Você está na página 1de 15

DIREITO CIVIL II

DIREITO DAS
OBRIGAÇÕES

Marcelo Neves
Schneider
Das obrigações de dar
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:

 Explicar as obrigações de dar coisa certa e incerta.


 Analisar os dispositivos normativos acerca das obrigações de dar.
 Explorar as jurisprudências das cortes superiores acerca das obrigações
de dar.

Introdução
O Código Civil brasileiro se inspirou na técnica romana e classifica as
obrigações quanto ao objeto em três espécies: de dar (coisa certa e
incerta), de fazer, de não fazer. Todas as obrigações se constituem a partir
de algum objeto, encaixando-se em alguma dessas modalidades. No
entanto, podem existir obrigações que envolvam dois objetos, como, por
exemplo, o contrato por empreitada (art. 610 do Código Civil), no qual
a obrigação de fazer abrange a obrigação de dar (GONÇALVES, 2010).
Há diferença quanto à espécie das obrigações também em relação ao
processo de execução de sentença, tendo em vista que as obrigações
de dar se baseiam no art. 538 do Código de Processo Civil (CPC) de 2015
e as obrigações de fazer ou não fazer baseiam-se nos arts. 536 e 537 do
CPC de 2015.
Neste capítulo, você vai ler sobre a obrigação de dar em ambas as
modalidades (coisa certa e incerta), determinar suas principais diferenças
e analisar o entendimento das cortes superiores sobre essas modalidades.

Obrigações de dar coisa certa e incerta


A seguir, abordaremos a obrigação de dar em ambas as modalidades (coisa
certa e incerta).
2 Das obrigações de dar

Conceito de obrigação de dar


A obrigação de dar consiste na entrega de alguma coisa, ou seja, na tradição de
entrega do devedor ao credor. Esse tipo de obrigação possui espaço relevante
e ocorre com grande frequência no cotidiano. Conforme Caio Mário da Silva
Pereira (2013, p. 49), as obrigações de dar “Consistem na entrega de uma
coisa, seja a tradição realizada pelo devedor ao credor em fase de execução,
seja a tradição constitutiva de direito, seja a restituição de coisa alheia ao seu
dono”. A obrigação de dar, como vimos, divide-se em dar coisa certa e incerta.

Obrigação de dar coisa certa


A obrigação de dar coisa certa se caracteriza pelo gênero, pela qualidade e
quantidade, sendo um exemplo típico da obrigação positiva. É aquela obrigação
determinada ou também chamada de certum corpus, que é distinta de outras
coisas e de outros indivíduos.
Na obrigação de dar coisa certa, o devedor é obrigado a entregar coisa
individualizada, ou seja, a coisa que deve ser entregue possui características
próprias, podendo ser móvel ou imóvel. O credor não é obrigado a receber
coisa diversa daquela inicialmente pactuada.
Segundo Maria Helena Diniz (2011, p. 130), “Trata-se de espécies do direito
romano, ou seja, uma coisa inconfundível com outra, de modo que o devedor
é obrigado a entregar a própria coisa designada”.
Desse modo, o devedor não pode modificar unilateralmente o objeto da
prestação, conforme previsão do art. 313 do Código Civil. Isso se chama de
princípio cardeal das obligationes dândi ou identidade da coisa devida, não
se desobrigando o devedor com a entrega de coisa diversa (PEREIRA, 2013).

Há possibilidade de modificação da obrigação por meio de dação em pagamento,


mas isso só é possível por meio da anuência do credor, sendo, portanto, vontade das
partes a substituição da obrigação inicialmente pactuada.

No entanto, o credor também não poderá exigir coisa diversa, mesmo que
esta tenha menor valor do que aquela inicialmente firmada.
Das obrigações de dar 3

O art. 233 do Código Civil prescreve que se estendem para a obrigação os


acessórios da coisa, salvo disposição em contrário. Assim, é seguida a regra
geral de que o acessório segue o principal (GONÇALVES, 2010, p. 57). Con-
tudo, a regra não é absoluta, podendo o acessório ser excluído expressamente
ou se as circunstâncias do caso resultarem em exclusão (PEREIRA, 2013).

Seguindo a regra, no contrato de compra e venda imobiliário, Alfredo vendeu sua casa
com amplo pomar para Priscila. Como não havia cláusula no contrato referente aos
acessórios do imóvel, a casa deve ser entregue com todas as frutas do pomar, sem
possibilidade de retirá-las antes da entrega do imóvel.

Tradição

A obrigação de dar coisa certa é cumprida somente com a entrega ou restituição


da coisa, a qual chamamos de tradição. O contrato, por si só, não transfere o
domínio da coisa, porém já gera a obrigação de entrega ou restituição. Porém, a
coisa só deixa de pertencer ao devedor no momento da tradição. Nesse sentido,
Caio Mário da Silva Pereira (2013, p. 50) afirma:

O Código faz referência à tradição, como elemento determinante de normas


disciplinares das obrigações de dar. Estas se executam pela tradição, que, pelo
Direito Brasileiro, dá origem ao direito real (ius in re). Ao contrário de outros
sistemas, o nosso mantém a prevalência romana. Naquele direito era assente
que a propriedade não se transferia pelo non nudis pactis dominia rerum
transferuntur. Também no Direito Brasileiro, a propriedade não se transfere
pelo contrato, exigindo-se a tradição para as coisas móveis e a inscrição do
título no Registro, para as imóveis.

Desse modo, somente o negócio jurídico não é capaz de transferir o direito


real de propriedade, sendo imprescindível a tradição ou o registro. Nesse ponto,
quando se fala em tradição, é de modo geral, pois é a entrega da obrigação de
dar. Entretanto, quando se fala em perfectibilização do negócio jurídico espe-
cífico, estamos nos referindo à conclusão do negócio em si. Assim, a palavra
tradição encerra apenas os negócios constituídos de bens móveis, conforme o
art. 1.226 do Código Civil, enquanto que, para bens imóveis, a palavra usada
para concluir o negócio é transcrição, conforme o art. 1.227 do Código Civil.
4 Das obrigações de dar

A tradição real consiste na entrega material da coisa, enquanto a tradição simbólica


ou ficta ocorre quando não é entregue pessoalmente, ou seja, somente representada
por algo que a simboliza ou presuma.

Perda ou deterioração da coisa


Nesse tipo obrigacional, a teoria mais relevante é a do risco, chamada de possibili-
dade de deterioração ou perda da coisa. Diversos princípios devem ser analisados
nesse caso, especialmente a boa-fé do devedor, sua malícia ou negligência e
ainda o quanto o devedor concorreu para o ato (PEREIRA, 2013).
Em caso de perda total da coisa pactuada antes da tradição, sem culpa do
devedor, a obrigação resta resolvida para ambas as partes, que simplesmente
retornam ao status a quo. Se o vendedor, por ventura, já recebeu o preço da
coisa, deve devolver os valores, não sendo obrigado a pagar valores por perdas
e danos. No entanto, se há culpa, esta acarreta o pagamento de perdas e danos,
tendo direito o credor de receber seu valor em dinheiro, acrescido de perdas
e danos, mediante comprovação (GONÇALVES, 2010).
No caso de deterioração, o credor de coisa certa não possui obrigação
de receber a coisa deteriorada. Contudo, pode resolver a obrigação ou ainda
recebê-la no estado que se encontra, abatendo-se o preço proporcionalmente.

Obrigação de dar coisa incerta


A obrigação de dar coisa incerta se ausenta da menção a caracteres individu-
ais da coisa, restando a ela somente a determinabilidade pelo gênero e pela
quantidade (PEREIRA, 2013). Não há possibilidade de alguém ser devedor de
coisas genéricas, mas a indicação do gênero e da quantidade torna a obrigação
útil e eficaz.

O gênero consiste no agrupamento de bens (coisas) com características comuns,


enquanto a quantidade pode ser medida por números, pesos, medidas ou grandezas.
Das obrigações de dar 5

Portanto, a coisa incerta diz respeito à obrigação que possui objeto in-
determinado, sendo indicados, ao menos, o gênero e a quantidade. Assim,
embora indeterminada, deve ser determinável, faltando somente determinar
a qualidade da coisa.
Se faltar a previsão de gênero ou quantidade, a obrigação não será devida.
Conforme Carlos Roberto Gonçalves (2010), não pode ser objeto de prestação,
por exemplo, a de “entregar sacas de café”, por faltar a quantidade, bem
como a de entregar “dez sacas”, por faltar o gênero. No entanto, constitui
obrigação de dar coisa incerta a de “entregar dez sacas de café”, porque
o objeto é determinado pelo gênero e pela quantidade. Falta determinar
somente a qualidade do café. Enquanto isso não ocorre, a coisa permanece
incerta. Contudo, a indeterminação é provisória, caso contrário, falta objeto
à obrigação, pois o devedor não pode cumprir prestação genérica. Assim, até
o momento da execução, a obrigação do gênero converte-se em obrigação
de coisa certa.
Essa determinação da coisa ocorre pela escolha do devedor, se não for
previsto o contrário no contrato firmado. Lembrando que a individualização
caracteriza o objeto e que o devedor é que, se sujeito à prestação, realiza, entre
as coisas do mesmo gênero, a que será entregue e na quantidade estabelecida
entre as partes.
Posteriormente à escolha, o credor toma conhecimento, e a coisa se torna
certa, passando a vigorar a legislação atinente à obrigação de dar coisa certa.
O ato unilateral de escolha é chamado de concentração. Contudo, somente a
escolha não é suficiente para a concentração da obrigação e sim sua exterio-
rização a partir da entrega, do depósito em pagamento, pela constituição em
mora ou ainda de outro ato jurídico que importe a cientificação do credor.

Na obrigação de dar coisa incerta, a teoria do risco é pouco presente, tendo em vista
que a indeterminação é, de certa forma, incompatível com a deterioração ou perda.
Assim, se alguém se obriga a entregar coisa incerta, não pode simplesmente eximir-se
da obrigação, mesmo que perca na totalidade da coisa, tendo em vista que pode
encontrar em outros lugares, pois a coisa não é infungível.
6 Das obrigações de dar

Dispositivos normativos acerca


das obrigações de dar
Os dispositivos normativos acerca das obrigações de dar estão previstos nos
arts. 233 a 246 do Código Civil. A Seção I se refere às obrigações de dar coisa
certa, enquanto a Seção II se refere às obrigações de dar coisa incerta. A seguir,
realizaremos a análise dos dispositivos para maior compreensão da matéria.

Acessório e principal
Segundo o art. 233 do Código Civil: “Art. 233 A obrigação de dar coisa certa
abrange os acessórios dela embora não mencionados, salvo se o contrário resultar
do título ou das circunstâncias do caso” (BRASIL, 2002, documento on-line).
Esse dispositivo preconiza um princípio geral do Direito, qual seja: que
o acessório sempre segue o destino do principal. Segundo Carlos Roberto
Gonçalves (2010, p. 68), “Principal é o bem que tem existência própria, que
existe por si só. Acessório é aquele cuja existência depende do principal”.
Já o Código Civil, no art. 92, disciplina principal como a coisa que existe
sobre si, abstrata ou concretamente, ou seja, que não depende de outra, en-
quanto acessória é a coisa cuja existência supõe a do principal. No entanto,
não é obstado que as partes convencionem o contrário, ou ainda, pela própria
circunstância do caso, não é possível que o acessório siga o principal.

João comprou o sítio de Pedro, que inclui plantações, cercados, equipamentos, cons-
truções e frutos, salvo se forem excluídos expressa ou tacitamente (LÔBO, 2011). Essa
regra é aplicável somente aos acessórios (frutos, produtos e benfeitorias), mas não
abrange as pertenças, as quais não constituem parte integrante, conforme art. 93 do
Código Civil. Um exemplo de pertença é o mobiliário da casa, que não acompanha
o imóvel, via de regra.

Perda ou deterioração da coisa


O que ocorre se a coisa se perder antes da sua entrega/tradição ao credor?
Das obrigações de dar 7

Art. 234 Se, no caso do artigo antecedente, a coisa se perder, sem culpa do
devedor, antes da tradição, ou pendente a condição suspensiva, fica resolvida
a obrigação para ambas as partes; se a perda resultar de culpa do devedor,
responderá este pelo equivalente e mais perdas e danos (BRASIL, 2002,
documento on-line).

Nesse tipo obrigacional, a teoria mais relevante é a do risco, chamada de


possibilidade de deterioração, ou perda da coisa. Diversos princípios devem
ser analisados nesse caso, especialmente a boa-fé do devedor, sua malícia
ou negligência e ainda o quanto o devedor concorreu para o ato (PEREIRA,
2013). Em caso de perda total da coisa pactuada antes da tradição, sem culpa
do devedor, a obrigação resta resolvida para ambas as partes, que simplesmente
retornam ao status a quo. Se o vendedor, por ventura, já recebeu o preço da
coisa, deve devolver os valores, não sendo obrigado a pagar valores por perdas
e danos: “Art. 239 Se a coisa se perder por culpa do devedor, responderá este
pelo equivalente, mais perdas e danos” (BRASIL, 2002, documento on-line).
No entanto, se há culpa, esta acarreta o pagamento de perdas e danos,
tendo direito o credor de receber seu valor em dinheiro, acrescido de perdas
e danos, mediante comprovação (GONÇALVES, 2010).

Art. 235 Deteriorada a coisa, não sendo o devedor culpado, poderá o credor
resolver a obrigação, ou aceitar a coisa, abatido de seu preço o valor que perdeu.
Art. 236 Sendo culpado o devedor, poderá o credor exigir o equivalente, ou
aceitar a coisa no estado em que se acha, com direito a reclamar, em um ou
em outro caso, indenização das perdas e danos.
[...]
Art. 240 Se a coisa restituível se deteriorar sem culpa do devedor, recebê-la-á
o credor, tal qual se ache, sem direito a indenização; se por culpa do devedor,
observar-se-á o disposto no art. 239 (BRASIL, 2002, documento on-line).

No caso de deterioração, o credor de coisa certa não possui obrigação


de receber a coisa deteriorada. Contudo, pode resolver a obrigação ou ainda
recebê-la no estado em que se encontra, abatendo-se o preço proporcionalmente,
em caso de não obter culpa. Contudo, se tiver culpa, também responderá por
perdas e dano: “Art. 238 Se a obrigação for de restituir coisa certa, e esta,
sem culpa do devedor, se perder antes da tradição, sofrerá o credor a perda,
e a obrigação se resolverá, ressalvados os seus direitos até o dia da perda”
(BRASIL, 2002, documento on-line).
Assim, se deteriorada a coisa antes da restituição, quem perde é o credor,
entretanto, ele mantém os direitos até a perda, ou seja, se o devedor por acaso
houver percebido frutos da coisa a ser restituída, esses frutos são do credor.
8 Das obrigações de dar

Tradição
No art. 237 do Código Civil:

Art. 237 Até a tradição pertence ao devedor a coisa, com os seus melhora-
mentos e acrescidos, pelos quais poderá exigir aumento no preço; se o credor
não anuir, poderá o devedor resolver a obrigação.
Parágrafo único. Os frutos percebidos são do devedor, cabendo ao credor os
pendentes (BRASIL, 2002, documento on-line).

A obrigação de dar coisa certa é cumprida somente com a entrega ou resti-


tuição da coisa, chamada de tradição para bens móveis, ou transcrição para
bens imóveis. O contrato, por si só, não transfere o domínio da coisa, porém
já gera a obrigação de entrega, restituição ou transcrição. Porém, a coisa só
deixa de pertencer ao devedor no momento da tradição. Nesse sentido, afirma
Caio Mário da Silva Pereira (2013, p. 50):

O Código faz referência à tradição, como elemento determinante de normas


disciplinares das obrigações de dar. Estas se executam pela tradição, que, pelo
Direito Brasileiro, dá origem ao direito real (ius in re). Ao contrário de outros
sistemas, o nosso mantém a prevalência romana. Naquele direito era assente
que a propriedade não se transferia pelo non nudis pactis dominia rerum
transferuntur. Também no Direito Brasileiro, a propriedade não se transfere
pelo contrato, exigindo-se a tradição para as coisas móveis e a inscrição do
título no Registro, para as imóveis.

Desse modo, somente o negócio jurídico não é capaz de transferir o direito


real de propriedade, sendo imprescindível a tradição ou o registro.
Pela leitura do caput, pertencem ao devedor os frutos percebidos até a tra-
dição, tendo em vista que ainda é proprietário da coisa. Já os frutos pendentes
passam junto com a coisa.

Melhorias e acréscimos à coisa


Segundo os arts. 241 e 242 do Código Civil:

Art. 241 Se, no caso do art. 238, sobrevier melhoramento ou acréscimo à


coisa, sem despesa ou trabalho do devedor, lucrará o credor, desobrigado
de indenização.
Das obrigações de dar 9

Art. 242 Se para o melhoramento, ou aumento, empregou o devedor trabalho


ou dispêndio, o caso se regulará pelas normas deste Código atinentes às
benfeitorias realizadas pelo possuidor de boa-fé ou de má-fé.
Parágrafo único. Quanto aos frutos percebidos, observar-se-á, do mesmo
modo, o disposto neste Código, acerca do possuidor de boa-fé ou de má-fé
(BRASIL, 2002, documento on-line).

Esses dispositivos decorrem do fato de, no Direito brasileiro, simplesmente


o contrato não ser capaz de transferir a propriedade. Desse modo, até a tradi-
ção, a coisa segue pertencendo ao devedor. Se o objeto da prestação for um
animal, por exemplo, e este der cria, o devedor não é obrigado a entregá-la.

O melhoramento, para Carlos Roberto Gonçalves (2010), é tudo quanto opera mudança
para melhor, em valor ou utilidade, em comodidade, na condição e no estado físico
da coisa. Já acrescido é tudo que se ajunta, que se acrescenta à coisa, aumentando-a.
Por fim, os frutos são as utilidades que a coisa periodicamente produz, nascendo e
renascendo da coisa, sem acarretar na destruição de todo ou em parte.

Assim, no caso de obrigação de restituir coisa certa, sendo dono o credor,


com direito à devolução (como no comodato), se a coisa teve melhoria ou
acréscimo, quem lucrará é o credor. Segue a mesma lógica do art. 1.435, IV,
e do art. 629, ambos do Código Civil.
No entanto, se houve emprego de trabalho ou dispêndio, aplicam-se as
regras concernentes aos efeitos da posse quanto às benfeitorias realizadas,
equiparando-as ao melhoramento ou acréscimo, seguindo a lógica do art.
1.219 do Código Civil.

Das obrigações de dar coisa incerta


Segundo os arts. 243 e 244 do Código Civil:

Art. 243 A coisa incerta será indicada, ao menos, pelo gênero e pela quantidade.
Art. 244 Nas coisas determinadas pelo gênero e pela quantidade, a escolha
pertence ao devedor, se o contrário não resultar do título da obrigação; mas
não poderá dar a coisa pior, nem será obrigado a prestar a melhor (BRASIL,
2002, documento on-line).
10 Das obrigações de dar

Se a obrigação se refere ao devedor pagar um valor em reais, a coisa é incerta, porque


o dinheiro é coisa que se indica apenas pela quantidade e gênero.

Em regra, a escolha da coisa pertence ao devedor, mas as partes podem


ajustar que o credor a faça. Contudo, conforme Paulo Lôbo (2011, p. 119):
“[...] se quem pode escolher não o faz, depois de devidamente citado, perde o
direito, transferindo-se a faculdade ao outro”.
A escolha por ambos os lados deve ser razoável, seguindo características
medidas de gênero e qualidade, assim, não pode nem ser a pior coisa, nem a
melhor. Portanto, em qualquer hipótese, salvo estipulação expressa, a prestação
versará sobre o objeto que é o meio termo entre as coisas do seu gênero: Art.
245 Cientificado da escolha o credor, vigorará o disposto na Seção antecedente
(BRASIL, 2002, documento on-line).
O artigo refere-se ao fato de que, quando o credor for cientificado da escolha
do devedor, são observadas as regras próprias da obrigação de dar coisa certa.
A cientificação do credor, portanto, demonstra o fim da incerteza, começando
a incidir as regras aplicáveis às obrigações de dar coisa certa.
O dispositivo modificou o Código Civil de 1916, tendo em vista que na-
quele havia somente previsão da conversão a partir da escolha do devedor,
independentemente da ciência do credor. Desse modo, não é suficiente que o
devedor entregue a coisa ao credor, devendo comunicar junto com a entrega
a escolha que promoveu: “Art. 246 Antes da escolha, não poderá o devedor
alegar perda ou deterioração da coisa, ainda que por força maior ou caso
fortuito” (BRASIL, 2002, documento on-line).
Na obrigação de dar coisa incerta, a teoria do risco é pouco presente,
tendo em vista que a indeterminação é, de certa forma, incompatível com a
deterioração ou perda. Assim, se alguém se obriga a entregar coisa incerta,
não pode simplesmente eximir-se da obrigação, mesmo que perca na totalidade
da coisa, tendo em vista que pode encontrar em outros lugares, pois a coisa
não é infungível.
Contudo, existem situações em que ainda haverá a impossibilidade de
cumprir a obrigação, conforme exemplo a seguir.
Das obrigações de dar 11

A obrigação de dar coisa incerta é entregar 20 garrafas de vinho tinto, não se referindo
à qualidade, pois é isso que fundamenta ser coisa incerta, contudo, entra em vigor
no Estado a proibição de bebida alcóolica, chamada de lei seca. Assim, mesmo que
a coisa seja fungível, não teria como o devedor cumprir com a obrigação, pois estaria
cometendo um crime ao cumpri-la.

Ressaltamos, contudo, que o ônus da prova de impossibilidade da presta-


ção pertence ao devedor, que deve comunicá-la ao credor. Após a escolha, a
regra segue a mesma das obrigações de dar coisa certa, inclusive quanto às
consequências pela perda da coisa.

Jurisprudência das cortes superiores acerca das


obrigações de dar
Para a pesquisa jurisprudencial, foi adotado o seguinte critério de palavras:
obrigação de dar. Do mesmo modo, o estudo da obrigação de dar frente às
jurisprudências dos tribunais superiores deve ser atual, portanto, o estudo foi
limitado a uma janela temporal a partir de 2013, tanto no Superior Tribunal
de Justiça (STJ) quanto no Supremo Tribunal Federal (STF). O objetivo é
trazer situações correlatas com a matéria de obrigação de dar a fim de buscar
peculiaridades da matéria na jurisprudência.

Superior Tribunal de Justiça


O primeiro caso analisado, por ser um agravo interno em agravo de recurso
especial, não menciona em si o caso tutelado, entretanto, é interessante
discorrer sobre a decisão, já que se tratava de obrigação de dar que tornou
impossível cumprir o todo ou a parte. Se uma obrigação de dar perder a
possibilidade de ser cumprida, conforme os precedentes do STJ, ela pode
ser convertida em obrigação pecuniária. Inclusive quando o requerente não
pede a conversão em caso de impossibilidade de cumprimento, a conversão
é dada de ofício, não configurando julgamento extra petita (deferir o que não
foi pedido) (BRASIL, 2018).
12 Das obrigações de dar

No segundo caso, será demonstrado que as astreintes (multas diárias culmi-


nadas pelo juízo para forçar o cumprimento da obrigação) não têm aplicação
única nas obrigações de fazer e não fazer, mas, também, nas obrigações de
dar, cumprindo o mesmo objetivo. Esse entendimento do STJ modificou com
a vigência da Lei nº. 10.444, de 7 de maio de 2002, que modificou o CPC de
1973, admitindo a aplicação das astreintes também para as obrigações de dar.
Portanto, antes de 2002, o entendimento era de que a multa diária caberia
apenas nas obrigações de fazer e de não fazer (BRASIL, 2014).
O terceiro caso, mais complexo, trata-se de obrigação de dar coisa incerta,
que se refere a dar unidades indeterminadas de empreendimento imobiliário
em pagamento de dívida. A discussão buscava determinar se é o devedor que
realmente escolhe a coisa, quando incerta, na obrigação de dar. Entendeu o
STJ que, conforme o art. 244 do Código Civil, a obrigação de dar regula o
gênero e a quantidade, mas é do devedor a escolha das coisas a serem entregues
(BRASIL, 2014).
O quarto caso ingressa no rol jurisprudencial apresentado para demonstrar
como, às vezes, é limiar a diferença entre a obrigação de dar e de fazer. No caso
em tela, questiona-se se a fabricação de placas automotivas é uma obrigação de
dar, incidindo o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS)
ou é uma obrigação de fazer, incidindo o Imposto sobre Serviços de Qualquer
Natureza (ISSQN). A forma de o STJ resolver o impasse foi bastante singela.
Entendeu o STJ que é obrigação de dar pelos seguintes argumentos:

 não há caráter publicitário em fabricação de placas automotivas;


 a produção é em larga escala;
 a confecção de placas consiste em processo industrial, evidenciando,
assim, o seu caráter de mercadoria, que é uma obrigação de dar, con-
sistente na entrega da coisa;
 em razão da padronização das placas, é inaplicável o entendimento de
serviços gráficos.

Nesse caso, restou decidido que a confecção de placas automotivas é uma


obrigação de dar (BRASIL, 2015).
O quinto caso demonstra uma obrigação de fazer, que, alternativamente,
caso seja impossível realizar a obrigação de fazer, converta-se em obrigação
de dar coisa certa. O caso é reflexo de uma ação civil pública, ingressada
pelo Ministério Público Federal (MPF) contra uma destilaria, por conta de
danos ambientais. Incialmente, a destilaria ficou obrigada a fazer o Projeto
Das obrigações de dar 13

de Recuperação de Área Degradada (PRAD). Caso não seja possível fazer a


recuperação, alternativamente, que seja pago o valor arbitrado pelos órgãos
ambientais a título de indenização. Podemos perceber, então, que é possível
substituir uma obrigação por outra (BRASIL, 2016a).

Supremo Tribunal Federal


O primeiro caso estudado traz o prazo prescricional de 5 anos para as obriga-
ções. Trata-se de ação civil originária que discutia a participação dos Estados
em programas da União. No litígio, o STF demonstrou que as obrigações têm
prazo de 5 anos para prescrição (BRASIL, 2016b).
O segundo caso expressa a matéria de obrigações frente ao Direito Tributá-
rio. Explicando melhor, o agravo regimental interporto no STF detém discussão
sobre locação de bens móveis e os impostos a ela atribuídos. Demonstra o STF
que o ICMS sobre circulação de mercadorias baseia-se em obrigação de dar,
enquanto o ISSQN sobre serviços baseia-se em obrigação de fazer. Assim, a
classificação da obrigação fundamenta as decisões sobre no que se baseiam
os impostos e quais os impostos incidentes. Portanto, a discussão, ao chegar
ao Judiciário, mesmo que tributária, mostra que o ângulo analisado pelos
ministros é o das obrigações.
Outros casos encontrados no STF foram análogos aos do STJ, assim,
evitando tautologia, não há porque mencioná-los.

Acesse o link a seguir para ler sobre a execução das obrigações de dar, fazer e não fazer:

https://goo.gl/4VoxeF

Acesse o link a seguir para ler sobre a obrigação de dar coisa incerta e a teoria do risco:

https://goo.gl/W6Gb9U

Acesse o link a seguir para ler sobre as astreintes (multas diárias) e o seu tratamento
pelo CPC de 2015, meio coercitivo das obrigações:

https://goo.gl/7Eh7Xp
14 Das obrigações de dar

BRASIL. Lei nº. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Código Civil. Diário Oficial [da] República
Federativa do Brasil, Brasília, DF, 11 jan. 2002. Disponível em: <http://www.planalto.gov.
br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm>. Acesso em: 25 jul. 2018.
BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. AgRg no REsp 1455043/PR, Rel. Ministro Herman
Benjamin, 2ª Turma. Julgado em: 1 out. 2015. Disponível em: <https://ww2.stj.jus.br/pro-
cesso/revista/inteiroteor/?num_registro=201401182500&dt_publicacao=02/02/2016>.
Acesso em: 25 jul. 2018.
BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. REsp 1193762/PE, Rel. Ministro Raul Araújo, 4ª
Turma. Julgado em: 22 maio 2014. Disponível em: <https://ww2.stj.jus.br/processo/
revista/inteiroteor/?num_registro=201000829509&dt_publicacao=15/05/2015>.
Acesso em: 25 jul. 2018.
BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. REsp 1381208/PE, Rel. Ministro Herman Benjamin,
2ª Turma. Julgado em: 18 ago. 2016a. Disponível em: <https://ww2.stj.jus.br/pro-
cesso/revista/inteiroteor/?num_registro=201201568196&dt_publicacao=12/09/2016>.
Acesso em: 25 jul. 2018.
BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. REsp 1658781/CE, Rel. Ministro Moura Ribeiro,
3ª Turma. Julgado em: 6 mar. 2018. Disponível em: <https://ww2.stj.jus.br/processo/
revista/inteiroteor/?num_registro=201700510605&dt_publicacao=12/03/2018>.
Acesso em: 25 jul. 2018.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Cível Originária 758 SE, Rel. Ministro Marco
Aurélio, Tribunal Pleno. Julgado em: 19 dez. 2016b. Disponível em: <http://www.stf.
jus.br/portal/processo/verProcessoPeca.asp?id=312293178&tipoApp=.pdf >. Acesso
em: 25 jul. 2018.
GONÇALVES, C. R. Direito Civil brasileiro: teoria geral das obrigações. 7. ed. São Paulo:
Saraiva, 2010. v. 2.
LÔBO, P. Direito Civil: obrigações. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2011.
PEREIRA, C. M. S. Instituições de Direito Civil. 25. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2013.