Para minha família, especialmente meu Pai. "E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo, sim, foi atirado para a terra e, com ele, os seus anjos... Agora veio a salvação, o poder, o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo, pois foi expulso o acusador de nossos irmãos..." Ap 12.9,10.

Prefácio

Fiquei fascinado pelo que me narrou. quando fui a Hong Kong para fazer uma filmagem. e sobretudo . juntos. vendo seu trabalho desenvolver-se mais. ela foi à Inglaterra para falar sobre seu trabalho e. Um amigo nos apresentou. O jornal Sunday Times publicou um relato de sua obra em 1974. para que as pessoas implicadas não sofressem nenhum tipo de prejuízo. Nos anos que se seguiram continuei a manter contato com ela. da Califórnia. a Susan Soloman. a meu irmão Edward e a seus colegas do Banco Mundial. Tenho que agradecer a muitas pessoas que nos ajudaram na feitura deste livro. que nos emprestaram sua casa. escrevermos um livro. de Hong Kong. Em 1978. a maioria das quais ainda vive naquela cidade. Entre elas gostaria de mencionar Marjorie Witcombe e Mary Stack. Era exatamente como ela o descrevera. e ela me falou de seu trabalho na Cidade Murada. e em 1979 voltei a Hong Kong. tudo o mais foi narrado da forma como ocorreu. em Washington. Muitos dos eventos aqui narrados podem ser comprovados em outras fontes. nessa ocasião. mas não sem certa relutância. dando um relato mais completo de tudo quanto lhe acontecera. Concordou. e fui visitar o lugar em sua companhia. Alguns nomes e lugares citados no livro tiveram que ser modificados. Excetuando-se esse detalhe. consultei-a sobre a possibilidade de. onde o manuscrito foi terminado.Fiquei conhecendo Jackie Pullinger em 1968.

Estamos narrando aqui incidentes ocorridos até 1976 apenas.à minha esposa Juliet. que fez uma excelente revisão e deu sua contribuição durante toda a produção do livro. O que aconteceu de lá para cá terá de aguardar um novo livro. Andrew Quicke Londres Abril de 1980 Glossário .

Amah: empregado (a). Poon Siu Jeh: Pullinger em chinês. Daih lo: Irmão Maior. "Hai bin do ah?": De onde você é? Hak Nam: Trevas (Nome que muitas vezes é empregado para identificar a Cidade Murada de Hong Kong. Pahng-jue: chefe de um salão onde se vende ou toma drogas. Congee: um mingau de arroz que se come no café da manhã. For-gei: garçom ou operário.) Hawh-fui: sentir muito um erro cometido. Mama-san: mulher que tem a seu encargo várias prostitutas jovens ou bar-girls.) Kung-fu: um tipo de arte marcial chinesa. "M'gong?": Não quer falar? Mintoi: edredom. Pin-mun: comércio ilegal. Fui-goih: arrepender-se. Daih pai dong: barraca de rua. Kai na: madrinha Kai neui: afilhada (Estes dois termos são empregados para designar o relacionamento de uma mulher com uma criança que ela toma para criar. "Pa mafan": medo de complicações. "Moe yeh": Nada. Gong-sou: conversações entre quadrilhas inimigas. Lap-sap: lixo. Daih ma: Mãe Maior. . como tentativa de solucionar diferenças. a esposa mais velha de um chinês.

"Yau moe gau chor. Sai ma: Mãe Menor. merenda. Ging Yu Wo Shing Wo Siu yeh: lanche. esposa mais nova ou concubina de um chinês. Tin-man-toi: literalmente meteorologista. Seui Fong 14 K Nome das diversas quadrilhas tríades que são ilegais em Hong Kong.Sai lo: Irmão Menor. Wunton: espécie de pastel de camarão ou carne de porco." Jesus te ama! . significa pessoa que vigia ou guarda. "Yeh sou ngoi nei." Você deve estar louco! "Yaunk": Estou aqui.

Por um instante. e me espremi no pequeno vão entre duas construções escuras. Não havia dúvida de que era sangue. Mantinha os olhos voltados para o chão por duas razões: para não pisar nas porcarias que escorriam para o rego aberto e para não receber em pleno rosto o lixo que era atirado das janelas à rua embaixo. devido a casos não solucionados. O juiz me confiara a guarda de Ah Sor. pisando cautelosamente na estreita ruela. e embora a essa altura já conhecesse o caminho muito bem. e logo depois várias gotas.1 Rastros de Sangue O guarda da porta soltou uma cusparada no chão do beco. Bati palmas a fim de espantar os ratos. pois cria que sabia de quem era aquele sangue. com força. para entrar nessa estranha "cidade" chinesa. Mas uma quadrilha estava atrás dele para castigálo. Ao que . tão temida pelo povo de Hong Kong. Foi então que avistei uma pequena mancha vermelha. para afastá-los. segui em frente. a escuridão do interior dela me deixou meio cega. mas fez um aceno de cabeça dando-me permissão para passar. Senti a tensão no estômago. foi preciso bater várias vezes. pelo período de um ano. Deixei-o ali agachado.

as manchas de sangue já se apresentavam mais numerosas. os vigilantes das quadrilhas que controlavam a Cidade Murada. onde se achavam outros vigias. Passei pelos terríveis antros de ópio. entrei em minha ruela. e passei por mais dois tin-man-toi. Avistei outras daquelas manchas lustrosas. As prostitutas me reconheceram e gritaram de lá de seus compartimentos. — O que aconteceu? indaguei temerosa. Virei uma esquina e entrei na rua onde estavam situados os principais salões de jogatina. Tive que andar com mais cuidado ainda. administrados pelos "irmãos" da quadrilha 14K. haviam-no encontrado. onde ficava o salão que alugara e que abria todas as noites para os rapazes das quadrilhas. quer nos dar um auxílio? E estendiam as mãos cujos dorsos estavam marcados de pontas de agulha. uma das poucas que possuía iluminação na Cidade Murada. ao passar por outro salão de jogo. As pessoas que por ali se encontravam pareciam totalmente indiferentes. Um velho cantonês abanou a cabeça e resmungou: . Em seguida.ta Poon! Poon Siu Jeh. Cheguei à rua principal. Na rua seguinte. A porta avistei uma poça de sangue maior. ao mesmo tempo. junto ao cinema de filmes pornográficos: — Sr. a idéia me apavorava. Estava impaciente para descobrir de quem era aquele sangue.parecia. Mas.

Temendo por Ah Sor. não se envolver com nada. úmido e malcheiroso. destranquei o portão de ferro. toda a minha atenção estava concentrada em Ah Sor. brincavam várias crianças. Era muito difícil conservá-lo limpo.— Nada. despreocupadas. Eu tinha mais medo das aranhas que vinham das fossas. como se nada tivesse acontecido. eu tinha tido conhecimento da história de sua vida e dos seus problemas e procurara ajudá-lo. Por isso. se quiser sobreviver. quando ainda era bebê. ao mesmo tempo. Toda sorte de insetos e bichinhos saíam dos esgotos e andavam pelas paredes do salão. ele se agregou a uma quadrilha. Cresceu brigando nas ruas e recebeu sua primeira sentença de detenção na prisão juvenil aos treze anos. quando lhe era oferecido. que não tinha filhos e temia morrer e ir para o inferno sem um filho para adorar seu espírito. e entrei em nosso "clubinho". Estava escuro. do que dos quadrilheiros. mas. Sua mãe o tinha vendido. porém. Durante os últimos anos. Ali perto. pois não havia água encanada. para um homem viciado em ópio. Ah Sor crescera com grande carência afetiva. É mais seguro não ver nada. não sabia reconhecer um afeto sincero. mas ele continuava na . Naquela noite. A fim de equilibrar essa forte sensação de rejeição. nada! Num lugar controlado pelas quadrilhas tem que se viver com as mãos sobre os olhos. com bebezinhos amarrados às costas.

pensei em cantonês. concluiu e logo desapareceu.mesma. Tranquei tudo e saí." Então. e o nosso ia zigue-zagueando entre uma pista e outra. arfando pelo esforço. e cu desejava proporcionarlhe coisa melhor. Além disso. — Para o Hospital Elizabeth. que nem era vida. era viciado em drogas. pegamos um táxi. e nós saltamos . Sentei-me num de nossos toscos bancos do clubinho e fiz a única coisa que podia — orei. É alguém que está morrendo. Senhor!". Os motoristas de táxi de Hong Kong não precisam de muito incentivo para correr. No caminho fui arrebanhando alguns rapazes que conhecia. Estão chamando a senhora. como seu pai adotivo. as mãos apertadas uma contra a outra. Eu ia orando pelo caminho. a senhora deve ir imediatamente ao Hospital Elizabeth. Cinco minutos depois uma menina entrou ali correndo. "Talvez meu amigo morra". depressa! Nosso amigo pode morrer. sendo preso várias e várias vezes. o carro parou abruptamente com um guincho agudo dos pneus. orei baixinho. "Faz com que ele se salve. — Sr. — Quem está lá? É Ah Sor? — Só tenho que dizer-lhe para ir depressa. Fora da Cidade Murada. "Salva-o.ta Poon. Ele tinha tido uma vida tão miserável. com apenas uma das mãos no volante.

Mas Ah Tong viu-os logo e atirou-se à frente do outro. Ao que parecia. seduzia mocinhas e depois as vendia. pois ele costumava ir a festas. não se apercebeu da emboscada. Até mesmo seus colegas o desprezavam. com a vida assim arruinada. Então a quadrilha os atacou. fugiram imediatamente. Quando este ia subindo a rua em companhia de Ah Tong e de outro "irmão". a quadrilha Seui Fong havia-se emboscado num beco escuro. e os agressores o deixaram ali caído numa poça de sangue. Isso era parte de uma guerra de quadrilhas por causa de um dos "irmãos" que fora prejudicado havia alguns anos. para o comércio do meretrício. Alguém atingiu seu braço. para protegê-lo.) . procurando atingir sua vítima. (Há sempre policiais postados nos hospitais.do veículo desejando ver Ah Sor antes que morresse. que os interrogam sobre as brigas das quadrilhas. Deixando o colega no hospital. Ah Sor e o outro rapaz o ampararam e saíram com ele aos trambolhões até chegarem a uma das saídas da cidade. Fora Ah Tong quem deixara aquele sinistro rastro pelas ruas da cidade. O alvo deles era Ah Sor. onde pegaram um táxi. próximo ao nosso salão. que foi quase seccionado. Eu o conhecia apenas pela sua fama de ser um dos mais depravados chefes de quadrilha. armada de facões e canos. Mas não era Ah Sor.

pessoas direitas. ficaram grandemente espantados com nossa atitude. e inconsciente." Telefonei para alguns amigos e pedi-lhes que fossem ao hospital. devido à perda de sangue. Postei-me ao lado do leito e olhei para Ah Tong. cinco dias depois de ter sido atacado. E enquanto estivemos lá. O que fazíamos nós. e levava uma vida terrível. Afinal. Sentada ali no hospital. e não apenas sobrevivera. Estava terrivelmente pálido. Os boletins médicos do hospital. Alguém poderia pensar que. ele recebeu alta. Fora milagrosamente curado. a irmã nos deu permissão para entrar na enfermaria onde ele se encontrava. para eles. Passamos a noite toda ali. impusemos as mãos sobre ele e oramos em nome de Jesus. Quando a família apareceu. Com muito cuidado. . Ele era mau. Jesus já havia dito: "Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor de seus amigos. porém. pensei no que ouvira e fiquei impressionada com o gesto do rapaz. ele não recobrou os sentidos. eram cada dia mais animadores. Parecia que ele estava melhorando incrivelmente. orando. orando pelo seu filho? Ele era mau e só merecia mesmo morrer. se não a vida.A única informação que consegui extrair da enfermeira foi que o paciente provavelmente perderia o braço. depois de haver experimentado um milagre como esse. incompreensível. mas também conservara o braço em perfeitas condições. Afinal. mas revelara um amor muito raro. cristãs.

estou desesperado. não. Por isso. Ah Tong entrou pela nossa porta no meio da noite. disse um dos muitos mensageiros com recados de agradecimento. mas. Alguns anos depois. ao passo que os viciados eram depravados. para se aproximar de um cristão. — Ele sabe que foram suas orações que o salvaram. não lhe parecia correto vir ele mesmo expressar sua gratidão. Ah Sor. você se dispôs a morrer por seu irmão. Se ele pensava assim. Contudo. Sentia-se por demais impuro. mas Jesus pode. Faz alguns anos. . recebi algumas palavras de agradecimento. ouvindo com atenção. E creio que há um fato a respeito de Jesus que você poderá entender perfeitamente. Fitou-me com uma expressão angustiada e disse abruptamente: — Poon Siu Jeh. Já tentei largar o vício muitas vezes. respondi. mal ele me avistava.Ah Tong teria muito prazer em falar com um dos intercessores. Ah Tong tinha o cenho franzido. Todo o tempo em que estivera no hospital. Estava com medo de mim. mas não consegui. e precisava de várias doses diárias. Será que pode me ajudar? — Eu. Sabia que eu era crente e que os crentes eram pessoas direitas. saía correndo. Era viciado em heroína. então por que me evitava? Meses depois vim a saber a razão. Foi um gesto maravilhoso. sua namorada lhe levara drogas. nos meses que se seguiram.

ele nos dará sua vida. e não uma igreja. e levei-o para o pequeno apartamento que tínhamos na ilha de Hong Kong. muitos dos quais ele reconheceu. que também era sala de jantar. todas sorrindo. Não creio que a mente cheia de drogas de Ah Tong pudesse absorver todos os detalhes da doutrina da redenção. Pelo contrário. . Ele se mostrou completamente atônito pela idéia de que Jesus pudesse amar uma pessoa como ele. — No entanto. Havia vários ocidentais e muitos rapazes chineses. Era um apartamento bem pequeno. mas pude perceber claramente que alguma coisa havia acontecido. mas por todas as pessoas de todas as outras quadrilhas. Porém. mais fortes e saudáveis. Era mais um lar. e sentiu-se bastante tocado. Se crermos nele.— Mas o que você diria de morrer por um rapaz de outra quadrilha? — Aaahhh! fez ele e soltou uma cusparada. Tudo era muito limpo e bem arranjado. e outros que tinham sido seus companheiros de drogas. mas ninguém morre por um inimigo. foi exatamente isso que Jesus fez. Ah Tong se viu na sala. Morrer por um "irmão" é uma coisa. Mas o mais extraordinário ali eram as pessoas presentes. Ele morreu não somente para os de sua quadrilha. Saí depressa com ele. estavam todos belos e felizes. Havia ali homens que ele tinha conhecido na cadeia. ele curava os doentes. segundo os padrões ocidentais. Ele era o Filho de Deus e nunca fez nada errado.

nem mesmo uma simples aspirina. seus olhos tinham uma expressão de grande alegria. começava a . até cair num profundo sono. orou e logo seu rosto magro e sulcado de rugas se relaxou." Então nos disse que queria crer que Jesus era Deus e pedir-lhe que modificasse sua vida. como me disseram. Ah Tong deve ter pensado: "Se eles podem. Logicamente. Quando se deitou naquela noite. Todas as vezes que sentia a primeira pontada de dor. Eu senti muitas dores. pode fazer por mim também. e não sabem como é. Ah Tong recebeu o dom de línguas. Sabe que nunca empregaríamos essa linguagem santa. também posso. Não lhe demos nenhum remédio. Falei em língua estranha. a Sr. Quero dizer. Os outros ex-marginais ali presentes se entreolharam felizes.Eles se puseram a falar-lhe sobre o poder de Jesus que lhes havia transformado a vida. O rapaz permaneceu na casa. disseram eles. e ele sorriu. participando daquele milagre. — Você nos conhece.ta Poon e esses pastores aqui nunca tiveram de largar as drogas. que pode causar-lhe a morte. e ele foi-se aquietando mais e mais. Em seguida. A dor desapareceu e me senti outro. Se Jesus fez isso por eles. e não senti mais dor nenhuma. mas orei a Jesus. que constitui uma tortura tão grande para o viciado. se de fato não crêssemos nisso. Recebi novas energias: chama-se Espírito Santo. e deu certo. Não houve necessidade de passar por uma desintoxicação dolorosa.

e eu era a primeira da fila. Ah Tong começou uma nova vida. 2 Para a China de "Canoa" Os agentes da imigração subiram a bordo do navio. como num quadro oriental. Percebi que meu coração estava inundado de grande paz. de manhã. sumindo-se à distância. Lá estavam as montanhas de cumes brilhantes. Não houve vômitos. . eu me aprontara e subira para o convés. nem calafrios. Sua desintoxicação processou-se sem nenhum sofrimento. Cedo. nem diarréia.orar na sua nova língua. em meio à bruma. ansiosa que estava para desembarcar. A vista que se tinha dali era de cair o queixo. nem cãibra.

Pegou os formulários preenchidos. esperando e contemplando o mar da China. levando operários. Um pouco mais perto. agradeci-lhe. nas encostas dos morros. que separava a Ilha Victoria da Península de Kowloon. O agente da imigração não demonstrava o mesmo entusiasmo que eu. entreviam-se nesgas de ruas chinesas. nos quais eu declarava que tinha vindo à Colônia para trabalhar. vi à distância ás colinas dos Nove Dragões. na "Pérola do Oriente". Pareciam estranhamente antiquados em comparação com os modernos arranhacéus que se erguiam logo atrás. — Onde mora? indagou. com o exotismo próprio do Oriente. na Ilha de Hong Kong. Vista do mar. Erguendo os olhos.e ao reconhecer que aquele era o lugar que Deus havia escolhido para mim. Ela estava pontilhada de barquinhos. tão singulares. Cercava-nos a enseada. e nos ancoradouros viam-se muitos dos antiquíssimos juncos. que traziam toda sorte de alimentos da China territorial para a Colônia. Eu me achava ali. Balsas se moviam entre as diversas ilhas adjacentes. — Na verdade. que se estendiam até a fronteira da China de Mao. numa manhã ensolarada. após as docas. encantadoras. nos Novos Territórios. Hong Kong. ainda não tenho onde morar. Hong Kong era belíssima. — Endereço de amigos? .

Chegara ali quase que com a mesma quantia que tinha ao embarcar. — Mais ou menos HKS100 dólares. Hong Kong é um lugar de vida muito cara. e saiu apressado. Os dois confabularam por alguns instantes. Afinal.. — E sua passagem de volta? — Ainda não tenho. concluiu. Não estava nem um pouco preocupada por não ter passagem de volta. mas minhas respostas não se achavam muito de acordo com o "figurino".. — Quanto tem em dinheiro? Também fiquei satisfeita. — Onde trabalha? — Bem. ainda não tenho emprego. replicou ele rispidamente. não. depois voltaram para onde me encontrava. à procura de seu chefe. respondi orgulhosa. pois pensava estar muito bem financeiramente. Não dá nem para três dias. seu rosto se iluminou oomo se encontrando a solução. — Onde está sua mãe? — Na Inglaterra. e não compreendia por que ele tinha que estar. — É pouco.— Ainda não tenho conhecidos aqui. Até esse ponto conseguira levar bem a entrevista. Ele me fitou com uma expressão de desalento. . Tentou fazer mais algumas indagações suplementares.

sair pelo mundo fora. Meus amigos iriam dizer: — Não falei? Onde já se viu. falou o chefe. em nossa casa. um dia seria conhecida e famosa. Então procurei compensar o fato comportando-me como um garoto. Lembro-me de que estava encostada ao aquecedor. seguindo a orientação de Deus! Que atitude mais irresponsável! O que eu faria? E como viera parar aqui? Quando minha mãe ficou grávida de mim. Na imaginação. vamos negar-lhe permissão para desembarcar. mas deu à luz gêmeas. foi de quando estava com quatro anos. Fiquei ali parada. fosse lá o que eu escolhesse fazer na vida.— Embora a senhora seja britânica. Mais ou menos um ano depois. e uma missionária fez uma . eu e minha irmã gêmea estávamos na escola dominical. obrigando-me a voltar para a Inglaterra. Subia em árvores e corria muito. Espere aqui. gostava de brinquedos masculinos e bicicletas. que tinha esperanças de fundar um time de rugby* e acabou com quatro filhas. pensou que estava esperando uma criança só. me perguntando o que iriam fazer comigo. e pensava: "Será que vale a pena ser bom neste mundo?" Acabei-me decidindo que. Uma das recordações mais antigas que tenho. o que deve ter sido uma grande decepção para meu pai. já os via trancando-me num camarote.

algumas coisas ainda me incomodavam. Foi um grande erro. havíamos conseguido que nossa boa amiga Nellie nos desse pirulitos sabor limão. Certo dia. quando eu me comportava mal. estava passeando na ponte do trem de ferro com Gilly. num lugar qualquer da Africa. logicamente. Deus quer que todos vão para os campos. — Mas você vai ser missionária! diziam em tom acusador. e pouco depois de começar a saboreá-los ocorreu-me . Contei a uma amiga da escola que desejava ser missionária. Mas não tinha a mínima idéia do que fosse um campo missionário. ela disse: — Será que Deus quer vocês no campo missionário? Recordo-me de que logo pensei que a resposta dessa pergunta nunca poderia ser "não". Eu me via a mim mesma sentada à porta de uma choupana. Logo percebi que todos esperavam que eu fosse melhor do que os outros. Contudo. artista de circo. pois. a primeira mulher a escalar o pico do Everest. __________________ * Esporte semelhante ao futebol americano e ao nosso futebol militar.palestra. Como sempre. minha irmã gêmea. Então inventei uma porção de outras carreiras para desviar a atenção dos outros: regente de orquestra. sentindo-me muito nobre e digna. Estendendo o dedo para cada uma de nós. interiormente.

um dia teria que dar satisfações a ele. No primeiro ano do curso ginasial cometi outro erro. Não podia viver da maneira que me agradasse. encontrei a solução. E havia também o problema do pecado. Afinal. Ele é a melhor pessoa que existe na terra. pois caso Deus existisse mesmo. Dei uma espiada na linha correspondente ao meu nome e a fila de marcas estava bastante comprida. Deitada no gramado. Então. _____________________ *O grande líder da Inglaterra na Guerra Mundial. com um livro bem grande. não havia nada que eu pudesse fazer para sanar o mal. Os anos estavam a meu favor. se eu parar de pecar agora. nunca. o que estamos fazendo aqui na terra? Para que serve a vida?" Parecia que me encontrava presa numa armadilha. Toda vez que alguém praticava um ato errado. talvez algum dia eu ainda pegue *Winston Churchill e fique igual a ele. muito querido respeitado por todo o povo. Pois bem. e então resolvi: — Se eu nunca mais fizer nada errado. pus-me a olhar para o céu e a imaginar que Deus estava lá. no qual estava o nome de todas as pessoas. ele colocava uma marquinha ao lado dele. mas já é muito velho. Eu e minha irmã estávamos sentadas mesa do internato tomando chá com II e à o . talvez eu termine mais ou menos igual a ele. nunca.um pensamento terrível: "Afinal.

A cabeceira encontravase uma garota maior de nome Mirissa.. Eu e Gilly fomos até a frente e nos ajoelhamos. — Puro emocionalismo de massa! exclamou a moça desdenhosa. no momento em que o Bispo impuser as mãos sobre mim? — Ah. e o Bispo impôs as mãos sobre nós. escolhi o assunto errado.. e aquele era o momento mais solene. eu dizia com ironia: — Puro emocionalismo de massa! Chegou a época de nossa "confirmação" na igreja. Eu tinha tanto respeito pela opinião das pessoas mais velhas. Minha vontade era rir de felicidade. na . Só me recordo de que. Tendo ouvido a primeira transmissão radiofônica de um programa de Billy Graham. individualmente. era um culto de confirmação espiritual. ao voltar para meu lugar.inevitável pão preto. mas sentia que os outros só estavam interessados nas roupas novas e no "chá de confirmação". que depois.. Meu medo era que o ministro nos perguntasse. todas as vezes que se conversava sobre isso na escola. estava sentindo uma grande alegria. em que críamos.. que teríamos depois da cerimônia. mas. infelizmente. Pensei em iniciar educadamente uma conversa. Contudo. ore! disse ele afinal. resolvi fazer-lhe uma pergunta. O riso seria depois. mencionei como ficara impressionada com o evangelista. — Em que devo pensar. é. Eu estava levando tudo muito a sério. Mas ele não o fez. Que atitude mais imprópria! Afinal. bem.

onde descobri que os músicos achavam que o amor era o grande inspirador da música. Nas férias. não . — Desejo ser missionária. Quais os cursos que devo fazer? Em resposta. e tive muito trabalho para me livrar de um pistonista. ou funcionava como "carteiro" para o Correio. fui para o Real Conservatório de Música. geralmente. além disso. Mas aqueles jovens ali me pareciam tão desinteressantes e sem graça. ou então dava aulas particulares. e creio que deveria começar a prepararme desde já. eu passava pela sala da União Cristã e via lá o quadro de avisos. e não parecia haver nenhuma associação entre ele e aquela alegria tão despropositada. Sentia um aperto na consciência. Eu tinha pensado antes que gostaria de me comportar de maneira bastante reverente e elegante nesse culto. parecendo muito santos. Eu estava entregando minha vida a Deus. na época do Natal. eu trabalhava na fábrica de papai. A primeira coisa que fiz depois disso foi pegar a lista telefônica e procurar endereços de missões. assentavamse sempre juntos. escrevi para elas. Depois. Na cantina da escola. Já me considerava uma pessoa integrada à sociedade.hora do chá. Vez por outra. e. eles me mandaram dizer que haviam colocado meu nome no seu rol de associados jovens. e não esperava receber nada em troca. na sua maioria. eram organistas.

Contudo. eu ainda ficava incomodada quando ouvia falar em céu e inferno. Elas me convidaram para ir a uma reunião em uma casa. Não sabia sobre o que conversavam e nem me interessava saber. onde um pregador maravilhoso faria palestras sobre a Bíblia. Ele era realmente fabuloso. Foi só depois de muito tempo que compreendi que ele nunca poderia estar presente numa daquelas festas. Naquele ambiente foi muito fácil falar sobre Deus. Compreendi que ou eu . e embora me garantissem que minha vida mudaria depois que eu viesse a "conhecer Jesus". mas a principal forma de divertimento ali ou era imoral ou desinteressante. Davam a impressão de serem muito solenes e tristes. eu não queria mudar para ficar igual a eles. Mas o que mais me transtornava era a idéia de que ninguém podia chegar a Deus. Nesse tempo.me atraíam em nada. a não ser por intermédio de Jesus. Certo dia. As moças usavam maquilagem. Os rapazes conversavam sobre corrida de automóvel — no entanto estavam ali porque desejavam estudar a Bíblia. E o que mais me impressionou foi que eram todos gente normal. Contudo. eu estava no trem. voltando da escola para casa. quando encontrei duas excolegas de escola. Mas todas as outras pessoas também o eram. eu sempre ia esperando encontrar ali o homem dos meus sonhos. como eu. eu gostava de freqüentar festinhas. E eu fui.

respondi. Foi aí que tive certeza de que minha vida havia-se modificado mesmo. Passei a ter uma vida ainda mais cheia do que antes. — Não. Sorriam parecendo muito felizes. Tenho paz e sei para onde estou indo. Abri os olhos para dar uma espiada. Mas essa nova vida também me trouxe alguns problemas. Pouco depois disso. as moças tiveram um momento de oração. "E as pessoas que ainda não ouviram as boasnovas?" Em conseqüência disso. Fiquei abismada. Eu o conheço. um homem me perguntou se eu acreditava em Deus. É diferente. E assim me converti. a recíproca também era verdadeira — quem não cresse nele não iria. passei a tomar parte numa cena que teria abominado. ou abandonar de vez a fé cristã.tinha que aceitar tudo que Jesus dissera a respeito de si próprio. Mas eu queria dedicar toda a minha vida a uma obra qualquer. "Como essas pessoas podem ficar sentadas aí sabendo disso?" pensei. em algum . pois se críamos que iríamos para o céu por causa de Jesus. comecei a dar aulas de música. Estava tocando piano numa reunião de jovens evangélicos em Waddon. E não foi sem relutância que orei a ele dizendo que acreditava em tudo que ele dissera. antes de minha conversão. após o estudo bíblico. cantando hinos sobre a salvação. Certo dia. Depois que me formei.

— Ainda não podemos dar-nos o luxo de ter músicos por aqui. — O que você acha que devo fazer de minha vida? indagava. Voltou-me a idéia de ser missionária. responderam. Quando acordei. olhando um mapa colorido da Africa. e tratei de pedir conselhos às pessoas que melhor pudessem me orientar. diziam. E todos responderam da mesma forma — não queriam meus préstimos. Impossível. Responderam dizendo que não havia vagas para músicos. Não me deixei abater. Recorri então à minha sociedade missionária. Não aceitavam candidatos a missionário com menos de vinte e cinco anos. Já havia orado. E não havia nada que me impedisse de fazê-lo. Eu teria que aguardar um pouco mais. escolas e companhias radiofónicas da Africa. — Já orou pedindo a orientação de Deus? replicavam. A Bíblia ensinava que eu deveria crer e ele me orientaria. escrevi para o governo de Hong Kong explicando que era professora de música. . Entre os diversos países daquele continente havia um que estava colorido de cor-de-rosa. sonhei que nossa família estava reunida à mesa da sala de jantar. mas Deus ainda não tinha me dado uma resposta clara. Estava escrito "Hong Kong".lugar. e gostaria de lecionar nesse país. formada. Inclinei-me mais para ver qual era. ' Então escrevi para missões. Uma noite.

como se fossem a ficha técnica de um programa de televisão: "O que você pode nos dar?" O que. então. voltariam a ter fome. um lugar muito calmo. Mas a mulher da visão estava com fome de um alimento que ela não conhecia.Ao que parecia. Pouco depois disso. Parecia desejar alguma coisa desesperadamente. encontrei um amigo que morava em West Croydon. quando saísse de lá. como se estivesse implorando ajuda. foram surgindo umas palavras que iam passando à minha frente. que o de que ela precisava era o amor de Jesus. Seria auxílios do Fundo Cristão? Depois. o que iria dar às pessoas? Daria o que aprendera em meus estudos? Deveria talvez atuar como intermediária para conseguir-lhes alimentos. Ali tive uma visão de uma mulher de braços estendidos. e poderia até transmiti-lo a outros. Finalmente sabia o que tinha a fazer — só não sabia onde. — Já recebeu a resposta? indagou. respondi. em verdade. Se ela o recebesse. Fiquei a me indagar o que ela queria. havia interpretado erradamente o meu sonho. Certa vez fui orar em uma pequena igreja de um povoado. Ocorreu-me. ela ainda estaria satisfeita. — Não. dinheiro ou roupas? Se eu lhes desse apenas essas coisas. que sabia que eu estava orando sobre meu futuro. eu poderia dar a ela? Se fosse missionária. quando eu saísse de lá. .

Mas depois ela veio. alguém me disse que não ficasse espantada se acontecesse algo de extraordinário. — Logo que cheguei. Uma pessoa começou a falar em voz tranqüila. com orações normais e os hinos de sempre." Tive certeza de que Deus estava com minha vida em suas mãos. Lá estamos sempre recebendo respostas. Sentei-me perto da porta. iriam exercitar os dons espirituais. e eu queria ter facilidade de escapulir. Ao que parecia. nem voz estridente de Deus falando comigo. e que muito breve iria conduzir-me a algum lugar. Não havia dúvida de que o povo de West Croydon recebia respostas de Deus. Será que aquela gente de West Croydon pensava que tinha uma espécie de monopólio de Deus? Fiquei curiosa para saber o que acontecia nas reuniões.— Gostaria de assistir às nossas reuniões? indagou. caso fosse necessário. Um ou dois dos presentes realmente falaram numa língua que eu não compreendia. Confie em mim e eu a guiarei. Eu a guiarei com meus olhos. Voltei para . "Vá. Não estava muito certa sobre o que iria haver ali. Pensava que talvez alguém fosse profetizar em voz alta. e logo tive plena certeza de que aquilo era para mim. mas até certo momento não houve nenhuma profecia estrondosa. Eu a instruirei sobre o caminho em que deve andar. Mas a reunião foi muito ordeira e calma.

de modo que estivesse livre para partir logo após o encerramento das aulas. mas não me dissera para onde. se você já tentou todas as formas convencionais de trabalho missionário e Deus continua dizendo para você ir. não precisaria confiar nele. pois eu adoraria fazer isso. — Se Deus está ordenando que và. Se eu fosse você. se não sei para onde ir. replicou ele. a aposentadoria e pensão. trabalhei durante uma semana na igreja de Richard Thompson. Se já tivesse um emprego. qualquer um pode ser missionário. e depois iria orando todo o tempo. Durante os feriados da Páscoa. Ele me conhecia havia bastante tempo. compraria passagem num navio com destino ao ponto mais distante possível. . — É uma idéia maravilhosa. Disse-lhe que eu e Deus nos achávamos numa encruzilhada. continuou Richard. Ele me ordenara claramente que fosse. — Mas como. a passagem. — Bem. era a primeira vez que eu recebia uma resposta definida. é melhor você ir. Depois de vários meses. Ainda não sabia para onde deveria ir. é melhor você começar a mexer-se. embarcaria nele. e eu sentia que poderia ajudar-me. Mas me parece errada. Desse modo. perguntando a Deus onde deveria descer. o lugar para ficar. respondi. Dei aviso prévio em todos os empregos. e pus-me a aguardar maiores orientações.casa. Todos os meus pedidos de trabalho estão sendo rejeitados.

insistia em que eu pensasse muito. Procurei o navio mais barato.Eu ainda pensava que tudo que o crente fizesse tinha que implicar em sofrimento. por exemplo. obedecendo a uma ordem de Deus. Meus pais . Comprei a passagem. ele me deu a impressão de que eu entraria no navio como uma pessoa comum. disse Richard com muita seriedade. pois confiava em Deus. Naturalmente. em minha "viagem de canoa para a China". seguira para a terra prometida sem saber para onde ia. — Não há o que temer. ou poderá levar a embarcação para qualquer lugar do mundo. A idéia me pareceu fascinante. Se ele não quiser que você tome esse navio. pronta para trabalhar. mas muito sábio. e sairia dele transformada em missionária. deixara sua terra e. com o percurso mais longo possível. O conselho de Richard era um pouco incomum. Ia da França ao Japão. eu teria que enfrentar meus pais e amigos. se você se colocar inteiramente nas mãos de Deus. Então fiz o que ele dissera. O que eu tinha de fazer era simplesmente seguir a Deus. Assim compreendi que não tinha nada a temer nessa aventura. que passava por muitos países. Mas Richard afirmou que esse plano era bíblico. Em nenhum momento. ele a deterá. Alguns se mostraram descrentes. aonde ele me mandasse. Abrão. e tudo estava resolvido. com muito bom-senso. e que não podia ter nenhuma satisfação em sua fé. Meu pai.

gritando: — Glória a Deus! E daí a pouco o trem arrancou. Ele é da polícia. apenas para ser repatriada. disseram.estavam satisfeitos com a minha ida." Se meu nome estava gravado ali. Por um instante pensei que eu tinha vindo de tão longe até a Ásia. lembrando-me repentinamente de um afilhado de minha mãe. Eu conheço uma pessoa aqui. cada um tentando convencer o outro de que estava tudo certo. Orei pelo problema. e uma noite escutei os dois discutindo. mas um se preocupava com o outro. Mas de repente lembrei-me do texto que lera pela manhã: "Eis que nas palmas das minhas mãos te gravei. O agente da imigração voltou-se para mim muito transtornado. E suponhamos que não tenha sido o Espírito Santo quem ditou as palavras para Richard Thompson? O dia em que parti foi um desses dias em que tudo dá errado. . O táxi que havíamos contratado para nos levar a Londres apareceu com uma hora de atraso. disse eu. — Que conselho mais irresponsável para um pastor dar a uma jovem. então Deus sabia tudo que me dizia respeito. Richard Thompson surgiu correndo pela plataforma. — Espere um pouco. Mas afinal vi-me acomodada no vagão do trem com minha bagagem. O pessoal da minha sociedade missionária já não se mostrou tão entusiasmado.

por um exército de vigias. continuamente. obviamente era uma pessoa direita. sob a condição de que deveria procurar emprego imediatamente. Assim que um estranho qualquer se aproxima. 3 Uma Cidade Chamada Trevas A Cidade Murada é guardada dia e noite.O resultado foi dramático. Devolveram-me o passaporte resmungando que eu poderia desembarcar. e qualquer um que tivesse um conhecido na força policial. Na opinião deles. Naquela época. . a polícia era tida em alta conta. meu dinheiro não daria nem para três dias de estada em Hong Kong. 1966.

situada nos arredores da cidade. Era um cheiro fétido de comida azeda e de excremento. podemos ficar condoídos. que significa "trevas". E realmente trata-se de um lugar de trevas horríveis. cheios de compaixão. Pegamos um carro até a rua Tung Tau Chuen.a Donnithorne me convidara para visitar o jardim da infância e a igrejinha que organizara ali. Nunca me esquecerei do mau cheiro e da escuridão reinante. mas não me havia preparado devidamente para o que iria ver. que exercem seu trabalho ilegalmente. Mas quando se conhecem os homens e mulheres que vivem e sofrem em tal lugar. tanto físicas quanto espirituais. Passamos apertadamente por um vão entre duas das lojas de dentistas e pusemo-nos a caminhar por um beco escorregadio. janelas são cerradas e a queima de incenso disfarça o acre odor do ópio.os vigias vão passando a notícia de boca em boca. Logo atrás desses bizarros cômodos erguiam-se os precários arranha-céus da Cidade Murada. e atravessando ruelas estreitas. Portas se fecham. misturado ao de lixo e de vísceras de animais. Um dos nomes chineses dados à Cidade Murada é "Hak Nam". Aqueles rapazes saem correndo por entre barracas de lanche. As verdadeiras atividades da cidade ficam completamente camufladas para um forasteiro. A Sr. . entrando e saindo por portas. É a rua dos dentistas clandestinos. pois dentistas práticos não podem operar em Hong Kong.

Para um chinês.Fomos andando por entre as casas. uma espécie de pavilhão. "Tia Donnie" avisou-me que mantivesse o rosto voltado para o chão. Ali não se observava o "Dia do Descanso". Nesse lugar depravado. Parecia-me estar caminhando por um túnel subterrâneo. muitas horas por dia. Depois vinha o cinema de filmes pornográficos. no momento em que passávamos embaixo. à esquerda. Então ela contratava meninas prostitutas para trabalharem para ela. Como pode existir um lugar destes bem no meio de Hong Kong. é de suprema importância que os filhos trabalhem para os pais. formando uma espécie de arco sobre o beco. E essas tinham muitos clientes. tendo nas mãos imensas sacolas cheias de flores artificiais. a posse de uma criança prostituta era considerada apenas como uma excelente fonte de renda. Mulheres. A medida que avançávamos. Vimos homens carregando na cabeça latas de concreto re-cém-misturado. minha amiga ia comentando algumas coisas: à nossa direita uma indústria de flores de plástico. quando a . uma velha prostituta. iam saindo das pequeninas saletas onde eram fabricadas. Cinco feriados ao ano eram mais que suficientes. Mas havia um comércio normal também. que era velha e feia demais para conseguir fregueses. e a parte superior delas se projetava sobre a rua. caso alguém resolvesse esvaziar na rua seu urinol. inteiramente lotado. a Colônia da Coroa Britânica? Há cerca de oitenta anos.

Inglaterra se apossou da ilha chinesa de Hong Kong, da Península de Kowloon e dos territórios contíguos a ela, foi feita uma exceção. A velha cidade murada de Kowloon deveria permanecer sob a jurisdição da China, com seu mandarim, sujeita às leis chinesas. Mais tarde o mandarim morreu, e seu cargo nunca foi ocupado, nem por outro chinês nem por um inglês, e assim a desordem passou a reinar na Cidade Murada, onde prevalece até hoje. Ela se tornou um paraíso para o contrabando do ouro, antros de jogatina ilegal e todo o tipo de vícios. O desentendimento com relação à sua posse significava que a polícia não podia impor a lei e a ordem dentro dela. Quando querem procurar criminosos ali, entram em grupos grandes. A cidade tem uma população muito grande, mas é pequena. Em apenas seis acres de terra, vivem trinta mil pessoas, ou o dobro. As condições habitacionais são apavorantes. Não existem leis regulamentando a construção das casas; por isso as ruas se acham "entulhadas" de prédios de apartamento, situados em ângulos os mais loucos, sem água, luz ou esgoto. Excrementos são atirados nas ruas, que exalam constante mau cheiro. No andar térreo, existem apenas dois banheiros para as trinta mil pessoas. E esses dois não passam de buracos feitos no chão sobre fossas já transbordantes. Um é para as mulheres e o outro para os homens. Seria muito improvável que num lugar como a Cidade Murada houvesse escolas e

igrejas. Mas a Sr.a Donnithorne tinha conseguido abrir uma escolinha primária. Os professores não eram formados, mas haviam feito o curso secundário. Era uma escola pequena, com várias centenas de alunos. No primeiro dia em que fui visitar o local, Tia Donnie pediu-me que lecionasse nela. Antes de pensar duas vezes repliquei: — Pois não! E sem que soubesse claramente em que estava me metendo, concordei em dirigir a bandinha de percussão, ensinar canto e conversação em inglês, três vezes por semana. Pelo sistema chinês, aprende-se tudo de cor. E todos os meses se fazem provas, bem como ao fim do semestre e do ano. A criança reprovada nos exames finais tinha que repetir todo o ano escolar. As aulas da bandinha e de canto não apresentavam muita dificuldade para mim, mesmo levando-se em conta que não conversava muito com os alunos, mas, quanto às aulas de conversação, meu fracasso foi total. Tentei vitalizar mais as aulas dramatizando as histórias, mas eles não corresponderam. Todas as vezes que tentava fazer isso aconteciam verdadeiras guerras na sala de aula. A liberdade que eu tentava aplicar, em poucos minutos transformava-se em anarquia. Uma vez por semana, à noite, havia um culto numa das salas de aula. E a Sr.* a Poon —

nome que, orgulhosamente, me deram em chinês — tocava o harmónio. A maioria das pessoas que vinham era constituída de mulheres mais velhas, algumas carregando crianças presas às costas. Vim a descobrir depois que muitas delas, sendo analfabetas, vinham à igreja para ter aula de leitura. Começavam cantando entusiasticamente, em voz bem alta. Em seguida, a instrutora bíblica expunha os ensinamentos em cantonês. Nessa época, eu não entendia uma palavra do que era dito, mas sentia que participava do culto. Na primeira noite em que lá estive, uma mulher me captou a atenção, naquele grupo de chineses. Era uma velha verdureira: tinha o rosto muito sulcado de rugas, e apenas dois dentes, que estavam sempre em evidência, pois a mulher sorria constantemente. Ela se aproximou de mim e puxou-me pela manga, com veemência. Ficou falando e falando, sorrindo e puxando a manga. Pedi a alguém que interpretasse para mim o que ela estava dizendo. — Até a semana que vem! Até a semana que vem! Tive vontade de dizer a ela que não poderia ir todas as semanas, pois morava muito longe, e quando voltava para casa já era muito tarde, e eu tinha que me levantar cedo para dar aula. Mas senti que não conseguiria explicar-lhe tudo isso. Ela só compreenderia que eu estaria ali ou não estaria. Então resolvi ir ao culto todos os dias, só por causa dela.

Aquela altura, eu já tinha um emprego fixo: dava aulas numa escola primária, pela manhã. Lecionei ali durante seis meses. Além disso, auxiliava Tia Donnie na escolinha dela, três vezes por semana, à tarde, tocava nos cultos de domingo, e preparava programas musicais em prol de várias instituições de caridade. Isso tomava todo o meu tempo. Na segunda vez que fui à Cidade Murada, tive uma sensação maravilhosa: aquela vibração interior que se tem no dia do aniversário. E comecei a me indagar por que me sentia tão feliz. E na outra vez que fui ali, experimentei exatamente a mesma coisa. Isso me parecia um pouco descabido, num lugar tão revoltante como aquele. E, no entanto, quase todas as vezes em que me encontrava nesse reduto de marginalidade, nos doze anos que se seguiram, sentia o mesmo gozo. Eu já tivera um vislumbre dessa alegria no dia da minha "confirmação", e depois quando recebera a Jesus em minha vida — mas experimentar o contentamento espiritual nesse lugar profano? — Aquele ali é viciado, disse-me Tia Donnie certa manhã, quando nos dirigíamos para a escola. Nessa ocasião, eu ainda não sabia direito o que significava ser viciado. Ele iria nos agredir, roubar-nos o relógio ou ter um acesso? Era um homem de aspecto patético, que, com movimentos lentos, catava coisas num monte de lixo. Estava examinando os detritos ali deixados, um por um, para ver se havia algum

objeto que pudesse ser de valor para ele. Dava a impressão de estar muito doente, o rosto muito pálido, e parecia ter setenta anos e não trinta e cinco. Usava uma camiseta de algodão bastante suja e sandálias de plástico, já bem gastas. A maioria dos chineses anda sempre muito limpa, mas o Sr. Fung estava imundo. Seus dentes eram pretos, quebrados. O cabelo cortado rente indicava que acabara de sair da prisão. Mas, para ele, a cadeia era apenas um lugar para dormir e comer com mais regularidade. Mas, na verdade, cama e comida não era o que importava para ele. Fung vivia para "perseguir o dragão". Essa maneira chinesa de tomar droga tem seu ritual próprio. O viciado chega a um local de comércio de drogas, pega um pedaço de folha de alumínio e coloca nela alguns grãozinhos de heroína. Acende um paviozinho feito de papel enrolado e coloca sob o alumínio, a fim de aquecer a droga. A heroína vai-se derretendo lentamente, transformandose numa espécie de melaço escuro e fumegante. Ele coloca na boca a parte externa de uma caixa de fósforo para servir de funil, pelo qual ele irá inalando a fumaça. Em seguida, põe-se a mover a folha de alumínio, fazendo o filete de líquido grosso escorrer de um lado para outro, acompanhando o movimento da fumaça com a boca. Chamam a isso "perseguir o dragão". Pouco depois, fiquei sabendo que nem todos os viciados tinham uma aparência como a do Sr. Fung. Alguns deles estão sempre bem

falei. Na sua maioria também eram viciadas em drogas. A prostituição raramente era camuflada. porque eu. em chinês. sentadas sobre caixas de laranjas e uma delas tinha até uma cadeira. Ficava o dia inteiro agachada na rua. vi o Sr. Fung muitas vezes. Comecei a me indagar se não deveria fazer alguma coisa por ele e por outros iguais a ele. Eu passava ali todos os dias e nunca saberia dizer quando estavam acordadas ou dormindo. Aprendera a "Jesus te ama". A moça estava fortemente constrangida. uma jovem "limpa". cometera um engano e tocara nela. o fato de se apresentarem bem é uma evidência de que não se acham escravizados ao dragão.vestidos. uma rua tão estreita que o rego do esgoto passava perto de seus pés. e eu não sabia o que fazer para derrubá-la. Rua abaixo havia outras delas. compreendi subitamente que cometera um erro. o branco dos olhos amarelado pelo torpor da heroína. fugindo ao meu contato. A primeira prostituta que vi ali chamou minha atenção por estar usando batom e esmalte num tom vermelho berrante. . Estavam sempre pendendo a cabeça. Ela colocara uma barreira entre nós. — Yeh sou ngoi nei. Um dia tentei tocar na menorzinha. Para estes. uma suja. As marcas escuras no dorso da mão revelavam que injetavam heroína diretamente na veia. Como passara a ir à cidade com freqüência. Mas ela se encolheu toda. Vendo a expressão de seu rosto.

Via de regra. Nunca saíam a não ser acompanhadas por uma mama-san. cada membro da quadrilha pegava sua menina e ficava com ela durante alguns dias. Se resistissem. Eram visitadas por três clientes a hora. Uma delas era aleijada e a outra retardada. empurrando-os escada acima: — Venha. Naturalmente. ele a entregava a um bordel. Depois que percebia que ela já estava afeiçoada a ele e acostumada com o sexo. As vezes dava para ouvi-las dizer. Ambas eram prisioneiras. como essas moças eram iniciadas nesse tipo de vida. e as vendiam para o comércio da prostituição. Havia duas mocinhas que eu via ocasionalmente. vim a saber. e é barato. Nessa época uma tinha treze e a outra quatorze anos. através de um membro da quadrilha. Durante a festa. e os bordéis só podiam funcionar com permissão da quadrilha. A maioria das prostitutas era controlada por quadrilhas. porque seus pais não tinham condições de sustentálas. as mocinhas não ficavam com o dinheiro. onde permaneciam até se . ela é bem jovem. que controlava a área em que se encontravam. Quando os homens saíam do cinema pornográfico.Fui percebendo aos poucos que as mulheres mais velhas se engajavam na obtenção de clientes. as jovens eram seduzidas. Outras mocinhas se prostituíam. eram estrupadas. Mais tarde. as mama-sans quase os agarravam e puxavam para ali. Os rapazes organizavam uma festinha e convidavam mocinhas.

tornarem mais adultas. pudéssemos conceber um plano de fuga para elas. e pudesse pagar a quantia necessária para uma hora com elas. . mas que. fazendo a única coisa que sabiam. se alguma quisesse abandonar esse tipo de vida. nesse tempo. Talvez juntos. muitas dessas antigas meninas-prostituas fugiam de seus donos e se lançavam na carreira. Depois disso. que estavam sempre tão bem vigiadas. eu e ele. Comecei a planejar um modo de alcançar essas moças. Afinal tive que desistir disso e "arquivei" mentalmente o problema. Algumas dessas crianças iniciavam este tipo de vida com nove anos de idade. pregasse o evangelho para a jovem. mas tinha esperanças de que um dia pudesse encontrar um homem que se interessasse por esse trabalho.

Depois levantou-se e pôs-se a dançar pela sala. . Conheci-o quando dava aulas de inglês e canto na Escola Primária Oiwah. quantos pode ter qualquer outra pessoa. no entanto. de quinze anos. e com tantos problemas. procurei descobrir as origens dele. Era um rapazinho feioso. Estava ensinando uma musiquinha muito simples. remexendo os quadris com um jeito bem sensual. três tardes por semana. Após a aula. Girava os olhos e estalava os dedos. lá estava Chan Wo Sai parecendo realmente empolgado com uma cançãozinha infantil. e passei a ensinar outra música.4 O Clubinho Às vezes penso que a verdadeira razão por que criei o clubinho foi Chan Wo Sai. e. vindo em minha direção. Mandei que voltasse para o lugar. sem arroubo nenhum.

A mãe era prostituta e o pai. na qual se batia com baquetas. mas não tinha o menor senso de ritmo. Então procurei conhecê-lo e ajudá-lo a melhorar de vida. os antros de jogo um pouco abaixo e os salões de ópio depois desses. moravam algumas prostitutas. Na Cidade Murada não havia nada que oferecesse a alguém uma atividade mais construtiva. E para dificultar ainda mais as coisas. ele tinha uma deficiência de fala que embaraçava ainda mais nossa conversa. e isso me deixou um pouco alarmada. Desde que se entendeu por gente. Ele tinha que treinar naquilo. Nosso único ponto em comum era uma espécie de tambor que eu havia dado a ele. eram parte de seu quotidiano. pois era a primeira vez na vida que alguém demonstrava algum interesse por ele. percebi que estava constantemente pensando nele. uma bateria surda. Toda a família ocupava um quartinho minúsculo. um bêbedo. já que eu não falava uma só palavra de cantonês. Mas ele se mostrava muito satisfeito. Consistia numa membrana de borracha presa numa armação de madeira. o garoto passou a conviver com esses fatos. Viviam num pardieiro. Minha mentalidade inglesa me levava a crer .Chan Wo Sai nascera ali mesmo. Na casa ao lado. Isso seria um pouco difícil. Seus horizontes eram limitados pelo bordel ao lado. numa casa que havia desabado. A medida que os dias iam passando. na Cidade Murada.

que qualquer amor por um rapaz tinha que ser de natureza romântica. Meu bom-senso dizia que ele era um rapaz feioso. pelo menos. onde ganhavam pouquíssimo. Algum tempo depois. o mais desatendido era o dos adolescentes. . isso era impossível. Mas. Mas os adolescentes não tinham nada. E eles tinham de trabalhar nas indústrias de plástico. e diferia bastante do amor que eu sentira por outras pessoas. Era praticamente impossível estudar num ginásio. caíam na senda do crime. Era um amor que tinha por objetivo o bem dele. Cheguei a um ponto em que estaria disposta a dar minha vida por ele. Pouco depois. tinham a chance de freqüentar uma escola primária. naquele caso. embora não se tratasse de um sentimento que devesse ou pudesse ser retribuído. obviamente. e fiquei bastante surpresa. Mas eu realmente o amava e orava por ele constantemente. saíam de casa e iam viver com outros jovens em cômodos miseráveis. que eu deveria demonstrar. vim a compreender o que se passava comigo. sendo eu crente. Muitos rapazinhos. não tendo nenhuma atividade. com uma formação das piores possíveis. e. para o qual sempre tinha desejado alguma forma de retribuição. Dentre os vários grupos humanos necessitados que pululavam a Cidade Murada. e até mocinhas. isso teria que terminar em casamento. e até mesmo ridículo. Era como se Deus tivesse me concedido um amor especial por ele. As crianças menores.

que alguns rapazes da Cidade Murada estavam sendo pagos para participarem do tumulto. Meu plano era termos um salão que abrisse todas as noites. Houve tumultos por toda a colônia. mas igualmente um lugar onde ouvissem falar de Jesus. Então. Não contava com . num dia úmido de junho. Durante o verão de 1967. Percebi então que poderia convencê-los a fazer um piquenique. porém. Eu imaginava o trabalho sendo realizado com o auxílio de uma equipe de obreiros cristãos da ilha de Hong Kong. Quando pretende começar? A semana que vem? Começamos uma semana depois. todos escolhidos a dedo. disse a Tia Donnie em tom bastante pomposo: — Acho que Deus está querendo que eu organize um clubinho para jovens. Seria um lugar onde os rapazes pudessem jogar tênis de mesa e engajar-se em outras atividades saudáveis. enquanto eu ficava sentada. — Ótimo! Há anos estou orando por isso.'to bem planejado. Vim a descobrir. toda a China fora convulsionada pelas atividades da Guarda Vermelha. que iriam avançar sobre a cidade com um programa de ação mu. Ainda dava para contar nos dedos as palavras de cantonês que eu sabia. Mas Tia Donnie tinha uma atitude mais prática. assistindo e aplaudindo. Aquela "epidemia" chegou também a Hong Kong. as quadrilhas é que lhes ofereciam a única forma de ocupação possível. e aos sábados e domingos.Muitas vezes.

caminhadas a pé e visitas às plantações do refloresta-mento. era um dos . com piqueniques. De reuniões apenas aos sábados. — Nós bebemos e fumamos. um jovem chinês que eu conhecera na Orquestra Juvenil. resolvi ampliar ainda mais nossas atividades.minha equipe escolhida a dedo e não tínhamos um local para nos reunirmos. Os primeiros a aparecer foram os adolescentes de treze e quatorze anos. Pouco depois. ao pensar que os rapazinhos poderiam envolver-se mais nos tumultos de rua. ou ia patinar conosco. começaram as férias. tornando-se um esteio para mim. Mas passamos a usar uma sala da escola nos sábados à tarde. e. E nos anos que se seguiram realizamos o mesmo programa em julho e agosto. e sabemos que os crentes não fazem essas coisas. veio em meu auxílio como intérprete. Chan Wo Sai largou a escola. Nem ao menos sabiam direito quem ele era. Pouco depois. vamos ao cinema e jogamos. Eles não gostavam muito de ouvir falar de Jesus. Alguns jovens me disseram que não poderiam ir ao clubinho. E Gordon Siu. que traziam também seus amigos de fora. Todos sabiam que eu estava ali basicamente porque era cristã. Estando com quinze anos. e que em toda a programação sempre haveria uma pequena palestra no início. Ele me ajudava a alugar ônibus. acompanhava-nos nos piqueniques. passamos a ter um completo programa de verão.

A única alternativa que restava a Sai era fazer um curso profissionalizante. ou porque não tinha terminado o primário. Todas as . intercediam por alunos difíceis e problemáticos como Chan Wo Sai.mais velhos alunos do quarto ano. ou porque já passara da idade. e ele conseguira um emprego de vender ingressos. em seus estudos. largar a escola primária era uma coisa terrível. e eram incapazes de controlar quaisquer alunos. disse um deles. porém. ficamos muito satisfeitos quando ele decidiu sair. Diziamse cristãos apenas para conseguirem o emprego. porque não conseguíamos controlá-lo mais. a não ser que fossem bastante dóceis. Jackie. Mas a verdade era que a maioria deles mal havia completado o segundo grau. e eu imagina que. Ele resolvera não concluir o ano. Para a inexperiente professora inglesa. Fora aberto um novo cinema. tentei persuadir o garoto a voltar. pelo menos. Por fim. — Olha. Viemos a descobrir. onde pudesse aprender algum ofício. quando se reuniam para orar. mas eles se recusaram a recebê-lo. ou porque não falava inglês. Achava-se com quatro anos de atraso. que ele não se qualificava para nenhum deles. Pois que vá! E era uma escola missionária! Os professores eram crentes. ele resolveu ir conversar com os professores. Durante todo o período das férias.

Um salão com alguns joguinhos tais como mesa de pinguepongue e alvo para dardos. Tinham sua posição certa e eram tratados como uma pessoa importante. o sucesso nas provas era sinônimo de valor e integridade. Mas nem nas quadrilhas nem em meu clubinho. O que iria suceder-lhe? Parara de estudar e. Tanto na igreja como na escola. Vários dos seus amigos que paravam de estudar iam para as quadrilhas. o que não achavam em nenhuma outra parte. Encontravam ali até um pouco de carinho e afeto. mas era sempre o mesmo. Outro rapaz que vim a conhecer bem naquela época foi Nicholas. consideração e amizade. alguns bancos toscos e uma estante com alguns livros evangélicos". As duas filhas mais velhas . Não havia nada mais que eu pudesse fazer por ele. eles escutavam palavras de condenação ou rejeição pelo fracasso. Tivemos de mudar várias vezes. Ninguém obtinha lucros com ele.portas se fechavam para Chan Wo Sai. O nosso Clubinho Jovem era realmente bem diverso de tudo o mais que havia na Cidade Murada. a não ser manter o clubinho em atividade. não era controlado por chefes de quadrilhas. embora ele tivesse apenas quinze anos. ao que parecia. Tanto o pai como a mãe já tinham sido processados por venda de drogas. Sentiam que ali tinham uma função na vida. e a família toda vivia numa das piores casas que já vi. a única perspectiva de vida para ele era vender ingressos no cinema.

embora isso fosse absurdo. o fato de eu receber Nicholas em nosso clubinho implicava em descrédito para o bom nome da igreja cristã. do Sistema. e . dizia a mãe. do mesmo modo que Chan Wo Sai. Jesus viera ao mundo por causa de pessoas iguais a ele. a mentira e a corrupção eram coisas certas. Na opinião deles. Naturalmente eles sabiam que suas irmãs eram meretrizes e o pai viciado em ópio. Mas eu o amava. já que eu era representante da Igreja. Vim a compreender depois que naquele lugar de tamanhas trevas não havia a noção do conceito de retidão. Mas nada disso o tocava para que se modificasse.eram prostitutas. Encontrava-o nos antros de droga. — Nicholas é um menino terrível. E achavam que tal atitude era correta. E todos moravam em apenas um cômodo pequeno e malcheiroso. Os membros da igreja não gostavam de Nicholas. e. desde que dessem lucro. e ali orava por ele. O crime. acompanhava-o à delegacia. Interessava-me bastante por ele. Resolvi então fazer-me amiga dele e visitá-lo seguidamente. Eu sabia que o rapaz tinha má conduta e estava sempre dando trabalho. pois ele. Mas as pessoas que assim pensavam assumiam uma atitude de moralidade em minha presença. quando era preso. Eu não devia nem ser vista em companhia dele. exercia uma influência negativa sobre os outros alunos da escola. o que também não fazia muito sentido. repreendendo-o bem na minha frente.

quando eu caminhava pela rua. e estava furioso. Isso não é justo. respondi. uma das meninas mais novas.depois se lamentava: não sei por que meus filhos são todos uns perdidos. — Poon Siu Jeh. Annie. disse ele muito encolerizado. um velho correu ao meu encontro. E sua mãe também ficou encantada. Tempos depois. afinal. — E por que eu deveria reclamar? indaguei. acabou fazendo um bom casamento. você tem que reclamar na polícia. pois o rapaz tinha seu próprio carro. Tinha o rosto esquelético dos viciados em ópio. Mas. Certo dia. mas justo e injusto. também se tornou prostituta. Não se tratava do que era certo e errado. e pagamos a eles a mesma quantia que os outros. Por que deseja que eu reclame? — Porque deixaram as de heroína funcionando. fazendo a arrecadação do dinheiro do suborno. Annie ficou muito feliz de se casar com ele. mas também trabalhava para a polícia. — Por que fecharam todas as salas de ópio. — Mas estou muito satisfeita de saber que fecharam as salas de ópio. um homem muito importante na Cidade Murada. E ela era uma pessoa que preparava os saquinhos de heroína para vender aos viciados. . O noivo era for-gei. Era proprietário de um salão de consumo de ópio.

Convenci-a a sair de lá para ficar conosco. Rachel. tipos como Nicholas começaram a freqüentar seu cômodo.Joseph foi um dos primeiros presidentes do clubinho. Joseph arranjou um quarto para morar e pôs-se a trabalhar em serviços pesados. A irmã também estava correndo perigo moral. morando comigo. passando a noite ali. Arranjei uma escola secundária para ela. Depois. mas o desejo da moça era voltar para a Cidade Murada. Mas um pastor de Novos Territórios os apanhou e enviou para a escola da Tia Donnie. não lhes dava o que comer. Não poderia abrigar a ambos em minha casa. causou-nos muitos problemas. Depois de terminar o curso primário. sua irmã foi morar com ele. Então Joseph e sua irmã Jenny tiveram que sair mendigando. Pouco depois. como Nicholas e Chan Wo Sai. Não tinha nenhuma ligação clara com o crime organizado. seu pai casou-se de novo. Passei a visitá-los com regularidade. se continuasse morando com ele. e durante o período em que esteve conosco. Aos quinze anos era muito bonita. e estava-se deliciando com a liberdade que tinha. Quando ele estava com seis anos. sempre que conseguia algum. . ela iria fatalmente acabar tomando o caminho inevitável. e seu quartinho se tornou uma "incubadeira" de quadrilheiros. e como a madrasta não gostasse dos enteados. Senti que. já que havia outra moça da Cidade Murada. Mas achei que Jenny poderia vir. Podia conversar à vontade com os amigos do irmão.

os pais e seis filhos. pregando lantejoulas em roupas. Em determinado ponto. que. tinha que trabalhar mais. Era apenas um cômodo. Era uma tradição dos chineses. Era ali.Outro rapaz que freqüentava assiduamente o clubinho era Christopher. A ambição dos pais era aposentarem-se e serem sustentados . A porta era aberta de baixo para cima. Nele havia apenas dois beliches e todos dormiam naquelas duas camas. Assim Christopher começou a trabalhar. com os quais a mãe dele trabalhava. como um alçapão. onde não penetrava a luz solar. descia-se por uma ruela escura. Aos treze anos fora trabalhar numa fábrica de artigos de plástico. E depois que chegava do serviço. e estava-se na casa dele. seriam de sua mãe. Quando fazia uma blusa de frio. Todos os filhos tinham que ajudá-la. por exemplo. e seu dinheiro também era entregue à mãe. Uma cortina servia de tapume para o canto onde a família dormia. A filha mais nova nem chegara a terminar a escola. Subia-se uma escadinha de madeira. ganhando mais ou menos um dólar por dia. naturalmente. ganhava mais três dólares. O resto do aposento estava ocupado por imensas pilhas de artefatos de plástico. E todo o dinheiro que ganhava tinha que ser entregue à mãe. havia alguns galinheiros feitos de engradado de refrigerantes. Para se chegar lá. que morava num casebre. uma lei não escrita: os filhos tinham que pagar aos pais pelo sustento deles recebido.

em sua maior parte. fugiu de casa e foi morar com o rapaz. como se fossem bens particulares. . A mãe conseguiu pegá-la de volta e trancou-a em casa. A mãe de Christopher foi assim ajuntando dinheiro e. com quatorze anos. e olhar os irmãozinhos. Sendo as meninas tratadas assim. Conheceu em sua fábrica um rapaz que gostava dela. ou então montar as peças dos objetos de plástico. Ah Lin. pura e simplesmente. O que ela fizera significava não apenas vergonha para a família. Muitos casais chineses têm família numerosa por razões econômicas: para que fiquem ricos ao envelhecer. recreativas. Também não permitia que ela freqüentasse o clubinho. mas também um rombo nas finanças dela. Finalmente. não é de se estranhar que caíssem na prostituição para se libertarem. não deveria existir para ela. afinal se rebelou contra aquela exploração. mas.pelos filhos. A menina tinha que ficar em casa. ou buscar água. Os pais retinham tudo. a garota. Tive a impressão de que a afeição familiar não se baseava em um amor mútuo. pois nunca ficavam com ele. sim. comprou um apartamento para si. O divertimento. a irmã mais nova de Christopher. Os jovens chineses não tinham nenhuma satisfação ao receberem seu pagamento. fora da Cidade Murada. pois as atividades dele eram. mais tarde. em interesses econômicos. mas a mãe proibiu o namoro.

Então iniciei o que eu chamava de "andar a segunda milha". Aquela família esperava que eu simplesmente fosse à diretora e lhe dissesse: — Olhe. pois quando haviam pedido meu auxílio. conheço o Dr. Um exemplo desse tipo de conduta foi o que se deu. Entrei na fila. quando um dos rapazes me pediu que ajudasse sua irmã a conseguir matrícula numa escola secundária. seus familiares e seus problemas. Aquele povo ali precisava que se andasse com eles uma maratona. então nós. eu sou fulana de tal. . não era isso que tinham em mente. Implicava em viver diante deles de maneira prática. Será que poderiam admitir aqui essa menina? Mas não fiz isso. apenas para pegar um formulário para fazer o exame de admissão. como todo mundo. os crentes. tínhamos que demonstrar na prática quem ele era. e o conhecessem. para que vissem quem Jesus era. pelos nossos atos e conduta. O processo normal era ficar na fila um dia inteiro. Parecia que havia muitos cristãos que não se importavam de andar a primeira milha. Fui-me envolvendo cada vez mais com os rapazes.Minha tarefa era fazer o povo da Cidade Murada entender quem fora Cristo. Sicrano. e eles ficaram muito espantados. muitos que não se dariam ao trabalho de andar duas e nenhum que quisesse andar três. Se não conseguiam compreender as palavras que pregávamos sobre Jesus.

estou sem emprego e meu dinheiro acabou. respondia eu com toda a sinceridade. se ficassem em meu grupo. não tenho igreja. muitas pessoas se agregaram a mim simplesmente pensando que. talvez conseguissem um certificado de batismo ou um documento qualquer que lhes possibilitasse emigrar para os Estados Unidos. Mas não sou sustentada por igreja nenhuma. não tenho dinheiro nenhum. Você tem uma igreja na América que a sustenta.Eu só podia dar esse tipo de ajuda durante as férias. Você é muito rica. Tratavam-me como haviam tratado outros missionários. não existe a menor probabilidade de isso acontecer. pois estava dando aulas de música em tempo integral no Colégio AngloChinês para meninas. qualquer dia desses você pega um jato e volta para sua terra. — Tem. sim. Mas durante muito tempo. — Não. quando eu lhes dizia que não o tinha. Eram os "crentes da sopa". . E não acreditavam. — Não. E eu vim da Inglaterra. — Ah. crendo que eu fosse uma presa fácil. mas você deve ter sim. Estavam constantemente pedindo dinheiro emprestado. pois não tenho dinheiro para a passagem. — Não. Os diálogos eram quase sempre mais ou menos assim: — Poon Siu Jeh. — Ah. — Mas eu não tenho dinheiro.

. replicava. — É. Ficam aqui um ou dois anos. podem pegar o avião e ir embora. Ah Ping entrava na conversa. você também irá embora. na sua pátria. vêm aqui e falam de Jesus para nós. Esse Jesus chama vocês de volta para fazer outro trabalho. E hoje ele iria dizer uma coisa que todos eles pensavam. povos mais carentes. — Não. e seus comentários eram sempre mais precisos. Aquela altura. cantavam lindos hinos sobre Jesus e depois pegavam o avião e iam embora. Nós não podemos. para aplacarem a consciência. Era um forte libelo contra aqueles evangelistas que chegavam a Hong Kong. Mais cedo ou mais tarde. os ocidentais. — Vocês. talvez você não tenha dinheiro mesmo. Não temos para onde ir. e depois vão embora. mas sempre pode ir embora. continuou ele.— Então seus pais lhe mandam dinheiro. se quiser. e depois se esquecem completamente de nós. Mas vocês. — Meus pais também não têm muito dinheiro. quando se entusiasmava. Ah Ping. Mas continuam bem. Ele pensava um pouco mais que os outros. Não estou pensando em ir embora e esquecer vocês. morando em belas casas. Mas Ah Ping sabia falar. os ocidentais. com geladeiras e empregados. É verdade que lá muitos conseguem angariar bastante dinheiro para nós. enquanto nós continuamos vivendo aqui.

É muito fácil para eles cantar hinos que falam de amor. Mas isso não significa nada para nós. — Ótimo! Muito bom! diziam. . eles acenavam a cabeça afirmativamente. pois a maioria nem tinha idéia de quem era Jesus. se também pudéssemos pegar um avião e viajar pelo mundo todo. Teríamos muito prazer em crer em Jesus. dizia Ah Ping.— ótimo. Houve ocasiões em que tentei conversar com os guardas das salas de jogo. E não nos conquistam tampouco. dizendo que Jesus poderia dar-lhes uma nova vida. mas o que sabem a nosso respeito? Nada. mas quando mencionava que Jesus os amava. E eu continuei a pregar. não sabem nada. ótimo para eles e para nós também. mas não pareciam entender nada. E não significava mesmo. como eles. e do que fosse amor.

Muitos deles tinham vivido sempre na China e se sentiam meio desarvorados. Alguns cristãos diziam que estas coisas ainda aconteciam em nossos dias. Eu não pertencia a nenhuma missão.5 Luz nas Trevas Jesus não apenas afirmou que era Deus. ele demonstrou isso. e começaram a influenciar-me a tal ponto. Meus amigos missionários não podiam auxiliar-me muito nessa questão. e os mortos voltarem à vida. Alguns ainda tinham certos ranços culturais. a audição. na verdade. Fez os cegos recobrarem a visão. mas eu não as estava vendo. e. que passei a me preocupar com detalhes tais como se devia usar vestidos sem mangas ou se devia ir nadar aos domingos. estava bem livre de . os surdos.

gostaria de recebê-la." Mas estava claro que aquele casal tinha algo que eu não tinha. e eu mal falava chinês. estava me sentindo tolhida. As laranjas eram usadas tradicionalmente pelos chineses para qualquer comemoração. Eles denominavam-no possuir o Espírito Santo. Imediatamente. Lá conheci um casal chinês que iria dirigir o culto. e percebi neles uma vitalidade e um poder que eu desconhecia. Não falavam inglês muito bem. Então combinei visita-los em seu apartamento no dia seguinte. "É lógico que possuo o Espírito". Havia ali uma mesa sobre a qual se viam um prato com laranjas e outro com pedaços de flanela molhada. disseram. como milhares de outros da cidade. tinha apenas um cômodo. se Deus tinha outra bênção para mim. e eu o reconhecera. Ligeiramente indignada repliquei que o tinha sim. . Certo dia fui tocar harmónio na Capela. tive vontade de saber por que eram tão diferentes. Contudo. Mas. O apartamento deles. ao passo que eu preferia outra expressão. e deixaria para depois a nomenclatura teológica. infrutífera. "Se não o tivesse não poderia crer em Jesus. e os pedaços de flanela eram para quando eu chorasse. pensei comigo mesma.imposições. apesar de não ter entendido bem a mensagem. — Você não possui o Espírito Santo.

suave e coerente.. No grupo de West Croydon havia algumas pessoas que falavam línguas estranhas. além de um grande desconforto e muito calor. embora um pouco surpreso de não me ver chorar. Parecia-me maravilhoso ter uma nova língua na qual pudesse expressar a Deus todos os pensamentos. Se Deus quisesse dar-me o dom. estava-me sentindo cada vez mais envergonhada. Eles iriam ficar muito desapontados. agora comece a falar.Senti meu coração pulsar com força. ele teria que fazê-lo. e eles impuseram as mãos sobre minha cabeça e começaram a falar repetidamente: — Agora comece a falar. bem articulada. Contudo. Então me sentei. Logo que fiz aquele esforço consciente para abrir a boca. Mas eles . agora comece a falar. Foi totalmente desprovido de emoção. mas fechei a boca firmemente. Não tive a menor dúvida de que tinha recebido o sinal. O casal chinês ficou encantado ao ver que eu falara em línguas. Mas não aconteceu nada. e não eu.. mas ninguém gostava de conversar muito sobre esse dom. pois não sabia exatamente o que iria acontecer ali. se nada acontecesse. não consegui me conter mais. Afinal. Era uma língua muito bela. percebi que estava falando fluentemente uma língua que nunca aprendera. Mas não me sobreveio nenhuma alegria esfuziante. e abri a boca para dizer: "Ajudem-me!" Foi aí que começou.

alguém em Hong Kong que pudesse dar-me umas explicações sobre isso. Lera livros que haviam-me deixado com a impressão de que aquela experiência iria fazerme andar nas nuvens. Na semana seguinte. tinha vindo de Deus. Mas não entendi bem o que quiseram dizer. mas não encontrei ninguém. disseram-me: — Agora você pode esperar que os outros dons do Espírito vão aparecer também. todos os dias. Eu não tinha dúvida nenhuma acerca da validade e do uso deles. comecei a pôr de lado a questão toda. aconteceu uma coisa muito perigosa que ocasionou divisão nas igrejas. mas não sabia quando uma pessoa reconhecia que os possuía. como isso poderia ser perigoso? Com o passar dos meses. falando só sobre Jesus. Quando estava à porta. Procurei.choraram um pouquinho. Ainda me sentia um pouco constrangida. Eram os dois únicos dons do Espírito de que eu ouvira falar. Alguns amigos missionários me disseram. então. em tom sombrio: — Na China. Mas o ensino sobre os dons estava na Bíblia. Os missionários pentecostais informaramme que haviam feito um acordo com os demais evangélicos de não conversarem com outros sobre os assuntos em que divergissem. ficava esperando que o dom de cura ou o de profecia surgissem de repente. e saí assim que pude. A experiência não havia mudado em nada a minha vida . Outra coisa que me intrigava um pouco era o fato de não estar dominada pela emoção.

é um dom do Espírito. Mas uma amiga minha.espiritual. disse ela. respondi. "Hong Kong não precisa de mais reuniões de oração. que acabara de chegar a Hong Kong. Ainda continuava rondando a Cidade Murada. E foi então que fiquei conhecendo Rick e Jean Stone Willans. conhecer a situação da igreja aqui. Clare Harding. procurava ajudar as pessoas. para satisfação própria. "Quem eles pensam que são?" indaguei comigo mesma. Não me ajudava em nada. dizendo que seria uma reunião carismática." Já haviam-se passado dois anos desde que eu chegara da Inglaterra. A . Ora em línguas? — Para dizer a verdade não o faço. Jackie? indagou Jean. Não vejo nele muita utilidade. a filha Suzanne e uma amiga. vou freqüentar durante algum tempo. — Mas isso é um grande erro. — Você tem o dom de línguas. Eles deveriam. na primeira vez que ouvi falar do casal Willans. e um ano que eu supunha haver recebido "o dom do Espírito". insistiu em que eu fosse. Era um casal americano. mas parecia que não estava conseguindo nada. Senti como se tivesse sido enganada. Eu mesma tenho reuniões todos os dias. Eles iam realizar reuniões de oração. então parei de orar. Gail Castle. todas as noites ia a um culto qualquer. primeiramente. Não se trata de um dom de emoção. Sentia-me uma autoridade na questão de reuniões de oração da Colônia. — Está bem.

ele deve ser bom. Não houve jeito de escapar. não se importe muito com o que sente. exercite-o. sugeriram que orássemos juntos em línguas. onde um estranho poderia entrar e pensar que estavam todos loucos. isso não faz muito sentido para mim. em dado momento.Bíblia ensina que aquele que ora em línguas é edificado espiritualmente. Portanto. diante daqueles americanos. como se estivesse nas profundezas de . Mas nós três ali não iríamos escandalizar ninguém. Deus me falou: — Você não quer ser ridícula por amor a mim? Entreguei os pontos.mesmo tempo. Jean falou que Deus lhe havia dado a interpretação do que eu dissera. Mas quando pensei que estava para morrer de vergonha. Mas. para meu espanto. pois a Bíblia ensina que as pessoas não podem falar línguas em voz alta. Faria qualquer coisa para não estar ali. dizendo coisas que não entendia. eles pararam de orar e eu fui impelida a continuar. — Está bem. E assim ela e Rick me fizeram prometer que iria orar em minha língua celestial todos os dias. Eu não estava muito certa se isso era correto. Senhor. em língua estranha. E em seguida. Iríamos simplesmente orar a Deus numa língua que ele nos concedera. mas como foste tu quem inventaste esse dom. Quando acabamos de orar. e então nos pusemos a orar. Meu coração estivera clamando pelo Senhor. todas ao . Senti-me meio ridícula. orando em voz alta. Explicaram que Paulo se referia a um culto público.

Eu estava falando de Jesus a pessoas que realmente desejavam ouvir. Eu lhe dirigira palavras de adoração e suplicara que ele me usasse. comecei a notar que acontecia um fato maravilhoso.um vale. não entendi direito. As pessoas com quem eu falava de Cristo. A princípio. E não poderia orgulhar-me de nada. Peço-te que ores por meu intermédio. não sei orar e nem por quem devo interceder. Aceitei o fato de que ele estava-me ajudando a aperfeiçoar minha comunhão e súplica. passei a orar todos os dias na linguagem do Espírito. eu dizia as mesmas coisas que antes. dali por diante. E. Depois compreendi o que havia acontecido. Antes de fazê-lo. Tomei a decisão de nunca mais desprezar o dom. por acaso. quando orava na língua que ele me dera. eu dizia: — Senhor. criam nele. se Deus me ajudasse a orar daquela maneira todas as vezes em que o exercitasse. Mais ou menos um mês e meio depois. Só poderia maravilhar-me de ver como Deus permitia que eu tivesse uma pequena . na verdade. porém. Mas. e pensei que tinha descoberto. e me conduzas às pessoas que te desejam. uma nova e excelente técnica de evangelização. Deixara que Deus participasse de minhas orações e isso tivera um resultado direto em meu trabalho. Eu estava pedindo a Deus que realizasse sua vontade por meu intermédio. e ele no pico das montanhas.

Ao me converter. Experimentei mais uma vez a gloriosa liberdade de viver.participação em sua obra. Ela veio. o rapazinho fitou os quatro membros da famigerada quadrilha 14K que avançavam para ele ameaçadoramente. e eles se me tornaram ótimos amigos e conselheiros. Em . que possuímos em Cristo Jesus. eu aceitara o fato de que Jesus havia morrido por mim. quando vi os resultados dessas orações. E aí veio a emoção. Passei a conhecer melhor os Willans. mas a partir de então eu começava a ver os milagres que ele estava operando no mundo hoje. 6 As Quadrilhas — Hai bin do ah? De onde você é? Aterrorizado.

Não havia meio de escape. quando alguém entrava em território inimigo. Ficou então sabendo o que acontecia. enquanto ele seguia aos tropeções. tremia demais. — M'gong? Não quer falar. o porta-voz da turma.gíria da quadrilha. Aquilo dava enorme satisfação aos membros das quadrilhas. — Por que fizeram isso? indaguei. como que deliciandose sadicamente com o pavor que lhe inspiravam. e atingiu-o nas costelas — o treinamento que os chineses têm no kung-fu produz grande flexibilidade e economia de movimentos. chutando-o. e logo recebeu mais pancadas no estômago. O que aquele rapazinho fez a vocês? . ironizando seu medo. sem a devida proteção. mas não disse nada. Eles estavam no controle de tudo que se passava ali em seu território. O primeiro soco veio com grande rapidez. Ele gemia. hein? Ah Ping. Eles o atormentavam. O rapaz estava encurralado num dos becos da Cidade Murada. e se contorcia. aproximou-se mais até ficar a um passo dele. Mas o rapaz não conseguia responder. peito e virilha. que torna o soco preciso e mortal. pois acabava de presenciar aquela cena repulsiva. Foi aí que fiquei sabendo que o salão que eu alugara situava-se bem no meio da área controlada pela 14K. Então os outros foram empurrando-o rua abaixo. avançando lentamente. e depois se afastou manquejando. estavam indagando a qual daqueles grupos ele pertencia. O menino caiu.

todos alegando ser um prolongamento da tradicional Sociedade Tríade. Quando um homem entrava para uma delas. tendo-se subdividido em centenas de pequenos grupos. bem como derramar sangue. irmão maior. tinha que jurar que iria seguir seu "irmão" para sempre. e temos que mostrar a eles quem é que manda aqui. irmão menor. o Ging Yu. cujos membros faziam o juramento de derrubar o governo dos opressores estrangeiros. e restaurar ao poder a casa governante da China. Este era conhecido como daih lo. E esse laço era indissolúvel. a Sociedade Tríade era uma agremiação secreta chinesa. — Talvez nada. Na verdade. e assim . o indivíduo que quisesse filiar-se a uma das sociedades tríades tinha que submeter-se a uma série de rituais. então tínhamos que darlhe uma lição. Entre eles contavam-se decorar poesias. não passam de quadrilhas de marginais. que utilizam esse nome e os rituais da antiga sociedade apenas para camuflar suas atividades criminosas. Nos dias atuais. Provavelmente é dos nossos inimigos. Um candidato a membro da Sociedade Tríade poderia pedir a um membro efetivo dela que o deixasse "segui-lo". aprender certas formas de aperto de mão e assinaturas. e o iniciante era o sai lo. e beber sangue. a Dinastia Ming. No passado. Mas ele não se identificou. a antiga Sociedade Tríade encontra-se degenerada. respondeu anuindo.Ah Ping deu de ombros. Nos seus primórdios.

um grupo tríade poderia . filmes pornográficos.° 14. Assim. e a quadrilha dele cada área tinha seu próprio dirigente. O Jing Yu tinha o controle de todas as salas de venda consumo de heroína. com o objetivo de ajudar a causa da China Nacionalista. os antros de jogatina. A Cidade Murada era sede perfeita para as quadrilhas. 26 e 415. As quadrilhas espalhavam terror por toda a Hong íong. que cuidava los interesses dela no local. Ali operavam dois grupos principais. no setor oeste da cidade. o que facilitava a extorsão de pagamento por proteção. bordéis de crianças e outros negócios. Também recebia o pagamento por proteção. e mais sessenta mil só em iong Kong. Seu comando era descentralizado. Mas os quadrilheiros mais temidos eram os da 14K. e outras vezes apenas por números. e explorava a prostituição no setor a este da Rua Principal. Dizia-se que ela contava com cem mil membros em todo o mundo. n. e os membros das quadrilhas-irmãs eram chamadas de "primos". Cada quadrilha possuía uma complicada hierarquia de deveres e posições de liderança. em questão de minutos. Os membros comuns eram chamados penas de 49. geograficamente separados por determinada rua. Alguns dos chefes eram identificados por nomes estranhos. Esse nome deriva do fato de ela haver sido organizada na Rua Wah. 438.este se tornava seu irmão maior. e que controlava o comércio do ópio. Mas todos conheciam os chefes principais. em Tantão. tais como 489.

porém. podia organizar ama briga em poucas horas. Em troca de uma obediência irrestrita por parte do seu sai lo. Os quadrilheiros que conheci observavam aquela velha máxima de que existe honra até mesmo entre ladrões. embora fizessem restrições ao uso de drogas. Se um irmão menor fosse preso. chegando a conhecer o lugar melhor que os próprios marginais. quando saíam dela. mas. e.chamar a si dezenas de "irmãos". levando-me a tomar chá com eles. o seu irmão maior tinha que tomar providências. caso necessário. E foi minha preocupação pelos viciados que mais tarde me aproximou de alguns líderes tríades. Eu. depois de certo tempo passou a me evitar. que se achavam restritos a apenas um lado da cidade. Enquanto as pessoas não ligadas às tríades andaram pela cidade "rezando" para não serem detidas. se não pertencesse a uma quadrilha? Ele freqüentara o clubinho com certa assiduidade. para que na prisão ele recebesse comida. Como poderia andar por ali. Não fiquei espantada ao saber que Christopher iria ser iniciado numa 14K. o daih lo lhe prometia proteção. drogas e proteção. Todas as vezes que . até mesmo os que pertenciam a Ging Yu ou 14K. envolvendo centenas de quadrilheiros. já que sua ausência diminuía sua utilidade para a quadrilha. só caminhavam em seu próprio território. andava por todas as ruas indistintamente.

— Por causa dos pobres. — Christopher. não queria que eu visse o que estava fazendo. Sabe de uma coisa? Se Jesus vivesse no mundo hoje. sentado naqueles engradados de laranjas. Contudo. à oficina de consertos.tentava aproximar-me dele. e ia numa igreja arrumadinha e limpa. — Mas ele ama os bons ou os maus? indaguei. esperando que os bonzinhos fossem lá. e ele não poderia dar para trás. Não era hora de me importar com convenções. . Começou a jogar e estava sempre em companhia de marginais. Não é correto dizer a um chinês que ele está errado. eu ia conversando com ele.ta Poon. Eu carregava meu pesado acordeon e pedi-lhe que carregasse o instrumento para mim. — Jesus ama os bons. Estava encurralado. Encontramo-nos frente a frente. mas eu estava ansiosa para que ele compreendesse o que eu queria comunicarlhe. Chegou o dia em que o apanhei. desaparecia. estaria aqui na Cidade Murada. por que Jesus veio ao mundo? Ele não respondeu. bem lá na lama. E enquanto caminhávamos. — Foi por causa dos ricos ou por causa dos pobres? continuei. num beco muito estreito. — Errado. conversando com criminosos conhecidos. em sua opinião. — Era nas ruas que ele passava grande parte do tempo. Sr. conversando com as prostitutas e cáftens. disse.

a princípio. Um avião desceu para aterrissar. ele se tornou crente. Ias logo começaram as chacotas e risos. classe média. tínhamos saído da idade Murada e passávamos pela rua do mercado. respondi lentamente. A única coisa a fazer é buscar Jesus e ser purificado. E sentado ali à beira da rua poeirenta e barulhenta. mas para salvar os maus. e então deixamos o acordeon na oficina ali perto e nos sentamos num banco público. com silêncio. — Porque foi para isso que veio. ele disse que queria ouvir mais. Narrei-lhe a história de Naamã. Estava pasmado com o que ouvira. mas agora o conhecia.— E por que ele fez isto? perguntou incrédulo. Estava confessando a Jesus que falhara em sua vida. o povo conversava em altos brados. o general que fora atacado de lepra. Ele devia estar brincando. . Mas hristopher não estava escutando nada. Os veículos passavam por nós aos roncos. Não foi para salvar os bonzinhos. isso era para moços bons. ele apareceu no clubinho e stemunhou diante dos outros. Aquela altura. na palavra foi acolhida. No sábado seguinte. e concluí: — É muito simples. Tinha os olhos fechados e falava baixinho. educados. como se faz em Hong Kong. De repente Christopher parou. Rapazes de família ruim simplesmente não se tornavam crentes. os perdidos. dizendo que na semana anterior não cria em Jesus. e lhe pedia que o purificasse.

E sua decisão foi uma revelação para mim também. e daí a pouco Christopher começou a dar a interpretação.Mas não estava. Reuníamos para estudar a Bíblia e orar. Passava todo o tempo livre no clubinho. Esperamos uns instantes. Jesus estava em Hong Kong também. que me salvas das trevas. quando estávamos orando. Dá-me força e poder Para que eu viva no Espírito Santo. tanto quanto estava na Inglaterra. e outros rapazes como Christopher também fizeram a decisão de converter-se a Cristo. um deles recebeu uma mensagem em línguas. mas devolveu-. no meio aquela gente. Uma coisa dessas nunca acontecera antes." . e aqueles que o buscassem poderiam encontrálo. Lute contra o diabo com a Bíblia. Continuei a orar em Espírito em minha devoção particular. "O Deus. E recusou-se a continuar com sua iniciação na quadrilha. Fale aos pecadores desse mundo E os leve a pertencer a Cristo. Já estava com o livro de regulamentos que deveria memorizar. Passou a trabalhar tão bem na fábrica. e aos domingos ia aos cultos na igreja. que foi promovido. muitas vezes. A transformação que se operou em Christopher foi notável. e um dia. em cântico.

e eles não tinham que pagar nada. (ão sei por que você não desiste. e ele percebeu isso. Muitos vinham apenas por causa das vantagens que obteriam. Nunca mudaremos. eu chegara a conhecer Ah Ping muito bem. nem todos os rapazes que freqüentavam o clube sabiam ao certo por que eu estava ali. Eles serão ótimos crentes. Você arranja estudo ara nós. Fora iniciado numa quadrilha tríade com apenas doze anos. Largue este lugar. Fazíamos piqueniques aos sábados ou acampávamos. Nós não prestamos. quando cheguei ao clubinho. Contudo. não eram gratos. Consideravam-se pessoas necessitadas. Arranja empregos. também recebeu a mesma interpretação. Eram exigentes e agressivos. Um desses era Ah Ping. — É melhor você ir embora. Não adianta trabalhar por nós. mas ele não esperou que eu o quisesse. um outro rapaz. ele estava vagando pela rua. Naqueles meses e anos de contato. Eu me sentia meio deprimida. disse. Embora nosso grupinho estivesse crescendo. Poon Siu Jeh. para depois morrer . por que inda fica aqui? — Fico porque foi isso que Jesus fez por mim. Procure estudantes bem comportados e pregue para eles. e não vamos às aulas. Ele ia ao clubinho muitas vezes. e supunham que eu era sustentada por uma instituição muito rica. Certa noite. Então. e já tinha fama de bom lutador.Bobby. e nós os perdemos. Eu também não o queria.

por mim. Ele morreu, morreu por mim, quando eu ainda o odiava. Apenas disse que me amava e que me perdoava. Foi esse Jesus que veio ao mundo e ressuscitou os mortos, que fez milagres e só praticou o bem. E ama você também, do lesmo jeito. A princípio, Ah Ping não disse nada, depois falou. — Não pode ser; ninguém ama a gente desse jeito. Quer dizer, nós... e sua voz ficou embargada. Mas logo em seguida ele prosseguiu: — Quero dizer, nós vivemos estrupando, roubando, brigando, esfaqueando. Ninguém pode nos amar assim. — Pois Jesus os amou. Ele não gosta das coisas que vocês fazem, mas ama vocês. Isso pode parecer stranho, mas ele disse que todas as coisas erradas que vocês praticaram eram dele, e quando ele morreu ia cruz, declarou-se culpado de todos os nossos rimes. Isso é muito injusto, não é? Mas se você lhe entregar todas as coisas ruins que já praticou, ele lhe dará sua nova vida. É como se você lhe entregasse sua roupa suja e recebesse as dele, completamente limpas. Ah Ping estava esmagado. Era difícil acreditar que existisse um Deus assim. E ele se sentou ali e pediu a Jesus que o perdoasse e transformasse sua vida. Ele foi o primeiro quadrilheiro a ligar-se aos Tentes. Quando estava com apenas quatorze anos, ima jovem prostituta ofereceuse para "sustentá-lo" ;m troca de proteção.

Mas a partir de então todo o seu nodo de vida se modificou de forma radical. Todas as noites ele levava seus "irmãos" para o clubinho e me pedia que lhes falasse de Jesus. Os poucos freqüentadores do clube que tinham a vida certinha — os alunos da escola — pararam de ir, pois sentiam que estavam sofrendo discriminação. Eu achava, porém, que havia dezenas de lugares em Hong Kong onde aqueles rapazes podiam receber cuidados e assistência, e então não impedi que se fossem. E foi somente muitos anos depois que conseguimos reunir esses dois tipos de pessoas tão diferentes: os maus e os "bonzinhos". Alguns amigos de Hong Kong vieram a conhecer Ah Ping e o convidaram para dar seu testemunho na igreja, num sábado. — Tome muito cuidado, disse-lhe eu. Satanás não gosta quando uma pessoa fala de Jesus. Provavelmente ele tentará atacá-lo de alguma forma daqui até sábado. Vá direto para casa e não pare em lugar nenhum. — Está certo, está certo, Sr.ta Poon, respondeu acenando afirmativamente, com docilidade. Mas logo que se afastou, rebelou-se. — Diabo? Bobagem. Conheço estas ruas como a palma da minha mão. Cuidado com quê? E foi dar umas voltas, antes de ir para casa. De repente, sete homens saíram de um beco escuro e o atacaram. Eram quadrilheiros

Chiu Chow. Mais tarde, quando Ah Ping me relatou o fato, disse: — Quando eles se aproximaram, ocorreram-me dois pensamentos. O primeiro foi: "Ah, isso é culpa da Sr.ta Poon". E logo em seguida: "Você deve orar." Então ele ficou orando, enquanto os homens o agrediam a pauladas, deixando-o no chão inconsciente. — Logo que comecei a orar, meu pai veio descendo a rua e quando eles o viram, fugiram correndo. Se não fosse isso, teriam me matado. Mas, mesmo assim, ele ficou com um ferimento grave nas costas e um corte na garganta. O pai foi buscar socorro com seus irmãos da quadrilha 14K. Levaram-no ao médico, e este afirmou que ele não poderia andar nem falar pelo menos durante duas semanas. Os irmãos de Ah Ping decidiram vingar a agressão que ele sofrera. Fizeram uma reunião na sede da quadrilha para combinarem um plano de ação. Depois pegaram faccões e disseram a Ah Ping: — Vamos esfaqueá-los, está bem? Falando com muita dificuldade por causa da garganta ferida, o moço replicou: — Não; agora sou cristão e não quero que revidem. Depois ele chamou um ou dois membros de nosso clubinho que eram crentes, foram para lá e puseram-se a orar. Oraram a noite toda pelo grupo que o tacara. Além de orar

pelos inimigos, pediu aos outros rapazes que impusessem as mãos sobre ele e orassem ara que fosse curado. No dia seguinte, estava completamente bom, dando com toda clareza. Aliás, dois dias depois ele falou na igreja. Testificou da mudança que se operara m seu coração e disse também que nunca mais iria menosprezar o diabo. Sabia que ele estava sempre por certo. Mas as brigas de quadrilhas eram um problema que os convertidos teriam de enfrentar com freqüência. Lembro-me de um culto num domingo à noite na Igreja Oiwah. O simples fato de poder ir à igreja era ator de orgulho para aqueles chineses um pouco mais prósperos que os outros. Ergui os olhos do teclado e pude ver alguns professores da escola com os vendedores do mercado e verdureiros. Todos com aparência de gente direita, séria e respeitável. O fato de eu me preocupar com os jovens marginais deixava-os bastante espantados. Não gostavam muito de ver aqueles rapazes na igreja, ao passo que eu ficava lá, sentada, irando para que eles fossem. De repente, a porta se abriu de ímpeto, e os garotos entraram. A aparência deles provocou repulsa na congregação. Mas até eu me espantei, pois eles estavam num estado terrível: sujos de lama e sangue e as roupas rasgadas. Vários tinham arranhões no rosto. Todavia, sentaram-se e permaneceram quietos

durante todo o tempo. Logo que terminou o culto, fui apressadamente até onde se achavam, para saber o que havia acontecido. Ao que parecia, haviam caído numa armadilha. Entraram num banheiro público para se arrumarem um pouco antes de irem à igreja; um grupo de quadrilheiros saltou por sobre os compartimentos e os atacou violentamente com bastões. Vários deles ficaram bastante feridos. Levei-os a um hospital. Estava muito feliz de eles terem me procurado na igreja, após uma luta tão terrível. Ingenuamente, achei aquilo maravilhoso. "Graças a Deus", pensei, "eles não foram procurar seus chefes de quadrilha, mas vieram procurar os cristãos." Pouco depois eu fiquei sabendo que o resto da congregação encarou o incidente todo de uma perspectiva diferente. Estavam enfurecidos pelo fato de os rapazes terem tido a ousadia de entrar na igreja naquele estado, e tão mal cheirosos. Não aceitavam a idéia de que aqueles garotos pudessem tornar-se crentes. Pensavam que uma mudança interior tinha que ser seguida de uma mudança exterior, e que eles logo deviam passar a usar gravata e sapatos de cadarço. E mostravam-se bastante transtornados por eu haver permitido que entrassem na igreja pouco depois de terem participado de uma cena de violência. Pelo que sabiam, nunca nenhum deles se tornara cristão. E quando pedi para que fossem batizados os que haviam-se convertido, a resposta foi um "não" direto. Os rapazes

Não quero que pensem. George deu um sorriso compreensivo. — E. mas não concordou. continuei. Mas um dia veio à Cidade Murada um velho missionário bastante sábio. terem a direção de um trabalho.precisavam antes passar por um período de provação. São plantinhas muito tenras. ainda na sementeira. uma delas é bem negativa. que pelo fato de eu sair com eles. respondi meio hesitante. No princípio eu aconselhava os rapazes a freqüentarem a igreja. Achei que ele iria concordar comigo. poderão morrer. acho que esses rapazes precisam de irmãos e irmãs mais velhos. Ele sabia no a geração mais antiga desaprovava a idéia de missionárias. disse. precisam da "família" da igreja. Não seria muito salutar formarmos um grupo de jovens. George Williamson. Ainda não conseguirão suportar as sacudidelas da igreja estabelecida. separado. — Não. por que você força esses garotos a virem a Igreja? — Bom. que estou criando meu próprio grupo. em segundo lugar. Jackie. Esses rapazes ainda não estão preparados para isso. embora estivesse bem claro que eram indesejados ali. Ele analisou bem o que estava acontecendo e entendeu a toda situação. e se você os transplantar logo. por duas razões. mulheres. — Jackie. É muito do para querer .

Fiquei muito admirada.que façam concessões a certas atitudes do pessoal da igreja. Assim. Mas a Igreja de Hong Kong ainda não tem estrutura para recebê-los. quanto mais um quarto. Realizávamos estudos rias vezes na semana. continuou. Quanto mais eu aprendia. em vez de continuar insistindo para que os jovens se filiassem à igreja. Tínhamos sempre um período de louvor. e também aos domingos pela manhã. Se eu falasse em orar. — Pense neles como mudinhas numa sementeira. A idéia de ir para um . Nunca havia silêncio e quietude. Juntamente com outras estudantes. pode replantá-los ai. quando já estiverem bem fortes para suportar os trancos. eles iriam para a rua até terminarmos. bastante barulhento. comecei a ampliar nosso tudo bíblico no clubinho. Ele estava-me dizendo para criar meu próprio trabalho. Nenhum deles tinha uma cama para si mesmo. seus pensamentos e reações. Ela me ensinou muita coisa sobre os chineses. depois voltavam. como a Bíblia. mais percebia que nossos métodos de anunciar a mensagem de Jesus Cristo não se aplicavam a todas as partes do mundo. Afaste-os daqui e cuide deles até crescem mais um pouco. e jogávamos pinguepongue. A maioria dos rapazes vivia em casas pequenas com mais dez pessoas. Mas eu nunca poderia ter superado as dificuldades sem o auxílio de Dora Lee. ela me ajudava a fazer as traduções mais difíceis. Aí.

se tenho que selecionar na boa . Mas o tempo não era suficiente para ver todos eles. Tive que reexaminar alguns de meus conceitos sobre o estudo da Palavra de Deus. No entanto. pois podiam fazê-lo até caminhando por uma rua barulhenta de Hong Kong. Preciso de mais tempo para ficar em companhia desses rapazes. Comecei a orar pelo problema. Mas ele se afastou e não o vi durante dois anos. Essa lição eu aprendi através de uma dura experiência. então eu tinha que fazer sugestões práticas. orar em língua estranha era uma solução prática. Quando o encontrei novamente e perguntei por que tinha estado me evitando há tanto tempo. por exemplo. ficou meio envergonhado. Meu trabalho na escola limitava muito o tempo de que dispunha. Então dei-lhe um exemplar do Evangelho de João e outros livretes. saíssem um pouco de suas bancas de trabalho na fábrica e fossem ao banheiro para ler alguns versículos. vez por outra. seria uma ironia. estou muito cheia de ocupações. Aqueles que sabiam ler. Um dos rapazes dissera em oração que desejava seguir a Jesus. "Senhor. sugeri que.lugar sossegado para estudar a Bíblia e orar. — Eu queria conhecer a Jesus. E eles cresceram espiritualmente. mas você me deu uma biblioteca. Muitos deles não sabiam ler. encorajando-os a seguir os ensinos de Cristo. Precisava de mais horas para estudar chinês. Procurei estar em contato com os rapazes sempre que pudesse. Mas isso é impossível.

parte do dia." Três dias depois o telefone tocou. de qualquer jeito. se Deus podia dizer a uma pessoa para oferecer-me um cheque mensal equivalente a cerca de quinze libras esterlinas. desejamos oferecer-lhe dinheiro para seu sustento. Era Clare Harding. Compreendi que. queria lhe dizer que. — Bom. Mas senti vontade de telefonar e dizer-lhe isso desde agora. diz-me se tu o darás. se você resolver deixar de dar aula. só sairei em julho. ele me daria o . — Quem lhe disse que eu ia sair do colégio? No momento. queremos oferecer-lhe duzentos dólares por mês. E se você estiver pensando em largar. Fiquei pasmada. Tu prometeste dar-me o pão de cada dia. ainda estou lá. Hoje. Ninguém sabia que eu estava pensando naquela hipótese. Por favor. — É. O telefonema dela foi um grande incentivo para mim. sem que eu tenha de trabalhar para isso. Estávamos em meados de novembro. — E nós só teremos o dinheiro disponível em lho. replicou ela. Tive certeza de que. eu sei. a amiga que me apresentara ao casal Willans. — Jackie. Mas eu e Neil temos orado a esse respeito. se Deus queria que me dedicasse a esse trabalho. percebo e foi naquele momento que resolvi "viver pela fé". passados dez anos. então não seria difícil para ele fornecer-me o restante do que precisava para viver.

e nunca me preocupei nem um pouquinho a respeito do modo mo ele o faria. .sustento.

7 O "Irmão Maior" .

Senhor. Minha vontade foi sentar-me e chorar. você tem que vir aqui bem depressa. com voz sussurrada. esqueites. livros. silenciosa. falava rapidamente: — Poon Siu Jeh. No fone. Fiz um esforço imenso para despertar. o telefone estava tocando sem parar.Está Olhando por Você Em meu sonho. Quando saí. Afinal. — Está bem. se eles conhecessem o que faço. E pior. então não preciso ficar tais nesse lugar. . e vesti-me. Porém atiravam fezes nas paredes do meu clubinho e assim mostravam o que realmente pensavam de mim e do meu trabalho. A cena com que me deparei era muito pior do que eu imaginara. Lá chegando. espalhado e quebrado. raquetes de pingue-pongue. tudo tinha sido atirado no chão. se não me querem aqui. Eram cinco horas da manhã. subi correndo as ruelas tortuosas em direção ao clubinho. Ah Ping. nem a mim nem a ti. Afinal consegui um táxi para me levar à Cidade Murada. a pessoa havia deliberadamente passado sujeira dos esgotos nas paredes e assoalho. Pensava que aqueles rapazes já me consideravam como uma pessoa do meio deles e confiavam»em mim como amiga. Estremeci apesar do calor sufocante. Alguém arrombou o clubinho e fez uma bagunça terrível. a rua ainda estava vazia. Mas. Os bancos. Para mim chega. Não me importaria de trabalhar aqui para sempre.

não de que me agredissem. pela primeira vez. senti medo. Num dado momento. pois Deus sempre me protegera. surgiu um rapazinho que eu nunca vira antes. minha vontade era chorar e de entregar totalmente à autopiedade. mas. Mas passei o resto do dia varrendo e limpando o alão. E outra passagem que me vinha insistentemente era a que falava sobre dar graças a Deus em todas as circunstâncias. se não o querem. — Muito breve eles irão perceber que só prejudicaram a si mesmos. estou fazendo isso por eles. Vamos schar esse clubinho. . abri o clubinho como de costume. nem por quê. — Algum problema? indagou. devemos deixar que os bata novamente. Mas eu não estava com vontade de fazê-lo. e encostouse à porta. e fiquei ali tremendo toda. No dia seguinte. Mas lembrei-me também do que Jesus dissera: quando alguém nos bate uma vez. Estava profundamente ressentida. e murmurando entre lágrimas: — Glória a Deus! Glória a Deus! E tinha crises de choro.não desejo ficar aqui pelo resto da vida jogando pingue-pongue. Tinha medo de ser rejeitada pelos rapazes que eu amava e a quem trazia a mensagem de Cristo. das. Quero dizer. não serão obrigados a receber isso. pois parecia que os alicerces de meu mundo haviam ruído. Senhor. Não sabia quem izera aquilo.

— Ah. não. disse virando a ponta do polegar para o próprio peito. obrigada. respondi. embora eu conhecesse seu nome. o dirigente geral de toda a organização tríade da Cidade Murada. jogo e prostituição da área. Mas quem é você? Quem o mandou aqui? — Foi o Goko. . respondeu bruscamente. pegando um facão imaginário e enterrando-o profundamente na barriga de uma vítima também imaginária. eu lhe enviara vários recados. e dizia-se que tinha alguns milhares de irmãos menores por ali. nós vamos "cuidar" dele. As mensagens que eu mandara eram sempre bem simples como "Jesus te ama". ainda não o conhecia pessoalmente. continuou meu protetor. Tinha o controle de todas as salas de ópio. e fez uma demonstração mímica do que dizia. Sabia quem era Goko. mas ele sempre se recusava a falar comigo. Está tudo bem. é só falar comigo. Naqueles anos todos. Não podia entender por que enviara um guarda para vigiar o clube. falei. — Goko disse que se alguém a incomodar ou encostar a mão neste lugar. que bom saber disso. das por que pergunta? — Se tiver algum problema. Fiquei abalada. Um dos irmãos menores que freqüentava o clubinho havia mencionado seu nome para mim com o maior respeito. Ele era o irmão maior de todos os irmãos maiores.— Não. Era o chefe de uma das ramificações da 14K. Mas.

Era só trancar o viciado num aposento e deixá-lo lá por uma semana. Quer fazer o favor de dizer a Goko que agradeço muito.— Muito obrigada. e ficava olhando e escutando os rapazes cantarem nos. uma noite. e não quero ofendê-lo. como um bom vigia noturno. podia remover da pessoa o desejo pela droga. Logo percebi que o amigo era ele mesmo. Depois de alguns dias. recebera ordens explícitas de vigiar o clube. Não queria de maneira alguma ouvir-me. começou a ceder. Nunca entrava. logo que a porta fosse aberta iria direto tomar a droga. Então disse-lhe que o ópio não é problema. Jesus já está cuidando de nós. mas. . repliquei. O olhar de desprezo que o rapaz me dirigiu foi de quem pensava estar diante de uma louca. Mas ele continuou a se apresentar todas as noites. É muita bondade de vocês. e pôs-se a falar de um "amigo" seu que era viciado em ópio. Seu nome era Winson. Disse-lhe isso várias vezes. mas ficaria livre da dependência da droga. o Senhor da vida. Ele sempre ficava encostado de fora da porta do clubinho. como era obrigado a ficar ali. não tinha como escapar. Então. Naturalmente ele iria sofrer as agonias do processo de desintoxicação. Qualquer um que achasse que Jesus podia proteger alguém na Cidade Murada devia estar maluco. Entretanto. pois sua mente e coração continuavam a desejá-la. Comecei a falar-lhe de Jesus. mas não posso aceitar. Somente Jesus.

ma meia hora depois ele parou. O milagre tinha acontecido. disse ele prontamente. Depois. isso me pareceu ainda mais espantoso. eu lhe disse: — Glória a Deus! Foi maravilhoso! Agora o que você tem a fazer é levar seus companheiros da quadrilha a experimentarem o mesmo. Tanto ele como eu sabíamos que estava completamente curado da dependência da droga. Quando afinal ele foi-se calando. Estava cantando n corinho. dentro do meu clubinho.quando o salão estava quase vazio. ajustar a colha das armas. pois. E não pode mais seguir ao seu irmão maior. já sabia que seu posto na quadrilha 14K a correspondente ao número 426. No entanto. Goko. àquela altura. Eu nunca tinha ouvido uma oração tão cheia de alegria. pôs-se a orar em chinês. ali estava ele. pois em seguida ele começou a louvar a Deus em língua estranha. o que significava que pertencia a uma categoria especial de tratador das lutas. ora liberto enquanto orava. Fiquei espantada com sua aquiescência. ele nunca ouvira ninguém falando em línguas. em voz bem alta. ao que sabia. Sua tarefa era tratar as brigas. pois. eu lhe disse: — Por que você também não entra e vem louvar a Jesus? — Está bem. louvando a Deus a plenos pulmões. Ninguém pode ter dois irmãos . e pensei: "Onde será que ele aprendeu isso?" E foi um momento extraordinário. o local e a estratégia a ser usada.

disse um deles. e que na noite seguinte fossem ao clubinho e se comportassem muito bem. Isso despertou nos seus amigos o desejo de fazer o mesmo. Você terá que seguir ou a Jesus ou a Goko. Muitos deles nem sabiam por que estavam com raiva. — Mas nós quebramos tudo por lá. embora minha tendência tivesse sido fazer exatamente o contrário. Ordenou-lhes que nos devolvessem o que porventura houvessem tirado. e pouco depois estavam todos dominados por um espírito de violência. Poucas horas depois. e chamou à sua presença os implicados. Então eles voltaram. vai sim. .maiores. Não poderá seguir os dois. Foi Ah Sor quem me revelou depois o que acontecera no arrombamento do clubinho. Ela abrirá as portas para vocês e os receberá. porque ta a Sr. Ela não vai nos querer no clube. Vai. Era simplesmente uma questão de violência coletiva. Era óbvio que ele estava sabendo como os crentes "deviam" agir. ela os perdoará. que julgava terem acontecido por culpa minha. Senti-me muito humilhada quando ele contou o que Goko dissera. — Ah. Goko recebeu a notícia daquela agressão a uma casa do seu setor de controle. Um dos rapazes passara por alguns problemas. E foi assim que Winson partiu para dizer ao seu chefe de quadrilha que cria em Jesus. Poon é crente. Passara pelo clubinho e começara a berrar e a jogar pedras nas vidraças. replicou Goko.

Em certa oca-lo. Eu havia tentado operar em termos de projetos guiares. e senti-me mais reanimada pelos rumos que o clubinho estava tomando. . mas raramente funcionava. Por fim descobri uma frase que descrevia meu ibalho e que impressionava bem. contávamos com um técnico de futebol que dava n treino por semana. outras vezes apenas uma. na outra semana. — Bom. Aqueles moços tinham aprendido algumas coisas sobre Jesus. já tinham desaparecido dali. Alguns assistentes sociais e conselheiros de jovens me perguntaram qual era meu programa de ação. abrimos as portas todas as noites e às vezes aparecem cinqüenta pessoas. plicava. e outras imos a passeios. — É um trabalho de jovens. e na rceira. há outras em que dou uma tigela de arroz para guém que está com fome. Muitos dos aproveitadores. As vezes oramos e louvamos a Deus. Procuro travar amizade com eles e conversar. vieram dez. No primeiro treino apareceram rca de vinte. Há ocasiões em que fico a noite da aqui com uma pessoa que não tem onde dormir. Tive muita dificuldade em respondê-los. Todos os rapazes gostavam íensamente de jogar futebol e mais de quarenta sram seus nomes. nenhum. sem estrutura fixa. àquela altura.Reconheci assim que o "Irmão Maior" estava olhando por mim. Haviam descoberto que não havia vantagens sociais em pertencer a ele.

emocionante. mas não tinham autodisciplina. e na itra. Mas poucos permaneciam mais que algumas-semanas. idéia de treinar futebol era bastante interessante. lhe devotariam toda a sua infiança e simpatia. ilvez. Procurei fâzê-lo entender o que aconte-a. Se o treinador tivesse ido na semana seguinte. e na outra ainda uns dez ou doze. Dormiam de dia e levantavam à noite. Muitas pessoas me procuravam pedindo para au-iliarem no clubinho. logo desanimavam e nunca mais voltavam. que nem sabiam qual era o dia da mana. Eu precisava encontrar obreiros que realmente tivessem amor pelas pessoas com quem trabalhavam. e retendiam ir. nos salões de ópio. ilvez tivesse encontrado uns dois ou três rapazes. Se a atividade ue dirigiam — jogos ou aulas — não tinham boa freqüência. Passavam muito mpo no território da quadrilha. Eles queriam ir. . Trabalhar na Cidade Murada arecia empolgante. uns quatro. mais do que pela atividade que exerciam. Havia :asiões em que ficavam de pé setenta e duas horas e .pois dormiam dois dias seguidos. Logo que percebessem que o técnico estava :almente interessado neles e iria ao campo mesmo ue houvesse um tufão e mesmo que fosse apenas ara treinar com um só. ias ir ao treino era outra questão. Os garotos da Cidade Murada levavam uma vida o desregrada.O treinador ficou desanimado e teve vontade de rgar tudo.

fizemos um churrasco numa colina das redondezas.Como os rapazes da Cidade Murada. enchendo-se de carne. pois fora eu quem comprara tudo e calculara que seria suficiente para o nosso grupo. Se quisesse. sentado ali e comendo muito. ao perceber que muitos de seus "irmãos" o freqüentavam. Sai Di ficara curioso a respeito de nosso clubinho. e resolvera participar daquela nossa atividade. quando acordava. e pareciam magnetizados pelas suas palavras. estava em suas mãos controlar todos aqueles rapazes e o clubinho também. a única maneira de fazer-me sair da cama era prometer a mim mesma que mais tarde voltaria para dormir. Ah Ping sussurrou-me que aquele fora o seu daih lo. O que acontecia na verdade era que eu tinha as aulas de chinês. da qual eram também muitos dos presentes. e o segundo homem forte de toda a Cidade Murada. pelo menos teoricamente. O luar estava bem claro e divisei entre os nossos um rapaz grandalhão. mas nunca o fazia. Fiquei furiosa com ele. o chefe de sua quadrilha. notei que os nossos rapazes estavam dando a ele a parte deles também. Certa noite. Então a solução foi aprender a tirar cochilos nos ônibus e balsas. Todos os dias. Mas. ia aos tribunais. ele era irmão carnal de Goko. continuando a olhar. . de aspecto abrutalhado. Além disso. eu passei a dormir de dia e ficava acordada à noite. visitava os presos e resolvia outros problemas e então ficava acordada de dia também.

ele abandonou aquela atitude e pôs-se a escutar-me atentamente. Disse-lhe que meu único objetivo no clubinho era fazêlos conhecer o amor de Jesus. Tiram retratos do pessoal aqui para chocar o povo de lá. Não importa se a pessoa nos dá comida e graça. mas meu coração estava rebentando de gozo. a nós. Sempre arranjamos meios para fazê-los desanimar. os necessitados. percebi que os que haviam ficado eram os que mais cedo ou mais tarde se interessariam pelas coisas espirituais. já teria levado uma surra há mito tempo. Mas nós damos cabo deles dentro de seis meses. Essas coisas não significam nada para nós. E eles começaram a pensar seriamente que talvez Jesus fosse mesmo o . quando nos afastamos. — Eu sei. Você já está aqui há quatro anos e estamos achando que talvez você seja realmente sincera. os "crentes da opa". tinham saído do clubinho. Mas. se você fosse homem. Muitos missionários vêm aqui a Hong Kong para ajudar-nos. E alguns até ficam famosos por terem vindo aqui. escola. Estamos observando-a há algum tempo. Por exemplo.— Será que eu poderia falar com você? indaguei. O que queremos saber de verdade é se eles realmente se interessam por nós. replicou ele. Uma vez que os interesseiros. aula de judô ou de bordado. pois os que as realizam não têm nada em comum conosco. Não cantei de alegria na frente dele. Ele achou engraçado aquele convite por parte de uma mulher e levantou-se com gestos apalhaçados.

Os três mais velhos foram presos já com a idade de treze. os dois mais novos foram presos. A mãe fugira logo após o nascimento do sexto filho. Porque ninguém iria passar a vida toda conosco. ou então o que você diz a respeito de Jesus deve ser verdade. e revelou-se um dos mais entusiastas. . Ele tinha cinco irmãos e todos viviam com o pai. que é conhecido como o 'palhaço" do lugar. acabaram todos como membros de quadrilhas. por tráfico de drogas. os rapazes tornaram-se caloteiros. obviamente. Como trabalhasse à noite. e. Mais tarde. Ou você é espiã do governo britânico. Além disso. O pai era membro de uma quadrilha muito forte. quando Ah Keung. Crescendo. Mas um de seus amigos fora morto numa luta de bandos e ele resolvera mudar-se para a Cidade Murada. convertera-se bem a tempo. quatorze e quinze anos. aqui. Trabalhava num salão de jogo. Nenhum deles estudou. Certo dia estávamos sentados no clubinho. a não ser obrigado. ontem à noite ficamos um longo tempo conversando sobre você e chegamos a duas conclusões. estavam viciados também. Ah Keung era o único que ainda não fora encarcerado. e fora viver com um policial. nunca via os filhos durante o dia. disse: — Poon Siu Jeh. e eles não receberam nenhuma criação.que se dizia. E foi assim que Ah Keung também se tornou crente.

Peguei um balde com água e algumas ataduras imundas. pois a rua estava muito escorregadia. Corri rua abaixo. e era exatamente isso que estavam querendo que eu fizesse. mas senti que . Falei ao ferido sobre isso. vi que o irmão mais velho estava injetando heroína em si próprio. não havia muito problema de acomodação. disseram os outros em coro. Os jogadores utilizavam aquele beco para se aliviarem. Então não havia outra alternativa. e comecei a tratar do homem. estava um homem. Ele é de uma quadrilha. como normalmente dois ou três sempre estavam presos. — Não podemos levá-lo. ofegante. Falei-lhe do amor de Jesus. Quando ali entrei. Tinha que socorrê-lo. O quartinho onde moravam era muito pequeno para todos eles. com os braços e pernas cheios de vergões e ferimentos. Não respondeu nada. ele entrou no clubinho correndo. será interrogado pela polícia. procurando ir com muito cuidado. Estava diante de mim a tarefa de limpar as feridas e tratar dele. Meu primeiro impulso foi transportá-lo para um hospital. e as roupas ensopadas de sangue. Jesus dissera que tinha vindo ao mundo para curar as feridas. e disse que eu tinha de ir à sua casa imediatamente. Fora brutalmente surrado. na falta de banheiros. Se o levarmos para o hospital. mas. E vão descobrir que é viciado. Deitado no chão.Uma noite.

A medida que os fui conhecendo melhor. dando meu telefone para um outro viciado. o vosso trabalho não é vão". Parecia-me um erro muito grande me confessassem crimes que não haviam cometido ou legassem participação naqueles em que realmente estavam envolvidos. Um ou dois anos depois. Guarde bem esse número ara o caso de você ser preso.compreendera. É claro que. pois eu própria ia verificar is álibis deles. fiquei mais ligada à família de Ah Keung. ia pensando: "no Senhor. Alguns dos piores criminosos de Hong Kong sabiam que o nome de Jesus era Verdade. estava saindo da Cidade Murada. A única coisa que você tem de fazer é falar a verdade. quando escutei um deles. Não importa se você cometeu o crime ou não. pois. A maioria dos moços que eu conhecia estava constantemente sendo presa e levada a julgamento. como você sabe. Enquanto me dirigia para casa. ta Poon irá auxiliá-lo. mas nem sempre culpados dos atos pelos mais eram presos. Visitei os que estavam presos e tentei arranjar emprego para quando fossem soltos. Sai So. . dizia ele. a Sr. Ali estava eu tendo o privilégio de ver os frutos. — 83-3179. voltou a nos procurar. Após este incidente. Qualquer hora do dia ou a noite que você ligar. Uma noite. comecei a crer quando declaravam que eram inocentes de alguns delitos de que lhes acusavam. eles eram criminosos. na maior parte. ela é crente.

culpados ou não. E onde você está? . quando publicamente se associou conosco. partilhando da vergonha daqueles criminosos. — Como você sabe disso? indaguei. Eram quinze para as oito. disse ele. sentada com os marginais. desde que falassem a verdade. Isso acontecia muitas vezes. poderiam tê-lo detido e interroga-lo. mas estava sempre disposta a ir lá e me sentar com eles ali. Eu tinha consciência de que os moços haviam praticado muitos crimes. e atribuir a ele um :rime qualquer. Venha para a delegacia depressa. Mas a vergonha dessa situação ajudou-me a compreender o admirável sacrifício de Cristo. Isso me levou a ir muitas vezes aos tribunais e passar ali várias horas. Certa noite recebi um telefonema de Mau Jai. pois via pessoas apontando para mim e dizendo: — Lá está aquela boba daquela crente. Ou poderiam até levá-lo preso. e em minha sala estavam várias moças e rapazes que ali se achavam orando. ouvi-o dizer: — Fffffiu! Andei a rua toda e não fui preso! Tinha avistado um ou dois detetives que o conheçam. Se quisessem. os pecadores. — Johnny acaba de ser preso. Comecei a pedir aos rapazes que sempre dissessem a verdade no tribunal.Várias vezes. quando caminhava ao lado de Ah Ping fora da Cidade Murada.

Johnny e Mau Jai estavam tomando droga numa das maiores salas de droga da Cidade Murada. Mais tarde eu digo. Eles sabiam muito bem onde eram as salas.— Não posso falar nada aqui. respondi. pedi para vê-lo. — Pois vou ficar aqui até que o mostrem. Fora acusado de estar com uma chave de fenda com a intenção de entrar num prédio que ficava a um quilômetro e meio da Cidade Murada. mas disseram-me que não se encontrava ali. eles o trouxeram. mas gastava tudo em heroína. Quando cheguei à delegacia. Era um rapaz de compleição miúda e horrivelmente magro. respondeu. — A senhora pode voltar para casa. telefonamos. O mal daquela situação toda era que certos policiais tinham combinado com os exploradores dos vícios ali que ignorariam os antros de comércio. . fiquei pensando em Johnny. e se ele aparecer. em troca de um dinheirinho. quando dois detetives entraram e prenderam Johnny. disse-me o sargento de plantão. e os viciados eram presa fácil. Ele já confessara um crime. Era carpinteiro e ganhava bom salário. A caminho da delegacia. e comecei a ajeitar-me para passar a noite ali. mas eu chegara tarde demais. que era um dos viciados de aparência mais repulsiva que eu conhecia. Dois minutos depois.

em cooperação com as quadrilhas. mas. Oramos. A família de Johnny morava num apartamento muito pobre. — Não posso voltar atrás na confissão que já assinei. Falei a Johnny sobre Jesus e como ele sempre falava a verdade. Fizlhe ima visita e tentei convencê-lo a declararse inocente. E o que é pior. e ele concordou em que seria acertado falar a verdade.Vez por outra. em troca de uma confissão. em várias ocasiões. ainda que isso lhe tivesse custado a vida. Comecei a compreender por que os rapazes eram tão confusos sobre as loções de certo e errado. estou dizendo que os guardas também sabem onde . ouvi os vigias das salas falando ao telefone com guardas que lhes avisavam que estavam caminho de lá. se eu o fizesse. isso significa que tenho que revelar onde ficam as salas de droga. ele tomou mais e mais heroína. Os policiais me disseram que. do lado de fora da Cidade Murada. Os viciados sempre diziam que ganhavam heroína na delegacia. Eles arranjaram dinheiro emprestado e pagaram sua fian-a. o que foi um erro. mas acrescentou: — Se eu disser a verdade no julgamento. eles davam batidas policiais. ias mostrou-se relutante. Fiquei sabendo inclusive que muitos detetives eram sócios daqueles negócios ilegais. pois nesse leríodo de várias semanas em que aguardava a prisão preventiva. me prenderiam por outra coisa. e assim ele foi solto.

Eu não desperdiçaria com ele minha pena. Pouco antes de ele prestar depoimento. repliquei. Mais tarde. e considerou Johnny culpado. . quando levados a tribunais. ele me relatou que. disse ele com bondade. pois o Espírito Santo nos instruirá quanto ao que devemos dizer. quando se pusera de pé no tribunal. — Pois a ficha dele é bastante extensa. Mas continuei a visitá-lo e a pedir-lhe que falasse a erdade. rompi em pranto. O chefe de polícia encarregado do inquérito veio falar comigo. Não é culpado. Era muito incomum ver-se uma moça inglesa chorando por causa de um criminoso chinês. mostrei-lhe uma passagem bíblica que nos ensina que não precisamos ter medo. ele estava decidido a lizer o que a polícia desejava. — Porque ele não fez aquilo. Tanto os meus amigos como a polícia vão querer se vingar. Nosso advogado fez longos interrogatórios aos policiais sobre as provas e fatos por ele apresentados.elas são. respondi entre soluços. Perguntou-me por que estava chorando. sobreviera-lhe forte convicção de que tinha de dizer a verdade. mas o juiz acabou aceitando como certa a versão deles. Quando ele pronunciou o veredito. — Isso não vem ao caso. Esse crime aí ele não cometeu. embora eu houvesse contratado um advogado para defendê-lo. No dia do julgamento.

Após sair de lá. Os detetives que efetuaram a prisão e alguns outros se aproximaram de nós. Mas eu continuei a visitá-lo. Mais ou menos dois anos depois. e depois disso fiz o mesmo outras vezes. E em todas as vezes a polícia saiu vitoriosa no caso. Fui visitá-lo várias vezes. onde sua vida foi totalmente transformada. O veredito final ainda não fora dado. Ao interrogá-los. insisti. O juiz voltou atrás e Johnny foi liberto. trabalhando na ala dos viciados. e temos que falar a verdade no tribunal. Aquele julgamento teve também alguns outros resultados positivos. Fora a primeira vez que eu maltratara um advogado para defender nossos rapais. Viram as lágrimas escorrendo em meu rosto. ele creu em Jesus. cometeu outros. e foi para um centro de reabilitação cristão. Era preciso muito esforço para não sentir raiva deles. a condenação é justa. Johnny foi mandado para a prisão e depois para um centro de reabilitação de viciados. tornou-enfermeiro em um sanatório de tuberculosos. Mas ele nunca se esqueceu do que acontecera naquele julgamento. Recorremos da decisão. o nome de Jesus é verdade. riram e debocharam de mim. Saindo da prisão.— Se não cometeu esse. Sabiam que tinham mentido. Mas acabou voltando ao vício e preso de novo. — Mas não está certo. No todo. ele prosseguiu nesse terrível círculo vicioso. diziam: .

sei disso. Mas vários rapazes me disseram que vez por outra eram detidos por detetives que lhes indagavam: — Você pertence ao clube daquela mulher? Quando respondiam que sim. — É. e eu queria fazer um jantar especial para os rapazes. Mas façam o favor de verificar tudo com muito cuidado. Verificando o caso de Johnny Ho. O pagamento foi feito corretamente. em vez de terem apenas uma simples audiência de dez minutos. eles os deixavam ir. A razão disso era que. e isso pago pela assistência jurídica. repliquei. — Mas pelos nossos registros houve recurso. e assim Jesus era pregado. . Era natal. percebemos que lhe devemos mil dólares em honorários pagos a mais. Outro resultado veio dois anos e meio depois. disse uma voz. Era do escritório do nosso advogado. — Não devem.— Não fique pensando que essa inglesa pode ajudar vocês. E isso ficava muito dispendioso para eles. O telefone tocou. Era mais um sinal de que estavam de lho em mim. — Estamos fazendo uma revisão em nossa escrituração e descobrimos que temos de reembolsá-la em mil dólares. mas não tínhamos dinheiro. não. o julgamento poderia durar até uma semana. quando detiam um dos nossos rapazes e ele era inocente. respondi.

E foi assim que passamos um ótimo Natal. que ela vendia em sua barraca ali. "Graças a Jesus sou livre. Minhas roupas estavam começando a ficar apertadas. vou gastálo. tive que começar a passar de largo pela sua rua.porque se me mandarem o dinheiro. pus-me a pensar longamente. A vida que estava levando era muito estranha. E eles reverificaram os livros e me enviaram o dinheiro. para cuidar dos filhos de outras pessoas. Todas as vezes que eu passava pelo mercado. ela me dava ovos e lingüiça. cuidando de nós. Afinal. e ainda tinha que conversar com Deus o tempo todo. A mãe de Johnny ficou extasiada quando ele se converteu. Estava tão feliz. 8 Perseguindo o Dragão Uma noite. quando saía daquela cidade escura. pois nunca me deitava ou cantava em horários regulares. "Graças a Deus não sou casada". orei. Deus também estava de olho em nós." Naquela época estava morando num apartamento m uma jovem de nome . que sempre me dava muitos presentes.

Como ainda não sabia lar chinês. e aquele garotinho ficava por ali. Fora há cinco anos. Já era bem mais de meia-noite. imensa. mas continuei a orar por ele. As órbitas oculares eram escuras. pus minha atenção se voltou para um rapazinho de aparência horrível. Ele nunca vinha aos encontros que marcava. no rosto acinzentado. e era óbvio que estava vivendo pelas ruas. Tinha um aspecto muito doente. Agradeci a Deus por aproximá-lo novamente de mim. Percebia- .Stephanie. quando tomei o micro-ônibus. Enquanto lanchávamos. Saltei também e o segui. interrompi minha oração. para voltar. notei que se sentia cada vez mais inquieto. Procurei lembrar onde o vira antes. e ela nunca se preocupava com os horários em que eu chegava em casa. O garoto ficou bastante constrangido. Felizmente já sabia falar chinês. esperando táxis para abrir a porta e receber uma pequena gorjeta. recordei de onde o conhecia. Bati-lhe de leve no ombro e me apresentei. Havia uma grande casa de chá nas imediações. um esqueleto ambulante. O que eu não sabia era que o menino se viciara em drogas por volta dos dez anos. convidando-o para comermos alguma coisa. pedi aos conhecidos chineses que escrevessem bilhetes para ele. de uns quinze anos. Afinal. oferecendo-me para ajudalo. Ele saltou do veículo num setor da cidade onde a vida noturna era movimentada. Em dado momento. quando começara a ir à cidade Murada. E ali estava ele de novo.

se resolvêssemos primeiro o problema de sua dependência da droga. e eu estava receosa de perder o contato com ele. comecei a dar-lhe dinheiro. e poderia falar-lhe de Cristo. Sua mente já estava muito prejudicada pela quantidade de heroína que consumira. era um alvo fácil para a polícia. Mas eu estava obcecada pela idéia de salvá-lo. sua mente se aclararia. caso fosse preso. Nas semanas que se seguiram. Com todas aquelas marcas de picada pelo braço. Estava um pouco em dúvida quanto a essa atitude. Assim me convenci de que estava agindo de modo certo. seria forçado a roubar.se claramente que estava precisando de uma dose da droga. o Pastor Chan concordou em recebê-lo no seu Centro Cristão de Reabilitação. Era a resposta às minhas orações. Calculei que. mas ele precisava do dinheiro para comprar heroína. encontreime com ele várias vezes. Ele não estava entendendo nada do que lhe dizia. E o que era pior. para comprar a droga. chegou o dia em que ele deveria seguir para o centro. Comprara-lhe algumas roupas novas. Como ele teria que esperar algum tempo antes de ir para o centro. Nunca dormia no mesmo lugar. mais gostava dele. a qualquer hora do dia ou da noite. soube que ele estava assaltando pessoas na rua. . não adiantava falar com Ah Tsoi sobre Jesus. Quanto mais via aquele garoto de vida miserável. Portanto. Se não lhe desse. sandálias e calção de banho. Afinal. Por fim.

Ele revelava uma atitude muito hostil.. mas não havia mais tempo para o banho. O pastor poderia falar-lhe de Jesus e ajudá-lo a crescer. Ah Tsoi achava-se nas mãos de outra pessoa e era problema dela. Senti como se uma parte de meu ser houvesse morrido. Ah Tsoi fugira do centro. . e. mesmo assim fomos. Não suportara as dores da desintoxicação forçada.pois o centro ficava próximo de uma praia. escapou. sentia uma enorme ternura por Ah Tsoi. à noite. Quando eu já estava começando a achar que não viria mais. Eu lhe dissera para passar em meu apartamento e tomar um banho. negativa. Deitada ali fiquei a pensar que aquilo era o fim de tudo. E eu poderia procurar o próximo. Havia semanas que não dormia com tranqüilidade. e deitei-me no chão e chorei. Estava imundo. Duas horas depois do momento em que deveria ter chegado. dinheiro. Sentia-me muito abatida. mas grandemente aliviada. antes de ir para o centro. Estava exausta. Eu dera a Ah Tsoi meu tempo. mas ele se recusava terminantemente a retornar. carinho. O pessoal do centro tentou encontrálo para convencê-lo a voltar. Não sabia o que mais poderia ter feito para socorrê-lo. mas recusou-se.. Fui deitar-me e dormi quase vinte horas seguidas. Fui despertada por um telefonema. Graças a Deus. Embrulhando aquelas coisas. Os outros tentaram convencê-lo a orar. e então o entreguei ao Pastor Chan. ainda não havia o menor sinal dele. ele apareceu.

não quero mais saber desse tipo de coisa. avistei um rapazinho que era deficiente mental. Acho que não tenho mais nada para dar. Não querer lidar com viciados. peguei o ônibus para ir à aula de chinês. pois não suporto isso. pela manhã. Virei o rosto. E meu olhos deram com outro viciado em drogas. Não estava zangada com Deus. se tu me usasses para socorrê-los. "não estou olhando. No dia seguinte.alimento. Eu fracassara. e . porque não desejo passar por todo aquele sofrimento outra vez. Em uma rua. "Senhor". eu dissera a Deus: "Valeria a pena dar minha vida por essa gente. por favor. E por que não?" Lembrei-me da época em que começara a ver e a reconhecer viciados. Mas nada disso adiantara. Acomodei-me como pude no meio de outros quarenta e tantos passageiros de pé." Aos poucos fui-me refazendo do sofrimento que tivera por causa de Ah Tsoi. Afinal orei: — Senhor. orei. Naquela ocasião. mas sentia-me muito decepcionada e confusa com tudo que acontecera. Não entendia por que ele permitira que eu me aproximasse de Ah Tsoi. quando. se aquilo não ia dar em nada. pois não queria olhar para ele. mas não foi suficiente. Eu pensava que tu irias ajudar-me. A única coisa a fazer então era fechá-los. e dei-o todo a ele. e tentara falar-lhe de Jesus. Eu só tinha amor para dar a uma pessoa. inalando heroína abertamente. mas não deu certo. com o canto do olho. havia mais de cem.

mas estava tentando salvá-lo com minhas próprias forças. nos Novos Territórios. (Isso aconteceu antes de eu haver presenciado a libertação de Winson. Tentara dar-lhe tudo que tinha. mas ele não se achava tão desesperado. Queria vê-lo livre das drogas. mas eu sabia que. Vendo que nem isso dera certo. ficava ali um ano e meio.) Estava convencida de que Ah Tsoi precisava dos cuidados de uma pessoa mais tarimbada. o Pastor Chan convidou-me a tomar chá com ele. e assim podia crescer em Cristo. Os assistentes sociais são instruídos a não se envolverem emocionalmente com aqueles com quem trabalham. Muitos dos que passaram pelo seu centro haviam-se tornado obreiros cristãos. Algum tempo depois. Com determinação e coragem. que desejasse a libertação. O fracasso no caso de . E os rapazes de lá eram os únicos que eu conhecia que não voltavam à droga. com muitas experiências e sofrimento. Ele palmilhara sozinho aquela estrada.então comecei a ver os erros que cometera no trato com ele. sentira-me derrotada. Eu não tivera coragem de forçá-lo a libertar-se do vício. E ele fora edificando sua obra aos poucos. recebendo carinho e disciplina. operada pelo poder de Deus. criara o seu centro de reabilitação de viciados. Uma vez que o viciado era liberto da droga. se não tivesse tido uma aproximação maior com as pessoas com quem trabalhava. não teria permanecido.

com o amor de Deus. Uma noite entrei numa das salas de comércio e consumo de heroína. porque a droga era muito barata e de fácil obtenção. Pela quantia de cinqüenta centavos. Descobri que poderia voltar a cuidar deles. Entre os cinqüenta e poucos presentes ali. a folha de estanho e o funil de papelão necessário para se "perseguir o dragão". Havia algumas mesas longas. pedindo a Deus que não me aparecessem mais viciados. aquilo não foi o fim. num jantar estranho e silencioso.Ah Tsoi ensinou-me que não tinha capacidade suficiente para pegar uma tarefa assim. Têm medo de tomar uma dose excessiva. Mas eu sabia que meus recursos próprios estavam esgotados. Conhecendo melhor as quadrilhas e seu funcionamento. achava-se um rapazinho de uns quatorze anos. Senti como se estivesse entrando num banquete diabólico. simplesmente porque era uma obra meritória. Estava imunda. São poucos os viciados chineses que injetam heroína. um "garçon" fornecia os pavios feitos de papel higiênico retorcido. mas funcionava com o conhecimento da polícia. Era numa espécie de coberta. Entretanto. às quais estavam sentadas pessoas que mais lembravam figuras despersonalizadas. cheguei à conclusão de que havia tantos viciados entre eles. apesar de haver orado muito. . nos arredores da cidade. inalando a droga em seu festim macabro.

só para ver se já consegue sentir alguma coisa. Na primeira vez em que um indivícuo toma a droga. que "brinca" com as drogas. fazendo-a crer que a droga é sua salvação. mas depois volta a tomá-la. talvez. e atraiçoa a mente. estava sentada ao seu lado'. Então me lembrei de que a moça tinha que comerciar com seu corpo. Todo viciado tem um relacionamento de amor e ódio com a droga. para a de viciado. que todo viciado em potencial conhece muito bem. e suas forças estavam esgotadas. Era uma cena degradante. Na mente. até ficar acorrentado a ela. ele vomita. E vai tomando . Olhei os outros presentes que também sustentavam o hábito pelo mesmo processo. mas sentia-me fascinada e atraída por aquilo. experimente poucos efeitos negativos.Sua pele era pálida e sem vida. Outro. amparando-o nos braços. a fim de pagar a droga para o rapaz. que leva a uma dependência total e à depravação. sente-se forçado a continuar nisso. a menos que roubassem. Começa com doses pequenas. mas ainda assim quer experimentá-la. que devia ter mais ou menos a mesma idade. Senti a força de atração da droga. e que desafia toda a lógica. mas daí a pouco tem necessidade de aumentá-las. Nenhum deles percebe quando cruzou a fronteira que separa a condição de simples curioso. ele a detesta. A namorada. E depois que a experimenta uma vez. e fica pensando que pode tomá-la sem problemas. mas seu corpo a deseja fortemente. Ele sabe que ela destrói. enquanto ele aspirava aquele veneno.

Era demoníaco. enquanto os rapazes acomodavam-se no enorme dormitório. desejava ir ao nosso acampamento no verão. mas não quis apertar-me a mão. embora mais tarde dois rapazes ingleses. onde se situava o acampamento.doses cada vez maiores até morrer ou ser preso. Tim e Nick. e aceitei-o prontamente. mande-me somente as pessoas certas. Conhecemo-nos na balsa que nos conduzia à Ilha Lamma. A programação era bem delineada. fossem trabalhar conosco. Eu não podia ir lá examinar os pertences deles nem . Era muito forte. nem conversar. Naquele momento. Nos primeiros dias." O acampamento ficava no alto de uma montanha. Não permita que venham os problemáticos. um quadrilheiro de grande influência ali. percebi que a experiência por ele vivida poderia repetir-se em outros rapazes que se convertessem. Senti o poder de atração da droga. No dia em que Winson veio ao clubinho e foi liberto do vício. orei a Deus nos seguintes termos: "Senhor. Ah Ping disse-me que um amigo seu. com horários de dormir bastante rígidos e trabalho bem distribuído. um viciado. eu não teria auxiliares masculinos. mas era difícil fazê-la funcionar sozinha. Ah Ming era da Ilha de Hong Kong. um lugar lindo e tranqüilo. Deus me revelou que o dragão podia ser derrotado. Pouco depois. Por isso. Eu e as poucas moças que foram dormíamos nas barracas.

e agora estava com um dormitório cheio de quadrilheiros. Mas podia orar a Deus. então tinha de concluir que todos os que tinham ido haviam sido enviados por ele.. fui-me deitar e ele dirigiu-se para o outro lado do morro para tomar sua heroína. gosto de olhar as estrelas.apagar as luzes. Eu pedira a Deus que impedisse a ida de rapazes problemáticos.. então poderia trabalhar com outro.. eu. concordei. três deles fugiram. Comecei a pensar que talvez os missionários tivessem razão. Depois que esse fosse crente e estivesse bem firme. Eu fizera exatamente o contrário. éeéé. — É. Ah Ming surgiu à porta do dormitório e me viu sentada do lado de fora. Como estávamos realizando o culto matutino. São muito lindas. disse improvisando uma desculpa.. Os missionários haviam-me dito que o melhor modo de se fundar uma igreja era trabalhar com um converso de cada vez. em meio à escuridão. Mandou que um rapaz viesse dizer-me que tinham um problema urgente a resolver. Ah Ming havia esgotado seu estoque de drogas. e portanto iriam embora. Estava claro que ele estava ansioso para dar uma saída. Afinal. não são? Ficamos ali sentados várias horas. mantendo uma conversa educada. e tomar sua droga. Não tinha contado com isso. — Éééé. .. Eu também.. para que barrasse a ida de problemáticos. Dois dias depois.

ele fez que sim. Não sabiam explicar. — Lamento muito. lá no acampamento. principiei. estávamos orando para que voltassem. nem a si mesmos. se fosse preciso. Ah Ming. mas felizmente Nick não sabia falar chinês e continuou atrás deles. Ah Ming estava muito inquieto. sempre escutando aquele inglês dizendo repetidamente: — Vocês têm que voltar! Jesus os ama! Mas o desejo deles pela droga era tão forte. sem saber bem por que estavam agindo assim. Enquanto isso. mas não podia sair da barraca por causa da chuvarada.Pedi a Nick que fosse atrás deles. para chegar à balsa e aos fornecedores da heroína. aquela mudança de direção. você estar-se sentindo tão mal. Desenhei três cruzes no chão. Quando reapareceram com Nick. Subiram e desceram três morros. que subiriam cem morros. Viraram-se e começaram a voltar. — Vamos imaginar que podemos enxergar todos os erros que uma pessoa praticou. De repente. Vamos pegar este lap-sap (lixo) para . os três rapazes estacaram. pareciam bastante encabulados. Caía uma chuva forte e entramos numa barraca pequena. mas queria dizer-lhe uma coisa que poderá ser-lhe muito útil. E quando sugeri a Ah Ming que tivéssemos uma conversa. incomodado com a situação. Aqueles ardilosos rapazes haviam elaborado uma boa explicação para sua fuga.

então você é o Cristo. continuei: "— Ei. respondeu Jesus.representar esses pecados. Apontando para uma das outras cruzes. de cada lado dele também foram crucificados dois homens." "— Você não devia falar assim". e que ele tremia." "— Hoje você estará comigo no paraíso". Chame seus capangas para salvá-lo. e depois virou-se para Jesus e disse: "Senhor. e salve-nos também. — Sabe por que essa do meio está sem lap-sap? indaguei. merecemos morrer. Coloquei um montinho de lixo sobre as cruzes laterais. pegando um pouquinho de terra. "Então prove. tampinhas de garrafa e pedaços de papel que havia por ali. — Você está com vontade de vomitar? indaguei. não é?" disse o homem daqui em tom de ironia. Não tinha pecado. — Sei. Mas esse homem não fez nada". objetou o ladrão da cruz da direita. Quando Jesus foi crucificado. Notara que a fisionomia de Ah Ming estava esverdeada. peguei o montinho de terra da cruz da direita e coloquei-o sobre a de Jesus. "Nós erramos. E ao dizer isso. deixando vazia a de Jesus. continuei. Jesus nunca fez nada errado. lembre-se de mim quando chegar ao seu reino. Eram ladroes e talvez até já tivessem matado alguém. .

suponhamos que eu faça uma tentativa. e impusemos as mãos sobre Ah Ming. Isso bastava.— Pois bem. — E é isso que você precisa fazer. Depois eu disse: — O ladrão desse lado foi perdoado e hoje está vivendo com Deus. para que hoje não tivéssemos pecados nem dores. Se você quiser entregar suas dores a Jesus. Você quer? Ah Ming não estava querendo muito. Afinal. Ainda estava chovendo. e ele se achava naquela barraca. e ele comprimia o estômago com as mãos. Seus olhos lacrimejavam. fez uma oração clara pedindo a Jesus que removesse a dor e todos os seus pecados. disse ele com um suspiro resignado. Mas por que o outro não foi? — Porque um creu e o outro não. respondeu Ah Ming. para que pudesse começar uma nova vida. . recebeu todos os pecados e as dores de todas as pessoas do mundo. durante alguns minutos. fitando a mensagem ali exposta. Só que foi muito pior. Jesus sentiu a mesma coisa. pois além de ficar com os pecados daquele homem. repliquei. não conseguiu suportar mais. Então. Meus amigos ingleses vieram até a barraca. — Suponhamos. ele poderá removê-las agora mesmo. Naquele momento parou de chover. Ficamos os dois olhando para o chão.

e impôs as mãos sobre ele com muito carinho. mas estava apalpando o leito. Como estava-se sentindo muito mal. e foi deitar-se de novo. aproximando-se da cama. e tivera um sonho bastante estranho. Ele fora deitar-se ainda um pouco confuso." Abriu a porta. Em seguida. replicou. o rapaz me relatou como Deus atendera às nossas orações naquela noite. . pois estava de muito mau humor. não foi atender. Ah Ming pensou: "Coitado desse homem. Saltaram todos da cama. Uma semana depois. e ele ouviu alguém batendo à porta. colocou a vela sobre ela. no alto da montanha. e ele foi ver quem era.Oramos. As dores desapareceram. Viu um homem com uma vela na mão. O outro entrou no barraco e. quando regressávamos do acampamento. os rapazes tinham que fazer a ginástica costumeira. Mas a pessoa bateu novamente. Ah Ming também se levantou. Todas as manhãs. Na terceira vez que o homem bateu. Sonhara que se achava deitado numa cama de madeira. Ele voltou a deitar-se. — Estou procurando as gotas de parafina da vela. disse a Ah Ming que se sentasse. O apito estava trilando. Ventava muito. Ah Ping perguntou-lhe o que estava fazendo. não deve ter para onde ir. devido à carência da droga. e ele recebeu o dom do Espírito Santo. e o rapaz nunca mais sentiu nada.

enquanto seus "irmãos menores" lhe levavam heroína. foi orando pela balsa que atravessava a baía. Estava tão imerso na oração. Ficava deitado o tempo todo. pegou a primeira arma que viu: dois pesados mourões de ferro. Vendo que Ah Ming se preparava para ir ao ataque. ele já havia dado instruções a seus irmãos com relação àquela briga. — Epa! Eu vim pela balsa orando para ter paz! Não posso brigar com essa gente. No primeiro dia de serviço. — O que você está fazendo? indagou o chefe deles. Naquele mesmo dia. Mas seguiu em frente. sem se deixar abater. eles também pegaram em facões. Agora sou crente. que ele tinha certeza de que Jesus estivera ali de verdade. ergueu os olhos e viu que seus inimigos o cercavam. No acampamento. olhando-o com ar intrigado. Logo notou que um grupo de uma quadrilha rival vinha em sua direção armado para a luta. Instantes depois. Quer saber como foi? . De repente. e entrou pelo portão descalço. o rapaz se lembrou de uma coisa. foi batizado no mar. sentandose no chão. que nem notou que alguém havia-lhe furtado as sandálias. ele próprio não fazia nada. Embora Ah Ming tivesse um emprego nos estaleiros. após o acampamento. pôs-se a orar novamente. Largou as armas que pegara e. — Orando. para o trabalho. Instintivamente.O sonho lhe parecera tão real.

não nos surpreendíamos com as maravilhas que ele operava. Quando chegávamos ao verso que dizia "andando e saltando e louvando a Deus". Um dos corinhos de que mais gostávamos no clubinho era "Não tenho prata nem ouro". Um dos moços tocava violão. Algumas semanas depois do acampamento. Ao passarmos pelo cinema pornográfico e pelas salas de jogo. uns dois ou três pandeiros. Eu ainda não conhecia pessoalmente o afamado Goko. todos estávamos descendo a rua. mas seu "irmão grandalhão" ia ali muitas vezes. estávamos orando certo dia. e os outros doze vieram atrás de nós. completamente espantados.' quando um dos rapazes teve uma visão. todos nós dávamos alguns pulos. Na visão. Muitos dos comércios do vício naquela hora tiveram de parar. e Ah Ming pôs-se a narrar-lhes o que sucedera. enfileirados. Muitas daquelas pessoas já . os homens saíram para ver o que estava acontecendo. que alguns passaram a assistir às nossas reuniões.Responderam que sim. Peguei meu acordeon. Desse modo nosso clubinho foi crescendo mais e mais. enfileirados. Os outros ficaram tão impressionados com o fato. nós moramos neste lugar. cantando e dançando. — Poon Siu Jeh. Mas apenas doze se dispuseram a ir. Como todos os que haviam crido em Cristo tinham recebido também o Espírito Santo. Os outros se desculparam.

E me narrou a trágica história de sua ascensão na quadrilha pela fama de bom brigador. quando escutou aquela cantoria lá fora. — Não posso ser crente. ficou espantado de ver seu amigo Ah Ming contando como Jesus havia transformado sua vida. Saindo de lá.tinham visto os crentes distribuindo papeizinhos pelas ruas. tinha o . acompanhou a fileira de crentes até o clubinho. chegamos às duas maiores salas de comércio de heroína. Ali paramos. Matei minha esposa. pois nem bem acabava de tomar uma dose. Sr. acabara de injetar em si uma dose. Ali pôs-se a escutar maravilhado as palavras dos moços que lhe diziam como Jesus poderia transformar-lhe toda a vida. Depois de passar pelos antros de ópio. Mas ele abanou a cabeça. Em pouco tempo.ta Poon. Ele costumava jogar pessoas para fora de boates e bares nos mais chiques setores da cidade. pois umas três semanas antes os dois tinham tomado heroína juntos. e Ah Ming começou a pregar. chamado Ah Mo. mas nunca os tinham visto cantar e dançar por ali. e pediu para falar comigo em particular. e já precisava pensar em como obter dinheiro para a próxima. Ele pouco ou nenhum prazer alcançava mais com a droga. Dentro de uma delas um jovem alto. Realmente acontecera uma coisa maravilhosa com o rapaz. Já estava maquinando o próximo assalto. Esquecendo sua intenção de praticar um assalto.

e continuou a tomar drogas. Quando eu lhe disse que poderia encontrar perdão em Cristo. entregou-se às drogas também. continuou a procurar as outras mulheres. gente. morreu no hospital. certa vez. diziam. Mais tarde Ah Mo me disse: — Não me importei com aquilo. Ela começou a tomar drogas. Orou recebendo a Jesus e saiu dali pisando nas nuvens.controle de um pequeno império. Vivia com uma recepcionista de um dancing. Quando foi preso. todos os que cressem o seriam também. onde fez lavagem estomacal. e. e ela tomou outra dose excessiva. Mas depois que foi solto. seus olhos ganharam nova esperança. Ele ficou profundamente abalado com o senso de culpa. zombaram dele ao ver a expressão de seu rosto. Alguns dos velhos companheiros que se achavam lá fora. num impulso de autopunição. Mas Ah Mo não o foi. foi levada quase à morte para o hospital. e. como Winson e Ah Ming tinham sido curados milagrosamente do vício. a recepcionista o visitou na cadeia. — Ele ficou religioso. no beco. Eu presumira que. mas tinha mais três amantes. Mas Ah Mo não largou sua vida de libertinagem. Ela o amava realmente. . pois meu coração estava leve. Na terceira vez em que o fez. Ficou religioso.

sua tarefa era introduzir o plugue numa tomada que havia na muralha.Pedi ao Pastor Chan que o recebesse em seu centro. ou um membro de uma quadrilha inimiga. Todas as noites. Quase todas as vezes em que ia lá. Ele estava trabalhando em uma das salas como tin-man-toi (metereologista).00 dólares a outro homem que se arvorara em "dono" da rua. Arranjei um emprego. Se visse um grupo de policiais aproximando-se. eu me . quando o intruso chegasse lá. mas não havia vagas. mas não para o arroz. tinha que ficar sentado em uma das entradas da Cidade Murada. ou um investigador do departamento de narcóticos.00 dólares diários. Em seu maço de cigarros havia um plugue elétrico. Isso disparava um alarme nas várias salas. toda a atividade estaria paralisada. pagando para isso a quantia de HK$ 15. Para fazer este serviço. — Glória a Deus! disse Ah Mo alguns dias depois. Ele dormia num beco atrás dos banheiros públicos de Kowloon. Essa semana não precisei assaltar ninguém para comprar minha heroína. quando veio para o culto de domingo. Ah Mo recebia cerca de HK$ 15. Todos os dias eu lhe dava um pouco de alimento. e ele teve de esperar várias semanas. Quando fiquei sabendo qual era o emprego. eu mesma não consegui dar graças a Deus. e. Aprendera que não devia dar dinheiro. que eram suficientes para a heroína.

Enquanto me encaminhava para lá. muito bem vestido. Afinal. O fato de ser viciado fazia um forte contraste com o terror que seu nome inspirava. Sabia que era alto e forte. fiquei a imaginar como seria Goko. continuei mandando recados a Goko. exibindo dentes estragados e escurecidos pela droga. Ele me reconheceu primeiro. e achava-se sentado sozinho. Era um homem de uns trinta e cinco anos. e. indicando que me sentasse. pude perceber que o ópio deixara profundas marcas de dissipação em seu rosto forte. Após a cura miraculosa de Winson. já que eu era a única ocidental a entrar no restaurante. Winson chegou com um recado. em um mês. Dei graças a Deus quando acabou-se aquele trabalho de vigilante. engordou quase dez quilos. Fez um gesto cortês. Sorriu. libertou-se da droga. conversei com a esposa dele. dizendo que ele me convidava para tomar chá no Restaurante Fairy. Mais um dragão beijara a lona. e que fora um grande jogador de futebol antes de se entregar ao ópio. Ah Mo foi para o centro de reabilitação. Olhando-o de frente pela primeira vez.sentava ali e orava com ele. . encarregar-se dos funerais de um companheiro assassinado. e orgulhava-se de observar bem as leis do seu mundo. Era um dos mais velhos chefes das quadrilhas. por exemplo. Ia aos antros de jogo e deixava ali meu nome. como. fora da cidade. concordou em falar comigo. embora geralmente estivesse sonolento.

— É que creio que você gosta de meus "irmãos" assim como eu gosto. tanto eu como você conhecemos o poder. realmente gosto deles. para que voltem a lutar na quadrilha. Por que me trata com tanta gentileza? Ele pensou por uns instantes. — É. Fiquei maravilhada ao pensar nas implicações do que ele acabara de dizer. e as coisas em que está envolvido. Eu o utilizo desse jeito (e cerrou os punhos). Então pôs de lado as gentilezas e passou a falar abertamente. Quer que Jesus os liberte das drogas. continuou ele. repliquei prontamente. Já sei o que você quer. e você desse jeito (apontou o coração). até que não agüentei mais e disse abruptamente: — Não precisa ser tão educado comigo. — Por isso. — Poon Siu Jeh. Vamos parar com essa hipocrisia. Não quero meus "irmãos" amarrados à heroína. Era conhecido de todos o cuidado que tinha por seus seguidores. mas não consigo fazer com que larguem. concordei. Entregamo-nos a uma conversa agradável. Mas os cristãos não podem servir a dois . Não temos a mínima simpatia um pelo outro.Educadamente. E ele não estava falando por falar. aquele impiedoso chefe da corrupção indagou-me o que iria pedir. resolvi entregar todos os viciados a você. por favor. Você possui um poder que não tenho. Mas acho que Jesus consegue. Mas detesto tudo que você faz. — Não.

E foi esse o estranho pacto que fizemos. Vou dar-lhe todos os imprestáveis e ficar com os bons para mim. — Está bem. eu também terei que crer. era membro dela para o resto da vida. voluntariamente. Jesus veio para os imprestáveis mesmo. Quando ouviu falar do que acontecera a Johnny. Se alguém tentasse sair. Eu libero aqueles que quiserem seguir a Jesus.senhores. Tenho certeza de que. Eles têm que seguir ou a Cristo ou a você. Mal pude acreditar no que ele estava dizendo. Goko sempre mandava os viciados para eu curá-los. simplesmente para você pegá-los de volta. Nós dois estamos seguindo rumos diferentes. então. . Uma sociedade tríade nunca liberava seus membros. E ali estava Goko. A partir daquele dia. repliquei. disse ele erguendo a cabeça lentamente. ele disse: — Vou ficar de olho em vocês. liberando alguns de seus "irmãos". Não tenho a menor intenção de ajudar seus "irmãos" a se libertarem da droga. arriscava-se a ser severamente castigado ou até morto. se voltarem a seguir você. Quando uma pessoa se unia a uma quadrilha. Se ele permanecer firme uns cinco anos. — Ótimo. retornarão ao vício também. — Sabe o que vou fazer? disse ele depois.

Tive vontade de tomar. Mas o problema é que Winson não tinha outro lugar para dormir. Mas orei. O primeiro impulso deles era defendê-lo. tenho que dar muitas graças a Deus. Na época em que se convertera.9 "Doenças" da Infância Winson estava em perigo. Fiquei furiosa com ele. fui a uma sala de ópio e um deles me ofereceu a droga de graça. disse-lhe. Você nem devia ter ido lá. estava morando nessa sala de ópio. Winson. ficavam num dilema muito grande. Eu já lhe dissera para largar a quadrilha e seguir a Jesus. Tanto Winson como Ah Ping ainda estavam envolvidos com as quadrilhas. Isso é tentar a Deus. Ontem à noite. Ele me procurou todo animado. aquecei-vos e fartai-vos". — Poon Siu Jeh. Compreendi também que a mera presença . — Isso não é razão para "louvar o Senhor". Era muito difícil dar as costas aos amigos com quem haviam-se criado e de quem gostavam. mas na prática isso era o mesmo que dizer: "Ide em paz. e não fazer nada para suprir suas necessidades materiais. e Deus me deu forças para resistir. pelo simples fato de residirem na Cidade Murada. Quando um "irmão" deles era atacado.

daquele ambiente de pecado. Eu procurara colocar um desses rapazes em casa de cada família inglesa que eu conhecia. Mas. Andando pela Cidade Murada. meus seguidores iam. Não posso mandálos lutar. eu era bastante conhecido pela minha capacidade de comando. quando eles vêm se queixar comigo. e isso me magoa. Tinham que ser retirados dali. Pus-me a procurar lares ou pensões de crentes que pudessem recebê-los. Pela primeira vez na vida. — Antes de me tornar cristão. disse. E meus "irmãos" estão perdendo o respeito por mim.deles ali era uma aprovação às atividades das quadrilhas. mas sempre exigiam que eles tivessem um emprego ou estudassem. agora. Se eu dizia: "Vai". Mas não havia outro lugar onde pudessem viver. tenho parado para pensar no sentimento das vítimas. E como nenhum dos recémconvertidos que eu conhecia preenchia essas exigências. era impossível arranjar lugar para eles. e que pudessem dar referências de um pastor e pagar um mês de aluguel adiantado. Nem paravam para pensar. Ah Ming também encontrou muitas dificuldades. eles esfaqueavam. tenho que parar e pensar. eu estava sempre encontrando ex-viciados e quadrilheiros que revelavam um grande desejo de mudar de vida. pois sou crente. pois os garotos precisavam de . Se eu dizia: "Faca". Mas essa situação não foi bastante satisfatória.

a maioria delas. e a luz não estava ligada. Encontrei esse apartamento quando estava andando nas vizinhanças da Cidade Murada. Baseadas na premissa de que o serviço sai com mais rapidez se o interessado se acha presente. no telhado havia um grande rombo. É verdade que as paredes estavam rachadas. o que tais pessoas às vezes não podiam dar. Mary Taylor rompeu em lágrimas na primeira vez que viu nosso apartamento da Rua Lung Kong.maior vigilância e de um disciplina-mento mais rígido. Além disso. eu e Mary nos mudamos para lá. Os rapazes da Cidade Murada nos ajudaram a fazer os reparos necessários. Tinha mais de trezentos metros de área ao todo. indagando se ali havia cômodos para alugar. a ponto de desmoronar. e assim era um quarto a mais. e esse era o lugar. contribuindo com suas habilidades. achava muito desagradável ter um quadrilheiro em casa. depois de algum tempo. Fiquei tão empolgada quando o vi. ou mesmo sem elas. acomodando-nos entre montes de entulho. sendo mais prática. para mim era um presente do céu. Mas Mary. e havia uma escada que dava para um terraço que fora parcialmente recoberto com folhas de zinco ondulado. Havíamos orado pedindo a Deus um lugar onde pudesse abrigar minhas ovelhas. via apenas as falhas dele. No entanto. sem luz e com um encanamento de água não . que enxerguei apenas as possibilidades. mesmo sendo um quadrilheiro convertido.

Eu me encarregava de muita coisa. detetives vinham à nossa porta . Uma das grandes vantagens era o jardim do terraço. o antigo presidente de nosso clubinho. Era então hora de resolver se iria receber ali rapazes ou moças. Mas a chance de opção foi-me tirada das mãos. e não tinham mais para onde ir. para auxiliar os rapazes no seu crescimento espiritual. seria necessário recusar as moças. Também abríamos o clubinho quase todas as noites. comprava roupas e alimento para os rapazes. arranjava escola ou emprego para eles. já que tantos estavam desabrigados. quando Ah Ping e Ah Keung tiveram de sair da casa que eu arranjara para morarem. Cozinhava. Colocamos a trepadeira de forma a vedar a vista à casa do outro lado da rua.muito confiável. Quando finalmente me deitava para dormir. Se recebesse os rapazes. Prostitutas me ligavam da delegacia. Tivemos que arranjar um jeito de Ah Ping ir morar com alguns amigos. Nossa família foi aumentada com a chegada de Joseph. cuidava da casa. E foi assim que criamos uma comunidade cristã. o que não era muito aconselhável visto ser eu solteira. era acordada por viciados que queriam ouvir falar de Jesus. cactus e trepadeiras. a não ser a Cidade Murada ou nosso apartamento da Rua Lung Kong. Winson também largou a sala de ópio e passou a morar conosco. depois que removemos o lixo que ali havia e plantamos begónias.

procurando informações. Ela buscava água nas fontes que havia fora da Cidade Murada. A história da família Chung era de estarrecer. ficava cheio de água e abaulado no meio. carregando água. nosso apartamento acabou sendo misto. pois nossa casa era uma das poucas que recebiam delinqüentes. Afinal. Moravam num quartinho minúsculo onde só havia uma cama de casal. Viemos morar com você. — Poon Siu Jeh. Todos os cinco eram muito acanhados. vi uma mocinha com um bebê num dos braços e uma mala enorme na outra mão. porque o infeliz pai gastava tudo que tinha em heroína e não dava à família nenhum sustento. cozinhavam nela. dormiam nela. e juízes me enviavam certos casos. O único dinheiro que entrava ali era a Sr. Era nessa cama que as crianças aprendiam a andar. uma espécie de mingau de arroz cozido em água. Nunca os vi comer nada a não ser congee. Uma noite ouvi uma batida à porta.a Chung quem ganhava. ignorando minha presença. quando chovia. Atrás dela estavam seu irmão e duas irmãzinhas menores. brincavam e faziam os deveres de casa nela. e quando eu ia visitálos. Ganhava cinco centavos por balde que . viravam-se para a parede. murmurou ela. O teto era um pedaço de linóleo que. levando-a às casas. Quando abri. Eu conhecera aquelas crianças havia três meses e tivera muitos contatos com a família.

e não contribuía para a renda da família.a Chung até lá. e que devíamos aguardar uma carta deles. Levei o caso dessa família ao Departamento de Bem-Estar Social. No Natal. . mas ficou reumática e não podia mais caminhar com os baldes pesados. solicitando alguma ajuda financeira. peixe seco e azeite para melhorar um pouco seu arroz. Até mesmo os filhos tinham que trabalhar nas indústrias ali.a Chung era entrevistada.entregava. Costumávamos levar-lhe bacon. pois o marido raramente aparecia em casa. Se lhe déssemos dinheiro. ela estava sempre sorrindo. para poderem comprar seu arroz. Passaram-se quatro meses e a carta não veio. Embora estivesse esperando o sexto filho. esperando a assistente designada para cuidar do caso deles. Mais tarde. Sugeri à moça que tratasse o casal como duas pessoas distintas. Acompanhei a Sr. Recebera a Jesus no coração e muitas vezes orava conosco. pois não sabia ler. e a resposta que recebi foi: — Essa família não se enquadra dentro das disposições para receber auxílio de pobreza. Fui ao departamento para verificar. Mandaram-me sair. ela me disse que tinha ido outra vez à repartição para assinar o pedido de auxílio. demos brinquedos às crianças e pagamos a taxa escolar para elas. enquanto a Sr. Ficamos sentadas lá o dia todo. mas os sociólogos encarregados do levantamento eram muito desinteressados. o marido o roubaria para comprar heroína.

e então colocou sua marca. Não conheço ninguém que seja mais pobre que eles. — Ganho HKS600 dólares por mês e dou 400 à minha esposa. os encarregados haviam solicitado a presença do marido na repartição para fazer uma declaração de rendimentos. — Mas não sabem reconhecer um viciado? O pessoal ali acabou-me tachando de "criadora de caso".a Chung foi lá. então quem está? indaguei. Essa informação errada foi anotada. Então ajudamos a família a mudar-se da Cidade Murada. — Mas vocês não viram que ele é viciado? Não se pode confiar na palavra de um homem assim! — Ele disse que está completamente liberto da droga. e retiramos a cama de casal dali. replicaram. para um chinês.— Se eles não estão enquadrados. Isso era uma grande mentira. Ela não sabia o que estava escrito ali. Debaixo dela encontramos vários tambores cheios de roupa usada. dissera ele. Pensou que estivesse assinando a petição de auxílio. e afinal a Sr. eles . Anteriormente. mas.8 Chung recebeu auxílio do governo. E agora têm uma criança recém-nascida. Meus rapazes contrataram um caminhão. é muito vergonhoso ter de confessar que não consegue sustentar sua família. e quando a Sr. mas voltaram atrás na decisão. Ao que parecia. pediram-lhe que endossasse a declaração do marido.

Uma morte que poderia ter sido evitada. Duas semanas depois. por um minguado salário de HK$ 100 dólares por mês. já que não podiam sustentar a esposa de um viciado indefinidamente. Ele mandou a filha de treze anos trabalhar numa fábrica. mas eles se recusaram a ajudá-la por mais tempo. a Sr. Os tambores estavam apinhados de baratas. as apanhara de volta. Senti que. A Sr. No dia seguinte. ela começou a tossir e morreu.a Chung tinha um desejo tão forte de possuir coisas. enviadas de outros países para os "refugiados". soube que a filha mais velha. E tinha que entregar todo o dinheiro a ele. mas nunca me dera ao trabalho de acompanhá-la ao médico. Após o sepultamento dela.a Chung me disse que recebera ordens do governo para arranjar trabalho. continuei a visitar e a ajudar as crianças. que não jogava nada fora. quando fui lá. Sabia que estava tossindo. Ela lhes respondeu que não estava bem. eu era culpada de sua morte. Ah Ling. E ela morreu.tinham estado em contato com uma instituição de caridade que lhes dera uma dúzia de tambores de roupas. e assim não fora diagnosticado que estava com tuberculose. Já padecia com tosse havia muito tempo e tinhase consultado várias vezes. Havia muitas e muitas roupas que não prestavam mais e amontoei uma porção delas junto às latas de lixo na rua. . que estavam sendo exploradas pelo pai. em parte. Mais ou menos na época em que nos mudamos para o apartamento da Rua Lung Kong.

e só depois de muito tempo foi que conseguiram conversar comigo. Ela resolvera morrer. ao saber que o filho fora preso mais uma vez. Disse-lhes que. constituíam um quadro patético. e gostavam imensamente de brincar com o bebezinho. Seu filho. Nossos rapazes eram muito bondosos com aquelas crianças. mas ele sempre me dizia: — Ela não quer saber de crentes. Estavam inteiramente convictos de que eu os receberia. mas não tinha outra opção. em seu quartinho na Cidade Murada. Muitas vezes. Quando ele foi preso mais uma vez. e por isso ela não tinha mais vontade de viver. Pin Kwong era toda a sua vida. Pin Kwong. e foi então que pediram para morar em minha casa. procurei a mãe e encontrei-a de cama. fizeram a mala e fugiram de casa para morar comigo.a Chan. Eram crianças muito retraíadas. levávamos todas as crianças. As mulheres chinesas em geral têm muito orgulho dos filhos homens. eles estavam sob a guarda e tutela do pai. que não tinha a menor intenção de mudar de vida. pela lei. Depois. era um viciado terrível. para eu . é uma adoradora de ídolos. um mês depois. Ele não queria que eu visitasse a mãe.Quando fazíamos passeios com o clubinho. mas o dela era um perdido. Em minha casa já havia rapazes dormindo no chão. nossa família aumentou mais com as constantes visitas da Sr. Parados ali à minha porta. senão acolhê-los. que eu conhecera havia alguns meses. pedi-lhe notícias de sua mãe. Mas.

e nos apresentava os negociantes do mercado local. Naquela noite ela sonhou que via um homem vestido com um longo manto branco. Quando a encontramos. demos-lhe uma chave da casa. . e ela estava sempre aparecendo por lá. ela foi sempre uma pessoa alegre e radiante. Impusemos as mãos sobre ela. ela ergueu os olhos. E nunca mais sentiu nada. Gostava imensamente da nova família que adotara e ficava por ali dando ordens a todos. Quando nos mudamos para a Rua Lung Kung. pendindo-lhe que fosse a ele e se batizasse. que tinha dado ao mundo o seu bem mais precioso. aproximar-se dela com os braços estendidos. sorriu e disse que fora curada da "doença do pulmão" e que já conseguia respirar sem dificuldade. orando em voz alta e pedindo a Deus que ele próprio lhe falasse de um modo que ela pudesse compreender. A Sr. e achava-se enfraquecida. A partir daquele momento.a Chan nunca tinha ouvido falar de Cristo. fazendo a limpeza ou cozinhando para nós. Demos-lhe alimento e falamos-lhe do Pai celestial. Terminada a oração. seus conhecidos.não saber que a explorava. que passaram a vender-nos alimentos por baixo preço. sem se alimentar. só porque a amava. o seu Filho. Então resolvemos tomar providências para restaurar-lhe o animo. ela já estava recolhida havia vários dias.

Como não soubesse ler, pedi aos rapazes que lhe ensinassem versículos da Bíblia. Levou uma semana para aprender: "Disse Jesus: Eu sou o pão da vida". Três anos antes, certa noite, íamos ter um estudo bíblico, e Dora viera até a Cidade Murada para interpretar para mim. Foi uma dessas ocasiões em que só um rapaz veio ao culto. Fiquei muito irritada, e foi esta uma das raras vezes em que desejei estar na Inglaterra. E expressei esses sentimentos. Quando orávamos, Deus deu uma mensagem em línguas ao rapaz, e Dora interpretou-a. — Ninguém que tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai ou filhos, ou terras por amor a mim ou ao evangelho deixará de receber cem vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães e filhos, e terras nesta vida, e, na vida futura, a vida eterna. Imediatamente abri a Bíblia em Marcos e li esses versos, e vi que realmente o texto dizia que receberíamos ainda nesta vida cem vezes mais. E naquela noite reivindiquei o cumprimento dessa promessa. — Senhor, disse, gostaria de ter cem casas, cem irmãos e irmãs. E também cem mães e filhos. Contei então o pessoal ali, naquele apartamento da Rua Lung Kong, e vi que devia ter pelo menos uns cem irmãos e irmãs. Como ainda era pequeno o número de mães, apareceu então a Sr.a Chan. Mas vieram outras mães também.

Certo dia fui procurada por um rapaz que acompanhava sua avó. Era bem velhinha e debilitada, e tinha um curativo na cabeça. — Quero ser batizada, disse ela com voz esganiçada. Fiquei logo desconfiada. — Se a senhora ainda não recebeu a Jesus, batizar não significa nada. Se quiser que eu lhe fale dele, terei imenso prazer, mas se o que a senhora quer é apenas o certificado, não posso dar-lhe. Aqui em nossa igreja não damos certificados. A velhinha tinha levado um tombo e ferido a cabeça. Estava com receio de morrer, sem ter um lugar para ser enterrada. Em Hong Kong havia poucos lugares. Mas, como membro de uma igreja, ela conseguiria um. Levei-a à Sr.a Chan, que fez amizade com ela e falou-lhe de Cristo. A velhinha teve uma conversão genuína, foi batizada e seis meses depois morreu, tendo já o seu lugar reservado no céu. Eu não fazia idéia de que cuidar dos rapazes em minha casa iria ser tão trabalhoso. Cometera um erro básico. Tinha pensado que "se alguém está em Cristo é um novo homem", ao passo que o texto bíblico diz que "é nova criatura". Eles eram como recém-nascidos, e tinham muito que aprender. A ignorância deles sobre as condições normais de vida era de estarrecer. Alguns, como Mau Jai, tinham vivido pelas ruas desde a idade de cinco anos. Ele não pudera viver em sua própria casa, porque o pai

tinha duas esposas, e a segunda, sua mãe, caíra no desagrado dele e os filhos dela foram expulsos de casa. Não tiveram uma infância normal. Logo tornaram-se peritos na arte da astúcia e da trapaça. Como estavam acostumados a ficar acordados a noite toda, não compreendiam por que tinham que ir dormir à meia-noite. Levantavam a hora que acordassem. Se não sentissem vontade de ir trabalhar, não iam. Os regulamentos da casa eram logo associados com a idéia da prisão, e não os observavam da forma devida. Por vezes, eu achava que eram eles que estavam-me dirigindo, e não eu a eles. Um exemplo de um caso assim foi o de Ah Hung, que nos fora enviado pelas autoridades, supostamente liberto da dependência à droga. Na verdade, ele recomeçou a tomar heroína no mesmo dia em que foi solto. Portanto, não foi surpresa para nós, quando perdeu o emprego e desapareceu de casa. Certo dia, reapareceu completamente drogado, confessando que havia participado de um assalto. Nós o convencemos a entregar-se, mas fugiu de novo. Como mencionara uma arma, liguei para a polícia, e, daí a pouco, seis viaturas cheias de detetives vieram pelo túnel, cantando pneus, e pararam diante do prédio. Num instante, entraram no apartamento, revólveres em punho, como se pensassem que ele ainda estava lá. Depois se foram, deixando alguns de vigia, os quais se revezavam, guardando a casa vinte e quatro horas por dia. Numa noite, os dois que estavam de guarda largaram seu

turno e foram procurar um bom restaurante, deixando-nos um número de telefone, onde poderíamos encontrá-los. Era tudo mentira. No dia seguinte, Ah Hung apareceu e explicou que não havia participado realmente do crime. Não acreditei, e levei-o à delegacia para confessar. Foi a melhor coisa que poderia ter-lhe acontecido, pois soubemos que não poderia mesmo ter tomado parte no assalto. Todos zombaram dele, por haver inventado aquela história sob o efeito de drogas. Mas era exatamente o que precisava acontecer para que se comprovasse o fato de que ainda estava viciado, e chegasse ao ponto de desejar auxílio espiritual. Estávamos sentindo claramente que os rapazes da Cidade Murada precisavam de uma disciplina mais forte. Em parte, eu tinha dificuldade nisso, pois me relacionara com eles como amiga, e tornou-se difícil a transição, e colocar-me na posição de pastor ou professora. Assim, eles chegavam em casa a qualquer hora do dia ou da noite, e não estavam crescendo espiritualmente, como eu desejava. Comecei a orar a Deus para que mandasse alguém que pudesse encarregar-se dos serviços caseiros, de modo que eu pudesse sair às ruas outra vez. Pedi a dois rapazes crentes, chineses, que morassem conosco para dirigir a casa. Mas não deu muito certo. Eles queriam um salário definido, o que eu não poderia prometer-lhes. Queriam que os rapazes os tratassem de "professor". Quando eu acordava de manhã,

perguntava-lhes se haviam chamado os rapazes e preparado o desjejum. Replicavam que tinham estado muito ocupados com a "hora silenciosa", isto é, seu momento de oração e leitura bíblica. Para eles, ensinar era realizar um estudo bíblico e pregar por quase uma hora e meia. Foram ensinados que era assim que se fazia o trabalho cristão: dirigir cultos, serem tratados com determinado título e pregar. Ainda não haviam aprendido a lição de Jesus, quando lavara os pés dos discípulos. Muitas vezes, eu levava os rapazes às reuniões promovidas pelo casal Willans, das quais eles gostavam muito. Ali sempre se fazia a interpretação para o chinês, a fim de que eles pudessem participar e ter comunhão com outros crentes. Muitas pessoas oravam por nós. Certo dia, Jean Willans disse-me com firmeza: — Se você quer mesmo trabalhar com esses rapazes, Jackie, tudo bem. Mas não precisa morar com eles. Ou pelo menos arranje um lugar, onde você possa ir vez por outra para recuperar suas energias em paz. Mas eu não entendia essa atitude. Aliás, eu não entendia por que o mundo todo não queria trabalhar na Cidade Murada. Eu não desejava estar em nenhum outro lugar da Terra. Entretanto, a despeito da confusão reinante em nossa casa, descobri que muitas vezes Deus usava crentes jovens para nos reanimar, a mim e aos outros. Todos os que

quando um dos moços disse que Deus lhe dera algumas palavras para nos dizer: "Vá e colha os repolhos e pegue o ônibus rapidamente. Então eles sabiam perfeitamente que. Mas o texto mais animador que acharam foi um verso deprimente de Apocalipse. Só depois de uma consulta ao dicionário foi que consegui a interpretação correta. Mary e os dois obreiros tinham ido embora. "A seara está pronta. Estavam-se sentindo impotentes para dirigir os conversos e os outros rapazes. . quando tínhamos nossas reuniões. disse aos rapazes. estávamos orando. E nós os aconselhávamos a exercitar os dons espirituais. então falei. tinha por objetivo auxiliarem-se mutuamente. vá trabalhar na colheita." Saímos e pregamos aos vagabundos que dormiam pelas ruas nas proximidades da nossa. — Vamos orar. Houve uma outra ocasião em que os rapazes me reanimaram bastante. o fato de terem um dom. Um deles aceitou nossa oração e mais tarde foi liberto das drogas em nossa casa. Eu chegara em casa exausta e preocupada. Certa noite. E me indagava se os missionários de outros países tinham os mesmos problemas que eu enfrentava com os novos convertidos.haviam-se tornado crentes receberam o poder de Deus na mesma hora em que haviam crido. — Achem um versículo bíblico bem reconfortante para mim." Era uma mensagem muito estranha.

5. Voltará com júbilo. me disseram exatamente as palavras certas naquele dia. por meio do Espírito Santo. Quem sai andando e chorando Enquanto semeia. percebi que sempre recebia tudo de que precisava. nossa renda foi aumentando também. Só havia poucos dias que ele crera em Jesus. Comer o pão que penosamente granjeastes. Mas a interpretação que deu foi uma citação clara e direta do livro de Salmos: "Os que com lágrimas semeiam Com júbilo ceifarão. Outras. Trazendo os seus feixes. Inútil vos será levantar de madrugada Repousar tarde.Quando estávamos orando. Se o Senhor não edificar a casa Em vão trabalham os que a edificam.2) E aquelas criancinhas em Cristo.1. recebi uma mensagem em línguas. Certa . Aos seus amados ele o dá enquanto dormem. A medida em que nossa família da Rua Lung Kong ia crescendo. e não sabia ler a Bíblia direito." (Salmo 126. e um dos rapazes a interpretou imediatamente. Desde que eu parara de lecionar em tempo integral.6 e 127. um amigo me dava exatamente a quantia que eu estava pedindo ao Senhor em oração. As vezes chegava um cheque pelo correio.

e mandara que ele a entregasse a nós. um conhecido lutador de kung-fu. arfando e suando. Num domingo. Naquela época. à última hora. Eu o . Sempre tínhamos o suficiente para as despesas de cada dia. Dez minutos antes da hora marcada para a refeição. mesmo assim. Era muito inteligente e falava inglês muito bem. Mas também era um miserável viciado e perdera sua utilidade para a quadrilha. pois sentiam estar participando de maneira direta na obra de Deus. queríamos comprar um bote de borracha para um passeio que eu desejava fazer com os rapazes. e uma pessoa nos enviou da Inglaterra a quantia exata. cometi muitas tolices. tivemos de dizer aos rapazes que não dispúnhamos de dinheiro para o alimento daquele dia. quando ali chegou Geui Jai. Sua classe de estudo bíblico tinha levantado uma coleta para nós. Para os jovens. um dos poucos que era instruído. — Mas vamos cozinhar o arroz assim mesmo. isso era maravilhoso. após o culto da manhã. chegou ali uma visita. e orar para Deus nos dar mais alguma coisa para colocar nele. Todos os domingos. mas. sentindo-me bastante indisposta. Deus via a intenção de meu coração e nos abençoava. Era uma vida muito emocionante. levando-nos alimentos enlatados'. convidávamos muitas pessoas para almoçarem conosco. Uma noite eu estava muito gripada e ficara em casa. quando oravam pela manhã pedindo o pão de cada dia.vez.

ta Poon. Alguns rapazes ficaram sabendo do que Geui Jai fizera. A condição em que estava deve ter prejudicado meu discernimento. Mandariam imprimir. Que ridículo! Ninguém aqui iria bater um convite duzentas vezes. — Será que poderia emprestar-me sua máquina de escrever.encontrara muitas vezes dormindo nas ruas ou escadarias próximas de nossa casa. Que bom. Era óbvio que ele empenhara a máquina. Deixei que levasse a máquina. contando que me devolvesse à noite. Vou conseguir um bom dinheiro ajudando uma pessoa a fazer traduções. Isso me rende o suficiente para a droga e assim não preciso roubar. não é? Tenho que datilografar duzentos convites para uma festa. pois tanto seus pais como seus "irmãos" da quadrilha o haviam banido. sinto muito. SrM Poon? pediu ele. Ameaçaram bater nele. Mais tarde ele me ligou. embora eu tivesse dito: — Deixem isso para lá. até que coloquei o fone no gancho. e daí? Jesus perdeu a vida. Vamos esquecer isso. mas não poderei devolvê-la hoje. Foi culpa minha e não dele. Seu argumento me pareceu razoável. e ficaram bastante zangados. Pois arranjei um outro serviço. e que nunca mais a veria. Perdi minha máquina. E a máquina nem se compara com uma vida. . — Sr.

porque quero derrubar tudo isso por que você luta. disse-lhe. Minha máquina reapareceu na estante de livros. Nada mesmo. dirigia um império do crime e com a outra protegia uma missionária. moeyeh. . Sou contra você. e vim para cá. — Mas você não tinha obrigação nenhuma de resgatar minha máquina. E ali conversei com o "poderoso chefão" de quadrilha que. ele contou que Goko ficara tão irritado ao saber do que Geui Jai fizera. e Goko pagara do seu próprio bolso o resgate dela.Três meses depois. Não poderia ter feito uma coisa dessas com você. E mais uma vez fomos tomar chá juntos. continuei. Não é meu amigo. — Moeyeh. Então ele a devolvera sem mandar dizer nada. E eu queria explicarlhe uma coisa. continuei. Estes exigiram dele a cautela de penhor da máquina. replicou parecendo bastante constrangido. pois queria agradecer-lhe. em casa. Afinal. Mais uma vez mandei um recado urgente para ele. — Seu gesto me comoveu profundamente. Não foi nada. — Muito obrigada pela devolução da máquina. — Geui Jai é um sujeito muito ruim. disse. Deus me deu o primeiro fruto positivo disso. que mandara seus homens atrás dele. com uma das mãos. Interroguei Ah Ping para saber o que acontecera.

Em seguida falei-lhe um pouco do que Cristo havia feito para nós. A maneira mais fácil de expressar o que sinto é empregando as palavras do Evangelho de João: "A mulher quando está para dar à luz. já não se lembra da aflição. mas. Certa vez. depois de nascido o menino. Afinal chegou o dia em que ele orou conosco. e seu desejo de ser uma pessoa diferente também aumentou. O segundo resultado positivo foi que Geui Jai ficou com consciência de culpa e tornou-se mais sensível. Ele vira a mudança que se operara em Winson e Ah Ming. resgatando-nos com seu próprio sangue. dei com o fracassado lutador dormindo em ruas e escadas. mas também foi estudar numa escola bíblica e tornou-se pastor. . Ele ouviu atentamente. tem tristeza. Muitas vezes me senti confusa. E não apenas libertou-se da droga. As duas coisas me proporcionaram muita alegria. parecendo quase acanhado. e depois foi para o centro de reabilitação do Pastor Chan e trocou a seringa pela cruz. Depois pagou a conta do lanche e saiu apressadamente. Mas ouvira a história da redenção. porque a sua hora é chegada." As dores daquela época podem ficar esquecidas. pelo prazer que tem de ter nascido ao mundo um homem. Aqueles anos vividos no apartamento da Rua Lung Kong foram uma época de aprendizado e crescimento. porque deram à luz muitos filhos e um relacionamento maior com o casal Willans.

e acaba de publicar um livro leve e interessante sobre religião. O título é The Acts of the Little Green Apples (Os atos dos maçãzinhas verdes) e descreve^ vida da .10 É Jesus Mesmo "Jean Stone Willans é uma senhora muito entusiasta. Tem o dom de falar 'línguas estranhas'.

de seu marido Rick. se Deus assim o determinasse. ela conseguiu uma forma de fácil comunicação com Deus. Jean e Rick eram meus amigos íntimos e conselheiros espirituais. a Willans não pratica religião. a filha do casal. O pensamento de Jean Stone Willans é de que. Eu fora levada a crer que os missionários devem ter o mínimo de coisas possíveis." Era o que dizia um artigo do Hong Kong Standard. Os Willans haviam vivido momentos de necessidade também. em julho de 1973. se Deus estálhe chamando para trabalhar para ele. a respeito do livro de Jean. Ao que parece. ou então assistir televisão. Aquela altura. Quando tinham coisas belas. Eles haviam-me ensinado que podemos apreciar as boas coisas que Deus nos dá. ela a vive. Também eram os únicos crentes que eu conhecia que poderiam orar a noite toda. E ele o faz muitas vezes. isso se acha ao alcance de qualquer pessoa. Haviam aprendido a estar contentes em quaisquer circunstâncias. apreciavam-nas bastante. Descobrimos que houvera muita semelhança em nossas chamadas para trabalhar no Oriente.família Willans — dela. A Sr. e eu também partilhava desse entusiasmo acerca dele. ou ir a um jantar refinado. pois eles também tinham . Mas. mas não achavam que Deus queria que vivessem assim para sempre. mas da mesma forma estavam dispostos a dar tudo para os outros. deve também capacitá-la para isso. segundo ela diz. e de Suzanne.

— Por que você não tenta falar com ele? Se quer mesmo ser crente. Certo dia eu me encontrava num tribunal acompanhando um caso. O juiz resolveu soltá-lo. — Está bem. pois seria bom se rompesse com o mundo do crime. Logo pensei que devíamos então informar ao chefe de sua quadrilha que ele iria sair dela. Ele ficou nervoso e pôs-se a remexer no assento. respondeu. Ele estava pensando em declarar-se inocente. — Quem é o seu daih lo. Ele me disse que estava disposto a seguir a Jesus de todo o coração. — O apelido dele é "Jesus". Começou a orar e acabou confessando-se culpado das acusações que lhe eram feitas. David? indaguei. e ele saiu como que fora de si de espanto. Saímos juntos dali e fomos tomar um café. Afinal voltou com uma expressão de surpresa no rosto. disse ele. Era amigo de Ah Ming. — Ele não vai querer falar com você. Mas ele não vai querer vê-la. — Mas qual é o nome dele? insisti. mas quando me viu sentiu um aperto na consciência. . Seu ministério em Hong Kong era numa esfera de ação completamente diferente da minha. no setor onde ficavam os acusados. E foi a um telefone. não poderá seguir a dois Jesus.recebido a orientação através de um sonho e uma profecia. quando avistei David agachado a um canto. Vou tentar encontrá-lo.

Tratase de uma área bem espaçosa na Ilha de Hong Kong. eles o levam e a deixam em paz. Se estou fazendo a obra de Deus. a rua ainda estava regurgitando de gente. O rapaz olhou para mim com ar incrédulo e depois falou: — Você está maluca. Ali uma pessoa irá encontrá-la e levá-la a "Jesus". ele cuidará de mim. Mas terá que levar cem dólares. Cheguei em Chaiwan às onze e meia e fiquei alguns minutos passeando por ali. onde haviam construído prédios de conjuntos habitacionais.ta Poon. Não vou levar dinheiro nenhum. centenas de pessoas estavam sentadas tomando seu lanche noturno. está louca! Deu uma olhada de relance para os amigos e depois continuou: — Nunca vimos ninguém que quisesse morrer por nós. — Mas por que os cem dólares? indaguei curiosa.— Ele vai falar com você. É um lugar muito perigoso à noite e pode ser assaltada. quanto mais cem. não me importo de morrer. — Porque lá em Chaiwan ninguém a conhece. na lanchonete. mas se não tiver nada. hoje à meia-noite. É para você ir à Quadra 20 do conjunto habitacional de Chaiwan. explicou David. se isso puder fazer você compreender que Deus o ama. Se você tiver o dinheiro. Aquela hora. E depois. — Está brincando? Não tenho nem dez dólares. ficam com raiva e batem em você. Sr. .

repeti. O homem virou a ponta do polegar para si mesmo. — O que quer conversar com ele? — Quero falar sobre o meu Jesus. E ele entendeu tudo que eu estava dizendo. Já eram mais ou menos três horas da madrugada. e foi batizado no Espírito Santo. — Quero que me conduza ao seu chefe. Na valeta da rua. Era quase como se o Espírito Santo estivesse ali. ao lado. escorriam detritos em água poluída. totalmente desligado do ambiente que nos cercava. que não percebi a aproximação daquele que seria meu guia. — Quem você quer ver? — Quero ver "Jesus". Ali estava "Jesus".Deu meia-noite. Eu estava na lanchonete da quadra 20. àquela mesa. repliquei agarrando firmemente a minha Bíblia. — Tenho. em meio às chícaras de café. E depois orou. com lágrimas escorrendo pelo rosto. Estava tão absorta olhando para aquilo. quando saí de Chaiwan e peguei . Eu e "Jesus" sentamo-nos num café próximo. — Está falando com ele. pedindo a Jesus que entrasse em sua vida. — Tem certeza de que quer falar com ele? Aquela conversa parecia um diálogo de filme de segunda classe. — O que você quer? indagou um cantonês de cabelos encaracolados. — Por que quer ver "Jesus"? — Quero falar com ele sobre o meu Jesus. Abri a Bíblia e pus-me a falar-lhe de Jesus.

você deve contar a pelo menos uma pessoa. Falei com a quadrilha toda. Minha vontade era pular. logo que cressem. participar da festa que. Mas só aquele que já passou por essa experiência compreende a maravilha que ela representa. estava acontecendo no céu. que estivera presente à nossa conversa de madrugada. disse-lhe. Mas antes disso. Tinha uma expressão alegre e vibrante. Trouxera consigo um sai lo. como o seu daih lo. e agora todos querem crer em Cristo também. — Ah. esperando ouvir mais alguma coisa. Quando o vi no dia seguinte. lendo os versos que você sublinhou na Bíblia. Também queria saber como poderia receber o poder de Jesus. com os pés na terra.uma condução de volta a Kowloon. Todavia. eu ainda estava em Hong Kong. entre os anjos. lembrei-me de uma coisa. Eu sempre dizia aos rapazes que. dançar. que creu em Cristo hoje. E então ele recebeu a Jesus e o dom do Espírito Santo. Ficamos acordados até às seis da manhã. Jesus lhes daria o dom de língua . quase não reconheci nele o antigo "Jesus". naquele momento. — Você falou a alguém que creu em Jesus ontem à noite? A pelo menos uma pessoa? indaguei um pouco ansiosa. cantar. no apartamento de um amigo. E à minha frente estava aquele ex-quadrilheiro. Existem muitas descrições sobre o encontro de diversas pessoas com Jesus. que me olhava. replicou. a propósito. Sai Keung. — Não.

mas incentivou-me com muita ênfase a voltar a Chaiwan no dia seguinte. Sai Keung mostrava-se radiante. O número de interessados aumentou consideravelmente. pedi a "Jesus" (que passou a chamar-se Christian) para apresentarme ao seu "irmão maior". sem exceção. Mas fiquei sabendo que o nome dele era Ah Kei. mas Christian deveria orar em favor dele. não sabemos onde o podemos encontrar. receberam o dom. — Ele não vai querer falar com você. Como sempre fazia. E aqueles novos convertidos aceitaram com facilidade o fato de que. reuniões de oração em lojinhas. Mesmo quando queremos falar com ele. É uma pessoa muito importante e tem centenas de seguidores. Deixe para lá. se estavam seguindo um Deus Todo-Pode-roso.estranha para auxiliá-los em oração. para pregar aos outros. Estávamos todos com a impressão de . E eu voltei naquela noite. A obra estava-se alastrando para fora dos limites da Cidade Murada e atingindo pessoas de outros bairros. era perfeitamente adequado que ele lhes desse uma nova língua para que falassem com ele. E todos. e cultos evange-lísticos nas escadas dos prédios. e em muitas outras. e assim não houve nenhuma confusão sobre a possibilidade de um ser mais espiritual que outro. disse. de pouca conversa. Prometi que não iria forçar um encontro com ele. Era um rapazinho baixo e corpulento. Fazíamos estudos bíblicos junto a barracas de lanches.

Ah Kei tinha ouvido os rumores a respeito do que estava acontecendo em Chaiwan. disse em tom de desafio. o local. — Poon Siu Jeh. e se ia haver um avivamento. Parecia estar tendo enorme satisfação em "atirar a luva". Sr. Ah Kei surgiu de entre a escuridão disposto a brigar. eu lhe darei mil discípulos. exibindo ostensivamente sua condição de homem endinheirado. sempre levava comigo exemplares da Bíblia. . repliquei. então ele tinha que estar no comando da coisa. E tinha-se até a impressão de que ele se preparava para duelar. pronta para uma emergência. "Jesus" e os crentes de Chaiwan. Sentando-se à mesa onde estávamos. Aquilo era pura e simplesmente uma exibição. convidou todos que se achavam por ali para lancharem com ele. Terão que decidir isso por si mesmos.que ele iria tornar-se um elemento muito importante em nosso trabalho. Mas ele mesmo não comeu nada. o elenco. e nem queria saber se estávamos com fome ou não. — Não posso convertê-lo. Onde quer que eu ia. Ah Kei. se você puder me converter. A hora era meia-noite e quinze. uma barraca de rua. E também não pode simplesmente dizer aos seus sai los para crerem nele. ta Poon. Acreditar em Jesus é uma decisão que você próprio deve tomar. Queria que todos vissem bem quanto dinheiro iria gastar.

. Continuamos a caminhar em silêncio. Não os desprezo. Ela não tem desprezo por nós. — Não tenham receio. — Poon Siu Jeh. até que Ah Kei parou à porta de um barraco coberto com folhas de zinco. Ah Kei ergueu a mão pedindo silêncio. onde iria mostrar-me uma coisa. É cristã e veio aqui para nos falar sobre Jesus. pois foi por causa de pessoas como eles que Jesus veio ao mundo. De repente. e tanto ele como eu sabíamos a quem ele estava-se referindo. vi-me diante de uma dezenas ou mais de homens jogando. ele se virou para mim. Ah Kei. Começamos a caminhar em direção à favela cujos antros de jogo e drogas tinha sob seu comando. pela presença ali de uma mulher inglesa. — Pois o pessoal da Cidade Murada me critica justamente por que gosto mais de ter amizade com um viciado. do que com um indivíduo que pensa que leva uma vida certinha. às três horas da manhã. Logo se estampou na fisionomia deles uma expressão de espanto e preocupação. disse. você despreza os viciados? — Não. convidou-me para acompanhá-lo a um certo lugar. respondi. — Você seria capaz de ter amizade com um? indagou. após o lanche. Quando ele empurrou a portinhola com um tapume de plástico escuro.Mas ele ficou muito pensativo e.

mas Ah Kei insistia em que eu conhecesse outros pontos de seu império de drogas. Ali havia velhinhos esquálidos estendidos sobre um estrado. Ah Kei repetiu o que dissera antes. Distribuí bíblias em todos os pontos que passei. Em um dos antros. a senhora é médica? Pode levá-lo para um hospital? Ele está padecendo muito. — Não. Veio aqui para nos falar sobre Jesus. Mas posso orar por ele. convidando-me a pregar. Ela não nos despreza. nem enfermeira. Quando saí dali deixei vários exemplares da Bíblia em chinês. Os que ainda estavam conscientes escutaram atentamente o que eu dizia. perversão e jogo. ele me apresentou como uma cristã. respondi. e dali para Lyemum. — Poon Siu Jeh. — Não tenham medo. trouxeram-me um homem que se contorcia em dores. Fomos de Chaiwan para Shaukiwan. não sou médica. Dentro presenciei um terrível espetáculo. e em todos as pessoas me escutavam respeitosamente. que fica contíguo. Em cada um desses lugares. Pareciam mais uns insetos gigantescos. Depois fomos ao salão de ópio. e não tenho dinheiro para interná-lo num hospital.E em seguida me passou a palavra. A metade deles estava inconsciente. mais braços e pernas que corpos. . Só o fato de eu ter pregado o Evangelho naquelas salas de perversão já era extraordinário. Kwon Tong e Ngautaukok.

Ouvindo isso, soltaram risinhos maliciosos, mas concordaram em conduzir-nos a um quartinho dos fundos, que estava mais silencioso. Ali impus as mãos sobre o homem e orei por ele em nome de Jesus. Imediatamente, seu estômago relaxou e ele se levantou, parecendo bastante espantado. Estava completamente curado. Os outros também estavam um tanto surpresos. Um deles perguntou: — Esse é o Deus vivo, aquele de quem você esteve falando? E então puderam crer, porque entenderam quem era Jesus, pelas suas obras poderosas. No final, dei uma Bíblia para Ah Kei e escrevi uma dedicatória nela: "Para meu amigo Ah Kei, orando para que um dia seja meu irmão." Ele me agradeceu educadamente, mas sem a menor intenção de lê-la. Nos três meses que se seguiram, passei a acompanhar a vida dele. Era casado, tinha mulher e filhos, mas também costumava dormir onde estivesse, tarde da noite. Uma noite ele ficou tão drogado, que leu duas páginas de A Cruz e o Punhal, duas de Foge, Nicky, Foge, e duas da Bíblia, alternadamente, durante dois dias. A certa altura começou a abrir-se comigo e disse-me como se arrependera de haver-se casado tão jovem. Mas tive mais pena da esposa dele, por ter um marido que quase nunca parava em casa. As vezes ele dormia três dias seguidos. Outras, não dormia. Mas Deus sempre me

revelava onde ele estava dormindo, e depois de procurá-lo por algum tempo, eu o encontrava. Ele me olhava com uma expressão que parecia dizer: — Você, de novo? Como ficou sabendo que estava aqui? Enquanto isso, eu pedi a muitos crentes que orassem por ele. Certo dia, quando o encontrei, disse-me: — Deus me falou uma coisa. — O que quer dizer? Deus falou com você? Fiquei meio irritada, pois pensei que estivesse brincando. — É; Deus conversou comigo, insistiu ele. Estava lendo a Bíblia, e lá diz que ele tem uma graça especial para pessoas como eu. — O que quer dizer com "graça especial"? — A Bíblia diz que quem mais pecou, mais é perdoado. Quase senti inveja dele, mas estava falando com muita seriedade sobre essa sua descoberta, e parecia preparado para pedir ao Senhor essa graça especial. Estávamos num barraco contíguo a uma de suas salas de jogo. Ele sentou-se no chão e eu também me sentei. E, pela primeira vez, orei com Ah Kei. Ele pediu a Jesus que aceitasse a dedicação que fazia de sua vida e que fizesse dele uma nova pessoa. Aquela altura, porém, ele ainda não tinha muita noção de pecado e orgulhava-se de seu passado. Em seguida fomos para Mei Foo onde Jean e Rick estavam morando. Sabia que

ficariam encantados de conhecer Ah Kei, já que tinham orado tanto por ele. Fizemos uma grande festa pelo nascimento espiritual de Ah Kei. Geralmente orávamos em festinhas, e como Ah Kei ainda não recebera o dom do Espírito Santo, dissemos-lhe que Deus dá o seu poder a todos quantos o seguem. E todos começamos a orar no Espírito, quando, de repente, Ah Kei caiu de joelhos. Depois da reunião, ele nos disse que, ao ouvir as línguas estranhas, ficara profundamente consciente de seus erros passados. Sentindo forte convicção de pecados, compreendera que não poderia ficar sentado na presença de Deus, mas tinha que ajoelhar-se. E começara a falar em línguas também. Era uma cena incrível, ver um chefe de uma tríade de joelhos. Naquela mesma noite, pegamos um táxi e fomos a uma praia, onde Rick o batizou. Nas semanas que haviam precedido sua conversão, eu havia lido a Bíblia com ele muitas vezes. E certa vez ele me disse que não iria crer em Jesus com muita pressa, pois, se construísse uma casa rapidamente, ela poderia desmoronar-se com rapidez também. Mas, na noite em que foi batizado, começou a colocar sua vida em ordem, na mesma hora. Voltou para a esposa depois de muitos meses de afastamento. Ela parecia querer crer que ele mudara de vida, mas tinha tão pouca confiança nele, que temia ser mais uma esperança infundada.

Ah Bing casara-se com Ah Kei havia sete anos. Ele a conhecera numa festa e a seduzira, planejando "vendê-la" à prostituição. Mas acabara gostando dela e resolvera ficar com ela. Até certo ponto, Ah Bing tinha direito de duvidar, pois para ele edificar um lar cristão, teria que pagar um alto preço. Não apenas teria que abandonar uma imensa fonte de renda ilegal e seu controle sobre diversos homens, como também teria de enfrentar um processo de desintoxicação de ópio e heroína. Ele não se libertou da dependência da droga, e eu estava sem saber o que fazer. Aguns dos viciados que haviam-se tornado crentes, haviam sido libertos instantaneamente, enquanto outros iam para o centro de realibitação do Pastor Chan, onde recebiam muita assistência após a desintoxicação. Ah Kei solicitou admissão no centro, mas não havia vagas. O que eu poderia dizer-lhe? "Ore, Ah Kei, e Deus o libertará miraculosamente!" Eu vira o Senhor fazer isso, e não compreendia por que não acontecia sempre, em todos os casos. Não poderia levar Ah Kei para minha casa, pois já estava cheia de rapazes que tinham sido libertos da droga, ou haviam saído da cadeia dados como libertos dela. E era claro que não desejava colocar ali um que tomava drogas declaradamente. Para reanimá-lo, disse-lhe sem muita convicção: — Deus vai dar um jeito.

Pouco antes do Natal, fui despertada às quatro e meia da madrugada por um chamado telefônico. Era Ah Kei que desejava despedirse. — Poon Siu Jeh, muito obrigado por suas conversas a respeito de Jesus, por seu cuidado e consideração, mas não posso ser salvo. — Pode, sim, Ah Kei. Para Deus tudo é possível, disse eu. Mas minhas palavras até a mim mesmo pareciam sem convicção. — Não adianta mesmo. Não posso mais ser crente. — O que quer dizer com isso? Não pode ser crente? — Não dá para mim. Parei de controlar as quadrilhas, o jogo e o tráfico de drogas. Agora não tenho com que viver. Muito obrigado, Sr.ta Poon, por tudo que você fez. Mas não deu certo. Tentei ainda argumentar com ele desesperadamente. Arranjei todos os argumentos possíveis. Não poderíamos perdêlo. Talvez, se eu fizesse com que continuasse falando, aquele impulso passasse. Mas a voz dele foi ficando cada vez mais impessoal, e não conseguia mais falar ao coração dele. Afinal disse que ia sair à Procura de Ah Chuen para matá-lo. — Ah Kei, você não pode matar ninguém. Você é crente. Mas ele já não escutava mais os meus apelos patéticos. Estava fortemente drogado e

Estava só passando. mas não durou muito!" Fiquei a procurar algum crente que pudesse dizer-me que. leva-a até o fim. — Ei. quando Cristo começa uma boa obra em alguém. Alguns dias depois. Acho que Ah Kei saiu para matar um homem e também está planejando praticar assaltos. disse. E as pessoas olham para eles e zombam de ti. conhecendo-te. Eu não queria acreditar no que ouvira. E os assaltos? . E eu também orei durante todo o período de festejos do Natal. Então o casal se pôs a orar. Como pode ser que. ele não te quis? Ah Kei e outros creram em ti. disse. Eles me ouviram atentamente. "Deus fez um milagre. Até logo. E chorando cantei os tradicionais hinos natalinos. Estava um pouco zangada com Deus. espere um pouco! disse eu. — Nem sei por que vim aqui. Há muitos viciados e aleijados espirituais pelas ruas. e veja como estão agora. — Vocês precisam levantar e orar. desligou. Ah Kei apareceu em nossa porta. eu realmente cria que tu eras a solução para tudo. Mas não parecia que Deus estava fazendo sua parte nesse caso. — Senhor. Não queria aceitar o fato de que uma pessoa que crera em Jesus pudesse pensar em matar alguém. Imediatamente liguei para Jean e Rick.depois de dizer-me que seria obrigado a fazer alguns assaltos para obter dinheiro.

ele fará o que você quiser. Então não fomos. estávamos sentados no carro com tudo pronto. não. e depois acrescentou: — Só um. Jean mostrou-se bastante receptiva. falei. fez os cortes nelas para enxergarmos por eles. Da primeira vez que planejamos ir. minha mulher preparou as fronhas. E não fomos. continuou ela firmemente. respondeu ele. Como de costume. quer ficar aqui e passar pela desintoxicação? Fiquei grandemente admirada. Era exatamente isso que eu desejava. — Eu estou. Ela também não . — Pois bem. — Se estiver sendo sincero em seu propósito de seguir a Jesus. vamos à casa do casal Willans. mas não tivera coragem de sugerir. Na segunda vez. disse acenando afirmativamente.— Bom. mas eu não estava com vontade de fazer um assalto naquele dia. Na noite em que me telefonara. não conseguira achar Ah Chuen. — Você tem problemas? indagou. fez os capuzes para nós. Ainda estou viciado em heroína. ficamos sabendo que um do grupo nos havia delatado. — Não. — Pois bem. mas pude sentir que estava começando a ficar transtornada em ver um verdadeiro crente não conseguir libertar-se das drogas. isto é. Você precisa ter uma conversa com eles. respondeu. Está na hora de alguém agir com firmeza.

Por fim. Ele não a aconselharia a cuidar dele. e com ótima aparência. Depois disso. Lá. se sentisse uma pontada de dor. diarréia e fortes dores no estômago.pensara em fazer esse convite. apertando a descarga. Nos momentos em que acordava. ele poderia ministrar-lhe metadona. sob nossas vistas. ele iria sofrer agonias terríveis. Ele respondeu que. Ao fim dos três dias. no conjunto habitacional. febre. — Vamos ficar com Jesus mesmo. tremores. aliada inspiração do Espírito Santo. recusando o oferecimento dele. levou-a a isso. voltamos ao apartamento de Jean e Rick. abriu o blusão. uma droga que substituía a heroína. estendeu o braço debaixo da cama e tirou ali uma caixa contendo um suprimento de heroína suficiente para várias semanas. mas sua preocupação pelo futuro de Ah Kei. vômitos. logo o instruíamos para . respondeu ela. tirou alguns embrulhinhos de heroína e atirou-os no vaso sanitário. jogou tudo no vaso. Jean ligou para um médico crente e pediu-lhe explicações sobre como seria o processo de libertação de drogas. mas se ela o quisesse. ao ponto de atacar as pessoas que o assistiam. Em seguida. sentada ao lado de Ah Kei. fomos também à sua casa. para um viciado que durante dez anos vinha tomando heroína. Esperávamos todas as reações previstas. Passei três noites sem dormir. sem medicação adequada. mas ele dormiu como uma criancinha. Ele poderia até tornar-se violento. estava completamente bom.

que orasse em línguas. Conversando com ele. Redobramos nossas orações outra vez. Felizmente. Já sabíamos que a maneira de uma pessoa passar pelo processo de desintoxicação sem dor era orar no Espírito. Mas nós nos opusemos. Jean Levou-o ao barbeiro para cortar o cabelo. procurando o alívio para ele. então não estava completamente liberto. com fortes sensações de frio seguidas de sensações de calor. Rick dizia firmemente que. a dor passou. Quatro dias depois. Ah Kei. que não estava muito satisfeito com essa situação. Quase no mesmo instante. No quinto dia. Mais uma vez Deus o libertara. a esposa dele o visitou. Wahchai. e a dor cessava milagrosamente. No sétimo dia. Pusemo-nos a orar todos no Espírito. O milagre da cura de Ah Kei se deu também com vários de seus amigos. e ele encontrou-se com um velho amigo. Certo dia. lhe arranjasse alguns cigarros. ele começou de repente a sentir os efeitos da desintoxicação. começou a sentir as dores. que era budista. e era melhor ficar mais algum tempo num ambiente onde não houvesse drogas. conseguiu que a empregada do casal. foi que as dores cessaram. e só depois que ele aquiesceu com a exigência de Rick. se ele não se libertasse do vício do fumo também. Ele ainda precisava de cuidados. e enquanto adorávamos a Deus. ele estava inteiramente liberto da dependência da heroína. convenceu-o a . mas ainda tinha forte desejo de fumar. já que estava curado. e tentou convencê-lo a voltar para casa.

e ele foi liberto da heroína sem nenhum sofrimento. que também aceitara a Jesus. pediu o poder de Deus para se libertar do vício. dando assistência a ele. Depois que já estava bom. alugamos então um quarto num apartamento que era utilizado como bordel. na reunião regular. orando. mas a interpretação não veio.acompanhá-lo ao apartamento de Jean. Ah Kei resolveu ir à China e passar uma semana lá. Como acontecera com Ah Kei. um outro rapaz. Um bom grupo acompanhou-o à estação ferroviária. uma questão apenas de ficarmos ao lado dele. mas ficara receoso de falar. pois ainda era viciado. e logo sentia-se melhor. Esperamos alguns instantes. Por fim. a fim de se completar a cura. e ali tivemos de improvisar uma reunião. . Ao transmitir-nos a interpretação da mensagem. todas as vezes que sentia a primeira pontada da dor. Depois disso. mas ninguém disse nada. Duas semanas depois. Na quinta-feira seguinte. embora tivesse se convertido pouco antes. passou uma semana na casa de Jean e Rick. Durante quatro dias. Wahchai confessou que recebera a interpretação da mensagem. e recebido o dom do Espírito Santo. vários rapazes de nosso grupo se revezaram. começou a chorar incontrolavelmente. até que foi totalmente liberto. e ficamos a noite inteira com ele ali. Como o apartamento do casal Willans já não comportava mais ninguém. Recebi ali uma mensagem em línguas. punhase a orar no Espírito. sua cura foi relativamente simples.

E que em março iria começar a trabalhar num escritório. foram eles quem me falaram sobre Jesus Cristo. e portanto também são muito bons. o homem chinês ou os ocidentais? — Bom. e era uma . Mas aqueles ocidentais são crentes. Então diga uma coisa: quem é melhor. Explicou que havia deixado a quadrilha. Quem são aqueles ocidentais? Como você se envolveu com eles? Era um interrogatório incessante. Os agentes da segurança disseram que não era possível que ele estivesse liberto da dependência das drogas. respondeu Ah Kei. — Ah. — Por que dessa vez você não está trazendo drogas? indagaram. sendo chinês. respondeu alegremente. — E quem eram esses ocidentais? indagaram eles. acho que os chineses são melhores. e Ah Kei respondeu a tudo com a verdade.Quando o trem chegou à fronteira. os guardas de segurança do país interrogaram-no querendo saber quem eram as pessoas que o haviam levado à estação de Kowloon. que cria em Jesus Cristo. um moça inglesa (eu) e uns amigos chineses. Foi então que aqueles guardas revelaram que sabiam que Ah Kei muitas vezes tentara passar na fronteira com drogas. mas ele insistiu em afirmar que o estava. replicaram os guardas. abandonando as atividades criminosas. Respondeu que tinha sido um senhor americano (Rick). — Pois bem.

que também se tornou cristão e foi batizado com o Espírito Santo. Ouvindo isto. ele se ergueu e disse: — Já fui moço. Chegando ao seu povoado de origem. Ao fim da festa. uma narração completa do que Deus fizera por ele. transmitira a boa-nova a todos os seus familiares. os guardas ficaram muito irritados e responderam que era impossível. Logo que Ah Kei se tornara crente. . A cura fora totalmente efetuada por Jesus. E para comemorar deunos um banquete memorável. e depois permitiram que entrasse na China levando sua Bíblia. e agora sou velho. Falou quase uma hora. que a aceitaram um por um. Ah Kei deu-lhe a sua e a notícia se espalhou.nova pessoa. Explicou também que não tomara nenhum medicamento. Os policiais o escutaram atentamente. mas nunca antes vi um homem mau tornar-se um homem bom. soube de uma jovem crente que não conhecia bem as Escrituras. Mas essa reação deles foi a deixa para Ah Kei se lançar no relato de seu testemunho. O pai de Ah Bing ficou tão satisfeito de ver a transformação que se operara em seu genro. em que se serviram pratos chineses saborosos. porque nunca tivera uma Bíblia.

Aprofundei-me mais e mais no . estava muito sentido pelo que fizera. "Naquela ocasião. sendo membro de uma quadrilha. "A razão por que estou dando graças ao Senhor Jesus é que antes eu era um homem depravado. respeitado. tornei-me pior que antes. teria tudo isso. Mas logo que fui solto. eu estava com quatorze anos. Resolvi modificar-me. Meu nome chinês é Ah Lam. mas meu nome ocidental é Daniel. escrito em minha casa. reconhecido por todos. fui preso e indiciado por roubo à mão armada. Então abandonei a vida normal e passei a viver no submundo da marginalidade. e me senti muito triste e infeliz. larguei os estudos e entrei para uma quadrilha tríade. e achei que. Fui sentenciado a cumprir pena num centro de treinamento para jovens delinqüentes. dando-me uma nova e maravilhosa existência nele. "Dou graças a nosso Senhor Jesus por terme salvado de minha antiga vida. na Rua Lung Kong. Um ano depois. começar vida nova. Há mais ou menos dez anos.11 As Casas de Estêvão Eis o testemunho de Daniel. Desejava ser temido.

arrependi-me e aceitei-o como meu Salvador. Mas sentia um grande vazio interior. eles não tinham opção de . Senti-me completamente diferente. que os capacitaria a libertar-se das drogas sem sofrimentos. como se tivessem tirado um enorme peso de meus ombros. Ele temme abençoado muito. Tanto quanto possível eu evitava recebêlos em minha casa na Rua Lung Kong. Ah Lam. "Que Deus o abençoe. receberiam um certo poder. Logo se espalhou entre os viciados a notícia de que. e em questão de segundos um viciado. poderia obter a quantidade que quisesse de heroína ou ópio. "Tornei-me um viciado. "Oro para que você também goze dessa mesma experiência. em desespero. Um dia. pois era muito próxima da Cidade Murada. após terem ouvido contar o que ocorrera a Ah Kei. se quisessem crer em Jesus. No apartamento de Jean e Rick.crime. Foi uma experiência maravilhosa! Posso dizer que nunca voltei atrás na decisão tomada. mas nunca o consegui. £ uma vida realmente maravilhosa. Então recorri à heroína. e só então poderá entender plenamente meu testemunho. Tentei libertar-me das drogas algumas vezes. vim a conhecer Jesus." Isso foi escrito por um dos muitos marginais que procuraram a mim ou aos Willans. Era como se tivesse sido liberto. já tenho aprendido muitas cousas e a cada dia aprendo mais. Dou graças a Jesus por haver-me proporcionado tudo isso.

pois sabiam o modo como trabalhávamos. Aliás. ele concluiu que queria . — Não se preocupe com isso. Estava claro que precisávamos de um lugar só para que os viciados se libertassem da dependência da droga. Mas tenho um pouco de medo desse negócio de Jesus. respondeulhe o padre. Entretanto. A maioria deles exigia uma atenção constante. Se não "impingíssemos" Jesus aos viciados. se não quisesse orar. Estava redondamente enganado. e as janelas eram protegidas por grades. E foi o problema de Ah Kit que afinal nos obrigou a resolver de uma vez por todas a questão da casa. A porta tinha tranca dupla. eles só nos procuravam quando já estavam dispostos a fazê-lo.escape. nunca tivemos de enfrentar um caso em que o viciado não quisesse crer em Jesus. E sempre havia pelo menos uma pessoa a vigiá-los nas vinte e quatro horas do dia. Pullinger são libertos. e onde pudessem ficar algum tempo. não teríamos nada para oferecer-lhes. Jackie não tentará impingi-lo a você. a fim de crescerem espiritualmente. E o número deles foi crescendo ao ponto de a casa de Jean e Rick ficar superlotada. Um jovem que fora trazido à minha casa por um padre disse: — Sei que os viciados que vão à casa de ta Sr. Poucos dias depois de ter sido liberto das drogas. Ele teria que sofrer as agonias do processo de desintoxicação.

Estava gostando de ficar na casa de Jean e Rick. o juiz fez um comentário no sentido de que Ah Kit tinha uma ficha muito ruim e merecia uma longa sentença. sentia-se rejeitado. parecia muito carente de afeto. de dezessete anos. e. Entretanto. e voltasse a Jesus. ele teve uma genuína experiência de transformação de vida e se arrependeu. Se Jean se afastava para falar com alguém. Isso provocou enorme tensão na família.. Começou a orar e a falar de Cristo aos companheiros de cela.. levando em conta o fato de que ela cuidaria dele. ao ponto de um dia Jean encontrar sua filha Suzy. — Ou os viciados ou eu. Fora um ato bastante raro o dele: soltar um homem que tinha tais acusações. ouviu o relato de Jean sobre a mudança que nele se operara. mas exigia atenção constante. . Foi indiciado por assalto à mão armada.governar a própria vida novamente e saiu da casa dos Willans. Todos oramos para que ele chegasse a um ponto onde não pudesse continuar com aquela vida de crimes e drogas. disse ela à mãe. fazendo as malas. E ele foi preso. Ao sairmos dali. liberou-o. No julgamento. Levamos Ah Kit para casa. e falava sério. Na prisão. Depois de toda uma vida de descaso. Ah Kit começou a crescer espiritualmente bem devagar. escutamos os guardas comentando se não seria melhor uma pessoa ter um Deus do que um advogado. colocando-o aos nossos cuidados.

Demos ao novo apartamento alugado o nome de "Terceira Casa de Estêvão". Começamos com apenas um residente. e uma vigilância de vinte e quatro horas por parte dos obreiros. Uma pessoa que lera o livro de Jean doara uma soma em dinheiro para alugarmos um apartamento que seria utilizado exclusivamente para a assistência a viciados que desejassem começar uma nova vida em Cristo. dando a notícia. Fora batizada no Espírito numa das reuniões na casa dos Willans. quando lidávamos com as leis do inquilinato. Tanto eu como os Willans estávamos cada vez mais envolvidos em auxiliar marginais. o número aumentou . O nome escolhido pelo grupo que orava em casa dos Willans foi Associação Estêvão. a segunda. e outras questões desse tipo. sendo que a minha fora a primeira e a de Mei Foo. julgamento nos tribunais. Era uma ex-freira que já morara cinco anos em Hong Kong. quando o casal Willans me telegrafou. Então nos tornamos conhecidos por todo o submundo dos viciados como "Estêvão". e por isso precisávamos de atuar através de uma entidade oficializada. Eu me encontrava na Inglaterra. mas. com muito amor.Nenhuma família poderia resistir por muito tempo a esse tipo de pressão. Estava na hora de procurarmos um lugar que tivesse a atmosfera de um lar. em poucas semanas. Nosso primeiro obreiro de tempo integral foi Diane Edwards.

Após o encerramento do culto. ou então de uma garantia de Deus. por volta do Ano-Novo. Cada vez que chegava um rapaz. No culto da véspera do Ano-Novo. Começamos a orar pedindo a Deus mais um lugar.para seis. Era-nos penoso ter que recusarlhes admissão ali. Na época de Natal já havia dezessete pessoas naquele pequeno apartamento. Ele cria em Cristo e era liberto da dependência das drogas sem dores. Depois. um amigo inglês perguntou-me por que ainda não havíamos alugado a casa. uma quarta casa. professores universitários. ou então de que alguém nos doe o apartamento. a fim de acomodarmos aqueles que nos procuravam. agrade-cendo-lhe pela resposta antecipadamente. Ah Kei e seus familiares se mudaram para o apartamento para auxiliarem Diane na direção da casa. o milagre se repetia. de que podemos tratar . quando orava no Espírito. havia ali até cento e cinqüenta pessoas entre pastores. sabendo que seria tão simples libertarem-se das drogas pelo poder de Jesus. Por vezes. — Porque precisamos de uma promessa de dinheiro para o aluguel. padres e freiras. que tiveram de mudarse para uma casa maior. juntamente com nossos quadrilheiros e ex-viciados. oramos pedindo a Deus uma nova casa no novo ano. A reunião dos sábados na casa dos Willans cresceu tanto.

quando estavam passando pelo processo de desintoxicação. um dos chefões do sindicato do crime fez uma oração recebendo a Cristo e foi cheio do Espírito. Coroamos o negócio fazendo uma reunião de oração na nova casa. aprendi que não era necessário esperar até que Deus "acidentalmente" os libertasse. sofrer. Nunca obrigávamos os viciados a orarem. deixávamos apenas outra opção. Foi o mais maravilhoso culto de vigília de que já participei em minha vida. . Certa vez. no momento em que oravam na linguagem do Espírito. dizendo que havia um apartamento desocupado ali perto. comemorando a entrada do AnoNovo. Pelas experiências obtidas com Ah Kei e outros viciados. é impossível obrigar qualquer um a orar. mas quando as dores começaram. Eram onze e meia da noite. Simplesmente reduzíamos a zero todas as outras alternativas possíveis. E ele me disse: — Faz duas semanas. Aliás. depositei o dinheiro numa conta especial para vocês. ou melhor. quando acertamos o aluguel do apartamento com o vigia.do aluguel mesmo sem termos o dinheiro. Compreendi que poderiam ser libertos por intermédio do poder que Cristo lhes concede. recusou-se terminantemente a orar. Voltaram quase no mesmo instante. Então mandamos dois de nossos rapazes procurarem um lugar adequado. respondi.

e se o deixasse sair agora. vai se sentir bem melhor. enquanto sopesava as alternativas. Afinal. . Saltar do telhado significaria a morte. Um homem de grande influência como ele não usava de violência contra mulheres. Então ele ficou e foi para o quarto. — Mas vou embora.No dia seguinte. ou embora. ou então ficar aqui e orar. ou saltar do telhado. tenho sim. disse-nos que iria embora. seu desespero foi tão grande. disse irredutível. orou novamente. Pode e dar um soco e pegar a chave. ele confessou que orara em línguas várias vezes. E da outra vez em que principiou a sentir dor. — Já decidi que não quero mais seguir a Jesus. e encaminhou-se para a porta. Logo que começou. Quando o processo já estava quase findando. Fiquei olhando-o. onde eu me encontrava. Não têm esse direito. objetou ele. então você tem quatro opções. — Pois bem. sozinho. as dores cessaram e ele dormiu tranqüilamente. Mas terá que passar por cima de mim para sair. — Se você orar. — Ah. ou ficar aqui e passar por todo aquele sofrimento. que resolveu orar. — Não podem me prender aqui. Não o permiti. repliquei. pois cria que ele fora sincero quando dissera que desejava seguir a Cristo. estaria sendo desleal para com você. Você pediu que o ajudássemos a começar vida nova.

A maioria de nossos rapazes começou a entender quem era Jesus somente depois que já o haviam experimentado na própria vida. precisávamos de mais obreiros de tempo integral. ao invés de ser uma desvantagem. com exceção dos da Cidade Murada. mais tais pessoas não estão a par de todos os fatos. recebia a resposta de sua petição.Eram bem poucos os viciados. era um benefício para eles. mas no fato de que Jesus havia operado em outros. perdão. tem a mente já parcialmente destruída. que passa por um processo de desintoxicação. Uma enfermeira inglesa. Só compreendiam verdades como salvação. que tinham algum conhecimento do cristianismo. Cada uma que orava. Certas pessoas explicavam esse extraordinário acontecimento espiritual como um caso em que a mente sobrepuja a matéria. redenção muito tempo depois de já possuírem os benefícios delas. Chegavam a uma de nossas casas dizendo: — Ouvi falar que Ah Kei (ou outro amigo qualquer) mudou completamente de vida. Mas isso. antes de passarem pela experiência de libertação da droga. e assim sua fé se fortalecia. Uma vez já tendo quatro casas. . o clubinho da Cidade Murada e as reuniões e cultos. e disse que foi Jesus que fez isso. pode mudar a minha também A fé dessas pessoas não se baseava no entendimento de conceitos teológicos. E se Jesus pode mudar a vida dele. Um viciado em drogas.

vendo cada pessoa executar uma função diferente. Percebi também que eu não era indispensável. batizada no Espírito Santo.Doreen Cadney. aos quais compareciam muitos estudantes. Quase diariamente chegavam novos viciados desejosos de se libertarem das drogas. cheia de problemas. a qualquer hora do dia ou da noite. bem como Gail Castle. que vinham em busca de cura ou aconselhamento espiritual. Muita gente batia à minha porta. Outra coisa que aprendemos foi que o trabalho de se transformar um viciado numa . mas depois comecei a passar tarefas para os outros. muitas pessoas "boazinhas" ficavam impressionadas e criam em Cristo também. E esses os escutavam com muito respeito. Arrumavam a casa. Depois foi Sarah Searcy que abandonou um emprego. que regressara dos Estados Unidos. e saía dali crente. Vendo a transformação por que os moços passavam. ex-viciados e outros visitantes. para responsabilizarse pela direção das casas. resolveu ajudar-nos. os rapazes que haviam sido libertos das drogas ajudavam muito aos "novatos". eu tentara fazer tudo sozinha. orando por eles e incentivando-os à oração. cozinhavam e assistiam aos recémchegados. Aos domingos realizávamos cultos pela manhã na casa da Rua Lung Kong. Entendi então o significado do Corpo de Cristo. Além disso. Durante muito tempo. rapazes da Cidade Murada.

E aos que apareciam querendo livrar-se da dependência da droga. Depois percebemos que eram necessários pelo menos seis meses. ainda tinham muito que aprender. recebendo muito amor e uma disciplina rígida. No ministério da Rua Lung Kong. Dos rapazes que desejavam realmente seguir a Jesus.pessoa integrada à sociedade era tarefa a longo prazo. antes de poderem caminhar com os próprios pés. Tínhamos que mantê-los em contato com uma família cristã. ao enfrentarem situações difíceis. Mas a experiência me ensinou que. pensávamos que três meses seriam suficientes. como ele fizera uma decisão voluntária de seguir a Jesus e entrar para uma de nossas casas. nenhum foi mandado embora. para que sua atitude mental se modificasse. não permitiríamos que saísse antes de dez dias. Mais tarde passamos a recomendar que o tempo mínimo para isso fosse de um ano. Seu hábito de vida era mentir e trapacear. Muitos tinham vivido pelas ruas durante anos e anos. Depois desse período. jamais. embora ainda preferíssemos que fosse de dois. A princípio. já completamente libertos. Nunca recomendavamos um período . embora os rapazes estivessem fisicamente habilitados para tal. até que se habituassem a agir à maneira do crente. tinham a opção de ir embora ou permanecer na casa e conhecer melhor a Jesus. eu tentara arranjar trabalho ou estudo para os rapazes o mais cedo possível. dizíamos que.

Cristo não poderia transformá-lo. O time formado pelos nossos rapazes era tão forte e saudável. Assim que percebiam que não iríamos mesmo deixar que voltassem para casa. E assim estabeleceu-se a rotina. faziam as tarefas caseiras.inicial inferior a dez dias. uma espécie de clínica onde os viciados recebiam certas drogas em substituição à heroína. e se aquietavam ali. que muitos dos viciados que estavam por ali ficavam sabendo que Cristo poderia libertá-los do vício. Nunca tivemos um melhor supervisor para o nosso serviço de assoalhos do que Tony. aulas de chinês e inglês. Sempre jogavam perto de um Centro de Metadona. Seguir a Cristo era uma opção para toda a vida. iam ao mercado. Tinham estudo bíblico. e aí tinham a oportunidade de falar de Cristo a outros. principalmente futebol. Diariamente oravam. e isso ensejou a formação da "Conservadora Estêvão". . eles se tranqüilizavam e passavam a ter uma vida ordenada. Grupos de rapazes iam fazer a limpeza e enceramento de apartamentos. embora não muito rígida. aquele comprometimento de modificarse. e se o novo crente não tivesse feito aquela entrega pessoal básica. Os rapazes encontravam nela um forte senso de segurança. individualmente ou em grupo. Isso constituiu-se numa oportunidade a mais para a pregação do Evangelho. Quase todos os dias praticavam esportes. Recebemos a doação de uma enceradeira industrial. que eram fornecidas pelo governo.

que o encaminharam para o roubo com violência. Sentia que ninguém o . Cuba. Estava acostumado a mandar. acabou-se deparando com as tríades. Então pôs-se a trabalhar como engraxate ou a bater carteiras para sobreviver. Eu havia conhecido Tony havia uns dois anos.. Mais tarde foi a uma outra igreja e disse que gostou. seu pai o mandara para a China. Ficou intrigado por ver uma mulher ocidental lanchando numa barraca de lanches.que dirigia a companhia como se fosse uma operação militar. mas era tudo muito vago. e ele chegou até nossa casa. Nascera em Havana. começou a tomar heroína e pouco depois injetava-a diretamente na veia. até que a cidade caiu em poder dos comunistas. para ajudar sua primeira esposa. como um conto de fadas.. Estávamos lanchando numa barraca de lanches em nossa rua. mas isso era impossível para o garoto sem dinheiro. fugiu e viajou pela China em direção à fronteira de Hong Kong. Com dezesseis anos. que não tinha filhos. e com tantos criminosos por ali. Um amigo mútuo nos apresentou. Aqui chegando. Quando estava com oito anos. na maior pobreza. não tinha nenhum dinheiro. que não se conseguia apreender bem. Afinal conseguiu cruzar a fronteira. Sua verdadeira mãe escreveu-lhe de Havana suplicando-lhe que voltasse. Quando estava com quatorze anos. Sua vida era muito diferente de um conto de fadas. e ele me viu. E ele viveu com ela em Pequim durante algum tempo. Inevitavelmente.

fundando. ao sair da prisão. e isso era terrível. o que me chocou foi a expressão de seu rosto. Encontrei-o sentado em uma casa de chá. Até mesmo eles temiam aquele líder impiedoso.amava. criou em torno de si uma couraça de amargura. Uma noite. Então abotoei bem o casaco e fui fazer uma visita noturna à Vila Diamond. Contou-me que. uma nova ramificação da 14K. Eles se envolviam em chantagens. que ele já havia planejado tudo. Mas ele estava tremendo. Era a expressão de quem ia morrer. granjeou a reputação de "solitário" entre os "irmãos" da quadrilha. mas percebia. e devido às tristes experiências da infância. Eu ainda não sabia como ia acontecer. Ah Kei me telefonou aflito. o colarinho do paletó virado para cima a proteger-se do frio. Junto dele. onde ficava a sede de seus domínios. haviam quebrado seu violão ao meio. Tinham roubado seus pertences. sabendo de sua paixão pela música. e. dois companheiros de quadrilha. no fundo da lembrança havia uma . Isso exigia represálias. Pôs-se a narrar-me a situação. que conseguira deter tanto poderio nas mãos. com mais dois colegas. Entretanto. pedindo que procurasse Tony. Ele não tinha outra opção senão preparar o ataque da vingança. Mas quando fitei Tony. soubera que uma quadrilha rival tinha tentado tomar o controle de seu território. brigas e mortes. que se encontrava em grande dificuldade. Com isso.

Não quis. Para aplacar isso. mas eu insisti. Todos estavam esperando que ele tomasse represálias.ta Poon. Descemos pela ruazinha que passava entre os barracos. Venha comigo. Tony. E nenhuma das duas coisas lhe importava muito. nunca mais poderia andar pelas ruas com a moral de um chefe. e vi as cordas do violão ainda espalhadas pelo chão. Pouco antes de eu chegar ali. porém. a outra quadrilha havia arrastado suas roupas no chão. — Sr. respondi. Tony tinha sido o "rei" do lugar. Venha conosco. Estava cansado. disse ele. e depois tocara fogo em sua casa. eu queria dar a escritura desse lote para a igreja. Por isso decidira matar ou morrer. Mostrou-me o lugar onde ela era. resolveu vender seu barraco e doar o dinheiro obtido para a Associação Estêvão. — Não queremos seu terreno. Tony. disse eu por fim. peça por peça. — Vocês podem construir uma igreja nele. queremos sua vida. — Deus está chamando você. insistiu. — Não estamos querendo construir um templo. Ele quer você. Tony. . mas queremos ajudá-lo a reconstruir sua vida.recordação muito doce de uma coisa boa. e notei como os habitantes dali olhavam para ele. Se ele não revidasse ao ataque. — Deus o chamou para salvá-lo.

e a dor . Quando eu estava no meio da frase. "Levaram-me para a Terceira Casa de Estêvão. e também orei em língua estranha. Eu já tinha tentado outras vezes livrar-me da dependência das drogas. Em meu apartamento da Rua Lung Kong. e fez que sim. Mais tarde. os rapazes estavam prontos para recepcionálo. Tony. Nem se despediu dos "irmãos" da quadrilha. Venha conosco. Quando fui cheio do Espírito. por isso sempre andava com um pouco de heroína escondido em minhas roupas. Comecei então a dizer-lhe: — Deus quer sua vida hoje. ele entrou no carro e sentou-se ao meu lado. Era a última vez que via seu povoado por um período de vários anos. e eu não a suportava. Mas a dor era muito forte. Perguntaram-lhe se desejava receber a Jesus. Então compreendi que realmente nascera de novo. Meus irmãos em Cristo oraram por mim. recebendo depois o batismo do Espírito Santo. Então eles lhe ensinaram como poderia receber uma nova vida. "Eles oraram por mim e eu aceitei a Jesus como meu Senhor. Deus o chamou". Ele estava com certo temor de Deus. mas ficou pensando no que eu dissera: "Deus o chamou. senti o coração arder e todo o meu corpo com um forte calor. para o caso de ficar sem ela. ele escreveu seu testemunho. e chorei.Chamei um táxi e entrei. Mas daquela vez foi diferente. Desde que era criança nunca mais havia chorado.

"Depois fiz um curso de cabelereiro. embora alguns saíssem antes de sentirmos que estavam preparados para tal. Agora trabalho num dos principais salões de Hong Kong.desapareceu. Eles são agora como pais para mim. Os outros rapazes que se achavam nas outras casas também estavam-se desenvolvendo. onde falei em igrejas." O ideal seria que cada um de nossos rapazes se tornasse filho adotivo de uma família crente. no rádio e na televisão. tenho visto Deus operar de muitos modos em minha vida. Mas a melhor coisa que ele fez por mim foi mudar meu coração. E hoje já não desejo seguir os caminhos do pecado. "De lá para cá. Dois meses depois. onde pudesse ser amado e cuidado. expresidiário. A mais forte pressão que sofriam nesse sentido era a dos pais que. vendo os filhos libertados da droga. o que nos entristecia bastante. e em 1976 visitei também os Estados Unidos e a Inglaterra. ex-viciado em heroína. Ele perdera sua vida. Fui com meus pais adotivos à China. fui morar com o casal Willans. onde aprendi a cortar e pentear. porque sigo a ele. Isso tudo é maravilhoso e mostra como o Senhor Jesus é poderoso. Foi maravilhoso ver Tony crescer espiritualmente e ir sempre se transformando. mas assim fazendo a reencontrara. logo começavam a resmungar com relação a . um ex-lutador de quadrilha. Que coisa maravilhosa para mim. receber uma concessão especial para visitar os Estados Unidos.

nem eletricidade. Mas só os recebíamos quando tínhamos certeza de que estavam sendo sinceros. Se viam que ele trazia alguma coisa consigo. Siu Ming não sofreu essas pressões por parte dos pais. Siu Ming trabalhava vendendo jornais. O pai ficou com muita raiva. Siu Ming e a irmã costumavam sentar-se numa pedra que havia à porta do barraco. isso significava que ele perdera no jogo e não teriam jantar naquela noite. até que ele saiu de casa. A irmã suplicou-lhe que não o fizesse. Nunca aprendera a ler ou escrever. . para sempre. Um ano depois. esperando o pai voltar para casa. e depois pediam para retornar à nossa casa. Aos quinze anos entrara para uma quadrilha tríade. nem água encanada. Mas. mas pouco depois já estava viciado. todos dormiam numa cama só. E então saiu de casa outra vez. ele começou a tomar heroína. para aqueles rapazes. Sua mãe tinha morrido quando estava com seis anos e ele morava num casebre com o pai e uma irmã menor. e alguns voltavam a tomar droga. e constantemente o repreendia. nem banheiro. o peso de sustentar uma família era demasiado.dinheiro e a responsabilidades de família. e não havia cozinha. Como acontece a muitas famílias de Hong Kong. a irmã foi à sua procura e disse que o pai havia morrido. sabiam que teriam o que comer. Se as mãos dele estavam vazias. pois era órfão. Como não tinham mais ninguém na vida.

ele passou a roubar. Voltou ao centro. Dessa vez foi mandado para o presídio. num pedaço de papel. mas resolveu dar-lhe uma última oportunidade e instruiu-o para que procurasse a Associação Estêvão. Depois de permanecer ali cinco meses. Tampouco sabia que tínhamos alguma relação com igreja. certa vez. Foi preso e enviado para um centro de reabilitação. Afinal pensou: "Tenho que escolher entre Jesus e a cadeia". Liberto depois de algum tempo. foi preso de novo. Ao ver-me. Siu Ming foi procurar-nos pensando que iria entrevistar-se com uma mulher chinesa. O agente encarregado de vigiá-lo na condicional disse que ele era um caso perdido. e voltou às drogas. e começou a falar numa língua que não conhecia. Escreveu meu nome e endereço. em chinês. e deu-o a ele. disfarçou um pouco a surpresa de encontrar-se frente a frente com uma inglesa. Alguns dos ex-quadrilheiros que moravam em nossa casa oraram por ele. quando saiu num feriado. saiu e imediatamente voltou a tomar drogas. ele sentia profunda amargura contra tudo e contra todos. pareceu indeciso sem saber como receber isso.Como a venda de jornais não fosse suficiente para custear a compra de heroína. onde deveria passar pêlo processo de desintoxicação. e. e preferiu Jesus. Depois o conduzimos à terceira casa. . quando lhe falei que Jesus o amava. Mas.

inteligentemente. trabalhador. Nos primeiros meses em que esteve conosco. E. ou íamos ao campo de futebol. tinha verdadeira convicção de que Cristo o amava. esperavam até não suportarem mais. Depois disso. Ah Lun e o Sr. Wong chegaram à nossa casa da Rua Lung . Siu Ming era uma pessoa muito calada. e daí a dez minutos dormia tranqüilo. e parecia ter personalidade muito fraca. Aprendeu a ler e escrever através de nossos estudos bíblicos diários. começou a revelar-se um rapaz bondoso. e. Também havia homens mais idosos morando conosco nas casas. oravam logo. falou que estava-se sentindo maravilhosamente bem. desesperado. o que é mais importante. Sempre nos esquecíamos de contálo. muito espiritual. Outros. não agüentando mais. mal se notava sua presença. mesmo que quisesse orar. digno de confiança. Ele simplesmente não queria orar. com o passar do tempo. e muitas vezes o víamos orando sozinho. aceitou orar naquela língua estranha. Quando acordou. tínhamos que recontar nosso pessoal. e não sentiam nem uma pontada de dor. como Siu Ming. Mas. Sempre que fazíamos nossas excursões à praia. Acabou-se tornando um de nossos melhores auxiliares para os novatos.Alguns rapazes. não o saberia. Sofria as agonias das dores provocadas pelo processo. esperando que nenhum deles houvesse escapulido para ir fumar no banheiro. Afinal.

sempre pedindo que os aceitássemos. Dei um jeito de dispensar os dois. (Conheci tantos soldados nacionalistas que afirmavam o mesmo. Já o Sr.) Dizia também que já estivera em diversas igrejas de Hong Kong. O Sr.Kong no mesmo dia. Além disso. Mas os dois continuaram a aparecer em nossa casa todos os dias. Ah Lun estivera preso durante um ano e meio e só vivia para comer e tomar heroína. Wong se julgava superior a todos. e esperava que Taiwan reconquistasse a China Continental. E assim os dois passaram a morar conosco e se adaptaram muito bem. Wong uns cinqüenta e tantos. Ah Lun tinha quase sessenta anos e o Sr. Não poderia deixá-los de fora. que acabei pensando que o exército era composto unicamente de generais. Ambos tinham ouvido falar de nosso ministério e pediram que os acolhêssemos imediatamente. e guardava objetos debaixo de sua cama ou mesmo em cima dela. Naturalmente houve certos problemas. negando-lhe a oportunidade de receber a Cristo. pegou vários livros de Jean. Como isso não aconteceu recorrera às drogas. pois Ah Lun tinha mania de ajuntar coisas. na . embora não soubesse ler inglês. mas que a nossa era a primeira em que Jesus estava presente. Wong dizia que fora general do exército de Chiang Kai Shek. Era um alto oficial do exército. Não me parecia acertado misturá-los com os rapazes. devido à sua posição. mas não juntos. Embora sua reabilitação pudesse parecer mais fácil.

Enquanto um viciado está fazendo uso de drogas. o Sr. quando oravam para serem libertos da heroína. mas irritava-se facilmente. mas. Empregava uma linguagem evangélica bastante floreada. e Deus está-me dando um coração de carne. não fica ciente de outras doenças. Mas dois dias depois a asma desapareceu completamente e a chapa do pulmão estava limpa. Depois de ficar livre da dependência da droga.verdade ele apresentava o mesmo problema básico que os outros rapazes: orgulho. Achava-se muito certo e justo. e ainda tinha que orar pelo menos durante meia hora em seu devocional particular. O problema mais comum eram os entes. e o órgão voltou ao normal. depois da desintoxicação. sempre descobríamos algumas que ainda perduravam. que aprendera nas outras igrejas que visitava. . seu estilo pomposo não mudara nada. Mas Sara lhe disse que devia orar pela manhã e à noite em língua estranha. mas foi curado. Wong achou que não precisava mais de Jesus e parou de orar. Era briguento e causava-nos muitos aborrecimentos. Ao que parecia. Sua atitude começou a mudar imediatamente e um dia ele me disse: — Meu coração de pedra está-se derretendo. eram curados também de outras enfermidades. Muitos rapazes. Um deles sofria de tuberculose e asma. Ah Lun também estava com o fígado inchado ao chegar.

e assim o Sr. que o criava. Ele era de uma família rica. pertencia ao Jockey Clube. Um de nossos mais entusiastas evangelistas era Ah Fung. que haviam-se estragado pelo uso constante de heroína. podemos orar por você. Era fortemente viciado em heroína e precisava de meios para custear o vício. Isso foi de beneficio mútuo.Tivemos de gastar uma pequena fortuna em atamento dentários e em dentaduras. já havíamos utilizado seus acampamentos e ônibus para nossas excursões. O tio. O pai havia morrido e a mãe desaparecera. Fizera alguns anos de curso secundário. Wong foi para o hospital militar. Felizmente. — Se quiser. para mandarmos fazer as dentaduras dele. O exército ainda fez mais: doou-nos alguns fundos. Ah Fung era um garoto carente. Quantas vezes nossos rapazes diziam a um soldado inglês: — Você já aceitou Jesus? E logo em seguida ofereciam orientação espiritual. e isso lhe proporcionava maiores oportunidades de . Mas. devido ao contato conosco. Muitas vezes. pois alguns de nossos conhecidos ali tornaram-se crentes. a fim de extrair todos os dentes. O tio lhe dava muito dinheiro. e considerava-se um filósofo. uma associação bastante elitista. o exército britânico nos ofereceu assistência nos casos mais graves. Não era a primeira vez que o exército auxiliava as Casas de Estêvão. apesar de todas essas vantagens.

porém. Chegara até a ir a Taiwan e à Austrália. e o expulsaram de casa. O rapaz concordou. e quanto tenho de pagar? — Bom. em que a quantia dada pelo tio já não era suficiente. Chegou um dia. Somos um grupo de cristãos interessados em que você passe por uma . Mais tarde. Aí então ele procurou assistência profissional. ele ajeitava coisas na cama. E viu-se forçado a roubar ou fazer o que fosse necessário para arranjar dinheiro. Quando o tio teve conhecimento do vício do sobrinho. mas insistiu em que não o importunassem à noite. ele fez a triste declaração de que conhecia todos os centros de tratamentos de viciados de Hong Kong. ele já estivera preso seis vezes.ta Pullinger. Ah Fung. Certo de que não iriam perturbá-lo. mas ainda estava viciado. sob vigilância constante. respondi. e parecia um caso perdido. Quando conheci Ah Fung. depois de dois meses. a família percebeu que ele ainda estava viciado. Afinal. Procurou-me em minha saleta na Cidade Murada. Não é bem assim. Onde se faz a matrícula. — Sr.cultivar mais e mais o vício. numa tentativa de procurar trabalho. a fim de dar a impressão de que estava lá dormindo. quais são as exigências para se entrar na Associação Estêvão? perguntou. e todas as noites escapolia da casa sem ser visto. obrigou-o a ficar preso em casa durante dois meses.

se estiver disposto a mudar de vida e quiser ficar pelo menos um ano. Se você quer apenas ficar livre do vício. eu lhe recomendo que procure um centro de tratamento. quando Rick impusera as mãos sobre ele. Ele fez que sim. ele não teria permissão para sair. ais tarde contou-nos que. lutando para fugir. como se fosse um pai. quando veio um telefonema de um dos obreiros. No dia seguinte. dizendo que Ah Fung ainda estava teimando em sair. Rick foi até lá e falou ao rapaz com toda a firmeza. Disse-lhe que acontecesse o que acontecesse. As dores pioraram. O rapaz ia acenando afirmativamente. e exigiu que o deixassem sair. e afinal concordou em fazer a oração de entrega pessoal. Mas nós só o aceitaremos. o que indicava que estava iniciando seu processo de desintoxicação. Recusou-se a orar. A firmeza e autoridade dele fizeram com que o paz se acalmasse. senão dali a oito dias. Alguns dos rapazes que estavam ali no clubinho lhe falaram entusiasticamente sobre Jesus.mudança de vida. Lá você ficará alguns meses e depois sairá e voltará a tomar drogas. meio alheado. o encaminhamos para a terceira casa. No segundo dia em que lá estava. Jean e Rick tinham acabado de sentar-se à mesa para jantar. começou a sentir dores. . e as dores cessaram. sentira como que um clarão sobre si. e aquiescesse em orar com Rick.

E ele ficou em nossa casa dois anos e nos ajudou bastante no trato com os outros rapazes.No dia seguinte. e não Rick. sem exceção. Espiou para um lado e outro. quando acordou. e em seguida impôs as mãos sobre si mesmo. Todos conheciam a realidade de um Deus vivo e o poder de seu Espírito. Mas nada aconteceu. que tinha as mãos de cura. Cada um dos rapazes que acolhíamos tinha sua própria história. Aqueles que o seguiam eram evidências vivas de uma incrível transformação de vida. Assim Ah Fung aprendeu que era Jesus." Ele reconheceu que Deus podia remover montanhas. E todos. foram libertos do vício da heroína sem dores nem traumas. Resolveu orar. do que a disposição de um homem. sentiu novamente as dores e lembrou-se do que acontecera no dia anterior. uma história maravilhosa. para ver se alguém o observava. . e aí então foi liberto. Ah Fung citou um provérbio chinês que diz: "É mais fácil mudar as características de um país.

de pele azeitonada e olhar expressivo. Não que ela tivesse repugnância pelo trabalho. estando elas agachadas ou apoiadas à parede. A cabeça pendia sobre o peito. A prostituta que comprara Maria. aguardando os clientes. ou então sentavase e contava o dinheiro. e quando sua mãe adotiva quis que ela começasse a trabalhar nos bordéis. Maria estava com treze anos. via aquilo apenas como um meio de ganhar a vida. Era uma garota muito bonita. Não havia meio de se saber. . estava pensando em aposentar-se. ou sessenta. mas a idéia de dormir com homens velhos não lhe agradava muito. instando com os homens que de lá saíam para que desfrutassem dos prazeres juvenis da moça lá em cima. quando esta era ainda um bebezinho. Contudo. Tendo sido criada numa casa dessas. Postava-se junto ao cinema pornográfico. ela se rebelou.12 Acolhendo Anjos Elas poderiam ter vinte anos.

Mas. teriam que pagar um pouco mais." Encontravame diante de um prédio de apartamentos. e se quisessem segui-las até a casa. Por isso. Vou parar de brincar de detetive espiritual. muitos deles com cartazes anunciando "Massagens". Aliás. nem para a direita. isso tudo é uma bobagem. desde que ela ou o outro pagassem uma grande soma em dinheiro. Não vire para a esquerda." Não ouvi uma voz. fugiu. refutei todas as revelações até ali recebidas e disse: — Senhor. atravessei a rua principal e depois senti claramente a orientação: "Pare aí. pedindo a Deus que me levasse até onde ela se achava. etc. Maria tornou-se bailarina de dancing em Kowlo-on. não se consideravam meretrizes. mais preocupada eu ficava. mas tive certeza de que Deus queria que fosse naquela direção. pus-me a andar pelas ruas. nem vi uma nuvem branca.ela estava procurando amor e atenção. que recebia o dinheiro. naquele momento. "Hotel". . Quanto mais o tempo passava. Os homens pagavam para dançar com elas. Num domingo à tarde. E voltei para casa. "Siga diretamente em frente. Cada bailarina dessas tinha o seu "protetor". Eu não sabia onde ela se encontrava. Só sabia que havia fugido. Caminhei em frente. As bailarinas constituíam uma casta superior de prostitutas. Se ela quisesse mudar de protetor poderia fazê-lo.

eles conseguem localizar garotas desaparecidas em pouco tempo. Acordei chorando. e foi morar com a mãe de seu protetor. as moças desses lugares ganham lindos vestidos e recebem aulas de dança. Engravidouse pela segunda vez. E foi o que fez. Um modo de escapar disso era engravidar-se. seus amigos e ele próprio a desprezavam por ter . A única maneira possível de saber seu paradeiro era recorrer à teia de comunicação dos tríades. Mas os familiares desse homem. na frente do qual eu parara. a própria Maria me telefonou. para dizer-lhe que me interessava por ela e queria ajudá-la. à tarde. sem antes pagar uma quantia vultosa. alguns meses depois. Disse que havia muito tempo estava tentando entrar em contato comigo. e vão descontando de seus ganhos. naquele domingo. Contou-me que estava totalmente endividada no seu dancing. Passei a visitá-la todos os domingos. Ela não poderia sair dali. alguns meses antes. Vi claramente o lugar onde estava morando e o homem com quem vivia. e depois arranjou serviço numa fábrica. mas tudo é debitado em sua conta.Alguns dias depois. Entretanto. Era no mesmo prédio. com a exceção de que havia muitos espelhos pelas paredes e no teto. sonhei com Maria. pois sentia que não possuía meios de encontrá-la. Fui visitá-la. E o apartamento era exatamente igual ao do meu sonho. e me deu as instruções de como chegar à sua casa. Mas depois provocou o aborto. Normalmente. Geralmente.

Contudo. A filhinha. em minha homenagem. a fim de evitar cair nesse destino. E afinal. Mas estava por se tornar virtualmente prisioneira de um homem impiedoso. Eu não tinha intenção de dar dinheiro a uma moça que não . ela era independente até certo ponto. a fim de pagar o débito. trabalhando na prostituição. E então ela me ligou. dominada pelo pânico. O agiota então exigiu que ela se tornasse propriedade dele por dois anos. mas sentia-se cada vez mais infeliz.sido dançarina. porém. ia para as salas de jogo e o inevitável acontecia. Mais tarde. eu não tinha nem HK$ 15 dólares. ficava mais e mais endividada. Isso seria a suprema humilhação para ela. mas não fizera nenhum esforço para segui-lo. Após o trabalho. sendo forçada a tomar dinheiro emprestado de um agiota. ficou com a vovó.500 dólares. então o melhor era mesmo voltar para o dancing. Como bailarina de dancing. Não demorou muito e ficou totalmente enredada e sem condição de saldar a dívida. Dançava muito todas as noites. Queria que eu lhe arranjasse HK$ 1. Minha grande preocupação era saber se ela estava realmente sendo sincera. essa rejeição por parte deles convenceu-a de que não valia a pena levar uma vida direita. e tomava comprimidos estimulantes para suportar o cansaço. Algum tempo antes ela tinha feito uma oração de entrega pessoal a Cristo. Ela lhe dera o nome de Jackyan. Maria arranjou um novo protetor.

Disse ele: "O Senhor Jesus Cristo entregou seu bem mais precioso por você. Mas precisava vê-la e falar com ela. Vou ajudá-la a arranjar um emprego e outro lugar para morar. Mas como ela não tinha outra escolha. à meia-noite e meia.tivesse um desejo sincero de mudar de vida. e Ah Ping recebeu a interpretação. respondi à moça mais tarde. Michael é um agiota muito exigente. num envelope grande. Numa certa reunião. isto é. Maria. Cheguei ao restaurante e me . A primeira é que eu própria vou entregar o dinheiro. — Eles não vão querer manter conversações com você. mas com duas condições. Resolvei levar Ah Ping comigo. logo estará novamente com os mesmos problemas. recebemos uma mensagem em língua estranha. Vou pagar a dívida." E se Jesus tinha dado a própria vida. Fazendo um levantamento de meus bens materiais. para descobrir se ela estava querendo apenas explorar-me. Se ficar aqui. cheguei à conclusão de que a única coisa de valor que eu possuía era o meu "querido" oboé. Vendi meu oboé e coloquei o dinheiro. respondeu ela. a sua vida. Precisava do conhecimento que ele tinha dessas coisas. a segunda é que você mude de vida. quinze notas de HKSIOO dólares. Como todo oboísta. considerava o instrumento quase como um amigo muito estimado. o que era um oboé em comparação com isso? — Está bem. então marcou um encontro numa casa de chá para daí a dois dias.

respondi. e quando liguei. Michael mandara quatro homens. repliquei. Pegaram logo o envelope. aguardando a chegada de Michael. verificaram o conteúdo dele. — Não. Fui conduzida a um prédio alto. deram-me o telefone dele. Como posso encontrar com ele? Para surpresa minha. Então era este o clube em . — O que deseja? indagou com ar de desdém. tenho que entregá-la pessoalmente.sentei a uma das mesas centrais. esperem aí! Um deles olhou para trás. O porteiro abriu-me a porta com uma chave dourada. — Ei. A boate dele ficava no vigésimo primeiro andar. Dentro. — Quero falar com Michael. e saíram novamente. Já estavam-me esperando. tapetes macios e luz amortecida faziam o ambiente. — Pois pode dizer-nos o que é. — O que quer com ele? — Tenho uma mensagem muito importante para transmitir a ele. — E o que é? — É muito pessoal. Quando já estavam quase na porta. ele concordou em me receber. sem dizer nada. O ruído de pneus chiando no asfalto anunciou a chegada dos encarregados da cobrança. chamei-os. Mal deram uma olhada para nós. que entraram pelo salão no velho estilo de Chicago. Eu e Maria ficamos a tomar café.

se não tivéssemos conseguido o dinheiro para ela. — Isso realmente não tem muita importância. um verdadeiro desperdício. falei. Já ouviu falar de Jesus? Ele já tinha escutado algumas histórias bíblicas. e no instante em que morria perdoou-me. Depois de esplanar toda a autojustificação. Ele morreu por minha causa.que Maria teria de trabalhar. e de como. se eu mudasse de vida. Talvez pense que praticou um ato muito nobre pagando a dívida daquela garota. Vou explicar por que fiz isso. para morrer por mim. sem o negócio da agiotagem. nem que mudará de vida. E tampouco disse que só morreria por mim. Você foi levada a cometer um erro. ressuscitou mortos. Michael dignou-se a dar-me a entrevista. — Jesus foi o único homem perfeito que houve no mundo. Mas deu-me sua vida. Pôs-se a falar com muita emoção sobre as terríveis condições de vida em Hong Kong. bem vestido. Acabará voltando ao mesmo tipo de vida. mas seus inimigos o pregaram numa cruz e assim o mataram. disse. passou a atacar-me: — Você é uma boba. Sentei-me a uma das mesas e pus-me a esperar. Não pense que ela ficará grata a você. E não esperou que eu mudasse de vida e me tornasse uma pessoa boa. Era uma pessoa de aspecto agradável. mas sei que ela não vai mudar nunca. Afinal. Curou os doentes. expliquei. Ele só fez o bem. não poderia pagar os estudos de seus onze irmãos. .

Quero aprender sobre esse negócio de ser crente.Foi isso que Jesus fez. e perder tudo. disse. com uma Bíblia aberta à nossa frente. e passamos o resto da noite ali. insistiu ele. Já tínhamos percebido que era mais difícil ajudar moças . — Mas ela não vai mudar. Naquela ocasião. Foi Jesus quem lhe deu essa oportunidade. do que ser incrédula. Prefiro ser uma boba. — Posso falar com você um instante? indagou. Seus olhos ficaram marejados de lágrimas. um dos empregados da boate entrou e veio falar comigo. Nunca mais vi Michael. Afinal resmungou com voz roufenha: — Não sei o que dizer. Passaram-se alguns minutos. mas ela tem a possibilidade de fazêlo. é com ela. e não poderia levar Maria para lá. e ele ainda não conseguia falar. Voltará à mesma vida de antes. mas quando estava descendo pelo elevador. Pode me indicar um lugar onde posso ir para aprender? Então fomos nos sentar num bar. e ver essa moça ir para o inferno. mas não conseguiu dizer nada. Fiz uma pausa. Tudo que fez foi pura perda. Afinal Jesus perdeu sua vida. Agora. Estava mudo de espanto. Michael abriu a boca para responder. — Não me importo de passar por tola e perder esse dinheiro. eu já começara a receber rapazes para morar em minha casa. Não posso mudar sua vida. E é isso que desejo que Maria compreenda.

uma pessoa de minha amizade levou uma surra. conheci muitas moças que queriam sair dali. não conheciam outra vida. Ela está desesperada e não tem para onde ir. ganhar muito dinheiro. tendo em vista a liberdade que obtinham. além de temer o cáften. eles eram em número de até sete ou oito. porque tentou largar dos tríades. Eram livres no sentido de que podiam se divertir. Será que podemos ir até aí? . e só aí percebiam que não tinham conquistado nenhuma liberdade. Também achavam-se em dívida com o clube para o qual trabalhavam. recebi um telefonema de Frederick. e não se submetiam à vida insípida da mulher chinesa em geral. Muitas não achavam que procediam mal. Amavam o namorado com elevado grau de romantismo e os sustentavam de bom grado. Muitas jovens tinham essa ilusão e a conservavam por muito tempo. Algumas dessas moças até que gostariam de largar esse tipo de vida. Mas àquela altura. em alguns casos. mas os homens para quem trabalhavam naturalmente resitiam a isso. Só mais tarde é que vinham a perceber que tinham sido exploradas.iguais a ela. e. pois eram poucas as que queriam mudar de vida. Nas visitas que fiz ao dancing onde Maria estava. — Poon Siu Jeh. falou ele em voz calma. Achavam que valia a pena o*estigma que a sociedade lhes impigia. Uma noite. mas achavam-se cativas.

Essa pessoa não pode ser ta. Fred estava-me trazendo uma moça. e quando apareceu no apartamento. Iremos à noite. quando abri a porta para receber meu fugitivo. à noite. Eles ficavam lá sentados. Como na língua chinesa as palavras não têm gênero. assistindo televisão ou comendo alguma coisa. e tentei conversar com a jovem. No dia seguinte. . Frederick contou-me que ela trabalhara como stituta para uma quadrilha de Mong Kok. que estava querendo deixar a quadrilha. esperando que se casasse com a filha. Todas as noites tinha que ir para um bordel. jogando baralho. seu "namorado" bateu muito nela. Sua e a dera para um homem que lhe pedira a menina. Fred. Em vez de esse homem cuidar da moça. era ela quem o sustentava e a mais quatro ou cinco. Quer vir amanhã cedo? — É "muito perigoso. levei um choque. Estavam ali para vigiar as moças. O nome dela era Angel. tudo bem. Sua necessidade de conversar limitava-se a acenos afirmativos ou a abanar a cabeça. para que trabalhassem o número devido de horas e não fugissem. Mas isso não aconteceu. Mandei que entrassem rapidamente. Angel não foi trabalhar. pensara tratar-se de um rapaz. Os olhos dela exibiam marcas de pancadas.— Pode. Em algumas dessas casas. onde trabalhava. Uma noite. havia rapazes que vigiavam as garotas. mas ela não quis dizer uma só palavra naquela noite. Disse-lhe que.

A moça não queria apanhar mais. era claro que não poderia andar livremente por Hong Kong. ele a mataria de pancadas. uma conversação. e marcamos um encontro nà Lanchonete do Hotel Hong Kong. E assim tornou-se crente. mas também não tinha para onde ir. Só então vimos seu olhar adquirir um pouco mais de animação e vida. Se fosse para casa. e assim ficasse oficialmente transferida para outra pessoa. Embora ela estivesse disposta a começar vida nova. Se não fizéssemos isso.se acontecesse de ela não ir trabalhar uma outra vez. e que a perdoava. Tinha que haver uma gong-sou. os tríades a localizariam em quarenta e oito horas. Telefonei para ele. isto é. e era bastante ingênua. pois era um lugar com muitas portas. o namorado iria atrás dela. ela entendeu a mensagem cristã o suficiente para aceitar o fato de que Jesus a amava tal como era. ou entrar em luta contra nós. desfigurar seu rosto com ácido. A única pessoa que conhecia era Fred. e então recorreu a ele. e assim não poderiam . Não tinha amigos. mas na verdade tinha vinte e cinco. para se acertar a taxa a ser paga para a separação dela. Mas alguns dias depois. se alugasse um apartamento. Angel parecia ter dezessete anos. a quadrilha poderia raptá-la. Combinei com Angel para que fossemos falar com seu antigo namorado. na primeira vez que saísse à rua. enquanto a situação não fosse solucionada.

mas concordando com tudo que o homem dizia. comentei. Ela creu em Jesus. mas. rodeado de quadrilheiros. liguei para a polícia e expliquei-lhe que iríamos ter essa conversação. ao chegarmos ali. a certa altura. Também era um lugar com bom afluxo de público. . já encontramos o namorado dela sentado a uma mesa. apenas para "ficar de olho" na coisa toda. acompanhadas de um dos rapazes. mas o homem estava irredutível. não abriria mão dela em hipótese alguma. Estava simplesmente obedecendo a força de um hábito de vários anos. para voltar a ser uma prostituta. Deixe que Angel conversasse com eles.encurralar-nos. disse eu. Por direito ela é minha. Em seguida. mas. procurou convencer a mim e a si mesmo de que amava a moça. o que impediria que a quadrilha a seqüestrasse. insistiu. ela não tem nenhuma chance de uma vida melhor. Resolvi entrar na conversa. Eu já nos via saindo dali. E ela deseja parar com isso e começar vida nova. Foram seus pais quem a deram para mim. — Com você. E assim eu e Angel fomos para o hotel. Além disso. eu entrando num táxi e ela em outro. e seria bom se houvesse algum dos seus homens por ali. — Mas que maneira estranha você tem de demonstrar seu amor. percebi que não estavam discutindo as bases. mandando que ela vá fazer esse tipo de serviço. — Mas não vou desistir dela.

na . Não confiei plenamente nele. quando voltássemos a ter nova conversação. estava com medo de que brotasse violência de uma outra fonte. Ele virou-se para trás. Angel não iria. Ligamos para ele e marcamos um novo encontro. Não vai deixar Angel sair. Resolvemos que. ele entrou e sentou-se no banco da frente. e mais ninguém. Então. Além disso. E isso era exatamente o que eu não queria que acontecesse. Não queria que o sujeito descobrisse onde Angel estava. ele saiu do carro. e ordenou à moça que fosse embora com ele. e pudemos ir para casa.Mas isso não significava nada para ele. e foi dessa forma que saímos porta a fora e tomamos um táxi. Neguei-me a dar o número. enquanto o nosso moço a segurava pelo outro. e expliquei que entraria em contato com ele. Decidi ter esse encontro no Café Diamond. Como não queria sair. pois. se houvesse briga. instruí ao motorista para dar uma longa volta. pois poderiam tentar raptá-la. Quando este já se afastava do meio-fio. Os rapazes de nossa casa estavam tomando as dores de Angel. que fica logo em frente ao nosso prédio. Afinal. Preciso do número do seu telefone. instintivamente eles iriam brigar. e desejavam protegê-la e a mim. Agarrei-a por um braço. e ele também estaria sozinho. O namorado disse que deveríamos ir apenas eu e Angel. — Meu chefe vai ficar muito irritado com isso. falou. na rua Lung Kong.

Queria que nossos rapazes aprendessem que não precisamos lutar. Se virem algum ato de violência. meditei com eles sobre as histórias de Gideão e Josafá. acompanhada de um dos rapazes. expliquei-lhes com firmeza. Mas não podem absolutamente sair para me defender. mas não tiveram de lutar para vencer. Não podemos nos envolver numa briga corporal. disse-lhes. bem como os outros do lado de . sem contudo serem vistos. enquanto que Angel ficou em casa. Simplesmente louvaram a Deus e cantaram. os homens da quadrilha começaram a postar-se em vários pontos da rua. Algumas horas antes do encontro. que estavam enfrentando situações fortemente adversas. e afinal parti. e assim obtiveram a vitória. Oramos bastante a respeito da situação. juntamente com mais quatro ou cinco de seus companheiros. Eu pedira aos nossos moços que ficassem no alto de nosso prédio. que é o que devemos fazer como crentes. — A única coisa que vão fazer aqui é orar. O namorado de Angel não apareceu. no Velho Testamento. então podem ligar para a polícia. — Mas assim vocês não estariam lutando a batalha espiritual. de onde podiam ver o que se passava. Eles estavam querendo mandar pedir a Goko que enviasse alguns de seus homens para brigar com a outra quadrilha. mandou em seu lugar o chefe da quadrilha. que ficou tomada por eles.manhã daquele dia.

mas na porta do café há dois carros cheios de quadrilheiros armados de faca. só porque você é desse negócio de igreja. pensei. então. e Willie atendeu. e deu um murro na mesa. — Pois bem. "quis falar de Jesus e ele não me deu ouvidos. Fiquei aterrorizada e sussurrei para Willie: — Chame a polícia! Voltei à mesa e disse-lhes que teriam que fazer as conversações comigo mesma. falou. — Não pense que vou ficar todo cerimonioso. — Por favor. disse ele.fora. enquanto não a trouxer. Ele não sabia que eu era bem relacionada com o pessoal da Cidade Murada. Não vamos deixar que saia daqui. que já eram seguidores de Jesus. "Bom". e que Angel desejava seguir a Jesus. mencionando o nome de alguns rapazes de lá. mas não quis ouvir. Entregue-nos a moça." Senti muito medo naquele momento. Liguei para casa. Ficou furioso ao ver que Angel não estava comigo. posso dar um telefonema? falei com voz mansa. Tentei falar-lhe de Jesus. Imediatamente ele concluiu que eu tinha ligações com a 14K. Estava claro que tinham tudo preparado para seqüestrá-la. disse-me ele. tentei dar uma espécie de testemunho. . Não vamos mais ter nenhuma cerimônia com você. Estão aí esperando. também não irá ouvir-me. Se eu quiser argumentar sobre á moça. — Não olhe agora. ingenuamente.

sem saber o que fazer. Quer que façamos uma revista no café? — Não iria adiantar. e quando os policiais entraram no restaurante já estava tudo tranqüilo. Meus joelhos tremiam. e um dos investigadores estava lá. os carros com os homens armados escapoliram. Tentei explicarlhes que havia uma porção de homens armados procurando Angel. não portavam armas. Fui diretamente para a delegacia. Então orei em línguas. e à porta vi os homens também saindo do carro. — Agora não há mais ninguém lá. Não encontrariam nada. levantei-me e disse: — Tenho que sair para comprar verduras.Quando a polícia chegou. . Então. Há alguns carros lá fora cheios de homens com facas. e não tinha a mínima idéia do que iria fazer em seguida. os policiais foram embora. naquele instante. naturalmente. A única coisa a que poderia recorrer naquela situação era a oração. repliquei. dá licença. e assim que saíram. os carros deles voltaram. passou um lotação e entrei nele e fui embora. Por felicidade. Eu ainda estava presa ali. — Ah. Os outros rapazes. Estava tremendo fortemente quando saí dali. disse eu. respondeu. Vinham em minha direção. em voz bem baixa. Meu maior medo era que os rapazes da Cidade Murada viessem lutar com eles em minha defesa. para que não escutassem. Afinal. Fui ao banheiro.

— Em Shek Kip Mei. Estou achando que vão matar alguém. para ficar de olho nessa casa. Quer ir à delegacia de Shek Kip Mei? — Não poderiam lígar daqui mesmo? perguntei. respondi. porque gostaria que essa morte fosse evitada. — Mas estou avisando a vocês. — Não podemos mandar uma pessoa ficar de guarda lá o tempo todo. disseram. Um dos policiais disse-me com ironia. — Minha senhora. concordaram em levar-me à delegacia de Shek Kip Mei numa de suas viaturas. disseram. — Esse negócio é de Kowloon. — E onde moram? indagaram eles. senti que os outros policiais também não estavam muito dispostos a cooperar.— Tenho certeza de que vão à casa de seus familiares e vão criar problemas para eles. — É fora de nossa jurisdição. disse com uma entonação deliberada. Temos muito que fazer. o que deseja que façamos? — Eles moram aqui nesse endereço. responderam. . repliquei. Tenho quase certeza de que esses quadrilheiros irão aparecer para maltratar essa gente. Afinal. todos os dias morre gente nesta cidade. — Sei que não podem. afinal. mas poderiam ao menos instruir os policiais da ronda. Ali. Mas.

Por fim. quando os quadrilheiros entraram na casa e se assentaram lá. eles os amedrontaram. algumas horas depois. — Saí para comprar umas coisas. . e a gente nem conseguia olhar para ela direito. mas a polícia pegou dois ou três deles. um dos inspetores anotou a queixa. interrogaram-nos bastante. eles não o sabiam e assim não o puderam revelar. se quisessem. poderiam criar muitos problemas para toda a quadrilha. — E vocês já viram o olhar dessa mulher? indagavam. e estão armados. ficamos muito nervosos. Além disso. os familiares da moça me contaram que. Já estavam a par do fato e mandaram seus homens para lá rapidamente. Mais tarde. Ela tem um poder qualquer. disse a pessoa com voz trêmula. A maioria dos quadrilheiros conseguiu escapar. querendo o meu endereço. eles ficaram aterrorizados. dizendo que. Nunca mais importunaram Angel. Felizmente. e agora estou vendo cinco homens sentados em minha casa. E ainda há outros sentados nas escadas. já que não acontecera nada. recebi um chamado desesperado de um dos familiares de Angel. Mas. não oficialmente. Imediatamente liguei para a polícia. — Mas quem é essa dona que só fala de Jesus e quem são esses crentes? perguntou um dos rapazes da quadrilha. Quando estávamos conversando com ela no café.

Mais ou menos um ano depois. Outra grande dificuldade na reabilitação dessas jovens era que ninguém esquecia o passado delas. juntamente com os rapazes. não poderíamos mais mantê-la em nossa casa. ninguém esquece o que foram antes. senti grande regozijo. E assim teve início a casa das moças. Quando me contaram isso. eles tinham ficado ainda mais atemorizados que eu. E. Nos crimes dos homens. Sara permaneceu lá. Uma vez que a liberdade de Angel estava garantida. o apartamento de Mei Foo estava à nossa disposição. aprendemos muita coisa com a experiência. até vencer o contrato de aluguel. Nunca mais foi incomodada por ninguém e mais tarde casou-se com um ótimo rapaz crente. Fora presa no aeroporto com dois quilos de ópio . com mais três.E a palavra que empregaram designa poder sobrenatural. Como Jean e Rick tinham-se mudado para Hong Kong. pois reconheciam ali a presença de um poder espiritual. para ser a responsável. Mas com as mulheres é diferente. Mesmo que se tornem crentes. Embora não tenhamos podido manter a casa das moças por muito tempo. Resolvemos acomodar a moça ali. pois aquele fora um dos momentos mais terríveis de minha vida. no entanto. parece que existe uma espécie de glória. Angel aprendeu a ler um pouco. um certo juiz ligou para Jean e perguntou se ela poderia considerar a hipótese de receber em nossas casas uma mulher de meia-idade.

Então falamos-lhe de Cristo. Jean explicou-lhe sucintamente que não tínhamos mais a casa de moças. no tribunal. E sorrimos. ao sentir que seus pecados tinham sido perdoados. Respondeu-nos que estivera orando na prisão e que éramos uma resposta a suas orações. Olhei para ela. pois poderia passar por uma conversão insincera. Recebeu a Jesus com um sorriso. O juiz acreditava que isso fora um incidente isolado em sua vida. e estava disposto a enviá-la para nós. e de como ele removia o peso de seu pecado. e depois fez uma oração fervorosa para receber o Espírito. Mas. dando-lhe uma nova vida com seu poder. e quando lá chegamos. pois dissemos quase juntas: — É melhor dizermos ao juiz que vamos levá-la. Era uma mulher chinesa. Jean olhou para mim. aos poucos. tornando-se uma pessoa . Ah Ying passou a morar na Terceira Casa. mas concordou em ir falar com a mulher no dia seguinte. com seus quarenta e sete ou quarenta e oito anos. pois seria melhor para ela.escondidos nas roupas. Não queríamos que ela pensasse que seu futuro estivesse dependendo das coisas que nos diria e de sua reação à nossa mensagem. o juiz mandou esvaziar o salão para que pudéssemos falar com ela o tempo que desejássemos. a princípio. Era muito igrejeira. ela foi melhorando. Fui com Jean. mas também meio contenciosa e de difícil convivência.

. naqueles anos todos. e não tinhamos mais uma casa para moças. passava horas e horas. A única maneira de ela arranjar uma cama para dormir era conseguir um cliente. essas duas coisas estavam intimamente ligadas. e ele. pois passara por ela várias vezes. Eu costumava passar por algumas das velhas prostitutas e evitá-las. ela era prostituta. resultado. e assim ela passava o resto da noite no quarto alugado por ele. Então. Seria horrível. o que fazer com uma daquelas "senhoras". de ela sempre orar no Espírito. e. tomava heroína.totalmente diferente. para suportar aquela vida de prostituição. Não tinha onde morar. se elas se convertessem. caso se convertesse? Deixá-la na rua? Mas uma noite não pude resistir ao impulso de falar a uma delas. E. às vezes. mas sabia também que os novos crentes precisavam de um lugar seguro onde pudessem desenvolver-se espiritualmente. Ah King já estava com quase cinqüenta anos. — Meu Deus. Comecei falando-lhe sobre a mulher que lavava os pés de Jesus com as próprias lágrimas e os enxugara com os cabelos. a amou e .. não posso falar de Jesus a essas mulheres. talvez. Quase sempre. o Filho de Deus. Sabia que Cristo pode derrotar o poder do vício de drogas. quando estava passando roupa. Ela sabia quem eu era. Estava sempre sentada num caixote de laranjas.

. e pôs-se a dar gargalhadas. — Você está querendo dizer que ele vai cair do céu? indagou. A partir de agora você não pode mais viver nesse tipo de vida. ali sentadas com os olhos fechados. O velho que era seu cáften estava por perto. e ainda lhe dissera: "Perdoados são os teus pecados. Ah King? Você não precisa mais recorrer aos homens para obter sua porção diária de arroz. — Sabe de uma cdisa. e minha bolsa estava vazia. Não tinha nada para dar a ela. vai-te em paz. disse-lhe. com a maior naturalidade. — Talvez. Expliquei-lhe como poderia receber o Senhor. Chegou então o momento que eu mais temia. falei com ela. — Esse mesmo Deus vai dar-lhe poder para a oração. Mas isso não afetou Ah King. — Esse é o Deus que eu quero. Uns dez minutos depois." Ah King ouviu tudo aquilo e creu. repliquei falando seriamente.tratou-a com bondade. Busque a Deus. ela ergueu os olhos. o rosto radiante de felicidade. Continuou tranqüilamente a conversar com seu novo Senhor. afirmou. Não tinha uma casa para abrigar prostitutas. Ficou a observar-nos. Daí a pouco ela estava orando numa belíssima língua estranha. Deus pode muito bem mandar arroz do céu para você.. em voz alta. e ela orou em chinês. .

ela não trabalha mais nisso. 13 Testemunhos Estava muito escuro. deixando-a sentada no caixote de laranja. na Cidade Murada. Uma semana depois encontrei-a novamente. Não estava muito satisfeita de fazer aquilo.— Pois da próxima vez que nos encontrarmos. Mais tarde indaguei às outras prostitutas onde ela estava. e Deus derramando arroz para ela. aquela noite. Quatro ou cinco rapazes achavam-se em nosso pequeno salão do . Saí dali. Acho que é certo Deus me dar dinheiro para o arroz. Foi a última vez que a vi. e responderam: — Ah. mas não para a heroína. como chuva. disse-me ela. sentada. disse ela. Foi para um lugar desses aí. — Já aprendi muitas coisas. Gosto de imaginar Ah King num lugar qualquer. vou lhe contar como foi que o arroz veio. para se libertar da droga. mas resolvi confiá-la inteiramente a Deus.

— Não posso mais continuar encontrando-o. sozinho. pois estarei desrespeitando a lei. mas. A segunda era de assalto. ele estava no clubinho . mas não ficou ali mais que uma meia hora. pois. assim que foi solto. Falei-lhe um pouco mais. Tive a impressão de que ele começou a entender a mensagem. e. Mas ele não se entregou. Vou orar por você. que irei com você à delegacia para se entregar. o irmão mais novo de Winson. foi preso e mandado para a cadeia. voltou às drogas. Estava fugindo da polícia. Fui visitá-lo. Notava-se claramente que era viciado em heroína. na claridade do ambiente. Era muito jovem e magérrimo. assistindo a um jogo de pinguepongue. Prometeu-me que voltaria. se realmente se dispuser a orar. a decisão de seguir a Cristo. e quando estiver disposto a seguir a Cristo. e falei-lhe de Jesus. e disselhe que já tinha conhecimento suficiente para tomar. No momento em que supostamente estaria assaltando o jornaleiro. pode me chamar. Chamei-o para que se sentasse num banco de madeira. senti que ele não era culpado de pelo menos uma delas. Mais tarde. Uma figurinha patética surgiu em dado momento. Um dia ouvi dizer que fora outra vez preso por dois crimes bastante graves. tenho certeza de que tudo sairá bem. Logo que fiquei sabendo dos detalhes das acusações. alguns dias depois reapareceu.clubinho. Uma das acusações era que ferira um jornaleiro e roubara o relógio dele. Reconheci Bibi. Acompanharei todo o seu processo. de fato.

apesar de meu depoimento. Quando esse pessoal comete um crime. No julgamento. mas . ele se declarou inocente. quando eu saía da sala do júri. — Mas não pode. por que está depondo a favor de um criminoso? — Sei que ele é criminoso. — Vou-me confessar culpado e acabar logo com isso. o juiz disse que acreditava que eu estava falando a verdade.conversando comigo. Fui vê-lo na prisão. disse o policial. mas achava que a outra testemunha se confundira a respeito da hora do crime. — Bom. e acabei ficando conhecida dos policiais. geralmente sabemos quem o cometeu. E encerrou o caso. — Como você se envolveu nisso? indagou. pois. embora fosse inocente das duas acusações. mas diga a verdade. Diga ao juiz que você cometeu os outros crimes. isso não é verdade. um inspetor de polícia me deteve. tinha cometido uns vinte roubos em outro lugar. — Então. Eu passara muitos dias no fórum orando. acontece que sou crente. mas esse aí ele não praticou. Procure ver as coisas por esse prisma. Ao explicar o caso. No fim do julgamento. insisti. disse com um tom de resignação. mas foi considerado culpado. — Pois eu também sou cristão. e sei que praticou muitos furtos. e fiquei sabendo que estava disposto a confessar tudo.

— Mas. Seu rosto parecia acinzentado e tinha profundas olheiras. É simplesmente falta de sorte sua. É duro. O criminoso aprende a pensar que ser preso não tem nada a ver com sua culpa ou inocência. repliquei. comentou e afastou-se apressadamente. — Mas não reconhecem que estão pagando pelos atos praticados. Por isso. pelo menos. a primeira coisa que querem fazer. já se que cumpriram a pena por ele. E quando saem. Quando Bibi saiu da prisão. pela polícia e pela verdade. Isso destrói o respeito pela lei. têm o direito de cometê-lo. — E. Afinal. é praticar o crime pelo qual foram castigados. Voltou direto a tomar drogas. mas é justo. repliquei. argumentou o inspetor. o efeito sobre a sociedade é negativo. E a sociedade sai ganhando. Prometera modificar-se. mas achava-se sem forças para tal. os acusamos de crimes para os quais possamos "arranjar" provas. encontrei-o novamente. E ficam fortemente revoltados por estarem presos sob acusações falsas. — Mas. estão recebendo castigo pelos seus crimes. Acham que. concluiu ele. Os viciados têm uma frase que gostam de repetir quando vão a uma "boca" de drogas: "Meu coração ainda não .nem sempre temos provas para prendê-lo. a longo prazo. nunca tinha pensado nisso dessa maneira. o homem encerrou a conversa meio desajeitado.

e um tempo em que não se falava mais. Eu já tinha aprendido que havia um tempo certo para se pregar e falar. A família transformou o acontecimento numa novela. aí então pode me procurar. Uma semana depois. Pode escolher se quer segui-lo ou não. . e ele foi filmado em casa. Sempre que me via. Era o mais baixo tipo de trabalho ali. Poon Siu Jeh. uma emissora de televisão foi à Cidade Murada fazer um filme sobre nosso trabalho. sabia que só ele poderia tomar a decisão de modificar-se. E este tempo chegara para ele." Bibi arranjou o emprego de coletor de lixo. dava um jeito de fugir. Mas geralmente eu descobria onde ele estava morando. Mas o que ganhava não era suficiente. Certa vez. pois você não precisava estar assim. mas meus pés foram por si mesmos. ele veio. Você já conhece o caminho da salvação. A mãe chorava: — Conserte a vida de meu filho. Bibi tinha conhecimento da verdade. a fim de comprar a droga. Não quero vê-lo mais enquanto estiver nesse estado. É lógico que não era assim que as coisas se passavam. — Esta é a última vez que venho falarlhe. Agora é com você. mas ele tinha que ganhar algum dinheiro para adquirir a heroína. dizia ela.tinha decidido. Leve-o para sua casa e faça dele um homem bom. Procuramos Bibi. Quando estiver disposto a mudar de vida. e voltou então a roubar. então disse-lhe que havíamos chegado ao fim da linha.

berrou ele. porque não estamos condições. você tem que me levar para sua casa. mas não temos vagas. isto é. — Não será bom trazer nenhum rapaz para uma a que não esteja com tudo acertado. Sua única salvação seria ir para uma das casas de Estêvão. chega. Dei um suspiro profundo e respondi: — Sinto muito. Bibi foi cheio do Espírito e começou a falar numa nova língua. Não posso ficar em casa. Ele ficou muito irritado. pedindo que o recebessem. Para mim. — Mas você tem que deixar eu ir para lá. Por favor. Não há outro jeito. Agora você não quer deixar que eu leve um aí. ajude-me. que os moços possam desenvolver-se na vida cristã. Sara explicou: — Não podemos recebê-lo. argumentei.— Agora estou disposto. porque deseja a casa bem acertadinha. Conversei com os Willans e com os obreiros da terceira casa. Esse é o objetivo dessas casas. E nenhum crente de verdade pode tomar essa droga. Não consigo me livrar do vício sozinho. mas recusa--se. Depois me disse: — Agora. Oramos durante muito tempo. falou. Se os que estão aqui não tiverem um relacionamento sólido para suportar a vida de mais um. . senão irei vender drogas para comprar a minha. Não pode querer que eu fique pelas ruas. ele terá que esperar até que já estejam mais firmes. pois continuarei a tomar heroína. replicou ela com firmeza. — Mas tem que receber.

de olhos fechados e um leve sorriso no rosto. Olhe para o alto e pense naquele que criou o céu. Na terceira vez que o chamei. É ele quem faz tudo. abriu os olhos com muita relutância. Voltei meia hora depois e encontrei-o ainda ali. Ele ficou furioso comigo. mas não respondeu. disse procurando acalmá-lo. Chamei-o. — Bibi. e saí para conversar com outro viciado. Deixei-o naquela barraca. Por quê? Por que Jesus deixou toda a sua glória e veio aqui e foi chicoteado. a terra. Se eu fosse simplesmente colocando mais e mais pessoas ali.Ela tinha razão. só por um momento. dizendo-lhe: — Bibi. morreu e ressuscitou para que tivéssemos seu Espírito. E foi ele quem decidiu que seu Espírito habitasse em nós. você quer me seguir? . Era seu dever proteger os membros de "nossa família". quando lhe dei a notícia. Olhe para o céu. Tive que procurar Bibi e dizer-lhe que não havia vagas mesmo. desordenadamente. pare de olhar para si mesmo e de pensar que nossa casa é a sua salvação. a situação poderia tornar-se caótica. Contou-me que tinha visto Jesus. Encontramo-nos junto a uma barraca de lanches. Ele estava no alto de uma montanha e Jesus se aproximara dele com a mão estendida. orando. Não é maravilhoso pensar que o Espírito do Deus que criou o mundo todo possa realmente vir morar em nós? Pare de ficar pensando que nossa casa é a sua salvação e pense em como nosso Deus é grandioso. o mar e os pássaros. como já o fora antes.

Certo dia. Senhor. para que eu pudesse ser contactada onde estivesse. mas não queria voltar. e pessoas de todas as partes da colônia procurava-nos em busca de ajuda. passou a olhar para o seu Criador. Mas não morreu. que também se libertara do ópio e se tornara crente. eu podia sair mais às ruas. levou uma vida normal. e o rapaz foi visitá-lo no hospital. O pai. em vez de ficar com a idéia fixa de que nossa casa era sua única salvação. Havia flores lindas por ali. No dia seguinte. quando a ouvi chamar-me. e pássaros. Os viciados espalhavam a notícia do nosso trabalho. esperando só nele. Os filhos oraram por eles e foi curado. Como havia vários obreiros trabalhando na Associação Estêvão. disse: — Agora estou pronto para ir para o céu. Durante o processo de libertação da droga. seus familiares ligaram para Jean e Rick informando que o pai dele estava à morte. A quem mais eu poderia seguir? replicou ele.— Quero. pois Jesus transformou meus filhos em homens bons. Então o Senhor o tomara pela mão e o conduzira por um caminho belíssimo. e o perfume era muito doce. Daquele momento em diante. a . Um policial crente deu-me um bip. — Era um lugar lindo. E ele ficou ali dois anos. Estávamos andando por aquele caminho. Foi um dos melhores rapazes que já tivemos lá. abriu-se uma vaga para ele em nossa terceira casa.

— Quero. Assim achei-me cada vez mais envolvida em tribunais e julgamentos. Virou-se para o acusado. ouvi alguém me chamando: — Poon Siu Jeh! Estão-me acusando injustamente! Ajude-me! Olhei para trás e vi o rapaz que iria ser julgado em seguida. quando saía. Entretanto. respondeu o rapaz. aquele rapaz estava para enfrentar aquela batalha sozinho. não conheço bem o acusado. não tinha direito de falar no tribunal. mas creio que é possível que não tenha tido acesso a um defensor. Tive uma inspiração súbita e levantei-me. Será que poderia suspender o caso até que façamos verificações nesse sentido? O juiz ergueu as sobrancelhas. — Meritíssimo. sendo levado para o tribunal. Certo dia eu havia assistido a um julgamento e.qualquer momento. e então fui falar com o rapaz. Eu não tinha condições de saber se ele estava falando a verdade ou não. Mas pude perceber o desespero em seu rosto sujo. disse. Não o conhecia. O juiz suspendeu o julgamento por vinte e quatro horas. Era uma solicitação meio incomum. Mas depois que fui preso. — Você deseja um representante? indagou. não me deixaram dar um telefonema. Fiquei sabendo que tinha o apelido de Sorchuen. e que tinha conhecimento a meu . e mesmo que o soubesse.

os sintomas de carência da droga desapareceram. e agora me sinto totalmente diferente. Sorchuen viu um amigo seu. e suas feições relaxaram. — Não tenho muito tempo para lhe falar de Jesus. mas telefonou-me da delegacia. (diabo). mas fora detido por dois detetives que lhes ordenaram que descesse e fosse "falar". Fui visitá-lo acompanhada de um excelente advogado. ele o ouvirá e o salvará. disse ele. à procura do outro. Sorchuen foi declarado culpado das acusações que pesavam contra ele. Imediatamente. em Wanchai. então os homens o levaram para a delegacia. mas se você clamar a ele. foi preso de novo. Ali. mas não conseguiram localizar o "Diabo". pegara um ônibus para ir a Chaiwan. Afirmava que no momento do crime ele se achava no cinema. Fora preso sob a acusação de arrombar vários carros no distrito de Shaukiwan. depois de . Depois de sair da cadeia. Pediram-lhe que os ajudasse a encontrar outro quadrilheiro de nome Morgwai. e o levaram num carro particular até um cinema. Terminado o filme. Tremia convulsivamente e seus olhos estavam vermelhos e lacrimejantes. Fungava o tempo todo. — Orei a Jesus. e o indiciaram sob aquela acusação. tinha o rosto tranqüilo e feliz. Segundo ele. isso era mentira. Quando o vi no dia seguinte.respeito por intermédio de seus "irmãos" de Chaiwan. assistindo a um filme pornográfico.

Fui procurar o "Diabo". Fiquei convicta de que estava falando a verdade. segundo os autos. provas. Como muitos dos outros rapazes. uma testemunha. De posse das placas dos veículos fomos a Sheko. Muitos acusados eram condenados com base apenas em sua confissão. o advogado. o amigo que o rapaz vira no cinema. sem testemunhas. Ele escreveu à polícia solicitando o número da placa dos carros que supostamente Sorchuen tinha tentado arrombar. já que as duas versões eram idênticas. incriminando-se. Mas no dia do roubo. . porém. Conseguimos localizá-lo e perguntamos onde normalmente estacionava o carro. resolvemos investigar os fatos por nossa conta. mas tinham tanta certeza de que isso aconteceria. onde morava o dono de um deles. Sorchuen afirmava que apanhara para confessar o crime. Sorchuen estava preso e não poderia ter entrado em contato com esse amigo. Encontrei. ele fora preso em Shaukiwan. — Normalmente. Tínhamos. Eu e Davi. mas soube que também tinha sido preso. no estacionamento de Shaukiwan.ele haver assinado uma declaração incriminatória na delegacia de polícia. não o tinha deixado lá. que assinavam as confissões. Ele se lembrava bem do dia e da hora. afinal. respondeu ele. Vim a saber que muitos não chegavam a apanhar. nada. O rapaz disse que ele o tinha visto três horas antes da hora em que.

. nos quais o acusado não foi declarado culpado. e o escritório da promotoria ficou alerta. respondi. já estou em Hong Kong há seis meses. Mas ainda teria que aprender que a maneira de se . mas por que perder tempo com um caso desses? objetou. — Será que não se deve apresentar a melhor defesa possível em favor do acusado? — Claro. — Olhe. o advogado de acusação pediu para falar comigo. — Porque cremos que o acusado é inocente. No dia em que tínhamos orado na cela da delegacia. Se não fosse isso. De qualquer modo. eu lhe falara do fato de que Jesus está vivo. E estávamos com Sorchuen nas mãos também. é uma questão tão trivial. Entretanto. — Mas a ficha desse homem tem dezenas de condenações! — Estamos falando das acusações de hoje. já estaria tudo encerrado a essa altura. minha cara.Toda essa agitação em torno de um caso de menor importância era muito incomum. Tenho certeza de que não cometeu esse crime. Tinha ficado muito irritado com o interrogatório longo e minucioso levado a efeito pela defesa.. Olhou-me grandemente espantado. Num dos intervalos do julgamento do caso. aquele foi um dos poucos casos em que me envolvi. replicou. — Por que vocês dois estão-se dando tanto trabalho por um caso tão insignificante? indagou ele.

pode ser presa caso se declare como tal. Muitos de nós estávamos orando para que esse julgamento. Os dois rapazes acusados tinham-se tornado cristãos havia mais ou menos um ano.tornar seu discípulo não era assistindo a um filme pornográfico. de alguma forma. se se mantiver calada. Pelos regulamentos de uma sociedade tríade. Mais tarde afirmaram que o tinham feito sob coação. fosse para a glória de Deus. e certa vez provocou a abertura de um precedente jurídico em Hong Kong. Embora hoje eu fique o . Um indivíduo que fosse membro ativo de uma sociedade tríade não poderia ser cristão. Após este caso. Os outros se declararam culpados. A polícia apresentou sua primeira testemunha. Embora uma pessoa não possa ser presa por ser membro de uma quadrilha. O julgamento de problemas semelhantes. Dois dos rapazes tinham assinado confissão nesse sentido. uma vez membro de uma delas. pois as duas coisas eram incompatíveis. o indivíduo é membro para sempre. isto é. Foi numa ocasião em que alguns rapazes foram presos por terem-se declarado membros de uma sociedade tríade. mas esse acabou-se tornando extremamente complicado. geralmente era rápido. de membros de uma sociedade tríade. Ele se apresentou no tribunal e deu seu depoimento. Davi representou vários outros acusados. — Sou um dos dirigentes de uma 14K.

que tivera na sua quadrilha a mesma graduação que o rapaz que testemunhara pela polícia. Já disse aos membros do grupo que não sou mais responsável por eles. Nosso argumento era de que tinha dito realmente: — Sim. Ah Kei. Se quiserem seguir a Jesus. Perante o juiz os rapazes declararam: — Já fomos membros da quadrilha. Normalmente. porque tinham recebido o batismo cristão. nem presente nem passado. Depois apresentamos outra testemunha. Outra testemunha técnica foi um filólogo chinês que explicou que a confissão dos rapazes tinha sido traduzida para o inglês. Agora não o somos mais. ainda sou membro da 14K. Mas esse sentido era questionável. Esses dois rapazes que estão sendo julgados eram meus irmãos menores. Argumentamos que nossos rapazes já não pertenciam à tríade. renunciando assim à condição de membros dela. Mas tornei-me cristão e renunciei à quadrilha. nesse tipo de . pois na língua chinesa não havia tempos verbais. — Também sou um número 426 da 14K. O juiz já tivera de passar várias horas escutando essa gente falar de batismo. conversão e etc. fui membro de uma tríade. são livres para fazê-lo.tempo todo dando depoimentos na polícia. como se eles tivessem dito: "Sou membro de uma sociedade tríade".

não poderiam deixar de ser justificados. Como não tinha mais condições de ficar na rua vendendo seus artigos. sob nomes diversos. isso se devia ao fato de eles próprios se omitirem tanto. Mas eu. e ficava ali sentada a manhã inteira. como era ferrenha defensora do sistema judiciário britânico. Em seguida. disse ele afinal. Uma razão pela qual não havia mais absolvições. comecei a notar certos indivíduos que apareciam com regularidade. Se ele deseja mudar de vida e tornar-se cristão. Tinha nas mãos uma espécie de lista. . Quando um desses nomes era chamado. declarando-se culpada de pelo menos umas vinte acusações. ela se levantava e murmurava: Yauh (presente). Como eu ia muitas vezes ao tribunal. — Não vejo por que um homem tenha que ficar marcado para toda a vida. Se tantos casos eram julgados desfavoravelmente a eles. Havia uma desconfiança geral da justiça. era que o povo de Hong Kong não se dispunha muito a depor nos tribunais. muito bem. se falassem a verdade. crendo que ele era justo.caso. Vim a saber que era assim que ganhava a vida. por exemplo. anotava diante do nome a quantia a da multa a ser paga. Caso encerrado. uma velhinha com uma longa trança que lhe caía pelas costas. Havia. os indiciados eram logo condenados ou absolvidos. tentei convencê-los de que. ia ao tribunal responder pelas infrações de seus colegas vendedores de rua.

Quando os proprietários das salas eram informados de que a polícia ia dar uma batida. — Não.para que pudessem continuar com seus negócios. deixando ali somente um velho viciado. E ele continuava a acenar que sim. explicou ele. O velho acenava afirmativamente. que então era preso e indiciado. não. — Cinqüenta e oito condenações anteriores por infrações semelhantes. ainda lhe sobrava algum dinheiro. As acusações eram lidas: — Uso de tóxicos e posse de instrumentos para consumo de tóxicos. Esse homem é um "ator". — Cem dólares de multa. muito satisfeito. Devido à sua idade e ao número de condenações anteriores. Havia ali também um velho de setenta anos que fazia a mesma coisa. Ganha dos donos da sala de drogas para ser preso. Comentei com Ah Keung: — Ele sempre tinha a má-sorte de ser preso. sorrindo. Para isso. fechavam tudo. . e ainda lhe fornecia ópio de graça: assim ele podia cultivar seu vício e. A loja lhe pagava cento e cinqüenta dólares para fazer isso. ou cinqüenta dólares. depois de pagar a multa. recebia uma sentença leve. recebia uma pequena quantia. E o homem se afastava com um amplo sorriso no rosto. e um dia de detenção.

mas não queria ir depor. Durante dez anos. conversando com uma velhinha. — Pa mahfan. trabalhando arduamente para sustentar a esposa e quatro filhos. que não tinham o mínimo interesse em mudar de vida. Expliquei-lhe que. para não me deixar dominar pela raiva. fora da Cidade Murada. um criminoso que se reabilitou. Tive . Como estava ligado à jogatina ilegal. eu não poderia fazer nada. É muito perigoso. Certo dia foi preso sob a acusação de bater carteiras. Mas. quando a verdade era derrotada. Mas também tinha que tomar cuidado. do que defender o filho. era cada vez maior o número de pessoas que compreendiam o que era ser justificado nos celestiais. Um maravilhoso exemplo disso foi Suenjai. no momento do roubo. como ele estava retendo uma informação de vital importância. não quero envolvimento com a polícia. e.O pai de Ah Keung pediu-me certa vez que socorresse seu filho Ah Pooi. A mulher negou-se a depor. para não ser usada por indivíduos inescrupulosos. Muitas pessoas foram tocadas devido a esses problemas no tribunal. que tinha sido preso por ter roubado um rádio de um velho. Eu tinha que me controlar muito. argumentava. ele estivera dentro da cidade. achava que era preferível ficar em paz com a polícia. O pai também vira os dois detetives levarem o rapaz. se parecia que os tribunais terrenos eram injustos. ele tinha levado uma vida certinha. Mesmo assim desejava que eu o ajudasse.

porém. Aí ele ficou calmo. vim para cumprir. Na primeira vez em que fui visitar o centro de triagem. Pediu a Jesus que entrasse em sua vida e recebeu o Espírito Santo. onde aguardava julgamento. Não tinha uma Bíblia em mãos. O Sermão do Monte levou-o à fé. Achei que não era uma literatura bastante adequada. nem um Í ou um til jamais passará da lei. A esposa dele entrou em contato comigo e visitei-o na cadeia. Estava muito ressentido e revoltado. Queria falar-lhe de Jesus. Ia apenas declarar-se inocente. outra coisa." Foi a resposta dele. Pouco antes do dia do julgamento. apenas um livrete com trechos do Sermão do Monte. pois não continha a mensagem da salvação. Não tendo.certeza de que não fizera aquilo. perguntei-lhe como iria apresentar sua defesa. Foi um golpe muito duro para ele. Resolvera não apresentar defesa nenhuma. mas ele me interrompeu. pus-me então a orar. Comecei a aconselhá-lo a não fazer isso. Porque em verdade vos digo: Até que o céu e a terra passem. Suenjai estava sentado no meio de um pequeno grupo. Perguntei-lhe: — Por que Jesus teve de morrer? — Porque está escrito: "Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas: não vim para revogar. mas ele não queria ouvir sermões. até que tudo se cumpra. . para que a lesse. deixei-a com ele.

não. — Então disseram que também queriam crer nele. Fiquei um pouco em dúvida. sim.— A Bíblia diz: "Seja. e o colega ficou calmo e tranqüilo. E assim expliquei-lhes como poderiam fazê-lo. porém. a tua palavra: Sim. Os outros colegas me perguntaram: — Que foi isso? O que você fez? — Foi Jesus. — Bem. conservou-se sempre alegre. vem do maligno. como se estivesse sufocando. Um dia. Embora fosse obrigado a ficar preso um ano e três meses por um crime que não cometera. algumas conversas comigo. em nome de Jesus. respondi. . ficaram tão impressionados. Aliás. uma noite um dos companheiros da cela acordou aos berros. O que disto passar. quando ouviram falar da maneira como ele se conduzira no tribunal. pois sabia que seus conhecimentos teológicos eram baseados apenas em três capítulos de Mateus. nunca cessando de louvar a Deus. levantei-me e disse: "Satanás. saia dele!" Mas nada aconteceu. Percebi que estava sendo agarrado por um demônio. não. que me pediram que fossemos falar-lhes desse Jesus que tinha poder para transformar o coração do homem. explicou ele. Suenjai contou-me que ganhara para Cristo doze prisioneiros. já disse." Fiz que ia dar um chute no espírito. Então." Suenjai foi condenado. contorcendo-se na cama. Falei de novo: "Saia dele. alguns de seus vizinhos. e em sua própria experiência. e ele saiu.

Jean e vários outros membros de nosso grupo fomos assistir ao julgamento. convidando todos os vizinhos. . mas em várias ocasiões tocou profundamente na vida de pessoas ligadas aos processos. e. ele conseguiu dizer o que estava querendo. ele realizou reuniões de oração em seu pequeno apartamento. — Sei que o que vou dizer é meio estranho. parecia que havia uma auréola na cabeça de cada um. em encontros posteriores com a mulher. E Deus não operava apenas no coração dos criminosos. mas. um inspetor de polícia procurou-nos mostrando-se muito interessado em nosso trabalho. quando vocês entraram no tribunal hoje de manhã. não pude deixar de receber a Jesus em meu coração. afirmou: — Quando vi o que aconteceu com esse meu amigo. olhei para vocês. Várias horas depois. que acabou voltando para o marido. Um ex-detento que assistiu a uma dessas reuniões. principiou. eu. bom.. Após o veredito.Três dias depois que Suenjai foi solto. e. quando o juiz o confiou às nossas mãos. Mas ele permaneceu fiel em oração. Sugeriu que fôssemos almoçar juntos para continuarmos a conversa. ela ficou tão impressionada com a atitude de compaixão e perdão da parte dele. Quando Ah Kit foi julgado.. Durante algum tempo. sua esposa fugiu com outro homem e se prostituiu.

vi com meus próprios olhos como a vida dos moços foi transformada. Mas não. Em seguida. Acho que nunca vi uma pessoa que ficasse tão tocada por uma reunião de oração. teve que ajoelhar-se e orar. ele foi batizado no mar. pelo contrário. aos sábados à noite. — Não consegui dormir. Mas hoje estou vendo que vocês aqui estão realmente sendo inspirados por uma coisa que não compreendo bem. Leu-o durante todo o domingo. Fiquei preocupada. levou consigo um exemplar do livro de Jean.Não tive vontade de rir. explicou. Fiquei só pensando no que vi ontem à noite. juntamente com a esposa e com um antigo quadrilheiro. E hoje pela manhã orei a ele pedindo que entrasse em minha vida. No domingo seguinte. saio com os colegas para beber. engoli em seco várias vezes. No final. pois. Fiquei aliviada ao ouvi-lo emitir um comentário tão positivo. vi gente falando em línguas. ligounos e disse que queria receber o batismo no Espírito Santo. uma das moças se aproximara dele e lhe indagara sem rodeios se era salvo. E cheguei à conclusão de que Jesus tem que ser mesmo real. comentou: — Normalmente. . durante a reunião. e ele compareceu. Nós o convidamos para a reunião de oração dos sábados à tarde. pensando que ele pudesse ter ficado agastado com um "ataque" tão direto. Afinal. E ao sair.

— Não. realmente isso pode acontecer. — Bom. Seus amigos notaram que sua vida mudara completamente. muita gente ficou sabendo da conversão do policial. replicou Ted. Não muito tempo depois disso. um de seus colegas.Logo. não estou tentando modificar você. Sei que quando você se arrepender tudo vai-se acertar. A conversão de Ted causou um grande impacto no Departamento de Polícia de Hong Kong. disse-lhe: — Pelo menos espero que você não tente mudar-me. mas se eu "apagar" antes? — É. replicou Ted. que fazia oposição à sua conversão. .

— Não me peça para fazer isso. cheio de ódio.14 E Pôr em Liberdade os Cativos Certo dia recebi uma belíssima carta de um chinês de Taiwan. que lhe falara a meu respeito. Em suas roupas havia uma tarja branca. que indicava ser ele um indivíduo perigoso. estava com ele um rapaz da Cidade Murada. resmungou. fosse o que fosse que tivesse feito. Na mesma cela. Contudo. — É lógico que não pode perdoá-los. que se encontrava preso no centro de triagem. disse que queria crer no Senhor. era um homem revoltado. aguardando julgamento. O que ele esperava era que eu iria ajudá-lo a sair da prisão. Nunca poderia amar esses homens. Expliquei-lhe que. Respondi-lhe que teria de perdoar os guardas da cadeia e abandonar os ressentimentos. enquanto não compreender que você foi perdoado. Então fui falar de Jesus a Ah Lung. A . Jesus perdoaria seus pecados. Na ocasião em que o conhecera ali. depois de ouvir-me.

Modificou seu depoimento. — Deus me falou que não poderá me perdoar. — Vi o que aconteceu com Ah Lung. orei. continuando com os olhos baixos. voluntariamente. — Você crê que ele era o Filho de Deus? perguntei. e que assistiu a um dos estudos bíblicos que eu realizara no centro. enquanto eu não perdoar a outros. os olhos fixos no tampo da mesa. e senti o impulso de falar em língua estranha. Mais tarde nos disse: — Tive que reconhecer que fiz uma porção de coisas erradas. respondeu. Ah Lung testemunhou para um rapaz que estava aguardando o julgamento por crime de estupro. que morrera pelos pecadores. respondeu. perdôo os guardas. — Não entendo bem essas coisas. O que há nisso tudo que faz um homem durão tornar-se uma pessoa de coração brando? Quero conhecer este Jesus. — Crê que ele morreu pelos seus pecados? — Isso também eu não entendo. declarando-se culpado no tribunal. Foi a primeira vez em minha vida que admiti que estava errado. Expliquei-lhe que Jesus era o Filho do Deus to-do-poderoso. . Então ele pôs-se a interpretarme em voz suave. E ele se tornou um detento-padrão. — Mas você deseja crer? — Está bem. Então. quando creu em Cristo.seguir.

e afinal ergueu o rosto. pois ele não espera que você tenha essa vida obedecendo a um conjunto de regrinhas. . Deseja crer nisso? — Está bem. — Pois bem. para que este o ajude nisso. Isso é impossível. — Porque senão você não estaria aqui na cadeia conversando comigo.— Não tem importância se você não compreende bem essas coisas. — Por que tem tanta certeza disso. Ele irá dar-lhe seu Espírito. vi no jornal que seu caso tinha sofrido uma reviravolta. No julgamento. disse prontamente. você deseja segui-lo? perguntei. sorriu para mim. ele se dirigira ao juiz e dissera: — Meu advogado instruiu-me para dizerlhe que sou inocente. a quem mais eu iria seguir? — Está bem. mas tenho que confessar que sou culpado. — Crê que ele ressuscitou dos mortos? — Ah. mas não tem certeza das outras coisas? indaguei curiosa. creio. Foi sentenciado a nove anos de detenção. respondeu. ainda sem erguer a cabeça. é lógico. Duas semanas depois. Jesus lhe dará poder para viver a vida cristã. pois agora creio em Jesus. Quando fui visitá-lo na penitenciária. — Se ele é o Deus verdadeiro.

Pecar é andar em nossos próprios caminhos. quando fora visitá-lo. ta Sr. pois parecia haver uma aura de inocência em torno de sua pessoa. Os prisioneiros ficavam dentro de um compartimento. falando que tenho de largar as drogas. Poon. sua atitude era outra. até o tão terrível estupro. que não me permitia ver claramente suas feições. — Não adianta ficar conversando comigo. Essa atitude se acha em franco contraste com a que vi em Daih So. Daih So tinha apenas trinta anos. ele me deu a mais clara definição de pecado que eu já ouvira até então. exclamou ele. e a parede de separação consistia numa telinha muito fina. Não tivera permissão para utilizar uma sala privativa. no mesmo lugar. Certa vez. Estava sempre babando. mas como era viciado em heroína desde os treze anos. — O que é pecado? perguntara-lhe. parecia mais um velho.ta Poon. Isso é impossível. Mas aquele dia na prisão. — Isso é simples. havia dois anos. dizendo: — É maravilhoso saber que Jesus levou sobre si todos os nossos pecados. E nunca cessava de testemunhar de Jesus aos outros. e conversara com ele no salão geral.— Estou tão feliz de saber que meus pecados foram perdoados. Também não me . Sr. replicara. mas eu gostava muito dele.

você já tinha saído. senti uma forte convicção e pedi ao guarda para voltarmos. E se deixar uma Bíblia aqui. mas continuei orando por ele. às vezes. No dia em que foi lá falar-me de Jesus. olhei para trás e vi você sentada. em vez de ajudá-las a escapar dela. parecendo tão triste. É verdade que tinham deixado para trás todo o passado. e assim fiquei liberto da droga. . De repente. Cheguei à cela e orei em nome de Jesus. não vou lê-la. pelos quais nunca haviam sido presos. Mas quando cheguei à porta. Mais ou menos uns seis meses depois. você saiu da cadeia? E por que está tão bem assim? — Eu queria mesmo contar a você. e chamei o guarda para me levar de volta. eu . E assim dizendo. — Poon Siu Jeh! Sou eu. Houve ocasiões em que mandamos pessoas para a cadeia.estava andando pela Cidade Murada. Aquele pobre homem estava convicto de que não poderia parar de tomar drogas na cadeia. para encerrar a conversa. deu-me as costas. algumas coisas ficavam a importuná-los. mas. Entretanto.peça para orar. Saí dali profundamente desolada. eu não queria ouvir. Então fiz o que tinha me falado. quando um desconhecido meio gorducho correu para mim. e tinham que reparar o erro no plano humano também. quando voltei. Daih So! — Daih So. Muitos dos rapazes que chegaram à nossa casa tinham cometido crimes.

Todos oramos muito em línguas naquela manhã de segunda-feira. Então.Ah Wah. por ter deixado de se apresentar quando devia. mas não pareciam muito interessados. Afinal. Seria muito difícil evitar isso. mas foi solto sob fiança. e o recebemos numa das Casas de Estêvão em novembro. ele não tinha a mínima intenção de apresentar-se. Mas não sabíamos disso. Então ele confessou que deveria ter ido a julgamento. por exemplo. Os meses foram-se passando. levaramno para tirar impressões digitais. que os homens que estavam tirando as impressões pensaram que fora ali para se candidatar a um emprego. Conversando com Ah Wah achei que a possibilidade de ele ser liberto era ínima. para fazer uma identificação precisa. encontra-se cumprindo pena em liberdade. era bem provável que fosse preso ao apresentar-se. seguimos para a delegacia. queria ir à delegacia para entregar-se. e sua consciência começou a importuná-lo. explicando que Jesus transformara sua vida. Afinal ele conseguiu convencê-los de que fora entregarse. Estava com tão boa aparência. Naturalmente. Quando cometera o último delito. Ele fora preso em julho por posse de drogas. . Dissemos várias vezes que Ah Wah deveria ser preso. onde nos serviram um cafezinho e pediram que esperássemos. Disse a ele e a todos os rapazes de nossas casas que orassem. Afinal. com a instrução de apresentar-se no tribunal daí a duas semanas.

— Meu parabéns. Querida Pullinger. e nos dirigimos para o tribunal. Mas agora creio em Jesus. orando todo o tempo. que ficou em nossa casa apenas dez dias. tomou uma decisão muito sensata. ele mesmo. depois então poderei ter minha nova vida de novo. e. Terei que ficar aqui dez meses. Ficou muito feliz e aliviado. Faz muito tempo que larguei o povo aí da casa. aprendi a fazer diferença entre os termos hauh-fui (sentir muito) efui-goih (arrependerse). mas bem poucos se arrependiam do erro cometido. depois disso. disse o magistrado. Espero que Jesus os abençoe em tudo. .Finalmente. chegou o momento em que fomos convidados a entrar numa viatura. e vim para entregar-me. e afinal resolveu que já estava apto a cuidar. De meu contato com tantos detentos. e ele respondeu: — Eu era viciado. e quando chegou de volta. O juiz perguntou-lhe por que não fora apresentar-se. Mas não sabia o que fazer com a liberdade e com as decisões que tinha de tomar. Foi preso e escreveu-me da cadeia. Muitos criminosos ficavam bastante sentidos por terem sido presos. Pode ir. Ah Wah apenas teve que assinar um compromisso de boa conduta. houve um grande regozijo em nossas casas. Um dos que estavam constantemente errando era Ah Bill. Desejo-lhe muitas bênçãos nesta nova vida. e sinto muito ter agido assim. de sua vida. nunca mais foi preso.

Diziam por exemplo: — Você crê em Cristo. pois fiz uma coisa muito errada aqui na prisão. Agora estou seguindo a Jesus. claro que não. Naqueles momentos. Orem por mim. . Espero que esteja gozando boa saúde. eu costumava ir à capela todos os domingos e orava em língua estranha todas as noites. Alguns dos homens aqui diziam certas coisas a meu respeito. mas quando o milagre de Deus entrou em meu coração. quero dizer uma palavra aos novos irmãos. Mas agora está tudo certo. eu ficava com muita raiva. Você tinha-nos visitado e ensinado a Bíblia para nós. Ah Bill. E para terminar. mas será que a» estamos levando a sério? Tenho passado por muitas dificuldades. mas mesmo assim tem que ficar preso. mas apesar disso pude receber um pouco de sua graça. E eu responderia para fazer-lhe algumas perguntas sobre a Bíblia. consegui esquecer as palavras deles.Espero poder arrepender-me e ser aceito pelo Senhor mais uma vez. Logo que vim para a prisão. Deus nos tem dado muitas oportunidades. Ah Bill foi um dos que descobriram que era mais fácil ser crente dentro de uma prisão. pois aprendi a ser obediente. Não que ele gostasse da cadeia. sim? Fui transferido de área. mas não dei ouvidos e desobedeci aos regulamentos. Ficaria muito feliz de receber uma carta sua no mês que vem.

Embora Kwok fosse policial. E ele tinha matado os cristãos. Um dos rapazes de outra quadrilha fora morto durante a briga. posso vir a trabalhar para Deus? Essa idéia de que poderia ser útil para Deus foi de tanto estímulo para ele. só conseguiu compreender que ele era o Filho de Deus. — Quer dizer então. ao usar este homem. Que futuro me espera? — Você sabia que dois homens da Bíblia. e o outro Paulo. também era membro de uma tríade. Quando lhe falei de Jesus. dois homens que Deus usou muito. Paulo foi chamado para pregar a BoaNova do perdão de Deus. Era muito cortês. disse Kwok. E cada vez que era liberto. Cinco dos quadrilheiros foram julgados. Era um rapaz tranqüilo. tinha menos capacidade de viver do lado de fora. um amigo da cadeia. — Mas que esperança há para mim? repetia ele tristemente. Outro rapaz. foi entregue aos nossos cuidados e falou-me de Kwok. Mas. Ah Kit. tinham sido assassinos? Ele teve uma expressão de espanto. que fez . vindo de Novos Territórios. mais que todos os outros. do interior. — Um deles era Davi. que além de ser perdoado. de aparência limpa. Deus mostrou todo o significado do evangelho. e participara de uma batalha entre quadrilhas.Mas é que ali não tinha que tomar ele mesmo as decisões de todos os dias. continuei.

Mas o outro rapaz que fora condenado à morte juntamente cóm ele estava aterrorizado. como se seu coração estivesse estourando de regozijo.ta Poon. Dois dias depois fui visitá-lo novamente. Agora tenho esperança. sentia-me muito nervosa. Lembro-me de que fiquei a observá-lo no momento em que era pronunciada a sentença. que ele o amava e morrera por ele. Ele sabia que Jesus era o Filho de Deus. tenho uma paz tão grande no coração. muito radiante. E era só isso. Mas ele veio correndo para a sala de visitas. disse ele. pensava eu. pois conversara com ele apenas duas vezes. Por fim. — Sr. ele foi sentenciado à morte. — Coitado. provavelmente já esqueceu tudo que lhe falei. sua sentença foi comutada para prisão perpétua. Agora sei que meu passado foi perdoado e tenho esperanças para o futuro. Nunca tinha . Levantou os braços algemados até a altura do pescoço fazendo a mímica do enforcamento. e tinha orado e recebido o poder do Espírito Santo. não sabia exatamente o que ia encontrar. Estava radiante. tendo-lhe falado muito sobre Deus. quando pude vê-lo novamente. e riu. Nos dois anos que se seguiram não consegui mais entrevistar-me com Kwok.uma oração jubilosa. Não me importa se serei condenado ou não. Afinal. Estava profundamente calmo. No dia seguinte. Quando entrei.

de manhã e à noite. procurando reanimar- . falou quase sem fôlego. Tenho falado aos outros presos sobre Jesus. Um deles era o rapaz que fizera a mímica do enforcamento no dia do julgamento. e sei que ele compreende o que vai em meu coração. disse-me sorrindo.visto uma alegria tão pura no rosto de um homem. — Não se preocupe conosco. Oro todos os dias em minha cela. e estava um pouco temerosa de que não me dessem permissão para vê-los mais. Oro naquela língua que Deus me deu. Sr. tudo isso é maravilhoso! Tenho uma paz tão grande no coração. — Oh. Tinham seus próprios cânticos. E leu-o duas vezes antes que eu o visse novamente e ele pudesse perguntar-me: — Ah. E oravam uns pelos outros. Poon Siu Jeh. Poon Siu Jeh.ta Poon. E eles eram realmente crentes. Jamais conheci um grupo de homens que entendesse o que significava Jesus ter dado a vida por eles. uma alegria tão grande de saber que meus pecados estão perdoados. e uns seis deles creram também. e ele leu o Novo Testamento em dois meses. o que significa "gentio"? Os seus convertidos também se desenvolveram bastante. quando adoeciam. Certo dia visitei Kwok. que o Espírito Santo lhes inspirava. e mais tarde os visitei. Dei uma Bíblia a Kwok. Aqui está o nome deles. melhor do que aqueles ali. Deu-me uma lista com os nomes.

"Pelo poder do Espírito Santo. Realmente estamos muito tocados por isto. Acredito firmemente no que a Bíblia nos afirma sobre Jesus Cristo ter morrido por nós. Glória a Deus! "Quero agradecer-lhe muito por ter-me escrito palavras de encorajamento e ensino.me. ore por nós aqui. "Saúdo-o no mome de Jesus. Prezado William. e alguns jovens de nosso grupo escreveram para eles também. Estamos muito bem. inclusive alguns estudantes. espero fazer o máximo por ele. para que sejam totalmente transformados. Kwok. nos sentimos muitos felizes. para eu compreender o amor de Deus. Recebi várias cartas deles. "Por favor. "Graças sejam dadas ao Senhor Jesus Cristo. com toda sinceridade. Todas as vezes que ela vem. e muitos deles querem falar com Jackie." Na primeira vez que visitei Ah Lung conheci um outro prisioneiro que estava sendo . mas tenho a impressão de que têm segundas intenções. Deus me tem dado muitas oportunidades de testemunhar a outros aqui. Jackie costuma visitar-nos aqui na prisão todos os meses. Estamos orando por você. São os homens mais livres que conheço. e. para explicar-nos o evangelho. pelo grande amor de Deus. Mas eu apenas oro para que o Espírito Santo opere no coração deles. pois pelo seu maravilhoso nome nós nos conhecemos.

. Certo dia. horrorizado. começou a discutir comigo sobre os pormenores de seu processo. — Mas não posso tornar-me cristão. e a mãe ficou fora de si de desespero. já era tarde demais para salválo. o garoto sentou-se e disse: — Por que estou vestido com essas roupas? A mãe pensou que se tratasse de uma visão. Há mais de vinte anos. é falar-lhe sobre Jesus. mas não conseguiu reanimá-lo mais. Bem no meio da noite. o diretor da escola voltou ali e viu. O amiguinho dele ficou tão apavorado. uma familia chinesa fugiu da China para Taiwan. a mãe levou o corpinho do filho para casa e vestiu-o com uma mortalha. Naturalmente. e insistiu para que o levassem a um hospital.julgado por ter tentado entrar em Hong Kong. ele saiu de casa e foi brincar com um amigo no pátio da escola. Logo que o conheci. E ele caiu dentro dela. — A única razão por que estou aqui. Nessa família havia um garotinho de mais ou menos quatro anos. com uma grande quantidade de heroína. e os médicos deram o atestado de óbito. o corpo do menino boiando na água. Ali havia uma lagoazinha. disse-lhe. Afinal. a maior que já se descobrira num navio. replicou Go Hing. Horas depois. Mandou chamar os pais. Puxou-o para fora. Deixe-me contar-lhe uma história. que saiu correndo e não disse nada para ninguém. com muita tristeza.

respondeu o garoto. replicou o menino. mas a água entrou por ela. — É Jesus. Ele lhe dará poder para segui-lo. para se comunicar com ele. vi um homem vindo em minha direção. Nesse instante.— Você se lembra de que caiu dentro da lagoa? indagou ela. — Bom. se você disser a ele que está arrependido e pedir-lhe perdão. Aquela família nunca tinha ouvido falar de Jesus antes. — Um homem? Quem era ele? indagou a mãe. depois pôs-se a chorar. daquele dia em diante a mãe e toda a família tornaram-se discípulos de Jesus. e ele começou a orar em língua estranha. — Pois tenho uma coisa muito boa para lhe dizer. Também lhe dará uma nova língua. Jesus não espera que o sigamos com nossas próprias energias. e desde então minha família sempre foi crente. Go Hing contou-me essa história com muita emoção. ele o perdoará. ele veio e me tirou da água. Estava afundando na água e abri a boca para gritar pedindo socorro. Ali mesmo nós oramos. — Lembro. Portanto. Voltei da morte. — Sabe o nome dele? perguntou ela. Go Hing. Depois perguntou: — Sabe por que conheço essa história? Eu era aquele menino. Após alguns instantes disse: . e não segui a Jesus. Mas não posso ser crente porque eu conhecia a verdade. Mas.

Passados alguns dias. não é? — Estou com muito medo. mas não chorei. dão pena de morte para tráfico de drogas. assalto à mão armada e por assassinatos. Quando fui preso. disse-lhe. Uma foi quando você me visitou na prisão e recebi a Jesus e seu Espírito Santo. Não vou conseguir. — Mas você tem de falar a verdade. — Se me confessar culpado desse delito. Em Taiwan. serei condenado à morte. falou.— Essa é a primeira vez que choro. e não tenho medo de ventos e ondas bravias. começou a chorar. Pouco antes de voltar à Inglaterra. — Você sabe que deve confessar a verdade no tribunal. sabia que ia passar muitos anos sem ver minha esposa e filhos. mas estava sorrindo. Sabe que Cristo salvou sua vida. e a . Você agora é crente. — Estou só dizendo que você tem de falar a verdade. Sou conhecido como um homem muito durão. fui visitá-lo novamente e conversei com ele. — Só quero lhe dizer uma coisa. e não pode obedecê-lo apenas parcialmente. replicou. Logo que olhei para ele através do vidro de comunicação. Só houve duas ocasiões em minha vida em que chorei. desde que me tornei adulto. Fui marinheiro muitos anos. pude ir visitá-lo na Prisão Stanley. Agora sei que Jesus está comigo. O rapaz foi sentenciado a doze anos de detenção.

O juiz ficou com raiva e me deu uma sentença pesada. porque sei que meus pecados foram perdoados. e um dia irei para o céu. então revelei à polícia que havia mais heroína naquele navio. Eu disse a ele: "Se ela vier me visitar hoje. à tarde confessarei a verdade. meus colegas ficaram furiosos comigo. mas meus pecados estão perdoados. E isso é melhor do que ter uma sentença leve aqui. eu não tinha a menor intenção de fazê-lo.outra é agora. porque isso a deixou muito mal vista. e depois ir para o inferno. — Sei que tenho uma sentença pesada. Naturalmente. . porque havia ali uma fortuna escondida. Quando você me disse que eu devia confessar a verdade. E aqui ele sorriu para mim e concluiu. A polícia não ficou satisfeita. mas fiz um acordo com Deus." Você veio. Hoje estou chorando de alegria.

vimos um homem que morava num armário. uma rua tão íngreme que era feita de degraus.15 Andar no Espírito Certa vez. ele vendia verduras ali. e. um marinheiro americano resolveu me passar um sermão por causa do meu dom de línguas. subia nele para dormir. Um pouco mais abaixo. à noite. Com uma população de quatro milhões e meio de pessoas. Expliquei-lhe que sempre falava em línguas. nos encontramos e fomos caminhando do Setor Oeste até o cais. Achava que eu estava exagerando um pouco. E convidei-o para acompanhar-me numa de minhas rondas por Hong Kong. sem cessar. orando os dois. pelas ruas. Durante o dia. Numa das ruas. ocupando cada metro quadrado do lugar. mas exercitava-o com muita parcimônia. quando andava pela Colônia. encontramos uma velhinha que estendeu-nos uma tijela de . havia famílias inteiras morando num só cômodo. Ele próprio tinha o dom. No dia seguinte.

Chegando ao fim da rua. Parara de estudar logo após o curso primário. mas os pais o haviam tirado da escola para trabalhar. Então comecei a orar. à medida que caminhávamos mais. então ela ganhava a vida mendigando. Ninguém na cidade tinha dinheiro ou espaço sobrando. que era uma réplica da primeira. Mas entramos na outra rua. e que poderia amar todas aquelas pessoas e conhecê-las bem. E depois desta. mas ela estava cuidando do nenê. Ninguém estava cuidando da pequenina e suja menina de cinco anos. Aquele marinheiro ficou pasmado com essa nova visão que tivera de Hong Kong. e ele me respondera enviando-me para a Cidade Murada. outra igual. pedia-me para falar inglês com ele. e concedendo-me os maravilhosos eventos dos doze anos seguintes. Continuando a caminhada. Depois passamos por um rapazinho que pagava para ter o privilégio de dormir em cima de um balcão de loja. Todas as vezes que o encontrava. Contei ao marinheiro como havia perguntado a Deus que setor de sua obra iria caber a mim. carregando às costas uma criancinha. eu tinha a sensação de que passara toda a minha vida ali. Mas meu objetivo naquele dia fora incentivá-lo a andar no Espírito. . Queria continuar estudando. para praticar um pouco e poder conseguir um emprego melhor. vimos uma garotinha de mais ou menos cinco anos. pois os pais tinham que trabalhar.plástico.

que era "protetor" de várias prostitutas. Quando o encontramos. a dor passou. Aceitou a Jesus e foi batizado no Espírito no mesmo instante. Imediatamente. pedindo sua cura. Havia várias pessoas deitadas pelas escadas. Eu fora ali à procura de Mau Wong. estava em péssimo estado. e então eu e o jovem americano simplesmente impusemos as mãos sobre ele e oramos silenciosamente. para falar-lhe mais a respeito de Jesus. explicoume que. e depois lhe falamos de Jesus. e voltou daí a pouco trazendo consigo um homem de magro e chupado. Será que poderíamos orar por ele? Então oramos por aquele outro também. e o fez imediatamente. Não se achava em condições de ouvir-me falar de Jesus. Estávamos procurando um certo marginal. no Espírito. tinha de ganhar a . como era crente. Tive oportunidade de visitar Mau Wong várias vezes. um lugar onde os viciados em heroína se reuniam. Da segunda vez em que o vi. Mal termináramos de orar. Ele também quis receber a Cristo e seu Espírito. quando ele se ergueu. e em sua fisionomia surgiu uma expressão de espanto.Atravessamos a baía e chegamos à Rua Jordan. saiu correndo. Foi curado na hora. Podia afinal sentar-se tranqüilamente e escutar-nos. Mau Wong explicou que aquele seu amigo estava com dor de dente. e assim ganhava bastante dinheiro. Sentia forte dor de estômago e vomitava muito. Entramos num prédio que alardeava bordéis e dan-cings.

uma refeição gratuita. Era um dos homens que vendia heroína. Mas era só isso que queria. parando apenas para as refeições. respondi. e um bom grupo foi-se aglomerando ao nosso redor para escutar-nos. Quando saímos. ou para conversar com as pessoas que encontrávamos pelo caminho. e ele também. disse-me um viciado. Ah Wing nos acompanhou. Atravessamos a baía de volta e pegamos um micro-ônibus para ir a Chaiwan.vida de forma honesta. Sentei-me ali e pus-me a explicar o plano da salvação. pode arranjar-me uma Bíblia? Um velho indagou: — Onde posso ir para ouvir mais a respeito de Jesus e sua doutrina? — Você não precisa ir a um culto. para ouvir falar de Jesus. Depois passou a freqüentar regularmente nossas reuniões aos sábados. Eu mesma posso falar-lhe. Eu ia orando o tempo todo. O dia inteiro nós oramos sem cessar. pôs-se a orar também. Em Chaiwan. Eu estava-lhe . Receberam-nos como se já estivessem nos esperando. O velho aceitou a Jesus com a sinceridade de uma criança. fomos para um salão de drogas. e que iria tornar-se engraxate. Eu e o americano continuamos nossa ronda por Hong Kong. — Poon Siu Jeh. Paramos numa barraca de lanches para comer. O moço achava que orar num ônibus já era demais. mas depois do que vira na Rua Jordan. em voz baixa.

quando levantou o rosto. e continuou a orar por muito tempo. disse-lhe. Talvez. quero. acho que ele deve ter ressuscitado mesmo. — Está disposto a crer que ele ressuscitou dos mortos? — Bom. — Ah Wing. — Não tenho certeza.falando de Jesus. — Está disposto a crer que Jesus é o Filho de Deus? indaguei. perguntei: — O que foi que viu? . resmungou ele. — E você quer segui-lo? — Ah. vi que ainda estava orando. — E você crê que ele morreu por você? — Não entendo isso. fazendo um aceno ao americano. sua atitude mudou inteiramente. por que não pergunta a Deus se Jesus é o Filho dele ou não? Tenho certeza de que ele responderá. Suas feições tinham uma aparência celestial. aquiesceu. julgando que já havíamos orado o suficiente. procurando dar a entender que não tinha nada conosco. Mas. Quer crer? — Está bem. para que se juntasse a nós. quando viu a expressão do rosto de Ah Wing. Afinal. isto é. quando olhei para aquele traficante de drogas. se ele é mesmo o Deus yerdadeiro. Mas. — Isso não tem importância. O marinheiro fora sentar-se numa outra banqueta. ergui a cabeça. e pus-me a orar silenciosamente. replicou. Alguns instantes depois. é lógico. mas ele estava-se apressando para podermos ir logo comer.

para agir do modo que ele determinasse. quer nos mandasse ir para a China. não tínhamos onde abrigar aqueles que ganhávamos para Cristo. ou nenhuma. . cinqüenta. e todos bebiam. depois que desse baixa da marinha. nem roupas. Eles responderam que àquela altura poderíamos ter cinco casas. Na continuação de nossa caminhada. que Jesus havia dado seu corpo e seu sangue por nós. Estava sentado a uma longa mesa e havia outros homens em torno dela.— Bem. ou incumbisse-nos de instalar mais doze apartamentos para os rapazes. A maioria deles não tinha um lar. e depois um cálice de vinho. e acho que era Jesus. e meu amigo americano não precisou mais de argumentos sobre o valor de se orar no Espírito. até que ele acertasse a vida. Eu achava que tinha a responsabilidade de cuidar de cada um. E que estaríamos nas mãos de Deus. Muitas vezes. vi uma espécie de um quadro. lutavam com sérios problemas de personalidade. bem como vício de drogas e doenças diversas. Expliquei-lhe que aquilo significava. quando estava orando. Estavam passando uns para os outros um pedaço de pão. O marinheiro escreveu ao casal Willans indagando se poderia trabalhar conosco. mais duas pessoas se converteram.

senti que devia voltar a Chaiwan e procurar Ah Wing para fazer com ele um trabalho de consolidação. de modos brandos. Todos me trataram muito bem. Ele convidara membros de sua antiga quadrilha . Não o encontrei. o negócio que faziam era repulsivo. foi apanhado e sentenciado a trinta dias na cadeia. Conhecemo-nos no casamento de Johnny. mas vi Ah Kwan. que ele só poderia firmar-se. já que ele o ama mais que eu. o traficante. Ah Kwan disse que só poderia arrepender-se na semana seguinte. mas confiei plenamente em que Deus cuidaria dele melhor do que eu poderia fazê-lo.Mais tarde. Finalmente vim a crer que poderia deixá-los inteiramente aos cuidados do Senhor. que conversava com alguns traficantes de droga. pois precisavam dos lucros dos três dias seguintes. se eu pudesse fornecer-lhe uma atmosfera de segurança. Voltei então ao ponto de partida: primeiro. iria preso dentro de poucos dias. crera que Deus pode curar um viciado em drogas instantaneamente. Respondi-lhe que ninguém pode escolher a hora para se arrepender. embora Jesus os amasse e eu também. impeçavelmente vestido. mas senti que devia dizer-lhes que. Depois. Nunca mais vi Ah Wing. e que se ele não seguisse a Jesus imediatamente. Então espalhou-se em Chaiwan o boato de que eu era profeta. Um outro irmão carnal de Goko voltou do Canadá. Quatro horas depois. Era um homem alto.

de onde ele vem? Ele não cai do céu. Quando precisamos de dinheiro. cai? — Bem. Pullinger.para que seu casamento fosse um testemunho para eles. respondi. Crieime na Cidade Murada com esses rapazes. Isso se devia em parte ao fato de que muitos dos rapazes da 14K tinham-se convertido. que me entregou um envelope. explicando-lhe quem realmente fizera toda a obra. eu estava andando pela rua e uma pessoa me entregou esta carta. — Ah. e decidira estudar direito para ajudá-los. — Como resolve seus problemas de dinheiro? indagou ele um dia. O irmão de Goko entrou ali e logo gostou. — Está bem. isso até pode acontecer. . Nas noites seguintes. Prontamente recusei seus louvores. — Tenho que dar-lhe um aperto de mão. assistiu às nossas reuniões e conversou comigo. ta Sr. disse ele. oramos. Mas agora estou vendo que não há mais nada para eu fazer. Você já fez tudo. mas. Deus cuida de nós. Naquele momento bateram à porta e entrou um velhinho. — Poon Siu Jeh. disse-me o irmão de Goko. Muitos dos negócios ilícitos da Cidade Murada haviam-se fechado. Fomos caminhando pelas ruas da Cidade Murada em direção ao clubinho. repliquei. falando de maneira prática.

um ano antes. Mas a esposa dele não queria ficar à espera de que ele a encontrasse. sabendo que ele iria castigá-la severamente. Então raptou um filho dele com uma antiga amante. enviada por um homem que eu não conhecia e de quem nunca ouvira falar. Ele não quis prometer nada. Passei pelo lugar onde. Depois telefonou para ele e disse que devolveria a criança. pelos salões de drogas e jogatina. passando pelas prostitutas. Alguns meses antes. pelos cinemas pornográficos. e dentro havia a quantia de cem dólares. forçou o garotinho . falou. tinha presenciado um começo de briga entre dois desconhecidos. era apenas um monte de entulho. e ele ergueu as mãos. e logo colocou os quadrilheiros na pista do apartamento. Saí da cidade e passei pelo local onde estivera o prédio da Rua Lung Kong." E era só. Estava escrita em inglês: "Jackie Pullinger — Walled City (Cidade Murada). Abri-a. e saí por aquelas ruas sozinha. Mostrei aquilo para o irmão de Goko.Olhei para ela. e escondeu o garoto. „ Depois ele se foi. sua esposa havia desaparecido. — Eu me rendo. brandindo facões. Estava com muito medo de voltar para casa. após perder uma grande quantia em dinheiro no jogo. num apartamento. se ele perdoasse sua falta. de apenas quatro anos. Aterrorizada com o marido. Lembrei-me de que Goko morava no edifício do outro lado da rua.

Por isso não quero ser crente. mas quero ter certeza de que ele irá sustentar também os meus seguidores. roubar. Mas eu tenho que mentir. Mas estou certa . confessou ele. Tanto Goko como Sai Di tinham atitudes semelhantes com relação a Cristo. trapacear para sustentar minha família. e quando nos encontramos outra vez para tomar chá. mas pude sentir que sofria pela perda do filho. Eu tinha feito o propósito de ver Goko pelo menos uma vez por ano. E Goko disse-me que nunca falara de seus sentimentos a ninguém. apresentei-lhe minhas condolências. diziam eles. e já notei que a maioria ganha muito pouco em seus empregos. Fez uma expressão de desdém quando mencionei a esposa. os crentes. Sempre respeitei a opinião desses dois irmãos. e sei que os crentes não podem fazer essas coisas. e como queria tanto ganhá-lo e tocar seu coração.a beber veneno e depois bebeu também. Sei que Jesus pode me sustentar. — Como você sabe? Nunca contei a ninguém que tenho medo. e ambos morreram. porque. — Não estou dizendo que não creia em Jesus. se o fosse. e tenho orado para que eles vejam que Deus é suficientemente poderoso para suprir todas as suas necessidades. Percebi nele também medo da solidão. Mas tenho observado vocês. disse-lhe que percebera seus temores. mas o irmão canadense se confessava crente abertamente. queria ser um crente de verdade.

Os que tinham conhecido a Cristo. se aquele irmão deseja ser crente. onde os rapazes que continuavam a caminhar no Espírito se tornavam homens dignos de todo respeito e confiança. Mas sei também que a decisão de perservar ou não. em minhas conversas com Goko. CONTRACAPA . a fim de seguir seus próprios impulsos. Afastei-me da casa de Goko e dirigi-me para as Casas de Estêvão. então que seja um bom crente. tenho-o ouvido dizer: — Está bem. isso é com o rapaz.de que nenhum deles fará uma entrega pessoal insincera. Certa vez. Não quero que ele saia daqui hoje e volte amanhã. sempre acabavam tendo problemas. Mas que siga a Jesus direitinho. tudo bem. ah!. Se quer ser crente. Muitas vezes. mas deixavam as casas prematuramente. um viciado de Chaiwan resumiu tudo isso muito bem: — Ouvi dizer que Jesus faz o mesmo milagre para todos os rapazes que vêm a esse lugar.

desafiante e inspirador. Mas. que revela a fibra. Caça ao Dragão é um relato honesto. e Jackie tropeçou na descoberta de um novo método de tratamento para a dependência das drogas. o amor e a dedicação de uma jovem disposta a tudo para servir a Deus. E nessa área pequena e apertada vivem amontoadas pelo menos trinta mil pessoas — talvez o dobro. Editora Betânia Leitura para uma vida bem sucedida . não tinha a menor idéia de que Deus a estava levando para trabalhar justamente na Cidade Murada.. Ali florescem a prostituição. prostitutas largaram o ofício. a pornografia e o vício da heroína.Caça ao Dragão No coração de Hong Kong. encontra-se a temida Cidade Murada. Os forasteiros não são bem recebidos ali. verdadeiro inferno de tráfico de drogas e de jogatina ilegal. Quando Jackie Pullinger saiu da Inglaterra.. quando começou a falar de Jesus ali. A própria polícia tem receio de se aventurar naqueles domínios. rudes quadrilheiros se converteram.

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