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X.

Tipos históricos fundamentais de estados

Como todo fenômeno histórico, o Estado está sujeito a uma mudança


permanente em suas formas. Por isso, dentro do tipo geral que encontramos, o
estado particulariza-se de várias maneiras. Os elementos do conceito de
Estado em suas duas formas, social e jurídica, mostram-se de maneiras
distintas nos diferentes círculos que formam a vida cultural, dependendo das
propriedades gerais de um povo e de uma época, tanto aquele que se torna
consciente dessas propriedades e a maneira de alcançá-las. Por isso, é
altamente instrutivo considerar os tipos de Estado que tem uma relação
histórica com o Estado atual, ou porque os une uma imediata continuidade
histórica, ou porque o conhecimento de um tenha influenciado o outro. Os tipos
que temos que considerar aqui é os do antigo mundo oriental, e mais
singularmente o dos israelitas, gregos, romanos, Idade Média e, por fim, o
Estado moderno.

Estas formações de Estado têm de ser compreendidas evidentemente, como


um todo histórico, em um fluxo permanente, de modo que o começo e o fim
tenham em cada um, um aspecto totalmente distinto; mas em toda esta
evolução e transformação podemos encontrar muitas notas permanentes que
através de todas as mudanças sofridas no tempo dão ao Estado ou a um grupo
determinado de Estado, um tipo especial; só isso já é o bastante para
evitarmos crer que a história política de um povo é unicamente uma confusão
de noticias sem conexão interior e com um mero nexo temporal.

Das primitivas formações dos Estados só teremos que apontar o que é


essencial para o conhecimento do Estado moderno. Uma consideração total da
evolução histórica do Estado não está dentro da doutrina deste, mas da história
política e da história da cultura, assim como, da doutrina e da sociedade em
todas as suas disciplinas particulares; e mais, estudar de maneira completa no
curso da história um aspecto determinado do estado significa o esforço
combinado de muitos pesquisadores. A questão que se trata neste lugar é
apenas aquela que faz referência à associação do estado e ao lugar que,
dentro dele, corresponde ao indivíduo, para ver se está em oposição ou se
corresponde com as relações análogas existentes no Estado moderno.

1. O antigo Estado Oriental

Nosso conhecimento acerca da natureza e das instituições dos antigos Estados


Orientais é muito defeituoso e não pode emitir juízo algum definitivo, se você
tiver que tomar como base os resultados das investigações históricas sobre os
acontecimentos que levariam à formação de impérios tão poderosos, sobre sua
organização interior e sobre os fundamentos de ordem jurídica em que se
apoiam. Pouco se consegue ao designar esses estados com as expressões de
estado despótico ou estado teocrático. No que respeita ao despotismo do
Estado Oriental, jamais esteve tão acentuado que impedisse a existência de
uma ordem jurídica. Havia um direito egípcio, persa, indiano, etc., com
instituições bem determinadas, e um direito ordenado. A consideração
desdenhosa que os helenos tiveram da escravidão das antigas cidades
orientais, a qual tem influído até o nosso tempo, tem sido muito exagerada e
baseia-se na identificação que faziam os gregos entre liberdade e participação
na soberania; mas a verdade do caso é que o direito do individuo não podia
fazer-se valer para com o monarca, mas contra seu subordinado, e que, como
ocorre em todos os Estados em quem à plenitude do poder reside em um
órgão sem restrições alguma, só podem encontrar as garantias para a
conservação da ordem jurídica na natureza contingente das pessoas que
detenham o poder. No Oriente, por tanto, o individuo tem uma capacidade de
direito privado limitada. O mesmo acontece com uma parte do povo em relação
à capacidade para o direito público, uma vez que, pertencer a uma determinada
classe ou casta é o lhe que dá uma qualificação pública para que lhe seja
outorgada uma função ou ofício. Por ultimo, como frequentemente só pagam
tributos e fornecem soldados ao exército das comunidades subjugadas, têm os
grandes Estados uma disposição interior que faz aparecer à totalidade de sua
associação muito mais fútil e insignificante que a dos modernos Estados
unitários e centralizados.

A teocracia, palavra criada por Josephus, expressa uma variedade de


representações políticas, de modo que seja necessário realizar o conteúdo
circunstanciado e concreto que se aplica a cada caso particular
correspondente. É comum estas representações significar uma relação entre o
soberano do Estado e o poder divino; mas se podem distinguir dois tipos
fundamentais: quando o soberano é representante do poder divino e sua
vontade é semelhante ao da própria divindade, confundindo-se com ela;
quando o soberano é limitado pela divindade, que expressa sua vontade
superior através de outros órgãos. Desse modo, a teocracia pode ter como
resultado o fortalecimento do poder estatal, como também o seu definhamento.
Essas relações se modificam também conforme a peculiaridade das
concepções religiosas, dentro das que existem oposições fundamentais, como
se pode ver na dos arianos e semitas.

Em geral, pode-se dizer do primeiro tipo apenas se reconhece o direito do


individuo, e que o próprio Estado toma um caráter de um objeto submetido a
um poder estranho e superior a ele. Por conseguinte, se afirma um dualismo
peculiar por obra do qual o Estado precisa de um completo transcendente e
supra-humano, graças ao qual adquirem capacidade para viver.

O segundo tipo, pelo contrário, plateia um dualismo dentro da vida do Estado,


formado por dois poderes: um humano e outro de origem supra-humano. Até
que ponto este segundo poder exercido pelos sacerdotes não só limita, mas
domina e até transforma o dualismo no sentido favorável ao primeiro tipo, é
uma questão que só pode ser fixada em cada Estado particular.

Sem dúvida alguma, o mais importante de todos estes Estados é o estado


israelita, que corresponde ao segundo tipo. Suas instituições, tal como tem sido
descrito pela Bíblia, não só tem influído na construção da igreja primitiva, mas
também nas ideias políticas da Idade Média e ainda nas da época moderna.

As novas investigações tem mostrado que a qualificação da teocracia só é


aplicável a um modo completo a época da dominação estrangeira no Estado de
Israel, isto é, apenas a Judeia. A ideia de que os mandamentos de Jeová são
superiores ao poder dos reis e que não é o rei quem, por cuja voz Jeová fala ao
seu povo, existiu também na primeira época dos reis. Em todo caso, feito é um
dos efeitos históricos do Estado israelita. Por conseguinte, a realeza era
concebida desde a antiguidade por este povo como um poder limitado unido a
lei de Jeová, a qual teria de realizar. Na literatura geral não se encontra povo
algum em que há provações tão amargas e em que os reis são repreendidos
tão amargamente quanto no povo de Israel. A idolatria dos monarcas, tão
frequentes em povos orientais, foi desconhecida pelo povo israelita, e aquele
Messias soberano que os profetas anunciavam para o futuro não era um fato
histórico, mas apenas uma esperança para o porvir.

Adicione a isso uma vigorosa tendência de democracia, impressa na


legislação judia, a qual em sua solicitude com os despossuídos que não
gozavam de todos os direitos e as classes sociais submetidas a regime de
dependência chegaram a alcançar um nível muito mais alto que qualquer outro
povo ocidental da antiguidade, e não só era objeto de seu cuidado os que
pertenciam a própria nação, mas também os estrangeiros e escravos. È
verdade que a lei se expressa de um modo imperativo; mais por trás dela se
oculta de um modo análogo a qual tanta semelhança tem em comum com ela,
a lei das Doze Tábuas, o reconhecimento dos direitos subjetivos. O israelita
tem uma personalidade determinada que possa fazer valer frente a frente do
rei, porque o problema este consiste precisamente em outorgar a proteção
jurídica, conforme a lei que a ele mesmo se obriga. Somente perante Jeová
encontra-se o israelita despossuído de todo direito.

Essas ideias não são obstáculos para que a realeza lute por adquirir aquele
poder de arbitrariedade que é comum no Oriente, embora permaneça sempre
viva a consciência das obrigações do rei, e aqui tem seu lugar o caráter
fundamentalmente democrático da política do povo de Israel. Permanecem as
recordações da época anterior aos reis, segundo os quais a instituição da
soberania real procede a vontade do povo que recebe depois a sanção divina.

Assim, pois, a soberania transcendente de Jeová não é um feito natural, mas


que descansa na apresentação expressa do povo, realizado na forma de um
contrato. Já observamos quanta importância essa concepção teve mais tarde
para apoiar as demandas democráticas.

Apesar de tudo isso, a forma da monarquia israelita não se separa do tipo


comum do Oriente. Não se fala de uma participação regulamentada das
pessoas no governo, embora muitas vezes rei e povo contraíssem obrigações
mútuas na forma de um pacto perante Jeová.

Os elementos opostos que se encontram neste estado se refletem nos efeitos


igualmente contrapostos que dele se derivam: a forma dualista do poder
soberano e sua reunião em uma mão poderosa, a liberdade do povo que rejeita
a realeza e se submete a ela, o poder absoluto do príncipe estabelecido por
Deus, o qual reconhece sem dúvida algumas limitações religiosas, mas não
limitações jurídicas, todas essas são posições que apoiam suas pretensões
doutrinárias no Antigo Testamento, o qual tem desempenhado, por causa
disso, um papel de extrema importância na história da doutrina política.

2. O Estado Helênico

A característica do Estado helênico, que durante muito tempo tem sido


identificado erroneamente como o Estado antigo em geral, como se o Estado
romano respondesse ao mesmo tipo que o grego, atingiu na literatura moderna
uma grande precisão em relação a seu conteúdo. Como nota fundamental do
Estado grego deve observa-se sua onipotência, o desamparo do indivíduo em
frente ao Estado. Aquele se dissolve dentro deste e não é tal, mas pelo
Estado. A liberdade antiga consistia exclusivamente do indivíduo que tinha a
capacidade de participar na formação de leis soberanas; porém estes
dominaram o indivíduo totalmente, sem deixar nenhuma esfera de liberdade no
sentido mais importante que tem este conceito de liberdade para o homem
moderno. Por isso, a ideia socialista, segundo o qual o indivíduo só tem o valor
de membro de uma comunidade, encontra sua expressão mais alta e mais pura
no Estado grego quando se tratava, ao menos, do cidadão. Em oposição a ele,
o Estado moderno tem reconhecido o indivíduo como um poder, com uma
esfera independente, e ele mesmo (o Estado) foi posto ao serviço da pessoa
individual.

Mas esses julgamentos, que tradicionalmente foram emitidos sobre o Estado


helênico provêm de duas fontes distintas: por um lado, eles nasceram sob a
influência dominante das ideias políticas de Platão e Aristóteles, ao qual é
comum a expressão de que o indivíduo não pertence, mas pertence ao Estado,
mas as observações de ambos os pensadores que estavam em contradição
foram esquecidas, precisamente, com a declaração antes emitida. Além disso,
o resto da literatura política em que o Estado e suas relações com o indivíduo
foram descritas de uma maneira completamente diferente é desconsiderada, e
o importante fato histórico de que o indivíduo moderno tem sua base teórica é
desconectado, precisamente nas antigas doutrinas, que, ignoradas ou ditas,
são um desvio da chamada verdadeira ideia do Estado entre os gregos. Mas a
direção individualista da antiga doutrina do Estado foi fundada, não menos do
que o oposto, nas relações políticas e sociais de emaranhados, da mesma
forma que as concepções hoje contraditórias do Estado nascem com igual
necessidade e exclusividade da oposição de forças que reina na sociedade.
Também esquece que ambos os pensadores constroem teorias ainda a serem
feitas hoje. Ter a doutrina platônica e aristotélica como expressão adequada da
essência do estado grego seria cientificamente o mesmo que tentar explicar o
estado alemão pelas observações que nossos filósofos Kant, Fichte e Hegel
fizeram sobre as questões fundamentais das doutrinas do Estado. Finalmente,
não se leva em conta que a sorte preservou precisamente o desaparecimento
das obras dos dois maiores pensadores gregos, enquanto uma rica literatura
política desapareceu de outras escolas.

O tipo de Estado antigo criado em vista da doutrina platônico-aristotélica é um


tipo ideal, mas não um tipo empírico.

A segunda fonte das visões mais comuns sobre o estado helênico é o


liberalismo moderno, cuja doutrina é colocar em termos muito claros e, por uma
antítese mais vigorosa possível, a doutrina das relações estaduais com o
indivíduo. Os grandes escritores sobre a doutrina do Estado dos séculos XVI e
XVII aplicaram as antigas teorias aos tempos modernos, sem perceber a
distinção fundamental que existia entre um Estado e outro. Mas, mesmo
Montesquieu ignora a oposição que existe entre a antiga e a moderna
liberdade. A concepção da liberdade em Rousseau vem diretamente dos
antigos. A comunidade democrática de uma cidade grega corresponde
perfeitamente ao ideal de Estado de Rousseau. A ideia de uma esfera
originaria de liberdade que teria de respeitar o Estado, ele o rejeita de forma
expressa. Nem a doutrina do estado reinante na Alemanha no início do século
XIX tem uma concepção clara da oposição entre a liberdade grega e moderna.
Hegel disse em suas lições sobre filosofia da história: “Em Atenas havia uma
liberdade real e uma igualdade vital de costumes e de educação [...]”. Junto
com essa igualdade e dentro dessa liberdade poderiam ser acomodados todos
os tipos de desigualdades entre os personagens e as disposições intelectuais,
bem como todos os tipos de diferenças entre os indivíduos, que encontraram
nesses ambientes fortes incitamentos para sua própria evolução.

Desconsiderando uma afirmação incidental de Ferguson, que pela primeira


vez, de forma aguda e brilhante, destacou a antítese radical entre as liberdades
antigas e modernas, foi o porta-voz do liberalismo francês na época em que
esse liberalismo atingiu a sua maior Influência europeia, nomeadamente:
Benjamim Constant. A liberdade antiga significava tanto como a participação no
poder do Estado; mas a liberdade moderna significa ser livre contra o poder do
Estado e possuir o direito, não dominar, mas influenciar o poder do Estado para
o interesse dos indivíduos.

Entre os antigos, o indivíduo, que geralmente é um soberano nos assuntos


públicos, é escravo de todas essas relações privadas. Como cidadão, ele
decide sobre paz e guerra; Em particular, é circunscrito, observado, reprimido
em todos os seus movimentos [...]. Nos modernos, pelo contrário, o indivíduo
independente de sua vida privada, é, mesmo nos estados mais livres, soberano
na aparência.

Na Alemanha, pela primeira vez, uma expressão análoga é expressa em


Tittmann, seguida imediatamente por Cucumus, Platner e Vollgraff. Mais tarde,
e confiando em Platão e no Estado espartano, Stahl, cuja doutrina pretende
mostrar que os gregos faltam completamente da ideia de uma esfera de
direitos individuais. Uma teoria análoga é aquela que está no centro da
pesquisa de K. F. Hermann sobre o Estado grego. Mas, além disso, a doutrina
do Estado na Alemanha permanece por muito tempo ignorante desse
problema. Os escritores políticos das décadas de 1830 e 1840, como
Schmitthenner, Dahlmann, descrevem as formas antigas do Estado sem entrar
nesta questão. Pela primeira vez, essa antítese reaparece nos mais ilustres
representantes do movimento do liberalismo alemão e reaparece formulada de
maneira ainda mais precisa do que Benjamin Constant. R. von Mohl é
expresso, principalmente em sua Enciclopédia de Ciências do Estado, nestes
termos:

Entre os antigos o indivíduo está a serviço do Estado, e encontra a


satisfação dos seus propósitos mediante o bem do Estado. Entre os modernos
é o Estado que serve para os indivíduos e alcança sua glória quando consegue
o bem de seus cidadãos. A liberdade consiste entre os gregos na participação
no governo; hoje governado pelo mínimo de governo possível. No Estado
antigo, os benefícios dos cidadãos são como o fim de sua personalidade; nos
tempos modernos significa uma limitação.

De Mohl data na Alemanha a opinião comunista sobre a distinção entre


liberdades antigas e modernas, que está firmemente estabelecida até 1860,
pelo trabalho de Hildenbrand, Laboulaye e Foustels de Coulanges.

Uma investigação crítica desta doutrina nos mostra acima de tudo o quão
errado é tentar caracterizar apenas com algumas palavras, um espaço de
tempo que inclui vários séculos. O Estado espartano na época da guerra de
Messina e Atenas nos dias de Demóstenes não está apenas temporariamente
distante um do outro, mas no que diz respeito à Veneza do século XIV com a
Itália hoje. Não só o antigo Estado foi formado cobrindo vários aspectos, mas a
evolução interna deles foi realizada de maneira bastante análoga à forma como
o Estado da Idade Média se tornou um Estado moderno. Além disso, deve-se
ter em conta que as descrições mais típicas do Estado helénico são retratadas
predominantemente no estado militar espartano. Isto é, sem dúvida, devido ao
fato de que o último, como já foi dito em seu passado, foi tomado por
Xenofonte e Platão como modelo que era necessário para se opuser ao estado
ateniense que havia degenerado em uma democracia desenfreada. O próprio
Aristóteles, mais tarde em sua Política, não se tornou estranho à influência
desta visão do Estado espartano, uma vez que muitas instituições da Laconia
encontraram um lugar no plano do seu Estado ideal. Essa demanda coletivista,
tão vigorosamente refletida nas instituições do Estado, era então para Atenas,
a que nos referimos fundamentalmente, não uma realidade legal, mas um
projeto de uma futura Constituição, baseada em instituições de um passado
estrangeiro, e de modo algum descansa, portanto, na ideia de uma completa
destruição dos endividados em benefício da comunidade. Pohlmann mostrou
com razão que o motivo da base do Estado ideal para Platão é o interesse
individual, e aquele que eles se harmonizam com os interesses sociais,
encontrando, então, o primeiro no Estado que ele exige a garantia mais segura.
No século IV de Atenas, o indivíduo tinha precisamente um poder tão grande e
reconectado que todo reformador social precisava tê-lo. Em sua crítica da
República Platônica, Aristóteles tentou mostrar que a ignorância da natureza da
individualidade era o erro fundamental da doutrina platônica do Estado. Havia
uma segunda razão pela qual o Estado Lacedemônico era considerado normal
e comum aos gregos, que é a influência exercida por O. Muller em seu trabalho
sobre os Dorianos. Sob seus efeitos, singularmente, Hermann chega à
afirmação de que a Constituição espartana em suas bases tem sido o reflexo
mais consciente e preciso da ideia do Estado grego. E acontece com isso, o
que é tão comum na história da doutrina do Estado, ou seja, que uma vez criou
um tipo ideal, esses fenômenos históricos que não concordam com isso são
considerados como um consagramento do normal. Mas a pesquisa moderna,
mais livre de construções, vê no cosmos liquefeito, onde a liberdade do
indivíduo é limitada externamente e esta é completamente tomada pela
comunidade, um produto artificial nascido da necessidade de reunir todas as
forças para conservar a soberania nos países conquistados, e também nascido
da oposição entre os nobres e o rei, que através da organização do Estado
estavam reciprocamente vinculados. O Estado Lacedemonio, portanto, é igual
aos outros Estados dórios, mas de modo algum pode ser considerado o Estado
grego normal; em vez disso, poderia atribuir esse personagem, devido à sua
influência na cultura, mesmo hoje, para o Estado de Atenas, que é o primeiro a
investigar quem pretende estudar a história da evolução do Estado ocidental.
No que se segue, então, as peculiaridades do Estado helénico que não foram
suficientemente sublinhadas e que têm um grande significado para o
conhecimento do atual, devem ser apontadas.
O Estado grego é Estado da cidade, isto é, polis; originalmente é a aldeia
fortificada; mais tarde, a cidade construída em torno desta vila vem formar o
Estado, ou pelo menos, o núcleo de uma comunidade estatista cuja magnitude
territorial era análoga à de um cantão suíço. A assinatura que a pequenez das
polis e seu caráter de cidade teve na evolução da cultura helênica tem sido
explicada com muita frequência; no entanto, muitas das notas que foram
definidas não são exclusivas dos helenos, mas também, depois, comunidades
cantonais ou cidades que passaram a ter um personagem de Estado
participaram dessas mesmas notas que se pensavam peculiares aos gregos.
Mas é uma nota inteiramente detida pelo Estado grego, a de ter apresentado
em todas as suas formas, como elemento essencial e primeiro, a unidade
interior. A história antiga começou com o Estado já formado e, no que diz
respeito às memórias dos povos antigos, o Estado sempre se mostra como
uma instituição perfeita. O que foi erroneamente considerado como uma
característica geral do Estado antigo, a saber, a sua onipotência em relação à
vida individual, cuja esfera total dominou, é apenas válida para tomá-la como
ponto de partida. Há muitas causas desse fenômeno admirável. No que diz
respeito à unidade interna, ele se adapta muito mais à polis, já que a
monarquia, que só existia no início, é conhecida pelos gregos apenas como um
nome. Odiavam a tirania e a soberania das pessoas com várias nuances era a
forma de governo que o espírito nacional exigia. O caráter dualista do Estado
medieval só foi possível, como veremos em breve, por causa da realeza. A
natureza primitiva das relações internacionais e a impotência política dos
vencidos levaram à existência da polis e ao fato de que os laços dos indivíduos
se aproximavam. Por esta razão, o motivo para se juntar e forçar o cidadão a
uma pequena comunidade também deve ser explicado dessa maneira. Por
outro lado, a classe dominante, pelo menos, não percebeu a falta de liberdade,
porque o que o indivíduo perdeu em benefício do Estado foi mais do que
recebido pela participação no governo, e nesta participação é precisamente o
essencial cidadão, o que é a deferência do mero habitante. Mas a polis não era
exclusivamente uma pluralidade de Estados, mas ao mesmo tempo uma
comunidade de cultura: essa é a distinção radical do mesmo em relação aos
seus análogos do Oriente. Em primeiro lugar, não existia lei alguma que
prescrevesse uma direção específica para a evolução política, nem autoridade
do Estado que valesse tão imediatamente instituído por Deus, mas sempre
repousa a polis na unidade inquebrável do que no mundo moderno foi
separado: Estado e Igreja. Para isso, o Estado helénico teve que ter um grande
número de demandas para seus cidadãos.

Esta união entre a comunidade estadual e a comunidade de culto também


explica o fenômeno importante, que é tornar-se compreensível as demandas
que afetam as doutrinas dos grandes pensadores gregos, para quem a
educação do cidadão pela virtude é o objetivo final do Estado e a conduta
moral, o dever supremo do cidadão. Estas são as consequências naturais de
uma concepção do Estado, cujas raízes vêm da velha convicção do povo, que
veem no Estado a obra de Deus e a sua permanência, cuja veneração era o
primeiro e supremo dever do cidadão. O antigo Estado é Igreja ao mesmo
tempo, e é por isso que não deve apenas lidar com a lei, mas também com a

honestidade da vida. Cobre tudo o que é sagrado e caro para o homem, daí o
grego não deve se render ao Estado por medo da coerção externa, mas pela
devoção. É verdade que o Estado apenas garante sua vida como cidadão, mas
isso inclui apenas tudo o que é apenas o homem digno dele. A partir da época
da guerra com os persas, o Estado grego, e especialmente Atenas, evoluiu
intensamente, o que foi mostrado em uma corrente cada vez mais acentuada
que tende a separar os indivíduos das obrigações que tinham originalmente. A
ingênua entrega dos antigos cidadãos ao Estado é atacada no mais íntimo por
uma crítica devastadora. Sofisticismo afirma a doutrina da lei do mais forte. O
que os antigos consideravam uma parte divina da ordem terrestre não tinha
aos olhos da geração jovem qualquer outro valor que o de simples
observações humanas, e o final dessas afirmações, disse que as mais radicais,
é a exploração do mais fraco pelo mais forte. Além disso, a ideia e o próprio
sentimento desaparecem para os homens da polis que durante tanto tempo
foram o ponto central de todas as aspirações. Demócrito e Sócrates começam
a se sentir como cidadãos do mundo; os cínicos mais tarde tentam
compensarse por qualquer sensação política por meio de um cosmopolitismo
alheio a todos os países e aos estoicos, tentando finalmente cobrir toda a vida
e estabelecer em vez da cidade-estado um reino mundial. Em ambas as
escolas, o conceito individualista de liberdade é claramente formulado. A
literatura também abalou os alicerces da vida antiga do Estado grego; basta
pensar em Euripides para esse fim. Diante desses esforços, a doutrina política
de Platão aparece como um ensaio para reviver as relações políticas que
haviam desaparecido; eles são uma tentativa de regenerar as polis em um
sentido aristocrático sobre a base conservadora da concepção dos dorianos
helenistas antigos. O próprio Aristóteles, tão realista, representa uma
concepção conservadora, como pode ser visto nas passagens em que ele
precisa do tipo ideal de polis de seu Estado ideal. O Estado macedônio, que viu
sua extensão se tornar um império mundial, não tem influência sobre sua
política.

Lentamente, então, infiltrou-se e afirmou-se um individualismo enérgico que


não cedeu em força ao individualismo moderno. A concepção mecânica,
atomística e utilitária do Estado, mais tarde, singularmente nos séculos XVII e
XVIII, já é encontrada, já existe na doutrina dos epicuristas, como resultado
teórico da evolução que descrevemos. Mas, politicamente, esse individualismo
encontrou total satisfação na democracia ateniense de Pericles. No entanto,
este não só havia louvado a entrega do indivíduo ao todo, mas também a plena
liberdade social dos atenienses. Mas a antítese do conceito de liberdade, a
saber, a participação no Estado e a sua libertação, já penetrou claramente na
consciência científica. Aristóteles já encontra essa oposição vivendo nas
concepções populares de democracia e trata ambos com grande sagacidade.
Neste ponto, nada foi teoricamente descoberto pelos modernos, que já não
eram conhecidos pelos antigos.

Não podemos falar neste momento de uma subordinação incondicional do


indivíduo ao Estado. Por outro lado, o poder do Estado se enfraqueceu; os
oficiais eram venais, e a administração, por força de seus abusos, era
desprezível. O Estado era como uma bola de jogo que os fósforos foram
servidos; um meio para satisfazer seu egoísmo sem continência. Pior ainda foi
o que aconteceu com a oligarquia espartana, que finalmente precisava ser
fortalecida pelos periecos, sem que ele conseguisse, até mesmo recorrer a
essa medida, recuperar pelo menos seu caráter primitivo.

Se tentássemos agora verificar a onipotência do Estado no momento do


esplendor da Hellás, acharíamos que o que se diz não corresponde mais do
que ao antigo Estado Doriano; por exemplo, abandonando as crianças nas
estradas, o serviço militar, o dever de se casar e procriar. É verdade que
algumas instituições retiradas das leis de outros Estados são citadas; mas não
são muito convincentes para a questão em questão. F. de Coulanges cita, em
apoio de sua afirmação de que os antigos não conheciam a liberdade
individual, esses dados: que em Socres, a lei proibia os homens de beber
vinho, como se hoje não existissem leis de temperança! Que em Atenas as
mulheres foram proibidas de levar com mais de três vestidos em viagens, como
se a era moderna também não conhecesse limitações de luxo! Que era um
dever votar nas assembléias populares e ocupar cargos públicos; mas essas
disposições não são estranhas às leis municipais modernas ou às constituições
dos Estados; que a educação era regulamentada por ela e era obrigatória para
as crianças, como se o Estado moderno não lidasse com a educação! Além
disso, não sabemos em geral de que época são essas leis ou se elas eram de
caráter permanente ou eram apenas leis com validade circunstanciada; mas o
que está fora de dúvida é que muitas dessas leis estão separadas umas das
outras por períodos de séculos; de forma a fazer com eles afirmações gerais,
logo tem o mesmo valor que se alguém quisesse julgar o atual direito penal
alemão de acordo com a lei da Carolina.

Com base em fundações análogas às de Coulanges e algumas outras, um


historiador poderia negar mais tarde que os Estados do século XIX
reconheceram uma esfera de liberdade individual. Para isso, poderia ter
recorrido às leis contra os católicos, na Inglaterra, até o ano de 1829, para a
expulsão dos protestantes do vale de Ziller para as perseguições dos
demagogos na Alemanha na segunda e última década do século passado
como resultado de as conclusões de Carlsbad ou lembram as medidas contra
os sete de Gotetingen ou a demissão dos privilégios das universidades por
causa de sua doutrina ateísta em meados do século passado, sem contar as
medidas policiais da França imperialista da Áustria Rússia absolutista e até
atual, etc.

Na verdade, em Atenas especialmente, à medida que a cultura cresce, a


esfera da liberdade individual é efetivamente posta em prática; Como as
criações espirituais insuperáveis daquele tempo nasceram de qualquer outro
tipo? Uma regulamentação da arte ou da ciência resultaria no empobrecimento
de ambos. Nunca essa política para a literatura mencionada por Platão
tornouse real. A honra de introduzir a censura, deixada pelos homens do antigo
Estado que viviam em servidão, aos homens livres da Idade Moderna! Se a
história se refere a vários processos devido à descrença ou à heresia? O que
esses casos cuidadosamente registrados significam, em comparação com as
humilhações e os ultrajantes jurídico-sociais experimentados pelos homens por
causa de sua crença ou descrença no período altamente elogiado de direitos
fundamentais garantidos? Como o florescimento comercial de Atenas e sua
situação no mundo internacional foram possíveis se não tivesse reconhecido a
liberdade econômica do indivíduo? Os ataques do Estado, do qual a tradição
fala, à esfera do direito privado, também têm analogias na história moderna. O
perdão das dívidas foi uma medida extraordinária da mesma natureza que a
que existia na Alemanha, e foi suprimida desde 1979. As novas investigações
mostram que o direito privado grego alcançou um grande desenvolvimento. A
economia antiga era sua origem na economia familiar e dependia da
substantividade da economia do indivíduo, e não do estado precário de uma
economia comunista. O fato de que a instituição do direito testamentário era,
singularmente, conhecido e comum em Atenas é a prova de que existia uma
grande liberdade de direito privado. Os atenienses consideravam os impostos
diretos como uma limitação da liberdade e, portanto, só existiam
temporariamente; que nova prova de que eles estavam conscientes da
independência do direito privado. As liturgias, tão pesadas muitas vezes,
ofereciam compensações por impostos diretos, mas eram pagas apenas por
uma minoria de ricos. As inúmeras limitações de propriedade no momento do
esplendor de Atenas são exclusivamente de natureza policial, às quais o direito
administrativo moderno pode se opor a outros análogos que chegam até o
ponto de vista. Menos limitações policiais existiram do que no presente, em que
tanto a vida pública quanto a privada estão sujeitas a um sistema de
permissões e proibições policiais. Além disso, no Estado grego prevaleceu a
ideia de que o indivíduo só pode ser imposto obrigações através de leis;
embora de forma especial, excepcional, isso também acontece às vezes
através da (palavra em grego) e do ostracismo. Esta afirmação reunida pela
teoria moderna do Estado de Direito, a saber, que toda atividade
governamental dirigida ao indivíduo só deveria ser executada por lei e, dentro
das limitações da própria lei, foi plenamente reconhecida e vivida pelos gregos
e singularmente pelos atenienses. Montesquieu formulou sua famosa definição
de liberdade, tendo, sem dúvida, diante dos olhos o antigo Estado.

Será que teremos de afirmar que não há distinção alguma na concepção do


Estado antigo e novo, no que diz respeito ao lugar que o indivíduo tem para
ocupar? A resposta é: embora as instituições de ambos não possam deduzir
uma oposição entre eles, há uma diferença muito significativa entre os dois.

No antigo como no estado moderno, o indivíduo foi reconhecido em uma


esfera livre e independente do Estado, mas na Antiguidade nunca foi possível
estar ciente da natureza jurídica desta esfera do indivíduo em relação ao
Estado. A consciência da natureza jurídica desta esfera do indivíduo contra o
Estado. A consciência desta liberdade individual como instituição jurídica é
condicionada pela consciência de uma oposição, a oposição entre o indivíduo e
o Estado; Mas foi precisamente neste pensamento que os gregos
necessariamente faltam, e quando, nos tempos posteriores, o individualismo
despertou o sentimento dessa oposição, a independência dos estados gregos
havia desaparecido.

A afirmação do direito à liberdade individual deve ser uma dupla oposição:


primeiro a Igreja e o Estado; segundo o de monarca e as pessoas. No auge
das lutas confessionais da era moderna e entre o poder dos monarcas
absolutos e os direitos das pessoas, como será explicado mais adiante em
detalhes, nasceu a concepção dos direitos originais correspondentes a uma
esfera de liberdade que era permanecer invulnerável para o Estado. Nenhuma
dessas oposições existia na Grécia. O indivíduo foi libertado da coerção
religiosa (porque uma ideia análoga à mudança de fé era completamente
estranha à era da religião natural politeísta), nem as pessoas se opunham ao
soberano porque ele era o soberano.

A ignorância do direito individual se estende apenas a esta esfera de


liberdade, enquanto a ideia de que o Estado deve desempenhar funções no
interesse do indivíduo, que tem esse direito de exigir o cumprimento, está muito
viva. Não é possível comprovar a reivindicação, que Gierke tirou de Stahl e
Hildenbrand, de que os gregos não conheciam um direito privado
independente, mas o contrário é verdade. Mais uma vez, eles identificam a
doutrina de Platão e a de Aristóteles com a realidade grega, e porque a
primeira, especialmente, não diz nada sobre o direito privado, concluiu-se que
não existia. Mas ter um direito e entender que são duas coisas diferentes e, à
medida que nosso conhecimento da lei privada grega cresce, mostramos mais
claramente que a proteção legal foi formada nos interesses dos indivíduos.

Os direitos políticos também foram reconhecidos e formados como direitos


individuais. A qualificação legal da pessoa como cidadão, o direito de um
cidadão, estava sujeita a uma fixação rigorosa, não apenas pelas leis de cada
Estado, mas também por pactos entre Estados. As formas de associação entre
os estados gregos, isopolitia e simpolitia, se baseavam essencialmente nas
peculiaridades do direito do cidadão dessas associações. As funções deste
direito: exigência de participação na administração da justiça e na vida do
Estado, foram perfeitamente reconhecidas em sua qualidade legal. Além disso,
não só os cidadãos participaram desses direitos, mas também aqueles que
foram submetidos à preteção de alguém os apreciaram de forma restritiva e
não apenas por uma tolerância precária. Através das instituições peculiares da
Proxenie e da Euergesie, os cidadãos dos outros Estados receberam uma série
de aptidões e privilégios legais, por exemplo: eles entraram no conselho e na
assembleia popular; direito de adquirir casas e terras; segurança contra a
apreensão de bens e prisão de pessoas; às vezes também isenção de imposto
para compra e venda; liberdade absoluta para importar e exportar, e,
finalmente, um lugar de honra no teatro. Também era um dever das
autoridades atender aos proxies caso precisassem disso. O Enktesis, o recurso
perante os tribunais e a Epidamia foram às formas como a capacidade jurídica
do direito privado concedido aos estrangeiros foi revelada, uma capacidade
que era apenas uma parte daquela concedida aos cidadãos, o que prova quão
grande foi a divisão que existia entre a mera capacidade do direito privado e os
direitos políticos.

Todos os benefícios para o Estado basearam-se por razões legais, que, de


forma análoga ao que ocorre no Estado moderno, impediram avaliações
arbitrárias. Entre estes benefícios foi a obrigação fundamental de servir no
exército de 18 a 60 anos, o que constituiu um dos argumentos mais
importantes para aqueles que sustentaram a teoria da absorção do indivíduo
no Estado; mas hoje, em que o dever do Landsturm dura até aos 45 anos de
idade, este serviço não pode mais ser considerado excessivo, especialmente
se se notar que a obrigação de serviço na campanha corresponde apenas aos
que tinham entre 20 e 50 anos de idade.

Estes direitos foram protegidos por uma administração de justiça bem


treinada que, como os que acontecem hoje, só podem intervir a pedido das
partes interessadas; para isso, com o julgamento do juiz não só um dever
público foi satisfeito, mas as exigências de um direito subjetivo do indivíduo. A
lei financeira dos atenienses apresenta analogias com as questões modernas
de direito administrativo. Se alguém fosse nomeado para um litígio e acreditava
que ele tinha sido imposto de forma desproporcional em seus meios, ele
poderia reivindicar e indicar outra pessoa a quem o tributo poderia ser imposto
mais justamente.

Em vista desses fatos, a doutrina de Constant, Stahl e Mohl, construída


sobre o tipo doriano ideal e sobre as teorias de Platão afirmando que na Grécia
a personalidade individual não foi reconhecida, ela deve desaparecer
definitivamente da literatura. O grego estava sujeito à lei, não só em benefício
do Estado, mas em Atenas, não é tão longe de deixar de reconhecer ao
cidadão uma esfera ampla e real na qual ele pode agir livremente. De uma
forma legal formal, era, além disso, completamente equivalente à liberdade
moderna, uma vez que só pode ser definida como a liberdade que se baseia
em disposições legais. As limitações do Estado moderno em relação à
liberdade individual são legalmente uma limitação de si mesma que tem uma
extensão diferente em cada Estado. A limitação jurídica absoçuta do Estado
em sua relação com o indivíduo não existe, e, como a experiência mostrou,
essas limitações não podem vir de leis fundamentais às quais, no tempo de
Constant, ainda foram atribuídos um valor excessivo. A distinção entre o lugar
ocupado pelo indivíduo no Estado antigo e moderno visto do seu aspecto
jurídico consiste no seguinte: em que a liberdade do indivíduo moderno é
expressamente reconhecida na lei do Estado, enquanto que na Antiguidade,
isso foi considerado tão óbvio e claro, que ele nunca encontrou posição na
legislação.
Finalmente, notemos que a concepção, digamos da dependência do
indivíduo no Estado, foi tão pouco marcada nas instituições gregas, que parece
apenas como uma unidade superior de indivíduos, que continuam a se formar
dentro dessa unidade uma variedade. Isso atingiu sua expressão nos nomes
dos estados helénicos particulares, que sempre são designados com o plural
do nome de seus cidadãos. Atenas é chamada (palavra em grego) e Esparta
(palavra em grego). O elemento territorial do Estado não foi reconhecido pelos
antigos em todos os seus significados. "O conceito do Estado é imediatamente
atribuído ao de um cidadão - mesmo quando eles deixam sua pátria - e não ao
território, e porque o direito do cidadão é um direito gentílico, o Estado está
unido, em primeiro lugar, à existência das raças e não à terra que habitam ou
aos lugares sagrados em que os deuses nacionais são venerados ". Para isso,
os cidadãos que são banidos, se estão em número suficiente, são
conceitualizados como uma continuação do Estado destruído pelos inimigos,
que o Estado irá reviver quando as transformações permitirem uma
reconstituição do mesmo.

Se você quer caracterizar brevemente o Estado grego, pode ser feito desta
maneira, tendo em vista as observações precedentes: o Estado helénico é uma
associação de cidadãos, unitária, independente e baseada em suas próprias
leis e autoridades. Esta associação oferece um duplo personagem: estatista e
religiosa. O princípio superior da administração e do direito é, nesta
associação, o cumprimento da lei. Por isso, o cidadão tem um círculo de
direitos perfeitamente definidos e reconhecidos, de que a ciência do Estado só
conseguiu manifestar e penetrar na consciência científica a parte referente ao
exercício dos poderes do Estado pelo indivíduo; mas ele não possui um
conhecimento claro dos outros elementos de capacidade jurídica de que o
indivíduo possui. Isso ocorre porque não existe - como já dissemos - uma
ciência jurídica independente entre os gregos. Por causa da identidade entre a
organização estatista e religiosa, o fim do Estado é formulado teoricamente da
maneira mais abrangente, até o ponto em que a vida inteira da cultura
permanece implicitamente contida nela. Mas quando se trata da realização
dessas ideias, o Estado antigo, em relação ao moderno, não atinge tanto
quanto esse. O Estado que, na realidade, recolheram em sua atividade todos
os aspectos da existência humana em comum é o Estado contemporâneo, que
exerce um poder real, incomparavelmente superior ao dos helenos.

A distinção mais importante entre o estado antigo e o moderno não está na


estimativa diferente que a pessoa humana merece. A antiguidade nunca
chegou a reconhecer o homem para si mesmo, como pessoa, apesar de ser a
Grécia e sua filosofia que, pela primeira vez, tratava a ideia do homem e da
humanidade, e mesmo quando a escravidão tinha um personagem em Atenas
muito mais doce que em Roma antes que a doutrina dos estoicos atenuasse
nestes rigores daquela instituição e mais doce do que a dos negros nos tempos
modernos. Nem a personalidade foi renovada no exterior; mas a precessão da
cultura tem vindo a diminuir o abandono legal que o estrangeiro estava
originalmente. Nesta estimativa mais baixa da personalidade humana,
devemos reconhecer uma oposição decisiva, mas apenas em relação ao
Estado de hoje. A falta absoluta de direitos do estrangeiro na era dos antigos
alemães e outras relações peculiares desses povos em um grau mais primitivo
de sua cultura, as múltiplas relações de dependência da Idade Média e da Era
Moderna, a intolerância em relação a outras pessoas crenças, estavam nos
antigos pontos de estado que nos fazem ver que a estimativa de personalidade
era mais limitada do que no estado moderno. O século XIX é onde nos estados
ocidentais alcançou uma vitória geral desse princípio: o homem é uma pessoa.

3. O Estado Romano

Tudo o que se disse do Estado grego vale, em princípio, a respeito do romano,


que se forma a partir de uma cidade- Estado e conserva as impressões de sua
origem até seus últimos tempos. Também o Estado romano é ao mesmo tempo
comunidade de cultura, pois o jus sacrorum faz parte do jus publicum.
Ademais, o Estado, segundo a concepção de seus membros, identifica- se com
a comunidade de cidadãos, a dizer, os civitas, o que equivale a afirmar que é a
comunidade de cidadão- res publica, a comunidade do povo. No conceito de
cidadão prevalece também em Roma o momento da participação ativa na vida
do Estado, tanto mais, quanto que a capacidade para o direito privado, e o jus
sufragii et honorum poderiam estar completamente separados um do outro,
como prova o caso do filius famílias maior de idade e do latino dotado do
commercium. O Estado romano também, apesar de todas as lembranças que o
fazem derivar de una variedad de gentes, mostra- se desde o momento em que
aparece na história, como um Estado perfeito dotado de competência para
decidir, o qual não procede de feitos históricos ou jurídicos de nenhuma classe.
Por isso, o Estado romano desde o começo é uma unidade interior e geral. A
divisão da comunidade em várias partes dotadas de soberania igualmente
originária é absolutamente impossível; daqui que, em todas as épocas,
podemos encontrar viva a ideia de que, todavia a pluralidade dos órgãos,
somente em um deve residir a plenitude do poder do Estado, o imperium, la
majesta, e aos demais somente lhes pode corresponder um direito derivado.
Quando o princeps se coloca no topo do Estado, então seu poder procede do
que o povo lhe transmitiu, mediante a lei régia, os direitos que originariamente
pertenciam a este e, precisamente, por isso, representa o princeps, em sua
pessoa, ao povo em sua totalidade. No mundo ocidental aparecem pela
primeira vez, no império romano, encorpados em uma pessoa, o poder e a
totalidade dos poderes do Estado. Daqui em diante, toda concentração dos
poderes do príncipe se verá influenciada por esse primitivo modelo romano.
Onde quer que haja Estados, renascerá para os servir de tipo de construção, a
ideia imperecível romana do imperium. Mediante os glosadores e os legistas
influenciam as concepções romanas na vida política da Idade Média, e o
Renascimento volta a tomar como imagem para a formação dos Estados
modernos, a própria concepção romana do Estado. O antigo Estado influenciou
imediatamente no mundo político moderno, tanto relacionado a sua forma
helênica, quanto em sua forma romana.

Uma diferença essencial entre a vida da cultura grega e a da cultura romana


consiste na distinta função e capacidade que se delegava ao pai de família no
seio dessas. A família romana descansa na concepção de uma severa
organização autoritária: o pater famílias tinha um poder político sobre os seus
que durava toda a sua vida; diferentemente, o poder do pai de família na
Grécia estava regrado pela lei e limitado no interesse dos que estavam
submetidos a seu poder, o qual, além disso expirava, pelo que se relaciona a
seus filhos, quando chegavam esses a sua maior idade. Por conseguinte, a
situação do pai de família romano em relação ao Estado, era muito diferente da
do grego; pois o primeiro tinha um poder de autoridade independente e não
derivado do Estado nem submetido a sua fiscalização, a dizer, um poder
análogo ao do Estado. Esse poder se diferencia, portanto, do de uma pequena
monarquia, segundo nossa maneira de ver, em que a família não possuía um
território determinado, mas sim uma mera associação de pessoas. Nas
primitivas instituições do Estado fundou-se o reconhecimento de uma
personalidade individual, livre, independente daquele, ao menos no que se
refere ao homu sui juris; assim o mostra a situação do pai de família, de que
fizemos menção. Nas lembranças do povo permanecia a ideia de que o Estado
havia nascido de uma união de famílias constituídas em gentes, com o qual a
família (a que Cícero chamava quasi seminarium rei publica) aparece como
uma organização permanente primitiva na formação do Estado. Assim pois, a
separação de um poder público e de um poder privado e a oposição, baseada
nisso, em um direito público e um direito privado, deriva da construção histórica
do Estado romano. O romano frente ao Estado é também pessoa. A distinção,
assim como a relação, entre o direito público e o direito privado, é tão própria
ao espírito romano que, desde o momento que se fala em uma ciência romana,
penetra no mundo da nossa consciência. O indivíduo romano não se deixa
absorver pelo Estado, a tal ponto, que a seus olhos, toda a ordem do Estado
está posta para serviço do indivíduo. Igualmente, aproximadamente dois mil
anos depois, Locke ,então nessa época, Cícero considera que a ordem da
propriedade é o objeto mais importante da totalidade da vida política do Estado.
O egoísmo individual que somente atende ao benefício privado jugou um
grande papel incluso na tendência dos romanos em se converter em
dominadores do mundo. A submissão completa do indivíduo foi amplamente
recompensada. Aos romanos, como aos gregos, faltou, pelas mesmas razões,
a clara consciência jurídica de uma esfera política de liberdade, contudo
existem características muito marcantes que provam como para eles o próprio
poder do legislador tinha limites em sua relação com o indivíduo.

A personalidade individual independente ao Estado somente se reconhece em


Roma em sua plenitude quando se trata do cidadão. Ao homem como tal, não
o reconheceu a personalidade, incluso quando o cristianismo chegou a ser a
única religião do Estado. A antiga Roma cristã não abandonou as bases do
antigo Estado, e dela pode - se dizer o que dizemos da Roma pagã. Apesar da
Igreja exigir independência para si, o Estado antigo continua sendo na época
cristã uma comunidade de cultos. Mediante o caráter exclusivo que se
concedeu ao cristianismo, em oposição à variedade dos demais cultos pagãos
considerados até então como cultos do Estado, forma - se uma nova distinção
constituída por crentes, hereges e incrédulos, dos quais somente tem
plenamente justificada sua existência. Quando o principado e o império
reduziram a um mínimo os direitos públicos das pessoas, a tal ponto que o
caráter de cidadão descansava quase exclusivamente em sua capacidade de
direito privado, foi plenamente aniquilada a liberdade que realmente havia
existido até então nas coisas religiosas, liberdade que existia a menos que se
opusesse aos interesses diretos do Estado. O romano, desde Constantino, e o
reino Bizantino, são as únicas formações às quais pode concordar a afirmação
de que ao indivíduo não se reconhecia existência independente do Estado. Não
existiu jamais na história dos povos ocidentais uma época em que o indivíduo
viveu mais oprimido do que foi nessa; Ademais, não existiu para ele nenhuma
possibilidade histórica - como houveram de a ter mais tarde os homens
submetidos ao absolutismo – de abalar essa pressão. Somente possuíam uma
esfera de direito privado de uma pequena forma; mas nem conheciam o que
era exercer o poder nem ter liberdade frente a ele. Uma obscuridade profunda
que só agora principia a desaparecer se espalhou singularmente sobre a época
tardia da Roma oriental em que o absolutismo do Estado alcançou seu mais
alto triunfo.

4. O Estado da Idade Média

O Estado antigo é uma unidade geral que não admite divisão interior. A ideia da
natureza unitária do Estado atravessa a evolução política da Antiguidade,
assim como a ciência daquela época. Sempre lhes foi estranha uma separação
do Estado em governantes e governados opostos entre si, a modo de partidos
que lutam e acordam a paz.

Esse ponto radica precisamente uma das oposições mais importantes entre o
Estado antigo e a evolução do Estado na Idade Média. O que na Grécia na
Roma foi originariamente dado, possuído, necessitaram o alcançar esses
povos novos mediante uma luta dura e difícil.

A história da Idade Média inicia com formações políticas rudimentares, que


lentamente vão ascendendo até chegar a ser o que hoje denominamos Estado
no pleno sentido da palavra. Mas nesse processo de formação dos Estados
influencia poderosamente a antiga ideia da unidade do Estado. A imagem, a
centralização e a concentração do poder, determinam em parte,
provavelmente, o nascimento e o desenvolvimento dos grandes impérios da
Idade Média, a maioria dos quais só puderam viver breve tempo para
desaparecer por completo ou para se dividir. Somente de um modo
excepcional tiveram influência as ideias orientais na formação dos Estados
cristãos, principalmente na forma dada ao reino normando estabelecido na
Sicília pelo imperador Frederico II, cujo Estado tem o caráter de uma mescla
entre Estado sarraceno e o da última época romana. Nesse sentido, tratava- se
de uma reunião de hordas sem vontade, sujeitas a impostos, submetidas em
sua vida privada a uma fiscalização sumamente rigorosa e conduzidas por uma
burocracia despótica. Todavia esse ensaio para edificar um Estado unitário
com um imperium vigoroso, irresistível, desaparece imediatamente sem deixar
pegadas.

O caráter imperfeito dos Estados do mundo germânico no começo de sua vida


política se mostra ante tudo que se formou neles com muitas dificuldades um
elemento importante do Estado perfeito: no início o Estado germano é uma
associação de povos a que falta a relação constante com um território fixo; o
enlace permanente do território com o povo só muito lentamente levou a cabo
em sua história. O modo como se fez essa ligação determinou a sorte do
Estado moderno. Tanto que o antigo teve como ponto central, até seu fim, a
polis ,e no império mundial dos romanos, o território só foi considerado como
algo dependente da cidade, ao Estado germano faltou, por completo, um ponto
central, a dizer, faltou todo centro em geral; é desde seu começo um Estado
territorial com um centro pessoal, mas sim um centro real. A residência do
príncipe era algo completamente contingente e independente da organização
do Estado. Por conseguinte, falta, desde o começo, uma centralização. A
dificuldade de organização para um povo que está estendido em um vasto
território e carece de todo centro é ainda maior em uma época em que as
comunicações eram rudimentares e predominava uma economia agrícola.
Consequentemente, o ensaio dos carolíngios ao constituir os condados não
teve consequências duradouras. Precisamente, as grandes dificuldades que se
opunham à formação da unidade da vida dos povos é o que desperta a
tendência a fortalecer a todo custo o poder central, nascendo dessa maneira
das tribos juntamente com a conversão das mesmas em sedentárias, uma
realeza que, logo no começo, só representava uma função subordinada à
assembleia, serviu mais tarde como catalisador de todos os reinos da Idade
Média. Sem realeza, sem reunião das forças frágeis dos Estados de então em
uma só mão, haviam desmembrado os Estados germanos em ajuntamentos
políticos impotentes. O mundo germano é, pois, monárquico, e portanto isso
determinou a evolução de seu Estado até os dias atuais.

A realeza germânica se desenvolveu mais tarde de modo que vem a reunir


em si esses dois elementos essenciais: o poder soberano sobre as pessoas e a
propriedade igualmente suprema sobre todos os bens territoriais. Ambos
direitos, ao nascer, não tinham um caráter ilimitado: junto ao tribunal real existia
um tribunal popular e a propriedade privada intangível para o poder dos reis. O
reino germano nasce, pois, como um poder limitado; por conseguinte, desde
seu começo leva em si um dualismo: o direito do rei e o direito do povo,
dualismo que jamais chegou a superar a Idade Média. Esse Estado era
dualista, tanto quanto o Estado antigo foi, e permaneceu sempre,
essencialmente, monista.

Esse dualismo se mostra, primeiramente, no que o direito do rei e o do povo é


considerado, dada a concepção daquela época, como igualmente originários.
Para o pensamento político monista dos romanos era muito natural derivar o
poder do princeps de uma concessão do populus; contudo essa concepção,
como qualquer outra de igual natureza, contradiz as ideias primitivas jurídicas
dos romanos, para quem o direito do rei é tão independente e substantivo,
como o direito privado do indivíduo. A teoria românico-canônica da Idade Média
é a que, pela primeira vez, valendo-se de ideias completamente estranhas as
primitivas germânicas, considerou ao povo como quem outorgava à pessoa do
rei sua representação e portanto considerava o direito real como derivado do
direito popular.

Esse dualismo, fundado já na situação primitiva dos Estados germânicos,


acentua- se ainda mais com os progressos do feudalismo. O Estado germânico
jamais foi depositário de todo o poder público; é verdade que a justiça popular
chega a ser limitada pelo poder do Estado, cada vez mais estendido, mas não
a ser aniquilada. Os tribunais dos senhores donos da terra descansavam em
seu direito próprio, e do mesmo modo que a justiça eclesiástica, mesmo
quando reconhecida e limitada pelo Estado, não podia ser criada por esse.
Mediante a feudalização das funções do rei e a posterior formação das
imunidades, nascem dentro do Estado novos poderes públicos que cada vez
sobrevivem mais independentes. Onde quer que domine a Constituição
municipal romana, acentuasse a substantividade política das cidades, as quais
chegam em ocasiões, como na Itália, a alcançar uma absoluta independência.
Posteriormente, e dotadas de privilégios reais, fundam-se na Alemanha e
França cidades que chegam a conseguir, ao menos parte delas, o caráter de
corporações soberanas. Por isso, a divisão dual da natureza do Estado
significa, a sua vez, uma destruição do poder público, e toda a história dos
Estados da Idade Média é ao mesmo tempo uma história do ensaio de chegar
a vencer esse desmembramento ou, ao menos, para mitigar suas
consequências. A forma em que esse ensaio é levado a cabo é a de estados
ou braços do Estado. Tendo em conta as antigas instituições germânicas,
segundo as quais os assuntos importantes, e que tocam a todo o povo, não
devem resolver- se sem contar com o acordo do povo mesmo, reúne o Estado,
em uma unidade, os distintos poderes políticos que lhe estavam submetidos e
que apareciam como opostos ao rei ou ao príncipe. A assembleia dos estados
ou braços é a expressão típica da forma dualista do Estado germânico. Ali,
onde a força da continuidade histórica, havia deixado viva a ideia romana,
como acontece na Itália e no império bizantino, jamais chegou a existir essa
instituição de estados ou braços.

São muito variadas as razões históricas pelas quais em cada Estado particular
chegaram a reunir o poder feudal e o municipal para chegar a constituir
assembleias gerais e particulares. Algumas vezes houve questões de política
exterior, como sucedeu na luta de Felipe, o Belo, com a Igreja; outras vezes o
originou a necessidade de preparar uma expedição guerreira; enfim, disputas
pelo trono, o querer permanecer em paz, os pressupostos de gastos dos
príncipes, a confirmação e ampliação das liberdades e direitos dos vassalos e
das comunidades frente aos príncipes, foram, frequentemente, os motivos
originários da organização dos Estados em forma corporativa. Os braços se
opõem em geral aos reis e senhores como corporações independentes. Existe
uma teoria que descansa em uma tradição muito antiga, mas muito exterior a
vida real, segundo a qual, esses braços e o príncipe são membros de um
mesmo Estado, todavia essa doutrina não se encaixa nas convicções políticas
daqueles tempos; a que melhor se adequa às ideias daquela época é que rex e
regnum são como dois sujeitos políticos claramente separados entre si,
nenhum dos quais tem superioridade sobre o outro. Aos nossos olhos, quando
essa doutrina chega a sua mais extrema consequência, o Estado aparece
como um duplo Estado em que o príncipe e as Cortes tem cada um seus
funcionários particulares, tribunais, caixas e até exército e embaixadores.
Inumeráveis vezes os partidários da soberania dos braços apoiaram-se na
autoridade de Aristóteles essa afirmação: rex singulis major, universis minor;
mas na linguagem da época somente queria dizer que não existia ideia que
expressasse um laço comum compreensivo tanto do rex como do regnum.
Assim a oposição como a reunião de imperador e reino na Alemanha provou
que não é possível pensar em ambos como em uma unidade.

O Estado da Idade Média se encontrava limitado pelos fundamentos mesmos


de sua evolução política, e ademais por outra razão desconhecida do Estado
antigo. Desde a queda do Império romano do Ocidente percebe-se a unidade
da Igreja como em oposição à variedade dos novos Estados em formação. A
relação entre Estado e Igreja no curso dos tempos, qualquer que tenha sido
sua forma, sempre teve o caráter de uma exigência formulada pela Igreja para
que o Estado a obedeça. Sempre se acreditou dotada de poder bastante para
influenciar na Igreja, em todos os momentos de sua vida, pediu a subordinação
do Estado a sua autoridade. Sim, pois, a Igreja afirmou sua superioridade sobre
o Estado, como passou em suas lutas contra o império nos séculos XI a XIII, ou
sim contra sua vontade foi constrangida a se por ao serviço do Estado, como
aconteceu na França no século XIV, no final, sempre e em toda circunstância,
ela representava a existência de um amplo domínio da vida humana em
comum que escapava à soberania e a influência do Estado.

Os ensaios que posteriormente seguiram fazendo-se para superar o dualismo


do Estado e Igreja não chegaram a suprimir a distinção clara entre ambos os
poderes, e por conseguinte, a apagar a concepção dominante de que o Estado
tem seus limites ali onde começa a doutrina e a disciplina da Igreja. Qualquer
que possam ser as relações do Estado com os interesses religiosos dos povos,
sempre encontra-se o Estado fechado em limites intransponíveis, incluso
quando se trata de uma religião obrigatória; porque é verdade que ele pode
impor coercitivamente uma religião, contudo não pode modificar a sua vontade
a mesma. Quanto mais independente seja a organização eclesiástica em
relação ao Estado, e o é muito nas Igrejas ocidentais, tanto maior e mais
manifesta será a função que o Estado concede, obrigado pela história, a um
poder independente e oposto a ele.

Essa limitação e divisão do Estado da Idade Média se acentua porque, na


maioria dos casos, a maior parte do povo permanece estranho à vida do
Estado. Mas não se pode dizer isso só dos territórios alemães, nos quais ainda
não há chegado a adquirir vida a ideia do Estado e só existem restos
arruinados da subordinação do indivíduo ao império, mas sim incluso ali, onde
os braços se sentem nação política, a qual implica precisamente a exclusão da
maior parte dos governados da vida públicas. Também conduzem a isso as
inumeráveis gradações nas relações dos que carecem de liberdade, cujas
relações são a causa de que, com raras exceções, os que participam
ativamente na vida do Estado constituam um círculo muito mais limitado que no
Estado antigo, apesar da existência nesse último de escravos e clientes.

Os primeiros ensaios levados a cabo, tenazmente, com o propósito de


alcançar a unidade do Estado procedem da última época medieval e se devem
às cidades organizadas na forma de estados ou braços. Novamente renasce,
ainda que de modo muito distinto da primitiva, a ideia da polis. Na Itália, como
dizemos, não chegou a fixar raízes jamais o dualismo medieval; as cidades
republicanas conservaram da Idade Média um caráter monista no meio de um
mundo de Estados construídos de forma dualista. A tirania que vive nas
cidades italianas dos séculos XIV e XV oferece a imagem de uma comunidade
unitária governada por uma vontade poderosa e desprovida de toda a atenção.
Com o Renascimento, a Itália vê nascer em seu solo, já preparado pela
história, a moderna concepção de Estado. Esse, tal como concebe Maquiavel,
conserva, sem dúvida alguma, muitas características do Estado antigo, mas é
na realidade o Estado moderno, que quer considerar a si mesmo como o poder
supremo que gravita sobre todos os membros.

A Igreja ofereceu aos Estados da Idade Média o exemplo vivo e permanente


de uma associação unitária que não admite dentro de si divisão nem oposição
alguma, mostrando com isso, de um modo indubitável, o valor que tem uma
organização autoritária e monista. É verdade que a Igreja também teve uma
época em que a oposição do papa e o concílio parecia repetir a oposição entre
rei e reino; mas desde o começo não pode haver dúvida, dada a tradição que
dominava a Igreja, de qual desses órgãos havia de corresponder a vitória.
Uma organização dualista da Igreja não podia conciliar- se com a ideia dessa.

5. O Estado Moderno
O Estado moderno nasceu como unidade de associação organizada conforme
uma constituição, graças a ter dominado o duplo dualismo que forma rei e povo
e o poder espiritual e temporal. Em cada Estado particular, como não poderia
ser menos, ocorreu este fenômeno de uma maneira peculiar; embora sob a
influência, em parte, de relações políticas universais. A exposição detalhada
desta questão superaria os limites que há de ter esta obra; embora deva ser
tomado como suposição do conhecimento do destino que se encaixou nos
Estados modernos.

Por mais distintos que possam ser os motivos e as medidas que se valeu
cada Estado particular para dominar esse duplo dualismo na luta por uma nova
forma das relações políticas, se tem conseguido um primeiro resultado de
suma importância, e é: a instauração da unidade do Estado dominando a
contenção de suas partes.

A polêmica entre o Estado e a igreja é decidida em benefício do Estado, por


obra da Reforma, não só nos países protestantes. Os interesses da igreja
católica diminuída e a possibilidade de recuperar alguma vez os membros que
tinham se separado dela, pensamento que nunca foi abandonado pela igreja,
são objetivos que de tal forma dependem de que as potências católicas deem o
seu apoio que, não obstante a oposição e o conflito entre Estado e igreja nos
países católicos, nunca retorna a alcançar a força que desfrutou na Idade
Média.

O fim mais importante, por conseguinte, do primeiro século da história


moderna, têm consistido em superar o dualismo resultante da distinção entre
príncipe e estados do reino. Assim que a totalidade das modificações geradas
nas relações econômicas e militares permite e exige uma concentração do
poder do príncipe, o esforço principal teria de consistir em fazer recair sobre
aquele o centro de gravidade do Estado. Por isso a história interna dos Estados
modernos tem como conteúdo as lutas sustentadas para fixar o poder do
príncipe contra os dos estados ou braços, luta que torna realidade toda uma
série de possibilidades. O Corpus e os braços se convertem em um órgão ativo
do Estado unificado, por exemplo, na Inglaterra e no reino alemão, na Polônia,
e às vezes na Suécia; Esses braços ou estados mediam a realeza e
apresentavam e introduziam, por conseguinte, uma autoridade aristocrática
com uma aparência de monarquia em cima; ou então a realeza conseguiu
dobrar os Estados, convertidos em meras sombras, ou aniquilados por inteiro,
como acontece na França, na Dinamarca, na Espanha, e depois da guerra dos
trinta anos, na maior parte dos territórios alemães; ou se reconhece,
finalmente, pelos estados a autoridade suprema da coroa, como aconteceu na
Hungria a partir de 1687.

A solução que tem tido o maior significado tem sido a absolutista, porque a
monarquia absolutista é a primeira que aconteceu no Ocidente, depois da
época romana, a ideia da unidade do Estado. Foi formada uma unidade interna
de territórios que estavam originalmente separados uns dos outros; foi criado
um exército, não mais sujeito as contingências da fidelidade do vassalo; foi
instituído um serviço de funcionários do estado; foi colocada sob sua proteção
a administração da justiça em todos os territórios que abarcam o Estado, ou
pelo menos, foi submetida ao seu poder a administração da justiça feudal, e
por ultimo, a administração estabelecida pelas representações da nação,
converteu estas, coordenado com o Estado, como eram antes, subordinadas a
ele. Mediante a queda dos poderes feudais foi levado a cabo a monarquia
absoluta, sem dar-se conta, o grande processo de nivelamento, através do
qual, uma sociedade sumariamente estruturada e dividida, passou a ser uma
sociedade em que fundamentalmente todos os cidadãos, em princípio, gozam
de igual capacidade jurídica. Na Espanha e na França, assim como em
Brandeburgo -Prussia- e na monarquia dos Habsburgos, a ideia de Estado
único e indivisível, foi realizada pelos monarcas absolutos. Mesmo na própria
Rússia, em que tantas questões aparecem tão atrasadas em relação ao
Ocidente, leva-se a cabo a unidade de seu Estado graças ao absolutismo dos
Romanov. Onde não houve poder absoluto que tende a concentração,
tampouco foi alcançado a unidade do Estado, mas que este foi dividido como
na Alemanha e Polônia, em vez da associação Estado, nasceu só uma
confederação, como ocorreu na Suíça e nos Países Baixos.

A formação dos Estados modernos recebe sua forma última e acabada


mediante as transformações que se levaram a cabo dentro dos mesmos a
consequência dos movimentos revolucionários, pela separação e formação de
novos Estados com uma pluralidade de povos que antes formavam uma
unidade, e o inverso, povos separados entre os que existiam afinidade e que
almejam construir uma unidade política de estado. A revolução inglesa do
século XVII, a francesa e a americana do século XVIII, a queda do antigo reino
alemão no começo do século XIX, o movimento do ano 1848, a formação da
unidade italiana e alemã para não mencionar, mais aqueles outros
fundamentos que transformaram as bases internas dos Estados, todos eles
têm tido como resultado, além de outros mil, o de fazer mais clara e inequívoca
a unidade do Estado em todas as instituições e fazer igualmente mais patente
seu caráter corporativo. Esse último só tem sido possível por ter alcançado
aquela unidade. Graças a ela, pode adotar o estado a forma de uma
comunidade organizada, cujas funções levam-se a cabo mediante uma
variedade de órgãos dispostos conforme a constituição, e é possível, da
mesma forma, estabelecer uma limitação jurídica rigorosa entre a comunidade
e seus membros. A unidade, sua organização conforme a constituição e a
autolimitação do Estado frente ao indivíduo, são as características essenciais
do que denominamos Estado moderno, e que o separa de todas as formas que
o Estado tinha se revestido no passado.

A ideia de unidade, por conseguinte, é a conclusão de uma grande evolução


histórica. O Estado moderno tem como ponto final o que para o antigo era o
ponto de partida. Como o segundo, também atribuído a ele, e ainda em maior
medida, o direito e poder para dominar de um modo efetivo todos os aspectos
da vida da comunidade. É verdade que põe limitações de grande importância a
suas ações; mas apenas o que ele próprio colocou em vista do conhecimento
que tem de seu problema. Pelo contrário, não reconhece a nenhum de seus
membros um direito extraistêmico que possa oferecer uma limitação absoluta;
se existisse, equivaleria a um reaparecimento daquele dualismo que foi
derrotado após uma luta de séculos.

As teorias políticas da época moderna contém em uma medida maior ou


menor a tendência de conceber o Estado como uma unidade. Em outro lugar
terá de expor o significado que o conceito de soberania tem tido no processo
desta ideia; aqui só teremos que decidir que o primeiro sistema completo de
direito natural, nomeada, a doutrina absolutista de Hobbes, considera o Estado
como uma personalidade unitária que não podia ser limitada por nenhuma
outra vontade. Embora o Direito natural derivasse do Estado dos indivíduos,
concede ao Estado, uma vez criado, um poder superior ao de todos os demais.
Neste ponto concordam todos os partidários do direito natural, e reconhecem,
como Locke, limites naturais ao poder do Estado, e encontram que este limite,
como acontece com Rousseau, só dependem da vontade comum e soberana.
Também o dualismo de Estado e igreja quer ser superado por esta doutrina
enquanto concede ao Estado o poder supremo, inclusive quando se trata dos
assuntos eclesiásticos. A exigência do direito natural pra que se institua uma
igreja do Estado- que é a doutrina ocultada na teoria da religião civil de
Rousseau- é a consequência última da tendência de construir a unidade do
Estado. A teoria jurídica moderna deste tem aperfeiçoado a seguinte ideia:
atribuir ao Estado o direito formal de determinar segundo o seu próprio critério
os limites de sua atuação. De modo que, em principio, nada quanto se refira à
vida humana em comum pode ser estranho ao seu poder regulador.

O Estado na Idade Moderna, Estado único, Estado que reúne em si todos os


poderes públicos e todos os direitos, não é nada além do resultado de uma
evolução lenta e de um processo continuo que tem tentado superar as divisões
profundas. Mas seria um grande erro concluir aqui que o Estado moderno
temse identificado completamente com o Estado antigo e que não existe já
entre ambos oposição alguma de princípios. Pelo contrário, toda a evolução
histórica do Estado moderno carrega consigo uma característica que o
diferencia essencialmente de todas as formas anteriores de Estado. É verdade
que o dualismo desapareceu, mas deixou pegadas imperecíveis nos Estados
atuais que só podem fazer-nos compreender o conhecimento da história
desses estados.

Mostra-se isso, antes de tudo, na determinação da situação que corresponde


ao indivíduo perante o Estado. Aquele está hoje submetido a restrições muito
mais amplas que a que estava submetido na época de esplendor do Estado
antigo. Na Antiguidade faltou a consciência clara de uma exigência
jurídicopositiva para que se reconhecesse o individuo frente o Estado uma
esfera de liberdade. Na época moderna, pelo contrário, mesmo quando reina
um absolutismo sem limites, jamais deixou de existir a convicção de que o
individuo era um ser de direitos frente o Estado e que, por tanto, tinha de ser
reconhecido moral e juridicamente por este. Tal convicção é fruto da dupla
oposição que o estado moderno tinha de superar e que jamais desapareceu
por completo da consciência dos homens. Encontramos ainda hoje a oposição
entre rei e povo na doutrina que afirma que o poder do Estado tem limites a
respeito do povo, não obstante a soberania jurídica daquele. As liberdades e
privilégios do indivíduo, das corporações e dos estados ou braços na Idade
Média estão enraizados historicamente de um modo invisível com as modernas
liberdades que a constituição ampara. Igualmente, a luta secular entre o estado
e a igreja trouxe como resultado a convicção geral, e dominante hoje em todos
os Estados cultos, de que o poder do Estado, quando se trata das crenças
religiosas e de seus membros, encontra seu limite irrefutável nestas mesmas
crenças. A teoria jurídica de um Estado sem restrição alguma serviu como uma
arma que energicamente se empunhou para conter as pretensões da igreja, as
quais consistiam em reclamar um campo de atividades independentes, exterior
e oposto àquele; mas através desta luta foi necessário convencer-se ou
declarar que os limites reais do imperium residem na intimidade religiosa dos
indivíduos. Essa convicção gerada pelas oposições que criaram a Reforma
desempenhou um grande papel na determinação das modernas relações entre
o Estado e o indivíduo.

De não ter existido este duplo dualismo do Estado na Idade Média,


dificilmente houve legado a reconhecer de uma maneira expressa o indivíduo
com um poder social que tem direitos por si mesmo, sem correr o risco de que
o Estado o tivesse absorvido por completo. Este reconhecimento da função
jurídica do indivíduo não existiu em nenhuma outra época nem em nenhum
outro momento na vida e na cultura qualquer que tenha sido a concepção de
Estado. Quando o Estado romano se converteu em Estado plenamente
absolutista e rigorosamente teocrático, não se levantou por parte alguma a
mais leve contradição, porque isto havia sido na sua vez, impossível dados dos
fundamentos históricos de seu passado. A esfera inteiramente livre do Estado
que desfrutava o homem antigo tinha precisamente um caráter precário; mas
dada a sua própria concepção de mundo e de Estado, não se encontra em
condições de defendê-lo e transforma-la em um direito próprio. Aqueles
Estados, posteriormente formados, que desconheceu totalmente o dualismo do
príncipe e povo e só em um grau limitado conheceram a oposição de Estado e
Igreja, como ocorreu no antigo império bizantino e no atual Estado Russo, não
reconheceu de um modo expresso os limites entre Estado e indivíduo. O
Estado antigo só conhecia a forma democrática como a única em que se podia
realizar a ideia de liberdade, e o acreditava como justiça, porque a formação
monista do Estado à participação de todos na soberania é a única maneira
possível de alcançar a liberdade; quem domina quem exerce o poder, não pode
ser ao mesmo tempo submetido a um déspota. Nestes Estados, a monarquia,
pelo contrário, havia de conduzi-los, dada a falta de um contrapeso moral, ao
submetimento ilimitado dos indivíduos a vontade do soberano, por mais que
esta ideia não se tenha realizado jamais plenamente.

Deste ponto de vista, é de maior interesse considerar a construção dos


Estados segundo a escola do Direito Natural. Essa doutrina trata de
compreender a unidade do estado e de juntar-se, por sua vez, com essa ideia
de liberdade individual, pondo limites ao Estado único, limites que nascem de
seu fim e da sua derivação das vontades individuais. No fundo desta doutrina
existe um dualismo que havia sido o pensamento principal da evolução
passada; boa prova disso é que as teorias politicas, inclusive aquelas que
estão formuladas de maneira mais abstrata, tem suas raízes no terreno das
relações históricas dadas. E seu intento de chegar a dominar e ultrapassar o
dualismo consiste essencialmente em considerar o direito do individuo como
anterior ao do Estado e do soberano nascido com ele mesmo. Em outro lugar
teremos de mostrar que este julgamento não contribui com solução alguma.

Mas é sumamente rico em consequências a continuar mostrando a oposição


que existe, neste ponto, entre as doutrinas antiga e moderna do Estado. A
primeira, quando se trata da criação deste, não omite a tomar em consideração
a peculiaridade do indivíduo, mas partem de suas tendências, impulsos e
paixões; mas nunca fala de um direito originário do individuo que tinha de se
manifestar e exercer na criação do Estado. Tampouco os antigos fizeram de
sua teoria de contrato do Estado uma constituição jurídica do mesmo em que
tivera de ser pressuposto e protegido um direito inato dos indivíduos. O
contrato social dos epicuristas tem um caráter mais utilitário; O Estado é
fundado para a utilidade dos indivíduos em sequência do impulso destes para a
utilidade. O mesmo contrato como anteriormente temos visto, se considera
como um puro feito, sem que seja juridicamente qualificado, pois segundo esta
doutrina todo direito o é em virtude de ser prescrito, e, por conseguinte, já
nascido dentro do Estado. Tampouco os romanos utilizam jamais sua doutrina
do jus naturalismo para derivar dela a origem do Estado. Falta por completo a
doutrina antiga, precisamente, o reconhecimento de que corresponde ao
indivíduo um lugar próprio e originário juridicamente perante o Estado. Antes as
antigas teorias, parecem impotentes, porque falta todo motivo para uma
limitação jurídica e porque não existia nele mesmo, tão unitariamente edificado,
nenhuma restrição constitucional possível para um único órgão primário e
imediato sobre o que descansava o Estado.

Na contemporaneidade os efeitos deste dualismo se refletem na formulação


abstrata dos direitos da liberdade, os quais pretendem expressar um modo
legal a ideia de submetimento limitado do indivíduo, como pessoa com direitos
próprios, ao Estado. Ademais, se mostra este dualismo- como depois terá de
explicar-se com mais detalhes- na elaboração das constituições, que devem
conter os fundamentos da organização geral do Estado. O mundo antigo e as
nações civilizadas do Oriente que não tem sofrido a influência europeia não
teve jamais a ideia de uma constituição escrita. Porque esta repousa
precisamente em um pensamento que só pode ter nascido num Estado dualista
e representa a garantia dos direitos que oferece a ambas as partes, ou seja, é
como um contrato de paz alcançado depois de muita luta. Essas suposições
históricas das constituições escritas já não estão vivos na consciência atual,
mas continuam influenciando, ou quando se exige uma constituição, ou quando
se trata de escrever um projeto, aí então se recupera a ideia de que os direitos
e deveres dos governos e o campo de sua ação a respeito de outro elemento
do Estado, o povo, deve ser especificado com clareza. É digno de observação
que o Estado que primeiro e mais fundamentalmente havia de vencer o
dualismo entre rei e reino, Inglaterra, não possui- e nisto é igual aos Estados da
Antiguidade- nenhuma constituição no sentido moderno da palavra, entretanto,
neste Estado tem se conservado viva ainda hoje a lembrança da obra de
pacificação levada a cabo pelo rei e pelo parlamento mediante a admirável
continuidade histórica da evolução que começa com o pacto da Carta Magna,
acordado entre os barões e o rei e atinge a atual constituição do parlamento.

Mas o dualismo influencia singularmente na forma dos Estados


Constitucionais. Foi necessário ver na carência do principio de representação,
por parte dos antigos, a distinção entre o Estado antigo e o moderno. Mas essa
falta é naquele um momento secundário; tem muito mais significado que no
Estado moderno onde existem dois órgãos imediatos e independentes um do
outro, especialmente nas monarquias constitucionais, mas também muito
claramente visível nas grandes democracias representativas. Este dualismo
dos órgãos imediatos é muito difícil de compreender para a teoria jurídica do
Estado moderno e ele traz consigo a possibilidade de conflitos cuja solução
tem que descansar, finalmente, sobre a relação de forças circunstanciais que
possui cada um desses órgãos. No Estado unitário contemporâneo persiste a
antiga oposição de rei e reino sobre a forma de uma ação paralela, conjunta ou
oposta, do chefe do Estado com seu governo e o parlamento.