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PERFORMA’15:

International Conference
on Music Performance

Proceedings

Universidade de Aveiro
June 11th > June 13th, 2015

Associação Portuguesa
de Flautas
PERFORMA’15: Proceedings of the International Conference on Musical Performance
Actas do PERFORMA 2015: Encontro Internacional de Investigação em Performance Musical

Título/Title
PERFORMA’15: Proceedings of the International Conference on Music Performance

Editores /Editors
Alfonso Benetti, Jorge Salgado Correia, Maria do Rosário Pestana, Sara Carvalho

Oradores Principais/Keynotes
Marcel Cobussen – Leiden University in the Netherlands / Orpheus Institute in Gent,
Belgium
John Croft – Brunel University, London

Entidades Organizadoras/ Organized by


Departamento de Comunicação e Arte
Instituto de Etnomusicologia Centro de Estudos em Música e Dança (INET-md)
Universidade de Aveiro
Associação Brasileira de Performance Musical (ABRAPEM)
Associação Portuguesa de Flautas (APF)

Comissão Organizadora / Organising Committee


Jorge Salgado Correia, Sara Carvalho, Maria do Rosário Pestana, Catarina Domenici

Comissão Científica / Scientific Commission


Catarina Domenici, Cristina Gerling, Daniela Coimbra, Diana Santiago, Francisco
Monteiro, Helena Marinho, Helena Santana, Isabel Nogueira, João Pedro Oliveira,
Jorge Castro Ribeiro, Luca Chiantore, Manuel Deniz Silva, Maria do Rosário Pestana,
Maria Elizabeth Lucas, Paulo Vaz de Carvalho, Rui Penha, Sara Carvalho, Sílvia
Martinez, Susana Sardo, Suzel Reily

Comissão Executiva / Executive Commission


Aoife Hiney, Susana Caixinha, Alfonso Benetti, Amandi Bandeira, Gilvano Dalagna,
Klénio Barros, Josélia Ramalho, Luís Bittencourt, Marcos Araújo, Pedro Cravinho,
Ricardo Lobo Kubala, Rui Marques

Imagem / Design
Álvaro Sousa

Editora / Publisher
UA Editora
Universidade de Aveiro
Serviços de Biblioteca, Informação Documental e Museologia

1ª Edição / 1st Edition


Outubro / October 2017

ISBN
978-972-789-510-6

2
PERFORMA’15: Proceedings of the International Conference on Musical Performance
Actas do PERFORMA 2015: Encontro Internacional de Investigação em Performance Musical

Revisitando o WC+1 – Espectáculo músico-performático-sanitário-


escatológico

Eduardo Paes Barretto67


Departamento de Comunicação e Arte, Universidade de Aveiro, Portugal

Fernanda Zanon Torchia


Departamento de Comunicação e Arte, Universidade de Aveiro, Portugal

João Vilnei de Oliveira Filho


Instituto de Investigação em Arte, Design e Sociedade - i2ADS/FBAUP; Laboratório de Investigação em Corpo,
Comunicação e Arte - LICCA/UFC

Resumo: WC + 1 was a spectacle performed on 7 and 8 December 2014, as an expansion of the "I
Seminário de Criação Compartilhada" in Aveiro, guided by Luca Belcastro, which aimed to promote the
development of projects for the creation of works with an emphasis on collaborative work between the
performance and the composition.
In this article, we present the construction of this particular WC in a personal tone, as a reflection of each
author's relationship with the development of the show, and we discuss views on the process of collective
and multidisciplinary creation.
Palavras-chave: Colaborative creation, House, Musical spectacle, Germina.Cciones, WC
!
Este artigo é, pelo menos, três artigos.
Introdução e conclusão foram escritas "a seis mãos", como era de se esperar em um texto
com mais de um autor.
O miolo traz três diferentes olhares sobre o WC+1. Eduardo começa, escrevendo sobre
seu envolvimento nas primeiras reuniões do Germina.Cciones e sua visão dos trabalhos
desenvolvidos. Na sequência, Fernanda traz um olhar duplo, de espectadora e de quem
acompanhou o processo de criação do espetáculo através da convivência direta com o
grupo que nele participou. João finaliza, relacionando a montagem do espetáculo à
pesquisa que atualmente desenvolve.
As três partes do artigo foram escritas sem que seus autores soubessem o que estava a
ser descrito pelo companheiro. Essa opção permite que surjam visões diferentes sobre
experiências partilhadas e dá margem à construção de um texto com mais vozes, que se
aproxima à experiência coletiva de montagem do espetáculo.
É somente antes de se escrever a conclusão que os autores partilharão entre si os textos
produzidos. Da reflexão sobre essa leitura e do recorte-e-cola desse novo texto 3-em-1
será escrita a última parte do texto.
Quem sabe assim, no final, este artigo seja muito mais que três.

Eduardo
Meu envolvimento com o WC+1 começou em meados do mês de julho de 2014, em virtude
do "Seminário de Criação Compartilhada", ministrado por Luca Belcastro, idealizador da
"Plataforma Cultural Internacional Germina.Cciones"68, em sua segunda vinda à Aveiro. A
proposta do projeto era desvincular a distinção entre o compositor e instrumentista e que
repercutem nas palavras de Murray Schafer:

67
Email: dudubarretto@gmail.com
68
Mais informações em www.germinaciones.org.

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Hoje há uma tendência para a fusão destas coisas. Obviamente eu sou o autor e
compositor de muito material que está neste trabalho. Mas não sou o compositor de tudo.
E talvez você não consiga dizer o que foi meu e o que foi de outra pessoa. E espero que
este seja o caso no final. Nós não saberemos. (1994, 113)

Assim, este processo criativo estaria apoiado na interação dialógica gerada entre os
indivíduos envolvidos neste coletivo, e seria construída a partir do entendimento
intersubjetivo e na relação consensual entre seus componentes.
Senti-me bastante motivado por estas qualidades, uma vez que elas iam ao encontro de
anseios concernentes à minha atividade artística. Estava à procura de formas alternativas
para dar vazão à criatividade, e acreditava que um espaço capaz de propiciar uma
orientação horizontal e não-hierárquica entre as pessoas seria um terreno fértil para
fomentar a troca, o debate e a inventividade. Somado a isso, a própria socialização em si já
despontava como mais-valia, já que o ambiente durante o trabalho como intérprete solista
é amiúde marcado por um individualismo-solitário69. E ainda, trabalhando durante anos
como guitarrista solista, era-me importante buscar meios de me identificar mais como
artista, em sentido mais abrangente que meramente limitar-me a ser um instrumentista
especializado.
Avalio que esta proposta transdisciplinar cumpriu um papel de grande aprendizado com
outras artes (cênicas, performance, e música; e mesmo dentro dessa, entre compositores e
intérpretes), sendo essa pluralidade bastante enriquecedora para ampliar meus horizontes
de atuação. Inclusive, o exercício de romper com o foco habitual, centrado exclusivo e
excessivamente no alto rendimento técnico da performance musical, contribuiu ainda de
forma colateral na diminuição dos níveis de ansiedade.
É evidente que nem tudo foi “mil maravilhas”. Também fez parte deste aprendizado
momentos menos agradáveis, exaustivos e desgastantes. Os encontros e posteriores
ensaios aconteciam com periodicidade semanal, durante o horário pós-laboral. Dado que
era um grupo grande e heterogêneo, a presença periódica, a pontualidade de horário e os
diferentes comprometimentos (ou a falta deles), decorrente das prioridades e interesses de
cada um em abraçar a causa comum, deu margem para que houvesse, por vezes,
desentendimentos e discussões.
Ainda na fase de adaptação à proposta de trabalho, meu intuito era o de, pelo menos a
princípio, conhecer e contribuir com o que estivesse ao meu alcance em propostas já
existentes. A temática da casa de banho já havia sido estabelecida pelos membros
participantes desde o primeiro encontro com o Luca, realizado alguns meses antes. Foi
curioso notar que, por mais natural e cotidiano que fossem, o fato de trazer a tona
assuntos como necessidades escatológicas, dejetos e outros tópicos considerados
constrangedores, gerou uma espécie de tabu em parcela da audiência que se sentiu
desconfortável perante a situação de estar, de certa forma, expondo suas intimidades.
Muito em virtude dos assuntos levantados nas primeiras reuniões, resolvi comentar (em

69
A despeito do aparente pleonasmo, considero aqui o “individualismo” (enquanto substantivo)
como uma descrição objetiva de uma situação, ao passo que “solitário” (enquanto adjetivo)
manifesta a repercussão emocional subjetiva acarretada por aquele estado. Por exemplo, uma
corrida pode ser interpretada de diversas maneiras: devido à uma impossibilidade de conter alegria;
à pressa de cumprir um horário; como forma de extravasar energia...

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tom de convite) com João, uma vez que ele estava no processo de preparação do projeto
no âmbito de sua investigação de doutoramento, “a construção da Casa Impossível”.
Passada a interrupção das férias de verão, e após o primeiro ou segundo encontro desde
sua adesão, surpreendi-me ao saber que me havia escalado como responsável pela
“produção” do projeto de performance/instalação “a casa de banho da Casa Impossível”.
Conforme descrito pelo próprio João:

Durante o período de ensaios para o primeiro PRISMAS [Festival Permanente de Criação] estarei
vivendo nessa casa e pretendo viver os ensaios gerais como a casa de banho da “Casa
Impossível”: tomar um duche, lavar os dentes, usar fio dental, urinar, pentear-me, secar o
cabelo… enfim, introduzir nos ensaios gerais a experiência de utilização de uma casa de banho
real. Em Novembro [até então a data prevista para a apresentação do espetáculo] será
apresentado o registo dessas ações, de alguma maneira que eu pra já desconheço.

De fato, os resultados aos quais chegaríamos ainda eram totalmente desconhecidos…


Jamais poderia vislumbrar que ficaria nas inusitadas situações de cantarolar, seminu no
duche (Imagem 1), músicas do cancioneiro infantil; de me enrolar, feito múmia, com papel
higiênico (imagem 2); ou ainda de entrar a caráter formal para tocar uma peça e –
intencionalmente – ser acometido por um surto contagiante de comichões…

Imagem 1. Eduardo ao duche. Imagem 2. Enrolados, a volta da sanita.

Além da temática, a estrutura das diversas cenas do espetáculo também foram relevantes
para conferir unidade ao WC+1, evitando que ele aparentasse a uma coletânea seccionada
de cenas avulsas. Nessa perspetiva, o espetáculo pode ser divido em duas partes
reversíveis, como um palíndromo. Este nível subdivide-se, por sua vez, em outros dois
pares (AB-BA): a primeira cena categorizada em “A” foi "Fräulein im Spiegel" (a’), enquanto
a última foi "Espelhos" (a”). Ambas estavam baseadas em poemas, – de Arthur Schnitzler e
Clarice Lispector, respetivamente – exploravam reflexos e foram protagonizadas pela
mesma atriz. As duas cenas identificadas como “B”, "Portal dos Sonhos" (b’) e "A Corda e
o Espaço Inconectável" (b”), abordam o dilema entre “despertar para a realidade”, ainda
que efêmera e inexorável, ou permanecer com um contentamento ilusório. Neles, a casa de
banho é encarada como lugar de privacidade e refúgio para se refletir sobre a vida. Daí
resulta um novo desmembramento: a’-b’-b”-a”. Costurando estas cenas de atmosfera mais
densa, as miniaturas apresentadas pelo João e por mim (x) conferiam coesão e, ao mesmo

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tempo, contraste. "Gêmeos" (X) é a cena central, espécie de eixo de simetria, e a única
muda do espetáculo. Ela mesma, conforme o próprio nome já sugere, é formada por um
dístico de identidade semelhante.
O desdobramento final, portanto, fica da seguinte maneira: a’-x-b’-X-b”-x-a”.

Fernanda
Acompanhei o processo de criação do WC+1 de fora, ouvindo o que o Dudu e o João
contavam quando chegavam em casa depois dos ensaios. A impressão que tive é que nem
eles sabiam ao certo como seria o espetáculo. Confesso que fiquei surpreendida, pois não
esperava que o resultado final fosse ficar tão interessante e envolvente.
Participei do primeiro encontro com o Luca Belcastro, mas não quis continuar no projeto
por já ter uma experiência de trabalho em grupo. Naquele momento, não estava disposta a
usar o meu tempo para participar de projetos e já previ que alguns atrasos e problemas
poderiam acontecer.
Um dos aspetos interessantes na conceção do WC+1 foi a criação coletiva. Até onde
percebi, não havia somente músicos atuando. Havia atores e performers. Com isso, o
espetáculo não era um concerto, nem show, nem peça teatral e nem uma performance. Era
tudo isso e nada disso: era algo único, com personalidade.
Nunca havia assistido uma apresentação cujo tema fosse a casa de banho. A começar por
isso, o WC+1 já se fez diferente, ao abordar um tema ao qual não nos costumamos ater, ou
sobre o qual não queremos conversar. O WC+1 abordou temas como nossa imagem
refletida no espelho, nossos afazeres na casa de banho que vão além de nos aliviarmos,
nossas intimidades com o local, onde cantamos sem timidez e tiramos a roupa sem pudor.
Ao longo do espetáculo, sensações contrastantes surgiam. Sensação de nojo ao ver o
João beber a própria urina, sensação de vergonha por ver o Dudu tirar a toalha, sensação
de apreensão por não saber se o Gerson tiraria as calças e mostraria sua parte íntima (que
naquele momento deixaria de ser íntima e seria pública). As cenas não tinham conexão, a
meu ver, mas permearam o fio condutor que era a casa de banho e seus múltiplos
significados.
E dessa forma o espetáculo acabava mas continuava em minha mente. Após assistir ao
WC+1, comecei a refletir sobre essas sensações que me incomodaram. Por que temos
nojo de algo que é nosso? Por que a urina e as fezes são “seres estranhos e nojentos” se
elas vêm de nós mesmos? Por que sentimos vergonha pelo corpo nu? Passaram-se alguns
meses e eu ainda não sei responder essas questões. Deve ser porque ainda não estou
preparada para falar sobre isso.

João
Um dia, Eduardo convidou-me para um encontro do "Germina.Cciones Portugal". A ideia
era dar continuidade aos trabalhos realizados anteriormente, a partir da montagem de um
espetáculo que os integrasse e que fosse construído por várias mãos.
Aquilo que me seduziu a participar do projeto foi seu tema, devido principalmente à
aproximação que poderia construir com minha pesquisa de doutoramento: a casa de
banho.
No âmbito da minha pesquisa, procuro conjugar o trabalho teórico ao prático no
desenvolver de ações que discutam possíveis relações entre o trabalho artístico na cidade

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e a idiorritmia70, conceito retomado por Barthes (2003). É na articulação entre leituras sobre
jogo, cidade e performance, a reflexão sobre artistas com preocupações similares e os
trabalhos que realizei, que costuro "a construção da Casa Impossível". Com ela, proponho
o exercício de pensar e construir uma casa como se pensa e constrói uma cidade,
transformando ruas em corredores, bancos de praça em salas de jantar ou o vizinho em
room-mate. No fim, descobrir formas de viver e trabalhar a cidade como se de uma grande
casa se tratasse (Monteys and Fuertes 2011:12), a partir de uma relação de intimidade dos
diferentes espaços de ambas, com base em uma "troca de memórias e de sentidos"
(Canton 2009, 35), matéria tão rica em interesse e potencialidades.
Participar do projeto parecia-me uma boa oportunidade de incluir aquela casa de banho à
Casa que estava a construir. Foi assim que comecei a participar dos encontros de
preparação do espetáculo.
No mesmo dia em que iniciei os "33 vídeos para a Casa Impossível"71, projeto que
registava com um vídeo diário o período que usei espaços de Aveiro como espaços de
casa, passei a escrever pequenas atas dos encontros que realizávamos no
Germina.Cciones. É a partir dessa documentação que irei construir este texto.
No mesmo dia em que ganhou nome, WC+1, o espetáculo dividiu-se em dois. Em 09/09,
decidiu-se que a primeira parte incluiria os trabalhos inseridos na temática da casa de
banho. A segunda seria uma apresentação musical de parte do grupo que não se sentira
atraído pelo tema. Esse "+1", tal qual era pensado na altura, não foi realizado, apesar do
nome ter sido mantido. A possibilidade e a abertura para a mudança parece-me uma
característica marcante em projetos dessa natureza e que pode ser encontrada, como
escreve Guerrero, na ideia de projeto de casa: "a passagem ao objecto, à casa, traz
consigo uma ou outra surpresa imprevisível, não projectada ou não contemplada" (2011,
12). Sem a possibilidade de ser realizado, e com algum "jogo de cintura", "+1"
transformou-se num momento de celebração, no qual partilhámos minis com o público à
entrada do GrETUA72 após o espetáculo.
Em 20/10, o WC+1 ganhou novas datas, 7 e 8 de dezembro. Também nesse dia soubemos
que Gerson, um dos participantes do grupo, já criara uma iguana chamada "Jones, Iguana
Jones"73.
Em 10/11, menos de um mês antes da estreia, eu e Eduardo apresentámos ao grupo a
nossa ideia, uma cena dividida em quatro sketches, que serviriam para, ao mesmo tempo,
separar e unir os demais trabalhos74. O primeiro sketch é uma espécie de história da
limpeza, escrita a partir da relação de diferentes povos com a água e a higiene (Bryson
2011). No segundo, Eduardo toma um duche e canta em um dos lados do palco, enquanto
troco repetidamente de roupa75. No terceiro, sentados à sanita e sem falar, primeiro
Eduardo bebe uma grande quantidade de água de uma garrafa para, em seguida, ser
substituído por mim que volto a encher a garrafa com urina e beber no mesmo sítio em que
70
"Sem ligação direta com a vida conventual, a idiorritmia designa igualmente, no curso de Barthes,
todos os empreendimentos que conciliam ou tentam conciliar a vida coletiva e a vida individual, a
independência do sujeito e a sociabilidade do grupo." (Barthes 2003, XXXIII)
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ele bebeu. Na última, enrolados em papel higiénico, recitamos trechos do capítulo


"banheiros", de "A Casa Subjetiva", quando a autora chega a conclusão de que pouco
importam os modernos aparelhos presentes nas atuais casas de banho; no final, "caga-se"
(Brandão 2002, 116). E pronto.
A reunião seguinte, no dia 17, foi a última com registo em ata e marca o primeiro ensaio
geral.
Com bilhetes a 3 euros, o dinheiro levantado pelo espetáculo foi suficiente para pagar
gastos com a compra de equipamentos e as minis do "+1", além de financiar parte de um
jantar comemorativo no japonês.

Conclusão
Sentamos os três juntos em 19/05/2015. Depois de revisada, a introdução foi mantida tal
qual estava antes de partilharmos os textos.
Cada um leu o texto do outro e escreveu comentários. Depois, Eduardo foi o primeiro a
rever o seu texto, em voz alta. Seguido por Fernanda, Eduardo novamente e, por fim, João.
João uniformizou os termos comuns aos três.
Durante a leitura, comemos pão de queijo com Compal laranja. E decidimos que este fim
seria uma conversa. Eduardo é o negrito, Fernanda o itálico e João o sublinhado.
Um dos pontos interessantes que pude observar como espetadora foi, ao fim do
espetáculo, ouvir os comentários do público relacionados ao João ter bebido ou não urina.
Será que o público não quis acreditar…?
Acho que as pessoas não estavam preparadas para aquilo, o que é bom. Para mim, uma
das ideias da arte é tirar as pessoas do lugar dela, fazerem-nas refletir, e o WC+1
proporcionou isso.
Não me importa muito se as pessoas tiveram consciência do que aquilo foi. Foi urina
porque fez sentido na construção da cena e não para assustar. Tanto é que o momento em
que volto a encher o recipiente com urina é feito de costas para o palco.
Hum… E o que mais, Eduardo?
Os apontamentos que fiz aqui já apareceram… Não me parece que seja preciso
comentar muito mais…
Vocês acham mesmo que foi uma criação coletiva? Porque a impressão que eu tenho às
vezes é que foi mais coletivo entre vocês dois…
Vocês querem mesmo falar disso?
Eu posso falar. Eu acho que houve diferentes graus de envolvimento… Em alguns
trabalhos houve sim um diálogo mais próximo e recorrente. Quando havia as
reuniões, toda a gente comentava e isso claramente interferia nos caminhos que o
projeto tomava…
Mas 'tás a falar da tua experiência, não é? Achas que isso aconteceu no espetáculo como
um todo?
Acho que sim. Em muitos trabalhos isso foi visível, essa troca e alimentação.
Então foi coletivo em diferentes níveis. Não é?
Acho que sim.
Sim.
Bom, e o resultado final foi melhor do que eu esperava. Pelo menos até uma semana
antes do espetáculo…
Hehe…

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Bibliografia
Barthes, Roland. 2003. Como Viver Junto : Simulações romanescas de alguns espaços cotidianos :
cursos e seminários no Collège de France, 1976-1977. Edited by Claude Coste. 1a edição. São
Paulo: Martins Fontes.
Brandão, Ludmila de Lima. 2002. A casa subjetiva : matérias, afectos e espaços domésticos. São
Paulo: Editora Perspectiva.
Bryson, Bill. 2011. Em uma casa – Uma breve história da vida doméstica. São Paulo: Companhia
das Letras.
Canton, Katia. 2009. Espaço e Lugar. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes.
Guerrero, Julián Santos. 2011. “A casa como problema.” In Pensar a casa. conferências da casa, 1,
9–26. S. M. Feira: Associação Casa da Arquitectura.
Monteys, Xavier and Fuertes, Pere. 2011. Casa collage - un ensayo sobre la arquitectura de la casa.
Barcelona: Editorial Gustavo Gili.
Schafer, Murray. 1994. "Encontro com R. Murray Schafer". In Cadernos de estudo: educação
musical, nº 4/5, Novembro, p. 107-116. Belo Horizonte: Escola de Música da UFMG.
!
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