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Política e Legislação em Saúde

Brasília-DF.
Elaboração

Michelle Nelson Silva


Rogério de Moraes Silva

Produção

Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração


Sumário

Apresentação................................................................................................................................... 4

Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa...................................................................... 5

Introdução...................................................................................................................................... 7

Unidade i
POLÍTICAS DE SAÚDE............................................................................................................................. 9

capítulo 1
Novos modelos de gestão................................................................................................. 9

capítulo 2
Previdência Social............................................................................................................. 18

capítulo 3
Sistema Único de Saúde (SUS).............................................................................................. 24

Unidade iI
Legislação em saúde...................................................................................................................... 32

capítulo 1
Legislação......................................................................................................................... 32

capítulo 2
Auditoria............................................................................................................................. 40

Referências..................................................................................................................................... 43
Apresentação
Caro aluno

A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem
necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela
atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade
de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD.

Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos
a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma
competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para
vencer os desafios que a evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo.

Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar
sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a
como instrumento para seu sucesso na carreira.

Conselho Editorial

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Organização do Caderno
de Estudos e Pesquisa
Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de
forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões
para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam a tornar sua leitura mais agradável. Ao
final, serão indicadas, também, fontes de consulta, para aprofundar os estudos com leituras e
pesquisas complementares.

A seguir, uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos
e Pesquisa.

Provocação

Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes
mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor
conteudista.

Para refletir

Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita
sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante
que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As
reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões.

Sugestão de estudo complementar

Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo,


discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso.

Praticando

Sugestão de atividades, no decorrer das leituras, com o objetivo didático de fortalecer


o processo de aprendizagem do aluno.

Atenção

Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a


síntese/conclusão do assunto abordado.

5
Saiba mais

Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões


sobre o assunto abordado.

Sintetizando

Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o


entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos.

Exercício de fixação

Atividades que buscam reforçar a assimilação e fixação dos períodos que o autor/
conteudista achar mais relevante em relação a aprendizagem de seu módulo (não
há registro de menção).

Avaliação Final

Questionário com 10 questões objetivas, baseadas nos objetivos do curso,


que visam verificar a aprendizagem do curso (há registro de menção). É a única
atividade do curso que vale nota, ou seja, é a atividade que o aluno fará para saber
se pode ou não receber a certificação.

Para (não) finalizar

Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem


ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado.

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Introdução
Para tratar de política e legislação em saúde e de seu papel na gestão, é necessário uma breve apreciação
no entendimento da sua estrutura, gerência e no financiamento de políticas sociais, buscando
especificar suas atividades, seus objetivos, assim como as competências dessa função para cada esfera
da gestão, no âmbito das operadoras de planos de saúde e do Sistema Único de Saúde (SUS).

Esse será, portanto, o nosso foco neste Caderno de Estudos. Tratarmos das políticas de saúde,
abrangendo novos modelos de gestão, a previdência social e o Sistema Único de Saúde, assim como
da legislação em saúde com o propósito de fornecer subsídios necessários para que a atividade
de Auditoria Hospitalar seja bem-sucedida e atinja os objetivos próprios da ação fiscalizadora no
âmbito da saúde.

Objetivos
»» Conhecer as Políticas de Saúde.

»» Identificar aspectos relevantes dos Novos Modelos de Gestão em Saúde.

»» Aprofundar conhecimentos sobre a Previdência Social.

»» Identificar aspectos operacionais do Sistema Único de Saúde – SUS.

»» Conhecer e refletir sobre a Legislação em Saúde.

»» Identificar aspectos relevantes da Auditoria em Saúde.

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8
POLÍTICAS DE SAÚDE Unidade i

capítulo 1
Novos modelos de gestão

Contexto atual, com ênfase em aspectos:


estruturais, gerenciais, de financiamento,
políticos e sociais
Política Pública, segundo Saraiva (2006, p. 28), é “um fluxo de decisões públicas, orientado a
manter o equilíbrio social ou a introduzir desequilíbrios destinados a modificar essa realidade”.

Uma política pública consiste, portanto, na “definição de objetivos e estratégias de atuação e da


alocação dos recursos necessários para atingir os objetivos estabelecidos” (SARAIVA, p. 29), com o
propósito de manter ou modificar a realidade em seus diversos aspectos. Isso leva a um confronto
entre as forças políticas buscando prevalecer seus interesses e seus conceitos.

Conforme esse autor, são diversos os estágios por que passam essas políticas. Para ele, num
primeiro momento, ocorre a inclusão de determinado pleito social na lista de prioridades do poder
público e esse passa a integrar a agenda do Estado.

A elaboração da política, segundo estágio, abrangfe a identificação e a delimitação de um problema


atual ou potencial da comunidade, a determinação das possíveis alternativas para sua solução, a
avaliação dos custos e efeitos, bem como o estabelecimento de prioridades.

Segue, então para o terceiro estágio de uma política pública, ou seja, a formulação, que, para
Saraiva (p. 33), inclui “a seleção e especificação da alternativa considerada mais conveniente,
seguida de declaração que explica a decisão adotada, definindo seus objetivos e seu marco jurídico,
administrativo e financeiro.”

Na fase de implementação da política, passa-se ao planejamento e à organização dos aspectos


administrativos e dos recursos necessários à sua execução, ou seja, “... a preparação para pôr em

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UNIDADE I │ POLÍTICAS DE SAÚDE

prática a política pública, a elaboração de todos os planos, programas e projetos que permitirão
executá-la”. (Ibid, p. 34).

No estágio da execução, põe-se em prática e política, incluindo-se, também, o estudo dos obstáculos
que se opõem à transformação das propostas em resultados objetivos.

No sexto estágio, o do acompanhamento, é “o processo sistemático de supervisão da execução


de uma atividade (e de seus diversos componentes), que tem como objetivo fornecer a informação
necessária para introduzir eventuais correções a fim de assegurar a consecução dos objetivos
estabelecidos”. (Ibid, p. 35)

E, por último, o estágio da avaliação “consiste na mensuração e análise, a posteriori, dos efeitos
produzidos na sociedade pelas políticas públicas, especialmente no que diz respeito às realizações
obtidas e às consequências previstas e não previstas”. (Ibid, p. 35)

Verifica-se, portanto, que uma política pública deve ser construída e revista com base nas necessidades
de seus destinatários, numa ação organizada e articulada com os diversos setores nela envolvidos.

ESTÁGIOS DO PROCESSO DA POLÍTICA PÚBLICA

AGENDA
Lista de prioridades

ELABORAÇÃO
identificação do problema Solução / Avaliação dos custos e efeitos

FORMULAÇÃO
Definição dos objetivos e seu marco Jurídico, administrativo e financeiro

IMPLEMENTAÇÃO
Organização, preparação do material recrutamento e treinamento do pessoal

EXECUÇÃO
Ação

ACOMPANHAMENTO
Supervisão / Correção

AVALIAÇÃO
Mensuração e análise dos efeitos produzidos

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POLÍTICAS DE SAÚDE │ UNIDADE I

A Política de Saúde no discurso oficial pode significar diretrizes e planos de ação, porém, enquanto
disciplina acadêmica, abrange tanto o estudo das relações e do exercício do poder como, também, a
formulação, a condução e a implementação de políticas de saúde (BARROS; SILVA, 1999).

É a ação ou omissão do Estado, enquanto resposta social, diante dos problemas de saúde e seus
determinantes, bem como em relação à produção, distribuição e regulação de bens, serviços e
ambientes que afetam a saúde dos indivíduos e da coletividade (Ibid,1999).

Para compreendermos melhor a Política de saúde, é necessário que entendamos o Sistema de Saúde
nas instituições públicas e/ou privadas, que coordena, regula, produz ou controla a produção de
bens e serviços relacionados com a promoção da saúde, prevenção de riscos e danos, assistência
e reabilitação. Esse Sistema inclui: financiadores, provedores, prestadores, formadores de RH,
produtores de bens e meios de comunicação de massa, e é datado de um subsistema, que inclui:
Financiadores; Provedores; Prestadores; Usuários.

O Subsistema do Sistema de Saúde Pública funciona, portanto, da seguinte forma:

Financiadores

Usuários Provedores

Prestadores

Os níveis de aplicação de medidas preventivas de saúde pública são:

PREVENÇÃO PRIMÁRIA PREVENÇÃO SECUNDÁRIA PREVENÇÃO TERCIÁRIA


Promoção da saúde e proteção Diagnóstico e tratamento precoce, Reabilitação
específica contenção da invalidez

Os componentes de Infraestrutura (recursos físicos, humanos e materiais) incluem o Financiamento


(fontes, quantidade, formas de distribuição e utilização), a Gestão (leis e normas, políticas e planos,
estrutura e processo político-gerencial) e a Organização de serviços: Prestação de serviços (oferta-
-demanda e necessidades) – modelos assistenciais (BARROS; SILVA, 1999)

Políticas de saúde
As políticas de saúde, enquanto ações objetivas sob responsabilidade do Estado, começaram a
existir no Brasil somente no início do século XX.

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UNIDADE I │ POLÍTICAS DE SAÚDE

Em meados de 1900, o governo começou a se preocupar com as condições de vida e de saúde,


principalmente das populações que moravam nas capitais dos Estados. Naquela época, a principal
fonte de renda da economia brasileira era a agricultura de exportação. As cidades onde se localizavam
os portos, tinham papel de destaque, uma vez que a exportação era realizada por meio de navios. É
nesse quadro que o governo começa a atuar na saúde pública, preocupado com os trabalhadores das
capitais, das cidades portuárias e com aqueles que trabalhavam nos portos (MERHY, 1992).

Os principais problemas de saúde estavam relacionados aos agravos infecciosos e às condições


precárias nas seguintes áreas.

»» Habitação.

»» Higiene.

»» Trabalho (longas jornadas, sem descanso ou férias).

»» Alimentação.

»» Saneamento básico.

Epidemias de varíolas, febre amarela e malária eram perpetuadas por essa situação, quando o
governo federal, na cidade do Rio de Janeiro, e os governos estaduais de São Paulo, da Bahia e de
outros estados resolveram intervir e formular políticas de saúde pública (Ibid, 1992).

No contexto da Reforma Sanitária Carlos Chagas, foi aprovado o Regimento Interno para a Escola
Profissional de Enfermeiros e Enfermeiras da Assistência a Alienados no Distrito Federal. Esse
fato ocorreu um dia após a chegada ao Brasil da chefe da Missão de Cooperação Técnica para o
Desenvolvimento da Enfermagem no Brasil (mais tarde denominada Missão Parsons), sob os
auspícios da Fundação Rockefeller. O objetivo da Missão Parsons era promover, no Departamento
Nacional de Saúde Pública (DNSP), as inovações consideradas importantes para o projeto da reforma
sanitária, entre elas a organização de uma Escola de Enfermeiras nos moldes anglo-americanos
(SAUTHIER; BARREIRA, 1999).

O Relatório Parsons, de 1921, descreveu a superlotação dos hospitais do Rio de Janeiro, onde
atuavam médicos interessados, mas com uma enfermagem exercida por pessoas ignorantes de
ambos os sexos e sob condições precárias. Esse documento julga a situação encontrada tendo como
parâmetro os padrões norte-americanos. Nessa época, os agentes médicos, no âmbito do DNSP,
não entendiam que o Brasil poderia ter enfermeiras tão qualificadas como aquelas que os médicos
brasileiros haviam encontrado no exterior (Ibid, 1999).

O projeto sanitário proposto continha ações voltadas para a promoção e a proteção da saúde
individual e coletiva, por meio da atuação na coletividade. Apesar de não constituírem de fato
uma política nacional de saúde, as campanhas sanitárias representaram uma importante iniciativa
instituída nesse período. Elas eram marcadas pela concentração de esforços e recursos com vistas
a combater determinada doença. Importante figura desse período foi o cientista Oswald Cruz, que
criou e ajudou a organizar instituições de higiene e de saúde no Brasil. Ele adotou o modelo de
campanhas sanitárias no combate de algumas epidemias, entre elas a da febre amarela (COHN;
ELIAS, 1999).

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POLÍTICAS DE SAÚDE │ UNIDADE I

Apesar das críticas, ainda nos nossos dias, esse modelo de intervenção tem sido usado. O exemplo
mais conhecido entre nós é a Campanha Nacional de Vacinação. A partir de 1910, a educação sanitária
passa a ganhar destaque, tendo como principal objetivo interromper a cadeia de transmissão por
meio da difusão do conhecimento. Assim, cada pessoa passava a ser um agente consciente dos
serviços de saúde pública (Ibid, 1999).

Nos primórdios da década de 1920, os problemas de saúde eram ainda considerados casos de polícia,
visto que a política de saúde estava subordinada ao Ministério da Justiça e Negócios Interiores,
embora com grande financiamento dos governos estaduais. Explica-se, assim, porque as unidades
de saúde pública estavam vinculadas aos seus respectivos estados (Ibid, 1999).

Esse período é marcado pelo descontentamento social e dos setores produtivos em relação à
ineficiência estatal para manter o trabalhador assalariado em estado de higidez. É criado, então,
o Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), voltado especificamente para uma prática
higienista e para o controle de endemias e epidemias que ameaçavam as principais atividades
econômicas, os corredores de exportação e os centros urbanos em expansão (Ibid, 1999).

Destaca-se nesse contexto a importância da Lei Eloy Chaves, marco da previdência brasileira.
Ao criar as Caixas de Aposentadorias e Pensões (CAP), com o intuito de organizar assistência
médica para trabalhadores dos setores econômicos estratégicos (ferrovias, portos etc.), a Lei Eloy
Chaves delineou o campo da medicina previdenciária. Até então, as instituições de previdência
não distinguiam benefícios de serviços, previdência de assistência social, consistindo numa única
modalidade assistencial (LUZ, 1994).

A partir da Revolução de 1930, quando Getúlio Vargas assume a Presidência da República do Brasil,
começa a se intensificar o processo de industrialização e, sobretudo, de urbanização. Surgem muitas
fábricas e com elas muitos empregos. As indústrias trazem um rápido crescimento para as cidades
em que se instalavam.

Na década de 1930, observamos um novo tipo de direito à saúde, voltado para aquelas pessoas que
tinham um trabalho formal (carteira de trabalho) e, principalmente, para as categorias profissionais
que impulsionavam a economia brasileira. Eram principalmente trabalhadores que:

»» produziam bens e riquezas – trabalhadores da indústria, do comércio, bancários;

»» transportavam bens e riquezas – ferroviários, marítimos, estivadores;

»» formavam o conjunto de serviços do governo – funcionários públicos.

A legislação trabalhista e previdenciária foi criada durante o governo de Getúlio Vargas. Com
isso, surgiram os Institutos de Aposentadoria e Pensões (IAP), que prestavam benefícios como
aposentadoria, pensão e alguns até assistência médica. Os IAPs eram organizados por categorias
profissionais: ferroviários, empregados da indústria e do comércio, bancários, marítimos,
estivadores e funcionários públicos. Esses institutos iriam formar a base da política de assistência
médica previdenciária (LUZ, 1994).

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UNIDADE I │ POLÍTICAS DE SAÚDE

Os IAPs formaram a base da política de assistência médica previdenciária, dando


origem ao Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), em 1966. Muitas siglas se
sucederam a essa, assim como aumentou o número de órgão ligados à Previdência
Social. O último elo, responsável pela assistência hospitalar, foi o Instituto Nacional
de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS), extinto no final dos anos de
1980

Ainda na década de 1930, surgiram os Centros de Saúde em todos os estados brasileiros. O Centro
de Saúde representou o local onde seriam realizadas as ações de promoção e proteção da saúde por
meio da educação sanitária, que tinha por objetivo implantar hábitos de higiene individual, desde
a infância até a fase adulta, passando pelo pré-natal e pela idade escolar. Os Centros de Saúde que
existem até hoje em muitas cidades, são o resultado do projeto de criar serviços locais permanentes.
Por isso, essas unidades sanitárias ficavam perto das populações e atuavam de modo constante.

Nesse período, verifica-se também a valorização da assistência médica individual, curativa e


especializada em detrimento da saúde pública. As consequências desse modelo se refletem nas
décadas seguintes.

País governado pelas oligarquias Cafeicultura como principal


dos estados mais ricos (SP, RJ e setor da economia
MG)

A PRIMEIRA
REPÚBLICA
(1889-1930)

Fazendeiros paulistas com Lucros produzidos pelo café


grande poder de decisão na aplicados, parcialmente, nas
administração federal cidades

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POLÍTICAS DE SAÚDE │ UNIDADE I

Industrialização, expansão das Época do nascimento da


atividades comerciais e aumento legislação trabalhista
acelerado da população urbana brasileira

A PRIMEIRA
REPÚBLICA
(1889-1930)

1923 – promulgada a lei Eloy Crescente intervenção médica


Chaves, considerada por alguns nos espaços urbanos gerando
autores como o marco do início da desconfiança e medo na
Previdência Social no Brasil população

A retirada à força da população dos Muitas vezes a polícia agia com violência
ambientes a serem saneados foi sem motivo, reproduzindo as formas
constantemente acompanhada pela repressoras comumente empregadas pelo
vigilância policial, pois temia-se que regime oligárquico contra os protestos
o povo se revoltasse, agredindo os coletivos como passeatas e greves
agentes sanitários
A PRIMEIRA
REPÚBLICA
1923 e 1930 – surgem as (1889-1930)

Caixas de Aposentadorias e pensões As CAP´s eram financiadas com


– CAP´s. organizadas por empresas de recursos dos empregados e
natureza civil e privada, responsáveis empregadores e administradas por
pelos benfícios pecuniários e serviços de comissões formadas por representantes
saúde para os empregados de empresas da empresa e dos empregados
específicas

Após 1930, com a insatisfação popular em relação às questões sociais e de saúde, cujo modelo era
a contenção de despesas, o novo regime de 1945 precisou ouvir as reivindicações de ampliação e
valorização dos serviços. No período da Era Vargas, que compreende de 1930 – 1945, o setor de
saúde ficou da seguinte forma.

»» Auge do sanitarismo campanhista.

»» Departamento Nacional de Saúde reestruturado e dinamizado, centralizando as


atividades sanitárias de todo o país.

»» 1942 – criação do Serviço Especial de Saúde Publica (SESP), com atuação voltada
para as áreas não cobertas pelos serviços tradicionais.

»» Criação dos institutos de seguridade social (organizados por categorias profissionais).

»» Ampliação da Previdência com a incorporação de novas categorias não cobertas


pelas CAP’s anteriormente.

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UNIDADE I │ POLÍTICAS DE SAÚDE

»» Participação do Estado no financiamento e na administração dos institutos.

»» Modelo de Previdência mais preocupado com a acumulação de reservas financeiras


do que com a ampla prestação dos serviços.

Departamento Nacional de Saúde


reestruturado e dinamizado, centralizando
Auge do sanitarismo campanhista as atividades sanitárias de todo o país

ERA VARGAS
1930-1945

1942 – criação do Serviço Especial de Criação dos institutos de seguridade


Saúde Pública – SESP, com atuação voltada social (organizados por categorias
para as áreas não cobertas pelos serviços profissionais)
tradicionais

Ainda na Era Vargas, houve:

De 1945 a 1960, a previdência retomou o processo interrompido na década de 1930, ou seja, o


“regime de repartição”, repassando a receita arrecadada aos segurados na forma de pecúlio ou
serviços. Então, ao desmontar as medidas contencionistas do período anterior, implantou-se um
modelo de maior abrangência na assistência à saúde. O Estado deu ênfase à construção e à compra
de serviços próprios na assistência médico-hospitalar dos institutos. Foi o período de expansão,
com inauguração de hospitais e ambulatórios próprios, denominados Hospitais Modernos, porém
sem diminuir o investimento nos setores contratados e conveniados (MERHY, 1992).

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POLÍTICAS DE SAÚDE │ UNIDADE I

Com adoção dessa política de saúde e, posteriormente (1967), sua centralização num único instituto
– Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) –, houve um crescimento considerável dos
serviços médicos próprios e da aplicação de maior verba para as despesas. Porém, a demanda se
mantinha elevada, em razão da má qualidade do atendimento e do fato de ter sido ampliado a
todos os segurados o direito à saúde. Outra mudança a ser destacada foi o investimento, por parte
do Ministério da Saúde, em ações preventivas e curativas contra a tuberculose e outras doenças da
coletividade, inclusive assistência hospitalar (Ibid,1992).

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capítulo 2
Previdência Social

Histórico
Em 1946, a nova Constituição Social caracteriza a assistência médico-hospitalar como uma
atribuição previdenciária.

As décadas de 1950 e 1960 se distinguiram, em nosso país, pela tentativa do governo de criar um
desenvolvimento econômico industrial e moderno. As políticas de saúde dessa época mostram o
que costumamos chamar de dicotomia, isto é uma separação da saúde em duas: de um lado a saúde
pública, de outro lado a atenção médica individual (BARROS; SILVA,1999).

Até 1960, toda a legislação sobre a matéria foi desenvolvida de forma gradual, culminado com a
promulgação da Lei Orgânica de Previdência Social (LOPS), que uniformizou os direitos dos
segurados pertencentes aos diversos institutos. Paralelamente, não se buscaram soluções dos
problemas que afetavam a receita, agravando as dificuldades financeiras da Previdência e resultando
na chamada “crise financeira” (Ibid, 1999).

Na década de 1960, a Previdência Social passa a construir hospitais próprios, principalmente


na cidade do Rio de Janeiro, e compra serviços de assistência hospitalar de muitos hospitais
particulares. Associado a esse fato, a assistência à saúde prestada nos hospitais começa a custar
caro; a ênfase era dada ao tratamento individual, com exames sofisticados para o diagnóstico da
doença e medicamentos e equipamentos de custos elevados (COHN; ELIAS, 1999).

Em 1967, a unificação da Previdência Social ocorreu a partir do crescente papel do Estado como
regulador da sociedade e exclusão da classe trabalhadora no jogo político e nos processos decisórios,
com a finalidade de atender à política de arrocho salarial decorrente do modelo adotado para
acumulação de capital. Assim, a prática assistencialista utilizada pelo governo populista do período
anterior não só recebeu ênfase no regime autoritário pós-golpe como também foi ampliada. Essa
postura justificou-se pela impossibilidade de a população sanar sua real necessidade de assistência
médica em decorrência da perda de poder aquisitivo e das péssimas condições de vida (OLIVEIRA;
TEIXEIRA, 1989).

Os acidentes de trabalho passam a ser responsabilidade do Instituto Nacional de Previdência Social,


criado em 1966. Os trabalhadores rurais, as empregadas domésticas e os trabalhadores autônomos
passam a ter direitos aos benefícios previdenciários (aposentadoria, pensão, assistência médica);
ficaram de fora os trabalhadores do mercado informal de trabalho. Várias medidas foram tomadas
para a extensão de cobertura na assistência médico-hospitalar, englobando quase a totalidade da
população urbana e ainda parte da população rural. Nesse período, inicia-se o que chamamos de
universalização da cobertura (MENDES; DIAS, 2000).

18
POLÍTICAS DE SAÚDE │ UNIDADE I

Universalizar cobertura significa tornar comum ao maior número de pessoas um direito adquirido
como, por exemplo, o direito aos serviços de saúde.

Todavia, a política nacional de saúde adotada privilegiou a prática médica curativa, individual,
assistencialista e especializada, em detrimento de medidas de saúde pública, de caráter preventivo
e de interesse coletivo. Essa política trouxe, no seu bojo, o surgimento de um complexo médico-
industrial, com a inserção dos grandes monopólios internacionais das áreas farmacêuticas e de
equipamentos hospitalares como principais fornecedores da Previdência Social (OLIVEIRA;
TEIXEIRA, 1989).

Medidas de financiamento aos hospitais particulares e os convênios com empresas caracterizam a


organização de um modelo de assistência médica de cunho privado e de interesse do capitalismo. A
implementação desse modelo assistencial, somado à modalidade de pagamento dos serviços médicos
e às dificuldades de controle da aplicação das verbas, possibilitou a prática de superfaturamento
nos serviços privados, acarretando enorme risco de falência do sistema financeiro da Previdência
Social. Oliveira e Teixeira ressaltam que “a falta de controle sobre as contas dos serviços contratados
criou condições para que corrupção atingisse, por volta de 1974, níveis que ameaçaram o equilíbrio
financeiro”.

Há quem diz que nem a saúde pública com suas campanhas transformadoras em órgãos
governamentais permanentes, nem a assistência hospitalar curativa melhoraram as condições de
saúde da população.

Reformas na Previdência
A mudança do perfil de adoecimento e morte da população determinou novos desafios ao quadro
sanitário. Se por um lado se observou o surgimento de “novas” doenças e situações de riscos –
câncer, hipertensão arterial e acidentes –, por outro persistiam as “antigas” epidemias (MENDES;
DIAS, 2000).

Todo esse contexto se refletiu numa profunda crise na Previdência, levando à necessidade de
reformas no IPNS. A escolha pelas reformas se deu como tentativa de controlar as distorções e
possibilitar a continuidade da expansão, mantendo a mesma filosofia do modelo assistencial vigente
(OLIVEIRA; TEIXEIRA, 1989).

Ministério da Previdência e Assistência Social


A primeira reforma foi a criação do Ministério da Previdência e Assistência Social (MPAS), em 1974,
elevando o Instituto ao nível de Ministério, portanto tendo maior poder de decisão na máquina
estatal. Outra reforma implantada foi a ampliação do setor por meio de convênios com sindicatos,
universidades, prefeituras e governos estatais. Entre outros aspectos, essa medida incentivou a
criação dos hospitais universitários, objetivando a formação de recursos humanos adaptados às
exigências da prática médica hegemônica, além da expansão de oferta em saúde de lógica privatizante
(Ibid, 1989).

19
UNIDADE I │ POLÍTICAS DE SAÚDE

Segundo Mendes; Dias (2000), o período da ditadura militar (1964-1984) foi marcado pela
centralização do poder político e econômico nas mãos dos governos militares. A saúde foi vista
como um bem de consumo médico, destacando-se isto.

»» Crescimento acentuado da busca por consultas médicas, fazendo pressão sobre os


serviços de saúde.

»» Crescimento do consumo por medicamentos e equipamentos médicos destinados a


diagnósticos e tratamento.

»» Fortalecimento das empresas e grupos médicos, voltados mais para o lucro do que
para a saúde do cliente.

»» Surgimento de propostas radicais de políticas alternativas para o sistema de saúde,


contrárias ao modelo vigente.

»» Movimentos grevistas dos profissionais de saúde, que entendiam a origem dos


problemas no funcionamento do sistema de saúde. Esses movimentos contribuíram
para a formação da consciência crítica dos profissionais.

»» Socialização da política de assistência médica, por meio dos debates, que explicitou
o posicionamento dos grupos de interesse envolvidos.

Oliveira e Teixeira (1989) identificaram as principais características do clímax da crise do setor


saúde no fim da década de 1970.

A década de 1980 teve como grande marco a abertura política com o fim da ditadura. Em âmbito
econômico, no entanto, configurou-se no início da década uma profunda recessão, com altas taxas
inflacionárias, desemprego e subemprego demonstrado pela ampliação do mercado informal. Todo
esse contexto contribuiu ainda mais para o aprofundamento da crítica crise financeira já existente.
Essa década tem sido amplamente estudada, pois foi quando a sociedade civil brasileira passou a
considerar, em sua maioria, que a saúde era um direito de cidadania, e que certas opções políticas
do Estado foram nessa direção (LUZ, 1994).

Como muitos de nós vivenciamos essa década, podemos relembrar as profundas mudanças ocorridas
que influenciaram as políticas de saúde definidas pelos governos federal, estaduais e municipais.
Fizeram parte dessas mudanças as seguintes.

»» O fim do regime militar.

»» A elaboração da Constituição Federal de 1988, chamada de “Carta Cidadã” pelo


conjunto de direitos estabelecidos.

»» As eleições diretas para Presidente da República.

As características das políticas de saúde da década de 1980 foram a descentralização política e


administrativa e a ampliação da universalização do direito de acesso aos serviços de saúde. Por
descentralização político- -administrativa entendemos toda a grande e complexa caminhada

20
POLÍTICAS DE SAÚDE │ UNIDADE I

feita pelos órgãos governamentais centrais – como o extinto INAMPS e o Ministério da Saúde –
no sentido de dar poder e condições administrativas para que estados e municípios assumissem
a responsabilidade sobre todo o sistema de saúde existente. A isso chamamos estadualização e
municipalização dos serviços de saúde (NORONHA; LEVCOVITZ, 1994).

Hospitais, ambulatórios e outras unidades de saúde que antes eram do governo federal deveriam
passar para a responsabilidade do estado ou do município, conforme decisão conjuntura desses
níveis de poder executivo. A ideia era que esses serviços deveriam ficar sujeitos ao controle da
população que os utilizava, o que só poderia acontecer quando se está próximo de quem tem essa
responsabilidade (SAUTHIER; BARREIRA, 1999).

A ampliação da universalização do acesso dos serviços de saúde, iniciada na década de 1970, foi tão
importante na década de 1980 que resultou na retirada da barreira da carteira de trabalho, isto é,
do emprego formal, para que todas as pessoas pudessem utilizar todos os serviços disponíveis do
Sistema Público de Saúde. Essas mudanças necessárias ocorreram como fruto da nova postura que
despertou na sociedade brasileira. A sociedade civil, por meio de diversos movimentos (associações
de moradores, sindicatos etc.), passou a compreender que são os próprios trabalhadores que
financiam, mediante descontos em folha e impostos, os serviços médicos da Previdência Social e do
Ministério da Saúde, e que deveriam, antes de tudo, servi-los (LUZ, 1994).

Reforma sanitária
Embora tenha ocorrido toda essa revolução na vida da sociedade brasileira, para as políticas de
saúde a década de 1980 é inaugurada por uma profunda crise financeira da Previdência Social.
Isso foi consequência da universalização da cobertura, com muitas pessoas utilizando os serviços
de saúde sem a criação de novas fontes de financiamento que garantissem os recursos necessários
para atender toda a população. É também nessa década que surge e se firma a chamada Reforma
Sanitária (LUZ, 1994).

A Reforma Sanitária representou um movimento de professores, pesquisadores e intelectuais da


saúde, cujos estudos criticavam o sistema de saúde existente, denunciando as precárias condições
de saúde de grande parte da população brasileira e apresentando “alternativas para a construção de
uma nova política de saúde efetivamente democrática” (Ibid, 1994).

Para construir essa saúde democrática, a Reforma Sanitária foi levada adiante por esses estudiosos,
em conjunto com os movimentos sociais e os partidos políticos progressistas, que definiram as
diretrizes fundamentais da proposta de mudança política e do sistema de saúde (NORONHA;
LEVCOVITZ, 1994). Faziam parte dessas diretrizes estas.

»» O reconhecimento do direito universal à promoção ativa e permanente de condições


que viabilizem a saúde.

»» A criação de um Sistema Único de Saúde e responsabilização do Estado pela


administração desse sistema.

»» A organização de um sistema de forma descentralizada, articulando sua organização


com a estrutura político-administrativa do País.

21
UNIDADE I │ POLÍTICAS DE SAÚDE

Desenvolvimento de um ensino médico


Predominância de um sistema de desvinculado da realidade sanitária da
atenção médica “de massa”; O população, voltado para a especialização
surgimento e o rápido crescimento e a sofisticação tecnológica e dependente
de um setor empresarial de das indústrias farmacèuticas e de
serviços médicos equipamentos médico-hospitalares
O GOVERNO MILITAR
(1964 - 1980)

Consolidação de uma relação autoritária, Criados o Instituto Nacional de


mercantilizada e tecnificada entre médico Assistência Médica da Previdência
e paciente e entre serviços de saúde e
Social – INAMPS e o Instituto de
população
Arrecadação da Previdência Social –
IAPAS

Ações Integradas de Saúde (AIS) e Sistema


Único e Descentralizado de Saúde (SUDS)
Foram implantadas, em 1983, as Ações Integradas de Saúde (AIS), com o objetivo de criar uma rede
pública unificada com vistas a promover a descentralização e a universalização da atenção à saúde.
Em 1987 foi criado o Sistema Único e Descentralizado de Saúde (SUDS), que teve os seguintes
princípios.

»» Universalização da assistência.

»» Equidade no acesso aos serviços de saúde.

»» Integração e regionalização dos serviços de saúde.

»» Integralidade dos cuidados assistenciais.

»» Descentralização das ações de saúde.

»» Integração dos serviços de saúde.

»» Constituição e o pleno desenvolvimento de instâncias colegiadas gestoras das ações


de saúde.

O SUDS não esperou a nova Constituição para desenhar as estratégias e táticas de mudança, mas
interveio no processo político, inclusive como determinante no que a Constituição expressou sobre
o Sistema Único de Saúde (NORONHA; LEVCOVITZ, 1994).

Esse movimento esteve presente em dois acontecimentos importantes da década de 1980: a Oitava
Conferência Nacional, de Saúde e a elaboração da Constituição Federal de 1988.

22
POLÍTICAS DE SAÚDE │ UNIDADE I

A defesa da saúde, como um valor universal, ganhou expressão principalmente a partir de 1986. A
realização da Oitava Conferência Nacional de Saúde, sem dúvida, foi um marco, uma vez que teve
como objetivo discutir a reforma sanitária a ser implantada pelo governo, reunindo em Brasília
cerca de quatro mil pessoas. O relatório dessa conferência já trouxe em seu texto a saúde como um
direito de todo cidadão a ser garantido pelo Estado. Veja sua definição:

Em seu sentido mais abrangente, a saúde é o resultante das condições de


alimentação, habitação, educação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte,
emprego, lazer, liberdade, acesso e posse da terra e acesso aos serviços de
saúde. É assim, antes de tudo, o resultado das formas de organização social
da produção, as quais podem gerar grandes desigualdades nos níveis de vida.

Os princípios definidos nesse grande encontro entre governo, produtores de serviços de saúde
públicos, privados e filantrópicos e usuários foram definitivamente garantidos, em forma de lei,
pela Constituição Federal, publicada em 1988, segundo a qual saúde é um direito de todos e um
dever do Estado.

1986 – VIII Conferência Nacional de A VIII CNS significou um marco


Saúde, com ampla participação de na formulação das propostas
trabalhadores, governo, usuários e de mudança do setor saúde,
parte dos prestadores de serviços consolidadas na Reforma Sanitária
de saúde Brasileira

DÉCADAS DE
1980 E 1990

1988 – Constituição Brasileira – Seção


O processo de construção de um modelo
sobre Saúde
reformador para a saúde, que é definida
como “resultante das condições de
alimentação, habitação, educação, renda,
meio ambiente, trabalho, transporte,
emprego, lazer, liberdade, acesso e posse
da terra a serviços de saúde”

Como resultado do debate entre as diversas propostas em relação ao setor Saúde apresentadas na
Assembleia Nacional Constituinte, a aprovação da Constituição Federal de 1988 criou o Sistema
único de Saúde, reconhecendo a saúde como um direito a ser assegurado pelo Estado e pautado
pelos princípios de universidade, equidade, integralidade e organizado de maneira descentralizada,
hierarquizada e com participação da população. (CONASS, 2003, p. 24)

23
capítulo 3
Sistema Único de Saúde (SUS)

Construímos o SUS tendo como orientação a universiade, a integralidade, a igualdade


e a equidade no acesso às ações e aos serviços de saúde. O SUS, como previsto
na Constituição e na legislação vigente é um modelo de reforma democrática do
Estado brasileiro

(CARTA DA 14a CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE À SOCIEDADE BRASILEIRA – 2011 – Conselho


Nacional da Saúde – Ministério da Saúde)

Fundamentos
Conforme Carvalho; Santos (1995), nas discussões sobre políticas de saúde e direito à saúde, o SUS
procura unificar todas as instituições e serviços de saúde propondo um comando único no governo
federal (Ministério da Saúde), um comando único nos estados (Secretarias Estaduais de Saúde) e
um comando único nos municípios (Secretarias Municipais de Saúde). Seu objetivo é acabar com a
dicotomia entre a saúde pública (mais preventiva) e a assistência médica (mais curativa), oferecendo
uma atenção integral à saúde. Esse sistema de saúde, além disso, propõe:

»» descentralização de recursos, decisões e responsabilidades para os estados e


municípios;

»» criação de mecanismos para o chamado controle social, no qual a população


participa dos conselhos gestores que administram o SUS por meio de representantes,
manifestando seus interesses quanto a planejamento, gestão, execução e avaliação
dos serviços e programas de saúde.

Enquanto cidadãos e profissionais que atuam na área de saúde, devemos conhecer o que está escrito
no texto da Constituição Federal de 1988. Ela trata da saúde e da forma como está organizada a
prestação desses serviços.

24
POLÍTICAS DE SAÚDE │ UNIDADE I

Universalidade
Integralidade
da assistência

Equidade

Princípios do SUS

Constituição Federal
A Constituição Federal Brasileira de 1988 coloca a questão da saúde no Título VIII – Da Ordem
Social, Capítulo I – Disposição Geral, Seção II – Da Saúde, compreendendo os arts. 196 a 200. O
direito à saúde destaca-se por um cunho universalista, igualitário e solidarista. O art. 198 explicita
a organização do sistema de saúde brasileiro: o Sistema Único de Saúde (SUS). O SUS é organizado
segundo as seguintes diretrizes: descentralização, atendimento integral e participação popular.

Segundo Carvalho e Santos (1995), o avanço substancial ocorrido no SUS foi o reconhecimento de
que a saúde é um direito fundamental do ser humano, e não uma contraprestação de serviços devida
pelo Poder Público ao contribuinte do sistema de seguridade social.

A grande conquista que se observa na nova Lei Magna do país é que o direito à saúde passa a
fazer parte daquilo que chamamos de seguridade social, junto com os direitos à previdência social
(aposentadoria, pensão etc.) e à assistência social. Como já vimos, a saúde era considerada um direito
do trabalhador formal, reduzida ao conceito de assistência sanitária, hospitalar e médica-preventiva.
Com a nova proposta, o Brasil deixou de ter uma relação de seguro social com sua população – na
qual somente tinham direito à saúde e à previdência aquelas pessoas que trabalhavam com carteiras
assinadas e, portanto, recolhiam parte do seu salário para cobrir essas despesas – e passou a ter uma
relação de seguridade social, em que não há exigência de contrapartida das pessoas que trabalham
para ter direito à saúde.

Outra mudança importante é que “saúde não significa assistência médico-hospitalar, curativa ou
preventiva. Saúde é o resultado de políticas públicas do Governo” (CARVALHO; SANTOS, 1995). O
art. 196 da Constituição Federal assim define saúde:

A saúde é um direito de todos e dever do Estado, garantindo mediante


políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de

25
UNIDADE I │ POLÍTICAS DE SAÚDE

outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua


promoção, proteção e recuperação.

Relacionando os conceitos discutidos anteriormente, podemos observar que a saúde aparece como
um direito de cidadania, cujo responsável legal passa ser o Estado. Nesse sentido, há um avanço
decorrente daquele chamado Estado de bem-estar Social, no qual são garantidas as condições
mínimas de vida. As políticas sociais são políticas de garantia de condições de alimentação, de
habitação, de educação, de meio ambiente, de transporte, de lazer, de liberdade e de acesso aos
serviços de saúde. As políticas econômicas que devem garantir o direito à saúde estão representadas
pela renda, pelo trabalho, pelo emprego e pelo acesso e posse da terra.

O art. 196 da Constituição traz a ideia da diminuição dos riscos de adoecer e de estar exposto a
’’outros agravos’’ como, por exemplo, acidentes de trânsito, homicídios, violência, e garante o
acesso universal e igualitário às ações e serviços, isto é, o acesso de todas as pessoas, independente
de qualquer limitação e com a mesma igualdade de condições. Define também quais os níveis da
atenção prestada: a promoção, a proteção e a recuperação da saúde.

Em seu art. 197 a Carta Magna trata das responsabilidades do governo na definição sobre as regras
do sistema de saúde e sua fiscalização e controle. Além disso, acrescenta que a atenção à saúde pode
ser oferecida pelos próprios serviços públicos (federais, estaduais e municipais) ou por terceiros
(outras instituições não públicas), como as instituições filantrópicas (Santas Casas e Beneficências,
por exemplo). O art.198 explica como será organizado o sistema de saúde brasileiro, chamado de
Sistema Único de Saúde (SUS). O SUS é organizado em um conjunto de unidades que prestam
serviços de saúde, com ligação entre si (em rede). Essas unidades são subordinadas umas às outras
(hierarquia), de tal modo que uma pessoa que está com problema de saúde ou quer prevenir doenças
ou precisa de uma orientação para uma vida mais saudável procura, primeiramente, a chamada
unidade básica, que pode ser o posto de saúde, o centro de saúde ou uma unidade mista (que é
unidade básica com leitos para internação). A partir dessa unidade, se ela precisar de um atendimento
especializado deverá ser encaminhada a um ambulatório como o Posto de Atendimento Médico
(PAM) ou em um hospital geral. É o caso, por exemplo, de um indivíduo hipertenso que precisa de
um cardiologista. Caso necessite de uma internação, ela deve ser encaminhada a um hospital geral
ou especializado, conforme a situação. Essa hierarquização do atendimento se baseia num sistema
de referência e contrarreferência, explicado a seguir.

O atendimento a uma pessoa que necessita dos serviços de saúde deve obedecer ao critério da
complexidade relacionado. Essa rede deve ser organizada de acordo com as características de cada
região Brasil, já que elas apresentam muitas diferenças entre si. Isso é um sistema regionalizado. Além
desse modo de ordenar o sistema de saúde, destaque-se que ele deve ser descentralizado, com direção
única em cada esfera de poder. Isso foi feito para que o SUS pudesse ficar o mais próximo de quem
utiliza o sistema. A direção única em cada esfera de governo significa que há um comando só, que é
o SUS, o qual, em nível do país, é comando pelo Ministério da Saúde; nos estados, pelas Secretarias
Estaduais de Saúde; e, nos municípios, pelas secretarias Municipais de saúde. Desse modo, todas as
unidades (postos, centros, unidades mistas, PAM, hospitais) devem estar sob responsabilidade dos
municípios, pois são neles que as pessoas vivem, trabalham, adoecem ou têm saúde.

26
POLÍTICAS DE SAÚDE │ UNIDADE I

O SUS deve prestar atendimento integral aos cidadãos. Esse atendimento abrange ações de prevenção
da doença, de promoção da saúde, de tratamento da doença e de reabilitação das funções alteradas
do organismo. O art. 198 da Constituição destaca a prioridade para as atividades preventivas ao se
referir ao atendimento integral.

Outra diretriz prevista nesse mesmo artigo é de fundamental importância e está relacionada com
a cidadania: deve haver participação da comunidade no SUS. Isso tem tudo a ver com conceitos
de saúde que a expressam como uma via de mão dupla, isto é, temos a perspectiva do cliente e do
profissional que o atende. A forma de atender um cliente reflete princípios éticos que norteiam
essas práticas de atendimento e, principalmente, o respeito aos direitos devem ser considerados
fundamentos de ação humana, que traduzem a concepção do homem como cidadão (SILVA
JR.,1996).

O parágrafo único desse artigo trata do financiamento do SUS, que é um dos obstáculos à sua plena
implantação no país, pois é um aspecto que ainda não foi resolvido satisfatoriamente pelo governo.

No art. 199 fica garantido que a assistência a saúde pode ser prestada por instituições privadas,
por meio de contrato ou convênio com o SUS, tendo preferência as instituições filantrópicas. Ainda
nesse artigo, é vedada a destinação de recursos públicos em hospitais, clínicas e outros serviços de
saúde particulares com fins lucrativos. É também, proibida a participação de empresas estrangeiras
na assistência da saúde no Brasil, exceto no caso previsto em lei. É responsabilidade do governo
regulamentar transplantes e o uso do sangue e seus derivados, entre outros, conforme preceitua o §
4o do artigo 199, referido.

O art. 200, o último que trata do SUS, confere a ele outras atribuições:

I – controlar e fiscalizar procedimentos, produtos e substâncias de interesse


para a saúde e participar da produção de medicamentos, equipamentos,
imunobiológicos, hemoderivados e outros insumos;

II – executar as ações de vigilância sanitária, epidemiológica, bem como as de


saúde do trabalhador;

III – ordenar a formação de recursos humanos na área da saúde;

IV – participar da formulação da política e da execução das ações de saneamento


básico;

V – incrementar em sua área de atuação o desenvolvimento científico e


tecnológico;

VI – fiscalizar e inspecionar alimentos, compreendido o controle de seu teor


nutricional, bem como bebidas e águas para consumo humano;

VII – participar do controle e fiscalização da produção, transporte, guarda e


utilização de substâncias e produtos psicoativos, tóxicos e radioativos;

VIII – colaborar na proteção do meio ambiente, nele compreendido o do


trabalho.

27
UNIDADE I │ POLÍTICAS DE SAÚDE

As leis que regulamentam o SUS foram aprovadas somente no final de 1990, já sob influência da
política social do governo Collor e transcorridos dois anos desde a promulgação da Constituição
Federal. Toda e qualquer ação ou serviço de saúde, prestado a quem for, deverá seguir rigorosamente
as regras definidas na Lei no 8.080, de 19 de setembro de 1990, independentemente se essas ações
forem prestadas por unidades públicas de saúde, por unidades particulares (hospitais, clínicas,
ambulatórios, laboratórios etc.) ou por profissionais liberais (médicos, enfermeiros, psicólogos,
entre outros).

Cabe aqui reforçar que qualquer profissional de saúde que trabalhe numa unidade pública de saúde
ou numa empresa tem obrigação de conhecer essas regras que estabelecem a saúde como um bem
e um direito do ser humano.

Portanto, as ações e os serviços que promovem a saúde devem ser prestados com responsabilidade,
competência e dignidade.

É dever do Estado garantir o direito à saúde. No entanto, anteriormente vem o dever das pessoas, das
famílias, das empresas e da sociedade. Ou seja, a saúde também depende dos hábitos das pessoas,
dos cuidados que a família cultiva em relação à saúde dos seus membros, das ações que as empresas
realizam em favor de seus empregados. Enfim, depende de toda a sociedade.

O art. 7o da Lei Orgânica da Saúde detalha os princípios de funcionamento do SUS, já contemplados


no art. 198 da Constituição Federal:

(...)

III – preservação da autonomia das pessoas na defesa de sua integridade física


e moral

IV – igualdade da assistência à saúde, sem preconceitos ou privilégios de


qualquer espécie;

V – direito à informação, às pessoas assistidas, sobre sua saúde;

VI – divulgação de informações quanto ao potencial dos serviços de saúde e


sua utilização pelo usuário;

VII – utilização da epidemiologia para o estabelecimento de prioridades, a


alocação de recursos e a orientação programática.

A assistência à saúde exige que o Estado disponha de todos os recursos, dos mais simples aos mais
complexos (CARVALHO; SANTOS, 1995).

Daí, falar-se em:

»» Nível de atenção primária (prestada nos postos e centros de saúde ou unidades


básicas de saúde).

»» Nível de atenção secundária.

28
POLÍTICAS DE SAÚDE │ UNIDADE I

»» Níveis de atenção terciária e quaternária (hospitais de pequeno, médio ou grande


porte, grandeza medida pelo potencial de atendimento dos casos mais complexos
de agravo de saúde).

A regionalização também se justifica, principalmente por:

»» diferenças demográficas (características da população);

»» diferenças no perfil epidemiológico (frequência e distribuição das doenças e agravos


numa população);

»» avanços tecnológicos no campo da medicina e a necessidade de atenção mais


completa à saúde.

Isso resulta em definir serviços adequados às realidades que são iguais. A direção é única no sentido
em que os princípios e diretrizes são os mesmos para todos os níveis de poder. Porém, cada um
desses níveis tem autonomia política e administrativa e competências próprias no campo da saúde.

Distritos sanitários (DS)


O distrito sanitário é a menor unidade de organização e funcionamento do SUS. Os pequenos
municípios podem ter um DS, mas grandes cidades podem ter seu território dividido em vários DS.
Um consórcio de municípios pode formar um único DS. A população de um DS pode variar entre
100.000 e 300.000 habitantes, e compreender uma área de 5.000 a 50.000 km.

Mendes (1993) define distrito sanitário como processo social da mudança das práticas sanitárias do
Sistema Único de Saúde, o que implica considerá-lo nas suas dimensões política, ideológica e técnica.

A dimensão política refere-se ao fato de que o distrito sanitário é espaço em que se encontram os
diferentes interesses numa situação de participação no poder de gerenciar o sistema de saúde.

Ali estão os prestadores de serviços de saúde (públicos, particulares, filantrópicos), os cidadãos


que usam esses serviços, os profissionais que prestam os serviços, os dirigentes de setor saúde
(secretários municipais e estaduais de saúde).

A dimensão ideológica refere-se ao tipo de atenção à saúde que será prestada à população. Essa
definição está direitamente ligada ao conceito de saúde, isto é, a saúde como um direito à qualidade
de vida ou, simplesmente, como assistência médica. Enfim, o distrito sanitário é a base do SUS.

A Lei Orgânica da Saúde (LOS), no 8.080/1990, sofreu vários vetos em seus artigos, atingindo aqueles
que tratavam do detalhamento do art. 198, inc. III da Constituição Federal, sobre a participação
da comunidade no controle social do SUS, e aqueles que regulamentavam o repasse direito dos
recursos do governo federal para os outros níveis de Poder Executivo.

Por isso, foi editada outra Lei Orgânica de Saúde (Lei no 8.142, de 28 de dezembro de 1990). Essa lei
criou os Conselhos de Saúde e as Conferências de Saúde e disciplinou a transferência de recursos da
União para o Distrito Federal, estados e municípios, restabelecendo a participação da comunidade
na gestão do SUS.

29
UNIDADE I │ POLÍTICAS DE SAÚDE

Participação da população
A população exerce o controle sobre o SUS participando dos Conselhos de Saúde (nacional, estaduais
e municipais) e das Conferências de Saúde.

Os conselhos são permanentes e com poder de decisão, e os usuários têm seus representantes
participando em igualdade de condições com os demais segmentos que compõem esses colegiados
(representantes do governo, prestadores de serviços e profissionais de saúde). Aos conselhos cabe
formular estratégias de funcionamento do SUS e controlar a execução da política de saúde, inclusive
nos aspectos econômicos e financeiros.

A Conferência Nacional de Saúde acontece de quatro em quatro anos, com a representação dos
vários segmentos sociais para avaliar a situação de saúde e propor diretrizes para a formulação da
política de saúde nos níveis correspondentes (federal, estadual e municipal).

Portanto, é importante conhecermos todas essas informações, que nos dizem respeito tanto como
cidadãos e possíveis usuários do Sistema Único de Saúde.

Conhecer o SUS e as leis que o regulamentam tem um papel fundamental no exercício do direito
à saúde, na busca da qualidade de vida, e por isso entendemos que o direito à saúde ainda é uma
conquista a ser feita. Cabe considerar que a participação da Associação Brasileira de Enfermagem
(ABEn), como representante da profissão nos diversos fóruns de debate e de mobilização existentes-
Oitava Conferência Nacional de Saúde, Comissão Nacional de Reforma Sanitária, Assembleia
Nacional Constituinte (1978/88) e outras instâncias –, contribuiu sobremaneira para a tomada de
consciência, mais crítica, desses profissionais. Assim, a ABEn incentivou o desenvolvimento das
dimensões políticas por meio do estímulo à participação direta nas lutas, ocupação de cargos de
direção por enfermeiros nos órgãos de administração dos serviços de saúde – secretarias municipais
e estaduais, distritos sanitários, hospitais e universidades ambulatoriais – e atuação nos diversos
níveis de decisão – conselhos estaduais e municipais de saúde, conselho de diretores e técnicos das
unidades (BARROS; SILVA, 1990).

A qualidade das ações de enfermagem é influenciada por diversos fatores: formação profissional,
número de profissionais e auxiliares, mercado de trabalho e legislação específica vigente, além da
política, da estrutura e da organização das instituições.

Por outro lado, os avanços da sociedade atual indicam a necessidade de uma atuação profissional
que não seja amadorística, nesse sentido, a instalação de um processo de avaliação da qualidade
torna-se imprescindível.

A mensuração da qualidade da assistência de enfermagem realizada por meio da auditoria pode


auxiliar o encaminhamento para uma enfermagem científica, a qual necessita de ações comprovadas
que levem à construção de um saber específico.

A auditoria tem sua origem na área contábil, cujos fatos e seus registros datam do ano 2.600
a. C. Porém, é a partir do século XII d.C. que essa técnica passa a receber o nome de auditoria,
constatando-se na Inglaterra o seu maior desenvolvimento. Com a Revolução Industrial no século

30
POLÍTICAS DE SAÚDE │ UNIDADE I

XVII, a prática da auditoria recebe novas diretrizes, na busca de se atenderem às necessidades das
grandes empresas.

Na área de saúde, a auditoria aparece pela primeira vez no trabalho realizado pelo médico George
Gray Ward, nos Estados Unidos, em 1918; nesse trabalho, era feita a verificação da qualidade da
assistência prestada ao paciente por meio dos registros em seu prontuário. Um dos primeiros
trabalhos de auditoria em enfermagem data de 1955 e foi desenvolvido no Hospital Progress,
também nos Estados Unidos.

No Brasil, a auditoria vem tomando impulso nos últimos cinquenta anos, necessitando ainda de
arranjos que melhor adaptem o processo à nossa realidade. Essa necessidade tem conduzido alguns
profissionais a realizarem estudos visando identificar os objetivos, a metodologia e a validade da
auditoria.

31
Legislação em saúde Unidade iI

capítulo 1
Legislação

Responsabilidade civil e penal dos profissionais


de saúde
A Resolução no 161 do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN), de 1993, amplia os efeitos da
Resolução COFEN no 160, que aprova o Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem.

Em seu Capítulo III – Das Responsabilidade –, assim se manifesta:

Art. 16 – Assegurar ao cliente uma Assistência de Enfermagem livre de danos


decorrentes de imperícia, negligência ou imprudência.

Art. 17 – Avaliar criteriosamente sua competência técnica e legal e somente


aceitar encargos ou atribuições, quando capaz de desempenho seguro para si
e para a clientela.

Art.18 – Manter-se atualizado ampliando seus conhecimentos técnicos,


científicos e culturais, em benefício da clientela, coletividade e do
desenvolvimento da profissão.

Art. 19 – Promover e/ou facilitar o aperfeiçoamento técnico, científico e


cultural do pessoal sob sua orientação e supervisão.

Art. 20 – Responsabilizar-se por falta cometida em suas atividades profissionais,


independente de ter sido praticada individualmente ou em equipe.

Aspectos jurídicos
O art. 18 do Código Penal Brasileiro assim define o crime doloso e o crime culposo.

Crime Doloso – quando o agente quis o resultado e assume o risco de produzi-lo.

32
Legislação em saúde │ UNIDADE II

Crime Culposo – quando o agente deu causa ao resultado por imprudência, negligência ou
imperícia.

»» Imprudência – erro, indiscrição, inconveniência. Realizar algo mesmo sabendo que


está errado.

»» Negligência – omissão de assistência, transgressão ou oposição à prática do código


de ética.

»» Imperícia – atitude incorreta ou prejudicial por descuido ou ignorância. Erro


técnico.

Os direitos do cidadão: o profissional de saúde


diante do código de defesa do consumidor
Quando os auditores, no exercício de sua profissão, em especial, se encontram analisando uma conta
de grande risco, especificamente quando se trata de OPME (Órteses, Próteses e Material Especial),
devem promover uma auditoria atenciosa principalmente por se tratar de materiais implantáveis.
Faz- se necessário a certificação da qualidade dos materiais médico-hospitalares, produzidos e/ou
comercializados no Brasil; por isso a necessidade do número do registro da ANVISA que autoriza a
comercialização desses equipamentos. É uma das ocorrências mais importantes dessa última década
no cenário das tecnologias em saúde, por suas repercussões no setor industrial, no gerenciamento
dos estabelecimentos assistenciais de saúde e na esfera governamental.

A respeito dos diversos progressos que se observam em outros setores da sociedade na busca por
mais qualidade, motivados essencialmente pela competição iniciada pela abertura da economia e
das fronteiras a partir de 1990, o setor de equipamentos médico-hospitalares permaneceu alheio
por algum tempo a esse movimento. Uma das prováveis razões para isso é que, diferentemente
de outros bens de consumo duráveis, os equipamentos médicos-hospitalares estão sujeitos a uma
condição particular: quem recebe seus benefícios (ou sofre os efeitos de sua baixa qualidade) não
é quem decide a sua compra; ou seja, o cliente que necessita de um marcapasso, por exemplo,
geralmente dispõe de poucas informações sobre a qualidade e, consequentemente, não tem poder
de decisão na sua aquisição; quem paga por eles usa como critério de seleção apenas o preço.
Esse sistema, desprovido de controle social, permaneceu em vigência durante décadas e sinalizou
claramente aos produtores de equipamentos médico-hospitalares que a qualidade era secundária ao
preço. Isso favoreceu a proliferação de empresas sem qualificação e desestimulou empresas sérias a
comercializarem produtos de qualidade por serem menos competitivos.

A longevidade dessa condição socialmente perversa é decorrente também do fato de que os


episódios, em que a baixa qualidade dos Equipamentos Médico-Hospitalares resulta em prejuízos
aos pacientes (diagnósticos equivocados ou inoclusivos, sequelas de tratamentos, acidentes e
iatrogenia), são raramente investigados, e, portanto, dificilmente relacionados com baixa qualidade
dos equipamentos. É comum escutarmos: “Não deu certo a cirurgia, pois o paciente teve rejeição”.
Mas, por que será que teve rejeição? Dificilmente alguém questiona e acaba se conformando com o
“destino”.

33
UNIDADE II │ Legislação em saúde

E o direito do consumidor?

Direito de proteção e defesa do consumidor


Lei no 8.078, de 11 de setembro de 1990

CAPÍTULO I

Disposições Gerais

Art. 1o – O presente Código estabelece normas de proteção e defesa do


consumidor, de ordem pública e interesse social, nos termos dos arts. 5o, inciso
XXXII, 170, inciso V, da Constituição Federal e art. 48 de suas Disposições
Transitórias.
Art. 2o – Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza
produto ou serviço como destinatário final.
Parágrafo único – Equipara-se a consumidor a coletividade de pessoas, ainda
que indetermináveis, que haja intervindo nas relações de consumo.
Art. 3o – Fornecedor é toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada, nacional
ou estrangeira, bem como os entes despersonalizados que desenvolvem
atividades de produção, montagem, criação, construção, transformação,
importação, exportação, distribuição ou comercialização de produtos ou
prestação de serviços.
§ 1o – Produto é qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial.
§ 2o – Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo mediante
remuneração, inclusive as de natureza bancária, financeira, de crédito e
securitária, salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista
Da Política Nacional de Relações de Consumo
Art. 4o – A Política Nacional de Relações de Consumo tem por objetivo o
atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito à sua dignidade,
saúde e segurança, a proteção de seus interesses econômicos, a melhoria da
sua qualidade de vida, bem como a transparência e harmonia das relações de
consumo, atendidos os seguintes princípios:
I – reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de
consumo;
II – ação governamental no sentido de proteger efetivamente o consumidor:
a) por iniciativa direta;
b) por incentivos à criação e desenvolvimento de associações representativas;
c) pela presença do Estado no mercado de consumo;
d) pela garantia dos produtos e serviços com padrões adequados de qualidade,
segurança, durabilidade e desempenho.
Dos Direitos Básicos do Consumidor

34
Legislação em saúde │ UNIDADE II

Art. 6o – São direitos básicos do consumidor:


I – a proteção da vida, saúde e segurança contra os riscos provocados por
práticas no fornecimento de produtos e serviços considerados perigosos ou
nocivos;
II – a educação e divulgação sobre o consumo adequado dos produtos e serviços,
asseguradas a liberdade de escolha e a igualdade nas contratações;
III – a informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços,
com especificação correta de quantidade, características, composição,
qualidade e preço, bem como sobre os riscos que apresentem.

Para um consumidor adquirir um produto, ele precisa receber nota fiscal e o produto deve ter o
certificado de qualificação, que, nesse caso, seria a ANVISA. Esse processo é abordado na RDC 59 da
ANVISA, que fala sobre o sistema de rastreabilidade com a finalidade de verificar a procedência do
material, se pode ser comercializado no Brasil, sua qualidade, visando a segurança do consumidor
(paciente).

Planos de saúde

Lei dos planos de saúde


Lei no 9.656, de 3/6/1998.

Art. 1o – Submetem-se às disposições desta lei as pessoas jurídicas de


direito privado que operam planos de assistência à Saúde, sem prejuízo do
cumprimento da legislação específica que rege a sua atividade, adotando-se,
para fins de aplicação das normas aqui estabelecidas, as seguintes definições:

I – Plano de Assistência à Saúde: prestação continuada de serviços ou cobertura


de custos assistenciais a preço pré ou pós-estabelecido, por prazo indeterminado,
com finalidade de garantir, sem limites financeiros, a assistência à saúde, pela
faculdade de acesso e atendimento por profissionais ou serviços de saúde,
livremente escolhidos, integrantes ou não de rede credenciada, contratada ou
referenciada, visando a assistência médica, hospitalar e odontológica, a ser
paga integralmente ou parcialmente às expensas da operadora contratada,
mediante reembolso ou pagamento direto ao prestador, por conta e ordem do
consumidor.

II – Operadora de Plano de Assistência à Saúde: pessoa jurídica constituída


sob a modalidade de sociedade civil ou comercial, cooperativa, ou entidade de
autogestão, que opere produto, serviço ou contrato de que trata o inciso I deste
artigo;

35
UNIDADE II │ Legislação em saúde

III – Carteira: conjunto de contratos de cobertura de custos assistenciais ou de


serviços de assistência à saúde em qualquer das modalidades de que tratam o
inciso I e o § 1o deste artigo, com todos os direitos e obrigações nele contidos.

Operadoras
»» Seguradoras: empresas ou entidades que vendem apólice de cobertura de
sinistro em saúde. O consumidor sempre tem livre escolha de prestador de serviço,
independente da existência de rede referenciada, sendo reembolsado por cada
sinistro.

»» ADMINISTRADORAS: empresas especializadas em gestão de planos de saúde,


contratadas por operadoras e/ou autogestão, não assumindo os riscos e encargos
financeiros da cobertura dos custos assistenciais.

»» COOPERATIVA MÉDICA E/OU ODONTOLÓGICA: sociedade de pessoas, sem fins


lucrativos, constituída conforme o disposto na Lei no 5.764/1971, que opera planos
privados de assistência à saúde. Entidades Municipais.

PLANOS E SEGUROS PRIVADOS DE SAÚDE

Regulamentação
A regulamentação do setor de saúde suplementar, exigida pela Constituição de 1988, surgiu apenas
em 1998, quando o SUS já apresentava: a Lei Orgânica da Saúde, Lei no 8.080/1990, a extinção do
INAMPS, a Norma Operacional Básica (NOB)/1993, a NOB/1996 e a implantação do Piso da Atenção
Básica (PAB), em 1998. Em 2000, a Lei no 9.961 criou a Agência Nacional de Saúde Suplementar
(ANS) e definiu sua finalidade, estrutura, atribuições, sua receita , a vinculação ao Ministério da
Saúde e sua natureza.

36
Legislação em saúde │ UNIDADE II

O setor de saúde suplementar reúne mais de 2000 operadoras de planos de saúde, milhares de
profissionais como médicos, dentistas e outros, bem como hospitais, laboratórios e clínicas.
Essa rede de prestadores de serviços de saúde contempla o atendimento a mais de 37 milhões de
consumidores que utilizam planos privados de assistência à saúde, para a realização de exames,
consultas, internações e outras modalidades de assistência.

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) constitui-se em agência reguladora vinculada ao


Ministério da Saúde, que tem por missão a promoção e o equilíbrio nas relações entre os diversos
segmentos de saúde.

A partir de 2002, o Ministério da Saúde começou a disseminar os conceitos e as práticas da regulação.

A Regulação é definida por alguns especialistas como o ato de regulamentar e criar regras; outros a
definem como um conjunto de ações que se interpõem entre as necessidades dos usuários e seu acesso
aos serviços de saúde, viabilizando a atenção integral, universalizado e realizador de direitos sociais.

A proposta de Política de Regulação apresentada pelo Ministério da Saúde advém de uma


aproximação histórica aos conceitos, práticas e finalidades do controle, avaliação, auditoria e
regulação. Até meados da década de 1990, não havia regulação nesse setor por parte do governo.
Sua regulamentação só ocorreu com a publicação da Lei Federal no 9.656, de 3 de junho de 1998,
dispondo sobre os planos e seguros privados de assistência à saúde, obrigando as operadoras de
planos de saúde a estabelecer serviços com alta competitividade, esquemas de verificação e controle
de cada um dos seus processos inerentes à sua funcionalidade.

Campos de atuação
Os campos de atuação da regulação estão respresentados pelo esquema abaixo.

»» Regulação sobre Sistemas de Saúde

»» Regulação da Atenção à Saúde

»» Regulação do Acesso a Serviços

Regulação sobre Sistemas de Saúde

Obedece à seguinte ordem.

»» O gestor federal sobre estados e municípios e setor privado não vinculado ao SUS.

»» O gestor estadual sobre municípios e prestadores.

»» O Gestor municipal sobre prestadores.

»» A autorregulação de cada esfera de gestão.

»» A regulamentação geral.

»» O controle sobre Sistemas de Saúde.

»» A avaliação dos Sistemas de Saúde.

37
UNIDADE II │ Legislação em saúde

»» A regulação da Atenção à Saúde.

»» A auditoria.

»» A ouvidoria.

»» O controle social.

»» A vigilância sanitária.

»» As ações integradas com outras instâncias de Controle Público.

»» A regulação da saúde suplementar.

Regulação da Atenção à Saúde

Consiste na produção das ações diretas e finais de atenção à saúde; portanto, está dirigida aos
prestadores de serviços de saúde, públicos e privados.

As ações da Regulação da Atenção à Saúde compreendem:

»» Relações pactuadas e formalizadas entre gestores e prestadores de serviços de


saúde.

Regulação do Acesso a Serviços

Configura-se na formalização de acordo com os objetivos postos e pode promover adequação


da oferta à necessidade, buscar redução de custos sem prejuízo das necessidades dos usuários,
privilegiar acesso a alguns serviços, buscando adequar à complexidade de seu problema, aos níveis
tecnológicos exigidos para uma resposta, oportuna, ordenada, eficiente, eficaz e humanizada.

Conceito de política de regulação


A Política de Regulação em Saúde é uma estratégia para regular a oferta e a demanda da atenção
à saúde. Consiste na organização de um conjunto de ações de regulação de acesso à assistência, de
maneira articulada e integrada, buscando adequar a oferta de serviços de saúde à demanda que mais
se aproxima das necessidades reais em saúde. Permite aos gestores articular e integrar dispositivos
da regulação de acesso como centrais de internação, centrais de consultas e exames, protocolos
assistenciais com outras ações de regulação da atenção à saúde como contratação, controle e
avaliação assistencial.

Importante ressaltar que a contratação de serviços ofertados pelos prestadores como internações,
consultas, exames etc, devem estar disponibilizados para o complexo regulador, obedecendo às
normas e fluxos definidos pelo comprador de serviços, com o intuito de estabelecer relações entre
regulação e assistência, ou seja, entre os mecanismos de acesso aos diferentes níveis de complexidade
da atenção à saúde e a avaliação de sua resolubilidade.

Sob a perspectiva da produção do cuidado, enfoca a integralidade como mecanismo de


responsabilização por parte da operadora e dos produtores de serviços, ou seja, a atenção integral

38
Legislação em saúde │ UNIDADE II

à saúde como forma de não haver interrupção e fragmentação do cuidado. Para a análise do
percurso do usuário no modelo de assistência da saúde suplementar, adota a ‘linha do cuidado’
como analisadora das relações cotidianas que envolvem usuários e produtores de saúde, incluindo
a operadora.

A linha do cuidado trabalha com a hipótese da relação entre produtos, clientela e qualidade da
assistência, organizando os recursos que são disponibilizados na assistência ao usuário, ofertados
em vários serviços. A partir da entrada do usuário, em qualquer nível de complexidade da rede
de serviços da operadora, inicia-se a definição do projeto terapêutico de acordo com as ações
necessárias a ele no acesso aos serviços de apoio diagnóstico e terapêutico, especialidades, atenção
hospitalar e outras modalidades de atenção.

A ANS tem o entendimento de que as operadoras de planos de saúde devem ser as gestoras do
cuidado e os prestadores de serviço, produtores de saúde e do cuidado. A Agência, no Manual Técnico
de Promoção da Saúde e Prevenção de Riscos e Doenças na Saúde Suplementar (www.ans.gov.br/
portal/upload/biblioteca/manual_ans), elegeu as seguintes linhas de cuidado prioritárias: saúde da
criança e do adolescente, saúde do adulto e do idoso (doenças cardiovasculares e neoplasias), saúde
da mulher, saúde mental e saúde bucal.

Mecanismos de Regulação

»» Elaborar manuais de boas práticas;

»» Criar protocolos e diretrizes.

»» Realizar auditoria de controle:

›› médica;

›› de enfermagem.

»» Realizar perícia médica.

»» Desenvolver programas de atenção à saúde.

»» Permitir o referenciamento em todos os níveis de atenção nas redes de prestadores


de serviços.

»» Estabelecer os critérios e processos na priorização da incorporação de tecnologias,


contemplando aspectos de efetividade, necessidade, segurança, eficiência e
equidade, privilegiando sempre a melhor evidência científica.

»» Sensibilizar os prestadores de serviços e a sociedade em geral para a importância da


utilização racional e as consequências econômicas e sociais do uso inapropriado de
tecnologias nos serviços de saúde.

39
capítulo 2
Auditoria

Auditoria de controle (médica e de


enfermagem)
Considerada uma tendência mundial, a Auditoria constitui-se em uma ferramenta importante para
mensuração da qualidade nas Operadoras de Planos de Saúde, sendo uma avaliação sistemática da
qualidade da assistência, verificada por meio das anotações em prontuário do paciente e/ou das
suas próprias condições.

As atribuições dos profissionais auditores são complexas. Consistem em conferir e controlar o


faturamento enviado pelos prestadores de serviços, verificar exames e procedimentos realizados,
efetuar visitas de rotina a pacientes internados, cruzando as informações recebidas com as que
constam no prontuário do paciente. Visam, também, investigar a propriedade dos gastos e processos
de pagamentos, analisar as estatísticas, indicadores hospitalares e específicos da organização,
conferir os sistemas de faturamento das contas médicas e, ainda, elaborar processos de glosas
contratuais e administrativas.

É notório que essa atividade profissional, a cada dia, vem ocupando lugar de destaque no mercado
de trabalho e na manutenção da viabilidade financeira das Operadoras de Planos de Saúde,
independentemente da sua natureza.

Assim como a Auditoria Médica, a Auditoria de Enfermagem reveste-se de extrema responsabilidade,


quer pela complexidade da análise de contas médico-hospitalares, quer pela multiplicidade de
controles minuciosos e diversificados com que normalmente trabalham.

Perícia médica
A terminologia mais utilizada no Brasil, para referenciar as avaliações feitas sobre os procedimentos
em saúde, com vista à regulação da qualidade dos serviços executados pelos profissionais
credenciados das empresas operadoras de saúde, é “Perícia”, que consiste no ato de avaliação sobre
serviços de uma rede credenciada.

Criação de protocolos e diretrizes


Uma diretriz clínica, também chamada de protocolo clínico, é um conjunto de recomendações
desenvolvidas de maneira sistematizada, que se destina a apoiar os auditores na tomada de
decisões acerca dos cuidados de saúde, em situações específicas. Tem como vantagem a melhoria
dos resultados e da qualidade em saúde, promovendo práticas eficazes e seguras. Contribui para

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Legislação em saúde │ UNIDADE II

a melhoria da consistência dos cuidados, com redução da variação da prática médica. Oferece
informações de boa qualidade que servem como instrumentos de alteração de políticas. Serve como
esquema referencial da melhor prática médica. Contribui para a melhoria da eficiência dos serviços
e auxilia na otimização dos recursos.

Elaboração de manuais de boas práticas


A elaboração de manuais contribui para a uniformização de critérios técnicos de auditoria médica e
de enfermagem, oferece elementos que possibilitam o estabelecimento de rotinas e contribui para a
otimização de custos, facilitando, assim, desenvolver uma relação saudável com os prestadores de
serviços.

Programas de atenção à saúde


As operadoras de planos de saúde, bem como o sistema público, têm como prerrogativa o foco do
gerenciamento sobre quatro atividades fundamentais:

»» atenção curativa;
»» promoção da saúde;
»» prevenção de enfermidades;
»» cuidados com idosos.
Além disso, devem ser consideradas as seguintes ações estratégicas:

»» programas de medicina preventiva e holística;


»» gerenciamento do risco da saúde e da qualidade dos serviços;
»» atuação primária sobre o usuário, visando à identificação de doenças e de lesões
e sua eliminação ou controle;

»» possibilidade de acesso a múltiplos serviços ambulatoriais e de exames de


diagnose;

»» educação de usuários quanto à utilização dos serviços médicos e conhecimento


dos custos relacionados;

»» premiação por ações de prevenção adotadas pelos usuários;


»» pesquisas de satisfação.

41
UNIDADE II │ Legislação em saúde

Referenciamento em todos os níveis de


atenção nas redes de prestadores de serviços
Identificação de profissionais de saúde na rede credenciada para atender os usuários, cuja atenção
está baseada na excelência profissional, na confiança e na resolução dos problemas de saúde de
maior complexibilidade.

Critérios e processos na priorização


da incorporação de tecnologias, que
contemplem aspectos de efetividade,
necessidade, segurança, eficiência e
equidade, privilegiando sempre a melhor
evidência científica
A avaliação de uma tecnologia a ser incorporada pelo sistema de saúde, seja no sistema público
ou privado, requer revisão sistemática e criteriosa da literatura disponível, considerando aspectos
relevantes como efetividade, custo e impacto na promoção, manutenção e reabilitação da saúde.

Sensibilização dos prestadores de serviços e


a sociedade em geral para a importância
da utilização racional e as consequências
econômicas e sociais do uso inapropriado de
tecnologias nos serviços de saúde
A incorporação do conceito de que a assistência à saúde envolve atividades de promoção, para
prevenção de agravos, tratamento e reabilitação é fundamental para a mudança de postura dos
usuários e induzir a sua participação no processo de utilização dos recursos disponibilizados pelos
Planos de Saúde. Sendo assim, é possível o entendimento da responsabilidade que cada um tem
pelo seu próprio estado de saúde e que não somente cabem ações aos planos de saúde e prestadores
de serviços a eles vinculados ou ao SUS.
A avaliação dos usuários sobre o atendimento de suas necessidades, quantitativa e qualitativamente,
também pode ser influenciada pela difusão de informações sobre as evidências científicas das
vantagens e a relação entre o custo e a efetividade da utilização de determinados procedimentos, bem
como alerta para os perigos de comportamentos indesejáveis, como, por exemplo, a automedicação
ou a realização de procedimentos invasivos desnecessários.
Além disto, a percepção da necessidade de manutenção do equilíbrio econômico-financeiro
dos planos e de evitar o desperdício de recursos por má utilização também pode contribuir para
modificar a postura das usuários dos Planos de Saúde.

Legislação
Lei no 9.961/2000 – Cria a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e dá outras providências.

Lei no 9.656/1998 – Dispõe sobre os planos e os seguros privados de assistência à saúde.

Resolução COFEN no 266/2001 – Aprova atividades de Enfermeiro Auditor.

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Referências
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