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JORNALISMO:

QUESTÕES, TEORIAS E «ESTÓRIAS»

Org. de Nelson Traquina

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4 JORNALISMO: QUESTÕES. TEORIAS E «ESTÓRIAS»
Org. de Nelson Traquina
Colecçâo: Comunicação & Linguagens
Coordenador da colecção: José A. Bragança de Miranda
Tradução: Luís Manuel Dionísio
© Vega, 1993 (1.* edição)

Direitos reservados cm língua portuguesa


por Vega, Limitada
Alto dos Moinhos, 6-A
1500 Lisboa — Telef. 778 94 14

Sem autorização expressa do editor, não ê permitida a


reprodução parcial ou total desta obra desde que tal
reprodução não decorra das finalidades especificas da
divulgação e da critica.

Editor: Assírio Bacelar


Capa: Luís EME
Fotocomposição, Fotolitos e Montagem:
Corsino & Neto - Gabinete de Fotocomposição, Lda.
ISBN-972-699-405-5
Depósito Legal: 722 98/93
Impressão e Acabamento: fhír ^ f i ca — Telefs. 9377623 / 93889IX
Aos meus alunos
que aceitam
o desafio de
ser jornalistas

Aos meus alunos


que descobrem
a paixão do
estudo do
jornalismo
NOTA DE APRESENTAÇÃO

A elaboração desta antologia é da minha inteira responsabilidade, mas contou com


apoios e incentivos que eu não posso, nem quero, deixar de reconhecer.
Em primeiro lugar, quero agradecer, de umaforma muito viva, todo o apoio indispensável,
através das suas sugestões, correcções e leituras criticas, do meu colega João Pissarra
Esteves. Queria agradecer ao meu colega José A ugusto Bragança de Miranda, director desta
colecção, as suas palavras de encorajamento e constante solidariedade ao longo da feitura
desta obra. Também uma palavra de agradecimento aos meus colegas do Departamento de
Comunicação Social da Universidade Nova de Lisboa, e, em particular, ao Mário Mesquita,
Graça Franco e José Rodrigues dos Santos, com os quais tenho tido o prazer de trabalhar de
form a mais estreita na formação de uma nova geração de jornalistas.
É a esses alunos que dedico este livro, na certeza que tenho que o maior estimulo de um
professor universitário neste pais é precisamente o convívio com estes jovens simpáticos,
inteligentes e sensíveis aos ideais generosos; na certeza ainda de que a melhor preparação
para a profissão de jornalismo passa por uma formação que privilegia as ciências sociais e
humanas e não uma aprendizagem técnica.
Dedico também esta obra aos alunos do primeiro seminário «Teoria da Noticia» do
Mestrado em Comunicação Social, oferecido pelo nosso departamento, na esperança de que
o desafio do estudo sobre o jornalismo encontre novos adeptos. Desde já queria exprimir os
meus agradecimentos pelas nossas discussões, que não só constituiram outro estimulo para
a realização deste trabalho mas também uma excelente oportunidade para uma troca de idéias
e para reflexões extremamente fecundas.
Introdução geral
de Nelson Traquina

Vale a pena resumir sucintamente a importância do jornalismo, ou, se preferirem, dos


m edia noticiosos, e das noticias, em qualquer sociedade, incluindo as democráticas.
Por um lado, determinam quais são os acontecimentos (assuntos e problemáticas) com
direito a existência pública e que, por isso, figuram na agenda de preocupações, como temas
importantes da opinião pública (éo conceito de «•oge/iífa-setting»,). Por outro lado, definem o(s)
significado(s) dos acontecimentos (assuntos e problemáticas), oferecendo interpretações de
como compreendê-los. O sociólogo Michael Schudson acrescentaria que o seu poder «não está
só (nem principalmente) no seu poder de declarar as coisas como sendo verdadeiras, mas no
seu poder de fornecer as formas nas quais as declarações aparecem». Assim, podemos
compreenderporque o campojornalístico se tornou um alvo central das preocupações de todos
os agentes sociais que investem, deform a desigual, recursos econômicos, tempo e esforço, que
criam acontecimentos e (ou) mesmo que pressionam por métodos rudes ou subtis, com o intuito
de «gerir as noticias» e impor os seus acontecimentos (assuntos ou problemáticas) e as suas
definições desses mesmos acontecimentos (assuntos ou problemáticas) numa luta simbólica de
vital interesse.
Alvo da acção estratégica de múltiplos agentes sociais, os jornalistas e as empresas
jornalísticas são também, muitas vezes, os alvos preferidos da critica quando as más notícias
ou a não existência de noticias frustram os outros agentes sociais. Seguindo a lógica da época
grega, quando, perante uma má notícia, asolução era a de matar o mensageiro, hoje a estratégia
principal consiste em pôr em causa a seriedade e o profissionalismo dos jornalistas; alguns
agentes sociais, mesmo ocupando posições de responsabilidade, ainda recorrem à ameaça
física, à acção legal, ou à pura calúnia. E não é necessário recuar muito longe no tempo para
encontrar exemplos: na recente eleição presidencial norte-americana, o candidato em
dificuldade (ainda mais, presidente em exercício) fe z dos ataques aos media um dos temas
principais da sua campanha, argumentando que a graxádade da crise econômica no pais era
mais uma invenção dosjornalistas que real. Será escusado relembrar agora casos portugueses
exemplificativos da mesma lógica. Mais graves s(er)ão as iniciativas que pretendem dificultar
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ainda mais o trabalho já em si difícil dos jornalistas. Com o intuito de «corrigir» as actuações
«irresponsáveis» dos profissionais do campo jornalístico, um possível caminho seria propor,
sempre em prol de causas nobres como o segredo de Estado ou a defesa do direito ao bom nome,
alterações que visam limitar a liberdade dos jornalistas, deixando incólumes as violações de
direitos constitucionais como o acesso às fontes de informação.
Muitas vezes, essas criticas fazem também parte da acção estratégica de «gerir as
noticias» como elemento essencial da luta simbólica, na medida em que pretendem o
enfraquecimento do campo jornalístico e a sua possível postura activa, critica e autônoma.
Essas estratégias nada têm a ver com o alcance critico de muitos dos artigos que constituem
esta antologia.
O jornalismo constitui uma actividade profissional de grande dificuldade e de grande
complexidade, e, por isso, um alvo fácil de criticar. Afinal, os jornalistas são frequentemente
obrigados a elaborar a noticia, a escrever a «estória», em situações de grande incerteza, com
falta de elementos, confrontados com terríveis limitações temporais, pressionados pela
concorrência dos outros órgãos de informação. Ainda mais, precisam de seleccionar certos
acontecimentos dentro duma avalancha de múltiplos acontecimentos, fazendo escolhas quase
imediatas, sem grande tempo para refiectir sobre o significado e o alcance histórico do que
acaba de acontecer e que «precisa» de ser informado imediatamente. Como um jornalista
recentemente disse deforma eloquente numa das minhas aulas de jornalismo: ojornalista corre
o risco de só ver as árvores e não afloresta, ou ainda, se colocado lá em cima, de só ver as ár\’ores
coloridas.
Mas se a dificuldade e a complexidade precisam de ser equacionadas, o estudo do
jornalismo e das noticias têm que penetrar a visão romântica da profissão e os mitos que
encobrem a (nobrej actividade. Corresponde a um dos papéis sociais essenciais da univer­
sidade e è uma obrigação profissional da comunidade acadêmica. A postura critica do estudo
e da investigação acadêmica (e a esmagadora maioria dos artigos incluídos nesta antologia
são de universitáriosj não pretende denegrir osjornalistas mas, sim, compreendera actividade
jornalística e o produto resultante dessa actividade - as notícias. Por exemplo, escreve Sigal
(citado no artigo de Traquina), saber o modo como as noticias são produzidas é a chave para
compreender o que significam. Dito isto, não se deveminimizar o alcance critico que, em certos
artigos, é feroz e põe em causa alicerces vitais do jornalismo e das noticias.
Na primeira parte da antologia, intitulada «Questões», aspectosfundamentais e noções
básicas da actividadejornalística são examinadas e criticadas: as noticias como «espelho» da
realidade (Molotch e Lester), a linguagem como mera representação das coisas (Hackett), a
dicotomia maniqueia entre objectividade e subjectividade (Rodrigues), a natureza problemáti­
ca dos factos (Tuchman), dos acontecimentos (Katz) e da própria profissão do jornalismo
(Soloski), a natureza opaca e esquiva dos critérios de noticiabilidade (Galtung e Ruge;
Tuchman).
Na segunda parte, intitulada «Teorias», a teoria segundo a qual as noticias reflectem a
realidade é posta em causa e diversas explicações («teorias») são avançadas para explicar
porquê as notícias são como são. Assim, vários factores são postos em destaque: os valores e
preconceitos pessoais dos jornalistas (White), os constrangimentos organizacionais (Breed),
as rotinas e a cultura profissional (Traquina; Gurevitch e Blumler), a tirania do factor tempo
(Schlesinger), as pressões dos proprietários e dos governos (Herman), as relações (estrutura­
das) entre asfontes e osjornalistas (Hall et al.). Muitos dos artigos partilham a perspectiva de

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encarar as noticias como uma construção, resultante de um processo de interacção social.
Vários autores nesta antologia criticam, directa ou indirectamente, a concepção do campo
jornalístico como «contrapoder» e avançam como conclusão que as noticias servem mais como
aliado das instituições; alguns artigos, nomeadamente os de Molotch e Lester, Hackett,
Herman, e Hall et al. vão muito mais longe e defendem que os media noticiosos são parte
integrante da reprodução de uma «hegemonia ideológica».
Na terceira parte, intitulada «Estórias», as noticias são encaradas como um produto
cultural, como artefacto que, nas palavras de Schudson.faz uso de «padrões pré-existentes»,
de convenções narrativas. Como escreve Tuchman, «dizer que as noticias são 'estórias' não é
de modo nenhum rebaixaranoticia, nem acusá-la de ser fictícia. Melhor, alerta-nospara ofacto
de a noticia, como todos os documentos públicos, ser uma realidade construída possuidora da
sua própria validade interna». O leitor ê alertado para a existência de diferentes «vozes
narrativas» (Bird e Dardenne), para a evolução histórica das formas narrativas (Schudson),
para a influência das características do meio especifico sobre as formas (Weaver), para as
diferenças nacionais na análise das narrativas jornalísticas e as subsequentes implicações
sobre a natureza das noticias (Hallin e Mancini). Por fim, Phillips oferece uma reflexão crítica
sobre o tipo de conhecimentos que as noticias fornecem, descrevendo as notícias como um
«mosaico» que privilegia o concreto, o particular e o individual.
Outro alvo de critica do conjunto dos artigos desta antologia que sobressai é a defesa de
um papel social mínimo dos jornalistas. É assim sugerido, de form a bastante clara, que os
jornalistas não são observadores passivos mas participantes activos na construção da
realidade (papel esse que osjornalistas recusam a reconhecer, em parte, devido à sua ideologia
profissional).
Ao longo da antologia, questões-chaves reaparecem: o grau de autonomia dosjornalistas
e as implicações que têm sobre o alcance da sua actuaçãoprofissional; a natureza das relações
entre as fontes de informação e os jornalistas; a dinâmica da interacção, cultura e ideologia
profissionais como factor determinante; o poder de controlo que as próprias maneiras
encontradas para levar a cabo o trabalho e as formas utilizadas para escrever a «estória»
podem ter sobre os profissionais. As dificuldades e as complexidades da profissão estão
igualmente sempre presentes ao longo da antologia quando é, por diversas vezes, posta em
evidência como pano defundo de toda a actividadejornalística, a tensão constante entre o caos
e a ordem, a incerteza e a rotina, a criatividade e o constrangimento, o agora ou o nunca.
Para alguém que conhece mal a profissão, uma leitura atenta desta antologia proporcio­
nará certamente uma compreensão das grandes dificuldades, inúmeras complexidades e
tremendos desafios que esta actividade profissional enfrenta. Aliás, um dos objectivos desta
antologia é precisamente o de alertarpara a complexidade das questões e contribuirpara uma
maior compreensão desta actividade profissional de tão vital interesse para o mundo moderno
e as sociedades democráticas.
Outro objectivo fundamental desta antologia é o d e contribuir, através da investigação,
da análise e da critica, para uma maior reflexão sobre ojornalismo e o significado das noticias.
A investigação cientifica sobre o jornalismo e as noticias constitui, hoje em dia, um dos campos
de investigação mais férteis e efervescentes dentro do mais vasto campo do «media research»
ou mesmo do «comm unication research».
Esta antologia de 20 textos constitui o produto final de um trabalho de leitura e selecção
de entre mais d e200artigos queformam umaparte importante dajá vasta literatura que também

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sociologo alemao Max eber escreveu sobre as noticias num trabalho publicado em
sociólogo norte-americano Robert Parle reflectiu sobre a natureza das noticias em 19
cedo ainda fo i apresentada, na Universidade de Chicago, uma tese de doutoramento
oapel social do jornal em 1910.
Apesar dum começo relativamente cedo, o interesse pelo estudo do jornalism
wticias fo i durante muito tempo esporádico. Ainda ao longo dos anos 50 e uma boa pi
inos 60, a investigação acadêmica é essencialmente quantitativa e dominada pelo par
lo gatekeeper ( White). O número de artigos e de livros é relativamente pequeno. D.
ttilizando como exemplo as teses de doutoramento nas universidades norte-americanas,
'e 30 tesesforam apresentadas durante toda a década de 50, em contraste com a médii
?ses que são apresentadas cada ano a partir do fim dos anos 60.
De fa d o , o fim dos anos 60parece marcar o inicio de uma tremenda explosão de int
o jornalismo e nas notícias por parte da comunidade acadêmica, em particular nos £
biidos e na Grã-Bretanha, interesse esse que transbordou pelas fronteiras nacionais
ontinua vigoroso até hoje em dia, aliás bem patente no número impressionante de art,
vros que foram publicados ao longo dos últimos 20 anos. Certamente o súbito interess<
tudos noticiosos é, em parte, fruto do reconhecimento do crescente pape! ocupado,
edia, e particularmente pela televisão, nas sociedades modernas. São tantas as forma,
diciam a proeminência dos media que seria despropositado tentar enumerá-las exaus
ente. Basta mencionar, a titulo de exemplo: a obsessão societal com a problemátic
municação; a infiltração irresistível e contagiosa da tele\'isão na vida quotidiana
ssoas; a criação e a implantação dum novo agente social que dá pelo nome de conselh
idiático, tido como arma indubitàvel de qualquer organização ou instituição: o velho.
ora renovado, modernizado e totalmente indispensável trabalhopropagandístico de qut
luenciar a cobertura jornalística, certificado pela recente designação dos chamados a
ctors (comunicadores especializados na arte de influenciar a cobertura dos media notic
); o crescente recurso às notícias televisivas como principalfonte de informação. Este últi
to está directamente ligado à dinâmica dos estudos noticiosos, nos quais a análise
‘iciário televisivo constitui um filão principal de investigação. Os acadêmicos, como
artigos desta antologia sao exemplificativos desta nova abordagem (Tuchm an; Soioski;
Schlesinger; Gurevitch e Blumler; Phillips).
Certamente, como escreve Tuchman (1991), a nova fa s e dos estudos noticiosos alargou
o âmbito das suas preocupações do nível do indivíduo ao nível da organização (com o instituição
complexa) e do relacionamento entre os m edia noticiosos e a sociedade. Igualm ente, nesta nova
fase, a investigação debruçou-se m ais sobre as im plicações políticas e so cia is da actividade
'onialística e o pa p el social das noticias. A lém disso, novos cam inhos fo r a m e estã o a sei
iesvendados, como, p o r exemplo, a teoria construcionista das noticias, ou o p a ra d ig m a d a
toticias como narrativas, bem com o o renovado interesse em certas q u estõ es fu lc r a is co m o i
elação com plexa entre fo n te s e jo rnalistas.
Esta antologia, elaborada inevitavelmente também emfunção de certos limites de espaç
npostos por razões econômicas, não pode captar toda a imensa riqueza e diversidade di
ttudos noticiosos, por exemplo, os estudos sobre a profissionalização dos jornalistas, ou
tcepção das noticias por parte do público. Foi necessário fazer escolhas difíceis. Houve
mtade de publicar os artigos na integra, com as únicas excepções dos artigos de Galtum
Y ’. e de So,oski- ° f quais porem foram alterados apenas em função do sistema de incluir
lerei,cias bibliográficas no interior do artigo e apresentando em rodapé unicamente as no
vhcativas. Outra decisão difícil fo i a de limitar a antologia essencialmente aos trabah
licados em língua tnglesa (com a excepção de dois artigos publicados originalmente
n r S Z ' B a,SSm' P°r eXT Pl°' nS° Índuir a'8uns trabalhos interessantes publicados
ces. No entanto, apesar destas limitações, a antologia inclui artigos de autores de divei

>malistas. àcm estnger (1990), sobre as relações entre as fo i

o de investigação mas sobretudo esZ7brZl'da "°° “ dmons,rar « xlultia


osos. Há ainda muito trabalho af a s e ) empf,7
lismo e as noticias ainda -------- ’ or,uSa‘. a investigação cientifica
l.a PA RTE

AS QUESTÕES
Introdução
por Nelson Traquina

O conjunto de artigos desta secção levanta intenogações sobre questões fulcrais do


jornalismo que durante longos anos foram ignoradas ou esquecidas ou, simplesmente, nunca
colocadas, possivelmente porque as respostas pareciam tão evidentes. O que é um aconteci­
mento? O que è um «facto»? O que é noticia? Porque certos acontecimentos são notícia e outros
ficam sem direito de existir em termos públicos? O que são as noticias? O jornalismo é uma
profissão? O que significa a objectividade? Qual o papel da objectividade nos valores que
orientam a actividadejornalística? E nos estudos sobre as notícias e os media noticiosos? Se
os artigos não nos fornecem respostas completas a todas estas interrogações, pelo menos
sugerem pistas interessantes, novas questões e a certeza de que o jornalismo envolve inúmeras
e complexas vertentes que merecem mais pesquisa e reflexão.
O ensaio de A driano D uarte R odrigues põe em questão noções dominantes acerca do
trabalho jornalístico, enquanto aborda outros temas de vulto, tais como o papel social das
noticias, a natureza do acontecimento e os critérios de noticiabilidade. O autor ataca de frente
a conceptualização frequente da objectividade que tanto tem dominado as discussões sobre o
jornalismo, bem como muitos estudos sobre os media noticiosos, ao escrever que «é insus­
tentável a dicotomia simplificadora e maniqueia entre objectividade e subjectividade». É
precisamente esta dicotomia, bem como a noção da notícia como representação, que é
examinada cuidadosamente no artigo de R oberthackett . Também em relação ao conceito de
objectividade, Adriano Duarte Rodrigues sublinha a sua utilidade enquanto form a retórica
quando se refere à sua acção estratégica «numa sociedade ideologicamente marcada pelos
valores positivistas de verdade». As pistas lançadas neste artigo são também exploradas noutro
artigo desta secção, neste caso o de Gaye tuchman, que define a objectividade como «ritual
estratégico». Ao apresentar um novo conceito - «meta-acontecimento», Adriano Duarte
Rodrigues questiona outra noção básica que circula nos discursos sobre o jornalismo,
nomeadamente, «a ideia corrente de que o discurso è uma mera representação das coisas».
Para este autor, o «meta-acontecimento», afinal o acontecimento-feito-noticia, é um «discurso
feito acção e uma acção feita discurso», o que implica a associação de novos valores. Aqui, é
pertinente a referência aos actos perlocutórios, isto è, segundo a definição de J.L . A ustin, «os
actos que, além defazerem aquilo quefazem enquanto são também uma locução (isto é enquanto
dizem qualquer coisa) produzem qualquer coisa 'pelofacto de ’dizerem» (citado no texto). Ou
seja, ao existirem, as noticias são «acontecimentos» que produzem um novo estado de coisas
- uma descoberta há muito reconhecida por certos agentes sociais, nomeadamente os
políticos», quando, na sua linguagem, falam de «criarfactos políticos». Esta criticafrontal às
duas noções dominantes da actividadejornalística ê acompanhada por uma referência ao papel
social das noticias - outra questão importante que será abordada nesta antologia, nomeada­
mente nos artigos de Phillips e Hall et al. - quando o autor refere a sua «função remitificadora
de uma perspectiva unitária securizante».
O artigo explora duas outras questões elementares dojornalismo, nomeadamente, O que
é acontecimento? E o que è susceptível de se tornar noticia? Os artigos de MOLOTCli e L ester,
de KATZ.e de GALTUNG eRUGE fornecem outras abordagens destas questões. Ao escrever que
o acontecimento è «imprevisível, irrompe acidentalmente à superfície epidènnica dos corpos
como reflexo inesperado, como efeito sem causa, como puro atributo», Adriano Duarie
Rodrigues descreve de form a eloquente uma das noçõesfundamentais do acontecimento, pelo
menos do jornalismo ocidental enquanto vigoram os actuais valores-noticia fnews valuesj, e
que na tipologia de Molotch e Lester situa-se claramente na categoria de «acidente». O autor
destaca vários «registos de notabilidade» que afinal representam uma tentativa de distinguir
os critérios de noticiabilidade, ou seja, o conjunto de valores-noticia que determina se um
acontecimento é susceptível desetornar noticia, ou,por outraspalavras, serjulgado merecedor
de ser considerado matéria noticiável (newsworthinessj. Um - o registo da inversão - ganhou
fam a nas discussões habituais do jornalismo sob a máxima «um homem morder um cão é
notícia» e também está presente na lista extensiva de factores de noticiabilidade apresentada
p o r Galtung e Ruge, como iremos ver.
O artigo de H arvey M olotch e M arilyn L ester lembra-nos a natureza problemática do
acontecimento e alerta-nos para a lutafundamental nas sociedades massmediatizadas em torno
da definição de que acontecimentos serão noticia e que «estórias» serão contadas acerca desses
mesmos acontecimentos. No tabuleiro apresentado pelo Molotch e Lester, a natureza dinâmica
do funcionamento do campo jornalístico è salientada através do relevo dado à acção
estratégica dos news promoters, definidos como «esses indivíduos e os seus associados que
identificam uma ocorrência como excepcional, por algum motivo, por alguma razão, para
outros». Os autores põem em destaque a natureza competitiva entre promotores sobre a
definição dos acontecimentos e as suas versões. Para os autores, o campo jornalístico seive
como alvo prioritário da acção política que é constituída pela «concorrência hábil e sem
restrições entre pessoas tendo acesso aos media, esforçando-se na mobilização das ocorrências
como recursos no seu trabalho de construção da experiência». Molotch e Lester lembram-nos
que os promotores «poderosos» podem recorrer a sanções, directas ou subtis, na promoção dos
seus event needs e que o poder dos promotores não pode ser avaliado só pela sua capacidade
de promoção de acontecimentos mas também pela sua capacidade de impedir que certos
acontecimentos se transformem em acontecimentos públicos (notícias). Os autores apresentam
a ideia inovadora de avaliar os acontecimentos em termos de carreira fcareer linej e oferecem
uma tipologia dos acontecimentos que, embora longe de ser perfeita, constitui uma séria
tentativa de teorização do trabalho jornalístico.

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Três observações são necessárias. Primeiro, Molotch eLesler identificam como categoria
de acontecimento os chamados acontecimentos de rotina (routine eventsj; diversos estudos
sobre o campo jornalístico, levados a cabo sobre diversas perspectivas e com diferentes
metodologias, sublinham o peso e a importância dos routine events no trabalho jornalístico,
como iremos ver nesta antologia, nos artigos de Traquina e Hall etal. Segundo, salientam
o facto de o acesso aos m edia noticiosos ser «uma das fontes e sustentáculos das relações de
poder existentes», o que explica a posição então defendida sobre o papel dos m edia na
concretização da «hegemonia ideológica», certamente uma posição diametralmente oposta
àquela que conceptualiza o campo jornalístico como «contrapoder». Terceiro, apontam as
categorias de «acidente» e «escândalo» como acontecimentos que fornecem insights sobre o
funcionamento quotidiano do campo jornalístico precisamente porque, segundo os autores,
escapam à natureza intencional dos acontecimentos de rotina.
0 alcance crítico de Adriano Duarte Rodrigues é prosseguido neste artigo de Molotch
e Lester que também põe em causa conceitos dominantes do trabalho jornalístico, no caso a
noção básica que osjornalistas têm do seu próprio trabalho enquanto «repórteres-refiectores-
-indicadores de uma realidade objectiva ‘lá fo r a '». Afirmando que a sua perspectiva constitui
«uma nova orientação no estudo das notícias», Molotch e Lester defendem que os media
«reflectem as práticas daqueles que têm o poder de determinar as experiências dos outros». Já
avançando pistas para uma teoria da notícia, escrevem: «A natureza dos m edia como
organizaçãoformal, como rotinas levadas a cabo para realizar o trabalho da redacção, como
padrões de mobilidade na carreira para um grupo de profissionais, como instituição à procura
do lucro, tudo torna-se inextricável e reflexivamente ligado ao conteúdo das notícias». Assim,
para Molotch e Lester, as noticias não são um «espelho» da realidade mas uma «criação» (a
expressão exacta é «estratégias de criação da realidade»), certamente uma perspectiva muito
semelhante à de vários autores que encaram as notícias como «construção», e que iremos ver
mais de perto na segunda parte desta antologia.
A natureza problemática do acontecimento é igualmente posta em evidência por E lihu
Ka TZ, ao definir as características de um tipo de acontecimento que ele nomeia «acontecimento
mediático» (media eventj e que tem o cuidado de diferenciar de um outro tipo de acontecimento,
o «pseudo-acontecimento» na designação de Daniel Boorstein. Indo ainda mais longe na sua
análise, Katz tenta estabelecer uma tipologia dos «acontecimentos mediáticos», estabelecendo
como categorias: c missão heróica, a ocasião de Estado e a disputa. No âmbito da sua discussão
refere vários problemas ligados à actividade jornalística. Primeiro, afirma que os jornalistas
trabalham essencialmente com acontecimentos, estabelecendo uma diferença entre o trabalho
dojornalista eo d o historiador. Segundo, refere-se também à tensão entre a actuação esperada
do jornalista, devido às normas profissionais dominantes, e o novo papel de «mestre de
cerimônia» imposto pelas características do «acontecimento mediático». Terceiro, utilizando
o conceito de «narrativa», o autor afirma que o mesmo «acontecimento mediático» poderá ser
contado de diversas maneiras, isto é, narrativas diferentes podem ser mobilizadas para contar
a «estória» - uma perspectiva importante que será explorada na terceira parte desta antologia.
Ainda que de form a breve, Katz aborda também a questão crucial da noticiabilidade quando
fa z referência à existência de valores-noticia diferentes em sociedades diferentes, comentando
a importância do conflito como valor-noticia no jornalismo ocidental.
E precisamente a questão dos critérios de noticiabilidade que constitui o ponto fulcral
do artigo deJoilANGaltung e Ma r i H ol.u soe R uge. Num dos clássicos dos estudos noticiosos,

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este artigo constitui uma das primeiras tentativas de identificar, de form a sistemática e
exaustiva, os critérios de noticiabilidade, ou, na linguagem dos autores, os factores que
influenciam o fluxo de noticias. A pergunta que preocupa Galtung e Ruge é a seguinte: Como
é que «os acontecimentos» se tornam noticia? Em resposta, os autores enumeram 12factores:
a frequência, a amplitude, a clareza, o significado, a consonância, o inesperado, a con­
tinuidade, a composição, a referência a países de «elite», a referência a pessoas de «elite», a
personalização e a negatividade. Nesta teoria, um acontecimento será tanto mais noticiável
quanto maior número de factores possuir, embora não seja uma regra absoluta. Igualmente,
os autores consideram que um acontecimento poderá ter pouco de um factor e compensar com
muito de outrofactor. Em suma, a matemática éfrouxa e o conceito de nevvsworthiness esquivo.
Depois de Galtung e Ruge, outros autores (Hartley, 1982; W olf 19S7; Ericsonetal, 1987, entre
outros) elaboraram as suas listas de valores-noticia, algumas bem mais longas e completas na
compreensão da complexidade do processo de produção de noticias, mas o trabalho de Galtung
eRuge permanece como ponto de referência e, por isso, merece com toda ajustiça a sua inclusão
nesta antologia. Publicado originalmente em 1965, o artigo de Galtung e Ruge ainda sofre de
uma visão limitada do trabalho jornalístico essencialmente entendido como selecção, certa­
mente influenciado pelo paradigma dominante nos estudos noticiosos da época - o paradigma
do gatekeeper. Para os autores, os factores de noticiabilidade são vistos como inerentes aos
próprios acontecimentos; assim escrevem «quanto menos ambíguo é o acontecimento, mais
probabilidades tem de ser noticia» ou «os acontecimentos são significantes e consonantes com
oqueè esperado», ou, em relação aofactor personalização, «quanto mais o acontecimento pode
ser visto em termos pessoais, mais probabilidades o acontecimento tem de ser noticia».
O avanço dos estudos noticiosos aponta para a necessidade de compreender que os
valores-noticia estão presentes ao longo de todo o processo de produção jornalística, ou seja,
no processo de selecção dos acontecimentos e no processo de elaboração da notícia, isto é, no
processo de construção da noticia. Assim, podemos falar de valores-noticia de selecção e
valores-noticia de construção; distinção aliás presente na própria formulação de Galtung e
Ruge quando, por exemplo, em relação ao factor de personalização, referem que «as noticias
têm a tendência de apresentar os acontecimentos como frases onde há um sujeito, uma pessoa
nomeada ou uma colectividade que consiste em algumas pessoas, e o acontecimento è então
visto como consequência das acções dessa pessoa ou dessas pessoas». Haverá muito mais a
dizer sobre os próprios factores apresentados neste artigo, mas um merece reparo especifico,
nomeadamente o da consonância, pela sua pertinência em futuras discussões. Por consonân­
cia, Galtung e Ruge entendem que o acontecimento deve corresponder ao esperado: «Uma
pessoa prognostica que algo irá acontecer e isso cria uma matriz mental para a recepção e o
registo fá cil do acontecimento quando finalmente tiver lugar... No sentido mencionado aqui
«as novas» são realmente «velhas» porque correspondem ao que uma pessoa espera venha a
acontecer». Este valor-notícia de consonância explicará a qualidade repetitiva das noticias,
postulada por PHILLIPS no seu artigo, e adquirirá também um destaque especial com a
emergência do paradigma da narrativa, como veremos na terceira parte desta antologia.
Um último ponto que não pode deixar de ser sublinhado neste momento, embora seja
preciso reconhecer que Galtung eRuge se limitam afazer uma breve alusão, é a questão crucial
do papel social das noticias em qualquer sociedade. Os autores mencionam que osfactores que
influenciam o flttxo de informação, ou seja, os valores-noticia, não podem existir sem alguma
referência a algo considerado como «o normal», o que implica igualmente noções sobre o

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i o desvio em relaçao aquilo que e considerado
i concentrar-se no desvio, no estranho e no insólito,
nonnns c os valores da sociedade. Como as fábulas,
I oculta.» Uma interrogação pertinente que Galtun
z os valores-notícia são culture-free, è a d e saber aU
valores-notícia dentro da cultura profissional do,
) mais interessante quando vários estudos apontan
responder, defom a coerente. /I pergunta, p o r exemple
do à natureza esquiva do conceito de newsworthiness
Idade é uma das constatações de G â YE TUCHMAN no se
i analisa a questão do news judgem ent («juízo sobre o qu
'areceria que o news judgem ent é o conhecimento sagradt
]ue o dijcrencia das out ras pessoas.» Osjornalistas invoca
, segundo Tuchman e outros, os próprios jornalistas nu
i a demonstração de uma competência profissional, mas
da natureza problemática do jornalismo enquanto profissi
de Soloski). Segundo Tuchman, o news judgement provém t
um»; ambos são importantes. A experiência ê adquirida i
ação profissional e entre as diferentes organizações. O «sen
ctativas criadas pela experiência e equivale àquilo que a maio)
adquirido; jo g a um papel central porque ajuda a determinar o q
»sem verificação. O news judgement é invocado como competem
mo; e é também invocado como um procedimento que dem
gundo Tuchman, este procedimento seja o aspecto form al m
aobjectividade constitui um valor crucial do jornalista profissior,
identais, e está associada ao desenvolvimento do jornalismo enqua
is países.
io ter em consideração a evolução do jornalismo, em partícula
: escrita no decorrer do século XIX com a progressiva proeminência
(jornalismo/actual) em detrimento da party press (jornalismopartidár
cou a subordinação da lógica politico-ideológica à lógica económ
irocura dc públicos mais vastos, crescentes vendas e receitas (inciuim
resentação de um produto que privilegiafactos e não opiniões e implica
oticia, em termos dos interesses de uma nova classe de leitores. Numa ép
dtivismo, também os jornalistas são le\'ados ao culto dos factos e à tarej
lente a realidade, impressionados com novos inventos, como a rnáqi
expansão da imprensa, com as suas acrescidas responsabilidades, si
através da criaçao de organizaçõesprojissionais e clubes, do ensino especijico e da elabor
de códigos deontológicos (Scliiller, 1986). Isto c ainda mais verdade tendo em conta que i
competência, ligada à falta de conhecimentos bem específicos, e a sua situação si
-econômica não providenciam a mesma legitimidade de outras classes sócio-profissionc
Segundo Schudson (1986), a objectividade, como valor centrai do jornalismo, surg
século XX, não como afirmação de umaf é nosfactos mas como refúgio num método concei
vara um mundo onde mesmo osfactos não eram de confiança, devido à demonstrada eficiê)
ia propaganda na Primeira Guerra Mundial e ao surgimento duma nova profissão, denc
iada relações públicas. Qualquer que seja a sua origem, hoje em dia, o conceito
objectividade está intimamente ligado à profissão do jornalismo, constituindo um dos s
'alores centrais, associada a uma conduta profissional.
Voltando ao artigo de Tuchman, a objectividade é definida como «ritual estratégii
<orque se trata de um conjunto de procedimentos rotineiros, automáticos, obrigatórios, q
onstituem um escudo protector que é mobilizadopara «prevenir o ataque ou deflectir, do poi
e vista defensivo, as criticas». A autora escreve: «Em suma, cada noticia acarreta perigospa
corpo redactorial e para a organização noticiosa. Cada noticia afecta potencialmente
apacidade dos jornalistas no cumprimento das suas tarefas diárias, afecta a sua reputaç,
erante os seus superiores, e tem influência nos lucros da organização. Dado que o jornal
imposto de muitas noticias, estes perigos são múltiplos e omnipresentes.» Segundo Tuchma
jornalista (ansioso de evitar reprimendas dos superiores) e a empresa jornalística (ansios
' evitar processos de difamação) utilizam os procedimentos de objectividade para respondí
u f o "nposJ osPe,° f actortcmPo (cuja relação intima com ojornalismo é analisada n
tigo de P hilip S chlesincer). N o entanto, a autora sublinha que os procedimentos não sã
•utros. convidam a percepção selectiva, insistem erradamente na transparência dos factos

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nergência do jornalismo como nova profissão nomea,2 * eS“"’'açao acompanliaram


mes. aliás consumada na elaboração de códigos deonlnlZl j aflnnaçSo de n o m a s e
ir, o profissionalismo especifica a existência de nnm S 'COS' Ass,m’ como nos lembra o
<ús importante. existência de normas, entre as quais a objectividade ê
reconhecimento»; 2) saber agir para recolher mais informações, ou seja, um «saber de
procedimento» e 3) ser capa: de contar a «estória», escrever a noticia, ou seja um «saber de
narração» (Ericson et al., 1987).
Uma terceira nonna intrínseca à afirmação do jornalismo enquanto profissão e central
para a identidade do jornalista enquanto profissional (ainda mais na mitologia que envolve a
profissão) é a autonomia. Um jornalista profissional ê visto como uma pessoa independente
que estabelece as suas relações com as fontes, situação aliás bem marcada legalmente pelo
conceito de sigilo profissional, o qual tem direito a uma «cláusula de consciência». A
independência é especialmente valorizada e ê indispensável à conquista da legitimidade do
campo jornalístico, da organização jornalística e do próprio jornalista; figura como valor
crucial dos códigos deontológicos e estatutos legais e editoriais. Mais, a autonomia é, segundo
Soloski, uma necessidade devida à natureza imprevisível dos acontecimentos e, concomitan­
temente, à exigência duma organização flexível e não burocrática da empresa jornalística.
Neste sentido, a autonomia é vista como positiva e necessária, mas não deixa de ser também
uma espada de dois gumes. Enquanto profissional, ojornalista não deixa de ser um empregado,
um membro de uma organização. Como vários artigos nesta antologia sublinham, a neces­
sidade de realizar as tarefas diárias e de cumprir as horas defecho implica esforços por parte
da organização para controlar o trabalho dos seus membros. Neste sentido, a autonomia é neste
contexto valorizada negativamente e esta dicotomia entre autonomia profissional e controlo
organizacional constitui uma questão fundamental que a investigação precisa de aprofundar.
Para Soloski, o profissionalismo é um método eficiente e econômico através do qual as
organizações jornalísticas controlam o comportamento dos repórteres e editores. Segundo o
autor, o profissionalismo, assim como a política editorial da empresa jornalística, controla o
comportamente dojornalista de duasformas: 1) estabelece padrões e normas de comportamen­
to, e 2) determina o sistema de recompensa profissional. 0 autor postula ainda que as normas
de comportamento que provêm do profissionalismo constituem um mecanismo de controlo
transorganizacional.
Outra problemática crucial dos estudos noticiosos é a das relações entre os jornalistas
e as fontes de informação. Soloski limita-se a afirmar que as fontes de informação principais
emanam do poder existente e, por isso, as notícias tendem a defender o status quo. Alguns artigos
da segunda parte desta antologia irão aprofundar esta problemática.
O artigo de R obert H a CKETT encerra esta parte sobre as questões essenciais do
jornalismo, embora este mesmo artigo também pudesse servir de texto de introdução à segunda
parte desta antologia sobre as teorias dojornalismo. Posicionado claramente numa perspectiva
crítica, o autor põe em causa a objectividade não enquanto «ritual estratégico» (Tuchman) mas
enquanto conceito que aponta para uma produção de noticias isentas de valores. Assim, o autor
rejeita a metáfora das noticias como espelho, muitas vezes utilizada pelos jornalistas como
emblemática do seu trabalho, por três razões: 1) referindo-se à problematização do aconteci­
mento levantada pelo artigo de Molotch e Lester, o argumento apresentado é o de que não é
possível estabelecer uma distinção radical entre os acontecimentos e os media noticiosos que
devem refiectir esse mesmo mundo, até porque os media ajudam a constituir a própria
realidade; 2) a linguagem ela-mesma não consegue transmitir directamente o suposto
significado inerente aos acontecimentos, porque a linguagem neutral é impossível; e 3) os
m edia noticiosos inevitavelmente estruturam a sua representação dos acontecimentos, devido
a diversos factores, incluindo aspectos organizacionais do trabalho jornalístico.

25
iquadramento», que implica a aosorçao inconsciente ue p/cssuyusius uccm.« « u
miada «estrutura profunda» de Stuart Hall); 2) a ideologia como naturalização, ou sejt
resentação do trabalhojornalístico como não ideológico (e aquiHackett refere-se essenci
•nte à televisão); e i ) a ideologia como interpelação onde as noticias são apresentadas cot
dismo, ocultando a produtividade da linguagem porque, citando Hartley (1982), «ossign
o têm um 'significado' internofixo, mas potenciais significados, que se actuahzamcom o us
e novo o autor utiliza o exemplo da televisão).
No decurso da sua critica aos estudos da parcialidade, Robert Hackett também acaba p
tresentar um panorama das diversas perspectivas, por vezes designadas p o r teorias, que tê
nergido ao longo dos anos para explicar o conteúdo noticioso. Por ordem de apresentaçi
>artigo, o autor refere-se: 1) à teoria organizacional representada neste volume pelo artij
; BREED; à(s) teoria(s) da conspiração, rcpresentada(s) nesta antologia pelo artigo c
'ERMAS; 3) à teoria «da atitude política» ou «acção pessoal», inicialmente defendida n
■adição dos estudos de gate-keeper, representada aqui pelo artigo de WHITE; 4) à teon
struturalista, representada pelo artigo de Hall ETAL.; e 5) à teoria construcionista, represei
ida pelo artigo de G u r e v it c u E BLUMLER, entre outros. De novo, a questão do controlo efectiv
lie os jornalistas têm sobre as noticias afigura-se como vital.
Na sua conclusão, o artigo de Hackett advoga a substituição do conceito de parcialidade
ttlo de «orientação estruturada», tendo por base a identificação de vários factores qm
njluenciam as noticias, tais como: os critérios de noticiabilidade, as características tecnológi
:as dos meios noticiosos, a logística da produção jornalística, os constrangimentos orçamen-
ais, as inibições legais, a disponibilidade da informação das fontes, as narrativas que sãc
utilizadas para contar as «estórias» e asformas de aparência dos próprios acontecimentos. Ao
longo deste extenso e polêmico artigo, Robert Hackett refere-se ao pape! social das noticias,
defendendo que as noticias são uma instituição ideológica quefavorece a ordem estabelecida,
de novo, tendo em conta a análise das relações entre os jornalistas e as fontes (regulares) de
informação. Sublinha também que as notícias não devem ser vistas como uma socioloeia
O acontecimento

Adriano Duarte Rodrigues (*)

N o discurso jornalístico, o acontecimento constitui o referente de que se fala, o efeito de


realidade da cadeia dos signos, um a espécie de ponto zero da significação. Por isso, um a das
regras da prática jornalística consiste em afirmar que a opinião é livre mas que os factos são
soberanos.
É acontecimento tudo aquilo que irrompe na superfície lisa da história de entre um a
multiplicidade aleatória de factos virtuais. Pela sua natureza, o acontecimento situa-se,
portanto, algures na escala das probabilidades de ocorrência, sendo tanto mais imprevisível
quanto menos provável for a sua realização. É por isso em função da m aior ou m enor
previsibilidade que um facto adquire o estatuto de acontecimento pertinente do ponto de vista
jornalístico: quanto menos previsível for, mais probabilidades tem de se tom ar notícia e de
integrar assim o discurso jornalístico. É por isso que se diz, gracejando, que um cão que morde
um hom em não é um facto jornalístico, mas se um homem morder um cão então estamos perante
um facto susceptível de se tom ar notícia. O acontecimento jornalístico é, por conseguinte, um
acontecimento de natureza especial, distinguindo-se do número indeterminado dos aconteci­
mentos possíveis em função de um a classificação ou de uma ordem ditada pela lei das
probabilidades, sendo inversamente proporcional à probabilidade de ocorrência. Neste sentido,
faz parte de um conjunto relativamente restrito que pertence a um universo muito vasto. Todos

(•) Reedição de: Revista de Comunicação e Linguagens (Vol. 8, 1988). «O Acontecimento», de Adriano
Duarte Rodrigues. Direitos de autor Centro de Estudos de Comunicação c Linguagens (CECL). Reedição com a
aprovação do editor.
acontecim ento jornalístico irrom pe sem nexo aparente nem causa conhecida e e, po
el, digno de ser registado na m em ória.
H á vários registos da notabilidade dos factos. O registo do e::cesso é de todos o
nte visto ser im ipção por excelência do funcionam ento anorm al da norm a, emergí
idalosa de m arcas excessivas do funcionam ento norm al dos corpos, tanto dos cc
iduais com o dos corpos colecti vos e institucionais. Assim , por exem plo, o m assacre de
,a pelas tropas regulares é acontecim ento notável na proporção directa da excessiva f(
o o corpo m ilitar desem penhou um a das suas funções norm ais, que é fazer a guerra. O
aplica a pena m áxim a prevista no Código Penal sem ter em conta as circunstân
uantes, indo assim contra o aforism o sum m um jiis, sum m a injuria, provoca um aconl
ito notável de ser registado. A em briaguez e a perform ance do desportivo, a longevid
ficar a dançar vários dias sem descanso são acontecim entos notáveis. N este registo e:
apreendidas todas as figuras do cúmulo e da hubrys grega, da desm edida que tanto pode
ibrizada com a entrada para o Guiness B ook com o sancionada de maneira extrema p
:apassagem do lim iar fisico da morte ou do limiar moral da condenação. Pode por i:
abém consistir numa prova de idoneidade ou de valentia, à maneira dos rituais antigos
ciação, ora afirmando o direito à admissão no círculo reservado dos heróis demiúrgicos, (
'.endo valer o direito à admiração e ao respeito dos outros.
Um outro registo de notabilidade do acontecimento é o dafalha. Procede por defeito, p
suficiência no funcionamento normal e regular dos corpos. O actor que se esquece da dei:
>meio da cena ou o revólver que fica encravado no momento em que o agressor executa
pressão são dois exemplos deste registo do acontecimento jornalístico. É a morte que fiilmir
:pentinamente o corpo são ou a queda repentina e imprevisível dos valores da bolsa, a revoll
nprevisível que rebenta numa penitenciária ou a brusca paragem do funcionamento de um
aáquina, a garrafa de Cliampagne que não se parte contra o casco do navio no momento de se
ançado ao oceano. Os acidentes pertencem habitualmente a este registo, os acidentes cósmicos
íaturais, dos cataclismos, das inundações, dos terremotos, mas também os acidentes d;
rirculação automóvel que param o fluxo normal do trânsito, os acidentes no funcionamentc
normal do organismo humana sobretudo se intervém no corpo jovem e saudável, os acidentes
das centrais nucleares com sistemas de segurança máxima considerados infalíveis, os acidentes
espectaculares dos foguetões interplanetários. A falha no funcionamento dos corpos instituídos
não é menos notável do que a que ocorre nos corpos físicos e nos dispositivos maquínicos. O
divórcio que quebra os laços da família ou a sentença do juiz que condena o inocente, o
licenciado de letras que ignora as regras da gramática são acontecimentos notáveis por defeito
no funcionamento da instituição familiar, da instituição jurídica, da instituição escolar.
A inversão é outro registo de notabilidade do acontecimento. A teoria jornalística que
considera o facto de um hom em m order um cão com o notícia inscreve-se neste registo. Quando
um m ilitar dispara sobre o general no mom ento em que este passa revista às tropas em parada,
produz-se um acontecim ento jornalístico pelo facto de se tratar de um a inversão no funciona­
m ento do corpo militar. É o modelo do arroseur arrosé filmado pelos irmãos Lum ière nos
prim órdios do cinema. É o acontecim ento—booitierang, o «voltar do feitiço contra o feiticeiro»,
o «ir por lã e ficar tosquiado». Todas as figuras daparódiaqueo destino, que oheim arm enegrego
nos reserva estão comoreendidas neste recisto. O pombo que vem depenicar as migalhas na boca
cerveja, o ladrão que vem entregar o carro roubado com dois bilhetes para o teatro e com os
agradecimentos pelo passeio são exemplos irônicos deste registo.
O discurso do acontecimento é uma anti-história, o relato das marcas de dissolução da
identidade das coisas, dos corpos, do devir. Pertence, por conseguinte, ao mundo do acidente
que deixa vestígios e altera a substância do mundo das coisas, das pessoas, das instituições. O
nascimento e a morte são por isso os acidentes-limite em relação aos quais todas as outras
ocorrências se posicionam e se referem. Para o nascimento e para a morte não há explicação
plausível porque não há sentido racional que os compreenda numa lógica causai, num antes e
num depois. Por isso, a notícia é no mundo moderno o negativo da racionalidade, no sentido
fotográfico deste termo. O racional é da ordem do previsível, da sucessão monótona das causas,
regida por regularidades e por leis; o acontecimento é imprevisível, irrompe acidentalmente à
superfície epidérmica dos corpos como reflexo inesperado, como efeito sem causa, com o puro
atributo. Pertencia na Antiguidade ao campo da adivinhação e da premonição, dois processos
para exorcisar o seu carácter aleatório considerado como demoníaco e inquietante, perturbador
da ordem pendular que rege a normal sucessão dos factos, permitindo assim a sua dominação.
O apelo à investigação do adivinho ou da pitisa, personagens votadas à perscrutação do destino,
visava a introdução de regras de leitura dos indícios de um a outra ordem que presidia à irrupção
da aparente desordem no mundo. Era uma prevenção racionalizante perante o que de irracional
e inexplicável pudesse ocorrer.
Hoje, apesar de várias práticas de adivinhação, desde a cartomancia à astrologia,
continuarem a exercer funções análogas, a descrença na veridicidade das suas previsões,
consequência das modalidades da moderna racionalidade, tende a criar novas formas de
regulação dos acontecimentos imprevisíveis. O discurso jornalístico inscreve-se inequivoca­
mente neste processo de enquadramento e de regulação.

II

Os registos da notabilidade dos factos que acabámos de inventariar não esgotam, no


entanto, a gam a dos acontecimentos notáveis. É o próprio discurso do acontecimento que
emerge como acontecimento notável a partir do momento em que se tom a dispositivo de
visibilidade universal, assegurando assim a identificação e a notoriedade do mundo, das
pessoas, das coisas, das instituições. Uma segunda categoria de acontecimentos veio, por isso,
alastrar no mundo actual, um a espécie de acontecimentos segundos ou de meta-acontecimentos,
provocados pela própria existência do discurso jornalístico. O que tom a o discruso jornalístico
fonte de acontecimentos notáveis é o facto de ele próprio ser dispositivo de notabilidade,
verdadeiro deus ex machina, mundo da experiência autônomo das restantes experiências do
mundo. O desvio do avião ou a revolta que se produz frente às câmaras da televisão ou perante
os repórteres, a explosão de raiva ou de dor captada em directo pelas objectivas das máquinas
mediáticas são exemplos de irrupções de meta-acontecimentos que têm nos próprios disposi­
tivos da informação a fonte e a urgência.
Os registos do meta-acontecimento só aparentemente coincidem com os registos dos
acontecimentos referenciais que vimos atrás. O excesso, a falha, a inversão são apenas registos-
-pretextos, formas referenciais simuladoras das figuras discursivas que definem os meta-
-acontecimentos. Estas continuam a dar-se como factos, mas a sua emergência é toda ela inscrita
na ordem do discurso, na ordem da visibilidade simbólica da representação cênica. São factos

29
discursivos e, como tais, associam valores ilocutórios e valores perlocutórios, na medida em que
acontecem ao serem enunciados e pelo facto de serem enunciados.
O meta-acontecimento não é, por isso, regido pelas regras do mundo natural dos acidentes
da natureza que atingem os corpos físicos cósmicos, como os cataclismos ou as inimdações, nem
os corpos individuais, como o nascimento e a morte, nem os corpos institucionais, das religiões,
dos exércitos, das famílias, da produção, dos Estados. É regido pelas regras do mundo simbólico,
o mundo da enunciação. É sempre uma ordem ditada em função das dimensões associadas do
querer-dizer, do saber-dizer e do poder-dizer. Articula as instâncias enunciativas do sujeito e
do objecto de enunciação, individuais ou colectivas, os agentes e os actores. É a realização
técnica das instâncias discursivas; é um discurso feito acção e uma acção feita discurso. O que
o desvio do avião realiza é a consumação de uma palavra que se esgota no acontecimento que
dá a ver ao mundo, que fala mais pelo silêncio que dá em espectáculo, pelo demora ansiosa do
desenlace imprevisível e extremo, do que pela logolália interminável dos media , dos dispos­
itivos da linguagem instrumental da informação.
Os meta-discursos são por isso a face perversa da informação, da transformação
logotécnica da linguagem em acontecimento dissuasor da explosão do imprevisível no mundo
contemporâneo. A sua lógica não é, por conseguinte, explosiva, como nos acontecimentos
referenciais, mas implosiva. Os meta-acontecimentos são acidentes que irrompem no seio da
ordem regular do funcionamento das coisas, das pessoas e das instituições; não são a emergência
da desordem do exterior que, de fora, vem alterar a regularidade da experiência conforme. Os
próprios acontecimentos referenciais estão doravante votados a um devir discursivo, especta-
cular. O acidente do foguetão lunar americano Cliallenger, em 28 de Janeiro de 1986, produzido
em directo pela televisão, inscreve-se já nitidamente nesta lógica acidental espectacular da
morte própria. As centrais nucleares aí estão para mostrar à evidência que a violação da norma
está doravante votada a um devir acidental que atinge, não o inimigo de fora, mas o cidadão
indefeso. É o inocente, não o culpado, que os bandidos do ar atingem. Não é a morte nem a
violência reais que os meta-acontecimentos visam, mas o direito à visibilidade, à encenação,
de quantos não consideram respeitados os seus direitos à palavra dentro da ordem mediática.

III

Os meta-acontecimentos são, por isso, acontecimentos discursivos, actualizações de


enunciados pertencentes a vários regimes enunciativos que se encadeiam entre si segundo regras
de encadeam ento próprias. Esta afirmação vai contra a ideia corrente de que o discurso é uma
mera representação das coisas e de que, como tal, é passível de ser apreciado apenas em termos
de adequação ou de não adequação às coisas representadas. Esta concepção referencial do
discurso é um a espécie de filosofia espontânea positivista e maniqueia da linguagem que
consiste na eliminação, do horizonte do discurso, das dimensões não constatativas ou
referenciais da linguagem, nomeadamente das dimensões avaliativas e prescritivas. Trata-se,
no entanto, de um a pretensão insustentável, por razões práticas e por razões de natureza teórica.
Praticam ente, um discurso meramente constatativo seria ilegível visto elim inar toda a carga
enunciativa que constitui o interesse para os interlocutores da constatação dos factos relatados.
Teoricamente, a adequação aos factos pressupõe um ponto de vista particular, o do enunciador,
ponto de vista que não é da ordem da constatação, mas da situação contingente dos interlocutores
e da sua relação recíproca. Mais radicalmente ainda, a pretensa possibilidade da eliminação das
dimensões avaliativas e prescritas do discurso para o confinar a um a função meramente

30
constaíativa não é uma dimensão constatativa mas valorativa, uma ordem ditada à prática
discursiva, fundada na crença acrítica numa verdade universal, a anhistórica e indiscutível dos
factos, pressupondo a possibilidade de uma espécie de visão transcendente ao curso da história,
de um olhar de Sirius sobre o mundo.
Ao relatar um acontecimento, os media, além do acontecimento relatado, produzem ao
mesmo tempo o relato do acontecimento como um novo acontecimento que vem integrar o
mundo. Este novo acontecimento não é mera locução; realiza um acto ilocutório. Os actos
ilocutórios não estão apenas sujeitos aos valores de verdade ou falsidade, de adequação ou de
não adequação ao estado de coisas relatado; estão também subordinados aos valores inerentes
à credibilidade e à sinceridade do locutor, à clareza ou obscuridade da exposição, à justeza dos
juízos formulados, à coerência dos argumentos aduzidos, à capacidade para levar o(s) outro(s)
à satisfação de um pedido, à resposta a um a pergunta, à aceitação da convicção, do
reconhecimento ou do apreço, do conselho dado, do aviso, da saudação. Os valores de
credibilidade, de sinceridade, de clareza, de justeza, de coerência e de correcção, de satisfação
e de aceitação são actos inerentes ao discurso, integram o mundo da enunciação e são dele
inseparáveis. Por isso J. L. Austin designou-os «actos ilocutórios», que, como tais, acontecem
«ao dizerem-se», distinguindo-se da mera proferição « dos sons que pertencem a um determi­
nado vocabulário, organizados segundo as prescrições de uma determinada gramática e
possuindo uma determinada significação» (Austin, 1970: 181).
Os meta-acontecimentos abrangem, no entanto, ainda uma outra gam a de actos, a gama
dos actos perlocutórios, como diz Austin: «Dos actos que, além de fazerem aquilo que fazem
enquanto são também uma locução (isto é, enquanto dizem qualquer coisa), produzem qualquer
coisa 'pelo facto d e ' dizerem » (Ibid.: 181). O bandido do ar que ameaça fazer explodir o avião,
a aprovação de um a nova taxa de juros, a declaração da desvalorização da moeda ou da
investidura dos m em bros de um Governo, da aprovação ou da rejeição de um a disposição legal,
da abertura de um a sessão do parlamento ou da inauguração de uma ponte, quando enunciados
pela respectiva entidade competente, no exercício da sua competência própria, são exemplos
de enunciações performativas que realizam aquilo que enunciam pelo facto de o enunciarem.
Não são puras constatações de estados de coisas previamente existentes sujeitas à prova da
verificação dos factos; produzem realmente um novo estado de coisas.
Ao darem conta dos actos enunciativos, os media não só lhes conferem notoriedade
pública, alargando assim indefinidamente o âmbito e o alcance das transformações que operam
no mundo, com o realizam igualmente novos actos ilocutórios e perlocutórios de acordo com
as suas próprias regras enimeiativas.
Existe, antes de mais, a ideia de que os media se limitam ou devem limitar a tom ar públicos
os factos ocorridos e os discursos proferidos por locutores competentes para lhes conferir
determinados valores ilocutórios e perlocutórios, que se devem limitar a servir de instrumentos
de mediação das acções e das palavras que ocorrem no mundo. Pela sua simples existência, os
media não podem , no entanto, evitar que os actores e os locutores os utilizem para darem a
entender ou para deixarem entender mais ou menos ou outra coisa do que dizem ou para fazerem
algo diferente daquilo que fazem. É o caso, por exemplo, das palavras de um ministro da Energia
que, à saída da reunião do Conselho de Ministros que decidiu aum entar o preço dos
combustíveis, diz ao jornalista que nada obriga a que os preços aumentem para fazer com que
os autom obilistas não se precipitem imediatamente para as bombas de gasolina. A melhor
maneira de saber antecipadamente o efeito de uma determinada medida e de poder assim medir
:sadequada. t todo o largo campo das noticias oticiosas e das «fontes bem informai
Tam bém se costum a distinguir entre aquilo que os jornalistas devem dizer no exer
ia profissão e aquilo que os media publicam como opinião de pessoas exteriores à profi:
primeiros estaria reservado o relato objectivo dos factos, enquanto os segundos expi
i juizos de valor e apreciações subjectivas, sujeitas por conseguinte à livre discussão
nto, esta distinção não contempla os casos, mais numerosos do que se julga, em que,
ervar a credibilidade dos profissionais, é o próprio jornalista que solicita pessoas estrai
ofissão para dizer aquilo que ele próprio desejaria dizer. O discurso subjectivo, de natu
liativa ou prescritiva, assim proferido é objectivado graças ao dispositivo objectiv;
rumental do médium, converte-se em acontecimento discursivo, em meta-acontecime
como nos primeiros casos, nos que consistem na utilização dos media para dar a enter
para deixar entender aquilo que não se disse, preservando o direito a desm entir aquilo
erificar inoportuno, também nestes últimos casos é insustentável a dicotomia simplificad
aniqueia entre objectividade e subjectividade ou entrejuízos factuais ejuízos de valor. C
íto objectivo e cada juizo factual comporta subjacente um ou mais juízos de valor e uma
is prescrições, comporta valores ditados pela relação dos interlocutores em função da relai
pectiva aos factos relatados, comporta prescrições ditadas à maneira como os factos dev
constatados e à forma como devem ser expostos.
A afirmação das componentes valorativa, normativa e prescritiva do discurso preten
:nte objectivo e factual não equivale à descoberta de qualquer vício a erradicar do discur
insiste na afirmação de que não é possível separar estas diferentes dimensões e de que i
-tensão objectivante que serve de estratégia para inculcar a credibilidade dos corpos soei:
e fazem do discurso a sua profissão, numa sociedade ideologicamente marcada pelos valoi
sitivistas de verdade.
Para compreender que é mais de estratégia de credibilidade do que da objectividade d
ctos que se trata na pretensão referencial basta recordar que o próprio fundamento di
scursos factuais se baseia quase sempre na fiabilidade do testemunho do locutor e não na si
rservação e verificação directas. Quando vemos o telejomal ou folheamos as páginas de u:
rotidiano partimos habitualmente do pressuposto de que o jornalista é digno de confiança
rs relata aquilo que efectivamente aconteceu, fazemos fé na credibilidade da sua palavr
obrigatoriamente passivo, não tomou nenlium compromisso em ordem à mudança de opinião.
Assim, os debates públicos realizam o absurdo de só poderem mudar de opinião as pessoas que
não têm direito a tom ara palavra » (Dispaux, 1984: 56).
Os m eta-acontecim entos instituem assim um ponto de fuga que pára o processo
interminável de mise en abíme da enunciação. Depois da crise dos discursos fundadores, da
metafísica, o devir fragmentário do discurso tem nos dispositivos mediáticos da informação a
instituição de um lugar de palavra unitário a partir do qual é possivel perspectivar a
multiplicidade dos discursos do presente.

C onclusão

N as sociedades tradicionais, os mitos asseguravam o quadro de referência com um da


experiência do mundo.
Os homens acreditavam nos mitos, embora soubessem que não eram verdades no sentido
moderno do termo. N ão confundiam a verdade do mito com a verdade verificável do mundo.
A verdade do mito era da ordem da crença num quadro a priori de concepções do mundo que
dava coerência e unidade à experiência do mundo, às suas múltiplas dimensões, cósmica, física,
corporal, social, econômica, familiar, política. Eram quadros conceptuais, visões do mundo que
ofereciam explicações pertinentes para os acontecimentos com que a colectividade se confronta
ao longo do tempo. Não confundiam este saber mítico com o conhecimento dos acontecimentos
que se dão na história dos homens; por isso o mito pertencia a um mundo à parte, anhistórico,
e o seu conhecimento, partilhado indiscutivelmente por todos, formava o ponto de referência
comum, o espelho da identidade cultural e da integração da comunidade como um todo.
O mito é assim um a forma vazia de discurso, uma ordem de natureza prescritiva que dita
as regras de formulação da experiência, um a forma disponível para todos os investimentos que
perm anece válida enquanto for actualizada em práticas discursivas rituais históricas. Per­
m anece sempre um a diferença entre o tempo do mito e o tempo histórico do acontecimento e
um diferimento da actualização ritual em relação à totalidade mítica.
A época m oderna fez do pensamento mítico o dispositivo do obscurantismo e da
dominação, considerou-o como a cegueira da razão iluminada, como o entrave ao conhecimento
positivo da ciência. Ficou assim o homem moderno despojado dos quadros explicativos que
organizavam o desenrolar dos acontecimentos do mundo e lhe asseguravam coerência. É neste
contexto que o discurso dos media surge para organizar a experiência do aleatório e lhe conferir
racionalidade. Fá-lo de maneira especular, reflectindo e integrando num todo os fragmentos
dispersos com que é tecida a trama do presente. A esta prosa do presente confia o homem
m oderno a função remitificadora de uma perspectiva unitária securizante perante a desinte­
gração da identidade colectiva e de um a ordem identitária que lhe devolva um a imagem
coerente do destino.

33
As notícias como procedimento intencional:
acerca do uso estratégico de acontecimentos
de rotina, acidentes e escândalos (') (*)
Hai-vey Molotch e Marílyn Lester

T oda a gente precisa de notícias. N a vida quotidiana, as notícias contam-nos aquilo a que
nós não assistimos directamente e dão como observáveis e significativos happenings que seriam
rem otos de outra forma. Ao invés, nós enchemo-nos uns aos outros de notícias. Embora aqueles
que fazem a sua vida no trabalho jornalístico (repórteres, copy edilors, publishers, tipógrafos,
etc.) tenham necessidades suplementares de notícias, todos os indivíduos, em virtude dos modos
com o vêem e relatam aquilo que crêem ser o mundo pré-determinado, são diariamente
produtores de notícias.
As notícias são assim o resultado desta necessidade invariante de relatos do inobser-
vado, desta capacidade de inform ar os outros, e o trabalho de produção daqueles que estão
nos media. Este ensaio procura com preender as relações existentes entre os diferentes tipos
de necessidade de notícias e como é que as necessidades de notícias das pessoas diferen­
temente posicionadas perante a organização do trabalho jornalístico produzem o «conheci­
mento» social e político dos públicos (2).

(•) Rccdiçào de: American Sociological Review (Vol. 39, Fevereiro, 1974). «News as Purposivc Dchaviour:
On thc Stratcgic Use of Routine Evcnts, Accidents, and Scandals», de Harvey Molotch e Marilyn Lester. Direitos de
autor: American Sociological Association. Reedição com a aprovação do editor.
(‘) Gostaríamos dc agradecer a Aaron Cicourcl, a Mark Fishman, a Lloyd Fitts, a Richard Flacks, a Eliot
Friedson, a Richard Kinane, a Milton Mankoff, a Hugh Mchan, a Linda Molotch, a Milton Olin, a Charles Perrow, a
Michacl Schwartz, a David Street, a Gayc Tuchman, a John Weilcr, a Eugene Wcinstein e a Don Zimmerman. O apoio
financeiro foi dado por um subsidio do senado universitário, da Universidade da Califórnia, cm Santa Bárbara.
Q O termo «público» encontrado neste ensaio é utilizado no sentido que John Dcwcy lhe deu: um agrupamento
político de indivíduos como uma unidade social, através do reconhecimento mútuo dc problemas comuns, para os
quais se devem procurar soluções também elas comuns. Assim, a informação não vai meramente para os públicos, cria-
-os. Ver John Dcwey, The public and its problems (New York, Holt, Rinehart, 1927).

34
As bases teóricas

As pessoas fazem horários e planeiam (Miller, Gallanter c Pribram . 1960). Nós apren­
demos através da experiência de um paciente-sociólogo, no hospital (Roth, 1963) que. do ponto
de vista do observador distanciado, o facto de algo ter «realmente acontecido» será uma
«verdadeira razão» para fazer calendários, calcular o tempo, ou fazer planos para o futuro. As
pessoas, todavia, fazem relatos de actividades que tom am observáveis como acontecimentos
reais e padronizados. De uma maneira análoga à criação de um mundo espacial com sentido,
esses acontecimentos são usados como pontos de referência temporais para o ordenamento do
passado e do futuro. Os passados e os futuros são construídos e reconstruídos, como um processo
continuo das rotinas diárias. Em tais construções, um infinito número de actividades não são
presenciadas, e algum as passam a ser observáveis. Estas últimas transformam-se em recursos
- disponíveis e realmente necessários - para dividir, demarcar e moldar a vida, a história e o
futuro.
O nosso conceito não é um conjunto finito de coisas que «realmente aconteceram lá fora»
e do qual se faz a selecção; a nossa ideia não é análoga à percepção selectiva do mundo físico.
N ós propom os [seguindo Garfinkel (1967) e outros] que o que está «realmente acontecendo»
é idêntico ao que as pessoas prestam atenção. O nosso conceito segue assim a descrição de
Zim m erm an e Pollner do trabalho de «montar o corpus resultante»:

«Através do uso dos termos corpus resultante, desejamos realçar o facto de as


características das actividades socialmente organizadas serem realizações particulares
e contingentes do trabalho de produção e reconhecimento dos indivíduos para a
actividade... O corpus resultante é um corpus sem elementos regulares, isto é, não tem
por base um conjunto estável de elementos. O trabalho de montar um corpus resultante
consiste mais no continuo «encorporar e desencorporar» do que na recuperação
localizada ou remoção de um subconjunto de elementos de um conjunto maior,
transcendendo qualquer local particular em que o trabalho seja feito». (Zimmerman
e Pollner, 1970.)

Assim, os passados e os futuros não são realizados, de uma vez por todas, com novos
«suplementos» a em belezar um «todo» estabelecido. Um novo happening reinforma aquilo que
cada happening anterior era; por seu turno, cada happening obtém o seu sentido a partir do
contexto em que está inserido.
U m a ocorrência é um happening cognizado; ela pode ser infinitamente dividida e
elaborada em happenings e ocorrências suplementares. As ocorrências «im portantes» são
aquelas que são especialmente úteis na demarcação do tempo. N as suas vidas privadas, os
americanos usam conspicuamente ritos de passagem como aniversários, empregos, prom oções,
mudanças geográficas e falecimentos. Dependendo do contexto, outras ocorrências podem
servir a mesm a função (por exemplo, a data em que a casa foi pintada, o dia em que o filho de
alguém foi preso, o ano em que a colheita fracassou). Nós utilizaremos o termo «acontecimen­
tos» para nos referirmos a ocorrências que são criativamente utilizadas para tais propósitos.
Logo que um tal uso ocorre, um a ocorrência materializa-se, em certo grau, como um objecto
no mundo social (Applebuum, 1973) e fica assim disponível como recurso para a construção
de acontecimentos no futuro.
ui. Os indivíduos «veem» cadeiras quando entram numa sala, dc
irrente para se sentarem. Os sociólogos, por vezes, «vêem» a religião cor
tiva nos seus dados, porque, algumas vezes, «funciona». O processo a
ontos de referência temporais significa que as ocorrências tomam-se ac
irdo com a sua utilidade para m indivíduo que esteja a tentar, numa o
m ar a sua experiência (>). Mas a criação de pontos de referência temporai:
m po. De cada vez que há necessidade de entalhar tem poralm ente a realid
'azer isso constrange a escollia do tipo de entalhadura a ser feito. Os acontec
isim, até certo ponto, persistir, m as não são intrinsecam ente duráveis. Qur
um recurso potencial para construir um acontecimento, e o acontecim ento:
stá continuamente dependente dos fins em vista para a sua durabilidade,
ividades de pessoas - comunidades, clãs, sociedades, civilizações - parecem
(ou m andam criar para si) demarcações temporais que são supostas ser partilh
entre aqueles que são considerados e se consideram indivíduos competente
de (•). O Tempo Público é o termo que utilizaremos para representar aquela dimei
iectiva, através da qual as comunidades humanas vêm a ter o que é consideradc
lo padronizado e perceptualmente partilhado, presente e futuro. Assim comc
tos de uma vida individual consiste em acontecimentos privados, também o ter
analogamente constituído através de acontecimentos públicos. Assim, o conteúdo
jes de um indivíduo da história e do futuro da sua comunidade vem a depender i
is através dos quais os acontecimentos públicos se transformam em recursos do discu
ntos públicos. O trabalho dos historiadores, jornalistas, sociólogos e analistas polític
realizar esta tarefa para vários públicos, oferecendo aos cidadãos um leque
icias a partir das quais se elabora um sentido do tempo público.
Im a vez que os indivíduos ou as colectividades têm propósitos diferentes, enraizados e
is biografias, estatutos, culturas, origens sociais, e situações específicas, eles teri
ções diferentes, e por vezes opostas, para as ocorrências. Uma questão surge quando h
nenos, duas utilizações opostas, envolvendo pelo menos duas partes que têm acesso ac
nismos de criação de acontecimentos. Para as questões públicas, estes mecanismos são c
s de comunicação de massas.
Propósitos antagônicos à partida levam a relatos contraditórios do que se passou ou, o qu
n a variante da mesma questão, à controvérsia sobre se aconteceu realmente algo di
lificante. Nestas circunstâncias, toma forma uma problemática. O trigésimo ou o décimc
■eiro aniversário, ou a menoDausa. ou a assinatura de um arrendamento, tomar-se-ão uma
lugar a um a luta acerca da natureza da ocorrência, e embebidos nessa luta estão interesses
diferentes num resultado. Costuma-se pôr em causa, por exemplo, se a menopausa é um
«verdadeiro» acontecimento. Os partidários da libertação da mulher defendem que embora seja
de facto tuna ocorrência, isto é, acontece «simplesmente», não é um acontecimento. Não
deveria servir de característica demarcadora do tempo do meio ambiente através da qual certas
consequências (por exemplo, nenhuma mulher deveria ter grandes responsabilidades) se
deveríam seguir. Outros (especialmente os homens) defendem o contrário; e é nestes diferentes
relatos do significado da ocorrência (isto é, se é ou não um acontecimento) que reside a
problem ática.
Em todas as problemáticas públicas, estão em funcionamento processos análogos. Nós
debatemos, por exemplo, se o «massacre de My Lai» aconteceu «realmente» ou se foi «apenas»
uma busca de rotina e um a missão de destruição. Essa escolha entre relatos determina a natureza
da ocorrência, e ao mesmo tempo o grau em relação ao qual foi suficientemente especial para
ser usado para reordenar as ocorrências e os acontecimentos passados, alterar prioridades, e
tom ar decisões. Q ualquer questão pública envolve um a luta semelhante em tom o de uma
ocorrência e dos interesses semelhantes no resultado: será que a influente ITT enviou aquele
m em orando como especificado? A taxa de criminalidade está tão alta que «já não se pode andar
nas ruas?» A existência de um a questão demonstra que existem necessidades de acontecimento
(event needs) opostas relativamente a um a dada ocorrência. Algumas vezes, a própria questão
pode transformar-se num a questão. Por exemplo, um político podería acusar o seu adversário
de ter «cozinhado» deliberadamente uma «falsa questão» para desviar a atenção do votante da
«verdadeira questão». Nesses casos, a questão das questões tom a-se num acontecimento.
O trabalho de prom over ocorrências ao estatuto de acontecimento público salta das
necessidades de acontecimento daqueles que fazem a promoção. Ao contrário do caso dos
acontecimentos privados, implica a vivência da experiência para um grande número de pessoas.
Este potencial impacto público significa que o efeito multiplicador social do trabalho daqueles
que criam notícias para públicos é muito maior que o efeito das pessoas que criam notícias para
elas próprias e os seus homólogos mais chegados. Embora existam processos e distinções
análogas para os acontecimentos privados e públicos, este maior impacto destes últimos leva-
-nos a centrar a nossa discussão nos acontecimentos públicos.

L in h as do p ercu rso de desenvolvim ento dos acontecim entos públicos

N o percurso de um acontecimento público, uma ocorrência passa através de um conjunto


de agências (indivíduos ou grupos), cada uma das quais ajuda a construir, através de um grupo
distinto de rotinas organizacionais, o que o acontecimento terá mostrado ser, usando como
recursos o trabalho de agências que chegaram antes, antecipando-se ao que agências sucessivas
«poderíam entender» (!).

(s) Aaron Cicourcl argumenta de modo análogo no que diz respeito à criação de um delinquente juvenil. Um
delinquente é constituído por um conjunto de relatos produzidos por uma serie de agencias de execução legal
motivados pela necessidade de parecer racional aos outros, dentro do sistema processual. Quaisquer actividades
juvenis serão realizadas (através de um trabalho de relato) de acordo ou contra alguma lei. Assim, um delinquente é
o resultado de uma cadeia de agencias processuais que necessitam de fazer um «trabalho competente com objcctivos
práticos». Isto é, qualquer que «rcalmcnte seja» o acto, a pessoa (ou acontecimento), é visto através do trabalho

37
Pela simplicidade, nós consideramos os acontecimentos como sendo constituídos por três
agências principais (‘). Primeiro, há os promotores de noticia {news promoters) - aqueles
indivíduos e os seus associados (por exemplo, Nixon, a secretária de Nixon; Kunstler, o porta-
-voz de Kunstler; um-homem-que-viu-um-disco-voador) que identificam (e tom am-na assim
observável) uma ocorrência como especial, com base em algo, por alguma razão, para os outros.
Em segundo lugar, há os news assemblers (*) (jornalistas, editores e rewritemen) que,
trabalhando a partir dos materiais fornecidos pelos promotores, transformam um perceptível
conjunto finito de ocorrências promovidas em acontecimentos públicos através de publicação
ou radiodifusão. Finalmente, há os consumidores de noticia (news conswners) (por exemplo,
os leitores), que analogamente assistem a determinadas ocorrências disponibilizadas como
recursos pelos meios de comunicação social e criam, desse modo, nos seus espíritos, uma
sensação do tempo público. Cada agência incorpora sucessivamente o mesmo tipo de trabalho
de construção, baseado em propósitos que determinam dadas necessidades de acontecimentos.
M as o trabalho levado a cabo em cada ponto bloqueia ou inibe um grande número de
possibilidades de criação de acontecimentos. Neste bloqueio de possibilidades reside o poder
do trabalho jornalístico e toda a actividade de informação. Agora vamo-nos voltar para uma
análise detalhada do trabalho jornalístico realizado por cada agência no processo de construção
noticiosa e as implicações de poder desse trabalho.

prático dos membros. Vcja-se o seu livro, The social organization ofjuvenile justice (New York, Wilcy, 1968). Esta
visão afasta-sc fundamcntalmcnte da teoria do gatekeeping do trabalho noticioso, o qual vc o mesmissimo
acontecimento influenciado por uma série de jornalistas (cf. Tamotsu Shibutani, 1966). Para uma análise do
gatekeeping, veja-se D. M. Whitc, 1964; Giebcr, 1964).
(6) Estas agências, como são aqui apresentadas, são gcralmcnte compatíveis com os seis «elementos básicos»
de Holsti; fonte, processo de codificação, mensagem, canal de transmissão, recipiente, processo de descodiflcaçào.
Ver Olc R. Holsti, 1969, p. 24).
(•) Nota de tradução - News assemblers - Todos os profissionais do campo jornalístico que participam na
«montagem» do produto jornalístico.

38
1. Promoção

Existem interesses na promoção de certas ocorrências para utilidade pública, assim


como interesses na prevenção de certas ocorrências de se tom arem acontecimentos públicos.
Por «prom oção» nós entendemos a acção de um actor, que ao presenciar um a ocorrência ajuda
a tom á-la pública para um grande número de pessoas. Nalguns casos, a prom oção pode ser
directa, grosseira e óbvia - como no trabalho de relações públicas (Boorstein, 1961) ou numa
actividade política transparente (por exemplo, uma conferência de imprensa de um candidato).
N outros, o trabalho de promoção não é tanto para proveito próprio, como acontece quando um
cidadão tenta denunciar um mal para a saúde. Geralmente o trabalho de prom oção gira em
tom o da nossa própria actividade, que como toda a actividade social é realizada tendo em
m ente os seus potenciais usos prospectivos e retrospectivos. Assim, a conferência de imprensa
é realizada em função do impacto público que se espera ter; uma manifestação de protesto é,
da m esm a maneira, direccionada para a sua selecção como um acontecimento (MyerhofT,
1972). De igual m odo, um a decisão para bombardear o Vietnam do Norte é acompanhada de
um o-que-dirão-as-pessoas e um para-quê-tudo-isto (por exemplo, a sua negabilidade) como
dois dos seus traços constituintes. N a nossa linguagem, fazer e prom over fazem parte do
m esm o processo; o percurso da ocorrência estabelecerá, por fim, o que foi «feito». Isto é, se o
bombardeamento não foi largamente noticiado ou se foi noticiado como «bombardeamento de
alvos militares seleccionados», a natureza do próprio acto, da perspectiva do agente (Nixon)
diferirá radicalmente do resultado de uma cobertura amplamente difundida que estipula
«bombardeamento maciço indiscriminado». Levar em linha de conta estas possíveis cober­
turas faz parte do trabalho de um produtor noticioso e é essencial para uma competente criação
de acontecimento Ç).

O A nossa referencia de depoimentos politicos por parte de figuras públicas levantou a questão das mentiras
aos leitores de versões prévias deste artigo. Baseado no princípio de que a criação de acontecimentos provém
univcrsalmcntc de objcctivos contidos no contesto, o nosso esquema não faz uma distinção objcctiva entre dizer uma
verdade c dizer uma mentira. Para nós, uma mentira é uma ideia realizada com objectivos a curto prazo, incluindo
aquelas respeitantes à necessidade de relacionamento com os outros. Conseguimos distinguir uma mentira pelo facto
que uma outra parte (observador) a vê como uma manobra deliberada para levar a cabo um objcctivo definido sem
respeitar as condições de uma suposta realidade objcctiva. Esta suposta falta de correspondência com a realidade é
tipicamente invocada quando a segunda parte tem propósitos contrários aos do mentiroso. As mentiras, como
quaisquer idéias, são assim criadas porque são «procuradas» pela segunda parte. Quando um mentiroso é «apanhado»
- isto é, quando não consegue convencer os outros de que o seu relato corresponde a uma realidade objcctiva - tenta
dominar a situação: (a) demonstrando que a segunda parte estava, de facto, à procura da mentira, a ser «provocadora»,
ou a exagerar; ou (b) minimizando o efeito da assunção da objcctividadc, reclamando sclectivamcntc a ambiguidade
inerente no caso presente, como expresso nas exigências de que «todas as coisas dependem do modo como as vemos»,
ou «se soubesses o que eu sabia na altura, verias que corresponde, na verdade, ao que é cfcctivamcntc a realidade».
Uma asserção sclectiva de um mundo subjectivo toma-sc, assim, um recurso como qualquer outro.
Embora os promotores promovam geralmente ocorrências pelas quais eles próprios são
responsáveis, eles também têm acesso (dentro de certos limites) a prom over as actividades de
outros - incluindo indivíduos cujos propósitos são opostos aos seus próprios. Assim, um
candidato político pode «expor» a ocorrência de trabalho corrupto de um político rival ou tirar
partido dos seus efeitos benéficos. De igual modo, Richard Nixon poderia prom over cartas de
mães de prisioneiros de guerra que foram escritas como comunicações privadas e talvez não
previstas pelos seus autores como acontecimentos públicos. A riqueza e a ironia da vida política
é feita de uma desenfreada competição especializada entre pessoas que têm acesso aos media,
e como tal tentam mobilizar ocorrências como recursos para o seu trabalho de construção da
experiência.

2. M ontagem

O pessoal dos media forma uma segunda agência na produção de acontecimentos


públicos. Da sua perspectiva, um número finito de coisas «acontecem realmente», das quais as
mais especiais, interessantes ou importantes são para ser seleccionadas. A sua tarefa implica
verificar o valor de uma «estória», o que pode envolver meses de pesquisa ou um a fugaz
introspecção ou consulta com um colega. A típica concepção do papel dos m eios de
comunicação social, pelo menos no Ocidente, nas sociedades formalmente sem censura, é que
eles são como que os repórteres-reflectores-indicadores de uma realidade objectiva, composta
de acontecimentos reconhecidamente «importantes» do mundo. Armado de tempo e dinheiro,
um especialista com «faro para a notícia» será conduzido a ocorrências que indexam,
efectivam ente, essa realidade. Qualquer desvio deste ideal tende a ser tratado como «parcia­
lidade» ou um a outra circunstância patológica.
O facto de as necessidades de acontecimentos dos responsáveis pela m ontagem ajudarem
a form ar acontecimentos públicos dá a entender a importância das actividades organizacionais
através das quais a notícia é produzida. A natureza dos media, enquanto organização formal,
enquanto rotinas de trabalho nas salas de redacção, enquanto padrões de mobilidade profissional
para um grupo de profissionais, enquanto instituições de criação de lucros, está inextrível e
reflexivamente ligada ao conteúdo das noticias publicadas (Breed, 1955; Gieber, 1964;
Tuchman, 1972a, 1972b, 1973). O ponto em que as organizações jornalísticas geram neces­
sidades de acontecimentos entre os news assemblers, necessidades essas que diferem dos
prom otores de ocorrências, é o ponto em que os media têm um papel institucionalmente
padronizado e independente na produção de noticias. Como é que então o trabalho de produção
dos media coincide ou entra em conflito com o trabalho de construção dos promotores? Os
propósitos dos «eivs assemblers, como contrastam ou coincidem com os propósitos dos
diferentes tipos de promotores, determinarão as respostas para essa questão.
Os poderosos promotores podem tentar aumentar a correspondência entre as suas
necessidades de acontecimentos e as dos news assemblers, pressionando os media a alterar as
suas rotinas de trabalho. As sanções que os poderosos exerciam para controlar as rotinas dos
media podem ser directas e grosseiras (por exemplo, discursos ameaçadores, boicotes de
publicidade, acções litigiosas contra os radiodifúsores) ou subtis (por exemplo, prêm ios de
jornalism o e o estímulo, através de entrevistas regularizadas, fugas de informação e conferên­
cias de imprensa, de padrões que inibem o trabalho de acompanhamento (follow-up ), a
experimentação e o desvio). Assim, por exemplo, todos os grandes canais de televisão norte-
americanos (os chamados networks) abandonaram o seu hábito de «análise imediata» de
discursos presidenciais como resposta, cremos, a pressões da Casa Branca. O que pode vir a
evoluir como um «cânone profissional» jornalístico terá sido historicamente fundamentado
numa tentativa dos poderes institucionalizados para manter a hegemonia ideológica. Neste
caso, as necessidades de acontecimentos dos news assemblers vêm a assemelhar-se às dos
promotores que afectam as rotinas de trabalho jornalístico.
N as sociedades com uma imprensa controlada formalmente, a relação substantiva entre
os news promotors e os news assemblers, é menos obscura. Nessas sociedades, os meios de
comunicação social estão organizados para servir um propósito mais amplo (por exemplo, a
criação do homem socialista ou a manutenção de um dado regime). A validade tende assim a
equiparar-se à utilidade. Presumivelmente, a evolução e o avanço na carreira e a sobrevivência
depende da capacidade de cada um de entrosar o seu «faro para a notícia» com as concepções
dos patrões dos propósitos sociais gerais e da utilidade de um a dada ocorrência.
U m a vez que as concepções ocidentais das notícias residam na pressuposição de que existe
um a realidade exterior para ser descrita, o produto de qualquer sistema que negue esta premissa
é qualificado de «propaganda». Assim, na mente ocidental, a distinção entre notícia e
propaganda está no facto de a premissa ser embutida no trabalho dos news assemblers: aqueles
com propósitos deliberados produzem propaganda; aqueles cujo único propósito é reflectir a
realidade produzem notícias.
Como Tuchm an (1972b) tem defendido, a assunção de um a realidade objectiva permite
aos produtores noticiosos ocidentais, em todos os níveis, fazer livremente o relato das suas
actividades - isto é, eles noticiam (ou, pelo menos, tentam fazer o melhor para noticiar) o que
existe. M as este gênero de autodefinição dos praticantes não deve deixar obscurecer a
intencionalidade do trabalho dos media. De facto, essa autodefinição faz parte das próprias
actividades organizacionais, através das quais o trabalho jornalístico se faz. Ao deixarmos de
ter confiança na capacidade de indexar «o que realmente se passou» (Wilson, 1970), nós
evidenciamos as semelhanças básicas entre as produções noticiosas em qualquer contexto social
ou político.
N o Ocidente como no Leste, existem paralelos entre as necessidades de acontecimentos
dos news assemblers e os promotores. Estes paralelos não resultam necessariamente de tramas,
conspirações, traições ou mesmo de afinidades ideológicas ('). Embora não as ignoremos,
estamos intrigados com a possibilidade de notícias produzidas através das necessidades
paralelas de promotores e «news assemblers», que surgem por razões diferentes. Embora talvez
não estejam conscientes das implicações do trabalho uns dos outros, eles,.de qualquer modo,
conseguem produzir um produto que favorece as necessidades de acontecimentos de certos
grupos sociais e desfavorece as de outros.(*)

(*) A. J. Licbling (1949) fornece ilustrações ancdóticas da ocorrência de tais conspirações e chicaniccs. Vcja-
-sc também qualquer edição de Chicago Journalism Reriew ou (More): A Joumalism Review, ou Robcrt Cirino (1970).
3. Consumo

Os elem entos do público, saciados com o trabalho publicado e radiodifúndido nos meios
de comunicação social, desempenham o mesmo tipo de actividade constituinte que os news
assemblers.
O resíduo de biografia, materiais anteriores disponibilizados pelos media e o presente
contexto, tudo isso molda o trabalho do consumidor de construção de acontecimentos. O seu
trabalho noticioso é, a nível dos processos, idêntico ao dos promotores e dos news assemblers,
mas com duas importantes diferenças: o lote de ocorrências disponíveis enquanto recurso, tem
sido radicalm ente truncado através do trabalho noticioso de outras agências; ao contrário dos
news assemblers, não possuem, habitualmente, qualquer base institucional donde possam
difundir o seu trabalho.

U m a tipologia dos acontecim entos públicos

A pesar da semelhança de métodos de produção jornalística dos indivíduos e dos


organism os, acham os útil descrever certas diferenças importantes nos m odos com o as
ocorrências ascendem ao estatuto de acontecimento público (’).
Ao utilizar esta tipologia, estamos a impor tipos ideais nos dados. De acordo com esse
facto, qualquer acontecimento que possa ser tirado da primeira página de um jornal com
propósitos ilustrativos pode conter alguns traços de cada tipo de acontecimento. D e igual modo,
a categoria em que cada tipo de acontecimento «encaixa» pode igualmente m udar com os traços
variáveis ou os esquemas de interpretação, que podem levar a um a revisão do que «realmente
aconteceu».
Fazemos a distinção entre os acontecimentos através das circunstâncias do trabalho de
prom oção que os põe à disposição dos públicos. As respostas a duas questões que podem ser
feitas acerca de qualquer acontecimento fornecem a base para a nossa tipologia. Primeira: o
«happening» subjacente forma-se através da actividade humana intencional ou não? Segunda,
a parte que promove a ocorrência em acontecimentos é a mesma que inicialmente leva a cabo
o happening em que o acontecimento se baseia? A relevância destas questões tom ar-se-á mais
clara à m edida que cada tipo de acontecimento for descrito.

A contecim entos de ro tin a

Os acontecimentos de rotina são distinguíveis pelo facto de o happenning subjacente em


que presumivelmente se baseiam serem realizações intencionais e pelo facto de as pessoas que
se encarregam do happenning (a que chamamos «os executores» ou effectors) serem idênticas
àquelas que os promovem em acontecimentos. O acontecimento de rotina protótipo é a
declaração de conferência de imprensa; no entanto, a grande maioria de notícias que aparecem

f ) Isto é, seguindo a instrução ctnonictodológica, temos até agora tentado suspender a nossa crença numa
ordem normativa. Todavia, para estender a nossa análise a uma útil abordagem de «senso comum» às noticias, c para
fomeccr instrumentos de descrição concisa ao trabalho prático, mundano, entramos na «atitude da vida quotidiana»
nesta secção do ensaio.
na imprensa diária cneaixani-se nesta categoria: por isso, com base na frequência, chamamos-
-Ihes «rotina» (>0 ).
Se um dado prom otor é ou não o «mesmo»que o «executor», pode ser difícil de determinar
em alguns casos. É claro, por exemplo, que se o secretário de imprensa de Rjchard Nixon
prom ove a viagem do presidente à China ou à Rússia, o «executor» (Nixon) e o prom otor
(secretário de imprensa) podem ser considerados idênticos para todos os efeitos. Se, todavia,
N ixon ler um a carta na televisão, dirigida a ele e escrita pela mulher de um prisioneiro de guerra,
o grau de identidade entre Nixon, o promotor, e a mulher do prisioneiro de guerra, como
«executor», é menos claro. N a medida em que os propósitos de ambas as partes podem ser
idênticos - trazer, por exemplo, a atenção do público para os prisioneiros de guerra e/ou para
m obilizar apoio para a guerra - , o prom otor e o agente podem ser considerados idênticos e a
carta escrita, com o acontecimento público, pode ser classificada como rotina. Naturalmente,
pode acontecer que Nixon queira dar atenção aos prisioneiros de guerra com outros propósitos
a longo prazo («ulteriores»), não partilhados pela mulher do prisioneiro de guerra. N esse caso,
N ixon está não só a usar a sua posição para adiantar as necessidades de acontecimento público
do «executor», como também está a fomentar uma nova ocorrência de sua autoria, prom ovendo-
-a com o acontecimento público. Depois de registar esse gênero de trabalho de construção, a
«nova» ocorrência é analiticamente igual a uma outra qualquer.
Em bora todos os acontecimentos de rotina partilhem certas características, a elucidação
dessas mesmas características não nos diz o que leva um acontecimento de rotina ao êxito.
Todos os dias são realizados um sem-número de actividades tendo em vista a criação de
acontecimentos de rotina. Mas essas intenções devem complementar o trabalho feito pelos
news assemblers, se o resultado for um acontecimento público. O sucesso de um potencial
acontecimento de rotina é, por isso, contingente na definição de uma ocorrência como
«estória» (**) feita pelos news assemblers. Por outras palavras, aqueles que procuram aconte­
cim entos públicos através da promoção das suas actividades (ocorrências) devem ter acesso a
essa segunda fase da criação do acontecimento. Relativamente a esta acessibilidade, podem
ser discutidos vários subtipos de rotina:

a) aqueles em que os promotores do acontecimento têm acesso habitual aos news


assemblers
b) aqueles em que os promotores do acontecimento procuram perturbar o acesso de
rotina dos outros aos /tetvs assemblers com o intuito de criarem acontecimentos
próprios; e
c) aqueles em que o acesso é conseguido pelo facto de os promotores e os news
assemblers serem os mesmos.

O Robcrt Maneia (1971), numa tipologia análoga dos acontecimentos, trata-os como fenômenos objcctivos
que sáo classificados consoante o modo como se encaixam bem em regras c rotinas de organizações formais
correntes.
(*) Nota de tradução-O termo «estória» é muito utilizado na giria dos jornalistas norte-americanos, e cada vez
mais cm Portugal, para referir simultaneamente acontecimento c noticia. Ver o artigo de Tuchman na terceira parte
desta antologia.
c o in c id e m c o m a s a c tiv id a d e s d e p r o d u ç a o jo m a h s tic a d o p e s s o a l d o s m e io s d e c o m u n ic a ç ã o
social. A s s im , p o r e x e m p lo , p a r te -s e s e m p re d o p r in c ip io d e q u e o P r e s id e n te d o s E s ta d o s
U n id o s d iz c o is a s « im p o rta n te s » . E s ta « im p o rtâ n c ia » é tid a c o m o c e r ta , e u m r e p ó r te r d e
W a s h in g to n q u e a ja s e g u n d o o p r e s s u p o s to c o n tr á rio p e r d e r á p r o v a v e lm e n te o s e u e m p r e g o . O
a c e s s o h a b itu a l n e s te p a ís e s tá p r a tic a m e n te lim ita d o a o s a lto s f u n c io n á r io s d o g o v e r n o , às
p r in c ip a is f ig u r a s c o le c tiv a s , e , e m m e n o r e s c a la , a c e r ta s p e r s o n a lid a d e s f a s c in a n te s ( T u c h m a n ,
1 9 7 2 b ). E s s a s p e s s o a s , e s p e c ia lm e n te a s d a v id a p o lític a , e s tã o m a is p r e o c u p a d a s n a m a ­
n u te n ç ã o d o s s e u s p ó d io s e n a o r g a n iz a ç ã o d a s n o tíc ia s d e m o d o a q u e o s s e u s o b j e c t i v o s nâc
>ejam a f e c ta d o s , n a c o n t í n u a c o m p e tiç ã o p a r a c r i a r p ú b lic o s . E s s a c o m p e t i ç ã o p o d e e n v o l v e
u ta s o c a s io n a is c o m o u tr a s f ig u r a s p o d e r o s a s , o u , p o r o u tr o la d o , c o m g r u p o s c o n te s ta tá r io s
r o c u r a n d o d a r u m c o n j u n t o d i f e r e n te d e e x p e r i ê n c i a s p ú b lic a s . N ã o o b s t a n te a s c o m p e t i ç õ e
i tr a o u in te r g r u p o s , o a c e s s o h a b itu a l e n c o n t r a - s e g e r a l m e n t e e n t r e a q u e l e s c o m e x tr e m
q u e z a o u o u t r a s f o n te s in s t i t u c i o n a i s d e p o d e r . D e f a c to , e s te p o d e r é t a n t o u m r e s u l t a d o d
esso h a b i t u a l c o m o u m a c a u s a c o n t í n u a d e s s e a c e s s o . O a c e s s o d e r o t i n a é u m a d;
i p o r ta n te s f o n t e s e s u s t e n t á c u l o s d a s r e l a ç õ e s e x i s te n te s d e p o d e r .
A função do acesso habitual é ilustrada por um acontecim ento de rotina, com o
ispecção» feita por Richard N ixon a um a praia de Santa B árbara depois de um calam ito
ram e de petróleo em 1969 (M olotch, 1970). N ixon foi exibido a sair do seu helicóptero nut
te do areai «inspeccionando» a praia que estava sob os seus pés. E scusado será dizer que
s talentosos assistentes poderíam ter feito a inspecção p o r ele; além disso, N ixor
im petente, do ponto de vista científico, para «inspeccionar» praias. A actividade foi u
ativa de criar um acontecim ento para se inform ar o público am ericano de que R ich ard N i;
/a p esso alm ente p reocupado com o p etróleo nas praias. O s seus esfo rço s e a inspec
im p o r fim d izer ao p ú b lico que as praias estavam de facto lim pas. Q u an d o F id e l C a
i u m hospital ou q u an d o M ao verifica u m g erador, está em fu n cio n am en to u m a d inân
Jhante. Q uando este tipo d e oconrência se to m a n u m b em su ced id o a c o n te c im e n to públ
;ultados ap ro x im am -se d o s p revisto s p elo « ex ecu to r» /p ro m o to r.
Embora os news assem blers ajam de acordo com o pressuposto de que aqueles que dt
ridade administrativa são os que têm mais noticiabilidade (*), (Tuchman 1972b), ot
iuos e grupos estão ocasionalmente em posição de gerar acontecimentos. Conl
íto o acesso do Presidente dos EUA aos meios de comunicação social continua para
po e do assunto, o acesso de outros grupos - por exemplo, porta-vozes para os dii
lheres, os direitos cívicos e ajuventude - terá altos e baixos de acordo com o factor ti
ir (Molotch e Lester, 1972). Por esta razão, o acontecimento de rotina ideal tip
(b) Acesso dismptivo. Aqueles que necessitam de acesso habitual à produção de
acontecimentos e que querem contribuir para a experiência pública contam geralmente com a
disrupção (M yerhoff, 1972). Eles têm de «fazer noticias», entrando em conflito, de qualquer
modo, com o sistem a de produção jornalística, gerando a surpresa, o choque ou uma qualquer
forma latente de «agitação». Assim, os pouco poderosos perturbam o mundo social para
perturbar as formas habituais de produção de acontecimentos. Em casos extremos, reúnem-se
multidões num local inapropriado para intervir no plano diário de ocorrências e acontecimentos.
Essas actividades constituem, de certa forma, acontecimentos «anti-rotina». Esta óbvia
disrupção da actividade normal e a sua ameaça ao mundo social estimula a cobertura dos meios
de comunicação social de massa.
A ocorrência disruptiva toma-se um acontecimento porque é um problema para os
relativamente poderosos. Nós diriamos que um acontecimento de protesto - por exemplo, uma
ocupação de instalações por parte de estudantes ou um comentário de Jerry Rubin - recebe um
tratamento noticioso precisamente porque é considerado um a ocorrência que as «pessoas
sérias» precisam de compreender. Qual o significado de uma ocupação de instalações? Há
grande agitação entre os estudantes? Será que violarão as secretárias? Está a ordem em perigo?
As pessoas interessadas na manutenção do processo corrente precisam de responder a estas
questões antes de desenvolverem a estratégia e os planos para a restauração da ordem. A
cobertura que daí resulta fala tipicamente destas implicações - não dos assuntos que estiveram
na origem deste protesto. Assim, a actividade de protesto estudantil só continua como assunto
porque os partidos importantes discordam acerca do significado do protesto e do modo como
deveria lidar-se com a situação. Algumas pessoas influentes de esquerda norte-americana
acham que isso significa que certas instituições precisam de ser reformadas; alguns conserva­
dores im portantes entendem que os estudantes são uns desgraçados e deveríam ser menos
apaparicados. As questões surgem do desacordo em relação aos métodos e significados entre
as partes com acesso. O fulcro da questão está geralmente no modo como lidar com dissidentes,
e não nas questões levantadas por estes. É por isso que os líderes das revoltas dos estudantes
quase nunca são citados com relevo na imprensa (").
Nós diriamos que a cobertura do protesto estudantil se desvanece logo que baixam as
necessidades de acontecimento de um a ou outra parte importante. O mistério do protesto
estudantil diminui à medida que o cenário se vai tipificando através da repetição: ocupam-se
edifícios — fazem-se discursos — as administrações respondem — chama-se a polícia —
partem-se cabeças— prendem -se os cabecilhas— vai-se para os tribunais. Nenhum a violação,
pouca destruição, um a reforma de fachada (talvez). As pessoas podem voltar às suas actividades
quotidianas; a necessidade estratégica de ser informado está satisfeita.
Existe um a segunda razão para este tipo de acontecimento de rotina diminuir em utilidade
para as pessoas importantes. A própria reportagem da ocorrência pode vir a ser vista como
agente provocador da criação de mais ocorrências do mesmo gênero. Assim, um interesse se

(") V er Kirkpatrick Sale (1973). Esta situação modificou-se finalmcnte cm relação à actividade contra a
guerra, porque a posição e as necessidades de acontecimentos da imprensa americana c uma parte substancial da elite
começaram a simpatizar com o movimento. Assim, as necessidades de acontecimento de um segmento da elite veio
a corresponder aos contcstatários; de igual modo, a guerra tomou-se no assunto, não no protesto em si.

45
desenvolve na eliminação desses acontecimentos do noticiário — ou através da tomada de
medidas de prevenção (por exemplo, abrandando a resistência às exigências dos estudantes) ou
concordando em não as repercutir. A polícia, por exemplo, pode i mpedi r o acesso dos repórteres
ao locais de motins raciais, e ser apoiada pelos políticos, líderes cívicos, assim como pelos
proprietários da imprensa. Certos cânones da «responsabilidade de imprensa» estão ao dispor
dos editores que preferem passar por cima dos acontecimentos anti-rotina. A intencionalidade
subjacente a todos os acontecimentos de rotina pode ser selectivamente entendida nos
mom entos adequados para justificar o cancelamento de uma «estória», promovida apenas pelo
seu im pacto noticioso (,!). Quando as pessoas importantes vêem que um potencial acontecim en­
to pode ter custos demasiado elevados, tendo em conta as suas intenções, existem vários recursos
para o eliminar.
(c) Acesso directo. Algumas «estórias» são geradas por news assemblers que vão
«desenterrar» as noticias. Os features (**) são geralmente deste gênero, mas muitos artigos de
«notícias dignas de crédito» podem ser do mesmo tipo. Por exemplo, os news assemblers ao
examinarem o registo policial podem detectar que «o crime está a aumentar» ou podem
entrevistar ou sondar um a população acerca das alterações de comportamento. Este trabalho
jornalístico é rotina, no sentido em que criar a ocorrência (por exemplo, a verificação do registo,
a sondagem acerca do comportamento) pode ser um a actividade intencional prom ovida como
acontecimento público pelo «executor». Todavia, é distinto no que respeita ao facto de o
prom otor e o news assembler serem os mesmos. Quando esta identidade é suficientemente
transparente, os media envolvidos podem ser castigados por falta de «objectividade» ou por se
embrenharem em «muckracking» (*) ou «jornalismo cor-de-rosa». U m dogm a do «novo
jornalism o» é que essa produção jornalística é de facto apropriada. Esta controvérsia é, no nosso
entender, um conflito em tom o da questão se os jornalistas podem ou não embrenhar-se
legitimamente na promoção transparente de notícias, ou se devem continuar a apresentar-se
com o relatando aquilo que objectivamente acontece (”)•

(l!) Em resposta a uma queixa de que o seu jornal retinha uma importante «estória», um repórter do Los Angeles
Times escreveu a Molotch a seguinte defesa: «Nós não publicámos uma 'estória' desenvolvida acerca d e ........ devido
aos meus editores terem considerado que em virtude de o caso d e ........ não se ter tomado num assunto de grandes
proporções envolvendo a comunidade universitária, nós poderiamos ser acusados de criar um assunto se lhe déssemos
um tratamento exaustivo nesta altura. Não se trata de um caso de retenção de informação, mas sim de preocupação por
parte dos meus editores cm tentarem evitar a situação em que algo se toma num assunto importante porque um diário
de grande tiragem escreveu exaustivamente acerca dele». (Comunicação pessoal ao autor, 8 de Janeiro de 1971).
(*) Nota de tradução - Os features são noticias que gcralmente dão destaque a uma faceta dum acontecimento
ou assunto, ou mesmo a uma pessoa, e geralmcntc acentuem os aspectos de interesse humano.
(*) Nota de tradução - O termo muckracking provem do termo muckrakers c foi utilizado para designar um
grupo de jornalistas que marcou o jornalismo norte-americano no fim do século XIX e no inicio do século xx com os
seus trabalhos de investigação sobre a corrupção e as desigualdades sociais da época. O termo muckrakcr significa,
literalmentc, «raspar a imundicic».
(” ) O que é ou não uma técnica transparentemente não objectiva muda historicamente. Fishman (1980)
pormenoriza o modo como a utilização de entrevista nas noticias veio a ser um ponto de partida radical da cobertura
noticiosa objectiva. A técnica foi introduzida como parte do movimento do jornalismo cor-de-rosa c foi denunciada
pelos jornais mais tradicionais.
A cidentes

U m acidente difere de um acontecimento de rotina em dois pontos: (1) o «happening»


subjacente não é intencional, e (2) aqueles que o promovem como acontecimento público são
diferentes daqueles cuja actividade deu origem ao acontecimento. No caso de acidentes, as
pessoas empenham-se numa actividade intencional que leva a happenings imprevistos que são
prom ovidos e transformados por outros em acontecimentos. Os acidentes residem assim nos
cálculos errados que levam à quebra da ordem habitual.
Acontecimentos como o derramamento de petróleo em Santa Bárbara, as prisões do caso
W atergate, a fuga de gás de nervos em Dugway Proving Ground, e a inadvertida perda, por parte
dos EUA, de bom bas de hidrogênio em Espanha, envolvem «erros» em que o propósito
estratégico de um a dada actividade (por exemplo, a produção petrolífera, a espionagem política,
a pesquisa do gás, a defesa nacional) se desliga das suas consequências.
O acidente tende a ter resultados que são opostos aos acontecimentos de rotina. Em vez
de ser um contributo deliberadamente planeado para um a estrutura social intencionalmente
desenvolvida, ele fom enta revelações que doutro modo são deliberadamente ofuscadas por
aqueles com recursos para criar acontecimentos de rotina.
Para as pessoas, na vida quotidiana, o acidente é um importante recurso para a
aprendizagem das rotinas daqueles que geralmente possuem os recursos psíquicos e físicos para
proteger as suas vidas privadas das vistas do público. O acidente de carro de Ted Kennedy deu
acesso ao público às disposições e actividades privadas dessa individualidade. Como já se disse
algures (M olotch, 1970), um acidente como um derramamento de petróleo em Santa Bárbara,
forneceu ao público local revelações análogas ao funcionamento quotidiano das instituições
políticas e econômicas norte-americanas.
Quando os acidentes surgem como acontecimentos públicos, eles fazem-no por «erro»:
podem os esperar que, a m enos que as necessidades das pessoas poderosas sejam diferentes, os
procedimentos habituais de produção de acontecimentos venham subsequentemente, e cada vez
mais, a definir o acidente dentro da política pública. Mas a rapidez do acidente e a sua natureza
imprevisível leva a que os produtores de acontecimentos não estejam inicialmente preparados,
e assim os poderosos podem fazer relatos descoordenados e mutualmente contraditórios. Este
processo, de disrupção acidental, seguido de tentativas para restaurar os significados tradicio­
nais, pode, descobrimos, ser observado empiricamente: assim, nós consideramos que os
acidentes constituem um recurso crucialpara o estudo empírico dos processos de estruturação
de acontecimentos (“)•
N a sua realização como acontecimentos, os acidentes são muito menos contingentes do
que os acontecimentos de rotina nas necessidades de acontecimento dos poderosos. Dado o

(u) São precisamente estas formas de acontecimentos que tendem a ser excluídas na investigação do poder
comunitário utilizando a técnica dccisória (Edward Banficld, 1962). Ao aceitarem de modo acritico aquelas «estórias»
que aparecem nos jornais durante um longo período de tempo relativas aos conflitos políticos locais básicos, a
utilização da técnica dccisória garante que apenas aqueles assuntos acerca dos quais as elites discordam intemamente
surgirão enquanto tópicos de estudo. Assim, as descobertas pluralistas são garantidas através do modo de selecçào dc
caso.

47
nteceu» em iunçao aas suas piupnas -------- ----------- - -
dução jomalistica, enquanto empreendimento objectivo, está posta em causa. Natural
ate, nem todos os acidentes se tomam acontecimentos públicos. Derram es de petróleo n
Ifo do México, quase tão grandes como o de Santa Bárbara, receberam muito menc
•ertura; de igual modo, a fuga maciça de gás de nervos em Dugway Proving G round (Hirscl
39) podia facilmente ser considerada muito mais desastrosa para o meio am biente e para
Ia humana do que um qualquer derrame de petróleo; contudo, só ocorreu um a cobertu
ativamente pequena (Lester, 1971). Tudo isto atesta o facto de que todos os acontecim ent
) socialmente construídos e a sua «noticiabilidade» não está contida nos seus traç
jectivos.

icândalos

Os escândalos partilham características tanto dos acidentes como dos acontecim ento;
tina, mas diferem também de ambos. Um escândalo implica um a ocorrência que se tom a n
:ontecimento através da actividade intencional de indivíduos (cham am os-lhes «infor
ares») que por uma ou outra razão não partilham as estratégias de produção de acontecimei
os «executores» das ocorrências. Como um acontecimento de rotina, o happening despol
or é intencional e o acontecimento é promovido; mas, ao contrário de um acontecim ent
atina, a promoção não é feita por aqueles que originalmente despoletaram o happening
acto, a realização do acontecimento é geralmente um a surpresa para os actores origi
vssim, Ronald Reagan não pagou deliberadamente quaisquer impostos em 1970-71, ma:
sperava, ao fazer isso, ler o facto nos jornais. Dita Beard escreveu, presum im os, o tristen
:élebre «ITT Memo», mas não o concebeu como acontecimento público. (O assunto ITT d
le uma tentativa da ITT para acabar com o escândalo através da negação da ocorrência sú
Jm escândalo exige a cooperação voluntária de pelo menos uma das partes com po
legitimidade decorrentes da sua experiência em primeira mão (a testem unha ocular) ou c
posição na estrutura social (por exemplo, um «divulgador» ( leaker) de m em orandos o
documentos do Pentágono). Quando se conjugam ambas as circunstâncias, m aior é a capac
de se gerar um escândalo. De novo, esta capacidade está desoroDorcionalmente nas m:
seguiu (demorou 20 meses a tomar-se acontecimento público) foi elucidado com algum detalhe
(l!). M y Lai foi originalmente relatado como uma ofensiva militar de rotina e bem sucedida
contra os soldados Vietcong; só mais tarde foi transformado em «massacre». Noutros
escândalos, pessoas de status elevado fazem «delações» -- como, por exemplo, quando os
reformadores políticos expõem «a máquina», ou quando os líderes políticos empreendem um a
guerra fratricida para eliminar os oponentes (por exemplo, os escândalos Fortas, Dodd e
Goldfme). Naturalmente os escândalos também podem ocorrer quando os estatutos sociais são
mais assimétricos; pode ter sido um escriturário a denunciar Reagan; foi um cabo do exército
quem denunciou My Lai. Além disso, quando o informador é de um status relativamente baixo
e não é apoiado por um grupo com poder, a tarefa da produção do escândalo pode ser bastante
árdua (M y Lai, por exemplo) e geralmente um completo fracasso. Um acidente pode
frequentemente estim ular um a série de escândalos, como no caso do derrame de petróleo em
Santa Bárbara, e nos testemunhos de McCord e Dean no rescaldo das detenções do caso
W atergate.

Serendipity (*
*)

U m quarto tipo de acontecimento, a serendipity, tem características tanto de acidente


como de rotina. O acontecimento de serendipity tem um liappening subjacente que não é
planeado (como acontece com os acidentes), mas é promovido pelo próprio effector (como
acontece com os acontecimentos de rotina). Exemplos de acontecimentos deste tipo são di ficeis
de aparecer porque uma das suas características é a de que o effector &/prom otor dissimula-o
de modo a fazê-la parecer como rotina. Os heróis autoproclamados são talvez um a variante
daqueles que produzem os acontecimentos de serendipity. leva-se a cabo inadvertidamente um
dado acto que resulte no cumprimento de um a tarefa corajosa e socialmente desejada. Assim,
através da autopromoção (ou, pelo menos, da aprovação tácita), converte-se um acidente num
acto deliberado.
Ao contrário do acidente, o happening subjacente no acontecimento de serendipity passa
despercebido e talvez imperceptível aos elementos dos públicos. U m a vez que o agente pode
transform ar o acontecimento involuntário num acontecimento de rotina através das suas
actividades de promoção, as pessoas não recebem os tipos de informação que os acidentes e os
escândalos proporcionam. Devido a serem difíceis de distinguir dos acontecimentos de rotina,
os acontecimentos de serendipity são tão irrecuperáveis para a investigação sociológica como
os acidentes são recuperáveis. Os acontecimentos de serendipity são o tipo de acontecimento
menos útil.

(,s) Ver New York Times, 20 de Novembro de 1969; The Times (London), 20 de Novembro de 1969.
(•) Nota de tradução - Serendipity significa a faculdade ou talento para fazer uma descoberta por acaso,
involuntariamente.

49
QUADRO I:
A classificação de acontecim entos

ESQUEM A CLASSIFICATIVO DE ACONTECIMENTOS

A contecim ento realizado A contecim ento realizado


intencionalm ente in v o lu n tariam en te

Promovido pelo
«executor» Rotina Serendipity

Promovido pelo
inform ador Escândalo Acidente

O quadro I exibe sumariamente os quatro tipos de acontecimentos distinguidos pelo grau


de intencionalidade com que o happening subjacente é realizado e se é o ejfector ou o
«informador» da ocorrência a fazer o trabalho de promoção.

D iscussão su m á ria

Seguindo as incitações de Gans (1972), vamos tentar um novo ponto de partida para o
estudo das notícias. Nós vemos os media a reflectirem não um mundo exterior mas as práticas
daqueles que detêm o poder de determinar a vivência dos outros. Harold Garfinkel chegou a um a
condição semelhante acerca dos registos clínicos que investigou; mais do que considerar os
registos de um a instituição enquanto representações perfeitas de algo que aconteceu, pode-se
ver nestes registos as práticas organizacionais das pessoas que fazem registos habitualmente.
Garfinkel conclui que existem «boas razões organizacionais para os maus registos clínicos».
Segundo Garfinkel, o nosso interesse na sua «má qualidade» não reside na explicação da
organização social da clínica.
N ós pensam os que os meios de comunicação de massas deveríam igualmente ser
encarados como maus registos clínicos. De acordo com Garfinkel, o nosso interesse na sua «má
qualidade» não reside tanto na oportunidade para a critica e a ironia, mas mais na possibilidade
de compreensão do modo como o produto vem a parecer-se, isto é, quais são as «boas razões».
Advogam os a análise dos meios de comunicação social para conhecer as necessidades de
acontecimento e os métodos através dos quais aqueles que têm acesso aos media acabam por
determ inar a experiência dos públicos. Podemos procurar os métodos através dos quais a
hegemonia ideológica é realizada examinando os registos que são produzidos.
Visto desta maneira, um a abordagem dos meios de comunicação de massas procura não
a realidade mas os propósitos que estão subjacentes às estratégias de criação de um a realidade
em vez de um a outra. Para o cidadão ler o jornal como um catálogo dos acontecimentos
im portantes do dia, ou para o sociólogo utilizar o jornal para a selecção de tópicos de estudo,
é preciso aceitar-se como realidade o trabalho político através do qual os acontecimentos são
considerados por aqueles que geralmente detêm o poder. Só no acidente e, secundariamente,
no escândalo, é que o trabalho político de rotina é suplantado de modo significativo, permitindo

50
assim o acesso à informação que é directamente hostil a esses grupos que geralmente advêm
da produção do acontecimento público.
A investigação futura em tom o dos media e da dinâmica de poder seria reforçada, levando
em consideração esta «segunda face do poder» (Bachrach e Baratz, 1962; Edelman, 1964). Mais
profundamente, os sociólogos, que geralmente utilizam os seus tópicos de investigação e as
construções conceptuais tal como são apresentados pelos meios de comunicação social e outras
fontes similares, podem querer libertar a sua consciência das actividades intencionais levadas
a cabo pelas diferentes partes cujos interesses e necessidades de acontecimento podem diferir
dos seus próprios.
«Os acontecimentos mediáticos:
o sentido de ocasião» (') (**)

Elihu Katz

Os críticos da radiodifusão argumentam que se roubou à sociedade o sentido de ocasião.


As pessoas costumavam arranjar-se para sair, dizem os críticos, e agora ficam em casa a ver
televisão, meio vestidos e meio acordados. A s artes que juntavam as pessoas - quer populares
quer intelectuais - estavam associadas ao tempo, ao lugar e à comunidade, marcando a
passagem das estações, as fronteiras entre o sagrado e o secular - e a estrutura da sociedade.
A gora a televisão fornece cultura ininterruptamente, com nada mais do que intervalos e
anúncios para enquadrar um a experiência no tempo, e só a sala de estar e a família para a
enquadrar espacial e socialmente. A vaga consciência de que todos os outros estão a ver os
mesm os programas funciona certamente como algo que mantém a sociedade unida, m as o
sentido de ocasião - especialmente o da ocasião comunitária - tem sido mitigado. Isto não é
um julgam ento da qualidade dos programas de televisão, deve-se salientar, m as da sua
ubiquidade.
C om o todas as generalizações acerca dos efeitos tranquilizantes da radiodifusão, este
tam bém m erece um a formulação mais cuidadosa. É pouco provável, primeiro que tudo, que os
media sejam só os culpados pelo declínio das artes populares; todas as pressões da modernização

(‘) Este ensaio nasceu de um projecto apoiado gcncrosamcntc pela Fundação John & Mary R. Markle. Foi lido
no Segundo Encontro Mundial de Comunicação, em Acapulco, em Julho de 1979. Agradeço a Pierre Motyl e Daniel
Dayan, os meus dois colaboradores mais próximos do projecto Media Evcnts, a sua contribuição de idéias para o
ensaio.
(*) Reedição de: Studies in Visual Anthropology (N.° 6,1980). «Media Events: A Scnsc of Occasion», de Elihu
Katz.

52
:er; algumas pessoas saem, vao ao cinema, ao teatro, etc. (Baumol e Boi
,io e Useem, 1978). E no tocante às ocasiões, os media estão geralmente n o :
i feriados, como o Dia da Independência ou o Natal, quando elevados p
entação» se combinam com um sentido de festividade e uma nostalgia pel
1979; Faris, 1968).
xiste também um outro sentido, no qual os media quebram o padrão «o-sol-i
}ue eles próprios criaram. A história da radiodifusão está marcada por um:
mas que são tão memoráveis que captaram a atenção de uma nação ou do m
s arranjavam-se para os ver, e convidavam os amigos para os ver ou ouvir. C
sário da chegada à Lua traz-nos à memória este gênero de radiodifusão. Generit
imissòes de radiodifusão são conhecidas por acontecimentos mediáticos - eml
n termo ambíguo e já estafado. Eu chamo-lhes «os grandes dias de festa» dos med
:les, durante breves instantes, restaurou o sentido de ocasião para uma socieda
o, e alguns deles podem ter tido efeitos duradouros.
Eu gostaria de lem brar estes acontecimentos, e de os discutir neste ensaio. Eles i
nagens; a visita de Sadat a Jerusalém; o fim de semana de pesar que se seguiu ao ass
ennedy; a coroação de Isabel II; os debates presidenciais de 1960 e 1976; e
tecimentos desportivos (Lang e Lang, 1968; Schramm, 1965; Halloran et al., 1970
; Kraus, 1962; Briggs, 1979; Arlen, 1979). Cada nação terá a sua própria lista, em
ero desse gênero de acontecimentos seja extremamente pequeno. Por vezes, ter»
tmbre do potencial de um acontecimento que nos é negado: a visita de João Paul
mia, por exemplo, ou os Jogos Olimpicos de Moscovo.

efinição dos acontecimentos mediáticos

Há um número de características definidoras que estão associadas a estes acontecimei


meiro, são radiodifúndidos, ao vivo. Eles desenrolam-se à nossa frente; e assim, o atril
guiar da radiodifusão, diferente do dos outros media, é posto em acção. As câmaras i
crofones estão a postos e transportam-nos simultaneamente ao lugar onde o acontecime
á a ter lugar.
Segundo, estamos a falar de acontecimentos que geralmente não são iniciados pe
-dia. Alguém os organizou - a agência espacial, um líder político ou o comitê olímpií
aturalmente, eles são organizados com a cobertura dos media em mente, mas, ao contrário
>seudo-acontecimento» de Boorstein (1961), é provável que estes acontecimentos teriam ti.
igar mesmo que as câmaras lá não estivessem. Pode haver algumas excepções: o Festival i
urovisão, por exemplo, no qual toda a Europa se junta no julgamento de canções. Essi
contecimentos poderíam não ter lugar se os media não os organizassem, mas eles são casc
e uma grande afinidade. O paradigmático acontecimento mediático é organizado fora dele
aas pode ser transformado no processo de transmissão.
O elemento de grande drama ou ritual é essencial: o processo tem de estar carTegado di
tmoções ou símbolos, e o resultado repleto de consequências. A maioria das conversas á lareira
issim como a maioria das paradas, jogos de futebol ou as convenções políticas, não se
qualificam neste sentido. Embora possam ser transmitidos ao vivo e organizados por impor­
tantes agências políticas ou sociais, faltam-lhes o elemento electrificante que atrai um núblico
Í Ç S p U lU a llC U d I lC ll l U i c s y ç i a u v o . W i u u p u 4 » v v*v ------~ ~ - ------------------ r

:onhecido, o acontecim ento é esperado e publicitado. G eralm ente os m edia fazi


licidade, com o acontece com os Jogos O lím picos de L os A ngeles de 1984 (e até o bo
Jogos O lím picos de M oscovo de 1980) que já estão a ser publicitados. Sadat fez um a vi
âm p ag o a Jerusalém , no entanto houve tem po suficiente para electrizar o m undo c<
icia da sua chegada. A sua decisão de ir foi notícia; a sua chegada foi um acontecim
diático. O assassínio de K ennedy foi notícia; o seu funeral foi um acontecim ento m edia
E stes acontecim entos estão enquadrados no tem po e no espaço. Eles não incluem ,
emplo, a guerra do Vietnam , m esm o que se pense no papel dos m edia em trazer o seu hc
: às salas de estar do mundo. N ão se incluem os filmes da revolução de K hom eini (Tehran
179). N ão se incluem a radiodifusão das sessões do Parlam ento, à excepção daquelas ocas:
uito raras em que o destino da nação está a ser debatido. As audiências do caso W aterg
n que um presidente esteve perante um processo de impeachment, ou o Com itê de Activida
nti-am ericanas do Senador Joseph M cCarthy, ou o julgam ento de Adolph Eichm ann, pod
ícluir-se no espaço e no tempo. O acontecimento deve estar suficientem ente centrado p
nanter a atenção do público - o que algumas vezes acontece durante um a série de dias
uficientemente circunscrito para permitir que um pequeno número de câmaras de televisâ
ibranjam.
Finalmente, deve-se observar a centralidade da personalidade. Todos os acontecimen
têm um herói - um, dois indivíduos, ou uma equipa. As conversações do Salt II, mesmo q
tivessem sido transmitidas pela televisão, teriam sido recebidas com uma certa relutância, pi
giravam mais à volta de abstracções do que de personalidades. Isto não é negar a capacida
da televisão para dramatizar e personalizar até os assuntos abstractos, quando a isso é obrigac
Estas parecem ser então as condições necessárias: (1) transmissão ao vivo, (2) de u
acontecimento pré-planeado, (3) enquadrado no tempo e no espaço, (4) pondo em destaque u
grupo ou uma personalidade heróica, (5) com grande significado dramático ou ritual, e (6)
força de uma norma social que toma o acto de assistir obrigatório. Estas condições podem n;
ser suficientes para assegurar o sucesso do acontecimento na manutenção duma audiência c
massas ou na realização dos seus propósitos políticos ou rituais. Mas são ingredientes básico:

Os grandes dias de festa

O s a c o n te c im e n to s , e v id e n te m e n te , sã o im p o rta n te s p a ra o s in d iv íd u o s, o s fa m ilia re s i
as c o m u n id a d e s : fe sta s d e a n o , a n iv e rsá rio s, feriad o s. S ão ce n tra is, ta m b é m , p a ra a profissãc
jo rn a lís tic a . D e facto , o jo rn a l d iário o u o n o ticiário te le v isiv o sã o u m a c o la g e m d e a c o n te c i­
m e n to s e s se n c ia lm e n te d isc re to s, e n ã o é d e m o d o n e n h u m c e rto - c o m o re fe rire m o s a se guii
- q u e e s ta s e ja a m e lh o r m a n e ira d e re la ta r o q u e se v ai p a ssan d o n o m u n d o . É c o m o esp era r
p o r u m fu ra c ã o p a ra fazer o b o le tim m eteo ro ló g ic o , o u e sp e ra r p elo D ia d a M ã e p a ra d e te rm in a r
0 jornalism o ocidental difere dojom alism o oriental na ênfase que dá aos acontecimentos
negativos, às coisas que correm mal. Se a abertura de uma fábrica é notícia na Europa de Leste,
é o encerramento de um a fábrica que é noticia no Ocidente. O jornalism o do mimdo livre gira
em tom o do conflito: nação contra nação, homem contra homem, homem contra a natureza. Um
acontecimento noticioso típico é a «estória» de um conflito. O conflito pode estar institucio­
nalizado, como nos parlamentos e no desporto, ou pode ser espontâneo, como num ataque
terrorista ou um terramoto. São «estórias» como essas, mais do que quaisquer outras, que
definem as noticias.
O s acontecimentos mediáticos, todavia, parecem ser diferentes. M ais do que relatar o
conflito, eles celebram a resolução ou o vencer do conflito, ou, se lidam com o conflito, é o
conflito do gênero mais institucionalizado. Consideremos, por exemplo, asalunag en so u av isita
de Sadat a Jerusalém, ou - se quisermos ter um leve vislumbre do que realmente se passa - a
visita de João Paulo II à Polônia. Todos estes acontecimentos celebram a tentativa de ultrapassar
o conflito. De igual modo, a dor que se seguiu ao assassinio de Kennedy foi um período de
reunificação da nação e de redução da tensão. Mesmo os Jogos Olímpicos, os debates
presidenciais, ou acontecimentos como o Festival da Eurovisão são, na essência, reuniões de
rivais envolvidos mais num conflito ritual do que numa «estória» de amarga hostilidade.
Assim, os acontecimentos mediáticos parecem diferir dos acontecimentos noticiosos no
facto de estarem mais preocupados em retmir os rivais, isto é, com um processo de reconciliação.
Além disso, se se analisa a retórica dos acontecimentos mediáticos encontrar-se-á, acredito,
um a reverência que é totalmente atípica do jornalismo quotidiano. Nas suas voltas diárias, o
repórter é geralmente cínico: ele distancia-se do acontecimento. O apresentador de um
acontecimento mediático, todavia, assume frequentemente um papel sacerdotal, agindo como
um m estre de cerimônias. Ele murmura que Sadat tom a o seu lugar na tribuna do Knesset, ou
anuncia respeitosamente «o hino nacional egípcio» logo que a música começa. E fica depois
em silêncio. N ão faz quaisquer comentários enquanto a cerimônia tem lugar. O narrador ou
com entador considera-se - e é geralmente considerado pelos participantes - um mem bro do
casam ento, um celebrante.
Aliás, geralmente não há quaisquer anúncios. Mesmo o filme «Holocausto» foi televi­
sionado com anúncios. M as isso não aconteceu nem durante os discursos de Sadat e Begin
em Jerusalém , nem durante todo o fim de semana de luto que se seguiu ao assassínio de John
Kennedy.
É neste sentido, também, que é útil pensar nestes acontecimentos mediáticos como
«grandes dias de festa». Têm um ar sagrado, um carácter referencial que difere tanto do mundo
diário dos assuntos públicos, dos feriados que se seguem aos conflitos, como das meras
quotidianas. É com o se estivessem a dizer-nos algo sobre a nobreza do homem e a unidade da
sociedade.

T ipologia de acontecim entos m ediáticos

É evidente que existem diferentes tipos de acontecimentos agrupados aqui, sendo


importante classificá-los. Três formas distintas se apresentam como viáveis.
O tipo mais nobre é o que se podería chamar missão heróica. Inclui os astronautas, Sadat,
João Paulo II e, talvez, a viagem de Nixon à China. É a «estória» de um herói a desafiar a lei
natural - a entrar desarmado no campo do inimigo, a voar para além da atmosfera da Terra -

55
num a missão de exploração ou reconciliação em nome da Humanidade. Certamente que a
H istória está cheia de explorações desse gênero. O que é novo é a nossa capacidade de seguir
o processo destes feitos heróicos, passo a passo, antes de alguém saber qual será o resultado.
U m segundo tipo de acontecimento mediático é a ocasião de estado. Mas só debaixo de
certas circunstâncias é que essas ocasiões serão tratadas como acontecimentos mediáticos.
Q uando a ocasião marca o começo ou o fim de uma era, como o funeral de Churchill, ou quando
se abre um poço de incerteza, como no funeral de Kennedy, e a ansiedade pela sucessão, a nação
ou o mundo participarão, petrificados, na cerimônia. De igual modo, quando o tratado de paz
israelo-egípcio foi assinado na Casa Branca, houve um sentimento de um novo começo, e, de
facto, muitos observadores compararam-no a um casamento. Michael Arden compara todos os
acontecimentos desse gênero a paradas, mesmo incluindo acontecimentos seculares e secundários
com o a entrega dos Óscares pela Academia de Artes e Ciências Cinem atográficas de
Hollywood.
O terceiro tipo de acontecimento é a mais familiar competição, m as só quando a
confrontação tem um significado simbólico. Assim, os debates Kennedy-Nixon ou Ford-Carter,
ou o Campeonato do Mundo de Futebol ou o Festival da Eurovisão da Canção, são aconteci­
mentos deste tipo. As rivalidades tradicionais são postas em prática perante audiências de
centenas de milhões, mas estas rivalidades estão sujeitas a regras partilhadas e obrigatórias, e
o sentido do que há em comum tem igualmente mais importância do que o partidarismo.

E lem entos dram ático s

Classificar os acontecimentos mediáticos desta maneira revela os elem entos dramáticos


que lhes são inerentes. Existem três elementos desses. Primeiro que tudo, há a questão da «sua
natureza programada»; o que sabemos com antecedência da coreografia do acontecimento. A
alunagem, neste sentido, foi altamente programada; o plano da visita de Sadat foi muito menos
claro.
M as mesmo que saibamos exactamente o que é suposto acontecer, há a questão de se saber
se as coisas funcionarão como o planeado. Assim, o risco de o programa poder abortar é um
segundo elemento do «drama»; Conseguirão chegar à Lua? Os selenitas atacá-lo-ão? Infectarão
a atm osfera da Terra? Regressarão sãos e salvos? E de igual modo: É Sadat que está realmente
no avião ou é um cavalo de Tróia? Sairá vivo de Israel? Haverá um golpe de estado no Egipto
antes do seu regresso?
M esmo que saibamos o programa, e as hipóteses de aborto sejam pequenas, há um mistério
nas acções dos grandes homens, mesmo nos seus funerais, que nos fascinam. Tentará alguém
atacar a Rainha durante a sua Coroação? Será o Papa vítima de um ataque de coração? Será que
o corpo está imóvel no caixão? (Lewis, 1929).

O d o cu m en tário em directo; os dilem as de se c o n ta r a «estória»

Os acontecimentos mediáticos são transmitidos em directo, incluindo os funerais de


estado, e enfrentam o problema de como contar a «estória», enquanto ela se está a desenrolar.
O director tem de escolher entre várias imagens, o narrador tem de decidir quais as acções a
salientar, os comentadores e os analistas têm de os enquadrar num contexto. Os media têm de
enfrentar um paradoxo que podería ser chamado «o documentário em directo».

56
Os produtores desses programas enfrentam vários problemas importantes, e todcs eles
estão implícitos no que se tem dito até aqui.
Primeiro que tudo, há o problema da escolha do próprio acontecimento. O jornalismo,
como se salientou, lida com acontecimentos mas encara-os de forma diferente dos historiadores.
A História, actualmente, abandonou os acontecimentos enquanto explicações inadequadas.
Assim, o impulso do jornalista é considerar história a visita de Sadat a Jerusalém, enquanto o
impulso do historiador é olhar para o apuro da economia egípcia ou para o desespero de uma
nova guerra com Israel, etc. Os historiadores não atribuiríam o início da Primeira Guerra
Mundial ao assassínio do arquiduque Fernando èm Sarajevo. Jornalistas mais sofisticados estão
certamente cientes deste dilema, que deve influenciá-los, conscientemente ou não, na narração
do acontecimento. O acontecimento é meramente ritual ou realmente critico? Certam ente que
o ritual e a resposta emocional de um mundo espectante é mais do que justificação suficiente
para um acontecimento mediático. Mas quantas vezes se deve utilizar o termo «histórico»?
U m segundo problema do produtor dos acontecimentos mediáticos é dom inar a tensão
entre o jornalista e os papéis sacerdotais. A ocasião requer ostensivamente modos de sacerdote;
há algo como um pacote não escrito entre os organizadores do acontecimento e os produtores.
Os media estão ali para «celebrar» o acontecimento. Mas se alguma coisa corre mal? Ou, para
dar um exemplo mais complicado, e se houver algo dissonante a passar-se «fora do palco» que
se espera que um jornalista cubra?
Um exemplo deste dilema pode ser visto na cobertura da assinatura do tratado de paz
entre Israel e o Egipto. Não muito longe da Casa Branca, havia um a manifestação de protesto
contra a assinatura do tratado. Os altifalantes da manifestação podiam ser ouvidos claramente
em fundo contra as vozes dos participantes e dos radiodifusores. O papel do jornalista é
obviam ente o de pedir um a interrupção da cerimônia e o envio de uma câmara para a
manifestação; o papel sacerdotal, todavia, implicava um compromisso com a integridade da
cerimônia. O Washington Post sugere que dois dos grandes canais televisivos norte-am erica­
nos (os networks) interromperam efectivamente a cerimônia para cobrir a manifestação
enquanto um dos networks não o fez. Esta escolha difícil, aliás, também pôs em confronto os
apresentadores desportivos ocidentais presentes nos Jogos Olímpicos de Moscovo: deveríam
m anter as câm aras dirigidas para os acontecimentos agendados, ou noticiar as observações não
programadas, m esmo de carácter político? E óbvio, a partir desta discussão, a razão por que os
países totalitários são tão cautelosos com os acontecimentos mediáticos excepto para aqueles
sobre os quais têm completo controlo. Não é coincidência que, mesmo quando João Paulo II
era transmitido em directo da Polônia, se via muito pouco das multidões que o aclamaram.
Tam bém pode ser utilizado para influenciar o resultado dos acontecimentos: é esse,
certamente, o objectivo dos participantes. A NASA podería justificar o custo do seu programa
espacial, exibindo o primeiro passo do homem na Lua em directo; Sadat queria mobilizar a
opinião pública americana. Por vezes, é-se mais perspicaz do que isso, como quando os
jornalistas se alongaram no desenvolvimento da visita do presidente Carter a Jerusalém com
o objectivo de pressionar Israel, ou, pelo menos, para aumentar o drama do últim o sucesso de
Carter.
A utilização do documentário ao vivo é um a m a de dois sentidos. Os media têm muito a
ganhar com a m agia da sua própria apresentação de acontecimentos longínquos. A legitimidade,
o poder, a glória, transferem-se para os media na representação de seu papel, e algumas vezes
- nem sempre - este crédito ultrapassa os proventos previstos do patrocinio comercial dos

57
M a s o p r o b le m a m a is d itic il d e to d o s e q u e « e s tó ria » c o n ta r: c o m o e q u e s e p o d e c o n ta r
u m a « e s tó r ia » s e m s e s a b e r c o m o s e v a i d e s e n v o lv e r e c o m o v a i a c a b a r? P a r te d a a n s ie d a d e
r e la tiv a a e s te p r o b le m a r e f le c te - s e n a b u s c a d e c r ité rio s p a r a d e f in ir o q u e é o ê x ito o u o f ra c a s s o :
a b u s c a d e ta is c r ité r io s é e v id e n te n o s d ia s q u e a n te c e d e r a m a v is ita d e S a d a t o u n o s d ia s
a n t e r i o r e s d e u m a im p o r ta n te p r im á r ia p r e s id e n c ia l. M a s m a is in te r e s s a n te é o f a c to d e q u e n ã o
s e p o d e c o n t a r u m a « e s tó r ia » s e m u m a « h ip ó te s e » o u u m « m o d e lo » p a r a g u ia r a « e s tó r ia » n a
s u a n a r r a ç ã o . O s n a r r a d o r e s n ã o p r e c is a m n e c e s s a r ia m e n te d e t e r u m m o d e lo e x p líc ito e m
m e n te , m a s h á b o a s r a z õ e s p a r a a c r e d ita r q u e e le s - e o s s e u s o u v in te s e e s p e c ta d o r e s - t ê m d e
• e c o r r e r a e s s e s m o d e lo s . A a n á lis e a c a d ê m ic a d a c o b e r tu r a d a m o r te d e J o ã o X X I I I , p o r
ix e m p l o , r e v e l a o c o n f lito l a te n te e n tr e o P a p a e o a n jo d a m o r te , n u m a v e r s ã o , e e n tr e o s m é d ic o s
; a m o r te n o u t r a ( G r itti, 1 9 6 6 ) . S e a n o s s a tip o lo g ia d o s s u b g é n e r o s d o s a c o n te c im e n to ;
n e d i á t i c o s e s t á c o r r e c t a , é r a z o á v e l s u p o r q u e o n a r r a d o r s e s e r v e d a m i s s ã o h e r ó i c a , d a o c a s iã c
le e s t a d o ( o u p a r a d a ) , e d a c o m p e t i ç ã o p a r a f o r m u la r o s e u g u iã o e p a r a c o l o c a r a s s u a s c â m a r a s
d a s p a r a a l é m d o j o r n a l i s m o , h á f o n te s m a i s p r o f u n d a s p a r a a n a r r a ç ã o d e t a is « e s t ó r i a s » . H
m a n a s c e n te d e c o n to s p o p u la re s e te x to s s a g ra d o s q u e o s n a rra d o re s p a rtilh a m c o m o se
ú b l i c o . A « e s t ó r i a » d a « M i s s ã o : I m p o s s í v e l» , q u e e s t á n a b a s e d a r e p o r t a g e m d a a l u n a g e m d c
s tr o n a u t a s e d o e n c o n t r o d e S a d a t c o m B e g in , e x i s te n ã o s ó n a i c o n o g r a f i a d a t e l e v i s ã o , e nã
) n a f i c ç ã o c i e n t í f i c a , m a s t a m b é m n a m i t o l o g ia e t a l v e z n a s e s c r i t u r a s . T a i s e n i g m a s a t r a e
id a v e z m a i s a s a t e n ç õ e s d a c o m u n i d a d e d e in v e s ti g a d o r e s .

feitos dos media

O s problem as que acabám os de narrar reflectem os efeitos dos acontecim entos mediátic
bre os m edia e antecipam os tipos de efeitos que os media podem ter nos p rópr
antecim entos e nas vastas audiências que a eles assistem . T êm -se feito alguns estudos ace
certos acontecim entos m ediáticos, e m ais estudos - incluindo o nosso - estão j á em cut
r agora, grande parte do que se possa disser é especulativo.
' N o tocante aos próprios acontecim entos é evidente, prim eiro que tudo, que eles
ldados em parte pelos media. N as sociedades totalitárias, talvez seja p ossível manti
nara im óvel, sem fazer qualquer zoom nem procurar instantâneos de reacçõ es, n em m o;
om p o rtam ento do público. A tecnologia dos media é tal que é p ro v av elm en te im poss
tro la r absolutam ente, e isso é ain d a m ais assim a fortiori nas sociedades livres. O tratam
iiá tic o do aco n tecim en to co m eça m uito antes d a hora oficial do início, e en q u an to a atei
e n tu sia sm o se centram n o que está p restes a acontecer, tam b ém fo rnece u m contexU
to s d o q u al o aco n tecim en to será ap resen tad o e exp licad o . O s media ed itam o aco n te c iir
iróprio m o m en to em qu e o aco n te cim en to está a ser tran sm itid o , e p o r m a is reverentt
, m o stra m a s d im en sõ es do aco n te cim en to q u e n ão foram p rev istas p elo s organizado
m o c u lta d a s d as p e sso a s p resen tes. C o m o os L an g co n sta ta ra m n o seu a n tig o estuc
;s s o d e M a c A rth u r a o s E stad o s U n id o s, o tele sp e c ta d o r v iu u m a « e stó ria » qi
n ro la v a le n ta m e n te até a tin g ir o c lím a x d e u m a e m o c io n a n te se ssã o d e b o a s vind
a ra M u n icip al. e n a u a n to o e so e c ta d o r n a e sa u in a d a ru a v iu a p e n a s a p a ss a g e m d<
preparatórias, e pouco antes da «aterragem» ouviram um comentador a explicar os paralelismos
nas carreiras dos dois homens e a especular acerca da sua «quimica». Um telespectador podia
ver um close-up de Sadat, reagindo ao toque do hino nacional egípcio em solo israelita, e ficar
informado acerca do simbolismo de uma escada no aeroporto de Israel encostada à porta de um
avião da República Árabe do Egipto.
É igualmente bem conhecido que a presença das câmaras impõem a diferença. Isto é tão
evidente no decoro dos parlamentos ou das convenções politicas nacionais com o o era na
orquestração da furia dos manifestantes pró-Khomeini nas ruas de Teerão.
A transmissão em directo de um acontecimento modela o acontecimento na produção e
na narração, e desperta a emoção. Isto é mais que certo. Mas que diferença é que isso faz?
Primeiro que tudo, como se tem defendido desde o início, cria um sentido de ocasião. As
pessoas sentem-se não só a si próprias mas também o outro, bem como a união da sociedade,
da nação e do mundo. Identificam-se com os heróis, e comemoram os seus feitos.
Assim, o acontecimento mediático fornece um centro de interesse na expressão da
emoção. Fornece um centro de interesse na dor, como Schramm mostra no seu estudo do fim
de semana de luto depois do assassínio de Kennedy. Fornece um centro de interesse na euforia,
com o nas conversações entre Sadat e Begin; ou na expressão do maravilhoso, como aquando
da alunagem; ou de lealdade, como numa competição. A emocionalidade dos acontecimentos
mediáticos é provavelmente o seu efeito principal.
M as tam bém existem efeitos cognitivos. As declarações de Sadat modificaram a imagem
que Israel tinha das intenções do Egipto. Embora não conseguissem m udar as atitudes em
relação a um estado palestiniano, houve um a mudança dramática na percepção do Egipto. A
im agem de Sadat nos Estados Unidos melhorou ainda mais dramaticamente do que em Israel(!).
A canalização de emoções exaltadas e de mudanças de opinião podem muito bem ter
efeitos políticos. Existe razão para acreditar, por exemplo, que a mobilização do apoio público
libertaram Sadat e Begin - pelo menos, por algum tempo - dos constrangimentos da própria
burocracia e dos partidos políticos; eram homens mais livres. Sadat e B egin podem mesmo ter
sentido que o seu eleitorado tinha crescido repentinamente, agora que eram actores no palco
do mundo (>).
Tal especulação sugere que a transmissão de acontecimentos tom a os próprios aconteci­
mentos não só diferentes como também mais importantes. Talvez que os historiadores dêem
m ais im portância ao reino do simbólico, quando o simbólico e o real se entrelaçam tanto. M as
tam bém existem perigos. Os media transmitem tanto o fracasso como o sucesso. Percebem o
erro im ediatamente, como quando o Presidente norte-americano Gerald Ford foi obrigado a
explicar m elhor a sua declaração acerca das relações entre países do bloco leste. Podem

C) Conclusões a partir do inquérito do Instituto de Israel de Investigação Social Aplicada c do Instituto de


Comunicação da Universidade Hcbreia.
(’) Assim, já próximo do fim do grande dia de Sadat cm Jerusalém e durante um intervalo nas discussões
privadas de Sadat e Begin, Walter Cronkitc perguntou aos dois homens como é que eles se propunham resolver o
problema da representação palcstiniana nas conversações acerca da autonomia, e Barbara NValtcrs interrogou-os
acerca do slaliis de Jerusalém. Estas questões provocatórias foram colocadas para mostrar que a realidade estava cheia
de problemas por resolver. Que o foco dos jornalistas estava centrado no conflito , mesmo cm situações cerimoniais,
foi salientado pelo professor Hilde Himmelwcit ao comentar uma versão antiga de algumas das idéias deste ensaio.

59
exacerbar o conflito, se o papel sacerdotal é abandonado ao comentário e à análise instantânea.
Abba Eban (1978) sugere que o perigo da «diplomacia aberta» é o de cada lado só ver o que
está a perder, o que pode levar à perda da esperança nos assuntos a tratar. Existe o perigo de a
opinião pública poder ficar tão inflamada, que a liderança pode perder o controlo, como foi
receado, aparentemente, quando Willy Brandt visitou Berlim Oriental e quando João Paulo II
visitou a Polônia.
Existe o perigo de que os media - cooperando com os actores principais - possam
dram atizar um acontecimento ao ponto de aumentar a sua probabilidade de fracassar.
Consideremos a muito publicitada retirada de Carter para Campo David, a fim de descobrir a
cura para a economia americana, sendo a promessa implicita a esse respeito de que ele será aí
bem sucedido. Consideremos a pressão sobre as negociações de Campo D avid acerca do Médio
Oriente, independentemente da sua natureza secreta, com os media à espera nas alas dos
negociadores.
M as acima de tudo, consideremos o perigo de confundir processos políticos e cerimoniais.
W alter Benjamin (1978) escreveu que o comunismo é a politicização da estética enquanto o
fascismo é a estetização da política. Com todas as funções positivas dos acontecimentos
mediáticos, ainda estão frescos na nossa memória exemplos dos media colocados ao serviço da
política estilizada. O senso comum é, por vezes, mais importante do que o sentido de ocasião.

60
A estrutura do noticiário estrangeiro
A apresentação das crises do Congo,
Cuba e Chipre em quatro
jornais estrangeiros (**) (a)

Johan Galtung e Mari Holmboe Ruge

1. Introdução

N este artigo o problema geral dos factores que influenciam o fluxo de notícias do
estrangeiro será discutido seguindo o tipo de raciocínio apresentado por Ostgaard (1965) no seu
artigo, mas de um modo algo diferente. Uma apresentação sistemática de factores que pareçam
particularmente importantes será seguida de uma simples teoria e da dedução de algumas
hipóteses a partir deles. Não se pretende fazer a lista completa de factores ou de «deduções».
Algumas destas hipóteses serão testadas em dados relativos à apresentação em quatro jornais
noruegueses de três crises recentes no estrangeiro. Serão indicadas as lacunas no nosso
conhecimento presente e delineadas algumas possíveis implicações em termos de política
editorial.

(*) Reedição de: Journal o f International Peace Research, I (1965), «A Estrutura do Noticiário Estrangeiro:
A apresentação das crises do Congo, Cuba e Chipre em quatro jornais estrangeiros», de Johan Galtung e Mari Holmboe
Ruge.
(*) Por razões de espaço, a terceira parte deste artigo não foi reproduzida.

61
0 ponto de partida é o nosso mundo enquanto estrutura geográfica dividida em
aproximadamente 160 territórios, a maioria dos quais se designam por nações e são «autôno­
mos». A comunidade internacional das nações está estruturada por um número variável e
altamente estratificada em nações «fortes» e «ftacas», de modo que o mundo é a geografia em
que são sobrepostos dois níveis da organização humana relativamente semelhantes: o interin-
dividual e o internacional. Os dois níveis não são independentes um do outro e quanto mais eles
estão ligados (mais a população e a liderança em cada país são interdependentes) e quanto mais
as nações são interdependentes devido à crescente eficiência da comunicação e da acção
militar (') mais válido é o velho slogan sociológico de que «tudo é relevante».
Assim, o mundo é composto por actores individuais e nacionais, e uma vez que é evidente
que a acção se baseia na imagem que o actor faz da realidade, a acção internacional será baseada
na imagem da realidade internacional. Esta imagem não é só moldada pelos media noticiosos
(imprensa, rádio, televisão, filmes de actualidades); as impressões e os contactos pessoais, as
relações profissionais no estrangeiro, os despachos diplomáticos, etc., também contam - se
pouco ou muito, não sabemos. Mas a regularidade, a ubiquidade e a perseverança dos media
noticiosos transformá-los-ão em competidores de primeira categoria em busca da primeira
posição, enquanto modeladores de imagem internacionais. Dado que a adequação de um a acção
está (mas de modo nenhum sempre) geral e positivamente relacionada com a adequação da
imagem em que se baseia (:), o estudo que os media noticiosos dão do mundo, é de importância
primordial.
Ao nível interpessoal é relativamente bem explorada a relação entre os acontecimentos,
a percepção de todos os factores selectivos e distorcivos sob circunstâncias diferentes aí
operantes e a imagem final. Ao nível da percepção colectiva, onde a percepção tem lugar em
nome de outros, para ser retransmitida a estes outros mais tarde, a situação é muito mais
complicada. Desde os acontecimentos do mundo até à imagem pessoal, tem os a cadeia de
comunicação apresentada na figura I.

FIG U R A I
A cadeia de com unicação noticiosa

acontecimentos -» percepção - » imagem -» percepção - » im agem


do mundo dos media dos media pessoal pessoal
selecção selecção
distorção distorção

(') Um interessante artigo que faz a utilização sistemática destes dois indicadores de interdependência, pode
ver-sc cm Kaare Svalastoga, «Technology and Autonomy», A da Sociológica, Vol. 5, pp. 91-9.
O Assim, uma imagem completamentc realista da imagem que as outras pessoas fazem de si poderia ter um
efeito nocivo na adequação do comportamento de cada um. Assim, existe a importante descoberta de Caplow c McGcc
no The Academic Markct Placc (Nova Iorque: Basic Books, 1958), segundo a qual os membros de organizações estão
muitas vezes sujeitos a um efeito de cngrandccimcnto pelo que sobrestimam a sua própria organização rclativamcntc
a outras no terreno. Podcr-sc-ia argumentar que, se o não fizessem, a consequente baixa na auto-imagem resultaria cm
niveis de realização mais baixos. E isto c susceptível de um paralelo no campo dos assuntos internacionais: se a
estrutura noticiosa fosse simétrica, dando a cada nação a atenção devida, uma importante fonte de auto-orgulho c
asserção poderia ser demasiado fraca para estimular a acção cfcctiva.

62
N ós estamos interessados, na primeira parte desta cadeia, nos acontecimentos do mundo
até à imagem da noticia, ou, para sermos mais específicos, à página impressa no jornal desde
que os nossos dados se refiram a isso. Por outras palavras: como é que os «acontecimentos» se
transformam em «notícias»? Isto não significa que a segunda metade seja pouco importante -
pelo contrário, é a imagem pessoal, não o jornal, que conta, mas isto será discutido num artigo
posterior. Ao analisar a primeira parte, devemos tratar os media noticiosos como entidades
indivisíveis e impessoais e não fazer qualquer distinção entre o jornalista no país emissor da
notícia, a delegação local da agência noticiosa, a delegação distrital no extremo receptor, a
delegação local no país receptor da notícia, o editor no jornal receptor, o paginador, e não sei
o que mais - num a cadeia com umas sete ou oito fases (!). A cadeia pode naturalmente ser muito
m ais curta se o jornal tiver um correspondente; pode então'ser reduzida a acontecimento-
-correspondente-editor, o que envolve apenas duas fases. Ostgaard (1965,42) assinalou muitos
dos problemas ao longo desta cadeia, e a análise detalhada aqui é certamente importante para
os futuros estudos, mas a nossa análise tratará os media noticiosos in abstracto e limita-se a
algum raciocínio a partir dos primeiros princípios.

2. A teoria

É útil fazer disto um a metáfora com poder heurístico suficiente para oferecer percepções
(m as não provas, evidentemente). A metáfora é a seguinte: imagine-se que o mundo pode ser
com parado a um enorme conjunto de estações radiodifusoras, cada uma das quais a emitir o seu
sinal ou o seu programa no seu próprio comprimento de onda. (Uma outra metáfora poderia
ser um conjunto de átomos de diferentes tipos a emitir ondas correspondentes à sua condição).
A emissão é contínua, correspondendo ao axioma de que está sempre a acontecer algo a qualquer
pessoa no mundo. M esmo que ela durma calmamente, o sono é um happening (*) - o que
escolhemos para considerar como «acontecimento» é determinado culturalmente. O conjunto
de acontecim entos mundiais, então, é como a cacofonia que se obtém quando se procura
sintonizar um posto num receptor de rádio, e sobretudo se isso for feito rapidamente em onda
m édia ou onda curta. É óbvio que esta cacofonia não faz sentido, e só pode ser inteligível se um
posto for sintonizado e escutado durante algum tempo antes de se passar para o seguinte.
U m a vez que não podemos registar tudo, temos de fazer um a selecção, e a questão é saber
o que chamará a nossa atenção. Isto é um problema na psicologia da percepção e a pequena lista
que se segue inclui algumas implicações óbvias desta metáfora:

F l: Se a frequência do sinal estiver fora da sintonia, não se fará o registo.


F2: Quanto mais forte fo r o sinal e quanto maior a amplitude, mais provável será a
audição dessa frequência.

(3) Para bem sc descrever esta cadeia, ver Johan Galtung e Mari Holmboc Ruge, Presentasjonen ave
utenriksnyheter (Oslo: PRIO stencil n.° 14-1, 1962), pp. 71-8.
(4) Para uma impressão do que os sociólogos podem extrair da condição do sono, ver Vilhclm Aubcrt c Harrison
Whitc, «Slecp: A Sociological Intcrpretation», Acta Sociológica, Vol. 4, n.° 2, pp. 46-54, e Vol. 4, n.° 3, pp. 1-16.
Q uanto m ais sign ifica tivo fo r o sinal, m ais p ro vá vel será a audição d e ssa fre
Q uanto m ais consonantefor o sinal com a im agem m ental do que se espera en
m ais provável será a audição dessa frequência.
: Q uanto m ais inesperado fo r o sinal, m ais provável será a audição d e ssa frei
Se um sinal fo r sintonizado, é provável que m ereça a pena escutá-lo.
i: Quanto mais um sin a lfo r sintonizado, m ais valerá a pena sintonizar um tipo
diferente da próxim a vez.

Iguns com entários acerca destes factos são necessários. Eles não passam c
ão psicológica do senso comum transposta para as actividades de busca radiofi
a de acontecimentos. O que se deveria fazer a fim de testar a sua validade seria oi
distas a trabalhar ou os ouvintes a sintonizar os postos - e não possuímos quaisquer
respeito. Por isso, os factores deveríam fimdamentar-se no raciocínio colectivc
lertas da ciência social (mas as referências a estas últimas só serão dadas nas nota
te não são essenciais para a nossa argumentação).
O primeiro factor é trivial quando aplicado aos aparelhos de rádio, e menos qi
ido aos acontecimentos em geral. Uma vez que isto é uma metáfora e não um mc
emos ser liberais na nossa interpretação de frequência e proceder da seguinte maneir
ência de um acontecimento entendemos o espaço de tempo necessário para es
arolar e adquirir significado. Para um soldado que morre durante uma batalha, este es
mpo é muito curto; para um processo de desenvolvimento ter lugar num país, o espat
?° pode ser muito longo. Assim como a modulação de rádio tem a sua limit
tivamente às ondas electro-magnéticas, também o jornal terá as suas limitações, e a tf
: que quanto mais a frequência do acontecimento se assemelhar à frequência do r,
icioso, mais hipóteses existem de ser registado como notíciapor esse mesmo meio notici
t assassínio leva pouco tempo e o acontecimento tem lugar entre a publicação de dois assui
:essivos de um jornal diário, o que significa que se pode contar uma «estória» significa;
um dia para o outro. Mas escolher um assassínio durante uma batalha onde existe um mo
ios os minutos, faria pouco sentido - nós geralmente só registaremos a batalha como tal
jornais fossem publicados em cada minuto, a perspectiva poderia possivelmente ser mud;
ira aquele soldado em particular). Do mesmo modo, um acontecimento que tem lugar durai
m espaço de tempo maior ficará por registar a menos que atinja um certo tipo de olím
ramático (a construção de uma barragem não é noticiada, o mesmo não acontecendo con
ua inauguração). Escusado será dizer que este número inferior de notícias sobre tendências
ité certo ponto, corrigido por publicações com uma freauência mais baixa. IJm iomal nnrle t
Também o expresso atrás pode ser posto de uma forma mais dicotômica: existe um limiar que
o acontecimento terá de ultrapassar antes de ser registado (!). Isto é um importante axioma.
A terceira hipótese também é trivial ao nível da rádio, mas não ao nível noticioso. O que
é «sinal» e o que é «niido» não é inerente; é uma questão de convenção (6), como se pode ver
claramente quando duas estações de rádio estão a transmitir na mesma frequência. A clareza
nesta ligação deve referir-se a um tipo de unidimensionalidade, em que existe apenas um ou um
número limitado de significados no que se recebe. Assim, a interpretação de hipóteses é a
seguinte: quanto menos ambiguidade mais o acontecimento será notado. Isto não é bem o
mesmo que preferir o simples ao complexo, é mais uma questão de precisão; é preferível um
acontecimento com um a interpretação clara, livre de ambiguidades no seu significado, ao que
é altamente ambíguo do qual muitas e inconsistentes implicações podem ser, e serão, feitas (7).
A quarta hipótese também tem a ver com o significado mas não com a sua ambiguidade.
«Significativo» tem algumas interpretações importantes. Uma delas é «interpretável dentro da
estrutura cultural do ouvinte ou do leitor» e tudo o que a tese diz é que um certo etnocentrismo
estará operativo: tem de haver uma proximidade cultural. Isto é, aquele que procura o
acontecimento dará particular atenção ao familiar, ao semelhante culturalmente, enquanto o
distante culturalmente passará de modo mais fácil e não será notado. E algo como o ouvinte do
Norte da Europa em, digamos, Marrocos: ele passará pela música e língua árabes, pitorescas
e sem significado que consegue apanhar no seu receptor, e só encontrará alivio na música
europeia e na língua francesa.
A outra dim ensão de «significativo» é em termos de relevância : um acontecimento pode
acontecer num lugar culturalmente distante, mas pode ainda estar carregado de significado em

(!) Esta é certamentc uma idcia fundamenta! na psicologia da percepção. De facto, existem aqui duas idéias
inerentes: a noção de um nível absoluto que não deve ser demasiado baixo, c a noção do aumento necessário para ser
perceptível - asjiist noticeable di/ferences (jnd’s). Asjnd ampliam-sc com o aumento do nível absoluto; quanto maior
a amplitude, maior a diferença necessária para ser perceptível (quer estejam ou não de acordo com o principio de
Wcbcr). Este princípio aplica**se, provável c muito explicitamcntc, à comunicação noticiosa: quanto mais dramática
for a noticia, mais é necessário acrescentar ao drama. Isto pode levar a importantes distorções. Quanto mais drama
existir, mais os meios de comunicação social terão de exagerar para captar novo interesse, o que leva à hipótese de que
há mais exagero quanto mais dramático é o acontecimento.
(6) N. R. - Ashby in An Introduction to Cybernetics (Nova Iorque: Wilcy, 1957) define o ruído simplesmente
como distorção, que pode criar diferenças de interpretação por parte do emissor e receptor de um canal de
comunicação. Mas tanto se pode dizer que o sinal distorce o ruído como o contrário.
(*) B. Berelson c G. A. Steiner no seu líuman Behaviour: An Inventory o f Scicntific Findings (Nova Iorque:
Harcourt, Bracc & World, 1963) referem um número de princípios no capítulo «Pcrceiving», c dois deles são (p. 112
c p. 100):

B7: Quanto maior a ambiguidade do estimulo, mais espaço e maior a necessidade de interpretação.
B3. 3a: Também pode haver um conhecimento reduzido dos estímulos se for importante nào ver (defesa
pcrccptual).

O que temos estado a fazer é combinar estes teoremas (mas não dedutivamente) na idcia de defesa contra a
ambiguidade. Há várias razões para isto. Os jornais actuais são meios de comunicação de massas, pelo menos a maioria
deles, e os publishers podem sentir (justificadamcntc ou não) que o aumento na ambiguidade pode baixar as vendas.
Além disso, enquanto as notícias servirem como base para a orientação da acção, a ambiguidade aumentará mais do
que reduzirá a incerteza c fornecerá uma base mais pobre para a acção.
ser trazido através de um padrao de conflito com o propno grupo de indivíduo (V-
A quinta hipótese liga o que está seleccionado com a pré-imagem mental, onde o
«espera» pode e deve ser interpretado cognitivamente como prediz e normativamente
<quer». Uma pessoa prediz que algo acontecerá e isto cria uma matriz mental para
acilidade na recepção e no registo do acontecimento se finalmente tiver lugar. Ora se se
ue ele aconteça, a matriz é ainda mais preparada, de tal forma que se pode distorc
ircepções recebidas eproporcionar imagens consonantes com o que se queria. No sentido
ferido, as «novas» são, de facto, «velhas», porque correspondem ao que se espera que acor
: se estiverem muito longe das expectativas não serão registadas, de acordo com esta hipc
consonância (').
A sexta hipótese vem corrigir a quarta e a quinta. A ideia é simplesmente a de que
ificiente para um acontecimento ser culturalmcnte significativo e consonante com o qui
;ra v a - isto define apenas um vasto conjunto de candidatos a notícias. Dentro deste conjur
:ordo com a hipótese, as mais inesperadas têm as maiores hipóteses deserem incluídas coi
:ias. É o inesperado dentro dos limites do significativo e do consonante que atrai aatenç
m ém , e p o r «inesperado» queremos dizer essencialmente duas coisas: inesperado ou ra>
n, o que é regular e institucionalizado, contínuo e repetitivo em intervalos regulares
nos, não atrai praticamenfe muita atenção, ceterisparibus, como o inesperado e o adhc
circunstância que éprovavelmente bem conhecida dos planeadores decim eiras(G altuni
Os acontecimentos têm de ser inesperados ou raros, ou, de preferência, am bas as coisas
tom arem boas notícias.
sétima hipótese consiste na ideia de que logo que alguma coisa atinja os cabeçalhos e
inida com o «notícia», então continuará a ser definida como notícia durante algum
imagine-se que o editor de um a estação de radiodifusão recebe apenas notícias do estrangeiro
e só de um certo tipo. Alguns minutos antes de entrar no ar, ele recebe algumas noticias
domésticas insignificantes e algumas notícias do estrangeiro de um gênero diferente. A hipótese
é a de que o valor mínimo necessário para estas noticias será muito mais baixo do que teria sido
de outro modo, devido a um desejo de apresentar um todo «equilibrado». De igual modo, se já
houver muitas noticias do estrangeiro, o valor mínimo necessário para cada um a será
aumentado.
Como referimos, estes oito factores baseiam-se na discussão pura e simples acerca do que
facilita e do que impede a percepção. São considerados culturalmente livres, no sentido de que
não esperamos que variem significativamente na cultura humana - não devem depender muito
dos parâm etros culturais. Mais propriamente, nós não esperaríamos que variassem muito nos
eixos este-oeste, norte-sul ou centro-periferia, eixos que nós geralmente utilizamos para
estruturar o mundo. Em particular, estes factores deveríam ser relativamente independentes de
alguns outros determinantes principais da imprensa. Um jornal pode variar ao ponto de
satisfazer a circulação de massas e uma economia de mercado livre. Se se quiser uma circulação
de massas, todos os passos na cadeia noticiosa anteciparão provavelmente a reacção do passo
seguinte na cadeia e acentuarão os efeitos de selecção e distorção de modo a tom ar o material
mais compatível com a imagem que os leitores querem. Além disso, um jornal pode variar no
grau com que tenta apresentar muitos aspectos da situação, ou melhor, como os parceiros numa
causa judicial tenta apresentar apenas o material que é facilmente compatível com o seu próprio
ponto de vista político. Neste último caso, a selecção e a distorção serão provavelmente
acentuadas e certamente não diminuirão.
M as não há dúvida de que também existem factores culturais influenciando a transição
dos acontecimentos para noticias e devemos mencionar quatro desses factores que considera­
m os ser importantes, pelo menos no canto Noroeste do mundo. São os seguintes:

F9: Quanto mais o acontecimento diga respeito às nações de elite, mais provável será
a sua transformação em notícia.
F l 0: Quanto mais o acontecimento diga respeito às pessoas de elite, mais provável será
a sua transformação em noticia.
F l 1: Quanto mais o acontecimento puder ser visto em termos pessoais, devido à acção
de indivíduos específicos, mais provável será a sua transformação em noticia.
F12: Quanto mais negativo fo r o acontecimento nas suas consequências, mais provável
será a sua transformação em noticia.

De novo, alguns comentários são necessários.


Q ue as noticias sejam centradas na elite, em termos de nações ou em termos de pessoas,
não é muito estranho. As acções da elite são, pelo menos geralmente e na perspectiva a curto
prazo, mais importantes do que as actividades dos outros: isto aplica-se tanto às nações de elite
com o às pessoas de elite. Além disso, como amplamente demonstrado pelas revistas populares
existentes na maioria dos países, a elite pode ser utilizada, em certo sentido, para falar de toda
a gente. U m a «estória» acerca do modo como o rei celebra o seu aniversário conterá muitos
elem entos que poderíam de igual modo ter sido utilizados acerca de qualquer outra pessoa, mas
quem, em particular, entre os homens e mulheres vulgares, deveria ser escolhido para a narração
da «estória»? As pessoas de elite estão disponíveis não só para servir de objectos da identi ficação

67
geral, m as também por causa da sua importância intrínseca. Assim, num sistema de com uni­
cação noticioso centrado na elite, não se dá a hipótese às pessoas vulgares de se representarem
a si próprias. Mutatis mutandis, o mesmo deveria aplicar-se às nações.
Mais problemática é a ideia da personificação. A tese é a de que as notícias têm uma
tendência para apresentar os acontecimentos como frases onde existe um sujeito, uma
denominada pessoa ou colectividade composta por algumas pessoas, e o acontecimento é então
visto como um a consequência das acções desta pessoa ou destas pessoas. A alternativa seria a
de apresentar os acontecimentos como o resultado das «forças sociais», como resultados mais
estruturais do que idiossincráticos da sociedade que os produziu. Numa apresentação estrutural,
os nomes dos actores desapareceríam em grande parte, como acontece com a análise sociológica
e sempre pela mesma razão - a tese é a de que a apresentação encontrada assemelha-se mais
ao que se descobre na tradicional análise histórica personificada. Até ao ponto em que a tese
for correcta o problema será o do porquê, e temos cinco explicações diferentes para oferecer:

1. A personificação é um resultado do idealismo cultural segundo o qual o homem é


dono do seu próprio destino e os acontecimentos podem ser vistos como o resultado
de um acto de livre vontade. Numa cultura com um a visão mais materialista, não deve
ser este o caso. O s factores estruturais devem ser realçados, haverá mais eventos
envolvendo as pessoas ou tendo as pessoas como instrumentos, do que os acontec­
imentos causados pelas pessoas.
2. A personificação é um a consequência da necessidade de significado e consequen­
tem ente de identificação', as pessoas podem servir mais facilm ente com o objectos
de identificação positiva e negativa através de um a com binação de projecçâo e
em patia.
3. A personificação é um resultado do factor-frequência: as pessoas podem agir
durante um espaço de tempo adequado à frequência dos media noticiosos, as
«estruturas» são mais difíceis de fixar no tempo e no espaço.
4. A personificação pode ser vista como uma consequência directa da concentração
elitista, mas distinta dela.
5. A personificação está mais de acordo com as modernas técnicas de recolha e
apresentação das notícias. Assim, é mais fácil tirar um a fotografia duma pessoa do
que de uma «estrutura» (esta última é melhor para os filmes - talvez), e um a vez que
um a entrevista fornece um a base necessária e suficiente para uma «estória» centrada
num a pessoa, um a «estória» centrada na estrutura requererá muitas entrevistas,
técnicas de observação, recolha de dados, etc. Obviamente, está implícita aqui a
questão do «ovo e da galinha», uma vez que também se pode argum entar que a
personificação veio primeiro e que as técnicas, toda a estrutura da comunicação
noticiosa, foram desenvolvidas consequente e posteriormente.

N ós apenas damos aquelas explicações sem fazer qualquer escolha entre elas; primeiro
que tudo, porque não existe qualquer razão para escolher, contanto que não se contradigam; em
segundo lugar, porque não temos nem quaisquer dados nem qualquer teoria que nos forneçam
um a base racional para um a escolha. É nosso pressentimento que a análise futura realçará o facto
de estes factores se reforçarem uns aos outros na produção da personificação.

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Quando reclamamos que as notícias negativas são preteridas em relação às positivas, não
estamos a dizer nada mais sofisticado do que aquilo que a maioria das pessoas parece querer
dizer quando afirm a que «há tão pouca coisa alegre nas noticias», etc. Mas nós podemos oferecer
um número de razões pelas quais este estado de coisas se apresenta como possível, como fizemos
para o factor de personificação. Iremos fazer isso utilizando os outros factores de forma
relativamente sistemática:

1. As notícias negativas entram no canal noticioso mais facilmente porque satisfazem


m elhor o critério de frequência. Existe uma assimetria básica na vida entre o
positivo, que é difícil e leva tempo, e o negativo, que é muito mais fácil e leva menos
tem po - compare-se a quantidade de tempo necessário para educar e tom ar sociável
um a pessoa adulta e a quantidade de tempo necessária para a matar num acidente:
a quantidade de tempo necessário para construir uma casa e para a destruir pelo fogo,
para fazer um avião e o destroçar, e por aí adiante. A positiva não pode ser fácil, pois
então teria um baixo valor de raridade. Assim, um acontecimento negativo pode mais
facilmente desenrolar-se por completo entre duas edições de um jornal e duas
transmissões radiofônicas - isto é mais difícil e específico para um acontecimento
positivo. São necessários acontecimentos iniciais ou culminantes. Um indivíduo
orientado para as relações públicas assegurará essa necessidade - mas nem sempre
estará presente.
2. As noticias negativas serão mais facilmente consensuais e inequívocas no sentido
de que haverá acordo acerca da interpretação do acontecimento como negativo. Um
acontecimento «positivo» pode sê-lo para algumas pessoas e não o ser para outras,
e por isso não satisfazer o critério de clareza. O seu significado será ofuscado por
outros overtones e undertones.
3. Diz-se que as notícias negativas são mais consonantes com, pelo menos, algumas
pré-imagens dominantes do nosso tempo. Importa é que as notícias negativas
preencham algumas necessidades latentes ou mani festas e de que muitas pessoas têm
essas necessidades. D as muitas teorias neste campo, preferimos a versão da
dissonância cognitiva por ser falsificável. A teoria, todavia, pressupõe um nível
relativamente alto de ansiedade geral, que fornece um a matriz na qual as notícias
negativas podem ser encaixadas com bastante consonância. Deve ser o que se passa
durante as crises (">), pelo que um teste desta teoria seria a de que durante as crises

(l0) Fcstinger tem um ensaio muito interessante acerca do modo como os índios seieccionavam os rumores que
se seguiam a um terramoto, e que estavam de acordo com o medo provocado pelo mesmo: «Especulemos acerca do
conteúdo da cogniçâo destas pessoas. Quando o terramoto acabou, tiveram uma forte e persistente rcacçâo de medo,
mas nào viram nada de diferente à sua volta, nenhuma destruição, nada ameaçador, cm suma, havia-se originado uma
situação cm que existia uma dissonância entre a cogniçâo correspondente ao medo que sentiam e a percepção do que
viam á sua volta que, poder-se-ia dizer, correspondia à cogniçâo de que não havia nada para se ter medo. A grande
maioria dos rumores que tinham grande circulação eram rumores que, a acreditar neles, forneciam cogniçâo
consonante o medo que as pessoas sentiam. Podcr-sc-lhcs-ia chamar rumores «provocadores de medo», embora, se
a nossa interpretação está correcta, deveríam mais propriamente chamar-se rumores «justificativos de medo». Lcon
Festingcr, «Dcmotivating Efect of Cognitive Dissonancc», in Gardncr Lindzcy (cd.), Assessmenl o f Ituman Motives
(Nova Iorque: Grove Press, 1958), p. 72.

69
as notícias que não estão relacionadas com as crises tendem a ser mais negativas, e
não mais positivas (como um a teoria de compensação, mais do que a da dissonância'
/redução de caracter prognóstico).
4. As noticias negativas são mais inesperadas do que as positivas, tanto no sentido de
que os acontecimentos referidos são mais raros, como no sentido de que são menos
previsíveis. Isto pressupõe um a cultura onde as mudanças para o positivo, por outras
palavras «o progresso», são vistas de algum modo como a coisa normal e trivial que
pode ser menos noticiada porque não representa nada de novo. Os altos e baixos
negativos serão mais noticiados do que o fluxo positivo estável. O teste desta teoria
seria um a cultura com regressão, como facto normal, e nesse caso previriamos uma
torrente de noticias positivas. Um exemplo disto é a doença de um a pessoa
importante: a mais leve melhoria é amplamente noticiada relativamente a um
declinio constante.

De novo, não temos teorias suficientes para fazer um a escolha entre estas possíveis
explicações - nem temos de o fazer, um a vez que elas não se excluem umas às outras.
Relativamente a estes últimos quatro factores disse-se que eles parecem ser de particular
im portância no canto Noroeste do Mundo. Isto não significa que eles não ocorram noutras áreas,
m as também se podería imaginar outros padrões de relação entre o conjunto de acontecimentos
e o conjunto de notícias. O quadro I mostra alguns exemplos:

QUADRO I

Alguns padrões da estrutura noticiosa

Padrão F9 FIO F ll F12

nação pessoas personificação negativização


I centrado na centrado na centrado na centrado no
elite elite pessoa negativo
II centrado na centrado na centrado na centrado no
elite elite estrutura positivo
m centrado na centrado na ambos centrado no
elite elite negativo
IV centrado na centrado na centrado na centrado no
não elite elite pessoa positivo

O padrão I é o padrão que descrevemos anteriormente. O padrão II, a que os dois últimos
e os dois primeiros aspectos dizem respeito, estaria mais de acordo com o pensam ento socialista,
com o pensam ento das grandes potências. Ele englobaria a estrutura noticiosa da União
Soviética, mas com a importante ressalva de que se utilizaria o padrão III para descrever as
potências ocidentais. De igual modo, um país em vias de desenvolvimento recentemente

70
independente poderia utilizar o padrão IV para si, assim como as antigas potências coloniais
receberíam o padrão III. M as tudo isto, no entanto, é muito especulativo (")•
Listemos então sistematicamente os 12 factores em que nos temos concentrado nesta
análise (juntamente com os subfactores):
Os acontecimentos tom am-se em notícias até ao ponto de satisfazerem as condições de

F l: frequência
F2: threshold
F2.1: intensidade absoluta
F2.2: aumento de intensidade
F3: inequivocidade
F4: significância
F4.1: proximidade cultural
F4.2: relevância
F5: consonância
F4.1: «predictabilidade»
F4.2: exigência
F6: imprevisibilidade
F6.1: «impredictabilidade»
F6.2: escassez
F7: continuidade
F8: composição
F9: referência a nações de elite
FIO: referência a pessoas de elite
F l 1: referência a pessoas
F12: referência a algo negativo

Como referimos, estes 12 factores não são independentes uns dos outros: existem interes­
santes inter-relações entre eles. Todavia, não devemos tentar «axiomatizar» nesta magra base.
Imaginemos que todos estes factores estão operando. Isso significa, supomos, três coisas:

1. Quantos mais acontecimentos satisfizerem os critérios mencionados, mais possibi­


lidades terão de serem registados como notícias (selecção).
2. Logo que um a noticia é seleccionada, o que a tom a noticiável de acordo com os
factores, será salientada (distorção).

(u) Como exemplo, podem ser dadas algumas impressões dos três meses de leitura sistemática do jornal
marroquino Lc Petit Aíarocain. De uma forma muito resumida: a primeira página continha noticias acerca do progresso
em Marrocos, a segunda acerca de decadência, assassínio, violação e violência em França - de modo que qualquer
pessoa podia tirar a sua conclusão. Naturalmcntc, essas coisas dependerão mais fortemente dos sistemas de valores
do corpo editorial - mas nós, todavia, postulamos a existência de padrões gerais. Ola Martcnsson, Pravda, Iz\'cstia och
Krasanaja Zvezda under varen hosten 1964 (Lund: Instituto de Ciência Política, Lund University, Suécia, 1965), 26
pp. mimeo.
:ias de intorm açao ligadas a correspondentes especiais. F or outras pa/avra
esc de todas as ligações na cadeia reagirem com o que se recebe em grande f
os m esm os princípios. O jornalista perscruta os fenôm enos (na prática, es
is jornais) e selecciona e distorce, e o m esm o faz o leitor quando recebe o proí
iginas de notícias, e o m esm o ainda fazem todos os interm ediários. E o m
m os, as pessoas de um m odo geral quando relatam algo. É, por exem plo
im atas quando reúnem m aterial para despacho - em parte porque estão condic
psicologia e a sua cultura, e em parte porque se sentem influenciados pelos j
Em geral, isto significa que os efeitos cumulativos dos factores devem ser co
:vem produzir um a imagem do mundo diferente do «que realmente acontei
mplo, das formas indicadas por Ostgaard, (1965, p. 52). Todavia, uma vez que
lquer linha de base nos relatos directos acerca do «que realmente aconteceu», no;
sa ser testado, devemos prosseguir numa direcção diferente. O nosso problema
no os factores se relacionam uns com os outros na promoção de um produto fin;
Imaginemos que todos os factores, por simplificação, são dicotomizados de modo
tntecimento ou os possui ou não. Um dado facto pode receber uma pontuação de 0 a I2i
m este sistema, e nós achamos que é tão vantajosa uma pontuação daquele conceito es
oticiabilidade» como de qualquer outro, r.uma cultura em que F8-F12 são válidos. Isto t
iplicações teóricas que serão enunciadas. A primeira é extremamente simples:

Hipótese de aditividade: Quanto mais alta for a pontuação total de um ;


cimento, maior será a probabilidade de se tomar notícia, e de se tomar ma
(headlines).

Isto pode ser encarado como uma hipótese acerca do modo como os jornalistas trabal
Mas há uma outra hipótese que é menos trivial. Um acontecimento não tem obviamente
de ter uma pontuação de 12 para ser manchete. Imaginemos que o nivel de aceitação é 6, que
pode ser obtido de 924 maneiras diferentes. (Este elevado número, aliás, explica a razão pela
qual os factos podem estar a operar e não serem notados pelo público: a variedade é enorme.)
A implicação disto reside apenas no facto de se o acontecimento for baixo numa dim ensão ou
factor, ele pode compensar isso sendo alto noutro, e ainda ser noticia. Por exemplo, quanto
menos um acontecimento se referir a pessoas enquanto actores mais negativo terá de ser
(terramotos, acidentes que são apresentados em termos de erros técnicos, não em termos «de
factor humano»). Quanto mais próximo culturalmente for o acontecimento, e por isso mais
significativo, menos tem de se referir às pessoas da elite - e vice-versa: quanto mais distante
culturalmente for o acontecimento, mais se deve referir às pessoas da elite, ceteris paribus (o
que corresponde à im pressão de que se fala muito menos da gente comum que vive em países
longínquos).
U m a vez que temos 12 factores, este principio dá origem a 66 hipóteses, da seguinte forma:
Hipótese de complementaridade:

Fi Fj, i = j; i, j = 1, 2.......... 12

O raciocínio é sempre o mesmo; se um acontecimento é baixo em Fi, então terá de ser


elevado nalgum Fj para ser notícia. Para um Fi baixo, a probabilidade de um Fj ser alto é maior
do que para um Fi elevado - um a vez que um Fi elevado já contribuiu para a pontuação total.
D e acordo com a hipótese aditiva, também existirão noticias em que ambos serão elevados, e
aos quais será dada bastante relevância. M as acontecimentos em que ambos sejam baixos não
serão admitidos como notícias.
A ssim, para um caso de somente dois factores, Fi e Fj, temos os três tipos de
acontecimentos indicados no quadro II:

QUADRO II

Uma tricotomia de acontecimentos de acordo com a noticiabilidade

Fi Fj P on tu ação de
n o ticiabilidade

Tipo 1. Notícias proeminentes elevado elevado 2


Tipo 2. Vulgares elevado baixo 1
baixo elevado
Tipo 3. Acontecimentos
não notícias baixo baixo 0

73
A objectividade
como ritual estratégico:
uma análise das noções
de objectividade
dos jornalistas (') (*
*)
Gaye Tuchman

Os jornalistas cujo procedimento temos vindo a estudar acreditam que podem mitigar
pressões contínuas como sejam os prazos, os possíveis processos de difamação e as repressões
antecipadas dos superiores, com a argumentação de que o seu trabalho é «objectivo». Este
artigo analisa três factores que ajudam um jornalista a definir um «facto objectivo»; a forma, o
conteúdo e as relações interorganizacionais. Demonstra que ao analisar o conteúdo e as
relações interorganizacionais, o jornalista só pode invocar o seu news judgement; todavia, ele
pode reivindicar a objectividade citando procedimentos que seguiu e que exemplificam os
atributos formais de uma notícia ou de um jornal. Por exemplo, o jornalista pode afirmar que
citou outras pessoas em vez de dar as suas próprias opiniões. O artigo sugere que a «objectivi­
dade» pode ser vista como um ritual estratégico, protegendo os jornalistas dos riscos da sua
profissão. Ele levanta a questão de outras profissões não poderem também usar o termo
«objectividade» da mesma maneira.

(') Uma versão mais pequena deste ensaio foi apresentada, cm 1971, nos encontros da American Sociological
Associated. Beneficiei dos comentários da Charles Perrow, Kenncth A. Fcldman, Rose L. Coser e Florcnce Lcvinsohn
ajudou-me a editá-lo.
(*) Reedição de; American Journal o f Sociology (Vol. 77, N.° 2, 1972). «Objectivity as Stratcgic Ritual: An
Examinalion of Ncwsmcn's Notions of Objectivity», de Gaye Tuchman. Direitos de autor: The University of Chicago.
Reedição com a aprovação do editor.

74
Para um sociólogo, o termo «objectividade» está cheio de significado. Invoca filosofia,
noções de ciência e idéias de profissionalismo. Evoca os fantasmas de Durkheim e Weber,
recordando controvérsias em jornais especializados acerca da natureza de um «facto social» e
do termo «livre de valores».
A frequente insistência dos cientistas sociais na objectividade não é especifica da sua
profissão. Os médicos c os advogados declaram que a objectividade é a atitude adequada para
com os clientes. Para os jornalistas, como para os cientistas sociais (:), o termo «objectividade»
funciona como um baluarte entre eles e os críticos. Atacados devido a uma controversa
apresentação de «factos», os jornalistas invocam a sua objectividade quase do mesmo modo
que um camponês mediterrânico põe um colar de alhos à volta do pescoço para afastar os
espíritos malignos.
Os jornalistas têm de ser capazes de invocar algum conceito de objectividade a fim de
trabalhar os factos relativos à realidade social. Este artigo analisará três factores que
influenciam a noção de objectividade dos jornalistas: a forma, as relações interorganizacionais
e o conteúdo. Por forma, entendo aqueles atributos das noticias e dos jornais que exemplificam
os processos noticiosos, como o uso das aspas. Por conteúdo, entendo aquelas noções da
realidade social que os jornalistas consideram como adquiridas. O conteúdo é também relacio­
nado com as relações interorganizacionais do jornalista, pois as suas experiências com essas
organizações levam-no a tomar por certas algumas coisas acerca delas. Finalmcnte, sou de
opinião de que o manuseamento da «estória», isto é, o uso de certos procedimentos perceptí­
veis ao consumidor de noticia, protege o jornalista dos riscos da sua actividade, incluindo os
críticos.
Everett Hughes (1964) sugere que os procedimentos que servem este propósito podem
ser encarados como «rituais». Um ritual é analisado aqui como um procedimento de rotina
que tem relativamente pouca relevância ou uma relevância tangencial para o fim procurado. A
adesão ao procedimento é frequentemente obrigatória. O facto de um tal procedimento poder
ser o meio mais conhecido de se chegar ao fim que se procura não deprecia a sua caracteriza­
ção como ritual. Por exemplo, a prática oitocentista de sangrar os pacientes para os livrar da
febre pode ser entendida como um ritual (3). Os jornalistas invocam os procedimentos rituais
para neutralizar potenciais críticas e para seguirem rotinas confinadas pelos «limites cogniti­
vos da racionalidade». Esses mesmos procedimentos rituais também são «estratégias» perfor-
mativas (M arch e Simon, 1967, pp. 137, 141). O termo «estratégia» denota a táctica ofensiva
destinada a prevenir o ataque ou a deflectir, do ponto de vista defensivo, as criticas (*). A

(: ) Jacobs (1970) põe cm questão comparações entre os jornalistas e os sociólogos, chamando a atenção para o
facto de os sociólogos reunirem mais dados para um fim diferente. Refere que a primeira regra do seu editor era «obter os
factos» e a segunda «não deixar os factos interferir com 'a estória'. Os jornais contemporâneos, incluindo aqueles para os
quais Jacobs trabalhou, puseram dc lado esta segunda máxima. A quantidade e o fim da informação reunida não
depreciam a minha argumentação.
(’) Os procedimentos que os módicos do século XX encarecem não os furta â caracterização de rituais (Evcrctt
Hughes, comunicação pessoal, 1971). A relutância de muitos de encararem os procedimentos médicos como rituais é
provavelmente um reflexo do grande prestigio profissional dos médicos.
(‘) Wcinstein (1966) fala da «táctica de aumento da credibilidade» e sugere (comunicação pessoal, 1971) que as
tácticas conotadas com a «objectividade», tais como fazer citações de outras pessoas ou apresentar hipóteses alternativas,
citando provas negativas ou opiniões contraditórias, podem ser utilizadas no aumento da credibilidade na comunicação
interpessoal.

75
irticipantc num jornal dtarto mciropouimiu u/m
ires (!). 0 décimo é retirado de um livro sobre práticas noticiosas
as, os jornalistas criticam o trabalho de colegas; num, umjomalistt
>utro jornal. 0 ênfase posto na crítica é, em parte, um resultado dos,
observador participante, tentei colocar o menor número possível de
ilmcnte importante quando observava os editores principais que passa1
;c soterrados nas matérias. Quando elogiavam um artigo cm detrímei
ntavam as suas razões. Quando não gostavam, davam inúmeras razõe
Lssas razões eram cuidadosamente registadas, e estes registos são
neccss
:tos do que as imputações relativas ao que está «correcto» numa «boa» .
i as notícias que sofreram críticas; as enfadonhas exposições das falhas de i
que prontamente categorizadas, eram poucas e raras. Todavia, as categorias
tivas que elas geravam forneciam critérios para a avaliação de notícias «ts
5. A discussão da «apresentação das possibilidades contraditórias» é constn

as categorias negativas assim como das afirmações «positivas» dos informantes

Ao contrário dos cientistas sociais, os jornalistas tem um reportório limitado co.


ãnem e defendem a sua objectividade. Nas palavras de Radi (1957, 1960), o cientis,
escrito passará através de uma cadeia organizacional composta por uma hierarquia de editores
e respectivos assistentes. Como os jornalistas esclarecem prontamente, o processamento de
uma notícia envolve «conjecturas». O repórter «faz conjecturas» sobre as preferências do
editor da secção local e os seus assistentes, que fazem o mesmo gênero de conjecturas em
relação aos editores da secção política, e estes em relação aos editores principais, que, por sua
vez, fazem conjecturas sobre as preferências do director, e todos eles «conjecturam» a vontade
do proprietário. Todos criticarão a noticia após a sua publicação.
No jom al assim examinado, o adjunto do managing editor estava encarregado de fazer a
selecção final do material. Se não gostava de um artigo, podia criticar o editor da secção local
por tê-lo deixado passar. O editor da secção local faria o mesmo tipo de comentário ao editor
da secção «cidade», e a «repreensão» descería pela cadeia hierárquica. Noutras ocasiões, o top
editor poderia muito simplesmente «corrigir a lápis azul» ou alterar a «má noticia», queixan­
do-se do facto de os subordinados terem feito um mau trabalho e terem originado trabalho
suplementar aos seus superiores. Neste caso, os subordinados perceberíam que o seu trabalho
fora inadequado quando lessem o jom al c vissem que o artigo impresso diferia do artigo
escrito. As repreensões e as «correcções a lápis azul» fazem parte de um sistema de controlo
social (Breed 1955) que afectam potencialmente as promoções, a manutenção do cargo e a
nomeação para trabalhos importantes.
Dois factores salientam-se neste processo de exame hierárquico e potencial crítica. O
jom al é um a compilação de muitas «estórias». Se um excessivo número de «estórias» tiverem
de ser rcescritas, o jom al não conseguirá cumprir os seus prazos e os lucros sofrerão com isso.
Os camiões que transportam o jom al para as regiões limítrofes partirão atrasados; os seus
condutores poderão ter de receber horas extraordinárias. Se uma edição se atrasa, o horário das
edições seguintes será afcctado; os tipógrafos podem exigir o pagamento de horas extraordiná­
rias. Além disso, se as últimas edições da manhã não chegarem a tempo às bancas, os leitores
podem comprar o jom al rival à venda, diminuindo assim os lucros da companhia. Os jornalis­
tas receiam que as vendas futuras possam então estar em risco. Ao ler o jom al rival, o leitor
pode achar que este é «superior» e mudar os seus hábitos de compra.
Cada notícia é uma compilação de «factos» avaliados e estruturados pelos jornalistas.
Estes são responsáveis pela exactidão de qualquer um destes «factos». Os «factos» são lidos
tanto pelo leitor comum como pelo leitor «interessado» (a pessoa que o artigo cita, descreve c/
ou noticia). Sc o leitor interessado sentir que pode provar que houve prejuízo para o seu
negócio, reputação, etc., ele pode instaurar um processo por difamação. Embora os processos
por difamação sejam relativamentc raros, quando ocorrem trazem problemas financeiros às
organizações jornalísticas. Ao pôr em perigo a reputação de um jom al, um processo de
difamação também pode afectar a propensão do leitor comum para a compra do jom al. Um
processo de difamação põe também em risco a rotina da redacção, ao exigir que alguns
membros da mesma compareçam em tribunal (').

O Os jornalistas também se queixam das intimações para comparecerem em tribunal quando os julgamentos
envolvem acontecimentos que eles testemunharam ou relataram. Não só se recusam a revelar as suas fontes de informa­
ção como as suas aparições em tribunal os afastam da sua rotina diária.

77
im que o jornalista deve questionar os factos indo à fonte, mas alguns alegados factos devem pura
simplesmente ser aceites como «verdadeiros». O facto de encararem tudo como questionável leva
lisparates como o seguinte: «Robcrt Jones e a sua alegada esposa, Fay Smith Jones, deram ontem
[ue eles descreveram como um cochail na sua suposta casa no 187 da Grant Street, City, pretens
nente cm honra de uma senhora que se diz chamar senhora John Smith, geralmente tida como tia <
nfitrião».
O jornalista navega entre a difamação c o disparate ao identificar «objcctividade» co
factos» que ele ou outros jornalistas observaram ou que podem ser verificados. A verificaç
nplica a utilização, ou a possibilidade de utilização, dc procedimentos apropriados, comc
: telefonar para a conservatória do registo civil para confirmar se Robert Jones era casa
>m Fay Smith. Se a verificação é necessária mas não pode ser obtida, o jornalista pode seg
itras estratégias.

(') Na minha primeira entrevista a um jornalista (neste caso, o vice-presidente de informação na cstaçãi
III

Além da verificação dos «factos», os quatro procedimentos estratégicos seguintes, exem-


plificativos dos atributos formais de uma notícia, fazem com que o jornalista consiga a
objectividade.

1.A apresentação de possibilidades conjlituais. - Os jornalistas têm de ser capazes de


identificar os «factos», muito embora algumas pretensões de verdade não sejam facilmente
verificáveis. Por exemplo, um senador dos EUA pode afirmar que a América está a ser
ultrapassada pela União Soviética no desenvolvimento de um tipo de missil específico. O
repórter não consegue, certamente, confirmar essa afirmação ainda antes de o jornal ir para a
rotativa, e até pode acontecer que ele nunca consiga descobrir informação adequada para
avaliar até que ponto é que a afirmação é um «facto». O repórter só pode determinar que o
senador afirmou «A». Os jornalistas veem a afirmação «X disse A» como um «facto», mesmo
que «A» seja falsa.
Isto cria problemas tanto ao repórter como à empresa jornalística. Primeiro, o leitor quer
supostamente saber se a afirmação «A» é um «facto», c uma função da notícia é dizer ao leitor
o que ele quer c deseja saber. Segundo, uma vez que não se pode confirmar a veracidade da
afirmação do senador, o leitor pode acusar tanto o repórter como a empresa jom alistica de
parcialidade (ou de «favorecer» o senador) caso não seja apresentada uma opinião contrária.
Por exemplo, se o senador pertence ao Partido Democrata e o presidente ao Republicano, o
leitor pode acusar o jornal de favorecer os democratas, porque o único «facto» relatado fora o
de que o senador democrata dissera «A». O jornalista sentiría que fora posta em causa a sua
capacidade de ser «objcctivo» face a uma crítica previsível.
Mesmo que o repórter não consiga por si só confirmar a veracidade da acusação do
senador, ele pode contactar alguém que o possa fazer. Por exemplo, ele pode perguntar ao
ministro republicano da Defesa se a acusação do senador é verdadeira. Se o ministro da Defesa
afirmar que é «falsa», o repórter não consegue provar que o ponto de vista do ministro é
«factual». Ele pode, todavia, escrever que o ministro da Defesa afirmou «B». Ao apresentar
tanto a versão «A», atribuída ao senador, como a «B», atribuída ao ministro da Defesa, o
jornalista pode, então, reivindicar que está a ser «objectivo», pois apresenta «os dois lados da
questão» sem favorecer qualquer indivíduo ou partido político (’). Além disso, ao apresentar
ambas as versões, o repórter «objectivo» permite supostamente ao leitor decidir se é o senador
ou o ministro quem «está a dizer a verdade».(*)

(*) Ao falar de práticas televisivas, Bcnet (1970, p. 113), um defensor do jornalismo na primeira pessoa ou
interpretativo, refere que, se uma declaração é filmada, a refutação também deve ser filmada, e não veiculada pelo
repórter. A televisão e os jornalistas de imprensa reconhecem um problema através da apresentação de possibilidades
conflituais. Uma vez que a noticia sc interessa pelo conflito (Roverc, 1960), uma acusação é mais noticiávcl do que um
desmentido. Assim, a acusação colocada no inicio da noticia (porque é mais noticiávcl, importante, etc.) pode receber
mais atenção do leitor do que o desmentido colocado para o fim da noticia. Roverc (1960) relata a perícia de Joseph
McCarthy na utilização desta regra para maximizar a sua cobertura como notícia.
que o leitor tirasse as suas propnas conciusoes». u proceaimemo poae comar-^c *w.
complexo. Por exemplo, ao afirmar a pretensão de verdade «B», o ministro da Defesa ]
acusar o senador de andar a brincar com a política de defesa nacional. O presidente da Comi
de Armamento do Congresso, um membro do Partido Democrata, pede então contradiz
acusação do ministro, afirmando que a administração republicana está a pôr em perh
segurança nacional através de informações pouco consistentes e tratamento descuidadc
orçamento militar para o desenvolvimento de armamento. No dia seguinte, o presid
nacional de um grupo pacifista pode convocar uma conferência de imprensa para acusar tc
os partidos da controvérsia em tomo do militarismo, dando prioridade à produção de armas
ictrimento da exploração de tuna determinada solução diplomática que tenha em vista a paz
;egurança mundiais. Um porta-voz presidencial pode vir então a acusar o dirigente do g r
lacifista de ser um simpatizante comunista tentando minar o processo político americano.
Nesta altura, existem cinco pessoas (o senador, o ministro, o presidente da Comissão
iimamento, o dirigente do grupo pacifista, o porta-voz presidencial) com pretensões de verd
npossíveis de verificar, representando cada uma delas uma possível realidade. Ao analisa
mtrovérsia em tomo do problema da marijuana, Goode (1970, pp. 50-68) refere-se a 1
intano de opiniões querendo ser tomadas como factos, como sendo a «política da rcalidad
nbora esta noção seja relevante do ponto de vista sociológico, é inútil para os jornalistas pos
rante o dilema da identificação e verificação dos «factos». Todavia, ao emparelhar
: tensões de verdade ou ao publicá-las à medida que vão surgindo durante uma série de dias,
nalistas reclamam a «objectividade». Como dizem os jornalistas, o leitor pode não s
ífrontado com os pontos de vista acerca de uma notícia num só dia, m as ele irá s
ífrontado com uma diversidade de pontos de vista ao longo de um certo período de tempo.
Como um fórum a arejar a «política da realidade», a definição dos jornalistas da situaç;
para além da apresentação dos dados suficientes para o leitor chegar a uma conclusão. U
tano de pretensões de verdades contraditórias, como as hipóteses apresentadas, teriam ma
tagens em ser encaradas como um convite aos leitores para exercitarem a percepça
ctiva, uma reacção característica às notícias. De facto, o convite à percepção selectiva
> insistente, pois cada versão da realidade reclama a mesma validade potencial. Visto qu
bjectividade» pode ser definida como «prioridade aos objectivos externos ao pensamento
bjcctivo» como «aquilo que pertence ao objecto de pensamento e não ao sujeito que pensa
ias definições de dicionário), seria difícil de afirmar - como os jornalistas fazem - que
referia o facto de que o falecido tinha tocado com John Philip Sousa. O «facto» suplementar, o
editor concordou, justificava a expressão «músico excepcional».
De igual modo, um repórter criticou os editores por falta de objectividadc, a propósito de
um artigo publicado que se referia à «propaganda comimista» num loca! específico. Ele
defendia que o artigo deveria ter incluído mais «factos», tais como os títulos dos trabalhos
específicos observados. Embora reconhecendo que o rótulo «propaganda comunista» pudesse
não caracterizar correctamente cada uma das peças do trabalho ele insistia que uma tal
apresentação seria mais «objectiva». Apresentar-se-iam «factos» (títulos) que serviríam de
suporte à afirmação inicial. Além disso, os títulos possibilitariam, presumivelmente, ao leitor
avaliar até que ponto é que a expressão «propaganda comunista» era correcta e como tal
«factual», do mesmo modo que a referência à associação do músico falecido com Sousa
possibilitaria ao leitor decidir por si só se o rótulo «músico excepcional» era justificado ('“).
A asserção dos jornalistas de que «os factos falam por si» é esclarecedora. Esta expressão
implica uma distinção quotidiana entre os «factos expressivos» e o repórter (orador, bisbilho­
teiro, etc.) que fala pelos «factos». Se o repórter decidir falar pelos «factos», ele não poderá
afirmar-se objectivo, «impessoal», «imparcial». Naturalmente, é assunto assente, do ponto de
vista sociológico, de que os «factos» não falam por si. Por exemplo, Shibutani (1966) demons­
tra que a avaliação e a aceitação de «factos» está extremamente dependente dos processos
sociais.

3. O uso judicioso das aspas. - Os jornalistas veem as citações de opiniões de outras


pessoas como um a forma de prova suplementar. Ao inserir a opinião de alguém, eles acham
que deixam de participar na notícia e deixam os «factos» falar, como se pode observar na
discussão em tomo do seguinte incidente.
U m edifício degradado, pertencente ao senhorio absentista, estava sem aquecimento há
vários dias sob um a temperatura de aproximadamente zero graus. O senhorio afirmava que a
caldeira estava a ser arranjada naquele momento. Quando Smith, o editor da secção local,
visitou o edifício, não havia ninguém a trabalhar na unidade de aquecimento, um «facto» que
Smith acrescentou à notícia do repórter. Ao rever o artigo, Jones, o adjunto do managing
editor, disse ao seu subordinado Smith para contactar mais inquilinos do edifício e para
aumentar o número de pessoas mencionadas na notícia.

«Se me cortsegidres arranjar mais (citações dos inquilinos), publicamos a noticia», diz
Jones. (Após alguns momentos) Jones voltou a dizer que queria mais pessoas citadas, porque
«já tive demasiados problemas». Sem provas auxiliares, a noticia pode ser alvo de um
processo de difamação.

0 o) Pode-se muito bem discordar do facto de que «empilhar facto cm cima de facto» pressupõe um leitor
sofisticado versado cm diversas áreas. Por um lado, os jornalistas sustentam que a apresentação de provas auxiliares
permite ao leitor decidir por si só se uma alegação ou uma descrição é «factual». Por outro lado, os jornalistas, por vezes,
queixam-se e denigrem a inteligência dos seus leitores. De facto, cm várias ocasiões, os editores fizeram questão de me
ensinar a ler nas entrelinhas dos relatos de modo a que pudesse avaliar correctamente os «factos». Estas assunções
contraditórias podem explicar a insistência de Ellul (1966, p. 76) quanto ao facto de que o homem que acredita estar
informado e tem fome de noticias ser alguém facilmente manipulável pela propaganda espccialmentc se ele aderir aos
mitos dominantes nas sociedades tecnológicas.

81
Ao acrescentar mais noir.es e citações, o repórter pede tirar as suas opiniões da notícia,
conseguindo que outros digam o que cie próprio pensa. Por exemplo, durante a cobertura noticiosa da
visita de um gnipo de individualidades a um procurador-geral dos EUA para exigir uma tomada de
medidas contra o massacre de alguns estudantes negros cm Orangeburg, Carolina do Sul, um
repórter perguntou a um padre qual era a sua reacção ao comportamento do procurador federal.

O padre respondeu: «Estamos extremamente preocupados com o que se está a passar.


Ê lamentável que se responda às nossas preocupações de uma maneira em que não se tem em
conta o fa d o de o assassinato de pessoas originar uma onda de emoção que não pode ser
controlada dizendo aos cidadãos para não se precipitarem.» ... O repórter perguntou então:
«Por outras palavras, está descontente?» 0 padre responde: «Penso que houve uma aspereza
desnecessária.» Olha para um amigo e prossegue: «Grosseria é a palavra adequada.»

Logo que saímos, o repórter explicou que entrevistou o padre para conseguir especifica-
mente aquelas afirmações de modo a não propalar a sua opinião e não ter de ser ele a chamar
grosseiro ao procurador-geral.
O uso de citações para fazer desaparecer a presença do repórter da notícia estende-se ao
uso das aspas como instrumento de sinalização. Elas podem ser usadas, como acabamos de
discutir, para informar: «Esta afirmação pertence a uma qualquer pessoa, menos ao repórter.»
Também podem ser utilizadas para pôr em questão a designação atribuída. Por exemplo, o
termo Nova Esquerda (sem aspas) refere-se a um grupo de pessoas com determinado posicio­
namento político. A «Nova Esquerda» (com aspas) refere-se a um grupo que se intitula de
Nova Esquerda: neste caso, a legitimidade do grupo é posta em causa.
Impressionado por uma manifestação de resistência à incorporação militar, um repórter
utilizou as aspas de todas as formas possiveis para satisfazer os seus editores que ele sabia
serem contrários à manifestação. Escreveu:

Alguns (milhares de) pessoas afluiram, ontem, até ao parque, onde um comício contra a
incorporação e a guerra, «de um êxito surpreendente», atingiu o seu clímax quando mais
de... jovens rasgaram as suaspapeletas de incorporação.
O teor das duas horas e meia de manifestação fo i de que o movimento «Nova Esquer­
da» está a crescer e que tem de se expandir para acabar com a actual política americana e
«constndr uma América em que não nos envergonhemos de viver».
A manifestação de protesto do parque fo i um segmento das manifestações de costa a
costa que decorreram em 60 cidades a que se chamou o Dia de Resistência Nacional. O
evento de dois dias conclui-se hoje com algumas «sessões políticas» na zona citadina.
O comício do parque decorreu praticamente sem qualquer tipo de violência apesar da
enorme multidão, na sua maioria composta por jovens. John Smith, o vice-superintendente
responsável pelo destacamento policial, disse que «só dois ou três recontros, rapidamente
sanados, estragaram um dia praticamente perfeito».

(As citações nos três primeiros parágrafos foram retiradas de discursos do comício,
embora a sua fonte não estivesse identificada na notícia.)
Embora o repórter concordasse com todas as afirmações e termos inclusos entre aspas,
estas permitiram-lhe afirmar que não inserira as suas opiniões na notícia. Elas tomaram o

82
artigo «objectivo» e protegeram o repórter dos seus superiores. A cobertura das manifestações
era geralmente atribuída a este repórter, embora simpatizasse com os manifestantes, e os seus
editors não. Tivessem as suas simpatias sido percebidas, nunca mais ele teria sido enviado
para futuras manifestações. Alcm disso, as suas noticias teriam sido substancialmente altera­
das, e não foram. Na realidade, entre eles, os editors elogiaram o trabalho do repórter. Em
suma, o repórter manipulou os seus superiores, inserindo as suas próprias opiniões, seguindo
um procedimento que eles equiparavam a objectividade (").

4. A estruturação da informação numa sequência apropriada. - A estruturação da


informação numa sequência apropriada é também um procedimento destinado a indicar a
objectividade, procedimento esse que é um atributo formal das notícias. A informação mais
importante relativa a um acontecimento é suposta ser apresentada no primeiro parágrafo, e
cada parágrafo subsequente deve conter informação de menor importância. A estrutura da
notícia assemelha-se, do ponto de vista teórico, a uma pirâmide invertida.
Este é o aspecto formal mais problemático da objectividade para o jornalista. Relativa­
mente aos outros três atributos formais, o jornalista pode afirmar que apresentou pontos de
vista contrários; que existiam provas suplementares e que ele se limitou a recolhê-las; que as
citações e as informações entre aspas representam as opiniões dos outros, não as suas. Toda­
via, mesmo que um repórter possa, inconscientemente imiscuir-se, nas idéias dos seus editores
ao escolher um lead, submetendo-se assim à política da empresa, ele é que é a pessoa
responsável pelo lead da notícia. Não pode dizer que a escolha pertence a outra pessoa
qualquer. O repórter só pode invocar o profissionalismo e afirmar que o lead é validado pelo
neus judgement.
A invocação do news judgement (perspicácia profissional) é um a atitude inerentemente
defensiva, pois o news judgement é a capacidade de escolher «objectivamente» de entre
«factos» concorrentes para decidir quais os «factos» que são mais «importantes» ou «interes­
santes». «Importantes» e «interessantes» denotam conteúdo. Por outras palavras, ao discutir a
estruturação da informação, o jornalista deve relatar as suas noções de conteúdo «importante»
ou «interessante».
Até certo ponto, as dificuldades do jornalista são mitigadas pela fórmula familiar de que
a notícia preocupa-se com «o quem, o quê, o quando, o onde, o porquê e o como». A isto
chama-se os «seis servidores» de uma notícia. Assim, se o jornalista puder afirmar que foi
atrás das «coisas mais materiais», ele pode dizer que foi «objectivo». Por exemplo, ao explicar
o modo como abriría a noticia acerca da manifestação contra a guerra e a incorporação militar,
o repórter disse:

('') Tanto a diferença etária como o facto de trabalhar por tumos facilitaram o mau conhecimento que os editores
tinham deste repórter. Os editores mais importantes tinham idades compreendidas entre os 45 c os 65. O repórter tinha
pouco mais de 30. Os editores entravam ao trabalho às seis da manhã. O repórter saía do trabalho às seis da manhã.
Embora os editores e repórteres pudessem estar na sala de redacção ao mesmo tempo, os editores tendiam a ligar-se aos
repórteres mais velhos, com quem mantinham longas amizades construídas nas amenas cavaqueiras antes de se iniciar o
trabalho. Além disso, uma vez que o jovem repórter usava cabelo curto c roupas conservadoras, os editors tinham poucas
hipóteses de descobrir as suas crenças políticas. A capacidade do repórter de dissimular os seus pontos de vista é de
alguma importância porque os superiores tendem a identificar a «objectividade» com o seu «ponto de vista» particular ou
com a política noticiosa do seu órgão de informação (ver Brced, 1955).
Primeiro, abrirei com as coisas mais materiais... Quantas pessoas lá estavam - é essa a
«estória» principal... o número de papeletas de incoiporação rasgados. No segundo (pará­
grafo), darei o tom. Depois, entrarei nos discursos. Os factos concretos vão em primeiro
lugar.

No entanto, os jornais e os repórteres podem não estar de acordo na identificação dos


factos materiais. Este mesmo repórter passara os olhos por um relato da manifestação num
outro jornal e achara-o «parcial». Queixou-se de que «havia milhares de pessoas (na manifes­
tação) e eram, na sua maioria, pacíficas; no entanto, o jornal da tarde abriu com um caso de
violência». Obviamente, o repórter do jornal da tarde contraporia que o seu relato era «objecti-
vo», que a violência era «a coisa mais material», «o quem, o quê, o onde, o quando, o porquê e
o como» da notícia. Como está já amplamente demonstrado em estudos anteriores, os jornais
diferem na sua escolha dos «factos» materiais, nas suas políticas noticiosas, Matthcws (1959),
mas todos se reclamam de «objectivos».
Se os jornalistas tiverem problemas em identificar os «factos materiais» dentro dos
limites da política do seu jornal, eles podem tomar outra opção. Em vez de discutir os atributos
formais de uma noticia específica, eles podem descrever os atributos formais de um jornal.

IV

Um jornal divide-se em secções e páginas. As primeiras páginas contêm notícias de


informação geral «estritamente objectivas». As notícias especializadas, como o desporto, as
notícias de finanças, as destinadas às mulheres, aparecem cm páginas claramente definidas,
englobadas em secções distintas. Os artigos de informação geral que não são «objectivos» são
colocados ou na página editorial ou na Op Ed (a página oposta à página editorial). Existem
apenas duas cxcepções a esta regra. Uma é o feature story. Apesar de argumentos convincen­
tes de que o feature é um a notícia (H. Hughes, 1940), os jornalistas formulam, com uma certa
insistência, a distinção (por exemplo, Mott, 1962). Em alguns jornais, esta distinção está
formalizada. Por exemplo, o New York Times insere os features na primeira página da
segunda secção. A outra excepção é a «análise», que pode ser publicada nas páginas de
informação geral «estritamente objectiva» se for acompanhada pelo rótulo formal (l:) «de
análise».
Os jornalistas usam o rótulo de «análise» para colocar uma barreira entre o artigo
controverso e os outros artigos das páginas de informação geral. Do mesmo modo que as aspas
estabelecem, teoricamente, a distância entre o repórter e a notícia e assinalam que as matérias
nelas incluídas podem ser problemáticas, «análise» indica que as matérias que a acompanham
nem representam as opiniões da administração nem são necessariamente «verdadeiras». Estas
matérias são a interpretação do repórter dos «factos». Os leitores devem confiar e aceitar a
informação do repórter de acordo com a avaliação das suas qualidades e pontos de vista
revelados no seu trabalho geral e em análises anteriores.

(,J) O (ermo «notícia de análise» é impresso em tipo diferente dos utilizados nos títulos, nome do autor, lead e
corpo do artigo.

84
Contudo, o recurso do rótulo «notícia de análise» para sugerir a objectividade coloca
problemas. A questão «Em que difere a noticia objectiva da ‘noticia de análise’?» veio a ser a
mais difícil de todas as questões postas aos inquiridos durante os dois anos de pesquisa (”).
Um editor disse o seguinte, depois de ter divagado durante dez minutos sem conseguir ir
ao fulcro da sugestão:

A «noticia cie análise» implica juízos de valor. A noticia objectiva não pressu­
põe juízos de valor, sejam eles quais forem... Não se pode eliminar o rótulo «noticia
de análise» e dizer qualquer coisa. Não, direi que um alarme toca na cabeça que
pensa que a noticia está carregada e eu quero safar-me. (Emboraj o leitor pense que
o rótulo... (é) pesado e ponderoso, o ponto fulcral é o número e o grau de juízos de
valor indocumentados na altura.

Embora o editor delineasse uma técnica formal para alertar o leitor, ele não conseguiu
dizer o que determina o «número e o grau de juízos de valor indocumentados na altura».
Além disso, o editor reconhece a discrepância entre a razão para o seu procedimento e a
interpretação que o leitor faz dessa actuação. Colocado perante o dilema, o jornalista invoca de
novo o seu news judgement profissional - entendido como a sua experiência e senso comum
que lhe permitam atribuir aos «factos» o valor de «importantes» e «interessantes».

Parecería que o news judgement é o conhecimento sagrado, a capacidade secreta do jornalista


que o diferencia das outras pessoas. A experiência do jornalista com as relações interorganizacionais,
as suas relações com a sua própria organização e outras organizações permitem-lhe reivindicar este
nens judgement assim como a «objectividade». O jornalista faz três generalizações:

1. A maioria dos indivíduos, enquanto fontes de informação, têm interesses pessoais a


defender. Para ser credível, um indivíduo tem de provar a sua fiabilidade enquanto
fonte de informação através de um método de ensaio e erro ('•).
2. Alguns indivíduos, como os presidentes de comissões, estão numa posição em que
sabem mais do que outras pessoas numa organização. Embora eles possam ter
interesses pessoais a defender, a sua informação é, provavelmente, mais «precisa»
porque têm mais «factos» à sua disposição.
3. A s instituições e as organizações têm procedimentos destinados a proteger tanto a
instituição como as pessoas que estão cm contacto com ela. O significado de uma
afirmação ou de um «sem comentários» tem de ser avaliado de acordo com o
conhecimento que o jornalista possui dos procedimentos institucionais.

(’>) Vários repórteres e um assistente do editor da secção local disseram que não sabiam. O managing editor do
jornal de domingo somu e deu umas pancadinhas nas costas do editor da sccção local quando mc ouviu formular a
questão. Para um texto acerca do tema veja-se MacDougall (1968).
(14) Shibutani (1966) refere que dois repórteres perderam «cachas» referentes ao suicidio do Marshall Gocring
porque a sua fonte dc informação - um guarda prisional - não provara a sua fiabilidade.

85
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iô n r fS U p lcm en tarcs ac e rc a d0 Pai. a polícia «fechou-sc cm copas». Com base ,
i c n c i a f a c e a o p ro c e d im e n to policial, os editores presumiram que a polícia est
ira r-s c p a r a a c u s a r o h o m em . U m a vez que a polícia «não faria a acusação» sem a j
e x ig id a p a r a p ro v a r u m a causa em tribunal, concluíram que «há algo suspeito à
i». P a r a p a s s a r e m a n o tícia, os jornalistas sentiram que tinham de arranjar «mais fa<
controla-o, e os seus membros apoiam o homem no poder devido ao seu cargo institucionaliza­
do, muito embora eles possam discordar dele.
Uma das afirmações cortada de um artigo que Whitc escrevera era a de que o Presidente
Johnson «estava a ficar assustado» nas primárias de New Hampshire. O adjunto do managing
editor eliminou esta afirmação, pois ia contra qualquer experiência politica dizer que um
presidente que controla todo o poder no seu partido sentiría dificuldades contra um imprevisí­
vel senador pouco conhecido. Como o editor da secção local, que também apoiava McCarthy,
explicou: «White é suposto ser um analista político, e as suas palavras não foram justificadas
pelos factos. W hitc já escrevia disparates há muito tempo.» Para realçar este ponto, o editor
referiu que White até apostara com ele em como Johnson não seria candidato na eleição de
Novembro. O editor considerou isto um disparate político e o tomar o desejo por realidade.
Além disso, referiu, todos os presidentes do século X X se candidataram a um segundo manda­
to, e todos eles tiveram poder suficiente para assegurar a nomeação do seu partido, e os
políticos adoram o poder.
Poder-se-ia concluir que a experiência organizacional do jornalista o predispõe contra
hipóteses que contrariam as suas expectativas preexistentes. Do ponto de vista dos jornalistas,
as suas experiências com outras organizações durante um período de tempo validam o seu
/tews judgement e podem ser reduzidos ao «senso comum». Por «senso comum» os jornalistas
entendem o que a maioria deles considera como verdadeiro, ou dado como adquirido.

VI

O senso comum desempenha um papel importante na avaliação do conteúdo noticioso,


um a vez que o conteúdo de uma noticia é composto de numerosos «factos», e o senso comum
determina se um a informação pode ser aceite como «facto». Por exemplo, considere-se as
provas aaxiliares aceites como «facto» na descrição objectiva da «propaganda comunista». Se
o controverso artigo tivesse referido o livro «O Capital» no cenário da «estória», o termo
«comunista» justificar-se-ia. «O Capital» é gcralmente associado ao comunismo e não é visto
como um livro de teoria econômica.
Os «factos» indocumentados que os jornalistas aceitam como provados revelam até que
ponto é que o nevvs judgement se pode basear no senso comum. Por exemplo, quando se
discutiam as «notícias de análise», o editor da secção local afirmou: «Toda a gente diz que
Gene McCarthy faz apelo ao elemento intelectual. Isso é dito nos artigos, mas não existe
qualquer documentação. Não há tempo e espaço para a inserção de documentação, por isso
você transforma-o numa afirmação banal. Não sabemos se é verdadeira. Será correcta, do
ponto de vista estatístico?»
Os jornalistas não publicarão como «facto» afirmações que contradigam o senso comum.
Rivers (1967, p. 187) relata a experiência de John F. Kennedy como repórter novato ao serviço
da Hearst International News Service, a seguir à Segunda Guerra Mundial. Uma vez que
Kennedy vivera em Inglaterra antes da guerra c «escrevera um livro acerca da desastrada
atitude militar britânica, (ele) foi enviado para fazer a cobertura das próximas eleições. Uma
das suas primeiras noticias prognosticou que o Partido Conservador de Winston Churchill iria
perder as eleições... Mal aquele artigo chegou a Nova Iorque», recordou Kennedy mais tarde,
«Hearst, mais rápido que um foguete, acusou-me de pronto de não estar no meu juízo perfei­
to». O artigo de Kennedy contradizia a avaliação do senso comum americano ao insistir no

87
facto de que um político popular que havia liderado, com sucesso, o seu pais durante a guerra,
não seria reeleito. A sua contestada opinião de «perito» entrava em contradição com aquilo
que todos sabiam e «tomavam como adquirido». Por isso não era «factual».
Como Schultz (1962, p. 175) exprimiu de forma pertinente: «Basta salientar que todo o
conhecimento dado por adquirido tem uma estrutura altamente socializada, quer dizer, que é
suposta ser dado por adquirido, não só por mim, mas por nós, por toda a gente (significando
‘toda a gente' aqueles em que nos integramos).» Seria interessante explorar mais profundamen­
te os tipos de informações que os jornalistas consideram «factos», afirmações cuja exactidão
podem ser dadas como adquiridas. Sugeri noutro trabalho (1969) que as noções que o jornalista
toma por adquiridas são, de facto, um quadro da sua visão da realidade social e politica.
Embora uma tal afirmação exija uma reapreciação das relações interorganizacionais de uma
organização de uma notícia, uma exploração intensiva deste tópico ultrapassa o âmbito deste
ensaio. Aqui basta salientar que 1) alguns conteúdos podem ser aceites como «factos» se
fizerem sentido, e que 2) o newsjudgement que justifica o termo «sentido» parece ser o sagrado
saber profissional. M as a experiência profissional especializada é uma defesa inadequada
contra a crítica, uma vez que as criticas estão frequentemente a atacar esse mesmo saber.

VII

Explorando a noção de objectividade do jornalista, analisei ate aqui 1) os procedimentos


noticiosos enquanto atributos formais de notícias e jornais, 2) as decisões baseadas nas rela­
ções interorganizacionais, e 3) o senso comum enquanto base de avaliação do conteúdo
noticioso. Embora os atributos formais das notícias e jornais possam apresentar problemas
para o jornalista, eles permitem-lhe reivindicar a objectividade, e as suas reivindicações podem
ser avaliadas pelo leitor.
Devido às diversas pressões a que o jornalista está sujeito, ele sente que tem de ser capaz
de se proteger para o afirm ar «Eu sou um profissional objectivo.» Ele tem de desenvolver
estratégias que lhe permitam afirmar: «Isto é uma notícia objectiva, impessoal, imparcial.» De
igual modo, os editores c a administração do jornal sentem que têm de ser capazes de afirmar
que o conteúdo do jornal é «objectivo» e que a política informativa e a política editorial são
distintas uma da outra.Uma vez que os leitores não possuíam news judgement c, quando
desafiam os jornalistas, tendem a agir como se o possuíssem (”), reivindicar a objectividade
com base no newsjudgement pode não satisfazer os críticos.
Todavia, através da citação de atributos formais das noticias e dos jornais, incluindo
aqueles que podem ser problemáticos (tal como «O Capital» para justificar o termo «pro­
paganda com unista»), os jornalistas podem apontar como prova que fazem a distinção
entre aquilo que pensam e aquilo que relatam. Eles podem afirmar que 1) apresentaram
versões diferentes de um a mesm a realidade, 2) apresentaram provas suplem entares para

(” ) Como os jornalistas não estão rodeados por uma mistica técnica, dá a impressão que qualquer pessoa poderia
fazer o seu trabalho. Afinal de contas, quase toda a gente é bisbilhoteira. Para uma comparação entre a noticia e a
bisbilhotice, vcja-sc Shibutani (1966) e Parks e Burges (1967).

88
fundam entar um «facto», 3) utilizaram aspas para indicar que o repórter não está a dar
um a versão dos acontecim enos, 4) apresentaram os «factos mais importantes» primeiro, c
5) separaram cuidadosam ente os «factos» das opiniões através da utilização do rótulo
«noticia de análise» (ou, simplesmente «análise»). Daria a impressão de que os procedi­
mentos noticiosos exemplificados como atributos formais das noticias e jornais são, efec-
tivamente, estratégias através das quais os jornalistas se protegem dos críticos e reivindi­
cam, de form a profissional, a objectividade, especialm cnte porque a sua experiência
profissional não é suficientemente respeitada pelos leitores e pode até ser alvo de criticas.
Em bora esses procedim entos possam fom ccer provas demonstráveis de uma tentativa de
atingir a objectividade, não se pode dizer que a consigam alcançar. De facto, tem sido
sugerido que esses procedim entos 1) constituem um convite à percepção selcctiva, 2)
insistem erradam ente na ideia de que «os factos falam por si», 3) são um instrum ento de
descrédito e um m eio do jornalista fazer passar a sua opinião, 4) são limitados pela politica
editorial de um a determ inada organização jornalística, e 5) iludem o leitor ao sugerir que a
«análise» é convincente, ponderada ou definitiva. Em suma, existe um a clara discrepância
entre os objcctivos procurados e os alcançados. Também não existe um a relação clara entre
os objectivos procurados (a objectividade) e os m eios utilizados (os procedim entos noticio­
sos descritos).
Esta interpretação tem várias implicações teóricas interessantes. Primeiro, defende o
ponto de vista de Everett Hughes (1964, pp. 94-98) de que as profissões desenvolvem procedi­
mentos ritualizados para se protegerem das criticas. Ele afirma: «Ao ensinar», um a actividade
como o jornalismo, «onde os objectivos estão muito mal definidos - o mesmo acontecimento,
consequentemente, com os erros - onde os leigos estão prontos a criticar e a culpar - a forma
correcta de tratar os problemas toma-se num ritual, tanto ou mesmo mais que uma arte. Se um
professor conseguir provar que seguiu o ritual, a culpa passa para a pobre criança ou estudan­
te; e o fracasso pode-lhes ser, e é, imputado.» (pp. 96-97) Ao analisar o comportamento
ritualista de profissionais secundários como os farmacêuticos e as enfermeiras, Hughes conti­
nua: «Nós temos uma ideia do que pode ser a função mais profunda da arte, culto e ritual de
várias profissões. Elas podem fornecer um conjunto de controlos emocionais e até mesmo
organizacionais, dos riscos subjectivos e objectivos da profissão.» (p. 197; ênfase acrescenta­
da) Deste ponto de vista, os atributos formais das noticias e dos jornais parecem necessitar de
rituais estratégicos para justificar o direito de se reivindicar objectivos. Eles permitem a um
jornalista dizer, apontando para as suas provas: «Eu sou objectivo porque usei aspas.»
Segundo, estas conclusões podem ser relevantes para as noções de objectividade utiliza­
das por outros profissionais. Como previamente se sugeriu, os cientistas sociais fazem a
distinção entre eles próprios e os outros, referindo a sua própria tendência para o estudo
reflexivo das suposições filosóficas. Contudo, Gouldner (1970, p. 249), juntando-se a C.
Wright Mills ao falar da «replicabilidadc transpessoal», sugere: «Nesta noção, a objectividade
significa apenas que um sociólogo descreveu os seus procedimentos de forma tão explícita que
aqueles que os empregam no mesmo problema chegarão às mesmas conclusões. De facto, esta
é uma noção de objectividade enquanto rotinização técnica e apoia-se, no fundo, na codifica­
ção dos procedimentos da investigação que foram empregados. Quando muito, esta é uma
definição operacional de objectividade que presumivelmente nos diz o que devemos fazer para
justificar se um a asserção de uma determinada descoberta é objectiva. Não nos diz, todavia,
muito acerca do que a objectividade significa, dos pontos de vista conccptual e conotativo.»

89
Em suma, Gouldner acusa os sociólogos dc se esquivarem dos problemas cpisiemológicos,
escondendo-se atrás de técnicas formais. Ele pinta um quadro da objectividade sociológica
enquanto ritual estratégico (1S).
Outras profissões e actividades equacionam a objectividade com a capacidade de perma­
necer suficientemente impessoal para seguir os procedimentos de rotina adequados para um
caso específico. Por exemplo, a postura objectiva do advogado dá origem à expressão: «É tolo
o advogado que se tem por cliente.» A regra segundo a qual os médicos não podem operar
familiares protege, supostamente, tanto o médico como os pacientes dos erros. Envolvido
emocionalmente, o médico podería não seguir os procedimentos médicos adequados (").
Em todos estes exemplos, a objectividade rcfcre-sc a procedimentos de rotina que podem
ser exemplificados como atributos formais (aspas, níveis de significância, precedentes legais,
radiografias) e que protege o profissional dos erros c dos seus críticos. Dá a sensação de que o
termo «objectividade» está a ser utilizado defensivamente como ritual estratégico. Todavia,
enquanto as minhas conclusões substanciam esta conclusão relativa à utilização do temio
«objectividade» pelo jornalista, as generalizações a outras profissões e actividades devem
aguardar um estudo sistemático da utilização que fazem do termo «objectividade» dentro do
contexto do seu trabalho (“).

(“ ) Outras afirmações feitas por sociólogos parecem defender esta acusação. Ao falar das rcacções dos soció­
logos aos estudos do comportamento pré-matrimonial, Udry (1967) pretende (embora não forneça provas suplementa­
res) que os sociólogos citam estudos com conclusões que eles aprovam, mas põem em causa a metodologia dc artigos
cujos resultados ofendem os seus próprios valores. Reynolds (1967) desafia os factos científicos em rodapí, delinean­
do a história natural de uma ficção «cientifica» eternizada. Goode (1979) trata a investigação cm tomo da marijuana
no contexto da «política da realidade». Gouldner (1970, p. 254) sente que «o reino da objectividade ó o reino do
sagrado nas ciências sociais».
H Os médicos insistem que a sua atitude é «objectiva» ou «médica» quando seguem procedimentos carrega­
dos de significado pessoal, como sejam os exames ginccológicos. Embora Emerson (1970) não refira que os médicos
usam o termo «objectividade», ela afirma (1970, p. 78) que uma «consequência da definição médica é que o paciente
é um objecto técnico. E como se o pessoal trabalhasse numa linha de reparação dc corpos; as partes dc corpo vão
passando c o pessoal tem uma tarefa especifica a desempenhar». Por outras palavras, o pessoal médico dá realce a um
procedimento impessoal.
(") O reconhecimento da objectividade como ritual estratégico também levanta outros problemas pertinentes
ao estudo dos meios de comunicação de massas, partieularmente ao estudo dos seus efeitos. Será que os rituais
estratégicos aumentam a credibilidade dos artigos noticiosos? Será que a sua prática leva os indivíduos a comporta-
rcm-sc dc uma maneira ou dc outra? Qual é a intcracção, se é que existe, entre estas estratégias e o conteúdo? Sc
existe uma intcracção, será que ela tem influência na rcacção do público? Questões deste gênero têm não só significa­
do político como sociológico, mas, à excepção dos estudos das consequências da apresentação dc pontos dc vista
contraditórios (revistos por Klappcr, 1960, pp. 113-117), elas ainda têm que ser exploradas.

90
«O jornalismo e o profissionalismo
alguns constrangimentos
no trabalho jornalístico» (*)

John Soloski

A visão romântica do jornalismo é a dc um repórter em cruzada que, para grande


espanto dc um rabugento mas benévolo editor, investiga um dos mais infames políticos da
cidade, e depois de árduo trabalho e um pouco de sorte, apanha o político «em flagrante»,
ajuda a mandá-lo para a prisão e melhora as vidas dos oprimidos e desprotegidos. Este mito
tem muitas versões, algumas menos grandiosas mas todas elas mais ou menos iguais. Embuti­
das nestes mitos estão muitas das normas c lavores profissionais do jornalismo como é
praticado nos EUA Para se compreender inteiramente o processo pelo qual os acontecimentos
são seleccionados para serem apresentados como notícias, é necessário examinar o profissiona­
lismo no jornalism o. Muita tinta tem corrido acerca da questão se o jornalismo é uma
profissão genuína. Ainda mais tinta tem sido gasta pelos estudiosos que têm tentado identificar
os critérios que fazem de uma ocupação uma profissão. Mas, como Hughes (1958, p. 45)
refere, não é importante saber-se quais as ocupações que se consideram profissões; o que é
importante é saber o que significa para uma ocupação considerar-se profissão. Tendo isto
como ponto de partida, este ensaio tentará mostrar como o profissionalismo jornalístico afecta

(*) Reedição de: Afedia. Culture and Socicty (Vol. 11, 1989). «News Reporting and Profcssionalism:
Some Constrainls on lhe Reporting of News», dc John Soloski. Direitos dc autor: Afedia, Culture and Socicty.
Reedição com a aprovação do editor.

91
a recolha e o relato das notícias, cspecificamente. O ensaio sustenta ainda que o profissionalis­
mo é um método eficiente e econômico através do qual as organizações jornalísticas controlam
o comportamento dos repórteres e editores. Mas as organizações jornalísticas (ou nesse caso
qualquer empresa comercial) não podem confiar em normas profissionais para controlar o
comportamento dos seus profissionais; a fim de limitar mais o comportamento discrecionário
dos jornalistas, as organizações jornalísticas têm desenvolvido regras - políticas editoriais. As
organizações jornalísticas confiam na interacção do profissionalismo e das políticas editoriais
para controlar o comportamento dos jornalistas. A segunda parte deste mesmo ensaio relata os
resultados de um estudo de observação-participante que examinou como uma organização
jornalística implementou as suas políticas editoriais (").
Uma vez que os jornalistas americanos trabalham dentro de empresas comerciais que
procuram o lucro, as organizações jornalísticas precisam de desenvolver técnicas para contro­
lar o comportamento dos seus profissionais. Se a organização jornalística for conccptualizada
como um sistema aberto (PerTow, 1970; Thompson, 1967) composto de subsistemas que estão
inter-relacionados e interligados uns com os outros, e com uma maior organização, então o
problema de controlo toma-se mais claro. Os subsistemas de uma organização exibem geral­
mente as características tanto do todo como das partes. Isto é, a um nível o subsistema é um
todo e o seu comportamento teleológico não é totalmente controlado pela mesma organização
e é, até certo ponto, controlado por ela. Os subsistemas de uma organização podem perseguir
tuna variedade de objcctivos simultaneamente, e alguns deles podem entrar em conflito com os
objectivos da organização. Para assegurar a sua sobrevivência a longo prazo, a direcção tem de
desenvolver técnicas para controlar o comportamento dos seus subsistemas. A natureza destes
procedimentos de controlo será relacionada com o meio ambiente em que uma organização
opera (Laurence c Lorschm, 1969). Quanto mais estável (previsível) o meio ambiente, mais
estruturada (burocrática) será uma organização. Os meios ambientes complexos e imprevisí­
veis requerem uma estrutura informal e flexível de modo que os vários subsistemas lidam
melhor com mudanças rápidas (Stinchcombe, 1959; Hall, 1968).
O departamento de informação enquanto subsistema de uma organização jornalística
tem de lidar com um meio ambiente altamente imprevisível - as notícias. As decisões acerca
da cobertura noticiosa devem ser tomadas rapidamente, com pouco tempo para discussão ou
tomadas de decisões de grupo. Assim, a estrutura do departamento de informação deve lidar
com um meio ambiente em constante mudança. Os repórteres e os editores devem ter autono­
mia considerável na selecção e no processamento da notícia. O controlo do comportamento
dos seus jornalistas pode ser um problema difícil para a direcção de uma organização jornalís­
tica, espccialmente devido aos repórteres passarem a maior parte do seu tempo fora da
redacção e da vista dos supervisores. Um método que a direcção podería utilizar para controlar
os seus jornalistas seria o de estabelecer regras e regulamentos elaborados. Esta forma burocrá­
tica de administração não seria muito eficiente porqu: 1) as regras teriam de cobrir todas as
situações possíveis que os jornalistas podem encontrar, incluindo as regras para lidar com
situações não cobertas pelas regras; 2) as regras elaboradas são prescritivas e limitariam a
capacidade de um jornalista lidar com o inesperado, o que é a essência das notícias; e 3) a

O Nota de tradução - Por razões dc espaço, a segunda parte deste ensaio nâo foi incluída nesta antologia.

92
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T rnn at lis ° comerciais de âmbito lucrativo. Est
•gundo tópico será a preocupação principal deste ensaio.
P a ra m u ito s estudiosos do profissionalismo, os objectivos e os procedimentos das organ
ç õ e s comerciais burocráticas levarão inevitavelmente ao conflito com os objectivos e c
y c e d im e n to s dos seu s profissionais. Por outras palavras, a fidelidade dos profissionais i
s normas deontológicas leva-os a entrar cm conflito com intuitos lucrativos da orgamzaç;
tercial (Komhauser, 1963). Estes estudiosos defendem que a ideologia do capitalismo e

o tem fortes componentes anfi-lucro d ^ factor determinante na dismbi


ç o para a sociedade. O custo nao e ^ ^ X Z c l r n um serviço que «em vindt
í serviços profissionais. Os médicos, po P> ^ a gentC( independentcmei
stoT om o um bem universal que dev>«taraç>dtspord ^ ^
yacidade de o paciente pagar • s o c jedàde e não do^rofissio

m3 n r o f i s ^ C t . ,4-15). A* >,*».'
o c o n -e r, m a s n a o e x is te q u a lq u e r c o n c o rrê n c ia e n tre p ro tis s o c s p e lo d ire ito d e ío m e c e r o s
m e s m o s s e rv iç o s p ro fis s io n a is . S e fo ss e e s se o c a s o , e n tã o a b a s e c o g n itiv a d a p r o fis s ã o s e ria
r e c la m a d a p o r m a is d o q u e u m a o c u p a ç ã o e a le g itim id a d e d o s s e rv iç o s f o rn e c id o s e o s
m é to d o s e m p r e g u e s s e ria m a m e a ç a d o s .
A a c e ita ç ã o p ú b lic a d o m o n o p ó lio d e u m a p r o fis s ã o n o m e r c a d o n ã o é d if íc il d e a lc a n ­
çar, p r in c ip a lm e n te p o r q u e a s p r o fis s õ e s m a n tê m u m fo rte id e a l d e s e rv iç o p a r a a s o c ie d a d e e
m u ito s d o s s e rv iç o s d a s p r o f is s õ e s tê m v in d o a s e r c o n s id e r a d o s b e n s u n iv e r s a is q u e e s tã o a o
i i s p o r d e to d o s a q u e le s q u e d e le s p r e c is a m . A o s o lh o s d o p ú b lic o , o n ú m e r o d e m e m b r o s n a s
tr o f is s õ e s n ã o s e b a s e ia n a c la s s e s o c ia l m a s n a s c a p a c id a d e s in a ta s d o s f u tu r o s p r o f is s io n a is .
3 sucesso ou insucesso de um indivíduo ser um profissional é determinado pela sua inteligên-
:ia, dedicação e perseverança.
Para facilitar o seu controlo sobre a base cognitiva, e para estandardizar a aprendizagem
irofissional, a maioria das profissões controlam o processo de educação profissional através do
stabelccimcnto de ensino acreditado em institutos superiores e universidades (Noble, 1977).
Istas escolas profissionais asseguram: 1) que os futuros profissionais apreendam, dominem e
ceitcm a predominante base cognitiva da profissão; 2) que a produção dos produtores dos
:rviços profissionais seja estandardizada (Larson, 1977, p. 47); e 3) que os ideais e os
bjectivos da profissão sejam aceites pelos novos profissionais. É durante a sua educação
irmal que os profissionais em estágio se tom am m em bros sociais das suas profissões, apren-
:ndo as norm as e os procedim entos profissionais. Isto significa mais do que um a simple:
irendizagem da técnica profissional correcta, significa a aprendizagem do modo com o estru
rar e viver a vida com o profissional (Johnson, 1972).
O controlo sobre a educação profissional e a m onopolização do mercado profissional nã
>dem ter lugar a não ser que a ideologia do profissionalism o esteja m inim am ente ligada
eologia do capitalism o. L arson argum enta que o processo de profissionalização ajuda a m ant
i prom ulgar o capitalism o, especialm ente quando o capitalism o passou da sua fase com petiti'
ra a fase m onopolista. A ascensão de grandes corporações durante o capitalism o m onopolií
nim izou a descontrolada concorrência assente no m odelo de m ercado livre que quase d
g e m ao colapso do capitalism o (B aran e Sw eezy, 1966). O núm ero relativam ente pequeno
tndes organizações com erciais p od em ter tom ado a concorrência m ais racional e previsú
is o p ro blem a de ter de dirigir um grande núm ero de pessoas em vastas áreas geográfi
nou-sc m ais agudo. O problem a do controlo dentro de grandes organizações com erciais
olv id o através da ascensão do manager. L arson argum enta que « toda a legitim ação cogni
orm ativ a p ara a ascensão do m anager foi a ciência, especialm ente co m o foi in co rp o ra d
d o rism o (L arson, 1977, p. 142; W iebe, 1967). O apelo da direcção à ciên cia p ara a
itim ação sig n ificav a que a direcção era retratada co m o estando assente e m m éto d o s q u e <
. id e o ló g ico s e estav am p o r isso fora de q u alq u er interesse classista. A co n fia n ç a d a dire
:iên cia - o d o m ín io d e co n h ecim e n to s e h ab ilid ad es eso térico s - assen ta n a m e sm a bas<
o c e sso de p ro fissio n alização . E a p o sição tan to d o m anager co m o do p ro fissio n a l está
:g u rad a p ela ascen são de g ran d es o rg an iz a ç õ e s co m erciais que se to m a ra m n a fo n te d e i
p açõ es c c a rreiras p a ra a c lasse m é d ia (L arso n , 1977, p . 145).
N o c an itn lism o m onoD olista s u re ira m n o v a s p ro fissõ e s q u e fo ram in c a p a z e s d e c
a contabiiidade e o jornalismo dependem das grandes organizações comerciais para o seu
emprego. As tarefas laborais e a escolha de clientes estão, na maioria dos casos, fora do
controlo destes profissionais. Mas estes profissionais têm sido capazes de conseguir o statiis
social através da compensação financeira, de mobilidade ascendente e das distintas tarefas
laborais que requerem qualidades especiais. Para facilitar o controlo no local de trabalho, a
direcção tem vindo a confiar no profissionalismo para controlar o comportamento dos seus
mais importantes profissionais. O profissionalismo, então, deve ser visto como um meio
eficiente e racional de administração de organizações comerciais complexas.
Em suma, o profissionalismo e a organização comercial burocrática não podem ser
concebidos como sendo pólos opostos num continuam de liberdade e controlo. Tanto as
organizações comerciais burocráticas como o profissionalismo «pertencem à mesma matriz
histórica: eles consolidaram-sc no princípio do século x x como distintos mas complementares
modos de organização laborai» (Larson, 1977, p. 199). E o tipó de administração (burocrática
ou profissional) utilizada por uma organização dependerá da situação laborai: quanto menos
estável o ambiente de trabalho maior a confiança no profissionalismo (Stinchcombe, 1959).

O profissionalismo jornalístico

O profissionalismo jornalístico controla o comportamento dos jornalistas de dois modos


relacionados: 1) estabelece padrões e normas de comportamentos, e 2) determina o sistema de
recompensa profissional.
Uma vez que o profissionalismo estabelece normas de conduta para os jornalistas, é
desnecessário para organizações jornalísticas individuais estabelecer arbitrariamente regras e
regulamentos elaborados para os membros do staff. Além disso, as organizações jornalísticas
não têm qualquer necessidade de estabelecer dispendiosos e ineficientes programas de aprendi­
zagem para os novos jornalistas uma vez que todos os jornalistas chegam à organização com
um a certa aprendizagem profissional. Mas ao contrário da engenharia ou da contabilidade, há
um número de caminhos educacionais que conduzem às carreiras no jornalismo (Johnstone et
al., 1976, pp. 13-15). O jornalismo não pode assim esperar controlar a educação profissional
para atingir a estandardização cognitiva necessária para o profissionalismo. É através da
educação profissional formal, do estágio profissional em exercício ou, como é geralmentc o
caso, da combinação destes (Johnstone et al., 1976, p. 65), que os jornalistas vêm a partilhar a
base cognitiva ao profissionalismo jornalístico. As normas de comportamento que emanam do
profissionalismo jornalístico constituem um mecanismo de controlo transorganizacional. Uma
vez que o comportamento dos jornalistas está enraizado - em grande parte - em normas
profissionais partilhadas, este minimizar o problema do modo como as organizações jornalísti­
cas conseguem manter o controlo sobre os jornalistas. Mas as normas profissionais partilhadas
não eliminam complctamente o problema do controlo organizacional porque: 1) o profissio­
nalismo fornece aos jornalistas uma base de poder independente que pode ser utilizada para
frustrar a forte interferência da direcção nas actividades profissionais do staff, c 2) o profissio­
nalismo dá demasiada liberdade aos jornalistas, c assim as organizações jornalísticas devem
adoptar procedimentos que limitem ainda mais o comportamento profissional dos seus jorna­
listas. Examinando algumas normas de profissionalismo, podemos mostrar a maneira como o
profissionalismo jornalístico guia o comportamento dos jornalistas.

95
a u to - c apareniemenie aiiamenie Dem sucedido - de lidar com as complexas necessidat
>s jornalistas, das organizações jornalísticas e dos públicos. Os acontecimentos podem :
iresentados de uma forma segura como uma série de factos que não requerem qualqi
aplicação do seu significado político. Ao apresentarem as notícias como uma série de factc
5 organizações jornalísticas estão protegidas, pelo menos, de duas maneiras. A primeira,

íais óbvia, é a de que, uma vez que os jornalistas precisam de ter fontes que lhes forneçam (
retos relativos aos acontecimentos, as fontes e não os jornalistas são responsáveis pela exact
lão dos factos. Até certo ponto, isto ajuda a isolar tanto os jornalistas como a sua organizaçã
Ias acusações de parcialidade e reportagens imprecisas (Tuchman, 1972). Ser enganado po
una fonte noticiosa é embaraçoso para a organização jornalística mas, contando que nã<
iconteça muitas vezes, a integridade da organização não é ameaçada. A posição da organiza
;ão no mercado está dircctamente ligada à sua capacidade para manter a integridade da sua
operação jornalística. E isto traz-nos a segunda vantagem que a objectividade tem para as
organizações jornalísticas: ajuda a assegurar a sua posição de monopólio no mercado (•’). Se as
noticias fossem relatadas de uma maneira abertamente política ou ideológica, o mercado
estaria pronto para a concorrência das organizações jornalísticas que detêm pontos de vista
políticos ou ideológicos opostos. Relatando a notícia obiectiviamente. a lealdade do le ito r m m
cobertura jornalística, nos custos de assinatura, nos serviços de distribuição ou em qualquer
outro factor tangível que um jornal consegue controlar. Por isso, desde que as organizações
jornalísticas relatem as notícias objectivamentc, o controlo monopolístico do mercado não será
visto pelo público, jornalistas, publicitários e donos dos media como um grande problema.
Os jornalistas são não ideológicos no sentido de que não relatam as notícias de acordo
com uma perspectiva ideológica que é conscientemente partilhada pelos membros da profis­
são. Por isso, o lugar natural para encontrar fontes com valor noticioso será na estrutura do
poder da sociedade porque os jornalistas vêem o actual sistema político-econômico como um
estado de coisas natural (Tuchman, 1978; Gans, 1979). As fontes noticiosas surgem então da
estrutura do poder existente; por isso, as notícias tendem a defender o slatus qito. M as os
jornalistas não se põem a relatar conscientemente as notícias de modo a que o actual sistema
político-econômico seja mantido. A selecção de acontecimentos e de fontes noticiosas corre
«naturalmente» do profissionalismo jornalístico. Isto não significa que o news judgement não
se altere; nem significa que os jornalistas não difiram nos seus news judgements, m as as
diferenças desenvolvem-se dentro de uma estrutura de referência, nomeadamente a das nor­
mas predominantes do profissionalismo jornalístico. Além disso, o news judgement exige que
os jornalistas partilhem as pressuposições acerca do que é normal cm sociedade, uma vez que
a noticiabilidade de um acontecimento está relacionada com o afastamento daquilo que se
considera normal. Ao concentrar-se no desvio, no estranho e no insólito, os jornalistas defen­
dem implicitamente as normas e os valores da sociedade. Como as fábulas, as «estórias»
noticiosas contêm um a moral oculta.
Embora a selecção e a apresentação dos acontecimentos e as fontes noticiosas sejam
determinados pelo profissionalismo jornalístico, a organização jornalística para a qual um
jornalista trabalha também influenciará este processo. Por exemplo, num esforço para tirar o
máximo de lucro do seu investimento econômico, a organização jornalística rotiniza a cobertu­
ra noticiosa, através do estabelecimento de news beats (Tuchman, 1978, pp. 44-45). A escolha
de news beats resulta da interacção do profissionalismo jornalístico e os recursos da empresa
jornalística. O profissionalismo jornalístico determinará a legitimidade e o valor das institui­
ções a cobrir, mas a organização jornalística, através do seu controlo sobre o orçamento do
departamento de informação, determinará o número de news beats que podem ser cobertos. O
profissionalismo jornalístico identifica mais news beats legítimos do que aqueles que podem
ser cobertos pelos jornalistas na redacção.

A escada profissional

Para além de especificar as normas de comportamento para os jornalistas, o profissiona­


lismo jornalístico estabelece um sistema de recompensa para os jornalistas. Isto é, os jornalis­
tas contarão com a sua profissão para o reconhecimento do seu sucesso profissional. Todavia,
um sistema de recompensa que é determinado por critérios exteriores ao controlo directo da
direcção poderíam, aparentemente, ser uma outra fonte de conflito entre as organizações
profissionais e comerciais (Goldner e Ritti, 1967). A pressuposição é a de que os profissionais
olham para a profissão e não para a sua organização no que diz respeito às recompensas. Por
outras palavras, os ideais da profissão, e não os objectivos da organização, serão mais uma
preocupação para os profissionais.

97
Uiiw idifid p.onssionai, mesmo que esse desempenho nãc
qualquer beneficio para a organização. K om hauser (1963) defende que para acomo
profissionais as organizações com erciais têm sido forçadas a desenvolver dois tir
iscadas de carreira: a escada da direcção e a escada profissional. A escada da direcç
radicional m edida do sucesso dentro da organização: os trabalhadores bem succdidc
ecom pensados entrando para a hierarquia da direcção e para a equipa executiva. A c
rofissional foi instituída para recom pensar os profissionais bem sucedidos, aumen
s seus vencim entos c categorias sem terem de aum entar as suas responsabilidades s
isoras ou directoriais. A escada profissional fornece aos profissionais «melhoria
tlário e no status sem assum ir deveres administrativos. Em vez de uma m aior autorii
es são recom pensados com uma m aior liberdade no desempenho das suas especia
:s» (K om hauser, 1963, p. 205). Sem a escada profissional, os profissionais bem su<
is poderíam ser forçados a entrar na escada da direcção, o que privaria uma organiz;
s serviços dos seus profissionais de eleição (>).
M as o problema com a escada profissional, segundo Goldner e Ritti, é que há apenas
ignificantc aumento na autoridade para o profissional que sobe a escada profissiona
ifissional bem sucedido tem pouca voz nos processos de tomadas de decisão da organizai
Idner e Ritti defendem que a escada profissional é de facto um método muito eficaz
friar» os profissionais que foram incapazes de avançar dentro da hierarquia (de poder)
cção. Este processo de «esfriamento» começa efectivamcnte com a socialização do ind
na profissão, quando o novo profissional aprende o que significa ser um profissio
Idner e Ritti, 1967, pp. 497-501). Os profissionais, que seriam, de outro modo, considc
falhados por não terem conseguido entrar na escada da direcção, recebem uma definiç
nativa de sucesso da parte da escada profissional. A escada profissional possibilita a ur
nização comercial apaziguar os seus profissionais dedicados, que são necessários para
sso da organização, sem que se ponha a oferta de oportunidades na escada da direcção.
A plicando estas observações ao jornalism o, é evidente que existe uma escada profi
il dentro da organização jornalística. A estrutura do departamento de informaçã
ite à direcção prom over os jornalistas bem sucedidos sem ter de os integrar n
sso de tom ada de decisões da organização. À medida que os jornalistas bem sucedí
abem na escada profissional no departamento de informação, eles têm mais liberdad
dual de ir atrás de «estórias» sem terem mais responsabilidades por decisões relati
distribuição dos escassos recursos da organização. Ao dar oportunidades de subida
inização jornalística consegue m anter a lealdade de im portantes profissionais serr
:ir o acesso à efectiva hierarquia de poder da organização. Embora alguns jornalistas
vim entem na escada da direcção e em posições-chave da direcção, a maioria dos
como m edida de sucesso e o resultado da aprendizagem profissional dos jornalistas,
parte das tradições românticas da profissão. As escolas de jornalism o, as «estórias»
i de cruzadas de jornalistas e os próprios jornalistas têm contribuído para a transfor-
) da escada profissional num meio de sucesso.

rolos interorganizacionais

Do ponto de vista da direcção, o profissionalismo jomalistico é um meio eficiente i


ivo tanto no controlo como na recompensa dos jornalistas. Embora o profissionalismo
possível o uso da discrição, ele não dita um comportamento especifico para os jomalis
:le estabelece mais as linhas-mestras do comportamento. Mesmo assim, o profissionali:
lá aos jornalistas mais liberdade na selecção, relato e apresentação das «estórias» do que
litida pela maioria das organizações. A fim de limitar mais o comportamento discricion;
ios jornalistas, as organizações jornalísticas têm estabelecido políticas editoriais. Con
:d e outros têm mostrado, todas as organizações jomalisticas têm políticas editoriais, mas
ireza efectiva das políticas editoriais variam de organização para organização (Brec
5; Damton, 1975; Stark, 1962). Assim, como o profissionalismo jornalístico pode ser vis
ío um mecanismo de controlo transorganizacional, também as políticas editoriais idioss:
icas das organizações jornalísticas individuais podem ser vistas como um mecanismo
trolo intra-organizacional. Em conjunto, estes dois mecanismos de controlo dirigem
ões dos jornalistas. Uma vez que as normas do profissionalismo jornalístico são partilhai
■todos os jornalistas, a organização jornalística precisa apenas de se concentrar no ens
; suas próprias políticas editoriais aos jornalistas, e precisa também de desenvolver técni
■a se assegurar de que os seus jornalistas aderem às políticas. A fim de analisar o rm
mo a política editorial funciona e como uma organização jornalística reforça as suas po
s, levei a cabo um estudo de observação-participantc num diário de média tiragem.
Tanto o profissionalismo jornalístico como a política editorial são utilizados para rr
izar o conflito dentro da organização jornalística. Isto é, as normas profissionais <
ilíticas editoriais das organizações jornalísticas são aceites pelos jornalistas, e só em c
ros é que ou as normas profissionais ou as políticas editoriais são um ponto de desao
ítrc o stajf da organização jornalística. Como um jogo, as normas profissionais e as poli
iitoriais são regras que toda a gente aprende; só raramente estas regras são explícitas,
iramente se levantam objccções a essas regras.
0 profissionalismo jornalístico é uma espada de dois gumes. Uma vez que o profiss
smo jornalístico é independente de qualquer organização jornalística, dá aos jornalistas
iasc de poder independente que pode ser utilizada em confrontações com a direcção de
irganização jornalística porque os princípios de profissionalismo jomalistico limitam a ct
lade da direcção de estar dircctamcnte envolvida no processo de produção jornalística
mblisher que intervenha continuadamente na cobertura jornalística correrá o risco de m
profissionalismo dos seus jornalistas e, se a intervenção resultar numa reportagem tendí
sa, a reputação do jornal será atingida c a posição do jornal no mercado será potencial
direcção porque é um bom argumento para convencer os publicitários, os políticos ou outras
forças que possam querer que a direcção intervenha na cobertura noticiosa.
Até certo ponto, o profissionalismo jornalístico escuda os jornalistas da intervenção da
direcção, permitindo aos jornalistas desviar os desejos da direcção sem comprometer a sua
posição na organização jornalística.

Conclusão

Com base na teoria organizacional e na literatura do profissionalismo, este ensaio


argumenta que o profissionalismo jornalístico é um meio eficiente e efectivo para controlar o
comportamento profissional dos jornalistas. O ensaio tenta mostrar o modo como as normas
de profissionalismo jornalístico determinam as arenas legitimas e as fontes de informação nos
Estados Unidos. Embora os jornalistas não relatem as notícias de modo a manter o sistema
político-econômico existente, as suas normas profissionais acabam por produzir «estórias» que
defendem implicitamente a ordem vigente. Além disso, as normas profissionais legitimam a
ordem vigente ao fazê-lo parecer um estado de coisas que ocorre naturalmente. Os princípios
do profissionalismo jornalístico têm como resultado uma cobertura noticiosa que não ameaça
nem a posição econômica da organização jornalística individual nem o sistema politico-
-económico global no qual a organização jornalística opera. Além disso, o profissionalismo
jornalístico produz «estórias» que permitem que as organizações jornalísticas aumentem o seu
público e mantenham um controlo firme sobre o mercado. Em última análise, o profissionalis­
mo jornalístico distorce as noticias ao nível social.
Uma vez que o profissionalismo é independente de qualquer organização jornalística, o
profissionalismo jornalístico fornece aos jornalistas uma base de poder independente que pode
ser utilizada contra a direcção. Para minimizar o potencial conflituoso, a direcção tem estabe­
lecido políticas editoriais que limitam ainda mais o comportamento profissional dos seus
jornalistas. Embora a natureza específica destas políticas varie de organização para organiza­
ção, o propósito não varia. As políticas editoriais diminuem o conflito potencial entre os
jornalistas e a direcção, e não há qualquer razão para se supor que as políticas de uma
organização serão um a fonte de tensão entre a direcção e os jornalistas (Sigelman, 1973).
Desde que a política editorial não force os jornalistas a violar as normas do profissionalismo
jornalístico, não há qualquer razão para presumir que os jornalistas vêem a política editorial
como um constrangimento no seu trabalho, embora limite o tipo de «estórias» que podem ser
relatadas.
A natureza organizacional das noticias é determinada pela interacção entre o mecanismo
de controlo transorganizacional representado pelo profissionalismo jornalístico e os mecanis­
mos de controlo representados pela política editorial. Em conjunto, estes mecanismos de
controlo ajudam a estabelecer as fronteiras do comportamento profissional dos jornalistas.
Seria errado supor que essas fronteiras ditam acções especificas da parte dos jornalistas;
melhor, estas fronteiras fornecem uma estrutura para a acção. As fronteiras são suficientemen­
te amplas para perm itir aos jornalistas alguma criatividade na reportagem, edição e apresenta­
ção das «estórias». Por outro lado, as fronteiras são suficientemente estreitas para se poder
confiar que os jornalistas agem no interesse da organização jornalística.

100
«Declínio de um paradigma?
A parcialidade e a objectividade
nos estudos dos
m edia noticiosos» (') (*
*)

Robert A. Hackett

Este ensaio descreve em linhas gerais os desafios empíricos, metodológicos e epistemo-


lógicos que se colocam aos vários pressupostos-chave que se encontram ligados à investigação
convencional da parcialidade jornalística. Estes pressupostos são: 1) a notícia pode e deve ser
objectiva, equilibrada e um reflexo da realidade social; 2) as atitudes políticas dos jornalistas
ou dos executivos editoriais são factores determinantes da parcialidade jornalística; 3) a parci­
alidade no conteúdo noticioso pode ser detectada através da existência de métodos de leitura;
4) a forma mais importante de parcialidade é o partidarismo. Conclui-se que os conceitos de
orientação estruturada e de efectividade ideológica são mais frutíferos do que o de parcialidade

(*) Este ensaio, ccntrando-se nos fundamentos principais que estão na base dos desafios que se põem ao pa­
radigma da «parcialidade», não pode tratar dos factores e movimentos sociais, políticos c intelectuais que estão sub­
jacentes a esses desafios. Numa palavra, podemos dizer que essas forças têm a ver com o assalto cpistcmológico
anti-individualista, antipsicológico c anticomportamcntalista montado pelo estruturalismo francês e importado para
os estudos dos media cm língua inglesa através do marxismo britânico c do feminismo. O estruturalismo é sumari­
amente discutido neste artigo, do mesmo modo que o é o ressurgimento da teorização cm tomo da questão da ideo­
logia, uma outra força intelectual.
(*) Reedição de: Criticai Studies in Mass Communication (Vol. 1, N.° 3, Setembro, 19S4). «Decline of a
Paradigm? Bias and Objcctivity in News Media Studies», de Robert A. Hackctt. Direitos de autor: Speech Com­
munication Association. Reedição com a aprovação do editor.

101
A parcia/idade, ou o que geralmeníe se aceita como seu oposto, a objectividade
onceitos que a maioria dos cidadãos associa ao papel político ou ideológico dos /;
jticiosos. Os conceitos encontram-se consagrados nas dircctrizes administrativas pai
diodifusorcs, e são ás vezes aproveitados por políticos mal humorados. A denúncia feit;
iro Agnew, em 1969, dos «falaciosos nababos do negativismo» da televisão é talvez o :
lhecido ataque feito por um político americano aos media noticiosos pela sua ale:
cialidadc ideológica - neste caso, por se terem mostrado demasiado compreensivos
ção aos protestos radicais. Os grupos de interesses que controlam os media frequentem
Jtam termos de referência semelhantes. Por exemplo, um estudo feito pela Associe
nacional de Maquinistas (1981) concluiu que as notícias dos principais canais de telev:
IUA (conhecidos como networks) eram na sua esmagadora maioria mais pró-patror
iró-trabalhador. E os jornalistas utilizam, evidentemente, eles próprios os conceitos
lidade e de objectividade na avaliação dos seus próprios trabalhos. A objectividade l
ifinida como «lema» e «pedra angular» do jornalism o americano (Schudson, 1978, p
Bra dley, 1974, p. 256).
rão ó pois nenhuma surpresa o facío de os acadêmicos também adoptarem a parcialii
objectividade como conceitos organizativos em muitos estudos de jornalism o. A lgt
os da produção jornalística, de Brecd (1955) a Sigelman, 1973), tomaram p o r adqui
inção entre a «política» editorial parcial, que pode ser incentivada pelos donos d
o ideal da objectividade jornalística - se bem que cépticos em relação à sua aplicaç;
íum erosas análises de conteúdo têm procurado avaliar a objectividade da cobertu
de campanhas eleitorais, assuntos controversos, políticas, instituições, movimento
is. U m a parte significativa desta investigação foi inspirada nas acusações de parcial
a 1» que A gnew dirigiu à informação dos networks (A dam s, 197 8, p. 20).
itanto, a utilidade de parcialidade e da objectividade enquanto ferram entas concej
ílise do funcionamento ideológico dos media tem levantado crescentes objecçõe:
«opinião» subjectiva do repórter ou da organização jornalística no que é pretensamente um
relato «factual». Assim, MacLean (1981, p. 56) sugere que «quando um artigo não faz a
distinção clara entre as interpretações do seu autor e os factos relatados estamos perante uma
notícia parcial ou tendenciosa».
Tem-se salientado, por vezes, o facto de o conceito de parcialidade noticiosa ter dois
momentos que não são inteiramente consistentes. Um é a falta de «equilíbrio» entre pontos de
vista concorrentes; o outro é a «distorção» tendenciosa e partidária da «realidade». A ambigui­
dade é sugerida por Doll c Bradley (1974, p. 256) num levantamento feito em manuais de
jornalismo de sinônimos e antônimos de parcialidade jornalística. Por um lado, o momento de
desequilibrio é sugerido pelos sinônimos «preferencial», «unilateral» e «parcial», e pelos
antônimos «igual», «igualitário», «neutro» e «justo». Por outro lado, o momento de distorção
é sugerido pelos termos «deturpado», «distorcido», «indirecto» e «estereotipado», em oposição
a «franco», «factual», «exacto» e «verídico». Na prática jornalística, os objectivos do equilí­
brio e da exactidão (a não distorção) podem nem sempre ser compatíveis. Tomemos, por
exemplo, a campanha eleitoral de 1972 nos EUA, na qual George M cGovem fez muitas mais
aparições públicas que o titular do cargo, Richard Nixon. A exibição televisiva «equilibrada»
dos dois candidatos teria «alterado» as estratégias e o progresso da campanha.
Relacionada com a distinção distorção/desequilíbrio está a tensão entre relatar imparcial­
mente pretensas verdades contraditórias de fontes altamente colocadas, por um lado, c deter­
m inar com independência a validade de tais pretensas verdades, por outro. A amplificação
sem sentido crítico por parte dos media das acusações infundadas do senador Joe McCarthy
fez com que os jornalistas tomassem viva consciência desta tensão; assim, actualmente, o
conceito de objeclividade é aplicado algumas vezes para incluir reportagens de carácter inter-
pretativo e analítico (Roshco, 1975, pp. 48-57).
Tais ambiguidades nas normas jornalísticas reflectem-se nas diferentes medidas e defini­
ções operacionais utilizadas no estudo da parcialidade. Tanto o conceito de «desequilíbrio»
como o dç «distorção» têm sido adoptados. Pondo de lado questões epistemológicas, a aborda­
gem que utiliza o conceito de «distorção» é tecnicamente possível desde que tenhamos à
disposição relatos alternativos ou pontos de referência adequados. Nos possíveis pontos de
referência incluem-se as transcrições integrais do discurso de um político; a percepção dos
participantes ou das fontes entrevistadas num acontecimento noticioso (Lang & Lang, 1953;
Lawrence & Grey, 1969); as estatísticas governamentais sobre o crime (Davis, 1952) ou a
distribuição da força de trabalho e as paragens laborais (Glasgow University M edia Group,
1976). O critério de «distorção» pode ser considerado especialmcntc apropriado quando não
estão em disputa pontos de vista de legitimidade semelhante, tomando assim inadequado o
critério de desequilíbrio. Tal seria o caso, por exemplo, em estudos de notícias relativas a
relações internacionais, uma área em que não se espera que os jornalistas façam uma apresen­
tação equilibrada de pontos de vista pró e antiamcricanos (especialmcntc comunistas). Só
quando a política externa (a guerra do Vietnam depois de 1968, por exemplo) provoca
suficientes divisões no interior dos círculos políticos legítimos é que os media devem ter em
conta o equilíbrio. A cobertura de assuntos externos só poderá ser considerada tendenciosa se a
realidade for distorcida por motivações políticas. Chomski e Herman (1979), cujos trabalhos
podem ser considerados como estudos menos tradicionais de parcialidade, argumentam que a
cobertura noticiosa americana da repressão no Terceiro Mundo, e o papel da América em tal
repressão, é distorcida pela subordinação dos media aos interesses e perspectivas das elites
do nos estudos sobre a parcialidade indubitavelmente porque os pontos de referencia;
dos nem sempre estão disponíveis, e porque este critério está legalmente consagrado
das Comunicações dos EUA e a doutrina de imparcialidade da Comissão de Comun
Federais obrigam os radiodiftisores a fornecer «oportunidades razoáveis para a discus
jontos de vista divergentes cm assuntos de importância pública» na programação notic
<permitir respostas a ataques pessoais que ocorram no decurso de discussões de as
:ontroversos», e a dar igual tempo de antena a todos os candidatos políticos, caso a
leles seja concedido tempo fora da programação noticiosa (Brundage, 1972, pp. 53
37). Todavia, mesmo os investigadores que são de opinião que a parcialidade equiv;
esequilíbrio binário diferem nos seus métodos. Na verdade, muitos deles medem o tem
ntena, ou espaço noticioso, concedido a cada uma das partes, e avaliam as tendência
firmações ou artigos relativos a cada uma delas (se são favoráveis, negativos, neutra
listos). Mas além destes procedimentos básicos existem algumas variantes. McQuail,
:emplo, sugere várias possíveis manifestações de parcialidade: a argumentação explícit.
impilação de provas a favor de um ponto de vista; a utilização tendenciosa de fact
mentários, sem qualquer declaração explícita de favoritismo; o uso de linguagem qui
tra cor a um relato de outro modo factual e transmitindo um implícito mas claro juízc
Ior; a omissão de argumentos a favor de uma parte numa reportagem supostamente impa
(McQuail, 1977, p. 107).
Hofstetter e Buss (1978, p. 518) rejeitam três potenciais definições de parcialidade
mira clara, a distorção através do ênfase dado mais a certos factos que a outros,
iltecimento de certos valores. Os autores consideram que embora sejam comuns cm polér
públicas, estes conceitos talvez não sejam muito úteis na investigação científica, i
mas e as sanções profissionais fazem com que a mentira e a distorção deliberadas seja
Doll e Bradlcy (1974, pp. 258, 262), por outro lado, abandonam a tentativa de deíinir
parcialidade. Em vez disso, tratam-na negativamente, como a ausência de objectividade, que
eles definem em termos quantitativos como igualdade de tempo c ênfase dado às posições dos
principais candidatos e partidos, o uso de linguagem neutral ou objectiva, a utilização de
provas para apoiar as conclusões apresentadas e fornecer um relato equilibrado, e a fuga a
afirmações gratuitas.
Apesar de tais variações na conceptualização e metodologia, os estudos da parcialidade
tendem colectivamente a aceitar os seguintes pressupostos:

1. Os media podem e devem reflectir, com exactidão, o mundo real, de uma maneira
justa e equilibrada. O conceito de parcialidade implica a possibilidade de um grau-
zero de relatos imparciais e objectivos. (Algumas vezes, este pressuposto é feito
explicitamente: «A detecção da parcialidade é crucial para a manutenção das insti­
tuições democráticas e do direito do povo à informação política imparcial.'» (Vcja-
-se Hofstetter e Buss, 1978, p. 528.) O ideai da objectividade sugere que os factos
possam ser separados das opiniões ou juizos de valor, e que os jornalistas consigam
um a distanciação rclativamente aos acontecimentos do mundo real cujo significado
e verdade eles transmitem ao público através de uma linguagem neutra e competen­
tes técnicas de reportagem. Assim, os media noticiosos ofereceríam o resumo fiel
dos acontecimentos mais noticiáveis do dia - os mais relevantes e interessantes
para o público. Os media imparciais dariam, quantitativa e qualitativamente, uma
cobertura equilibrada às perspectivas políticas legítimas em concorrência.
2. Os obstáculos potenciais mais importantes que se põem à apresentação de um relato
equilibrado e exacto daquilo que se passa no mundo são os preconceitos políticos ou
as atitudes sociais dos comunicadores, que permitem que os seus valores ou percep­
ções selectivas tomam tendenciosa a sua reportagem.
3. Quando essas parcialidades surgem no conteúdo noticioso, elas podem prontamente
ser detectadas através de métodos existentes de leitura e descodificação.
4. A forma mais importante de parcialidade política ou ideológica nos media é o
favoritismo, propositado ou não, em relação a um candidato, partido, posição políti­
ca ou grupo de interesses, em detrimento de um outro.

Os capítulos seguintes examinam alguns desafios lançados a cada um destes pressupos­


tos.

A notícia consegue reflectir a realidade?

No capítulo anterior salientei a existência de uma tensão entre «equilíbrio e «não distor­
ção» enquanto critérios práticos da objectividade. Eles também são incompatíveis a um nivel
epistemológico. Uma epistemologia relativista, manheimiana, sublinha a noção de que a
parcialidade é evitada através do equilíbrio entre visões do mundo antagônicas e incompatí­
veis, cada um a das quais com a sua própria validade (limitada e parcial). Por outro lado, o
objcctivo de evitar a distorção pressupõe tuna afirmação positivista, não relativista, da veraci­
dade dos factos inalterados, cuja visibilidade é temporariamente obscurecida pelo jornalista
tendencioso.

105
cm ica cpistem ológica notável Skirrow f 1 9 7 Q ^ ^« -lan u au e tem eStaa° sujeitas
>televisivas com base no descauilibrioé to™ ™ - sustenta rtue o ataque às
l a noticia im plicitamente depende - unw n lu ra^ T d Um ref° rÇ° da própria ideia
la verdade. Skirrow argumento DOrZ L Í ' f d e d e p o n '<* de vista aproxima-nos
m a da B B C , que se « £ S JK , P ’ -que e absurd° sugerir, como faz um
iloração e do racism o». O programa em q L ^ ò ?«com ^bàl rd atl vamente aos pmblemas
nbaza», em que se descreve a nohrP 7 i ^ - abalançava» o filme «Last Grave
r «m a Pi tfe * z:*s r s~ “ ca í
na aparentem ente rica e feliz cidade de Soweto.» g passearem-se de

N ao quer dizer que os jornalistas trabalhem conscientemente a nanir d* , u


rvolvida e abstracta teoria do conhecimento. Epstein 0 9 7 4 pp

S r r r f tdeVÍSÍV0S * ^ ^ e q u iliirio i ’
osto as norm as governam entais de imparcialidade e às preocupações das estações associa
um i r í 97 SUStCnta que a aPrcsentação de pontos de vista antagônicos pelo iomalis
um dos vanos «ntuais estratégicos» da objectividadc, através do qual os trabalhadores d,
rm açao se protegem de nscos profissionais como as horas de entrega falhadas os proces
dc difam açao e as reprimendas dos superiores. Tais preocupações são eminentement
ticas c políticas, nao filosóficas. Todavia, embora os jornalistas relatem frequentement
•laraçoes antagônicas dc fontes sem tentarem verificar a sua validade, pode-sl consider;
:,h a ; pe' 0S m en° s- um a pretensão de verdade implícito numa tal justaposição. Por vezes
p íci o Epstein descreve o «modelo ‘dialéctico’ dominante para relatar os assuntos conto
rsos» do seguinte modo: orar

O correspondente, depois de relatar o acontecimento noticiável, justapõe um ponto ,


sta contrastante e conclui a sua síntese com a sugestão de que a verdade reside alsmres
leio. (Epstein, 1974, p. 67).

U m a tal maneira de abordar o problema só pode ser justificada epistcmologicamei


itraves de um a posição de agnosticismo social e relativismo, que considera a validade
deias diferentes limitada pela perspectiva parcial do grupo que as produz. Surge o parade
aabitual do relativismo: o que justifica então as pretensões de verdade das próprias organi
ções jornalísticas? Além disso, longe de serem, em sentido absoluto, neutrais, o equilil
noticioso leva gcralmente os media a reproduzir as definições da realidade social que coi
guiram o dominio na arena política eleitoral.
A concepção alternativa, dc que a objectividade jornalística resulta numa visão impai
dos factos, está sujeito a muitas das mesmas criticas que têm sido dirigidas contra o positi
m o cm geral. Esto posição implica que o jornalista e os media noticiosos sejam observad
independentes, separáveis da realidade social que eles noticiam; que a verdade ou o conl
m ento dependem da neutralidade do observador/jomalista em relação ao objecto dc est
que o meio noticioso, quando «utilizado correctamente», é neutral e destituído de juize
Vários argumentos têm sido avançados contra esta posição. Primeiro, os media noticio­
sos estruturam inevitavelmente a sua representação dos acontecimentos sociais e políticos
através de meios que estes mesmos acontecimentos não predeterminam. Assim, os investiga­
dores da produção jornalística rejeitam de forma esmagadora a metáfora do «espelho» que é
algumas vezes apresentada pelos porta-vozes dos media. Altheide (1976) argumenta que,
devido aos aspectos organizacionais do trabalho jornalístico, as notícias das televisões locais
descontextualizam inevitavelmente os acontecimentos e recontextualizam-os artificialmente de
acordo com «a perspectiva da noticia». Tuchman (1978) identifica a rede de recolha de
notícias (a localização dos correspondentes, das equipas de fotógrafos, etc.), as interacções
burocráticas dentro das organizações jornalísticas, e o ritmo do trabalho noticioso, com as
respectivas «tipificações» dos acontecimentos e processos noticiáveis. Utilizando a teoria da
organização, Epstein sustenta que as exigências mais importantes que estruturam as notícias
dos networks americanos são as limitações orçamentais, impostas pela ideia de que o melhora­
mento do programa noticioso não aumentará proporcionalmente às taxas de audiência ou às
receitas publicitárias; a necessidade de manter a audiência-base do canal para o horário nobre
da hora do jantar; a necessidade das estações associadas de noticias de carácter nacional, tendo
por consequência a «nacionalização» dos acontecimentos locais; e os regulamentos de impar­
cialidade do governo federal.
Outros críticos argumentam que, à parte o papel do jornalismo como mediador do
mundo social, a própria linguagem não pode funcionar como transmissora directa do signifi­
cado ou veracidade supostamente inerentes aos acontecimentos. Em parte, isto acontece por­
que a rotulagem de algo implica a existência de uma avaliação e de um contexto. Nas palavras
de David Morley, a linguagem neutra, isenta de juizos de valor, «na qual os factos puros do
mundo pudessem ser registados sem qualquer preconceito», é impossível, porque «as avalia­
ções já estão implícitas nos conceitos, na linguagem em função da qual se fazem as observa­
ções e os registos» (Morley, 1976, pp. 246-247), tal como Hall e outros colegas referem a
propósito do uso feito pelos media de comunicação de rótulos como mugging: ( * )

Eles não só situam como identificam esses acontecimentos: atribuem-os a um contexto.


Assim, a utilização do rótulo é capaz de mobilizar todo este contexto referencial, com todos os
seus respectivos significados e conotações. (Hall, Critchcr, Jefferson, Clarkc & Roberts, 1978,
p. 19).

Hall (1982) considera também que essas conotações não são imutáves nem predetermi­
nadas, como num dicionário, mas são, pelo contrário, mais um produto da luta política em
tom o da imposição de significações.
Os estudos que demonstram a inevitável mediação editorial e linguística dos aconteci­
mentos deixam em aberto, todavia, a hipótese de os meios de comunicação social ficarem
separados dos acontecimentos que observam e noticiam. A esta última hipótese é contraposto o
argumento de que o mundo social e político não é uma realidade predeterminada e «dura» que
os media reflectem; este tem de ser construído socialmente. Além disso, longe de serem
observadores desligados, os media ajudam activamentc a construir esse mundo.

(*) Nota de tradução - Um tipo de assalto, nomeadamente às pessoas, que ocorTC, geralmente, na rua.

im
itos incluem os vanos media e os seus forma
iam a forma das instituições dominantes. No <
«são a força dominante à qual outras instituiçõ
so político», que se encontra agora «ligado inext
que o transformaram num prolongamento da sua ]
Não é necessário aceitar-se todo este determinism
es do jornalismo na sociedade e na política. Um e.
oorstin (1980, p. 11) rotulou de «pseudo-acontecim
reviamente, e que têm como desígnio primordial o :
rências de imprensa e a maioria dos discursos polític
os que são preparados para propagação mediática, o
a.
Além da produção deliberada de pseudo-acontecir
enciar as próprias tendências sociais e políticas que a
Assim, a televisão tem sido acusada de conroer a i
idades de candidatos presidenciais bem sucedidos,
ilho de Hall c seus colegas. Eles investigaram a internet
b)
rensa britânica; a crescente sensibilidade da polícia, <
ção a este crime aparentemente novo; c) o surto de
ciais do crime; e d) o aparecimento de um «pânico
iedade britânica. Sc apenas houvesse a comparação de tip
a estatísticas governamentais sobre o crime (como aconteí
noticias de crime nos jornais do Colorado realizado em 1
léctica. Além disso, correr-se-ia o risco de atribuir às estatí
uma preemincncia epistemológica, que se tem de compro'
Molotch e Lester (1974, p. 105) problematizam de umt
acontecimento e questionam explicitamente a noção da q
pende: a de que «os media são os repórteres-refleetore
ijectiva que lhes é exterior, constituída por factos do mundo
que conta como «acontecimento» é determinado socialmcn
que geralmente prestamos atenção. Um acontecimento, na
uma ocorrência (qualquer happening cognoscível) que é u
õsitos de demarcação temporal. As ocorrências tomam-se ai
oa utilidade para um indivíduo (ou organização) querendo or
istituições diferentes podem ter «necessidades de acontccim
ontraditórias, e por isso tentarão ordenar ou definir a realidat
aso, surge uma questão a resolver. Todavia, à exccpção de ac
ornados públicos por informadores não oficiosos), a maioria da
le rotinas que os detentores dos poderes políticos e burocrático;
Ip nrnntecimento» dos oromotores de notícias ffontes política;
happenings complexos em «casos» processualmente definidos, fomeccm os critérios de per­
tinência e os mecanismos de demarcação temporal que definem os «acontecimentos» para os
media. Por exemplo, o jornalista faz a cobertura de «crime» como uma serie de casos
distintos, organizados burocraticamentc, cada um dos quais se inicia com a detenção (ou o
relato da perpetração de um crime) e acaba com a leitura da sentença. Ao invés, a organização
institucional da detecção de acontecimentos tem como resultado a criação de «não aconteci­
mentos» que não podem ser vistos de acordo com o esquema institucional de interpretação,
mas sim de acordo com um outro esquema diferente. Assim, os media ajudam activamente
a constituir a realidade, quanto mais não seja por ampliarem e conferirem legitimidade à
estruturação dos processos sociais realizados pelas instituições político-burocráticas. Por isso,
não se consegue fazer um a distinção radical entre o mundo dos processos sociais e aconte­
cimentos, e os media noticiosos que são supostos reflecti-los. Da forma que Hall a apresentou,
a realidade não pode ser entendida simplesmente como uma dada série de factos, mas como:

O resultado de um modo particular de construção da realidade. Os media noticiosos


definiam, não se limitando a reproduzir, a «realidade». As definições de realidade eram
sustentadas e produzidas através de todas aquelas práticas linguísticas (em sentido lato) por
meio das quais as definições selectivas do «real» eram representadas. Isso implica o trabalho
activo de seleccionar e apresentar, de estruturar e dar forma: não apenas a transmissão de
um significado já existente, mas o trabalho mais activo de dar significado às coisas. (Hall,
1982. p. 64).

Assim, a linguagem (e os media) tem de ser encarada mais como um agente estruturador
do que como correia de transmissão neutral, que pode referir-se a um mundo de objectos não
discursivos. Como Hall (1982, pp. 70-71) refere, duas posições epistemológicas bastante
diferentes podem derivar deste argumento:

Uma posição kantiana ou neo-kantiana diría que, por esse motivo, nada existe excepto
aquilo que existe na e para a linguagem ou discurso. Outra leitura é a de que, embora o
mundo exista para além da linguagem, nós só o conseguimos compreender através da sua
apropriação pelo discurso.

A primeira posição (kantiana) representa a rejeição mais radical da noção de que a


parcialidade dos media distorcem uma realidade exterior. Assim, Fiske e Hartley (1978, p.
161) argumentam que:

O homem social nunca conhece a realidade pura. Se a realidade em questão ê a força


bruta da natureza, ou as relações dos homens com outros homens, é sempre apreendida
através das estruturas mediadoras da linguagem. E esta mediação não é uma distorção, ou
mesmo um reflexo do real, é mais o processo social activo através do qual o real é feito.

Para B ennett (1982, p. 295), a tese de Hall de que os media ajudam a definir a
realidade social não é suficientemente radical, um a vez que «mantém vivo o conceito dos
media enquanto espelho, ao mesm o tem po que o contesta. «Ele quer elim inar fundam en-
talm cnte a distinção entre o domínio da realidade social e o domínio das representações,

109
pel dos «paradigmas» no desenvolvimento da ciência. Kultn sustenta que a ciência nunca
ã pela comparação directa de enunciados com os factos cmpiricos; ou melhor, evolui
o de um paradigma dominante - um conjunto que inclui generalizações simbólicas,
:tos «metafísicos» como a crença em modelos amplos, valores científicos c «exemplares»
é, os problemas concretos que os estudantes aprendem como parte da sua socialização
a disciplina científica). Para Kuhn (1970, p. 77), a falsificação de teorias através da
paração directa com a natureza é um mero «estereótipo metodológico». Embora nãc
onda directamente à questão, Kuhn pode ser entendido como dizendo que as teorias sã<
imensuráveis e determinam os seus próprios critérios de validade.
D e igual m odo, A lthusser argum enta que a adequação de um a problem ática
içada pela sua coerência interna, a sua sistem aticidadc. Assim, n a opinião de Sumnc
79, p. 181), a ciência para Althusser é «aquele campo de significação que estabelece :
ições de um a maneira mais sistemática, ou... aquele corpo de conceitos que melhor :
dica». Este gênero de posição levanta o espectro do idealismo e da teoricidade, e é vulner
à critica de que:

A sistematicidade não oferece nenhumas garantias... de que a teoria é uma «apropr


o cognitiva do real», exacta e elucidativa. A teoria cientifica pode ser sistemática; todax
condição da sua existência não é a sistematicidade mas o facto de explicar a natureza
ediação e o movimento das aparências práticas, agindo assim como a expressão teórica i
•lações sociais concretas.

N a minha opinião, a primeira posição (kantiana) a que Hall aludiu tende para
eterminismo linguístico que exagera na autodetenninação da significação, e privilegia
emasia a semiótica à custa de outros aspectos da prática social. N ão parece ser necess
iceitar esta posição para rejeitar a pretensão de as notícias dos media ou reflectirem pas<
nente ou distorcerem activamente a realidade. Pode não haver, de facto, nenhum mund
:<factos concretos», prístinos, evidentes, situado fora dos limites do significado c da lingua;
sobre o qual o discurso jornalístico (ou científico) se debruce. E tem de admitir-se que
jornalismo participa activamente na luta pela significação dos acontecimentos, então, nó;
nos podemos limitar a acusar as notícias de «distorcem o seu verdadeiro significadc
entanto como Sumner defende, existem «relações sociais concretas». E para alguns pr(
As posições políticas determ inam a parcialidade noticiosa?

A segunda pressuposição do modelo de parcialidade a ser discutida aqui é a de que o


partidarismo político da parte dos donos, anunciantes ou responsáveis editoriais é o principal
obstáculo que se põe à informação objcctiva. Uma vez que a parcialidade é frequentemente
conceptualizada como «uma manifestação de intento deliberado ou a consequência involuntá­
ria de uma posição ideológica ou ligação partidária» (Hofstctter, 1976, p. 15), o conceito de
parcialidade encontra-se muitas vezes associado às teorias conspirativas de esquerda ou de
direita dos meios de comunicação social. Kristol (1975) e Efron (1979) dão uma versão
direitista da crítica. Eles argumentam que os media, particularmente os networks televisivos,
fazem parte de um a «nova classe» de burocratas e intelectuais que têm interesse em expandir a
actividade reguladora do Estado, à custa das empresas privadas. Esta «nova classe» utiliza os
media na propagação das suas opiniões anticapitalistas e antitecnológicas. Uma outra opinião,
radicalmente oposta, considera que os media norte-americanos reforçam geralmente os pontos
de vista do establishment, devido ao poder dos donos dos grandes meios de comunicação
social e dos anunciantes (Cirino, 1971). A solução tipicamente sugerida por esses críticos é a
de diversificar politicamente o pessoal e as perspectivas existentes nos media (Efron, 1971,
pp. 209-218).
O que Adams (1978, p. 18) chama a «teoria da atitude política» implica uma visão
instrumentalista da produção jornalística, que vê os jornalistas como autores da sua própria
prática. Muitos dos jornalistas que duvidam da possibilidade de atingir a objectividade enca­
ram, apesar de tudo, os obstáculos para a alcançar, mais que o do subjectivismo dos indivíduos
a partir de factores de ordem organizativa ou estrutural. (Veja-se, por exemplo, Green, 1969,
p. 229; e Griffith, 1974, p. 49). A teoria avança com várias pressuposições:

1. Os jornalistas enquanto indivíduos têm valores políticos coerentes e, a longo prazo,


estáveis. E m algumas versões desta teoria, os valores colectivos dos jornalistas são
considerados substancialmente diferentes da população em geral.
2. Os jornalistas detêm o controlo pessoal sobre o produto jornalístico.
3. Os jornalistas estão dispostos a injectar as suas preferências no conteúdo noticioso
(Epstein, 1974, p. 45).
A s provas destinadas a corroborar estas pressuposições são pouco elucidativas. Relativa­
mente à primeira, Lichter e Rothman (1981) entrevistaram 240 jornalistas dos principais
jornais, revistas e redes de televisão dos EUA. Os autores descobriram que os jornalistas eram
solidamente liberais (*) nas suas opiniões acerca de assuntos sociais e política externa, eram
mais favoráveis a valores sociais «pós-burgueses» que a valores sociais «gananciosos», em
comparação com os executivos empresariais, e estavam muito mais dispostos a votar em
candidatos presidenciais democratas do que o público em geral. Por outro lado, Epstein (pp.
206-229) descobriu que embora os correspondentes que ele entrevistou expressassem opiniões
ligeiramente liberais acerca de alguns assuntos, não manifestavam nenhum comprometimento
ideológico sistemático ou consistente. O mesmo acontecia com os produtores televisivos e os
editores.
As provas de que a própria cobertura jornalística é «tendenciosa» devido ao partidarismo
são ainda mais tênues. As provas experimentais sugerem que as próprias atitudes dos estudantes

(*) Nota de tradução - Na acepção norte-americana do termo, ou seja. alguém que, em questões sociais, é
permissivo, tolerante e aberto à inovação e que defende também a intervenção do Estado para corrigir desigualda­
des sociais.

111
do jornalismo em relação a uma fonte de informação tem pouco impacto nos seus escritos; de
facto, em algumas situações os estudantes esforçam-sc mais para contrabalançar as suas opiniões
pessoais (Kerrick, Anderson & Swales, 1964; Drew, 1975). Epstein (pp. 206-229) concluiu que
tanto os controlos dos networks como o próprio sentido de objectividade do jornalista inibem
efectivamente a introdução de opiniões pessoais nas reportagens televisivas. Diversos estudos de
análise de conteúdo parecem confirmar isto. Hofstetter (1976) e Robinson (1983), por exemplo,
encontraram reduzida parcialidade partidária na cobertura noticiosa das campanhas presidenci­
ais de 1972 e 1980. Robinson (1978, p. 200), embora defendesse a necessidade de um redobrar de
atenções em relação ao figurino político, admitia que «muitas das pesquisas empíricas levadas a
cabo pelos cientistas políticos encontram poucos ou nenhuns dados para uma interpretação
política do conteúdo noticioso televisivo».
Com o seu passado de partidarismo e a sua não subordinação a regras de imparcialidade,
poder-se-ia esperar que a imprensa escrita apresentasse uma maior parcialidade, política nos
seus artigos. David Palctz e colegas (citados por Robinson, 1978, p. 202) verificaram que o
liberal New York Times dava uma «cobertura noticiosa invulgarmente positiva» ao grupo «de
interesse público», Common Cause, recentemente criado. Stcmpel (1969, p. 705) verificou que
quando jom ais de prestígio apoiavam um candidato durante as campanhas presidenciais dos
anos 60, ele tendia a ter mais espaço noticioso que os seus adversários. Todavia, as tradições
partidárias da imprensa têm-se esvanecido com o impacto da radiodifusão nas expectativas
noticiosas do público, o aumento crescente da propriedade dos media por parte de sociedades
anônimas, a enorme dependência nas noticias das agências noticiosas, e a necessidade econô­
mica de atingir um mercado o mais vasto possível. Mesmo durante os anos 60, Stempel
verificou que espaços noticiosos iguais para os dois principais partidos era a norma. Evarts e
Stempel (1974) não vislumbraram em seis dos principais jom ais americanos qualquer correla­
ção importante entre os apoios editoriais e a orientação das afirmações acerca dos democratas
e republicanos na cobertura da campanha de 1972. Como Black (1982, p. 214) apontou:

As crônicas apartidárias descontentam muito menos leitores do que as partidárias. Os


«barões da imprensa» sobreviventes cujo principal propósito é gerir os meios de propaganda
pessoal estão empenhados numa dispendiosa e arriscada vaidade. Eles são a excepção à regra.

A grande excepção à averiguação da exsistência de apartidarismo na radiodifusão é o


estudo de Efron (1971) sobre a cobertura noticiosa dos networks na campanha de 1968. Ela
verificou uma aparente parcialidade a favor do candidato democrata, Humphrey, em detrimen­
to do republicano NLxon e do direitista independente Wallacc. Todavia, os métodos e os dados
de Efron foram fortemente criticados, e uma réplica parcial não produziu os mesmos resulta­
dos (Epstein, 1974, pp. 234-236; Doll & Bindley, 1974, p. 255; Stcvcnson, Eisinger, Feinbcrg
& Kotok, 1973). Ainda que as provas que ela apresenta, extremamente dúbias, sejam aceites,
podem ser interpretadas de modo muito diferente. Assim, W cavcr (1972) argumenta que o
erro de Efron foi o de ignorar o desenvolvimento da campanha por si só, fazendo a interacção
com a exigência do jornalismo televisivo de apresentação de temas noticiáveis. Humphrey no
papel de underdog (*), embalado na corrida, Nixon no papel do corredor de frente a tentar
manter o comando da corrida através de acontecimentos e afirmações cuidadosamente encena­
dos, e Wallacc no papel de fomentador de divisão e violência por onde quer que passasse,

(•) Nota de tradução - O que começa cm situação de grande desvantagem c com menos hipóteses de
ganhar.

112
ílidade que c atribuída a «uma pequena cuque ue juumiisu» uv.
[uc partilham a mesma perspectiva politica, noticiam com preponderância o mesmc
o de provocações à autoridade estabelecida, c modelam depois as notícias de acordo con
us próprios compromissos políticos» (p. 269). Embora as notícias tenham origem despro
onadamente em poucas cidades, isso acontece mais por razões orçamentais e logísticas d<
por razões politicas. E uma vez que grande parte do protesto político dos anos 60 cstav
entrado cm Washington, Nova Iorque e Chicago, os networks noticiaram de modo des:
tais protestos, que iam ao encontro dos desejos de um público ávido de um «conflito entr
ios facilmente reconhcciveis». Finalmente, a necessidade por parte dos networks de «í.ac

izar» as noticias resultou na excessiva importância que aparentemente os radiodifiisort


ím às controvérsias locais (pp. 270-271).
Com base nas provas disponíveis, pode-se dizer que todas estas interpretações «orgar
lonais» das notícias são um avanço decisivo sobre a teoria da «atitude política». Todavia,
rdagem organizacional não analisa suficientemente as determinantes «extemas» ou
texto da produção jornalística, e ignora particularmente as ligações entre a estratificaç
itico-social e a notícia. Tão-pouco a articulação entre os valores-notícia ou os temas notic
s e os mais amplos contornos ideológicos de sociedade recebem grande atenção. Até cci
ito, a série de investigações pára demasiado cedo. Epstein, por exemplo, fica satisfe
ide que consiga relacionar uma característica do conteúdo do noticiário televisivo com i
ibuto da organização do network. A análise do papel e determinantes ideológicas dos me
comunicação social não se esgota nem na abordagem da atitude politica nem na abordag
ganizacional.

onseguimos descobrir a parcialidade na notícia?

Tem causado alguma confusão o facto de os termos parcialidade e objcctivid


:rem utilizados de modo diverso para caracterizar as atitudes pessoais dos jornalistas
n o c o n te ú d o d a s n o t i c i a s a o q u e n a s s u a s c u n u i v u v s u e ! ,.s . . . . . ■ *»• .> q u s . . . . .............- -
v iá v e l, u m a t e r c e i r a p r e s s u p o s i ç ã o t e m d c s e r c o n s i d e r a d a ; a d e q u e a p a r c i a l i d a d e n o c o n t e i
p o d e s e r d e fin id a o p c ra c io n a lm e n te , c p o d e m a d o p ta r-s e a p ro p r ia d a s m e d id a s e m p ír ic a s V
a v a lia r a s u a p r e s e n ç a . C o n to s e d e f e n d e r á n e s t e c a p í t u l o , e s t a p r e s s u p o s i ç ã o é p r o b l e m a
p a r tie u la r m e n te s e a n o s sa p r e o c u p a ç ã o c o m a i d e o l o g i a f o r , d e c e r t o m o d o , m a i o r d o q u e
o p a r tid a r is m o .
A t é r e c e n te m e n te , o m é to d o in d is c u tív e l p a r a ta l t r a b a lh o te m s id o a a n á lis
c o n te ú d o , g c r a lm e n tc q u a n tita tiv a . É u m a té c n ic a q u e c o m e ç a c o m o e s b o ç o d a s c a te i
d c c o n t e ú d o m a n i f e s to o u a p a r e n te q u e s ã o c o n s id e r a d a s a p r o p r i a d a s p a r a a h ip ó tc
a n á lis e . A f r e q u ê n c ia , o u p r c s e n ç a / a u s ê n c i a , d e c a d a c a t e g o r i a é t a b u l a d a p a r a c a d a 1
:le d c a n á l i s e . N u m e s t u d o d o c o n t e ú d o n o t i c i o s o , a s c a t e g o r i a s t i p i c a s p o d e m s e r
x as, te m a s o u a c to rc s e s p e c ífic o s q u e s ã o s u p o s to s ta n to d e s c re v e r a m e n s a g e m
o s s i b i l i ta r a s i n f e r ê n c i a s r e l a t i v a s a o s d e t e r m i n a n t e s d a m e n s a g e m — p a r t i c u l a r m
if e n ç õ c s o u p a r c i a l i s m o d o s c o m u n i c a d o r e s . A u n i d a d e d e a n á l i s e é , f r e q u e n t e n
a s e , a notícia o u o a r t i g o .
A análise dc conteúdo está associada à problemática da parcialidade por, pelt
s razões. Primeiro, a parcialidade é, muitas vezes, concebida em termos quantil
ensão da coluna ou a duração do tempo de antena concedidos a cada uma das ;
fronto, as p ro p orções de afirmações «favoráveis» e «desfavoráveis» feitas acei
iid a to específico, e assim por diante. Com a sua predilecção pela quanti
ise d e co n teú d o surge como um método especialmente adequado; de facb
9, p . 66) considera a quantificação das categorias a operação-chave da
údo.
Segundo, parece haver em grande parte da pesquisa uma pressuposição b
al segundo a qual a repetição das unidades do conteúdo está associada ao
cia. Assim, a tabulação de frequências é suposta ser um indicador útil da nv
co está a receber.
crceiro, Sumner (p. 99) sustenta que apesar das suas pretensões esporádii
neutral d e descrição, o verdadeiro objecto da análise de conteúdo é
nal e o s motivos do comunicador. Ele salienta que, historicamente,
> flo resceu durante a Segunda Guerra Mundial e o período macartis
na a n á lise da propaganda inimiga — tanto para prever os movim en’
as condições de toda a investigação científica, a análise de conteúdo pode ser encarada como
«a aplicação dos princípios da investigação cientifica à análise do conteúdo da comunicação»
(Holstoi, 1968, p. 598)
Todavia, o interesse crescente na ideologia e a consequente desvalorização da parcialida­
de têm estado associados à emergência de novos métodos de interpretação dos textos mediáti-
cos, sobretudo aqueles inspirados na semiótica ou na análise estrutural. Os seus proponentes
desafiam os propósitos científicos da análise de conteúdo, argumentando que é totalmente
insuficiente estudar o modo como a ideologia estrutura as mensagens mediáticas. Isto aconte­
ce, em parte, porque a análise de conteúdo só lida com o conteúdo manifesto, com significan-
tes denotativos, como aqueles que o promovem, admite:

O requisito da objectividade estipula que sejam registados apenas aqueles símbolos e


combinações de símbolos que aparecem, de fado, na mensagem. Por outras palavras, o
processo de codificação não pode ser o de «ler nas entrelinhas». Nesse sentido, a análise de
conteúdo está limitada aos atributos manifestos do texto. (Holstoi, 1968, p. 600).

Nos term os da linguística estrutural, a análise de conteúdo regista mais a parole, o


acto individual da fala, do que a langue, o código subjacente ou o conjunto de convenções
que constitui o principio da inteligibilidade da fala individual. Do ponto de vista do
sem iótico, a análise de conteúdo não consegue passar das expressões exteriores e penetrar
na estrutura interna invisível destas. Contra a restrição da análise de conteúdo aos signifi-
cantes denotativos, a sem iótica insiste na im portância do signo em toda a sua com plexida­
de, e na estruturação interna de um texto ou mensagem (W oollacott, 1982, pp. 94-95). O
analista estrutural procura identificar relações consistentes entre os signos. Em sum a, os
códigos culturais (análogos às línguas) que estabelçcem as combinações possíveis de ele­
m entos que geram significado num texto particular ou num conjunto de textos são o
objecto da análise. Como Camargo (1972, p. 126) explica:

O código é o sistema de convenções da comunicação que constitui as regras responsá­


veis pela organização de diferentes significados. A utilização de um código permite a
selecção e combinação dos signos que constituem a mensagem.

O código ou a estrutura latente que produz as unidades de significação, e está imanente


nelas, é considerado equivalente à ideologia . (Sumncr, 1979, p. 115; Larrain, 1979, p. 133).
Para os seus defensores, a relação com o texto mais como um todo estruturado do que
com o um a «série de componentes fragmentados», é a principal vantagem da análise estrutural
sobre a análise de conteúdo (Camargo, 1972, p. 123), e a que mitiga a necessidade de
quantificação. Enquanto a análise de conteúdo considera a «repetição - a quantidade de
material numa das categorias - , o indicador de significado mais útil» (Hall, 1975, p. 15), a
abordagem semiótica argumenta que:

Não há razão para se considerar que o item que se repete mais frequentemente ê o mais
importante ou o mais signiftcante, pois um texto é, evidentemente, um todo estruturado, e o
lugar ocupado pelos diferentes elementos é mais importante do que o número de vezes que
eles se repetem. (Burgelin, 1972, p. 319).
za os signiticantcs. A limitaçao a denolaçao e também
ie conteúdo tem de presumir que a denotação não é
ignificantes querem dizer a mesma coisa para toda a i
ntido, tem de pressupor «um universo comum de disc
n Sumner, 1979, p. 66). Como Hall (1982, pp. 61 e (
õc uma noção referencial da linguagem, na qual (atr
vras podem estar relacionadas directamcnte com os sr
>em mediática pode ser «entendida como um tipo
:1a pode «espelhar as intenções dos seus produtores

\ fim de ilustrar este ponto, Sumner (p. 66) dá o exe


o tem um a ideologia, a análise de conteúdo pode conta
m a s liberdade e ordem nos seus discursos eleitorais».
:sc de o termo «liberdade», por exemplo, ter o mesme
xto discursivo em que surge. Considera-se que o que <
é a frequência com que este significantc (partilhado,
utilizado no discurso ideológico. M as se o termo «liber
:ntes contextos, se rcalmente o discurso é o que em
ígem da sua frequência com parativa não faz sentido.
>9-70) argumenta, as contagens de frequência pressup
pre que surja um elemento particular, seja qual for o
cr um a teoria da significação a fim de criar classes de e
scentaria que se bem que tais classes de equivalêncií
itição de categorias não é o melhor indicador da estru
A pretensão da análise de conteúdo de um un
seguinte, altamente problemática, devido à existênc
n», que tem a ver, cm parte, com a tentativa de da
ive. O termo «liberdade», por exemplo, tem um sab
nald Reagan do que quando utilizado pelos sandinist;
O projecto de decifrar a mensagem a partir c
ablcmatizada pela potencial dcsconjuntura entre a co<
ns mediáticas. A mensagem pretendida pode não sc
avid Morley (1980) sobre o público do programa bi
velou a eficácia das estruturas de descodificação asse
ie estas sejam levadas em linha de conta, como é que
À luz de tais considerações, Sumner argument
enhuma teoria de significação para estabelecer que i
ão indicativos de ideologia. Sem um a tal teoria, c <
inidades. M as talvez nem todas as análises de conte
iritica. Sumner admite que o trabalho de Halloran e <
im a manifestação gigantesca contra a guerra ultn
rm erm o seu trabalho numa «teoria das ideologias p:
1968, p. 605), o decano da análise de conteúdo, reconhecia que a técnica «vale pelas suas
categorias», e que estas devem ser o reflexo das hipóteses do investigador. Poder-se-á concluir
da discussão anterior que a utilidade da contagem destas categorias é duvidosa. O mesmo
acontece com a adequação da teorização que pretende associar categorias de conteúdo com a
produção ou recepção da mensagem. Essa teorização é particularmente vulnerável ao psicolo-
gismo e individualismo, na qual a comunicação é vista como:

Um processo através do qual um ser humano emite uma mensagem que é recebida e
entendida no seu significado pretendido por um outro ser humano. A comunicação é assim
vista puramente como um processo interpessoal e interactivo em que o significado é transmi­
tido, negociado ou modificado: os significados são criados e confirmados por sujeitos recí­
procos, conscientes e interpretativos... (Por conseguinte) a questão da produção ideológica é
reduzida à questão da parcialidade consciente/inconsciente por «sujeitos comunicadores» e.
portanto, pré-concebidas, à identificação de temas frequentes que reflectem essa parcialida­
de. (Sumner, 1979, p. 71).

O psicologismo da análise de conteúdo, e a sua pressuposição de um universo de


discurso partilhado, estão ligados. A parcialidade do comunicador é supostamente detectávcl
no uso manipulatório deste conjunto partilhado de significados - especialmente na repetição
de significantcs (temas, expressões de valor), o que reforça as intenções do comunicador.
Uma tal abordagem psicológica é, claramente, insuficiente para analisar o aparecimento
de ideologias, se por ideologia se entender o resultado (assim como um determinante) de
práticas sociais estruturadas, aquilo que se «exprime através» de textos específicos. Em con­
traste com esse psicologismo, os estruturalistas procuram minar o conceito humanista do
«autor», pressupondo a autonomia e a coerência do sistema de relações que produz o significa­
do do texto. Consequentemente, é necessária uma técnica de «análise imanente», na qual «se
observe um dado sistema do interior» (Barthes, 1964/1967, p. 96). Segundo a perspectiva
semiótica, a análise de conteúdo viola o princípio de imanência ao inferir, com extrema
prontidão (e linearidade), a partir do conteúdo manifesto da mensagem, os motivos psicológi­
cos ou a posição social do emissor, ou o seu impacto comportamental no receptor.
Não se pode afirmar com toda a clareza que a semiótica tenha ultrapassado completa-
mente as limitações da análise de conteúdo e que tenha desenvolvido um método rigoroso de
interpretação ideológica. Pode-se dar a conhecer sucintamente algumas das mais fortes criticas
antiestruturalistas. (Veja-se, por exemplo, Sumner, 1979, cap. 4; Belkaoui, 1979; Clarke,
1980; Woollacott, 1982, p. 94.)
Primeiro, a semiótica tende para o idealismo. Dá um valor excessivo à autonomia do
texto e à auto-suficiência da análise textual. Além disso, tende a negar a materialidade e a
efectividade do concreto, reduzindo-o a meros elementos da estrutura subjacente.
Segundo, é anhistórica. Não consegue explicar o aparecimento e a transformação dos
sistemas, o que dá oportunidade ao aparecimento de noções metafísicas de logos ou telos.
Absolutas, como os processos mentais inconscientes e universais de Levi-Strauss. Além dis­
so, e um a vez que o seu próprio método (em princípio) permite apenas a «descoberta» de
relações lógicas no interior do discurso, os estruturalistas têm de importar assunções socioló­
gicas e históricas a fim de se pronunciarem acerca da ideologia. Qualquer afirmação relativa
à significação social das relações estruturais internas depende do conhecimento implícito das

117
irso nao «seja constituída por propriedades imanentes dos textos, mas por um sistema d<
õcs entre o texto e a sua produção, circulação e consumo» (Larrain, 1979, p. 140). /
ficação que os investigadores pretendem descobrir no conteúdo noticioso, sem se funda
tar numa apropriada teoria social da especificidade histórica e formas de aparecimento d
ideologia, e sem razão para partir do principio de que o público escolhe determinada
pretações dos textos noticiosos, pode ter sido produzida pelos próprios métodos e conjee
s dos investigadores (Sumner, 1979, p. 118; Anderson & Sharrock, 1979).

p arcialidade à ideologia

U m a quarta pressuposição do paradigma da parcialidade é a definição de parcialida


no o favoritismo para com um partido, candidato ou grupo de interesses em detrimento
outro. Muitos estudos têm levantado a questão de se saber se os media são imparciais
icrtura da competição entre democratas e republicanos, liberais e conservadores, defensoí
ipositores da politica da Administração. (Veja-se, por exemplo, Doll & Bradley, 19'
ron, 1971; Hofstetter, 1976; Lowry, 1971; Meadow, 1973; Pride & Richards, 1974; Pridc
amsley, 1972; Robinson, 1983; Russo, 1971/72; Stevcnson et al., 1973).
D evem os concluir da aparente ausência geral de parcialidade partidária que os me
iticiosos são ideologicam ente inertes? Não. Uma tal noção de parcialidade e imparei
ide, orientada para as eleições, é muito limitada. Por exemplo, a investigação base
:1a pressupõe um a estrutura supervisionada pelo Estado que legitime o acesso ao domí
úblico do debate político. Assim, nas palavras de FCC, as regras da imparcialidade
: destinam «a dar voz aos comunistas ou a pontos de vista comunistas» (citadc
pstein, 1974, p. 64). Pode muito bem ser, como Robinson (1978, pp. 202, 206) sug
[Ue os estudos anteriores acerca da parcialidade se centraram estritamente nas campai
leitorais, precisam ente um terreno que os radiodifusores aprenderam a pisar com cuid
i parcialidade política pode ser mais evidente na cobertura de grupos de interesses. Ah
istudos sugerem que este possa ser o caso; Efron (1979) descobriu parcialidade con
:ncrgia nuclear, enquanto a Associação Internacional de M aquinistas (1981) desce
am a preponderância de pontos de vista empresariais sobre os laborais. M as até a proj
de R obinson corre o risco de se manter dentro dos limites de um a visão implicitan
n ln r a lis ta d a s o c ie d a d e , um a visão quc tom a possível ienorar tanto a estrutura de pode
C om o j a se disse, a ideia de que a noticia funciona com o ideologia alarga tundam entalm ente, e
até con trad iz a ideia de que as m ensagens noticiosas são tendenciosas de acordo c o m as
m o tiv açõ es d o s co m u n icad o res. D e facto, H all (1982) argum entava que o próprio aparecim en­
to de u m n o v o « p arad ig m a critico» n o s estudos dos m edia d ep en d ia d a red esc o b erta d a
ideolog ia. O esp a ç o d eix ad o v ag o p ela falta do conceito de ideo lo g ia era parcialm en tc (maV)
p re e n c h id o p e la n o ç ã o d e « p ro p ag an d a» , en ten d id a com o a s m en sag en s d estin a d as a en g an ar
c /o u p e rsu a d ir. (A lg u m a s im p lic a ç õ e s deste p o n to fo ram tra ta d a s n a se c ç ã o an terio r ac e rc a dr
m e to d o lo g ia d e an á lise d a p arcialid ad e.)
A polarização e radicalismo político dos anos 60 ajudou a reacender o interesse r
ideologia através da problcmatização da pressuposição do consenso que dominara a cicnr
social ortodoxa americana. N o trabalho de Talcott Parsons, por exemplo, a sociedade 1
suposta reunir-se espontaneamente em tom o de um sistema de valores central. O atargame
e a profundidade deste consenso, a forma como ele era mantido num a sociedade estratifu
cm classes, e a favor de quem é que ele funcionava, eram questões taram ente levant;
Porém , com eçaram a aparecer fendas no monolito. N o estudo sociológico de desvio
exem plo, o «poder para definir as regras do jogo», e consequentemente o poder de de1
desvio, chegou a ser reconhecido com o problem a, levando, em últim a instância, à quest;
interesse de quem é que as regras são definidas? D o m esm o m odo, em ciência poliftea, t
«poder» era reconccptualizado, desde algo observável na tom ada de decisões até à caç
de m anter assuntos potencialm ente am eaçadores fora da arena p olítica (as «não decisc
à capacidade de influenciar os p róprios desejos e interesses p essoais daqueles que são
m ente destituídos de p o d er (H all, 1982, pp. 60-65). T ais desenvolvim entos levavair
v elm en te à teo rização da ideologia, e o seu p ap el n o s mass media enq u an to instii
p o d ia fo m e c c r id éias, in flu en ciar desejos, c ajudar a definir a realid ad e social. V iste
o e feito do « refo rço » do s m ass m edia , h á m u ito reco n h ecid o , p o d e ria ser re in te rp r
fa z e n d o p arte d e u m p ro cesso h e g e m ô n ic o o u de leg itim ação .
Muita tinta (e sangue) tem corrido sobre o problema da ideologia, e o mo
pode ser identificada. Mesmo dentro da tradição marxista, que, acima de tod
introduziu o conceito no pensamento social moderno, «a ideologia» tem sido def
variado. No resto deste artigo, apenas se poderão traçar algumas das concepçc
nentes, e algumas das suas possíveis aplicações nestes estudos dos media, a fim
modo como essas concepções transcendem ou se subordinam ao conceito de «ç
Embora se tenha desenvolvido trabalho útil acerca da ideologia especií
correspondem a uma realidade prática das relações capitalistas de produção, elas
não podem ser rejeitadas como «falsa consciência». No entanto, ao «naturalizar» as
relações sociais capitalistas, a ideologia serve, como Hall (1977, pp. 322-325, 337-
-338) afirma, para «assinalar, ocultar ou reprimir» os «fundamentos antagônicos do
sistema» - nomeadamente, «a dominação de classes, a natureza exploradora do
sistema, a fonte desta expropriação fundamental na esfera da produção, a determi-
nância neste modo de produção do econômico...»
3. A criação ou interpelação dos sujeitos humanos, a provisão de identidades subjecti­
vas, do tipo necessário às relações capitalistas de produção (Althusser, 1969/1971,
pp. 127-186).

As concepções anteriores partilham, com insistência, a ideia de que a ideologia se


enraiza nas condições sociais de existência, principalmente relações de classe. Todavia, a
segunda e a terceira concepções afastam-se do conceito de superestrutura pairando sobre uma
base econômica, c inclinam-se mais para uma visão da ideologia enquanto elemento constituti­
vo nas relações de produção - e na sua reprodução.

A ideologia como enquadramento

A investigação baseada na primeira concepção (a ideologia como «quadros do mundo»


ao serviço do poder de uma classe ou do Estado) é a que menos se afasta das investigações
tradicionais em tom o da parcialidade. As manifestações da ideologia são entendidas em
termos que não são inteiramente estranhos para os investigadores da parcialidade. Assim,
Chomski e Hcrman (1979, pp. 3-79) evidenciam a subordinação da imprensa livre ao imperia­
lismo americano no seguinte: a omissão de assuntos embaraçosos; ênfase dado a determinados
factos; o tratamento geralmente acritico e o alto grau de subordinação a fontes de informação
pró-amcricanas; a ausência de contexto dado a alegados excessos comunistas; a apresentação
favorável das acções americanas e estados clientes; o uso carregado de rótulos como «terroris­
mo» e «acção policial»; e até mentiras claras. Esses tipos de prova (mas não a teoria!) podem
ser descobertos em alguns dos estudos mais convencionais em tomo da parcialidade.
No entanto, a procura de «quadros do mundo», tendenciosos em termos de classe social,
no conteúdo dos media, é uma empresa mais ampla e mais avançada do que a procura de
favoritismo para com um partido, um candidato ou um grupo. Assim, na sua análise da
cobertura de relações industriais da televisão britânica, o Grupo Media da Universidade de
Glasgow (1976, p. 267) declara que:

A nossa análise não se limita a afirmar que o noticiário televisivo «favorece» certos
indivíduos e instituições ao conceder-lhes mais tempo e realce. Essas críticas são incipientes.
A natureza da nossa análise é mais profunda: no fim de contas, ela refere-se à imagem da
sociedade em geral e da sociedade industrial em particular, que o noticiário televisivo
constrói. O mais grave de tudo isto é... o cidpar-se os trabalhadores pelos problemas econô­
micos e industriais da sociedade.

Uma concepção semelhante está subjacente à noção de «enquadramentos» noticiosos.


Gitlin (1980, p. 7) define-os como «padrões persistentes de cognição, interpretação, apresentação,

120
seiccção, ênfase e exclusão, através dos quais aqueles que trabalham os símbolos organizam
geralmente o discurso, tanto verbal como visual». Assim, David Morley (1976, p. 246), que
estudou a cobertura dos conflitos industriais pelos media britânicos, argumenta que mais
importante do que o equilíbrio jornalístico é «o enquadramento conceptua! c ideológico básico
através do qual os acontecimentos são apresentados e em consequência do qual eles recebem
um significado dominante/primário». Morley documenta a cobertura noticiosa da greve do gás
de 1973, na qual:

Os programas foram geralmente equilibrados, no sentido de que eles tinham um porta-


-voz da administração da companhia do gás afirmando que a greve, ao fazer baixar a pressão
gasosa, estava a pôr em perigo o público, e um representante sindical afirmando que as
precauções de segurança estavam a ser observadas e que, por isso, o público não estava em
perigo. Mas a análise também deve tratar dos problemas relativos ao modo e razão da gre\’e
chegar a ser apresentada essencialmente nestes termos - neste caso, em termos dos possíveis
perigos que podería causar ao público. (Morley, 1976, p. 246).

Tomemos um exemplo americano: a cobertura televisiva do conflito em El Salvador


podería ter destacado porta-vozes da Administração Reagan a afirmar que os rebeldes estavam
a receber ajudas importantes da União Soviética e Cuba. Estes porta-vozes poderíam ter sido
postos em confronto com outros políticos a questionar a veracidade das alegações da Adminis­
tração. M as o analista também tem de questionar por que razão é que o conflito é entendido
como uma extensão potencial da influência comunista (e até por que motivo é que representa
um a potencial «ameaça» à «segurança nacional» dos EUA). São possíveis muitas outras
perspectivas - por exemplo, a de que o povo salvadorenho é de tal modo oprimido pelo regime
apoiado pelos EUA que se têm de sujeitar a receber qualquer ajuda, vinda de qualquer
quadrante. Se o conflito fosse, cm vez disso, enquadrado como um conflito entre ricos e
pobres, uma tal ajuda seria, quando muito, um assunto secundário.
Um tal enquadramento não é necessariamente um processo consciente por parte dos
jornalistas; pode muito bem ser o resultado da absorção inconsciente de pressuposições acerca
do mundo social no qual a notícia tem de ser embutida de modo a ser inteligível para o seu
público pretendido. Assim, o Grupo Media da Universidade de Glasgow (1980, p. 402)
argumenta que a notícia, e as ideologias sociais dominantes, estão integralmentc ligadas. Estas
últimas são «o elo de ligação entre os chamados 'factos' da notícia e as conjecturas anteceden­
tes que nos possibilitam, ao público, compreender esses 'factos'. Do mesmo modo, Hall (1982,
p. 72) defende que os relatos podem ser ideológicos, «não por causa da parcialidade ou
distorções manifestas dos seus conteúdos superficiais mas porque são produzidos a partir de
um a limitada matriz ideológica, ou porque são transformações assentes nessa mesma matriz»
- um conjunto de regras e conceitos destinado a dar sentido ao mundo que se encontra
sistematicamente limitado pelo seu contexto social e histórico. Este conjunto de regras c
conceitos, ou matriz, constitui uma «estrutura profunda» que é activada pelos jornalistas,
independentemente da sua percepção consciente, e sem levar em conta as suas intenções
deliberadas de iludir ou manipular.
Pode ser que as próprias formas através das quais as notícias televisivas transmitem a sua
imparcialidade e neutralidade sirvam para disfarçar (ou esconder) as pressuposições ideológicas
subjacentes. Assim, o aparecimento de «equilíbrio» entre políticos concorrentes, a apresentação
das «duas facetas da 'estória'», pode servir para desviar a atenção do espectador de questões como

121
« p r o b le m a » , c a d o m o t i v o crestes indivíduos (geralmente funcionários de instituições ourocratt-
c a s , o u p o l í t i c o s e le it o s d e a lt o rt iv c l) se outorgarem o direito de definir o problema. Por isso, pode
s e r c o n t r a p r o d u c e n t e i n s is t ir m c r a n i c n t e no facto de os jornalistas aderirem a fo r m e is de
i m p a r c ia li d a d e , p o r q u e e s s a a d e r ê n c ia pode simplesmente ajudar a tom ar a noticia ainda m ais
e f i c a z n a d i s s i m u la ç ã o d o seu enquadram ento ideológico subjacente.

A id e o lo g ia c o m o n a tu ra liza ç ã o

A. a rg u m en ta çã o p o d e se r lev ad a a in d a m ais longe: a s reg ra s da im p a rc ia lid a d e n ã o se


lim ita m a d issim u la r a s m e n s a g e n s id e o ló g ic a s n o n o ticiário te le v isiv o ; e la s sã o u m a parti
e s s e n c ia l d o fim e io n a m e n to id e o ló g ic o d a telev isã o . Isto p o d e se r o b s e rv a d o se p a s s a rm o s
teg u n d a c o n c e p ç ã o a p re sen ta d a a n te rio rm e n te , a « n a tu ra liz a ç ã o » d a s r e la ç õ e s so c ia is . N esi
aso, a s r e la ç õ e s d o p o d e r p o lític o e x e r c ia m - s e a tra v é s d o E s ta d o p a rla m e n ta r. H a ll, C o n n e ll
[ l it i ( 1 9 7 6 ) c e n tr a m a s s u a s a te n ç õ e s n a r e la ç ã o e n tre a ra d io d ifu s ã o e o E s ta d o , c o m o
m i f e s to n o fo r m a to d o s a s s u n to s d e a c tu a lid a d e n a p r o g ra m a ç ã o te le v is iv a b r itâ n ic a . A rt
n ta m , e s s e n c ia lm e n te , q u e a r a d io d if u s ã o a p o ia o s is te m a p o lític o c o m o u m t o d o , m a s e
ío n ã o to m a a fo r m a d e v io la ç ã o d a s n o r m a s d e e q u ilíb r io e im p a r c i a l i d a d e , c o m o se j
/a n t a g e m a u m p a r tid o e m d e t r i m e n to d e u m o u tr o . M e l h o r , a f u n ç ã o i d e o l ó g i c a é d u
a t a m e n t o d e « a s s u n t o s a c tu a is » , a t e l e v i s ã o a c e i t a e r e f o r ç a , em g r a n d e p a r t e , a s d e
j u e p r e v a l e c e m n o d o m í n i o p o l í t i c o . Aos p r i n c i p a i s p o r t a - v o z e s d o s p a r t i d o s e s t a b e
h e s c o n c e d i d o a c e s s o p r i v i l e g i a d o aos m e i o s de comunicação social, o n d e têm o p o t
; a m p l i a r e s s a s definições. E s t e processo faz com que os pontos de vista que fica
c o n s e n s o Cesse articulado pelos partidos estabelecidos) pareçam irracionais ou V
e é que e s s e s pontos de vista chegam a receber qualquer atenção. Os media
em u m «enquadram ento de relevância parlamentar eleitoral», no tratamento
líticos (à custa dc agendas de assuntos e receitas políticas alternativas), como
i r ó p r i o g o vern o parlam entar. O trabalho das notícias televisivas é crucial «ac
rlam cntar d o E stado para o nível universal - ao generalizá-lo para toda a fo
iderando-o natural, c o m o dado adquirido, para lá do poder modificador ou
ia c d o te m p o » (H a ll ct al., 1976, p. 91).
te trabalho ideológico realizado pela televisão c levado a cabo através d
dridc e equilíbrio, e não por lapso ocasional ou abandono dessas reç
no sentido c o n v e n c io n a l. Melhor,

'ão» do sistema de acesso em favor dos porta-vozes autorizados c


artidária não é nenhum segredo. São os radiodifusores que melhor
público, ao mesmo tempo que engendra a ilusão de que essa esfera está totalmente livre e
aberta».
N a argum entação precedente existem várias falhas. Primeiro, a «distorção do aces­
so» a favor dos porta-vozes dos partidos dominantes tem pouco interesse, a m enos que se
aceite a prem issa de que o Estado capitalista (e a sua estruturação da representação e
debate político) não é verdadeiram ente democrático ou popular. Segundo, a argum entação
passa o exercício do poder social dos media para o Estado. Assim, não se pode levar em
conta situações (por exemplo, o Chile de Allende) em que uma imprensa burguesa se agita
contra um governo de esquerda. Terceiro, os autores não discutem os mecanism os específi­
cos, através dos quais os rotineiros critérios editoriais de objectividade são reforçados, daí
que se m antenha um a orientação estruturada em favor do Estado e os partidos dominantes.
Além disso, tem de se levantar a questão: Que factores (além do poder de Estado) assegu­
ram que esses critérios de rotina conservem a sua cfectividade e a sua credibilidade entre
os radiodifusores e as suas audiências?
Não obstante esses embargos, a argumentação que se resumiu acima aponta para o papel
ideológico da «imparcialidade» dos radiodifusores. Na sua análise da cobertura televisiva do
«Contrato Social» (a política do governo trabalhista britânico de restrição salarial «voluntária»
durante os anos 70), Ian Connell (1980 a, p. 140) recorre à argumentação e desenvolve-a.
Uma pré-condição da eficácia da televisão no estabelecimento das perspectivas políticas domi­
nantes corno «senso comum», «opinião pública moderada» ou «consenso», é a separação c
fragmentação da cobertura televisiva em relação aos acontecimentos. Por outras palavras,
parte do trabalho ideológico da televisão consiste precisamente em apresentar-se como não
ideológico, e em alinhar-se com um público, aparentemente, superclassista e não ideológico, e
com o interesse nacional. E como se a televisão determinasse que «nós» (a nação, o público, os
consumidores, os jornalistas televisivos) somos não ideológicos; «nós» representa o bom c
íntegro senso comum. O problema é com o «eles» (aquele grupo irresponsável de trabalhado­
res em greve, aquele trabalhador particularmente desleal ou ineficiente) que são motivados
ideologicamente, ou que deixam que os seus interesses estritos se sobreponham ao bem-estar
público. Não quer dizer que a televisão consiga o seu efeito ideológico através de um favoreci-
mento monolítico, por exemplo, sobrepondo os pontos de vista empresariais aos sindicais.
A separação ideológica que a televisão faz entre as suas reportagens dos aconteci­
m entos, e esses próprios acontecimentos, tem paralelo no modo com o o noticiário televisi­
vo procura posicionar ou situar o público telespectador: os telespectadores são considera­
dos testem unhas passivas para quem o pessoal dos media fala, em contraste com os
protagonistas que fazem discursos ou dão início a acontecimentos noticiosos. Esta opera­
ção ideológica, este posicionam ento, é eficaz por duas razões. Primeiro, está subtilm ente
encaixada nos códigos de apresentação visual do noticiário televisivo. Por exem plo, com
raras excepçõcs, só aos jornalistas é que é concedido o privilégio de se dirigir de frente
para a câm ara; os entrevistados e os oradores são filmados de um outro ângulo. Segundo, a
televisão estabelece um a separação de um a ideologia política já estabelecida - a noção de
que a «nação com o um todo» pode ser partilhada pelos chamados «passivos» (os consum i­
dores, os contribuintes, o público, a maioria silenciosa, etc.) e os chamados «activos» (os
políticos, os sindicatos, os militantes, etc.). A descrição verbal de actores no noticiário
televisivo divide ainda este últim o grupo num a hierarquia de activistas, diferenciados
segundo a legitim idade e/ou representatividade. Gibson (1980, pp. 100-101) salientou a

trt
mesm a ideia: a televisão divide os entrevistados em «adultos» discursivos que têm perm is­
são de apresentar os seus casos pormenorizadaniente, e aqueles que são reduzidos à
posição de «crianças» que gritam slogans.

A ideologia como interpelação

O papel de aparente imparcialidade e neutralidade da televisão é ainda mais central em


algumas teorias de televisão que se servem da terceira concepção de ideologia - a interpelação
de sujeitos. A título de ilustração, debruçar-me-ei aqui sobre algumas análises de realismo e a
sua relação com o posicionamento do público televisivo.
Como parte integrante do processo de tom ar possível o conhecimento, o discurso serve
para determinar o posicionamento dos seres humanos, dos assuntos, de determinadas manei­
ras. O discurso do noticiário televisivo (ou discursos, pois como Barthcs (1964/67) sugere, a
televisão pode ser um complexo sistema que combina os níveis oral, visual e outros) aponta
para a(s) posição/posições particular(es) do indivíduo. O espectador é convidado a aceitar uma
determinada posição de modo a interpretar ou descodificar a mensagem. Como Coward e Ellis
(1977, p. 50) argumentam, cm relação ao romance, «todo o processo é dirigido para o leitor:
de modo a que para ser inteligível, o leitor tem de adoptar uma determinada posição em
relação ao texto».
Agora, o noticiário televisivo é preeminentemente um discurso realista. A narrativa
realista é o modo dominante de utilização da linguagem na sociedade burguesa. E um modo
no qual

a linguagem é tratada como uma representação, um reflexo, do mundo real. A questão


da escrita realista é, segundo a sua fdosofia, ser o equivalente de uma realidade, ser a sua
imitação... (Coward & Ellis, 1977, p. 47).

O realismo procura assim estabelecer uma identidade (ou, pelo menos, uma equivalên­
cia) entre os significantes (grosso modo, as palavras ou outros símbolos), significados (concei­
tos), e outros referentes cxtralinguísticos do «mundo real». Mas uma tal identidade é uma
ilusão, quanto mais não seja porque, numa língua, um significante não aponta univocamente
para um único significado que, por seu lado, esboça um único referente. Como Hartley (1982,
p. 22) afirma, «os signos não têm um ‘significado’ interno fixo, mas potenciais significados,
que se actualizam com o uso». Além disso, as diferentes línguas podem gerar grupos diversos
de significados, que «entrecortam» a realidade de várias maneiras. O exemplo mais conhecido
é o dos múltiplos conceitos que os Inuit têm em lugar do único conceito de neve da nossa
comunidade linguística. Os conceitos, ou os significados, são um produto da linguagem, não
são «entidades naturais, dadas à partida, que correspondem a partes distintas do mundo
exterior» (Hartley, p. 16).
No entanto, o realismo procura ocultar a produtividade da linguagem. Do mesmo modo
que o mercado capitalista, o realismo salienta o produto e reprime a sua produção. Não
importa que «o realismo seja produzido por uma certa utilização da linguagem, por uma
complexa produção; a única coisa que importa é a ilusão, a ‘estória’, o conteúdo»'(Coward &
Ellis, 1977, pp. 46-47). A narrativa realista não parece ser a voz de um autor; ou melhor, «a
sua fonte parece ser uma realidade autêntica que fala» (p. 49).

124
Num artigo na Screen, Coiin MacCabe (citado in Woollacott, 1982, p. 106) identificava
o «texto clássico realista» como aquele em que existe uma «hierarquia entre os discursos que
compõem o texto e esta hierarquia c definida em termos de uma noção empírica da verdade».
No romance realista, um discurso, o do narrador, é apresentado como a voz da verdade; os
outros discursos (por exemplo, os de personagens particulares) estão-lhe subordinados, à
margem, e são interpretados como perspectivas parciais. Na opinião de MacCabe, os traços
essenciais do «texto clássico realista» incluem:

Em primeiro lugar, a sua incapacidade de tratar o real como contraditório e, em


segundo, o posicionamento do sujeito numa relação de «especulação dominante». O discurso
dominante, num texto clássico realista, realiza o encerramento dos discursos subordinados e
o leitor é colocado numa posição «da qual tudo se torna óbvio». Isto é conseguido através do
apagamento do sistema de significação do texto, através do encobrimento da sua construção.
(Woollacott, 1982, p. 106).

O mesmo acontece com o noticiário televisivo. As vozes do pivot ou do repórter são as


da verdade. Só a ele ou a ela é outorgado o privilégio de apresentar ou concluir as notícias, de
enfrentar a câmara de frente, de dar voz à narrativa. Todos os entrevistados ou actores não
jornalísticos ocupam os degraus mais baixos na escala de acesso.
Como sugerem os dados de diversos inquéritos ao apresentarem a televisão como o meio
de informação mais credivel do público, o noticiário televisivo é uma forma particularmente
potente de realismo, porque consegue combinar a narrativa com um nível visual de discurso.
A narrativa verbal procura constantemente «restringir» o significado, unificar os fios soltos da
interpretação, apresentar uma visão da nossa sociedade na qual existam formas institucionali­
zadas de conflito, mas sem contradições fundamentais. O discurso visual procura transmitir
uma sensação de imediatismo, uma sensação de que «você está ali» a ver os acontecimentos
narrados a desenrolarem-se perante os seus próprios olhos. O filme funciona como o garante
da validade da narrativa. Consequentemente, as marcas da mediação editorial na apresentação
do noticiário televisivo devem ser as mais discretas possível. Um texto amplamente utilizado
na produção do noticiário televisivo, por exemplo, aconselha os aprendizes de jornalistas a
evitar técnicas editoriais que levem «o espectador a aperceber-se do processo editorial», o que
faz «desviar a sua atenção do conteúdo» (Grccn, 1969, p. 131) - como se os códigos de
construção editorial não fizessem também parte do «conteúdo». A famosa expressão de W aller
Cronkitc no fim de cada emissão, «And that's lhe way it is!», exemplifica a pretensão do
noticiário televisivo de reproduzir o real.
Embora exista alguma controvérsia sobre se o realismo em geral é necessariamente
burguês (Woollacott, 1982, p. 107), o realismo televisivo pode ser entendido como suporte de
relações sociais capitalistas, de um modo geral. Em parte, ajuda a disfarçar o enquadramento
ideológico dos acontecimentos. Além disso, o reflexo (ilusório) do mundo real nos sistemas de
signos verbais e visuais da televisão pode ser uma pré-condição para a capacidade da televisão
naturalizar as relações sociais dominantes. Mas para além disso, o realismo televisivo é
importante nos modos como procura posicionar os membros do público. Nós vimos que,
segundo Connell, o ouvinte/espectador é posicionado como um observador passivo, um mero
consumidor da notícia, um membro do público que é «ludibriado» por políticos activos e
manipuladores, dirigentes sindicais, militantes, etc. O «ângulo do consumidor» da reportagem

125
•lido, mas as nossas situações particulares ou os propnos egos. t este melhoramei
ge empenho espiritual ou luta política, requer simplesmente a compra de mercadori
Uma substituição de valores ocorre. A noticia que se refere àquilo que dex eria
sas verdadeiras condições de existência transforma-se em algo quase imagináric
\te mediatizado e pontoado pela oclusão. A mensagem comercial, que è, na verdad,
sagem imaginária, passa a ser vista como o real, como uma parte integrante das i
s, a parte que nós conseguimos controlar e mudar. (Maaret Koskinen, citado in Ni
l,p p . 175-176).

Enquanto os anúncios evocam a insatisfação a fim de nos incitar ao consumo indiv


o, os acontecimentos noticiosos «são aquilo e nada mais». Ao afastar a nossa atençã
bilidades da acção política, e direccioná-la para o consumo privado, as notícias
rios são opostos complementares: ambos colocam os observadores na posição de cc
es despolitizados.
Skirrow (1979, p. 35) leva a análise do posicionamento numa direcção algo diferi
im plem entar. Ela argumenta que ao pretender dar a sensação de apresentar os facto:
imparcial, ao espectador para que este os julgue, o noticiário televisivo dá ao cspcct;
sensação de estar acima e fora das acções exibidas, e de ter uma relação divina c
Uma tal posição é compatível com a necessidade capitalista de sujeitos que se sin;
mos, livres, determinados c que, consequentemente, se submeterão voluntariamenl
s de exploração que pareçam relações de troca entre indivíduos iguais e livres,
ctualmente, análises deste gênero tem de ser consideradas experimentais, espcculatr
mtórias. Mas elas sugerem claramente a possibilidade de as formas de imparcialidad
idade do noticiário televisivo constituírem uma parte essencial do trabalho ideológi
rir, n« critérios Drimários contra os quais nós devemos identificar
profissional dos jornalistas e enquanto as próprias organizações mediáticas acharem ser dos
seus próprios interesses políticos e econômicos perseguir a «devida imparcialidade» (ao pon­
to de conduzirem a sua própria análise de conteúdo interna para controlar o equilíbrio noti­
cioso) (L ovcr, 1970), a investigação em tomo da parcialidade prosseguirá. No entanto, os
seus suportes teóricos parecem ser frágeis. Já não nos podemos limitar a pressupor a possi­
bilidade de comunicação imparcial, dc noticias objectivas e independentes acerca de um
alegado mundo político e social exterior. A objectividade nos media já não pode ser entendi­
da como o oposto de ideologia, se bem que as formas c a retórica da objectividade ajudem a
reproduzir os enquadramentos políticos dominantes, ou a posicionar o público como obser­
vador e consumidor passivo. Não podemos mais confiar em métodos inadequados e especu­
lativos para interpretar a ideologia presente no conteúdo noticioso.
Temos então de reinventar a roda para analisarmos os media noticiosos como uma
instituição política e ideológica? Devamos pôr de parte os próprios conceitos de parcialidade c
objectividade? Aceitar estes conceitos irreflectidamente, como os critérios de avaliação da
cobertura noticiosa, seria, de facto, controlar os media a favor do Estado c dos partidos
políticos dominantes. Certamente que este não é um papel satisfatório para os alunos críticos
de comunicação de massas!
Por outro lado, a parcialidade e a objectividade estão de tal modo embutidas no debate
público e político, que ignorá-las provocaria o isolamento. Tão-pouco estão estes conceitos
inteiramente desprovidos de valor normativo e empirico. Presumivelmente, prefeririamos a
objectividade ortodoxa ao deliberado propagandismo do jornalismo do século xix. E onde os
preconceitos partidários ou os próprios interesses dos produtores noticiosos influenciam o
conteúdo, nós desejaríamos tomar conhecimento disso. Mais importante ainda, o conceito de
parcialidade, se bem que de forma inadequada, tem trazido ao debate público a questão da
eficácia ideológica do jornalismo dentro de uma sociedade estratificada em classes.
Em vez de rejeitar o conceito dc imediato, proponho que a investigação prossiga, frutuo-
samente, em dois sentidos. Primeiro, fazer da parcialidade e objectividade, enquanto dispositi­
vos retóricos e normas práticas, o objecto da investigação, em detrimento dos padrões com que
avaliamos outros objectos (por exemplo, o conteúdo noticioso). As seguintes linhas de investi­
gação parecem promissoras:

1. Como Bruck (1981, p. 17) propõe, poderiamos «investigar a politica da retórica da


parcialidade, ver quem levanta o problema desta última, quando c porquê, e verifi­
car os discursos e interesses que a veiculam» - e, poder-se-ia acrescentar, o impacto
na produção jornalística. Têm sido apresentadas algumas posições interessantes.
Gitlin (1980, pp. 269-282) debate o problema do papel interventor dos executivos
dos media e dos políticos sob as condições de uma crise politica, quando as rotinas
normais do jornalismo possibilitam o acesso da oposição à ideologia hegemônica.
Dreier (1982) leva a cabo um estudo semelhante da «mobilização ideológica entre
os homens dc negócios» para limitar a parcialidade pcrccptivel anticomcrcial nos
media dos EUA durante os anos 70.
2. A fim dc a desmistificar e a desnaturalizar, poderiamos seguir o exemplo de
Schudson (1978), e analisar as raízes históricas, filosóficas e político-econômicas
da objectividade jornalística. Poderiamos também examinar as consequências prá­
ticas e sociais da objectividade. O que entendem os jornalistas por isto? Como é que

127
mpor uma «política»? O crescente recrutamento nas escolas de jom
am o cntrincheiramento da objectividade enquanto norma panprof
mmentação de Tuchman (1972) acerca dos «rituais estratégicos» ter
sucesso, especificar o que a objectividade significa na prática joi
como Bruck salienta (p. 18), a sua adesão à ctnometodologia faz i
indiferente à questão da maior significação social das suas descobert;
lar, quais são as consequências da objectividade para a estruturação e
da informação, dos assuntos e das imagens, levados a cabo pelo jornal

:gundo sentido em que a investigação dos media pode prosseguir impli


nceito de «parcialidade» pelo de «orientação estruturada». Ao abandor
ição imparcial, podemos evitar ser afastados dos nossos propósitos ]
le equilíbrio e imparcialidade. Em vez disso, analisámos os vários tip
lações sistemáticas que, inevitavelmente, estruturam os relatos noticioso
m, decerto, incluir o favoritismo partidário ou os preconceitos políticos,
os critérios de noticiabilidade, as características tecnológicas de cada m
ca da produção jornalística, retraimentos orçamentais, inibições legais, a i
formação das fontes, a necessidade de contar «estórias», de modo inteligi
um determinado público, a necessidade de empacotar a notícia de um ir
ívcl com o imperativo comercial de vender audiências aos anunciantes, e
:ia dos acontecimentos sociais c políticos. Todos estes factores, além de ou
onamento dos media, enquanto uma instituição ideológica,
lenho sugerido que, pelo menos, três concepções de ideologia podem ser 1
s dos media: os «enquadramentos» ou conjunto de pressuposições sociais fo
i, a «naturalização» das relações sociais e a interpelação do público. A e:
a propor relacionaria as várias orientações estruturadas ou os imperativos
istica às suas consequências, no tocante a um ou mais níveis de ideologia.
Estou certo de que existem problemas com alguma das investigações exist
iedia e da ideologia. Primeiro, na medida em que os investigadores transfon
ibertas, relativas aos enquadramentos noticiosos, numa denúncia do abandom
le, eles não têm conseguido ultrapassar suficientemente o paradigma da p
ram a natureza limitada e cleitoralmente definida das próprias pretensões d
ireialidade. Uma vez que os jornalistas nunca pretenderam ser neutrais entre a
únosos, governos eleitos c sindicatos militantes, ou partidos parlamentares c m;
cais, porquê o considerável esforço para demonstrar este tipo de «parcialidade)
Jia da Universidade de Glasgow (1980), por exemplo, reuniu um considerável
vas para demonstrar que o jornalismo da televisão britânica adoptou e ampliou a
:eoria de controlo da inflacção, que reforçou a política de contenção salarial (
jalhista. Os autores argumentaram que longe de serem objectivas e imparciais,
iroduziam as pressuposições sociais dos poderosos. Connell (1980 b) critica esta
ir vezes, o analista dos media hm ita-se a contrapor a cobertura noticiosa de um
ocial, com o o desvio, com a sua teoria sociológica favorita, que pode não ser do
tl, m esm o que dentro dos lim ites da disciplina (A nderson & Sharrock, 1979,
2). A o com parar as noticias com outros registos ou explicações, os estudiosos dos
em lem brar-se da natureza social de todas as form as de com preensão de um a
mtes de ajuizar sobre a distorção levada a cabo pelas noticias,
a tentação c a de criticar as noticias com o se de um a sociologia inadequada, ou mera
da, se tratassem . U m a pré-condição deste tipo de critica é ignorar a especificidadt
:ias com o, por exem plo, um a forma de narrativa m ais orientada para o fomccimentr
áliaridade acerca» de acontecimentos diários em vez de «conhecimento com» o
)s sociais.
inalmentc, os teóricos da parcialidade ideológica não conseguem, frequentemente, cí
ar os m ecanism os que ligam os enquadramentos mediáticos com as suas condiçõc
, de produção. O analista pode limitar-se a pressupor «correspondências estruturais enti
os do cenário social e da produção dos media (Anderson & Sharrock, 1979, p. 37]
sindroma pode incluir a tendência de transferir, prontamente, a responsabilidade pe
igação de um enquadramento noticioso particular para a «classe dominante», que
sta controlar os meios de produção culturais. Essa redutibilidade social certamente q
dá explicações m ais adequadas do que o modelo da atitude politica que lhe é análogo,
itegia de ligar orientações estruturadas com consequências ideológicas tem por fim evi
\ redutibilidade.
É evidente que a mudança da «parcialidade» para a «ideologia» nos estudos dos me
o 6 qualquer garantia contra a ingenuidade ou a trivialidade. Contudo, parece ser import
se quisermos compreender suficientemente os papéis politicos do jornalismo.
N a medida em que as orientações ideológicas podem ser inferidas apenas do estude
onteúdo noticioso, podemos, evidentemente, ultrapassar a metodologia diádica da invest
;ão da parcialidade, que compara a quantidade de espaço noticioso ou a direcção avalia
ias afirmações acerca de «cada uma das partes». Vários aspectos de conteúdo observável
relevância ideológica, como são os tipos de tópicos que são seleccionados ou excluidoí
tipos de pessoas ou instituições relativas aos vários graus de acesso; o vocabulário q
utilizado (por exemplo, o rotular fenômenos sociais); os temas explicativos e avalia
empregues, e os laços entre eles; e os elementos estilísticos não verbais.
Todavia, nem este tipo de análise de conteúdo diversificada nem a busca estrutur
dos códigos subjacentes corrigem efectivamente o calcanhar de Aquiles dos métodos de
prctaçâo existentes. Isto é, a sua natureza especulativa, a sua não integração numa teori
especifique as formas de apresentação de uma formação ideológica particular nos i
mediáticos. Surnner (1979, pp. 238-245) propôs um método «materialista histórico» \
interpretação ideológica da noticia (ou outras formas culturais). No seu método, di
analisar não só os textos mediáticos mas também a lógica interna da ideologia e o
laços com as relações sociais, as suas condições históricas e formas de apresentaçãc
determinantes internos e o contexto social dos media noticiosos. Isto é, evidentementi
preferenciais») em interacção com o seu contexto social têm contribuído bastante para a
nossa compreensão dos media enquanto força ideológica. Já focámos, neste ensaio, os estu­
dos de descodificação de um programa de informação por parte do público, a interacção
entre os media e a Nova Esquerda dos anos 60, e o aparecimento de um «pânico moral» em
relação ao mugging (*) na Grã-Bretanha (Morley, 1980; Gitlin, 1980, Hall et al., 1978).
Finalmente, o desafio que se coloca ao paradigma da parcialidade tem implicações na
política mediática radical. Connell (1980 b) argumenta que as noções convencionais de objec-
tividade c equilíbrio não podem servir de base para os pedidos que a esquerda faz dos media
integrados na corrente de opinião dominante. (Nem podem justificar a prática dos «media
alternativos».) Necessários, diz ele, são os critérios editoriais inteiramente novos. Devem
levantar-se algumas questões. É possível, sem se dar por isso, produzir mera «propaganda»?
Qual a importância das expectativas do público em relação à objcctividade enquanto forma de
constrangimento à potencial prática dos media alternativos? Quais seriam as consequências
políticas se os próprios jornalistas da corrente dominante viessem a encarar a objcctividade
como ideológica ou ilusória? Não será, por vezes, útil, do ponto de vista político, mobilizarmo-
-nos para a procura do «equilíbrio» e da «objectividade», logo quê a retórica liberal dos
direitos humanos ou da igualdade de oportunidades se volta para posições radicais? A tais
questões só o debate público e a prática lhes podem dar resposta.

(•) Nota de tradução - «Assalto pessoal».

130
2.a PARTE

A S TEORIAS
Introdução

de Nelson Traquina

Porque é que as noticias são como são? A colocação desta pergunta, que bem pode
resumir a preocupação principal dos artigos que compõem esta segunda parte, tem dois
pressupostos: 1) não é óbvio as noticias serem o que são; e 2) as noticias bem podiam ser
diferentes, aliás esta uma das criticas principais apresentada pelos países do Terceiro Mundo
no debate, ainda não muito distante, sobre a nova ordem da informação.
Ao longo de várias décadas e depois de muitos estudos, é possível verificar que as
«teorias» oferecidas para responder a esta pergunta são múltiplas; reconhecemos que a
utilização do termo «teoria» è discutível porque significa somente uma explicação interessan­
te e plausível e não um conjunto elaborado e interligado de princípios e proposições. De
notar, também, que estas teorias não se excluem mutuamente, ou seja, não são puras ou
necessariamente independentes umas das outras.
A primeira resposta à pergunta - a mais antiga porque é essa que a própria ideologia
dominante do campo jornalístico (nos países ocidentais) apresenta e defende - é que as
noticias são como são porque a realidade assim as determina. Já apresentada no artigo de
Hackett na primeira parte da presente antologia e, agora, no artigo de Nelson Trá QUINA, a
teoria do espelho estipula que as noticias apenas reflectem o mundo exterior porque os
jornalistas são observadores neutros, porque os jornalistas, ainda mais obrigados pelas
normas profissionais, limitam-se a recolher a informação e a relatar os factos, porque, enfim,
os jornalistas são simples mediadores que «reproduzem» o acontecimento na noticia. E,
certamente, as noticias são um discurso centrado no referente, onde a invenção é uma
violação das mais elementares regras jornalísticas, onde «a realidade» não pode deixar de
ser um factor determinante do conteúdo noticioso. Mas esta teoria, intimamente ligada à

133
ros estudos sobre o jornalismo e. na maioria dos casos, sem qualquer intuito de afe
integridade dos seus profissionais.
Nesses estudos, o primeiro paradigma que surgiu fo i o do gatekeeping, definido
um processo através do qual as mensagens existentes passam por uma série de árt
decisão (gMcs) até chegarem ao destinatário ou consumidor. O termo gatekeeper refer
pessoa que toma a decisão e fo i introduzido pelo psicólogo social Kurt Leivin num a
publicado em 1947, sobre as decisões domésticas relativas à aquisição de alimentos p
casa. Da MD M a XXI.XGHVITE fo i o primeiro a aplicar o conceito ao jornalismo, origii\
jssim uma das tradições mais persistentes e proliferas na pesquisa sobre as noticia
íerspectiva do gatekeeping o processo de produção da informação é concebido como
érie de escolhas onde um fu x o de noticias tem de passar por diversos «portões» (osfan
ateSyl que não são mais do que áreas de decisão em relação às quais o jornalista fgatekei
•m de decidir se vai escolher essa noticia ou não, ou seja, a noticia acaba por passar
torrão» ou a sua progressão é impedida, o que na prática significa a sua «morte» (a no
to será publicada, pelo menos, nesse órgão de informação).
Publicado em 1950, o já clássico estudo de White baseia-se numa pesquisa sob,
tividade de um jornalista de meia-idade num jornal médio norte-americano, Mr. Gates,
otou, durante uma semana, os motivos que o levaram a rejeitar as noticias que não uso,
iclusão de White é que o processo de selecção é subjectivo e arbitrário; as decisões
ialista eram altamente subjectivas e depedentes de juízos de valor baseados no «conju
experiências, atitudes e expectativas do gatekeeper. Assim, numa teoria que Schud
19) designa de «acção pessoal», as noticias são explicadas como um produto das pessi
s suas intenções. Esta explicação psicológica e a visão limitada do processo de prodih;
dística como um processo exclusivamente de selecção de noticias já existentes acaba
>or ser contestadas, inc/usivamente utilizando os próprios dados do estudo de Whi
õmbs e Shaw (1976) e Hirsch (1977) reanalisaram os dados de White e apontaram
Hiança das proporções de noticias das diversas categorias utilizadas peto setriço a
tias e as noticias seleccionadas por «Mr. Gates». Hirsch concluiu que o jornalis
tu a sua liberdade dentro de uma latitude limitada e que a grande maioria das razõ
vitadas p o r «Mr. Gates» reflectiu o peso de normas profissionais e não razões subjec,
han estudo precedente, publicado seis anos depois do estudo de Ithite, sobre i
stas com a responsabilidade de seleccionar as noticias das agências, Gieber (195t
as conclusões de White. Gieber concluiu que o factor predominante sobre o trabalh
stico era o peso da estrutura burocrática da organização e não as avaliações pessoai
alista, as quais «raramente» entraram no processo de selecção. Noutro artigo, Giebe
tscreveu que as noticias só podem ser compreendidas se houver uma compreensão da
sociais» que infuenciam a sua produção.
precisamente numa revista com o mesmo nome, Social Forces, que WARREN B reel
r o primeiro estudo que alargou a perspectiva do gatekeeper a um outro nível dt
inaugurando assim uma nova tradição de pesquisa que podemos designar de «teoria
ti va» a nunl vê o nroduto iornalistico como sendo essencialmente um produto duma
corpo de pesquisa, denominado de ncwsmaking. No seu também já clássico estudo publicado
cinco anos depois do artigo de White, Breed insere o jornalista no seu contexto mais imedia­
to, na organização para o qual trabalha, e sublinha a importância dos constrangimentos
organizacionais sobre a sua actividade profissional. Este autor considera que o jornalista
conforma-se mais com as normas da política editorial da organização do que com quaisquer
crenças pessoais que ele tivesse trazido consigo, ou com idéias éticas. Utilizando a análise
funcional de Merton, Breed identifica seis factores que promovem o conformismo com a
política editorial da organização: !) a autoridade institucional e as sanções; 2) os sentimen­
tos de obrigação e de estima para com os superiores; 3) as aspirações de mobilidade
profissional; 4) a ausência de grupos de lealdade em conflito; 5) o prazer da actividade,
nomeadamente a cooperação entre jornalistas, as tarefas interessantes e as gratificações não
financeiras; e 6) as próprias noticias como valor. Breed reconhece que pode haver muitas
variações entre organizações e, sobre este ponto, identifica a segunda variável, os sentimen­
tos de obrigação e de estima, como aquela que é determinante.
O artigo levanta a questão central da liberdade do jornalista. Nesse ponto, Breed
reconhece que um determinismo, ou melhor dito, um «dictatorialismo» organizacional seria
de difícil implementação devido à natureza do trabalho jornalístico e a um mínimo de
autonomia profissional que ela exige. Ainda mais, qualquer tentativa de obrigar o jornalista
a seguir uma dada política constituiría um tabu ético e uma clara afronta a um dos pilares
da legitimidade profissional, a independência do jornalista. A perspectiva do Soloski sobre
as normas profissionais são neste contexto particularmente interessantes.
Embora o autor não deixe de utilizar o termo «controlo social» para intitular o seu
estudo e, certamente, referir-se às punições e às reprimendas, Breed acentua a natureza
subtil, mesmo invisível, de um processo de socialização designado «por osmose». Escreve
Breed: «Em termos sociológicos, isto (a aprendizagem por osmose) significa que se sociali­
zam e 'aprendem as regras' como um neófito numa subcultura». E, nessa «subcultura», as
próprias notícias como valor actuam como elo para cimentar os laços de solidariedade entre
os membros da organização, em particular entre os executivos e os staffers, ou seja entre a
direcção e a redacção. Breed escreve: «Qualquer potencial conflito entre os dois grupos...
seria prontamente dissipado, dado que a noticia é um valor positivo.» Assim, Breed estipula
que os seis factores contribuem para a formação de um grupo de referência, os colegas e os
superiores do jornalista. Sensivelmente duas décadas depois do estudo de Breed, uma outra
tendência dentro dos estudos de ncwsmaking irá valorizar a importância da cultura profissi­
onal dos jornalistas e as suas práticas rotineiras: designamos esta tendência como a «teoria
construcionista».
O artigo de NELSOS' Traquixa pretende apresentar uma síntese global das idéias
centrais da literatura do newsmaking. Rejeitando a teoria do espelho e criticando o
«empiricismo ingênuo» dos profissionais, Traquina escreve que os jornalistas não são sim­
ples obsenadores passivos mas participantes activos no processo de construção da realidade
(um ponto que será igualmente sublinhado no artigo de GüREVtTCH e B lumler). Segundo o
autor, as noticias acontecem na conjuntura de acontecimentos e textos. Enquanto o aconteci­
mento cria a noticia (porque as noticias estão centradas no referente), a noticia também cria
o acontecimento (porque è um produto elaborado que não pode deixar de reflectir diversos
aspectos do próprio processo de produção). Assim, as noticias registam os constrangimentos
organizacionais que condicionam o processo produtivo, bem como as rotinas criadas para

135
controlar a anarquia inerente à actividade jornalística, devido à dupla natureza da matéria-
prima do trabalho jornalístico, isto é, os acontecimentos podem ocorrer a qualquer momento
e em qualquer lugar. Recordando o trabalho de Tuchman (1978), as empresas jornalísticas
tentam impor ordem no espaço e no tempo. Nesse sentido, as empresas jornalísticas tentam
planear o futuro através do seu serviço de agenda e estendem uma «rede» fnews netj para
«capturar» os acontecimentos, criando assim rotinas que são indispensáveis para realizar o
seu trabalho e cumprir as horas de fecho. Igualmente, segundo o autor, as noticias registam
as formas literárias e narrativas utilizadas pelos jornalistas para organizar o acontecimento,
um ponto que será amplamente desenvolvido na terceira parte desta antologia mas que o
artigo de Gurevitch e Blumber também aborda.
As duas teorias, a teoria organizacional e a teoria construcionista, fazem ambas parte
da literatura do newsmaking. Concordam ambas que as noticias são o resultado de processos
de interacção social e de uma série de negociações, e chegam ambas a conclusões semelhan­
tes em relação ao papel político das noticias. No entanto, distinguem-se por três motivos.
Primeiro a teoria construcionista desce no seu nível de análise, do nível interno ao nível
interior, ao sublinhar a importância da ctdtura profissional como factor determinante, factor
esse que é também transorganizacional. Segundo, a teoria construcionista dá ênfase às
práticas diárias e aos procedimentos rotineiros, que procuram fornecer um fhvco constante e
seguro de noticias. Terceiro, a teoria construcionista examina em maior detalhe as relações
entre os jornalistas e as fontes de informação, considerando estas uma componente funda­
mental do processo de produção. A conclusão geral das duas teorias é que a conexão entre
fontes e jornalistas fa z das noticias uma ferramenta importante do governo e das autoridades
estabelecidas (Schudson, 1989) e que as noticias, em geral, tendem a apoiar as interpretações
oficiosas dos acontecimentos controversos (Tuchman, 1991). O artigo de Traquina aponta
algumas razões para esta conclusão geral dos estudos do newsmaking e realça igualmente a
ligação intima entre o jornalismo e o factor tempo. Segundo Traquina, o factor tempo
influencia a cobertura jornalística dos acontecimentos e constitui em si um critério de
noticiabilidade, podendo servir como «cabide» para pendurar a noticia ou actuar como
justificação devido ao conceito de «actualidade». Mas, ainda mais importante, em virtude
das suas consequências sobre o tipo de saber que as noticias podem fornecer, a tirania do
factor tempo exige uma ênfase sobre acontecimentos e não sobre problemáticas, o que toma
difícil qualquer trabalho «reflexivo» sobre os acontecimentos (um ponto que, aliás, é também
referido no estudo de Gurevitch e Blumler, quando esses autores apontam o fracasso da BBC
em produzir um produto jornalístico mais «reflexivo» sobre a campanha eleitoral britânica
de 1979). Devido ao fa d o de as noticias serem definidas na cultura ocidental como essencial­
mente uma resposta à pergunta «o que há de novo?», as notícias são elaboradas num quadro
temporal muito limitado e são «servidas» o mais rapidamente possível. As noticias dificilmen­
te podem dar uma resposta a perguntas de «como?» e «porquê?». Esse mesmo ponto é
sublinhado por P hilip S chlesíNGER no seu artigo quando escreve que as noticias são virtual­
mente foreground («primeiro plano») com muito pouco background. Assim, o autor conclui:
«As noticias, como surgem diariamente, e como são concebidas, estão em oposição radical à
história. De facto, o sistema do ciclo diário noticioso tende para abolir a consciência
histórica, criando uma perpétua série de foreground à dista da profiindidade e do background.
O objedivo declarado do estudo etnográfico de Schlesinger é chamar a atenção para o
factor tempo como factor central na produção das noticias. O autor escreve que «estudar os

136
Schlesinger descreve a orgaruzaçao jornalística como uma «maquina do tempo». O fai
tempo é central para os jornalistas de diversas maneiras: o conceito de «actualidade
horizonte temporal do dia noticioso (o ciclo das 24 horas, a semana). o dia jornalii
marcado por uma série de d eadlines. a tipificação dos acontecimentos devido à sua reii
com o tempo fsp o t new s, ru n n in g story), a quase mística ligação à «cacha» jomalistit
importância do valor da rapidez e, por isso, o culto do «imediatismo», ou seja. o valor dl.
iproximação temporal entre a noticia e o acontecimento, cuja expressão máxima ;
•ntão, o «em directo». Certamente o facto de as noticias serem uma mercadoria cujo va
ieteriora rapidamente explica a importância do factor tempo, mas Schlesinger sublinli
i ligação entre o jornalismo e o factor tempo é mais profunda porque faz parte do p
nraizamento cultural do jornalista. É uma forma de feticliismo em que a obsessão
impo marca o jornalista duma forma especifica e única. A luta de cumprir as horas di
vencer o impre\'isto influencia as próprias concepções que os jornalistas têm <
'ofissão. criando um imaginário mitico e romantizado. Schlesinger escre\'e: «A r
npregada pelos jornalistas na descrição das suas actividades diverge da realidade o
t. De um modo geral, a situação de produção está longe de ser caótica, senão a u
perficial. A sua base racional aponta para o controlo e a previsão, enquanto aqui
!a trabalham lotcvam a contingência.» Mais ainda, o desafio de cumprir a hora t
õe a velha adrenalina a correr» e fa z parte do gozo e do perigo da profissão que
ibalho jornalístico emocionante. Em última instância, vencer o tempo é a demo
tis da ra da competência profissional do jornalista. Na análise que fa z do produto joi
BBC. Schlesinger demonstra a importância do factor tempo no noticiário telcvi
constitui um indicio de noticiabilidade e, possivelmente, do status do jornali
tbém é um fa c to r critico na própria construção do noticiário como forma cultural
D e fo n n a semelhante, também, Michael Gure\’itch e Jay G. Blumler utilizt
irdagem etnomelodológica, aliás um traço comum em muitos dos estudos do ne
m particular, dos proponentes da teoria construcionista (ver Tucliman, 1978,
0; Altheide, 1976) . Segundo Schlesinger ( 1980) , a abordagem etnometodológi
r observação teoricamente m ais informada sobre as ideologias e as verdadeir
ais que constituem a produção cultural, bem como sobre os m om entos de crise
Í8,r qualquer visão m ecânica do processo de produção. A crescenta ainda qtti
gráficos estão necessariam ente interessados na cultura jornalística, fa c to alii
? no artigo deste m esm o autor incluído nesta antologia. Com o Schlesitií
tvitch e B lu m ler estudaram a BBC, nom eadam ente a cobertura fe ita pela BB<
legislativa d e 1979. E, com o está explicitado no próprio título do artigc
nem claram ente a perspectiva do produto jornalístico com o um a construçã
A natureza bifacetada do trabalho jornalístico sobressai neste artigo a
1permanente: é a tensão constante entre o caos e a ordem, a incerteza
vidade e o constrangimento, a liberdade e o controlo. Mas Gurevitch e Blu
pie um padrão emerge e esse padrão reflecte a necessidade de fornecí
Os autores identificam tres factores determinantes do produto jornalístico so
campanha eleitoral. Primeiro, a logística da cobertura estabeleceu uma predominânc
«centro» — a sala de redacção da BBC que os próprios jornalistas designaram co
«oficina» - sobre a «periferia», onde os •<actores políticos» actuavam. A predominânc
«centro» tinha várias consequências sobre o produto jornalístico: a) a cobertura era cond
a partir do «centro», numa inversão da «verdadeira» ordem, diminuindo assim o pap
repórter: b) factores técnicos, o factor tempo, os critérios de noticiabilidade e as pró
rotinas resultaram numa grande concentração do trabalho jornalístico em algumas, po
fontes de informação, que utilizavam várias estratégias de promoção nos seus esforçi
«gerir» as noticias; c) o «centro» emana as instruções durante todo o process
produção,orientando a própria cobertura em função dos requisitos do produto a consti
as normas estabelecidas exteniamente. A conclusão dos autores é peremptória: «Em sui
'vidente que a cobertura eleitoral realizada pelo noticiário televisivo tornou-se numa o;
•ão extremamente rotinizada.»
Segundo, todo o processo de produção é marcado pelo objectivo de produzii
oacote» unido, uma construção coerente. Assim, o «centro» procurava a elaboração d
oticiário que encotporasse urn tema geral e uma das principais preocupações da equipe
busca de uma Unha de narração unificadora. A luz das leituras da primeira parte c
to/ogia, é curioso notar a resposta de um jornalista à questão de saber como isso era j
'■onfiamos bastante nos nossos instintos.» Mesmo sem tema, outra preocupação na con.
o do produto jornalístico era a de fornecer elos de ligação adequados para dar a intf
> de unidade. E aqui, um jornalista inquirido falou da «forma especial de lógica >
ialista. Também a necessidade de responder às normas externas, nomeadamente de eq
> partidário, demonstra, de novo, a qualidade construída do noticiário porque, c
■evem Gurevitch e Blumler. contribuiu inevitavelmente para moldar a form a do notici
que os jornalistas confrontavam-se constantemente com o problema de comojustapo
rsos ingredientes partidários num pacote profissional).
Terceiro, as normas externas para assegurar um equilíbrio entre os partidos polit
Aiciário criavam uma tensão constante com os critérios jornalísticos de noticiabilidi
vecisavam de ser «corrigidos» com a utilização de um sistema cronométrico p
qir a equidade matemática numa proporção bem especifica. Os autores explicam
vnas que essa norma externa criou aos jornalistas, embora o estudo indique qu
o alinhamento do noticiário ainda era regido por critérios jornalísticos e não buroí
ou seja, o fa c to de ser noticia de abertura era uma conquista obtida pelos promote
trios, em fu n çã o de critérios jornalísticos, e não um direito garantido p o r critei
strativos.
"urevitch e Blum ler comentam que a elaboração do pacote tem as suas consequencí
t as noticias que não encaixam no produto construido e cristaliza a campanha
em delimitados. Assim, os jornalistas ajudam a «orquestrar» a campanha e a pron
rnunicação interpartidária, porque os políticos são levados a comentar as aftrmaçi
os dirigentes recotrendo aos jornalistas. Mas, consideram os autores, os jornalts
nrniinr nv Inum s de tais nroezas porque a sua ideologia os relega para i
Na teoria conspiratòría, ou, melhor dito, nas teorias conspiratôrias, o papel dos jorna­
listas varia de inteireniente determinante (e, por isso, o bode expiatório dos males do produto
jornalístico) a simples executante à ordem de outros (a versão presente nesta antologia). Em
relação à primeira vertente, já o artigo de Hackett se referiu às teorias conspiratôrias de
esquerda e de direita (Kristol, 1975; Efron, 1971; Licltter e Rothman, 19SI), que argumentam
que os jornalistas constituem uma nova classe com claras parcialidades políticas que
«distorcem» as notícias. Dentro desta perspectiva, alguns autores, nomeadamente Gans (1979),
defendem a posição de que o jornalista atrai uma certa espécie de pessoas, originárias da
mesma classe social, para os seus corpos redactoriais.
A teoria conspiratòría defendida no artigo de Edward s. HERMAS coloca-se não ao
nível interior (os valores e preconceitos dos jornalistas), não ao nível interno (a organização),
mas ao nível externo, explicando o conteúdo das noticias cm função do econômico e do
político (os interesses do governo), Herman analisa dois conjuntos de acontecimentos de
política internacional, nomeadamente as invasões do Camboja e de Timor, e as eleições de El
Salvador e da Nicarágua. A sua tese é que acontecimentos similares tiveram uma cobertura
diversa na imprensa norte-americana, mas essa diversidade é bem limitada porque esconde a
natureza propagandistica das noticias no seu papel ideológico em defesa dos interesses do
capitalismo norte-americano. No seu modelo «propagandístico» de inspiração marxista, con­
sidera que o conteúdo noticioso é determinado por certas propriedades estruturais dos media,
em particular a sua ligação ao negócio e ao governo; as noticias servem os interesses do
poder estabelecido. E servem esses interesses devido ao facto de que as noticias são produzi­
das por uma indústria altamente concentrada, que essas grandes empresas estão dependentes
da publicidade, que as noticias precisam das autoridades governamentais como fontes de
informação. A conclusão do autor é radical: A credibilidade dos meios de comunicação de
massas deriva das suas divergências ocasionais com as instituições estabelecidas e do seu
comportamento homogêneo que surge «naturalmente» da «estrutura industrial, de fontes
comuns, ideologia, patriotismo e do poder do governo e das fontes principais dos media para
definir a noticiabilidade e os enquadramentos do discurso. A autocensura, as forças do
mercado e as normas das práticas noticiosas podem produzir e manter uma perspectiva
particular tão eficazmente como uma censura formal do estado (redondo acrescentado)».
Assim, segundo Herman, a cobertura noticiosa pode ser encarada como uma «cainpa-
ilha de propaganda» que é activa quando os interesses assim o determinam, impondo esse
assunto na «agenda» do público (o caso do Camboja); ou, pelo contrário, os acontecimentos
podem ser tratados com «benigna negligência» (o caso de Timor). No estudo sobre o segundo
conjunto de acontecimentos (as eleições de El Salvador e da Nicarágua), Herman demonstra
como o mesmo tipo de acontecimento è enquadrado de forma diferente (e é particularmente
interessante a sua utilização do termo «pacote» que, como acabámos de ver, também fo i
utilizado por Gure\’itch e Blumler), através da escolha de tópicos que são abordados e das
fontes que são mobilizadas.
A teoria estruturalista também sublinha o papel ideológico dos media mas critica a
posição de que os m edia transmitem a ideologia da «classe dirigente» de uma form a
conspiratòría devido à estrutura de propriedade capitalista, porque reconhece a «autonomia
relativa» dos jornalistas em relação a um controlo econômico directo. No entanto, no seu
artigo. S tuarthall , Chas Curitcher, To n y J efferson, J ohn Clarke e B rian RO bertssõo
bem claros: «Neste momento, os media - embora involuntariamente, e através dos seus
y/aiica e laeoiogia pvojissional cios jornalistas», do próprio momento de «construção» qm
involve um processo de «identificação e contextualização» onde «mapas» culturais do mun
lo social são utilizados para dar sentido aos acontecimentos. Este último processo - ur,
ionto-chave de toda a escola culturalista britânica da qual Stuart Hall é um dos nome
onantes - não só pressupõe a natureza consensual da sociedade como sublinha o papel de
loticias no reforço da construção da sociedade como consensual. Os «mapas de significado
ncorporam e reflectem os valores comuns, formam a base dos conhecimentos culturais e si
■tobilizados no processo de tornar um acontecimento inteligível. Assim, para Hall et al„
apel dos media è crucial: «Os media definem para a maioria da população quais i
contecimentos significativos que ocorrem mas, também, oferecem poderosas interpretaçõ
é como compreender esses acontecimentos.» Na terminologia da escola culturalista britâi
3 (não utilizada neste artigo), recorrendo a Gramsci (1971), as noticias, como parte

rodução da indústria cultural, cotwibuem para a «hegemonia ideológica» (ver Hall 191
■itlin, 1980).
A teoria estruturalista de Hall et al. diverge das teorias construcionista e organizador
? apontar como crucial a relação estrutural entre os media e os chamados primary dcfint
tcrevem Hall et al.: «A relação estruturada entre os media e os definidores primàr
stitucionais è tal que permite aos definidores institucionais estabelecer as definições in
s ou as interpretações primárias do assunto em questão. Esta interpretação 'comanda U
campo ’ e estabelece os termos de referência dentro dos quais toda a restante cobertura
•bate toma lugar.» Os autores estudam o processo de controlo ideológico nos casos
bertura noticiosa de crimes e, em particular, de muggings (assaltos pessoais); demonst,
o só um processo dinâmico em termos dos valores-noticia utilizados mas sobretudo «>
'ação de reciprocidade» entre os media e os primary definers que fecha um circuli
ontrolo ideológico».
H all et al. têm o cuidado de admitir que este processo não está totalmente fecl
ando reconhecem que: 1) os m edia são institucionalmente distintos das «outras agêi
Estado»; 2) os m edia possuem os seus próprios motivos e lógicas que podem levar a ei
conflito com os prim ary definers; 3) as instituições que compõem a estrutura do p
iem entrar frequentemente em disputas. Mas estes factores, que qualificam como «r
», são minimizados e não põem em causa o ponto-chave desta teoria: a tendêncic
valece, apesar de todas as contradições, é a reprodução da «ideologia dominante,
te dos m ed ia Escrevem os autores: «Efectivamente, então, as primeiras definições
n a ry definers^ estabelecem os lim ites para toda a discussão subsequente atrav,
uadram ento da natureza do problem a (redondos dos autores)». É também este determi
distingue a teoria estruturalista da teoria construcionista, que encara a imposição i
profissionais do campo jornalístico. Uma tarefa importante no estudo das noticias é respon­
der à questão de saber quais são os recursos determinantes que os promotores devem possuir
na sua interacção com os jornalistas para impor os seus acontecimentos e problemáticas na
agenda (dos jornalistas e, por consequência, na agenda pública) e fazer passar os seus framcs
na luta simbólica em torno do processo de significação. O conceito de negociações tem o
mérito de corrigir o que parece ser um excessivo determinismo nalgumas abordagens deste
complexo processo. De notar, também, que certos valores-noticia (pessoas, elites, infracção
das leis) combinam para colocar na agenda pública assuntos que alguns promotores bem
preferiam silenciar. Acrescentamos ainda que poderá ser útil dar mais atenção ao grau de
autonomia dos jornalistas e à força mitológica da própria ideologia profissional. Na elabora­
ção de uma teoria das noticias, estas considerações devem ser equacionadas na investigação,
permitindo talvez reequilibrar a análise da relação entre o poder instituído e o «Quarto
Poder».

141
O gatekeeper:
uma análise de caso
na selecção de notícias (') (**)

David Manning White

Foi o falecido Kurt Lewin, verdadeiramente um dos grandes cientistas sociais do nosso
tempo que usou o termo gatekeeper aplicado a um fenômeno que tem importância considerá­
vel para os estudiosos das comunicações de massas. No seu último artigo (Lewin, 1947), antes
da sua morte prematura, o Dr. Lewin salientou que a passagem de uma noticia por determina­
dos canais de comunicação estava dependente do facto de certas áreas dentro dos canais
funcionarem como gates. Levando a analogia ainda mais longe, Lewin afirmou que certos
sectorcs dos gates são regidos ou por regras imparciais ou por um grupo «no poder» tomar a
decisão de «deixar entrar» ou de «rejeitar».
Compreender o funcionamento do gate, ainda segundo Lewin, seria equivalente a com ­
preender os factores que determinam as decisões dos gatekeepers, e sugeriu ainda que a
primeira tarefa de diagnóstico é a descoberta dos verdadeiros gatekeepers.
A finalidade deste estudo é examinar de perto o modo como um dos gatekeepers dos
complexos canais de comtmicação controla o seu gate.
W ilbur Schramm fez uma observação fundamental para este estudo quando escreveu que
«nenhum aspecto da comunicação é tão impressionante como o enorme número de escolhas e
rejeições que têm de ser feitas entre a formação do símbolo na mente do comunicador e o
aspecto de um símbolo afim na mente do receptor». (Schramm, 1944) Para dar um exemplo
disto em termos de noticia, vamos considerar uma audiência do Senado com um a proposta de

(') O autor agradece as sugestões do Dr. Wilbur Schramm durante a preparação deste artigo, bem como a
assistência do Sr. Raymond F. Stewart.
(*) Reedição de: Journalism Quarterly (Vol. 27, N.° 4, 1950). «The Gatekeeper: A Case Study in the
Sclection of News», de David Manning White. Direitos de autor: Association for Education in Journalism and Nlass
Communication. Reedição com a aprovação do editor.
lei sobrê a ajuda federal para a educação. Na audiência estarão presentes repórteres das várias
agências noticiosas, correspondentes de Washington de jornais de grande tiragem que mantêm
as redacções importantes na capital, bem como repórteres de jom ais locais. Todos estes
formam o primeiro gale no processo de comunicação. Eles têm de fazer o julgamento inicial
se a «estória» é ou não «importante». Depois, é só ler as notícias de dois jom ais cujas atitudes
editoriais difiram grandemente no que diz respeito à ajuda federal para a educação, para
perceber que os gatekeepers têm um papel importante desde o início do processo. O apareci­
mento da «estória» nos jom ais de Chicago Tribime e Sun-Times pode bem mostrar algumas
diferenças de tratamento. É evidente que o acontecimento físico presente da audiência do
Senado (que poderiamos chamar acontecimento-critêrió) é relatado por dois repórteres com
duas estruturas perccptuais diferentes e que os dois homens dão à «estória» quadros diferentes
de experiências, atitudes e expectativas.
Assim, um a noticia é transmitida de um galekeeper para outro na cadeia de comunica­
ções. Do repórter para o responsável do rewriting, do chefe de secção para os redactores
responsáveis pelos «assuntos de Estado» de várias associações de imprensa, o processo de
escolha e de rejeição não pára. E, finalmente, chegamos ao nosso último galekeeper, aquele
que é objecto do nosso estudo. É o homem que é habitualmente conhecido como o redactor
telegráfico do jornal não metropolitano. Ele tem a seu cargo a sclccção das notícias nacionais
c internacionais que aparecerão na primeira página e seu posterior desenvolvimento nas
páginas interiores, bem como a sua composição.
O nosso galekeeper anda por volta dos 40 anos de idade, que depois de, aproximada­
mente, 25 anos de experiência como jornalista (não só como repórter mas também como
revisor) é agora o editor telegráfico de um matutino com um a tiragem aproximada de 30 000
exemplares numa cidade do Midwest de 100000 habitantes altamente industrializada. Tem
como tarefa fazer a selecção diária da avalanche fornecida telegraficamente pela Associated
Press, pela United Press e pela International News Service, daquilo que 30 000 famílias irão
ler na primeira página dos seus matutinos. Ele também faz a revisão e escreve os títulos para
estes artigos. O seu trabalho é parecido com aquele que os jornalistas têm por todo o país em
centenas de jom ais não metropolitanos (:). E, em muitos aspectos, ele é o galekeeper mais
importante de todos, pois se rejeitar uma notícia, o trabalho de todos aqueles que o precede­
ram, relatando-o c transmitindo-o, fica reduzido a zero. É óbvio que a notícia podería ter
«terminado» (no que diz respeito à sua transmissão subsequente) em qualquer dos gales
anteriores. M as partindo do princípio que o mesmo passou em todos cies, é óbvio que este
redactor telegráfico defronta-se com um quadro extremamente complicado de decisões a
tomar, tendo cm conta o número limitado de noticias que pode utilizar.
O nosso objectivo neste estudo era determinar porque é que o editor telegráfico seleccio-
nava ou rejeitava os artigos fornecidos pelas três agências noticiosas (e transmitidas pelo
galekeeper acima dele, em Chicago) e, assim, obter algumas noções acerca do papel genérico
do galekeeper nas áreas das comunicações de massas.
Para este fim obtivemos a total cooperação do «Mr. Gates», o editor telegráfico acima
mencionado. Não era difícil descobrir aquilo que o «Mr. Gates» seleccionava do monte de

(3) A maioria dos ccrca dc 1780 diários deste pais encontra-se, em grande parte, nas cidades mais pequenas
e que nào recebem as linhas telegráficas principais das agências noticiosas. A sua dependência numa única linha
«estatal» que emana telegraficamente das cidades maiores coloca, assim, uma grande responsabilidade nas mãos do
redactor telegráfico.
QUADROI

Q u an tid ad e de notícias de agências noticiosas recebida e usada pelo «M r. G atekeeper»


por um período de sete dias

Cópias telegráficas recebidas Cópias telegráficas usadas

Categoria Pol. Col. (*) % do Totai Pol. Col. (*) % do Total

Crime 527 4.4 41 3.2

Desastres 405 3.4 44 3.4

Política
Estatal 565 4.7 88 6.8
Nacional 1722 14.5 205 15.8

Interesse
humano 4171 35.0 3012 3.2

Internacional
Política 1804 15.1 176 13.6
Economia 405 3.4 59 4.5
Guerra 480 4.0 72 5.6

Trabalho 650 5.5 71 5.5

Nacional
Agricultura 301 2.5 78 6.0
Economia 294 2.5 43 3.3
Educação 381 3.2 56 4.3
Ciência 205 1.7 63 4.9

Total 11 910 99.9 1297 100.1

(*) Cinco linhas dc cópia telegráfica equivalem a uma polegada de coluna.

144
" “ " “ i iv u u » iiu 3 « iiu iijtx u a titiu u y u u u t u ç .iu i;> L j u t a i U O U J ilta s C JU C S C U c p a r «

n. E s ta s q u e s tõ e s a p lic a m - s e n ã o só a e s te gatekeeper m a s , c o m a lg u m a s a lte ra ç õ e s , a to d i


gatekeepers im p lic a d o s n o p r o c e s s o d e c o m u n ic a ç ã o . A s s im , a p ó s d e te r m in a r q u a is
■cias q u e tin h a m c h e g a d o d u ra n te a s e m a n a p o r te lé g r a fo c m te r m o s d e p o le g a d a s p
j n a e c a te g o r ia s , m e d im o s a q u a n tid a d e d e n o tíc ia s v ia te lé g r a fo q u e a p a r e c e r a m n
tais d e s s e p e r ío d o .
P r e s s u p o n d o q u e c in c o lin h a s d e c ó p ia te le g r á fic a s ã o e q u iv a le n te s a u m a p o le g a d a
n a n u m j o r n a l , o « M r. G a te s » r e c e b e u , a p r o x im a d a m e n te , 12 4 0 0 p o le g a d a s d e n o tic ia s
ic ia s n o t ic io s a s d a A P , U P e I N S d u r a n te a s e m a n a . D e tu d o is to , e le u tiliz o u 12
g a d a s d e c o lu n a , o u s e ja , um décimo, n o s s e te n ú m e r o s q u e u tiliz á m o s n a m e d iç ã o
r o I m o s tr a a d is c r im in a ç ã o , p o r c a te g o r ia s , d a s n o tíc ia s q u e c h e g a r a m p o r t e lé g r a f o t
is d u r a n te a s e m a n a .
E som ente quando analisamos as razões apresentadas pelo «Mr. Gates» para a rejei
ase nove décim os das notícias (na sua procura do décimo para o qual ele tem espaço)
çamos a com preender com o a comunicação de «notícias» é extremamente subjecti'
dente de juízos de valor baseados na experiência, atitudes e expectativas do gatekee
caso particular, os 56 enunciados apresentados podem ser divididos em duas categt
>ais: (1) rejeição do incidente devido à sua pouca im portância, e (2) sclecção a part
relatos do m esm o acontecim ento. (V er quadro 2).
issim , encontram o-lo a rejeitar um a notícia com a anotação «dem asiado pró-com
itro artigo relacionado com o Plano Tow nsend está m arcado categoricam ente «N
o», e isto porque o nosso gatekeeper acha que os aspectos deste plano são muiti:
;os, o que dá poucas hipóteses de publicação. D ezoito cópias estavam m arcadas
i «propaganda». U m a interessante anotação dizia «não interessam artigos de suic
podem os verificar que m uitas das razões que o «Mr. G ates» apresenta para a rc
rias caem n a categoria de ju íz o s de valo r m uito subjectivos,
segunda categoria dá-nos um a pista im portante q u anto à d ificuldade de fazer es-
n o tícias p reterindo outras. N ad a m en o s do que 168 vezes o «M r. G ates»
«sem espaço». R esum indo, a n otícia (aos seus olh o s) tem m érito e interesse, r
r o b jecç õ es pesso ais, m as o esp aço tem u m v alo r superior. É in teressan te o b se n
QUADRO 2

Razões p a ra a rejeição de notícias de agências noticiosas apresentadas pelo


« M r. G ates» p o r um período de sete dias

Razão N.° dc vezes apresentada

Rejeição da noticia devido ao seu valor noticioso 423


Sem interesse (61); sem interesse aqui (43) 104
Mal escrita, aborrecida (51); demasiado vago (26);
arrasta-se demasiado (3) 80
Não presta (31); lamccha (18); palha (18) 67
Já há demasiado sobre o assunto (54); gasto (4);
passado - arrastado (*); muito batido;
acontece a toda a hora; dcsactualizado 62
Trivial (29); ignoraria (21); não é preciso;
espaço desperdiçado; pouco importante;
pouco quente; pouco relevante; 55
Nunca usar isto (16); nunca usar (7) 23
Propaganda (16); demasiado pró-comunista; «queixas habituais» 18
Fora de causa (11); não interessam artigos de suicidas;
demasiado sugestivo; de mau gosto 14
Selecção a partir de notícias do mesmo acontecimento 910
Scrviria se houvesse espaço (221); sem espaço (168);
bom - se houvesse espaço (154); tarde - gasto (61);
demasiado tarde - sem espaço (34); sem espaço - foi usada
outra agência noticiosa; usaria parte se houvesse espaço 640
Aprovado para um artigo posterior (61); à espera
de mais informação (48); seguir de perto (33);
ver no que isto dá (17); deixar passar um dia ou dois (11);
o resultado final será usado - não isto; à espera de
desenvolvimento ao fim do dia 172
Longe de mais (24); fora de âmbito (16) 40
Demasiado regional (36) 36
Foi usada outra agência noticiosa;
M elhor artigo (11); artigo mais curto; tardio;
lead mais interessante; dar um maior desenvolvimento 20
Foi manchete ontem 1
Falhei este 1

(•) Neste e noutros casos onde nenhum número se segue à razão, significa que a mesma só foi apresentada
uma vez.

146
ia» e feita 221 v e z e s , e u m a p a re c id a « b o m — se h o u v e s s e e s p a ç o » e fe ita 1
e re c a e m n a c a te g o ria m e c â n ic a sã o « u s a d a a rN S - m a is c u rto » o u « u sai
o » . M e s m o a té n e s ta c a te g o ria , e n c o n tra m o s ju iz o s d e v a lo r s u b je c tiv o s
i ? — m e lh o r a rtig o » o u « u s a d a a I N S — le a d m a is in te re s s a n te » ,
te m o s a lg u m c o n h e c im e n to p r e lim in a r d o m o d o c o rn o o « M r . G a te s » sel«
; n o tíc ia s p a ra a s u a p r im e ir a p á g in a e s u b s e q u e n te d e s e n v o lv im e n to
s e rá ta lv e z in te r e s s a n te e x a m in a r a s u a a c tu a ç ã o n u m d ia e s p e c ific c
n tn d a a q u a n tid a d e e o tip o d e n o tíc ia s q u e a p a r e c e r a m n a p r im e ir a p á e
e d ita d a s p e lo « G a te s » p a r a o d ia 9 d e F e v e r e iro d e 1 9 4 9 . O q u a d r o 4 n
d e s p a c h o s ( c la s s if ic a d o s e m tip o d e a r tig o ) r e c e b id o s , m a s n ã o u tiliz a '
a s e m a n a , e m p a r tic u la r , o ju l g a m e n t o d o c a r d e a l M in d z e n ty tev e
r o r p a r te d o s j o r n a i s d c to d o o te r ritó r io e a s a g ê n c ia s n o ti c i o s a s a p re
s a c o b r ir e m to d a s a s f a s e s d o c a s o . A s s im , f a z e n d o u m a c o m p a r a ç
os e d a s n o tíc ia s q u e s a ír a m , n ã o d e v e s e r d e a d m i r a r q u e t e n h a m s id
te p e r t e n c i a m à c a t e g o r i a d e in te r e s s e h u m a n o . N o e n t a n t o , m e s
' M in d z e n t y , o « M r . G a t e s » u t i l i z o u r a z õ e s m u i t o s u b j e c t iv a s n a s u ;
p a rtie u la rm e n te in te re s s a n te a s u a o b s e rv a ç ã o n u m a rtig o d a A ss
to u c o m o c o m e n tá r io « P a s s a ria , fa z p r o p a g a n d a a si p ró p rio » . A
á r a ç ã o d e S a m u e l C a r d i n a l S t r i t c h , q u e d i z i a : « É m u i t o t r is t e q u e a
n ã o fo rn e ç a m a s f o n te s d e in fo rm a ç ã o n a s s u a s r e p o rta g e n s d i
c a l M in d z e n ty . D e v e ria e s c la re c e r-s e q u e fo ra m f e ita s re s tr iç õ e s
íe r ic a n o s q u e e s tiv e ra m p r e s e n te s n o ju lg a m e n to .» É ó b v io que
d a i n f e r ê n c i a f e i t a p o r C a r d i n a l S t r i t c h , d e q u e a s a g ê n c i a s n o tic i
o a q u ilo q u e p o d ia m p a r a c o n ta r a « e s tó ria » d c M in d z e n ty . O cc
p ô s n u m a n o tíc ia d a U n ite d P re s s re la c io n a d o com a deck
em espaço - p u ra p ro p a g a n d a » , ilu s tra a s u a s e n s ib ilid a d e n e
a n o tíc ia chegou à s u a a te n ç ã o p e la te rc e ira v e z n e s s a n o ite n a
io n a l N e w s S e r v ic e , r e je ito u - a n o v a m e n te , d e s ta v e z c o m o te m
u s e n tim e n to d e ir a já tiv e s s e p a s s a d o n e s s a a ltu ra , m a s c o n tin u
e.
líticas gozaram do segundo maior papel. Aqui começamos
cia, uma vez que estas tinham somente um quinto lugar no de
'idos». As notícias políticas parecem ser um dos temas favori
:smo sc subtrairmos as quase dez polegadas dadas a uma <
racilmente um segundo lugar.
:ebido um total de 33 notícias sobre crime, só apareceu un
e o tema na primeira página e páginas interiores do ior
QUADRO3

Polegadas (1) de coluna dedicadas ao teo r das categorias da edição (*)


do dia 9 de Fevereiro de 1949

Categoria 1* Pag. e desenvolvimento nas interiores

Local 3.50
Crime 5.00
Desastre 9.75
Política 41.25
Local 9.75
Estatal 19.50
Nacional 12.00
Interesse humano 43.75 (+)
Internacional 23.00
Política 11.50
Economia 11.50
Guerra -
Nacional 24.25
Trabalho 19.25
Agricultura -
Economia 5.00
Educação -
Ciência 6.00 (#)

(*) Nào está incluída a manchete.


(+) Cerca de metade eram artigos acerca do cardeal Midzensky, os quais, devido ao apelo humanitário, foram
classificados de «interesse humano».
(#) Nâo está incluída uma fotografia a três colunas.
(') Polegada = 25,4 mm
Que critérios utilizou em relação ao assunto e ao estilo de escrita? Em quase todos os casos
onde tinha escolha entre notícias de agências noticiosas concorrentes, o «Mr. Gatekeeper»
preferiu os «conservadores». Utilizo esta expressão não só em termos da sua conotação política
mas também em tennos do estilo de escrita. O sensacionalismo e a insinuação parecem ser
consistentemente evitados.
No que diz respeito à sua preferência do estilo de escrita, o «Mr. Gatekeeper» mostrou
claramente que não gosta de notícias que contenham muitos números e estatísticas. Em quase
todos os casos em que uma agência noticiosa apresentou algum com números e estatísticas c a
agência concorrente apresentou outro sem a presença destes, sendo assim mais interpretativo,
era este último que aparecia no jornal. Pode-se ver uma indicação dos seus padrões de escrita
no quadro 2, onde 26 artigos foram rejeitados como sendo «demasiado vagos», 51 como
«composição aborrecida» e 61 por serem «sem interesse».
Uma outra questão que deve ser tida em conta neste estudo (e subsequentes) é: será que a
categoria de notícia entra realmente na escolha? Isto é, será que o redactor telegráfico tenta
escolher um certo número de notícias sobre crime, interesse humano, etc.? Será que existem

.QUADRO 4

N úm ero de notícias da agência recebidas m as não utilizadas


no dia 9 de Fevereiro de 1949

Categoria Recebido antes Recebido depois N.° Total


da feitura da da feitura da
primeira página primeira página

Local 3 3
Crime 32 1 33
Desastre 15 15
Política 22
Local 1 2
Estatal 10 2
Nacional 6 1
Interesse humano 65 14 79
Internacional 46
Política 19 5
Economia 9 1
Guerra 10 2
Nacional 37
Agricultura 2
Trabalho 13 1
Economia 17 4
Educação 3 2 5
Ciência 5 2 7
Total 210 37 247

149
especifica semana em analise, vcníicou-se uma enfase dada as noticias de interesse mu
principalmente devido ao enorme impacto noticioso da «estória» sobre o cardeal Mind;
Seria extremamente importante e interessante descobrir o modo como um editor telcgi
determina que assunto ou que tipo de «estória» será «a» notícia da semana. Muitas vezes
decisão é tomada pelos superiores ou pelos gc.tekeepers dos media concorrentes. Será qu
redactor telegráfico pode recusar destacar uma notícia quando um seu congênere na cstaçi
rádio local Ibe está a dar o máximo destaque? De igual modo, será que um editor telegr;
rode minimizar uma «estória» quando vê que jornais concorrentes de áreas metropolit
izinhas vêm para a sua cidade e lhe dão destaque? indubitavelmente que estes factores
Igo a ver na determinação da opinião do editor telegráfico, em relação àquilo que ele deve
o público leitor na manhã seguinte. Isto leva à conclusão óbvia de que, teoricamente, todo
adrões de gosto do editor telegráfico devem dirigir-se a um público que tem de ser servic
car satisfeito.
Subsequente á participação do «Mr. Gatekeeper» no projecto para determinar as <■
es» de selecção e rejeição de notícias durante uma semana, foi-lhe, finalmente, pedido c
nsiderasse quatro questões que nós lhe colocámos. As respostas a estas perguntas dizem-r
lito acerca do «Mr. Gatekeeper», cspeciahncnte por terem sido dadas sob a pressão de ui
ite de trabalho.

Pergunta 1:A categoria da noticia influencia a sua escolha das noticias?

A categoria da notícia entra claramente no meu processo de escolha de «estórias». Urr


cia sobre crime incluirá uma advertência, do mesmo modo que um sobre um acidente. A
cias de interesse humano provocam compaixão e podem provocar vários tipos de compoi
:nto. A notícia de economia é informativa para alguns leitores c não diz nada a outros
faço nenhuma tentativa para manter um equilíbrio rígido nestas sclecções, mas procuro ;
dade. A categoria da notícia sugere grupos que, cm princípio, devem estar interessado:
determinado artigo, isto é, professores, trabalhadores, profissões liberais, etc. As notícias
rvico teleeráfico não conscsruem manter um recime eauilibrado e por isso também nós
interesse humano. As minhas outras preferências vão para as notícias bem compostas c
talhadas para servir as nossas necessidades (ou adequadas às nossas políticas editoriais).

Pergunta 3: Como define o público ao qual se destinam as noticias selcccionadas e qual


é o seu conceito de leitor típico?

Os nossos leitores são olhados como pessoas de inteligência média e com interesses e
capacidades diversas. Estou consciente do facto de termos leitores com inteligência acima da
média (existem quatro universidades na nossa região) e de outros com menos instrução. De
qualquer modo, vejo-os como seres humanos e com interesses comuns. Acredito que todos têm
direito a notícias que lhes agradem («estórias» que impliquem meditação e actividade) e que
os informem do que sc passa no mundo.

Pergunta 4: Possui critérios específicos em relação ao assunto ou ao estilo de escrita


que o ajudem a determinar a selecção de uma noticia em particular?

Os únicos critérios relativos ao assunto ou ao estilo de escrita de que tenho consciência


quando faço uma selecção dizem respeito à clareza, brevidade e ponto de vista. Mencionei
anteriormente que certas notícias são seleccionadas pelos seus aspectos preventivo, moral ou
ilativo, mas não me inclino a considerar estas razões como critérios de selecção. O trio de
clareza é um a medida quase constante no julgamento de uma notícia em especial quando
geralmente tenho três do mesmo gênero, AP, UP e INS. O tamanho é outro factor (ou critério)
numa selecção. Aquele demasiado comprido é, geralmente, rejeitado, a não ser que possa ser
encurtado para satisfazer os requisitos.

E um facto bem conhecido da psicologia individual que as pessoas tendem a ter como
verdade somente aqueles happenings que se adaptam às suas próprias convicções relativamen­
te ao que é provável acontecer. Começa a dar a sensação (partindo do princípio de que o «Mr.
Gatekeeper» é representativo da sua classe) que, na sua posição de gatekeeper, o editor do
jornal providencia (apesar de poder nunca estar consciente desse facto) para que a comunidade
oiça como facto somente aqueles acontecimentos que o jornalista, como o representante da sua
cultura, acredita serem verdade.
Esta é apenas uma análise de caso de um gatekeeper, mas que, tal como centenas de
gatekeepers seus colegas, desempenha um papel muito importante como gate final no comple­
xo processo da comunicação. Através do estudo das razões apresentadas para a rejeição de
noticias das agências noticiosas, podemos verificar como a comunicação das «notícias» é
subjectiva, como tem por base o conjunto de experiências, atitudes e expectativas do gatekeeper.

151
Controlo social na redacção.
Uma análise funcional (*)

Wanen Breed

Os principais dirigentes das organizações convencionais são os artificies de uma política


empresarial, mas também têm de se assegurar de que o conformismo em relação a essa
política se mantém nos níveis mais baixos. A situação do publisher (proprietário) do jornal é
um caso análogo. Como dono ou representante de propriedade, tem o direito nominal de
estabelecer a política editorial do jornal e de verificar se as actividades redactoriais estão
coordenadas, como sugerem a literatura das «relações humanas» c os estudos de grupos
informais e de profissões (Roethlisberger e Dickson, 1947; Wilson, 1942).
Idealmente, numa democracia plena, não existiría nenhum problema, quer de «controlo»
quer de «política» no jornal. Os únicos controlos seriam a natureza do acontecimento e a
habilidade do repórter para o descrever. Na prática, verificamos que o publisher estabelece a
política informativa, a qual é, geralmente, seguida pelos membros do corpo redactorial. No
entanto, a aceitação não é automática por três razões: (1) a existência de normas de ética
jornalística; (2) o facto de os subordinados (repórteres, etc.) tenderem a ter atitudes mais
«liberais» (**) (e, consequentemente, percepções) do que o publisher e poderem invocar as
normas para justificar escritos contra a política; e (3) o tabu ético impedindo o publisher de
obrigar subordinados a seguirem a sua orientação. O objectivo deste ensaio é observar como é
que esta vem a ser mantida e onde é ultrapassada.
Assim, é necessário fazermos agora várias definições. Como o pessoal, os «jornalistas»
podem ser divididos em duas categorias principais. Os «executivos» incluem o publisher e os

(•) Reedição de: Social Forces (Vol. 33, Fali, 1955). «Social Control in thc Ncwsroom: A Functional
Analysis», de Warrcn Breed. Direitos de autor. Social Forces. Reedição com a aprovação do editor.
(•*) Nota de tradução - «liberal» - Na acepção norte-americana do termo, ou seja uma postura tolerante e
aberta cm relação às questões de moral e liberdade individual, e, em relação às questões econômicas, a defesa da
intervenção do Estado para corrigir injustiças sociais.

152
seus editores. Os staffers são os repórteres, os responsáveis pelo rewriting, os revisores, etc.
Entre estes, podem aparecer os editores da secção local ou os editores telegráficos, que ocupam
um lugar intermédio. A «politica» pode ser definida como a orientação mais ou menos
consistente evidenciada por um jornal, não só no seu editorial como também nas suas crônicas
e manchetes, relativas a questões e acontecimentos seleccionados. A «parcialidade» não signi­
fica necessariamente prevaricação. Pelo contrário, envolve a omissão, a selecção diferencial,
ou a colocação preferencial, tal como «destacar» um item favorável à orientação política do
jornal, «enterrar» um item desfavorável numa página interior, etc. As «normas profissionais»
são de dois tipos: as normas técnicas envolvem as operações de recolha, escrita e preparação
das notícias; as normas éticas dizem respeito à obrigação do jornalista para com os leitores e
para com a sua profissão, e incluem idéias como a responsabilidade, a imparcialidade, a
cxactidão, o fairplay e a objectividade (').
Cada jornal tem uma politica editorial, admitida ou não (:). A orientação de um jornal
pode ser a favor dos republicanos, fria para com os trabalhadores, contrários aos Conselhos de
Administração Escolar, etc. As principais áreas de orientação envolvem a política, os negócios
e o trabalho; muitas provêm de considerações de classe. A orientação manifesta-se na «parcia­
lidade». Aquilo que determina cxactamcnte a política editorial de qualquer publisher é um
grande problema, e não será discutido aqui. No entanto, o proprietário tem naturalmentc
muito a dizer (muitas vezes na forma de veto) tanto nas decisões de políticas a seguir a longo
prazo como nas imediatas (que partido apoiar, se destacar ou enterrar uma noticia sobre
iminentes questões laborais, quanto espaço livre dar às «notícias» das actividades dos publici­
tários, etc.). Finalmente, a orientação política é disfarçada devido à existência de normas éticas
de jornalismo: a orientação política transgride estas normas muitas vezes. Nenhum executivo
está disposto a arriscar sofrer humilhações por ser acusado de dar ordens para distorcer uma
notícia.
Uma vez que a política editorial é determinada pelos executivos, é óbvio que eles não
podem recolher e escrever pessoalmente as notícias. Têm que delegar estas tarefas nos staffers,
e é nesta altura que as atitudes ou interesses dos staffers podem - e é o que acontece muitas
vezes - entrar em conflito com as dos executivos (’). De 72 staffers entrevistados, 42 mostra­
ram que tinham opiniões mais liberais do que aqueles que estavam inerentes na política do seu
publisher; 27 tinham opiniões semelhantes, e somente três eram mais conservadores.
Analogamente só 17 entre 61 staffers afirmaram ser republicanos ('). A discrepância é maior *()

(') O código fonnal mais conhecido é «The Canons of Joumalism», da Sociedade Americana de Editores de
Jornal. Veja-se Schramm, 1949, pp. 236-238.
(0 É extremamente difícil medir a extensão da objectividade ou da parcialidade. Uma tentativa recente en­
contra-se relatada in Blumberg (1954), que fez o cálculo a partir da actuaçào de 35 jornais durante a campanha
eleitoral de 1952. Ele concluiu que 18 dos jornais não exibiam «nenhumas provas de parcialidade», 11 «nenhumas
provas conclusivas de parcialidade», e só em seis é que a parcialidade era visível. As suas interpretações, todavia,
estão abertas à discussão. Uma interpretação diferente poderia concluir que embora cerca de 16 mostrassem pouca
ou nenhuma parcialidade, o mesmo não acontecia com o resto. Deve-sc salientar também que existem diferentes
áreas de politica editorial que estão dependentes das condições locais. A principal diferença ocorre no Sul, onde
gcralmcnte não existe qualquer problema «republicano» ou «sindical» cm relação aos quais o corpo rcdactorial pos­
sa estar dividido. O problema racial é a preparação da orientação política.
(’) Esta situação, assinalada numa conferência de Paul F. Lazarsfield, foi o ponto de partida para o presente
estudo.
(*) Descobertas semelhantes foram feitas acerca dos correspondentes de Washington em Rosten (1937). Me­
nos conflito ideológico foi descoberto cm dois outros estudos: (Prugger, 1941, pp. 231-44; e Svvanson, 1948). As
possíveis razões para a lacuna é que ambos os jornais estudados estavam possivelmente acima da média na questão
da objectividade; os executivos estavam incluídos juntamente com os rcdactorcs nos cálculos; c alguns rcdactorcs
que não tratavam de notícias políticas estavam indubitavelmente incluídos.

153
n o s d e 3 5 a n o s » 3 4 m o s t r a r a m te n e e r v c v a s m a \ s n o c r d w , v>i» _
a r e n t e m e n t e . D e v e f a z e r - s e n o t a r q u e f a l t a m d a d o s r e la tiv o s á v e e m ê n c ia d a s p o s lç õ s
s. A l g u m a s p o d e m d i s c o r d a r t ã o p o u c o q u e s e c o n f o r m a m c n ã o s e n t e m n e n t a
E s te e n s a io é p e rtin e n te n o ú n ic o s e n tid o e m q u e o s jo r n a lis ta s d is s id e n te s s ã o f o r ç a
r d e c i s õ e s e s p o r á d i c a s a c e r c a d a s u a r e l a ç ã o c o m a p o i i t i c a e d i t o r i a l d o j o r n a l 1 'V
r e m o s a g o r a e x a m i n a r m a i s d e p e r t o o tra b a lV io d a e q u i p a e d i t o r i a l . A p r i n c i p a l o y .
o m o é m a n t i d a a o r i e n t a ç ã o p o i i t i c a a p e s a r d e m u l t a s v e z e s t r a n s g r e d i r a s rv
s tic a s , d e , m u ita s v e z e s , o s jo rn a lis ta s d is c o r d a re m d e la , e d e o s e x e c u tiv o s n ã o pc
r a m e n t e o r d e n a r q u e e l a s e j a s e g u i d a ? O p o n t o d e r e f e r ê n c i a s e r á o d a a n á l i s e fv
n o r a d a n o p a r a d i g m a d e M e r t o n (f ) .
Os presentes dados provêm da experiência do autor deste artigo e de entrevista
ont cerca de 120 jornalistas, principalmente na zona "Mordeste dos listados 1
tra não foi aleatória c não reivindica qualquer pretensão de reptesentatividad
i lado, não foi seieccionado nem omitido nenVtum jornal propositadamente, c
jornalista algum recusou o pedido de ser entrevistado. O s jornais foram esc
ir um grupo «médio», definidos com o aqueles que têm um a tiragem diária «
000 exem plares. A m édia de duração das entrevistas excedeu, em m uilo, u
E xiste u m elem ento de «acção» inerente n o presente assunto —a neccst
íocrática de u m a «im prensa livre e responsável» inform ar os cidadãos
mento. M u ita d a critica da im pren sa p ro v ém d a incYtnação induzida p e l
m tação poiitica dada pelo publisher ('). E sta critica è frequentem ente
zrantes com o à im prensa de llc a rs t, ao C h icag o T ribune c a o s tablóiàc
is ta m b ém sc ap lica, em m en o r g rau , ã im p re n sa m a is con v en cio n t
:ca n ism o s de m an u ten ção d a o rien tação p o iitic a p o d e m sugerir a razão
m u ita s v e z e s, in fru tífera, p e lo m e n o s n o sen tid o estrito.

!omo o redactor apreende a orientação poiitica

O primeiro mecanismo que promove o conformismo é a socia'


liz respeito às normas do seu trabaibo. Quando o jornalista vc
rabalho, não lhe é dita qual è a poiitica editorial, "Nem nunca
estranho, mas as entrevistas, uma após outra, vieram-no confirmai
era: «Nunca, nos meus anos de jomai, mc disseram como ‘se ori

(’) N ão sc estã a argumentar que o «liberalismo» c a objcctividadc


exemplo, o PM) tam bém pode ser parcial, m as è claro que existem poucc
nar as suas notícias a partir de outras que vê no
.nicas c os editoriais são um guia para as normas
e os republicanos são tratados de modo difere
. As noticias acerca de brancos e de negros iam
» resolver escrever acerca de um destes grupi
[ue ele define como procedimento padrão,
a cabo pelos editores e pelos staffers m ais v<
le as coisas são constantemcntc censuradas»
itor) tem um preconceito a esse respeito.»
aente, repreender um jornalista por violação
a reprimenda é, frequentemente, indirce'
apesar disso, a aprendizagem não deixa
de uma serie de incidentes-.

ia entrar em greve, assim, mantive-me ir


Iqucr coisa acerca disso, e é claro - pe
A bem da verdade, deve dizer-se que este publisher foi um dos mais dictatoriais que
encontrámos neste estudo. O padrão de controlo através da repreensão era constantemente
utilizado. Outro staffer escreveu, por sua própria iniciativa, uma série acerca da discriminação
contra os Judeus em vários hotéis.

«Tratava-se da velha matéria acerca do ‘Acordo de Cavalheiros’, documentado local­


mente. O ‘chefe’ chamou-me... não tinha gostado da matéria... a série nunca apareceu. Você
começa a ter a ideia...»

Note-se que o «chefe» nunca «ordena»; a ordem é mais subtil. Também parece que a
maior parte das indicações acerca da orientação política, por parte dos executivos, são negati­
vas. Eles vetam com um abanar de cabeça, como que a dizer «Por favor, não abanem o barco».
A s exccpções ocorrem na cobertura das campanhas eleitorais, que serão discutidas mais tarde.
Também se deve ter em conta que a punição está subjacente se a orientação política não for
seguida.
Os staffers também são guiados através do conhecimento das características, interesses e
relações dos seus executivos. Este conhecimento pode ser obtido de vários modos. Um é a
maledicência. Um repórter disse:

«Falamos mal dos editores? Muitos de nós costumávamo-nos encontrar para beber uma
cerveja e conversar. Não deixávamos pedra sobre pedra.»

Outro ponto de contacto com os executivos é a conferência noticiosa (raramente assim


denominada nos jornais de média tiragem), onde os staffers delineam as suas descobertas e os
executivos discutem que forma dar à notícia. A conferência típica tem lugar entre duas
pessoas, o repórter e o editor da secção local, e não ultrapassa mais de meia dúzia de palavras.
(Repórter: «Um ferido num acidente de viação na parte alta da cidade.» Editor: «Está bem,
não te alongues muito.») Se está em causa a orientação política, a conferência pode implicar
vários executivos e requerer horas de consideração. Dessas reuniões, o staffer pode ascender à
compreensão através daquilo que é dito e não dito pelos executivos. E importante salientar que
a orientação política não é expressa explicitamente, nem nessas reuniões nem noutro lado
qualquer, salvo raras excepções. De facto, essas reuniões tratam gcralmentc de assuntos
jornalísticos, como sejam a fiabilidade da informação, a noticiabilidade, os possíveis «ângu­
los» e outras tácticas jornalísticas.
Existem três outros canais de informação acerca dos executivos, que são os órgãos
internos (impressos para o pessoal pelos sindicatos e os jornais de maior tiragem), a observa­
ção do executivo durante os encontros com outros dirigentes e a emissão de uma opinião. Um
staffer recorda-se da atitude do proprietário do seu jom al no seguinte incidente:

«Lembro-me de o ouvir dizer na noite das eleições (1948), quando parecia que íamos ter
uma maioria democrática em ambas as câmaras: ‘M eu Deus, quer dizer que vamos ter um
Governo trabalhista’. Pergunta: Como é que ele disse isso? Tinha um tom de alarme na voz;
não se podia deixar de perceber que ele preferiría os republicanos».

Iremos chamar a atenção para o facto de que quando se fala da forma como o staffer
apreende a orientação política, também existem indicações do «porquê» do seu seguimento.

156
Razões do conform ism o p a ra com a orientação politica

Não existe nenhum factor que crie a disposição para o conformismo, a não scr que nos
recorramos de um temio sumário tal como «estatutos institucionalizados» ou «papéis estrutu­
rais». Devem-se procurar os factores particulares em casos particulares. O «staffer» deve scr
visto à luz do seu estatuto e aspirações, da estrutura da organização da redacção e da socieda­
de. Também se deve ter em conta as operações que ele executa ao longo do seu dia de trabalho,
e as consequências que elas podem ter sobre ele. As seis razões que aparecem a seguir podem
- frequentemente, ou mesmo sempre - evitar actos de desvio do potencialmente intransigente
staffer (").

1. AUTORIDADE INSTITUCIONAL E SANÇÕES.

Geralmentc, o publislter é o dono do jornal e, do ponto de vista estritamente comercial,


tem o direito de esperar obediência da parte dos seus empregados. Tem o poder de despedir ou
impedir alguém de progredir devido a transgressões. No entanto, este poder é, hoje em dia,
grandemente diminuído por três factores. Primeiro, o jornal não é concebido como uma
empresa puramente comercial, devido à protecção da «Primeira Emenda» (da constituição
americana) e à tradição do serviço público profissional. Segundo, os despedimentos são um
fenômeno raro nos jornais. Por exemplo, um editor declarou que tinha despedido dois homens
em 12 anos; outro lembrava-se de quatro despedimentos em 15 anos naquele jornal. Terceiro,
existe divisão de cláusulas de pagamento nos contratos com o American Newspaper Guild
(CIO). As únicas causas rcalmente válidas para despedimento são a embriaguez excessiva, os
desvarios sexuais, etc. Grande parte do desemprego nos jornais deriva, aparentemente, das
eventuais pressões econômicas ocasionais em jornais de grande tiragem e da total suspensão
de publicação. De igual modo, no inquérito só foi encontrado um caso de passagem para uma
categoria inferior na carreira. No entanto, é verdadeiro o facto de os staffers ainda recearem as
punições; o mito diz que o brilhante repórter errante é retirado dos assassínios c colocado na
necrologia - «a câmara de tortura chinesa» da redacção. O medo de sanções, mais do que a
sua invocação, é uma das razões que levam ao conformismo, mas não é tão forte como podería
parecer à primeira vista.
Por seu lado, os editores podem, muito simplesmente, ignorar reportagens que poderíam
originar «desvios» e, quando isso é impossível, podem marcar a reportagem a um staffer
«seguro». No caso, não muito frequente, de uma noticia contra a orientação política chegar ao
editor da redacção, esta é alterada; razões alheias, tais como a falta de tempo e de espaço, são
apresentadas como justificação da alteração (1!). Por último, o editor pode contribuir para a

(") Duas advertências têm de ser dadas aqui. Primeiro, lembraremos que estamos a tratar não de todas as
notícias mas apenas de noticias políticas. Segundo, tratamos apenas de staffers que são potenciais não conformistas.
Alguns concordam com a orientação política; outros não tomam qualquer posição em questões políticas; outros não
escrevem noticias que envolvem a orientação política do jornal. Além disso, existem forças na sociedade americana
que fazem com que muitos indivíduos escolham o ajustamento harmonioso (conformismo) em qualquer situação,
sem fazer caso dos imperativos. Veja-se Fromm, 1941; Ricsman, 1950.
(“) Uma excelente ilustração desta táctica é fornecida num romance de uma experiente jornalista: Long (1953,
cap. 10). Este capitulo descreve a trama para condenar um negro por assassínio numa cidade sulista c a tentativa
de um repórter de contar a «estória» objectivamente.

157
durabilidade da orientação política isolando o publisher dessas questões. Pode argumentar que
este ficaria embaraçado com possíveis controvérsias cm tomo da orientação política e da
parcialidade resultante; assim, a orientação não só é encoberta como também não é discutida,
permanecendo, consequentemente, imutável (”).

2. SENTIMENTOS DE OBRIGAÇÃO E DE ESTIMA PARA COM OS SUPERiORES.

O staffer pode sentir um sentimento de obrigação para com o jornal por este o ter
contratado. Pode ainda sentir respeito, admiração e agradecimento para com certos editores
que o tenham ensinado, «defendido» ou actuado de forma paternalista. Deve-se respeito aos
jornalistas mais velhos que tenham servido de modelo aos caloiros ou que tenham, de qualquer
outro modo, prestado ajuda. Tais obrigações e sentimentos pessoais calorosos para com os
superiores têm um papel estratégico no seu «aliciamento» para o conformismo.

3. ASPIRAÇÕES DE MOBILIDADE.

Na resposta a uma pergunta sobre ambição, todos os staffers mais novos mostraram
desejos de alcançar uma posição de relevo. Todos concordavam em que lutar contra a orienta­
ção política constituía um grande obstáculo para a consecução desse objectivo. N a prática,
alguns mais teimosos salientaram que uma boa táctica para avançarem era arranjar «grandes»
«estórias» na Primeira Página; isto significa, automaticamente, não interferir na política do
jornal. Ainda mais, alguns redactores vêem o trabalho jornalístico como um «trampolim» para
um trabalho mais lucrativo: relações públicas, publicidade, free-lancing, etc. A reputação de
«aventureiros» inibiría tal subida.
Impõe-se aqui uma palavra acerca das hipóteses de ascensão. De 51 jornalistas com 35
anos ou mais, 32 eram executivos. De 50 mais jovens, seis tinham alcançado postos executivos
e outros estavam a subir, como redactores telegráficos, repórteres politicos, etc. À excepção de
cinco, todos estes jovens eram licenciados, contrastando com apenas metade dos mais velhos.

4. AUSÊNCIA DE GRUPOS DE LEALDADE EM CONFLITO.

A maior organização oficial de jornalistas é a American Newspapcr Guild. Esta organi­


zação, por muito que o deseje, não tem interferido cm assuntos internos, tais como a orienta­
ção política do jornal. Tem dado importância ao sindicalismo nas empresas e aos interesses
políticos externos à redacção. Quanto aos grupos informais, não existe nenhuma prova dispo­
nível de que um grupo de staffers tenha, alguma vez, conspirado contra a orientação política.

5. O PRAZER DA ACTIVIDADE.

a) A cooperação na sala de redacção. O staffer tem um estatuto menos formal do que


os executivos, mas não é tratado como um «trabalhador». Pelo contrário, trabalha juntamente
com os executivos; todos cooperam agradavelmente num trabalho que todos respeitam; a
busca de informação. A sala de redacção é um lugar amistoso onde todos se tratam pelo

(’*) O isolamento de um indivíduo ou grupo de um outro é um bom exemplo dos mecanismos sociais (dis­
tintos dos psicológicos) na redução das probabilidades de conflito. A maioria dos factores que induzem à conformi­
dade poderíam, do mesmo modo, ser encarados como mecanismos sociais. Veja-se Parsons c Shils, 1951, pp. 223-230.

158
primeiro nome. Os stajfers discutem as «estórias» com os editores numa base de mútua
confiança. Os principais executivos abandonam os seus próprios gabinetes, por vezes, e parti­
cipam nas discussões na sala de redacção ('*).
b) As tarefas necessárias são interessantes. Os jornalistas gostam do seu trabalho. São
poucos aqueles que fizeram queixas, quando lhes foi dada a oportunidade durante as entrevis­
tas deste estudo. As tarefas necessárias - testemunhar, entrevistar, meditar brevemente no
significado dos acontecimentos, verificar factos, escrever - não são onerosas.
c) Gratificações não financeiras. Estas são numerosas: a variedade de experiência, o
testemunho pessoal de acontecimentos significantes e interessantes, ser o primeiro a saber,
obter «informações secretas» negadas a leigos, conhecer e, por vezes, conviver com pessoas
notáveis e célebres (que se fossem prudentes deveríam tratar os jornalistas com deferência). Os
jornalistas estão próximo das grandes decisões sem terem de as tomar; tocam no poder sem
serem responsáveis pela sua prática. Das conversas com os jornalistas, e através da leitura dos
seus livros, fica-se com a impressão de que são orgulhosos pelo facto de serem jornalistas (l!).
Existe a tendência para a exclusividade dentro da classe jornalística, e insinuações de que
grupos exteriores afins, como o dos jornalistas da rádio, são entertainers e não verdadeiros
jornalistas. Por fim, há o prazer de se ser membro de uma organização viva que lida com
assuntos importantes. O jornal é uma «instituição» dentro da comunidade. As pessoas falam
acerca dele e dão-lhe uma cotação; os seus automóveis passam a grande velocidade através da
cidade; as suas colunas trazem noticias de lugares importantes e longínquos, com fotografias.
Assim, por todas estas razões, e apesar da remuneração relativamcnte baixa, o staffer sente-se,
por vezes, parte integrante de uma empresa em plena actividade. A sua moral é boa. Muitos
jornalistas poderíam concorrer a empregos melhor remunerados, na publicidade e nas relações
públicas, mas permanecem no jornal.

6. A NOTÍCIA TORNA-SE UM VALOR.

Os jornalistas definem o seu emprego como produtor de uma certa quantidade daquilo a
que se chama «notícias», cada 24 horas. As notícias são um desafio constante, e é função do
jornalista ir ao encontro desse desafio. E recompensado por levar a cabo essa tarefa, sua função
manifesta. Uma consequência desta ênfase na notícia enquanto valor central é o afastamento
do seu forte interesse na objectividade para evitar conflitos sobre a orientação política do
jom al. Em vez de mobilizar os seus esforços para estabelecer a objectividade sobre a política
editorial, como o critério para a execução, as suas energias são canalizadas para a obtenção de
mais notícias. As exigências da competição (em cidades onde existem dois ou mais jornais) e
da velocidade realçam esta ênfase. Os jornalistas realmente falam de ética, de objectividade, e

(“) Mais uma indicação dc que a relação staffer!executivo é harmoniosa veio de respostas à questão: «Por
que razão é que os jornalistas são considerados cínicos?» Os redactores geralmentc diziam que os jornalistas são
cínicos porque aproximam-se o suficiente da dura realidade, que vêem os podres da sociedade e as imperfeições
dos seus líderes c dirigentes. Apenas dois dos 40 redactores aproveitaram a ocasião para criticar os seus executivos
e o reforço da orientação política. Este desvio, ou falta de razões de queixa contra os executivos, pode ser interpre­
tado como o reforço da hipótese da solidariedade redactorial. (Sugere ainda que os jornalistas tendem a analisar a
sociedade mais em termos de personalidades do que das instituições existentes no sistema sócio-cultural).
(,s) Existe um mito considerável entre os jornalistas cm redor dos encantos da sua profissão. Por exemplo, a
«estória» «Rapariga: ‘Vocês, os jornalistas, devem ter uma vida fascinante. Conhecem pessoas extremamente inte­
ressantes’. Repórter: ‘Sim, c a maior parte delas são jornalistas’». Para uma posterior discussão veja-se Breed, 1952,
cap. 17.

159
social m as sim para arranjar noticias. P odena parecer que esta orientai;.'.o instrum ental dim i­
nui o seu potencial m oral. U m a outra consequência deste exem plo é que a h arm o n ia entre
sta ffers c executivos é cim en tad a pelos seus interesses com uns pela notícia. Q ualq u er potencial
co nflito entre o s dois g ru p o s, tais com o greves de zelo de grupos de trabalho n a indústria, serit
prontam ente dissipado, d ad o q u e a notícia é um v alor positivo. A solidariedade d entro da sal;
ic red acção é, assim , refo rçad a.
O s seis factores p ro m o v em o co nform ism o co m a p o lítica editorial do jo rn a l. S eria dific
lem o n strar m a is ex actam en te co m o é m antida essa política, te n d o e m v ista as m u ita s v ariáve
x isten tes n o sistem a. N o en tan to , o p ro cesso p o d e rá se r u m p o u c o m e lh o r e n te n d id o com
itro d u ç ã o d e m ais u m c o n c e ito — o g ru p o de refe rên cia ("). O sta ffe r, e m e s p e c ia l o n o v a
len tifica -se a si p ró p rio , a tra v é s d a ex istê n cia destes se is facto re s, c o m o s e x e c u tiv o s e c o m
a ffe rs v ete ra n o s. S e b em q u e a in d a n ã o seja u m d eles, ele p a rtilh a a s n o rm a s d e le s , e assir
ia a c tu a ç ã o v em a p a re c e r-s e c o m a d o s o u tro s. E le c o n fo rm a -s e m a is c o m a s n o rm a s
ilític a e d ito ria l d o q u e c o m q u a is q u e r c re n ç a s p e s so a is q u e e le tiv e ss e tra z id o c o n sig o ,
m id e a is é tico s. T o d o s e s te s se is fa c to re s fu n c io n a m p a ra e n c o ra ja r a f o rm a ç ã o d o grup<
ferência. Q u a n d o a fid e lid a d e é d ire c ta m e n tc d irig id a à a u to rid a d e le g itim a , e s s a au to rit
te m d e m a n te r o e q u ilíb rio d e n tro d e d e te rm in a d o s lim ite s a tra v é s d a d is tr ib u iç ã o pruc
; r e c o m p e n s a s e d a s p u n iç õ e s . O p ró p rio g r u p o d e re fe rê n c ia , q u e te m c o m o elerr
ía n » a e lite d o s e x e c u tiv o s c o s s ta ffe r s m a is v e lh o s , n ã o é c a p a z d e m u d a r a o rie n
ític a p a r a u m d a d o la d o , p o r q u e , p r im e ir o c o g r u p o e n c a r r e g a d o d e le v a r a v a n te a p<
r iria l e , s e g u n d o , p o r q u e o p u b lis h e r , a q u e le q u e d e f in e q u a l a p o litic a , é , m u i t a s '
a d o d e v id o à n a h tr e z a d e lic a d a d a q u e s tã o d a p o litic a e d ito r ia l.
O s seis factores contribuem , cada um de seu m odo, para a form ação do com porta
;rupo d e referência. Praticam ente não existem despedim entos, m as sim g randes pet
de em prego duradouro. O s subordinados tendem a ter estim a pelo s seus p atrões,
o g ru p o m odelo. A s aspirações de m obilidade (dentro dos lim ites) são u m prom oto
iços entre as várias p o siçõ es que cada u m tem dentro d o jo m a l, b e m c o m o a
ad e en tre g n ip o s rivais, com a possível co n seq u ên cia de pressõ es cru zad as. A at
la d e red acção está im p reg n ad a dos factores c o n e x o s d a c o o p eração e d o caráctei
o trabalho. F inalm ente, o aco rd o entre os jo rn a lista s de q u e a su a ta re fa c ag a rra r
as, v en d o -as co m o u m v a lo r em si, cria u m laço co m a cad eia h ie rá rq u ic a .
No que diz respeito aos seis factores, cinco deles parecem ser relativamcnte con
:m cm todos os jornais estudados. O factor variável é o segundo: a obrigação c
s staffers mantêm pelo executivo e os staffers mais velhos. Em alguns jot

’•) Esta é uma variante do processo de «transferência de objectivos», os jornalistas viram-se


io da notícia» do que para a procura de dados que esclareçam c informem os seus leitores,
lícita na necessidade da nação não por mais noticias mas por melhores noticias - mais qualid;
;eja-se Mcrton (1949), pp. 154-5.
’) Se os membros do gmpo o reconhecem ou não, o que é facto é que «se as atitudes de ui
idas por um conjunto de normas que ela afirma partilhar com outros individuos, esses indi
a ela um grupo de referência» (Newcomb, 1950, p. 225). Williams afirma que a formaçã
i pode segmentar grandes organizações; no presente caso, vcrifica-sc o contrário, a lealdade
ara os seus superiores «amigáveis» e para o cumprimento de normas técnicas, como scia
entidade obrigação-estima era maior nuns do que noutros. Onde ela era grande, o jornal
parecia ter duas características pertinentes para esta discussão. Primeira, fazia um bom traba­
lho de busca c publicação da noticia, e, segunda, tinha poucos problemas com a orientação
política. A organização era eficiente quando os staffers mostravam que se entendiam com os
outros membros e com os grupos de referência, o que acontece na maioria dos jornais. Nos
poucos jornais menores onde os executivos e os staffers mais velhos não são respeitados, a
moral é irregular, os staffers retêm o entusiasmo dos seus artigos, desempenham as suas
(unções de forma superficial. Anseiam por um emprego num jornal melhor, são apáticos e, por
vezes, hostis à política do jornal. Assim, o factor obrigação-estima parece ser a variável activa
determinante, não só do conformismo para com a orientação política mas também da moral e
do bom desempenho profissional.

Situações que perm item desvios

Até aqui podería parecer que o staffer goza de pouca «liberdade de imprensa». A fim de
mostrar que isto é simplificar demasiado e, mais importante, sugerir um tipo de teste para a
nossa hipótese acerca da força da política editorial, façamos a seguinte pergunta: «O que
acontece quando um staffer apresenta uma noticia contra essa orientação?» Sabemos que isto
raramente acontece, mas o que se passa nestes casos?
O processo de aprendizagem da orientação política cristaliza-se num processo de contro­
lo social, no qual se castigam os desvios (geralmente de um modo suave) com reprimendas,
cortando o artigo, recusando um comentário de modo amigável por parte de um executivo, etc.
Por exemplo, uma forma de punição do staffer é o editor mostrar-lhe uma folha da cópia de
uma notícia e dizer-lhe: «Joe, não faças isto quando escreveres sobre o presidente da Câmara.»
Num caso recente, um staffer, agindo na qualidade de editor telegráfico, foi despromovido,
quando negligenciou dar destaque no jornal a uma noticia sobre um político «sagrado». O que
se pode concluir é que quando um executivo vê um item que é claramente contra a política
editorial, censura-o, o que constitui uma lição para o staffer. Este raramente persiste na
violação dessa política. De facto, os casos mais conhecidos de despedimento por razões
políticas - Ted O. Thackrey e Leo Huberman - ocorreram em diários liberais de Nova Iorque,
e Thackrey era um editor, não um staffer.
De vez cm quando, aparecem casos em que um staffer encontra impressos os seus
artigos contra a política do jornal. Parece não existir nenhuma explicação consistente para isto,
a não ser dois aspectos que podem ser levados em linha de conta: o primeiro tem a ver com a
carreira do staffer, o segundo com condições empíricas particulares associadas à progressão na
carreira. Podemos distinguir três etapas através das quais o redactor progride. Primeiro, existe
a etapa de estagiário, os primeiros meses ou anos em que ele aprende as técnicas e a política
editorial. Escreve pequenas noticias, que não estão ligadas à política editorial, tais como
acidentes de pouca importância, conferências, o tempo, etc. Na segunda, a de «ligação», o
staffer continua a assimilar os valores da sala de redacção e a cimentar relações informais. Por
último, a etapa de «veterano», em que o staffer basicamente se define como um membro

161
Para especificar melhor o problema uo conformismo-desvio deve-se ter em c
ira de um jornal é uma actividade relativamente complexa. O jornalista é respo
série de praticas c juízos, que só são igualados nos campos profissionais e eir
lemasiadas simplificações sobre a rigidez da orientação política podem ser t
nos a seguinte pergunta: «Em que condições é que o staffer a pode desafiar
> Já vimos que os staffers são livres de discutir as decisões sobre as notíci;
itivos cm breves «conferências», mas, geralmente, os argumentos giram mais
tos de «noticiabilidade» do que da política editorial como tal Parecem e>
es significantes dentro da área de influência do repórter que o ajudam a iludir
ílítica.

I. As normas da política editorial nem sempre são completamente ciaras, urr


são vagas e não estruturadas. A política editorial é dissimulada por natureza
aio de acção. O jom al pode ser republicano, mas pode adoptar uma posii
stica cm relação ao candidato republicano A, que pode ser demasiado «1
uc não é amigo d o publisher. A política, se for cxplicitamcnte planeada, terá
;ões, razões, alternativas, desenvolvimentos históricos, e outro material cc
surge uma zona de crepúsculo que pemiite um raio de desvio (;5).

Os executivos podem ignorar certos factos específicos e os staffers, que têi


tndar a pé (e de telefonar), para obter notícias, podem utilizar os seus
reportagem iniciada pelo staffer. A autonomia deste é maior com o último tipo do que com os
anteriores. Com a reportagem de campanha (construir um novo hospital, expulsar indesejá­
veis, etc.), o staffer trabalha directamente sob as ordens dos executivos e tem pouca margem
de acção. Uma reportagem atribuída é entregue pelo editor e, por isso, raramente vai contra a
orientação política, apesar de o staffer ter algum poder de selecção. No entanto, é nitido que a
função do repórter muda quando chegamos ao beat story. Nenhum editor interferirá na sua
acção (polícia, câmara municipal, etc.), podendo assim o repórter ganhar a função de «editor».
É ele que, até certo ponto, pode seleccionar quais as «estórias» a continuar, quais a ignorar.
Vários casos resultaram em entrevistas de fontes regulares do beat que abafaram «estórias»
que sabiam que poderíam vir a fornecer combustível para a política editorial - política essa de
que eles não gostavam ou achavam injuriosa em relação ao código profissional. Nestes casos, a
cooperação entre supostos repórteres rivais é essencial. O quarto tipo de reportagem é simples­
mente aquela que é iniciada pelo staffer, independente da tarefa atribuída ou do beat. Todos os
correspondentes, os executivos e os staffers, afirmaram que qualquer empregado era livre de
fazer reportagens. M as também afirmaram que a oportunidade, muitas vezes, não foi aprovei­
tada. Os redactorcs já estavam sobrecarregados com o beat, com as tarefas atribuídas e com as
coberturas de rotina e, além disso, as recompensas para as reportagens iniciadas pelos repórte­
res eram magras ou não existiam, a não ser que esta viesse de encontro à política editorial do
jornal. Apesar de esta área ser muito promissora, os staffers devem procurar obter os seus
proveitos. O caso mais marcante neste estudo diz respeito a um repórter instruído e entusiasta
de um jornal do Norte dos EUA. Completamente entregue a si próprio, iniciava insistentemen­
te «estórias» sobre negros e sobre as suas relações com os brancos, «fazendo» política onde
havia apenas um vazio. Fez horas extraordinárias para documentar e polir as suas «estórias»;
o seu «chefe» disse que não concordava com a ideia, mas insistiu no direito de o repórter as
publicar.5

5. Os staffers com um estatuto de «estrela» podem, facilmente, transgredir a política


editorial. Este privilégio diferencial dc estatuto foi encontrado em vários jornais. Um exemplo
disto seria Walter Winchell durante a Administração de Roosevelt, que regularmente elogiava
o presidente enquanto a política do seu chefe, Mr. Hearst, criticava fortemente o regime. Um
staffer do New York Times referiu que duvidava que algum revisor do jornal ousasse mudar
uma palavra da cópia de M cyer Berger, o starfeature writer.
Estes cinco factores indicam que, sob certas condições, os controlos que levam ao
conformismo com a política editorial do jornal podem ser ultrapassados. Estas condições
existem não só dentro da sala de redacção e da situação noticiosa como também dentro do
próprio staffer, elas só serão exploradas se as atitudes do staffer o permitirem. Assim, existem
algumas limitações da força da política do publisher.
Antes de resumir, devem-se referir três condições adicionais do paradigma funcional de
Merton. São afirmações das consequências do padrão, de formas alternativas de comporta­
mento e uma validação da análise.

Consequências do padrão

A partir do momento em que a orientação política é mantida, o jornal continua a


publicar regularmente como foi observado, tanto da sala de redacção como do exterior, o que
não é proeza pequena se visualizarmos um país sem nenhuma imprensa. Esta é a consequência

i <i
sasrsr-
A p e l o s c r ític o s .) O m e s m o a c o n te c e c o m o l e . t o r j o c a s io n a is d e c u lp a c m r e la ç a o ,

S r ítr í^
d e d e i x a r o jo r n a l is m o . D e o u tr o ^ o d ° ; ^ c^ d°i ^ a l s e m p r e q u e p o s s ív e l ( « S e e u n a
c n o e m p r e g o m a s lim a n d o a s a r e s ta s d a p o lm c a e d ito v . . 0 c o n f lito d
dvesse a q u f o o u tr o tipo d e i-n a p a s s e o e s ^ h x o ..^ , ^ q orde„ a d o
r m a a m o r a l e a n ti- m te le c tu a l d ; se>> n o u tr o s c o n ,c Xto s , e s c r e v e n d o « a v c r d ^

zgl S S S . S S i- * * ' - - * *- pni,ica


veis alternativas e mudança

U m a análise funcional, deSt’" a^ V

itários sobre as notícias. Tendo-se prov


í ^ v - f S L s s s u 0^
q sc deve iniciar a mudam
x en ,em ente, têm -se fixado m as que, por sua vez, requer o «
a análise sugere que esta e S T alvez a m ais im p0rtante de en
;são sobre o publisher v m à a d z ^ 0S Se^ veriflcám0S a fragilidade destes codtg
eja o código profissionai. No entanto j e d ito ria l U m a m aior pressac

0 como um cliente da impren^ ojedor objectiva> noticias significan


inte mas também a um que lhe apresentass . q indivídu0 deve ser trat
problem a básico da dem ocracia q (através de p ro cesso s educativ
1 membro de uma massa, e a e q f? -> Estudos acerca dos hábitos de leil
n participante activo cm decisões ^ ^ em vcz de ^ ai
am que os leitores preferem n0 ’c> sjdo suficientemcntc motivado pela so
s Pode-se concluir que o cidadao nao_ . c a fazer a distinção e
, Sua imprensa) a exigir a mformaçao de q P do cidada0. Estas ou
io válida e informação superflmr para a raa ç ^ ^ ^ c os leit0n
tódigos profissionais, escolas de jornal , .q hgr 0 pnmet
ser mudado. Ele pode-se localizar no vértice de um T, o ponto crucial onde se tomam as
decisões. A redacção e as forças profissionais formam a base do T, as forças exteriores, as da
comunidade e as da sociedade são os braços. E o publisher que decide quais as forças que têm
de ser conciliadas.

Sugestões p a ra validação

O paradigma de Merton requer uma validação da análise. As verificações podem estar


na mão tanto dos investigadores das ciências sociais como na dos jornalistas. Neste último
caso, o jornalista deve explicitar a base da sua argumentação, especialmente no que toca aos
tipos de jornais, executivos e staffers que ele conhece. Um ponto crucial para uma descrição
detalhada seria a situação em que os staffers desafiam activamente a autoridade cm questões
de política editorial. Uma outra prova importante seria a descrição comparativa de dois jornais
com situações diferentes relativamente aos seis factores promotores do conformismo, com
referência particular à variável da obrigação e estima para com os superiores, e os factores que
permitem o desvio. Em qualquer caso, este estudo exploratório pode servir como ponto de
partida.
Pode-se sugerir um segundo tipo de validação. Focar-se-ia na utilidade do próprio
paradigma. Os estudos anteriores têm-se baseado na teoria funcional, mas antes do desenvolvi­
mento do paradigma (!1). Os estudos de sistemas sociais diversos também se prestam à análise
funcional, e um tal estudo comparativo pode ajudar não só a construir uma teoria sistemática
como a testar e sugerir modificações do paradigma. Situações caracterizadas pelo conflito e
por um a luta por objectivos mal definidos adequam-se particularmente à análise funcional.
Vários aspectos focados no presente ensaio podem ter sido analisados sem o paradigma (•’•').

Sumário

O problema, que as velhas acusações de parcialidade contra a imprensa davam a enten­


der, centrava-se cm tomo do modo como a política editorial do publisher era seguida, apesar
de três condições empíricas: 1) a política transgride, algumas vezes, as normas jornalísticas; 2)
os staffers, muitas vezes, discordam pessoalmente dela; e 3) os executivos não podem legiti­
mamente obrigar a que essa política seja seguida. Entrevistas e outros dados foram utilizados
para explicar a manutenção dessa política. É importante lembrar que o estudo se baseia
fundamentalmente no estudo dos jornais de «média» circulação, e não considera nem as
notícias desligadas da orientação política do jornal nem as decisões iniciais de política editori­
al elaboradas pelo publisher.
Fornecemos os mecanismos de aprendizagem da política editorial pelo novo staffer,
juntamente com sugestões, assim como a natureza dos controlos sociais. Descrevemos seis
factores, aparentemente as principais variáveis que originam a manutenção dessa política. A
mais significativa dessas variáveis, a obrigação e a estima pelos superiores, foi considerada
não só a mais importante como também a variável mais flutuante de jornal para jom al. A sua

(") As referências encontram-se citadas cm Merton (1949) c também nos trabalhos de T. Parsons.
0") Que o paradigma poderia servir melhor como lista de verificação, ou como guia teórico para os estagiá­
rios, é o que mostra a excelência de um artigo publicado antes do paradigma - c muito semelhante a este artigo
no que diz respeito aos problemas de manutenção da orientação politica numa organização fotmal: Shils e Janowitz (194S).

165
existência e a sua importância para o conformismo levou à sub-hipótese de que o comporta­
mento do grupo de referência desempenhava um papel no padrão. Para mostrar, todavia, que a
politica editorial não é firme, sugeriram-sc cinco condições em que os redactores podem
ultrapassá-la.
Assim, concluímos que a política do publisher, quando estabelecida numa dada área
temática, é geralmente seguida, e que a descrição da dinâmica situação sócio-culiural da
redacção sugerirá explicações para este conformismo. A fonte de recompensas do jornalista
não se localiza entre os leitores, que são manifestamente os seus clientes, mas entre os seus
colegas e superiores. Em vez de aderir a ideais sociais e profissionais, ele redefine os seus
valores até ao nível mais pragmático do grupo rcdactorial. Ele ganha, desse modo, não só
recompensas ao nível do estatuto mas também a aceitação num grupo solidário empenhado
num trabalho interessante, variado e, por vezes, importante. Assim, os padrões culturais da
sala de redacção produzem resultados insuficientes para as mais vastas necessidades democrá­
ticas. Qualquer mudança importante tendente a uma «imprensa mais livre e responsável»
devem provir de várias possíveis pressões sobre o publisher, que incorpora o papel decisório e
coordenador.

166
As notícias (*)

Nelson Traquina

O objectivo declarado de qualquer órgão de informação é o de fornecer relatos dos


acontecimentos julgados significativos e interessantes. Como escreve a socióloga norte-ameri­
cana Gaye Tuchman (1978), apesar de ser um propósito claro, esse objectivo é, como muitos
outros fenômenos aparentemente simples, inextricavelmente complexo.

O espelho

Toda a profissão é sobrecarregada de imagens mas talvez nenhuma outra seja tão
rodeada de mitos como a do jornalismo. De facto, o poder do mito tem envolvido a profissão
de tal maneira que os jornalistas parecem ser os «Davids» da sociedade matando os «Golias»
(aliás expresso no conceito do campo jornalístico como «contrapoder») e o seu produto é
apresentado como sendo uma transmissão não expurgada de um acontecimento. A noção-
-chavc desta mitologia c a noção do «comunicador desinteressado» aonde o papel do jornalista
é definido como o do observador neutro, desligado dos acontecimentos e cauteloso em não
emitir opiniões pessoais. O desenvolvimento desta concepção dominante no campo jornalístico
ocidental tem dois momentos históricos cruciais.
Primeiro, surge cm meados do século x ix com um «Novo Jornalismo» - o jornalismo
informativo - cuja ideia-chave é a separação entre «factos» e «opiniões». Em 1856, o corres­
pondente em Washington da agência noticiosa Associated Press pronunciou o que ia ser a
Bíblia desta nova tradição jornalística: «O meu trabalho è comunicar factos: as minhas
instruções não permitem qualquer tipo de comentários sobre os factos, sejam eles quais
forem » (Rcad, 1976: 108). Aliás, as agências noticiosas foram as defensoras mais ardentes
desse «Novo Jornalismo» (Siebert, 1956) c são hoje, ainda, o protótipo desse jornalismo no

(•) Reedição de: Revista de Comunicação e Linguagens (N.° 8, 19S8). «As Noticias», de Nelson Traquina.
Direitos de autor: Centro de Estudos de Comunicação c Linguagens. Reedição com a aprovação do editor.

1
(C athelat, 1979: 3 0 ). C om o e sc re v e A nthonv Sm ith (1980), e nesta cpoca en
c rein an te q u e to d o o esforço intelectual, tanto na ciência, na filosofia com
g ia e ou tras d iscip lin a s, am bicionava im itar esse novo invento — a m áqui
p a rec ia se r o e sp e lh o , há m u ito procurado, capaz de reproduzir o m undo r
O se g u n d o m o m e n to histórico tem lugar no século x x com o surgim t
o b jc c liv id a d e n o s an o s 2 0 e 3 0 n o s E stados U nidos. E m bora a ideologia d;
a g o ra v ista co m o u m refo rço da fé nos factos, M ichael S ch u d so n expl
o b je c tiv id a d e n ão fo i a ex p ressão final de u m a co n v icção n o s factos m as
m é to d o c o n c e b id o e m fu n ção d e u m m u n d o no qual m esm o os factos n ão et
confiança d e v i d o a o su rg im e n to d a s relaçõ es p ú b licas e d a trem en d a efic
'c rifíc a d a n a P rim eira G u e rra M u n d ia l. «Com a ideologia da objectivic.
ubstitttiram um a f é sim ples nos fa cto s p o r um a fid elid a d e às regras e pre
7ra um m undo no q ual até os fa c to s eram postos em dúvida » (S c h u d so n
M e s m o q u e a a n á lis e d e S c h u d so n se ja c o rre c ta , h o je e m d ia a s o r
ã o b e m e s q u e c id a s e a id e o lo g ia d a o b je c tiv id a d e r e f o r ç a u m « em p iris
la n íe n o c a m p o j o r n a l í s t i c o , o n d e a s n o tíc ia s s ã o v i s t a s c o m o e m e rg in t
ntecimentos do m u n d o r e a l , b a s t a n d o a o j o r n a l i s t a s c r o e s p e c ta d c
smitindo-o fielmente. A m e t á f o r a , h a b i t u a l m e n t e e v o c a d a n o c a m p o jc
como «espelho», reflectc b e m e s s e c o n c e i t o d o j o r n a l i s t a c o m o sirr
ê n c i a s e s u p r i m e q u a n d o o a c o n t e c i m e n t o é « r e p r o d u z i d o » n a n o tíc ia
Este artigo defende q u e o s j o r n a l i s t a s n ã o s ã o s i m p l e s m e n t e o b s e r v ;
ipantes activos no p r o c e s s o d e c o n s t r u ç ã o d a r e a l i d a d e . E a s n o t í
c o m o emergindo n a t u r a l m e n t e d o s a c o n t e c i m e n t o s d o m u n d o r e a l
i conjunção de a c o n t e c i m e n t o s e d e t e x t o s . E n q u a n t o o a c o n t e c i m t
tam bém c r i a o a c o n t e c i m e n t o .
omo escreve Adriano Duarte Rodrigues no seu artigo intitulado «(
imento constitui o referente de que se fala. Lemos as notícias acre
:e do real; lemos as notícias acreditando que os profissionais do ca
sgredir a fronteira que separa o real da ficção. E é a cxistêncii
os» entre jornalistas c leitores pelo respeito dessa fronteira que to
ias enquanto índice do real e, igualmcnte, condena qualquei
exemplificado no caso da jornalista do Washington Post, Janet
tlilser e subsequentemente despedida quando foi dcscobertc
Ia reportagem premiada fora inventada.

as

a sendo índice do real, as notícias registam as formas litci


) utilizadas pelos jornalistas para organizar o acontecimento
dada à resposta às perguntas aparentemente simples: q
ccssidadc de selcccion ar. excluir, acentuar diferentes asnec
a lis ta , p e la s c o n v e n ç õ e s q u e m o ld a m a su a p e rc e p ç ã o e fo rn e c e m o r e p o r to n o fo rm a l
a p r e s e n ta ç ã o d o s a c o n te c im e n to s , p e la s in s titu iç õ e s e ro tin a s . A s n a rra tiv a s s ã o e la b o r a -
■avés d e m e tá f o ra s , e x e m p lo s , fra s e s fe ita s e im a g e n s , o u s e ja , s ím b o lo s d e c o n d e n s a ç ã o
;on, 1 9 8 4 ). E c o m o a s m e s m a s n a r ra tiv a s p o d e m s e r - c s ã o - u tiliz a d a s r e p e tid a m e n te ,
v e z e s a s « n o v a s » s ã o « v e lh a s » ; a g u e r ra n o A f e g a n is tã o é o « V ic tn a m » s o v ié tic o , a
e é rs ia s o b r e a v e n d a d e a r m a s a o Irã o p o r p a rte d o s E s ta d o s U n id o s é o n o v o « W a te r g a te » ,
em e x p r e s s o p e l o n e o lo g is m o «I ra n g a te ». As f o rm a s lite rá ria s e a s n a r r a tiv a s g a r a n ­
te o j o r n a l is t a , s o b r e a p r e s s ã o tirâ n ic a d o f a c to r te m p o , c o n s e g u e tr a n s f o r m a r , q u a s e
i n e a m e n i e , u m a c o n te c im e n to n u m a n o tíc ia .

stran g im entos organizacionais

Ias as notícias também registam os constrangimentos organizacionais sobre os quais os


tas labutam: os processos pelos quais as rotinas são estabelecidas, a erupção aleatória
ntecimentos domesticada, e as autoridades definidas (Carey, 1986).
s decisões tom adas pelo jornalista no processo de produção de notícias (newsmaking)
m ser entendidas inserindo o jornalista no seu contexto mais imediato - o da organiza'
i a qual ele ou ela trabalham. A pesquisa demonstra claramcnte o peso dos constrangi
organizacionais sobre o trabalho jornalístico (W hitc, 1950; Snider, 1973; Buckalew
arter, 1958; Janorvtiz, 1975; McNelly, 1959; Palm cr e A brahamson, 1973; Tuchm ar
ians, 1979; A theidc, 1976; Fishman, 1980; Sigal, 1973; Roscho, 1975; Sigclmai

m eiro, é de registar um factor importante; a política editorial da em presa jomalisti<


w , 1967; Liebes, 1966; Rosten, 1937;N im m o, 1964).
clássico estudo de B reed confirm a que a política editorial da em presa é apreendí
íose»; B reed (1955) escreve que o jornalista acaba p or ser «socializado» na politi
da o rganização através de um a sucessão subtil de recom pensa e de punição. Bre
seis razões que levam o jornalista a conform ar-se com a política da casa; 1
e institucional e as sanções; 2) as aspirações de m obilidade (a carreira profission
im en to s d e obrigação c estim a para com os seus superiores; 4) a ausência de confl
de; 5) o caracter agradável do trabalho; e 6) as próprias n oticias corno valor.
:s d o e studo de B reed foram corroboradas pelo estu d o de S igelm an (1973). N o
bre c o rresp o n d en tes estrangeiros, L eo B o g art (1 9 6 8 b ) escreve que o jo rn a lista n
m só m as u m H o m em de u m a organização. S obre este p ó n to , W a ltc r G ie b e r (1
pro u u io m u.i y o n iu i, teiejo n u u , n u iicu in u rauiuiumco; louos os aias ou louas a s s e m a n a s. I.
impensável a hipótese de o apresentador do Telejomal, por exemplo, dizer «hoje não há
notícias» ou «temos hoje um programa mais curto porque não havia noticias suficientes». O
trabalho jornalístico c uma acíividadc prática e quotidiana orientada para cumprir as horas de
fecho. Aliás, como iremos analisar mais adiante, o eixo central do campo jornalístico é o factor
tempo, e o campo jornalístico mantém uma relação íntima c complexa com esse factor tempo.
Pressionadas pela tirania da «hora de fecho», as empresas do campo jornalístico são
ainda mais obrigadas a elaborar estratégias para fazer face ao desafio colocado pela dupla
natureza da sua matéria-prima: os acontecimentos (a matéria-prima preponderante do trabalho
jornalístico por razões que iremos explicitar) podem surgir em qualquer parte e a qualquei
momento. Aliás, conforme nota Adriano Duarte Rodrigues, é em função da maior ou menoi
previsibilidade que, do ponto de vista jornalístico, um facto adquire o estatuto de acontcci
mento pertinente, ou seja, noticiável.
Face à imprevisibilidade, as empresas do campo jomalistico precisam de im por orden
no espaço e no tempo.

A ordem no espaço

No seu estudo, Gaye Tuchman (1978) explica que as empresas jornalísticas tentai
impor ordem no espaço estendendo uma rede {news net) para «capturar» os acontecimento
Para cobrir o espaço, as empresas jornalísticas utilizam três estratégias: 1) a territonalidai
geográfica: dividem o mundo em áreas de responsabilidade territorial; 2) a especializaç;
organizacional: estabelecem «sentinelas» em certas organizações que, do ponto de vi;
jomalistico, produzem acontecimentos noticiáveis: 3) a esDecializacão em term os de tem:
« kk S s ^ ^ ^ * * * --
delegação

"primeira vez que a referida aeiegavau reei?Q do n 0 Douro,


a jornalística da visita do Presi ente p0pCas merecem um a cobertun
0 que diz respeito a cBpeeialTO- ^ Assembleia da República e, no estrangeiro
tica, com excepçao, talvez . Q cas0 ^ Assembleia da Republica e particu
: da Comunidade Economtca Europci. privilegiado para o lançamento d
te interessante: tem sido tf.;t o d “ SVTcilmente conseguem ser oonsti
1 «noticiai» de alguns assuntos q u , <- ^ ^ Èstorü e as acusações da deputad
em notícia. Um caso exempla tratamento alargado no T elejom a
* Roseta Roseta, meses antes, durante a cam panl

Um requisito impoLTe^m a 2 transformação em noticia é a presença dos profissv


^ S ^ S ^ ^ ^ a e a m p i a e ^ l ^
as palavras do leaa
jornalistas parece
Liiaiidiuo j/ui^vv estar cxclusivamente
— --------- virada para os actos e as pa a\

J a n t o à especialização temática, existe uma grande homogeneidade entre os diferen


tos jornalísticos: nacional, internacional, informação geral, cultura e desporto sao
:s t.habituais
-l :.__irtmnU nortueueses.
da grande maioria No
dosentanto, assinale-sc algu
jornais portugueses. N o entanto, assinale-se algu
idade com a política dos suplementos regulares que alguns jom ais iniciaram; tamber
,o verificar a inovação introduzida com as novas publicações, 0 Independente e baba
5 com uma secção Vidn/Viver, no estilo do life style dos jom ais anglo-saxomcos.

ordem no tempo

Mas, como dissemos, para além de tentar impor ordem no espaço, as empresas jomalíst
sobre a cidade de tstugartía. segundo, geratmente controntaüos com uma superabundancia de
informações, os jornalistas lutam para impor um ritmo e criar a «rotina do inesperado»
(Tuchrnan, 1973). O resultado desta «rotinização», escreve Roscho (1975), é o de concentrar
os recursos da organização «num número relativamente pequeno de agentes cuja posição em
certas organizações ou instituições particulares valorizam ao máximo a informação que
-ecebem». No seu estudo de dois jornais americanos, Leon V. Sigel (1973) descobriu que os
omalistas utilizaram estes «canais de notícias» para 72,3% das notícias de Washington, 68%
las outras notícias americanas e 70,3% das noticias estrangeiras.

^ im portância das fontes

Antes de analisar as consequências que advêm desta «rotinização» ou, melhor dito, desta
ependência sobre «os canais de rotina», três considerações sobre a importância das fontes de
íformação no trabalho jornalístico são pertinentes. Primeiro, o relacionamento entre o jomalistr
a fonte de informação é sagrado c é protegido por lei: a Lei de Imprensa concede o direito ac
imalista de, mesmo em tribunal, não revelar a identidade da sua fonte de informação. Dada ;
iviolabilidade da relação, a quebra do sigilo profissional por parte do jornalista é um acto grave.
N um a discussão sobre o seu trabalho de jornalism o de investigação que ficou conhecidi
)mo o «Caso Rui Amaral», o jornalista José Pedro Castanheira qualifica a sua decisão d
velar a identidade da fonte de uma informação como a mais difícil da sua carreira profissic
il. A o contar o sucedido, José Pedro Castanheira (1985) escreveu: «Uma informação poa
'uiparar-se a um contrato tácito: pressupõe uma relação de confiança e lealdade enti
formador e jornalista. Implica o cumprimento de determinadas regras. Ao jornalista cor
te, se não houve nada em contrário, manter o sigilo sobre a identidade da fonte. A
rormador, por sua vez, cabe responder pela autenticidade dos factos que revela, pelo qi
o poderá, eticamente, negá-los e muito menos contradizê-los. A violação de qualqu
stas regras tem como consequência imediata o libertar o outro ‘contratante ’ do compr
sso assumido anteriormente».

Segundo, o jornalista sabe que as fontes de informação não são desinteressadas. P;


ler acreditar na fonte é preciso que esta prove a sua credibilidade. A s m elhores fontes s
telas que j á dem onstraram a sua credibilidade e nas quais o jornalista pode ter confiançi
N a sua «cacha» jornalística que provocou um autêntico vendaval institucional, levand
>embleia da R epública a dar o dito por não dito em relação ao Estatuto de A utonom ia i
n i n m a l k f a Ó ç r a r M n ç m r r n h n ç n»vt»la m ift n fn n tp . n n r a n c n a n n t í r i a « F n r r n ç A r m n
1974: 33-34). Quando a resposta é não, Bradlec relega a notícia para uma página interior com
o seguinte comentário: «Na próxima vez, obtém informação mais sólida.» (')
Baseada nestas considerações, a conclusão é que as pessoas com maior autoridade, essas
que têm contactos regulares com os profissionais do campo jornalístico, permitindo assim
provar a sua credibilidade, são favorecidas no processo de produção de noticias.

As im plicações da «rotinização»

A discussão quanto a estas considerações sobre as fontes de informação perm ite com ­
preender que uma das consequências da dependência sobre «os canais de rotina» é que nem
todas as fontes são iguais na sua capacidade de ter acesso aos meios de Comunicação Social,
ou seja, o acesso aos media é um bem «estratificado socialmente». No seu estudo sobre a
catástrofe na costa da Califórnia em 1969, Molotch e Lester descobriram que os responsáveis
do Governo Federal e os porta-vozes das empresas petrolíferas tiveram mais acesso aos media
do que os ecologistas: «A produção de notícias não pode ser entendida fora da economia
política da sociedade dentro da qual ela é produzida. O acesso predominante dos responsá­
veis do Governo Federal e das empresas petrolíferas reflecte o poder real dos adores em
geral» (Molotch e Lester, 1975: 235).
O reverso da medalha é igualmcntc válido: outros agentes sociais não têm acesso regular
aos meios de Comunicação Social. Uma consequência lógica: esses devem «incomodar» para
que os seus acontecimentos tomem a ser notícia. Nas palavras de Molotch e Lester (1974:108):
«Eles devem tornar-se 'noticia forçada', transformando de uma maneira ou de outra o
arranjo das noticias, criando um efeito de surpresa, um choque ou uma forma violenta de
'desordem'. Assim, aqueles que não têm praticamente nenhum poder devem 'perturbar' a
ordem social para incomodar as formas habituais de produção de acontecimentos.»
Outra consequência desta dependência nos «canais de rotina» é que, quando as fontes e
os jornalistas fazem parte da mesma «rotina» de uma forma regular, eles estabelecem uma
interdependência. O perigo é evidente, conforme escreve Walter Lippmann (Hoch, 1974: 156):
«O jornalista entra inevitavelmente em contacto pessoal com os leaders políticos e os homens
de negócios, criando relações de confiança e de simpatia; e é muitas vezes difícil e muito
embaraçoso ignorá-las.» A interdependência também facilita a «fuga» de inform ações,
nom eadam ente o lançamento de «balões de ensaio».
Uma terceira consequência é precisamente que uma parte significativa das notícias
produzidas tem como base fontes que são profissionais no «negócio» de lidar com o campo
jornalístico (aqui assinalamos os profissionais de relações públicas), conhecendo bem a mecâ­
nica do trabalho jornalístico, nomeadamente: 1) a necessidade da matéria fornecida (os press
releases) assumir certas formas e seguir certas convenções; e 2) o reconhecimento que um
timing cuidadoso da informação divulgada pode influenciar não só a cobertura mas também o
conteúdo da notícia publicada.
Concluímos que é precisamente esta dependência nos «canais de rotina» que leva Michael
Schudson a descrever o processo de produção de notícias como « normalmente uma questão de
representantes de uma burocracia apanhando noticias prefabricadas de representantes de
outra burocracia » (Schudson, 1986: 31).

(>) Na edição portuguesa, este episódio é relatado (p. 37), mas a tradução não é rigorosa: «Bradlce disse
que não e que arranjassem mais informações.» Carl Bcmstcin c Bob Woodward, IVatcrgalc, Amadora, Livraria
Bcrtrand, 1977.

173
O factor «tempo»

Que o timing dum comunicado pode influenciar a cobertura jornalística não é de estra­
nhar dado que, como já dissemos, o factor «tempo» constitui o eixo do campo jornalístico.
O factor «tempo» influencia a cobertura jomalistica do acontecimento. Utilizando a
cobertura do II Congresso de Jornalistas Portugueses como análise de caso (Traquina, i 987)
podemos detectar três maneiras como o factor «tempo» influenciou o trabalho jornalístico.
Primeiro, dado que os vespertinos têm hora dc fecho para as suas edições sensivelmente
por volta do meio-dia, era-lhes muito difícil fazer a cobertura noticiosa dos trabalhos do
Congresso no mesmo dia - só 27% das notícias publicadas pelos vespertinos ao longo do
Congresso se reportaram às sessões respeitantes ao mesmo dia da publicação da notícia, em
particular a sessão inaugural onde esteve presente o Presidente da República. Mesmo assim, as
notícias em dois jornais são muito breves c a notícia no terceiro vespertino é «corte e monta­
gem» do discurso do Presidente da República, distribuído previamente.
Segundo, a dificuldade levantada pela hora de fecho provocou interrupções na cobertura
do Congresso em dois vespertinos.
Terceiro, dificultados pela hora de fecho, os vespertinos confrontavam a concorrência
dos matutinos: a notícia do vespertino do dia 14 sobre a sessão do dia 13 perde «novidade»,
visto já ter sido anteriormente noticiada pelos matutinos. Para resolver este problema, o
vespertino podería adoptar três estratégias: 1) antecipar-se aos matutinos, publicando uma
notícia necessariamente incompleta; 2) dar uma prioridade menor ao acontecimento; ou 3)
tentar dar-lhe outro aspecto, olhà-lo de outro ângulo. De todos os jom ais, foram precisamente
dois vespertinos os únicos que publicaram uma fotografia de um não participante do Congres­
so (o jornalista Gunther Wallraff). E o único jornal que publicou notícias assinadas com o
nome do jornalista foi precisamente um vespertino (o Diário Popular) tentando, assim, pro­
porcionar um outro olhar sobre o acontecimento.
M as o relacionamento entre o campo jornalístico e o factor «tempo» é muito mais
profundo.
O sociólogo inglês Philip Schlesinger (1977) descreve a empresa jornalística como uma
«máquina do tempo» (time machine) e Schudson (1986) caracteriza os jornalistas como sendo
pessoas com uma «cronomentalidade». Os próprios títulos dos jom ais ou de programas reflec-
tem esta ligação íntima com o tempo: o Diário, o Dia, o Semanário, 24 Horas, Sábado, e,
claro, o Tempo.
Mais, é o próprio conceito de «actualidade» que constitui o coração e a alma da activida-
dc jornalística: o jornal, o telejomal, são supostos de dar a conhecer o que há de «novo», o que
«acaba» de acontecer. Lemos o jornal para saber o que é que aconteceu ontem e não hâ 15
dias; e se um acontecimento que teve lugar há 15 dias é notícia, provavelmente o é porque só
agora o campo jornalístico teve conhecimento do sucedido. Os acontecimentos devem ser
actuais; a própria actualidade constitui um factor de noticiabilidade.
A existência de um acontecimento da actualidade já transformado cm notícia pode servir
de news peg (literalmente, «cabide» para pendurar a noticia) para outro acontecimento ligado
a esse assunto, ou seja, a actualidade é utilizada como « eu s peg. Mas o próprio tempo pode
ser, e é, utilizado como news peg, nomeadamente os aniversários: um acontecimento é notícia
porque aconteceu, faz hoje, um, cinco, dez anos. Por exemplo, no dia 19 de Julho, quase todos
os meios dc comunicação social noticiaram a vitória legislativa do PSD em 1987, precisamcn-
tc porque aconteceu nesse dia hâ um ano. A centralidade do conceito de tempo como actuali­
dade tem sido compreendida por outros agentes sociais e, em particular, os profissionais de

174
relações públicas: assim lemos íido uma proliferação de dias - D ia da C riança , D ia do
A mbiente - semanas, meses e mesmo anos - A no E uropeu do C inema e da T elevisão -
que, em termos sociais, justiíicam que se fale (comemore) dc um assunto c, em termos
jornalísticos, tomando actual a abordagem desse assunto, ou seja servindo de news peg para a
transformação desse assunto em noticia (ver exemplo 1).

EXEMPLO 1

«Correio da Manhã», 6/6/88

(FOTO)

O secretário de Estado do Ambiente posando para a fotografia


com os seus «colegas» cicloturistas

Centenas pedalaram com Macário Correia


Sabemos hoje que o desenvolvimento Aquele governante aderia, assim, de «cor­
econômico e a protecção do ambiente, lon­ po inteiro», a uma das muitas iniciativas que
ge dc serem antagônicos, devem ser com­ neste domingo quente de Junho assinalaram a
plementares - considerou o secretário de passagem de mais um Dia Mundial do Ambi­
ente. A Festa da Bicicleta, assim se denomina­
Estado do Ambiente e dos Recursos Natu­
va o evento, permitiu reunir largas centenas
rais, Macário Correia, ao discursar em cima
dc «utilizadores» da bicicleta, «novos, velhos,
de uma camioneta de carga, poucos minutos homens c mulheres» - como dizia o progra­
depois dc ter subido a Avenida da Liberdade, ma - , quer utilizando «pastcleiras», «BMX»,
em Lisboa, montado numa bicicleta. «triciclos» ou «máquinas sofisticadas».

Esta questão 6 importante porque o campo jornalístico tem uma enorme dificuldade cm
abordar assuntos ou problemáticas. Como já foi dito, o trabalho jornalístico é uma actividade
prática onde os profissionais lutam contra a tirania da hora de fecho. O ritmo do trabalho
jornalístico exige uma ênfase sobre acontecimentos c não problemáticas. Como escreve Tuchman
(1978), os acontecimentos estão concretamente enterrados na «teia de facticidade», ou seja, o
quem? quê? onde? quando? como? porquê? do tradicional lead noticioso; as problemáticas não
estão. Os acontecimentos são concretos, delimitados no tempo, e mais facilmente observáveis.
«.-1 'invisibilidade ’ dos processos e das problemáticas exige poder de resposta por parte do
campo jornalístico, exige meios para fazer a cobertura de algo não definido no espaço nem
no tempo, exige tempo para elaborar a cobertura e, ironicamente, o subterfúgio do tempo
(por exemplo, o primeiro aniversário do acidente do Cartaxo, para falar da insegurança nas
escolas) para os ligar à actualidade» (Traquina, 1987: 12).
Precisamente, muitas vezes, os assuntos, processos e problemáticas só são abordados, só
entram no campo jornalístico através da existência de um... acontecimento, como a seguinte
notícia sobre os maus tratos às crianças exemplifica: a problemática é constituída em notícia
devido à realização de um acontecimento: a divulgação de um relatório numa conferência de
imprensa (ver exemplo 2).

175
EXEMPLO 2

«Jornal de Notícias», 8/6/88

Foto de uma criança mostrando maus tratos

Maus Tratos - Crianças têm Costas Largas...


Preocupante o índice de violência nas duas principais cidades

(No interior) atempadamente junto daquelas vivendo cm


situações críticas.
Em Portugal, não falta a legislação que
Esta a conclusão genérica de um traba­
reconheça a criança como sujeito de direito.
lho desenvolvido por uma equipa de três es­
Impõe-se, contudo, passar agora dos preceitos
jurídicos à prática, motivando as pessoas c as pecialistas, sob o patrocínio do Centro de Es­
instituições para a necessidade de eliminar os tudos Judiciários, ontem apresentado na Câ­
casos de crianças maltratadas sob as mais di­ mara Municipal do Porto, em sessão pública
versas formas e, mais que isso, intervir presidida por Fernando Cabral.

Controlado pelo relógio, dedicado ao conceito de actualidade, obcecado pela pergunta «o


que há de novo?», o jornalista e as empresas jornalísticas para as quais trabalham dão,
sobretudo, importância ao objectivo de produzir as notícias sobre os acontecimentos mais
recentes. E na resposta aos seis «servidores» habituais do lead noticioso, os dois (como?
porquê?) que mais carecem de explicação são precisamente aqueles que o leitor quer da notícia
e menos encontra. Exigir isso é talvez pedir demasiado a estes profissionais inundados pela
cheia de acontecimentos e assediados pela hora do fecho.

Conclusão

Pondo em causa a ideia das notícias como espelho do real, este artigo defende que as
notícias registam: 1) as formas literárias e as narrativas utilizadas pelos jornalistas para
organizar o acontecimento e 2) os constrangimentos organizacionais que condicionam o
processo de produção de notícias. Mas as notícias, apesar da sua reflexibilidade, ou seja, de
estarem implantadas no contexto da sua produção, são apresentadas de forma indexical, ou
seja, divorciadas do seu contexto de produção. Por exemplo, o jornalista pode citar a fonte sem
indicar como uma certa pergunta provocou a resposta da fonte. Como nota Lcon V. Sigal
(1986), saber o modo como as notícias são produzidas é a chave para compreender o que
significam.

176
Os jornalistas
e a sua máquina do tempo (*)

Philip Schlesinger

Abstracto

A produção das notícias é uma parte importante da vida social e cultural contemporânea.
Muito se tem escrito acerca dos «valorcs-notícia» (conhecimentos profissionais) dos jornalis­
tas, e do seu papel na construção de um quadro da realidade. O ponto de partida da argumen­
tação aqui é que aquele conjunto-chave de conceitos - os que se relacionam com o tempo - até
agora ainda não foi abordado. Por isso, o objectivo principal deste ensaio é remediar o lapso do
actual trabalho sociológico.
O ensaio começa por localizar os jornalistas da BBC estudados (através de observação
directa nas salas de observação londrinas) enquanto membros de uma cultura ocidental consci­
entes do tempo. Defende que a estrutura de competição que define a notícia como uma
mercadoria perecível exige uma estrutura de produção baseada no valor do imediatismo
(immediacy) c nos horizontes temporais de um ciclo diário.
N ós descobrimos, na investigação, que a consciência aguda da passagem do tempo
invade os próprios detalhes do trabalho do jornalista de radiodifusão. A linguagem do jornalis­
ta fornece distinções conceptuais relativamcnte ao tempo, o que mostra a importância da
dimensão temporal do seu trabalho. Além disso, certos conceitos, nomeadamente «a cadên­
cia», «a sequência», «a duração», são utilizados no enquadramento da notícia enquanto forma
cultural. Finalmente, o ensaio defende que para os jornalistas o domínio da pressão temporal é
um meio de manifestar o seu profissionalismo.
Ele encerra com a chamada da atenção para o modo como as «notícias», da forma como
são concebidas actualmente, tendem a acabar com a consciência histórica.

(*) Reedição de: British Journal o f Sociology (Vol. 28, N.° 3, Setembro. 1977). «Ncwsmcn and Thcir Time
Machinc», de Philip Schlesinger. Direitos de autor Routlcdge.

177
n a s u a a b o r d a g e m a re a lid a d e so c ia l. E sta s id é ia s ra ra m e n te tê m sid o s u b m e tid a s a in te r p re ta ­
ç õ e s e a n á lis e s d e ta lh a d a s (')• O p r o p ó s ito p rin c ip a l d e s te e n s a io é m o s tr a r c o m o o s c o n c e ito s
de te m p o d o s jo r n a lis ta s e s tã o e m b u tid o s n a s s u a s ro tin a s d e p ro d u ç ã o ( d e riv a n d o , n o fim d e
:o n ta s , d a s c o n d iç õ e s d e m e r c a d o c m q u e a s noticias s ã o produzidas) , e a tr a v é s d o re a lc e d a d e
ia a n á lis e , m o s tr a r a fo rm a c o m o a ju d a m a e x p lic a r a ra z ã o d a s n o tíc ia s d e s e r e m o q u e sãc
ia ra e le s e p a r a n ó s . A p r á tic a c o c o n c e ito e s tã o in te rlig a d o s . V e jo e s te e n s a io p r in c ip a lm e n t
o rn o u m c o n tr ib u to p a r a u m a c r e s c e n te s o c io lo g ia d o s c o n h e c im e n to s p r o f is s io n a is d o s pre
u to r e s d o s m e io s d e c o m u n ic a ç ã o d e m a s s a s (=). E v id e n te m e n te , ta m b é m é r e le v a n te p a r a ;
o c io lo g ia s d o te m p o e d o tr a b a lh o . O m a te r ia l a p r e s e n ta d o a s e g u ir p a r te d o e s tu d o d e c a n q
o D e p a r ta m e n to d e I n f o r m a ç ã o d a B B C , c o m b a s e e m L o n d r e s . O e s tu d o fo i c o n c e b id o eni
?72 e 1975, e c e n tr a v a - s e n o s j o r n a l is t a s d e r á d io e d e te le v is ã o ( !).

sociologia 'do tem po c a notícia

Desde que Durkheim defendeu que o tempo é mais um produto objectificado da 1


ciai do hom em do que um a categoria a priori (Durkheim, 1968, pp. 10-11), o es
:iológico do tem po tem tido um a história curiosamente espasm ódica. A sua relevj
'rica para a investigação tem estado continuamente em destaque, tanto na sociologia (Kt
59; Luescher, 1974, pp. 110-117); com o na antropologia (B am es, 1971). M as os core
tem po têm sido m uito m ais um objecto de estudo nos cenários «exóticos» (Evans-Pritc
10, cap. 3), onde a distância cultural lhes em presta singularidade c encanto, do qv
iedades industrializadas (*). O seu papel m odelador na m oderna p rodução cultur;
ído m uitas atenções. É, no entanto, quando vam os analisar as n oticias com o fo rm a c
ccífica que se tom a de im ediato evidente que estudar os conceitos tem p o rais, e o sei
;ua p ro d ução, é praticam ente tão relevante com o as b e m ex p lo rad as áreas d o s « \
ícia», « objectividade» e «profissionalism o». A n o ssa com p reen são d o sistem a d e pi
d á o rig em às «notícias» au m en ta q u an d o o factor tem p o é realçado.
A lg u n s g ru p o s p ro fissio n ais n as so cied ad es in d u strializad as n e c e ssita m d e u m c:
trau d e p recisão no tim ing p ara as su a s activ id ad es lab o rais. D ig n o s d e esp e c ia l t
les q u e o p eram n o s siste m a s de co m u n ic a ç õ e s e tran sp o rtes, p a ra q u e m u m te r
: sã o a c o o rd e n a ç ã o e a sin c ro n iz a ç ã o c x actas d a s activ id a d e s. (A n d c rse n , 1961,
listas, c o m o se e v id e n c ia rá , são m e m b ro s d e u m a c u ltu ra c ro n o m c triz a d a . (
mente difundida nas culturas ocidentais, com a passagem das horas, minutos e segundos (Hali,
1959, cap. 9) E fácil para nós compreender tais fixações, pois somos membros de uma cultura
cujas actividadcs, especialmcnte o trabalho, são, de um modo geral, estritamente reguladas
pelo relógio. Se é verdade que «o relógio é certamente a máquina crucial de uma civilização
industrial» (Moore, 1963, p. 163), então nós, os «conscienciosos do relógio», limitamo-nos a
observar aqueles que ainda o são mais. O nosso denominador comum é a existência de uma
grande familiaridade com o cálculo abstracto do tempo.
Para aquelas culturas em que o tempo cronométrico não desempenha qualquer papel
regulativo, os conceitos e o comportamento dos jornalistas pareceríam curiosos e estranhos, se
não mesmo patológicos. O facto de se dizer que isto é apenas para sublinhar a singularidade
relativa do valor colocado no tempo nas sociedades ocidentais, como c amplamente aceite,
deriva em parte da disciplina temporal exercida progressivamente sobre os trabalhadores com
o desenvolvimento do capitalismo industrial. (Thompson, 1967, pp. 56-97; Andersen, 1961,
cap. 3).
Como W eber referiu, o tempo tomou-se num simples artigo comercializado no mercado,
numa outra extensão da racionalidade. (Weber, 1968, pp. 157-158).
Contra o cenário de fundo de uma tal observância racionalizada do tempo, os jornalistas
seguem o seu caminho pelo espantosamente rápido «curso do tempo». (Lyman e Scott, 1970)
O curso segue um regular ciclo diário, cuja cadência é pautada pelos deadlines. Estes e os
inexoráveis ponteiros do cronômetro são dois dos mais potentes símbolos na cultura profissio­
nal do jornalista.

A concorrência é uma mercadoria perecível

A notícia é uma mercadoria curiosa. Vista de um ponto de vista temporal, é definida


pela sua «qualidade efêmera c transitória» (Park, 1966, pp. 127-141), c c altamente deteriorávcl;
o seu valor de utilização baixa rapidamente. A noção do jornalista do que é actual varia com o
mercado para o qual produz as notícias. Os radiodifusores que estudei trabalhavam com um
conceito de actualidade que dava grande ênfase à reportagem de acontecimentos que ocorriam
num dado dia, c valorizavam grandemente aqueles que haviam ocorrido nas poucas horas
anteriores. Tudo o mais estava ultrapassado. Ponha-se isto em contraste com o jornalista de
um diário, para quem muito do que se considera notícia do dia é efectivamente do dia anterior
em geral - particularmente no caso das notícias do estrangeiro - datada como tal. De novo, o
ciclo de produção para o jornalismo de semanário difere no facto de que uma «estória» (*) de
três ou quatro dias encontrará lugar. E há um maior grau de acção para as peças «intemporais»
que não estão presas a acontecimentos especialmcnte recentes. Movendo-nos fora de qualquer
noção de assuntos correntes, verificámos que para um historiador a história contemporânea
abrange acontecimentos desde a Segunda Guerra Mundial.
O mercado em que o noticiário da BBC opera, pelo menos em termos formais, tem dois
pólos. A concorrência é feita, em primeira instância, pelas estações de televisão e rádio
comerciais da Autoridade de Radiodifusão Independente (IBA). O quadro c algo complicado

(•) Nota de tradução - Na cultura profissional dos jornalistas anglo-saxónicos, o termo story é frequentemente
utilizado para referir-se nào só à noticia como ao acontecimento. Nesta antologia utilizou-sc a forma ortográfica
«estória» para evitar qualquer confusão que poderia surgir com a outra forma ortográfica «história».
no facto de os jornalistas da BBC, como outros, serem ims inveterados pcrscretadores da
«cultura dos media». Devoram a imprensa diária em busca de leads e, como aqueles que
trabalham para outras organizações jornalísticas nacionais, estão ligados a vários serviços de
agencias noticiosas. Os jornais são, nalguns aspectos, concorrentes; as agências são niveladoras.
O sucesso em «fazer rebentar» uma «estória» de forma rápida é primordialmente avaliado
rclativamente às emissões da Independent Television News. Existe uma ligação quase mística
à «cacha», como o seguinte exemplo, tirado do trabalho de campo em 1972, mostra.
Um dramático acidente de aviação tivera lugar na área de Londres. O Noticiário da BBC
recebeu a notícia da ocorrência em primeira mão e mandou de imediato um a equipa de
filmagens para o cenário da tragédia. O concorrente, o Noticiário da Independent Television,
foi ultrapassado. Pondo de lado a sua apetência por uma ética vampírica, a seguinte observa­
ção do ne\vs editor é extremamente reveladora da atitude dominante em relação ao tempo na
produção jornalística, e também do que é considerado noticiável:

«Do ponto de vista profissional, ficámos satisfeitos por termos chegado ao local
à frente do I.T.N. e termos conseguido o filme quando o avião estava a começar a
incendiar-se. Quando se tem uma noticia deve-se dá-la o mais depressa possível. Não
se consegue saber todas as contingências.» (Ênfase minha).

Esta opinião foi corroborada ao mais alto nivel no departamento de informação. O editor
enviou um memorandum de agradecimento à Redacção, elogiando a equipa de filmagens em
questão «pelos nossos bem sucedidos esforços em trazer o acidente do Trident para o ecrã.
Fornecemos um serviço noticioso mais completo e mais rápido que qualquer outro» (!). Os
outros jornalistas também consideraram esta cobertura um êxito, porque mostrava uma com­
petência competitiva baseada em reacções rápidas e porque «o Noticiário da Independent
Television não fizera qualquer cobertura em primeira mão».
A definição da notícia como artigo deteriorável, a concorrência dentro de um a estrutura
(restrita) de mercado, c uma atitude particular em relação à passagem do tempo estão estrita­
m ente ligadas. O exem plo anterior indica-nos isso. C onsiderem os agora a estrutura
organizacional dentro da qual a produção jornalística tem lugar. É importante ter-se bem
presente o facto de que enquanto os valores temporais verificados na produção jornalística têm
as suas origens nas condições de mercado em que a notícia tem sido sempre produzida, a
ênfase especifica na rápida reviravolta que agora encontramos foi apropriada, do ponto de
vista histórico, e faz agora parte de uma cultura jornalística relativamente autônoma.

O dia noticioso: a estrutura de produção e o conceito de organização

Não é inteiramente descabido falar-se de uma organização jornalística como um tipo de


máquina do tempo. Obviamente, não é bem assim em qualquer sentido wellsiano: ficamos
agarrados ao aqui-e-agora, embora possamos efectivamente ler, ver e ouvir falar de coisas
naquele-lugar-e-naquela-altura.
M as há uma característica mecânica no modo como, diariamente, os boletins e as
edições saem cá para fora. E, além disso, são talhados para encaixarem bem num particular(*)

(*) Memorandum, editor, Television News to News StafF, 18 de Junho de 1972.

180
sentido do tempo. Pois é evidente que quando falamos acerca de reportagens de acontecimen­
tos e estados de coisas, falamos daqueles que ocorrem dentro dos horizontes temporais no dia
do jornalista, «o dia noticioso». Os happenings multifários, convcncionalmente definidos
como noticias, adquirem uma coerência espúria porque são noticiados publicamente durante o
período de um dado ciclo de produção de 24 horas. O ciclo do dia noticioso impõe, por isso,
limites na natureza das noticias. ''
Uma idcia-chave entre os jornalistas de televisão é o «imediatismo». Este é um conceito
temporal referente ao tempo que decorre entre a ocorrência de um acontecimento c a sua ,
transmissão pública como notícia. Em termos logísticos, refere-se à velocidade com que se
consegue montar a cobertura. O tipo puro de imediatismo é a transmissão «ao vivo». Aqui, I
uma equipa de filmagens ou um posto móvel de rádio está na cena do acontecimento enquanto
ele se desenrola, e a reportagem é transmitida «imediatamente» ao telespectador ou ao ouvin­
te. Aliás, subjacente a esta noção está a opinião de que o público pode, através dos meios
técnicos de comunicação, estar «presente» no acontecimento. Esta ideia é obviamente fomen­
tada pela tecnologia de radiotransmissão contemporânea. Os jornais não conseguem transmitir
as suas reportagens instantaneamente, embora consigam atingir este ideal jornalístico pondo-
as rapidamente em dia em edições sucessivas. O imediatismo age como uma medida para a
deteriorabilidade. Quanto mais imediatas mais «quentes» são as notícias. São «frias» e «ve­
lhas» quando já não podem ser utilizadas durante o dia noticioso em questão. A s coisas que
acontecem hoje, esta manhã, esta tarde, esta noite, agora, são aquilo que os jornalistas de
radiodifusão querem conhecer. A «estória» do dia anterior, para ele, pertence ao caixote do
lixo da história: o arquivo de notícias.
Estas idéias estão incorporadas nas práticas do jornalista. Embora seja impossível dar
aqui uma etnografia adequada das rotinas de produção da Redacção, a indicação de alguns dos
principais contornos talvez mostre o modo como o conceito e a prática se interligam.
O dia noticioso do jornalista da BBC é composto por uma série de deadlines. Os boletins
são transmitidos a horas específicas do dia: a BBC-1 ao fim-de-semana, por exemplo, transmi­
te os boletins noticiosos às 12.45, 17.40 e 21.00. A cadência de produção para todos os
jornalistas é basicamente determinada desta forma, embora aqueles com ciclos diários experi­
mentem um a pressão do tempo mais forte.
O dia noticioso começa, tanto na Redacção da rádio como na da televisão, com uma
reunião do pessoal superior por volta das 9.30 da manhã. Nesta reunião as «perspectivas de
notícias» (as «estórias» mais verosímeis do dia) são analisadas. É a primeira fase da selecção.
A seguinte surge quando o newsroom editor redige um running order (alinhamento) para o
boletim seguinte: este faz uma nova selecção de «estórias» com fortes probabilidades de serem
transmitidas. Ele incorpora preferências baseadas nos «valores-notícia» da equipa de produ­
ção. A contínua revisão desta lista tem lugar praticamente até à hora da transmissão. Ao longo
deste período, as reportagens são compiladas e editadas, e alteradas para dar lugar a novos
desenvolvimentos. Este ciclo de produção é repetido relativamente a cada deadline ao longo
do dia noticioso. N o caso da BBC-1, por exemplo, ocorre por três vezes.
Este relato é muito incompleto. Todavia, conseguimos ver que a urgência é um valor
dominante, limitado pela tecnologia das comunicações. A produção prossegue dentro de um
ciclo básico do dia noticioso numa série de ciclos mais pequenos, cada um dos quais acaba
quando o boletim em questão é transmitido. Cada boletim conterá, em geral, algum as

181
S e n a enganoso nao apontar que esta com da contra os dea d lin es nao esta
ia ao ciclo do dia noticioso. G rande parte da cobcnura é plar.eada antes do d l
ecim entos cobertos têm lugar. U m tal planeam ento identifica os «acontecia
num a tentativa de fazer reportagens m ais m aleáveis no dia em questão. O
iosos, as im agens, as palavras, os sons, todos precisam de ser rapidam ente
dos durante as várias fases de produção do dia. Ter entrevistas fixas, equipas de;
ites reservados, im agens e circuitos de som é tom ar a recolha c a transmissão á
lia m ais m aleáveis. O planeam ento assegura que adequado m aterial noticie
onívcl por alturas dos deadlines. Naturalmente, o sistema é falível: pode acontec
pas não cheguem aos seus destinos, as personalidades recusem entrevistas, difieul
:m técnica impossibilitem a transmissão, os censores cortem um filme. Tais condi
;m parte do perigo de se produzir notícias no espaço de curtos ciclos de tempo. Esk
batador fica-se, todavia, por uma luta para se conseguir gerir os deadlines.

le-slots e valores-notícia

O último capítulo mostrava como a consciência temporal está subjacente na esl


;ica das rotinas de produção. Podemos passar agora aos detalhes mais minuciosí
balho prático do jornalista para ver como ele c influenciado pelos conceitos de tempo.
Cada dia noticioso c composto por uma série de time-slots, cada um dos quais clara
demarcado. A existência de news slots («espaços noticiosos») é do conhecimento púl
isponíveis a partir dos jornais, The Radio Times, The T\' Times). O público espera qu
iletins noticiosos ocupem esses slots. Para os produtores jornalísticos a existência dessess
iloca um problema: têm de ser «preenchidos com notícias». Apresenta-os com um objecu
3r outro lado, em dias em que muita coisa acontece (em termos noticiosos), pode-se consi

r que existem demasiadas notícias disponíveis. O slot e também, por isso, um consuan.
ento (*)• Assim, os time-slots moldam o dia, apresentando um conjunto de alvos formais
quipa de produção. Para estar à altura dos time-slots os jornalistas tem de primeiro respeit
s seus deadlines. # , . ... .
A o prod u zirem n otícias, o s jo rn alistas tom am decisões acerca do que e noticmvel, a
co rd o co m os critérios a le o im precisos conhecidos p o r «valores-notícia» ( ’). C om base neste:
ritérios, as «estórias» têm várias durações. Este processo concede um valor tem poral a
(estória». O s valores tem porais tom am duas formas: eles dão um a sequência à «estória» e
Hurarnn n artim lar. U m a tal valorização temporal está implícita durante todo o
---------— ------------, ------------»v. V* ju u w i j/ v /i UJIIVIU. f - i p i m u i i i i U d a ilU til LUlIJ d b jJü lii

como se elas fossem ouro...» (9). Um boletim noticioso toma a forma de série, na qual o ter
de cada sequência de palavras a ser dita pelos locutores e os repórteres tem de ser calcul
COm n re n is a n F.Yiçtf» u m a accnnr»5rv m c c o lo c d d n J ___ __ _____j -
com uma «estória» estabelecida que é geralmente substituída mais tarde por uma mais recente,
existe um elemento de fragilidade relativamente à estrutura de siatiis num dado dia. O valor
temporal de uma «estória» tem consequências importantes para a satisfação vivida pelos
jornalistas individuais.

4. Slots e desculpas

U m executivo mais antigo observou: «O que pomos de parte é aquilo que, na nossa
opinião, não é considerado notícia no contexto de tempo e espaço limitados.» Esta afirmação é
sintomática. A escassez de tempo que caracteriza a produção jornalística pode ser utilizada
como desculpa contra as críticas daqueles que acham que certas «estórias» tiveram tratamento
insuficiente nos boletins noticiosos. A escassez de tempo é uma defesa: os jornalistas defen­
dem a sua própria prerrogativa de decidirem o valor das «estórias». Esta desculpa foi usada,
num a ocasião, por um repórter que estava na posição de negociar a relação entre a sua fonte e
o Departamento de Informação. O entrevistado, o ministro dos Transportes, queixava-se de
que uma entrevista anterior não fora utilizada. O repórter respondeu que não detinha o
controlo editorial, e que de qualquer forma nunca podería haver quaisquer garantias pois o
tempo era sempre escasso. Além disso, disse ao ministro que como era domingo (com um
boletim principal mais curto) a entrevista teria de ocupar o espaço de um minuto. De novo, a
consciência temporal do jornalista pode ser vista como tendo um efeito saliente sobre os seus
procedimentos básicos.

O tempo e a linguagem dos jornalistas

Os jornalistas fazem várias distinções conceptuais relativamente ao tempo. Isto é apenas


o que se pode esperar do facto de a dimensão cultural da sua cultura profissional ser altamente
elaborada. Segue-se um breve relato das suas mais importantes idéias de trabalho.

1. As noções de imediatismo

Existe um conjunto de noções que deriva do «imediatismo» e com o qual está relaciona­
do, que sugere agitação, rapidez, imprevisibilidade. Sempre que nova informação entra na
Redacção tendo por base uma «estória» existente, é levada a cabo a tarefa de a «pôr em dia».
Novos factos e interpretações têm de ser integrados na «estória», se for para ser utilizada antes
da transmissão. Uma tal revisão é um processo contínuo, e contribui para o sentimento de que
as notícias são naturalmente sempre bem vivas.
As «estórias» são entendidas como «rompimentos», sugestivos de descontinuidadc. De
um ponto de vista logístico ideal, a «estória» deve romper bastante antes do deadline, se for
para ser coberta.
É extremamente importante para os jornalistas que as «estórias» tenham esta aparente
capacidade de rebentar a meada de expectativas existentes. E eles têm meios de o assinalar
para o público. Algumas «estórias», no seu ponto de vista, não podem esperar até ao boletim
programado seguinte. Para estas é utilizado o flash noticioso: à notícia é dado um tratamento
separado na própria altura, o que lhe confere uma aura de urgência e importância. Por
exemplo, quando começou a tomar-se claro que James Callaghan seria eleito líder do Partido

184
Trabalhista (e assim primeiro-ministro), sucedendo a Harold Wilson, este acontecimento foi
considerado suficientemente importante para merecer o seu próprio pequeno slot antes do
boletim noticioso seguinte.
De um modo geral, todavia, o afã de fornecer «estórias» imediatas está presente nos
time-slots regulares. Porém, uma vez que uma «estória» de última hora está sempre condena­
da a aparecer, existe um perigo sempre presente de perturbação. Embora isto pudesse desequi­
librar o boletim em questão, a urgência é tanta que o transtorno, o stress, a excitação e o
drama criados pela chegada da noticia de última hora é não só desejado como também
considerado ideal. É possível acomodar uma «estória» inesperada, deixando a sequência
intacta e prefaciando-a com «Acabámos de receber a notícia de que...» Esta fórmula realça o
imediatismo da notícia. O outro modo de lidar com este tipo de ocorrência é o locutor dizer «E
agora, uma notícia de última hora...» ainda antes do fecho do boletim. A honra está salva: a
«estória» pode ser simplesmente alguns factos em bruto servidos sem condimentos, mas o
imperativo temporal foi obedecido.
Um outro modo bastante distinto de dominar as notícias urgentes e importantes é o
editor do dia pedir um alargamento do lime-slot. Assim, por exemplo, quando o escândalo
Watergate rebentou, o News at Ten da ITN acrescentou um terceiro quarto de hora para
acomodar as reportagens vindas de Washington, assim como o resto das notícias, frisando o
locutor a razão porque o slot fora prolongado.
Dada a expectativa de poder haver sempre uma nova notícia importante de última hora,
nós achamos que a noticia imediata é tratada com reverência, com todo o seu potencial, pelo
menos, em princípio.

2. O imediatismo exterior

As «estórias» que surgem inesperadamente, sem estarem programadas, chamam-se spot


news e referem-se a acontecimentos que, pela sua natureza, são imprevisíveis: desastres aéreos,
colisões no mar, desastres ferroviários, incêndios, assassínios, golpes de estado, terramotos,
mortes. Estas distinguem-sc das «estórias diárias» que podem ser concebidas com meses de
antecedência: conferências de imprensa, os lançamentos no espaço, ocasiões e visistas de
Estado, eleições, orçamentos. Todas estas são «acontecimentos futuros» previsíveis para os
jornalistas. Este conhecimento prévio permite que sejam feitos antecipadamente preparativos
logísticos. As spot news, pelo contrário, implicam decisões editoriais «instantâneas». É muito
importante estar-se certo de que existem meios logísticos para fazer a cobertura dessas «estóri­
as», saber, por exemplo, que os repórteres e as equipas de filmagens estão disponíveis, que não
foram afastados para outras «estórias».
A rápida tomada de decisões e a atmosfera de desordenação que derivam da resposta à
spot news fazem com que este tipo de «estória» esteja mais próxima da essência da verdadeira
actividade jornalística. As «estórias» diárias são geralmentc denegridas como «peças estáti­
cas» ou, simplesmente, rotineiras, sem qualquer elemento de surpresa.

3. A «estória» cm continuação (ru n n in g story)

Uma outra categoria relevante que reflecte os padrões de trabalho é a «estória em


continuação». Esta categoria abrange todas as «estórias» que transcendem um dado ciclo de
dia noticioso, e são seguidas por outras subsequentes. Exemplos disso são: o escândalo Watergate,

185
iveis à Irlanda do Norte e ao E i r c 7 ° * ™ * ° qUC 05 e s ta ^ n
algo aconteceria no futuro devido a i i i d e n t e S j d L ^ f S 8' ^ CStavam COnvictos de
ífestaçoes, etc.) no passado. Este exemplo é u ^ ^ I ??S àbom ba- ^sassinios,
•ncncia observou cinicamente: «Há tanto tempo que é crisT ^ j° ma' ista com muita
•». ° COnccito «estória» em c o n t i n u a ç ã í S í ^ a * P°de fa,ar ™

r ~ - * * * *

em po c a notícia como form a cultural

Pd d e s a t a d o „
: *r r r toie,em-“ e° ? T * C W a P»
letins noticiosos. mP° na eStrUtUraçao da apresentação e do estilo «

= H = |~ ~ Í S 3 S S
p 8 ) .0 s bolctms, defendem, têm de estar bem estruturados para conseguirem este obiect
, q“ SCqUenCla lnterCSSantc de noticias t0IT>a-se, assim, um objectivo dominam,

Cada boletim noticioso é estruturado de acordo com um conceito de cadência com


‘ , P° r CXCmp' 0’ edltor do dla dizia que abordava o problema cm termos dc
conceito dramatico», de acordo com o qual havería «altos e baixos» durante o programa
JZia quc <<tem de s.e manter 0 «teresse vivo: não serve de nada fazer-se um tablóide se n
untar a aprescntaçao um a ideia». O estilo adoptado é assim justificado através de um ar
iresurruda psicologia do público.
Este estilo esta mtimamente ligado ao conceito de notícias como os happenings d
\ ideia de «o avançar» tem uma base temporal: as noticias dramáticas são colocadas
sequência de acordo com o momento cm que sc pensa que o interesse do público
afrouxar. Este ponto dc vista, deve-se fazer notar, expressa um ideal pois, dado o realce
no imediatismo é sempre possivel que a apresentação mais equilibrada seja perturbada por de
vimentos posteriores. E claro que o ritmo de apresentação necessita de um controlo judicioso.
A cadência dos jornalistas baseia-se neste axioma do radiodifusor. «O público nr
voltar atrás no que acabou dc ver ou ouvir.» Frequentemente surgem contrastes com o j
m o de im pressão: o leitor pode reler um parágrafo ou uma frase se não os comprei
dr. transmissão. Os jornalistas estão por isso conscientes das dificuldades inerentes que os seus
media lhes colocam.
Os problemas de cadência são mais acentuados na produção noticiosa televisiva do que
na rádio. Isto provém directameníe dos lime-slots disponíveis cm cada um dos dois media. O
boletim de rádio da BBC mais longo dura 15 minutos (na Rádio 4); o boletim de televisão
mais longo (na BBC-1) tem uma duração de 25 minutos e, como os jornalistas nunca se
cansam de dizer, é tanto visto como ouvido, e por isso, dizem eles, tem de manter um interesse
visual.
As mudanças de cadência são apresentadas de várias maneiras. Um meio rclativamcnte
simples de m udar o foco de atenção do público é utilizar dois locutores em simultâneo. As
News at Teu da 1TN seguem o estilo noticioso das cadeias americanas, utilizando esta técnica
desde 1967. As Nine 0'Cioock News da BBC introduziram uma versão levemente diferente
em Novembro de 1972, abandonando-a em Março de 1976.
A cadência também varia de acordo com a colocação das «estórias». Assim, no noticiá­
rio televisivo, as «estórias» filmadas serão espaçadas durante a sequência de modo a não
ficarem «amontoadas»; elas podem alternar com reportagens «sonoras» de correspondentes.
Na rádio, a variabilidade é dada pela inserção do monólogo do jornalista com as vozes de
repórteres e entrevistados, e também «som natural».
Existem, além disso, meios mais formais de estruturar o boletim. Uma convenção é o
headline, através do qual os jornalistas extraem o principal ângulo da «estória» e apresentam-
-no de uma forma muito breve. Por exemplo:

«Mr. David Steel diz que os liberais têm de resolver o problema da liderança
dentro de semanas e não de meses.»

O headline é um instrumento de apresentação dramático. Altera a cadência tanto no


início como no fim do boletim, e também os salienta em outros programas.
Um outro instrumento é o catchline, que serve para quebrar o fluxo do boletim. Assim:
«Notícias da Indústria», «The Commons», «O Escândalo Watergate» são expressões que
pretendem captar rapidamente o público para o tema da «estória» seguinte, embora se parta do
principio de que as pessoas estão suficientemente familiarizadas com os seus desenvolvimen­
tos passados para compreenderem os actuais. Os catchlines contribuem para um estilo noticio­
so que parece econômico. É fácil compreender porque razão é que os jornalistas consideram
que «uma combinação de simplicidade, clareza e urgência é o único estilo possível». (Tyrrell,
1972, p. 19).
Estas idéias definem e limitam tanto a forma como o conteúdo da notícia. A forma
cultural básica é estruturada pelas convenções correntes na ideologia profissional existente. As
noticias são vistas como distintas dos «assuntos correntes» e do «documentário», onde o
imediatismo não é um critério premente (10). As notícias são virtualmente foreground («em
primeiro plano») com muito pouco background.

(“) Para um ponto de vista profissional preciso acerca destes conceitos veja-se Swallow (1966, p. 83).
Jornalistas: vítim as ou controladores?

«Tanto o meu organismo como a minha sociedade impõem-me, e ao meu


tempo interior, estas sequências de acontecimentos que implicam espera...»

(Berger e Luckmann, 1971, p. 141).

«Há longos períodos em que nada acontece, e de repente começa o inferno.»

(Jornalista de tele\'isão)

Num ensaio interessante, Lyman e Scott (1970, p. 191) põem em contraste duas atitudes
básicas com o tempo. Escrevem, por um lado, dos «caminhos humanísticos do tempo» onde as
pessoas sentem que têm o domínio e o controlo sobre as suas actividades. Em contraste,
apontam para os «caminhos fatalistas do tempo» onde o sentimento é mais o de compulsão e
obrigação.
De acordo com as minhas observações, os jornalistas exibem estas duas atitudes nas suas
vidas profissionais. A razão para isto reside nos peculiares constrangimentos situacionais
colocados pela produção jornalística. A notícia, apesar de muita da cobertura ser pré-prepara-
da, apresenta muitos caprichos aos jornalistas. Por definição, o imprevisto está ao virar da
esquina. Os jornalistas estão por isso aptos a descreverem-se e ao seu trabalho de forma
fatalista. Eles vêem-se como vítimas e contam este tipo de «estória»:
A sala de Redacção está calma, a actividade e a rotina estão controladas. Então «rebenta
a bomba». Ou, como diríam os sociólogos, um elemento qualitativamente distinto de experiên­
cia, entra na situação de forma dramática. Acabara de estoirar uma grande «estória»: os
recursos têm de ser mobilizados e os planos abandonados.
A «estória» é contada de um a forma que expressa exactamentc o modo como a operação
entra na engrenagem, em turbilhão. A cadência de trabalho toma-se frenética, absorvente. Os
repórteres podem ter de abandonar uma tarefa de repente - para fazer a reportagem de um
assalto a um banco, um acidente aéreo, entrevistar alguém. Os editores têm de tomar decisões
rápidas. «Tudo acontece» num episódio de actividade de fogo concentrado. As expressões são
curtas, por vezes rudes; os movimentos rápidos; a atmosfera tensa; o nível de som vai aumen­
tando. Os sub-directores dividem-se entre a Redacção e as salas de montagem, trocam algu­
mas palavras com o editor do dia e ditam a sua copy aos dactilógrafos; a narração do noticiário
televisivo tem lugar a uma cadência de cortar a respiração. Todo este tipo de experiência é
considerado extremamente significante. Para os repórteres, existe um grande contraste qualita­
tivo entre a preparação (marcar entrevistas e convidar as fontes), que implica espera e conten­
ção, e o acto de fazer reportagem ou entrevistar, o que é visto como o aspecto realmente
autêntico da profissão.
Eles oscilam entre a vítima e o controlador. É a partir dos aspectos autênticos da
produção noticiosa - sobretudo a hora antes da transmissão do boletim, quando o trabalho
atinge o ponto máximo - que surge a idealizada e tipicamente anunciada imagem de controlo.
É a partir da experiência directa da estrutura de trabalho num dado ponto que toda a operação
vem a ser caracterizada como um drama febril.

188
critérios partilhados de competência. E mais uma questão de sentir certas coisas, de
velha adrenalina a correr». Os jornalistas têm tuna interpretação cultural específica do
dciro significado do seu trabalho, na base do qual estão a excitação e o perigo que ad\
facto de depararem com apertados deadlines. Tomar-se num controlador, transcender
sso o caracter caprichoso, sacrificador, da notícia, é o que faz o trabalho noticie
ixcitante.
No entanto, a retórica empregada pelos jornalistas na descrição das suas acti\
liverge da realidade observada. De um modo geral, a situação de produção está longe
aótica, senão a um nível superficial. A sua base racional aponta para o controlo e a p r
nquanto aqueles que nela trabalham louvam a contingência. De facto, há uma curiosa
a grande agitação para preencher o slot nos minutos que o antecedem. Gcralmentc, a c
s notícias ocorre tão tarde propositadamente, pois quanto mais tarde chegam mais ui
io. Assim, os jornalistas ansiosos põem em prática um sistema que alimenta as suas ai
:s. A s contingências são efectivamcnte criadas pelo próprio ciclo do dia noticioso
itícia não fosse definida como aquela que tinha de ser encaixada em vários slots nun
ário, o caracter do trabalho dos jornalistas, e da própria notícia, poderia ser, e seria, dii

inclusão

A intenção deste ensaio é a de demonstrar a importância do factor tempo na produ


tícias. É claro que existe uma relação sistemática entre os conceitos de tempo, que cc
iem parte dos conhecimentos profissionais do jornalista, e as exigências criadas pela
ação de trabalho. M as o conceito do tempo do jornalista é mais do que um a si
posta aos constrangim entos colocados pelo ciclo de produção do sistema noticioso. Te
> de caracter fetichista. O imediatismo pode ser aceite como uma verdadeira virtude.
Existe, é evidente, um conjunto de ligações causais, entre as condições de me
tro do qual a notícia é produzida, o próprio sistema de produção, os conceitos de tem]
iutores, e o produto. A notícia, como surge diariamente, e como é concebida, cs
sição radical à história. De facto, o sistema de ciclos ao longo do dia noticioso tende
lição da consciência histórica, criando um a peipctua série de primeiros planos, à cu
ifundamcnto e do background. Em termos filosóficos, poderiamos argum entar que a i
por um a particular extensão de tempo (o dia) vem sobrecarregar a consciência da se
k..m nhordnd.i nor Daniel J. Boorstin numa conferência re
«...temos alargado a r.ossa consciência do contemporâneo. Somos submergidos
pela consciência donde nós c os nossos contemporâneos estamos r.este momento.»
(Boorstein, 1975, p. 786).

Seria enganoso tentar qualquer argumento determinista, desde a natureza das noticias
até à qualidade da nossa consciência histórica. Não existe aqui nenhuma reiaçãc causa-efeito.
Mas há uma parcialidade evidente nas notícias contra o longo prazo, e é piausível argumentar
que, quanto mais tomarmos nota das notícias, menos conscientes ficaremos do que está por
detrás delas.

190
«A construção
do noticiário eleitoral:
um estudo de
observação na BBC» (*)

Michael Giirevitch e Jay G. Blumler

«Considerando o material que tínhamos, foi o melhor que conseguimos fazer» - disse
um produtor de informação da BBC, numa reunião de balanço depois de um boletim de
notícias eleitorais.

A reportagem de campanha política para o noticiário televisivo é bifacetada. Mostra


tanto uma face de caos c atabalhoadas respostas à contínua incerteza como uma face de ordem,
rotina, compreensão e estrutura fume. Ela é, ao mesmo tempo, uma operação fluida e alta­
mente constrangida. Consequentemente, quais os slogans e os acontecimentos da campanha
eleitoral que entrarão finalmcnte no noticiário - eis uma matéria nada previsível.
Ambos os aspectos da preparação jornalística eleitoral são, por sua vez, alimentados por
muitas nascentes. A consistência padronizada do conteúdo reflccte: a necessidade de fornecer
um boletim diário, com as suas próprias convenções há muito estabelecidas quanto à extensão
da notícia, às técnicas de selccção do discurso, e aos estilos de apresentação visual e verbal; a
instituição de um a rotina logística fortemente organizada para obter, e trabalhar numa base
diária, a matéria-prima de eventuais noticias eleitorais; a obrigação de respeitar normas
estabelecidas extemamente. Por exemplo, para o equilíbrio partidário e para evitar a introdu­
ção de opiniões pessoais nas notícias; a perspicácia dos candidatos de darem à televisão o

(*) Reedição de: «The Construction of Election News: An Observation Study at thc BBC», de Michael
Gurcvitch e Jay G. Blumler, publicado no livro Individuais in Mass Media Organizations: Crcativity and
Constraint, de James S. Ettcma c D. Charles Whitncy (Eds.), Bcvcrly Hills, Ca: Sagc Publications, 1982. Direitos
de autor: Sage.

191
«toque» de comentários vivos que entendem ser necessários; c a presença orientadora nas
mentes dos jornalistas televisivos de certos critérios de uma boa «estória» (*) d t campanha.
Contudo, o que aparece no ecrã também emerge de um processo mais problemático de
exame minucioso dos materiais a serem utilizados e de tomadas de decisões (algumas vezes
extremamente rápidas, outras após grande debate interno) entre modos alternativos de apre­
sentação do que está à mão. Em parte, isto acontece porque até que as «contribuições»
disponíveis sejam monitoradas e avaliadas umas em relação às outras, ninguém pode dizer
exactamcnte quais os materiais que melhor se combinarão para produzir um a efectiva notícia
de campanha. Em parte acontece porque os jornalistas que se encarregam de tal trabalho,
apesar de terem completado o seu estágio e a sua socialização, não são pessoas de horizontes
fechados. Melhor, eles trazem para a reportagem eleitoral uma mistura algo insolúvel de
diferentes atitudes e disposições profissionais, empurrando-os nesta ou daquela direcção, enquanto
executam a sua tarefa posteriormente, ou quando ponderam sobre aquilo que conseguiram fazer.
Este capitulo apresenta algumas das impressões mais salientes com que os autores
ficaram de um estudo de observação da produção jornalística na BBC, durante as eleições
gerais de Abril e Maio de 1979. Este estudo foi o último de uma série de inquéritos semelhan­
tes, que remontava às eleições gerais de 1966, nas quais um ou dois de nós explorámos o
funcionamento do sistema de comunicação político britânico a partir de vários ângulos. As
ligações, há muito existentes, com o pessoal da informação da BBC, desde estas investigações
anteriores, ajudaram a desenvolver as relações de confiança que foram essenciais para a
condução do estudo de 1979. Tivemos permissão para estar presentes em qualquer lugar da
nossa escolha nas várias áreas de produção jornalística; para assistir a discussões de executivos
e produtores de informação, tanto as referentes a plancamento como as que diziam respeito a
análises criticas de produção recente; e para discutir as implicações do seu trabalho com
qualquer dos indivíduos envolvidos no jornalismo de campanha.

Background

O papel na campanha do noticiário televisivo britânico

Antes das eleições gerais de 1959, os boletins noticiosos britânicos ignoravam, zelosa-
mente, todos os acontecimentos da campanha. Hoje em dia, a cobertura regular que fornecem
é um veículo verdadeiramente central da campanha. A sua centralidade provém, primeiro que
tudo, das grandes audiências dos programas de informação e da reputação credível. É por isso
que eles são assiduamente cultivados pelos dirigentes partidários, que estão ansiosos de inserir
as suas preciosidades nos boletins noticiosos, e tomam-se, por isso, numa importante arena
eleitoral, na qual os combatentes desfilam diariamente, fazem discursos, aparentam autorida­
de, dão apertos de mão, e tentam ganhar pontos aos adversários. O que os telespectadores vêm
de tudo isto depende, todavia, do modo como a arena é construída pelos profissionais dos
media que são responsáveis pela «reportagem» e «cobertura» da campanha. Neste aspecto, o
noticiário televisivo não é meramente um canal através do qual mensagens e imagens projcctadas
pelos actores políticos são transmitidas aos votantes, como água a sair de uma torneira. O
modo como os editores e os repórteres empreendem a tarefa jornalística de apresentar ou «pôr

(*) Nota de tradução - Na cultura profissional dos jornalistas anglo-saxónicos, o termo story é frequentemente
utilizado para refcrir-sc não só à notícia como ao acontecimento. Nesta antologia utilizou-se a forma ortográfica
«estória» para evitar qualquer confusão que poderia surgir com a outra forma ortográfica «história».

192
cm cena» a contenda é tão formativo que eles tomam-se não só observadores como também
uma parte integrante da própria campanha.
Em 1979, o papel do noticiário televisivo nas eleições foi determinado por, pelo menos,
quatro aspectos dignos de nota. Primeiro, a convocação de uma eleição induz a uma subtil
mudança de velocidade: o entusiasmo aumenta mas os controlos intensificam-se. Como afirma
um editor: «Este é, de longe, o maior gênero de 'estória' que um órgão de informação
televisivo pode ser levado a cobrir.» Todavia, muitas das normas que orientam o trabalho dos
jornalistas com mais flexibilidade nos períodos fora das eleições são impostas com um rigor
maior durante uma campanha, incluindo uma interpretação mais rígida dos conceitos de
imparcialidade e equilíbrio, uma repercussão mais fiel das declarações e iniciativas dos porta-
vozes partidários, e mais circunspecção quando se aventurarem a comentar as actividades dos
políticos. Embora sejam geralmente respeitadas, as limitações resultantes são, por vezes,
também alvo de ressentimentos e reaccões contrárias.
Segundo, é concedida grande importância ao noticiário eleitoral na televisão britânica,
embora a sua produção tenha de ser encaixada em boletins que têm de continuar a cobrir a
informação diária não eleitoral. Um indício da sua especial importância é o facto de que, com
o inicio dc uma campanha, muitos dos elementos mais experientes e de maior crédito da área
política da BBC são destacados para trabalhar na equipa de informação eleitoral. Isto talvez
ajude a explicar um aspecto importante, que é o facto de a força da cobertura eleitoral britânica
ser diferente da sua congênere americana: segundo Patterson (1980), os principais canais
televisivos (os networks) descrevem predominantemente as eleições presidenciais como uma
corrida de cavalos, dando muito mais atenção ao que ele chama de «jogo» eleitoral, definido
como relatos sobre vencedores e vencidos, estratégia e logística, aparições públicas e excitação
desmesurada, do que à sua «substância», definida como os problemas, as políticas, as caracte­
rísticas pessoais, as folhas de serviço e os apoios. Embora o noticiário televisivo britânico não
ignore o jogo de campanha, muita da sua produção concentra-se nas declarações substantivas
dos líderes partidários acerca de problemas e políticas. Além disso, o noticiário eleitoral ocupa
uma parte considerável da duração do boletim noticioso, atingindo geralmente quase metade
do total. N um a base diária, todavia, a duração cxacta é negociada à luz das circunstâncias, e,
dc vez em quando, os produtores do noticiário televisivo que observámos eram fortemente
pressionados a racionar aquilo que haviam preparado e a descartar o que parece estar cm excesso.
Terceiro, a produção de noticiário eleitoral para televisão é uma luta contínua para
reconciliar dois objectivos potencialmentc opostos da política editorial. A cobertura de campa­
nha deve, não só ser noticiável como também honesta. Por um lado, os jornalistas devem
comportar-se como profissionais, aplicando os seus tradicionais instintos de noticiabilidade à
colheita diária de declarações e incidentes da campanha. Por outro lado, cada partido deve, em
principio, receber aquele quinhão de atenção que é merecido pela sua força no país (definido
por um a fórmula mista de expressão de votos nas eleições anteriores e os lugares cm disputa
nas correntes). N a prática, os jornalistas tomaram como referência a distribuição de tempos de
antena radiofônicos que foram atribuídos a cada partido na referida campanha - que prescre­
via uma proporção de 5: 5: 3 para os partidos Conservador, Trabalhista e Liberal, respectiva­
mente, em 1979.
Quarto, antecipando-se à campanha de 1979, os responsáveis pela política da BBC
haviam resolvido fortalecer a contribuição analítica da produção jornalística eleitoral. Em
parte, isto foi uma resposta às críticas à cobertura de 1974 por ter sido excessivamente fechada

193
e passiva (Harrison, 1975). Em parte, era o refiexo de utr.a alteração do p óorio papel do
principal noticiário da noite entretanto introduzido, e deixou de ser um mero boletim de
registos para passar a fornecer reportagens mais longas acerca de acontecimentos noticiosos
importantes que visavam colocá-los num contexto explicativo. Quando as eleições de 1979
foram anunciadas, foi, por isso, natural decidir que embora o noticiário da campanha devesse
ser predominantemente «reactivo» (distinguindo-o, neste aspecto, dos principais programas de
actualidade e de debates), ele devia também arranjar espaço para um elemento moderadamen­
te «reflectivo». Um produto desta abordagem foi uma decisão para preparar tuna série de
reportagens sobre as questões centrais da campanha (os preços, as relações industriais, os
impostos, a agricultura, etc.), resumindo, cm cada caso, as posições dos principais partidos c
confrontando-as umas com as outras. Uma outra ideia, e potencialmente mais significante, foi
dar ao editor politico da BBC a responsabilidade de apresentar todo o pacote de noticias
eleitorais cada noite. Como o editor adjunto do noticiário da BBC explicou:

«Da última vez, colocámos a peça do editor político algures para o fim da colaboração
do newsreader. O noticiário eleitoral podería ter consistido numa sucessão de declarações,
resumidas pelo newsreader, um bocado de filme, depois o remate do editor acerca do modo
como a campanha estava a decorrer. O que todos nós sentimos foi que devíamos alterar isto.
Precisamos mais de algo que coloque as coisas no seu contexto próprio do que de uma
introdução de duas linhas ou de uma peça de síntese. A ideia é transformar o analista político
principal em pivol, de modo a que ele fique em posição de o poder fazer. (O editor politico),
então, ficará a apresentar o material de campanha em todos os principais boletins noticiosos da
noite da BBC 1. Assim, ele pode não só rematar o material diário da cobertura eleitoral,
fazendo a síntese à sua maneira, como também inserir comentários analíticos em tudo aquilo
que for surgindo.»

O cenário

As observações dos autores foram conduzidas cm dias intermitentes, em Abril de 1979,


estendendo-se pelas quatro semanas de campanha eleitoral. Esta durou muito mais do que as
duas semanas c meia que geralmente se reservam para campanhas eleitorais na Grã-Bretanha,
por causa a) do fim-de-semana da Páscoa e b) de o anúncio das eleições ter sido dado com
mais antecedência do que é habitual. A cobertura da BBC estava centrada no seu Centro de
W est London, onde foi reservada uma área de trabalho especial para esse fim. Estava separada
da Redacção normal que continuava a produzir os vários boletins noticiosos não eleitorais
transmitidos durante o dia. A área especial, ou a «oficina», como, significativamente, era
chamada por aqueles que lá trabalhavam, era composta por aproximadamente 50 membros do
pessoal de informação da BBC, que iam desde os dactilógrafos, os copy editors, os subeditors
e os organizadores de informação aos vários repórteres e analistas, incluindo o então editor
politico. O produtor executivo encarregado de toda a operação era o editor adjunto do noticiá­
rio.
A produção desta «oficina» consistia em três «pacotes» de notícias da campanha, trans­
mitidos nos boletins das 12.45, 17.40 e 21.10. Os dois boletins diurnos tinham 15 e 20
minutos de duração, enquanto o boletim nocturno durava 30 minutos, mais cinco do que era
hábito em período não eleitoral. Embora os conteúdos dos pacotes da campanha variassem de
um dia para o outro, eles geralmente assentavam em três tipos de material de proveniência

194
m a m e s a a p r o a u ç a o jo r n a lís tic a e le ito ra l, u m d e s te s d iz ia re sp ei
ã itic a t q u e s e o b tin h a e n tre a « p e r ife r ia » d a c a m p a n h a , is to é ,
:o s o p e r a v a m , e o « c e n tr o » d e p r o d u ç ã o o n d e o n o tic iá r io et
e s te m o d o d e id e n tific a r o c e n tr o e a p e r ife r ia p o d e p a re c í
r c r s ã o d a « v e r d a d e ir a » o r d e m , u m a ■vez q u e o c e n tr o d a a c tiv
a lític o s a c tu a m . A c a r a c te r ís tic a m a is s ig n if ic a n te d a p e r if e r ia
e n tr a d o . I s to é , o s lu g a r e s e m q u e o p e s s o a l d a in f o rm a ç ;
i e r a m r e d u z i d o s c e r a m r e p e tid a m e n te r e v is ita d o s n u m a b a
r a m q u a s e u n ic a m e n te d o s q u a r t é i s - g e n e r a i s o n d e o s t r ê s p ri
l a m e n t e a s s u a s c o n f e r ê n c ia s d e i m p r e n s a , d a s c i d a d e s q u e
p a r a p a s s e a r à ta r d e , e d o s s a l õ e s o n d e e l e s s e d i r ig i a m a
oitc.
:r coberto um leque mais vasto de discursos vespertinos, rr
rte p o r causa dos limites no núm ero de unidade de equi]
>s aos com ícios pelo país, m as principalm ente porque
a m an ter-se em cim a do que Jam es C allaghan, Margc
a oferecer. C om o um produtor nos disse: «O problem a c
tentam os afastar deliberadam ente de u m dirigente partidi
r alg o significante.» A ssim , a tentativa (nas p alavras de
sp e c ta d o r o m ais d etalh ad am en te possível o m o d o conu
m larg a m edida, cen trad o num n ú m ero lim itad o de lo
v isto a p a rtir d a p ersp ectiv a d o jo rn a lista , o centre
nrín nnn en tre a b alb ú rd ia de d isc u rso s e a titu d e s po lít
partidos. Estas eram presididas pelo dirigente máximo do respectivo partido, coadjudado por
cerca de meia dúzia de outras figuras, escolhidas de acordo com as questões que esperavam
debater no dia respectivo. As conferências tinham lugar nos quartéis-generais partidários na
parte central de Londres e eram transmitidas dircctamente para o Centro de Televisão, onde
eram exibidas em monitores e gravadas para se retirarem excertos. Devido às conferências de
imprensa dos trabalhistas e dos conservadores serem marcadas para a mesma hora, alguns
elementos do pessoal da informação tinham de estar de olho no monitor trabalhista enquanto
outros viam o conservador. (A conferência dos liberais era logo a seguir.) Caneta e bloco na
mão, tiravam notas do que se ia passando, do mesmo modo como se estivessem presentes
fisicamente nas conferências. Isto não quer dizer que a BBC se afastasse das próprias confe­
rências. O editor político estava gcralmcnte presente numa delas, enquanto um outro repórter
assistiría à outra. Ambos regressariam ao Centro de Televisão logo que as conferências de
imprensa chegassem ao fim.
Procedimentos semelhantes tinham lugar durante a tarde e a noite. O material do
passeio da tarde era canalizado para o Centro de Televisão, principalmente na forma de uma
breve «estória» escrita e levada a cabo pelo repórter local. A probabilidade de os assuntos das
conferências de imprensa e de os passeios serem utilizados no principal boletim da noite
dependia, naturalmente, da disponibilidade e da noticiabilidade de outro material. As decisões
acerca destes tinham, por isso, que esperar até que a fornada seguinte de declarações dos
dirigentes partidários chegassem à noite. Aquelas que os partidos esperavam que fossem
cobertas no noticiário eram feitas por volta das 19/19.30 por causa dos deadlines. Uma vez
que o noticiário da noite da BBC era transmitido às 19.30, os seus produtores estavam em
ligeira desvantagem nesta fase da cobertura em relação aos seus concorrentes do noticiário da
Indcpendent Television, cujo principal boletim noticioso ia para o ar às 22.00. Embora «tendo
primeiro a noticia» daquilo que os dirigentes partidários haviam dito, o sta ff da BBC tinha
menos tempo para a selecção dos excertos e a preparação dos comentários a propósito, e o
editor político era algumas vezes visto ainda a trabalhar o seu texto apenas a 20 ou 30 minutos
antes de ir para o ar.
Advance releases das passagens-chave dos discursos de princípio de noite dos políticos,
geralmente chegavam à «oficina» pouco antes de começar. Estes eram rapidamente vistos a
fim de identificar os principais temas a serem realçados e de localizar as passagens ilustrativas
que pudessem ser destacadas para inclusão no boletim. Todavia, o discurso integral era
passado em monitores na área da «oficina» e ouvido através de auscultadores pelos vários
membros da equipa de produção, que geralmente trocavam comentários lacônicos acerca das
passagens marcantes e aproveitáveis. Embora um repórter da BBC estivesse sempre presente
no comício, a falta de tempo e o facto de os produtores na «oficina» estarem na posse do
material em bruto significava que eles tinham o poder, se não mesmo a obrigação, de preparar
as reportagens acerca dos discursos do fim de tarde com pouca ou nenhuma ajuda dos
repórteres no local. Tendo tudo à mão por volta das oito, mais coisa menos coisa, eles podiam
então pôr as várias «estórias» do dia naquela sequência que melhor reflcctia a sua importância
relativa, editar os extractos de modo a não exceder o tempo disponível para o segmento
eleitoral no boletim, e finalizar os elos de ligação que transportariam o telespectador de uma
«estória» para outra.
Descrevemos esta rotina diária para ilustrar, com algum detalhe, um aspecto crucial do
preocesso, nomeadamente até que ponto a cobertura da campanha era conduzida a partir do
«centro», como realmente era, mais do que a partir da «periferia». Embora nos jornais a
Redacção seja o local onde a forma final é dada ao produto noticioso, os materiais com os

196
içao de observar cs acontecimentos a serem relatados a medida que sc desenrolava
raras ocasiões é que essas experiências eram mediatizadas por um repórter an;
garem ao Centro. A um nível, tudo isto podería ser encarado simplesmente comc
stão técnica. A tecnologia electrónica possibilita que o pessoal na base esteja em coi
:cto com os acontecimentos da campanha, ou melhor, traz esses acontecimentos di
nte para a Redacção. M as a mudança de tecnologias tende também a alterar os hábit
>alho dos respectivos trabalhadores, assim como os produtos que deles emanam.
Muitas consequências pareciam provir de uma rotina de cobertura «centralizada»
■cessa os materiais regularmente recebidos de poucos postos, repetidamente visitado
i feria. Primeiro, o papel de repórter no terreno estava consideravelmente reduzidc
portância, se não mesmo totalmente eliminado. O que tem sido directamente afectadt
tendência do editor na sala de Redacção, dos juízos e impressões dos repórteres. Nat
:nte, as conferências de imprensa não podem ter lugar apenas perante operadores de d
alguém tem de estar presente para colocar questões. Contudo, o editor político que ass
ima das conferências todas as manhãs, no seu regresso à base, não escrevia qualquer re
acontecimento. Em vez disso, trocava impressões com os editores e produtores do Cer
e também eram testemunhas oculares, se bem que à distância. O seu objectivo ao assisti
nferências não era relatar o que havia transpirado, mas o «experimentar em primeira m:
ia se familiarizar com as rcacçõcs dos outros repórteres presentes, e para «sentir a atmo:
». Evidentemente que o repórter integrado na comitiva de um dirigente partidário est
:upado mais activamcnte a dar forma a certas «estórias» para contar mais tarde. Mas es
jtícias dcbruçavam-sc principalmente sobre a parte mais folclórica da campanha, plane;
:los conselheiros de publicidade partidária de modo a fornecer aos radiodifusores cenár
lllcn°s, tanto direito a resneito ~ ^ 1 ‘ num coro>c n d í °s outros
oizer que os juízos políticos não contavam o a m n à T ^ f 065 C° ‘110 Ck '•)' Óprio' Isi0 n5°
>ocs, pan.cularmente quando as escolhas tinham à ^ ' ^ awcblvam claramente muitas
* 1 » p » » ™ „ TOi “ „ r m » r , cni " “ “ n “ * < * * ™ -
fpira, como o editor político tivesse sorrido dos noulros campos. Era como se
ete.nst.tcasdo notic'àno teievis vo c tivesse aceitado a
f ^ ^ socializ'1 lèo às cicigências
« m e t a . Numa ocasião, dissemos e i S S T S ^ B de
prensa e escutara excertos de uma terceira Imnro -P C° assisl' ra a duas conferência*
» » Vtsào mais d a m do „ se a ° « « ; * « . de ,« e a p e s i

io, e os políticos c ° Í S d d S w e s d " m p i o h “ “ 05 "d io d ifu so tes, p „ , „


pessoal da infomtaçào a trabalhar no Cemco n a r-d ’ ^ ' “ “ " « e bastanto distam
fcbnl e embriagante da campanha olhando T relat'vamcntc isolado da atmos
ssprendtda que se podería manter no àn K “ acontcc>m cntos com a p crsp e c th T m

Z o \ w l r ^ f ° P tr^ ‘e Cra SU^ reendentemCMrdifcÍnpoardveda “ <<0f'cina>>' lsl° Pod,


° 1VCr-se completamente naquilo que estava , ’P VCZes’ para a'guns deles consei

s s r r - ^ ís s íiíír " - ^

m ÊMm Êm
'r n r n m m m í
e um dos quartéis-generais partidários acerca do discurso oa n o n c uu -
jsivel fazer qualquer filmagem antecipada, no entanto na m ensagem dia.
ac vocês querem é de três minutos e meio e começara uns ™ 0
. ter levantado para falar». Como um dos produtores nos confidenciou

«Por que c que eles não nos dizem se vai se r so b re p reço s o u qualquer
sunto? Deixam -nos num a pesição em que não sabem os q ual será o co n te ú d o ,
tentar condicionar-nos. Levam -nos a pensar se o líder está a re e sc re v e r o d ú
e modo a levar algo cm conta que já apareceu em boletins n oticiosos an terio r
isicologia desta mensagem é a de levar-nos a esperar pela peça com m u ito
ixpectativa do que a que sentiriamos de outro m odo. C om um prè-print poi
analisar os diferentes artigos desejados e compará-los entre si. M as agora ele pôs
excitados ao dizer que é o tal extracto que nós queremos. Isto pode originar que
dêmos mais importância do que se impunha. E também podem os ouvir com mc
atenção os outros cxtractos da peça. E muito provavelmente o líder fará um a pau.
fim de nos salientar o extracto que tem em mente.»

Juando perguntámos ao editor de serviço como é que o discurso seria trabalha


ideu-nos que ele e vários colegas o escutariam na totalidade e depois seleccionarian
Lue mais merecesse ser seleccionado de acordo com o seu valor-notícia. Todavia,
ia que se aproximava a altura de o discurso começar, e a assistência colocou os ausculi
; para o ouvir, instalou-se uma profunda atmosfera de expectativa na «oficina». No iníc
omicio o líder ,01 apresentado por um dignitário partidário local, após o que começou
f0ITOa, Par Sada’ aCCrCa 41 regiSo do País que estava visitando e dos distinte
í t o u - s T p a r o QÍ-TraSerh ClClt0S ^ * * * * * CÍrCU'°- Ent5° ’ de forma ba" brusc;
"7 " pa,ta 0 c'Ut- cra obviamente a passagem para a qual o Centro de Televisão for
m a c o n fc rê n d a ^ P C ' ° SCU riva Í
f o rm a d o , d e p ô r e m r i s c o a p a z i n d u s t r ia l o H - ’ - C 0 rm a . v l8 ° ro s a > a c u s o u -o d e e s ta r m a l
m u it o s g r u p o s d e t r a b a lh a d o r e s - u m e r r o c n ™ c u " lp n r ? s P ro m e s s a s fe ita s p r e v ia m e n te
a m p r e j u í z o i n c a l c u lá v e l a o p a ís » D a a u e l e m n ? UC’ * ^ c o r r i S 'd o , p o d e r í a c a u s a r
,° c s P i n l ° d e n i n g u é m d e q u e a p a s s a g e m q u e a m ó ° h m 1 d ‘a m e h a V ’a q U a l q u e r d á v id :‘
le s ta q u e n o p a c o te n o t ic i o s o d a n o i te L o k o a n e r h ^ ^ 3 p r in c íP io - 'c r i a g r a n d e
l u s c u lta d o r c s n a « o f ic i n a » f o r a m 5 . . . . 8 ° U a ° f im d e s s a p a s s a g e m , t o d o s o s
Unia tal rotinizaçào deve ser altamente conveniente para os radiodifusores, e além disso
facilita presumivelmente os problemas tácticos dos partidos relativos ao plar.eaniento publici­
tário. Contudo, o material significante de campanha pode-se perder porque está fora do
alcance do cordão umbilical. E as necessidades dos votantes de esclarecimento e de razões
para se envolverem podem também não ser correspondidas.

A lei do equilíbrio eleitoral:


a distribuição da atenção jo rnalística

O assistente principal do director-geral da BBC rematou um relato das políticas de


cobertura eleitoral da corporação, proclamando que «a imparcialidade é tudo!» (Hardiman-
Scott, 1977). A realidade, naturalmente, é mais complexa: também se aplicam outros princípi­
os, e o compromisso da imparcialidade não se consegue sem custos reconhecidos e por vezes
lamentáveis. Mesmo assim, realça a segunda influência formativa na elaboração do noticiário
da campanha que nós notámos em 1979: a determinação dos produtores em conseguirem um
«equilíbrio» apropriado ao relatarem as actividadcs dos principais contendores eleitorais.
Isto era uma fonte de preocupação sempre presente para os fabricantes de noticias que
observámos, guiando os seus esforços num emaranhado de selecções, apresentações e decisões
de timing. A sua preocupação com o equilíbrio era um reflexo, em parte, das suas responsabi­
lidades legalmente definidas. A. obrigação de apresentar assuntos controversos com a «devida
imparcialidade», a qual está inserida na Lei da Radiodifusão Independente, e que após a sua
aprovação foi também aceite pela BBC, está impressa em termos gerais e não estipula quais­
quer deveres específicos. O factor mais urgente para se ser imparcial reside na consciência
pragmática dos radiodifusores de que, quando as principais forças parlamentares, pelas quais
são responsáveis, estão embrenhadas numa luta pelo poder, eles não poderem expor-se à
crítica de terem influenciado o resultado. De facto, uma alegada falta de equilíbrio é a razão de
queixa utilizada mais vezes no campo político contra os radiodifusores, que esteve na base de
um protesto oficial do Partido Trabalhista em consequência das eleições de Outubro de 1974.
Além disso, muitos radiodifusores britânicos interiorizaram o princípio da imparcialidade.
N as palavras de um repórter do telejomal que nós entrevistámos num estudo anterior (Blumler,
Gurevitch e Ives, 1978):

«Quando vejo toda aquela parcialidade a emergir espalhafatosamente dos jo r­


nais que cobrem os assuntos políticos, sinto-me grato por o nosso sistema de radiodi­
fusão ter, pelo menos, aquela qualidade maravilhosa de procurar ser imparcial. O que
acontece, afinal de contas, se algures, entre as numerosas abordagens da cobertura
política, não se conseguir encontrar uma forma de neutralidade?»

Mas qual o significado de «equilíbrio», e como é que se consegue manter? Hardiman-


-Scott (1977) faz um relato clássico da política da BBC nesta matéria, incluindo alusões
reveladoras dos dilemas que se deparam ao pessoal da informação que tem de o aplicar:

200
gravaaos ae aiscursos ac pomicos nos ooicnns nonciosos, enwo atzem os que t
de conseguir um equilíbrio justo entre os partidos políticos. Assim, no decun
campanha, seria muito possível que tivesse sido atribuída a mesma quantidac
tempo de antena nos boletins noticiosos aos cxtractos de discursos de políticos ti
lhistas ou conservadores, e muito menos tempo aos discursos de políticos libe
Utilizamos a partilha dos votos totais obtidos pelos partidos nas anteriores elei
gerais, como guia para a divisão do tempo destinado aos extractos dos seus discu
nos nossos boletins noticiosos.»

sta passagem resume graficamente as aspirações profissionais dos jornalistas da BI


.trangimentos sob os quais trabalham, e a presumível «solução» para o seu dilema
rio é regido por valores-notícia; a necessidade de «equilíbrio» é apresentada como
to extra que força a um «compromisso»: a «solução» está na adopção de um siste
létrico para a distribuição dos tempos de cobertura aos partidos concorrentes, com b;
dições «objectivas» das suas forças relativas no país.
ista interpretação quantitativa de equilíbrio deve ser realçada, mas não é legalmei
ta. Ela é o resultado de fórmulas imaginadas pelos próprios radiodifusores, embora
>s agora esperem que eles as respeitem com completa fidelidade. A sua principal funç;
imivelmente defensiva, para se protegerem contra acusações de parcialidade. De fact
iressões de alguma suposta insatisfação partidária com o modo como ocasionalmen
m a ser cobertos foram discutidas entre os repórteres, que referiram certas contramedid;
)diam ser tomadas como resposta. Nestas circunstâncias, a grande força do equilíbri
s do cronômetro vem da sua especificidade calculável. De todas as operacionalizações d
pio, este é o mais mensurável e por isso o menos controverso.
Evidentemente, a política levava em conta um elemento de flexibilidade: a atenção n;
i quantitativamente equilibrada era para ser ao longo da totalidade do período de campa
: não invariavelmente em cada boletim particular. A Drecisão com aue estn meta fo
n ta g e m d o p a c o te e le ito ra l d a q u e le d ia . D e fa c to , h a v ia , p e lo m e n o s , tr ê s r a z õ e s p a r a se
a r s e r e q u ilib ra d o q u a n tita tiv a m e n te n u m a b a s e d iá ria . P rim e iro , d a v a b o m a s p e c to ; o
iu to d iá rio s e ria m a is d e fe n s ív e l s e a ta c a d o . S e g u n d o , u m d e s e q u ilíb r io f a v o re c e n d o u r r
id o n u m d e te r m in a d o d ia s ó c r ia ria u m a c o r re s p o n d e n te (e p o s s iv e lm e n te d if íc il d e c n c o n
n e c e s s id a d e d e d a r u m a p r e p o n d e r â n c ia e x a g e r a d a a f a v o r d o s s e u s r iv a is n u m d i
e q u e n te . E , te r c e iro , o e q u ilíb r io d iá r io e r a u m a m a n e ir a d e e v ita r o e n v o lv im e n to nu i
iz e s f o r ç o fin a l p a r a r e c u p e r a r o e q u ilíb r io to ta l n o s d ia s d e e n c e r r a m e n to d a c a m p a n b
tu a lm e n te d e c is iv o s . O s a b o r d e a lg u m a s d e s ta s c o n s id e r a ç õ e s e s t á b e m p a t e n t e r
r a s d e u m e d i t o r d e s e r v iç o , a n g u s tia d o c o m o d i l e m a d e in c l u i r o u n ã o , n o p a c
r a l d o d ia , u m e x c e r t o p o u c o ú til d o P a r tid o T r a b a lh is ta ;

«Acabei por aceitá-lo, em parte porque, quando verificám os a sua dura


descobrim os que havia um perfeito equilíbrio entre trabalhistas e conservadores,
o problem a é que o Partido Trabalhista dará conferências de im prensa n o ftr
-sem ana, e Jam es C allaghan falará esta noite e no sábado à tarde, enq u an to M a
T hatcher não. A lém disso, C allaghan com eçou a fazer cam p a n h a m a is ced
sem ana, e esto u preocupado. E stou preocupado p o r não estar em c o n d içõ e s d<
sen ta r m aterial trabalhista vs. co n serv ad o r d urante u m p erío d o m a is lo n g o d a <
nha. P o r isso su rg iu -m e a questão de ab an d o n ar a p eça (trab alh ista), q u e e ra
san te, m as n ã o d e fixar as aten ç õ es, o que m e d aria m a is c a m p o d e m a n o l
c o n se g u ir um eq u ilíb rio m a io r m a is tarde. D ecid i n ã o o fa z e r e e sp e ra r q u e h
c o isa s d o s c o n se rv a d o re s q u e eu p o ssa p ô r n o ar. C re io , n o fim d e c o n ta s , c
um e q u ilíb rio e strito de 5:5:3 n o q u e d iz re s p e ito a o s trê s p a rtid o s re fe rid o s .
-noucia, por vezes, lennam cie ser sacnncaaos para que w.l se c;
radiodifúsores como os políticos compreendiam que havia outras t
Uma questão levantada pelo Partido Trabalhista em 1974 dizia n
mento na qual os dirigentes políticos apareciam nos pacotes el
ganhar, sempre que possível, a «iniciativa» na cobertura noticiosa
impressão de dominar o debate, evidenciando os «seus» argumentos
defensiva. «Abrir» o noticiário pode parecer uma forma de ganhar v,
os produtores da BBC esforçavam-sc por construir uma sequência qu
que reflectissc o significado político do que tinha sido dito num d<
necessidade de fazer todas as combinações possíveis para a escolha d.
que abriría o noticiário, também era de grande importância para eles. Qi
um desequilíbrio, procuravam Jogo descobrir formas de remediar a situa.
A imparcialidade de tratamento também tinha a ver com a sensibi,
imagem dos líderes partidários, que estava a ser projectaái nos placara
isso fosse, naturalmente, mais difícil de avaliar. Para ilustrar essa preocuj
discussão, o produtor executivo disse ao editor de serviço que ele devia

«ver alguns dos instantâneos já utilizados de David Steel. Os


-se do fado de ele parecer mal barbeado. Vê se consegues arranjar u m ,
Eles queixam-sc também de que a grandeza das assistências não c exi
mente precisamos de mais alguns instantâneos das reacções da assistí

O equilíbrio também se podería conseguir assegurando q u e o n ú m ero di


noticiário de cada líder partidário fosse mais ou m enos igual. D e facto, o líc
raramente aparecia num boletim sem ser p re c ed id o ou seg u id o p o r um c lip d a //«
dora. Nesta contagem, relativa às e le iç õ e s de 1 979, os liberais p areceram ter muil
do que a que poderíam esperar, com a aplicação rígida da p ro p orção d e 5:5:3.

N ú m e r o d c a p a r iç õ e s d o s t/d e re s p a rtid á rio s no n o ticiá rio eleitoral


( A d a p ta d o d e P ils\rorth, 1980)

/ BBC 1 j IT

Trabalhista (Callaghan) 39 44
Conservador (Thatchcr) i 40 / 45
Liberal (Steel) 1 42
“ /
Este critério preocupou os radiodifúsores no início da campanha de 1979, quaná
Eles receavam ter de «exagerar» a posição dos tones de modo a manter o equilíbrio, tendo de
«distorcer os valores-notícia por razões puramente técnicas». O produtor executivo acrescen­
tou uma nota jocosa, meditando acerca do «que aconteceria se os Tories só fizessem campanha
nos últimos dois dias das eleições. Nesse caso, tentaríamos meter todo o tempo que lhes estava
concedido para esses dois últimos dias?»
Refere-se que este executivo encarava as aparições dos tories no noticiário mais como
algo «concedido» do que «ganho» através da aplicação de valores-noticia. Felizmente para os
radiodifúsores, todavia, após um começo algo momo, os conservadores saltaram rapidamente
para a luta, dando fmalmente a Thatcher tanta evidencia como a que Callaghan recebia da
parte dos trabalhistas.
Qual o balanço geral que podemos fazer da abordagem escrupulosamente imparcial da
reportagem da campanha por parte dos radiodifúsores britânicos? Embora salvaguarde os
partidos políticos de um a cobertura manifestamente tendenciosa e assegure a atenção sobre a
maioria dos seus temas preferidos, ela também constrange a construção do noticiário eleitoral
em, pelo menos, três casos principais. Primeiro, o princípio de equilíbrio está em tensão com o
critério de objectividade. Mesmo que aconteça que um partido seja muito mais activo do que
outro, a televisão tenderá a envidar todos os seus esforços para ignorar e ocultar o facto.
Segundo, circunscreve o papel dos valores-noticia no processo de selecção - ainda mais do que
a linguagem de «compromisso» da politica oficial. Os jornalistas não se podem dar ao luxo de
se guiarem predominantemente por aquilo que seria mais interessante e significante para os
espectadores. Em vez disso, o seu ponto de partida deve ser a necessidade de fazer, a partir das
actividadcs do dia dos trabalhistas, conservadores e liberais, aquela particular mistura equili­
brada que pode ser prontamente combinada num pacote global facilmente inteligível. Terceiro,
o equilíbrio molda inevitavelmente a forma das reportagens eleitorais. Uma vez que as
«estórias» eleitorais têm de ser construídas a partir de mensagens dos trabalhistas, conservado­
res e liberais, os produtores estão continuamente a fazer face ao problema de decidir o modo
como justapor os ingredientes multipartidários que geralmente são obrigados a apresentar: por
outras palavras, o modo de os meter num pacote profissionalmente satisfatório.

Montagem: a elaboração do pacote, «agenda-se/í/ng» (*)


e que mais?

Esta última preocupação está intimamente relacionada com um terceiro determinante


importante da cobertura eleitoral que repetidamente nos chamava a atenção: a preocupação da
equipa da « o ficin a» de d ar form a a um conjunto de pon to s que, em virtu d e da
complementaridade do excerto, a incorporação num tema geral, e o fornecimento de elos de
ligação adequados daria a impressão de «unidade». Era como se o fluxo dos materiais de
campanha, em bruto, apresentasse perigos a serem evitados e metas profissionais a serem
atingidas. O primeiro provinha da multiplicidade de comentários e incidentes que em principio

(•) Nota de tradução - O conceito de «agenda-jerr/ng», introduzido pelos comunicólogos norte-americanos,


Maxwell McCombs c Donald Lewis Shaw (1972), avança a hipótese de que a influência («efeito») que os media
têm sobre a opinião pública consiste em impor os assuntos de preocupação, os temas de importância da actualida-
de, c não a maneira de como pensar sobre esses assuntos (a visão mais tradicional do poder dos media, dominante
nos anos 40 através da «teoria hipodérmica»).

204
poderíam ser utilizados. Vistos a essa luz, os principais pecados a ser evitados eram a falta de
rigor e a falta de ligação da apresentação. Vista de um modo mais positivo, todavia, a arte de
editar o noticiário de campanha era encarada como a produção de um pacote coerente. De
facto, muito do tempo e do esforço dos editores era gasto na busca de uma linha de narração
unificadora, na qual se podiam enfiar os acontecimentos eleitorais do dia. Assim, logo que
cada novo dia de campanha despontava, começava a busca de um tema de ligação, à volta do
qual os pacotes dos vários boletins podiam ser construídos, e aos quais se podiam ligar clips de
observações de políticos.
Nos dias das nossas observações, esta preocupação com a construção temática da «estó­
ria» tomava muitas formas. Por exemplo, isso foi corroborado numa entrevista mantida com
um editorialista que, quando solicitado, no início, a descrever quais os objectivos da cobertura
eleitoral, respondeu que ela devia «retratar» o que se passava:

«das questões que forem surgindo, aquelas que aparecem por iniciativa deles devido a
acontecimentos externos, aquelas apresentadas pelos partidos, porque fazem parte da
sua estratégia... c seguir isto dia a dia c tentar discernir e estabelecer um padrão
inerente» (ênfase nossa).

Isto, continuou, era «uma coisa difícil de fazer», porque, «num dia existem possivelmen­
te dez questões levantadas por várias pessoas, talvez 20 ou 30 diferentes». Fosse como fosse,
eles tinham de «tentar estabelecer um padrão» naquilo que estava a ser comunicado. Para
ilustrar este problema, salientou que ao princípio do dia tinham sido comunicadas as taxas de
desemprego mensais. Acontecia que

«se dá muito mais atenção a elas e às questões acerca dessas taxas a serem levantadas
em discursos do que a algumas outras coisas: Mas hoje também tivemos o problema
da habitação, algumas referências a outros aspectos do desemprego e a todo um
conjunto de coisas. Não se podem incluir todas: o telespectador não as conseguiría
absorver e digerir, mesmo que o fizéssemos.»

E quando lhe pedimos para explicar como o padrão do dia era elaborado, a sua resposta
transmitiu de forma viva o quadro de um comunicador profissional que estava em sintonia
com a esperança de fornecer, de qualquer modo, um padrão:

«Nós confiamos bastante nos nossos instintos, e acendem-se luzes unicolorcs


quando são ditas certas coisas. Por vezes, não surge qualquer luz; elas não são
registadas na nossa escala. Algumas vezes, surgem luzes de cor excepcional, e senti­
mos que elas se encaixam exactamente nos nossos padrões, quer sejam novas quer
sejam maneiras mais adequadas de dizer algo que se está à espera de ser dito.
Sabemos que estamos à espera de uma resposta dos conservadores relativamente a um
certo aspecto do desemprego ou a um certo aspecto da sua atitude em relação ao
Serviço Nacional de Saúde, c não ficamos satisfeitos enquanto essa resposta não é
dada. Pômo-nos a ouvir um discurso acerca de algo e, de repente, aquilo de que
estamos à espera, que não tem nada a ver com as nossas próprias preconcepçõcs

205
políticas, surge. É satisfatória, tem uma extensão adequada, e é talvez aquilo que
devemos inserir, até porque encaixa perfeitamente no nosso padrão. Utilizamo-la e
apresentamo-la. É adequada; disso não temos qualquer dúvida.»

Este não foi um mero modo pessoal de racionalizar o seu próprio papel no processo de
produção. Segundo as nossas observações, essa elaboração do pacote surge em todas as fases
do dia de campanha. De manhã, por exemplo, a frustração em relação à marcação para a
mesma hora das conferências de imprensa dos conservadores e dos trabalhistas foi expressa,
numa ocasião, desta maneira:

«Não é apenas uma questão de termos de repartir a nossa atenção entre elas.
Melhor, é que conferências de imprensa simultâneas retiram-nos a hipótese de pegar
naquilo que um jornalista ouve numa conferência e coloca como questão na outra -
uma forma de confrontar as duas posições.»

De facto, para contrariar esta dificuldade, um repórter da BBC ao assistir a uma das
conferências de imprensa utiliza, por vezes, um auscultador em miniatura para transmitir o
desenrolar da outra; isto possibilitava ao repórter fazer acusações que estavam a ser feitas por
um partido, em forma de pergunta, ao líder do outro partido - para obter, como nos disse mais
tarde, «excertos complementares acerca do mesmo tema».
Mais tarde, quando os editores tinham um número de informações para dar e estudavam
os vários alinhamentos possiveis, deixavam escapar comentários do gênero: «Vamos lá ver
como é que as coisas se podem ligar umas com as outras»; «As coisas estão a começar a tomar
forma»; «Fazemo-lo no tema dos preços - com as acusações e as refutações entre os partidos».
Mas uma vez que não havia um único tema que se pudesse aplicar a todas as «estórias»
disponíveis, tinha de se dar uma maior atenção ao teor integrativo das frases e expressões que
ligavam as várias peças («itens»). Como salientou um produtor, depois de um envolvimento
particularmente exaustivo em tal exercício:

«Nós, os jornalistas, tendemos a pôr a funcionar uma forma especial de lógica


quando trabalhamos sequências entre assuntos. Não sei realmentc se isso significa
alguma coisa para os telespectadores. Por vezes vou para casa c a minha mulher diz-
-me: 'Que maneira mais maluca que hoje escolheste para saltar de uma coisa para
outra!'»

Finalmente, as reuniões de balanço que tinham lugar depois de se visionar o produto


acabado, no aparelho de televisão da «oficina», geralmente centravam-se no êxito ou fracasso
da elaboração dos «pacotes». Numa dada ocasião, por exemplo, um produtor queixou-se de
que «ainda não havia nenhum tema para o pacote eleitoral. Estava bem apresentado, mas
muito fragmentado». O editor político também confessou: «Foi a edição mais fragmentada cm
que tomei parte até hoje». O produtor executivo não estava tão aborrecido: «Não é razão para
nos recriminarmos tanto. Não tínhamos nenhum tema c tínhamos que dar espaço a muitas
questões obrigatórias, mas amanhã será diferente.» No entanto, o editor político estava
inconsolável: «Faltava ali qualquer coisa, apesar daquilo tudo. Dever-se-ia ter procurado
descobrir um tema que servisse de ponte.»

206
Como muitos destes comentários mostram, uma «boa elaboração dos pacotes» era defi­
nida por certas normas que nem sempre eram conseguidas na prática. M as ao esforçarem-se
por editar o noticiário eleitoral segundo esses padrões, o que é que os jornalistas de televisão
estavam a tentar fazer pela campanha? Esta questão é de difícil resposta porque o seu papel é,
ao mesmo tempo, passivo c criativo. O volume de materiais que eles processam têm origem,
não nas suas prioridades pessoais mas nas fontes partidárias. Um repórter político experiente
chegou a dizer-nos:

«Estamos realmente no negócio da transmissão de propaganda partidária. Se eles


quiserem dar ênfase a uma coisa como... (aqui ele mencionou uma questão salientada
numa das conferências de imprensa dessa manhã), então é algo que devemos levar
em linha de conta.»

No entanto, eles também se esforçam por impor uma estrutura nos materiais que afiuem
à «oficina», a qual rcflccte a sua percepção do modo como os elementos mais proeminentes
podem ser encaixados no quebra-cabeças eleitoral do dia.
Será que isto conduz a um papel de «agenda setting » realizada pelos produtores das
notícias televisivas? Eles negá-lo-iam, presumivelmente porque, aos seus olhos, este termo tem
um significado de intervencionismo activo, como se estivessem a ser acusados de promover
assuntos que eles, pessoalmente, consideravam significantes, apesar ou m esmo em contradição
com outros assuntos em que os partidos desejavam insistir. Contudo, as tarefas de «elaboração
de pacote», que levam a cabo, podem ter consequências formativas, tanto para o modo como a
campanha é comunicada ao público como para o modo como os partidos políticos planeiam as
suas estratégias de campanha.
Primeiro, o processo editorial de selecção, comparação e justaposição de afirmações, que
podem ter sido feitas independentemente umas das outras, dá geralmente uma versão extrema­
mente «condensada» da campanha. Ao mesmo tempo, quando a equipa testemunha numero­
sas iniciativas e monitora várias argumentações, ele possibilita ao newsreader abrir um pacote
eleitoral com um a afirmação lacônica do gênero: «Os preços foram a qucstão-chave nas
conferências de imprensa de hoje.» Uma tal decisão de salientar «os preços» de entre as
numerosas questões a ser expressas e sublinhá-la como tema central do dia, provém da
necessidade que o jornalista tem de um «gancho» (hook), «cabide» (peg) ou denominador
comum, viáveis, e não dos seus próprios valores políticos. No entanto, o processo editorial
molda indubitavelmente a campanha, se não através da composição independente da agenda,
mas no sentido duplo de: a) expurgar a campanha eliminando o material que não pode ser
encaixado numa «estória» concisa, c b) cristalizar a campanha, trazendo-a para um ponto
convergente.
Segundo, um a das mais importantes consequências da elaboração do pacote do noticiário
eleitoral é a amplificação dos extractos escolhidos para transmissão. Uma visão tradicional do
processo de selecção nos meios de comunicação de massas interpreta-o como uma operação de
gatekeeping. Segundo essa visão, a selecção envolve meramente decisões acerca de quais os
pontos de vista que devem ser deixados passar através dos «portões» (gates) dos media e quais
devem ser excluídos. Todavia, esta ignora a amplificação resultante de um a pequena porção de
um discurso numa mensagem total. Não é que a atenção esteja apenas centrada no extracto
radiodi fundido, mas é que este vem a representar, para o público telespectador desse dia, a
essência e a peça fulcral da mensagem de origem partidária.

207
Terceiro, contrapondo continuamente a posição de um partido acerca de unia questão
com a dos seus rivais, os jornalistas parecem estar a promover a comunicação interpartidária.
Quando interrogámos um produtor acerca da razão porque era importante p rocurar um certo
grau de «entrelaçamento» entre os clips dos porta-vozes dos partidos rivais, respondeu:

«Porque, de outra forma, um partido estará a fazer declarações em Smith Square


(local onde se encontravam, na altura, os quartéis-generais tanto do Partido Traba­
lhista como do Partido Conservador) independentemente da outra parte, com nenhum
deles a relacionar o que tinham a dizer um ao outro. Se nenhum deles atacasse os
pontos do outro, a campanha seria muito árida.»

E quando lhe perguntámos se ele e os seus colegas estavam a ajudar, na verdade, a uma
confrontação entre os partidos, respondeu:

«Não é bem assim. É mais por causa da coerência da argumentação. Nós


queremos tentar dizer não só que isto está acontecendo e aquilo está acontecendo. Isso
seria algo de amorfo e sem forma.»

É como se os jornalistas estivessem a tentar criar um diálogo entre os partidos que, de


outro modo, podería não existir, c a levar os políticos a comentários e acções que, de outra
forma, poderíam não ocorrer. Os jornalistas televisivos ajudam, assim, a orquestrar a campa­
nha, mesmo não tendo escrito a partitura original.
Quarto, a campanha tende a ser servida ao público sob a forma de um «assunto por dia»
- um a vez que é pouco provável que os materiais hoje mais «apresentáveis» tenham alguma
coisa a ver com o tem a que dominou o pacote do dia anterior. Atribuímos, algures, esta
característica da campanha de hoje em dia aos esforços dos publicistas partidários para captar
a atenção dos meios de comunicação de massas com um novo assunto todos os dias (Blumler,
Gurcvitch e Ives, 1978). Da análise precedente pode-se concluir, todavia, que a abordagem de
um-assunto-por-dia da campanha eleitoral é um resultado da adaptação mútua dos políticos e
do pessoal dos media na condução e comunicação da campanha ao público (Blumler e
Gurcvitch, 1981).
Quinto, é evidente, do muito que se disse em cima, que os radiodifusores encaram a
elaboração coerente do pacote como uma expressão da sua responsabilidade de servir as
necessidades de comunicação eleitoral do seu público telespectador. A produção de «estórias»
tematicamcnte uni ficadas, revelando um padrão nos acontecimentos, deve ajudar os membros
do público a seguir a campanha mais facilmente e a descobrir-lhe mais significado. Como um
jornalista disse:

«Estamos sempre a agir em nome do nosso público. Pelo menos, é o modo como vejo
o problema. É muito mais inteligível se agarrarmos este, aquele e aqueloutro factos e
os utilizarmos numa ordem completamente diferente da original, pois elas ilustram
a representação de um a argumentação.»

M as se, continuou, «relatássemos tudo do modo como aconteceu, o público ficaria


extremamente aborrecido, e a comunicação não se estabelecería. Quero dizer que estamos no
métier da comunicação».

208
:sse cuidadosamente ordenada e impossível de refutar. Contudo, esta justincr.çao ignora
características essenciais do local de trabalho dos jornalistas. Em primeiro lugar, operan-
partir da sua base na «oficina», estão muito afastados das verdadeiras necessidades de
micação dos telespectadores. Não têm qualquer meio de dizer se os pacotes que eles
>ram estão realmente a ser recebidos pelos telespectadores como elementos úteis na
ficação dos assuntos eleitorais. Em segundo lugar, devido ao rígido controlo de tempo que
iarte integrante do formato do boletim noticioso (nas extensões dos extractos de discursos
assuntos e do pacote no seu todo), qualquer «diálogo» que eles consigam criar serr
itavelmente breve e frouxo, e correrá o risco de reduzir assuntos complexos a um rápide
i e tensa troca de slogans vivos, frases curtas, metáforas, alegações e réplicas.
Os profissionais da informação tendem a ver-se, então, como «empacotadores» ben
irmados c engenhosos, perserutando os materiais em bruto, fornecidos pelos políticos
ccionando aqueles extractos que, na sua opinião, são significantes e se prestam a st
dos e justapostos a outros comentários (opostos, de preferência). Através destas ligações
aposições eles tentam contar uma «estória» e construir um pacote coerente. Os académicc
: estudam os media entram, por vezes, nesta questão, e rotulam os resultados do proces;
no «agcnda-seHúig». Os editores e os repórteres, todavia, acham difícil ver o seu traball
;scs termos. Talvez a sua hesitação seja simplesmente um exemplo da dificuldade que tod
actores sociais têm em identificar as funções latentes (ou consequências não intenciona:
seu comportamento. M as se os radiodifusores fossem designados mais «co-orquestradore
campanha do que «agenda-seMers» talvez eles estivessem dispostos a reconhecer a respe
bilidade e a aceitar a honra.

m conclusão: aspirações e constrangimentos

Neste capitulo, procurámos identificar certas características salientes da produção


aticiário de campanha para televisão, do modo como observámos o processo na BBC, durr
5 eleições gerais britânicas de Abril e Maio de 1979. Schlcsinger (1980) delineou rece:

íente várias vantagens de estudos «etnográficos» da produção jornalística, em termos


oincidem, cm parte, com a nossa própria atracção por esta abordagem, embora eles
sclareçam completamente. Primeiro, argumenta que a observação teoricamente informad
omalistas a trabalhar devia clarificar as origens dos padrões recorrentes do conteúdo
neios de comunicação de massas: «Todas as formas de análise externa de produtos culti
snfrentam problemas difíceis de inferência relativamentc ao processo de produção como i
Dor isso contêm um a lacuna explicável». Segundo, defende que os estudos de observ
ieviam cultivar um a mais «sofisticada apreciação da natureza complexa e ramificadj
sistemas editoriais», realçando em particular «os elementos cruciais da rotina no proces:
produção». Ao atrair a atenção para a <onediatização» da produção jornalística, esse
contradiz as teorias simplistas da «canalização» das noticias, que descrevem estas mt
noticias como um sistema imediato de retransmissão das ideologias dominantes. Tar
sensibiliza o observador para os factorcs de estabilidade e mudança nas rotinas de proc
continuamente abertos aos desafios externos e à critica e revisão internas. Terceiro, Schle
s a lie n ta m ie « a observação directa oode actuar como um importante correctivo para as t
a ansiedade dos partidos em relação à sua imagem na televisão está no seu máximo, muito
embora, por ironia do destino, os esforços dos radiodifusores para serem equilibrados não
pudessem ser levados mais a rigor do que nessa altura.
As percepções obtidas «etnograficamente» serviam dois propósitos suplementares, no
nosso caso. Um tinha a ver com a relação dos jornalistas com as suas fontes no campo do
noticiário eleitoral. Grande parte do nosso interesse teórico centrava-se na interacção entre os
políticos e os radiodifusores, vistos como co-produtores, reciprocamenie adaptáveis, das comu­
nicações políticas. Nesse contexto, as facilidades de observação ajudaram-nos a ver o modo
como a produção do noticiário eleitoral tanto reflecte corno influencia a interacção entre os
jornalistas televisivos e os elementos da campanha partidária. Além disso, fomos movidos por
uma política assente no interesse no gênero de campanha que é projectada para os telespecta­
dores como resultado das rotinas que estes dois tipos de comunicadores operam cm conjunto.
Tendo-nos empenhado, há alguns anos, na proposição do que «deveria ter mais peso (na
programação da campanha) para que os votantes achassem interessante, informativo e dirigido
às suas necessidades» (Blumler, Gurcvitch e Ives, 1978), a observação ofereceu impressões em
primeira mão de praticabilidade de um tal objectivo - dos constrangimentos organizacionais
que podem impedir a sua busca e das perspectivas de os atenuar.
De facto, grande parte da «estória» da produção do noticiário eleitoral, como nós o
testemunhámos, podería ser contada em termos de aspirações c constrangimentos. Durante o
período de observação, ouvíamos, com frequência, expressões de receio de dar certos passos
que, no fim de contas, ficavam, em grande parte, no reino das promessas. Por exemplo, no
noticiário apareceram muito menos peças pré-filmadas de análise de assuntos do que aquelas
que foram planeadas ao princípio. Dificuldades de espaço e horário frustraram esta política.
Para se fazer justiça a um determinado assunto, era necessário mais tempo do que aquele que o
sobrecarregado boletim conseguia dar. E uma vez que os editores preferiam exibir essas peças
em dias em que os acontecimentos da campanha os tomavam por tópicos, eles criavam então
para si um a indesejável, do ponto de vista profissional, duplicação de temas e oradores entre
outras «estórias» eleitorais e as análises de questões especiais. Neste caso, a responsabilidade
pela sua apresentação era transferida para um programa de actualidades ao fim da noite.
De igual modo, os radiodifusores resolveram, num dos seus postmortems nocturnos,
cortar no número de filmes de passeios dos líderes partidários que estavam a exibir, perceben­
do que tinham pouco valor-notícia inerente. A sua intenção foi desgastada pela acessibilidade
dessas «estórias», produzidas pelos políticos e os seus consultores de comunicação de uma
forma que provou ser irresistível. Apesar da falta de valor-notícia, elas, pelo menos, ofereciam
imagens movimentadas, capazes de atenuar a rigorosa dieta verbal que, de outro modo,
ameaçava dominar os pacotes da campanha. Contudo, uma outra preocupação que os produto­
res ocasionalmente expressavam era o de alargar o leque de personalidades políticas a exibir
no noticiário eleitoral: «Não queremos ter o Callaghan na televisão seis noites por semana.»
Porém, a campanha de 1979 na televisão veio a ser «muito mais presidencial do que a de
Outubro de 1974», com mais de 60 por cento da cobertura total dos dois principais partidos a
ser exibida através das declarações de Callaghan e Thatcher, enquanto no caso dos liberais o
quinhão de atenção dado a David Steel chegou aos 69 por cento (Pilsvvorth, 1980).
Todavia, a inovação principal com que se pretendia melhorar a cobertura noticiosa da
campanha de 1979 foi, indubitavelmente, a proposta para embutir os pacotes eleitorais num
circulo mais definido de análises e interpretações. Uma tal decisão política teve provavelmente

210
muitas influências, incluindo a evolução da filosofia noticiosa numa direcção mais analítica
desde as eleições «interiores; o estudo da BBC acerca das rcacções do público à cobertura, que
é levada a cabo depois de cada eleição; c as críticas daqueles acadêmicos que haviam deplora­
do a abordagem excessivamente fragmentada do noticiário televisivo da reportagem da campa­
nha (Blumler, Gurevitch e Ives, 1978; Harrison, 1975; Pateman, 1974). Mas os resultados das
extensas reuniões de balanço, realizadas pelos autores da política noticiosa e de actualidades,
no seguimento de cada campanha, também teriam desempenhado o seu papel. O relato de
Bicker (1978) da discussão nas cadeias de televisão americanas antes da campanha presidenci­
al de 1976 pode servir igualmente para caracterizar bem o clima de opinião na BBC, em
1978-1979:

«Os executivos, os produtores, os jornalistas e os correspondentes concordavam


que as coisas tinham de ser melhores do que no passado. Poucos críticos externos
estavam mais preocupados ou articulados do que os dos media em geral e do noticiá­
rio televisivo em particular.»

Consequentemente, a tarefa de fazer frente e apresentar o pacote de notícias eleitorais foi


«atribuída ao editor politico, o jornalista mais experiente a cobrir a cena política para a BBC, na
esperança de poder injectar uma forma de comentário que seria interprctativo sem ser opinativo.
Embora não estejamos em posição de declarar esta iniciativa um sucesso ou falhanço, a
partir da observação podemos afirmar, primeiro, que estava continuamente cercado de dificul­
dades e, segundo, os envolvidos raramente pareciam estar satisfeitos com o modo como
funcionava na prática. Numa primeira fase, o núcleo de editores e produtores responsável pela
cobertura ponderou o problema de fazer a análise do noticiário eleitoral na nossa presença.
«Estás contente com o teu papel?», perguntou o produtor executivo ao editor politico. «Tem
sido uma campanha muito fiagmentada até agora», respondeu este último de pronto, embora
continuasse a pensar se haveria muito a dizer em circunstâncias diferentes: «Estou, por vezes,
perante uma folha em branco e não sei o que hei-de escrever. E como se me tivessem esgotado
as palavras para dizqr.» Alguns dos seus colegas sugeriam que ele se estava a afastar das suas
funções devido à necessidade de compor as introduções às notícias, e as ligações entre elas, e
aconselharam-no a entregar o cargo a outros, concentrando os seus esforços na apresentação
de análises no fim dos pacotes. O editor político, todavia, estava relutante a renunciar a esta
tarefa. Ele preferia escrever o que quer que fosse para a câmara. Em qualquer caso, um tal
passo teria sido retrógrado, restabelecendo a verdadeira versão do papel do editor político que
eles tentavam transcender.
Mas os problemas de se conseguir uma forma mais «reflectiva» de. cobertura eleitoral
estão provavelmente enraizados em certas condições de trabalho e procedimentos dos produto­
res do noticiário, incluindo aqueles determinantes da produção da campanha que foram
analisados cm anteriores sccções deste capítulo. A um nível mais particular, as dificuldades de
fornecer uma análise efectiva da campanha rcsultavam de severos constrangimentos de tempo,
em dois sentidos. O deadline exercia uma forte pressão sobre o editor político, que, uma hora
ou menos antes de o boletim da noite estar no ar, podia ainda ser visto a fazer a composição
das ligações entre os cxtractos dos discursos e as outras notícias no pacote eleitoral. Também
havia um a falta de tempo disponível, na proporção negociada para o pacote eleitoral inserido
no boletim do dia, pois a inclusão de comentários analíticos depois das várias «estórias» e
clips de actualidades consumira todos os minutos e segundos precisos.

211
L iia U dllM U l^dU UC lU IL ilU lyU W d. a l M l l b t £CIU,

cr expresso numa terminologia mais ou menos ir


ido, o Partido Trabalhista está a sair-sc bem na pr
s conservadores estão contra-atacando, realçando,
ial, a interpretação da campanha pode perder a sua
)e igual m odo, pode ter resultado algum constran
; desideratos da elaboração do pacote. Estes ajudav
ipanha, os clips das promessas e dos discursos, nur
lo, a necessidade de passagens adequadas para a
temos visto, o editor político gostava muito de ser e
s, quando imerso em tais tarefas, ficávamos com a s
iderar calmamente os aspectos que exigiam mais i
a sua socialização à visão tradicional da BBC do ]
ntação de acontecimentos políticos de uma manei
er prejudicado o seu aparecimento como comentado;
Finalmente, a atmosfera no local de trabalho que fc
es centro-periferia pode ter funcionado contra a ado
analítica da campanha eleitoral. A concentração do
isão significava que um largo número de pessoas alt
ispaço limitado para moldar, sob a urgência dos dcac
lente aceitável. Isto requeria um trabalho de equipa
sivamente prolongadas em tomo de selecções anta
is tomadas de decisão. As condições necessárias p
sso de produção poderíam ter sido bastante diferentes
arecimento de um proeminente analista, autorizado a
or o seu selo interpretativo nela.
N ã o se d ev e co n clu ir que o im p u lso para inovar a pre
: condenad o ao fracasso. O s registos m ostram que ele
iodifusão d a cam p an h a nas sucessivas eleições entre
). T odavia, este estu d o sugere que as tentativas par;
iário telev isiv o d ev em encontrar, pelos m enos, quatro i
stão enraizadas, rcspectivam cnte: a) no form ato do boi
ibalho da organização; c) na socialização a um e t h o s
claras da ap resen tação d o s acontecim entos da cam pan
io s; e d) n a necessid ad e de evitar qualquer coisa t
ibrio das relações d os radiodifusores com os partidos p
E ste relato d a produção do noticiário eleitoral dcscrcv
u m a divisão subtil e, e m grande parte, não declarada,
isão e os porta-vozes partidários no processo de comur
a eleitoral. D escobrim os que o papel dos radiodifus;
npalm entc com o «elaboração do pacote» e privado de
is funções vitais de identificação e cristalização dos ter
w e ã o d e um d iã lo c o interactivo acerca dos assuntos do i
televisão em particular, alimentando o debate político na sociedade e focando-o mais coerente­
mente do que aquilo que os competidores políticos conseguiríam sc deixados à sua sorte. Por
ironia do destino, os radiodifusores pareciam gcralmcnte relutantes em dar crédito a isso,
preferindo uma definição mais limitada da sua contribuição em termos de «refiectirem» c
«espelharem» o debate. Até certo ponto, eles tomam-se vítimas de uma visão restrita do seu
papel social, realçando os seus aspectos mais técnico-profissionais e obscurecendo as suas
consequências políticas. Uma tal visão neutral do jornalismo televisivo precisa de ser desmon­
tada e examinada criticamcntc, não só para interesse dos radiodifusores mas também para
continuar a difícil busca, com o seu envolvimento, de meios de cngrandecimento do jornalis­
mo político.
A diversidade de notícias:
«Marginalizando» a oposição

Edward S. Herman (*)


Estudos de casos de cobertura de notícias de pares de acontecimentos semelhan­
tes - o conflito no Camboja e em Timor Leste e as eleições em El Salvador e na
Nicarágua - mostram o uso selectivo de critérios e atenção de acordo com as agendas
políticas nacionais.

Que tipo de diversidade nas notícias e na interpretação das notícias é «significativo»?


Os princípios da democracia sugerem que isto tem a ver com definições de «verdade» e
com o âmbito da informação c das notícias necessárias a todos os cidadãos. Primeiramente, os
assuntos seleccionados para serem focados pelos meios de informação devem englobar todos
os temas que sejam de interesse substancial para a maioria da população. Em segundo lugar,
quando há uma série de factos plausíveis e sistemas de interpretação que têm relação com um
tema, todos esses factos e sistemas devem estar disponíveis para inspecção pública. Por outras
palavras, «toda a verdade» é um corolário para «nada mais senão a verdade». Assim, se
apenas um conjunto de assuntos ou factos é posto à disposição da população em geral, quer por
censura tácita ou oficial, a condição de diversidade significativa não é satisfeita. Ou se os
temas, factos e perspectivas que se desviam da perspectiva geral estabelecida estão confinados
aos limites dos media e não chegam ao grosso da população, o resultado é o que pode ser
chamado de diversidade sem sentido ou «marginalizada».
A eficácia dos meios de comunicação de massas, normalmente como veículos das pers­
pectivas oficiais ou da classe dirigente é realçada pela credibilidade que os media adquirem
nas suas divergências ocasionais com as instituições estabelecidas, como as corporações ou o
governo. A credibilidade dos meios de comunicação de massas deriva também do facto de o

(•) Reedição dc: Journal o f Communication (Vol. 35, N.° 3, Summcr, 1985). «Diversity of News:
‘Marginalizing’ thc Opposition», de Edward S. Herman. Direitos de autor: Oxford Univcrsity Press. Reedição com
a aprovação do editor.

214
seu comportamento, frequentemente homogêneo, surgir «naturalmente» a partir da estrutura
industrial. Das fontes convencionais, da ideologia, do patriotismo c do poder do governo sobre
as principais fentes dos media que definem a noticiabilidade e os enquadramentos do discurso.
A autocensura, as forças do mercado c as normas das práticas noticiosas podem produzir e
manter uma perspectiva particular tão eficazmente como uma censura forma! do estado.
Em algumas abordagens para avaliar a diversidade dá-se quase exclusiva atenção à
estrutura das indústrias dos meios de comunicação social e, em particular, ao número dc
diferentes fontes que o consumidor pode utilizar. Isto é partieularmente evidente no litro de
Compaine (1982) «Tflto Ouvis the Mediai», no qual são feitas generalizações acerca da
diversidade, que não surgem a partir da evidência estrutural cm si mesma. Por exemplo,
Compaine encontra diversidade em cidades com apenas dois jornais sob propriedade comum,
baseada na ausência da «duplicação» de editoriais e noticias - e duplicação significa literal­
mente o uso de cópias idênticas (Compaine, 1982, pp. 66-67). Compaine, dc facto, sugere que
as diferenças substanciais no conteúdo ou nas perspectivas são relevantes para a diversidade
significativa mas sobretudo ele parece dar a entender que imidades separadas de tomadas de
decisão no mercado contemporâneo e o contexto institucional produzirão diversidade signifi­
cativa.
Alguns dos factores estruturais e comportamentais que afectam a diversidade das notíci­
as foram discutidos em estudos de salas de redacção e de gatekeepers. Estes estudos descobri­
ram que o conteúdo das notícias está limitado à necessidade dc fontes eficientes e dignas de
crédito e à coacção de patrões dominantes, publicitários e pressões de mercado (Epstcin, 1973;
Gans, 1979; Schlcsinger, 1983; Sigal, 1973; Tuchman, 1978). Contudo, há dificuldade em
utilizar estudos de salas de redacção c de gatekeepers como indicadores da diversidade signifi­
cativa. O seu empirismo ad hoc tende a produzir descrições estáticas de factores que influenci­
am os media, mais do que a identificar um processo subjacente ou uma mais alargada função
social. O seu foco no conflito entre os gatekeepers e na negociação entre eles c os indivíduos e
grupos que procuram moldar a produção dos media leva-os a concluir que estes concedem
espaço, ainda que não grande, para opiniões dissidentes. Mas esta «diversidade» só é significa­
tiva no contexto de incidentes individuais ou dos media mais propriamente do que numa
estrutura de maiores agregados do poder ou padrões ideológicos nos quais as notícias desem­
penham um papel importante.

U m a visão alternativa das actividades dos meios de comunicação dc massas que


acho proveitosa é o que eu próprio designo «propaganda framework » (*).

Este modo de análise foi desenvolvido a partir da observação de que os media tratam
frequentemente assuntos semelhantes dc forma diferente, dependendo das suas implicações
políticas para os interesses dos Estados Unidos. Assim, por exemplo, podíamos seleccionar
dois casos de massacres cm massa no Sudoeste Asiático ou duas eleições na América Latina,
analisar o conteúdo da cobertura das noticias sobre a vida da «estória» (**) e depois comparar
aqueles resultados com a expectativa de que as diferenças políticas ou/e ideológicas nas
relações do acontecimento com a política expressa dos Estados Unidos possa explicar diferen­
ças na estratégia e actuação dos media.
Esta abordagem apoia-se em certas propriedades estruturais da indústria dos meios de
comunicação dc massas, particularmente na interligação destes com o mundo dos negócios e o

(•) Nota de tradução - A propaganda como quadro dc análise.


(•*) Nota dc tradução - Na cultura profissional dos jornalistas anglo-saxónicos, o tenno story é frequente­
mente utilizado para rcfcrir-sc nào só à notícia como ao acontecimento. Nesta antologia utilizou-se a forma orto­
gráfica «estória» para evitar qualquer confusão que podería surgir com a outra forma ortográfica «história».

1<
governo, que sugerem influências ideológicas subtis. Os meios de comunicação de massas
norte-americanos estão altamente concentrados, com cerca de uma dúzia de entidades domi­
nando o fluxo das notícias para o público e capazes de estabelecer o valor destas por decisão
própria. Elas são todas grandes empresas fortemente dependentes da publicidade no que diz
respeito a rendimentos c ligadas a outras grandes firmas por laços comerciais e pessoais.
Todas são membros directos ou sucursais de membros importantes da comunidade corporativa.
Quando uma grande proporção dessa comunidade é agitada por um assunto ou curso de
acontecimentos, tais como elevada agressividade laborai, transgressões do estado providência
ou nacionalismo revolucionário no Terceiro Mundo, poder-se-ia esperar que os grandes meios
de comunicação corporativos reflectissem estas atitudes e respondessem em consonância.
O governo é também um factor principal num sistema de produção e disseminação de
notícias centralizadas, como legislador, regulador, gerente fiscal, condutor da política externa
e fonte principal dos media. Especialmente na política externa, o poder colectivo do governo e
os meios de comunicação de massas geralmente cooperativos é muito grande. Subjacente a
um a estrutura de propaganda está a suposição de que este poder concentrado produzirá
provavelmente uma «leitura» previsível dos acontecimentos e de que os media servirão perio­
dicamente o «interesse nacional» quando necessário e/ou quando os acontecimentos nacionais
ou internacionais se apresentem favoráveis. Em resumo, uma «propaganda framework » abor­
da a questão da tendência principal dos media na construção do consenso e da ideologia, mais
do que os episódios individuais de conflito a propósito de uma «estória» particular e as
excepções à margem dessa tendência.
Usando um a «propaganda Jrameworb >, toda a vastidão da cobertura dum acontecimento
particular nos vários media é tratada como uma campanha de publicidade maciça. A analogia
é susceptível de várias qualidades.
Em primeiro lugar, o interesse é crucial. Frequentemente um tema ou acontecimento é
capaz de servir as relações públicas ou exigências ideológicas de um particular grupo de poder
interno. Estes temas ou acontecimentos são então vistos como «grandes estórias» e podem
ajudar a mobilizar a opinião pública numa direcção particular. Alguns exemplos disponíveis
são claros no tratamento dado pelos media a uma alegada ameaça comunista em 1919-1920
(Levin, 1981; Murray, 1955) e durante o período de McCarthy (Caute, 1978; Hcrman, 1982;
Murphy, 1954; Wolfe, 1981) ou a uma conspiração búlgaro-soviética para matar o Papa
(Hcrman, 1986). Em todos estes casos a cobertura dos media ou a «publicidade» salientou e
mobilizou o apoio público para acções da política internacional ou nacional.
Em segundo lugar, considerar a cobertura das notícias como uma campanha publicitária
para políticas particulares ajuda a explicar a dinâmica de uma «estória». Nestes casos, os
media movem-se rapidamente para lá das «notícias duras» em opinião, especulação e triviali-
dade. Com efeito, os meios noticiosos podem ser levados a criar mais notícias para ir ao
encontro da procura que eles observam e que eles próprios criaram. Isto serve a função de
manter uma «estória» da «agenda preferida» pelo público. E se a «estória» foi retratada com
autoridade e indignação como verdadeira, toma-se difícil imaginar uma perspectiva alternati­
va como verosímil. Isto ajuda a encerrar a investigação crítica sobre o assunto e a justificar a
expressão de opinião discordante (Herman, 1986). Finalmente, se as organizações dos meios
de comunicação mais importantes seleccionaram e deram procminência a uma «estória»
particular, os media menos importantes são quase forçados a seguir-lhes o exemplo por causa
do interesse público que se criou. Mesmo os meios de comunicação não americanos podem

216
encontrar a agenda de notícias estabelecida pela selecção da «estória» dos principais meios de
comunicação americanos.
O uso de um a «propaganda framework » para analisar e comparar a cobertura de aconte­
cimentos semelhantes tem o mérito da simplicidade. A técnica comparativa permite à análise
ir para além das explicações ou racionalizações dos participantes, colocando a interpretação
dentro dum contexto mais vasto do que aquele que o gatekeeper modela ou que alguns estudos
isolados permitem. Esta abordagem fornece um enquadramento interpretativo para a análise
de conteúdo que dá atenção ao curso da cobertura de um só tema determinado. Pegando numa
unidade de análise maior, a função ideológica de escolhas dos media pode ser identificada e
pode explicar a base da escolha de notícias e o processo de cobertura.
A «propaganda framework » sugere a seguinte hipótese: Quando surgem situações em
que podem ser «marcados pontos contra países inimigos» ou idéias ameaçadoras, os meios de
comunicação de massas serão frequentemente activos em «campanhas publicitárias» de gran­
de intensidade e paixão. Pelo contrário, quando acontecimentos muito semelhantes ocorrem
em países amigos, os media mostrarão interesse pelas circunstâncias especiais envolvidas e
prosseguirão um a política de negligência benigna.

A primeira comparação da cobertura de notícias diz respeito a «estórias» de


terror estatal e assassínio em dois países asiáticos — Camboja e Timor Leste — entre
1975 e 1984.

N o Camboja, as forças ocidentais foram depostas e os Khmeres Vermelhos assumiram o


poder em Abril de 1975. Assassínios por retaliação, fome e doenças seguiram-se durante
vários anos de desorganização, severas privações c terror. Timor Leste, liberto do domínio
português em 1975, foi invadido pela Indonésia e sujeito a um estado de terror e chacinas em
massa, consideradas a um a escala comparável às ocorridas no Camboja. Usando uma «propa­
ganda framework )> poderiamos prever que os meios de comunicação de massas dedicariam
uma atenção assídua e expressariam grande indignação no caso do Camboja, uma vez que os
autores da violência eram comunistas, podendo obter benefícios fazendo incidir a atenção
sobre um a conduta reprovável. Timor Leste, pelo contrário, foi invadido por um aliado dos
Estados Unidos. Assim, embora a acção da Indonésia fosse um caso de agressão externa, era
de prever o silêncio dos meios de comunicação de massas, dado que o facto de se dar realce à
violência de Tim or Leste não traria quaisquer dividendos políticos.
Os padrões de cobertura demonstram estas expectativas. Embora nada de útil fosse
efectivamente feito ou mesmo proposto para ajudar as vítimas do Camboja durante 1975-78, o
volume completo e a intensidade da cobertura pelos media deste sofrimento serviu como
propaganda eficaz — uma vitória comunista era mostrada como tendo resultado num desastre
humano. (Para análise completa Chomsky e Herman, 1979). Em 1978, quando o Vietnam
invadiu o Camboja, e depôs o regime de Pol Pot, forçando-o a exilar-se, os Estados Unidos e
os seus aliados apoiaram em silêncio as pretensões de Pol Pot de governar o Camboja.
Utilizando um a «propaganda framework », esperar-se-ia que os media tratassem esta aliança
«de facto» com um líder, comparado a Hitler, como um acontecimento não existente. Foi
precisamente o que aconteceu — as críticas ao apoio ocidental a Pol Pot foram marginaliza­
das.

217
A invasão indonésia a Timor Leste em 1975 começou um dia depois de o secretário de
Estado norte-americano, Henry Kissingcr, ter deixado Jacarta. O governo norte-americano não
só deixou de criticar a invasão mas também permitiu o uso de armamento americano pelos
invasores indonésios em transgressão de uma lei explícita dos Estados Unidos e concedendo à
Indonésia protecção diplomática e de relações públicas (Ilennan e Chomsky, 1979). Os media
seguiram o exemplo. A quantidade de artigos de cobertura a Timor Leste diminuiu na realida­
de quando a intensidade da violência indonésia recrudesceu (Hennan e Chomsky, 1979, p. 151).
Deve fazer-se uma distinção importante nas implicações políticas da atenção dos media
em relação ao Camboja e a Timor Leste. O Camboja situava-se fora da esfera de influência
ocidental durante os anos de govemação de Pol Pot para que a publicidade e a indignação
respeitante à violência interna não fossem funcionais, excepto para fins políticos. A Indonésia,
por outro lado, aliada dos Estados Unidos e dependente do armamento ocidental, tinha come­
tido uma agressão clara contra outro país e estava potcncialmentc sujeita a grande influência
ocidental. Deste modo, o silêncio dos media em relação a Timor Leste foi funcional num
sentido material, pois a ausência da cobertura noticiosa impediu quaisquer pressões à agressão
indonésia que poderíam ter surgido de um público ocidental informado.
Os argumentos desses comentadores ocidentais que parecem ter procurado uma base não
política para a selectividade da cobertura Camboja-Timor Leste são fracos. Argumentou-se
que Tim or Leste ficava distante (Chaliand, 1982), contudo o Camboja também fica longe.
Outros afirmaram que não houve nenhum fluxo de refugiados de Timor Leste para fornecer
discrições do sofrimento, como havia dos refugiados do Camboja na Tailândia (Shawcross,
1983, p. 234). Contudo, milhares de refugiados timorenses em Portugal, ao lado de fontes
diplomáticas e eclesiásticas, estavam tão disponíveis como os da Tailândia. Quando os meios
de comunicação de massas tocaram efcctivamente nesta área de violência, as fontes eram,
quase sem excepção, de funcionários dos governos americano e indonésio. Os refugiados,
representantes dos timorenses, e as críticas da invasão do país, foram marginalizadas.
Como estudo de um outro caso mais detalhado de diversidade marginalizada, irei com­
parar a cobertura das eleições de 1984 em El Salvador c Nicarágua feita pelo New York Times.
Estas duas eleições servem como experiência valiosa, ocorrendo naturalmente, visto o
governo dos Estados Unidos ter patrocinado e apoiado abertamente as eleições realizadas em
El Salvador enquanto se opôs abertamente as eleições realizadas na Nicarágua. A comparação
é fortalecida pelo facto de as condições dos direitos humanos serem extraordinariamente más
em El Salvador durante os quatro anos anteriores às eleições de 1984, com mais de 40 000
civis indefesos mortos por forças oficiais e paramilitares associadas, entre Janeiro de 1980 e
Março de 1984. Este facto sugere situações seriamente desfavoráveis à realização de eleições
livres e condições menos favoráveis às prevaleeentes na Nicarágua em 1984, como veremos
mais adiante.
Uma «propaganda framework » levaria à hipótese de que os meios de comunicação de
massas considerariam as condições de direitos humanos desfavoráveis como irrelevantes nas
eleições em El Salvador, mas realçá-las-iam proeminentemente na cobertura de uma eleição
num estado não preferido. O resultado inevitável seria que a eleição patrocinada será retratada
como «boa» — legítima e como um passo para a democracia — e a eleição dirigida pelo
regime não apoiado como uma farsa, decepcionante c não legitima.
Existe uma situação de comparação secundária. Os media tinham já feito a cobertura de
uma eleição em EI Salvador durante o mês de Março de 1982. Algumas críticas à cobertura

218
dos meios c!e comunicação de massas seguiram-se a essa eleição, como sejam a sua desatenção
à ausência de um a imprensa livre, a obrigação legal de votar e a falta de qualquer candidato
pela «paz» numa eleição em que, de acordo com a imprensa e observadores oficiais, a
principal preocupação do povo salvadorenho era a paz (Herman e Brodhead, 1984). Havia
também o paradoxo de que a eleição, tendo como objectivo a paz, nada fez para abrandar a
luta no período pós-cleiíoral. Uma «propaganda framework» anteciparia um impacto muito
limitado de lições aprendidas na experiência de eleições passadas, criticas a coberturas dos
media na eleição anterior, ou outros desafios à agenda pressionada por um determinado governo.
Para analisar e comparar a cobertura das eleições de El Salvador de 1984 e da Nicará­
gua, organizei uma lista de tópicos baseados nas previsões que têm origem numa «propaganda
framework .» c codificados de acordo com o número de vezes que tais tópicos apareceram em
todos os artigos do New York Times em cada eleição. A amostra para a eleição em El Salvador
compreendeu 28 artigos publicados entre 1 de Fevereiro e 30 de Março de 1984 e a amostra
para a Nicarágua 21 artigos entre 5 de Setembro e 6 de Setembro de 1984. Mais de três
quartos dos tópicos codificados para a eleição de El Salvador em Março de 1984 foram
aplicáveis na eleição da Nicarágua em Novembro desse ano.
Uma «propaganda framework » levar-nos-ia a prever que num país em que os Estados
Unidos apoiassem o governo em exercício, os aparentes aspectos democráticos da própria
eleição seriam realçados em aspectos situacionais que poderíam prejudicar a legitimidade da
eleição. Assim, esperar-se-ia uma menção frequente dos objectivos e anseios democráticos da
eleição, do número de pessoas que votaram, da mecânica da organização da eleição, dos
pontos de vista oficiais e reflexões acerca da eleição, das personalidades políticas c da compe­
tição — por outras palavras, de todos os tópicos que se aproximariam mais do tipo de
cobertura de eleições democráticas nos Estados Unidos. Além disso, esperar-se-ia que, em
termos de outros grupos envolvidos na eleição, o exército fosse retratado como «protector»
(mais do que como repressor) e que os rebeldes opositores à legitimidade da eleição fossem
retratados como perturbadores e inimigos da democracia.
Como alvo de menção pouco frequente e de pequeno realce, teríamos aqueles factores
situacionais mais básicos que dariam à eleição um cunho «democrático» ou significativo no
contexto geral da política do país ou no contexto do conceito de democracia dos Estados
Unidos. Assim, esperar-se-ia que se não realçasse quaisquer liberdades associadas a um
governo democrático, tais como as possíveis liberdade de expressão e reunião, os direitos de
grupos intermédios de se organizar e funcionar, ou quaisquer limites às capacidades de outros
candidatos em concorrerem e fazerem campanha.
Esperar-se-ia também pequena ou nenhuma menção ao que podería ser chamado o
«pacote de coerção» para obtenção de elevada afluência às umas — que votar seria exigido
pela lei, que os bilhetes de identidade teriam de ser carimbados para provar que se tinha
votado e que o exército e as forças de segurança estariam preparados para actuar duramente
contra os absentistas. Como foi anunciado pelo exército na imprensa de El Salvador no
período que antecedeu a eleição, o absentismo era considerado um acto de traição.
A fim de retratar a eleição como sendo «democrática» e «no interesse do povo» esperar-
-se-ia que os media tratassem mais ligeiramente outras questões, como as do papel do patroci­
nador estrangeiro na organização e financiamento da eleição, a finalidade das relações públi­
cas da eleição na perspectiva do patrocinador, a campanha de propaganda interna para obten­
ção de votos, a fraude total, a repressão e as ameaças aos jornalistas na cobertura da eleição.

0 19
Finalmentc, o facto de mais de 700 civis indefesos terem sido mortos por mês durante os 30
meses que se seguiram às eleições de 1982 podería, nestas circunstâncias, não ser compreendi­
do como facto relevante.
Estas são as características principais da eleição em El Salvador de 1984. Como se vê no
quadro I, a sua distribuição na cobertura do New York Times está em conformidade com as
averiguações sugeridas pela «propaganda framework». O quadro está dividido em duas partes,
correspondendo a itens que apoiariam ou não o aparecimento de uma eleição «democrática».
Para a cobertura de El Salvador, 20 a 50 por cento dos artigos mencionavam os tópicos que
realçavam a mecânica da eleição e a desorganização rebelde. O mais impressionante é o quase
completo esquecimento das condições básicas para uma eleição «democrática», tais como a
liberdade de expressão e reunião. O «pacote de cocrção» é muito pouco mencionado: em
apenas quatro dos 28 artigos do New York Times há referência à obrigação moral de votar e
em apenas dois referência ao requisito de carimbar o bilhete de identidade do votante: mesmo
aí, estes procedimentos governamentais de encorajamento do voto nunca são mencionados em
conjunto ou considerados como um todo. Nunca é sugerido em nenhum artigo que o interesse
do exército e das forças de segurança na afluência às umas e os testemunhos do exército cm
lidar com «subversivos» pudesse tomar o requisito legal do voto mais compulsivo.

220
QUADRO I

C om paração das menções a vários tópicos de artigos publicados no Nen- York Times
sobre a eleição em Ei S alvador de 25 de M arço de 1984 e a eleição na N icarágua
de 4 de N ovem bro de 1984

El Salvador Nicarágua
(n = 28) (n = 21)

Tópicos a favor n % n %
Objectivo democrático e esperanças
na democracia 6 21.4 i 4.8
Desorganização rebelde 15 53.6 0 0
Afluência 7 25.0 5 23.8
Mecânica da eleição 9 32.1 0 0
Personalidades e lutas políticas 10 35.7 3 14.3
Reflexões oficiais acerca da eleição 10 35.7 3 14.3
Exercito como protector da eleição 5 17.9 0 0

Tópicos contra
Objectivo relações públicas 3 10.7 7 33.3
Investimento americano ou sandinista
na eleição 2 7.1 2 9.5
Fraude cm eleição anterior 0 0 n. a n. a
Limites à liberdade de expressão c
reunião 1 3.6 8 38.1
Limites à liberdade de imprensa 0 0 6 28.6
Limites à liberdade de organização 0 0 2 9.5
Limites à capacidade legal de poder
candidatar-se e fazer campanha 0 0 11 52.4
Terror estatal anterior/clima de apreensão 3 10.7 3 14.3
Poder das forças armadas 1 3.6 3 14.3
Obrigação legal de votar 4 14.3 n. a n. a
Penas legais por não votar 2 7.1 n. a n. a
Impressões digitais dos votantes 1 3.6 i 4.8
Carimbar bilhetes de identidade 2 7.1 n. a n. a
Requisitos legais de verificação de voto 0 0 n. a n. a
Ameaças não legais a não votantes 0 0 i 4.8
Uso de um as de voto transparentes 1 3.6 n. a n. a
Direito legal de presença de forças de
segurança em locais de voto 0 0 n. a n. a

Nota: Os artigos sobre El Salvador datam de 1 de Fevereiro a 30 de Março de 1984. Os artigos sobre a
Nicarágua são de 5 de Setembro a 6 de Novembro de 1984. Uma «propaganda framenork» preveria que para as
eleições cm El Salvador, patrocinadas pelos Estados Unidos, os primeiros sete tópicos seriam realçados e os últimos
raramente mencionados, enquanto para a Nicarágua, um estado sem apoios, havería menos ênfase na eleição propria­
mente dita (os sete primeiros itens) c mais nos factores que a desacreditassem (os últimos itens).

221
y i iu H ju i.it} ju ciu jw d m iu u c ju ííc ijs iju t ju iu jjicjju . uu ilu iitu i v i t u i i lu ciiL iu iiiiu

cobertura de El Salvador. Em vez de equacionarmos a eleição pairocinada pelo governo c


rausa da democracia, como foi feito em El Salvador, o governo actual da Nicarágua tor
ruma ameaça à democracia porque limita os direitos de dissidentes e rebeldes em
ampanha. Em contraste com El Salvador, os rebeldes são «os lutadores pela liberdade»
impeõcs da democracia. Enquanto em El Salvador a actividade rebelde durante a votaçãt
n desafio que fazia com que a considerável afluência às umas fosse um triunfo pa
ogresso eleitoral, as actividades rebeldes na Nicarágua não são retratadas como anti-de
iticas. A obrigatoriedade de voto, embora não tão coercivo como em El Salvador, deix:
uma medida da vontade popular.
A ên/asc, na Nicarágua, numa eleição «não apoiada» incide no contexto antidemocrát
r quadro I). Assim, por exemplo, a cobertura do Abie Jb/vt 7»;;ar salientou que o govei
va simplesmente a usar a eleição mais para fins de relações públicas c legitimidade do q
uma manifestação de democracia. Foram realçados elementos de coerção e a relaçãc
rolo do governo sobre as forças armadas. Mais importante, as condições básicas q
litem eleições livres, tais como a liberdade de reunião, liberdade de imprensa, e os direiti
andidatos a fazer a sua campanha sem receio, são as preocupações principais da imprei
ssim, ao tecer um comentário acerca da Nicarágua (mas sem sugerir qualquer aplicaçã
eições seguintes em El Salvador), o secretário de Estado norte-americano, George Schult;
0 no Brasil a 5 de Fevereiro de 1984, afirmou que «o importante é que vai ocorrer un
so eleitoral susceptível de ser observado não só no momento da votação mas em todos o;
)s preliminares que fazem com que uma eleição signifique, de facto, algo». E testemu-
1 perante a Comissão dos Negócios Estrangeiros do Senado dos Estados Unidos, em 22
ereiro, sugeriu que para as eleições serem democráticas «os grupos políticos rivais»
ser autorizados a formarem-se e «a terem acesso ao povo, direito a reunir-se e acesso
aos m eios de comunicação social».
irônico que seis cm 21 ou quase 30 por cento dos artigos sobre a Nicarágua foquem a
: de imprensa, enquanto só um dos 28 artigos sobre a eleição em El Salvador a
í. Este silêncio em El Salvador e a ênfase na Nicarágua não pode estar ligado a
; de imnrensa m ais onerosas na Nicarátrua. Melhor, em El Salvador, os dois jornais
UC t d l l U l U d l U D v i i ic i io u w u m jiiu iv íu u u *u w h » u iv - *■* ----------- -- -------------- -------------

contraste com a eleição salvadorenha é elucidativo. Aí, a oposição principal ficou con
mente fora do processo, tanto cm 1982 como em 1984, por necessidade e plano. 0
dirigentes mais importantes da Frente Democrática Revolucionária (FDR) tinham sido <
rados pelas forças de segurança cm El Salvador, em Novembro de 1980, torturados, assa:
dos e mutilados. Mais cinco funcionários superiores foram aprisionados c dados com o de
recidos em 1982, vendo-se a FDR incapacitada de manter uma presença organizativa legi
da. A FDR estava mais amplamcntc implantada do que os rebeldes nicaraguenses que tir
o apoio dos Estados Unidos. Todavia, a realização de uma eleição cm El Salvador, cc
«oposição principal» afastada do processo, não foi questão levantada na cobertura da ciei
À recusa do líder principal da oposição da Nicarágua, Arturo José Cruz, de se apresentar ci
candidato, foi dada grande publicidade nos meios de comunicação social dos Estados U ni
mesmo havendo prova substancial de que ele planeava não participar na eleição inicialmi
(Kinzer, 1984; Taubman, 1984).
Em suma, embora as condições eleitorais básicas fossem muito mais compatíveis c
uma eleição livre na Nicarágua em 1984 do que cm El Salvador, quer em 1982 quer em 19
a cobertura noticiosa dos Estados Unidos deu a El Salvador uma situação triunfante
democracia e à Nicarágua uma experiência eleitoral desacreditada pela intransigência c control
totalitários sandinistas.
As campanhas dos meios de comunicação social relativas aos acontecimentos no Cambo
e em Timor Leste, e as eleições na América Central contêm pronunciadas manipulaçõt
dicotômicas de simbolos e agendas políticas. Estas campanhas dos meios de comunicaçã
social foram bastante bem sucedidas ao salientarem questões políticas e ao fazerem importar
tes afirmações ideológicas para todo o público e ao mundo em geral. Nestes casos não si
ouviram vozes dissidentes em nenhum dos principais meios de comunicação social dos Esta
dos Unidos, mesmo quando essas vozes pudessem ter sugerido informações relevantes que
tivessem sido «omitidas» ou «não sclcccionadas». (A cobertura televisiva ofereceu conclusões
semelhantes; ver Chomsky e Hcrman, 1979a; Chomsky e Herman, 1979b; Herman, 1982).
Estes dois estudos são apresentados como ilustrações do facto de uma «pronacanda framework»
«A produção social
das notícias:
O m u ggin g nos m edia» (*)

Stuart Hall, Chas Chritcher, Tony Jejferson, John Clarke e Brian Roberts

Os media não relatam simplesmente e de uma forma transparente acontecimentos que


são só por si «naturalmente» noticiáveis. «As notícias» são o produto final de um processo
complexo que se inicia numa escolha e selecção sistemática de acontecimentos e tópicos de
acordo com um conjunto de categorias socialmente construídas. Como diz MacDougall:

«Num dado momento, biliões de acontecimentos simultâneos ocorrem cm todo


o mundo... Todas estas ocorrências são potencialmente noticias. Só o são no momen­
to cm que alguém que fornece notícias dá um relato dessas ocorrências.» (MacDougall,
1968, p. 12).

U m aspecto da estrutura de selecção pode ser visto na organização de rotina de jornais


respeitantes a tipos regulares de áreas noticiosas. Visto os jornais estarem empenhados na
produção regular de notícias, estes factores de organização afectarão, por seu turno, o que for
seleccionado. Por exemplo, os jornalistas ficam prc-direccionados para outros tipos de aconte­
cimento e tópico em termos da organização da sua própria força de trabalho (por exemplo,
correspondentes e departamentos especializados, o fomento de contactos institucionais, etc.) e
a estrutura dos próprios jornais (por exemplo, notícias nacionais, internacionais, políticas,
desporto, etc.) (Rock, 1973 c 1981).
Dado que a organização c o pessoal de um jornal o dircccionam para certas categorias de
itens, existe ainda o problema de seleccionar entre os muitos itens que se apresentam em cada
um a das categorias, aqueles que se sente virem a ser de interesse para o leitor. E aqui que a
ideologia profissional do que constitui «boas notícias» — o sentido de valor-noticia do

(*) Reedição de: «The Social Production of News: Mugging in thc Media», de Stuart Hall, Chas Chritcher,
Tony Jeffcrson, John Clarke e Brian Roberts, publicado no livro The Manufacture o f News, de Stanley Cohcn c
Jock Young (Eds.). Bcvcrly Hills, Ca: Sagc Publications c London: Constable. Direitos de autor Sage.

224
jornalista — começa a estruturar o processo. Ao nível mais geral, isto envolve uma orientação
para itens que são «fora do comum», o que de certo modo vai contra as nossas expectativas
«normais» acerca da vida social, o inesperado terramoto ou a alunagem, por exemplo. Poderi­
amos chamar a isso o valor-nolicia primário ou fundamental. Contudo, e com certeza, «a
singularidade» não esgota a lista, como nos será revelado ao olharmos para qualquer jom al:
acontecimentos que se referem a pessoas ou paises de elite; acontecimentos que são dramáti­
cos; acontecimentos que podem ser personalizados para essencialmente evidenciar as caracte­
rísticas de humor humanas, como tristeza, sentimentalismo, etc.; acontecimentos que têm
consequências negativas e acontecimentos que são parte ou podem fazer parte de um assunto
noticiável existente, são todos notícias possíveis (Galtung e Ruge, 1970). Desastres, dramas, os
gestos do dia-a-dia — cômicos e trágicos — de pessoas vulgares, a vida dos ricos e poderosos,
e temas tão perenes como o futebol (no Inverno) e o cricket (no Verão), todos eles encontram
um lugar regular nas páginas de um jom al. Duas coisas resultam disto: a primeira é que o
jornalismo tenderá a realçar os elementos extraordinários, dramáticos, trágicos, etc., numa
«estória» (*) para reforçar a sua notabilidade; a segunda é que acontecimentos que maior
pontuação tenham num número destes valorcs-notícia terão maior potencial noticioso do que
os outros. E acontecimentos com pontuação elevada em todas as dimensões, tais como no caso
do assassínio de Kenncdy (isto é, que são inesperados e dramáticos, com consequências
negativas, assim como tragédias humanas envolvendo pessoas de elite, dirigentes de uma
nação poderosa, que possuem o estatuto de tema recorrente na imprensa britânica), tomar-se-
-ão tão noticiáveis que serão interrompidos programas — como nos flashes noticiosos na rádio
e na televisão — para que estas ocorrências possam ser comunicadas imediatamente.
Quando mais tarde viermos a considerar o caso do mugging (**), gostaríamos de dizer
alguma coisa acerca da forma como estes valorcs-notícia tendem a funcionar em conjunto,
como uma estrutura. Para os nossos propósitos presentes, contudo, basta dizer que os valores-
notícia fomecem critérios nas práticas de rotina do jornalismo que permitem aos jornalistas,
editores e agentes noticiosos decidir rotineira e regularmente sobre quais as «estórias» que são
«noticiáveis» e quais não são, quais as «estórias» que merecem destaque e quais as que são
relativamente insignificantes, quais as que são para publicar e quais as que são para eliminar
(Nordenstrong, 1972; Breed, 1955; Hall, 1975). Embora não estejam escritos em parte algu­
ma, formalmente transmitidos ou codificados, os valores-notícia parecem ser largamente parti­
lhados entre os diferentes meios de comunicação (embora tenhamos mais a dizer acerca da
forma como estes são diferentemente inflectidos por determinados jom ais) e constituem um
elemento essencial na socialização profissional, prática e ideologia dos jornalistas.
Estes dois aspectos de produção social de notícias — a organização burocrática dos
media que produz as notícias cm tipos específicos ou categorias e a estrutura de valores-notícia
que ordena a sclecção e a posição de determinadas «estórias» dentro destas categorias — são
apenas parte do processo. O terceiro aspecto — o momento da construção da própria notícia
— é igualmente importante, embora menos óbvio. Isto envolve a apresentação do item ao seu
presumível público, em termos que tanto quanto os apresentadores do item possam avaliar o
tomem compreensível a esse público. Se o mundo não é para ser representado como uma
confusão de acontecimentos desordenados e caóticos, então estes acontecimentos devem ser

(*) Nota dc tradução - Na cultura profissional dos jornalistas anglo-saxónicos, o termo story é frequentemente
utilizado para referir-se não só à notícia como ao acontecimento. Nesta antologia utilizou-se a forma ortográfica
«estória» para evitar qualquer confusão que podería surgir com a outra forma ortográfica «história».
(**) Nota de tradução - Assalto a uma pessoa, habitualmentc na rua.

225
identificados (isto é, designados, definidos, relacionados com outros acontecimentos do conhe­
cimento público) e inseridos num contexto social (isto é, colocados num quadro de significa­
dos familiares ao público). Este processo — a identificação e a coníextualização — é um dos
mais importantes, através do qual os acontecimentos são «tomados significativos» pelos me­
dia. U m acontecimento só «faz sentido» se se puder colocar num âmbito de conhecidas
identificações sociais e culturais. Se os jornalistas não dispusessem — mesmo de forma
rotineira — de tais «mapas» culturais do mundo social, não poderíam «dar sentido» aos
acontecimentos invulgares, inesperados e imprevisíveis que constituem o conteúdo básico do
que é «noticiável». As coisas são noticiáveis porque elas representam a volubilidade, a
imprevisibilidade e a natureza conflituosa do mundo. Mas não se deve permitir que tais
acontecimentos permaneçam no limbo da «desordem» — devem ser trazidos aos horizontes
do «significativo». Este trazer de acontecimentos ao campo dos significados quer dizer, na
essência, reportar acontecimentos invulgares e inesperados para os «mapas de significado»
que já constituem a base do nosso conhecimento cultural, no qual o mundo social já está
«traçado». A identificação social, classificação e contextualização de acontecimentos noticio­
sos em termos destes quadros de referencia de fundo constitui o processo fundamental através
do qual os media tom am o mundo a que eles fazem referência inteligível a leitores e especta­
dores. Este processo de «tomar um acontecimento inteligível» é um processo social — consti­
tuído por um número de práticas jornalísticas específicas, que compreendem (frequentemente
só de modo implícito) suposições cruciais sobre o que é a sociedade e como ela funciona.
U m tal assunção de fundo constitui a natureza consensual da sociedade: o processo de
significação — dando significados sociais aos acontecimentos — tanto assume como ajuda a
constndr a sociedade como um «consenso». Existimos como membros de um a sociedade
porque — é suposto — partilhamos uma quantidade comum de conhecimentos culturais com
os nossos semelhantes; temos acesso aos mesmos «mapas de significados». N ão só somos
todos capazes de manipular estes «mapas de significados», para compreender os acontecimen­
tos, mas também temos interesses, valores e preocupações fundamentais, em comum, que estes
mapas encorporam ou reflectem. Todos nós queremos manter basicamente a mesma perspecti­
va acerca dos acontecimentos. Neste ponto de vista, o que nos une, como uma sociedade e
cultura — o seu lado consensual — , ultrapassa em muito o que nos divide e distingue como
grupos ou classes de grupos. Ora, a um nível, a existência de um consenso cultural é uma
verdade óbvia; é a base de toda a comunicação social (Wirth, 1948). Se não fossemos todos
membros da mesma comunidade linguística, não poderiamos comunicar uns com os outros. A
um nível mais lato, se não habitássemos, até certo ponto, as mesmas classificações de
realidade social, não «poderiamos compreender o mundo como um todo». Em anos recentes,
contudo, este facto cultural básico da sociedade tem sido elevado a um nível ideológico
extremo. Porque ocupamos a mesma sociedade e pertencemos mais ou menos à mesma
«cultura» supõe-se que haja, basicamente, uma única perspectiva dos acontecimentos: a que é
fornecida por o que é algumas vezes chamada a cultura, ou (por alguns sociólogos) o «sistema
central de valores». Esta perspectiva nega quaisquer discrepâncias estruturais importantes
entre diferentes grupos, ou entre os mapas de significado muito diferentes numa sociedade.
Este ponto de vista «consensual» tem consequências políticas importantes, quando usadas
como um a base e dada como adquirida por toda a comunicação. O mesmo ponto de vista parte
da assunção de que todos temos, mais ou menos, os mesmos interesses na sociedade, e que
aproximadamente a mesma quota-parte de poder na sociedade. Esta é a essência da ideia do

226
entre classes c grupos, Se existirem algumas divergências, diz-se, existirão n
ios e institucionalizados para as expressar e reconciliar. O «mercado livre» em opii
nedia pressupõe a garantia da reconcialização de descontinuidades culturais, entre
e outro. As instituições políticas — parlamento, o sistema bipartidário, a represent
i, etc. — são supostos garantir igual acesso ao processo de tomada de decisões
is grupos. Supõe-se que o desenvolvimento de uma economia de consumo tenha cr
lições econômicas para todos terem a sua parte na criação e distribuição da riquezi
itege-nos a todos igualmente. Esta perspectiva de consenso da sociedade é partici
forte em sociedades capitalistas organizadas, democráticas e modemas; e os media e:
> instituições cujas práticas estão mais ampla e consistentemente baseadas na assun
«consenso nacional». Assim, quando os acontecimentos são «delineados» pelos mc
uadramentos de significado e interpretação, supõe-se que todos nós possuímos c sa
íalmente como utilizar esses enquadramentos, que eles são extraídos fundamcntalm
lesmas estruturas dc compreensão para todos os grupos sociais e públicos. Claro que
io de opinião, como na vida política e econômica, permite-sc que haja diferenças
de vista, desacordo, argumento e oposição; mas isto é entendido como realizando
le um enquadramento concordante e básico mais lato — «o consenso» — , o qual toc
rem, e no qual toda a contestação, desacordo ou conflito de interesses pode ser recon
Ia discussão, sem recurso ao confronto ou à violência. A força deste apelo ao consen
mente demonstrada na primeira alocução ministerial de Edward Heath, a seguir
ção dc greve dos mineiros em 1972 (sugerindo que os apelos abertos ao consenso s;
irmente eficazes quando o conflito é mais visível):

«No tipo de país em que vivemos não pode haver nenhuns «nós» ou «eles». S
há «nós»; todos nós. Se o governo é «derrotado», então o país é derrotado, porque
Governo c precisamente um gmpo de pessoas eleitas para fazer o que a maioria c
«nós» quer ver feito. E o nosso estilo de vida. Na realidade, não interessa se é ui
piquete de greve, uma manifestação ou a Câmara dos Comuns. Estamos todos habiti
ados a discussões pacíficas. Mas quando a violência ou a ameaça de violência é usadr
desafia aquilo que a maior parte de nós considera ser a forma correcta de fazer a
coisas. Eu não acredito que vós elejais um governo para permitir que isso aconteça <
posso prometer-vos que isso não será tolerado onde quer que ocorra» (citado en
Murdock, 1973, p. 206).

acontecimentos, enquanto notícias, são regularmente interpretados dentro de


mentos que derivam, cm parte, desta noção de consenso enquanto característica
vida quotidiana. São elaborados através de uma variedade de «explicações», imagens
is que articulam o que o público supõe pensar e saber da sociedade. A imnnrtâneia
conhecimento dado como adquirido. Segundo, «transmite uma impressão de repeti­
ção etema, da sociedade como ordem socia! composta de movimento, mas não de
inovação» (Rock, 1973 e 1980). De novo, aqui, ao reforçar a continuidade e estabili­
dade da estrutura social e ao afirmar a existência de um conjunto de hipóteses
partilhadas em comum, as definições da situação coincidem com c reforçam noções
consensuais essenciais». (Murdock, 1974; Hall, 1970; Young, 1974).

Qual é, então, o significado subjacente do enquadramento c da função interpretativa da


apresentação noticiosa? Sugerimos que esteja no facto de os media apresentarem frequente­
mente informações de acontecimentos que ocorrem fora da experiência directa da maioria da
sociedade. O s media, desta forma, apresentam a primeira, c muitas vezes a única, fonte de
informação acerca de muitos acontecimentos e questões importantes. Mais ainda, dado que a
notícia está repetidamente relacionada com acontecimentos que são «novos» ou «inespera­
dos», aos media cabe a tarefa de tomar compreensível o que chamaríamos «realidade proble­
mática». Os acontecimentos problemáticos rompem com as expectativas comuns e são, por
conseguinte, ameaçadores para uma sociedade baseada na expectativa do consenso, ordem e
rotina. Assim, o delineamento, por parte dos media, de acontecimentos problemáticos dentro
dos conhecimentos convencionais da sociedade é crucial de duas maneiras. Os media definem
para a maioria da população os acontecimentos significativos que estão a ter lugar, mas
também oferecem interpretações poderosas acerca da forma de compreender estes aconteci­
mentos. Implícitas nessas interpretações estão as orientações relativas aos acontecimentos e
pessoas ou grupos nelas envolvidos.

Definidores primários e secundários

Nesta secção queremos começar por explicitar a «adequação» entre as idéias dominantes
c as ideologias e práticas dos media. Isto não pode ser simplesmente atribuído — como
algumas vezes o é em teorias de pura conspiração — ao facto de que os media são, em grande
medida, pertença de capitalistas (embora essa estrutura de propriedade seja corrente), uma vez
que isto seria ignorar a «relativa autonomia» do dia-a-dia do jornalista e dos produtores de
notícias cm relação ao controlo econômico directo. Em vez disso, queremos chamar a atenção
para as mais rotineiras estruturas de produção de notícias, para observar como é que os media
vêm, de facto, e em última instância, a reproduzir as definições dos poderosos, sem estarem,
num sentido simplista, ao seu serviço. Devemos aqui insistir numa distinção crucial entre
definidores primários e secundários {primary e secondary definers).
Os media não criam autonomamente as notícias; melhor, estão dependentes de assuntos
noticiosos específicos fornecidos por fontes institucionais regulares e credíveis, como Paul
Rock refere:

«Geralmente os jornalistas colocam-se de forma a terem acesso a instituições


que geram um volume útil de actividade noticiável com intervalos regulares. Algu­
mas destas instituições tomam-se, é claro, visíveis por meio de dramatização ou
através de press releases ou agentes de imprensa. Outras, sabe-se que produzem
regularmente acontecimentos importantes. Os tribunais, os campos desportivos e o

228
parlamento fabricam mecanicamente notícias que são... assimiladas pela imprensa.»
(Rock, 1973 c 1980, p. 64).

Uma das razões disto tem a ver com as pressões internas da produção jornalística —
como Murdock refere:

«As pressões de tempo incessantes c os consequentes problemas de distribuição


de recursos e calendarização de trabalho em organizações jornalísticas podem ser
reduzidos ou aliviados através da cobertura de acontecimentos «pré-agendados»; isto
é, aqueles que foram anunciados com antecedência pelos seus convocadores. Contu­
do, um a das consequências de adopção desta solução para os problemas de horário é o
aumento da dependência dos jornalistas nas fontes de informação desejosas e capazes
de pré-agendar as suas acti vida des.» (Murdock, 1974).

A segunda razão tem a ver com o facto de as notícias dos media estarem orientadas pelas
noções de «imparcialidade», «equilíbrio» e «objcctividadc». Isto é formalmcnte reforçado na
televisão (uma situação de quase monopólio, onde o Estado está directamcnte envolvido num
sentido regulador) mas há também «regras» ideológicas profissionais idênticas em jornalismo
(Carcy, 1969). U m produto destas regras é a distinção cuidadosamente estruturada entre
«facto» e «opinião». Mais importante, estas regras profissionais dão origem à prática de
assegurar que as afirmações dos media sejam, onde quer que seja, fundamentadas em afirma­
ções «objectivas» e «autorizadas» de fontes «dignas de crédito». Isto significa o recurso
constante a representantes dignos de crédito de instituições sociais importantes — membros de
parlamento para assuntos políticos, patrões e dirigentes sindicais para questões industriais, etc.
Tais representantes industriais são «dignos de crédito» devido ao seu poder e posição
institucionais, mas também ao seu estatuto de «representante»: ou representam «as pessoas»
(membros de parlamento, ministros, etc.) ou grupos de interesses organizados (como são agora
considerados o TUC e o CBI). Uma última «fonte acreditada» é o «perito»: a sua actividade —
a busca «desinteressada» do conhecimento — , não a sua posição ou representação, abona em
favor da «objcctividadc» e «autoridade». Ironicamente, as próprias regras destinadas a perservar
a imparcialidade dos media, e que se desenvolveram a partir do anseio de maior neutralidade
profissional, servem também para orientar poderosamente os media nas «definições da reali­
dade social», que as suas «fontes acreditadas» — os «porta-vozes» institucionais — fornecem.
Estes dois aspectos de produção jornalística — as pressões práticas de trabalho constan­
tes contra o relógio e as exigências profissionais de imparcialidade e objectividade — combi­
nam-se para produzir um exagerado acesso sistematicamente estruturado aos media por parte
dos que detêm posições institucionalizadas privilegiadas. Deste modo, os media tendem, fiel e
imparcialmente, a reproduzir simbolicamente a estrutura de poder existente na ordem
institucional da sociedade. Isto é o que Becker chamou «a hierarquia de credibilidade» — a
probabilidade daqueles que em posições poderosas ou de elevado status na sociedade, e que
dão opiniões sobre tópicos controversos, de terem as suas definições aceites, porque tais porta-
-vozes são considerados como tendo acesso a informação mais precisa ou especializada em
assuntos particulares do que a maioria da população (Becker, 1972). O resultado desta prefe­
rência estruturada dada pelos media às opiniões dos poderosos é que estes «porta-vozes» se
transformam no que se apelida de definidores primários (primary definers) de tópicos.

229
Qual é o significado disto? Podia-se bem argumentar que através do requisito do «equilí­
brio» — uma das regras profissionais ainda não tratadas — as definições alternativas têm
oportunidade de ser ouvidas; cada «parte» está autorizada a apresentar o seu caso. De facto, a
construção de um tópico em termos de debate no qual há oposições e conflitos é também uma
forma de dramatizar um acontecimento para reforçar a sua noticiabilidade. O importante da
relação estruturada entre os media c os prímary defmers institucionais é que permite aos
definidores institucionais estabelecer a definição ou interpretação primária do tópico cm
questão. Então esta interpretação «comanda a acção» em todo o tratamento subsequente e
impõe os termos de referência que nortearão todas as futuras coberturas ou debates. Os
argumentos contrários a uma interpretação primária são obrigados a inserirem-se na sua
definição de «o que está em questão» — devem ter como seu ponto inicial esta estrutura de
interpretação. Este enquadramento interpretativo inicial — o que Lang e Lang (1955) chama­
ram «estrutura inferencial» — é extremamente dificil de alterar, fundamentalmentc, logo que
estabelecida. Por exemplo, dado que as relações raciais na Grã-Bretanha têm sido definidas
como um (problem a de números» (isto é, quantos negros há no pais), então mesmo os porta-
vozes liberais, ao provarem que os números atribuídos a emigrantes negros foram exagerados,
estão, todavia, obrigados a subscrever, implicitamente, o ponto de vista de que a discussão é
«essencialmente» sobre números. De igual modo, Halloran e os seus colaboradores demons­
traram claramente como a «estrutura inferencial» de violência — uma vez estabelecida no
período introdutório — dominou a cobertura da segunda manifestação contra o Vietnam e os
acontecimentos da «Grosvcnor Square», apesar de todas as provas directas contradizendo a
sua interpretação (Halloran et al., 1970). Efectivamentc, a definição primária estabelece o
limite de todas as discussões subsequentes através do seu enquadramento do problema. Este
enquadramento inicial fomecc então os critérios segundo os quais todas as contribuições
subsequentes são rotuladas de «relevantes» para o debate, ou «irrelevantes» — fora de ques­
tão. As contribuições que se afastam deste enquadramento são acusadas de «não tratarem a
questão» (Hall, sem data; Clarke et al., 1974).
Os media, então, não se limitam a «criar» as notícias; nem se limitam a transmitir a
ideologia da «classe dirigente» num figurino conspiratório. Na verdade, sugerimos que, num
sentido critico, os media não são frequentemente os prímary defmers de acontecimentos
noticiosos; mas a sua relação estruturada com o poder tem o efeito de os fazer representar não
um papel crucial mas secundário, ao reproduzir as definições daqueles que têm acesso privile­
giado, como de direito, aos media como «fontes acreditadas». Nesta perspectiva, no momento
da produção jornalística, os media colocam-sc numa posição de subordinação estruturada aos
prímary defmers.
E esta relação estruturada — entre os media e as suas fontes (poderosas» — que se
começa a esclarecer a questão negligenciada do papel ideológico dos media. É isto que
começa a dar substância e especificidade à afirmação básica de Marx de que «as idéias
dominantes de qualquer época são idéias da classe dominante». A argumentação de Marx é
que a preponderância das «idéias dominantes» funciona primariamente porque, além da sua
detenção e controlo dos meios de produção materiais, esta classe também possui e controla os
meios de «produção mental». Ao produzir a sua definição de realidade social, e o lugar do
«cidadão comum» dentro dela, eles constrocm uma imagem particular de sociedade que
representa interesses de classe específicos como os interesses de todos os membros da sociedade.
Devido ao seu controlo sobre os recursos materiais c mentais e o seu domínio das instituições

230
principais da sociedade, as definições desta classe do mundo social oferecem a base racional
para aquelas instituições que preiegem e reproduzem a sua «forma de viver». Este controlo
dos recursos mentais assegura que as definições disponíveis mais poderosas e «universais» do
mundo social sejam suas. A sua universalidade garante que sejam partilhadas, até certo ponto,
pelas classes subordinadas da sociedade. Os que governam, governam também através das
idéias; deste modo, governam com a aprovação das classes subordinadas, e não principalmente
através da sua manifesta coerção. Parkin faz uma afirmação semelhante: «As definições
sociais e políticas dos que têm posições dominantes tendem a ser objectivadas nas normas
institucionais principais, fornecendo, assim, a estrutura moral para todo o sistema social.»
(Parkin, 1971).
Nas instituições principais, sociais, políticas e legais, a coerção e o constrangimento
nunca estão completamente ausentes. Isto é tão verdade nos media como em qualquer outro
lugar. Por exemplo, os jornalistas e as reportagens estão sujeitas a pressões econômicas e
legais, assim como a outras formas evidentes de censura (por exemplo, na cobertura dos
acontecimentos na Irlanda do Norte). Mas a transmissão de «idéias dominantes» depende
mais dos mecanismos não coercivos para a sua reprodução. As estruturas hierárquicas de
comando e de revisão, a socialização informal em papéis institucionais, a sedimentação de
idéias dominantes na «ideologia profissional» — todos ajudam a garantir, nos media, a sua
reprodução continuada na forma dominante. O que temos estado a salientar nesta secção é
precisamente o modo como uma determinada prática profissional assegura que os media
desempenhem um papel importante, eficazmente mas «objectivamente». na reprodução da
vertente preponderante das ideologias dominantes.

Os media em acção: a reprodução e a transform ação

Até aqui temos considerado o processo através do qual a «reprodução das ideologias
dominantes» é assegurada nos media. Como devia ser claro, esta reprodução, na nossa opi­
nião, é o produto de um conjunto de imperativos estruturais e não de uma conjura aberta com
aqueles que ocupam posições poderosas. Contudo, todo o ciclo de «reprodução ideológica» não
está completo até demonstrarmos o processo de transformação que os próprios media devem
realizar nas «matérias-primas» (factos e interpretações) que os poderosos fornecem para pro­
cessarem estas «estórias» «potenciais» numa forma de produto acabado, a noticia. Sc a
primeira secção salientou uma orientação relativamente passiva cm relação às definições
poderosas e autoritárias, nesta secção é nossa preocupação examinar aqueles aspectos da
criação de notícias nas quais os media desempenham um papel mais autônomo e activo.
O primeiro ponto em que os media se tomaram, efectivamentc, independentes, foi o da
selectividade. Nem toda a afirmação por parte de um primary define: importante cm relação a
um tópico determinado tem probabilidades de ser reproduzida nos media - nem todas as
partes de cada afirmação. Exercendo a selectividade, os media impõem os seus próprios
critérios nas «matérias-primas» estruturadas — c, assim, se apropriam activamente delas e as
transformam. Atrás frisámos como os critérios de selecção — uma mistura de coacções
profissionais, técnicas e comerciais — serviram para orientar os media em geral nas «defini­
ções dos poderosos». Aqui, pelo contrário, queremos dar ênfase a que tais critérios — comuns
a todos os jornais — são, todavia, diferentemente utilizados, avaliados e tomados operacionais
por cada jornal. A sua organização e estrutura técnica (em termos de números de jornalistas

or 1
diferente. Tais oitercnças, tomadas em conjunto, sao o que produzem as «pcrsonah
sociais» muito diferentes de jornais. A orientação dominante do News o f ilie World em re
ao «escandaloso» e ao «sexual», e a preocupação do Daily Aíirror pelo interesse «hurr
ias «estórias» são apenas dois exemplos óbvios de tais diferenças internas em «personalic
;ociais». É nisto — quando a própria «personalidade social» de cada jom ai entra cm acçi
|ue começa realmente o trabalho de transformação. (Smith, 1975).
Um aspecto ainda mais significativo do «trabalho dos media» c a actividade de tran
lar um acontecimento numa notícia acabada. Isto tem que ver com a maneira como um
codificado pelos media numa forma de linguagem particular. Precisamente, como já a
entámos, como cada jom ai tem um enquadramento organizacional específico, um ser
iticioso c os leitores, assim também cada um desenvolverá um modo de discurso regul
racterístico. Isto significa que o mesmo tópico, fontes e estruturas inferenciais aparecí
crentemente mesmo em jornais com uma perspectiva semelhante, uma vez que as difere
áricas de discurso terão um efeito importante em modificar o item original. De espe
lortância na determinação da forma particular de discurso adoptado será a parte especí
espectro dos leitores, aos quais o jom ai acha que habitualmente se dirige: o seu púb
inatário. A linguagem utilizada será, pois, a própria versão do jornal da linguagem
'ico a que se dirige principalmente: a sua versão da retórica, imagens c stock comum
lecimcnto subjacente que supõe que o seu público partilha e que, deste modo, constiti
de reciprocidade produtor-leitor. Por esta razão queremos chamar a esta forma de disc
- diferente para cada saída de notícias — o idioma público dos media.
Embora tenhamos salientado aqui as diferentes linguagens de jornais diferentes, e:
e não deve ser levada demasiado longe. Não é o vasto âmbito pluralista de vozes que
t às vezes têm de representar, mas um âmbito dentro de certos limites ideológic
'os. Enquanto cada jom ai se pode considerar como dirigindo-sc a uma secção diferen
)lico-lcitor desse jom ai (ou diferentes tipos de jornais estarão em competição por difere
(ores do público), o «consenso de valores», que está tão profimdamente enraizado e:
is formas de linguagem pública, é mais limitado do que a variedade de formas c
igcm em uso» pública poderíam sugerir. Os seus problemas, embora distintos, pressi
e como fazendo parte do muito largo espectro de «homens sensatos», e os leitores sã
; em geral nesses termos.
codificação de itens e tópicos em variações de linguagem pública oferece um elementi
itivo dc variação no processo de transformação de notícias na sua forma final; mas
>m a «objcctividade» e a «imparcialidade» atrás referidas, esta variação não está
iamente, estruturalm ente em desacordo com o processo a que cham ám os «rcproduçãc
a» — porque traduzir um item noticioso para uma variante de linguagem pública
nbém, para traduzir para um idioma público as afirmações e pontos de vista dos
lefiners. Esta tradução de perspectivas oficiais num idioma público não só tom a essas
a s m ais «disponíveis» aos não iniciados como lhes dá força popular e ressonância,
ado-os dentro do horizonte de compreensão dos vários públicos. O exem plo seguinte
«aumento de crimes violentos em Inglaterra e no País cie Gales tinha originado uma preocupa­
ção pública justificável». O que o Mirror faz neste caso c traduzir a preocupação do inspcctor-
-chefe com o aumento do crime violento entre os jovens numa forma mais dramática, mais
conotativa e mais popular — uma manchete que diz simplesmentes «Desordens na Grã-
-Bretanha: ‘Violência Estúpida’ de Brigões Preocupa Polícia». Este título reveste o sóbrio
Relatório de valor-noticia dramático. Passa da linguagem oficial do calmo Relatório para
uma retórica mais noticiável. Mas também insere a afirmação no imaginário popular, estabele­
cendo ao fim de longa utilização, incluído o uso criado pela própria cobertura anterior do
jornal das actividades de hooligans de futebol e «bandos» de skinheads. Esta transformação
num idioma público dá, deste modo, ao item uma referência pública externa c validade em
imagens e conotações sedimentadas na quantidade de conhecimento que o jornal e o seu
público partilham. A importância deste ponto de referencia público externo é que ele serve
para objectivar um assunto público. Isto é, a publicitação de um assunto nos media pode
trazer-lhe um estatuto mais «objectivo» enquanto questão realmcnte (válida) de interesse
público como teria sido o caso, tivesse ele ficado como mero relatório feito por técnicos e
especialistas. A atenção concentrada dos media confere o estatuto de elevado interesse público
às questões que são salientadas; estas são geralmcnte compreendidas por toda a gente como as
«questões prementes do dia». Isto faz parte da função dos media da «agenda-selting». A
marcação das agendas tem também um efeito de confirmação da realidade.
O significado de utilizar um idioma público na marcação da agenda é que devolve a
linguagem de comunicação do dia-a-dia ao consenso. Embora seja verdade que a linguagem
«do dia-a-dia» já está saturada de inferência e interpretações dominantes, o processo continuo
de traduzir definições oficiais formais para termos de conversação corrente reforça, ao mesmo
tempo que disfarça, as ligações entre os dois discursos. Isto é, os media «pegam» na lingua­
gem do público e, em cada ocasião, devolvem-lha modificada com conotações dominantes e
consensuais.
Este papel mais «criativo» dos media não é, obviamente, completamente autônomo. Tais
traduções dependem do potencial de tradução da «estória» (a sua noticiabilidade) e do seu
apoio em tópicos familiares e duradouros de interesse — hooliganismo, violência de multi­
dões, comportamento de bandos de «desordeiros». Este processo nem é totalmentc livre c sem
constrangimentos nem é uma reprodução simples e directa. É uma transformação; e tais
transformações necessitam de «trabalho» activo da parte dos media. O seu efeito geral é,
todavia, o de ajudar a fechar o circulo pelo qual as definições dos poderosos se tom am parte da
realidade dado com adquirido pelo público, traduzindo o mundo não familiar para um mundo
familiar. Tudo isto se encontra na fórmula simples de os jornalistas, apesar de tudo, saberem,
melhor do que ninguém, «transmitir as coisas ao público».

Os media e a opinião pública

Até aqui tratámos a questão da produção de notícias. Agora queremos chamar a atenção
para a relação entre o «idioma público» e a sua voz editorial. Até agora discutimos as
transformações envolvidas no passar de uma declaração feita por um primary definer para
uma linguagem do dia-a-dia: para um código, ou «modo de discurso» habitualmente utilizado
por esse jornal — o seu «idioma público». Mas a imprensa tem também a liberdade de
escrever editoriais e exprimir uma opinião acerca de tópicos de grande interesse; não está
limitada a «reproduzir», através de seu «código» próprio, as declarações dos poderosos. Ora,

233
uma forma comum de exprimir uma opinião é declarar as suas opiniões, dizer o que pensa
mas expresso no seu idiomc. público. Por outras palavras, as próprias declarações e pensamen­
tos do jornal acerca de um acontecimento — o produto do juizo editorial — estão representa­
dos na linguagem pública do jom al da mesma maneira que as afirmações dos definidores
primários - o processo c muito semelhante. Quer se argumente a favor ou contra a linha de
acção, a linguagem utilizada é a habitua! do jom al específico. No entanto, há um segundo tipo
de editorial que vai além da expressão dos seus próprios pontos de vista num idioma público e
que de facto proclama estar a expressar os pontos de vista do público. Chamamos a este
processo mais activo falar pelo público (cm oposição a simplesmente utilizar um idioma
público). Algumas dessas vozes editoriais são tão distintas (por exemplo, The Times) que seria
mais preciso falar delas como a própria voz do jom al. Contudo, é improvável que tal voz seja
sempre completamente independente na sua retórica do sentido do editor acerca do idioma
público do seu presumível público. A essência da diferença, que exemplificaremos quando
considerarmos brevemente alguns editoriais relativos a mugging na parte final deste capítulo, é
a existente entre o editorial que diz «Nós acreditamos...» e o que diz «O público acredita...».
Este «falar pelo público », esta forma de articular o que se supõe que a vasta maioria do
público pensa, este inscrever da legitimidade pública nas perspectivas que são expressas pelo
próprio jom al, representa os media no seu papel mais activo de fazer campanha — o ponto
onde os media mais activa c abertamente modelam e estruturam a opinião pública. Este tipo de
editorial toma habitualmentc a forma ou de apoio para uma acção de contrapeso, em relação a
um a medida já tomada, ou, ainda mais frequentemente, duma exigência da necessidade duma
acção mais forte — porque a maioria o exige.
Em qualquer das formas de editorial, os media estabelecem uma ponte de mediação
crucial entre o aparelho de controlo social e o público. A imprensa pode legitimar e reforçar as
acções dos controladores trazendo os seus próprios argumentos independentes para influenciar
o público na defesa das acções propostas (usando um idioma público); ou pode fazer pressão
sobre os controladores incitando a «opinião pública» a apoiar os seus próprios pontos de vista
de que «são necessárias medidas mais fortes» (tomando a voz do público). Mas, cm qualquer
dos casos, o editorial parece fornecer um ponto de referência objcctivo e externo para mobili­
zar a opinião pública. Não se deve esquecer que este reportar da (suposta) opinião pública aos
poderosos, que é o reverso do processo anterior descrito de traduzir definições dominantes
para um (suposto) idioma público, toma o público como ponto de referência importante em
ambas as ocasiões (legitimação) dado que, de facto, o ultrapassa. Através de outra torção, estas
representações da opinião pública são depois inscritas frequentemente pelos controladores
como «prova imparcial» daquilo que o público, de facto, acredita e quer. As espirais de
amplificação são, neste último exemplo, particularmentc complexas e rígidas. (Observaremos
alguns exemplos a partir do caso de mugging mais adiante.)
O que nos interessa aqui é o papel geral dos media no processo de formação activa da
opinião pública. Em sociedades onde o grosso da população não tem acesso directo nem poder
sobre as decisões centrais que afectam as suas vidas, onde a política oficial e opinião estão
concentradas e a opinião popular está dispersa, os media desempenham um papel de ligação c
de mediação critica na formação da opinião pública e na orquestração dessa opinião com as
acções e perspectivas dos poderosos. Os media não só possuem um quase monopólio do
«conhecimento social», como fonte primária de informação daquilo que acontece - também
dirigem a passagem entre aqueles que estão «no saber» e a ignorância estruturada do público

234
cm geral. Ao desempenhar es:e papel de ligação e mediação, os media são reforçados, não
enfraquecidos, pelo facto de serem, formal e esiruturalmente, independentes, tanto das fontes a
que se referem como do «público» cm nome de quem falam. Este quadro pode ter tendência
para sugerir uma situação de «encerramento perfeito» onde a passagem livre das ideologias
dominantes está perfeitamente assegurada. Mas esta imagem fonemente conspirativa não é
correcta e deveriamos ter cuidado com a sua aparente simplicidade e elegância. O factor
central que impede um tal «encerramento perfeito», contudo, não é uma questão de controlo
técnico ou formal, ou fruto do acaso, ou o bom senso e consciência dos profissionais.
Se a tendência para o encerramento ideológico — a tendência prevalecentc — é mantida
pela forma como os diferentes aparelhos estão ligados estruturalmeníc a fim de promover as
definições dominantes de acontecimentos, então a contratendência deve também depender da
existência de fontes organizadas e articuladas, que geram ccm/ra-definições da situação. Como
Goldman (1969) observou, os grupos sociais e as colectividadcs são sempre a infra-estrutura
das ideologias — e das contra-ideologias. Isto depende, até certo ponto, de a colectividade que
gera a contra-ideologia e exige explicações ser uma força de compensação poderosa na socie­
dade; de ela representar uma maioria organizada ou minoria substancial; e de ter ou não um
grau de legitimidade dentro do sistema ou poder ganhar uma determinada posição através da
luta (Horowitz e Liebowitz, 1968; Hall, 1974 b). Os definidores primários, actuando em ou
através dos m edia , achariam difícil estabelecer um encerramento completo em torno de uma
definição de um assunto controverso (relações industriais), sem ter dc lidar com uma defini­
ção alternativa gerada por porta-vozes dos sindicatos, visto os sindicatos serem agora uma
parte reconhecida do sistema de negociações institucionalizadas na área industrial, possuírem
uma perspectiva articulada da sua situação e interesse, c terem ganho «legitimidade» no
terreno onde o conflito econômico c o consenso são debatidos e negociados. M uitos
contradefmidorcs emergentes não têm, contudo, nenhum acesso ao processo de definição.
Mesmo os definidores primários com acesso regular, como os porta-vozes sindicais oficiais,
devem responder em termos pré-estabeleeidos pelos definidores primários e as definições
privilegiadas, e têm um a melhor oportunidade de serem ouvidos e influenciarem o processo
precisamente se colocarem o seu caso nos limites desse consenso. O sccretário-geral de TUC
tem o cantinho mais facilitado se lançar um processo judicial «razoável» contra outra das
entidades patronais, se a sua argumentação, discussão e negociação se fizerem dentro das
normas, mais do que defender uma acção grevista não oficial, etc. Se não aceitarem as regras
do jogo, os contraporta-vozes correm o risco de ser definidos fora da discussão (porque
infringiram as regras da oposição razoável) — rotulada como «extremista» ou «irracional» ou
actuando ilegal ou inconstitucionalmente. Os grupos que nem sequer garantiram esta medida
limitada dc acesso são regular e sistematicamente estigmatizados, na sua ausência, como
«extremos», sendo as suas acções sistematicamente desautorizadas ao serem rotulados de
«irracionais». O encerramento do tópico em tomo da sua definição inicial tem mais facilidade
de conseguir contra grupos que estão fragmentados, relativamente desarticulados, ou que
recusam ordenar os seus «objectivos» em termos de exigências razoáveis dentro de um progra­
ma prático de reformas, ou que adoptem formas extremas de luta de oposição para garantir os
seus fins, ganharem um processo ou defenderem os seus interesses. Qualquer destas caracterís­
ticas tom a mais fácil aos definidores privilegiados rotulá-los livremente, recusando-se a levar
as suas contradefinições em linha de conta.

235
Assim, os media ajudam a reproduzir e a manter as definições da situação que favore­
cem os poderosos, não só recrutando activamente os poderosos nas etapas iniciais onde os
tópicos são estruturados (Hall, 1975) mas favorecendo certas formas de expor tópicos e man­
tendo certas áreas estratégicas de silêncio. Muitas destas formas estruturadas de comunicação
são tão comuns, tão naturais, tão dadas como adquiridas, tão profundamente embutidas nas
próprias formas de comunicação que são utilizadas, que são dificilmente visíveis, como cons­
truções ideológicas, a não ser que se pergunte deliberadamente: «Que mais podería ser dito
deste tópico, que não tenha já sido dito? «Que questões se omitiram?» «Porque é que as
perguntas — que pressupõem sempre respostas de determinada natureza — reincidem tantas
vezes nesta forma? Porque é que certas outras questões nunca aparecem?» Na área do conflito
industrial, por exemplo, W estergaard observou recentemente:

«A exclusão de questões mais vastas é em si o resultado do ‘equilíbrio geral do


poder’ entre os sindicatos e os patrões — muito mais crucial para a análise da
situação do que a conclusão de determinadas disputas dentro dos termos dessa restri­
ção... A localidade do poder tem de ser procurada primeiramente nos limites que
definem as áreas de conflito e restringem o âmbito de alternativas cfectivamente
colocadas em debate. Frequentemente são esboçadas de forma tão rígida que não se
ventilam quaisquer alternativas. Não há então qualquer ‘tomada de decisões’ porque
as políticas auto-evidenciam-se. Elas simplesmente derivam de assunções que tom am
todas as potenciais alternativas invisíveis... Portanto, a localidade do poder não pode
ser vista exccpto fora dos parâmetros do conflito quotidiano, dado esses parâmetros
serem dificilmente visíveis de dentro» (Westergaard, 1974; também ver Lukes, 1974;
Urry, 1973).

Tentamos indicar a forma pela qual as estruturas e as práticas de rotina dos media em
relação à elaboração de notícias serve para «enquadrar» acontecimentos dentro de paradigmas
interpretativos dominantes e, deste modo, unir opiniões dentro do que Urry (1973) chama «o
mesmo tipo de âmbito». Uma vez que os media são institucionalmente distintos das outras
agências estatais, as suas iniciativas não advêm automaticamente do estado. N a verdade, as
oposições frequentemente aparecem de facto entre estas instituições dentro do complexo do
poder na sociedade. Os media são também impelidos por motivos institucionais e racionais
que diferem dos dos outros scctores do estado. Por exemplo, o impulso competitivo de ser
«primeiro com as notícias» pode não ser do interesse imediato ou vantajoso para o estado. Os
media muitas vezes querem descobrir o que os definidores primários preferiam manter calado.
Os conflitos recorrentes entre políticos — especialmcnte políticos do Partido Trabalhista — e
os media indicam que os objectivos dos media e os dos definidores primários nem sempre
coincidem (Hall et al., 1976). Apesar destas reservas, contudo, parece inegável que a tendên­
cia prevalecente nos media se verifica na direcção da reprodução, entre todas as suas contra­
dições, das definições dos poderosos, da ideologia dominante. Temos tentado sugerir a razão
de esta tendência se inscrever nas próprias estruturas e processos do próprio acto de elaboração
das notícias, e não poder ser atribuído à fiaqueza dos jornalistas ou à prepotência dos seus
patrões.

236
O crime como notícia

Agora desejamos especificar como os elementos gerais e os processos de produção


jornalística funcionam na produção de notícias sobre o crime como uma variante particular
dessa produção. Começámos por notar que as notícias são moldadas, devido à sua relação, a
uma concepção específica de sociedade como um «consenso». Perante este pano de nmdo, os
acontecimentos noticiáveis são aqueles que parecem interromper fronteiras desse consenso. Já
sugerimos que o consenso se baseia nos meios de acção legítimos e institucionalizados. O
crime envolve o lado negativo desse consenso, visto a lei definir aquilo que a sociedade julga
ser tipos de acção ilegítimos. Por fim, a lei criada pelo parlamento, executada nos tribunais,
incorporando a vontade da população, fomece à sociedade a definição básica de quais são as
acções que são aceitáveis ou não; é a «fronteira» mareando o «nosso estilo de vida» e os
valores que lhes estão associados. A acção destinada a estigmatizar e punir aqueles que
infringem a lei, levada a cabo pelos agentes formalmente nomeados como guardiões da
moralidade e da ordem pública, constituem uma reafirmação simbólica dramatizada dos
valores da sociedade e dos seus limites de tolerância. Se concebermos as noticias delineando
um a realidade problemática, então o crime é quase por definição «notícia», como Erikson
(1966) sugeriu:

«Pode ser importante notar nesta ligação que os confrontos entre «transgressores
marginais» e os agentes de controlo têm sempre atraído uma boa porção da atenção
do público... Uma parte considerável daquilo a que chamamos «notícia» c dedicada a
reportagens sobre desvios comportamentais e as suas consequências, e não é simples
explicar a razão pela qual estes itens devem ser considerados noticiáveis ou porque
merecem a extraordinária atenção que obtêm. Talvez apelem a um número de perver-
sidades psicológicas no seio do grande público, como têm sugerido alguns comentadores,
mas ao mesmo tempo constituem uma das nossas principais fontes de informação
sobre os esboços normativos da nossa sociedade. Num sentido figurado, pelo menos, a
moralidade e a imoralidade encontram-se no cadafalso público, e é neste encontro que
se traça a linha que as separa.»

O crime é, então, «notícia» porque o seu tratamento evoca ameaças mas também reafir­
m a a moralidade consensual da sociedade; desenrola-se perante nós uma peça de moralidade
moderna na qual o «demônio» é expulso tanto simbólica como fisicamente da sociedade pelos
seus guardiões — a polícia e a magistratura. Para que esta afirmação não seja considerada
excessivamente dramatizada deve ser comparada com o comentário seguinte do Daily Mail
(intitulado «Os Homens Tidos Como Certos») no assassínio de três policiais cm 1966:

«O crime de Shcpherd’s Bush faz lembrar o que a Inglaterra na realidade pensa


da sua polícia. Na Grã-Bretanha o polícia é ainda o sinal ambulante que indica o que
a sociedade alcançou e toma como dado adquirido uma certa normalidade estável de
ordem pública e decência. Bemard Shaw uma vez disse que para ele o quadro de uma
Grã-Bretanha imutável era simbolizado por um polícia de pé com a chuva brilhando
na capa. Ele ainda é o homem a quem se perguntam as horas, ou o caminho para a
Câmara Municipal ou se o último autocarro já partiu. Ainda é o homem que, quando

237
a sociedade !ho pede, vai à viela não iiuminada investigar o barulho. É por isso que a
morte de um policia por violência é tão profundamente sentida entre nós. A morte de
três homens em Shepherd’s Bush, insensata e deliberadamente abatidos a tiro no seu
posto a manter a ordem e a decência, apresenta-se como um choque terrível, que
parece sacudir a própria terra. A uma incredibilidade ofuscada segue-se a compreen­
são de que essa ordem não deve ser tida como adquirida — a selva ainda cá está.
Ainda existem nela animais selvagens para serem controlados (')■

As notícias criminais não são, claro, uniformemente desta natureza dramática. Muito é
rotina e sumário, porque o volume dos crimes é só por si visto como rotina. O crime é
entendido como um fenômeno permanente e reincidente c, por isso, muito dele é inspecciona-
do pelos media de uma forma igualmente rotineira. Shuttleworíh, no seu estudo sobre a
reportagem da violência no Daily Mirror, notou os muitos diferentes tipos de apresentação
utilizados, dependendo da natureza da violência a ser tratada (Shuttleworth et al., 1975). Ele
comentou especialmente o espaço rclativamente pequeno, e a maneira abreviada c impessoal
como são relatadas muitas formas «mundanas» de crime. (A brevidade destes relatos é ainda
limitada pela lei sub judice que impede a imprensa de comentar um caso que esteja em
tribunal, e o recente reforço das regras contra a imprensa que atribui culpa antes de esta ser
provada.) Muitas notícias sobre o crime fazem, por conseguinte, pouco mais do que notarem
que um outro crime «sério» foi cometido. Todavia, os media estão altamente sensibilizados
para o crime enquanto potencial fonte de notícias. Muito deste relato «mundano» de crime
ajusta-se ainda ao nosso argumento geral — assinala a transgressão das fronteiras normativas,
seguidas de investigação, prisão e retribuição social em termos de condenação do transgressor
(o trabalho de rotina da polícia e dos tribunais oferece uma tal permanente categoria de
notícias que a muitos «repórteres novatos» é atribuída na sua primeira tarefa «o sector crimi­
nal». Se sobreviverem a este trabalho de rotina — a maioria dos editores principais aprendem
a pressupor — estarão então prontos para tarefas maiores e mais exigentes). A reportagem, a
um nível mais desenvolvido, de certos exemplos dramáticos de crime, surge c salienta-se no
cenário deste tratamento rotinizado do crime. A alteração na visibilidade de certas notícias de
crime funciona em conjunto com outros processos organizacionais e ideológicos dentro dos
media por exemplo, a relativa «competitividade» de outras notícias pelo espaço c atenção, a
novidade da notícia ou a sua topicalidade, ctc. O crime, aqui, não é significativamente diferen­
te de outros tipos de notícias regulares. O que selecciona determinadas «estórias» de crime
pela atenção especial, e determina o relativo grau de atenção que lhes é dado, é a mesma
estrutura de «valores-noticia» que é aplicada a outras áreas noticiosas.
Um ponto especial sobre o crime como notícia: é o estatuto especial da violência enquan­
to valor-notícia. Qualquer crime pode ser levantado à visibilidade noticiosa se a violência lhe
estiver associada, visto a violência ser talvez o supremo exemplo das «consequências negativas
dos valores-noticia». A violência representa uma violação básica do indivíduo; o maior crime
pessoal ó o «assassínio», ultrapassado apenas pelo assassínio de um agente que zela pelo
cumprimento da lei, o polícia. A violência é também o supremo crime contra a propriedade e
contra o estado. Representa, assim, uma ruptura fundamental na ordem social. O uso de

(') Daily Mirror, 13 de Agosto dc 1966.

238
violência marca a distinção entre aqueles que são esscncialmente da sociedade e aqueles que
estão fora dela. No discurso atrás citado, o senhor Hcath traçou a distinção crucial entre
«argumento pacifico», «o que a maior parte de nós acredita ser a forma correcta de actuação»,
e a «violência» que a «desafia». A base da lei c salvaguardar «essa forma correcta de
actuação», proteger o indivíduo, a propriedade e o estado daqueles que usam «violência»
contra eles. Isto é igualmente a base do cumprimento da lei e do controlo social. O estado, e só
o estado, tem o monopólio da violência legítima, e esta «violência» é usada para salvaguardar
a sociedade de utilizações «ilegitimas». A violência constitui assim o limiar critico na socieda­
de; todos os actos, especialmente os criminosos, que transgridem essa fronteira, são, por
definição, merecedores de atenção noticiosa. Queixamo-nos frequentemente que em geral «as
notícias» contêm demasiada violência: um item pode subir ao topo da agenda noticiosa
simplesmente porque contém um «grande estouro». Esses que assim se queixam não compre­
endem o que são as «notícias». É impossível definir os «valores-notícia» em formas que não
colocariam a «violência» no topo, ou próximo do topo, da atenção noticiosa.
Vimos anteriormente como a produção de notícias está dependente do papel desempe­
nhado pelos definidores primários. Na área das notícias de crime, os media parecem estar mais
fortemente dependentes das instituições de controlo do crime para as suas «estórias» do que
praticamente em qualquer outra área. A polícia, os porta-vozes do Ministério do Interior e os
tribunais constituem um quase monopólio como fontes de notícias de crime nos media. Muitos
grupos profissionais têm contacto com o crime, mas é só a polícia que se afirma como
especialista profissional na «guerra contra o crime», baseada na experiência directa e pessoal.
Esta «especialidade dupla», exclusiva e particular, parece dar aos porta-vozes da polícia
credito autorizado. Além disso, tanto as relações sociais formais como as informais de elabora­
ção de notícias, das quais o jornalista extrai o seu material «de crime», estão dependentes de
um a noção de «confiança», por exemplo, entre a polícia c o correspondente de crime; isto é,
na reportagem objectiva e credível feita pelo jornalista da informação privilegiada à qual lhe
foi dado acesso. A «traição» dessa confiança conduzirá à secagem do flaxo de informação
(Chibnall, 1973). O Ministério do Interior, investido de responsabilidade suprema política e
administrativa para o controlo do crime, é digno de crédito devido à sua responsabilidade para
com o Parlamento e, consequentemente, para com a «vontade do povo». Anteriormente já
referimos ao estatuto especial dos tribunais. Os juizes têm a responsabilidade de dispor dos
transgressores do código legal da sociedade; isto confere-lhes inevitavelmente autoridade. Mas
a constante atenção dos media às suas declarações poderosas sublinha a importância do seu
papel simbólico: o seu estatuto como representantes c «ventríloquos» do bem c da verticalidade
contra as forças do mal e das trevas. O que é mais impressionante nas notícias de crime é que
elas raramente envolvem uma descrição de «testemunho ocular» ao contrário da notícia
enviada da frente de batalha pelo correspondente de guerra. As «estórias» de crimes são quase
totalmcnte produzidas a partir das definições dos definidores primários institucionais.
Esta situação de quase monopólio fornece a base para os três formatos típicos de notícia
de crimes que, em conjunto, cobrem a maior parte das variantes de «estórias» de crime.
Primeiro, o relato baseado em afirmações da polícia acerca de investigações de um caso
particular — que envolve uma reconstrução policial do acontecimento e pormenores da acção
que estão a desenvolver. Segundo, o «estado de guerra contra o crime» — normalmente
baseado em estatísticas de chefes de Polícia ou do Ministério do Interior sobre crimes correntes,

7 39
juntamente com a interpretação feita pelos porta-vozes do significado dos simples números —
o que c a mais séria ameaça, onde tem havido mais sucesso policial, etc. Terceiro, o material
de apoio à reportagem do crime — a «estória» baseada num caso de tribunal: alguns, onde o
caso é considerado ser especialmente noticiável, seguindo os acontecimentos relativos ao
julgamento dia-a-dia; outros, onde apenas o dia da sentença e especialmente as observações do
juiz são consideradas noticiáveis; e ainda outros que consistem meramente de relatos breves e
sumários.
Contudo, a razão porque os definidores primários de crime figuram tão proeminente­
mente nas reportagens dc crime nos media não é uma função exclusiva do seu estatuto
particularmcnte autorizado. Tem também a ver com o facto de que o crime esta menos aberto
às definições concorrentes e alternativas do que a maior parte dos assuntos públicos. Uma
declaração do CB1 é igualmente «contrabalançada» por uma declaração do TUC, mas um
depoimento da polícia sobre crime é raramente «contrabalançada» com outro de um criminoso
profissional, embora o último tenha mais experiência em crimes. Mas, como oposição, os
criminosos não são nem «legítimos» nem organizados. Em virtude de serem criminosos,
foram privados do direito de participar na negociação do consenso sobre o crime; e na própria
natureza da maior parte de actividade criminosa, eles são um extracto relativamente desorga­
nizado, individualizado e fragmentado. Só muito recentemente é que os prisioneiros se tom a­
ram suficientemente organizados e articulados e se pronunciam em seu nome para ganharem
acesso à discussão, digamos, sobre a reforma penal, mesmo quando se trata dc condições
prisionais ou métodos de disciplina nas prisões. Em geral, o criminoso, pela sua conduta, é
tido como ter sido privado, juntamente com outros direitos de cidadania, do seu «direito de
resposta» até ter pago a sua dívida para com a sociedade. Tal oposição organizada existe dc
facto — habitualmente na forma de específicos grupos reformistas e especialistas — e muitas
vazes partilha com os definidores primários a mesma definição básica do «problema», e está
interessada em meramente propor meios alternativos para o mesmo objectivo: o retomo do
criminoso ao rebanho.
Isto significa que, onde parece haver um largo consenso e as contradcfiniçõcs quase não
existam, as definições dominantes dirigem o campo dc significação de uma forma relativa­
mente incontestada. Qualquer discussão que haja tende a realizar-se quase exclusivamente
dentro dos termos de referência dos controladores. E isto leva à repressão de qualquer jogo
entre definições dominantes alternativas: ao «tomar todas as potenciais alternativas invisí­
veis», leva o tratamento do crime em questões exactamentc ao terreno do pragmático — dado
que há um problema com o crime, o que se pode fazer? Na ausência de uma definição
alternativa, proposta eficientemente c com clareza, o âmbito de qualquer reinterpretação de
crime pelo público como assunto do seu interesse é extremamente limitado. Consequentemente,
tuna das áreas onde os media têm mais probabilidades de ser bem sucedidos na mobilização da
opinião pública dentro da estrutura dominante de idéias é em questões relacionadas com o
crime e a sua ameaça à sociedade. Isto toma a via do crime unidimensional e transparente no
que diz respeito aos mass media e à opinião pública - onde os assuntos são simples,
incontroversos e claros. Por este motivo, o crime e o desvio oferecem duas das principais
fontes de imagens de poluição e estigma na retórica do público (Douglas, 1966). E não é
apenas coincidente que a linguagem utilizada para justificar a acção contra qualquer potencial
grupo dc perturbadores desenvolva, como um dos seus indicadores criticos de fronteiras, o
imaginário da criminalidade e da ilegalidade, aplicando-o ou directamcnte ou indircctamente

740
por associação (Rock e Hcidensohn, 1969; Cohen, 1973), por exemplo, o significado de
estudantes contcsíatários como «estudantes hooligans» ou «vagabundos» ou «rufiões
acadêmicos».

Mugging c os media

Até aqui temos vindo a discutir as características gerais da produção jornalística; demos
depois mais atenção às formas que estas assumem em relação à produção de crime-como-
-notícia. Nesta secção ligaremos estas análises de produção jornalística, especificamentc, com
o tratamento dado pela imprensa às notícias sobre o mugging. Ao examinar, cronologicamen­
te, a natureza variável deste tratamento dado pela imprensa, poderemos ver não só a aplicação
de valores-notícia específicos mas, mais importante, como estes funcionam como estrutura cm
relação com um tópico particular — neste caso um tipo específico de crime — para manter a
sua noticiabilidade.
Talvez ajudasse começarmos com o quadro I, que ilustra o padrão geral de reportagem
jornalística de muggings durante o nosso período experimental — de Agosto de 1972 a Agosto
de 1973; mas primeiro precisamos de dizer alguma coisa sobre a sua base empírica. A nossa
amostra baseou-se na leitura diária tanto do Guardian como do Daily Mirror durante o
período experimental de 13 meses. Tivemos também acesso a amplos arquivos de recortes de
jornais relativos a mugging neste mesmo período, os quais tinham sido reunidos na sequência
de um a extensiva, mas não exaustiva, leitura de outros diários nacionais, os jornais nacionais
dc domingo e os vespertinos londrinos. Devido à ênfase ligeiramente diferente dada às noticias
tanto nos jornais de domingo como nos de Londres, não incluímos «estórias» extraídas destas
fontes no quadro I nem o texto acompanhante. A nossa investigação, somente baseada nos
diários nacionais, produziu 33 acontecimentos diferentes relacionados com os muggings no
Daily Mirror, 18 no Guardian, e 60 no todo. Ao chegar a estes números, decidimos contar
todas as reportagens diferentes relacionadas com um mugging específico (isto é, follow-ups do
mesmo acontecimento até às etapas finais, tais como o processo judicial, a apelação, etc.)
como um a unidade; decidimos igualmente que o primeiro mês durante o qual o acontecimento
fosse mencionado deveria ser o mês no qual seria registado no quadro. Mais ainda, decidimos
igualmente que a coluna de «amostra total» deveria incluir somente o número total de aconte­
cimentos diferentes. Assim, ao chegarmos a estes números para cada mês, o mesmo aconteci­
mento em, digamos, quatro jornais diferentes foi contado como um só acontecimento. Nas
colunas separadas no caso do Guardian e do Daily Mirror, pelo contrário, se o mesmo
acontecimento aparecesse nos dois jornais, era registado nas duas colunas. Os relatos sobre o
mugging no estrangeiro foram excluídos do quadro. (Os interessados na cobertura da im ­
prensa dc muggings em geral, em oposição à cobertura de acontecim entos específicos
sobre o mugging — relatos de crimes ou processos jurídicos — deve consultar o quadro II
no fim deste capítulo.
Deve-se depreender do quadro I que o auge da cobertura pela imprensa de muggings
ocorreu em Outubro de 1972. A partir daí verifica-se uma quebra no interesse da imprensa. A
manutenção desse interesse para além do ano novo, ao longo de Março e Abril, deve-se
provavelmente muito ao efeito do caso Handsworth. Depois disso, só um a torrente de
«estórias» no Daily Mirror em Junho apresenta o mugging com alguma apreciável visibilida­
de nos media. Embora, como sabemos agora, Agosto de 1973 não foi de forma alguma o fim

241
da estória de mugging, parece justo concluir que por volta de Agosto de 1973 os imiggiiigs
tinham concluído «um ciclo» da sua noticiabilidade. Enquanto os números envolvidos são
pequenos e não muito reveladores só por si, quando nos voltemos para a natureza variável da
cobertura, emerge de facto um padrão mais distinto — um padrão que confirma a noção de
um «ciclo de noticiabilidade».
O mugging rompe como uma «estória» devido à sua singularidade, a sua novidade. Isto
encaixa-se na nossa noção de singular como valor-notícia principal: a maior parte das «estóri­
as» parecem necessitar, em primeiro lugar, de algum elemento novo para serem levantadas à
visibilidade noticiosa; o mugging não foi cxcepção. O assassínio da Ponte de Waterloo,
definido pela polícia como um «mugging gorado», foi localizado e representado para o seu
público pelo Daily Mirror como um «novo tipo aterrorizante de crime». Alguém apunhalado
ou até morto no decurso de um assalto não é sem dúvida novidade. O que levanta este
assassínio, cm particular, acima da categoria de «insignificante», é a atribuição de um «novo»
rótulo; isto assinala a sua novidade. Coerente com a nossa argumentação, este acontecimento
é mcdiatizado pela policia que investiga o caso; eles fornecem o rótulo de mugging, e portanto
a legitimação para ser usado pela imprensa. O jornalista trabalha depois este esboço de
definição. Enquadra c contcxtualiza os detalhes da «estória» de acordo com a lógica operacional
dos valores-notícia; realça a sua novidade (um «estilo novo e atcrTorizante de crime») e a sua
ligação à América.

Q UADROI

O s acontecim entos de mugging relatados na im p ren sa


(Agosto de 1972 a Agosto de 1973)

Mcs/Ano Daily Mirror Guardian Amostra total

Ago 1972 1 2 2
Set 1972 4 1 4
Out 1972 12 9 23
N ov 1972 2 0 4
Dez 1972 0 1 2
Jan 1973 3 2 5
Fev 1973 1 0 4
M ar 1973 2 2 4
A br 1973 2 0 5
Mai 1973 0 1 1
Jun 1973 5 0 5
Jul 1973 0 0 0
A go 1973 1 0 1

Total 33 18 60

242
Galtung e Ruge (1973) puseram a hipótese de que «uma vez que algo atingiu as
manchetes e foi definido como 'noticia', então continuar-se-á a defini-lo como tal durante
algum tempo», e o nosso exemplo certamcnte validou esta hipótese. Talvez mais importante,
embora por algum tempo, a simples atribuição do rótulo de mugging foi suficiente para trazer
à órbita do noticiável muitos acontecimentos de crime discretos c vulgares. Os exemplos mais
claros deste processo foram alguns dos primeiros «casos jurídicos» de mugging mais publicitados:
estes foram, de facto, julgamentos por pickpockcting (*) (ou mesmo tentativas de pickpocketing).
Outros exemplos foram a pequena quantidade de «estórias» em Setembro/Outubro de ataques
cometidos por raparigas. Podería parecer que o mugging fornecia algo como um elemento de
convergência para o interesse latente acerca do crescimento da violência feminina — um
interesse que se tomou desde então manifesto e independente do interesse pelo mugging. Este
processo — que Hall (1974 a) designou como o efeito «generativo e associativo» de novos
rótulos — esteve também muito em evidência durante o período em que os rótulos mod/rocker
tinham alguma novidade. (Cohen, 1980)
Contudo, o valor-notícia de «novidade» está eventualmente gasto: através da repetição o
extraordinário transforma-se, eventualmente, em vulgar. Na verdade, em relação a qualquer
«estória» particular, a «novidade» tem claramente um período de vida mais limitado de todos
os valores-notícia. Neste ponto, no «ciclo» de uma «estória», são necessários outros valores-
-notícia mais duradouros para acrescentar a noticiabilidade cm declínio, e sustentar a sua
«vida» como notícia. Dois valores, em particular, pareciam desempenhar um papel de amplifi­
cação cm relação aos muggings: os valores-notícia do «bizarro» e da «violência». Relativa­
mente a estes dois valores-notícia, verificamos um aumento no número de relatos de muggings,
ao longo do nosso período experimental, que pareceram ganhar visibilidade noticiosa, cm
primeiro lugar devido à presença de tais valores-notícia suplementares. Embora os números
envolvidos sejam reduzidos, parecem ser suficientemente marcantes para nos autorizar a
fazermos inferências. Pelo contrário, o valor-notícia de «pessoa de elite» ou «pessoa famosa»
não parece ter um papel significativo de aumentação na nossa amostra. No total, encontrámos
somente cinco «estórias» que pareciam ganhar visibilidade noticiosa, principalmcnte por
causa do nome famoso da vítima: duas apareceram em 1972 (•’) e três cm 1973 (!).
Por relato «bizarro» queremos dizer uma que tenha características invulgares, singula­
res, excêntricas, esquisitas, estranhas e grotescas. Na nossa amostra tais relatos podiam scr
subdivididos em duas — umas com um toque de humor e outras com tons mais ameaçadores e
grotescos — , mas o termo «bizarro» parece adequado para cobrir o elemento de noticiabilidade
comum aos dois tipos. Durante 1973 só encontrámos um relato assim. A «estória» do Guardian
de 10 de Novembro de 1972 de um jovem que conduziu um homem, que não tinha nenhum
dinheiro, a um banco, apontando-lhe uma arma, para levantar um cheque. Mas entre M arço e
Julho de 1973 encontrámos cinco — algumas humorísticas, algumas grotescas. Como exem­
plo de cada uma escolhemos duas «estórias» do Daily Mirror. (<) A primeira, intitulada
«Muggers Apanham Homem Errado», publicada no dia 5 de Junho de 1973, constitui uma
«estória» humorística cheia de contorções e contradições. O relato falava de um mugging

(*) Nota de tradução - Roubo dc carteiras.


(J) Daily Mirror, 7 de Setembro de 1972; Daily Express, 1 de Dezembro de 1972.
(’) Sun, 6 dc Janeiro de 1973; Daily Mirror, 9 de Fevereiro dc 1973; Daily Mirror, 28 de Junho dc 1973.
(') Daily Mirror, 29 dc Março dc 1973; Sun, 14 de Abril de 1973; e Daily Mirror, 6 dc Abril de 1973.
rmiicauos peios porta-vozes aa po/icia como «violência gratuita».
Uma vez que achámos muito difícil diferenciar prccisamcnte o puramente «i
tos de muggings estruturalmente violentos — por exemplo, uma manchete «gn
mta» podería desmentir um rcJato «instrumental» mais ambíguo (’) — não teu
isas e quantitativas de um aumento cm reiatos «violentos» de um tipo espec
ito. Contudo, temos de facto provas de um relativo aumento no número de «cs
'ings «violentos» em geral, que justifica a nossa noção de violência tendo
1ante a desem penhar como um vaior-notícia suplementar no caso de muggings
Considerando a cobertura de 60 casos diferentes de muggings encontrados, c
verificamos que eram 38 relatos de muggings violentos (isto é, envolvendo
i físico), enquanto só 22 foram «não violentos» (isto c, exemplos onde só havia
lência ou não havia referência a violência): uma relação ligeiramente inferior
m. (As nossas estimativas foram baseadas em descrições relatadas dos crimes,
formais contra os réus.) Todavia, se compararmos os relatos encontrados cm lí
is e 15 não violentos) com os que foram encontrados durante 1973 (18 violentos
lentos), verificamos uma alteração na razão ligeiramente superior a um-para
;s-para-um); e, se considerarmos só os últimos cinco meses do período experín
eosto de 1973), obtemos uma razão de cinco-para-um (dez relatos violentos e doi
sobre estatísticas deveria ter demonstrado, os problemas relacionados com o uso de estatísticas
oficiais de crime como base — e especialmente estatísticas de muggings — são muitos.
Contudo, oferecemos a seguinte prova como base para afirmar que dos casos colectivamentc
considerados pela polícia como sendo parte do problema dos muggings no período de 1972-73,
cerca de 50 por cento eram «não violentos» e a razão de um-para-um revelada manteve-se
razoavelmente constante:

«Até agora, este ano, cerca de 450 casos foram comunicados à secção da policia
(organizada para tratar dos muggings na zona Sul de Londres). Destes, 160 foram
substanciados como roubos violentos e outros 200 confirmados como roubos a pesso­
as, quer por puxão quer por pickpocketing.» (Sunday Times, 1 de Outubro de 1972.)

«Nem se pode dizer que haja um mugger típico. Mas há um padrão. Vá à


esquadra da Polícia de Brixton, por exemplo, e está lá tudo em mapas na parede c nas
estatísticas. No ano que passou, 211 roubos com violência ou ameaças — mais 40 que
no ano anterior. Roubos sem violência — 300 casos.» (London Evening News, 22 de
M arço de 1973.)

A proporção entre as estatísticas de robberies e snatchings é idêntica em ambos os


conjuntos de estatísticas, embora um conjunto se refira a 1972 e o outro ao início de 1973. De
facto, há ligeiramente mais casos «não violentos» do que «violentos». Visto nenhum dos
artigos dar quaisquer outros números separados para os muggings, parece justo supor que
tanto os robberies como snatchings sem violência» estavam a ser tratados, para todos os
efeitos, como muggings. Para melhor defesa deste ponto de vista, remeteriamos os leitores para
o Relatório do Comissário da Policia Metropolitana para o Ano de 1972, que explicitamente
afirma que existe pouca diferença entre snatchings e robbery. «Embora não sejam estritamen­
te crimes de violência, os snatchings estão incluídos no quadro (crimes de violência (scleccio-
nados)), porque não há grande distinção entre estas ofensas e as de robbery, e porque é
evidente um aumento semelhante nos últimos dois anos.» (‘) O comissário fala — embora diga
não gostar do termo — de muggings. Embora a tendência dos media para apresentarem
demasiados crimes violentos, em geral, tenha sido frequentemente assinalada (Roshier, 1981,
p. 40), aquilo para que temos vindo a chamar a atenção aqui c o modo como a «violência» c
cada vez mais utilizada como um elemento estruturante cm relação ao ciclo de vida de um
tema noticioso em particular.
Na análise de Roshier da selecçâo das noticias sobre crimes na imprensa, considerou
quatro grupos de factores de particular importância: 1) a seriedade da ofensa... 2) circunstânci­
as «esquisitas», isto é, humorísticas, irônicas, invulgares... 3) circunstâncias sentimentais ou
dramáticas... 4) envolvimento de alguma forma de uma pessoa famosa ou de elevado estatuto
social (embora particularmente como transgressor ou vítima) (Roshier, 1981, pp. 34-35). Estes
são factores muito semelhantes aos valores-notícia que nós achámos importantes como fontes
suplementares de noticiabilidade. Contudo, a nossa ênfase tem incidido na forma como estes (*)

(*) Annual Reports, p. 44.

245
de mugging na América como ponto de referência contra o qual a sua sentença
mira contextualizada; mas, em primeiro lugar, este exemplo ilustra o «apoio» das «este
■m declarações autorizadas de definidores privilegiados fora dos media.
Em Outubro de 1972, encontramos um exemplo de como os media utilizam uma «ba:
is definições para o seu próprio trabalho de definição em tal questão. O Daily Mirror
Dutubro de 1972 acompanhou o relatório do juiz Hines, sentenciando três jovens ado
; a três anos de prisão por mugging com tun editorial que apanhava a sua dcclaraçãc
\ decisão que sou obrigado a tomar pode não ser a melhor para vós jovens individ
mas é a que devo tom ar tendo em vista o interesse público.» O editorial acresceu
ópria «voz» de campanha — o seu «idioma público» — ao do juiz: «O juiz Hines
Há vezes em que as intimações que normalmente pareceríam cruéis c injustas, «TI
impostas... para o mugging não se tom ar incontrolável como acontece na Améri
tem de ser severo e certo». Aqui podemos ver a imprensa num papel mais actix
ndo (m as sim ultaneam ente usando com o justificação) afirmações jurídicas sol
j com o um a questão pública. O círculo apertou-se, o tópico m ais fechado, as rei
media e os definidores prim ários reforçaram -se mais m utuam ente. N a verdade, j
ão há lugar para debate : «O ju iz H ines tem razão.»
ia sem ana depois (13 de O utubro de 1972), o jornal Sun. num editorial inti
ndo os M uggers», deu m ais um passo no sentido de encerram ento, alinham
co m a definição dom inante do tribunal. N este exem plo, o Sun não aplica
lúblico» — m as antes toma a voz do público ; tom a-se no «ventríloquo» do p<

« C O M Q U E estão os britânicos p reo cu p ad o s hoje em dia? C o m o s orde


s p re ç o s ? A im ig ração ? A p o rn o g rafia? A s p esso as falam de to d as estas cois;
Sun a c re d ita q ue h á o u tra questão que tem p ro fu n d am en te a p o q u en ta d o e ei
to d a g e n te : A V IO L Ê N C IA N A S R U A S ... N a d a p o d ia ser tã o c o n trário a
ido d e v ida, b a se a d o n o resp eito d o sen so c o m u m p e la lei e p e la o rdem ,
te n ç a s p u n itiv a s d e p risã o a ju d a m a d e te r a v io lê n c ia — e n a d a mai:
som lido — então dem onstrarão não serem só o único cam inho. Serão, lam entav
Se deixarmos de considerar por um momento as diferenças entre jornais individuais e
tratarmos todos como contribuindo para uma sequência na qual é realizado um trabalho de
definição crítica sobre a questão controversa de mugging, então podem os ver, de forma
abreviada, como as relações entre definidores primários c os media servem para, simultanea­
mente, definir mugging como questão pública, como um assunto de interesse público, e para
efectuar um encerramento ideológico do tópico. Uma vez em jogo, a definição primária
comanda a acção; existe agora uma questão de interesse público, cujas dimensões foram
claramente delineadas, que serve agora como ponto de referência contínuo para subsequentes
reportagens, acção e campanhas. Por exemplo, toma-se agora possível para a polícia, que é um
tanto circunspecta em parecer estar envolvida em questões controversas e que ainda não estão
decididas, exigir poderes mais vastos para actuar numa questão de controlo do crime, o qual
se instalou, claramente, como uma matéria pública urgente. Assim:

«A Policia Pode Exigir Mais Poderes Na Área Do Mugging. Os chefes de


Polícia, alarmados com o aumento do crime violento, particularmente entre jovens,
poderão solicitar ao Ministério do Interior poderes maiores para combater o mugging.»
(The Times, 5 de Outubro de 1972.)

Alguns meses mais tarde é o sector judiciário que re\’igora o interesse público pelo
mugging (ou toma a voz do público) como defesa das suas políticas de intimação.

«M uggcr Condenado a 3 Anos. 'E Eu Fui Benevolente', Diz o Juiz. O ju iz


acrescentou: ‘Toda a gente neste pais pensa que ofensas desta natureza — ofensas
respeitantes a mugging estão a aumentar e o público tem de ser protegido. Este é um
caso terrível’». (Daily Mirror, 29 de Março de 1973).

Neste último exemplo, a «opinião pública» foi importada de volta para o discurso
judiciário como forma de reforçar c tom ar legítima uma afirmação jurídica sobre o crime.
Enquanto anteriormente os media baseavam as suas «estórias» em provas apresentadas pelos
tribunais, agora os tribunais usam o público («toda a gente pensa») para apoiar as suas
afirmações. Isto é um círculo excessivamente limitado de reciprocidades mútuas e reforçadas.
Mas mesmo esta torção da espiral de amplificação não nos deverá cegar de modo a ignorar o
ponto inicial do processo: o ponto onde começou e a partir do qual se renova continuamente -
o papel dos definidores primários e privilegiados, que ao classificarem o mundo do crime para
os media e para o público, estabelecem as principais categorias através das quais os meios de
comunicação c os jornalistas dirigem os seus temas secundários e variações.
Uma semana antes, outro juiz havia acrescentado a última torção à espiral e, cfectiva-
mente, «fechou o círculo». Condenando dois jovens cujo advogado se referira às pesadas penas
dadas ao caso Handsworth no dia anterior, o juiz comentou que «A imprensa divulgara que
‘não havería mais penas leves’ para assaltos de rua envolvendo roubo». (’) Aqui se vê a
reciprocidade entre as diferentes partes da cultura do poder duma forma extremamente clara
e explícita. Temos aqui exactamente o lado inverso do processo assinalado anteriormente no

(’) Daily Telcgraph, 21 de Março dc 1973.


qual os media legitimaram a sua cobertura com base em provas concedidas pelos tribunais.
Agora os próprios media tomaram-se no «legitimador» do processo do controlo. Neste mo­
mento estamos precisamente no cerne das inter-rclações entre a cultura do poder e a «cultura
de significação». A articulação mútua destas duas agências «relativamente independentes» é,
por esta altura, tão excessivamente determinada que não pode funcionar doutra forma que não
seja a de criar um encerramento eficaz ideológico e controlador em tomo do assunto. Nesta
altura, os media — embora involuntariamente e através das suas próprias vias «autônomas»
— tomaram-se efectivamente num aparelho do próprio processo de controlo — um aparelho
ideológico do estado (Althusser, 1971).

QUADRO II

A co b e rtu ra do muggiitg p o r p arte da im prensa


(Agosto 1972 a Agosto 1973)

Mês Guardian Daily (1) c (2) Outros Totais


Ano Mirror juntos jornais do
o o mês

Ago 1972 5 í 6 3 9
Set 1972 2 5 7 5 12
Out 1972 7 18 25 19 44
N ov 1972 5 5 10 13 23
Dez 1972 0 2 2 4 6
Jan 1973 4 5 9 4 13
Fev 1973 0 1 1 7 8
M ar 1973 7 9 16 37 53(*)
A br 1973 4 4 8 13 21
Mai 1973 2 0 2 4 6
Jun 1973 0 5 5 0 5
Jul 1973 0 0 0 0 0
Ago 1973 1 1 2 0 2

Total 37 56 93 109 202

(*) Inclui 34 «estórias» do caso Handsworth.


(') Como no quadro I o Guardian e o Daily Sfírror foram lidos exaustivamente, enquanto os números para
outros «diários» foram reconstruídos a partir de cortes de jornais disponibilizados porNCCL e a BBC.
(*) Todos os itens que mencionam mugging foram contados. A maioria referia-se a crimes específicos, mas um
número considerável eram de natureza mais geral: relatos da actividadc do Ministério do Interior, actividadc da Polícia,
features, editoriais, etc.
Consistentemente, seja qual for o mês ou o jornal, este último tipo de relatos forneceu cerca de um quarto ou
mais de todos os itens.
3.a PARTE

AS ESTÓRIAS
Introdução

de N elson Traquina

Já há muito tempo, o termo «estória» é utilizado no léxico profissional do jornalista


norte-americano para se referir às noticias e, hoje em dia, é também cada ve: mais frequente
ouvir os jornalistas portugueses empregarem o mesmo termo de idêntica maneira.
Possivelmente, quando os jornalistas utilizam o termo não reconhecem todas as suas
implicações: traduz apenas o reconhecimento de uma obrigação profissional de ter de falar
das coisas de uma forma interessante. Mas ao dizer que as noticias são uma «estória», como
será claro à luz dos artigos desta parte, afirma-se que as noticias são uma forma cultural, um
produto da cultura, um artefacto que, nas palavras de Schudson (1980, p. 24),
«involuntariamente se apoia ou fa z uso de padrões pré-existentes para produzir sentidos»,
. ideia que, segundo o autor, se apoia na chamada teoria da «acção cultural». As noticias são,
de novo, encaradas como uma construção, perspectiva que, como tivemos ocasião de ver, põe
em causa o dogma segundo o qual as noticias reflectem a realidade. No entanto, como
escreve Gaye TüCHMAN, «dizer que a noticia é uma 'estória' não é de modo nenhum rebaixar
a noticia, nem acusá-la de ser fictícia. Melhor, alerta-nos para o fa d o de a noticia, como
todos os documentos públicos, ser uma realidade construída possuidora da sua própria
validade interna». O mesmo ponto é sublinhado por Michael Schudson quando ele refere que
as noticias não são ficcionais. Igualmente S. Elizabeth Bird e Robert IV. Dardenne são claros
neste ponto quando afirmam que encarar as noticias como uma narrativa não nega o valor
das noticias como correspondendo a uma realidade exterior, nem nega que as notícias
informam. Levantando o problema da relação entre a realidade e as «estórias» sobre a
realidade, as noticias como «estórias» constituem uma construção que sublinha a importân­
cia do factor cultural.
Para Tuchman, o conceito de frame ajuda a compreender esta relação. O framc
(«enquadramento») — um conceito aplicado por Erving Goffman à forma como organizamos
a vida quotidiana para compreendermos e respondermos às situações sociais —, corresponde
à principal ideia organizadora que é utilizada para dar sentido ao acontecimento (assunto
ou, mesmo, problemática) e que, subsequentemente, influencia todo o processo de selecção e
de construção da noticia. Tuchman também sublinha a importância dos frames na própria
identificação das «faixas» da vida como acontecimentos. No seu processo de socialização, os
jornalistas apreendem os frames e utilizam-os constantemente para transformar os aconteci­
mentos no seu produto profissional, as «estórias». Tuchman acrescenta que alguns aconteci­
mentos nunca podem ser noticia porque o catálogo de frames existente não contém um que
seja aplicável.
Esta mesma ideia é reiterada por BlRD e DARDENNE quando os autores questionam a
pretensão de que cada noticia é «inventada» exclusivamente a partir dos factos do aconteci­
mento. Ao contrário, citando Hall (1984), um «inventário de discurso» é mobilizado, criando
uma «ressonância» que parece muito semelhante à ideia de «consonância» proposta no
artigo de Galtung e Ruge. Segundo Bird e Dardenne: «No processo de produção jornalística,
os jornalistas não se limitam a usar definições culturalmente determinadas, eles também têm
de encaixar novas situações em velhas definições.» A luz de algumas considerações que
foram feitas na segunda parte desta antologia, é pertinente referir aqui a citação que Bird e
Dardenne fazem da reflexão de um antigo jornalista, Robert Darnton: «Devido à nossa
tendência de ver os acontecimentos imediatos em vez dos processos a longo termo, nós
éramos cegos ao elemento arcaico no jornalismo. Mas as nossas próprias concepções das
'noticias' eram o resultado de formas antigas de contar 'estórias'». Por exemplo, Bird e
Dardenne escrevem que cada noticia sobre crime é escrita sobre um pano de fundo de outras
noticias sobre crime, «tirando e acrescentando.» Acentuam que os próprios «valores-noticia»
são códigos, culturalmente específicos, de contar «estórias». Os jornalistas fazem uso de
valores-noticia, regras e fórmulas que lhes permitem, em cada circunstância, completar o seu
trabalho, «enchendo o esqueleto de carne». Os jornalistas., como membros de uma cultura
específica, constroem as noticias segundo uma «gramática da cultura»; as noticias consti­
tuem uma narrativa representativa da cultura. Assim, as noticias ajudam-nos a compreender
os valores e os símbolos com significado numa determinada cultura.
Bird e Dardenne argumentam também que as noticias transcendem as suas funções
tradicionais de informação e explicação, contribuindo para um sistema simbólico duradouro.
Enquanto narrativas, as noticias recriam o sentido de segurança da sociedade, aspecto já
sublinhado por Adriano Duarte Rodrigues quando refere a «função remitificadora» das
noticias. Segundo Bird e Dardenne, as noticias ajudam a criar ordem a partir da desordem e
estabelecem as fronteiras do comportamento aceitável. Enquanto narrativa mítica, as notici­
as possuem os seus próprios códigos simbólicos que são reconhecidos pelas audiências.
Os autores desenvolvem uma reflexão sobre a existência de diferentes form as narrati­
vas. Em particular, estabelecem a distinção entre chronicle (registo) e «estória» e comparam
esta distinção das «vozes natrativas» com a distinção estabelecida na filosofia socrática
entre as formas discursivas do logos e do mythos. Utilizam esta distinção para explicitar o
dilema que «dois ideais impossíveis» colocam aos jornalistas: «As exigências da 'realidade',
que eles vêem como atingíveis através de estratégias objectivas, e as exigências da
narratividade.» Assim, os jornalistas confrontam-se com um paradoxo: «Quanto mais objecthvs
forem, mais ilegíveis se tomam, e quanto melhores contadores de ‘estórias' forem, melhor
resposta terão dos seus leitores, mas mais receios os jornalistas terão de trair os seus ideais.»
No entanto, ambas as «vozes» fazem parte das noticias, que os autores recordam não serem
ficcionais, sendo contudo «estórias» sobre a realidade e não a realidade. Ambas reforçam-se
mutuamente: o chronicle corrige o mito e traça os parâmetros da normalidade, a «estória»
convence e toma as coisas mais «reais». Ambas utilizam os «mapas de significado» (Hall et
al.) para construir uma realidade em conformidade com esses mesmos mapas para atribuir
significados a novas realidades. Segundo os autores, são os interesses do status quo que são
defendidos.
Ao analisar a cobertura jornalística do «Discurso à Nação» do Presidente norte-
-americano ao Congresso de 1790 até hoje, o artigo de M ic h a e l S c í IUDSON demonstra que
as fonnas narrativas não são um dado adquirido imutável. Dá como exemplo o abandono da
forma cronológica e o surgimento da pirâmide invertida como um desenvolvimento especifico
do jornalismo norte-americano do fim do século XIX Para Schudson, «o poder dos media não
está só (nem principalmente) no seu poder de declarar as coisas como sendo verdadeiras,
mas no seu poder de fornecer as formas nas quais as declarações aparecem». Assim, para o
autor, as formas narrativas são importantes porque, através da forma, «o mundo é incoipora-
do em convenções narrativas inquestionáveis e despercebidas, sendo então transfigurado,
deixando de ser um tema de discussão para se tornar uma premissa de qualquer possível
conversa». Schudson escreve que as noticias não são ficcionais mas são convencionais. As
convenções reforçam certas pressuposições acerca do mundo político e do papel dos jornalis­
tas, e também moldam e estreitam o raio dos tipos de verdade que podem ser ditos.
No estudo sobre os «discursos à nação», o autor demonstra que os aspectos do aconte­
cimento que são seleccionados para fazer parte da noticia também são mutáveis ao longo do
tempo: a inclusão ou não de referências às reacções dos congressistas, às reacções na
imprensa estrangeira, ao espectáculo do encontro; a utilização ou não de entrevistas; o papel
do próprio Presidente como um actor, como o actor principal; a existência de interpretações
sobre o conteúdo da mensagem e de comparações com outras mensagens. Schudson desco­
briu uma mudança no papel do jornalista de simples estenógrafo a intérprete assertivo; a
utilização da pirâmide invertida reconheceu implicitamente o jornalista como perito político.
Para o autor, estas mudanças não são um reflexo de mudanças na estrutura política (isto è,
da realidade relatada); algumas mudanças no sistema político são posteriores às mudanças
operadas nas convenções narrativas. As noticias são parte constituinte da própria política da
forma narrativa, que, neste caso, tem várias causas: a influência indirecta de novas tecnologias
(o caso do telégrafo), a necessidade de responder a uma nova classe de leitores, e a afirma­
ção da própria classe jornalística (devido à sua crescente consciencializaçãò e autonomia).
Assim, segundo o autor, já nos anos 20 os jornalistas norte-americanos sentiam ter o direito
de analisar o significado das mensagens presidenciais, algo que também os jornalistas da
televisão norte-americana mais tarde afirmariam (após uma fase inicial de dúvidas sobre o
lugar da informação no novo meio), embora retomando a ordem cronológica e uma especial
atenção ao espectáculo e ao ritual deste acontecimento.
Schudson alerta-nos, tal como algumas das leituras da primeira e segunda partes desta
antologia, para a importância do papel da interacção entre os jornalistas no processo de
formação de consensos e acrescenta que os jornalistas confiam não só nos outros jornalistas
mas também nas formas narrativas, em volta das quais trabalham e tagarelam. No entanto, o

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autor deixa lima advertência aos jornalistas: as formas narrativas, que os jornalistas preci­
sam de controlar para serem respeitados como profissionais, também têm o poder de contro­
lar os jornalistas e, através deles, o próprio público que consome as noticias.
Paul Weaver aponta também a importância da forma no seu trabalho de comparação
das noticias de imprensa com as noticias televisivas. Referindo-se às noticias norte-america­
nas, Weaver acentua as diferenças entre estas duas variedades de noticias, mas reconhece
que há também semelhanças. Entre estas, Weaver refere que ambos os tipos de noticias são
variedades de jornalismo, isto é, relatos correntes sobre acontecimentos correntes, reconhe­
cendo assim a dificuldade que uma focagem sobre o presente representa para o jornalismo (e
que já fo i sublinhado nos artigos de Traquina e Schlesinger). Outra semelhança destas duas
variedades de jornalismo é a sua incapacidade de descrever a complexidade e a ambigiddade,
bem como a sua vulnerabilidade perante os «pseudo-acontecimentos». Outras semelhanças,
apontadas pelo autor, são: ambas reflectem o ethos da comunidade jornalística e são molda­
das pelos processos e pelas estruturas de produção; ambas centram a sua atenção em
acontecimentos e numa linha simplista de «acção dramática»; ambas utilizam «os mesmos
temas, fórmulas e símbolos na construção das suas narrativas», ou seja, são «cortadas da
mesma fazenda intelectual e retórica».
Apesar de tantas semelhanças, e elas são de peso, Wea\-er parece sublinhar as diferen­
ças entre as noticias de imprensa e as noticias tele\’isivas. Uma diferença determinante
relaciona-se com a estnitura das noticias. Aqui, o autor sublinha dois aspectos. Primeiro, as
noticias televisivas são mais unidas estruturalmente porque são organizadas em função do
tempo, enquanto as notícias de imprensa são organizadas em função do espaço. Por isso, o
noticiário televisivo, em contraste com o jornal, tende a privilegiar uma unidade temática
(um ponto que o artigo de Gurevitch e Blumler ilustrou quando refere a preocupação dos
jornalistas da BBC em encontrarem um tema na construção do «pacote»). Segundo, a dife­
rença estrutural existe igualmente em relação a cada noticia individual. Weaver explica que
a noticia televisiva é um todo que só é inteligível quando visto na sua totalidade, precisando,
por isso, de um tema que atravessa toda a noticia do inicio até ao fim. Em contraste, a noticia
de imprensa é geralmente organizada segundo a pirâmide invertida, com os elementos mais
importantes da noticia logo no primeiro parágrafo, o lead. Devido às diferenças estruturais,
Weaver chega à conclusão polêmica de que as noticias televisivas são mais interpretativas e
menos constrangidas pelo fluxo diário dos acontecimentos.
Outra diferença entre as noticias televisivas e as noticias de imprensa é que enquanto
estas são visuais as noticias televisivas são audiovisuais. Segundo o autor, as noticias de
imprensa empregam uma voz narrativa impessoal em que a forma retórica apaga a presença
do jornalista na procura do ideal da objectividade; em contraste, a voz narrativa das noticias
televisivas é pessoal devido à presença fisica do jornalista. Todavia, Weaver reconhece que o
jornalista televisivo ê representado como uma personagem omnipresente que fala com a
autoridade de quem sabe tudo. Neste ponto, o autor conclui então que as noticias de impren­
sa dizem menos do que realmente sabem devido ao constrangimento da narrativa impessoal,
enquanto as notícias televisivas dizem mais dó que sabem.
A terceira diferença sublinhada é a importância dada pelas noticias televisivas ao
espectácido, cujo índice mais evidente é a preocupação demonstrada pelosjornalistas televisivos
com a imagem, i.e., a existência de boas imagens como critério de noticiabilidade. Escreve
Wea\'er: «Esta preocupação leva o jornalismo televisivo a dar cobertura desproporcionada a

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acontecimentos, ou aspectos de acontecimentos, que são espectaculares ou filmados de fo r­
mas espectaculares».
Até agora tivemos a oportunidade de ver a importância das diferentes vozes narrativas
(Bird e Dardenne), a evolução histórica das formas narrativas (Scliudson), a influência das
características do meio sobre as formas (Weaver). 0 artigo de Da .MEL H allix e Pa OI.O
MancíNI chama a atenção para o factor nacional na análise da narrativas jornalísticas. Para
os autores, as noticias são uma forma de representação que ê estruturada pelos próprios
processos políticos e sociais que as noticias tentam «refleclir» e pelo próprio papel das
noticias nesses processos. Num estudo comparativo das noticias televisivas nos Estados
Unidos e em Itália transmitidas em 1982, Hallin e Mancini encontraram diferenças não só no
conteúdo noticioso mas sobretudo nas convenções narrativas utilizadas. Há mais noticias
estrangeiras no noticiário norte-americano e as noticias políticas são mais centradas na
actividade do governo, enquanto as noticias italianas privilegiam a actividade partidária. O
noticiário televisivo norte-americano é caracterizado pela sua unidade temática, enquanto o
noticiário italiano não apresenta uma lógica interna; ao nível da notícia individual, as
noticias americanas são mais estruturadas na form a de uma «estória» e, por isso,
interpretativas, enquanto as noticias italianas são, na terminologia dos autores, mais
«referenciais».
Outras diferenças são apontadas pelos autores. Primeiro, existe uma maior utilização
do elemento visual no noticiário norte-americano, enquanto o noticiário italiano emprega
mais convenções da imprensa. Segundo, as noticias americanas são mais frequentemente
constnddas na perspectiva do cidadão comum e as fontes «não oficiais» estão mais presentes
no noticiário (mesmo assim 68% das noticias dessa semana utilizam fontes oficiais), enquanto
as noticias italianas são altamente institucionalizadas. Escrevem Hallin e Mancini: «Rara­
mente aparece alguém nas noticias televisivas italianas que não represente um participante
organizado do processo político.» Terceiro, os jornalistas televisivos norte-americanos rara­
mente utilizam a primeira pessoa, enquanto os jornalistas televisivos italianos frequentemente
empregam o «nós», significando ele (o jornalista) e o público.
Os autores tentam explicar estas diferenças e fazem referência à natureza comercial da
televisão americana em contraste com o estatuto público da radiotelevisão italiana, a R A I .
Os clientes principais da televisão norte-americana são os publicitários, enquanto a clientela
principal da telexásão italiana são os partidos políticos. Mas consideram essa explicação
inadequada e avançam que a resposta se encontra na estrutura diferente do espaço público
em cada pais: o espaço público norte-americano é vazio, enquanto o italiano ê
institucionalizado de forma rígida. Escrevem os autores: «Dado que exercem controlo sobre
a televisão estatal, não há necessidade para os partidos políticos permitirem que os jornalis­
tas usurpem a sua função como árbitros do significado político.» Acrescentam: «De facto, é
algo artificial dizer que o jornalismo existe em Itália como uma institidção única e reconhecí­
vel. A Itália tem dois jornalismos e nenhum deles tem a autonomia de função, organização e
ideologia que o jornalismo norte-americano tem.» Os autores prosseguem a sua análise e
indicam que o jornalismo de imprensa está virado para o comentário político, enquanto o
jornalista televisivo italiano é «um fimcionário político». Em contraste, os jornalistas norte-
americanos definem-se como membros de uma profissão autônoma, que tem a sua própria
ideologia: assumem-se como representantes do público em prol do qual trabalham. Assim, o
papel dos jornalistas norte-americanos é muito activo em contraste com o papel passivo dos

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jornalistas italianos, definidos como simples transmissores da informação. Hallin e Mancini
concluem: «Portanto, a característica unida e temática do noticiário americano resulta não
só dos imperativos comerciais mas também do papel central que o jornalismo tem no sistema
político norte-americano.»
Aqui, parece pertinente recordar o artigo de Schudson e a sua demonstração de que a
mudança nas convenções narrativas utilizadas pelos jornalistas norte-americanos traduziu
uma afirmação da crescente consciencialização e autonomia profissionais dos jornalistas.
Hallin e M ancini consideram que as diferentes convenções narrativas têm diversas
consequências sobre as noticias. Assim, as convenções utilizadas no noticiário americano
privilegiam o actor e requerem um «herói», dificultam a expressão de idéias abstractas,
implicam um papel mais activo por parte do jornalista na procura da informação, e impõem
uma postura mais critica por parte dos jornalistas. Estas conclusões podem levantar resetvas
- e certamente polêmica. Mas, igualmente, a importância da questão colocada pelos autores
da relação entre o jornalismo e a autoridade política não se limita às convenções narrativas;
ao contrário, essas mesmas convenções narrativas utilizadas pelos jornalistas podem refiec-
tir, em parte, a relação de forças entre os jornalistas e outros agentes sociais.
O último artigo desta antologia fornece uma reflexão critica sobre o tipo de conheci­
mento que as noticias fornecem. Para E. Barbara Phillips, as noticias fornecem «familiari­
dade acerca» e não «conhecimento sobre» as coisas. As noticias são assim devido a certos
hábitos mentais dos jornalistas acerca da realidade social, hábitos esses que provêm da
orientação prática dos jornalistas, da sua linguagem particular, o chamado «jornalês», e da
sua epistemologia especifica. Segundo a autora, os jornalistas são pragmáticos, orientados
para o concreto, focados sobre os acontecimentos. Os jornalistas violam o principio de
Platão segundo o qual a tarefa do teórico é a de evitar o desmembramento da realidade em
pequenos pedaços. Ao contrário do teórico, os jornalistas são atraídos pelo contingente. Na
terminologia do antropólogo Claude Lévi-Strauss, os jornalistas são bricoleurs, pessoas que
usam a lógica das mãos e dos olhos, a lógica do concreto, e seguem um impulso do oficio, o
instinto.
Segundo Phillips, os jornalistas possuem certos hábitos mentais relacionados com a
profissão, tais como a dependência do instinto, uma orientação temporal para o presente, e
uma linguagem especifica, denominada «jornalês».
O «jornalês» utiliza formatos específicos (a pirâmide invertida, por exemplo) que im­
põem uma estrutura sobre os acontecimentos; e o «jornalês» Çimportante) realça o concreto,
o particular e o indivíduo em oposição ao estrutural, ao abstracto e ao universal. A unidade
das noticias é geralmente o acontecimento; o acontecimento gira em torno de pessoas em
situações contingentes; os formatos jornalísticos desaprovam o estabelecimento de ligações
entre os acontecimentos, e os jornalistas, como não teóricos, vêem os acontecimentos como
factos desconexos. Assim, para a autora, as noticias são um «mosaico», um «caleidoscópio
de formas variáveis da realidade superficial». Devido aos constrangimentos temporais e às
pressões da organização, as ambiguidades e os desenvolvimentos em fluxo tendem a ser não
noticias. E. Barbara Phillips conclui: «De um modo geral, as noticias dão a sensação de que
existe novidade sem mudança.» Como escreve Traquina, no artigo publicado na segunda
parte desta antologia: «Controlado pelo relógio, dedicado ao conceito de actualidade, obce­
cado pela pergunta 'o que há de novo?', o jornalista e as empresas jornalísticas para as
quais trabalha, dão, sobretudo, importância ao objectivo de produzir as noticias sobre
os acontecimentos mais recentes. E na resposta aos seis 'servidores' habituais do lead
„ noticioso, os dois (como? porquê?) que mais carecem de explicação são precisamente aque-
les que o leitor quer da noticia e menos encontra. Exigir isso é talvez pedir demasiado a estes
profissionais inundados pela cheia de acontecimentos e assediados pela hora de fecho.»
Só uma mudança fundamental na natureza do jornalismo, como ele é praticado hoje em
dia, poderá alterar signijicativamente as noticias. Mas, com profissionais altamente qualifi­
cados, com uma sólida formação cultural, e com empresas jornalísticas com recursos subs­
tanciais que permitam melhor responder às exigências do dia-a-dia, o jornalismo consegue
ser menos vitima dos seus constrangimentos e da sua própria ideologia (como alguns casos
no jornalismo português exemplificam hoje em dia). Assim, as noticias terão mais valor e a
sua leitura será ainda mais necessária.

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Contando «estórias» (*)

Gaye Tuchman

Frame analysis pode ajudar no estudo dos princípios de organização que estão
na base da selecção e definição dos acontecimentos noticiosos.

O s relatos de acontecimentos noticiosos são «estórias» — nem mais nem menos. Como
Robert Park (1925) afirmou há várias décadas, a notícia de jornal é uma forma de literatura
popular, uma reincarnação das ainda populares novelas apresentadas de um a outra forma.
Mais recentemente, citando uma aluna de Park, Helen Hughes (1940), Robert Damton (1975)
abordou a mesma questão: os repórteres descobrem acontecimentos nos quais conseguem
localizar os temas e os conflitos de uma sociedade particular. Estes acontecimentos são rccontados
essencialmentc através da mesma «estória» de ano para ano ou mesmo de década para década.
Por exemplo, Damton relata que enquanto era repórter de polícia, c andava à procura de uma
«boa 'estória'» num determinado dia, descobriu que haviam roubado uma bicicleta de criança.
Ele escreveu e publicou uma «estória» tocante, realçando o drama humano da perda de
propriedade do miúdo c soube posteriormente que, na prática, a mesma «estória» saira no seu
jornal alguns anos atrás.
Implícita no ensaio de Damton está a noção de que os jornalistas aprendem formas de
«estórias» que eles usam como equipamento profissional, como mecanismos que eles podem
aplicar para transformar os acontecimentos que encontram no seu produto profissional —
relatos de acontecimentos ou news stories. Todavia, Damton não fornece um a técnica para
analisar esta suposta «transformação». Neste artigo, gostaria de apresentar uma técnica atra­
vés da aplicação dos conceitos de fram e e strip de G offm an (1975) às noticias e aos

(*) Reedição de: Journal o f Communicalion (Vol. 26, N* 4, 1976). «Telting Stories», de Gaye Tuchman.
Direitos de autor: Oxford University Press. Reedição com a aprovação do editor.
acontecim entos noticiosos. Como se mostrará, os conceitos de Goffman são particularmente
úteis porque eles não pressupõem que uma transformação ocorra quando os acontecimentos
noticiosos se tomam «estórias». Nem pressupõem que haja necessariamente uma correspon­
dência entre acontecimento e «estória».
Como Gofiman (1975, pp. 10-11) o define, um frame c constituído pelos princípios de
organização que governam os acontecimentos — pelo menos os sociais — e o nosso
envolvimento subjectivo neles». Os frames organizam as «strips» do mundo quotidiano, en-
tendendo-se por strip «uma fatia ou corte arbitrário do fluxo da actividade corrente» (1975, p.
10). Além disso, eles também podem governar a constante organização social dos próprios
acontecimentos. Assim, eles podem constituir happenings soltos ou conversa amorfa como um
acontecimento perceptível, ao passo que sem o frame seriam apenas happenings ou apenas
conversa. Assim, utilizando as convenções da news stoiy como frame, os repórteres conse­
guem mais do que fazer um acontecimento público; eles definem o que é e quais os happenings
amorfos que fazem parte do acontecimento (Smith, 1974). Como frames, as «estórias» ofere­
cem definições da realidade social.
Um exemplo pode clarificar a aplicação do conceito de fram e às noticias. Considere-se a
seguinte troca de palavras, tirada de notas de campo:

A: Como foi?
B: Não muito grande.
A: Seis parágrafos?
B: Está bem.

A troca de palavras, em si, não tem sentido. Informação suplementar fornece um contex­
to social e empresta’algum significado a esta fatia de conversa:

Um repórter regressa à Redacção vindo da cena do fogo, a sua tarefa do dia.


Antes de se dirigir para a secretária, fala com o editor da secçâo local. Erguendo os
olhos, o editor pergunta: «Como foi?». «Não muito grande», responde o repórter.
«Seis parágrafos?», pergunta o editor, querendo dizer «Será espaço suficiente para
cobrir este acontecimento?». «Está bem», responde o repórter, e dirige-sc para a sua
máquina de escrever, elaborando mais tarde uma «estória» acerca do fogo com seis
parágrafos de extensão (Sigal, 1973).

É claro que os «dispositivos de framing » (como seja noticiar e acrescentar uma determi­
nada informação) identificam os happenings.
Neste exemplo, dar um início e um fim (um contexto) (') à conversa proporciona-lhe os
atributos de uma anedota estruturada e «revela» que a conversa c uma conferência editorial.
Mais importante ainda, esta conferência editorial eleva o fogo ao estatuto de acontecimento.
Embora o «fogo menor» possa ter causado estragos nas vidas das pessoas cujos lares foram
demolidos, o seu carácter público formou-se a partir da natureza da «estória» — um «fogo de
seis parágrafos» não muito interessante, aparentemente com falta de drama humano.

(') O uso de contextos na identificação do significado é discutido cm novas teorias sociológicas, incluindo
trabalhos de Garfinkcl (1967), Zimmerman e Pcllner (1972) c Smith (1974).
Para os repórteres, aquele «fogo de seis parágrafos» tem ainda outra característica. Não é
nem uma conflagração que destruiu os seus lares (como podería ter sido para os residentes dos
prédios destruídos), nem apenas um «fogo menor aparentemente com falta de drama humano»
(como podería parecer para os leitores do jomal). É uma «estória», melhor, uma de uma série
de «estórias», que é o produto de dias e anos de trabalho jornalístico de rotina.
A ênfase dada às «estórias» sugere que, pelo menos em parte, os repórteres possam falar
entre eles mais de «estórias» do que de acontecimentos. Eles podem ver o mundo quotidiano e
os seus documentos de apoio em termos do produto que vão fabricar — a «estória». Os
seguintes resumos de conversas, retiradas de observações de campo, ilustram este fenômeno:

Um repórter de tribunal conversa com um advogado que lhe trouxe a queixa


de dois guardas da «Housing Authority». Após terem falado acerca do caso, o
advogado afirma que conhece o «grande repórter» do jo m a l e resume o aconteci­
mento que discutira com o «grande repórter». «Lembro-me da 'estória'», responde o
repórter.

Que existem noções abstractas de «estórias» é mais visivel nas referências negativas dos
repórteres. O repórter B tinha evidentemente na cabeça uma noção de um tipo de «estória»
durante a seguinte troca de palavras:

Três repórteres, sentados em secretárias vizinhas, conversam durante um perío­


do de ócio. Começaram a conversar acerca dos requisitos legais para se ocupar um
cargo político e de quais os cargos que exigem que o político viva na zona que ele/
ela representa. O repórter A, escalado para a Câmara Municipal durante o dia,
disse que o membro X da assembléia não vivia no circulo por que fora eleito, e isso
podería ser uma boa «estória». (Os repórteres trocam dicas para «estórias» como
prova de amizade). O repórter B, o repórter político que deveria cobrir tais assuntos,
rematou a conversa dizendo: «Não vou pegar nessa porcaria.»

Visto que o repórter B se recusava a reconhecer a residência do membro da assembléia


como um a «estória válida», ele não considerava a residência como um acontecimento público.
Certamente, a importância das «estórias» enquanto frames está implícita na literatura
sobre a comunicação que trata o problema da socialização dos jornalistas. No mínimo, apren­
der «estórias» inclui aprender a identificar o lead de uma «estória», a distinguir entre um lead
de primeiro e segundo dia, a fazer uma transição suave entre os parágrafos potencialmente
disjuntivos, e a dispor os parágrafos de modo que caiam «naturalmente» muna pirâmide
invertida. Todavia, a literatura não refere que elementos como estes identificam os aconteci­
mentos e as suas circunstâncias particulares. De novo, um exemplo negativo, um a «estória»
que não chegou a ser escrita, fornece a chave para a compreensão do processo de identificação
e definição: Um repórter estava sentado na sua secretária, um cigarrro na boca, as mãos
suspensas sobre as teclas da máquina de escrever, uma pose característica de quem está «à
procura de um lead». «Se estás com problemas em encontrar um lead, por que razão não dizes
a Gaye» (*), afirmou um colega. O repórter resumiu a «estória» que queria escrever. Dizia

(*) Nota de tradução - Uma referencia ao autor do artigo. O exemplo é retirado dos seus apontamentos de
campo.
respeito à sua visita a um centro prisional da cidade no qual os reclusos recentemente se
haviam amotinado. Ele e outros repórteres haviam acompanhado uma comissão da Câmara
Municipal nessa visita e num período de perguntas e respostas com os reclusos. Os reclusos
queixavam-se de que estavam detidos antes do julgamento porque não conseguiam arranjar
dinheiro para pagar as elevadas fianças que haviam sido estabelecidas e que este procedimento
violava as disposições da Constituição americana. Os membros da Câmara esperavam receber
queixas acerca da comida e de outras condições de vida; eles não ouviram os argumentos
acerca da Constituição embora esses argumentos tivessem sido apresentados. O argumento
constitucional é a «estória», disse o repórter, mas o seu jornal, assim como os membros da
Câmara, esperavam a «estória» acerca das condições de vida. O repórter não conseguia
encontrar um lead que se ajustasse quer à «sua estória», quer àquilo que ele entendia ser a
«estória» tradicional acerca das condições prisionais que o seu jornal esperava receber. Final­
mente, tirou a folha em branco da máquina de escrever, dizendo que se recusava a escrever «a
estória» esperada, e virou-se para outro assunto.

Argumentar que as notícias são «estórias» e que as «estórias» são frames para
identificar e definir acontecimentos pode parecer implicar que as «estórias» não são
factuais nem objectivas.

Esta inferência pode ser particularmentc compelativa porque alguns dos exemplos apre­
sentados aqui envolviam fenômenos, como era o caso da visita ao centro prisional, que os
investigadores frequentemente discutem sob as rubricas da objcctividade e da parcialidade,
incluindo o conhecimento do repórter do ponto de vista particular do seu próprio jornal
(Breed, 1955b). Todavia, o facto de os repórteres como profissionais terem em princípio
aderido a um a norma de facticidade e objectividade pode demonstrar até que ponto o acto de
contar «estórias» é um aspecto compelativo do trabalho de um repórter e também demonstrar
que a «estória» faz exigências ao repórter enquanto contador de «estórias». As normas podem
servir para identificar as questões pertinentes. Se não houvesse qualquer questão, não havería
nenhuma necessidade de qualquer norma.
Ser um repórter que lida com factos e ser um contador de «estórias» que produz contos
não são actividades antitéticas. De facto, é muito provável que alguns acontecimentos nunca
consigam «ser notícia» porque o catálogo de antigos frames de «estórias» não inclui um fram e
particular que se lhes possa aplicar. Noutro local (Tuchman, 1977), sugeri que isto pode ter
sido o caso durante algumas fases da reportagem acerca do movimento feminista. Citando
uma repórter incapaz de escrever «estórias» acerca das actividades do movimento:

Havia uma quantidade de coisas interessantes a desenrolar-se, no entanto eu


não consegida agarrar nas coisas. Havia um tipo de conversa informe. Eu consegida
ver as coisas a mudar, porém era-me difícil debruçar sobre isso e chegar ao editor
da secção local e dizer: «Ê isto o que está a acontecer» (Tuchman, 1977).

Para parafrasear este jornalista, e recordando a conversa entre o editor e o jornalista


sobre o «fogo de seis parágrafos, sem um frame, as conversas dentro do movimento feminista
norte-americano eram informes; sem uma «estória» implicando um frame, as conversas não
podiam ser percebidas como um acontecimento noticioso viável.

261
Pode-se comparar uma noção filosófica a um frame.
Do mesmo modo que as «estórias» enquanto frame permitem que alguns happenings
amorfos sejam definidos como componentes de um acontecimento, também as idéias enquanto
frames permitem ao investigador notar alguns fenômenos mas não outros (:). Como se mostra
neste ensaio, a análise do frame encoraja os investigadores a investigar os modos através dos
quais as noções de «estórias» dos jornalistas ajudam à identificação de alguns pormenores
como «factos pertencentes a um acontecimento». Também possibilita que os investigadores
evitem o problema espinhoso «do que realmente aconteceu» e que continuem a analisar
considerações organizacionais e profissionais que são parte essencial da reportagem. Afinal de
tudo, a noção de «estória» e as suas características formais são, para citar a definição de frame
dc Goffman, «princípios de organização». E, princípios de organização são fenômenos sociais
acessíveis à análise social, como Goffman demonstra.
Dizer que uma notícia é uma «estória» não é de modo nenhum rebaixar a noticia, nem
acusá-la de ser fictícia. Melhor, alerta-nos para o facto de a notícia, como todos os documentos
públicos, ser uma realidade construída possuidora da sua própria validade interna. Os relatos
noticiosos, mais um a realidade sclectiva do que uma realidade sintética, como acontece na
literatura, existem por si só. Eles são dociunentos públicos que colocam um mundo à nossa
frente.

(!) Smith (1974) traça em linhas gerais as abordagens sociológicas a este problema a fim dc analisar a cons­
trução social dc documentários sobre a realidade.
«Mito, registo e ‘estórias’:
explorando as
qualidades narrativas
das notícias» (*)

S. Elizabeth Bird e Robert W. Dardenne

Embora os relatos de noticias sejam tradicionalmente conhecidos como «estórias» que,


por definição, são narrativas culturalmente construídas, pouco estudo sério se tem realizado
acerca das qualidades narrativas das noticias e o que, de facto, significa construir «estórias».
Muitos jornalistas continuam «a pensar em termos de liberdade de imprensa, objectividade,
justiça, imparcialidade, equilibrio, reflexo da realidade, verdadeira representação, aceitando
prontamente a distinção clara entre facto e opinião, etc.» (Halloran, 1974, pp. 14-15), conside­
rando a discussão entre notícias e «estória» com desconfiança. «Escândalos», como o caso de
Janet Cooke ou as revelações (mais recentes) de que o jornalista do New Yorker, Alistair Reid,
utilizou artifícios ficcionais nos seus relatos factuais, têm como consequência recriminações e
apelos ao «retomo ao básico» (Murphy, 1985).
Continua-sc a ter a pretensão de que todas as «estórias» surgem directamente de factos
relativos a acontecimentos. Se for verdade que «se pode colocar seis repórteres num tribunal a
assistir a seis horas de palavreado e eles saírem de lá com a mesma «estória» (Chibnall, 1981,
p. 86), os jornalistas preferem ver isto mais como a defesa da objectividade do que o triunfo da
fórmula de construção narrativa. Os dispositivos retóricos e estruturais são vistos simplesmente
como métodos de transmitir informação com precisão e eficácia, e o fosso observado entre

(*) Reedição de: «Myth, Chroniclc and Story: Exploring thc Nanativc Qualities of News», de S. Elizabeth
Bird e Robert W. Dardenne, publicado no livro Media. Myths and Narratives: Telesision and lhe Press, de James
W. Carcy (Ed.), Ncwbury Park, Ca.: Sage Publications, 1988. Direitos de autor: Sage.

9/Ç-J
atras disciplinas, entretanto, o estudo da narrativa e da «estona» esta-se a i
importante, visto que a ênfase é dada aos textos enquanto construçõe:
ogos culturais redcscobriram nào só a narrativa como elemento importante
des analisam, mas também começaram reflexivamente a repensar as suas
ícas — as suas «estórias noticiosas» — que há muito haviam sido trata
bjectivos da realidade (Marcus, 1982). Como Braner (1984) adverte:

«Pode haver um a correspondência entre a vida vivida, a vida sentida


relatada, m as o antropólogo nunca deverá assum ir a correspondência nem (
fazer a distinção» (p. 7).

iesmo num a disciplina aparentemente «objcctiva» como é a antropologia física


intadas questões acerca das convenções culturais que modelam narrativas tais
ientífico da evolução humana (Landau, 1984).
is historiadores sempre debateram a diferença entre acontecimento e «estórias»
rtecimcntos. A história «objcctiva» c agora amplamente vista como ingênua —
o no ter-se cm consideração a distinção inicial entre um acontecimento físico que
smente e um acontecimento que já tenha recebido o seu estatuto histórico do factc
contado em registos, em contos lendários, em memórias, etc.» (Ricoeur, 1981, p,
imo as notícias, a história e a antropologia narram acontecimentos reais, e o:
áonais estão a descobrir que para compreender as suas narrativas têm de analisar
nstruídas, incluindo os mecanismos de contar a «estória» que constituem parte inte
sa construção.
Nesta discussão interdisciplinar, consideramos o gênero notícia como um tipo espec
tema simbólico. Tencionamos explorar algumas das questões que se levantam ao ci
nos seriamente as notícias como narrativa e «estória» e, deste modo, a relação i
ca entre a «realidade» e as «estórias» sobre a «realidade». Os estudiosos dos media e
studar o paradigma narrativo para compreenderem a natureza das notícias (por exem
ett e Edelman, 1985). Propomo-nos continuar essa discussão delineando idéias com
:s de vários campos de investigação e relacioná-las com esta literatura em crcscime
: a comunicação — Acreditamos que daqui possa advir uma compreensão mais nítida
;xto no qual os jornalistas constroem «estórias» e de como estas se relacionam con
ira da qual eles são tanto o reflexo como a representação.

rd ag en s ao estudo das noticias

N a opinião da m aior parte dos escritores americanos sobre notícias, subsiste a assunçã
[ue há dois tipos de notícias, variavelmente chamadas hard em oposição a sofl, «importan
, em oposição a «interessantes» (Gans, 1979), «notícias» em oposição a «interesse huma
(Hughes, 1940), e «informação» cm oposição a «estória» (Schudson, 1978). Hughes, poi
mnln afirma aue os árticos noticiosos ou edificam ou entretêm. e esta divisão de um ou
Esia assunção tem retardado a discussão das qualidades narrativas das notícias de duas
maneiras. Primeiro, tem-nos impedido de ver as noticias como um corpo unificado que exibe
temas e padrões claros que pouco têm a ver com divisões de importante/interessante. Deixa­
mos a ver as notícias dentro de um «modelo de transmissão» tradicional — essencialmente do
ponto de vista dos profissionais que criaram esta dicotomia. Pouco há que sugira que o público
sente o mundo como se este estivesse tão claramente dividido.
Segundo, esta assunção deixa-nos cegos para ver as qualidades estruturais de «estórias»
individuais. É aceite que a notícia liard c informativa e factual, enquanto a notícia soft é
divertida. Em termos de idéias, esta divisão é suposta ser ditada pelo conteúdo — certos tipos
de noticias «são» liard, outras soft. Estas qualidades são intrínsecas à narração dos aconteci­
mentos. Esta percepção deixa-nos incapazes de ver a forma como os mecanismos narrativos
são utilizados em toda a escrita noticiosa, mantendo a ilusão de que todos os dispositivos
estruturais utilizados em notícias liard são meramente técnicas neutras que actuam como
canais de transformação de acontecimentos em informação, mais do que meios para a criação
de um determinado texto narrativo.
Acreditamos que para compreender o que são as noticias enquanto narrativas e o que
fazem, temos de pôr de lado a dicotomia importante/interessante e olhar para as «estórias
noticiosas» como um todo — tanto como um elemento de trabalho que é um a «estória»
contínua de actividade humana, e como «estórias» individuais que contribuem para essa
«estória» contínua. Considerar as notícias como narrativas não nega o valor de as considerar
como correspondentes da realidade exterior, afectando ou sendo afectadas pela sociedade,
como produto de jornalistas ou da organização burocrática, mas introduz uma outra dimensão
às notícias, dimensão essa na qual as «estórias» de notícias transcendem as suas funções
tradicionais de informar e explicar. As notícias enquanto abordagem narrativa não negam que
as notícias informam; claro que os leitores aprendem com as notícias. No entanto, muito do
que aprendem pode ter pouco a ver com os «factos», «nomes» e «números» que os jornalistas
tentam apresentar com tanta exactidão. Estes pormenores — significantes e insignificantes —
contribuem todos para o bem mais amplo sistema simbólico que as notícias constituem. Os
factos, nomes e detalhes modificam-se quase diariamente, mas a estrutura na qual se enqua­
dram — o sistema simbólico — é mais duradoura. E poder-sc-ia argumentar que a totalidade
das notícias como sistema simbólico duradouro «ensina» os públicos mais do que qualquer das
suas partes componentes, mesmo se essas partes tivessem como finalidade informar, irritar ou
entreter.

A notícia como narrativa mitológica

As notícias fazem parte de uma prática cultural antiquissima, a narrativa e o contar


«estórias», que parece ser universal (Rayfield, 1972; Scholes, 1982; Tumer, 1982). Como
narrativa, as notícias orientam (Park, 1944) e são comunais (Dewcy, 1927) e ritualistas
(Carcy, 1975). As orientações e criações na narrativa são culturais, não naturais; as notícias,
como a «estória», dotam os acontecimentos do passado de fronteiras artificiais, «construindo
totalidades significativas a partir de acontecimentos dispersos» (Ricoeur, 1981, p. 278). A s­
sim, mais que considerar «a exactidão» dos factos e a sua correspondência com uma realidade
externa, podemos considerá-los como contributos da narrativa, como elementos numa ordena­
ção humana dos mesmos.

265
Uma das normas mais produtivas de ver as notícias é considerá-las como um mito, um
ponto de vista que dissolve a distinção entre entretenimento e informação. Com isto não
queremos dizer que as noticias individuais são como mitos individuais, mas, enquanto proces­
so de comunicação, as noticias podem actuar como o mito e o folclore (Bird, 1987). Bascom
(1954), numa afirmação clássica acerca das funções do folclore, escreve que ele serve como
educação, como validação de cultura, como realização do desejo, e como força de conformida­
de, enquanto Malinowski (1974) considerava o mito como um «alvará» para a cultura hum a­
na. Através do mito e do folclore, os membros de uma cultura aprendem valores, definições do
bem c do mal, c algumas vezes podem sentir emoções substitutivas — nem todas através de
contos individuais, mas através de um conjunto de tradições e crenças populares. Como
escreve Drummond (1984):

«O mito é primeiramente um dispositivo metafórico para dizer às pessoas de


elas próprias, de outras pessoas, e do complexo mundo de objectos naturais e mecâni­
cos no qual eles vivem» (p. 27).

O mito tranquiliza ao oferecer-nos os contos que explicam fenômenos desnorteantes ou


aterrorizantes e que ao mesmo tempo fomecem respostas aceitáveis; o mito não reflecte
necessariamente uma realidade objcctiva, mas antes constrói o seu próprio mundo (Fryc,
1957).
As qualidades míticas das noticias, particularmente as notícias televisivas, foram alvo de
observações (Hartley, 1982; Knight e Dean, 1982; Smith, 1979). Porque as notícias são
também uma forma na qual se cria ordem da desordem, transformando o saber em contar. As
notícias oferecem mais do que o facto — oferecem tranquilidade e familiaridade em experiên­
cias comunitárias partilhadas (Mead, 1925-1926); fomccem respostas crcdiveis a perguntas
desconcertantes e explicações prontas dos fenômenos complexos, tais como o desemprego c a
inflação (Jensen, 1977). O consumo de notícias tem sido comparado à religião (Gerbner,
1977), à actividade ritual (Carcy, 1975), à celebração (Capo, 1985) e ao jogo (Glasser, 1982;
Stephcnson, 1964). Pois através da narração ritualista dos contos (incluindo as notícias), os
mitos são representados, transformados e recriados num «processo ritual» (Tumer, 1969).
Como sistema simbólico, o mito e as notícias actuam ambos como modelo de e para uma
cultura (Geertz, 1973).
Por exemplo, o mito delineia as fronteiras do com portam ento aceitável ao contar
«estórias», tais como as narrativas morais dos índios «Apache» que criticam os delinquentes
sociais, «impressionando por esses meios esses indivíduos com o desagrado do comportamento
impróprio e alertando-os para as consequências punitivas de outras condutas impróprias»
(Basso, 1984, p. 34). Como Drummond (1984) refere: «Das várias condições limítrofes, ou
contínuos culturais, que definem a identidade humana, a que detém o nosso interesse por mais
tempo é a que nos faz gostar ou antipatizar com os outros» (p. 21).
Assim, todos os meios de informação relatam o crime e o desvio, e não principalmentc
como dever de informação; o leitor médio não exige as quantidades de informação oferecidas
sobre o crime. Enquanto é possível argumentar que os leitores necessitam de ser informados
do crime para se precaverem contra o mesmo, ou deplorar a quantidade de notícias sobre o
crime enquanto se disser que isso é o que exige o público «morbidamente curioso» (Haskins,
1984), o significado central de notícias sobre o crime é simbólico:

266
«Tais noticias são uma fonte importante de informação sobre os contornos
normativos de uma sociedade. Informam-nos do que está certo e errado, dos parâmetros
para além dos quais não nos devemos aventurar e das formas que o demônio pode
assumir. Urna galeria de tipos populares — heróis c santos, c também bobos, vilões e
demônios — é publicitada não só na tradição oral e no contacto cara-a-cara, mas a
públicos muito mais vastos e com recursos dramáticos muito maiores» (Cohen e
Young, 1981, p. 431).

Cada «estória» individual sobre o crime é escrita tendo como cenário outras «estórias»
sobre o crime, às quais retiram elementos e acrescentam outros. Os leitores raramente se
recordam de detalhes de «estórias» sobre o crime, e não «utilizam» a informação nas suas
vidas diárias (Graber, 1984). Em vez disso, as «estórias» tomam-se parte de uma «estória» ou
mito mais amplo acerca do crime e valores. Graber (1984) e Roshicr (1981) salientam que os
media não reflectem as verdadeiras taxas de crime. Se o único objectivo de relatar o crime
fosse a informação, faria sentido relatar todos os crimes, tais como assaltos e roubos de carros,
para que os leitores se acautelassem. Em vez disso, 26% de todos os crimes noticiados em
Chicago são assassínios (Graber). Graber e Roshier demonstram, no entanto, que as estimati­
vas dos leitores acerca das verdadeiras taxas de crime estão muito mais próximas da realidade.
Os leitores não só consomem as notícias como um reflexo da realidade, mas como um texto
simbólico que define o assassínio como mais digno de nota do que os roubos de carros. As
notícias, como os mitos, não «contam as coisas como elas são», mas «contam as coisas
segundo o seu significado». Assim, as noticias são um tipo particular de narrativa mitológica
com os seus próprios códigos simbólicos que são reconhecidos pelo seu público. Sabemos,
quando lemos ou ouvimos uma notícia, que estamos numa «situação narrativa» particular
(Barthes, 1982) que exige um tipo específico de posição para ser compreendido.

Contar a «estória»

Mas como é que os mitos são, cm termos de relatos noticiosos individuais — as «estóri­
as» contínuas — de facto narrados? O mito só tem significado no contar; os temas e os valores
culturais só existem se forem comunicados. Obviamente não existe um único mito ou narrativa
que seja meramente repetido; no entanto, para continuar a ter força, os mitos devem ser
constantemente recontados. Mais, os temas são rearticulados e reinterpretados ao longo do
tempo, temas que provêm da cultura e para a qual retomam. As «estórias» não são reinventadas
sempre que há necessidade; em vez disso, «você retira constantemente do inventário o discur­
so que foi estabelecido ao logo do tempo» (Hall, 1984, p. 6).
Os folcloristas discutem a tradição oral em termos de uma «estória» ideal, um arquétipo
que não existe mas que é recriado em contos individuais. Assim, temos uma «estória» da
«Cinderella» (*), da qual não existe uma versão definitiva, mas que reconhecemos como a
mesma «estória» independentemente da variação. A um nível mais amplo, conhecemos uma
«estória» da «Cinderella» quando ouvimos uma — a «Cinderella» é um termo extremamente

(•) Nota de tradução - A «estória» da Gata Borralheira.

o /:* 7
codificado na nossa cultura. De vez em quando a «estória» é recontada, reestruturando ima­
gens difusas, «todas elas (...) reorganizadas ou apreendidas como um conjunto especifico de
acontecimentos somente no e através do próprio acto em que os narramos como tal» (Hemstein
Smith, 1981, p. 225).
Num contexto noticioso, Damton (1975) lembra-se de ter escrito «estórias» sobre o
crime que, embora registando acontecimentos verdadeiros, estavam enraizadas cm «estórias»
mais amplas, como a «estória da desolação».

«Quando necessitava de tais citações, costumava inventá-las, como faziam al­


guns dos outros jornalistas... porque nós sabíamos o que «a mãe em dor» ou o «pai
em luto» teriam dito e possivelmente mesmo teríamo-los ouvido dizer o que ia na
nossa mente mais do que na deles» (p. 190).

Cohen (1981) argumenta da mesma forma ao avaliar como os media britânicos defini­
ram os «mods e rockers» como «demônios folclóricos», descrevendo entrevistas com eles, não
necessariamente forjadas, mas «influenciadas pela concepção do repórter (ou subeditor) da
forma como alguém rotulado de rufião ou hooligan deveria expressar-se, vestir-se e agir
(p. 275). '
Muita da qualidade mítica das notícias deriva de uma tal «ressonância» — a sensação de
termos escrito ou lido as mesmas «estórias» repetidas vezes. O principio da consonância
(Galtung & Ruge, 1965) garante que os acontecimentos que possam na verdade ser diferentes
sejam codificados em estruturas já percebidas e previstas. As noticias «transmitem uma sensa­
ção de drama infmitamentc repetido cujos temas são familiares e bem compreendidos» (Rock,
1981, p. 68). Frayn (1981) quase satiriza este processo na sua «demonstração de que, em
teoria, um computador digital podería ser programado para produzir um jornal diário perfeita-
mente satisfatório, com toda a variedade e sentido de noticia do antigo artigo concebido
manualmente» (p. 71). A tese de Frayn é que essa visão satírica corresponde à formulação de
notícias de tal maneira que só necessitamos de explorar o conjunto de notícias existente a fim
de criarmos constantemente novas configurações.
Assim, como Lévi-Strauss refere, «definimos o mito como um conjunto de todas as suas
versões (p. 217), ou, ao contrário, cada versão é influenciada e influencia ao mesmo tempo a
totalidade do próprio mito. Como Frye (1957) comenta: «A poesia só pode ser criada a partir
de outros poemas, os romances a partir de outros romances. A literatura molda-se a si própria»
(p. 287).
Os jornalistas, contudo, resistem ao ponto de vista de que as notícias também se moldam
a si próprias:

«Devido à nossa tendência de ver os acontecimentos imediatos em vez dos


processos a longo prazo, nós éramos cegos ao elemento arcaico no jornalismo. Mas as
nossas próprias concepções das ‘notícias’ eram o resultado de formas antigas de
contar ‘estórias’» (Damton, 1975, p. 191).

De facto, os valores-notícia, que os jornalistas frequentemente sugerem ser algo de


intrínseco aos acontecimentos, para serem deduzidos utilizando o «sentido noticioso», são
códigos culturalmente específicos de contar «estórias». Estes valores, resumidos por Chibnall

268
(1981) como «as regras que acentuam a relevância de: o Presente, o Invulgar, a Simplicidade,
as Acções, a Personalização e os Resultados», são precisamente os valores que qualquer
contador de «estórias» utiliza ao criar um conto. As «estórias» nunca «reflectem a realidade» e
falam de acontecimentos mundanos e quotidianos. Referem-se ao diferente e ao particular que
representam, no entanto, algo universal — precisamente como o são as notícias.
Em termos práticos, os valores-noticia, as regras e as fórmulas são essenciais para o
trabalho dos jornalistas. Os repórteres podem ter de escrever muitas «estórias» numa semana,
ou mudar-se para outra comimidadc c começar a escrever acerca dela imediatamente. Podem
fazê-la confortavelmente com todas as ferramentas de contar «estórias», dando-lhes um esque­
leto sobre o qual colocam a carne da nova «estória». É a mesma habilidade do poeta épico
jugoslavo descrita por Lord (1971):

«Ele pode ouvir uma canção tuna vez e repeti-la imediatamente a seguir — não
palavra a palavra, é claro — mas pode contar a mesma ‘estória’ de novo por suas
próprias palavras» (p. 26).

O poeta oral utiliza um stock de «fórmulas comuns» que dão às «canções tradicionais
uma homogeneidade» e criam «a impressão de que todos os cantores conhecem as mesmas
fórmulas» (Lord, p. 49), assim como a «maioria das ‘estórias’ são simplesmente actualizações
menores de notícias anteriores ou novos exemplos de temas antigos» (Graber, 1984, p. 61). A
estrutura temporal do jom al diário assemelha-se mais à narrativa oral do que a qualquer outro
tipo de story-telling. Os seis repórteres de crime que saem do tribunal com a mesma «estória»
podem estar a escrever sobre a realidade, mas a sua «estória» emerge tanto das «estórias»
anteriores como dos factos relacionados com o caso em tribunal.

Os registos

Enquanto o aspecto de «contar estórias» das notícias é nitidamente importante, há no


entanto muitas notícias a que muito dificilmente se poderá chamar «estórias» num sentido
aceitável — o pano de fundo diário de «estórias» de rotina, elaboradas em estilo conciso e
utilizando a pirâmide invertida, que registam acidentes, crimes pouco importantes, assuntos de
governo local e nacional do dia-a-dia. Ao nível local extremo, o jom al local regista semanal­
mente os visitantes à cidade e os que se ausentaram para férias, enquanto ao nível nacional os
correspondentes de W ashington pormenorizam a chegada e partida de dignitários estrangeiros
na Casa Branca. É pouco claro como é que as pessoas lêem exactamente este tipo de notícias,
embora pareça que elas procuram modelos gerais esquecendo detalhes (Graber, 1984).
Estes relatos não são «estórias» concebidas para ocupar a mente, mas «registos» forneci­
dos como relatos de que algo noticiávcl aconteceu (White, 1981). Isto não leva a deduzir que
os «registos», ao contrário das «estórias», se limitam a registar a realidade, embora isto pareça
ser o modo como vieram a ser apreendidas pelos profissionais da informação. De facto, são um
elemento vital no processo mitológico contínuo. Fomeccm-nos o pano de fundo de aconteci­
mentos que nos informam que o mundo ainda continua e que as coisas que prezamos ainda
têm interesse. O boletim interminável (para o estranho) de idas e vindas da vizinhança diz-nos
que a estrutura social local prevalece, enquanto os boletins da Casa Branca nos dizem que o
Governo continua a ser credivcl.

269
Os registos não são «estórias», mas são ainda vitais narrativas reparadoras do mito. E o
reconhecimento de diferenças qualitativas entre o registo e a «estória» não são peculiares para
a nossa cultura. Em culturas predominantemeníe orais, os acontecimentos importantes podem
ser narrados como registo, em listagem de guerras, genealogias, etc... Em certo sentido, elas
são semelhantes ao que os historiadores uma vez chamaram história «objectiva». Por exemplo,
o Ndembu Africano faz claramente distinção entre nsang’u (registo) e kaheka («estória»).Tumer
(1982) descreve como um a sequência de acontecimentos envolvendo a realeza Ndembu pode
ser contada em ambos os estilos narrativos:

«Esta sequência pode ser contada por um chefe a quem se atribui a origem
Lunda na sua corte... como uma nsang’u , registo, talvez para justificar o seu titulo no
seu posto. Mas pode-se transformar os episódios deste registo em kaheka («estórias»)
e serem contados por mulheres idosas a grupos de crianças sentadas à lareira da
cozinha durante a estação fria» (p. 67).

Enquanto contados como «estórias», os relatos são ornamentados com adornos retóricos,
canções e um toque pessoal - c é através das «estórias» que as pessoas «realmente» compreen­
dem os acontecimentos em termos humanos. Tumer realça que a diferença entre registo e
«estória» reside não na qualidade dos acontecimentos mas no modo como são narrados.
«Como em outras culturas, os mesmos acontecimentos podem ser estruturados como registo
ou «estória»... Tudo depende de onde, de quando e por quem são contados (p. 68). Ele realça o
aspecto mais ritualizado do registo, que envolve uma espécie de lista de acontecimentos
considerados noticiáveis. Através do registo, a estrutura geral do mito é realçada, emboras as
«estórias» individuais o não sejam.
O paralelismo entre este procedimento e as narrativas noticiosas são claros. A s notícias
envolvem uma boa porção de registos, relatando acontecimentos noticiáveis de uma forma
rotineira — a «rotinização do inesperado» (Tuchman, 1974 a). As avaliações do que merece
ser registado mudam através do tempo — traçando um esboço das mudanças dos registos
noticiosos podem dizer-nos muito de uma cultura e dos seus valores dominantes.
A forma narrativa do registo provém essencialmente da forma discursiva logos, que os
filósofos socráticos distinguiram do mylhos, ou «estória» (Fisher, 1985), e ficou identificado
como «objectiva», em todas as formas de narrativa, sejam elas história, notícia ou ciência
social. Descnvolveu-se a percepção de que o registo era a verdadeira forma de informar,
enquanto a «estória» era simplesmente diversão, e no jornalismo as duas tomaram-se distin­
tas, tanto na forma como no conteúdo da dicotomia hard/soft. (Bird e Dardenne, 1986;
Schiller, 1981, Schudson, 1978). O registo não é mais um reflexo da realidade em todos os
seus aspectos do que a «estória». Enquanto o rei Ndembu faz registos de acontecimentos para
defender um ponto de vista, os cronistas históricos e escritores de notícias seleccionam quem e
o quê tem valor-notícia. A síndroma do «grande homem» na história tradicional está rcfiectida
nos registos noticiosos.

As im plicações

Aonde nos leva a apreciação das qualidades narrativas das notícias? Primeiro, os antro­
pólogos usam o estudo da narrativa para encontrar um ponto de acesso à cultura, argumentando
que os textos, tais como os rituais, a arte, os jogos e outras configurações simbólicas são
«modelos» culturais que codificam valores e guias de comportamento (Colby, 1966,1975). Se
estudarmos estes modelos, dos quais as narrativas noticiosas são um tipo, podemos aprender
acerca dos valores e símbolos que têm significado numa dada cultura.
Como Colby, Rice (1980) baseou-se num trabalho anterior de Bartlett (1932), que
demonstrava que os membros de culturas diferentes recontam «estórias» de formas diferentes
e culturalmente determinadas. Rice verificou que os americanos, quando solicitados a re­
contar os contos dos esquimós, fizeram-no de maneiras previsíveis, adaptando os contos ao
«esquema de estórias» americano:

«A sugestão aqui é que os diagramas culturais são... responsáveis por uma


espécie de «percepção selectiva» do mundo que é comum a membros de um a dada
cultura e que tem o efeito de dar uma interpretação característica aos fenômenos em
estudo» (Rice, 1980, pp. 161-162).

Assim, enquanto os americanos «remendam buracos» em contos esquimós, os jornalistas


provavelmente farão o mesmo nas suas «estórias» de acontecimentos reais e fá-lo-ão assim de
formas culturalmentc prescritas. Por outras palavras, os jornalistas, como elementos de uma
cultura particular, estão sujeitos à «gramática da cultura» (Colby, 1975), que define as regras
de construção narrativa, uma descoberta que altera a noção de uma transposição «objcctiva»
da realidade. Considerando as noticias como narrativa representando cultura, permite-nos
estudá-la como um modelo simbólico de valores culturais (Corrigan, 1984), numa tentativa de
revelar as configurações especificas, características das notícias de uma dada cultura. Temos
tendência para supor que os media noticiosos em diferentes culturas têm objectivos e ênfases
diferentes, mas não estamos muito certos de quais poderão ser. Será também importante
analisar o modo e a razão porque o gênero narrativo das notícias se tem modificado ao longo
do tempo, à medida que a cultura se altera (Smith, 1975).
Ao mesmo tempo, os jornalistas, enquanto fazendo obviamente parte de um a cultura e
sujeitos às suas gramáticas narrativas, são também especialistas treinados em técnicas narrati­
vas especificas que podem algumas vezes colidir com as convenções culturais dominantes, e
um exame mais cuidadoso da variedade de técnicas narrativas utilizadas pelos jornalistas pode
estar na ordem do dia.
Os dispositivos narrativos utilizados na redacção de notícias são geralmente vistos
como formas de organizar a informação de uma maneira clara c efectiva, com o «contar
de estórias» com o tal com tendência para estar reservado a acontecimentos considerados
sofi ou de interesse humano. A forma de pirâmide invertida, utilizando o lead, a atribui­
ção frequente, etc., encontra-se ao máximo estilizada nas noticias de acidentes, crime e
outros relatos de rotina — o tipo de «estória» que «se escreve a si própria» para os jo r­
nalistas experientes — mas utilizada em formas mais elaboradas para muitas «notícias
duras». A característica mais notável deste estilo é a de ser muito diferente da forma tra­
dicional da «estória» (Scholes, 1982). O lead vem em primeiro lugar, dispensando o
suspense, enquanto a explicação, mais do que o desenvolvimento ao longo da «estória»,
pode seguir o «resultado» dos acontecimentos descritos. Enquanto continua a contribuir
para o duradouro mito, é registo e não «estória» e, como tal, tem consequências narrati­
vas significativas.
Pois enquanto a pirâmide invertida é um instrumento eficiente para o jornalista, pode
ser um desastre para o leitor. Os leitores ignoram uma grande parte de um jornal porque o
assunto não lhes interessa, mas também podem ignorar uma grande parte porque a forma
narrativa os repele. O estilo de pirâmide invertida encoraja à leitura parcial (Graber, 1984) e
pode ajudar a garantir que os leitores esqueçam muito daquilo que de facto lêcm. Como
Scholes (1982) escreve, uma narrativa para sc tomar numa «estória» tem de ser orientada de
um a maneira específica, apresentando habitualmente relações de causa e efeito numa pro­
gressão lógica; Ricoeur refere que para que os leitores sigam uma «estória», «as explicações
devem... ser interligadas no tecido narrativo» (1981, p. 278). As «estórias» têm de ter
«narratividade» — serem reconhecidas como «estórias» — se os leitores quiserem compreendê-
las bem:

«Pode muito bem acontecer que nenhuma forma longa de discurso pode ser
recebida por um leitor... a não ser que isso pennita e incita uma certa quantidade de
narratividade nos seus públicos» (Scholes, 1982, p. 64).

Cada vez mais, o trabalho sobre a narrativa revela que os leitores respondem à infor­
mação apresentada na forma de «estória», independentemente do conteúdo. Donohew (1983,
1984) conduziu uma experiência para medir a reacção física de leitores a relatos noticiosos
dos suicídios em massa em Jonestown, contendo os mesmos factos mas estruturados diferen­
temente. A sua conclusão:

«As mensagens escritas em estilo narrativo criaram significativamente maior


interesse e reacções de alteração de humor, do que as que foram apresentadas no
estilo jornalístico tradicional» (1984, p. 155).

N a assunção comum de que os leitores preferem «estórias» de interesse humano só


porque o conteúdo é mais interessante, esquece-se que estas são as mesmas «estórias» que
são geralmente escritas na forma de «estória» tradicional. Roshier (1981) realça a inter­
dependência da forma e do conteúdo quando escreve acerca dos leitores do News o f the
World, um jornal britânico sensacionalista publicado ao domingo. Estes leitores guardam
memória das «estórias» sobre os crimes «excitantes» de que gostam, duma forma extrema­
mente fora do habitual, e, enquanto esta capacidade de lembrar está obviamente inerente ao
assunto, além disso,

«é conseguida pela utilização de relatos relativamente longos, com um estilo


literário que frequentemente expõe o enredo como uma curta novela com títulos que
são sugestivos, sem ceder muito» (Roshier, p. 48).

Da mesma forma, Robins e Cohen (1981) oferecem uma explicação para a popularida­
de improvável dos filmes de Kung Fu entre a juventude da classe operária britânica:

«Há uma correspondência objectiva entre algumas tradições orais na cultura


da classe operária e alguns gêneros produzidos pelos media. É um a correspondên­
cia mais de forma do que de conteúdo, e onde esta não existe o impacto dos meios

272
de comunicação de massas na consciência da classe operária é completamente des­
prezível» (p. 484).

Por isso, as pessoas respondem e processam correctamente a informação apresentada em


forma de «estória». Muita da informação em jornais e notícias radiodifundidas é, por conse­
guinte, difícil de processar, e pode, de facto, ser interpretada como pouco compreensível
(Rayficld, 1972). La Baschin (1986) analisa estudos que demonstram que o espectador médio
dos noticiários televisivos só se lembra de uma em 19 «estórias» apresentadas num programa
de informação. Como Benjamin escreveu há muitos anos neste século, «cada manhã traz-nos
as notícias do globo e, no entanto, somos pobres cm ‘estórias’ notáveis» (1969, p. 39).
Isto não quer dizer que algumas notícias não sejam eficientemente comunicadas numa
estrutura de registo estilizado. Muitas notícias de rotina realizam a função de registo e,
enquanto os pormenores podem não ser lembrados, o padrão geral simbólico é reforçado.
A ssim , o «crim e é com preendido com o um fenôm eno perm anente e recorrente e,
consequentemente, muito dele é averiguado nos media de uma forma igualmente rotineira»
(Hall et al., 1981, p. 352).
Os jornalistas sabem, no entanto, que o relato estilizado muitas vezes não cumpre a
sua função. Eles sentem a necessidade de «humanizar» o acontecimento — que, embora
raramente expresso como tal, mais não é do que a necessidade de escrever um a «estória».
Com o intuito de explicar, os jornalistas estão constantemente revertendo para a forma de
«estória» — e citações atribuídas tomam a forma de diálogo, desenvolve-se um pronto de
vista, detalhes acrescentados que transformam um dado estatístico num mineiro desempre­
gado ou num pai em luto. Tanto na história como nas notícias, as exigências de narratividade
asseguram que os acontecimentos sejam o mais completamcnte percebidos quando transfor­
mados em «estórias». A certos tipos de notícias (como o crime não habitual) e a certos tipos
de público (particularmente a classe operária), dá-se o tratamento completo de «estória»,
enquanto nas notícias mais «sérias» isto não se verifica. E enquanto, indubitavelmente, mui­
tos leitores apreenderam o código narrativo específico da reportagem objectiva, a maioria
dos leitores mostra uma marcada incapacidade para «digerir» noticias ptolíticas senão em
termos muitos latos (Grabcr, 1984).
Os jornalistas encontram-se incomodamente repartidos entre o que eles consideram
dois ideais impossíveis — as exigências da «realidade», que consideram alcançável através
de estratégias objectivas, c as exigências da narratividade. Defrontam um paradoxo: quanto
mais «objectivos» forem, mais ilegíveis se tomam, e quanto melhores contadores de «estóri­
as» forem melhor resposta terão dos seus leitores, embora aqui os jornalistas tenham receio
de trair os seus ideais. Deste modo, os jornalistas escrevem alguns registos, contam algumas
«estórias» e muito que é algo de ambos. De vez em quando, aparece qualquer coisa (como
Janet Cooke ou Alistair Reid) que os leva a tentar reestabclecer o limite, que invariavelmen­
te se esbate instantaneamente uma vez mais.

A «estória» de quem?

Talvez mais significativo seja o tomar em consideração as qualidades narrativas das


notícias, pois nos permite olhar mais criticamente para os valores que são codificados em
notícias — de quem são as «estórias» que se contam? Se os antropólogos Colby e Peacock

273
(1973) têm razão, o estudo da narrativa deveria estar no centro de qualquer consideração
sobre notícias no seu contexto cultural:

«As técnicas subtis e subjacentes da narrativa como arte, que não visam obvia­
mente controlar, podem seduzir as pessoas a diminuir a sua capacidade de defesa... A
ascensão dos meios de comunicação de massa, que se adaptam melhor às «estórias»
do que aos sermões, reforça a posição de cultura expressiva. As formas expressivas,
incluindo as formas narrativas, podem muito bem assumir papéis cada vez mais
importantes no controlo social. Se isto ocorrer, o estudo da narrativa tomar-sc-á cada
vez mais relevante para o estudioso da sociedade» (p. 633).

Os estudos culturais americanos têm tido a tendência de adoptar uma estrutura consensual;
Carcy (1983) comentou a «crítica frequente e eficaz de que os estudos culturais nos Estados
Unidos, desvalorizada que está pelo vivo optimismo do pragmatismo, deixam inevitavelmente
de considerar o poder, o dom ínio, a subordinação e a ideologia com o questões centrais»
(p. 313). A abordagem consensual aceita que as notícias são parte integrante e não separada
do resto da cultura, mas deixa de considerar que, como sistema simbólico mediático, as
notícias não se encontram numa posição idêntica na cultura como, digamos, a tradição oral.
Mesmo nas poucas discussões sobre as noticias como «estória» ou mito, a análise
raramente vai além da afirmação de que as notícias contam «estórias» acerca de valores
culturais. Assim, Barkin (1984) refere que «os jornalistas desempenham um papel na afirma­
ção e manutenção da ordem social» (p. 32), assumindo tacitamente que há, na verdade, um
reconhecido conjunto de valores que todos os membros de uma cultura subscrevem.
Certamente, o contar de «estórias» ou os valores-notícia que Barkin refere são cultural­
mente partilhados:

«Deve haver vilões e heróis cm todos os jornais, e as linhas da ‘estória’ devem


estar de acordo com o uso de suspense, conflito, derrota do mal e triunfo do bem,
factor que tem guiado o bom senso e a arte de antigos contadores de ‘estórias’ e que
controlam a capacidade de reacção do público» (Barkin, 1984, p. 30).

Um jomalista-contador de «estórias» está na verdade a utilizar valores de «estórias»


culturalmente embutidos, retirando-os da cultura e reapresentando-os à cultura e, assim, está
próximo do contador folclórico de «estórias» que opera numa «matriz comunal» em relação
com o público (Cawclti, 1978).
U m jomalista-contador de «estórias», no entanto, está também a criar «estórias» de
acontecimentos com os quais os públicos não estão familiarizados, onde não têm experiências
próprias para aí colocarem esses acontecimentos. Neste caso, os jornais e os outros media
estão mais próximos da «matriz mitológica», em que «os gêneros sejam mais um a possessão
comunal do que criações individuais», todavia

«ao cnãdoT-perfonner é dada uma autoridade especial, pois ele está um tanto
distanciado do público e tende a ficar mais distanciado à medida que a cultura se
desenvolve, ao ponto de muitas versões da matriz mitológica desenvolverem uma

274
casta separada de criadores-/?eç/ôrmer.j, que são especialistas na representação da
mitologia» (Casvelti, 1978, p. 258).

Na matriz mitológica, o público tem tendência a acreditar nesses «especialistas», que


tem acesso à verdade, pelo menos nas áreas que não lhes são familiares. O mito, como as
notícias, apoia-se na sua autoridade como «verdade». As notícias televisivas, com os seus
apresentadores vistos em pessoa pelos seus públicos, têm cooptado o papel do contador de
«estórias» e fabricante de mitos tão eficazmente que neste momento é considerado com o a
fonte de notícias com mais autoridade e, por conseguinte, «verdadeira» (Sperry, 1976).
Na produção jornalística, os jornalistas não se limitam a utilizar definições culturalmen­
te determinadas, também têm de encaixar novas situações em velhas definições. Está no seu
poder a colocação de pessoas c acontecimentos em categorias existentes de herói, vilão, bom e
mau, e, assim, empossar as suas «estórias» com a autoridade da verdade mitológica. Deste
modo, Hall (1975) concorda que a escrita jornalística c uma «transacção social» que se apoia
nas convenções culturais existentes, ao que Eason (1981, p. 27) chama «processo interactivo».
Todavia

«ao mesmo tempo, os produtores detêm uma posição poderosa face aos seus
públicos, e devem desempenhar o papel principal no moldar de expectativas e gostos»
(Hall, 1975, p. 22).

Sperry (1976) defende que este processo não é, de forma alguma, ideológico. Ela susten­
ta que na produção de noticias, se a forma de «estória» que se tiver escolhido for um conto
heróico, então tem de haver um protagonista c um antagonista. Não se trata de favoritismo
político, mas simplesmente de uma fórmula de compreensão acerca do modo como o mundo
funciona» (p. 137). Esta perspectiva, contudo, leva-nos a perguntar como são feitas estas
designações; quem é o herói e quem é o vilão não é uma questão de selecção aleatória para
enquadrar as fórmulas existentes. Como Schudson (1982) argumenta, «o poder dos media não
está só (nem principalmente) no seu poder de declarar as coisas como sendo verdadeiras, mas
no seu poder de fornecer as formas nas quais as declarações aparecem».
Cada vez mais, cabe aos media «classificar» grupos como os grevistas (Glasgow University
Media Group, 1976, 1980), os manifestantes pacifistas e outros contestários (Gitlin, 1980;
Halloran et al., 1970), as feministas (Tuchman, 1978), os consumidores de droga (Young,
1981) c os homossexuais (Pearce, 1981). Hartmann c Husband (1971) verificaram que crian­
ças brancas que tinham pouco contacto com crianças negras tinham mais tendência para ver
as relações raciais em termos de conflito (como a questão era habitualmente definida nos
media, de acordo com os valores-notícia) do que as que tinham experiência pessoal de vizi­
nhos negros. Para os media, a utilização de convenções narrativas existentes e «mapas de
significado» (Hall et al., 1981), constrói a realidade de acordo com esses mapas e atribui
significados a novas realidades. É aqui que o «efeito ideológico» (Hall, 1977) é perceptível:

«A ideologia não é um conjunto de falsidades discretas mas uma matriz de


pensamento firmemente enraizado nas formas da nossa vida social e organizada
dentro de um grupo de categorias interdependentes, que constitui um a rede de signi­
ficados estabelecidos, im buídos na 'atribuição' de acontecim entos aos contextos
'relevantes' dentro destes 'mapas de significado' culturais pré-cstabclccidos» (Morley,
1981, p. 371).

Os jornalistas têm de fazer estas «atribuições» ou news judgements rapidamente, e


recorrem inevitavelmente aos enquadramentos existentes. A «normalidade» c boa, a diferença
é má ou constitui um desvio (ou é divertida). Os media tendem, por último, a «legitimar o
sistema americano através da deferência para com as suas estruturas, valores e os seus funcio­
nários eleitos e nomeados» (Graber, 1984, p. 207). As atribuições rcflcctem os interesses do
slatus quo, quer a forma escolhida para o relato seja a «estória» quer o registo. Resultado: os
mapas de significado prevaleeentes acabaram por ser apreendidos como «naturais» e do
«senso comum», deixando-nos alheios ao facto de que mesmo o «senso comum» é cultural­
mente derivado (Geertz, 1983):

«Esta confusão de autoridade e legitimidade com objectividade, tom a as


notícias um agente activo na construção de uma versão restrita, mas obrigatória da
realidade — uma versão que é comunicada tão amplamente e cheia de um simbolis­
mo tão familiar que outras versões parecem tendenciosas ou distorcidas» (Bcnnett et
al„ 1981, p. 51).

Deste modo, ao traçar os padrões do story-telling nas notícias, devemos estar cientes de
que os jornalistas não estão apenas a basear-se nesses padrões, estão também activamente a
reformulá-los «reparando o paradigma» constantemente (Bennett et al., 1985). É um processo'
que é mais complexo do que qualquer modelo consensual ou manipulador, que confere aos
media todo o controlo e considera os media como um tanto fora da cultura mas, no entanto,
afectando-a. Melhor, os media fazem parte da cultura, mas com um tipo específico de estatuto
privilegiado dentro dela. A reformulação narrativa dos media terá o máximo de sucesso
quando puder apresentar nova informação, de tal forma que esteja de acordo com as conven­
ções narrativas existentes e a elas se possa acomodar. Os media não podem criar mitologia do
nada, mas são mais do que «transmissores passivos» do mito que tem sido sugerido (Gans,
1979, p. 294). Tais percepções, moldadas nos media, podem passar então a fazer parte da
estrutura cultural comum, a ser utilizada de novo pelos jornalistas num processo dialéctico
contínuo.

As conclusões

É importante começar a olhar mais criticamente para as qualidades narrativas das


noticias. Embora as noticias não sejam ficção, é uma «estória» sobre a realidade, não a
realidade em si. Contudo, devido ao seu estatuto privilegiado como realidade e verdade, os
poderes sedutores das suas narrativas são particularmente significantes. Como Johnson (1983)
escreve, as formas narrativas são mais do que construções literárias; elas conferem às pessoas
um esquema para perspectivarem o mundo e viverem a sua vida. «Os seres humanos vivem,
amam, sofrem a perda de entes queridos - e partem e lutam e morrem de acordo como eles
próprios» (p. 32).
A s notícias têm a função de fazer o registo e fazem-no com o pano de fundo de
narrativas que recontam os acontecimentos noticiáveis, escritos para ninguém necessitar de ler
para além do lead. 0 registo situa e ordena o mito numa base do dia-a-dia, garantindo-nos a
harmonia e a normalidade continuadas, enquanto vai marcando os parâmetros desta normali­
dade. Contudo, isto não pode explicar completamente e fazer as coisas parecerem «reais»,
porque tem falta de narratividade compreensível.
Assim, os jornalistas sabem que os acontecimentos parecem mais reais aos leitores
quando são relatados em forma de «estória»; quando assim é, estes dão por si a afundar-se na
lama da «ficção» e a puxarem os cintos de segurança da objectividade e do facto. Porque as
melhores «estórias» e as mais lidas e convincentes são aquelas construídas com mais força
para que os contornos sejam nitidamente delineados — i.e., as «estórias» apresentam um
ponto de vista. Assim, de acordo com \Vhite (1981), «a narratividade, certamcnte no contar
factual de ‘estórias’... está intimamente relacionada com o impulso de moralizar a realidade.
(...) (P- 14).
A preparação dos jornalistas, familiarizados com a ideologia da realidade objectiva, leva-
os a exprimir-sc numa voz narrativa. Dentro do paradigma noticioso, eles enquadram o
problema do «impulso para moralizar a realidade» em termos de dicotomias facto/ficção ou
verdadciro/falso e voltam c retomam à técnica do registo. Mais do que constantemente tentar
restabelecer limites, deveriamos, contudo, considerar a observação de Tuchman de que «ser
um repórter» que lida com os factos e ser um contador de «estórias» que produz contos, não
são actividades antiéticas (1976, p. 96). Poderiamos pensar como é que os jornalistas podem
aprender a contar «estórias» que podem ser processadas pelos seus superiores, mas que são
expressas noutras vozes narrativas. Os jornalistas, na verdade, tendem a contar as mesmas
«estórias» de maneiras idênticas: o contar de uma «estória» exclui, por conseguinte, todas as
outras «estórias» que nunca são contadas.

277
A política da forma narrativa:
a emergência das convenções
noticiosas
na imprensa e na televisão (*)

Michael Schudson

A televisão é um ponto central de actividade na cultura c na política americanas. E


frequentemente citada como um a força dominadora na mudança da nossa estrutura política —
e para pior, tomando um sistema de partidos numa contenda de personalidades, mudando um
interesse em idéias e políticas numa preocupação com imagens e estilos. Além disso, os
críticos argumentam que o desgaste do governo congressional e o crescimento da presidência
imperial são devidos em parte à obsessão da televisão com a imagem de um herói único
sentado no globo terrestre. Mas a televisão não mudou a nossa concepção de política; melhor
dizendo, ela cristaliza e expressa a transformação da narrativa política que foi estabelecida na
imprensa décadas antes de a televisão aparecer.
A decisão do presidente do congresso, Sam Raybum, nos anos 1950, para manter as
câmaras da televisão fora da Câmara dos Representantes, foi uma acto de grande significado
— ou pelo menos assim acredita David Halberstam:

«Tomar a Câmara menos capaz de competir com o ramo executivo e diminuir a


sua importância aos olhos do público... Caracteristicamente, a única vez em que o

(•) Reedição de: Daedalus (Vol. 111, 1982). «The Politics of Narrativo Form: Emcrgcncc of News Conventions
in Print and Tclcvision», de Michael Schudson. Direitos de autor: Daedalus. Reedição com a aprovação do editor.

278
congresso dos Estados Unidos apareceu na televisão nesta época foi quando o Presi­
dente dos Estados Unidos veio à Câmara para proferir o seu discurso do Estado de
União. Então, os homens do Congresso puderam ser vistos aplaudindo respeitosa­
mente, com as suas funções efectivamente registadas pelos consultores do discurso do
Presidente» (Halberstam, 1979).

Mas isto credita a televisão de ter de longe mais influência no sistema politico do que de
facto tinha. O tratamento dado pela imprensa à mensagem do Estado de União mudou, na
verdade, radicalmente, para dar ênfase ao Presidente em desfavor do Congresso, mas isto
aconteceu há 75 anos, nos dias de Teddy Roosevelt, William Howard Taft e W oodrow Wilson.
As convenções sobre a cobertura da presidência, estabelecidas então continuam a moldar não
apenas o modo como o jornalismo de imprensa cobre o Presidente, mas também como a
televisão o faz.
A evidência que eu vou apresentar neste ensaio, contudo, não pode resolver o debate cm
tomo da influência da televisão — o debate entre aqueles que estão espantados com o seu
poder e aqueles que estão inclinados a não o ter em conta. Enquanto for verdade que uma nova
tecnologia pode condicionar a política e a sociedade, uma nova tecnologia aparece e entra em
uso apenas em certas circunstâncias políticas e sociais. O modo como a tecnologia é usada tem
uma relação, mas não completamente determinada, com a tecnologia em si própria. Em vista
disto, está de certo modo um pouco fora de propósito interrogarmo-nos acerca do impacto da
televisão na presidência, uma vez que não há modo de a questão poder ser concebivclmente
respondida. Nós devemos antes perguntar qual é o impacto desta televisão, da nossa televisão.
Responder a isto requer a compreensão do novo hardware, mais ainda do que a compreensão
do papel social do aparelho de televisão nas salas de estar americanas, nos escritórios e nos
quartos de dormir. Isto requer um exame dos canais nacionais de televisão como empresas de
negócios; a apreensiva relação de uma indústria visível e regulada, com as agências do
governo; as tradições do jornalismo americano que deram forma aos preconceitos e intenções
dos departamentos de informação dos networks ('); e as tradições de longas décadas de dura­
ção entre o Presidente e a imprensa. A nossa televisão tem um a vida própria que desempenha
um papel na política presidencial; ela é parte do ambiente com o qual qualquer desenvolvi­
mento na politica americana está relacionado. Mas a forma que a televisão toma ao cobrir a
presidência foi intuída, se não predestinada, por anteriores mudanças na relação entre o
jornalismo de imprensa e a presidência.
Neste ensaio, mostrarei as mudanças que tiveram lugar no modo como o jornalismo de
imprensa tem tratado a presidência desde os primeiros dias da República, mudanças que
reflectem novos desenvolvimentos, tanto na política como no jornalismo. Eu sugiro que o
poder dos media está não apenas (e nem sequer primariamente) no seu poder de declarar as
coisas como sendo verdadeiras mas no seu poder de fornecer as formas nas quais as declara­
ções aparecem. A s notícias num jornal ou na televisão têm uma relação com o «mundo real»,
não só no conteúdo mas na forma; isto é, no modo como o mundo é incorporado em conven­
ções narrativas inquestionáveis e despercebidas, sendo então transfigurado, deixando de ser
um tema de discussão para se tomar uma premissa de qualquer possível conversa.

(') Nota de tradução - Uma referência aos canais de televisão nacionais, conhecidos como os netn-orks,
nomeadamente a American Broadcasting Company (ABC), a Columbia Broadcasting Company (CBS) c a National
Broadcasting Company (NBQ.

O T rt
Falando de um modo geral, as pessoas não veem as notícias como elas acontecem; elas
apenas ouvem ou leem sobre elas. Os pais não experimentam o dia-a-dia dos seus filhos na
escola dircctamente, mas inteiram-sc por ele pelo que é narrado, transformado numa «estória»
pela criança. As crianças aprendem que os relatos das suas experiências, tal como as «estóri­
as» e lendas que lhes contam, devem ter certas qualidades formais. Uma criança que eu
conheço contou à sua irmã mais velha a seguinte «estória»; «Era uma vez um rapazinho que
foi para a floresta. Ele ouviu um som. Um leão saltou sobre ele e comeu-o, mas ele raspou o
estômago do leão, matou-o a arrastou-o até casa. Fim.» Então ele contou a «estória» outra vez:
«Era uma vez um rapazinho que foi à floresta e um leão tentou comê-lo, mas ele matou o leão.
Fim.» Ou ainda um a vez mais: «Era uma vez um rapaz que matou um leão numa floresta.
Fim.» Finalmente: «Era uma vez. Fim.»
A criança tinha aprendido algo importante acerca da forma. Os jornalistas sabem algo
semelhante. Eles não oferecem rapazes, florestas e leões crus, mas cozinham-nos em forma de
«estória». As notícias não são ficcionais, mas sim convencionais. As convenções ajudam a
tom ar as mensagens legíveis. Elas fazem-no de uma maneira que se adapta ao mundo social
dos leitores e escritores, porque as convenções de uma sociedade ou tempo não são as mesmas
de outra altura diferente. Algumas das convenções das notícias mais familiares dos nossos
dias, tão óbvias que parecem intemporais, são inovações recentes. Como outras, estas conven­
ções ajudam a tom ar legíveis mensagens culturalmente consistentes e mensagens culturalmen­
te dissonantes. A sua função é menos aumentar ou diminuir o valor da verdade que as
mensagens transmitem do que dar forma c limitar o campo dos tipos de verdades que podem
ser ditas. Elas reforçam certas hipóteses acerca do mundo politico.
Examinemos umas quantas destas convenções:

1. Que o parágrafo de abertura (lead) e a estrutura de pirâmide invertida são superio­


res a um relato cronológico de um acontecimento.
2. Que um presidente é o actor mais importante em qualquer acontecimento no qual
tome parte.
3. Que uma notícia (news story) deve centrar-se, de preferência, num acontecimento
único mais do que num acontecimento contínuo ou repetido, ou então, se a acção é
repetida, a atenção deve centrar-se mais na novidade c não no padrão.
4. Que uma notícia (news story) que cubra um importante discurso ou documento
deve citar ou declarar os seus momentos altos.
5. Que uma notícia (news story) que cubra um acontecimento político deve exprimir o
significado dos actos políticos num enquadramento de tempo maior do que o dos
próprios actos.

Todas estas são convenções indiscutíveis e geralmente não declaradas do jornalismo


americano do século x x ; nenhuma delas era elemento do jornalismo dos meados do século
XIX, nem nenhuma teria siudo familiar para Horace Greeley, James Gordon Bennett ou para
Henry Raymond. Diferente dos repórteres de hoje, o repórter do século XIX não era obrigado a
resumir os «highlights» num lead, a reconhecer o Presidente como o actor principal do poder
politico americano, a procurar a novidade, a citar os discursos ou a identificar o significado
político dos acontecimentos. Como é que então apareceram as .convenções e porquê?
cnçocs, entre outras, incorporam na estrutura ua «estória» noticiosa nipun-Ma
a natureza da política e do papel da imprensa. Eles tomam evidente que os jornalistas
ricanos consideram-se, não como partidários de causas políticas, mas como analistas
irientes do mundo político. Eles evidenciam igualmente que, embora como jornalistas eles
iam ligados a princípios de reportagem objectiva, eles vêern, no entanto, o seu papel como
precndcndo alguma interpretação de actos políticos para um público mal equipado para
:obrir por si próprio o significado dos acontecimentos. Além disso, estas convenções
itucionalizam a perspectiva dos jornalistas de que tem de se encontrar um significado, não
taráctcr das instituições políticas estabelecidas, mas nos objcctivos políticos dos actorcs que
integram. A responsabilidade do jornalista, como eles a vêem, c descobrir nos planos
iscientes dos actores políticos as intenções que criam o significado político.
A Constituição dos Estados Unidos da América estabelece que o Presidente deve infor-
r o Congresso «de tempo a tempo» sobre o «Estado da União» e, todos os Presidentes
ericanos, seguindo o exemplo iniciado por W ashington, têm apresentado uma mensagem
rrc este assunto no princípio de cada sessão de Inverno do Congresso. Enquanto o aconteci-
:nto em si próprio — o modo como a mensagem anual é apresentada tem mudado en
.uns aspectos significantcs ao longo dos dois últimos séculos, ainda fornece um a bas
zoável para a comparação do relato das notícias, tendo permanecido mais ou menos constar
ao longo dos anos. As mudanças no modo como a mensagem c relatada, portanto, nã
)dcm ser simplesmente atribuídas a mudanças no acontecimento em si próprio, m as deve:
<>111 norm as variáveis no iomalismo sobre a natureza da política e sobre o qi
:1o jornal semanal Boston Gazette, por exemplo, apareceu na pagm a dois so t
íbia. Congresso dos Estados Unidos. (Primeira sessão — Segundo Congresso),
aresentantes. Segunda-feira, 24 de Outubro». É noticiado que um comitê adj
sso visitou o Presidente que concordou em encontrar-se com o Congresso
; no Senado. Então, na mesma coluna, sob o título «Terça-feira, 25 de Outub
se que relata a chegada do Presidente à Câmara do Senado. 0 leitor é então re
íltima página do jornal para ler a mensagem completa, e o relato prossegue i
da Câmara da quarta-feira, 26 de Outubro. A Gazette seguiu este padrão para t<
:ns de Washington, embora, em muitos anos, o discurso surgisse no primeiro c
s em nenhum dos casos há qualquer tipo de comentário sobre o discurso,
mudança mais significativa da mensagem como um acontecimento de. facto foi
rhomas Jefferson, que sentiu que o facto de o Presidente se dirigir ao Congres:
ra um gesto demasiado imperial e assim escolheu dar a sua mensagem do «Esta
por escrito. E assim se manteve até Woodrow Wilson voliar para o prece
ta: uma aparição pessoal. Apesar da mudança de JefTerson, a mensagem contini
essa por completo, sem qualquer contexto informativo, ou como parte de uma
:nte traçada das sessões do dia do Congresso. Qualquer comentário sobre a mensa
iteiramente limitado à coluna editorial em que a partir dos primeiros anos do sé
lensagem era discutida por inteiro e as afirmações do Presidente eram elogiada
s por oposição partidária.
os meados do século, e especialmente após a guerra civil, o relato noticioso
m do Presidente foi alvo de uma discussão muito mais completa no Congresso
mento para a mensagem passou a ser fornecido pelo ritual congressional de indi
té para visitar o Presidente, anunciando que estava pronto para ouvir uma comuni
ta sua lida por um oficial. Mas dois elementos adicionais tomaram-se padrão,
foi a cobertura dedicada ao «espectáculo» da abertura do Congresso que tipicamei
a princípio da notícia. Já em 1852, nós lemos no New York Times: «Está um dia
eilhoso c as galerias da Câmara estão apinhadas de damas e cavalheiros; tudo
Em 1870 a «estória» do Times começava assim: «Um maravilhoso sol de Verão, un
t perfumada, galerias apinhadas, resplandcscentes c brilhantes matizes de toi/etn
umprimentaram o regresso do Congresso às suas Câmaras.» A imprensa notava, à
a grande detalhe, os cordiais cumprimentos à medida que os congressistas se acrupa
relatos descreviam os caros bouquets de flores nas secretárias dos senadores e do;
intes, oferecidos por apoiantes leais.
sgunda mudança, que se tomou padrao a partir de 1870, e que foi mais notável a
zo, foi a atenção dada à reacção congressional face à mensagem do Presidente —
radas antes que os repórteres chamaram sobre si o encargo de relatar o que a
í de facto dizia. Enquanto no princípio, apenas a resposta geral à mensagem era
ía nas tribunas da Câmara e do Senado P m 1 S 7 0 n T i m r p la f o im o i m
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relações estrangeiras foi lida. Na década de 1870, os repórteres confinaram-se tipicamente às
observações do comportamento dos congressistas na tribuna, embora às vezes tentassem uma
caracterização geral da resposta congressional, como no Times de 1874: «Pode dizer-se que há
poucas falhas na mensagem do Presidente como um todo, embora algumas das suas posições
encontrem forte e especial oposição.» Ocasionalmente, alguns congressistas notáveis eram
destacados. Um repórter do Times observava, em 1870, que quando a mensagem discutiu a
reforma fiscal, muitas pessoas olharam para Carl Schurz, «no qual a consciência do facto
causou um leve sorriso». Em 1878, o Times noticiava que a referência da mensagem ao
investigar pessoas que privavam dos direitos civis os votantes do Sul «deu coragem aos
republicanos, enquanto os democratas exibiam sinais inegáveis de desaprovação».
N as décadas de 1870 e 1880, os jornalistas entrevistaram congressistas individualmente.
Repórteres do Chicago Tribune e Washington Post, por exemplo, fizeram entrevistas sobre a
leitura da mensagem cm 1878, à medida que estes jornais e outros começaram a publicar
«estórias» noticiosas separadas sobre as respostas do Congresso à mensagem. A «estória» do
Post em 1886 começava: «Não ouvi uma palavra do assunto. Tenho de esperar até a ver
impressa.» Esta era a resposta geral dada pelos congressionistas a quaisquer perguntas feitas
acerca da mensagem do Presidente depois de ter sido lida em ambas as Câmaras. Era típico.
Raramente os congressistas nestes relatos consideravam a entrevista como uma oportunidade
para publicidade. Antes pelo contrário, pareciam irritados por terem sido interrogados sobre a
cerimônia.
A s «estórias» da resposta congressional à mensagem tomaram-se mais elaboradas nas
décadas de 1880 e 1890. Ocasionalmente houve «estórias» de respostas de outros corpos,
particularmente comentários editoriais em jornais estrangeiros. Mas no final do século, a
atenção dada ao esplendor da abertura do Congresso, tão proeminente nas décadas de 1860 e
1870, parecia ter cansado a imprensa. O Washington Post observava secamcnte, no n.° 3 de
Dezembro de 1887, que o público mostrou curiosidade na abertura do Congresso «como se
isso fosse um a coisa nova». O Chicago Tribune escrevia no seu cabeçalho de 4 de Dezembro
de 1894: «Toil o f the Solon / Fazedores de Leis Retomam Trabalhos em Washington».
Evidentemente já aborrecido, o Washington Evening Star anuncia na sua «estória» de 1890:
«Aqui vamos nós outra vez.»
Deste modo, ao mesmo tempo que a imprensa acompanhava o ritmo do Congresso c
considerava as opiniões individuais dos congressistas cada vez mais seriamente, o seu respeito
pelo ritual e espectáculo do oficio declinava, e começava a deleitar-sc no pasquim dos assuntos
congressionais. A mudança que tomava lugar na relação dos jornalistas para com os oficiais
era parte da visão que os jornalistas tinham do seu próprio objectivo. Eles começaram a
fatigar-se da tradição de relatar ocorrências normais e procedimentos diários. Já não eram
mais os repórteres não críticos do ritual do Congresso que envolvia a leitura da mensagem:
eram repórteres constrangidos por terem de escrever sobre algo que acontecia todos os anos. O
constrangimento resultou em humor ou em comentários autoconscientes sobre como tudo é o
mesmo de sempre. A noção de que o jornalista deveria reportar acontecimentos originais c não
registar situações contínuas tomou-se cada vez mais forte à medida em que os jornalistas das
décadas dc 1880 e 1890 se achavam divididos entre dois modos de actividade ou, por outras
palavras, duas formas de consciência.
Por volta de 1900, as notícias tinham sido parcialmente transformadas, na medida em
que o relato estritamente cronológico da reabertura dos processos congressionais deu lugar a
um relato descritivo da reabertura do Congresso, com um lead focando o espectáculo do
Congresso c alguns comentários afectivos e jocosos. A mensagem do Presidente ficou enterra­
da dentro da «estória» sobre o Congresso, embora fosse sempre impressa na sua totalidade
numa outra página. O relato, para além da visão descritiva no lead, tendia a ser cronológico,
mas não tão seco e fonnal como tinha sido na primeira parte do século.
Com o estabelecimento do lead como convenção jornalística tomou-se claro que os
jornalistas deixaram de ser estenógrafos ou gravadores para passarem a ser intérpretes. Contu­
do, cm 1900, não havia menção do conteúdo da mensagem do Presidente na notícia, nem o
Presidente era mencionado pelo nome, mas referido simplesmente como o «Presidente».
Embora ele fosse o autor da mensagem, a atenção nos relatos jornalísticos continuava a
centrar-se no Congresso. Os jornalistas ficavam no aqui e agora, relatando as reacçõcs
congressionais na tribuna e voltando-se para as entrevistas só para completar o trabalho
central de observar o acontecimento em si.
Depois de 1900, tudo isto mudou. A mensagem do Presidente, e não a resposta do
Congesso a ela, tomou-se o assunto do lead, e o Presidente tomou-se o actor principal. Os
pontos altos da comunicação foram resumidos antes de se observar a resposta congressional à
comunicação - e tal à medida que os repórteres, cada vez mais, tomaram como sua prerrogati­
va afirmar algo sobre o mais vasto sentido político da mensagem. Embora estas mudanças não
acontecessem em todos os jornais simultaneamente, ou com total consistência, a tendência é
inequívoca.
Tomemos, por exemplo, o relato da mensagem de Willliam Howard Taft em 1910. A
principal noticia do New York Times começa: «Na mensagem mais longa que foi enviada ao
Congresso, o Presidente Taft hoje anunciou o abandono prático da parte não aprovada do
extenso programa legislativo com o qual começou a sua administração.» A mensagem, e não o
Congresso, é o assunto. O conteúdo da mensagem é citado e o conteúdo, não a resposta
congressional, é enfatizado. De facto, mais do que tomar a mensagem como um teste decisivo
da opinião congressional, a resposta do Congresso agora toma-se num modo de concretizar o
conteúdo. O repórter do Times inclui a sua própria observação de que a mensagem foi
obviamente destinada a dar confiança à actividade econômica e apoia este comentário referin­
do que os congressistas consideravam a mensagem como «eminentemente conservadora».
Além disso, o Presidente é tratado como uma pessoa e é mencionado pelo nome tanto no lead
quanto no cabeçalho, algo que raramente acontecia no corpo da «estória» antes de 1900 - e
nunca no lead.
Esta forma de notícia é ainda familiar para nós: ela incorpora os dados adquiridos da
política moderna na própria forma da «estória». Primeiro destaca a preeminência do Presiden­
te. Ele e as suas perspectivas, não o Congresso, e as suas reacções ou os seus rituais, são o
tema principal da notícia. Em segundo lugar, ela incorpora o pressuposto de que o Presidente
é, de certo modo, um representante da nação, um mandatário nacional, mais do que meramen­
te o líder de um partido político. Ele fala por si próprio ao Congresso e à nação, não como um
líder do partido para esse mesmo partido no Congresso. Depois de 1910, as «estórias» sobre a
resposta congressional à mensagem continuavam a dar ênfase às diferenças partidárias; contu­
do, a mensagem em si própria era lida não como um programa do partido m as como um
indicador do programa pessoal do Presidente e da sua carreira política.

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Se esta forma de notícia incorpora, na sua própria estrutura, pressupostos sobre o nosso
sistema político, ela incorpora também pressupostos sobre o papel c a intenção dos nossos
media noticiosos. Toma-se como certo o direito e a obrigação do jornalista de mediar e
simplificar, cristalizar e identificar os elementos políticos no acontecimento noticioso. Presu-
me-se que o jornalista deva colocar o acontecimento num enquadramento temporal mais vasto
do que aquele que é imediatamente aparente para os não iniciados. É aqui que a noção mais
simples de objectividade — que só se deve escrever o que um observador ingênuo na cena teria
sido também capaz de escrever — é abandonada.
As notícias das décadas de 1910 e 1920 ilustram admiravelmente estes pontos. Que a
precminência do Presidente é assumida nestas «estórias», não requer ilustração: o Presidente e
as suas perspectivas, como estão expressas na mensagem, são os elementos-chave de quase
todos os leads das noticias de 1910 para a frente. Que o Presidente é visto num enquadramento
temporal caracterizado pela carreira pessoal, não pelo partido, precisa de mais ilustração. Aí
começa a ser dada mais atenção ao comparar a mensagem com outras mensagens do mesmo
presidente e de outros presidentes, um assunto que durante muito tempo teve lugar no comen­
tário editorial, mas que apenas agora se toma numa parte regular da cobertura das notícias. Os
relatos do Times da mensagem de Taft em 1912: «Esta mensagem equipara-se com as melho­
res na literatura das declarações do Executivo.» 0 A «estória» do Tribune em 1918 começa
assim: «Aparecendo esta tarde perante o Congresso, na véspera da sua partida para França, o
Presidente W ilson explicou a sua razão para assistir à Conferência de Paz e submeteu a
apreciação recomendações para legislação sobre questões domésticas que ele deseja que sejam
iniciadas durante a sua ausência.» Aqui, a reviravolta que a reportagem levou em relação ao
século x ix é dramática: a actividade congressional é tomada dentro do contexto do programa
presidencial, mais do que a mensagem observada dentro de um enquadramento temporal da
actividade congressional.
O lead do Evening Slar de 1928 é também instrutivo: «O Presidente Coolidge, na sua
mensagem anual submetida hoje ao Congresso, deu uma informação da sua administração e
recomendações para o futuro. Não mais imagens notáveis do desenvolvimento e não mais
perspectivas viris e optimistas do futuro foram traçadas por um presidente dos Estados Uni­
dos.» Nota-se aqui não apenas a introdução de opiniões, mas o sentido de um papel histórico
do Presidente, não ligado a um partido mas à «administração» da nação, comparado não com
outros contemporâneos que com ele podem ou não concordar, mas com outros presidentes.
Num lead menos intruso, o Chicago Tribune, naquele ano, defendia este foco mais vasto: «A
mensagem de despedida de Calvin Coolidge como trigésimo presidente dos Estados Unidos
foi lida em ambas as Câmaras do Congresso hoje.»

(J) Em 1934, o New York Times relacionou Franklin Rooscvclt c a sua mensagem ao Partido Democrático, à
memória de Woodrow Wilson, e ao espírito da guerra: «Falando da tribuna na House Chamber, onde o seu predcces-
sor democrático, Woodrow Wilson, transmitiu a sua mensagem de guerra cm 1917, o Presidente Roosevelt afirmou
inequivocamente a permanência do ideal, se nâo mesmo da forma, da Administração da Recuperação Nacional.»
Mais recentemente, a «estória» de Hedrick Smith, no N&v York Times, acerca da mensagem anual de Jimmy Cartcr
de 1979, caracterizava desta forma: «Evocando a ‘New Frcedom’ de Woodrow Wilson, o ‘New Deal’ de Franklin D.
Roosevelt, c a ‘New Fronticr’ de John F. Kennedy, estabeleceu, pela primeira vez na sua presidência, um tema
epigramático - a ‘New Foundation* - para simbolizar o seu esforço para reestruturar as prioridades econômicas, a
política externa e os programas federais para o futuro da nação.»

285
a imprensa notou rapidamente, km 19J4, a tradição de escolher uma comissa
Presidente foi posta de parte e substituída por uma chamada telefônica para
rádio e a gravação da imagem-som estavam presentes e foi observado pel
itenção ao espectáculo de abertura do Congresso ainda continuava, mas r
'residente: o Evening Slar, notando a escolta motorizada do Presidente ao lon
a PcnnsyJvania, o Washington Post observando a presença da senhora Roosev
m 4 de Janeiro em 1936, Tumcr Catledge mencionava a radiodifusão no seu i

«Na sua mensagem de abertura para a segunda sessão do septuag


Congresso, proferida pessoa/meníe perante uma sessão conjunta sem pn
Congresso esta noite, e transmitida pela rádio para milhões de ouvinte«
mundo, o Presidente Roosevelt lançou um desafio aos críticos do Nen
saírem à liça imediatamente e lutarem no Congresso, o fórum do povo, p
ção das medidas da administração.»

Em 1938, a «estória» do Evening Star observa que a comunicação é radiodi


no lead que «numa comunicação de interesse absonente, o Presidente Roosc
ao Congresso e ao mundo que esta nação deve estar preparada para se defender.
Sc estas «estórias» reflectem uma nova realidade política, elas também reflecí
realidade jornalística. O jornalista não c apenas o retransmissor de documentos c
continha certas sugestões entre as linhas calculadas para desfazer os planos legislativos para a
sessão que foi iniciada ontem.»
Em 1930, G. Gould Lincoln observava no Evening Star que o Presidente Hoover não
dizia, mas dava «claramcnte a entender» que a redução de 1% na taxa de rendimentos não
teria continuação. Os repórt