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Entre vários outros estudos de caso apresentados pelos auto­

res, na versão de Chomsky e Herman (1988) a invasão indonésia


de Timor e os crim es subseqiientem ente perpetrados contra os
timorenses foram temas pouco relatados na imprensa norte-ame­
ricana porque a Indonésia era vista como um país amigo dos Esta­
dos Unidos, como um país vital para a política externa e para os
interesses políticos e diplom áticos dos EUA, que, ao invadirem
Timor, estavam a impedir o alastramento do comunismo na Ásia.
Pelo contrário, os crimes perpetrados no Camboja pelo sangrento
regime comunista de Pol Pot e dos Khmer vermelhos foram ampla­
mente noticiados pela imprensa norte-americana, isto porque, na
versão de Chomsky e Herman (1988), esse ângulo de cobertura ia
ao encontro das crenças e expectativas da audiência e servia aos
interesses políticos dos Estados Unidos.

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NEWSMAKING E A VERSÃO
SCHUDSODIANA DE SISTEMATIZAÇÃO
DAS TEORIAS DA NOTÍCIA

á vimos já que Michael Schudson (1988) oferece uma visão sisi

J matizada das teorias e das razões que procuram explicar por q


é que as notícias são como são, visão essa que, devido ao seu carát
sintético, é particularmente útil, funcional e tem virtualidades ped
gógicas. Tentei, porém, complementar a visão schudsoniana co
elementos que parecem ter-lhe passado mais ou menos despercel
dos, como a tecnologia, ou elementos que ele não enfatiza, comc
ação do meio social não organizacional.
Segimdo Schudson, a ação pessoal, a ação social e a ação ci
tural, em inter-relação, são as três principais explicações para que
notícias sejam como são. Em conformidade com a ação pessoal,
notícias são vistas como um produto das pessoas e das suas inte
ções; a ação social dá ênfase ao papel das organizações (vistas con
mais do que a soma das pessoas que as constituem) e dos seus cor
trangimentos na conformação da notícia; a ação cultural perspec
va as notícias como um produto da cultura e dos limites do que
culturalmente concebível no seio dessa cultura: isto é, uma dai
sociedade, num determinado momento, só consegue produzir ur
determ inada classe de notícias (SCHUDSON, 1988). Esta últin
asserção vai ao encontro do que diz McQuail (1991), que refere q
grande parte dos conteúdos das notícias resultam da reelaboraç.
de temas e imagens procedentes do passado cultural.
Se, na perspectiva da ação pessoal, as notícias dependem <
que as fontes dizem, da forma como pessoas poderosas atuam s
bre os news media (querendo lucro ou a promoção de determinados
pontos de vista e a secundarização de outros, etc.; estas idéias so­
bre a influência na ação pessoal muitas vezes orbitam em torno
das chamadas teorias da conspiração) ou da maneira como os jor­
nalistas e seus chefes percepcionam, avaliam, selecionam e trans­
formam a matéria-prima informativa em notícias, na perspectiva
da ação social, para além desses fatores, há a considerar que fre­
quentemente os produtos de uma organização podem "[...] ser mais
a consequência não planeada de um pequeno número de pequenas
escolhas do que o resultado de um pequeno número de decisões crí­
ticas" (SCHUDSON, 1988, p. 22). Por isso, "[...] temos notícias que
ninguém queria [...], a notícia é [também] o resultado não planifica-
do da dinâmica organizacional" (SCHUDSON, 1988, p. 23).
Em bora aceite as asserções de Schudson, para mim a ação
social não se esgota nas organizações noticiosas, pois estas relacio-
nam-se com o meio social e sofrem as influências deste, desde logo
através das fontes — e as relações entre as fontes e os jornalistas
são problemáticas. Assim sendo, julgo que o contexto da ação soci­
al deve ser aferido de uma forma mais ampla.
Portanto, ao falar-se de meio social, temos de pensar na cultu­
ra que lhe é implícita e, na minha opinião, também da ideologia, a
um nível intermediário entre o social e o cultural. Schudson (1988,
p. 23), porém, enfatiza sobretudo a questão cultural:

[...] o defensor de uma perspectiva de ação social pode muito bem explicar por
que é que um padrão estabelecido logicamente persiste, mas não nos pode ajudar
a compreender as suas origens. O ponto de vista da teoria da ação social explica
por que é que existem padrões, por que é que as rotinas e os rituais sobrevivem e
têm poder, mas diz muito pouco sobre a razão pela qual as rotinas e os rituais são
esses e não outros.

As lim itações explicativas da ação pessoal e da ação social


seriam, na versão de Schudson (1988), ultrapassadas pela adição
da ação cultural — as notícias seriam vistas não apenas como um
produto das pessoas ou um artefato produzido por organizações
sociais, mas também como um artefato que, mesmo involuntaria­
mente, se apóia e faz uso de padrões culturais pré-existentes para
ser realizado e para produzir sentido (por exemplo, na nossa cul­
tura, notícia é, de alguma forma, o que é novo, a resposta à ques­
tão "Q ue novidades há?"). A antropologia, com a idéia de sistema
cultural, conjunto de categorias cognitivas através das quais uma
sociedade vê o mundo, oferecería, neste campo, uma contribuiçãc
importante (SCHUDSON, 1988) — o conceito defrnme, ou seja, dc
"enquadram ento", por exemplo, ajusta-se aqui.
Note-se, porém, que o conteúdo não se esgota numa manifes
tação de cultura. Os conteúdos dos news media também são um?
fonte de cultura, também exercem um determinado papel na cons­
trução cultural, um processo ativo e contínuo. Segundo Shoemakej
e Reese (1996), os media tomam até elementos da cultura, reenqua-
dram-nos, relevam-nos e remetem-nos para a audiência após este
processo de mediação, impondo assim a sua própria lógica na cri­
ação de um ecossistema simbólico. Para os autores, se a cultura
muda, se se adapta e evolui, os conteúdos mediáticos podem fun
cionar quer como catalisadores, quer como travões da mudança
Por exemplo, neste último campo, o conteúdo dos media poderia
tomar as piores características da sociedade, disseminá-las e, poi
consequência, fortalecê-las, tornando a mudança difícil. Além dis
so, numa abordagem mais estruturalista, as representações sociai:
patentes nos conteúdos mediáticos, podendo refletir as relações de
poder existentes na sociedade, poderíam também levar a que difi
cilmente outros tipos de relacionamento fossem concebíveis.
Nos pontos seguintes, aplicarei a proposta sistem ática de
Schu dson (1988) e, tam bém , a de Shoem aker e R eese (1996)
complementadas com as minhas próprias idéias, ao corpo teóricc
do newsmaking, para testar da sua aplicabilidade.

A ção pesso a l

É quase intuitivo dizer-se que as capacidades pessoais, as inici


ativas pessoais, a figura do jornalista-autor (original, criador...) são
entre outros, fatores pessoais que informam as notícias. Mas, trans
cendendo a esfera das intuições, há estudos que lançam outras pis
tas sobre os mecanismos de "ação pessoal" que se fazem sentir sobr<
o processo de construção e fabrico das notícias jornalísticas.
Desde que White (1950) lançou os estudos com base na úti
metáfora do gatekeeping (seleção de informação em "portões" con
trolados por "porteiros", havendo informação que passa e outr;
que fica retida) que se estuda o papel do jornalista, enquanto pes
soa individual, na conformação da notícia. De fato, no seu estudt
pioneiro, o autor concluía que a seleção das notícias era um pro
cesso altamente subjetivo, fortemente influenciado pelas experiên
cias, valores e expectativas do gatekeeper mais do que por cons
trangimentos organizacionais. Ao chegar a essa conclusão deu um
forte impulso à superação científica das "teorias do espelho", que
viam a notícia como um espelho dos acontecimentos.
Não obstante, se os estudos mais antigos (de que o de White é
exemplo) salientavam o papel individual dos repórteres e editores
na seleção e configuração das notícias, os estudos mais recentes
parecem indicar que fatores "am b ien tais", "eco ssistem ático s",
como as dendlines, o espaço, as políticas organizacionais, as carac­
terísticas do meio social e da cultura, entre outros, desempenham
um papel importante na construção das notícias14. Podemos m es­
mo afirmar que os fatores "ecossistem áticos" são vistos agora como
o fator crítico para a construção das notícias e, conseqüentemente,
para a dissonância não pretendida (unzoitting bias) entre as repre­
sentações da realidade que as notícias são e a realidade em si. Em
relação com isto, podem os ainda dizer que, se as notícias são
dissonantes da realidade, isso acontece menos ou tanto devido às
pessoas que processam as notícias e mais ou tanto a fatores que, de
certa forma, escapam ao controle dessas pessoas, como as organi­
zações, o meio social e comunitário e as culturas e ideologias em
que os jornalistas trabalham.
Contudo, é preciso notar-se, também, que a ênfase recente
nos fatores "eco ssistem ático s" teve, por consequência, algum
alheamento da comunidade acadêmica em relação "ao que vai na
m ente" dos jornalistas, nom eadam ente no campo do papel das
cognições dos jornalistas para a construção das notícias, isto é, um
certo alheamento para a forma como a "m ente" ajuda a construir
as notícias, que é um aspecto de ação pessoal conform ativa das
notícias, porventura tão importante como o campo das intenções,
crenças, valores e expectativas individuais de cada jornalista.
Embora o campo da análise da forma como os jornalistas ope­
ram em termos cognitivos escape um pouco ao espírito deste livro,
é importante referir que a investigação chegou a conclusões inte­
ressantes. Por exemplo, como o ser humano só processa uma pe­
quena quantidade de informação a cada momento, os jornalistas,
sob a pressão do tempo, farão um uso adaptado de rotinas cognitivas
que lhes sejam familiares para organizar as informações e produ­
zir sentido. Tenderão também a procurar e selecionar informações
que confirmem as suas convicções (Cf. STOCKING e GROSS, 1989).
Por exem plo, se aplicarm os estas conclusões das pesquisas ao
fotojornalismo, poderemos considerar que esses fenômenos são uma
das razões pelas quais alguns fotojornalistas mantêm abordagens
fotográficas mais ou menos padronizadas da realidade social —
convictamente, eles podem julgar que "fotojornalism o é isso" e,
sob a pressão do tempo, fotografarão como estão habituados a fa­
zer (Cf. SOUSA, 1997).
Outras pesquisas no campo da psicologia cognitiva mostra­
ram que em condições de sobre-informação as pessoas e, por con­
seguinte, os jornalistas, recorrem a formas estereotipadas de pen­
samento (o que pode ajudar a explicar a padronização noticiosa);
e também que, quando fazem inferências, as pessoas, como os jor­
nalistas, baseiam-se mais em episódios anedóticos do que em da­
dos sistem áticos, com o os dados estatísticos (Cf. STOCKING e
G R O SS, 1989). A lém d isso , as d isso n ân cias co g n itiv a m e n te
induzidas, em parte devidas à rotinização cognitiva, constrangem
as percepções que uma pessoa tem da realidade, podendo, por con­
seguinte, favorecer a ocorrência de erros de julgamento na avalia­
ção do que é noticioso (nezus judgement) (Cf. STOCKING e GROSS,
1989). Assim, um jornalista, constrangido pelas formas rotinizadas
de avaliar as situações e a sua própria atividade, poderá tender a
fabricar informação padronizada (por exemplo, a redigir notícias
com base na técnica da pirâmide invertida) e a selecionar sempre
como tendo valor noticioso o mesmo tipo de acontecimentos (por
alguma razão as conferências de imprensa dos políticos parece ter
sempre valor noticioso aos olhos dos jornalistas enquanto, por exem­
plo, as dissertações de mestrado e doutoramento, por mais rele­
vantes que sejam, não o parecem ter) sem procurar outras vias de
atuação (que poderíam ser, eventualmente, mais eficazes em cer­
tas circunstâncias). Esta talvez seja até, provavelmente, uma das
razões pela qual a imprensa diária está a perder leitores: fala sem­
pre do mesmo e da mesma m aneira, entediando e aborrecendo,
sem atender às necessidades informativas dos leitores, que busca­
rão também no consumo de jornais e revistas gratificações (ensina-
nos a teoria dos usos e gratificações dos meios de comunicação)
que lhes evitem o tédio.
A auto-imagem que os jornalistas têm do seu papel poderá sei
um fator de grande influência na seleção de informação e, portanto,
um elemento importante para a configuração da notícia. Por exem­
plo, Johnstone, Slawski e Bovvman (1972) mostraram que alguns
jornalistas se consideravam "neutros", perspectivando as suas pro
fissões como meros canais de transmissão, e que outros se viam comc
"participantes", acreditando que os jornalistas necessitariam de ex­
plorar, esquadrinhar e sacar a informação em ordem a descobrir <
desenvolver as histórias. Os jornalistas "neutros" olhavam para as
suas obrigações profissionais como resumindo-se a recolher, proces­
sar e difundir rapidamente informação para uma audiência o mais
vasta possível, evitando histórias cujo conteúdo não estivesse sufici­
entemente verificado; os "participantes" viam-se como "cães de guar­
da", paladinos da investigação jornalística, em ordem a controlar os
poderes, pelo que investigavam as informações governamentais,
providenciavam análises para problemas complexos, discutiam as
políticas e desenvolviam interesses intelectuais e culturais.
Parece, assim, ser mais ou menos claro que a forma como os
jornalistas definem a sua profissão pode afetar o conteúdo que pro­
duzem: os jornalistas que se vêem como "neutros", em princípio,
fabricarão histórias diferenciadas dos "participantes" (veja-se, por
exemplo, as pedradas no charco que em Portugal foram o apareci­
mento da TSF, do Público, de O Independente e das televisões priva­
das; ou a enorme diferença que existe entre a massa anônima de
grande parte dos jornalistas de agência e a personalidade combati­
va, mas independente, de Miguel Sousa Tavares). No fotojornalis-
mo, retomando um exemplo citado na minha tese de doutoramento
(SOUSA, 1997), um fotojornalista que se veja como "neutro" pro­
vavelm ente abordará a realidade social usando essencialm ente
ângulos normais de captação de imagem (enquadramento ao nível
dos olhos), enquanto um participante poderá procurar delibera-
damente um ponto de vista, usando outros ângulos, como o "pica­
do" (tendencialmente desvalorizante do motivo) ou o "contrapi-
cado" (tendencialmente valorizante do motivo).
A concepção ética do papel do jornalista na sociedade que
cada jornalista possui também pode influenciar a construção de
conteúdos para os neius media.
A ética, na definição de Altschull (1984), que partilho, corres­
ponde, sinteticamente, à definição dos valores morais e dos princí­
pios do certo e do errado. Neste campo, o jornalista tem algum
espaço de manobra. Exemplificando, pode perceber como ético o
serviço à humanidade em geral em detrimento da satisfação dos
seus próprios fins ou dos desejos de uma determinada audiência;
ou, pelo contrário, poderá ver-se, por exemplo, como um agente cuja
função é somente ser fiel aos desejos de uma determinada audiên­
cia. Mas parece ser claro que, em função das considerações do seu
papel ético, o jornalista poderá afetar os conteúdos que produz.
Seguindo a opinião de Shoemaker e Resse (1996), que subs­
crevo, podemos associar a heurística cognitiva ("obtenção de co­
nhecim ento por descoberta") à ação pessoal na conform ação da
notícia. De fato, se, conforme enunciaram Niebett e Ross (1980), as
mensagens recebidas raramente são vistas como únicas ou origi­
nais, sendo antes categorizadas em função de estruturas mentais
pré-existentes, esta categorização das mensagens que se apresen­
tam nos pontos de seleção dos canais de gatekeeping em (a) mensa­
gens que passam e (b) mensagens que não passam, parece deixar
um espaço de decisão aos jornalistas que contraria idéias sobre a
sua hipotética passividade. Pamela Shoemaker (1991) fala mesmo
da utilização hipotética de um esquema noticioso (nexos schem a,
isto é, uma espécie de esquema categorial relativo às notícias) para
a v a lia r as m en sagen s que são co n sid e rad as n o tícia s, send o
selecionadas, e as que não são consideradas notícias, que não seri­
am selecionadas — as mensagens selecionadas seriam aquelas que
estivessem associadas a um esquem a noticioso (nexos schem a)
(relembre-se que Piaget tinha também uma aproximação semelhan­
te para muitos dos nossos atos, que explicava através da idéia de
uma espécie de esquema mental-comportamental).
Também podemos associar a heurística representativa a uma
ação pessoal dos jornalistas na conform ação da notícia que está
bastante próxima da proposta do "esquem a noticioso".
Basicamente, a heurística representativa está relacionada com
uma forma automática e irrefletida de categorização por compa­
ração com outros itens já incluídos numa categoria. Exemplificando,
um editor pode ter uma idéia do que é a categoria "notícia de uma
conferência de im prensa", pelo que as notícias que potencialmente
selecionará (ação pessoal) serão as que se inscrevem nessa catego­
ria mental previamente existente. Todavia, estou em crer que a cons­
trução de categorias é um processo que ultrapassa cada pessoa em
particular, especialmente quando esta se integra num grupo, como
sucederia na generalidade dos órgãos de comunicação jornalística.
Os news items que atacam as crenças do gatekeeper podem ,
segundo Greenberg e Tannenbaum (1962), causar stress cognitivo
e, assim, atrasar a seleção, bem como causar erros no news judge-
ment, como por exemplo levar o jornalista a errar na classificação
de uma mensagem como soft nexos ou liard nexos. Em conformidade
com Shoemaker (1991), os itens potencialmente capazes de passar
os diversos pontos de seleção são aqueles que revelam maior quali­
dade e atratividade, enquanto de entre os menos reveladores dessa
capacidade se encontram os itens que duplicam os que já atraves­
saram os canais de gatekeeping e aqueles que são desmerecedores

AS
de confiança, pelo menos na forma em que são recebidos. Para se
ter uma idéia da influência desse processo sobre o gatekeeping,
Tuchm an (1972) sugeriu que os jornalistas tendem a procurar
reinterpretar os julgamentos dos seus superiores para tornarem as
suas mensagens mais suscetíveis de passarem pelos portões, sendo
essa uma das razões hipotéticas pelas quais as histórias de deter­
minados jornalistas eram mais publicadas do que as de outros.
Hickey (1966) sustentou, por seu turno, que uma interpreta­
ção mais eficaz do processo de gatekeeping passava pelas percep­
ções que os gatekeepers têm uns dos outros e pelas reações de cada
gatekeeper à sua função. Epstein (1973) tinha até salientado que as
funções ocupadas pelos jornalistas e administrativos dentro de uma
organização noticiosa originava tensões, devido às distintas con­
cepções dos valores jornalísticos. Os próprios jornalistas teriam,
por vezes, valores diferenciados consoante a posição que ocupa­
vam (redatores, correspondentes, chefes, etc.).
Flegel e Chafee (1971) testaram a idéia original de White, se­
gundo a qual o processo de gatekeeping seria subjetivo, inquirindo
diretam ente a jornalistas de dois jornais de diferente orientação
política se as suas opiniões influenciavam os conteúdos das notíci­
as. Os resultados mostraram que, pelo menos em parte, o processo
de gatekeeping também depende da ação pessoal dos gatekeepers, já
que os jornalistas inquiridos revelaram que eram fortemente influ­
enciados pelas suas próprias opiniões, a que se seguia as opiniões
dè editores, leitores e anunciantes (ação social).
Diferentes estilos e interpretações diversificados do que a admi­
nistração, direção e chefias de um órgão jornalístico querem, tam­
bém podem resultar em diferentes decisões de seleção (SHOEMAKER,
1991). Mas, segundo Schudson (1988), é preciso não esquecer que os
jornalistas aparentam ser cada vez mais sensíveis uns aos outros e
cada vez menos sintonizados com os pontos de vista dos seus chefes,
pelo que a ação social se sobreporia, aqui, à ação pessoal.
Por sua vez, o processo de tomada de decisão (decision waking)
ao nível individual do gatekeeping pode ser visto como um processo
de decisões binárias, que consistiria na aplicação de uma série de
regras de decisão para decidir se uma mensagem passa os "portões"
(gates) ou não (GANS, 1980). Todavia, se existem regras de deci­
são, elas, à partida, deverão, pelo menos parcialmente, depender
da organização. A diversidade do produto será, em princípio, tan­
to menor quanto maior for a minúcia e exaustividade dessas re­
gras, bem como quanto maior for o nível de habituação a essas

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regras (rotinização da aplicação das regras). A pressão do tempo
afetará também o processo de decisão, já que, a meu ver, quanto
menor é o tempo para a tomada de decisão, menores são as opções
que podem ser consciencializadas e tomadas.
Para falarmos de ação pessoal sobre as notícias teríamos ain­
da de falar das teorias da conspiração, como as que vêern as notíci­
as como o resultado da definição pelos poderosos do que é notícia
e da forma como as notícias se devem apresentar (veja-se, por exem­
plo, a exposição que Schudson (1988) faz de algumas das teorias
da conspiração). Embora algumas destas teorias toquem em pon­
tos problemáticos, como a relevante ou por vezes mesmo crucial
ou definitiva influência que certos agentes de poder, certos jorna­
listas e certos empresários têm sobre as notícias, regra geral são teo­
rias que pouco têm de científico e que se baseiam essencialmente
num pequeno número de experiências concretas vividas por aque­
les que apresentam essas teorias ou que lhes foram contadas por
quem as viveu. Pecam, por isso, frequentemente, pelo exagero e pela
tomada de diversas partes pelo todo (metonimização teórica).
Em resumo, julgo que os dados referidos permitem concluir
que as notícias possuem sempre a marca da ação pessoal de quem
as produz, embora temperada por outras forças conformadoras.

A ção so c ia l

Podemos, intuitivamente, dizer que, independentemente da


vontade dos jornalistas, apenas uma pequena parcela de todo o
tipo de fatos se converte em notícia, até porque grande parte deles
não são promovidos ou representam situações perspectivadas como
"norm ais" numa sociedade. Por consequência, podemos intuir que
há notícias potenciais que acabam por participar na construção
social da realidade e que outras não. Os estudos sobre newsmaking
lançam alguma luz sobre esse fenômeno global, enfatizando vári­
os mecanismos que transcendem a ação pessoal do jornalista, en­
tre os quais a ação social.
Em termos de ação social, é preciso fazer notar, por exemplo,
que as organizações burocratizadas em que os news media se tor­
naram têm uma grande dependência dos canais de rotina (confe­
rências de im prensa, tribunais, agências noticiosas, press-releases
— algum as organizações têm mesmo agentes especializados em
tornar as mensagens suficientemente atrativas para passarem to­
dos os gates— , acontecimentos mediáticos, photo opportunities, etc.).

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Essa dependência é, provavelmente, mais elevada do que a depen­
dência das atividades empreendedoras dos jornalistas e dos canais
informais (troca de informação em backgroiind, etc.).
Em outra perspectiva, a negociação entre os jornalistas e as
fontes pode, julgo, situar-se à ação social, uma vez que traduz
interações em sociedade que transcendem uma única pessoa, em­
bora não seja de excluir que a vontade de uma pessoa poderosa
possa sobrepor-se e não "com patibilizar-se" com a do jornalista,
representando, deste modo, um dispositivo categorizável na ação
pessoal. Porém, reportando-nos à negociação entre os jornalistas
e as fontes em Portugal, importa dizer que 90,6% dos jornalistas
inquiridos no Segundo Inquérito Nacional aos Jornalistas Portu­
gueses, dirigido por José Luís Garcia, dá conta de já ter sofrido
pressões no exercício da sua atividade profissional, sendo que
30,3% revelam que essas pressões se sentem "m uitas vezes" e
60,3% "poucas vezes". De acordo com os dados do mesmo inqu­
érito, 43,2% dos jornalistas inquiridos afirmou que existem tan­
tas pressões internas como externas, 29,7% que existem mais pres­
sões externas do que internas e 24,5% que existem mais pressões
internas do que externas. As pressões externas proviríam de gru­
pos de interesse poiítico-partidários (85,8%), empresariais (61,5%),
governam entais (57,1%), desportivos (41,6%), religiosos (20,8%)
e jornalísticos (20,4%). As pressões internas seriam principalm ente
provenientes da adm inistração (47,1%), da direção de inform a­
ção (43,4%) e das chefias (41,2%).
Os valores compartilhados pelos jornalistas também podem
ser considerados como um mecanismo de ação social que se sobre­
põe à ação pessoal, embora ambas sejam temperadas por uma ação
cultural. Por exemplo, Gans (1980) defendeu — e parece-me que
com alguma oportunidade — que os valores partilhados pelos jor­
nalistas dos órgãos de comunicação social americanos que ele ana­
lisou eram um dos fatores conform ativos das notícias, uma vez
que viriam de cima na hora de seleção dos acontecimentos e das
notícias durante as reuniões de coordenação editorial. Os valores
identificados por Gans foram: etnocentrismo, democracia altruís-
tica, capitalismo responsável, nostalgia das pequenas cidades de
província, individualismo, moderação, desejo de liderança nacio­
nal e desejo de ordem social. Todavia, apesar do seu interesse, o
trabalho de Gans não está isento de críticas. M ichael Schudson
(1988) refere, nomeadamente, que as origens sociais comuns dos
jornalistas — explicação que Gans dá para o caráter partilhado

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dos valores que identificou — podem não determinar os seus valo­
res: a socialização faria o jornalista abrir-se às opiniões e valores
que encontraria na redação.

A TIRANIA DO FATOR TEMPO

O fator tempo é algo que conforma a notícia e que transcende


a ação pessoal do jornalista, encontrando expressão nos constran­
gimentos socio-organizacionais e socioeconôm icos que condicio­
nam o sistema jornalístico e na própria cultura profissional.
Durkheim (citado por SCHLESINGER, 1977) defendeu que o
tempo é mais um produto objetivado na vida social do homem do
que uma categoria a priori. É uma idéia que partilho e que constitui
o ponto de partida de Schlesinger (1977) para a análise da tirania do
fator tempo no jornalismo, profissão que necessitaria de um excep­
cional grau de precisão nos timings (SCHLESINGER, 1977, p. 178).
Para este autor, a compreensão das origens das notícias au­
menta quando se considera o fator tempo. Os jornalistas seriam
m em bros de uma cultura cronometrada, teriam uma espécie de
cronomentalidade que os faria até associar a classificação de notí­
cias ao fator tempo {spot nexos, running story, hot nexos, etc.) e a
perspectivar a capacidade de vencer o tempo como a demonstra­
ção mais clara de competência profissional. "O curso segue um re­
gular ciclo diário, cuja cadência é pautada pelas deadlines. Estas e
os inexoráveis ponteiros do cronômetro são dois dos mais potentes
símbolos na cultura profissional do jornalista" (SGHLESINGER,
1977; 1993, p. 179). Consequentemente, julgo que o fator tempo
afeta o nexos judgem ent, logo até por estabelecer um conceito de
atualidade. E, afetando o julgamento noticioso, afetará igualmen­
te o processo global de nexosmaking, nom eadam ente ao nível da
seleção (gatekeeping). As inform ações mais atuais teriam , assim,
mais hipóteses de passar pelos portões.
As horas de fecho forçam o jornalista a parar a recolha de
inform ação e a apresentar a história, classificando, hierarqui-
zando, selecionando e integrando apenas as inform ações reco­
lhidas até esses lim ites horários (pegando nas palavras de Giner
ao III Congresso dos Jornalistas Portugueses, os jornalistas per­
m anecerão mesm o mais tempo a "fech ar" do que a planificar,
que seria aquilo que mais falta lhes faria). Tuchman (1977) nota
que a situ ação relatada tende a causar b uracos tem porais na
rede de captura de acontecim entos (à sem elhança dos buracos

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geográficos, institucionais e organizacionais), pois os aconteci­
m entos fora das horas norm ais de trabalho apresentam m eno­
res hipóteses de serem cobertos.
Philip Schlesinger (1977; 1993), referindo-se a Park (1966), faz
notar que a notícia é efêmera, transitória, altamente deteriorável e
possuidora de um valor de utilização que baixa rapidamente. A isto
acresce que a noção de atualidade jornalística variaria em função
do mercado para o qual se produzem as notícias (SCHLESINGER,
1977). Para uma agência, por exemplo, quase só a atualidade "quen­
te" (valores do imediatismo e da rapidez) constituiría a atualidade,
mas num semanário a informação que já tem três ou quatro dias
poderá ser informação considerada atual.
Para Schlesinger (1977), foram as condições de mercado, no­
meadamente a competitividade empresarial entre as empresas jor­
nalísticas, a moldar inicialmente os valores temporais que hoje se
encontram inseridos na cultura profissional dos jornalistas, ou seja,
a ligação atual do jornalista ao fator tempo já é mais baseada na
cultura profissional do que no caráter da notícia como mercadoria
rapidamente deteriorável. Ainda assim,

A definição da notícia como artigo deteriorável, a concorrência dentro de uma


estrutura (restrita) de mercado, e uma atitude particular em relação à passagem
do tempo estão estritamente ligadas (SCHLESINGER, 1977; 1993, p. 180).

A pressão do tempo, agudizada pela competitividade, levaria


ainda os jornalistas a relatar frequentemente as histórias em situa­
ções de incerteza, quer porque nem sempre reúnem os dados dese­
jados quer porque necessitam de selecionar rapidamente aconteci­
mentos e informações. O fator tempo impediría também a profun­
didade, razão pela qual as notícias se concentrariam no primeiro
plano (foreground) em detrimento do plano contextual de fundo
(background), o que contribuiría para abolir a consciência histórica
(SCHLESINGER, 1977).

R o tin a s

Podemos considerar que rotinas são os processos convencio-


nalizados e algo m ecanicista de produção de alguma coisa que,
sem excluir que determinadas pessoas tenham rotinas próprias ou
que a cultura e o meio social afetem essa produção, me parece obe­
decerem essencialmente a fatores socioorganizacionais.

4R
Quer as ciências sociais quer o jornalismo têm rotinas, e tanto
num como noutro caso elas desenvolveram-se para ajudar as pes­
soas envolvidas a construir sentidos para o mundo e a interpretar
situações am bíguas (TUCHMAN, 1972; 1974; KIDDER e JU.DD,
1986). No jornalismo, as rotinas podem ser consideradas como res­
postas práticas às necessidades das organizações noticiosas e dos
jornalistas. (SHOEMAKER e REESE, 1996)
As rotinas, enquanto padrões comportamentais estabelecidos,
são, entre os processos de fabrico da informação jornalística, os pro­
cedimentos que, sem grandes sobressaltos ou complicações, assegu­
ram ao jornalista, sob a pressão do tempo, um fluxo constante e segu­
ro de notícias e uma rápida transformação do acontecimento em no­
tícia, isto é, permitem ao jornalista que "controle" o seu trabalho
(TRAQUINA, 1988). Ao mesmo tempo, as rotinas defendem os jor­
nalistas e as organizações noticiosas das críticas e dos riscos elevados
(o uso de aspas, ou a contrastação de fontes, tal como Tuchman (1972)
chamou a atenção, seriam exemplos dessas "rotinas defensivas").
O fato de serem usadas como mecanismos de defesa não tor­
na as rotinas jornalísticas em instrumentos perfeitos ou menos pro­
blem áticos. Pelo contrário, enquanto sistemas de processamento
de inform ação, estão sujeitas a distorções (bias), até porque não
haveria sistemas de processamento de informação totalmente ade­
quados, mesmo nas ciências sociais (TUCHMAN, 1977). Ao invés,
quer os cientistas sociais quer os jornalistas parecem recorrer roti­
neiramente ao que Kuhn (1962) designou por paradigmas, ou seja,
as formas de representação da realidade baseadas em suposições
largam ente compartilhadas sobre como processar e interpretar a
inform ação. Estes paradigmas apenas nos dão inform ação sobre
coisas que consideramos úteis em formas que consideramos aceitá­
veis e são baseados em crenças correntes e expectativas comparti­
lhadas, pelo que as pessoas tendem a considerá-los como dados
adquiridos (SHOEMAKER e REESE, 1996).
Um caso relatado por Shoemaker e Reese (1996), que tem a
ver com o exercício profissional do fotojornalismo, pode ajudar-
nos a compreender que os paradigmas jornalísticos não são direta­
mente impostos (tal como acontece com as ideologias jornalísti­
cas), embora sejam, parcialmente, um produto dos processos jor­
nalísticos — organizacionais, ideológicos, culturais, etc. — de me­
diação da informação. Os paradigmas estão continuamente a ser
negociados, pois, frequentemente, os valores confrontam-se, como
acontece no caso que a seguir relatamos: em 1993, Mike Meadows,
um fotojornalista do Los Angeles Times, foi despedido por ter reali­
zado uma fotografia encenada de um bombeiro aspergindo-se com
água de uma piscina, tendo por fundo uma casa a arder. O seu
editor considerou que se tratava de uma forma de manipulação da
notícia. Ele tinha, afinal, ultrapassado o paradigma jornalístico que
considera determinados procedimentos rituais e rotineiros de "ob ­
jetividade" fotojornalística à única forma de reportar a realidade
social, o mesmo paradigma que promove, de certa forma, na nossa
opinião, a idéia de que a fotografia pode ser um espelho do real,
quando, de fato, ela não o parece ser.
As rotinas podem ser consideradas como meios para a pros-
secução de um fim, que se institucionalizaram, adquirindo uma
espécie de vida e legitimidade próprias. Tuchman (1977) assinalou
até que os jornalistas que fizeram das rotinas os seus modos de
processamento de notícias são valorizados pelo seu profissionalis­
mo, embora, na minha opinião, talvez na atualidade esse fenôme­
no esteja mais atenuado, pois o jornalismo, usando um casamento
de conveniência com o entretenimento, por um lado, e com a aná­
lise profunda, contextual e rigorosa, por outro (BARNHURST e
MUTZ, 1997), cada vez necessita mais da diferença e da criativi­
dade. Porém, Daniel Hallin (1992) frisou que, ao longo do tempo,
os jornalistas foram aceitando as estruturas burocratizadas da sala
de redação e as correspondentes rotinas profissionais.
As rotinas, até porque muitas vezes diferem de organização
para organização, são frequentem ente corrigidas, mas são tam­
bém o elem ento m ais visível que perm ite m ostrar que a m aior
parte do trabalho jornalístico não decorre de uma pretensa capa­
cid ad e in tu itiv a para a notícia nem de um h ip otético "fa ro "
jorn alístico, mas de procedim entos rotineiros, convencionais e
mais ou menos estandardizados de fabrico da informação de atu­
alidade.
As características em presariais dos órgãos de com unicação
também tiveram — na minha opinião — o seu papel no surgimen­
to das rotinas profissionais, já que implicam uma gestão criteriosa
dos recursos humanos e materiais, de forma a potenciar os lucros,
dim inuir os custos de exploração e racionalizar os processos de
trabalho. A divisão do trabalho surge, assim, como uma forma de
assegurar que o fabrico do produto se realize, bastando, para tal,
assegurar o fornecimento regular de matéria-prima, que, no caso
do jornalismo, é, principalmente, matéria-prima informativa, isto
é, o seu referente discursivo, o acontecimento em bruto.

50
As rotinas jornalísticas, a meu ver e de acordo com vários ou­
tros autores, entre os quais posso, por exemplo, relembrar Traquina
(1988), trazem algumas desvantagens, como as seguintes:
— Podem distorcer ou simplificar arbitrariamente o mundo
dos acontecimentos;
— Constrangem os jornalistas;
— O jornalismo tende a cair numa atividade burocrática e o
jornalista passa a assemelhar-se a um burocrata, o que pode ter
conseqüências diretas para as funções socialmente instituídas dos
nexos media, sobretudo para as funções da informação, da vigilân­
cia e do controle dos poderes; mas, somente as burocracias podem
garantir ao "jornalism o burocrático" fluxos constantes de m até­
ria-prima informativa garantida e minimamente crível, pelo que
os órgãos jornalísticos, face à pressão do tempo e devido à escassez
relativa de recursos humanos, vão preferir fontes acessíveis, cen­
tralizados e sistemáticos, com horários compatíveis, de onde o pri­
vilégio dado às instâncias políticas, econômicas, desportivas, ou
outras suscetíveis de garantir o fornecimento constante de "acon­
tecim entos", nem que seja o lançamento de comunicados;
— O jornalism o, como se vê pelo ponto anterior, cai na de­
pendência dos canais de rotina, o que leva à institucionalização (e
legitimação "norm alizada") de determinadas fontes e aos proble­
mas decorrentes das relações pessoais aprofundadas, como o esta­
belecimento de laços de amizade e confiança que possam, em de­
terminados momentos, comprometer ou condicionar os jornalistas
e desvirtuar a informação. A grande dependência da matéria-pri­
ma informativa que os órgãos de comunicação jornalística sentem
em conjunção com a institucionalização de determinadas fontes e
com a atenção votada às figuras-públicas gera, por seu turno, as
seguintes conseqüências: 1) acesso socialm ente estratificado aos
nexos media; 2) utilização dos nexos media para difusão de enuncia­
dos oriundos das agências de relações públicas e de assessoria de
imprensa, de outras organizações ou até de determinadas pesso­
as; 3) utilização frequente da informação de agência, m uitas ve­
zes em d e trim e n to da p ro d u ç ã o p ró p ria , o qu e tra z , p or
consequência, uma dim inuição da polifonia dem ocratizante em
favor da uniform idade; e 4) im possibilidade de substituição das
fontes institucionais sob pena de parar o fluxo de m atéria-prima.
Por todas estas razões, as rotinas transform aram -se, a meu ver,
num poderoso inimigo da abertura dem ocrática e polifônica dos
órgãos jornalísticos ao público em geral;

51
— A utilização rotineira de fontes "oficiais", podendo expli­
car-se porque essas fontes têm capacidade para fornecer regular e
convenientem ente informação autorizada e clara que poupa aos
jornalistas os inconvenientes das investigações em profundidade e
da recorrência a especialistas para descodificação, facilita a mani­
pulação. Daniel Hallin (1989) salientou, inclusive, que o profissio­
nalismo — promovendo a dependência das rotinas— fortaleceu as
relações entre a imprensa e o Estado, nomeadamente através do
recurso por parte dos jornalistas às fontes "oficiais". Estas, cres­
centem ente usadas, ter-se-iam tornado responsáveis pela valida­
ção e autenticação do produto noticioso, em detrimento do jorna­
lista, porém, ao praticar crescentemente a análise (ver, por exem ­
plo: PINTO, 1997), o jornalista estará, na minha perspectiva, a re­
cuperar algum do seu protagonismo;
— As rotinas tornam as notícias semelhantes nos diversos ór­
gãos de comunicação social; esta semelhança poderá dar ao jorna­
lista a sensação de que, se todos fazem igual a ele, é porque a for­
ma como faz as coisas é a "correta", mas gera uniformidade nos
produtos informativos em circulação, o que não traz nada de bom
à democracia, que vive da diferença e dos consensos que se geram
apesar dessas diferenças. Poderá ainda dar, ao jornalista, a sensa­
ção de que compreende realmente o que se passa.
Intuitivamente, nas organizações noticiosas em que as rotinas
são mais importantes, o produto será, à partida, menos diversifica­
do, até porque a seleção operada pelos gatekeepers tenderá para a
uniformidade. As variações produtivas em função de cada pessoa
indicia a relevância da ação pessoal do gatekeeper.
Intuitivamente também, podemos dizer que as deadlines rotinei­
ras também afetarão a produção noticiosa, já que os gatekeepers ficam
constrangidos a selecionar em função das opções que têm e dos fato­
res que conseguem ponderar num espaço de tempo limitado.
A consulta de outros jornalistas e media também pode, julgo,
após tantas vezes a ter observado, ser considerada uma rotina.
Podemos talvez mesmo afirmar, em consonância com o que já foi
dito, que os jornalistas são tendencialmente bastante sensíveis uns
aos outros e que tendem, igualmente, a confirmar as percepções
que têm do mundo uns pelos outros. Os fotojornalistas da Agência
Lusa, por exemplo, consultam diariamente os jornais, observando
o seu trabalho que foi publicado, mas também o trabalho dos ou­
tros, que, frequentemente comentam e comparam com o seu. Por
um lado, isso pode levar à imitação de certos estilos e abordagens,

52
avaliadas como "corretas"; por outro, pode, inversamente, estimu­
lar o desejo de diferenciação, quer quando os formatos observados
são diferentes das convenções profissionais, quer quando, parado­
xalmente, se pretende fugir às convenções (SOUSA, 1997).
As sessões para fotografias (photo opportunities), usuais nas
ocasiões de Estado, e as conferências de imprensa mostram, poi
seu turno, as rotinas empregues pelos interessados para aparece­
rem nas notícias. Todavia, o crescente recurso a photo opportunities
a conferências de imprensa, ao mecanismo da acreditação dos jor­
nalistas, ao funcionamento em pools ou mecanismos similares fe 2
crescer a dependência das organizações noticiosas, tornando, con-
seqüentemente, mais fácil a manipulação.

A ção s ó c io - organ izacional

Geralmente, os jornalistas não trabalham sozinhos, mas err


organizações, uma espécie de sistemas mais ou menos abertos e
interatuantes com o meio que, no caso das organizações noticio­
sas, a partir de inputs informativos fabricam notícias e disseminam
idéias, participando, portanto, na indústria cultural ou indústria
de produção simbólica (conferidora de sentidos para o mundo). A
atuação dos jornalistas depende, pois, das circunstâncias, diria
Ortega y Gasset. E essas circunstâncias, parcialm ente, remetem-
nos para as organizações e, por conseguinte, para uma ação sócio-
organizacional de conformação da notícia.
A análise organizacional perm itir-nos-ia, assim, explicar al­
gumas das variações no conteúdo dos media que não podem sei
atribuídas às rotinas, às convenções ou aos jornalistas individual­
mente considerados. Por exemplo, um editor pode pretender a cria­
ção de novas delegações para mais adequadamente cobrir a comu­
nidade ou o país em que se insere, mas a Administração da empre­
sa poderá não aceitar. As razões financeiras — e não esqueçamos
que a generalidade das organizações noticiosas visa o lucro— fun­
cionam, assim, como constrangimentos organizacionais ao conteú­
do dos news media, podendo mesmo afetar as decisões editoriais. A
rede que as organizações noticiosas estendem para capturar o acon­
tecimento funciona na prática como um dispositivo de constrangi­
mento organizacional, pois os locais onde a empresa jornalística
não coloca "pescadores" de notícias serão inevitavelmente objete
de menor cobertura, porém, os locais onde o órgão de comunica­
ção mais esforços concentra apresentarão um índice maior de po­
tencialidade de cobertura. Em Portugal, o fato de Lisboa concen­
trar um maior número de jornalistas do que o resto do país leva
precisamente a esse tipo de distorções mão pretendidas na cobertu­
ra noticiosa da sociedade portuguesa, pois tende-se a conferir um
protagonismo inusitado à capital em detrimento do resto do país,
principalmente do interior.
Apesar de tudo, mesmo quando falamos de rotinas falamos
essencialmente de uma ação sócio-organizacional ou, pelo menos,
de um nível intermédio entre a ação pessoal e a ação organizacio­
nal, já que cada jornalista também terá os seus próprios procedi­
mentos de rotina (por exemplo, um jornalista poderá noticiar as
conferências de imprensa sempre da mesma forma).
Warren Breed (1955) foi um dos primeiros investigadores a
su g erir que alguns jo rn alistas eram in flu enciad os por forças
socializadoras na redação. Breed afirmava que a socialização dos
jornalistas numa organização noticiosa dependería de seis proces­
sos não evidentes de recompensa-punição: 1) autoridade instituci­
onal e sanções; 2) progressão na carreira profissional; 3) sentimen­
tos de obrigação e estima para com os seus superiores; 4) ausência
de conflitos de lealdade; 5) prazer do exercício do jornalismo; e 6)
jornalismo como valor. Para o autor, a gratificação do jornalista so­
cializado na redação concretizava-se sobretudo no alcançar de um
estatuto entre os seus colegas e os seus superiores, mais do que na
capacidade de influenciar pessoas, na resposta do público perante o
seu trabalho ou na defesa de ideais pessoais ou profissionais.
Leon Sigal (1973), por seu turno, descobriu, num estudo sobre
as primeiras páginas do The Nexo York Times e do Washington Post,
que o número de assuntos sobre as cidades, o país e o mundo ten­
dia a ser o mesmo ao longo do tempo, tendo concluído que isso se
devia à organização da redação em três seções principais (cidade,
país e estrangeiro) e à competição entre os editores das três seções
pelo espaço na primeira página. Seria também a lógica de funcio­
nam ento das organizações jornalísticas, especificam ente as roti­
nas, que, para o autor, levaria a que os leads de notícias sobre o
mesmo assunto, embora editadas por órgãos de comunicação soci­
al diferentes, fossem semelhantes.
As organizações noticiosas exercerão, de fato, algum poder
sobre os jornalistas, até devido aos mecanismos da contratação, do
despedim ento e da progressão na carreira. Como à organização
interessa, à partida, ter pessoas adaptadas à sua dinâmica interna,
percebe-se que o jornalista será sempre constrangido pela política
editorial e pela forma de fazer as coisas no órgão de comunicação
social para o qual trabalha. Parafraseando o que Carey (1986) escre­
veu, podemos até dizer que entre os constrangimentos organizacio­
nais se inscrevem os processos que levam à rotinização da produção
jornalística, ao estabelecimento de hierarquias e à imposição artifici­
al de alguma ordem na erupção aleatória dos acontecimentos.
Matejko (1967) analisou a redação (nexosroom) como um siste­
ma social e a maneira como este sistema influenciava os jornalistas
e o trabalho que estes faziam. Para ele, a redação, enquanto siste­
ma social, (1) conduziría à realização dos fins pessoais e profissio­
nais dos seus membros, (2) estaria ajustada ao ambiente, (3) seria
dirigida com maior ou menor eficácia e (4) permitiría mais criativi­
dade quanto mais elástica fosse.
Em grande medida, a aprendizagem socializadora de um jor­
nalista, ao integrar uma organização noticiosa, passa pela obser­
vação e pela experiência, talvez até pela im itação (Cf. SOUSA,
1997). A apreensão de determinados procedimentos organizacio­
nais evitará, por exemplo, as críticas dos seus superiores, como
Tuchman (1972) mostrou ao falar dos "rituais estratégicos de obje­
tividade". Através da socialização, apreendem-se também os valo­
res já existentes partilhados pelos jornalistas da organização. Por
exemplo, um jornalista de uma determinada organização poderá
pensar que o jornalismo que aí se faz não o satisfaz pessoalmente,
já que preferiria, por exemplo, um jornalismo mais planificado e
menos centrado quase unicamente na vital preocupação de "fe ­
char", ou mais investigação jornalística, etc. No entanto, ele, en­
quanto profissional, sujeitar-se-á aos constrangim entos organi­
zacionais para poder continuar empregado e a ser reconhecidc
pelos seus pares, usufruir de um salário e progredir na carreira.
Neste caso, um determinado tipo de profissionalism o leva a que
um jornalista se integre na organização e às formas de aí se faze­
rem as coisas, sendo recompensado, "em troca" da sua integração,
através do sistem a de recom pensas dessa m esm a organização,
como os salários e a progressão na carreira. Bastante a propósito,
Soloski (1989; 1993, p. 100) assinala:

A natureza organizacional das notícias é determinada pela interação entre í


mecanismo de controle transorganizacional representado pelo profissionalis
mo jornalístico e os mecanismos de controle representados pela política edilori
al. Em conjunto, estes mecanismos de controle ajudam a estabelecer as frontd
ras do comportamento profissional dos jornalistas. Seria errado supor que es

55
sas fronteiras ditam ações específicas da parte dos jornalistas; melhor, estas
fronteirasfornecem uma estrutura para a ação. Asfronteiras são suficientemen­
te amplas para permitir aos jornalistas alguma criatividade [...]. Por outro
lado, as fronteiras são suficientemente estreitas para se poder confiar que os
jornalistas agem no interesse da organização jornalística.

Saliente-se ainda que as organizações noticiosas que não pos­


suem uma estrutura burocratizada poderão, à partida, apresentar
produtos mais variados do que aquelas que possuem. A dimensão
de uma organização também poderá influenciar o processo de fa­
brico jornalístico das notícias, tal como o podem os recursos orga­
nizacionais. As grandes organizações tendem a ser mais regula­
mentadas e menos flexíveis, pelo que o seu produto é mais uni­
forme. E se uma organização não tiver recursos (técnicos, hum a­
nos, financeiros...) para enviar um jornalista a cobrir certos acon­
tecim entos, então a produção noticiosa tenderá igualm ente para
uma m enor diversidade.
A adoção de novas tecnologias por uma organização também
pode ter os seus efeitos no conteúdo das notícias. Por exemplo, a
adoção de tecnologias digitais de tratamento de imagem permite a
manipulação das imagens fotográficas a um nível impensável nos
laboratórios tradicionais. Um jornal também poderá, através de
redes como a Internet ou televisões como a CNN, dilatar as suas
fontes de dados e imagens; e se esse jornal for cliente de uma agên­
cia como a Lusa, a concorrência aumentará.
Entretanto, a integração de jornalistas dentro de um grupo
coeso poderá transformar esse grupo, em larga medida, numa co­
munidade interpretativa15 (Cf. ZELIZER, 1993), sujeita, enquanto
tal, a fenômenos de pensamento de grupo (groupthink), conforme
a noção avançada por Janis (1983).

A ção so c ia l extra - organ izacio n al

O processo de nezusmaking deve, em princípio, ser afetado pelo


sistema social global em que uma organização noticiosa se insere.
E com base nesse pressuposto que falamos de uma ação social ex­
tra-organizacional de conformação das notícias.
As fontes, uma vez que são, de alguma forma, e quase sempre,
gatekeepers externos aos órgãos de comunicação social, são também,
talvez, o fator externo aos media em que se pode atentar de imediato.
Elas selecionam as informações que passam às organizações noticio­

56
sas e aos jornalistas, quando estes não têm experiência direta do que
ocorre. Consequentemente, podem mobilizar -ou não- a atenção do
jornalista, co-determinando se um assunto será ou não agendado e,
por consequência, se uma mensagem passará ou não o "portão".
Será também preciso notar que, apesar de todas as "desconfi­
anças" com que os jornalistas tratam certas fontes, ambos estes pó­
los são interdependentes, pois, geralmente, o jornalista está tão inte­
ressado nas fontes como as fontes nos jornalistas. Um jornalista pode,
por exemplo, desconfiar da sinceridade do Presidente da República,
mas, de algum modo, ele precisa cobrir as ações do Presidente da
República, porque, à luz dos critérios de noticiabilidade vigentes,
esse é um modo de assegurar que a produção de informação se faz
em contínuo e sem grandes sobressaltos ou complicações.
Falo aqui do Presidente da República porque, quase inevita­
velmente, quando falamos de fontes de informação somos levados
a pensar nos políticos, no jogo político, na disputa pelo poder e nas
relações entre jornalistas e políticos. Mas é preciso recordar que os
agentes econômicos têm, nos tempos atuais, talvez maior poder do
que os agentes políticos. Por isso, na minha opinião, os agentes
econômicos devem ser, tanto ou mais que os políticos, objeto do
escrutínio, vigilância e controle jornalístico (tal com o os agentes
poderosos de outros domínios de atividade, como os dirigentes
desportivos). Posto o problema na maneira corrosiva, embora pro­
blemática, de Scott Adams, o cartoonista criador de Dilbert, "todas
as pessoas na Terra são trafulhas, mas as únicas que vigiamos de
perto são os políticos". Por consequência, a comunidade acadêmi­
ca deve não apenas estudar as relações entre jornalistas e fontes de
inform ação política, mas também as relações entre jornalistas e
fontes de informação econômica, desportiva, etc. A meu ver, ainda
há muito a fazer nesta área, até porque, nas democracias, os polí­
ticos têm legitim id ad e d em ocrática, através do voto, m as os
poderosíssimos agentes econômicos (ou certos agentes desportivos)
não a têm e furtam-se, frequentemente, ao escrutínio público. Em
boa verdade, porém, não estão sozinhos. Nas palavras de um jor­
nalista insuspeito, o diretor do Público, José M anuel Fernandes,
durante o sem inário M edia, Jornalism o e D em ocracia (Lisboa,
Março de 2000), os jornalistas gostam mais de escrutinar do que
serem escrutinados. Mas os jornalistas também têm um enorme
poder e também não possuem legitimidade democrática. Aliás, há
muitos problemas que se levantam nas relações entre jornalistas e
fontes, pois elas podem atingir graus problemáticos de cumplici­

57
dade e amizade. Que garantias oferecem aos cidadãos os "jorna­
listas" (uso intencionalmente as aspas) que hoje estão a cobrir uma
campanha eleitoral e depois da campanha se tornam assessores
dos políticos cujas campanhas cobriram, regressando, posterior­
mente, ao jornalism o, num círculo vicioso? Que garantias ofere­
cem aos cidadãos os "jornalistas" que pedincham os favores de
agentes políticos e econômicos ou outros quando se trata, por exem­
plo, de grandes viagens? Que jornalista se sentirá descomprometido
e independente quando se beneficia das mordomias do poder?
Voltemos ao tema em análise. Intuitiva e empiricamente pode­
mos dizer que as fontes não são iguais. Elas não são iguais em posi­
ção. Não são iguais em relevância social. Não são iguais em poder
de influência. Não são iguais nos meios a que recorrem. Não são
iguais no volume de produção de informação direcionada para os
jornalistas, nem na qualidade das mensagens que emitem, etc. Mais:
podemos afirmar que quaisquer mensagens de quaisquer fontes, uma
vez enquadradas, tratadas, apresentadas e difundidas pelos news
media, são, à partida, passíveis de ter efeitos, nomeadamente ao ní­
vel da construção social da realidade, particularmente da outorgação
de sentidos e da edificação de referentes. Em última análise, porém,
tudo dependerá da resposta do consumidor da informação.
O jornalismo, na visão ocidental e democrática, existe para in­
formar, comunicar utilmente, analisar, explicar, contextualizar, edu­
car, formar, etc., mas também existe para tornar transparentes os
poderes, para vigiar e controlar os poderes de indivíduos, institui­
ções ou organizações, mesmo que se tratem de poderes legítimos,
manifestados no sistema social. Este, como qualquer outro sistema,
tem tendência a perpetuar-se. Por vezes, todavia, a idéia que fica é
que a situação inversa é dominante, isto é, os poderes controlariam e
influenciariam mais os meios jornalísticos do que o contrário.
Os meios jornalísticos atuariam sobretudo através do ato de
informar os cidadãos, no pressuposto de que estes são atores res­
ponsáveis num sistema social de que fazem parte e sobre o qual
devem intervir. Informar jornalisticamente será, assim, em síntese,
perm itir que os cidadãos possam agir responsavelmente. Na m i­
nha opinião, entreter "jornalisticam ente", pelo contrário, tende a
degradar, em m aior ou menor grau, essa função inform ativa e,
conseqüentemente, reguladora e mediadora, que os meios de co­
municação possuem na sociedade.
Face ao que disse, não será difícil concluir que os processos de
seleção das fontes jornalísticas são importantes e mesmo proble-

58
má ticos. Gans (1980), por exemplo, provou que nos Estados Uni­
dos as fontes de maior poder econômico e político (os knowns) ti­
nham um acesso privilegiado aos meios de comunicação social e,
portanto, tinham também um poder maior de fazerem passar as
mensagens que desejassem pelos vários "portões" e de influencia­
rem os conteúdos dos meios jornalísticos. Além disso, os poderosos
tendiam a ser representados em atividades "dignificantes", enquan­
to as restantes pessoas — que se teriam de se fazer notar para te­
rem acesso aos media— geralm ente eram notícia por atividades
"m enos ou nada dignificantes", como crimes, m anifestações, etc.
Goldenberg (1975) já tinha também chamado a atenção para o fato
de que os grupos e as pessoas com poucos recursos poderíam ter de
recorrer a atos desviantes para atrair a atenção dos news media.
Da mesma maneira, James Curran (1996), como veremos mais
detalhadamente a seguir, distinguiu várias formas de pressão que
os poderes podem exercer sobre a comunicação social, na mira de
torná-lo dócil, acomodada e orbitando em torno desses poderes.
Entre elas, podem-se relevar algumas:
— Rotinas e valores-notícia tendem a excluir da cobertura
noticiosa as pessoas de menor prestígio, em favor das poderosas;
— As convenções estéticas centram-se nas pessoas;
— O poder e os recursos têm uma divisão desigual; ora, na
versão do autor, os sistemas de pensamento e as imagens que ocor­
rem aos jornalistas, sob a pressão do tempo, seriam os sistemas e as
imagens dominantes na sociedade, que, por sua vez, seriam os sis­
temas e as imagens dos poderes com mais recursos;
— O poder ambivalente do estado levaria as elites tradicio­
nais a terem um acesso mais facilitado às instituições do estado e a
poderem, assim, controlar ou influenciar com maior peso a comu­
nicação social, mantendo-a dentro das fronteiras do "aceitável .
Os jornalistas, à partida, estão interessados em fontes abertas,
capazes de providenciar toda a informação crível de que eles ne­
cessitam "desesperadam ente" para que o produto noticioso possa
ser fabricado. Em princípio, as fontes estão interessadas em que os
jornalistas usem tudo o que elas pretendem, ou seja, que toda a
informação que disponibilizam passe pelos "portões".
Dyer e Naym an (1977) salientaram que fontes e jornalistas
(gatekeepers) beneficiavam mutuamente com a sua relação, já que
as primeiras ganhavam acesso a uma determinada audiência e os
segundos obteriam regularm ente inform ações confiáveis para a
fabricação de notícias. Mas a necessidade regular de informações

59
confiáveis que os jornalistas revelam resulta na dependência de
fontes burocratizadas. (GANDY Jr., 1982)
Segundo Donohue et al. (1972), a identificação do jornalista
coni a fonte ou com a informação disponibilizada por esta pode
estimular o controle da fonte sobre os conteúdos da informação. E,
segundo penso, poderá também levar o jornalista a ser acrítico para
com a fonte, a recorrer a essa fonte para que ela diga o que ele
próprio gostaria de dizer e a poder mais facilmente ser usado pela
fonte como um simples intermediário para informação manipula-
dora ou para inform ação que funcione como um "balão de en­
saio". Também é uma hipótese a considerar que a informação com
que cada jornalista-gatekeepev se identifica passe mais facilmente
por alguns portões.
Os problemas de acesso às fontes podem levar os jornalistas a
usar mais as fontes organizacionais que as individuais, pois, geral­
mente, as organizações têm um horário de funcionamento mais ou
menos coincidente com a laboração jornalística e possuem um staff
a tempo inteiro, contatável, portanto, na generalidade das ocasi­
ões. O recurso às fontes "oficiais" elevaria a performatividade dos
jornalistas, já que estes estariam concentrados em pessoas acessí­
veis, vistas como tendo coisas importantes e críveis para dizer.
Os políticos, os grupos de pressão, os "senhores da econom ia"
e os agentes de relações públicas, nomeadam ente quando estão
afetos aos poderes político e econômico, bem como a determinados
grupos de interesse — e enquanto fontes interessadas na divulga­
ção de determinadas informações e idéias, bem como na supressão
da divulgação de outras— incluem-se, provavelmente, entre as fon­
tes mais problemáticas, até porque, frequentemente, atuam como
p ro m o to res de p se u d o -a co n te cim e n to s, de a co n te cim e n to s-
m ediáticos ou m esm o de determ inadas construções de sentido
para certas notícias e para certos acontecim entos, por exemplo
quando intervém nos debates dentro do espaço público com todo
o seu peso mediático. De fato, o espaço público jornalístico é, es­
sencialm ente, um espaço tendencialm ente ocupado por m eia-
dúzia de protagonistas.
Os outros órgãos de comunicação social — sobretudo as agên­
cias noticiosas, mas também certos quality papers, etc.— , nomea­
damente devido ao seu papel de definidores da agenda (agenda-
settcrs) para com outros órgãos de com unicação social, também
podem influenciar o processo de gatekeeping numa dada organiza­
ção noticiosa. (SHOEMAKER, 1991)

60
Os interesses da audiência — e até porque, se não tiverem sub­
sídios ou outras modalidades de apoio, os órgãos de comunicação
social não subsistem sem audiência — poderão também ser um fa­
tor suscetível de influenciar o processo de fabrico das notícias, por­
que o jornalista pensará naquilo que a audiência pretende. Apesar
de alguns estudos apresentarem conclusões contraditórias, é prová­
vel que as percepções dos jornalistas, sobre aquilo que a audiência
quer, possam ser um fator influente da seleção de inform ação
(SHOEMAKER, 1991), porém, apesar de os jornalistas continuarem,
geralmente, subinformados sobre as suas audiências (SHOEMAKER
e REESE, 1996), os estudos de marketing devem ter contribuído para
atenuar a situação. Daí que os desejos e as necessidades das audiên­
cias devam estar a crescer de fato em importância como um fator de
conform ação das notícias. Jornais com o o Los A ngeles Times já
incluiram técnicos de marketing nas das editorias das redações, mas
isto denuncia uma menor capacidade de defesa dos jornalistas em
relação aos "marqueteiros" e aos publicitários.
Como a generalidade dos órgãos de comunicação social nos
sistemas capitalistas visam o lucro (ou, pelo menos, o equilíbrio
financeiro), é preciso contar ainda com o fator mercado como po­
tencial influenciador do processo de fabricação de notícias.
O peso dos anunciantes, entre os quais se inscreve o próprio
estado, nomeadamente o Governo, também poderá ser grande na
generalidade dos órgãos de comunicação social e, portanto, as suas
pressões poderão ser um fator constrangedor do processo de fabri­
co das notícias. Se houver um enfeudamento ao poder, nomeada­
mente ao Governo — e todos os governos exercem sempre algum
controle sobre os nexos media, nem que seja ao nível das leis, regula­
mentos, licenças, impostos e, eventualmente, subsídios ou outras
formas de ajuda financeira — tal pode trazer conseqüências nega­
tivas para a informação produzida.
Em síntese, podemos dizer que existe uma vasta gama de fa­
tores externos às organizações noticiosas que são suscetíveis de in­
fluenciar o conteúdo das notícias. Por exemplo, as fontes podem
reter, travar ou acelerar a difusão de informação e moldá-la aos
seus interesses. O jornalista, ao selecionar as fontes que vai usar, já
está a influenciar o conteúdo das notícias. As fontes são, frequen­
temente, entidades interessadas na cobertura mediática, pelo que
põem em campo táticas adequadas a garantir não só essa cobertu­
ra, mas também que essa cobertura se faça num ângulo favorável,
que sejam desprezadas informações negativas para essas mesmas

61
fontes e que acontecimentos desfavoráveis possam ser cobertos fa­
voravelmente (atividade em que os spin doctors são especialistas).
A natureza e a dimensão do mercado em que uma organiza­
ção noticiosa opera também são agentes provavelmente configu-
radores das histórias jornalísticas, em interligação com a busca do
lucro ou, pelo menos, do equilíbrio financeiro, e com a saúde da
economia da(s) empresa(s), do país e dos seus cidadãos. Note-se,
porém, que a competição não assegurará, julgo, só por si, uma cres­
cente diversidade num determ inado mercado. Por exemplo, em
Portugal, com ligeiras variações em alguns quality papers, a infor­
mação editada nos jornais parece-me globalmente padronizada nos
temas abordados e nos estilos, embora ainda estejam por realizar
pesquisas que confirmem esta hipótese.

A l g u m a s " t e o r ia s " e e stu d o s


SOBRE FONTES DE INFORMAÇÃO E JORNALISTAS

Algumas "teorias" sobre fontes de informação podem ajudar-


nos a compreender as considerações antes descritas. Elas oscilam
entre uma visão que enfatiza a idéia de negociação do sentido para
os acontecimentos (entre jornalistas e fontes) e uma visão mais pessi­
mista que vê o sentido de determinados acontecimentos como sen­
do previamente determinado, sobretudo quando as fontes são po­
derosas em recursos humanos e materiais e posicionamento sócio-
simbólico. Alguns autores desenvolvem igualmente os seus estudos
enfatizando o papel das rotinas, dos constrangimentos organizacio­
nais e da problematicidade das relações entre jornalistas e fontes
(que podem desembocar na amizade e na cumplicidade), etc.
Antes de referir as "teorias" sobre as fontes de informação,
convem, mais uma vez, destacar que grande parte dessas pesqui­
sas privilegiam o relacionamento entre políticos e jornalistas, ape­
sar de, na atualidade, o poder econômico ser, provavelmente, mais
importante do que o político ou, pelo menos, tão importante quan­
to este. Os jornalistas devem, na minha visão, dar maior relevo à
vigilância e controle do poder econômico. E também devem evitar
que as notícias de política se circunscrevam à luta política, pois a
política é mais do que isso. Na minha opinião, é perigoso ver as
notícias mais como um produto de consumo do que como um bem
público. Isso gerou fenômenos como a personalização das notícias
políticas e a centralização da informação política no jogo político
(além das tragédias, da violência, do "social", etc.). Os news media,

62
particularmente a televisão, mais "obrigada" à espetacularização
da informação, foram-se tornando arenas públicas para a luta po­
lítica, em detrimento de fóruns de debate aprofundado das gran­
des questões políticas. E há muitas grandes questões que merecem
ser debatidas. É fácil encontrar exemplos: sistema fiscal, sistema de
justiça, sistema de saúde, sistema educativo... E é também possível
fazer informação de qualidade, sobre a grande política, de forma
atrativa. Há formas de informar que o permitem (por exemplo, a
infografia pode ajudar a descomplexificar a grande informação e
a torná-la mais atraente). Pelo contrário, reduzir a política à luta
política pode desencadear uma "espiral do cinism o", expressão
cunhada por Kathleen Jamieson, à semelhança da teoria da espi­
ral do silêncio16, que afasta os cidadãos da vida política e cívica.
Estranhamente, esses mesmos cidadãos não manifestariam em re­
lação à vida econômica as mesmas desconfianças que exibem face
à política, apesar do enorme poderio dos grandes agentes econô­
micos. Convem, a propósito, refletir no fato de as grandes multina­
cionais, como a Microsoft, superarem hoje o PIB de países com a
dimensão econômica de Portugal.
Neste debate, autores como Thomas Patterson acusam os jor­
nalistas de contribuírem para descredibilizar os políticos e a política,
desfazendo os laços que ligam eleitores e eleitos’7 e contribuindo para
a degradação das democracias. Segundo Patterson, a competição
entre os oligopólios noticiosos e o entendimento das notícias como
um produto de consumo incentivam a ultrapassagem dos limites
além dos quais a política se degrada. Mas, na verdade, os jornalistas
não são culpados de alguns políticos (friso o alguns, porque, tal como
há jornalistas e jornalistas, há políticos e políticos) trazerem a sua
família para a arena política18 e de se prestarem a tocar saxofone ou
a cantar nos programas televisivos de entretenimento, ou ainda a
levar consigo os jornalistas para "visitas de estado" como a do ex-
presidente Mário Soares às ilhas Seychelles. Se esses políticos o fa­
zem, contribuem para confundir política com entretenimento e es­
petáculo, vida pública com vida privada, interesse público com inte­
resse privado, sujeitando-se, por este motivo, a verem devassada a
sua reserva de intimidade pelos nexos media. Mais do que isso, antes
dos jornalistas, contribuem esses políticos para a degradação da de­
mocracia, para a descredibilização dos políticos e da política e para
o enfraquecimento dos laços entre eleitores/cidadãos/contribuintes
e eleitos/cidadãos beneficiados pelos contribuintes.
Mas vamos às "teorias".

63
A) S ig a l (1973)

Leon Sigal (1973) coloca a ênfase do seu estudo na idéia de


que os conteúdos das notícias dependem daquilo que as fontes di­
zem e do tipo de fontes consultadas (oficiais e não oficiais), apesar
da mediação das organizações noticiosas e das rotinas e conven­
ções jornalísticas, entre as quais as formas que o jornalista procura
e /o u recebe informação.
Sigal (1973) considera a existência de três tipos de canais in­
formativos: 1) canais de rotina (que se estendem desde os aconteci­
mentos oficiais aos press-relenses); 2) canais informais (que vão dos
encontros de associações cívicas às informações de outras organi­
zações noticiosas); e 3) canais de iniciativa (que resultam da inicia­
tiva dos jornalistas, como acontece num pedido de entrevista). Se­
gundo o autor, a confiança dos jornalistas nos canais de rotina
diminui quando aumenta o recurso aos canais de iniciativa e quan­
do aumenta o núm ero de fontes contatadas (que podem trazer
novas abordagens aos assuntos). Porém, Sigal faz notar que as fontes
de informação dominantes (governo, etc.) detêm um peso signifi­
cativo nas notícias e que os "desconhecidos" necessitam de se fa­
zer notar, frequentemente através de atos espetaculares, para se­
rem notícia, o que os coloca em desvantagem, inclusive porque
pareceríam menos respeitáveis que as fontes oficiais.

B) M o lo tc h e L ester (1974)

Molotch e Lester (1974) apresentam o conceito de "prom oto­


res de notícias" para caracterizar as fontes que tentam transfor­
mar, por interesse, um fato num acontecimento público e /o u que
tentam, por vezes simultaneamente, impedir que outros fatos atin­
jam idêntico estatuto, destacando, por esta via, a intencionalidade
como razão de ser do que a fonte divulga e do que não divulga.
Um agente de relações públicas, ao organizar uma conferência de
imprensa, funcionaria, assim, como um "prom otor de notícias".
Porém -salientam os autores-, para que um fato adquira a dimen­
são de acontecimento público, ele necessita da atividade processa­
dora, seletiva e difusora dos jornalistas. No intuito de atingirem os
seus objetivos, os news promoters tenderíam a aproveitar as rotinas
vigentes nas organizações noticiosas. Os "promotores de notícias"
mais poderosos conseguiríam, inclusive, alterar essas rotinas pro­
dutivas a seu favor (MOLOTCH e LESTER, 1974, p. 124). Os news

64
media agiriam, conseqíientemente, no sentido da manutenção de
uma espécie de hegemonia ideológica no meio social. As notícias
seriam uma construção e o campo jornalismo um espaço dinâmico
em que interagiriam promotores de notícias e jornalistas (e o pró­
prio público), que lutariam pela definição de sentidos para os fa­
tos, havendo fatos que, nesse espaço negociai, seriam avaliados
como acontecimentos e outros que não.
Entre os contributos interessantes do trabalho de Molotch e
Lester (1974) estão a avaliação dos acontecimentos em termos de
"carreira" (carreer Une) e a apresentação de uma tipologia de acon­
tecim entos relacionada com a forma de prom oção dos mesmos
(intencional ou não intencional) e com os "p rom otores" (quem
transforma um fato num acontecimento pode ser um executor -
ou seja, a pessoa ou pessoas envolvidas- ou um informador). Nos
acontecim entos de rotina coincidiríam promotores e executores,
como acontece nas conferências de imprensa (embora, por vezes,
seja difícil estabelecer a distinção entre quem prom ove e quem
executa). Nos acidentes, acontecimentos não intencionais, os pro­
motores diferem dos executores. Por exemplo, um acidente numa
central nuclear pode levar a que se conheçam falhas nos seus
sistemas de segurança. O terceiro tipo de acontecim ento é classi­
ficad o na categoria de escân d alos. Estes ocorrem quando os
in form ad ores tornam um fato num acontecim ento por terem
propósitos diferentes dos executores, que ficam surpreendidos
com a revelação pública das inform ações. O quarto e últim o tipo
de acontecim ento seria o seren dipity, um acontecim ento in vo­
luntário mas prom ovido pelo executor, que o tenta transform ar
num acontecim ento de rotina ou m odificar o seu sentido públi­
co prim ário através da sua atividade prom ocional. Esses acon­
tecim entos seriam , geralm ente, invisíveis, e, portanto, não recu­
peráveis para a investigação sociológica.

C) H all et a l . (1978)

Hall et al. (1978) apresentaram o conceito do "prim eiro defi­


n id or" de sentido para os assuntos noticiados. Para Hall et al.
(1978), autores filiados na escola dos Estudos Culturais, esses pri­
meiros definidores, devido ao seu poder e posição numa espécie de
hierarquia de credibilidade, conseguiríam condicionar todas as in­
terpretações posteriores àquelas que eles dão a um acontecimento.
Por exem plo, durante a Guerra do Golfo (1991) os m ilitares de
ambos os lados condicionaram o campo jornalístico, mas os milita­
res americanos conseguiram, inclusive, passar a idéia de que a guer­
ra era um conflito inteligente, cirúrgico e asséptico, quando a mai­
oria das bombas que caíram sobre o Iraque era gravitacionais, tal e
qual as da Segunda Guerra Mundial. Assim, os meios de comuni­
cação jorn alística estariam ao serviço da m anutenção de uma
hegemonia ideológica na sociedade, que suportaria estratégias não
lineares de poder e dominação, porém, como notam Santos (1997)
ou Traquina (1993), o modelo é excessivamente estruturalista, já
que admite pouca autonomia dos jornalistas para a definição de
sentidos para os acontecimentos e não dá espaço para ocorrências
como as fugas de informação ou as iniciativas jornalísticas de de­
manda de inform ações nas fontes. Além disso, embora o acesso
aos meios jornalísticos seja socialm ente estratificado, Hall et al.
(1978) ignorariam o fato de, por vezes, existirem definidores pri­
mários de sentidos para os acontecimentos com poder e credibilidade
semelhantes que, não obstante, teriam visões diferentes sobre esses
mesmos acontecimentos e competiriam pela outorgação de senti­
dos. Esta situação alargaria o campo (negociai) onde se jogaria o
sentido do acontecimento.

D) G ans (1980)

Gans (1980) observa que existem vários tipos de fontes infor­


mativas (institucionais, oficiosas, provisórias...; passivas e ativas;
conhecidas e desconhecidas) que interagem num sistema que al­
berga igualm ente jornalistas (especializados ou não especializa­
dos) e público(s). Os órgãos jornalísticos estabeleceríam as suas
fontes de acordo com as suas necessidades produtivas e com o
posicionam ento das mesmas na estrutura social. O acesso aos news
media seria socialm ente estratificado porque também as fontes não
são idênticas nem têm idêntico relevo. Por seu turno, os jornalis­
tas especializados poderíam cultivar laços mais profundos com
as fontes, no seio de uma relação negociai onde se vão estabele­
cendo direitos e obrigações recíprocas. As fontes tentariam fazer
passar a inform ação que mais lhes interessaria, segundo o ângulo
pretendido, enquanto os jornalistas procurariam obter inform a­
ções que as fontes, por vezes, pretenderíam esconder, explorando
ângulos alternativos.

66
Para Herbert Gans (1980), as organizações noticiosas tendem
para a passividade, enquanto as fontes interessadas tendem para
a atividade. Este fato tornaria os órgãos jornalísticos mais permeá­
veis às fontes mais ativas, designadam ente àquelas capazes de
corresponderem rapidamente às suas necessidades informativas.
Mas Gans (1980) nunca abandona a sua perspectiva construcionista
da notícia, em que destaca a idéia da negociação entre jornalistas e
fontes informativas. Todavia, o autor realça que existem vários fa­
tores que influenciariam a dominância de determinadas fontes so­
bre outras, como o seu poder, a sua credibilidade e a sua proxi­
m idade em relação aos jornalistas. Os jornalistas, por seu turno,
escolheriam as fontes em função da sua conveniência, aferida,
segundo Gans (1980), não só em termos de fiabilidade e respeita­
bilidade mas também em termos de capacidade de produção de
inform ação. Além disso, para o autor, as fontes capazes de ante­
cipar aos jornalistas oportunidades de recolha de inform ação ten­
deríam a ser mais selecionadas.

E) SCHLESINGER (1992)

Philip Schlesinger (1992) recusa a classificação redutora das


fontes nas categorias "oficial" e "não oficial", uma vez que há gru­
pos sociais que se beneficiam do sistema (por exemplo, através de
subsídios estatais) mas que conservam uma esfera de liberdade que
lhes p o ssib ilita a crítica ao G overn o e ao sistem a. T odavia,
Schlesinger (1992) atenta na dominância das fontes enquadráveis
no aparelho governativo. Para ele, as fontes, de alguma maneira,
competem pelo acesso aos meios jornalísticos, desenvolvendo ações
táticas ao serviço dessa estratégia do acesso, como sejam (a) a cria­
ção e m anutenção de um am biente capaz de garantir à fonte o
sucesso da comunicação, através da cativação e sensibilização dos
jornalistas, (b) a seleção apropriada dos meios-alvo ou (c) o forne­
cimento de mensagens capazes de corresponder aos critérios de
noticiabilidade e a convenções jornalísticas, como as técnicas pro­
fissionais de redação. Nesse ambiente competitivo, seria ainda uma
mais-valia para a fonte de informação conseguir prever e /o u neu­
tralizar as reações das fontes adversas. Porém, como, segundo o
autor, as fontes possuem recursos diferentes e como também é di­
ferente o seu posicionamento social, torna-se identicamente desi­
gual o acesso a esses meios (SCHLESINGER, 1992).

67
F) B lumler e G urevitcii (1995)

Blumler e Gurevitch (1995) estudam, principalmente, a rela­


ção entre políticos e jornalistas. Eles destacam que as fontes infor­
mativas e os jornalistas desempenham papéis ajustados e muitas
vezes cooperativos, devido aos interesses dos jornalistas em obter
informação nova e aos interesses dos políticos em serem conheci­
dos e em fazerem passar determinadas informações, escondendo,
neutralizando ou impedindo outras. Todavia, frequentemente fontes
e jornalistas teriam objetivos diferentes, o que enfatiza a idéia de
negociação entre ambas as partes. Porém, entre fontes e jornalistas
tenderíam a estabelecer-se relações que assentam em direitos e obri­
gações mútuas, decorrentes de uma cultura partilhada. Os jorna­
listas, por exemplo, tenderíam a defender a confidencialidade das
fontes, os embargos ou os off-the-record, mas as fontes também com­
preenderíam, por exemplo, o valor da imparcialidade jornalística.
Os autores propõem, assim, um modelo de análise entre fontes e
jornalistas. Este modelo assenta na idéia de troca e decorre da pros-
secução dos interesses próprios de jornalistas e fontes informativas
(BLUMLER e GUREVITCH, 1995).
Para os autores, o conceito de fonte é ambíguo, devido à sua
amplitude. As informações de uma fonte individual podem ser avali­
adas pela noticiabilidade do acontecimento, mas as informações
fornecidas pelas fontes institucionais, para as quais os jornalistas ori­
entariam a sua atividade, podem ser aceitas devido à posição, autori­
dade e credibilidade dessas fontes (BLUMLER e GUREVITCH, 1995).

G) C urran (1996)

Curran (1996) considera a existência de dois tipos de pressões


sobre os meios jornalísticos, as pressões do "topo para a base" e as
pressões da "base para o topo". No primeiro caso inscrevem-se,
segundo o autor, as pressões que levam o jornalismo a aproximar-
se dos grupos socialmente dominantes. No segundo caso, encon­
traríamos as pressões que levam o jornalismo a aproximar-se dos
grupos sociais de base.
Entre as principais pressões "do topo para a base" encontra­
ríamos as seguintes:
1) Restrição à entrada no mercado jornalístico, devido aos ele­
vados custos da atividade;

68
2) Fenômenos de concentração da propriedade das empresas
jornalísticas, agrupando, por vezes, os diferentes media (imprensa,
rádio, TV, novos meios);
3) Orientação consensual do jornalismo para o centro políti­
co, o que, além do mais, permitiría economias de escala;
4) Orientação do jornalism o para os consum idores que ga­
rantam maiores níveis de consumo, que seriam os mais ricos;
5) Fenômenos de censura e auto-censura decorrentes das ten­
tativas de não ofender as entidades que publicitam nos órgãos jor­
nalísticos;
6) Rotinas e critérios de noticiabilidade tendem a excluir os
"desconhecidos" do campo noticioso;
7) Personalização das histórias, que centram as notícias nos
indivíduos de maior projeção social;
8) Desigualdade dos recursos dos grupos que querem ter acesso
aos news media;
9) Acesso privilegiado das elites ao Estado.
Entre as principais pressões exercidas da "base para o topo"
situar-se-iam as seguintes:
1) Práticas culturais alternativas dos "grupos sociais domina­
dos", o que permitiría a transmissão de uma herança cultural e de
saberes alternativos sem recurso aos principais media;
2) Pressões exercidas por grupos sociais de base;
3) Poder, independência e autonomia dos jornalistas;
4) Poder do consumidor, que pode deixar de consumir produ­
tos jornalísticos;
5) Capacidade de alguns grupos sociais de base criarem os
seus próprios órgãos jornalísticos.
Para Curran (1996), as fontes, mesmo as privilegiadas, têm
desigual acesso aos órgãos jornalísticos e diferentes estatutos pe­
rante os jornalistas. Os órgãos jornalísticos não são, deste modo,
identicamente acessíveis a todos nem tratam todos da mesma ma­
neira. No entanto, segundo o autor, não só os órgãos jornalísticos
diferem entre si como também não excluem de todo os "grupos
sociais dom inados".

H) S a n to s (1997)

Rogério Santos (1997) desenvolve um estudo em Portugal so­


bre as fontes e os jornalistas. Entre as principais conclusões do au­
tor ganha volume a idéia de que as fontes burocratizadas tendem
a m anter uma perm anente disponibilidade de atendim ento dos
jornalistas e que procurariam traçar antecipadamente a ocorrên­
cia de acontecim entos, processando sistematicamente a inform a­
ção que, depois, remeteriam aos jornalistas, de acordo com critéri­
os de noticiabilidade adequados. A fonte procuraria aceder aos
meios jornalísticos através de táticas destinadas a garantir a sua
notoriedade e reconhecimento perante os jornalistas, como a con­
tinuidade nos contatos e o desenvolvimento de rotinas produtivas,
porém, a credibilidade da fonte, segundo Santos (1997), depende­
ría sempre da instituição. Os jornalistas, por seu turno, processari­
am a informação de acordo com os objetivos e a cultura da organi­
zação noticiosa que os enquadra. A autonomia dos jornalistas de­
pendería não apenas da esfera de liberdade inscrita na matriz cul­
tural da organização noticiosa, mas também da cotação interna
desses profissionais. Entre as duas partes haveria espaços de coo­
peração, negociação e luta, pois objetivos de fontes e jornalistas
nem sempre coincidiríam.

I) P in to (1997,1998 E 1999)

Ricardo Jorge Pinto, professor e investigador da Universidade


Fernando Pessoa e jornalista político do semanário português Ex­
presso, tem-se dedicado a estudar a evolução do jornalismo políti­
co e a relação entre políticos e jornalistas políticos. Foi esse o tema
da sua tese de doutoramento (1997) e é esse o tema que continua a
focar nalgumas das suas intervenções e artigos.
Na sua tese de doutoramento, Ricardo Jorge Pinto analisa a
evolução do jornalismo político em Portugal, Inglaterra, França e
Estados Unidos, entre 1970 e 1995, estudando quatro diários ao
longo desses anos: Diário cie Notícias, Le Monde, The Nezo York Times
e The Times. A hipótese levantada e comprovada por Ricardo Pinto
é a de que o jornalismo político entrou num novo paradigma no
início dos anos 70. O novo modelo de jornalismo político enfatiza a
interpretação e a análise e substituiu um modelo descritivo, sus­
tentado em longas citações diretas dos políticos. Segundo o autor,
quatro grandes razões contribuíram para a mudança de paradig­
ma: 1) a desregulação e a globalização do sistema mediático; 2) a
emergência da TV como provedor majoritário de informação; 3) a
especialização dos jornalistas políticos; e 4) o desenvolvimento do
marketing político. Para o investigador, a ascensão da análise, si­
tuada entre a informação fatual e a opinião, coincidiu, inevitável­
mente, com o declínio do paradigma da objetividade jornalística.
Ricardo Jorge Pinto demonstra ainda o seguinte: 1) há uma rela­
ção mista de conflito e cumplicidade entre jornalistas políticos e
políticos; 2) nota-se um declínio na utilização de fontes identificadas
em favor das fontes anônimas19; 3) as fontes diversificaram-se, sendo
contactados indivíduos de todos os escalões de poder nas organi­
zações políticas, da base ao topo; 4) o marketing político afeta as
normas dos procedimentos jornalísticos; e 5) os jornais de prestígio
analisados, de quatro sociedades diferentes, tornaram-se cada vez
mais parecidos uns com os outros, entre 1970 e 1995.
Já num artigo de 1999, intitulado "The game of soundbites -
The shrinking political quotations in the "quality" press", Ricardo
P in to in v e stig a o im p acto das so u n d b ites -p e q u e n a s fra se s
ininterruptas, que funcionam como um bloco e têm elevado im­
pacto e visibilidade20- proferidas pelos políticos nas hard nezvs so­
bre política de jornais de referência de Portugal, Estados Unidos,
França e Inglaterra. O autor conclui que, dos anos 60 até hoje, se
nota um decréscimo da percentagem de parágrafos de citação nas
notícias, até porque se foi questionando a idéia de que a credibili­
dade e a objetividade jornalísticas estão associadas às citações. Se­
gundo Ricardo Pinto, o fenômeno deve-se, em parte, à prolifera­
ção das soundbites no discurso político. As longas citações diretas
dos anos 60 e 70 foram substituídas por citações de soundbites. Este
fato, de acordo com Ricardo Jorge Pinto, ajudou a consolidar uma
mudança de paradigma no jornalismo político, pois ofereceu mai­
or espaço para a interpretação jornalística e, conseqiientem ente,
facilitou a transição de um modelo descritivo de jornalismo políti­
co para um modelo analítico e interpretativo. Este novo paradig­
ma, por sua vez, promove a especialização dos jornalistas políti­
cos, pois só jornalistas especializados, com um vasto domínio dos
assuntos e uma ampla rede de contatos, podem, judiciosamente,
enveredar pela análise e pela interpretação dos fenômenos políti­
cos. Ricardo Pinto diz, também, que a diversificação das fontes e a
procura de novos ângulos de abordagem das histórias contribuiu
para o aparecimento de novas formas de acesso aos nezvs media, mas
tecnologias como os telemóveis também facilitam, na visão de Ricardo
Pinto, o acesso a fontes diversificadas de informação, embora o au­
tor afirme que a um maior número de fontes não corresponde um
aumento do número de citações, pelo contrário.
Num artigo de 1998, intitulado "Reinventing politics in the
media age", Ricardo Pinto sustenta (1) que se assiste à redefinição
da esfera pública, do jornalismo político e da política devido ao
impacto dos media, (2) que se consolidou uma imagem adversarial
da imprensa no campo do político e (3) que a luta política se trans­
feriu, em grande medida, para o campo dos media, ou seja, que os
acontecimentos políticos são, sobretudo, media events. O jornalis­
mo político resulta, na visão do autor, da simbiose entre o campo
político, que prepara os acontecimentos para se adaptarem facil­
mente às rotinas das organizações noticiosas, e o campo jornalístico,
que cria formas que facilmente assimilam os acontecimentos políti­
cos previsíveis. Ricardo Pinto discorda da idéia de que os media se
tornaram mais poderosos do que os políticos. Para ele, verifica-se,
sim, uma (re)adaptação circular entre políticos e jornalistas políti­
cos às práticas, meios e fins uns dos outros, sendo essa adaptação
impulsionada pela compreensão mútua da legitimidade de ambos.
Deste processo resulta o estabelecimento de regras para o jogo po­
lítico, estabelecidas interativamente pelos políticos e pelos jornalis­
tas políticos. Apesar da consolidação de uma imagem de oposição
entre jornalistas e políticos, na ótica de Ricardo Pinto essa postura
antagônica é, de alguma forma, simulada, embora possa subsistir
um papel adversarial da imprensa. O antagonismo entre jornalis­
tas e políticos pode, diz o autor, expressar-se no conteúdo das no­
tícias, mas, na realidade, a interação entre jornalistas políticos e
políticos é regulada por regras estabelecidas pelas duas partes. Os
jornalistas seriam, principalmente, não meros observadores, mas
sim m ediadores ativos, participantes e, atualmente, im prescindí­
veis, entre os antagonistas políticos.
As sinergias entre jornalistas políticos e os políticos e seus con­
selheiros complicou, na visão de Ricardo Jorge Pinto, o cenário tra­
dicional da política e do jornalismo, não obstante políticos e jorna­
listas se manterem em campos opostos e perseguirem diferentes
objetivos. A política acontece, em larga medida, no campo dos
media, mas as pessoas manter-se-iam soberanas, já não tanto por
causa do seu voto, mas sim por causa da sua opinião. Segundo
Ricardo Pinto, a redefinição dos campos do jornalismo e da políti­
ca no seio da esfera pública tem sido conduzida pelo sistem a
mediático, com a cumplicidade do sistema político, com base num
elaborado processo dialético de sedução [do público] mais do que
num m odelo de confrontação. Mas, assim, também a com unica­
ção política se tornou uma extensão do marketing político, num
processo substancialmente impulsionado pela televisão, que pro­
m ove a espetacularização, personalização e dram atização dos

72
acontecimentos políticos; porém, este processo é condicionado pela
tendência analítica e interpretativa do jornalismo político atual.

J ) O u tr o s e stu d o s

Diversos outros autores desenvolveram estudos sobre as rela­


ções entre fontes de inform ação e jorn alistas. A penas a título
referencial, Hess (1984), por exemplo, sustenta que jornalistas e
fontes tendem mais a reagir uns com os outros do que a iniciarem
processos relacionais. Este autor realça, igualmente, que os asses­
sores de imprensa podem ver-se a si mesmos como realizadores de
uma função útil. Mancini (1993), por seu turno, diz que as relações
entre jornalistas e fontes oscilam, frequentemente, entre a suspeita
e a confiança.

A ção id eo ló g ica

O conceito de ideologia não é universal. Embora julgue que


podemos falar de ideologia, de uma forma geral, como um mecanis­
mo simbólico que, integrando um sistema de idéias, cimenta a coe­
são e integração de um grupo social em função de interesses, cons­
cientes ou não conscientes (a cultura também cimenta coesões, mas
não em função de interesses), há autores que têm perspectivas dife­
rentes ou mais minuciosas. De qualquer modo, quero, desde já, dei­
xar claro que aqui vou procurar falar essencialmente das forças ide­
ológicas que se exercem sobre os meios jornalísticos e que funcio­
nam como elementos configuradores das notícias e não da influên­
cia ideológica dos meios de comunicação sobre a sociedade.
Para Sam uel Becker (1984), por exemplo, a ideologia é um
sistema de enquadramentos de referência através dos quais uma
pessoa vê o mundo e aos quais ajusta as suas ações, pelo que a
ideologia governaria a forma como cada pessoa se percebe a si
mesma e ao mundo e controlaria o que é visto como natural ou
óbvio. Raymond Williams (1977), por seu turno, define ideologia
como um sistema articulado de significados, valores e crenças.
Hackett (1984), descreve três conceitos de ideologia especialmente
aplicáveis ao jornalismo:
1) Ideologia como estrutura profunda (no que vai ao encontro
de Hall), originada pela integração inconsciente de pressupostos
sobre o mundo;

73
2) Ideologia como naturalização, que correspondería à apre­
sentação do trabalho jornalístico como não ideológico;
3) Ideologia como interpelação, na base da qual as notícias são
apresentadas realisticamente, ocultando a produtividade da linguagem.
No campo da construção de sentidos, a ação ideológica dos
mciss media poderá ser relevante, tal como poderá ser relevante a
ação ideológica sobre os media, as organizações jornalísticas e, con-
seqüentemente, as notícias. O papel dos meios de comunicação na
propagação de uma ideologia e do fortalecimento das forças que
determinam a natureza dessa ideologia é, aparentemente, um fato
que merece reflexão.
S tu art H all (1989) argu m en ta que a id eo lo g ia tem sid o
crescentem ente relevada nos estudos sobre a comunicação social
por duas razões:
1) Crescente reconhecimento da capacidade que os media têm
de construir sentidos prevalecentes para a realidade, "definir situ­
ações" e catalogar determinadas pessoas e acontecimentos como
"desviantes" (ajudando a definir a norma);
2) Quebra do "consenso social" após os perturbados anos ses­
senta, trazendo por arrastamento uma maior polarização ideoló­
gica e focalizando a atenção no controle ideológico exercido pelos
media, que seria, em certa medida, orientado para a m anutenção
do statu quo e para a legitimação e exercício do poder simbólico.
Gouldner (1976) sustentou, na mesma área, que a ideologia,
enquanto mecanismo simbólico, integrava os interesses dos diver­
sos estratos sociais e permitia ao estrato dominante gerar respostas
sociais compatíveis com os seus interesses. Vejamos um exemplo.
Os m eios de com unicação social representam as atividades dos
partidos políticos, frequentemente tensas e conflituais. Mas, ao fazê-
lo, não só dão cobertura às diferentes ideologias que integram as
pessoas nesses partidos políticos como também promovem a ideo­
logia dominante que informa o sistema de democracia de partidos,
sistema esse que, algo anquilosado, talvez não esteja já a dar res­
posta às demandas multifacetadas da dinâmica sociedade civil (por
alguma razão, os partidos começam cada vez mais a considerar as
candidaturas de independentes). Por consequência, os meios de
comunicação dão cobertura aos interesses dos poderes de "classe"
dom inantes — transpartidários — que se escondem por trás da
aparência de normalidade do statu quo e contribuem para a manu­
tenção de um estado de coisas que me parece não satisfazer a ge­
neralidade dos cidadãos. Ao mesmo tempo, os media contribuem

74
para que eventuais mudanças sociais sejam travadas e controla­
das pelos interesses dos detentores do poder político, poder este
que tende a ser tanto maior quanto mais elevada for a posição dos
seus detentores nas cúpulas partidárias. As rotinas dos jornalistas
e das fontes, as convenções profissionais, os valores e a estrutura
organizacional combinam-se, assim, para manter um sistema de
controle e reprodução das ideologias dominantes (SHOEMAKER
e REESE, 1996), levando os media a gerar construções simbólicas
que fazem percepcionar a ordem existente como natural e imutá­
vel (HALL, 1982). Aliás, ao oferecerem representações ideológicas,
como a que antes vimos, sobre o sistema de democracia de partidos,
os news media, através dos seus conteúdos, constroem mapas que
nos permitem entender as relações de poder nas sociedades, mas
que também amplificam e, provavelmente, solidificam essas rela­
ções de poder. Algumas ideologias estarão, assim, relacionadas com
os interesses e os poderes, pelo que mesmo o poder de criação simbó­
lica não pode ser considerado uma força neutral — não só grande
parte das notícias são sobre os poderes como também as interpreta­
ções dessas notícias são feitas em função dos interesses dos poderes.
Não é pois inocentemente que, por exemplo, conform e relevam
Shoemaker e Reese (1996), as posições sindicais são usualmente apre­
sentadas como exigências e as posições patronais como ofertas.
Conforme os mesmos autores apontam, uma das funções cha­
ve que os neivs media desempenham é a manutenção das fronteiras
do legítimo e do aceitável numa sociedade (SHOEMAKER e REESE,
1996). Os meios jornalísticos são, conseqüentemente, uma peça fun­
damental para a conceitualização do desvio, porém, o desvio é algo
que constantemente é redefinido e renegociado no seio da socieda­
de, devido às interações simbólicas entre os seus membros (SHOE­
MAKER e REESE, 1996). E esta é uma ação de cariz ideológico.
Numa visão político-econômica e estruturalista, a proprieda­
de poderia ser o fator principal na promoção de um hipotético con­
trole ideológico da "classe" dominante sobre as organizações rne-
diáticas. Quando a propriedade dos media está predominantemente
nas mãos do Estado, como acontece na Agência Lusa e na RTP, os
media poderão tender a refletir a ideologia do poder estatal.
A teoria da hegemonia, proposta por Gramsci, é uma das fer­
ramentas teóricas usadas nos cultural studies. Na versão do autor,
enquanto a ideologia seria uma força unificadora, a hegem onia
teria a ver com a forma como a ordem vigente mantém a sua domi-
nância (Cf. GRAM SCI, 1971).

r7E
Sob a perspectiva da teoria de Gramsci, interpretada por Gitlin
(1980), a hegemonia seria vista como um processo conflituoso e di­
nâmico que teria de continuamente incorporar e absorver valores
diferentes e, por vezes, opostos, bem como normas frequentemente
díspares. Para Williams (1977), a hegemonia não subsiste na passivi­
dade; pelo contrário, necessitaria de se renovar, recriar, defender e
modificar continuamente, o que se encontraria expresso no limitado
debate público que ocorre dentro dos órgãos de comunicação social.
Gitlin (1980) define hegemonia como a maneira sistemática,
embora não necessariamente deliberada, através da qual se conse­
gue fabricar o consentimento em massa à ordem estabelecida. O
controle social teria de ser mantido sem o sacrifício da legitimidade
de que os poderes dominantes necessitariam para m anter o seu
domínio, refletindo-se essa ação na comunicação jornalística.
Os meios de com unicação social, apesar de não serem um
monólito ideológico, serviríam uma função hegemônica por conti­
nuam ente produzirem uma ideologia que, integrando valores e
normas do senso-com um , serviría para reproduzir e legitimar a
estrutura e ordem sociais. Essa permeabilidade ao senso-comum
adviria da necessidade de fazer passar a ordem socialmente cons­
truída por "natural" de forma não coerciva. Por sua vez, a auto­
nomia relativa dos media e dos jornalistas daria às mensagens rne-
diáticas maior credibilidade e legitimidade do que se estas fossem
diretamente controladas (SHOEMAKER e REESE, 1996).
Ao aceitarem as interpretações "oficiais" dos acontecim en­
tos, ao centrarem -se nas fontes de poder que se concentram nos
círculos das elites dominantes e ao marginalizarem ou secundari-
zarem, deslegitimizando, as vozes alternativas ou as dos cidadãos
sem grande poder, os media serviríam uma hegemonia que não
necessitaria de recorrer à coerção. As notícias teriam as marcas
dessa hegemonia.
As rotinas também podem, assim, serem vistas como corres­
pondendo às exigências da hegemonia e não apenas a necessida­
des organizacionais e profissionais. O contraste de fontes, por
exemplo, seria feito unicamente num quadro de controvérsia "le ­
gítim a" (SHOEM AKER e REESE, 1996). A isto acresce que os nezos
media podem tender a ser menos im parciais e objetivos quanto
mais radical é a dissidência ou o desvio, chegando ao ponto da
ridicularização (MILIBAND, 1969). De fato, nenhum meio de co­
m unicação social de grande expansão dará, por exemplo, um sig­
nificativo espaço aos grupos extrem istas, que passam, frequente­

76
m ente, por perigosos ou ridículos (construção de sentido), e às
ideologias que eles apregoam.
O ideal da objetividade pode também ser um instrumento da
hegemonia. Aliás, parece-me que em grande medida a "ideologia"
ou "ideologias" jornalísticas assentam nos mitos fundacionais do
jornalismo. Se bem que, segundo me parece, se possa colocar por
hipótese que a evolução sociocultural e profissional, tal como a cres­
cente formação, tenham levado os jornalistas a substituir o ideal
da ob jetivid ad e p elos ideais da h onestid ad e, rigor, precisão,
contrastação e equilíbrio, continua a notar-se que, pelo menos em
determinadas organizações noticiosas, as formas de trabalhar, pro­
cessar a informação e apresentá-la ainda mantêm entranhado esse
ideal: bastará reparar nos procedim entos de "O b jetiv ização" e
fatualizaçáo da informação, como a contrastação de fontes, o jor­
nalism o de citações, etc. A "rede de faticidade", de que falava
Tuchman (1978), condiciona a produção de inform ação. Ora, os
jornalistas, seguindo rotineiramente os procedimentos rituais de
"objetividade", deixarão, de algum modo, os atores sociais repre­
sentados nas notícias ditar a forma das mesmas, pois serão as afir­
mações desses atores a fabricar a história (a representação) do que
aconteceu. Os jornalistas seriam, assim, considerados "objetivos".
Inversamente, quando procuram analisar afirmações e outros da­
dos e chegar a conclusões, fugindo a abordagens típicas do "jorna­
lismo de citações", os jornalistas são, muitas vezes, perspectivados
como distorcedores da informação, mormente pelo poder, que se
pretenderá autoperpetuar, relegitimando-se continuamente.
Considero também a existência de determinadas forças de cariz
ideológico no campo profissional do jornalismo suscetível de contri­
buir para dar uma determinada forma, e não outra, às notícias. En­
tre essas forças ideológicas encontraríamos, sobretudo, a ideologia
da objetividade e a ideologia do profissionalismo (SOUSA, 1997).
O conceito de objetividade representa coisas diferentes em
consonância com o autor que o utiliza. Porém, como ideologia fun­
dadora do corpo profissional dos jornalistas no ocidente, emergiu
nos Estados Unidos, entre os finais dos anos vinte e meados da
década de trinta, devido ao despertar daquilo a que Schudson
(1978) chamou a "subjetivização dos fatos". De fato, na seqüência
das manobras propagandísticas da I Guerra Mundial, do apareci­
mento de profissionais de relações públicas, como Ivy Lee, e da
quebra de confiança na democracia e no progresso econômico, os
jornalistas, na versão de Schudson (1978), teriam começado a per­

77
ceber que os fatos eram merecedores de desconfiança, pelo que
teriam adotado procedimentos de estilo e de abordagem dos acon­
tecimentos face às suas novas preocupações, a "objetividade". Até
aí, o termo "objetividade" teria correspondido, nada m ais nada
menos, do que à aplicação do método científico e dos princípios do
positivismo lógico (SCHUDSON, 1978).
Schudson (1978) argumenta também que a objetividade, en­
quanto princípio de reportação de notícias, provou ser enganadora
e ilusória com o fenômeno do Mccarthismo nos Estados Unidos, tor­
nando-se suspeita e levando ao aparecimento de uma cultura crítica
que, na minha opinião, terá sido uma das razões que conduziram à
emergência do movimento do Novo Jornalismo nos anos sessenta21.
Todavia, Gaye Tuchman (1972), do meu ponto de vista, pro­
vou que a objetividade ainda estaria viva, na forma de um "ritual
estratégico" destinado a defender os jornalistas e o produto orga­
nizacional de críticas e, numa certa medida, pelo menos na minha
visão, a desculpabilizá-los pelas informações erradas, incorretas,
ensaísticas (da opinião dos públicos) ou manipuladoras que por
vezes dão. De entre esses "rituais" que contribuiríam para que os
jornalistas se defendessem de possíveis críticas encontramos, a tí­
tulo exemplificativo, as citações entre aspas ou a contrastação de
fontes, dois procedimentos enraizados no seio da profissão.
A ideologia da objetividade parece-me, assim, ainda bem en-
tranhada no cam po jornalístico, apesar da crescente form ação
acadêmica específica dos jornalistas. Empírica e ingênua, é, prova­
velmente, essa ideologia uma das responsáveis para que o jornalis­
ta continue a ser visto e se veja particularmente ao nível do senso-
comum, como um simples intermediário — e não um "verdadei­
ro mediador cuja existência se anularia a partir do momento
em que um acontecimento fosse "reproduzido" na notícia. Ao con­
trário, então, da que teria sido a sua formulação inicial — um mé­
todo concebido em função de um mundo em que os fatos eram
desmerecedores de confiança — o conceito de objetividade evoluiu
para a fé nos fatos (TRAQUINA, 1993).
Schudson (1996) sugere que os procedimentos de objetivida­
de seriam, unicamente, de cariz cultural. Porém, para mim a obje­
tividade encontra explicação se não predominantemente pelo me­
nos em parte no conceito de ideologia (ver, especialmente: SOUSA,
1997), entendendo ideologia por conjunto de valores, crenças, etc.
que dão coesão a um grupo em função de interesses. E esta é a
palavra-chave. Na m inha visão, o "p o d e r" jorn alístico (e, por

78
consequência, os jornalistas) carece de legitim ação dem ocrática,
uma vez que se trata de um poder não sujeito ao sufrágio popular.
Daí nasce o interesse que os jornalistas têm na obtenção de outro
tipo de legitimação, que passaria pelo seu papel de fornecedores
de informações não deturpadas de interesse público. Desta neces­
sidade de se legitimarem aos olhos do público através do forneci­
mento de informação de interesse público "fiel" à realidade decor-
reria a adoção interessada, ainda que nem sempre conscientemen­
te formulada, dos procedimentos de objetividade. •
Entre outros posicionamentos ideológicos do mesmo teor en­
contramos, na minha perspectiva, a ideologia do profissionalismo.
De fato, os jornalistas têm interesse em serem aceitos e reconheci­
dos como (bons) profissionais, quer aos olhos dos colegas (através
de mecanismos como a progressão na carreira e o salário) quer aos
olhos do público (posicionando-se como os únicos profissionais ca­
pazes de fornecer informação "jornalística" de interesse público).
Assim sendo, seriam, por exemplo, capazes de sacrificar a necessi­
dade que possam ter de agir sobre as dinâmicas sociais aos "dita­
m es" profissionais (reportar o "fato" sem cair na opinião...); seri­
am, por exemplo, capazes de obedecer à política editorial da em­
presa em que estão (registada no estatuto editorial e em manuais
como os livros de estilo) mesmo que com ela não concordem, etc.

A ção so c io cu ltu ra l ,
AÇÃO IDEOLÓGICA E AÇÃO CULTURAL

Os processos de newsmaking ocorrem num sistema sociocultu­


ral. Intuitivam ente, podemos mesmo afirmar que o processo de
fabrico e construção das notícias sofre uma ação informadora por
parte do sistema sociocultural em que se insere. Por exemplo, a
forma como se fotografa para jornais evoluiu ao longo dos anos.
Isto é, mesmo que os meios técnicos o permitissem e os temas esti­
vessem à disposição dos fotojornalistas, ao longo da história houve
temas que só foram abordados a partir do momento em que as
condições culturais levaram os fotógrafos a reparar neles. Além do
que, as próprias formas de abordagem dos temas modificaram-se
bastante. Veja-se o caso do fotodocumentalismo atual, que envere­
da frequentemente pelo universo onírico-ficcional, pela encenação,
pela figuração simbólica. Há alguns anos uma fotografia de dois
queijos galegos, de Miguel Rio Branco, hipoteticamente transpor­
tadora do observador para o universo feminino (podem evocar sei-

79
os), não seria, provavelmente, considerada como um exemplo de
uma foto documental, como hoje o é.
Existem vários estudos que favorecem a idéia de que o ambiente
social e cultural tem efeitos no processo de seleção de informação.
Assim, Brown (1979) concluiu que nos Estados Unidos, entre 1935 e
1964, a cobertura média do crescimento populacional e do planeja­
mento familiar aumentava em épocas de instabilidade econômica,
tendo sugerido que isso se devia às hesitações das famílias sobre se
deviam ou não ter mais filhos, uma vez que os empregos eram igual­
mente instáveis. Por sua vez, Tichenor et al. (1986) publicaram um
estudo em que se tornava notório que as opiniões de 78 editores do
Estado do Minnesota mudaram ao longo de vinte anos, tendo avan­
çado com a hipótese de que tal refletiría a crescente diversidade social
e o aumento do pluralismo. Atwater e Fico (1986) postularam, por
seu turno, que existiría um sistema compartilhado e transorganizaci-
onal de valores jornalísticos, fortalecido pela proximidade estreita, pela
partilha de informações e pela observação mútua do trabalho. Do
meu ponto de vista, poder-se-ia talvez mesmo falar de uma socializa­
ção e aculturação de segundo nível (o primeiro seria o nível organiza­
cional; este segundo nível seria o da cultura profissional, que, em certa
medida, seria, vê-se também por aqui, transorganizacional).
No nível das influências sociocultural, é preciso ainda que não
esqueçamos que as notícias transportam consigo os "enquadram en­
tos" iframes) em que foram produzidas. Por vezes, não havendo
outros enquadramentos disponíveis, os jornalistas usariam enqua­
dram entos já usados para interpretar os novos acontecim entos
(TRAQUINA, 1988), o que poderá, quanto a nós, gerar erros de
ju lg a m e n to . Foi d ev id o à u tiliz a ç ã o de um fr a m e a n te rio r
("totonegócio") que o "cinenegócio" se chamou assim.
Karl Manoff (1986) fez notar que a escolha de um fram e não é
inteiramente livre, pois depende do "catálogo de fm m es disponí­
veis" num determinado momento sócio-histórico-cultural, isto é,
depende do aspecto que para o seletor de um enquadramento, como
um jornalista, o real assume nesse momento, bem como da sua
experiência, que lhe molda a percepção. Dependería ainda das
rotinas, do peso das instituições e de outros constrangimentos ao
processo jornalístico de produção de informação de atualidade.
Gaye Tuchman (1976) foi das autoras que mais relevou o con­
ceito de fram e. Remetendo a noção original para Erving Goffman
(1975), que falava dos fram es como as formas de organizar a vida
cotidiana para se compreenderem as situações sociais e para a es­

80
tas dar resposta, a socióloga americana usa o conceito como sinô­
nim o de idéia organizadora usada na atribuição de sentido aos
acontecimentos (o "enquadram ento" de que eu falo). Também para
ela, há acontecimentos que nunca podem ser notícia porque o 'ca­
tálogo de fram es não contém um que seja aplicável.
Elisabeth Bird e Robert Dardenne (1988) falam das histórias
que as notícias seriam como sendo construídas no seio de uma gra­
mática da cultura. Seriam, assim, representativas dessa cultura e
ajudariam a compreender os seus valores e símbolos com signifi-
cantes. Inclusive, enquanto narrativas míticas, as notícias possuiri-
am códigos simbólicos reconhecidos pela audiência. Por exemplo,
as notícias, segundo os autores, recriariam um sentimento de segu­
rança ao promoverem uma certa ordem e ao estabelecerem fron­
teiras para o comportamento aceitável. Shoemaker e Reese (1996)
dizem, por seu turno, que as histórias jornalísticas, para serem atra­
entes, tendem a integrar os mitos, parábolas, lendas e histórias orais
mais proeminentes numa determinada cultura.
Por seu turno, Hall (1984) assinalou que no processo jornalístico
de fabrico de informação é mobilizado um inventário do discurso.
Neste processo, os jornalistas não se limitariam a usar definições cul­
turalmente determinadas, pois teriam de integrar novas situações em
velhas definições. Poderiamos mesmo dizer, creio, que teriam de en­
caixar as novas situações no catálogo de frames disponíveis.
Phillips (1976) mostra que o jornalismo privilegia o concreto,
o particular e o individual, oferecendo as notícias como um mosai­
co, em oposição ao estrutural, ao abstrato e ao universal. Favorece­
ría, assim, fam iliaridade acerca das coisas e não conhecim entos
profundos sobre elas. Para Phillips, um acontecimento deve cor­
responder ao esperado (valor da consonância). Por isso, as notícias
seriam repetitivas, o que acentuaria a sensação de que existe novi­
dade sem mudança. Segundo E. Barbara Phillips, os jornalistas te­
riam ainda uma linguagem própria, que Nelson Traquina (1993)
traduz como jornalês, além de hábitos mentais profissionais, de­
pendência do instinto e concentração no presente.
Sobre a linguagem dos jornalistas, escreve a autora (1977,
p. 71-72):

(...) o estilo da informação objetiva e a norma da objetividade aparecem como o


cimento que une a empresa jornalística. Profissional, organizacional e pessoalmen­
te, a norma captura melhor o espírito do ofício eos hábitos mentais do jornalista. A
norma parece ser compartilhada pelas audiências massivas e heterogêneas.

81
É possível usar o conteúdo das notícias como ponto de parti­
da para a compreensão da produção cultural pelo sistema jorna­
lístico. Três exemplos. Nimmo e Combs (1983) estudaram como os
neivs media representavam a realidade, a partir da lógica da repre­
sentação dramática — atores, atos, cena, motivos, cenários e agen­
te sancionador (a fonte principal que justifica os acontecimentos,
as ações e a conclusão dos dramas). Robert Smith (1979), por seu
lado, estudou várias estações de televisão, tendo concluído que
usavam nas notícias um número considerável de narrativas con­
sistentes e previsíveis, entre as quais 83% poderíam ser classifica­
das em três categorias: 1) "hom em decide"; 2) "sofrim ento"; e 3)
"vilão apanhado". Michael Schudson (1988), por sua vez, diz que
as notícias podem ser vistas na perspectiva dos gêneros literários,
assem elhando-se a rom ances, tragédias, com édias e sátiras. As
páginas sociais de um jornal seriam como um romance, que pode­
ría, contudo, ser mesclado de comédia. A reportagem de um in­
cêndio já seria uma tragédia. Algumas notícias de polícia seriam
quase uma forma abreviadíssima de romance policial. Para este
autor, as notícias seriam semelhantes porque as pessoas contam
histórias de forma semelhante.
Os cultural studies também enfatizam o caráter sociocultural
de produção da informação jornalística, uma vez que o seu objeto
é, de algum modo, a análise dos processos de atribuição de sentido
à realidade enquanto processos de natureza social e cultural, em­
bora entrem também em consideração com a ação ideológica. Nes­
te paradigma, o estudo das mediações jornalísticas e da forma como
estas ajudam a construir determinados sentidos para a realidade
são aspectos centrais.
Os teóricos dos cultural studies consideram que é no campo
cultural que se encontram os significados e valores que surgem e se
difundem entre os grupos sociais. Nas práticas sociais estariam
contidos e expressar-se-iam esses mesmos significados e valores.
Por isso, julgo, por exemplo, que, através de uma análise de con­
teúdo de notícias, poderemos tentar intuir os valores que estão na
sua gênese e se encontram nas práticas que lhes deram origem,
bem como inferir algumas das formas como se processará a cons­
trução de significados para esses textos (sem excluir que a conotação
é de natureza altamente subjetiva).
Na perspectiva dos cultural studies, os news media seriam um
dos fatores que contribuiríam para a manutenção da estabilidade
sociocultural, pois, de alguma forma, "reproduziríam " a estabili­

82
dade sociocultural de cada momento evolutivo, o que lhes confere
um poder ideológico associável à manutenção do statu quo. Acentu­
ando as interligações entre o sistema cultural e as atitudes das pesso­
as, os cultural studies relevam ainda a importância da dimensão cul­
tural e ideológica no sistema social, em geral, e no sistema mediático,
em particular. Essa perspectiva é valorizada pela associação da di­
nâmica econômica, explorada pela teoria crítica, aos estudos efetua­
dos. Soloski (1989; 1993, p. 100), por exemplo, escreveu:

Embora os jornalistas não relatem as notícias de modo a manter o sistema políti­


co-econômico existente, as suas normas profissionais acabam por produzir 'estó­
rias' que defendem implicitamente a ordem vigente. Além disso, as normas pro­
fissionais legitimam a ordem vigente ao fazê-lo parecer um estado de coisas que
ocorre naturalmente. Os princípios do profissionalismo jornalístico têm como
resultado uma cobertura noticiosa que não ameaça nem a posição econômica da
organização jornalística [...] nem o sistema político-econômico global no qual a
organização jornalística opera. Além disso, o profissionalismo jornalístico pro­
duz 'estórias' que permitem que as organizações jornalísticas aumentem o seu
público e mantenham um controlefirme sobre o mercado. Em última análise, o
profissionalismo jornalístico distorce as notícias ao nível social.

Na maior parte dos casos, os cultural studies vêem, de fato, os


produtos mediáticos como produtos tendencialmente estandardiza-
dos e redutores que, reproduzindo, de alguma maneira, o sistema
sociocultural, favorecem a manutenção do statu quo. De qualquer
modo, os estudos culturais não deixam de abordar as "exceções", já
que o campo mediático, inserido no sistema sociocultural, é visto
como sendo complexo, diversificado, variável e frequentemente con­
traditório. Por isso é que existiría espaço para os media alternativos.
Ao invés das teorias conspirativas, nas quais se perspectivam
os media como sendo objeto de controle social por parte dos pode­
rosos, os estudos culturais enfatizam o papel das criações culturais
coletivas — complexas, flexíveis, dinâmicas e adaptáveis — como
agentes de continuidade ou mudança social. As condições históri­
cas e as estruturas sociais seriam, conseqüentemente, elementos
essenciais para a compreensão das práticas mcdiáticas e dos pro­
dutos que estas geram. O sistema cultural e as estruturas sociais,
como as estruturas capitalistas de produção, influenciariam quer o
conteúdo dos meios de comunicação, quer, nomeadamente atra­
vés destes, o comportamento do público.
Um dos autores de referência dentro dos cultural studies na
esfera mediática é Stuart Hall. Para ele, os meios de comunicação
social cumpririam essencialmente três funções (HALL, 1977):

83
1) Provisão e construção seletiva do conhecimento social atra­
vés do qual percebemos o mundo, as realidades vividas de outros,
e reconstruímos imaginariamente a sua vida e a nossa num mun­
do global inteligível. Assiste-se, assim, à integração coerente dos
fragmentos informativos num todo.
2) Refletir e refletir-se nessa pluralidade, provendo um inventá­
rio constante dos léxicos, estilos de vida e ideologias aí objetivadas.
Estas ideologias são entendidas como estruturas de pensamento e sig­
nificações que se impõem às pessoas sem que estas se consciencializem
das mesmas. Assim, os meios de comunicação social classificam e or­
denam os diferentes tipos de conhecimento social, providenciando
contextos referenciais que contribuem para dar sentido ao mundo.
3) Organizar, orquestrar e unir o que se representou e classificou
seletivamente. Produzem-se consensos e constrói-se a legitimidade.
Para tal, os meios de Comunicação Social (1) reproduziriam
os discursos dominantes através dos quais se dá significado à rea­
lidade, (2) perpetuariam as idéias dominantes através da lingua­
gem e sistemas simbólicos e (3) estruturariam os acontecimentos
selecionados mediante esquemas ideológicos (HALL, 1977). O cam­
po ideológico é, devido a essa ação global dos news media, um dos
fatores mais estudados na área dos cultural studies.

E n tre o so c ia l , o id eo ló g ic o e o cultural
( in clu in d o o m ít ic o ): as im a g en s jo r n a l ístic a s

Apesar de ser difícil definir com exatidão as imagens jornalísti­


cas, o que, em parte, se deve à confusão terminológica quando se apli­
ca o termo "imagem", podemos, no entanto, usar, para efeitos do pre­
sente livro, a definição proposta por Philip Gaunt (1990, p. 19):

[...] as imagens jornalísticas são definidas como imagens globais, abarcando os


conceitos de papel (role) e percepção desse papel (role perception), tal como
são compreendidos pelo público, pelas organizações e pelos jornalistas indivi­
dualmente considerados.

De fato, Philip Gaunt (1990) concluiu que um numeroso gru­


po de fatores influenciavam o processo jornalístico de produção de
informação de atualidade, como a importância das agências noti­
ciosas como agenda setters, a força relativa dos sindicatos e outras
organizações de jornalistas, a diversidade estrutural e processual no
que respeita à recolha e processamento de informação, a dimensão

84
que respeita à recolha e processamento de informação, a dimensão
dos media e, principalmente, a imagem dos news media e dos jornalis­
tas e a imagem que os segundos e o público têm dos primeiros, tendo
em conta que essas imagens seriam influenciadas pela ideologia dos
detentores dos media (Cf. TRAQUINA, 1993; HACKETT, 1984).
As imagens que os públicos têm da imprensa, podendo ser
afetadas, numa certa extensão, pela história e pela tradição, resul­
tam, para mim, essencialmente da imagem do jornalismo constru­
ída pelos públicos a partir dos próprios discursos jornalísticos (o
que os media dizem de si e uns dos outros) e dos estereótipos proje­
tados pela ficção popular. De fato, parece-me que a cultura popu­
lar, patente, por exemplo, na ficção, afeta a forma como os públi­
cos percepcionam o jornalismo e os jornalistas. Gaunt (1990, p. 20)
argumenta, porém, que, embora as percepções dos públicos pos­
sam indiretam ente influenciar as tradições jornalísticas, " [...] os
processos jornalísticos geralmente são mais susceptíveis de ser con­
figurados pelas imagens detidas pelos jornalistas individualmente
considerados e pelas organizações para as quais eles trabalham."
A partir da definição inicial proposta por Gaunt, estamos ha­
bilitados a deduzir, que as imagens jornalísticas resultam, em par­
te, das tradições jornalísticas formadas pela história e existentes
num determ inado contexto. Essas tradições jornalísticas seriam,
parcialm ente, criadas e perpetuadas pelas leis, pelos constrangi­
mentos econômicos, processos políticos e pressões políticas, bem
como pelas dinâmicas sociais na cultura em que essas tradições
aparecem (GAUNT, 1990). A imprensa, no seu conjunto, possui­
ría, então, uma imagem de si que seria formada a partir da evolu­
ção histórica, da tradição e das percepções e expectativas do públi­
co, num determinado contexto. Falaríamos, assim, essencialmen­
te, de mecanismos de ação social, cultural e ideológica que se mes­
clam com uma ação pessoal (percepções pessoais do papel do jor­
nalista, por exemplo) e sofrem a força informativa da história.
As leis de imprensa, as estruturas e processos políticos, as ino­
vações tecnológicas, as reformas educativas, as mudanças sociais e
as peculiaridades culturais, incluindo lingüísticas, provavelmente
contribuíram para a forma como o jornalismo se desenvolveu, como
é visto e como se vê, num determinado enquadramento. Isto pas-
sar-se-ia porque o jornalismo, enquanto corpo "v iv o ", reagiría a
esse fenômeno, que, associado às mudanças sócio-econômicas, for­
maria tradições jornalísticas que afetariam a forma como as notíci­
as são selecionadas, processadas (fabricadas) e difundidas.

85
Dentro deste contexto geral, é provável que diferentes organi­
zações, mesmo que do mesmo tipo, tenham de si imagens diferentes
e sejam também percepcionadas de forma diferente pelos públicos.
A administração, a direção, as chefias e os editores podem crer numa
determinada imagem da sua organização noticiosa, e, por conse-
qiiência, selecionarão e encorajarão os seus jornalistas a selecionar
histórias em função dessa imagem. O desenvolvimento de estilos
editoriais e de abordagem de acontecimentos estaria relacionado com
essa tentativa de orientar a produção de informação de atualidade
para a imagem que os responsáveis da organização têm dela e para
a imagem que julgam que os públicos têm da mesma.
No nível individual, a imagem que um jornalista terá de si
próprio, da organização para a qual trabalha e do jornalismo em
geral será, hipoteticam ente, afetada por fatores que vão desde a
formação a que foi sujeito à dimensão e tipo da organização notici­
osa para a qual trabalha, passando pelas tradições jornalísticas,
procedimentos editoriais (recolha, processamento e difusão de in­
formação), idiossincrasias, crenças, valores e expectativas pesso­
ais. Todavia, aquilo que os jornalistas pensam deles próprios de­
penderá da sociedade em que vivem, da imagem da imprensa, em
geral, e da imagem da organização para qual trabalham. Em suma,
julgo poder dizer que a determinadas imagens-arquétipos são as­
sociadas e combinadas idiossincrasias pessoais, pelo que o papel
de um jornalista, de acordo com Gaunt (1990, p. 22), " [ ...] é o
reflexo de uma cultura jornalística particular configurada ao lon­
go dos anos por um vasto rol de ocorrências."
Repare-se, até, que existem várias escolas jornalísticas e não
uma única, apesar de, na atualidade, face ao que tenho apreciado,
se estar a verificar uma padronização do jornalismo, predominan­
temente em torno da bitola tradicional e dominante do jornalismo
norte-americano, embora temperada pelas tendências analíticas do
jornalism o de hoje e pela contaminação formal provocada pelos
"jornais pós-televisivos" (objetos de design, coloridos, com notícias
breves, frases curtas e simples, infográficos e fotografias abundan­
tes, etc., quase à semelhança da TV) na imprensa em geral.
No Reino Unido, por exemplo, o jornalista será visto como um
cuidadoso relatador de fatos, um imaginativo contador de histórias,
um "cão de guarda" mandatado pelo público face aos poderes, e,
por vezes, como um lutador político por certas causas. Nos EUA, as
coisas seriam semelhantes, exceto que se supõe que o jornalista seja
"independente", pelo que a política lhe estaria vedada enquanto

86
jornalista. Todavia, acontecimentos como os de Granada ou do Gol­
fo colocaram em causa o papel de "cão de guarda" do jornalismo,
em geral, e do jornalismo norte-americano, em particular.
O jornalista francês, por contraste, emerge da história mais
como um comentador e intérprete, um intelectual ou até mesmo
um artista, do que como um reportador de fatos, e espera-se que o
italiano se envolva com paixão no que noticia.
Em Portugal, estamos convictos que a imagem do jornalista e do
jornalismo é dominada pela visão norte-americana de que o jornalista
é um agente de vigia dos poderes (whatchdog journalism), tendo, por­
tanto, uma espécie de "missão cívica" ("heróica") a desempenhar.
Espera-se, porém, de certos jornalistas um envolvimento passional e
mais opinativo que analítico na produção de informação. Miguel Sousa
Tavares é um bom exemplo do que disse, tal como o foi Paulo Portas.
Interessantemente, Gaunt (1990) argumenta que, devido aos
media eletrônicos, esperar-se-ia ainda do jornalista — de todo o jor­
nalista— que entretivesse. O jornalismo americano, anteriormente
perseguidor da fatualidade, poderia, após os anos sessenta, ter-se
tornado mais interpretativo e analítico e o europeu-continental,
anteriormente polemizador e opinativo, poderia ter-se tornado mais
fatual, embora também interpretativo e analítico. Mas, mesmo que
eles estejam a evoluir no sentido da aproximação, " [...] estão tam­
bém a mover-se juntos para o nível do entretenimento" (GAUNT,
1990, p. 32). De fato, hoje as notícias e o entretenimento competem
pela audiência. Por isso, as notícias têm-se, gradualmente, tornado
infotainment. As notícias são vistas cada vez mais como um produ­
to de consumo e menos como um bem social, o que é perigoso. Mas
há exceções. Continuam a existir organizações noticiosas que cul­
tivam o jornalismo de qualidade, profundo, rigoroso, contextual,
independente. O reverso da medalha é que, para o fazerem neces­
sitam da independência econômica e dos meios financeiros que,
na atualidade, só os grandes grupos econômicos lhes podem dar.
Apesar das mudanças que afetaram os diversos países e o jor­
nalism o, Gaunt (1990) afirma que as im agens jornalísticas que
emergiram desde os finais do século passado e inícios deste século
se mantiveram mais ou menos estáveis até hoje. Essas imagens te-
riam sido perpetuadas pela combinação de fatores como a cultura
popular, a socialização, os constrangimentos organizacionais e a
form ação/educação. Este último seria, para ele, o principal ele­
mento influente no processo.

87
A AÇÃO DO MEIO FÍSICO E TECNOLÓGICO SOBRE AS NOTÍCIAS

É quase intuitivo dizer que um jornalista poderá produzir mais


e melhor num local apropriado ao seu trabalho do que num escri­
tório inadequado e desconfortável. Pelo contrário, num ambiente
inadequado ele poderá tender, por exemplo, a mão rever o traba­
lho, devido à pressa de sair desse local. Os meios informáticos per­
mitem-lhe rever e alterar facilmente os textos, coisa que mão acon­
tecia com as antigas e pesadas máquinas de escrever, pelo que é de
colocar por hipótese que com o advento dos meios informáticos
nas redações a qualidade dos textos poderá ter melhorado. Aliás,
com a redação ligada em rede as chefias podem mais fácil e rapi­
damente rever, corrigir e rescrever textos (rewriting).
A informática, aliada às telecomunicações, permite também o
teletrabalho. Mas trabalhando à distância, ausente da sala da re­
dação, por vezes atuando como freelance, até que ponto o jornalis­
ta não se furtará aos mecanismos de socialização, ideologização e
aculturação que até hoje têm moldado o campo jornalístico?
Na verdade, não é apenas a informática que está a mudar o
jornalismo. Pelo contrário, é toda uma convergência dos setores da
inform ática, das telecom unicações e da produção de conteúdos,
em gran d e m edida in cen tivad a p or grandes con g lom erad os
corporativos globais, gigantescos oligopólios transnacionais, que
geram mais riqueza do que o PIB de pequenos países e que, prova­
velmente, têm maior influência e poder do que alguns estados. No
domínio das telecomunicações, os telemóveis permitem um conta­
to m ais pessoal, rápido e confidencial com as fontes de informa­
ção, a qualquer m om ento, em todo o lugar (ou quase). Mas os
telem óveis estão a mudar. Já não servem apenas para telefonar,
pois cruzaram-se com a informática. O ciberespaço é um suporte
cada vez mais usado para a comunicação, até porque é mais fácil
comunicar on-line do que fazer as pessoas deslocarem-se. Já é pos­
sível aceder à Internet do "celular", enviar e-mails, obter informa­
ções em conversas em chat, navegar na WWW, etc. A mobilidade e
capacidade de ação de um jornalista é hoje manifestamente supe­
rior àquela que era há alguns anos. Mas também os "consum ido­
res" têm maior capacidade de se furtar ao "crivo" jornalístico no
que respeita à obtenção de informação. Aliás, frequentemente os
consumidores são, na atualidade, igualmente produtores de infor­
mação para a rede. Talvez seja a era de EMEREC, a era dos pros-
sumidores, que se instala definitivamente, pelo menos para os info-

88
incluídos, pois uma grande margem da população mundial é ain­
da info-excluída. E mesmo para o caso dos info-incluídos, embora
o preço das telecomunicações tenda a descer e surjam provedores
que dão acesso gratuito à Internet, é preciso ter em consideração
que, no atual momento, o preço/hora no jornalismo on-line é caro.
Nem todos podem pagar a fatura telefônica. Em muitos casos, no
que respeita ao consumo de informação jornalística, comprar um
jornal ou uma revista ainda é mais barato do que permanecer vári­
as horas conectado à rede. Mas no futuro esta realidade pode ser
significativamente diferente.
Outro exemplo que poderia dar sobre as transformações que as
tecnologias estão a promover no jornalismo é o do aparecimento e a
generalização da infografia, que contribuiu para o incremento e para
a reformulação das formas de noticiar. Podemos observá-lo aprecian­
do, por exemplo, as snapshots do USA Today, jornal pioneiro no
aproveitamento dessas novas formas de noticiar, ou quaisquer outros
infográficos jornalísticos. Mesmo assim, é preciso dizer que mesmo os
jornais on-line não aproveitam todas as potencialidades da Internet,
particularmente do hipermédia. Pelo contrário, as publicações on-line
ainda conservam muitos dos traços identificativos da produção de
informação noutros meios de comunicação, como os textos longos e
sem hiperligações, as imagens fixas, a não sonorização, etc.
As redes informáticas, sejam elas internas às organizações no­
ticiosas (;intranets) sejam elas externas, como a Internet, e os bancos
de dados colocam agora nas mãos dos jornalistas a possibilidade de
aceder rapidamente a informação complementar para as suas pe­
ças, o que pode contribuir para uma m aior contextualização e
aprofundamento dos temas abordados. Mas a Internet também tem
diminuído a importância da figura do jornalista como gestor privile­
giado dos fluxos de informação no meio social. Por exemplo, quan­
do o relatório sobre o caso Clinton-Lewinsky foi disponibilizado na
Internet, milhões de pessoas acederam-lhe diretamente. Os órgãos
jornalísticos, para essas pessoas, não funcionaram como gatekeepers.
Há, porém, a considerar que a sobrecarga informativa também pode
não ser benéfica e aproveitável para o cidadão, pelo que os jornalis­
tas, no futuro, poderão ter um importante papel a desempenhar
como analistas e seletores de informação. Aliás, a Internet, o cabo e
o satélite talvez estejam menos a expandir a audiência dos meios
jornalísticos do que a misturá-la, segmentá-la e fragmentá-la.
Com a introdução dos com putadores tornou-se também mais
fácil e de difícil detecção m anipular digitalm ente im agens (tal

89
com o se tornou fácil criá-las: lem brem o-nos das im agens v ir­
tu ais) (Cf. SO U SA , 1997).
Na falta de estudos mais elaborados, encontramos pelo me­
nos alguns exemplos intuitivos de como o meio físico e o ambiente
tecnológico podem informar as notícias.

A ção h istó r ic a

Os diferentes tipos de forças (ou ações) que identifiquei e que


informam a notícia num determinado momento (ações pessoal, so­
cial, cultural, ideológica e física/tecnológica) fizeram-se igualmente
sentir ao longo da história. Por seu turno, a evolução histórica refle­
te-se sobre esses mesmos fatores na atualidade. Podemos, assim, di­
zer que as notícias que temos, que os conteúdos e os formatos das
notícias que temos, são frutos da história. Do meu ponto de vista,
vários exemplos fundamentam a minha asserção. Por exemplo, os
avanços nos processos de transmissão e difusão de informação trou­
xeram novas formas de noticiar. O critério de noticiabilidade da "atu­
alidade" terá ganho, na minha opinião, uma dimensão mais rele­
vante a p artir do ap arecim en to do telégrafo. A inda a títu lo
exemplificativo, a urbanização e a organização do território permi­
tiram a concentração de consumidores de informação em núcleos
urbanos, facilitando a distribuição de jornais. Este fator, aliado à
alfabetização, contribuiu para o aparecimento dos primeiros jornais
generalistas (ver, por exemplo: ÁLVAREZ, 1992), porém, e confor­
me salientou Nelson Traquina22, alguns dos padrões básicos de noti­
ciabilidade não evoluíram muito ao longo do tempo. Já nas cartas
para Cícero os seus amigos falavam dos crimes, dos adultérios, dos
casamentos, etc. que se sucediam na Roma antiga e durante a Idade
Média duas das categorias noticiosas continuavam a ser a vida das
personalidades e os assassínios, o que demonstra que, historicamen­
te, é impossível ignorar aquilo que é socioculturalmente proeminente.
Outros fatores históricos marcaram o desenvolvimento do jor­
nalismo. Por exemplo, ao longo dos anos tem-se assistido ao alar­
gam ento do conjunto de temas noticiáveis, devido, entre outras
razões, à evolução dos fram es culturais (ÁLVAREZ, 1992). A influ­
ência das vitaminas na saúde dificilmente seria um tema eleito para
notícia há décadas atrás, mas agora o é. Nos anos sessenta, a cor­
rente que ficou conhecida por "Novo Jornalism o" terá, por seu tur­
no, contribuído para colocar a perspectiva do jornalista, necessari­
amente subjetiva e impressiva, no centro da enunciação noticiosa.

9(1
A evolução recente do jornalismo para a análise (v.g., BARNHURST
e MUTZ, 1997) terá beneficiado desse movimento, tal como terá
beneficiado de fatores como a televisão, onde o jornalista-vedeta
assume uma posição central.
Um registro curioso da evolução histórica do jornalismo pode
delinear-se a partir da tese do primeiro doutor em Comunicação (o
"nosso" primeiro doutor), Tobias Peucer. Peucer debruçou-se, em
1690, sobre a forma de relatar notícias, tendo identificado alguns
fenômenos paleojornalísticos antigos. Por exemplo, antigos gregos,
como Homero, ou antigos romanos, como Júlio César, já usavam
nas suas narrativas formas de estruturação textual (dispositio) se­
melhantes à técnica da pirâmide invertida23. O próprio Peucer, na
sua tese doutorai, intitulada De Relationibus Novell is, propunha que
no relato "noticioso" se respeitassem escrupulosamente as regras
que mandavam indicar o sujeito, objeto, causa, maneira, lugar e
tempo. Estes elementa narrationis acabam por corresponder às seis
questões a que tradicionalmente se dá resposta na notícia: "Q uem ?",
"O Q u ê?", "Q u a n d o ?", "O n d e ?", "C o m o ?" e "P o rq u ê ?" (CA-
SASÚS e LADEVÉZE, 1991). Vemos, assim, que certas técnicas jor­
nalísticas têm raízes históricas profundas, apesar de, por vezes,
haver inovações, como a entrevista de pergunta-resposta, que sur­
giu no século passado. Com freqiiência, contam os histórias de
maneira semelhante à forma como os nossos antepassados as con­
tavam. Mesmo formas alternativas de estruturar o texto noticioso,
como o relato cronológico, a técnica da pirâmide normal ou a in­
trodução de um início e de um final fortes no texto obedecem a
fórmulas retóricas a que os nossos antepassados recorriam, respec­
tivam ente o modus per têmpora, o modus per incrementa e o relato
nestoriano (CASASÚS e LADEVÉZE, 1991).
Jesús Timoteo Álvarez (1992) chama a atenção para vários
fatores que contribuíram para o desenvolvimento do jornalismo.
Segundo ele, a imprensa dominante nos alvores do século XIX terá
sido uma imprensa opinativa ou ideológica (de idéias) devido à
escassez de matéria-prima informativa, à alfabetização reduzida,
à politização da audiência, aos fracos recursos econômicos da ge­
neralidade da população e à proliferação de movimentos político-
ideológicos a partir do século XVIII. Devido a isso, o artigo tornou-
se a forma de discurso jornalístico dominante nessa imprensa. Para
Timoteo Álvarez (1992), a notícia só veio a tornar-se no elemento
central do discurso jornalístico com o advento, nos Estados Uni­
dos, da imprensa popular, por volta dos anos 30 do século XIX,

91
que multiplicou os centros de interesse da enunciação, afastando-
a do centralismo no acontecimento político. Para que surgisse este
tipo de imprensa, várias circunstâncias históricas alteraram-se:
- Aumento do volume de informação e da sua capacidade de
circulação (caminhos de ferro, telégrafo, etc.);
- Alfabetização e urbanização;
- Aumento do poder de compra;
- Aparecimento de empresas jornalísticas direcionadas para o
lucro e não para a doutrinação ideológica;
- Novos valores e formas de vida despertam a atenção para o
desporto, as viagens, etc.
- Progressos técnicos (rotativa, linotipia...), que permitiram o
aumento das tiragens e o decréscimo dos custos de produção.
Conta-nos Timoteo Álvarez (1992) que foi com a Guerra da
Secessão nos Estados Unidos, nos primeiros anos da década de 60
do século XIX, que se começaram a definir funções na imprensa,
assistindo-se à emergência da divisão social do trabalho. Os jorna­
listas, que anteriormente podiam exercer funções de tipógrafo, en­
tre outras, começaram a ver definido o seu território e a terem auto-
consciência da sua identidade como corpo profissional. Assiste-se,
ainda, à difusão de novas técnicas de informação, destinadas a um
público vasto, como a entrevista ou a reportagem. A necessidade
de enviar inform ação por telégrafo, ato significativam ente caro,
terá contribuído, por seu lado, para o modelo da pirâmide inverti­
da se implementar como paradigma narrativo na notícia (o con­
teúdo mais importante da notícia, que prefigura o Icnd, era a infor­
mação transmitida por telégrafo). Seleção e síntese da informação
impuseram-se, assim, e também por força da fraca alfabetização,
como fatores cruciais da narrativa jornalística, que posteriormente
foram transmitidas de geração de jornalistas em geração de jorna­
listas, configurando-se como traços da cultura profissional, parti­
cularmente visível nas agências noticiosas (SOUSA, 1997).
As narrativas jornalísticas destinadas a serem consumidas por
um público vasto e pouco alfabetizado foram relançadas por
Pulitzer, considerado por Timoteo Álvarez (1992) o principal pro-
genitor da segunda geração da imprensa popular, que evoluiu des­
de 1883 até à Primeira Guerra Mundial. Indo além da linguagem
acessível, clara, concisa, direta, simples e precisa, Pulitzer introdu­
ziu no seu jornal (The World) um grafismo inovador e as manche­
tes. Outra das principais inovações de Pulitzer registrou-se no do­
mínio dos conteúdos. Ele deu atenção aos escândalos, ao combate

92
à corrupção e ao compadrio e estimulou a abordagem das históri­
as pelo ângulo do interesse humano e a publicação de ilustrações.
Essa política editorial contribuiu para aumentar a conexão entre
os in te re s s e s dos le ito re s e do jo rn a l, a lic e rç a d a ain d a na
autopromoção constante e na realização de campanhas sensacio­
nalistas e de ações de assistência social. Mas Pulitzer foi também
importante por outros motivos: impulsionou a criação da Escola de
Jornalismo da Universidade de Columbia (Nova Iorque) e, com isso,
terá contribuído não apenas para conferir melhor estatuto social e
maior dignidade profissional aos jornalistas e ao jornalismo como
também para a profissionalização e para a definição dos jornalistas
como corpo profissional autônomo. Dessa longínqua ascendência
das duas gerações da imprensa popular resultaram jornais como,
por exemplo, os portugueses Tal Qual e O Correio da Manhã.
Hearst, com o The Nexo York Journal (1883-1901), levou ao ex­
tremo a receita de Pulitzer, não se coibindo, por vezes, de inventar
fatos (mesmo que fossem desmentidos em duas linhas no dia se­
guinte). Timoteo Álvarez (1992) acusa-o mesmo de ter sido, por essa
via, um dos principais instigadores da Guerra Hispano-Americana.
Mas Hearst terá tido, igualmente, os seus méritos jornalísticos, man­
dando repórteres seus para todo o mundo como enviados especiais
e dando bastante relevo às imagens como veículos de informação
(embora, por vezes, se tratasse de fotografias truncadas).
Embora tenha contribuído para mudanças paradigmáticas no
jornalismo, a imprensa popular não impediu o florescimento da "im ­
prensa de elite" (de informação geral ou especializada em economia e
finanças), que, na versão de Álvarez (1992), herdou as qualidades da
imprensa de negócios do século XIX: rigor, exatidão, sobriedade gráfi­
ca e conteudística, análise e opinião, independência e (pelo menos até
aos anos setenta) culto da objetividade. Entre os sobreviventes con­
tam-se, por exemplo, The Times e The Nexo York Times. Em Portugal,
também se encontram descendentes neste ramo da imprensa. Diário
de Notícias, Expresso ou Público são, na minha opinião, bons exemplos.
A I e a II Guerra Mundial, talvez por força das circunstâncias
excepcionais que o mundo atravessou, tornaram o jornalismo oci­
dental tendencialmente descritivo e generalista, apostando na se­
paração entre "fatos" e "com entários". O "he said journalism ", ou
seja, o jornalismo das declarações/citações, do qual estavam arre-
dadas a análise, o contexto, a interpretação e até a investigação,
fez escola (SLOAN, 1991). Mas, a partir de meados dos anos ses­
senta, o jornalismo evoluiu para um modelo de análise e cspecia-

93
lização (que permite o cultivo das fontes) (v.g., BARN HURST e
MUTZ, 1997; PINTO, 1997), beneficiando da conjuntura histórica,
propícia à experimentação e às rupturas (movimento hippie, Maio
de 68, Guerra do Vietnã, movimentos alternativos, novas formas de
expressão musical...). No jornalismo, assistiu-se, por exemplo, à erup­
ção de movimentos como o do Novo Jornalismo24 (que privilegia a
subjetividade assumida) e à retoma do jornalismo de investigação
em profundidade, que revelou ao mundo escândalos como o do
Watergate. A partir de meados dos anos oitenta, devido às novas
tecnologias, o jornalismo sofreu novas mudanças. Tornam-se cor­
rentes novos gêneros jornalísticos, como os infográficos, e alargou-
se o leque de assuntos noticiáveis. Surgiram jornais como o USA
Today, que inaugurou um gênero de imprensa que procura adaptar
características da televisão (a imprensa "pós-televisiva", na versão
de Margarita Ledo Andión, 1993) e que consagra grande espaço ao
"jornalismo de serviços". Mas a principal mudança talvez se esteja
a desenhar nos meios on-line. A Internet, sobretudo o subsistema da
World Wide Web, roubou ao jornalista parte do seu papel de gestor
privilegiado dos fluxos de informação. A função de gatekeeper do
jornalista reduz-se quando as pessoas se precipitam para o site onde
está disponível o relatório Clinton-LewLnsky em vez de esperarem
pela versão da imprensa. Na minha opinião, talvez o futuro do jor­
nalismo se jogue precisamente na capacidade que o jornalismo reve­
le para se especializar, correspondendo às expectativas e necessida­
des de um público alfabetizado e segmentado, e na capacidade que
os jornalistas revelem para selecionar, interpretar e analisar a infor­
mação em bruto, oferecendo um produto de qualidade, rigoroso e
honesto, distinguível entre as imensas doses de (sobre-informação).
Ter as notícias em primeira mão, se forem corretas e contextuais, é o
objetivo de todo o jornalista digno desse nome. Mas, do meu ponto
de vista, mais vale dar as notícias tarde, mas bem, do que cedo, mas
mal. A rapidez e o tamanho reduzido tendem, na minha modesta
opinião, a ser inimigas da qualidade. "Depressa e bem há pouco
quem ", diz o ditado popular com alguma razão.

U m m ix explica tivo para a n o tic ia bilid a d e

Em consonância com Wolf (1987, p. 173), podemos definir a


noticiabilidade como o " [ ...] conjunto de elementos através dos
quais o órgão informativo controla e gere a quantidade e o tipo de
acontecimentos, de entre os quais há que selecionar as notícias."

94
A quilo que torna uma m ensagem ou um acon tecim en to
noticiável, a noticiabilidade, é uma qualidade que, segundo me
p a re ce , en co n tra e x p licação na co n ju n ção de v ário s fato res
conform ativos principais: a ação pessoal, a ação social, a ação
ideológica e a ação cultural. Dentro destas forças, existirão, se­
gundo os resultados de vários estudos (GALTUNG e RUGE, 1965),
etc.), uma série de critérios que são empregues por jornalistas e
outros potenciais participantes no processo produtivo de infor­
m ação de atualidade para avaliar o que tem valor como notícia.
(TRAQUINA, 1993, p. 41) Parece-me também que esses critérios,
que atribuem a qualidade de noticiável a um acontecim ento ou
uma mensagem (os critérios de valor-notícia ou news values, na
expressão anglo-saxónica internacionalm ente consagrada), são,
essencialm ente, de índole social, ideológica e cultural, embora não
se exclua a ação pessoal (por exemplo, os diretores terão maior
poder de definição do que é notícia).
Talvez devido a essa multiplicidade de forças conformativas,
os critérios de noticiabilidade não são rígidos nem universais. En­
tretanto, são, frequentemente, de natureza esquiva, opaca e, por
vezes, contraditória, e funcionam conjunta e inter-relacionadamen-
te em todo o processo de fabricação/construção das notícias, de­
pendendo da forma de operar da organização noticiosa, da sua
hierarquia interna e da maneira como ela confere ordem ao caos.
Além disso, os critérios de valor-notícia mudam ao longo do tempo
(assuntos que há algum tempo não seriam notícia são-no hoje) e
têm diversas naturezas, apesar de revelarem uma certa homoge­
neidade no seio da cultura profissional jornalística transnacional.
Registe-se, ainda, que a seleção consciente ou não consciente
de notícias com base em critérios de noticiabilidade torna tenden-
cialmente repetitivo o conteúdo dos meios de comunicação social,
exigindo-se, à partida, uma força significativa para rever um siste­
ma que enfatiza determinados critérios, e que, como todo o siste­
ma, tem tendência a autoperpetuar-se. Além disso, é também evi­
dente que, face à existência de determinados critérios, muitos as­
suntos não são tendencialmente noticiáveis, como, geralmente, os
processos sociais de longa duração, uma vez que não se enqua­
dram nos critérios e nas formas organizadas, racionalizadas, roti­
neiras e convencionalizadas de fazer jornalism o na m aioria dos
órgãos de comunicação social. Nem toda a informação com inte­
resse potencial chega, por consequência, ao conhecimento público
através dos meios jornalísticos.

95
Há m uitas listas de atributos que tornam uma m ensagem
noticiável (newsiuorthy attribntes). Galtung e Ruge (1965) foram os
primeiros autores a chamarem a atenção para a existência de cri­
térios de noticiabilidade dos acontecimentos que se sobrepunham
à ação pessoal do gatekeeper, embora sem a eliminar, e que determi­
nariam as possibilidades de uma mensagem passar pelos vários
gates num a organização noticiosa. Entre esses apontados pelos
autores contavam-se, por exemplo, o momento do acontecimento,
a intensidade ou magnitude do mesmo, a inexistência de dúvidas
sobre o seu significado, a proeminência social dos sujeitos envolvi­
dos (repare-se até que um jornalista poderá diferenciar em trata­
mento o Presidente da República das pessoas comuns), a proemi­
nência de nações envolvidas nas notícias, a surpresa, a com posi­
ção (tematicamente equilibrada) do noticiário, a proximidade, os
valores socioculturais, a continuidade, ou seja, ser o desenvolvi­
mento de algo já noticiado, etc.
Os critérios de noticiabilidade geralmente incluem, sob a forma
de uma lista, fatores como a oportunidade, a proximidade, a impor­
tância, o impacto ou a consequência, o interesse, o conflito ou a con­
trovérsia, a negatividade, a freqüência, a dramatização, a crise, o
desvio, o sensacionalismo, a proeminência das pessoas envolvidas, a
novidade, a excentricidade e a singularidade (no sentido de pouco
usual) (SH OEM AKER, 1991). Mas existem outras perspectivas.
Garbarino (1982), por exemplo, enfatiza, parece-me que bastante
pertinentemente, o papel das constrições ligadas à organização do
trabalho (por exemplo, a rede geográfica de correspondentes e dele­
gações e a divisão temática nas redações refletem critérios de rele­
vância e valoração geográfica e temática das notícias) e das conven­
ções p ro fissio n ais criadas nesse sistem a enqu anto elem en tos
contributivos para a definição do que é notícia, isto é, enquanto ele­
mentos da noticiabilidade. Esses elementos ajudariam a legitimar o
processo produtivo, desde a seleção das fontes à seleção dos aconte­
cimentos e aos modos de fabrico, contribuindo para precaver os jor­
nalistas e as organizações noticiosas das críticas do público.
Wolf (1987), muito oportunamente, classifica os critérios de
valor-notícia em critérios relativos ao conteúdo (importância e in­
teresse das notícias), critérios relativos ao produto (que têm a ver
com a disponibilidade das informações e com as características do
produto informativo), critérios relativos ao médium, critérios relati­
vos ao público e critérios relativos à concorrência.
Teun A. van Dijk (1990) também nos oferece pistas para a
sistematização dos valores-notícia. Para este autor, existem valores
jornalísticos formulados em termos econômicos (lucro, vendas, etc.),
embora ele considere que as limitações provenientes das condições
econômicas devem ser entendidas, antes de mais, como fatores ma­
teriais, ainda que sejam importantes na formação ou conformação
dos valores-notícia.
Uma segunda categoria de valores jornalísticos estaria relaci­
onada com as rotinas e a produção de notícias numa organização,
no seio de uma atmosfera competitiva. Por exemplo, a aspiração
que os jornalistas denotam de obter a notícia mais rápida e fidedig­
nam ente que os seus companheiros enquadra-se nesta categoria
(VAN DIJK, 1990, p. 174-175). Porém, segundo o autor, a organi­
zação da produção jornalística privilegiaria acontecim entos pro-
duzidos/definidos por figuras públicas e sectores preponderantes
da vida social e política, reproduzindo uma estrutura social favo­
rável a essas elites (VAN DIJK, 1990), uma realidade bastante refe­
renciada nos cultural studies.
Além das imagens dominantes da sociedade na forma como
são compartilhadas pelos jornalistas, Van Dijk (1990) põe o acento
tônico em limitações cognitivas mais específicas. Em conjunto, es­
sas imagens e limitações definiríam os critérios de valor-notícia dos
jornalistas: 1) novidade; 2) atualidade; 3) pressuposição (a avalia­
ção da novidade e atualidade pressupõe conhecimentos prévios;
além disso, segundo o autor, os acontecimentos e os discursos só
seriam entendíveis mediante o recurso da informação passada); 4)
consonância com normas, valores e atitudes com partilhadas; 5)
relevância (para o destinatário da inform ação); 6) proxim idade
(geográfica, social, psico-afetiva); e 7) desviõ e negatividade (psi-
canaliticam ente, a atenção ao crim e, aos acidentes, à violência,
etc., funcionaria como um sistema emocional de autodefesa: ao
contem plarem -se expressões dos nossos próprios temores, o fato
de serem outros a sofrer com as situações proporcionar-nos-ia
tanto alívio como tensão).
Num estudo de 1980 de Nisbett e Ross encontramos o cará­
ter vivo (vivid) de uma história como um dos fatores que mais
pode influenciar a sua passagem pelos pontos de filtragem de
inform ação, uma vez que conferiría força à história. Embora, na
minha opinião, tal possa remeter-se para o tantas vezes referen­
ciado interesse hum ano", a informação vivid, segundo os auto­
res, pode descrever-se como "Inform ação [...] que tanto procura

n rr
atrair e reter a nossa atenção e excitar a imaginação como é (a)
em ocionalm ente interessante, (b) concreta e suscitadora de im a­
gens e (c) próxima num sentido temporal, espacial ou afetivo [...]"
(NISBETT e ROSS, 1980, p. 45).
Fraser Bond (1962) disse que "O que o público quer carrega o
significado econômico de ser aquilo que ele compra. [...] Ao repór­
ter inteligente não escapam nunca as tendências do m ercado."
Assim, segundo esse professor norte-americano, para o êxito co­
mercial importaria privilegiar histórias relacionadas com os inte­
resses próprios da audiência e também as que envolvessem dinhei­
ro, sexo, crime, culto do herói e da fama, conflitos (guerras, greves,
homem contra a natureza, pessoa contra a sociedade, conflitos entre
grupos políticos e econômicos, etc.), descobertas e invenções.
À luz da teoria dos usos e gratificações, poderiamos dizer que o
ser humano tende a interessar-se pela informação jornalística que
lhe proporciona algum proveito. Por isso, a relação evento-notícia
será, necessariamente, baseada, pelo menos em parte, numa lógica
comercial: A valorização ou desvalorização dos acontecimentos re­
sultaria, portanto, parcialmente, da submissão da ocorrência à lógi­
ca discursivo-comercial dos nezvs media. E as notícias necessitam de
seduzir para, num ambiente concorrencial, funcionarem como uma
mais-valia para um determinado órgão de comimicação social.
Nelson Traquina (1988) fala da atualidade como um fator de
noticiabilidade: o tempo pode ser usado como "cabide" para ou­
tras notícias. Por exemplo, a notícia de um aniversário de um par­
tido pode servir de pretexto para a difusão de outros enunciados
jornalísticos sobre esse partido. A atualidade, em sentido estrito, é
já um elemento que decorre do fato de uma notícia ser notícia.
Golding (1981) sugeriu que os nezvs values são baseados em
três grupos de critérios: 1) a audiência; 2) a acessibilidade, no que
diz respeito à "facilidade de captura" do acontecimento e à capa­
cidade que a organização noticiosa possa ter de o abarcar na sua
extensão; e 3) a adaptação, uma vez que o nezvs item, além de ne­
cessitar de fazer sentido em termos do que já é conhecido acerca
do assunto, tería de ser consonante com fatores como a pragmáti­
ca das rotinas produtivas, as capacidades técnicas e organizacio­
nais e os constrangimentos organizacionais.
Na mesma linha, Altheide (1976) insiste na perspectiva práti­
ca dos acontecimentos, isto é, mais ou menos, na factibilidade des­
tes, enquanto critério de valoração do que é susceptível de se tor­
nar notícia. Não deixa, porém, de relevar que essa forma de abor­

Qft
dar o m undo, lim itad a no tem po e nos recu rsos, ten d ería a
d e s c o n te x tu a liz a r o a co n tecim e n to do seu co n tex to para o
recontextualizar no seio do noticiário. Mauro Wolf (1987), aten­
tando no caráter tendencialm ente descontextualizante da infor­
mação jornalística, sustenta até que a noticiabilidade constitui um
elemento de distorção involuntária (unwitting bias) na cobertura
inform ativa operada pelos meios jornalísticos. Mais: a distorção
involuntária estaria tão intimamente ligada às rotinas produtivas
e valores profissionais que se reproduzida em cadeia em todas as
fases do trabalho (WOLF, 1987).
A notícia resultaria, portanto, de um processo organizado e
constrangido de fabrico que nela deixaria as suas marcas, até por­
que só seria notícia o que fosse perspectivado como tal no seio da
cultura profissional dos jornalistas e da cultura própria do meio so­
cial envolvente, exceto em casos excepcionais, só seria notícia o que
pudesse ser processado pela organização noticiosa sem grandes so­
bressaltos ou complicações no ciclo produtivo (ALTHEIDE, 1976).
Em síntese, julgo poder dizer, retomando a proposição inicial,
que a noticiabilidade, a seleção e a hierarquização informativa de
acontecimentos e dados sobre esses acontecimentos passam então,
como vimos, por critérios que, em jeito de conclusão, parecem par­
tilhar (a) influências pessoais (como as idiossincrasias de um jor­
nalista), (b) um pendor social, sobretudo organizacional, por exem­
plo, relacionado com a postura social da organização noticiosa
(como a inter-relação desta com os restantes nezvs media), (c) um
pendor ideológico, visível, por exemplo, no destaque noticioso dado
às figuras-públicas do poder político e econômico e (d) um pendor
cultural, resultante das culturas profissionais, de empresa e do meio.
Por exemplo, em agências como a Lusa, em parte dependentes do
Estado, o caráter institucional da informação é algo que transpare­
ce, à luz desses fatores, como dando valor-acrescentado à infor­
mação e, portanto, é um critério de valor-notícia (Cf. SOUSA, 1997).
Ainda poderiamos falar de critérios associáveis a uma ação do
meio físico e tecnológico. Por exemplo, o que é difícil fotografar ten­
derá, em princípio, a ser desprivilegiado na cobertura fotojornalísti-
ca dos acontecimentos, uma vez que sobressaltaria e complicaria os
processos de fabrico de foto-informação. Em acréscimo, há coisas
que são impossíveis de fotografar, até porque não são visualizáveis,
e há conceitos que só podem ser sugeridos (amor, inflação, etc.).