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Psicologia da Comunicação

Aula 1 – Psicologia Social e Processos Interpessoais

Psicologia social X Sociologia

A psicologia social e seus principais objetos de estudo

Sabemos que a Psicologia Social se caracteriza pelo segmento da Psicologia que estuda os processos
relacionais, logo, podemos dizer que todos os trabalhos nesta área se fundamentam na relação com o
outro. As relações interpessoais estão presentes em nossas vidas desde o nascimento através de processos
de dependência e de interdependência, até nossa morte. Estas relações são fatores determinantes de vários
processos psíquicos, pois, além de definirem os aspectos relacionais, influenciam consideravelmente em
nossa própria estrutura interna de personalidade.

Processos Relacionais sob a Ótica do Conhecimento Científico da Psicologia

Apesar do vínculo relacional ser tão constante em nossas vidas, apenas com Lewin na década de 30
iniciou-se os estudos dos processos relacionais sob a ótica do conhecimento científico da Psicologia.

Antes disso, os processos psíquicos eram entendidos como exclusivamente interiores e pessoais, isto é,
sem a influência direta das relações na sua constituição. Esta visão deve-se em grande parte à Psicanálise
e sua influência de um modelo médico organicista aplicado aos processos psicológicos. Hoje em dia, a
compreensão destes processos é praticamente oposta ao modelo citado.

As relações adquiriram uma importância tal na construção dos processos psicológicos que temos
abordagens tais como a da escola francesa de psicologia que, por exemplo, considera que a personalidade
não é algo que os indivíduos possuem, mas sim, algo que exibem na relação com o outro.

Isto é, a personalidade construída como um mecanismo relacional.

Para o Behaviorismo de Watson, a personalidade é um conjunto de condicionamentos aprendidos através


das relações e assim por diante, temos uma série de modelos que consideram as relações como não só
influentes, mas determinantes nos processos mentais.

Principais processos psíquicos


Dentre os principais processos psíquicos que hoje podemos considerar como determinados pelas relações
interpessoais temos os seguintes:
- O Outro como Fator de Segurança: Proveniente do comportamento infantil, aonde há total
dependência de um adulto. Desta forma nos acostumamos a perceber o outro como um apoio as suas
necessidades ou inseguranças.

- O Outro como fator de influência na personalidade: Concepção baseada em conceitos pelas quais a
personalidade é exclusivamente um produto da interação social, como nas teorias culturalistas.

- O Outro como fator de equilíbrio psicológico: O outro é visto como modelo e o sentimento de
normalidade se dará em função da equiparação da pessoa com o senso comum.

- O Outro como fator motivador de ações e atitudes: A ação é a realização será ao contexto relacional
( códigos culturais) que motivou a intenção.
Comportamento social

O modo como as relações dos processos psíquicos  se estabelecem é, inicialmente, através de certos
comportamentos que produzimos em função do outro, ou mesmo em função de nossas próprias
expectativas sociais, ou seja, em função do modo como queremos que os outros nos percebam. A estes
comportamentos chamamos de comportamento social. Assim, o que difere um comportamento social de
um não social, não é propriamente a ação realizada, mas sim, a intenção que motivou a ação.

Procurar uma sombra em um dia de sol forte pode não ser um comportamento social se a motivação
estiver em uma sensação desagradável do sujeito.Pode ser um comportamento social, se a motivação
estiver no fato dele não querer transpirar na roupa, pois se dirige a um encontro importante.

ATENÇÃO:
São exatamente estes comportamentos sociais que nos conduzem a um processo tão comum e, ao mesmo
tempo, talvez um dos mais complexos nas sociedades humanas: A formação de GRUPOS.

Grupo: Primeiramente, torna-se necessário uma definição mais precisa do que seja GRUPO.
É o nome dado ao espaço psicológico aonde o individuo se relaciona com o social. Ogrupo ou não-grupo,
está dentro de nós,em nosso psiquismo.

Uma vez instituído o grupo, passam a ocorrer processos que se caracterizam pela bi-direcionalidade, ou
seja, são processos relacionais que atuam ao mesmo tempo na direção do sujeito para o grupo e do grupo
para o sujeito.

São eles:

Coesão: É a pressão resultante das forças que agem sobre o sujeito para que este permaneça ligado ao
grupo. Foram detectadas por estudos experimentais três destas forças como principais fontes de
COESÃO: ATRAÇÃO PESSOAL ENTRE OS COMPONENTES, ATRAÇÃO PELA TAREFA FIM
DO GRUPO e ATRAÇÃO PELO PRESTÍGIO DO GRUPO. A primeira caracteriza-se pela afinidade que
possa existir entre os membros. A segunda considera que os grupos tem, invariavelmente, uma proposta
fim, seja a manutenção de uma família ou a construção de um projeto espacial e, a força de coesão seria o
interesse do sujeito pela obtenção do objetivo do grupo ao qual pertence. A última assinala como fonte de
permanência em um grupo um interesse de ordem pessoal, de orgulho ou talvez vantagens, que o
indivíduo possa usufruir por pertencer a um determinado grupo.

Coalizão: É o processo pelo qual diferenças individuais de poder pessoal são anuladas pela integração de
seus membros. A coalizão se dá entre alguns membros de um grupo com o objetivo de equilibrar o poder
no conjunto grupal. A título de exemplificação, tomemos como grupo, os partidos políticos. É bastante
frequente vermos o partido “A” fazer uma coalizão com o partido “B” para equilibrar uma votação aonde,
se sabe, que o partido “C” tem opinião contrária e muitos membros votantes. A união de forças
tecnicamente não visa derrotar um membro, mas sim equilibrar o grupo (Se “C” > “A” e “A” = “B”, a
coalizão “AB” (A + B) será > ou = “C”).

Comunicação: A comunicação grupal refere-se ao nível de acesso e influência direta exercida por um
membro do grupo em relação aos demais. A comunicação está diretamente relacionada à eficácia do
funcionamento do grupo, isto é, quanto maior comunicação, mais eficácia.  
Existem dois tipos de comunicação entre os membros de um grupo.
CENTRALIZADA, quando um membro do grupo detém e centraliza a comunicação com os demais.
DESCENTRALIZADA, quando a comunicação é igualitária entre os membros, ou seja, não há
necessidade da interferência de um membro para que qualquer outro se comunique com os demais.
Normas: São padrões ou expectativas de comportamento partilhadas pelos membros de um grupo.
Todo grupo tem necessariamente que produzir normas para a sua manutenção. Mesmo que não
conscientemente, as normas são fixadas em função de vários fatores, mas de modo geral, reproduzem e
substituem as diretrizes do poder dominante. As normas podem ser EXPLÍCITAS, isto é, diretas como as
regras de um jogo, ou IMPLÍCITAS, não diretas, como em uma relação conjugal.

Liderança: Durante muito tempo, acreditou-se em teorias que baseavam a liderança em traços de
personalidade (inteligência, dominância, autoconfiança, etc...), hoje, são mais aceitas as teorias que
consideram a chamada LIDERANÇA EMERGENTE, segundo as quais, a liderança é fruto da interação
entre os membros do grupo e surge em função de seus objetivos.  Em outras palavras, o líder é definido
pelo grupo como aquele que apresenta melhores condições de encaminhar o grupo ao seu objetivo.
Mudando-se o objetivo do grupo, este se reorganiza sob nova liderança (que não precisa ser
necessariamente uma liderança formal).

Status: Prestígio desfrutado por um membro do grupo. O Status refere-se à POSIÇÃO do sujeito no
grupo. Pode ser SUBJETIVO, que representa uma visão pessoal do sujeito sobre si mesmo, ou SOCIAL,
que é o resultado do consenso do grupo acerca do indivíduo.
O Status subjetivo pode ou não corresponder ao Status social. O Status é sempre conferido em função da
natureza do grupo. Isto é, dependendo da característica do grupo, certas características pessoais podem ser
mais ou menos valorizadas pelos demais, o que determinará o Status do sujeito no grupo.

Papel: Diretamente relacionado ao Status, o Papel representa o conjunto subjetivo de atributos


organizados e construídos pela FUNÇÃO do sujeito no grupo.
Assim como o Status, o Papel também pode ser subjetivamente atribuído pelo sujeito a si próprio, ou
coerente às expectativas do grupo.

Animais sociais

Para entendermos os processos relacionais, torna-se importante, ainda, considerarmos que o homem,
como qualquer animal social, possui certas características de vínculos grupais que pertencem à natureza
destes animais. Assim, uma rápida noção sobre a abordagem etológica pode nos ser útil no sentido de
verificarmos alguns destes procedimentos grupais que independem da cultura do grupo, uma vez que
pertencem ao conjunto de condutas instintivas das espécies sociais. Ao final do século passado, os
homens de ciência que pesquisavam o comportamento animal tiveram contribuições significativas de
teóricos de abordagens reflexológicas, como Pavlov, e behavioristas, como Watson.  

A limitação, no entanto, estava no fato de que estes cientistas estudavam as reações dos animais em
situações artificiais de laboratório. Seus trabalhos visavam mais a comparações reflexas com o ser
humano do que propriamente à análise das próprias estruturas comportamentais dos agrupamentos
animais. Esta lacuna foi preenchida pela Escola Objetivista de Lorenz, que passou a estudar o
comportamento dos animais em seu próprio habitat, através da observação de seus ritos, sua
aprendizagem social e as posteriores correlações entre o inato e o adquirido. Destas observações de
Lorenz e sua equipe, foi possível determinar a existência de uma série de comportamentos naturais de
organização social. Estes comportamentos estão presentes na maioria dos grupos sociais,
independentemente de suas espécies, desde que, evidentemente, se refiram a animais sociais, incluindo
nisso o homem.

Comportamentos de organização do grupo social


A importância, para nós, da existência dos comportamentos sociais inatos, é a consciência de que são
condutas que, por serem naturais, estarão sempre presentes nos grupos sociais e, portanto, é lícito
considerarmos a existência destas condutas em nossas análises dos processos sociais.
Vale lembrar que são todos comportamentos de organização do grupo social, o que irá variar segundo o
aspecto cultural são os modos como estes comportamentos serão efetuados.
Vamos a eles:

Hierarquia social:
Aqui, mais do que talvez em qualquer outro, é importante lembrar que a existência de uma hierarquização
é natural e necessária a qualquer grupo. No entanto, os fatores que irão determinar quem ou quais as
características que serão necessárias a um melhor lugar na escala hierárquica estes sim, são culturais, e,
portanto, variáveis de grupo para grupo.

Preservação territorial:
Refere-se ao comportamento de demarcação e proteção do território do grupo. Esta conduta propicia o
domínio sobre os limites do território e “avisa” a outros grupos que estão impedidos de entrar naquele
espaço. O processo de construir muros nas casas é o exemplo humano do mesmo procedimento de
preservação territorial que faz o cão urinar em torno de sua área para definir um espaço pessoal.
É interessante notar que o conceito de território pode se referir ao Território Grupal, protegido pelo grupo
todo, como ao Território Individual, composto pelo espaço pessoal de cada um, como uma espécie de
bolha imaginária que nos cerca e delimita o espaço de quem nós autorizamos ou não a aproximação
(física ou psicológica).

Cooperação social: Diz respeito ao comportamento pelo qual o grupo se une para a produção de uma
ação que trará benefício para todos os membros.

Preservação da Prole: O comportamento de proteção à infância tem a função de permitir a


aprendizagem “teórica” antes dos filhotes necessitarem enfrentar a realidade. Ou seja, é uma conduta
preparatória para a vida. Absolutamente necessária e fundamental para a preservação da espécie.

Comunicação social: É o comportamento que permite o estabelecimento de uma comunicação entre os


membros de um grupo. Sem ele, o grupo não conseguiria desenvolver qualquer ordem em suas relações.
Independente do tipo da comunicação (gestual ou vocal), esta conduta permite, por exemplo, a
transmissão de informações, a aprendizagem e até mesmo o reconhecimento de membros do grupo.
Grande parte da comunicação humana, principalmente no que diz respeito à comunicação gestual, é
independente da tipologia cultural. Estudos transculturais revelam uma espetacular coincidência de
condutas gestuais semelhantes para a intimidade afetiva, cumprimentos, relações hierárquicas de
dominação e submissão, etc... além de uma comunicação vocal também praticamente idêntica para a
expressão de sensações físicas como a dor (grito), por exemplo, ou psicológicas como a alegria ou a
satisfação (risos).

O Processo Civilizatório
Categorizados os comportamentos naturais de organização social, inerentes às espécies sociais, vejamos
agora o modo como estes indivíduos se relacionam com o seu meio ambiente e assim, compreendermos
um pouco do processo civilizatório.
Dois aspectos estão presentes na evolução e no desenvolvimento de espécies animais deste gênero:

O aspecto biológico, intrínseco à natureza orgânica da espécie e condicionado às transformações internas


da estrutura biológica da espécie como um todo. São modificações lentas em uma escala de evolução
natural que caracterizam as transformações biológicas decorridas nas espécies com o passar do tempo.
O aspecto social, dependente da natureza interna (genética) e/ou externa (fatores ambientais) e decorrente
de impulsos naturais (instinto gregário). Estas características produzem as sociedades animais,
compreendidas como uma totalidade de indivíduos que se agrupam em coletividade e determinam regras
de atuação comum em relação aos membros da coletividade e/ou ao meio em que vivem através,
unicamente, de instintos vinculados à sobrevivência.

ATENÇÃO:
Estes dois fatores, intercalados, ou seja, a estrutura biológica que propicia uma relação ambiental mais
sofisticada associada aos comportamentos sociais é que determinam e possibilitam a algumas espécies
viverem em sociedades.

Aspecto Cultural
O homem, como já vimos, encontra-se inserido neste grupo de animais, o que significa que para nós,
viver em sociedade não é exatamente uma opção, mas sim um determinante biológico, portanto natural. A
espécie humana, entretanto, possui um terceiro aspecto que o distingue das demais espécies sociais, é o
aspecto cultural.

Decorrente de nossa atividade intelectual, o aspecto cultural pode ser traduzido como o processo de
construção consciente das regras de uma sociedade, capaz de diferenciá-la e individualizá-la em relação a
outros grupos sociais da mesma espécie.
O aspecto cultural, portanto, tem se demonstrado o fator diferencial no desenvolvimento das civilizações,
ou seja, o modo de organização das estruturas sociais é que irá definir uma alteração nas características de
um grupo social.

Animais Sociais
Entre os animais sociais, portanto, existe sociedade, mas não cultura, o que significa que a espécie toda
atua sobre o ambiente e constrói suas relações sociais de modo constante e uniforme, sem diferenciação
geográfica ou temporária e, consequentemente, sem possibilidade de reconstrução de sua ordem social
por intermédio de reminiscências de sua “cultura”.

O que já não ocorre com a espécie humana que, como no caso do antigo Egito ou em outras sociedades
extintas, podemos saber perfeitamente todos os esquemas sociais que regiam aquela sociedade através de
seus códigos culturais (idioma, símbolos, emblemas, deuses, adornos, etc...) que sobreviveram à própria
sociedade que os criou.

Edgar Morrin
A identidade social, produzida pelas relações parentais e pela tradição (costumes particulares, códigos
culturais) de um grupo, será reforçada pelo confronto com outros grupos sociais que, embora de
organização social semelhante, se diferenciam em seus modos de organização.

“... a cultura define a identidade individual e a social, não só por sua própria imagem, mas também por
oposição à da cultura estrangeira”.

Identidade Social
Uma vez estabelecida uma civilização (grupo sociocultural), seu desenvolvimento será baseado
fundamentalmente em uma tríade de desenvolvimentos que se relacionam entre si.
São eles:
Desenvolvimento Tecnológico: Refere-se aos progressos técnicos existentes em uma sociedade desde
suas formas mais elementares às mais complexas. Dá-se de modo sequencial, irreversível e cumulativo.

Desenvolvimento Social: Diz respeito às relações instituídas entre a tecnologia empregada pela
sociedade para o progresso social de sua população e as formas como estas relações se estabelecem ao
nível interno e, por extensão ao nível externo com outras sociedades. Isto é, diz respeito à parcela da
população que se beneficia da tecnologia existente naquela sociedade.

Desenvolvimento Cultural ou Ideológico: Determinado pelo conjunto de crenças e valores produzidos


ideologicamente pelas relações sociais em razão da interação dos desenvolvimentos citados. Isto é, os
valores sociais que surgem pela relação entre o desenvolvimento tecnológico e o desenvolvimento social.

Aula 2 – Os Processo de Subjetivação

Desenvolvimento Psicológico

A linguagem é, sem dúvida, um dos mais importantes processos de mensuração do desenvolvimento


psicológico como um todo e do cognitivo em especial.

A linguagem possibilita e representa a capacidade da pessoa em relacionar-se e extrair relações de sua


realidade. Não devemos considerar esta afirmativa, no entanto, sob uma ótica simplória da linguagem
verbal (domínio do discurso falado), ou incorreríamos no absurdo de avaliar o desenvolvimento de uma
criança muda como nulo. Devemos sim, compreender a linguagem como a estrutura capaz de dar
simbolismos ao real. Isto é, o modo pelo qual nossos referenciais da realidade se introjetam em nossas
mentes.

Conjunto de códigos

Como todo símbolo, a linguagem implica em um conjunto de códigos que necessitam ser interpretados
para que cumpram sua função comunicativa de transmissão de mensagens e, ao interpretarmos algo,
sempre damos também ao símbolo uma representação subjetiva. Em outras palavras, tudo que implica em
decodificação carrega consigo uma forte carga subjetiva, na medida em que podemos estabelecer a
relação entre significado e significante de diversas maneiras.

Linguagem e Desenvolvimento Cognitivo

Ao contrário do que se considerava há algum tempo, relacionar o papel da linguagem ao desenvolvimento


cognitivo como um todo é trabalhar em uma via de mão dupla.

A linguagem é proporcional ao desenvolvimento biológico, psíquico e cognitivo. Assim como o


desenvolvimento biológico, psíquico e cognitivo são proporcionais à linguagem.

Ou seja, quanto mais desenvolvimento, mais sofisticada a linguagem e vice-versa. As teorias sobre
linguagem e desenvolvimento, ou como preferem os mais tradicionalistas, sobre o desenvolvimento da
linguagem, dividem-se basicamente em duas correntes bem diferentes. Uma ligada ao Behaviorismo e
outra chamada de Psicolinguística, como veremos a seguir.

Behaviorismo de Skinner

Pelo lado das teorias behavioristas, destacam-se as provenientes do condicionamento aplicadas à


linguagem, proposta por Skinner e seus seguidores. Segundo este modelo, a aquisição da linguagem se dá
a partir de necessidades primárias que vão sendo saciadas nas crianças a partir das primeiras vocalizações,
como uma espécie de reforço.

Corrente Behaviorista

A criança se condiciona a repetir um determinado som para receber líquido quando tem sede ou outro
diferente quando tiver fome. A própria vocalização dos pais também estimula a criança, através de um
comportamento imitativo, a repetir sons específicos. De modo geral, as manifestações de alegria e carinho
que a criança percebe dos adultos, quando imita um som, também funcionam como reforço afetivo. Com
o passar do tempo, os adultos vão se tornando mais exigentes na perfeição do fonema para proporcionar à
criança a mesma recompensa. Assim, se a princípio o som áua era o suficiente para receber o líquido,
alguns meses mais tarde a criança será estimulada a sofisticar sua pronúncia para ága, e posteriormente,
para “água” a fim de obter a mesma recompensa.

ATENÇÃO:
Para os Behavioristas, este processo vai se sofisticando e formando relações. Palavras isoladas vão se
compondo em pequenas frases, que significam uma sequência de eventos.
Por exemplo: a criança aprende a palavra “homem” e a palavra “corre”.
Ao ver um homem correndo, ela organizará as palavras em uma sentença lógica: “o homem corre”. Ao
mesmo tempo, a criança vai aprendendo, também por condicionamento, o sentido das palavras. A palavra
"não" fica associada com punição.
Um experimento associou a palavra “grande” a um estímulo aversivo em crianças, após o
condicionamento, qualquer objeto “grande” era temido por aquelas crianças. Com isto, procuraram
demonstrar que o significado das palavras é obtido através do condicionamento de suas representações.

Corrente Psicolinguística

Pelo lado da Psicolinguística, as principais teorias são provenientes de Chomsky e sua “gramática
transformacional gerativa”. Para eles, haveria uma espécie de “pré-programação” do cérebro humano para
a linguagem.Isto é, todas as pessoas já nasceriam com uma predisposição à utilização da linguagem. Esta
predisposição seria apenas moldada aos símbolos específicos da cultura nativa da criança.O principal
argumento utilizado é que mesmo crianças que ainda não tiveram qualquer tipo de aprendizagem acerca
de regras gramaticais são capazes de inferir regras para a construção de suas frases.

Até os 18 meses, o desenvolvimento da linguagem é muito lento, e o vocabulário de uma criança média
pode variar entre 3 e 50 palavras. Com a “explosão”, a criança pula para um vocabulário de cerca de
1.000 palavras que são de seu uso cotidiano, mais umas duas ou três mil que compreende, mas não utiliza.

Para Lenneberg, esta “explosão” não pode ser tida como fruto de aprendizagem ou condicionamento de
imitação, mas é antes uma evidência de que a linguagem se desenvolve a partir de um cronograma
biológico que lhe propiciaria a estrutura do discurso falado.

ATENÇÃO: Seja qual for o modelo teórico, o desenvolvimento psicológico é sempre acompanhado por
uma paridade linguística e, a linguagem é tida como o domínio do simbólico e como principal fonte de
comunicação entre os indivíduos.

Aspectos subjetivos
O que podemos observar, nos modelos que procuram explicar a linguagem, é que existem aspectos
presentes na representação dos símbolos que são profundamente variantes, sejam no modo como os
interpretamos ou os codificamos, seja no modo como os construímos. Muitos destes aspectos subjetivos,
presentes tanto na transmissão quanto na recepção de um símbolo são inconscientes, ou seja, fogem do
domínio de nossa análise consciente e racional.

Breve entendimento
Vale a pena, neste ponto, um breve entendimento deste conceito da Psicanálise, para entendermos o
porquê de alguns fatores da linguagem e de nossas vidas como um todo estarem fora do controle de nossa
razão. Nos sistemas teóricos que a Psicologia formulou antes da Psicanálise, a consciência estava
vinculada a um aspecto orgânico (ligada aos órgãos dos sentidos). A Psicanálise se caracteriza por
abandonar esta abordagem e, influenciada pela Medicina, passa a interessar-se pelos aspectos patológicos
(relativos às doenças) do psiquismo.

Inconsciente: Sigmund Freud (1856-1939) era originalmente um neurologista que, interessado em


doenças mentais, foi em 1885 a Paris estudar com Charcot, um renomado médico, que desenvolvia na
ocasião um trabalho de tratamento da histeria através da hipnose.
Posteriormente, Freud abandona a hipnose e, juntamente com seu colega e também neurologista Breuer,
desenvolve o método de ASSOCIAÇÕES LIVRES, onde o paciente é estimulado a falar a primeira coisa
que lhe vier à mente ao ouvir determinados termos.
A partir de seu interesse pelo inconsciente, Freud passa a estudar a interpretação dos simbolismos dos
sonhos e descobre que estes funcionam como formas de realização de desejos não conscientes das
pessoas. No decorrer deste modelo de análise, Freud percebe que a consciência esbarra frequentemente
em censuras.
A existência destas censuras fez com que ele esboçasse as primeiras noções do INCONSCIENTE como
sendo um processo de censura do consciente para ocultar a natureza sexual das neuroses.

1ª Tópica Freudiana:
A chamada 1ª Tópica Freudiana se divide em:

CONSCIENTE: Aquilo que está presente na consciência. Tudo o que a pessoa sabe sobre si, seus
motivos e suas condutas.
PRÉ-CONSCIENTE: Mais próximo do consciente e sem sofrer a pressão do recalque, pode tornar-se
consciente pelo processo da ASSOCIAÇÃO sem produzir muitos conflitos profundos e, portanto, não
apresenta grave resistência do consciente.
INCONSCIENTE: Constituído por material recalcado, reúne sentimentos e desejos que, apesar de
constituírem as verdadeiras causas das atitudes e condutas, necessitam permanecer fora da consciência
para que não produzam conflitos no indivíduo.

2ª Tópica Freudiana
A 1ª Tópica é transformada por Freud de modo a incorporar-se especificamente ao recém-descoberto
conceito de LIBIDO (energia vital). Seu esquema se substitui pela chamada 2ª TÓPICA, na qual Freud
estabelece as estruturas que irão compor a personalidade para a Psicanálise. Essas estruturas são:

ID: Instinto do prazer, fonte de desejos básicos e egocêntricos; puramente inconsciente.


EGO: EU, estrutura central e mais consciente da personalidade. Visa satisfazer os desejos do ID sem
produzir conflitos com o SUPEREGO.
SUPEREGO: Instinto da realidade. Constitui-se das regras, normas e valores sociais.
Funciona como o aspecto da repressão dos desejos.
A Percepção

No início do século XX, surge um sistema teórico na Psicologia chamado de Gestalt. Os trabalhos sobre a
percepção constituíram desde o início as bases deste sistema.  

Em 1910, Max Wertheimer descobre a tendência visual ao que chamou de “fechamento das formas”. Por
este fenômeno, Wertheimer faz referência ao processo neurológico pelo qual, diante de uma forma
geométrica inacabada, nosso cérebro tende a “finalizar” o desenho.
Koffka e Kohler descobrem que toda percepção corresponde a uma relação de uma figura sobre um
fundo. É bem conhecida a figura na qual podemos visualizar uma taça ou dois rostos frente a frente,
dependendo de focarmos nosso olhar em uma parte ou outra do desenho.

Tanto o fechamento das formas quanto a relação figura-fundo são processos cerebrais (neurológicos), mas
os gestaltistas descobriram também que os fenômenos psíquicos possuem funcionamento semelhante aos
processos cerebrais por serem deles oriundos, e chamaram este conceito de Isomorfismo. Em outras
palavras, o modo como percebemos uma situação de vida também sofre as mesmas influências da
percepção de formas. Dependendo de onde focarmos nossa perspectiva, podemos ter um entendimento ou
outro da mesma situação.

Percepção e subjetividades
Além da conceituação funcional do processo, a Gestalt também nos levou às principais características
deste processo. Isto é, como ele ocorre em termos de sua estrutura interna.
Seguem algumas destas características, para que possamos frisar o quanto nossa percepção é sujeita às
subjetividades:

Esta característica refere-se ao principal conceito da Gestalt, segundo o qual “o todo é mais do que a soma
de suas partes”.
Para uma melhor compreensão deste conceito, devemos considerar que um objeto é composto por partes.
No entanto, não basta agrupar desordenadamente estas partes para termos o objeto.
É preciso que as partes estejam organizadas dentro de certas especificações e, ao agrupá-las assim, temos
mais do que partes. Temos um objeto novo, que não tínhamos antes de aquelas partes se unirem daquela
forma. Assim também funciona a percepção: ao visualizar um objeto ou ouvir uma música, não
percebemos de modo isolado as partes do objeto ou as notas musicais, mas sim o objeto ou a música
como uma coisa única e inteira.

A figura sobrepõe-se ao fundo: O que será figura e o que será fundo depende de uma série de fatores
pessoais do percebedor. Entretanto, o que esta característica estabelece é que, em qualquer universo
perceptivo, o indivíduo ressaltará um fragmento como principal (figura), e este será percebido como
relevante. Outros fragmentos deste mesmo universo perceptivo serão considerados como um cenário no
qual o principal acontece (fundo), e não serão percebidos ao nível da consciência.

A percepção tende às formas fortes e/ou geométricas: Torna-se muito mais fácil uma percepção nítida de
um dado objeto quando sua forma não contém contornos excessivos e de difícil compreensão.
Formas simples, geométricas e fortes, em termos de impacto sensorial, são percebidas instantaneamente e
facilmente memorizadas (como por exemplo, os logotipos criados pelos publicitários para os produtos).

A passagem das formas se dá de modo brusco: A percepção de um objeto novo só se impõe na


consciência quando os elementos que o compõem já formaram um conjunto definido.
Isto é, só temos uma percepção mais exata de um objeto quando este já está constituído em sua forma
final. Objetos que demoram a se constituir em uma forma final definida tendem a não serem percebidos
pelas pessoas como uma unidade.

Alteração ou tendência das percepções

É importante frisar que todas estas características aplicam-se em função do Isomorfismo. Tanto as
percepções oriundas diretamente de órgãos sensoriais (visão, audição gustação, tato e olfato) quanto as
percepções de situações psicológicas e emocionais. Alguns fatores influenciam no processo perceptivo.
Ou seja, não chegam a ser características por não pertencerem diretamente ao processo, mas podem
alterar ou tendenciar a percepção. São eles:
A posição do observador em relação ao objeto: Esta posição pode referir-se ao aspecto físico como
também ao aspecto cultural.

O conhecimento intelectual do observador em relação ao objeto: É interessante frisar que uma informação
acerca do objeto sempre influencia na percepção deste, mesmo quando esta informação está errada. Ou
seja, aqui, a veracidade ou não das informações não importa. Havendo informações, a percepção será
necessariamente influenciada por elas.

Experiências afetivas do observador em relação ao objeto: Independentemente de terem sido positivas ou


negativas, sempre que o observador tiver vivenciado alguma experiência afetiva em relação ao objeto,
esta experiência ira influenciar em sua percepção. Evidentemente, se a experiência foi positiva , ele
tenderá a perceber o objeto como mais agradável do que se a experiência tiver sido negativa.

A Percepção é o mais importante dos processos cognitivos por ser, digamos assim, a porta de entrada da
realidade. Tudo o que compreendemos está necessariamente acompanhado do “modo como nós
percebemos”. A Percepção irá atuar diretamente não só na compreensão das coisas, como também em
todos os demais processos que são oriundos de nossos entendimentos, como o modo pelo qual
construímos nossas condutas e até mesmo as características de nossa personalidade.

Aula 3 – A Linguagem como Instrumento de Racionalidade e do Saber

Linguagem: Vinculada à memória, a linguagem vai codificar as informações estocadas e armazenadas e


acioná-las de modo imediato através de conceitos compreensíveis dentro de uma função comunicativa.
De modo amplo, consideramos como linguagem toda e qualquer modalidade de comunicação entre os
seres.

Como se divide o Sistema Nervoso Autonômico?


Temos, portanto, uma linguagem gestual, por exemplo, que apesar de não utilizar-se de palavras as
substitui por gestos que tem a mesma finalidade. A linguagem verbal, ou oral como preferem alguns, não
é diferente de nenhuma outra modalidade de linguagem. Resume-se a um conjunto de códigos aprendidos
e compartilhados por um dado grupo social que visa o estabelecimento de comunicação conceitual entre
seus membros.

Termo e objeto
A linguagem vai funcionar de modo a transformar um conceito em um código comunicável mais
facilmente do que se houvesse a necessidade de expor o sujeito ao contato direto com o conceito ou
objeto que se deseja comunicar.
Tecnicamente temos, portanto, duas esferas que se interligam. O termo, é a palavra que representa o
objeto (ou conceito); e o objeto (ou conceito) que é aquilo que a palavra está representando .

Signo linguístico
Saussure, irá ainda aprofundar esta construção da linguagem considerando o signo linguístico (a
representação do objeto) como composto por significado, que seria o conceito que o termo representa e
por significante que seria o termo em si, composto por sua cadeia de sons.
A linguagem, portanto, vai utilizar-se de signos (sons que representam conteúdos) para representar
objetos ou aspectos não materiais da realidade.

Por exemplo, a palavra “elefante” aciona no indivíduo todo o quadro mnemônico (relativo à memória)
referente aquele animal. Sem que haja necessidade do comunicador da mensagem colocar o ouvinte
diante do animal para que possa se fazer entender em relação ao objeto que pretende se referir.
ATENÇÃO: Apenas a título de fixação, vale ressaltar que o signo não necessariamente é uma palavra,
mas qualquer código que represente o objeto. É através da linguagem que o chamado pensamento
operatório executa as operações mentais mais complexas. Vejamos como isso ocorre nas telas seguintes.

Estruturas do pensamento
As estruturas que caracterizam o pensamento teriam suas raízes na ação e em mecanismos sensório
motores mais profundos que a linguagem. Por outro lado, quanto maior o refinamento destas estruturas do
pensamento, maior também a necessidade da linguagem para sua elaboração.
A intervenção da linguagem é necessária porque sem ela, não haveria um sistema de expressão simbólico
e as operações ficariam estagnadas ao estado de ações simultâneas e permaneceriam individuais,
ignorando as funções de interação e troca interpessoal entre indivíduo e ambiente.

ATENÇÃO: Uma forma fácil de compreendermos esta relação é a comparação com aspectos biológicos.
Deste modo a respiração, a circulação sanguínea, o batimento cardíaco, etc. pertencem a um sistema
integrado de sustentação vital. Apesar de serem todos necessários ao conjunto, não são suficientes de
modo isolado à manutenção da vida.

Vemos, portanto, que a linguagem, para Piaget é posterior ao pensamento e assim, não é a fonte causal do
processo operacional, entretanto, exerce uma função indispensável a este processo: a simbolização da
ação concreta.

Novas estruturas na organização psíquica


Com o advento da linguagem, surgem duas novas estruturas na organização psíquica: a Representação e a
Esquematização, que corresponde à inserção dos pbjetos e fatos num âmbito conceitual, isto é, os
conceitos.
Sabemos que o fato de conceituar é que permite à criança a produção de classificações e categorizações,
assim, os esquemas mentais e as operações necessitam desta função para o desenvolvimento de suas
estruturas lógicas.
Um segundo argumento, refere-se à relação de dependência entre operações intelectuais e ações.
Piaget considera neste argumento as operações concretas, que surgem por volta dos 7-8 anos e é o estágio
que se caracteriza pelo surgimento das classificações, seriações e correspondências.
Segundo ele, estas operações como, por exemplo, as de reunir e dissociar são, antes de se tornarem
operações do pensamento (simbólicas), ações propriamente ditas. A criança as executaria ao nível
perceptivo e através da manipulação experimental antes de formulá-las no plano verbal. A linguagem,
portanto, não poderia ser a causa de sua formação.

Um último argumento refere-se às operações formais, estas, surgidas por volta dos 11-12 anos, baseiam-
se em raciocínios lógicos e independentes dos objetos concretos, estariam, portanto, em uma relação mais
direta com a linguagem.
Estruturas de Conjunto
Piaget, entretanto, nega também que seja a linguagem a responsável pelo surgimento desta categoria
operacional pelo fato de que para ele, o que caracterizaria as operações lógicas do ponto de vista
psicológico, seria sua reunião em sistemas ou estruturas de conjunto e não seriam constituídas por
elementos isolados. Estas estruturas de conjunto, apesar de mais simples, já estariam presentes nas
operações concretas e a passagem para o estágio mais sofisticado das operações formais só dependeria da
introdução de uma estrutura combinatória.
Esta estrutura combinatória, também apareceria tanto no plano verbal quanto no não verbal e, portanto,
não se poderia afirmar que dependa da linguagem, alias, pelo contrario segundo Piaget, é o acabamento
das operações combinatórias que permitiria ao sujeito completar as suas classificações verbais.

Desenvolvimento do pensamento operatório


O processo operacional, desde as suas estruturas mais simples como a seriação, até as mais sofisticadas,
como as estruturas ideológicas, utilizam-se da linguagem após sua elaboração e não para a sua
elaboração.
É a capacidade combinatória do pensamento, mais ligada ao desenvolvimento das condições cognitivas
como um todo e vinculada à inteligência como característica adaptativa de solução de problemas, mais do
que a linguagem, as responsáveis pelo desenvolvimento do pensamento operatório.
As posições teóricas de Piaget não são aceitas unanimemente por todos os teóricos do desenvolvimento.

Entretanto, sua originalidade e principal contribuição, independente de estar ou não certo acerca destes
processos, reside no fato de ter estabelecido uma especificidade do conhecimento que se reporta mais às
estruturas do processo do que com perspectivas que partam unicamente da observação de condutas e
comportamentos objetivos do tipo Behaviorista.

Tipos de linguagem
Lev Vygotsky inicia sua teoria reportando-se aos conceitos Piagetianos e contradiz o materialismo
afirmando que linguagem e pensamento são processos distintos e independentes.
Uma de suas contribuições mais importantes foi a distinção entre dois tipos específicos de linguagem,
uma das quais levou, mais tarde, Piaget a desenvolver o conceito de linguagem egocêntrica.
Estes dois tipos de linguagem estavam vinculados às funções que Vygotsky descrevia acerca da
linguagem.

Primeira função: Uma destas funções era a comunicação e, portanto, necessitaria de uma linguagem
socializada e capaz de sustentar uma troca verbal entre o sujeito e um interlocutor.

Segunda função: A outra função, no entanto, não apresentava um caráter exterior por não exercer um
funcionamento de contato entre o sujeito e o mundo externo, mas sim, uma característica de organização
pessoal e interior do pensamento. Este tipo de função organizadora do mundo interior é que veio a ser
denominada de linguagem egocêntrica.

Vygotsky X Piaget

Para Vygotsky enquanto na linguagem socializada, a criança faz trocas com o outro: pergunta, pede,
ameaça, dá e solicita informações, na linguagem egocêntrica, a criança fala para si própria, não tem
interesse pelo interlocutor, não espera nenhuma resposta externa e normalmente, nem se preocupa se está
sendo ouvida ou não. Outra discordância de Vygotsky em relação a Piaget refere-se ao fato de que para
ele, esta linguagem não desapareceria com a consolidação da linguagem socializada, apenas se
internalizaria.
Para Piaget, esta linguagem não preenche uma função adaptativa (útil) e, portanto, se atrofia quando a
criança chega à idade escolar e consolida sua linguagem socializada. Vygotsky defende, contrariamente a
Piaget, que esta linguagem representa um importante papel na atividade cognitiva infantil porque além de
funcionar como uma forma de explicitar e aliviar a tensão, ainda atua como organizadora do pensamento.

Linguagem interior
Vygotsky aceita que a função primária da linguagem é a comunicação e por isso, a primeira forma de
linguagem é sempre essencialmente social. A linguagem egocêntrica introduz-se posteriormente e, ao não
se exteriorizar mais, continua como linguagem interior a representar um importante papel na organização
do pensamento. Segundo Vygotsky, até os oito anos de idade, aproximadamente, não há qualquer
distinção entre a linguagem social e a linguagem interior, isto é, a criança raciocina exatamente como se
estivesse “conversando” com um interlocutor imaginário. Por exemplo:

Para Vygotsky, isto demonstra que esta linguagem interior é nada mais do que a introjeção da linguagem
egocêntrica aonde a criança repete em voz alta estas mesmas frases para si própria diante de uma tarefa.

Linguagem como um facilitador


Luria ampliou a função organizadora da linguagem demonstrando como ela se estenderia ao
comportamento em qualquer padrão.
Vários experimentos demonstraram que nos animais, apesar da ausência de linguagem, existe uma
inteligência prática que os possibilita realizar determinados problemas. Também nas crianças em idade
pré-verbal, a inteligência funcionaria na operacionalização de questões em função de seu caráter
adaptativo.
O que Luria defende, é que a linguagem funcionaria como um facilitador deste processo, na medida em
que permitiria uma apreensão da realidade de modo muito mais complexo e profundo do que se esta se
desse apenas pela experimentação empírica do problema.  
Ou seja, o fato da criança denominar os componentes de uma questão, não só lhe facilitaria a resolução do
problema como também diminuiria a necessidade de experimentar por várias vezes a situação antes de
conseguir dominá-la. Fica fácil notarmos, que para Luria, a linguagem opera como um reforço poderoso
no processo de condicionamento de bases Behavioristas.

Função cultural da linguagem


Num plano geral, Luria salienta a função cultural da linguagem, visto que compreende o desenvolvimento
a partir da incorporação das experiências sociais e históricas do grupo ao qual o indivíduo pertence.
Assim, é através da linguagem, que a criança inicia seu processo de aculturação.
Quando a mãe nomeia os objetos e ensina palavras de ordem como “vá”, “não”, “tire”, etc... ela está
moldando o comportamento da criança e ao mesmo tempo, organizando um padrão social.
Ao aprender a executar as ordens da mãe, a criança guarda as instruções verbais por um longo tempo e
aprende a formular seus próprios desejos e intenções. Ou seja, passa a nomear ela própria os objetos e
assim organizar suas atividades de percepção e ação voluntária.
A própria criança diz para si: “Não tire o livro” ou “Vá pegar água”, antes de executar a tarefa ou inibir a
intenção.

Classificação de Objetos em Classes


Para Luria, a linguagem é também a responsável pela instalação de categorias e, consequentemente, pela
classificação de objetos em classes. Isto é, a criança só seria capaz de identificar a relação entre “cavalo”,
“cão” e “elefante”, a partir do momento da aquisição do termo “animal”. Antes disso, é impossível a ela
categorizar estes objetos em uma escala lógica de padrão.  
O importante em Luria é a pertinência que a linguagem tem na execução de tarefas.
Para ele, é a linguagem que orienta a ação voluntária, não instintiva, e possibilita ao indivíduo uma
atuação social mais ampla e definida. Não fica difícil identificarmos como as ações, as representações que
fazemos da realidade, nossos sentimentos, afetos e valores, utilizam a linguagem como forma de
organização e administração pela consciência de nossos atos. Justamente em função desta
interdependência entre linguagem, sentimentos e ações é que a partir da comunicação podemos
transformar condutas e sentimentos. Como toda ação voluntária, corresponde à materialização de uma
intenção, vamos ver como se constituem as atitudes e como podemos, através de uma comunicação
profissional, intervir em seus direcionamentos.

Conceito de Atitude
O conceito de Atitude tem sido, em função de sua utilização leiga, confundido com a ação ou o
comportamento que surge como consequência da existência de uma intenção em relação a algo.
Atitudes, na verdade, são sentimentos pró ou contra um objeto social, produzidos por um sistema de
crenças e cognições e que predispõem o indivíduo a ações coerentes em relação a este objeto social. Ou
seja, atitudes não são comportamentos, atitudes produzem comportamentos através dos componentes
afetivos e das experiências pessoais do indivíduo.
Podemos prever o comportamento de alguém se soubermos qual a atitude do sujeito frente a um
determinado objeto.
Por exemplo, se eu tenho uma atitude positiva em relação a esportes, provavelmente terei
comportamentos do tipo de ler revistas especializadas, assistir a eventos esportivos, incentivar meus filhos
a frequentar um clube esportivo e etc.

Para que tenhamos uma atitude formada frente a um objeto, três componentes precisam estar intercalados:

Componente Cognitivo: É o conjunto de informações, crenças, conhecimentos, aprendizagens e demais


experiências cognitivas que possibilitam à pessoa a construção de algum esquema representacional do
objeto. Base de nossas representações sociais, estas informações são diretamente provenientes da
comunicação dos outros conosco e de nossas próprias experiências pessoais.
Se a pessoa não tiver nenhuma informação sobre um objeto, jamais poderá desenvolver uma atitude
acerca dele. No entanto, é importante ressaltar, que estas informações não tem qualquer obrigatoriedade
de serem corretas. A veracidade ou não dos dados, não implica em um maior ou menor desenvolvimento
nas atitudes, visto que o afeto deslocado para o objeto não está calcado na veracidade, mas na intensidade
da aprendizagem. Se por outro lado, estas informações forem vagas ou superficiais, ai então, teremos uma
atitude frágil ou mesmo inexistente frente ao objeto.

Componente Afetivo: É o componente mais característico das atitudes e alguns autores chegam a
considerá-lo como o único componente necessário para a instalação das atitudes por ser este, o
componente que diferencia uma atitude de uma opinião, aonde há o componente cognitivo, mas não o
afetivo. O componente afetivo será o sentimento, pró ou contra, vinculado ao objeto e está estritamente
correlacionado ao tipo de cognição que o sujeito possui em relação ao objeto. Assim, se tenho
informações positivas a seu respeito, gostarei de você, se tiver informações negativas, não gostarei.

Componente Comportamental: É a predisposição às ações coerentes com os meus sentimentos em


relação ao objeto. Esta predisposição não é efetivamente a ação e nem precisa, necessariamente ser
explicitada o tempo todo, mas, se tiver informações positivas em relação a um objeto, gostarei dele e,
portanto, estarei quando necessário, disposto a executar ações de ajuda ou defesa a este objeto.

Equilíbrio do sistema afetivo


Para que a atitude se transforme em ação, torna-se necessária a existência de uma situação específica que
mobilize o indivíduo a explicitar seu sentimento (atitude) em forma de comportamento (ação).
Os três componentes das atitudes influenciam-se mutuamente e funcionam dentro de um sistema
integrado de coerência. Esta harmonia entre os componentes é o que caracteriza o equilíbrio do sistema
afetivo dos indivíduos.
O próprio sistema psicológico dos indivíduos sustenta e necessita deste equilíbrio, qualquer mudança,
portanto, em um dos componentes produz automaticamente uma reorganização dos demais de modo a se
restaurar a harmonia entre os componentes.

Mudanças nos componentes


As mudanças no componente cognitivo compõem-se de um novo conjunto de informações, verdadeiras
ou falsas, que destoando das informações originais forçarão mudanças nos demais componentes.
Estas alterações podem ocorrer a partir de experiências concretas, como vivenciar uma situação nova ou a
partir de ressignificações.
Por exemplo: “Sou muito fechado e isto me faz mal”.
Ser fechado não é necessariamente ruim se for entendido como não exibicionista além de ser útil em
muitas situações nas quais não queremos nos expor.
As mudanças no componente afetivo caracterizam-se pela instalação de um afeto diferente (incoerente)
daquele produzido pelo componente cognitivo. Se passar a gostar de alguém, passarei também a ver nele
qualidades e valores que não via antes.As mudanças no componente comportamental são sempre
decorrentes de pressões ou necessidades de agirmos de forma incoerente com nossos afetos.
Isto é, se por necessidade precisar ter comportamentos hostis em relação a alguém por um período mais
prolongado, acabarei não gostando dele para preservar meu equilíbrio interno.

Regras de comunicação persuasiva

Veremos a seguir algumas regras de comunicação persuasiva que aumentam consideravelmente o poder
de argumentação do profissional de modo a facilitar sua influência na alteração destes componentes. -
COMPETÊNCIA E CREDIBILIDADE. Quanto mais credibilidade o ouvinte der ao comunicador, mais
bem sucedida será sua influência. Assim, é fundamental na formação do vínculo, que o comunicador
demonstre confiança, segurança e competência de modo a formar uma imagem de credibilidade. -
APARENTE DESINTERESSE DO COMUNICADOR EM ALTERAR UMA POSTURA. Se o ouvinte
notar no comunicador uma tentativa explícita de produzir um determinado efeito, isto acionará seus
mecanismos de defesa que por sua vez, produzirão resistências que dificultarão a mudança desejada. -
RAPPORT. É o vínculo necessário a qualquer boa comunicação. Antes de iniciar qualquer emissão de
mensagem é preciso certificar-se que estabeleceu um rapport positivo através da identificação dos
sistemas representacionais. O que isto significa é que o comunicador e o ouvinte, são pessoas diferentes e,
portanto, funcionam sob dois sistemas representacionais distintos. Uma mensagem que para o
comunicador tem certo objetivo ou significação, pode ser captada pelo ouvinte de modo absolutamente
diverso. Não cabe ao comunicador alterar o sistema do ouvinte, mas atingi-lo. Portanto, se a mensagem
não foi interpretada segundo seu objetivo mude sua forma de comunicação de modo a atingir o modelo do
outro. "O resultado de sua comunicação será sempre a resposta que você obter." Toda comunicação é
hipnótica na medida em que as palavras induzem a uma situação psicológica no outro. Portanto, é
fundamental se ter em mente, exatamente o objetivo que se deseja atingir, para que o discurso não se
esvazie ou fique perdendo seu impacto na busca de um objetivo. Algumas estruturas de linguagem são
frequentemente utilizadas pelas pessoas em seus discursos e se forem devidamente trabalhadas podem
não só esclarecer o conteúdo do discurso como influir de modo decisivo neste mesmo discurso. Vejamos
alguns destes padrões. - ELIMINAÇÃO. Estabelecem-se formas incompletas de discurso que eliminam
aspectos muitas vezes essenciais à comunicação. Cabe ao comunicador profissional esclarecer estes
aspectos (e é claro, evitá-los em seu próprio discurso) e não permitir ao ouvinte pressupostos do tipo
"todo mundo sabe do que eu estou falando". 2 Vejamos alguns exemplos: "Lá em casa tem uns problemas
que não me permitem concentrar nos estudos". "Quais são estes problemas?" "Comunicar é difícil para
mim." "Comunicar o que? Comunicar a quem?”. - NOMINALIZAÇÕES. Correspondem a conceitos
abstratos inclusos nos discursos e passíveis de serem interpretados de diversas maneiras. Ex: "Tenho uma
frustração em relação a isso." "O que é frustração para você? Como você se sente ao ficar frustrado?”. -
GENERALIZAÇÕES. Transformam-se situações específicas em genéricas. Ex: "Ninguém presta atenção
quando eu falo.” "Quem não presta atenção quando você fala?”. - PRESSUPOSIÇÕES. Insere-se no
discurso algo que não foi dito explicitamente e que funciona como uma concordância. Ex: "Se João
tivesse estudado não estaria passando por isso agora." Pressupõe que: João não estudou. - LEITURA DE
MENTE. A pessoa alega conhecer o conteúdo das mentes alheias. Ex: "Você sabe como me sinto." "Não,
não sei. Como você se sente?" "Estou certa de que ele ficou feliz." "Como sabe disso? Ele lhe disse?”.
Além destas estruturas de linguagem, outras técnicas podem ser igualmente eficientes na comunicação.
Vejamos mais algumas. - A comunicação verbal precisa ser congruente com a comunicação perceptual.
Gestos, tom de voz, expressão facial, etc. - Espelhamento de futuro. Colocar a pessoa em uma situação
futura onde já estará efetuando o que o comunicador objetiva. - Interação entre o objetivo do comunicador
e a necessidade ou desejo do ouvinte. - Ordem dos argumentos. Quando o ouvinte estiver pouco motivado
para um objetivo utiliza-se primeiro o ganho principal, quando houver sintonia é mais eficiente ordenar a
argumentação em direção a um clímax. - A apresentação da conclusão é eficiente apenas para ouvintes
pouco sofisticados. Audiências mais sofisticadas intelectualmente formulam suas conclusões por si
próprias e não sentem o comunicador como as tendo induzido àquilo. - A exposição de argumentos
contrários aos objetivos do comunicador por ele próprio, funciona como uma "vacina" para o ouvinte
contra futuras influências opostas. Ex: "Alguns conhecidos podem dizer que isto não é importante,
mas...”. 3 - O tamanho do objetivo do comunicador deve ser proporcional à atitude do ouvinte.
Isto é, pessoas que rejeitem um objetivo não aceitarão grandes mudanças de uma vez, já pessoas
favoráveis àquele objetivo não só aceitarão como desejarão grandes mudanças. - A comunicação não deve
produzir medo ou ameaças e deve ser mais ou menos racional ou emocional em função das características
psicológicas do ouvinte.

Aula 4 – A Mídia como Representação Social

Decorrente de nossa atividade intelectual, o aspecto cultural é traduzido como o processo de construção
consciente das regras de uma sociedade, capaz de diferenciá-la e individualizá-la em relação a outros
grupos sociais da mesma espécie.

Processo de construção consciente das regras de uma sociedade


Ou seja, por ser consciente é opcional em seu modelo, é ideológico e não mais natural. Sendo assim,
difere de grupo social para grupo social, não é inato (portanto também não é biológico) e não está
vinculado a nenhum processo de preservação da espécie.

ATENÇÃO: associa-o ao conceito de tradição, isto é, está ligado à história e às experiências particulares
de cada comunidade.

Homem, um ser Social


Sendo o homem um ser social, possui sua organização psíquica repleta de valores que são os reflexos da
sociedade na qual foi criado.

Para compreendermos melhor as implicações de nossa natureza como parte integrante de um gênero
social da natureza, torna-se importante considerarmos que o homem, como qualquer outro animal social,
possui certas características de vínculos grupais que pertencem à natureza dos agrupamentos sociais
destes animais (sociais).

Homem, um ser biológico

Antes de um ser ideológico o homem é um ser biológico e, portanto, está inserido em seu código genético
uma estrutura de sistemas comportamentais que independem de aspectos culturais. Quando a natureza
gera um ser humano, não pode se dar ao luxo de criar subcategorias adequadas às variações temporais,
históricas ou culturais de nossas civilizações, a adequação do ser ao meio cultural é evidentemente função
da socialização.
Assim o homem nasce pronto para pertencer à espécie humana, mas inacabado para adequar-se a um dado
grupo social.     

Aspectos do Processo Civilizatório


Ao considerarmos o desenvolvimento da espécie humana, seja ao nível intelectual, biológico ou social,
precisamos lembrar que, destes aspectos, apenas o cultural, é realmente determinante de uma evolução no
processo civilizatório.

Aspecto biológico: Isto porque, pelo aspecto biológico, que se caracteriza por alterações evolutivas da
espécie temos aproximadamente “apenas” meio milhão de anos do domínio do fogo pelo homem até os
nossos dias, o que representa tempo insuficiente para qualquer alteração biológica significativa a ponto de
justificar o progresso neste período pela genética, como o crescimento de cérebro,por exemplo.

Aspecto Social: O aspecto social é igualmente dependente da natureza interna ( genética ) e/ou externa
( fatores ambientais) e decorrente de impulsos naturais (instinto gregário). Estas características produzem
as sociedades animais, compreendidas como uma totalidade de indivíduos que se agrupam em
coletividade e determinam regras de atuação comum em relação aos membros da coletividade e/ou ao
meio em que vivem através, unicamente, de instintos vinculados à sobrevivência.
Assim, apesar dos inegáveis progressos sociais e das sofisticações sofridas pelas dinâmicas relacionais, as
bases do comportamento social no homem, permanecem bastante semelhantes á origem social
(respeitadas as diferenças culturais).
Ou seja, as atitudes vinculadas à alimentação, medo, agressão, sexo, cuidados familiares, etc.
Modificaram-se em sua metodologia mas mantiveram-se estáveis enquanto motivações sociais, como
alias é característico do fator social.

Aspecto cultural: O aspecto cultural, entretanto, tem se demonstrado o fator diferencial no


desenvolvimento das civilizações, ou seja, o modo de organização das estruturas sociais é que irá definir
uma alteração nas características de um grupo social.

Identidade Social
A identidade social, produzida pelas relações parentais e pela tradição (costumes particulares, códigos
culturais) de um grupo, será reforçada pelo confronto com outros grupos sociais que, embora de
organização social semelhante, se diferenciam em seus modos de organização.

Segundo Edgar Morin, “... a cultura define a identidade individual e a social, não só por sua própria
imagem, mas também por oposição à da cultura estrangeira.”

Noção de cultura
Desta forma, nossos valores, nossa ética, nossas crenças e também nossos recalques e fantasias
determinarão não apenas nosso modelo de convivência social como também nosso próprio senso de
realidade. Dentro de uma visão leiga, da pessoa comum da rua, não técnica, Cultura está vinculada ao
conceito de erudição. Assim, sob este aspecto, uma pessoa “culta” é aquela que possui erudição, conhece
autores clássicos, fala alguns idiomas, etc.
Enquanto que quem não possui conhecimentos eruditos é dito uma pessoa “sem cultura”.  Se
considerarmos a história de colonização europeia e, se entendermos que muitos dos chamados clássicos
são na verdade, aspectos culturais europeus, entenderemos como a origem desta “equivocada” noção de
cultura e os movimentos catequistas (antigos e recentes) possuem a mesma gênese.
Ideologias
As ideologias mais do que simplesmente espelhar uma época, um momento da história humana, são as
próprias estruturas que fundamentam o sistema de análise e compreensão da realidade.
Estão presentes no modo como as pessoas educam seus filhos; no conceito que tem de realização pessoal;
na noção de morte e em todas as esferas de atuação pessoal e coletiva nas quais existem pessoas que se
relacionam com um mundo externo de realidade complexa. Uma música; Uma escultura; um sistema
arquitetônico, Todas as manifestações artísticas , culturais ou de organização da vida coletiva, nos
propiciam o material necessário para analise de ética, dos valores e dos costumes de uma sociedade.

Origem Social
A moderna biologia tem nos mostrado como a partir de qualquer célula de um organismo, podemos
reconstruir toda sua estrutura biológica em função dos dados contidos ao nível genético. Deste modo,
cada parte do ser contém um resumo de sua integridade e a noção de que as partes estão contidas no todo
necessita ser, portanto, expandida ao conceito de que também o todo, está contido nas partes.
Assim, qualquer fragmento cultural de uma sociedade conterá embutido em si como um “gene” a sua
origem social.
Para qualquer análise de situação grupal é fundamental a consciência de que o que ocorre em um grupo
qualquer tem relação direta com a estrutura social e as instituições da sociedade pela qual o grupo se
apoia. Todo grupo é na verdade uma micro sociedade, um reflexo d grande grupo social ao qual aquelas
pessoas pertencem. E como toda sociedade, como vimos acima, é a representação social do individuo. Ou
seja, sujeito e sociedade como faces da mesma moeda.
Assim, é necessária uma forte identidade entre sujeito e grupo social. Identidade esta constituída
basicamente pelo conjunto de crenças, cognições, valores e outros aspectos ideológicos e
comportamentais que permitem a uma pessoa se identificar como membro de um grupo social.
Ao mesmo tempo, permitem ao grupo identificar a pessoa como pertencente a ele. A este conjunto de
saberes, valores e perspectivas é dado o nome de Representações Sociais.

Sanidade mental e os valores e ideologias de um grupo social


As representações sociais, portanto, constituem-se nas simbologias compartilhadas por um grupo, e são
elas, que basicamente irão definir a identidade tanto social quanto particular das pessoas. A antipsiquiatria
de Laing e Cooper, já há muito ressalta a direta vinculação entre a sanidade mental e os valores e
ideologias de um grupo social. A sanidade e a loucura são para estes autores parâmetros de equivalência
entre o ser e o social, assim, se meus conceitos, minhas verdades, meus valores e atitudes são coerentes
aos dos demais membros de minha sociedade sou são, caso contrário, sou doente. Podemos exemplificar
esta relação de modo extremamente fácil se pensarmos no conceito de “normal” que possui uma
conotação de sanidade quando aplicado de modo adjetivo e que, de fato, reporta-se ao conceito estatístico
de “norma” que corresponde à aquilo que ocorre com mais frequência em um dado conjunto. Assim sou
“normal” na medida em que apresento posturas frequentes em meu grupo. Note-se que exclui-se qualquer
outro juízo de valor ético ou conceitual,  técnico ou moral desta avaliação. A “normalidade” decorre das
atitudes sociais do grupo e por esta lógica valida e corrobora a ação individual.

Mídia como fator determinante


Na base de toda esta construção ideológica, fundamentação de nossa Representação Social, encontram-se
os meios de comunicação de atuam de forma a difundir modelos, padrões, conceitos e estilos de vida. A
mídia, nas sociedades contemporâneas, é sem dúvida alguma o mais determinante fator de construção de
nossa realidade. Nos anos 30, influenciados pelo clima do período entre as duas grandes guerras
mundiais, teóricos americanos da comunicação sustentavam através da chamada “teoria hipodérmica” que
a comunicação profissional, através de seus veículos de massa, seria capaz de direcionar conceitos,
valores e ideologias da população como bem lhe conviesse sem qualquer forma de análise ou resistência
crítica à mensagem. Em outras palavras, a mídia criaria realidades convenientes aos seus interesses e a
população absorveria estas realidades da forma como lhe fosse transmitida. Hoje sabemos que não é
assim que se dá o processo relacional que se estabelece entre uma sociedade e seus veículos de
comunicação de massa. O modelo hipodérmico (referência à agulha que injeta uma substância no corpo)
desconsiderava não apenas o contexto comunicacional, como também subestimava profundamente a
capacidade crítica e informativa de uma pessoa medianamente inserida em seu grupo social.
Este modelo vai evoluindo, se transformando e a perspectiva de que haveria uma assimilação acrítica vai
se transmutando para modelos mais contemporâneos, como o proposto por McLuhan, onde se entende
que haja uma verdadeira relação entre público e veículo e a comunicação é concebida como uma troca
que se funde em um valor comum. Esta relação se concretiza através do que Hernandez chama de
“contratos” entre as partes. Este “contrato” implica em uma co-participação ativa do público na
construção ideológica das mensagens. O público não é um agente passivo, mas ao contrário, determina os
direcionamentos ideológicos do veículo através não só de seu sustento por meios indiretos como pela
audiência, como também pelo sustento direto através da compra de revistas e jornais.
Em troca, a mídia apresenta à população uma análise dos fatos que interferem nos destinos de sua
sociedade através de especialistas nas mais diversas áreas e possibilita às pessoas conhecerem outras
culturas, outras formas de vida e outros valores que igualmente auxiliam na perspectiva crítica de sua
própria realidade.
Noção da Verdade
Ao fazer as análises, a mídia transmite interpretações da realidade e não “a verdade absoluta dos fatos”.
Um aspecto é importante frisar neste ponto. A mídia não transmite a “verdade absoluta” simplesmente
porque esta é um construto teórico. Ou seja, não existe.  A noção de “verdade” se origina de uma
ideologia monoteísta de que existe o fato real, tal como o foi concebido e existe a interpretação errônea
deste fato.
Ou seja, ao admitirmos o “verdadeiro” e o “falso”, estamos também admitindo que o ser que interpreta o
real não está de fato refletindo este real como ele o é em seu noumeno. Pelas colocações já discutidas,
podemos concluir que todo saber é sempre um reflexo do ser e não do real. Assim, ou estamos todos
errados acerca de tudo ou temos que repensar o conceito de “erro-engano” – a antítese do conceito de
“verdade-certeza” - e traduzi-lo como outra “leitura”, não necessariamente nefasta, porém diferente da
nossa (ou da vigente).

Perspectiva do real
Uma parada cardíaca é um erro do funcionamento do coração, isso significa que o coração “desconhece”
sua programação  biológica ? A natureza erra ? Nascem pessoas com defeitos congênitos. O que isso
significa ? Erro ?
Sim, se considerarmos o erro como fruto das complexidades de um sistema, como consequência dos
ruídos mínimos que provocam grandes alterações. Não, se considerarmos o erro como a ignorância do
sistema ou como algo decorrente de uma interpretação enganosa do padrão. Uma pessoa pode induzir
outra ao erro através, por exemplo, da mentira, mas ainda assim, o que errou não interpretou
enganosamente a ação do primeiro, apenas não considerou outros interesses não manifestos que
determinaram aquela ação. Aquilo que chamamos de verdade é um recorte, uma perspectiva do real, que
pode ser profundamente variável em função do ângulo (físico ou psicológico) pelo qual nos posicionamos
frente aos fatos.

Poder da mídia
Um veículo de comunicação é tão idôneo quanto a honestidade das análises que realiza dos fatos, não ao
quanto estas análises são isentas de valor ideológico. Todos os produtos midiáticos embutem em si
perspectivas ideológicas, valores, conceitos e ideias que são pertinentes aos seus posicionamentos, à
cultura da sociedade a qual representam e aos interesses de seu público e de seus proprietários. E não
poderia ser diferente. São exatamente estas análises ideológicas e políticas que irão costurar as
identidades individuais em coletivas, fortalecer as representações sociais e manter, transformar ou
eliminar valores, ideias e comportamentos. O senso comum, invariavelmente, considera que o poder
manipulativo da mídia esteja em ações antiéticas como a tendenciosidade das informações dadas, a
distorção dos fatos, a não difusão de aspectos da notícia ou pura e simplesmente no tipo de abordagem
que faz sobre os fatos. Certamente que como em qualquer atividade, existem os maus profissionais e
mesmo veículos menos éticos que se utilizam destes artifícios, mas não podemos utilizar estes como
exemplos. A manipulação da mídia se dá através da comunicação persuasiva que, sem incorrer em
nenhum tipo de postura antiética, induz e direciona a lógica pela qual os fatos são interpretados por seu
público.

Para compreendermos melhor este aspecto, precisamos partir de algumas premissas básicas. A primeira
delas, é que esta manipulação necessariamente implica em uma uniformidade de conceitos e valores. Em
outras palavras, é preciso que haja uma identificação entre as representações sociais do público alvo e
aquelas que o veículo transmite. É preciso falar a linguagem (conceitual) do público. Vimos em nossa
Aula 03, quando estudamos algumas das técnicas de comunicação persuasiva, que para obtermos um
rapport é importante termos em mente que “não cabe ao comunicador alterar o sistema do ouvinte, mas
atingi-lo”.  O que isso significa, é que se não houver uma sintonia entre conceitos básicos e visão de
mundo, a identidade não se consolidará e a manipulação não ocorrerá.
A segunda premissa básica para a comunicação persuasiva é que o público não pode duvidar que o
veículo esteja falando a verdade. Ou seja, vimos acima que a verdade absoluta é uma construção
hipotética, portanto, quando nos referimos à verdade, nos referimos aos fatos desprovidos de análise.
A manipulação não ocorre no fato, mas na análise que é feita. Assim, sendo o fato comprovado e
indiscutível, a credibilidade não é afetada.
Uma terceira e última premissa da comunicação persuasiva se refere à objetividade do texto e da
argumentação utilizada. Falaremos na próxima aula, de modo mais detalhado, sobre a questão do discurso
isento, mas é importante frisar que uma comunicação persuasiva realmente efetiva, não pode fugir das
normas éticas de objetividade.
Um discurso ou texto profissional objetivo não é aquele que simplesmente não utiliza a primeira pessoa
em sua formulação frasal, mas sim aquele que é elaborado de modo a que o receptor não se sinta
“carregado” ideologicamente para uma direção definida. A comunicação profissional efetiva não diz para
seu público o que ele deve achar, mas é tecnicamente elaborada de modo a dar ao público a argumentação
(e a contra argumentação) necessária para que ele construa suas conclusões. A comunicação persuasiva
não engana, direciona.

O leitor de uma revista semanal ou de um jornal, por exemplo, identifica-se com os posicionamentos
deste e espera ver uma postura coerente a estes posicionamentos nos argumentos e textos apresentados.  
Textos muito pessoalizados, repletos de posicionamentos pessoais ou com uma argumentação parcial e
tendenciosa, tendem a dar ao leitor a desagradável sensação de que está sendo obrigado a concluir algo e,
certamente, isso acionará nele resistências e má vontade àquela conclusão. Um texto objetivo e o mais
impessoal possível apenas ressalta a identidade entre leitor e veículo, mas não aciona mecanismos de
defesa ou a sensação de estar sendo desqualificado em sua capacidade crítica ou analítica.

Aula 5 – Jornalismo como Papel Mediador na Sociedade

Processo de explicação
Para começarmos nossa aula precisamos deixar bem definido o conceito de explicação.
A explicação é definida como o processo pelo qual torna-se claro ou detalhado um fato ou situação
anteriormente confusa ou obscura. Ou seja, é o procedimento de análise e compreensão de um dado
qualquer. Para que sejamos capazes de executar esse processo, utilizamo-nos de relações causais, isto é,
estabelecemos relações entre causa e efeito.
Por exemplo: “se algo ocorre comigo ou no mundo, algo ou alguém deve ter provocado isso”. Através
destas relações causais, a explicação ordena e dá coerência às experiências e constrói um sentido, um
nexo para os acontecimentos de nossas realidades. O modo como estabelecemos estas relações entre
causa e efeito será, portanto, o responsável pela forma como compreendemos as coisas.

Associar causas a efeitos


A informação de um fato, quando se propõe a não apenas descrever a ocorrência, mas também a auxiliar
na compreensão deste fato, necessita, portanto, atingir este objetivo: associar causas a efeitos. Dizer, no
entanto, que “A” provocou “B” implica na responsabilidade da análise dessa ocorrência. Frequentemente,
diversos fatores conjugados produzem um resultado, e vincular um destes fatores como necessário e
obrigatório traz consequências éticas e muitas vezes legais.Toda análise causal é ideológica. Não pode
haver isenção ao apontarmos a causa de um fator, pois ao agirmos assim, nos comprometemos com uma
visão, uma perspectiva, uma verdade, dentre tantas possíveis.A função social do Jornalismo vive nesta
linha limítrofe entre o explicar os fatos à sociedade e, ao mesmo tempo, colocar-se como imparcial nessa
condição.Esta aparente impossibilidade ética só se desfaz quando percebemos o limite destes conceitos:
os limites entre o ideal e o humano e entre a frieza de um comunicado impessoal e a necessidade de
humanização do contato interativo entre o profissional e seu público.

Objetividade Transformada pelo olhar do Sujeito – O Processo Explicativo


O pensamento explicativo é a organização típica do pensamento para o processo de dar uma ordem lógica
e causal aos fatos. Através do estabelecimento destas relações de causa e efeito é que conseguimos
explicar as coisas, ou, em outras palavras, dar sentido àquilo que nos cerca.Este tipo específico de
raciocínio lógico possui um funcionamento autônomo e independente. Isto significa que nós é que
encontramos nossas próprias explicações.
Assim, quando dizemos que um professor está “ explicando”, ele está, de fato apresentando um fator, que
será analisado e interpretado de modo diferenciado pelas mentes presentes, o que acarreta, entre outras
coisas, em diferentes compreensões da aula. Quando um aluno não entende, isso pode ser provocado pela
sua incapacidade em organizar o pensamento para a analise daquele fator, ou pela exposição fragmentada
e deficitária do fator (pelo professor), que dificulta ou mesmo impossibilita uma analise precisa. Desta
forma, o professor apresenta os dados de modo lógico e de forma a facilitar a organização do raciocínio
do aluno. Porém, é o aluno que estrutura esta ordenação de modo interno e pessoal e dá aos dados uma
formatação definida – que será seu entendimento da questão.

Coerência e veracidade
Um interessante aspecto a ser ressaltado refere-se ao fato de que a coerência das explicações é mais
importante do que a sua veracidade no que diz respeito à ordenação mental. Assim, o modo como
explicamos a criação do mundo, por exemplo – se por vontade divina ou se por explosões cósmicas – não
faz a menor diferença. O que realmente importa é que a explicação traga à pessoa uma coerência e um
sentido à realidade. A ausência desta coerência, ou seja, de explicação sobre um dado da realidade
impossibilita que a pessoa ordene coerentemente os fatos e acarreta em desordem mental e discursiva da
realidade.

Características do Processo de Explicação


Em função desta coerência das explicações, podemos considerar a explicação como um processo
indispensável ao equilíbrio psicológico. O processo de explicação possui algumas características básicas:

A explicação não é focal: A todo momento, precisamos explicar fatos, sensações e percepções às quais
estamos expostos de modo concomitante. Ao mesmo tempo em que a um aluno em sala de aula se explica
o conteúdo da matéria, explica-se também os ruídos externos, suas funções motoras e orgânicas, sua razão
de estar ali etc.
A explicação tem um nexo situacional próprio: Isto significa que a explicação não pode ficar restrita a
uma lógica simples ou comum. Isto é, o sentido da situação é analisado dentro de um contexto especifico.
Deste modo, situações que, em uma lógica geral, não fariam sentido adquirem um senso próprio dentro de
certo contexto.
Por exemplo: “Vou pôr você de castigo porque quero o melhor para você.” Significa “vou fazê-lo sofrer
porque o amo.”
Através de uma analise lógica simples, esta situação não faz sentido; no entanto, dentro de uma relação
familiar entre mãe e filho, ambos entendem o nexo da situação.

Respostas Coerentes
Explicar se propõe a dar respostas coerentes entre si aos fatos que nos cercam e, assim, obter nossa
própria coerência interna. Para explicar a si próprio, o indivíduo precisa explicar o mundo ao qual está
inserido, e estas explicações se dão de modo paralelo, através da construção da realidade. Na criança, a
explicação possui modos e características bastante diferenciadas. A pergunta infantil, por exemplo, não
possui um alcance intelectual. Para ela, toda pergunta tem um forte componente afetivo. Isto é, a criança
só pergunta como forma de sentir-se protegida e atendida pelo adulto. Isso é o que provoca aquelas
perguntas infantis que temos certeza que a criança já sabe a resposta.

Fases para chegar à explicação objetiva


Segundo Piaget, a criança passa por três fases antes de ser capaz de chegar à explicação objetiva:

I) Artificialismo mítico. Nesta fase, a explicação é centrada no paralelo da compreensão do universo


pessoal da criança. O agente produtor do efeito é primordial ao modo de produção deste efeito. Assim,
não importa para a criança como a coisa ocorre, mas sim quem a fez ocorrer. Para compreender, precisará
construir um paralelo com sua própria realidade.
Ex.: “Deus faz a chuva para regar as plantas; (assim como) mamãe faz a comida para eu comer”.

II) Artificialismo técnico. A criança ainda necessita, nesta fase, do paralelo com sua realidade pessoal. No
entanto, a ênfase da explicação passa a ser no modo de produção do efeito. É a fase na qual a criança
começa a querer saber como as coisas acontecem ou funcionam.
A famosa fase dos “porquês”.
Ex.: “Por que a chuva „rega‟ as plantas?”; “Como o vulcão „cospe‟ fogo?”.

III) Explicação causal natural. Aqui a criança começa a abandonar o egocentrismo primitivo que
caracteriza as fases anteriores e começa a buscar objetividade nas explicações. Já não deve necessitar
tanto do paralelismo com suas experiências pessoais. Ela busca o estabelecimento de nexos causais mais
diretos entre os fatores.
Ex.: “É a nuvem que causa a chuva”.

Deve-se ressaltar que, mesmo quando adultas, muitas vezes as pessoas utilizam-se de uma lógica
explicativa calcada em suas experiências pessoais para a compreensão de um fator. No entanto, dentro da
estrutura teórica de Piaget, isto implica que tal indivíduo não se utiliza plenamente do estágio das
operações formais.
Ex.: o conceito de força na Física, compreendido como capacidade de tração motora.

A função social do Jornalismo


O Jornalismo é, por definição, uma ação de mediação entre o sujeito e sua realidade social. Assim,
podemos comparar a atuação do jornalista com a atuação do professor dada no exemplo que vimos sobre
o processo explicativo. Não podemos considerar que é o jornalista quem determinará como seu público
interpretará ou compreenderá os fatos. No entanto, sem dúvida, dependendo da forma como o público for
exposto a um tema, ele terá mais ou menos facilidade de organização de seu pensamento explicativo
sobre o fato relatado, ou ainda tenderá a compreender este fato sob uma ou outra lógica causal.
Naturalmente que, como em qualquer outra situação de comunicação, aquele que comunica o fato, por
mais idôneo que seja, o fará a partir de sua própria perspectiva deste fato. A honestidade na transmissão
da mensagem é mais relevante do que propriamente se aquela é ou não a única forma de entendimento.

Compromisso ético com o interesse público

O jornalista não pode se abster de seu compromisso ético com o interesse público. Ou seja, ele deve estar
consciente de que sua perspectiva influencia no modo como outros interpretam a mensagem.
Em função disso, precisa se certificar se está de fato auxiliando o fortalecimento da cidadania e a análise
dos fatos ou simplesmente “vendendo” uma perspectiva que pode favorecer os interesses de grupos
(sociais ou empresariais) específicos.
 
É importante entendermos que toda ação e, consequentemente, todo discurso, é um ato político e
ideológico.
 

Buscar a isenção neste aspecto representa, como dito, buscar a honestidade de posicionamentos, a
coerência com a consciência ética e profissional e, principalmente, a lisura entre o que foi levantado e
observado e aquilo que está sendo transmitido.

Os limites da isenção no Jornalismo


A isenção não busca a ausência de valores, a neutralidade ideológica ou o absoluto distanciamento do
fato. Um Jornalismo isento de valores, de ideologia ou de envolvimento com os aspecto sociais é um
Jornalismo sem identidade e que não cumpre sua função de auxiliar a crítica social.

Imparcialidade
A imparcialidade, no campo jornalístico, pode ser perfeitamente compreendida como a pluralidade de
ângulos que são considerados na análise e/ou na transmissão de um fato pelo profissional.

Exatamente por sabermos que todo fato possui diferentes perspectivas, cabe ao jornalista investigar e , se
for o caso, transmitir todos os possíveis entendimentos, perspectivas ou lados de uma questão. É a
transmissão de apenas uma abordagem que frequentemente caracteriza o texto jornalístico como
tendencioso ou parcial. Ao explicar os fatos sociais, ou, como já sabemos, ao transmitir os fatos de modo
organizado o suficiente para que o público seja capaz de compreende-los, o jornalista precisa considerar
sua responsabilidade. Isso significa estar voltado para o interesse público e dar a seu público o máximo de
informações possíveis, para que este possa desenvolver sua análise da forma correta.

Texto jornalístico x produção de conteúdo


É fundamental que o texto jornalístico não se confunda com a simples produção de conteúdo. Em uma
época de blogs e redes sociais, onde qualquer adolescente produz conteúdos e os divulga a um público
muitas vezes maior do que aqueles que grandes jornalistas já tiveram acesso, cai por terra a premissa de
que qualquer informação tem valor ou mesmo se transforma em conhecimento. Para que isso ocorra, é
preciso que haja uma mediação crítica e analítica entre aquele que lê e aquilo que lê. Esta mediação é a
diferença necessária do texto jornalístico.

Aspectos éticos do jornalista


Em toda carreira profissional – e com o jornalismo não é diferente – não há como dissociar o profissional
da pessoa, isto é, o caráter, a ética, a honestidade e o comprometimento existem ou não na pessoa, e se
transferem para sua atuação profissional.
Os aspectos éticos envolvidos nas relações entre o jornalista e seus objetos de analise são os mesmos de
muitas categorias profissionais e, naturalmente, implicam em não envolvimentos que possam de alguma
forma contaminar ou tendenciar suas avaliações. Isto, de modo algum, se confunde com indiferença ao
sofrimento alheio, desrespeito por pontos de vista discordantes ou frieza no trato profissional.
A idéia equivocada de que o profissional deve ser neutro e impessoal ( entendidos como indiferente e sem
posicionamento próprio) faz muitas vezes com que a conduta de (principalmente) jovens e inexperientes
jornalistas seja evasiva, desinteressada e , frequentemente, superficial. De modo a que possamos temperar
o distanciamento crítico e a postura profissional com uma atitude humana e cordial, vamos analisar
alguns procedimentos simples, porém eficazes, que possibilitam ao profissional não apenas um melhor
rapport como também uma comunicação mais precisa e objetiva sem ser fria e descontextualizada.

Aula 6 – Campo e Objeto da Interação Dialogal

Campo e Objeto da Interação

O comunicador é um profissional: Esta premissa, que aparentemente é óbvia, na verdade implica em


certas posturas que com bastante frequência são negligenciadas.Ser um profissional significa que a pessoa
está ali trabalhando para obter um resultado. Ela não está se divertindo, nem ampliando seu círculo social.
Ela deve evitar, na medida do possível, que sua tristeza ou alegria, suas vitórias ou derrotas interfiram de
modo evidente em sua atuação.Quanto mais neutro o profissional conseguir ser em relação à sua atuação,
melhor. A neutralidade inibe alterações de humor que podem vir a agir de modo negativo na relação
profissional.O receptor precisa confiar que o comunicador é estável, seja em termos de condutas, seja em
termos de valores. Profissionais que não inibem seus sentimentos pessoais ficam sujeitos a variações que
intranquilizam e, principalmente, constroem relações baseadas na insegurança.

O comunicador não é Deus: Embora alguns ajam como se fossem, e muitos pensem que eles são. 
Nada há de humilhante em não ter uma informação de cabeça ou não conhecer um autor.Os
comunicadores que se constrangem nestas situações tendem a tentar “enrolar” sua audiência e, se
descobertos, têm sua imagem mais prejudicada do que se afirmarem explicitamente seu desconhecimento.
Estes objetivos nos conduzem a linhas mestras de atuação: neutralidade e acessibilidade.Vejamos,
portanto, as principais metodologias voltadas para cada um deles.

Neutralidade: Implica na construção de um personagem que não pode ser distante o bastante de modo a
ser inacessível, nem íntimo demais de modo a estimular ou possibilitar transferências. Assim como um
ator “incorpora” uma personalidade ao entrar no palco, também o comunicador pode se beneficiar deste
artifício. Protege-o de variações emocionais e transmite ao seu “público” sempre a sensação de
estabilidade emocional. Qualquer demonstração de afeto deslocado do contexto profissional, seja positivo
ou negativo, deve ser avaliada como um processo transferencial.  
Ou seja, pessoas tendem a movimentos de sedução ou de agressão frente a situações de exposição e, se
exibem raiva ou interesse, não devem ser encarados como possuidores de sentimentos legítimos, mas
como efetuando seus processos transferenciais. Assim, cada profissional pode resolver segundo cada
situação específica: ignorar, conversar ou simplesmente “cortar” a situação.

Acessibilidade: Propicia uma identificação e neutraliza certos excessos de neutralidade. Funciona como
um filtro que regula as trocas afetivas sem pessoalizá-las. Desta forma, a relação não se torna fria e
impessoal, isto é, todos têm mais ou menos a sensação de possuírem uma relação afetiva positiva com o
comunicador. No entanto, estas trocas permanecem restritas aos contextos profissionais. A acessibilidade
possibilita a formação do vínculo, visto que o comunicador não é sentido como uma entidade fora da
realidade, mas como alguém que possui atributos capazes de serem identificados com os de sua audiência.
Estes objetivos estão de fato intrinsecamente relacionados. A neutralidade retém a relação ao contexto
profissional e a acessibilidade, por sua vez, cria a identidade necessária ao rapport empático.

Obstáculos à Interatividade
Quando não conseguimos estabelecer estas condições de identidade e receptividade, é natural que o
processo comunicativo sofra resistências a partir de obstáculos psicológicos e/ou comunicacionais.
Uma comunicação falha ou distorcida invariavelmente conduz a análises ou interpretações equivocadas
ou tendenciosas. É importante frisar que, ao contrário do que pode parecer em uma avaliação mais
superficial, grande parte dos equívocos comunicacionais não é originada por má-fé ou preconceitos, mas
sim por uma perspectiva produzida por uma percepção tendenciada.
Vamos explicar isso melhor.  Dependendo do modo como me coloco frente a uma questão, minha
observação deste fato irá refletir o ângulo de meu posicionamento.
Da mesma forma, o modo como compreendo um fato dependerá também de uma série de aspectos que
vão desde os conceitos que tenho acerca dos objetos envolvidos no fato até o conhecimento que disponho
para analisá-lo.
Fundamentalmente, temos interferências dos fatores e modos como associamos as coisas entre si. Isto é, o
modo como estabelecemos relações de causa e efeito. Já falamos sobre esta relação na aula passada e
vimos que ela é a maior responsável pela forma como explicamos as coisas.
O que veremos a seguir é exatamente o processo pelo qual isso ocorre. O modo como as pessoas atribuem
causas a efeitos.

Atribuição de Casualidade e Distorção Perceptiva


Atribuir causa representa posicionar os objetos envolvidos em uma relação em termos de causa e efeito.
Isto é, afirmar que X é provocado por P, ou que P provoca X.
Quando atribuímos causa e efeito, damos um sentido organizacional às ações ou eventos, o que irá se
transformar em nossa principal forma de organização psicológica, visto que através desta disposição
somos capazes de compreender a realidade como algo lógico e coerente.
O sentido decorrente da relação de causalidade chama-se de nexo causal e está calcado em um vetor
imaginário que diferencia a fonte causal de seu efeito. Ao fazê-lo, determina a direção da ação. Vejamos
um exemplo:

João (P)
dá um objeto (X)
à Maria (O)
P dá X a O = (P        O)

Neste exemplo, P será a fonte causal da ação em função do nexo causal nos indicar que a direção da ação
ocorreu de João para Maria.
A construção destes nexos causais só é possível porque certas características do mundo e das pessoas são
estáveis.  O conceito de dar implica sempre em um mesmo tipo de ação, e o de objeto implica sempre em
algo inanimado e, portanto, sem condições de interferir na construção do nexo.
As características invariáveis da realidade, denominamos de propriedades disposicionais. São elas que
nos permitem perceber o mundo sempre de modo estável e organizado, o que, em termos técnicos,
chamamos de fazer as coordenações (que são as constâncias perceptivas da realidade). 
As propriedades disposicionais (do objeto percebido) e as consequentes coordenações (efetuadas pelo
percebedor) constroem em nós (percebedores) uma imagem estável do objeto, o modo como nós o
encaramos. A esta imagem chamamos de percepto. 
Desta maneira, o percepto que possuímos de um objeto influencia na construção do nexo causal de uma
situação na qual o objeto estiver envolvido.
 
Vamos ao exemplo:
Se percebo (tenho um percepto de) José como violento e sei que Paulo brigou com José, provavelmente o
sentido que darei àquela situação será: Ou seja, José deu início à briga através de agressão ou provocação.

Portanto, José será percebido como fonte causal da ação, em função de meu percepto dele, e não de uma
avaliação isenta sobre a situação. Assim, o modo como atribuímos a causalidade de um efeito está
relacionado aos perceptos envolvidos no evento. Ocorre que, como vimos, isso pode facilmente
tendenciar uma atribuição de causalidade e, portanto, induzir a um erro de avaliação.

Reduzindo a Interferência
Para reduzir a interferência, alguns cuidados podem e devem ser tomados. O primeiro deles refere-se a
diferenciarmos as atribuições de causalidade em:

Pessoais, quando há intenção do agente em produzir o efeito;


Como no exemplo da imagem, onde duas pessoas propositalmente colocam fogo no mato.

Impessoais, quando o efeito é decorrente do ambiente e/ou sem intenção do agente. Como no exemplo da
imagem, onde o dono do balão sabia do risco mas não tinha a intenção de causar um incêndio.

Atribuições Pessoais

Dentre as atribuições pessoais, ainda podemos produzir subdivisões que correspondem aos níveis nos
quais o percebedor infere a responsabilidade do agente sobre o efeito.
 Vejamos os principais:

Associação: considerado o nível mais primitivo de atribuição de causalidade. Nele, o sujeito é


considerado responsável por um efeito que, de qualquer modo, seja a ele relacionado pelo observador. Por
mais espúria que seja esta relação, como por exemplo, a proximidade.
 
Ex.: Antônio é considerado responsável por um barulho que veio de sua direção.

Engajamento: o sujeito é considerado causa de qualquer evento produzido por uma ação pessoal sua,
independentemente da existência de intenção para
o efeito.
 
Ex.: Sérgio é considerado responsável pelo fato de ter acordado um bebê ao ligar para a casa de um
amigo.
Previsibilidade: o sujeito é considerado causa de um evento ao qual, apesar de estar engajado, isto é, sem
intenção, possuía as condições necessárias para prever o efeito e, portanto, preveni-lo.
 
Ex.: uma criança que é responsabilizada por quebrar uma jarra ao jogar bola
na sala.

Intencionalidade: nível considerado como de atribuição de causalidade pessoal plena. O sujeito tem a
intenção consciente de produzir um dado efeito e se utiliza do conjunto de seus atributos disponíveis para
tal.
 
Ex.: Jorge é considerado responsável por ter perseguido, capturado, dominado e matado um gato.

A Lógica do Discurso
Em nossas relações com os estímulos físicos e sociais que nos cercam, procuramos alcançar um estado de
equilíbrio entre os dados da realidade. Estado esta que nos conduza a uma lógica organizacional pela qual
nos referenciamos.
Entre outras palavras, as pessoas buscam, de uma forma ou de outra,adequar-se. Seja aos outros, seja às
situações, seja aos eventos aos quais se vêm expostas. Desta adequação depende inclusive nosso próprio
equilíbrio psicológico, visto que esta organização lógica da realidade é que dá sentido às coisas.

Elementos entrosados

Vejamos, por exemplo, afirmativas nas quais os elementos se entrosam:


 
Pedro discorda de seu opositor político. Os padres acreditam na existência de Deus.
 
Podemos notar nessas sentenças que há uma lógica de organização do pensamento que nos possibilita dar
sentido às frases. Este sentido só é possível pela relação que fazemos entre os diferentes elementos
agrupados.

Elementos não entrosados

Vejamos agora frases nas quais os elementos não se entrosam:

Arnaldo sempre vota no candidato do partido ao qual se opõe. Claudio e Henrique são amigos muito
ligados. Não concordam em absolutamente nada.
 
Nessas sentenças, verificamos que a relação entre os elementos não nos possibilita um sentido lógico de
análise da situação. Ou seja, eles não têm lógica.

Lógica Pessoal
Lógica é um sistema de ordenação do mundo. As pessoas estabelecem uma lógica pessoal para
harmonizar suas vivências, e o modo pelo qual fazem isso depende de sua capacidade de discernir de
forma mais ou menos complexa as representações sociais.

Na criança, em que esse discernimento é imaturo, a associação de conceitos se dá também de modo


primitivo: “pessoa bonita é boa”, “pessoa feia é má”.
No adulto, em que já existem representações mais complexas, os paradoxos cognitivos são mais bem
administrados, como por exemplo: “Posso respeitar algo do qual não gosto ou não concordo”.  
Mesmo no adulto, entretanto, por um fenômeno de “homogeneidade emocional”, é muito mais coerente
para a pessoa gostar do que respeita e vice-versa.

Consistência Cognitiva
É o processo pelo qual as pessoas administram os paradoxos para que estes não sejam sentidos de modo
ilógico. Sua função é, portanto, buscar a harmonia entre as diversas cognições que compõem uma
vivência.

Assim, por exemplo, como administramos o paradoxo de respeitar algo com o qual não concordamos?

“Não concordo com seu ponto de vista, mas o respeito porque sei ser democrático”.
Como agradar uma pessoa da qual não gostamos?
“Não gosto dele, mas sei ser educado”.

Como vemos, portanto, a consistência cognitiva depende da capacidade de produzir uma argumentação
conceitual lógica que administre os paradoxos entre os elementos cognitivos que se relacionam entre si.
Em outras palavras, a harmonia entre os elementos depende do tipo de relação que fazemos entre eles.

Formas pelas quais estabelecemos relações entre as cognições


São duas as formas pelas quais estabelecemos relações entre nossas cognições. São divididas em relações
relevantes e relações irrelevantes.

Saber, por exemplo, que o carro A é melhor que o carro B é irrelevante se não pretendo comprar um carro
ou não tenho interesse sobre este aspecto.
Se, no entanto, sei disso na hora de comprar um carro, estas cognições se transformarão em relevantes.
A consistência se dará se comprar o carro A. Se não tiver dinheiro suficiente para comprar o carro melhor
e acabar por comprar B, sabendo que o outro é melhor, me sentirei em dissonância.

Dissonância Cognitiva
A dissonância cognitiva, oposta à consistência, será representada pela não coerência, pela não harmonia
entre os elementos. Ela ocorre quando:

1) As cognições são relevantes entre si;


2) Quando a negação de um elemento leva necessariamente ao outro.
 
Por exemplo:
X e Y são dissonantes se a não opção por X obriga a opção por Y.

A dissonância necessita ser eliminada para que se restabeleça a consistência. Se isso não ocorrer e a
dissonância se sustentar, produzirá frustração, arrependimento e desequilíbrio.
 
Ex.: “Escolhi a pior alternativa, a que menos me satisfaria”.

Aula 7 – Aspectos Motivacionais

O conceito de motivação
Frequentemente o senso comum confunde o processo motivacional com posturas de “animação” onde
palavras de ordem, palmas, frases de efeito e até mesmo gritos ou certa histeria comportamental pretende
acionar em uma audiência o encorajamento para ações que objetivam ganhos ou produtividade.
Sob a perspectiva mais otimista, este tipo de conduta anima, mas não motiva. Não motiva pelo fato de que
a motivação é um processo interno e voltado para objetivos igualmente pessoais. Para conhecermos um
pouco deste processo e, em seguida, analisarmos as motivações para as interações comunicacionais,
vamos iniciar pela análise da definição formal deste conceito. Definimos motivação como:

NECESSIDADES OU DESEJOS VINCULADOS À INTENÇÃO DE ATINGIR UM OBJETIVO


CONSCIENTE OU NÃO.

Necessidades e Desejos
Antes de qualquer coisa, faz-se necessário entendermos o que são os desejos e as necessidades. Ambos
são as chamadas forças motivadoras, ou seja, aquilo que aciona em nós a motivação. Apesar de poderem
estar relacionados, tem características próprias e devem ser considerados de modo distinto.

NECESSIDADES: São chamadas de “impulsos da deficiência”, pois partem de sentimentos de


perturbação ou deficiências ligadas ao Ego.
O objetivo das necessidades é afastar as condições indesejáveis e restabelecer uma condição de equilíbrio
no organismo.
Ou seja, a necessidade se caracteriza pela existência de uma perturbação (dor) física ou psíquica,
consciente ou não, que produz um movimento de tentativa de extinção da perturbação para restauração do
equilíbrio (ausência de dor).

DESEJOS: Ao contrário das necessidades, os desejos não são resultantes de estados de perturbação ou
deficiência. Os desejos estão necessariamente vinculados à obtenção de prazer e são sempre dirigidos à
objetos ou condições específicas, sejam conscientes ou não. Isto é, o desejo apresenta uma sofisticação
que permite a especificação do objeto desejado, justamente por não ser proveniente de um desconforto.

ATENÇÃO:
Alguns autores admitem a existência de um limiar de perturbação, isto é, um ponto ao qual abaixo deste,
uma deficiência ou perturbação é percebida como um mero desconforto e não chega, portanto a produzir
incomodo suficiente pra que o organismo inicie um procedimento de extinção
( necessidade).

Relação entre desejos e necessidades

A possível relação entre desejos e necessidades ocorre em duas situações particulares.

A primeira, quando a satisfação de uma necessidade se transforma, por associação, em uma fonte de
prazer. Neste caso, temos uma necessidade produzindo um desejo.
Como exemplo, podemos considerar a situação de estar com fome (necessidade) e procurar um lugar
específico para comer, como um restaurante de comida japonesa (desejo).

Na segunda situação, quando um desejo intenso não satisfeito, assume uma característica obsessiva, tal
que sua não realização se transforma em dor, e converte-se em uma necessidade.
Por exemplo, um jogador compulsivo. Temos então, um desejo produzindo uma necessidade.

Motivação a uma ação


Como vimos na tela anterior, podemos entender como as pessoas se motivam a ações que se originam em
uma destas duas forças motivacionais. Para exemplificarmos, podemos pensar em duas situações que
podem motivar alguém a uma ação.

Na primeira, a pessoa se motiva a praticar uma ação que irá lhe trazer prazer.
Tenho vontade de adquirir um novo aparelho de TV, portanto me motivo a pesquisar preços, procurar nas
lojas e utilizar meu dinheiro para comprar o aparelho.

Em um segundo exemplo, a pessoa se motiva a praticar uma ação que irá lhe eliminar um desconforto.
Preciso comprar um novo computador, pois o meu está muito velho, lento, quebra com frequência e não
roda bem os novos programas que devo utilizar, portanto me motivo a pesquisar preços, procurar nas
lojas e utilizar meu dinheiro para comprar o aparelho.

ATENÇÃO:
Note como a ação final é a mesma, mas os motivos parte de situações totalmente diferentes. Na primeira,
há uma expectativa de prazer e na segunda a eliminação de um desconforto.
No primeiro exemplo, queremos (desejo), no segundo precisamos (necessidade).
Uma vez que compreendemos,então, as forças motivadoras, retornem à definição de motivação:

Necessidades ou desejos vinculados à intenção de atingir um objetivo consciente ou não. Prosseguindo


em nossa análise, compreendamos agora os objetivos.

Causa e Motivação
Os objetivos podem ser de dois tipos: voltados para a aproximação ou obtenção do objeto, ou voltados
para o afastamento ou evitação do objeto.
Entende-se por objetos: coisas, pessoas, situações, pensamentos, etc....
A motivação será o processo que irá regular a satisfação das necessidades e dos desejos voltados para o
comportamento objetivado.
Categorias de Motivos

Existem diferentes categorias de motivos. Vejamos as mais importantes:

Motivos Referentes ao Corpo - Produzidos pelas necessidades primárias e pela estimulação sensorial.
Para alguns autores, estes são as únicas fontes reais de motivação, pois, mesmo quando inconscientes, são
desvinculadas das estruturas sociais.

Motivos Referentes às Relações com o Ambiente - Produzidos pela condição adaptativa dos indivíduos,
estas necessidades, ou desejos, seriam derivadas das solicitações sociais do meio-ambiente.

Motivos Referentes às Relações com o Outro - Produzidos por sentimentos de afiliação. Seriam os
motivos voltados para aceitação do sujeito pelo grupo social (aceitação afetiva, por exemplo).

Motivos Referentes ao Ego - Necessidades ou desejos de valorização pessoal, realização, autoestima,


poder, etc.

Motivos Inconscientes - Estes, para a Psicanálise, são os únicos e verdadeiros fatores motivacionais reais
do indivíduo.

Objetivos:
É importante ressaltar que os objetivos tem relação direta, mas não se confundem com as forças
motivacionais. Os desejos e necessidades são sentimentos que nos impulsionam aos objetivos. Objetivos
estão relacionados a fatores concretos.
Em outras palavras, podemos dizer que meus desejos e necessidades ( sentimentos ) me conduzem a
promover ações que irão atingir objetivos ( metas ).

ATENÇÃO:
Os objetivos sempre estão associados à realização dos sentimentos, como vimos, seja por obtenção ou por
afastamento dos objetos.

Estruturas mentais
Para Piaget a motivação é um impulso essencial à atividade da aprendizagem e faz parte do próprio
aparato cognitivo. É ela que leva o sujeito a reagir ao ambiente. Quando se refere à motivação, Piaget não
se fixa nas necessidades básicas ou nos impulsos primários - fome, sede, sexo, etc. - mas afirma que o
motivo fundamental da atividade intelectual é inerente à própria estrutura cognitiva.
Isto é, a necessidade de conhecer é inerente à atividade intelectual do mesmo modo como a necessidade
de se adaptar ao meio é inerente às espécies.

Piaget afirma que as estruturas mentais são constituídas de modo a que se perpetuem independentemente
da estimulação. Assim, ao sugar, a criança não estaria apenas exercendo uma ação voltada para o
alimento. A criança “suga por sugar”.
Ou seja, suga porque possui esta estrutura motora em sua natureza.
O alimento ao ser incorporado ao organismo através desta estrutura faz com que a criança aprenda que, da
utilização desta ação, resulta a saciedade de sua necessidade alimentar.

Como podemos perceber, a motivação é um processo intrínseco à nossa natureza psíquica e, portanto,
pode ser acionada por fatores externos, mas não produzida por eles.

Desta forma, as condutas de “animação” que vimos no início da aula, se equivocam por partirem de um
pressuposto que seja possível produzir motivação.
As ações motivacionais mais eficazes são aquelas que conseguem acionar no sujeito a perspectiva de
realização de um desejo ou o receio de vivenciar um desconforto.

A Motivação e as Práticas Comunicacionais - Os estímulos na Comunicação


 
Variados aspectos podem ser considerados quando tratamos do processo motivacional relacionado às
práticas comunicacionais. Um dos mais básicos se refere ao próprio estimulo à informação. Há uma
tendência a considerarmos que a parcela mais desinformada da população assim o é, em função da
deficiência de acesso à informação. Sem dúvida alguma, há uma parcela de pessoas que por absoluta
ausência de meios, não dispõe de acesso a qualquer tipo de veículo de informação.
No entanto, não podemos ignorar que esta parcela vem gradualmente se reduzindo tanto pela
disseminação dos meios de comunicação quanto pelo crescimento do poder de compra nas classes C e D.

Precisamos, atualmente, considerar que há uma parcela de pessoas que, independente de classe
socioeconômica, simplesmente não possui motivação para buscar a informação. Como já compreendemos
este conceito, podemos traduzir esta sentença por “uma parcela da população que não vê suas
necessidades ou desejos realizados pela informação a ela disponibilizada”.
Em outras palavras, a informação disponível não atinge os objetivos de gratificação ou afastamento de
desconfortos. Podemos inferir que esta parcela da população não se identifica, portanto, com o que se
veicula.
A informação não é sentida como útil para a redução de suas dificuldades e nem é percebida como
gratificante em termos de satisfação pessoal. Podemos discutir se isso ocorre como consequência de uma
apatia social destas pessoas, ou pelo fato dos veículos de maior acesso não adequarem seu discurso a estas
camadas, ou ainda por uma conjugação destes e de outros fatores. O que efetivamente importa aqui é
entendermos que a informação para ser “consumida” necessita motivar e isso representa, que necessita ser
percebida como útil ou como prazerosa.

Estímulo a informação
Se analisarmos o comportamento das redes sociais veremos que o estímulo à informação é derivado da
autonomia que os sujeitos têm em tratar de temas de seu interesse e da forma como lhes convêm.
Se voltarmos aos motivos citados na tela anterior, veremos que a grande maioria das temáticas destas
redes trata de assuntos associados a um destes motivos (referentes ao corpo, ao ambiente social, às
relações e a autovalorização).
Algumas marcas, de produtos ou serviços, têm se utilizado destes estímulos para associar conteúdos
específicos às temáticas mais presentes nos ambientes virtuais de redes sociais e assim, identificar os
participantes com a condição de consumidores em potencial.

Em geral, quando tratamos com pessoas que não estão acostumadas a ter a atenção de veículos de
comunicação, o simples fato de estar “sendo entrevistado” ou ter um gravador ou microfone à sua frente,
já é o suficiente para acionar o desejo de se expor.
Entretanto, quando precisamos estimular alguém um pouco menos “midiaticamente carente”, a
desconsideração de técnicas de estimulação pode produzir frases curtas, desinteressadas e
desinteressantes e render um material pobre para um bom texto.
Estimular a comunicação não foge à regra do conceito motivacional que já estudamos.

Se recorrermos a nossa prática comum do dia-a-dia, perceberemos facilmente que nos sentimos mais
motivados a falar na medida em que nosso ouvinte parece mais interessado no que dizemos e quando
vemos um objetivo em estarmos reportando algo. Assim também é com o entrevistado. A percepção de
interesse por parte do entrevistador é uma importante fonte de estímulo, mas o fundamental é o
entrevistado perceber que há um motivo para as suas declarações.
Sempre ressaltando que os motivos devem dizer respeito a ele, isto é, é importante que a pessoa
identifique um objetivo a ser atingido com sua fala.
Comunicação intragrupos
Finalmente, porém não menos importante, temos na comunicação intragrupos, ou seja, aquela produzida
no interior de grupos corporativos ou não, com seus modelos comunicacionais, suas respectivas
interações e diferentes eficácias motivacionais. O sentido de comunicação aqui estabelecido não se refere
especificamente ao sentido comum de transmissão de mensagem, se bem que também não o exclui. A
comunicação grupal refere-se ao nível de acesso e influência direta exercida por um membro do grupo em
relação aos demais. Em outras palavras, o quanto cada membro do grupo influencia ou exerce autoridade
sobre os outros.
Sabemos que a comunicação está diretamente relacionada à eficácia do funcionamento do grupo, isto é,
quanto maior comunicação, mais eficácia. Ocorre que, da mesma forma como existem diferentes tipos de
grupos, existem também diferentes modelos comunicacionais dentro dos grupos.

Comunicação centralizada e descentralizada


Dividimos em dois tipos básicos a comunicação entre os membros de um grupo. A comunicação
CENTRALIZADA e DESCENTRALIZADA.

Comunicação Centralizada: Em ambientes grupais cuja comunicação seja centralizada os estímulos são
produzidos pela figura que filtra as comunicações. Assim, esta figura central, detém o poder (e com ele a
responsabilidade) sobre a motivação de todos os demais membros do grupo. É muito fácil visualizarmos
esta situação em grupos de trabalho onde o gestor é o agente centralizador dos acessos entre a equipe.
Como toda comunicação para ser considerada legítima passa por ele, os demais membros do grupo não
identificam autoridade entre si para criticar, sugerir, alterar ou mesmo dar continuidade em uma ação.
Assim, os estímulos comunicacionais, entendidos aqui como a produção de motivações para as tarefas,
ficam restritos exclusivamente à pessoa do gestor que centraliza a comunicação.

Comunicação Descentralizada: Em ambientes de comunicação descentralizada, entretanto, onde não há


esta centralização e a fluência da comunicação se distribui igualitariamente, temos estes mesmos
estímulos também igualmente fluidos entre os membros do grupo. Em outras palavras, a motivação é
produzida em uma rede multidirecional onde todos estimulam a todos no aperfeiçoamento ou qualificação
das atividades. Parece desnecessário, ressaltar a superioridade da eficácia deste modelo de comunicação
quando pensamos em termos de estimulação.

Comunicar
Para concluir, devemos nos lembrar que o próprio termo “comunicar” embute em si o sentido de “tornar
comum”, compartilhar (a informação). Dividir uma informação representa sempre um processo dinâmico
de fluência entre o emissor e o receptor e não uma ação unidirecional onde um emite e o outro recebe.

Emissor – Canal – Receptor

Aula 8 – A Entrevista Profissional

Objetivo da Entrevista
Em uma perspectiva leiga, normalmente se considera que uma entrevista seja o simples ato de fazer
perguntas a alguém. Nada mais equivocado.A entrevista, na verdade, equipara-se a um trabalho de
pesquisa, onde aquele que a executa precisa conseguir extrair de seu “objeto de estudo” mais do que algo
simplesmente interessante. Ele precisa obter algo capaz de agregar valor ao que já se conhece.

Para tal, naturalmente, quem entrevista necessita ter um domínio bem razoável acerca do tema, do
entrevistado e dos objetivos que almeja. Sem este domínio prévio do “objeto” e sem uma definição
precisa de seus objetivos, o mais provável é que o resultado da entrevista seja um conjunto de
redundâncias ou de fatos sem interesse. Isso, do ponto de vista de uma entrevista jornalística, pode
representar (em alguns casos) o fim de uma carreira.

Entrevista precisa gerar interesse

Temos, portanto, um aspecto inicial básico a considerar: a entrevista precisa gerar interesse.
E gerar interesse significa dar às pessoas que a leem ou ouvem a sensação de que estão descobrindo ou
aprendendo algo que lhes seja útil ou prazeroso.Se o profissional tiver a intuição necessária para tal e, ao
mesmo tempo, a capacidade de gerar em seu entrevistado a confiança suficiente para que este lhe
confidencie o que deseja, certamente conseguirá o material necessário para excelentes entrevistas.

ATENÇÃO: O repórter deve se considerar um intermediário entre seu público e o entrevistado: “Se meu
ouvinte ou leitor estivesse aqui em meu lugar, o que desejaria saber desta pessoa?”.

De posse destes dados, o profissional poderá escrever textos corridos nos quais as citações do
entrevistado serão ressaltadas (entre aspas, quando as falas forem transcritas) ou estruturados em forma de
perguntas e respostas. De modo geral, considera-se que, em função dos objetivos da entrevista, esta pode
ser uma opinião (quando voltada para informações objetivas) ou de perfil (quando direcionadas para a
vida pessoal de alguém).

Um requisito muito importante


Independentemente do objetivo, o requisito mais importante sempre será a autenticidade das informações
transmitidas.
Um entrevistado que venha a público, após a entrevista publicada, negar o que foi transcrito pelo repórter
pode gerar sérios problemas ao profissional, se este não tiver como comprovar facilmente as declarações
dadas.
 
Assim, é fundamental, para que o repórter consiga uma entrevista interessante, e que não possa ser
contestada em sua legitimidade, que ele exerça sua atividade com ética, técnicas profissionais bem
fundamentadas e, acima de tudo, sinceridade e clareza de propósitos.
 
O que veremos a seguir são algumas das técnicas, posturas e estratégias para atingir este resultado tão
desejado.

Estratégias de condução
Pedro Celso Campos, professor de Jornalismo, cita em um artigo no Observatório da Imprensa  como
algumas entrevistas possuem a força necessária para mudar o rumo de eventos históricos:

A História está cheia de exemplos sobre a força que uma entrevista tem em certas circunstâncias. A
entrevista de Getúlio Vargas a Samuel Wainer na estância gaúcha do ex-Presidente, publicada por O
Jornal, do Rio de Janeiro, em 3/3/1949, abriu caminho para a volta do ditador ao poder. A já citada
entrevista de Pedro Collor provocou o impeachment de Fernando Collor e o desbaratamento do Esquema
PC. As entrevistas em off conseguidas por Carl Bernstein e Bob Woodward, no caso Watergate, levaram
à renúncia o homem mais poderoso do mundo: o Presidente dos EUA Richard Nixon.
Costuma-se datar o início da revolução sexual feminina, no Brasil, a partir da entrevista que Leila Diniz
deu ao Pasquim, em 21-26/11/1969, ao chegar dos EUA.

Estratégias para obtenção das informações


O conhecimento prévio do entrevistado possibilita também prever se ele estará predisposto ou não a
fornecer as informações que o profissional almeja. Naturalmente, é mais fácil quando o entrevistado tem
interesse em fornecer a informação que se deseja. No entanto, não se pode contar sempre com isso.
funciona como o orientador dos esquemas de pensamento do sujeito; assim, deve estar atuante na
entrevista de modo ininterrupto.
 Este procedimento é importante, pois só assim o entrevistador conseguirá dirigir a entrevista até o seu
objetivo.Vimos também como estimular o entrevistado a prosseguir falando e como deixá-lo à vontade e
confiante. Se estas posturas forem corretamente seguidas, o repórter não deverá ter muitos problemas em
atingir o que almeja.Clique aqui e conheça mais algumas orientações de como conduzir uma entrevista.

Já estudamos, na nossa aula 5, como o comunicador deve estar no comando do processo o tempo todo. É
ele que funciona como o orientador dos esquemas de pensamento do sujeito; assim, deve estar atuante na
entrevista de modo ininterrupto. Este procedimento é importante, pois só assim o entrevistador conseguirá
dirigir a entrevista até o seu objetivo. Vimos também como estimular o entrevistado a prosseguir falando
e como deixá-lo à vontade e confiante. Se estas posturas forem corretamente seguidas, o repórter não
deverá ter muitos problemas em atingir o que almeja.

Como conduzir a entrevista?


O melhor é sempre que a entrevista comece leve e descontraída, caminhe em direção a aspectos de maior
profundidade (e se necessário desconforto) e, em seguida, vá retornando gradativamente a um novo clima
ameno, até que se encerre sem tensões. Alguns repórteres, ocasionalmente, iniciam suas entrevistas com
perguntas “dramáticas” ou “bombásticas” para gerar logo um clima de assombro e surpresa. Essa
estratégia pode ser interessante, desde que o repórter tenha experiência suficiente para saber as
consequências que esta pergunta trará para a entrevista como um todo e tenha, naturalmente, confiança
em sua capacidade de reverter esta tensão, se for necessário.

Entrevistas “inquisitórias”, onde o repórter faz permanentes acusações ao entrevistado (chamadas de


“entrevistas de confronto”) têm normalmente objetivos políticos e ideológicos definidos, e não objetivam
promover informação imparcial. Não necessariamente precisam ser antiéticas, mas também não podem
ser tidas como estratégias de obtenção de informações.

Algumas técnicas são essenciais para o sucesso de uma boa entrevista. Boa parte destas técnicas foi
explorada quando tratamos das técnicas de comunicação profissional em geral. No entanto, algumas são
muito específicas da entrevista jornalística e vale a pena uma observação mais atenta.
 
São elas:

ACOLHIMENTO: Diz respeito ao quanto o profissional é capaz de se fazer confiável ao entrevistado.


 Ninguém está disposto a fazer confidências ou a produzir comentários que possam vir a ser utilizados de
modo a lhe trazer algum tipo de dificuldade, se não confiar na pessoa com quem fala.
 Conquistar a simpatia do entrevistado é básico, e isso não se consegue se faltar autenticidade. Não
podemos fingir identidade. Ou se consegue o rapport necessário ou todo o trabalho tenderá a ser
superficial e distante.

DOSAGEM: Refere-se à delimitação necessária ao envolvimento do comunicador para a obtenção das


informações. Algumas reportagens implicam em um maior envolvimento tanto pessoal quanto no
ambiente específico que se deseja retratar. É comum repórteres, por exemplo, dormirem na rua para
conhecer a vida de mendigos ou frequentarem ambientes de marginais para efetuarem suas reportagens
sobre esses casos.  É importante que o repórter tenha consciência de seus limites pessoais e,
principalmente, saiba até que ponto pode ir sem incorrer em atos antiéticos, ilegais ou mesmos
criminosos.
Exceder a “dose” deste envolvimento pode ser perigoso, tanto no sentido pessoal quando em termos das
responsabilidades profissionais.

EMPENHO DOS SENTIDOS: A sensibilidade, o feeling e a intuição do jornalista são ferramentas


muitas vezes bem mais confiáveis do que a razão e a lógica. É importante que o entrevistador tenha o
treinamento e a astúcia de perceber, através de alterações no tom da voz, gestos, expressões faciais e
outros pequenos detalhes captados apenas pelos sentidos, as variações nos sentimentos de seu
entrevistado. Desvios de olhar ou gestos mais nervosos podem indicar muito mais ao jornalista experiente
do que aquilo que efetivamente está sendo dito.

AMISTOSIDADE: Correlata ao acolhimento, a amistosidade se caracteriza pela demonstração de que o


jornalista não é uma ameaça ao entrevistado (como normalmente parece ser). Desfazer esta impressão,
transmitindo com honestidade que o objetivo da entrevista é compreender como o entrevistado interpreta
uma situação, pode ser a diferença entre um trabalho bem-sucedido ou não.

RELEVÂNCIA: Como tratamos logo ao início da aula, uma entrevista necessita ser relevante. Ela
precisa ser capaz de adicionar algo novo ao que se conhece. Uma boa entrevista surpreende, transforma-
se em tema de conversas e produz novos olhares sobre as coisas. Isso só ocorre porque agrega algo novo à
realidade cognitiva das pessoas que a viram ou leram.

CAMINHOS DA QUALIDADE: A entrevista, a reportagem, é produto do trabalho do jornalista. Sua


meta deve ser imprimir melhorias constantes ao resultado de seu trabalho, em busca da qualidade ideal.
 Assim como um artista ou um romancista, que examina suas obras anteriores com um olhar crítico para
identificar onde pode melhorar, o jornalista deve também ver, em suas reportagens, oportunidades de
crescimento profissional.Não se dê por satisfeito. O melhor trabalho ainda será feito. Desenvolva a
autocritica, descubra suas fragilidades, busque um padrão de qualidade aceitável. Lembre-se que os
autores das obras mais geniais da humanidade nunca estiveram plenamente satisfeitos com suas
produções.

DÚVIDA METÓDICA: René Descartes (1596-1650), filósofo e matemático francês, instituiu a dúvida
como método de investigação científica. Descartes considerava que todo conhecimento válido deveria ser
entendido como uma construção da lógica humana. Assim, só existiria de fato aquilo que pudesse ser
demonstrado pela lógica, e nisto, ele incluía a busca de sua própria identidade (“penso, logo existo”).
 Desta forma, todo saber tem uma origem racional e, conforme pregava Descartes, o método dedutivo
(aquele que parte de uma verdade geral para a definição de aspectos particulares) é o caminho lógico para
o conhecimento. As experiências empíricas, assim como aquilo que nossos sentidos captassem da
realidade, só teriam algum sentido de valor após serem devidamente interpretados pela razão. Assim, todo
conhecimento seria consequência exclusiva da razão e do intelecto. Em muitos aspectos, a atividade
jornalística se assemelha a este método de investigação. Instale a dúvida como método; questione sempre.
Pergunte; nunca pressuponha nada.A partir de consensos e fatos inquestionáveis, vá se aprofundando em
particularidades. Nunca coloque sua perspectiva particular como ponto inicial de um raciocínio, pois ela
pode estar equivocada.

Entrevista: atividade dialógica


A entrevista é sempre uma atividade dialógica, e isso implica em uma troca entre o entrevistado e o
entrevistador. Esta troca deve ser compreendida como o conceito indica: ambos dão e ambos recebem.
Assim se constrói um diálogo de fato.

As técnicas e procedimentos citados são um breve resumo de algumas das ferramentas que têm por
finalidade auxiliar o profissional de Jornalismo em sua atividade. No entanto, nenhuma delas substitui o
bom senso, a experiência, a sensibilidade e, principalmente, o comprometimento em transmitir a verdade.

Aula 9 – Tratamento da Produção Dialogal Bruta

Tratamento da produção dialogal


Toda criança já brincou de “telefone sem fio”, onde uma mensagem é passada verbalmente, em voz baixa,
de uma criança para outra, até que ao final do círculo ou da fila, a última reproduz a frase que a primeira
lançou. Em geral, o que vemos é uma absoluta descaracterização da frase inicial.
No campo profissional, a transcrição do discurso falado para outras pessoas não pode, evidentemente,
incorrer no erro de não reproduzir com fidelidade o que foi posto.
Assim, os repórteres se veem frente a um dilema.

Como preservar com exatidão um discurso?

Independentemente do método a ser utilizado – gravação, anotação, vídeo –, o mais importante é


compreendermos que o método de preservação não pode ser mais importante do que a atenção do
jornalista dispensada ao sentido ou ao contexto do que está sendo dito. Se fizermos uma gravação de voz
de uma conversa informal entre amigos, veremos que, por diversas vezes, remontamos frases ou
escolhemos outras palavras que melhor representem o que desejamos expressar.
Em um diálogo informal, isso ocorre com mais naturalidade.

Sentido e Forma do Discurso na Entrevista


Em uma entrevista, onde normalmente já existe certa tensão (principalmente se o entrevistado não estiver
acostumado a conceder entrevistas), a tendência é que ele preste mais atenção para não “errar” nas
palavras. Com isso, o sentido da mensagem pode se tornar secundário em relação à forma do discurso.

O jornalista experiente sabe relaxar seu entrevistado. Mas, ainda assim, é preciso estar bem atento, de
modo a compreender efetivamente o sentido da mensagem.  
Se o repórter confiar demasiadamente no mecanismo de gravação, ou se estiver mais envolvido com a
ação de escrever o que está sendo dito do que propriamente em compreender o sentido, certamente, ao dar
a redação final ao seu texto, vai se deparar com algumas inconsistências ou aspectos dúbios, que acabará
“interpretando” sem muita convicção.

Atenção ao Discurso
A atenção ao discurso é absolutamente fundamental para que, após o encerramento da fase de obtenção
dos dados, o jornalista seja capaz de (mesmo com poucas linhas anotadas) saber transcrever com precisão
e coerência o sentido exato do que foi transmitido. Esta concentração na fala do entrevistado requer um
envolvimento maior com o que está sendo dito do que normalmente estamos acostumados em um diálogo
informal. O jornalista deve seguir o discurso do entrevistado como um “mapa”, um relato que precisa ser
vivenciado internamente, para poder observar onde ele faz ou não sentido e onde se encontram os
“caminhos” que foram interrompidos bruscamente.

Métodos de registro
É natural que cada repórter pode e deve desenvolver suas próprias preferências metodológicas de registro.
É importante, no entanto, que esta escolha seja pautada em critérios.
O profissional precisa conhecer seus próprios limites de atenção e capacidade mnemônica. Ele precisa
estar ciente de sua condição de, a partir de sínteses, extrair dados associados e, principalmente, precisa
conhecer como cada método de registro atua frente às diferentes características de entrevistados.
Assim, por exemplo, algumas pessoas podem ficar profundamente inibidas diante de um gravador ou
câmera, como outras podem ficar desconfortáveis falando com alguém que está permanentemente de
cabeça baixa, escrevendo sem parar. Cada método possui também limitações próprias do modelo. É
realmente difícil sustentar um diálogo e ao mesmo tempo se preocupar em transcrever literalmente o que
está sendo dito.

ATENÇÃO: Alguns profissionais preferem gravar e ainda assim, fazer anotações de frases ou palavras
mais marcantes que gostariam de não se esquecer de ressaltar. É certamente uma boa técnica.

Importância da Fotografia
Um aspecto muitas vezes menosprezado, mas que auxilia muito na transcrição do conceito ou
ambientação da entrevista é a fotografia. Ela contextualiza a entrevista e um bom fotógrafo é capaz de
transmitir em algumas poucas imagens o sentido exato de uma situação ou “clima”.

São memoráveis fotos que acompanham as reportagens e, mais do que o próprio texto, demonstram o
sentido dado a uma situação ou mesmo ao caráter do entrevistado.
A imagem, a expressão corporal e facial (como veremos na próxima aula) dizem – ou contradizem – mais
do que muitas palavras ou frases de efeito.

Entrevista em Vídeo
Exatamente por esta característica e força das imagens é que o vídeo, ou a entrevista televisiva, é
considerado uma das formas mais invasivas da privacidade e intimidade do entrevistado. O mesmo
fascínio que o vídeo produz em termos de atratividade se reflete no estranhamento e na tensão produzida
quando a pessoa que não acostumada se encontra frente a uma câmera.

Em entrevistas que utilizam o vídeo como forma de preservação de informações, é fundamental que o
jornalista tenha a sensibilidade de compreender o impacto que esta ferramenta produz em algumas
pessoas. Ele deve ter também a honestidade de editar este material quando o trecho não representar o que
efetivamente corresponde à realidade do discurso ou da situação.

Vaidade e despreparo na entrevista

Nesta carta, Walter desmentia referências elogiosas a Hitler contidas na entrevista à repórter Sandra
Brasil, na edição anterior da própria revista. Neste caso, embora certamente a autoridade entrevistada não
tenha gostado de ver publicada sua opinião, a transcrição da jornalista apenas relatou uma posição
ideológica do entrevistado. Posição esta que, mesmo sendo expressa de modo impensado, representava o
contexto real do discurso.Acesso em 18 jul. 2013
Este tipo de “declaração impensada” é muito frequente em entrevistas ao vivo.
Muitas vezes, repórteres experientes, que sabem montar “armadilhas” neste sentido, aproveitam esta
característica para obter declarações que muito dificilmente seriam conseguidas em outras situações nas
quais o entrevistado tivesse mais controle sobre as informações que irão a público.

Tratamento dos dados e Informação


Ao pensarmos no tratamento dos dados e informações de uma entrevista, o fundamental é considerar que
não devemos simplesmente registrar em um texto a narrativa de alguém. O jornalista tem
corresponsabilidade naquilo que descreve.

É preciso analisar a coerência do relato, buscar novas informações que complementem ou esclareçam
melhor alguns aspectos, conferir informações, checar a veracidade de afirmativas e, em algumas
situações, ainda dar sequência aos fatos.

Responsabilidade profissional e ética


A entrevista é uma atuação profissional e, portanto, como qualquer outra atividade inserida nesta
categoria, é regido pelo código de ética da categoria que exerce a função.

Calúnia, difamação e injúria


O Código Penal trata dos chamados “crimes contra a honra”. Nesta categoria, incluem-se três
modalidades de crimes: a calúnia (art. 138), a difamação (art. 139) e a injúria (art. 140).

Calúnia: Segundo Ricardo Canguçu Barroso de Queiroz “a calúnia consiste em atribuir, falsamente, a
alguém a responsabilidade pela prática de um fato determinado definido como crime”.

Difamação: A difamação “consiste em atribuir a alguém fato determinado ofensivo à sua reputação”.

Injúria: Já a injúria “em atribuir a alguém qualidade negativa, que ofenda sua dignidade ou decoro”.

Não é difícil perceber que um entrevistado, que por alguma razão considerar que teve sua imagem
atingida por um jornalista, não teria dificuldade em enquadrar a queixa em alguma destas tipologias.

Código de ética
De modo geral, se o repórter realizar a entrevista dentro dos padrões descritos no código de ética dos
jornalistas brasileiros, não terá muito com o que se preocupar.
Embora o código de ética não especifique explicitamente o que poderíamos chamar de “direitos do
entrevistado”, ele contém normas de conduta suficientemente claras para que se possa inferir os
procedimentos adequados nessa atividade. Alguns exemplos destas normas são:

No Capítulo I - Do direito à informação:


 
Art. 2º Como o acesso à informação de relevante interesse público é um direito fundamental, os
jornalistas não podem admitir que ele seja impedido por nenhum tipo de interesse, razão por que:
 
II - A produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por
finalidade o interesse público;
 
III - A liberdade de imprensa, direito e pressuposto do exercício do Jornalismo, implica compromisso
com a responsabilidade social inerente à profissão.

No Capítulo II - Da conduta profissional do jornalista:


 
Art. 4º O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos, deve pautar seu
trabalho na precisa apuração dos acontecimentos e na sua correta divulgação.
 
Art. 6º É dever do jornalista:
 
VIII - Respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão;
 
XI - Defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias individuais e coletivas,
em especial as das crianças, adolescentes, mulheres, idosos, negros e minorias.

No Capítulo III - Da responsabilidade profissional do jornalista


 
Art. 8º O jornalista é responsável por toda a informação que divulga, desde que seu trabalho não tenha
sido alterado por terceiros, caso em que a responsabilidade pela alteração será de seu autor.
 
Art. 9º A presunção de inocência é um dos fundamentos da atividade jornalística.
 
Art. 10. A opinião manifestada em meios de informação deve ser exercida com responsabilidade.
 
Art. 12. O jornalista deve:
 
III - Tratar com respeito todas as pessoas mencionadas nas informações que divulgar;
 
VI - Promover a retificação das informações que se revelem falsas ou inexatas e defender o direito de
resposta às pessoas ou organizações envolvidas ou mencionadas em matérias de sua autoria
ou por cuja publicação foi o responsável.

Direitos básicos do cidadão


Assim, tem sido interpretado que são direitos básicos do cidadão:

Não desejar ser entrevistado;


Não responder perguntas que considere inapropriadas ou de alguma forma comprometedoras à sua
privacidade;
Solicitar a revisão de suas declarações antes da publicação;
Solicitar retratação pública quando acreditar que foram divulgadas informações incorretas;
Não ter sua imagem divulgada;
Em suma, ter sua pessoa tratada com respeito e dignidade pelos meios de comunicação.

Se fizermos uma leitura idônea destes direitos, veremos que, havendo transparência, honestidade e
profissionalismo na condução de uma entrevista, não ocorrerá nenhum dos problemas que possam ser
enquadrados nesses quesitos.

AULA 10 – Comunicação Corporal e Não Verbal

O corpo como mensagem


Logo na abertura do livro O Corpo Fala, o autor, Pierre Weil, ressalta que:

“Pela linguagem do corpo, você diz muitas coisas aos outros. E eles têm muitas coisas a dizer para você.

Também nosso corpo é antes de tudo um centro de informações para nós mesmos. É uma linguagem que
não mente (...)”.

Muitas vezes temos a nítida sensação de que, embora o discurso do outro transmita uma mensagem, o que
captamos é algo totalmente inverso.  
O motivo pelo qual isto ocorre é que as pessoas transmitem mensagens em dois canais distintos e
simultâneos. A transmissão “principal” vai pelo canal da fala, mas há uma segunda transmissão, tão
importante quanto em nossa percepção. 
Essa transmissão se refere aos sinais emitidos pelo corpo, pelas expressões faciais, pelo tom de voz.
Enfim, por todo um conjunto de emissões simultâneas que podem reforçar ou negar o que está sendo dito.

Comunicação não verbal


Esta comunicação não verbal, ou corporal, é decisiva na forma como a mensagem chega ao receptor.
Imagine, por exemplo, alguém que se diz uma pessoa aberta a novas ideias, mas que, no entanto, diz isso
com os braços e as pernas cruzadas e fala entre os dentes.
Dificilmente teremos convicção de que a mensagem de ser “aberta” corresponde à realidade daquela
pessoa.

Ou ainda alguém que se diz muito interessado em lhe ajudar, mas sequer olha nos seus olhos enquanto
você fala.
Posturas assim exemplificam, de modo fácil e claro, como nosso corpo “fala” de modo mais espontâneo e
sincero do que, muitas vezes, gostaríamos.

Leitura de contradições ou confirmações


O domínio dos sinais auxilia o comunicador tanto na “leitura” de contradições ou confirmações do que
está sendo dito por outros, como no reforço de mensagens que deseja transmitir. Veja a reportagem
abaixo e entenda melhor como é importante para o comunicador fazer essa leitura.
Existem alguns bons trabalhos nesta área e cursos específicos para tal.
No entanto, a sensibilidade e o treinamento de cada profissional é que de fato determinará sua eficácia
neste tipo de comunicação.

O Olhar
O olhar fixo, por exemplo, demonstra confiança e, até certo ponto, ameaça. Do mesmo modo, o olhar fixo
de alguém por muito tempo fará com que você se ponha em situação de desconforto ou conflito.
Entre os animais, também sabemos que, ao olhar fixamente (e não desviar o olhar), o animal está
confrontando o outro ou se colocando em posição de superioridade.
Políticos são treinados para olhar fixamente para as câmeras em suas campanhas televisivas, no sentido
de demonstrar confiança e coragem de “encarar” os desafios.
Nada mais desconfortável do que conversar com alguém que não te olha. Por isso, a atenção nos olhos de
quem fala. Isso pode demonstrar muitos sinais paralelos na comunicação.
Olhos baixos ou agitados demonstram insegurança e “busca” por algo, já olhos fixos e parados
demonstram raiva e agressividade.
 Ao conseguir estabelecer uma “reta” entre seu olhar e o do outro, você estabelece também uma
identidade e uma sintonia que pode ser interpretada como confiança, sedução ou constrangimento,
dependendo da situação.

Por isso, não há regras precisas em como e quando fazer isso. O bom senso e a percepção de como o
outro se sente são determinantes para esta decisão.
 
Se, enquanto você fala algo, o outro ficar frequentemente olhando para o lado e não para você, este é um
sinal de que não está concordando. Por outro lado, se quem olha frequentemente para os lados for o
falante, facilmente percebemos insegurança ou falsidade no que está sendo dito.

Movimento das mãos


Outro importante aspecto a ser observado é a gesticulação e os movimentos das mãos. Normalmente
percebemos estes gestos enquanto o outro fala (e menos quando nós mesmos estamos falando), mas
raramente damos à gesticulação um significado maior.
Este desprezo pelos gestos diminui muito nossa capacidade de interpretar a mensagem do outro. É famosa
a gesticulação exagerada dos italianos ou os gestos contidos e praticamente imperceptíveis dos ingleses.
De modo geral, a gesticulação está diretamente associada à espontaneidade ou à repressão de quem fala.

Outros gestuais
Quando gostamos de algo, nos aproximamos do objeto; quando não, nos afastamos. Esta atitude natural e
espontânea se reflete também na inclinação do corpo quando falamos.
 Se, ao falar, alguém inclina o tronco em sua direção, a pessoa está demonstrando interesse, afetividade e
concordância. Caso contrário, se o tronco se inclina para trás, demonstra desinteresse, cansaço ou
discordância. Ao se inclinar na direção de quem está ouvindo, você reforçará a percepção de identidade e
interesse em relação a ele e ênfase na mensagem.

Esta proximidade e este distanciamento, no entanto, precisam sempre respeitar a fronteira estabelecida
pelo espaço pessoal de cada um.  
Pense em termos de uma visita que você recebe em sua casa. Para algumas pessoas, você não admite que
sequer cruzem sua porta; você as atende do lado de fora mesmo.
Outras são bem recebidas na sala, mas você não gostaria que elas entrassem no seu quarto.

Outras, ainda, você não se importa que entrem no quarto, desde que não abram suas gavetas e por aí vai,
em uma espécie de hierarquia de “permissões” em relação à sua intimidade. Do mesmo modo, temos
também fronteiras físicas e psicológicas para as relações de comunicação. Todos nós temos uma espécie
de “bolha” imaginária em torno de nós que delimita nosso território pessoal. Entrar nesta “bolha” de outra
pessoa implica em intimidade ou invasão.

Estereótipos e Percepção social


Alguns deles, como vimos, são inerentes à nossa própria natureza humana.
Outros são socialmente aprendidos e fazem parte do conjunto de características próprias de uma
determinada sociedade ou cultura.
 Por convivermos em grupos sociais, da mesma forma como aprendemos a interpretar estes símbolos
comunicacionais que a linhagem gestual abarca, acabamos também por construir em nós representações
simbólicas da realidade.
 Em outras palavras, desenvolvemos um conjunto de saberes informais que nos auxiliam e orientam as
relações com os outros. São as chamadas representações sociais.