Você está na página 1de 38

JÓ I A S N O A N T IG OTESTAMENTO

M AUD E S C R IÇ Ã O '
DE SUAFUNÇÃO

O Antigo Testamento usa uma variedade de termos para designar diferentes tipos de ornamentos. Existem
referências a adornos em geral (por exemplo: Prov. 25:12), fivelas, brincos, anéis, ornamentos para o
pescoço e o busto da mulher (Êxo. 35:22), ar-golas (Juizes 8:24), correntinhas para o tornozelo (Isa. 3:20),
pulseiras (Gên. 24:22), colares (Eze. 16:11) e outros. Em muitos casos, é desconhecido o significado dos
termos em hebraico usados para designar ornamentos específicos, e os tradutores são forçados a adivinhar.
A evidência bíblica, as descobertas arqueológicas, a iconografia antiga, obras literárias e inscrições indicam
que o uso de jóias era muito comum por todo o antigo Oriente Próximo e desempenhava um papel
significativo naquelas sociedades.
Neste capítulo vamos catalogar o uso de jóias no Antigo Testamento, indicando por vezes os seus paralelos
com as práticas do antigo Oriente Próximo. Esta é uma área de estudos na qual se podem encontrar
elementos de continuidade e descontinuidade entre Israel e seus vizinhos e entre a religião oficial de Israel
e as práticas populares. Mostraremos que a jóia era um veículo de expressão de práticas e convicções
culturais, sociais, religiosas e mágicas. Em certo sentido, era uma expressão concreta dos interesses, valores,
preocupações e temores do indivíduo, bem como de sua posição na sociedade. Nosso principal interesse,
entretanto, é explorar a atitude do Antigo Testamento para com esse fenômeno.

B. O Uso de Jóias no Antigo Testamento2

Usadas como adorno

O adorno pessoal é o mais evidente propósito das jóias no antigo Oriente Próximo, como fica
evidente em parte pelo simples fato de que, em geral, eram belamente confeccionadas e, portanto,
serviam para realçar a aparência da pessoa que as usava.3 Um dos melhores exemplos dessa função das
jóias no AT (Antigo Testamento) se encontra na veste do Sumo Sacerdote, ornamentada com pedras
preciosas, semipreciosas e ouro. Declara-se especificamente que um dos propósitos básicos desse traje
único e especial era embelezar (tiptieret) esse líder religioso (Êxo. 28:2). O substantivo tiptíeret parece
dar ênfase àquilo que faz a pessoa sentir-se feliz e orgulhosa,4 e pode ser traduzido como "ornamento,
esplendor, beleza". O lado negativo desse quadro está registrado em Isa. 3:16-23, onde lemos que as
mulheres israelitas colocavam suas jóias para se embelezarem, atraindo a atenção para sua orgulhosa
pessoa. A lista começa com o termo tiptieret, indicando que os elementos nela incluídos eram
considerados belos.5
Na alegoria que Ezequiel faz de Jerusalém, a cidade é comparada a uma bela moça enfeitada com
diferentes tipos de jóias (16:11-15). Desta vez o verbo usado, yph ("tornar-se bela"), tende a colocar a
ênfase na atratividade da aparência exterior,6 que nesse caso particular está diretamente associada com as
jóias. Em Eze. 23:40, o povo de Deus é comparado a uma mulher que pintou os olhos e se enfeitou com
ornamentos a fim de melhorar a aparência e aumentar sua atração sensual.7 A mesma idéia se expressa
em Jer. 4:30 e indica claramente que Israel estava procurando se embelezar.8 A descrição é semelhante à
experiência de Jezabel antes de ser morta (II Reis 9:30).
O AT reconhece a beleza do ouro, da prata e das pedras preciosas. No Cântico dos Cânticos, os braços do
amado são descritos como "cilindros de ouro, embutidos de jacintos; o seu ventre, como alvo marfim,
coberto de safiras" (5:14). Ele a descreve dizendo que seus quadris "são como colares trabalhados por
mãos de artista" (7:1; cf. Lam. 4:7). Em ambos os casos, a beleza e o valor de cada um são elogiados
pela comparação das partes do corpo com ouro e pedras preciosas. O custo e a beleza desses objetos
tornou possível que fossem usados como "metáforas de valores espirituais e éticos positivos" (Prov.
25:12; Jó 28:18; Prov. 3:15; 8:11; 31:10).9
Apesar do fato de que uma das funções das jóias era decorativa, esse nem sempre era o seu propósito
exclusivo ou mesmo básico. Junto com o elemento ornamental, encontramos várias outras razões para o
uso de jóias.
2. Usadas como moeda

Antes da invenção da cunhagem de moedas, as jóias foram usadas como meio de troca.10 Parece ter sido
uma prática comum através de todo o antigo Oriente Próximo fazer peças de joalhe-ria com um peso
padrão, as quais poderiam ser usadas em transações comerciais, em troca de outros bens ou como
pagamento por um trabalho feito.11 Essa foi a função das jóias dadas pelo servo de Abraão a Rebeca, junto
ao poço.
De acordo com o relato bíblico, o servo deu a Rebeca um pendente de ouro pesando meio siclo e um
par de pulseiras pesando dez siclos de ouro (Gên. 24:22). Dois elementos da narrativa sugerem que
essas jóias lhe foram dadas por conta dos serviços prestados. Primeiro, ele lhe entregou as jóias somente
depois que ela executou um valioso serviço para ele ç. seus animais. Ela não só providenciou água para o
servo de Abraão e seus homens (v. 22), mas também para seus dez camelos! Inquestionavelmente, foi
uma tarefa e tanto, exigindo dela muito esforço e energia.12 O ouro que lhe foi dado constituiu sua
recompensa por uma tarefa bem realizada.13 Segundo, é importante notar que a narrativa indica o peso das
jóias. Essa informação "se deve ao fato de que esses itens eram moldados de acordo com padrões fixos e
usados como meio de troca".14 A quantia paga pode parecer elevada demais; porém; isso se explica pela
sugestão de que o servo já suspeitava de que essa era a mulher que Deus havia escolhido para Isaque. O
fato de a jóia ser considerada "dinheiro" não impedia a pessoa de usá-la; Rebeca colocou-as em seu cor-
po. Pode bem ter havido casos em que as pessoas saíam para fazer transações comerciais literalmente
ostentando o seu "dinheiro". Teríamos, então, a fusão de duas diferentes funções da jóia, a saber, adorno
e moeda.

3. Evidência de riqueza

As jóias eram usadas para indicar a condição econômica ou financeira de uma pessoa (cf. II Crôn. 32:27; I
Reis 10:2). Abraão era um indivíduo abastado, não só porque tinha servos e muitos animais, como
também porque tinha prata e ouro (Gên. 24:35). Esses metais preciosos eram preservados na forma de
jóias (vs. 10 e 22). O dote da noiva geralmente incluía jóias15 e, no episódio do servo de Abraão, esse foi
claramente o caso. Depois que a família permitiu que Rebeca fosse com ele, o servo lhe deu um presente
como dote: "e tirou jóias \klê\ de ouro e de prata e vestidos e os deu a Rebeca" (v. 53). O termo k li
podia designar utensílios de ouro e prata, mas também é usado para designar jóias.16 Nesse caso
específico, foi um presente para a noiva, para garantir sua futura segurança financeira. Parece que era
costume a noiva usar suas jóias durante a cerimônia de casamento para se embelezar e exibir sua riqueza
Qer. 2:32; Isa. 49:18; 61:10). Outro exemplo dessa prática se encontra em Eze. 16, onde Israel é
representado por uma adolescente com quem o Senhor se casará, para torná-la Sua rainha. Ele lhe dá um
dote que consiste de braceletes, colar, pendente para o nariz, etc. Posteriormente ela O abandona, leva
consigo _ o seu dote, gasta-o com amantes (16:33) e aquilo que porventura tenha sobrado é tirado dela
pelos amantes (16:39), que a deixam na pobreza.
Pouco antes do êxodo do Egito, Deus ordenou aos israelitas: "que todo homem peça ao seu vizinho, e
toda mulher, à sua vizinha objetos de prata e de ouro" (Êxo. 11:2). Esse pedido tem sido interpretado
de várias maneiras,17 mas o uso do verbo nasal ("despojar"), em 12:36, prove a razão teológica básica
para isso. O êxodo do Egito parece ser descrito aqui corno uma derrota militar dos egípcios e seus
deuses (12:12 e 41), sendo que os despojos pertenciam aos vitoriosos, os israelitas (II Crôn. 20:25). A
principal preocupação teológica da narrativa "concentra-se no plano de Deus para que os israelitas
deixassem o Egito como vitoriosos de uma batalha".18 As jóias [k1 li] faziam parte dos despojos, e os
derrotados as entregaram aos israelitas voluntariamente, eoriquecendo-os desta maneira. Isso parece
ser descrito como o cumprimento da promessa de Deus feita a Abraão, de que seus descendentes
sairiam do Egito "com grandes riquezas" (Gên. 15:14). O Senhor tomou providências para que
deixassem o Egito com uma firme base financeira, ao começarem vida nova em sua jornada rumo à
terra prometida. O propósito fundamental das jóias nesta narrativa é proporcionar alguma segurança
financeira para os israelitas. Curiosamente, o povo foi instruído a colocar as jóias em seus filhos e filhas
(Êxo. 3:22). Se isso queria dizer que deviam usá-las, então se pode sugerir que eles deviam exibir os
despojos de guerra, a riqueza adquirida de seus pais.19
4. Símbolo de status social

As jóias funcionavam como marca identificado rã da posição do indivíduo nas camadas sociais e seu
papel dentro desse contexto. Esse é um dos usos mais comuns de jóias no AT. A figura do rei é
provavelmente a mais importante a esse respeito. 20 Saul usava uma coroa (nêzer) e um bracelete Çesã da h;
II Sam. 1:10) como suas insígnias reais. A "coroa" pode ter sido de metal ou seda, pode ter sido adornada
com jóias (Zac. 9:16) e era usada pelos reis israelitas (II Reis 11:12; Sal. 21:3; 89:39 [40]; 132:18).21
Pulseiras e braceletes eram usados particularmente por figuras reais no antigo Oriente Próximo. 22 Nesta
passagem, esses dois adornos desempenhavam o papel primordial de definir a função social de Saul, o rei
de Israel.23
O oráculo contra o rei de Tiro, em Eze. 28:11-19, contém referencia a jóias, as quais podem ser
interpretadas basicamente como significando status real. É difícil interpretar este oráculo porque, em sua
descrição da malignidade do rei, o profeta usa uma linguagem que vai muito além da experiência do rei
literal de Tiro. Ele usa a experiência de um ser celestial e sua queda para ilustrar o que aconteceu com esse
rei terrestre. Esse ser, que Ezequiel projeta na pessoa do rei de Tiro e cujas atividades e atitude ele reflete, é
descrito como coberto com muitas pedras preciosas e usando uma veste bordada com fios de ouro.25
Sendo que a lista de pedras preciosas é muito semelhante à daquelas usadas pelo sumo sacerdote, alguns
têm concluído que a referência a jóias tem o propósito de identificá-lo com uma figura sacerdotal. Mas as
diferenças sugeririam que a imagem do sumo sacerdote não é a principal na mente do profeta.26 Parece
melhor concluir que a descrição de seu traje tem o objetivo básico de descrever seu status real. Ele era um
príncipe. Através de todo o antigo Oriente Próximo, a vestimenta dos reis era bordada com metais
preciosos e carregada de gemas.27 Isso não exclui o uso de jóias como adorno para embelezar esse príncipe
(28:12).
A posição social da rainha também é indicada pelo uso de jóias.28 O seu status real lhe é concedido por
ocasião do casamento, quando "toda formosura é a filha do rei no interior do palácio; a sua vestidura é
recamada de ouro. Em roupagens bordadas conduzem-na perante o Rei; as virgens, suas companheiras que
a seguem, serão trazidas à tua presença" (Sal. 45:9, 13 e 14). Essa é uma colorida descrição de uma
cerimônia matrimonial, durante a qual a princesa assume o seu lugar de honra à direita do rei, "adornada
de ouro finíssimo de Ofir".
E esse costume social que Deus usa em Eze. 16 para descrever o status real designado por Ele a Jerusalém, sua
eleição e seus privilégios. O capítulo é provavelmente uma alegoria ou parábola na qual Jerusalém é
comparada com uma menina rejeitada, abandonada por seus pais por ocasião do nascimento. O Senhor a
encontrou, cuidou dela e, quando ela amadureceu e se tornou adulta, casou-Se com ela. Como presentes de
casamento, Ele lhe deu braceletes, uma corrente para o pescoço, um pendente para o nariz, brincos e uma
coroa (16:10-12). Vestida com lindos trajes e coberta de jóias, ela se tornou a esposa do Senhor, Sua rainha
(16:13). Seu status social se estampava no tipo de vestido e nos adornos que usava. Tudo isso era símbolo do
glorioso status que Deus concedeu a Jerusalém quando a escolheu para ser a Sua cidade.31 A parábola continua
descrevendo como ela usou mal o presente que lhe foi dado pelo Senhor e os resultados dessa rebelião.
As jóias eram usadas pelas pessoas que pertenciam à camada superior da sociedade, particularmente as do
palácio.32 Elas se vestiam e adornavam de acordo com sua identidade social. Este é claramente o caso
em Isa. 3:16-26. O profeta dirige sua mensagem às filhas de Sião, isto é, às mulheres abastadas que
viviam na região da cidade onde se localizava o palácio. 33 Elas eram orgulhosas e egoístas e isso se refletia
em sua vestimenta e conduta. A lista de jóias relacionadas nos versos 18-23 nos apresenta uma boa
descrição do tipo de jóias usadas por aqueles que ocupavam elevada posição social em Jerusalém.34
Falaremos mais acerca do significado das jóias arroladas nesta passagem, mas neste momento devemos
indicar que as peças de roupa mencionadas também indicam a posição social e a riqueza (cf. II Sam.
1:24), uma riqueza que era pelo menos parcialmente o resultado da exploração dos pobres (cf. 3:13-15).
Os "trajes festivos" (ma Iflãsãh) designam uma peça cara de vestuário usada em ocasiões especiais como
símbolo de elevada hierarquia (cf. Zac. 3:4). O termo hebraico matepet, traduzido como "manto", parece
designar uma "capa envolvente", uma peça de roupa exterior. A "capa" era outra roupa exterior feita de
uma só peça, usada pelas mulheres (Rute 3:15).
"Sacos" designa em II Reis 5:1 e 23 uma "bolsa" pertencente a um alto oficial militar. O termo gallãyôn,
traduzido como "roupa de gaze", está longe de ser claro em seu significado, mas parece referir-se a algum
tipo de tecido fino ou transparente.38 É impossível ter certeza de seu real significado. O mesmo é verdade
acerca da palavra saãtn, "roupas de linho". Parece ter sido um artigo muito valioso de vestuário.39 O
"turbante" era uma faixa para a cabeça, feita de uma peça de tecido fino, enrolada em volta da cabeça e
usada pelo sumo sacerdote (Êxo. 29:6; Zac. 3:5) e por reis (Isa. 62:3).40 A última peça de roupa, "véus",
podia designar uma túnica exterior bordada com fios metálicos.41 O texto sugere que esse tipo de roupa
era sinal de status e, portanto, disponível para pessoas de recursos financeiros. Junto com as jóias, eram
símbolos da posição da pessoa na sociedade.
O traje e as jóias do sumo sacerdote também eram uma expressão de sua posição na sociedade. O texto
declara que um de seus propósitos era "para glória" (tkã bôd, Êxo. 28:2), uma expressão que denota o
"peso" ou a importância social do sumo sacerdote em Israel, o prestígio que desfrutava entre o seu povo.42
"Glória" (kã bôd) descreve "o que contribui para a posição de uma pessoa, o que lhe aumenta a posição
e influência"43 e serve na presente passagem para descrever o papel do sumo sacerdote em Israel como o
líder religioso máximo.

5. Símbolo de poder/autoridade

Uma alta posição na sociedade vem geralmente acompanhada de poder e autoridade. As jóias podem
expressar ambas as idéias. Por exemplo: a coroa real é um símbolo de status e poder para governar sobre os
outros (II Reis 11:12; Ester 8:15; Zac. 6:11-13);44 remover a coroa da cabeça de um rei significa ser
humilhado, perder o poder (II Sam. 12:30; Jer. 13:18; Eze. 21:26 [31]). O sinete também era símbolo de
poder e autoridade.45 Os selos eram feitos de diferentes materiais, incluindo pedras semipreciosas e ouro, e
estavam geralmente "além dos recursos do homem comum".46
O significado legal dos selos fazia deles um símbolo natural de poder e autoridade (cf. Gên. 38:18 e 25).
Esse era particularmente o caso de um anel de selar que o rei dava a seu primeiro-ministro. Faraó
delegou poder a José, dando-lhe seu anel e uma corrente de ouro (Gên. 41:42). Assuero entregou seu
anel-sinete a Hamã, concedendo-lhe poder para legislar (Ester 3:10 e 12); mais tarde, retirou dele esse
poder, tomou o anel e o entregou a Mardoqueu, habilitando-o a proteger legalmente seu povo (8:2, 8 e
10). Claramente, o sinete era nesses casos um símbolo de delegação de poder (cf. Isa. 3:21).

6. Função religiosa

Um dos propósitos básicos da jóia era religioso, consistindo na manifestação das convicções religiosas e/ou
função da pessoa que a usava. Vários exemplos do AT ilustram esse uso. O primeiro é a jóia do sumo
sacerdote.48 Já indicamos que ela expressava beleza e status social, mas também comunicava profundas
convicções religiosas. Com efeito, identificava-o como líder religioso, e não militar ou civil. Uma lâmina
de ouro era presa à coroa do sumo sacerdote com uma inscrição gravada: "Santidade ao Senhor" (Êxo.
28:36-38), a qual identificava a natureza do seu trabalho. Relacionava-se com a sua obra como instrumento
no processo da expiação (v. 38). Uma das palavras hebraicas usadas para referir-se à coroa é nezer, que é a
forma substantivada do verbo nzr, "consagrar" (29:6; cf. Zac. 6:11). O substantivo identifica a coroa como
sinal da consagração do sumo sacerdote ao Senhor.49
As duas pedras de ônix sobre as ombreiras da estola sacerdo-tal com os nomes das doze tribos gravadas
sobre elas (28:9-14) e as doze pedras semipreciosas sobre o peitoral do traje do sacerdote (28:17-30)50
também tinham motivação religiosa. Serviam como memorial perante o Senhor (vs. 12 e 29). Em sua
pessoa, o sumo sacerdote levava os israelitas perante o Senhor como seu representante. Poder-se-ia dizer
que as pedras faziam com que ele se lembrasse de sua função, mas ao mesmo tempo eram "uma invocação
a Deus para que Se lembrasse de Seu povo Israel, com quem havia feito um concerto".51
A sobrepeliz sacerdotal tinha em sua orla enfeites de romãs, de três cores, e campainhas de ouro entre
elas (28:31-35). As romas eram frutos da terra de Israel e parecem ter sido "símbolos de beleza e da
fartura das provisões de Jeová"52 (Num. 13:23: Deut. 8:8; Cânt. 4:3 e 13; 6:7 e 11; 7:13; 8:2). Não é clara
a função das campainhas, mas podem ter tido o propósito de assegurar aos que se encontravam fora do
Lugar Santo que o sumo sacerdote não havia morrido durante a execução de seu ministério perante o
Senhor.53
E óbvio que a função principal das jóias usadas pelo sumo sacerdote era religiosa, e direta e
exclusivamente relacionada com seu trabalho. Isso explica a ausência de jóias semelhantes nas vestes de
outros sacerdotes. Essas jóias não foram prescritas pelo Senhor a ninguém mais em Israel. Talvez a única
exceção tenha sido a coroa do rei de Israel, que era um tanto parecida com a sacerdotal. Também
assinalava o fato de que o rei era ungido e consagrado ao Senhor para o seu ofício (II Reis 11:12).54
Mesmo assim, alguns israelitas usaram jóias religiosas. Encontram-se referências a esse tipo de jóia em
Isa. 3:16-21. A terminologia usada para designar as diferentes peças de joalheria tem sido difícil de
entender, e em alguns casos praticamente impossível, mas a arqueologia e o estudo da iconografia do
antigo Oriente Próximo esclarecem um pouco várias delas.55
Vários tipos de jóias se relacionam claramente com idéias religiosas. As "tornozeleiras" ou correntinhas
para os tornozelos se associam a estatuetas da fertilidade nas culturas vizinhas56 e expressam as crenças
religiosas de quem as usa. Agora se sabe que as "badanas" designam pendentes num colar,
representando o deus sol, e que o termo hebraico pode ser traduzido como "disco do sol/da estrela". Os
"crescentes" eram ornamentos em forma de meia-lua (cf. Juí. 8:21 e 26), representando uma deidade.57
Os "pendentes" eram provavelmente pendentes parecidos com contas, feitos de pedras semipreciosas ou
outros materiais, colocados em colares junto com os crescentes.
Esse tipo de jóia se relaciona com a idolatria no AT. Isso explica em parte porque o Senhor as removerá
(sür) do povo. O verbo sür "é usado em outra parte para falar da remoção de ídolos (Gên. 35:2; Jos.
24:14 e 23...). Aqui se traça uma conexão direta entre esse luxo de ornamentos e vestuário e a idolatria."58
Descreve-se o mesmo fenômeno em Oséias 2:13 (15) em ligação com o culto a Baal.39

7. Função mágica/apotropaica

Intimamente relacionado com o uso religioso, e inseparável dele, estava o uso de jóias para proteger o
indivíduo de poderes malignos e perigos.60 Esse uso era bem conhecido no antigo Oriente Próximo, mas
não é explicitamente encontrado no AT. Em Isa. 3:20 se apresenta unia evidência de sua presença. A
expressão "caixinhas de perfume" é uma tradução comum do hebraico bãttê hannephes (lit. "casas da
alma"), agora reconhecida como uma tradução errada. Embora não se tenha certeza do significado exato
da expressão, geralmente é aceita como referência a algum tipo de amuleto.61 A mesma expressão é
encontrada em inscrições judaico-aramaicas para designar um monumento funerário.62 Isso sugere que_
podemos estar tratando aqui de um tipo de amuleto relacionado com o culto aos mortos, o qual poderia
proteger seu usuário do mal ou então ser uma fonte de bênçãos.63 Pode muito bem ter sido um estojo
tubular contendo algum texto escrito.64
Em Isaías, outro termo para jóias que sugere um uso mágico ou apotropaico é "amuletos" (v. 20). O
termo hebraico lehas contém a idéia de "conjurar" e "encantar" (Isa. 3:3). Geralmente se reconhece que
o termo designa um amuleto que talvez protegesse das serpentes ("encantamento de serpentes")65 e que era
colocado num colar ou numa corrente no pulso.66 A presença de jóias religiosas e mágicas no rol de Isaías
3 indica que o orgulho das "filhas de Sião" não se baseava apenas em sua segurança financeira, beleza ou
posição social, mas especialmente na segurança psicológica que as peças de jóias religiosas e mágicas lhes
proporcionavam. Foi esse tipo de orgulho que se tornou o prin cipal alvo do discurso profético. A
presença de jóias religiosas e mágicas também sugere que o profeta não está simplesmente atacando seu
uso como sinal de arrogância e ostentação, 67 mas que está de fato condenando as jóias mencionadas. De
outra forma, ele estaria dizendo que usar jóias pagas religiosas, mágicas e supersticiosas era aceitável,
contanto que não fossem extravagantes e um sinal de orgulho.

8. Usadas como oferta

As jóias eram usadas como oferendas para os deuses.68 Com efeito, em alguns casos uma jóia específica era
feita e dada ao templo, para ser colocada na imagem do deus. Essa prática era estranha ao AT, mas
encontramos a idéia de dar jóias como oferta ao Senhor. Isso era feito especialmente após a realização de
um censo (Num. 31:50; cf. Êxo. 30:11-16) e se relacionava com a idéia de expiação. Essa jóia pertencia
ao tesouro do templo e pode ter sido usada para produzir ou substituir vasos de ouro ou simplesmente
como um tipo de memorial.
C. A Atitude do Antigo Testamento Para com as Jóias

Nossa discussão anterior mostrou que os israelitas usavam jóias pelas mesmas razões e com os mesmos
propósitos de seu uso no antigo Oriente Próximo. O material do Antigo Testamento indica que o uso de
jóias entre os israelitas não refletia necessariamente a atitude da religião israelita bíblica para com as
jóias. E essa sutil distinção que desejamos explorar agora. Embora o Antigo Testamento não rejeite
completamente o uso de jóias, é interessante observar que há um só incidente em que as jóias foram
oficialmente prescritas para alguém, a saber, o sumo sacerdote. Há várias coisas que devemos observar a
respeito disso. Primeira, as jóias que ele usava eram bonitas, mas singelas em sua apresentação. As pedras
semipreciosas eram gravadas com os nomes das tribos e a lâmina de ouro continha uma inscrição. Se-
gunda, as jóias pertenciam às vestes sacerdotais e, portanto, de- viam ser usadas sempre que ele
oficiasse como sumo sacerdote. Ele estava autorizado a usar o tipo de jóias que atestava claramente sua
função distintiva dentro da fé e do culto de Jeová.
Terceira, nenhum item das jóias sacerdotais era colocado diretamente sobre seu corpo, mas sim sobre seu
traje. A remoção da veste seria a remoção das jóias. Esse pode parecer um pormenor insignificante, mas
devemos recordar que o uso de jóias poderia ter exigido algum dano ao corpo, corno por exemplo a per-
furação das orelhas e do nariz, o que teria sido rejeitado pela fé de Jeová.69 Quarta, as jóias aqui foram
prescritas exclusivamente para o sumo sacerdote, e não para os israelitas em geral. O AT não recomenda
nenhuma jóia religiosa para uso dos israelitas a fim de indicar que adoravam a Jeová. Um israelita devia
ser identificado como tal pela colocação de borlas na orla de suas vestes, presas com um cordão azul
(Num. 15:37'-41).70 Com efeito, aquilo que os distinguia acima de qualquer outra coisa como
adoradores de Javé era sua obediente entrega ao Senhor, sua vida santa. Era para esse fato' que as borlas
com seu cordão azul apontavam (l5:39 e 40).
O uso funcional de jóias para indicar status real era comumente aceito no "AT, embora não haja uma
recomendação clara e oficial para tanto. Às vezes, quando os profetas queriam identificar uma pessoa
como rei, rainha ou príncipe, descreviam suas vestes e jóias porque estas revelavam o status que haviam
adquirido. Pode-se incluir aqui também o sinete, cujo propósito não era primordialmente ornamental,
mas funcional. O uso de jóias como moeda e como evidência de riqueza não é condenado, obviamente
por causa de razões funcionais e pragmáticas. Mas, à parte desses casos, o AT parece ter uma atitude
desfavorável para com o significado das jóias. Isso se indica de várias maneiras.
Primeira: há uma tendência no AT de desvalorizar o significado das jóias como símbolo de segurança
financeira. Isso é bastante comum na literatura da sabedoria, na qual a sabedoria e uma boa esposa são
consideradas mais preciosas que jóias (Prov. 3:15; Jó 28:15-19; Prov. 31:10). Se alguém tivesse de
escolher entre a instrução e prata/ouro, a instrução devia prevalecer (Prov. 8:10; 11:22). Os "lábios
instruídos" são considerados "jóia preciosa" (20:15). Isso não é uma condenação aberta das jóias, mas
uma desvalorização delas como símbolo de valor máximo.
Segunda: o AT rejeita o uso religioso e mágico de jóias por parte das pessoas, associando-o diretamente
com a idolatria. Quando Jacó estava retornando para Betel, o Senhor ordenou que ele e os que o
acompanhavam se desfizessem de seus deuses e se consagrassem a Ele (Gên. 35:4). Como resposta,
entregaram a Jacó todos os deuses estrangeiros que tinham em mãos, e as argolas que lhes pendiam das
orelhas. Esses eram obviamente "ornamentos que traziam algum tipo de significado religioso, possi-
velmente com impressões de ícones* sobre eles".71 A implicação é que esse tipo de jóia era incompatível
com o culto a Jeová. Jacó os ocultou sob uma árvore.72
Em Êxo. 33:4-6 encontramos outro incidente no qual Deus ordenou que os israelitas removessem suas
jóias. Isso aconteceu imediatamente após a adoração do bezerro de ouro, quando Deus Se irou contra
eles. Entre outras coisas, Deus ordenou que removessem seus ornamentos. Os eruditos têm tomado a
remoção das jóias como sinal de lamento, o que é compatível com as práticas do antigo Oriente
Próximo, 73 e como "teste de seu arrependimento". 74 Outros argumentam que esse "não era sinal de
lamento, mas de concordância com a ordem de Deus a Moisés (v. 5)."75 Também existe a
possibilidade de que o pedido "tenha sido baseado no fato de que estivessem usando jóias ligadas a
deuses estrangeiros".76 Indubitavelmente, a remoção das jóias está relacionada aqui com várias idéias.
Entre elas, encontramos a idolatria, a reação de Deus ao pecado e um espírito de arrependimento.
O contexto imediato dá ênfase ao espírito de remorso do povo. ao humilhar-se perante o Senhor. Isso é
semelhante ao que encontramos no caso de Jacó. Nesta narrativa, porém, existe algo novo, já que a
passagem termina com um tipo de frase enigmática: "Então, os filhos de Israel tiraram de si os seus
atavios desde o Monte Horebe em diante"11 Isso sugere que a remoção de jóias como sinal de
arrependimento e lamentação ""não foi uma atitude temporária, mas contínua".78 Tornou-se "um
regulamento perpétuo",79 uma manifestação constante da dependência e confiança dos israelitas na graça
perdoadora de Deus.
É realmente difícil saber por quanto tempo os israelitas não usaram jóias. Tem-se sugerido que foi esse o
caso apenas durante a peregrinação no deserto, mas é só uma conjetura.80 Juizes 8:24 parece sugerir que
durante o período dos juizes "não foram usados ornamentos" pelos israelitas.81 Reconhecemos que é difícil
provar uma conexão direta entre o incidente no Monte Horebe e este, no período dos juizes, mas a
forma canônica do texto permite uma possível ligação. Sabemos que os israelitas usaram jóias, mas isso
pode não ter sido tão comum. As descobertas arqueológicas sugerem que as jóias não eram habituais
entre os israelitas, e aquilo que se encontrou é geralmente de qualidade inferior.82 Já se comentou que
"Israel, em muitos aspectos, deve ter parecido uma nação de puritanos no mundo antigo, não só no culto
e na moral, mas até mesmo no vestuário".83 Esse pode ter sido o caso no antigo Isarel; mas no tempo de
Oséias (2:13[15J) .e Isaías (3:16-23) as jóias religiosas e ornamentais eram muito populares entre os
israelitas.
O ataque de Isaías contra as jóias, o qual já mencionamos várias vezes, foi uma condenação das jóias
como símbolo religioso e social e como expressão de orgulho.84 Sem dúvida, essa era uma condição
comum entre aqueles que ocupavam altas posições no palácio. Hans Wildberger perceptivelmente
argumenta que a relação de jóias em Isaías 3 "denuncia a influência que o palácio exercia sobre o estilo
de vida dos cidadãos líderes na capital. Sem :er essa intenção, indica quão intensamente Israel se permitiu
ser influenciado pelo costume estrangeiro."85
Terceira: existe alguma evidência indireta que parece indicar que a fé em Jeová não se predispunha
positivamente ao uso de jóias. É interessante observar que as pedras preciosas e os metais não estão
diretamente relacionados com a criação de Adão e Eva. Esse é um argumento com base no silêncio; mas
alguns desses metais e pedras são mencionados no relato da criação em Gên. 2:11 e 12 e somos
informados de que se localizavam fora do Jardim do Éden, na terra de Havilá. Isso é surpreendente, se
considerarmos que na mitologia do antigo Oriente Próximo o jardim dos deuses era embelezado com
pedras preciosas.86
O que é importante para o nosso propósito é que na criação de Adão e Eva as jóias não desempenharam
papel nenhum, e não se faz referência a elas quando o Senhor providenciou roupas para eles e os vestiu
(Gên. 3:21). Ambos foram criados à imagem de Deus e foi esse fato que lhes permitiu dominar sobre o
resto do mundo criado. Pareceria que aqui está uma desvalorização implícita do uso de jóias como
adorno pessoal e como definição ou representação do status social, poder e autoridade de alguém. Adão e
Eva atuavam como governantes da criação porque traziam em sua própria pessoa e caráter a imagem de
Deus.
Também é importante observar que Jeová nunca é descrito no AT usando jóias. Isso, mais uma vez, é
surpreendente porque no antigo Oriente Próximo os deuses eram recobertos de jóias.87 Uma das razões para
isso poderia ser que, como não há imagem Dele, não é possível embelezá-Lo com jóias. Mas, num nível
mais profundo, precisamos considerar que Ele criou todas as pedras e os metais preciosos, e que estes não
podem contribuir para o Seu próprio embelezamento.
Por que, então, criou Deus as pedras e os metais preciosos? Possivelmente para adornar ou embelezar o
mundo. Em Gên. 2:11 e 12, eles estão localizados num lugar onde não há seres humanos, um lugar
intocado pela mão humana, embelezando a terra de Havilá. Isso pode parecer uma especulação sem
fundamento, não fosse o fato de que em outros lugares no AT os metais e as pedras preciosas
embelezam o lugar onde Deus Se encontra (Êxo. 24:10) e habita (26:26 e 29), e serão usadas para
adornar o lugar onde Seu povo habitará (Isa. 54:11 e 12; cf. Apõe. 21:15-21).
D. Conclusão

Pode-se concluir que o Antigo Testamento tem uma atitude restritiva para com o uso de jóias. Vimos
que seu valor e beleza são reconhecidos. O que torna impossível concluir que a fé oficial de Israel
rejeitava absolutamente o uso de jóias é o fato de que Deus ordenou que o sumo sacerdote se adornasse
com elas a fim de sinalizar sua função religiosa. Além disso, pode-se detectar uma "tolerância" para com
o uso de jóias como símbolo de status social e autoridade. Esse, particularmente, é o caso do rei e da
rainha e com o uso de sinetes.
E interessante observar que, embora o sumo sacerdote estivesse autorizado a usar jóias como símbolo
religioso, não existe autorização permitindo que os israelitas façam o mesmo. Isso era realmente estranho
num mundo no qual as pessoas usavam jóias para expressar suas convicções religiosas e demonstrar sua
lealdade a deuses ou a um deus em particular. Os israelitas deviam expressar suas convicções religiosas e
sua lealdade a Jeová mediante uma vida santa, e não por meio de adornos exteriores. Parece que o AT
rejeita o uso de jóias religiosas por parte dos israelitas. Além disso, o uso de jóias mágicas é claramente
rejeitado, já que no antigo Oriente Próximo ele é inseparável do uso religioso e da idolatria.
A ordem de Deus para que os israelitas retirassem suas jóias permanentemente no Sinai é intrigante. A
ordem foi remover tudo, dando a entender que não deviam ser usadas como adorno, símbolo de
autoridade ou para designar status social ou convicções religiosas. Aqui temos uma indicação das
intenções de Deus para com Seu povo. Ordenou-lhes que as removessem de sua pessoa, mas não que se
livrassem delas. As implicações são de que as jóias conservavam sua função como moeda e riqueza pessoal,
devendo ser colocadas a serviço do Senhor.

As razões da atitude restritiva do AT para com as jóias podem ser encontradas no fato de que se
relacionavam com a idolatria e por vezes com o abuso e a exploração dos pobres. Mas a questão vai mais
fundo. As jóias parecem ser geralmente percebidas como a representação da autoconfiança e do orgulho
humano, ambos intimamente relacionados com a idolatria. A mudança no coração do indivíduo, da
arrogância à submissão a Jeová, era indicada mediante a remoção das jóias, cuja ausência se tornou um
lembrete da graça perdoadora de Deus. Isso, talvez, tenha como base a antropologia bíblica que concebia
o indivíduo como uma unidade integral, em que o exterior e as convicções pessoais íntimas eram
praticamente inseparáveis. Aquilo que um israelita era, se expressava naquilo que fazia, dizia e, em certo
sentido, usava.

JIA S N O
Ó N o v o TESTAMENTO
UD E S C R IÇ Ã OD E S U A F U N Ç Ã O
MA

As passagens do Novo Testamento sobre jóias não são tantas como no Antigo Testamento, mas as poucas
que encontramos podem ser agrupadas de acordo com a função e o propósito das jóias. Essas funções
são basicamente as mesmas que encontramos no Antigo Testamento, com exceção de referências a jóias
religiosas ou protetoras. Algumas das passagens são breves e claras, enquanto outras são mais difíceis de
interpretar. Parte do problema é que a terminologia para jóias no Novo Testamento fica quase limitada a
termos como "ouro", "prata" e "pérolas". Em alguns casos, não temos certeza se esses termos estão sendo
usados para designar peças de joalheria. Há poucas referências a pedras preciosas usadas como adorno
pessoal. Devido a sua importância para o nosso estudo, dois textos-chave merecem uma exegese
pormenorizada de seu conteúdo, a saber: I Ped. 3:1-6 e I Tim. 2:8-10. Antes, porém, devemos explorar
os diferentes propósitos do uso de jóias no Novo Testamento e seu significado.
B. O Uso de Jóias no Novo Testamento

Usadas como adorno

O uso de jóias como adorno era bem conhecido durante o período do Novo Testamento. Pedro e Paulo
referem-se a ele, e mencionam ouro e pérolas usados por mulheres para se embelezarem (I Ped. 3:3; I Tim.
2:9).' Pedro descreve esse adorno como exterior, em contraste com o verdadeiro adorno que é interior e se
expressa num espírito manso e tranqüilo (I Ped. 3:4). Para Paulo, o adorno de um cristão consiste em boas
obras (I Tim. 2:10). (Para uma discussão dessas duas passagens, veja os dois capítulos seguintes.)
Uma referência clara ao uso de jóias como adorno pessoal também se encontra na descrição de Babilônia, a
prostituta apocalíptica. Ela é descrita como uma rainha, "vestida de púrpura e de escarlata, adornada de
ouro, de pedras preciosas e de pérolas" (Ap. 17:4; cf. 18:16). 2 Nesse caso particular, "ouro" designa
"ornamentos de ouro".3 Em alguns aspectos, a descrição dessa mulher é semelhante à de Israel, em Eze. 16.
A nação é retratada como uma rainha, ricamente vestida e adornada, a qual rejeitou o Senhor e se prostituiu
com os reis da Terra. Eles iriam destruí-la e remover-lhe as jóias (16:39 e 40). No Apocalipse, a meretriz
escatológica será odiada pelos reis da Terra, que "a farão devastada e despojada, e lhe comerão as carnes, e a
consumirão no fogo" (17:16).
Dificilmente se pode passar por alto o fato de que outra mulher é mencionada no Apocalipse, mas o seu
adorno é essencialmente diferente daquele usado pela prostituta. Desta vez, a mulher representa o povo
de Deus. Ela tem uma coroa que consiste de doze estrelas (12:1) e está vestida com o sol e não, como
sua contraparte, com linho fino adornado de ouro e pedras preciosas. Deve-se notar também o
impressionante contraste entre o vestido e o adorno da prostituta e as brancas "vestiduras de linho
finíssimo das multidões celestes do Senhor que retorna (19:14) e dos membros da comunidade da
salvação que permaneceram fiéis (3:18; 6:11; 7:9)".4 O branco é a cor da glória celeste e parece ser
símbolo de pureza, obediência, glória e vitória.5
A beleza das jóias é reconhecida no livro do Apocalipse e usada para descrever e simbolizar a tremenda e
inexprimível beleza da Nova Jerusalém (21:11). O muro e os fundamentos da cidade são descritos
como sendo feitos de diferentes pedras preciosas; e suas ruas e edificações, de ouro (21:18-21). A cidade
é descrita como uma rainha que vai casar-se e, com a utilização de imagens núpcias, ela é descrita como
"noiva adornada para o seu esposo" (21:2).6 O uso de ouro, prata e custosas pedras na construção e no
adorno de edifícios parece ter sido uma prática no tempo dos apóstolos (cf. I Cor. 3:12). Esse teria
provavelmente sido o caso em templos e palácios. O adorno da noiva para o enlace era conhecido no
Antigo Testamento e ainda era praticado no tempo do Novo Testamento, entre a realeza e os abastados.7

2. Usadas como moeda

No tempo do Novo Testamento, moedas de ouro e prata eram usadas como dinheiro, tornando quase
desnecessário o uso de jóias como moeda.8 A expressão "prata e ouro" era usada do mesmo modo como
usamos o termo "dinheiro" (Atos 3:6; 20:33).9 Entretanto, em I Ped. 1:18, a frase poderia referir-se a
objetos de ouro e prata, possivelmente na forma de jóias, usados em transações comerciais no contexto do
resgate de escravos. Pedro argumenta que o preço de nossa redenção não foi pago com esses objetos
valiosos, embora perecíveis, mas com o sangue de Cristo (1:19).
Esse mesmo uso pode estar presente nas instruções que Jesus deu aos discípulos antes de enviá-los de
dois em dois para proclamar a chegada do Seu reino: "Não vos provereis de ouro, nem de prata, nem de
cobre nos vossos cintos" (Mat. 10:9). Porém, as passagens paralelas em Marcos e Lucas parecem
significar dinheiro, em vez de objetos preciosos (Mar. 6:8; Luc. 9:3).

3. Evidência de riqueza

Parece que as jóias são usadas em várias passagens como evidência de riqueza. A grande cidade mística de
Babilônia é personificada como uma mulher muito abastada, ricamente adornada com pedras preciosas e
ouro (Ap. 18:16). Tiago escreveu aos ricos da sociedade que oprimiam os pobres, dizendo: "As vossas
riquezas estão corruptas... o vosso ouro e a vossa prata foram gastos de ferrugens" (5:2 e 3).
Também é possível que "as dádivas de ouro" que os magos levaram a Jesus incluíssem ouro na forma de
jóias (Mat. 2:11). De modo muito especial, as pérolas eram símbolo de grande riqueza. A parábola da
Pérola enfatiza esse ponto (Mat. 13:45 e 46). O mercador da parábola é uma pessoa muito abastada e
isso se revela pelo fato de que ele atua no ramo da compra e venda de pérolas. Ele finalmente investe
tudo o que possui numa custosa e preciosíssima pérola. O grande valor dessa pérola em particular
testifica da riqueza dele.
Por fim, Tiago menciona a presença na igreja de um homem bem vestido, "com anéis de ouro nos
dedos", em contraste com o pobre (2:2), sugerindo que as jóias que ele usa o identificam como pessoa
rica.10 Ele prossegue rejeitando e condenando a discriminação entre os crentes, com base na riqueza
material.

4, Símbolo de status social

A mesma passagem de Tiago pode ser um bom exemplo do uso de jóias como símbolo de status social.
O homem bem trajado e usando anéis de ouro pertence à alta camada da sociedade, mas não temos
informação acerca de sua função específica (2:2).n Outro caso se encontra na descrição que João faz de
Jesus no Apocalipse, no momento de Sua segunda vinda. Por ocasião de Seu retorno, Jesus está usando
"uma coroa [stephanos} de ouro" (14:14). O termo grego stephanos geralmente designa uma grinalda de
louros dada aos vencedores dos jogos olímpicos, uma coroa de vitória; mas também pode referir-se a
uma coroa de metal "como sinal de real soberania".12 No texto em consideração, Jesus usa esse tipo de
coroa não só para sinalizar o fato de que é vitorioso sobre o inimigo, mas também de que é uma figura
real. Essa idéia é explicitamente declarada em 19:12, onde Ele é descrito usando muitos diademas,
empregando nesse caso o termo grego diadema, que geralmente designa status real, realeza, e serve para
identificar a Jesus como Rei dos reis (19:16).13
Os vinte e quatro anciãos também têm coroas (stephanos) de ouro sobre a cabeça, sugerindo que são co-
regentes com Cristo (Apõe. 4:4).14 As duas mulheres no Apocalipse parecem ser figuras da realeza, e as
jóias são usadas para comunicar essa idéia. A mulher que representa o povo de Deus usa uma coroa
simbólica de doze estrelas (12:1), enquanto a rainha meretriz usa os trajes e as jóias de uma
personalidade da realeza (17:4).

5. Símbolo de poder l autoridade

O melhor exemplo desse uso particular de jóias encontra-se na história do filho pródigo, em Luc.
15:22. Quando o pai vê seu filho voltando para casa, ordena que seja vestido e que se lhe coloque um
anel (daktulios) no dedo. Esse era um anel do tipo sinete,15 "não simplesmente um adorno, mas símbolo
de autoridade",16 indicando assim que o filho estava totalmente reintegrado à família, tendo todos os
direitos de filho. O significado do anel é sublinhado pelo fato de que o pai lhe dera sua parte da herança
da família antes de ele ter saído de casa. No momento de seu retorno, o filho pródigo não tinha o direito
legal de herdar nada mais ou de administrar a riqueza de seu pai. Ao colocar o anel em sua mão, o pai
graciosamente dava ao filho uma "conta corrente" e lhe restaurava o poder e a autoridade que ele havia
desfrutado antes de abandonar a família. Tudo o que o pai tinha foi colocado ao seu serviço.

6. Usadas como oferta

Não há uso explícito de jóias como oferta no Novo Testamento. Uma possível referência indireta ou um
caso semelhante pode-se encontrar no incidente dos Magos. Se os presentes de ouro que deram a Jesus
incluíam ouro na forma de jóias, isso seria sua oferta a Jesus como rei (Mat. 2:11). As dádivas eram
aquelas que correspondiam a um rei e eram o reconhecimento, por parte dos Magos, de que o reinado
messiânico de Jesus era universal.17 José e Maria tinham agora recursos financeiros para a jornada e sua
permanência no Egito.
C. A Atitude do Novo Testamento Para com as Jóias

Assim como no Antigo Testamento, as jóias no Novo Testamento têm uma utilização restrita ou
limitada. A referência a elas como indicador de riqueza material é feita num contexto segundo o qual são
acumuladas à custa dos pobres e, com base nisso, seu valor é rejeitado. A implicação seria que, enquanto
a riqueza for decentemente obtida e usada, não há nada de errado com ela. O anel do sinete não parece
ser rejeitado, possivelmente porque era símbolo de autoridade, e necessário como instrumento legal. As
jóias são usadas para indicar status social no caso de reis e rainhas. Essas descobertas não diferem de forma
alguma daquelas encontradas no Antigo Testamento.
A mais direta rejeição das jóias como adorno é encontrada em I Ped. 3:1-6 e I Tim. 2:9 e 10. Farei alguns
breves comentários sobre cada uma dessas passagens, antecipando as conclusões de nossa análise
exegética mais cuidadosa, encontrada nos dois capítulos seguintes. De acordo com Pedro, há um tipo de
adorno incompatível com a vida cristã. Ele ilustra o que tem em mente, mencionando de forma explícita
o uso de jóias. Esse adorno exterior é contrastado com o verdadeiro adorno cristão que consiste num
espírito manso e tranqüilo, que determina a qualidade da vida cristã. Ao usar esse tipo de adorno, o
cristão se identifica com os valores estéticos de Deus.
Paulo apresenta aos cristãos princípios a serem seguidos quanto ao adorno pessoal. Assim como Pedro, ele
rejeita um ornamento que consista no uso de jóias e dá ênfase ao adorno que significa uma conduta e um
procedimento corretos, e aos princípios que regem o modo como os cristãos devem agir e vestir-se. Em
lugar de jóias, Paulo apela para a prática de boas obras que reflitam o compromisso da pessoa com Deus.
Sugere que a forma como nos enfeitamos declara nossos valores como cristãos.
O contraste implícito presente na descrição do vestuário e adorno das duas mulheres mencionadas em
Apõe. 12:1 e 17:4 é difícil de interpretar. O vestido simples da mulher que representa o povo de Deus
contrasta de modo marcante com os trajes muito enfeitados da prostituta espiritual, a Babilônia mística.
E difícil, se não impossível, determinar em que medida o contraste reflete o modo como os cristãos se
adornavam durante o período da igreja apostólica. Pode muito bem ser que a visão simplesmente não
estivesse interessada nessas distinções ou que pelo menos não ilustrasse a maneira como as mulheres se
vestiam ou deveriam vestir-se na vida real da igreja. Sugerimos uma possível ligação porque Pedro e Paulo
recomendaram a mesma ausência de jóias de adorno para as mulheres cristãs que encontramos no caso
da mulher em Ap. 12:1.
Sem dúvida, o contraste na forma como essas duas mulheres estavam vestidas e adornadas é
significativo e pode ter sido instrutivo para a igreja, ao procurar ela definir e estabelecer sua identidade
na sociedade como o instrumento de Deus. Mas o fato de que ela representa o povo de Deus através dos
séculos poderia ilustrar a simplicidade de vestuário daqueles que fazem parte do povo de Deus. O
contraste, na realidade, está entre os falsos e os verdadeiros adoradores de Deus.

D. Conclusão

O material do Novo Testamento sobre jóias está em harmonia fundamental com o que encontramos
no Antigo Testamento, ao sugerir um uso muito limitado de jóias. No Novo Testamento, encontramos
o caso de jóias como adorno pessoal sendo explicitamente mencionado e rejeitado. Uma jóia como
símbolo de realeza é usada por Cristo, que é descrito usando uma coroa de ouro. Em Seu caso, ela
representa vitória e soberania universal.
Os cristãos abraçam uma vida de dedicação pessoal ao Senhor e se adornam com o conteúdo e os frutos
da fé cristã. Portanto, eles devem estar interessados em adornar-se com modéstia e decência, cuidando
de seu procedimento, que se expressa em conduta e aparência pessoal. Mas essa preocupação deve ser
posta a serviço do Senhor e à transmissão da mensagem cristã.
O cristão vive com esperança, aguardando a restauração de todas as coisas mediante o poder do
Senhor, e o momento em que Cristo, o Rei dos reis, compartilhará Seu poder real com o Seu povo (Ap.
5:10), a quem Ele diz: "Sé fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida" (2:10).
UA A N Á L ISEE X E G É T IC AD E
M I T I M Ó T E O2 : 9 E 10
A. Considerações Contextuais

Paulo está dando instruções relativas a uma conduta e uma prática apropriada de adoração. Primeiro ele
incentiva (parakaleo, "exortar") os crentes a orarem por todas as pessoas, particularmente líderes políticos,
a fim de que a igreja viva "vida tranqüila e mansa, com toda piedade e respeito" (2:2). Isso é algo que o
Senhor espera do Seu povo e se baseia no fato de que Ele deseja salvar a todos, tendo tornado isso possível
através do sacrifício de Cristo Jesus (2:3-6). O próprio Paulo é pregador e mestre dessa mensagem. Em
segundo lugar, o apóstolo dá instruções aos homens com respeito à atitude apropriada durante a oração.
Ele deseja (boulomaf) que orem de maneira santa e sem ira ou animosidade (2:8). O verbo boulomai pode
dar a impressão de que Paulo está dando conselhos gerais, expressando um desejo. Mas ele realmente
significa "querer, persistir em, insistir em, ordenar" e nessa passagem o verbo "tem um elo imperativo".1
A seguir, Paulo se dirige às mulheres da igreja. A questão é se ele está lidando aqui com a atitude delas
durante a oração ou com uma conduta apropriada em geral. O verso 9 começa: "Da mesma sorte
[hosautos], que as mulheres..." Isso tem levado alguns a sugerir que os verbos usados no início do verso 8
devem estar implícitos aqui: "Da mesma sorte, [quero] que as mulheres [orem]..."2 A expressão "da
mesma sorte" sugere que um pensamento do verso anterior está sendo desenvolvido ou aplicado ao
conselho que está sendo dado às mulheres. Se olharmos a combinação de verbos usados no início do
verso 8 e o verbo usado no verso 9, poderemos determinar o que o apóstolo tinha cm mente. No verso 8
encontramos um verbo na primeira pessoa do singular, seguido por um verbo no infinitivo que encerra o
pen samento: "Quero [boulomai]... [varões]., orem [proseuchesthãiY'• O único verbo usado no verso 9 é um
infinitivo requerendo que transfiramos do verso anterior o verbo "quero". A construção gramatical seria
então a mesma do verso precedente: "[quero]... [mulheres]... se ataviem [kosmein]..."3 Isso sugere que o
assunto não é mais a oração, porém o adorno apropriado.
A questão é se o adorno descrito nos versos seguintes é exigido exclusivamente para o culto na igreja4 ou
também o esperado das mulheres cristãs fora da igreja. Não se pode negar que Paulo se dirige à igreja em
adoração, mas tampouco se pode afirmar que sua instrução se limita apenas a esse contexto. Por
exemplo: as orações por todos os homens deveriam ser feitas somente enquanto se está na igreja? As
"boas obras" (2:10) devem ser realizadas apenas na igreja? A resposta óbvia é não. Ao dar essas ins-
truções, Paulo tinha em mente em primeiro lugar o serviço de adoração, mas suas instruções eram
relevantes para a vida cristã em geral. Isso também se aplica à instrução que ele dá com respeito ao
adorno apropriado das mulheres. 5

B. Análise da Passagem Bíblica

A estrutura geral de I Timóteo 2:9 e 10 é muito simples:

A.Adorno apropriado (v. 9a)


B. Adorno inapropriado (v. 9b)
A. Adorno apropriado (v. 10)

Há um movimento a partir dos princípios gerais (v. 9a), para exemplos específicos (v. 9b), e para o
adorno espiritual (v. 10). O primeiro e o último são afirmados, e o do meio é rejeitado. O assunto da
discussão é o adorno pessoal, indicado pelo verbo kosmein, "ornamentar, adornar".

1. Definição de adorno apropriado

Paulo começa com uma declaração dos princípios envolvidos no assunto da aparência pessoal: "que as
mulheres, em traje decente, se ataviem com modéstia e bom senso" (ARA). Em grego, a expressão "em
traje decente" está localizada antes de "com modéstia e bom senso", sugerindo que aquilo que vem a
seguir esclarece e desenvolve o significado de "em traje decente".
E difícil precisar o significado dessa expressão. As versões da Bíblia traduzem o grego de diferentes
maneiras: "sejam sensatas" (BLH); "maneira de vestir" (BV); "traje honesto" (Almeida antiga).
A frase en katastole kosmio ("em traje decente") é governada pelo verbo "adornar" (kosmein). Katastole
("traje") tem dois significados possíveis em grego, tornando seu uso aqui um pouco confuso. Designa "a
conduta, o procedimento" da pessoa, que se expressa (1) numa disposição e comportamento apropriado ou
(2) na aparência exterior. No primeiro caso, poderia ser traduzida "procedimento, conduta" e no segundo,
"vestuário".6 O sentido de "veste, vestuário se deriva do fato de que o decoro encontra sua primeira impres-
são visível no vestuário".7 Sendo que o vestuário é mencionado em I Tim. 2:9b, alguns tradutores concluem
que a palvra katastole aqui significa "roupa, vestido, traje". Mas a menção de "boas obras" como o
verdadeiro adorno da mulher (v. 10) sugere que a idéia principal é de conduta, comportamento ou
procedimento correto. Mas talvez seja melhor reconhecer que katastole se refere aqui ao procedimento ou
comportamento como a conduta e disposição apropriadas, e também à sua expressão através do
vestuário.
O segundo termo grego, traduzido como "decente", é kosmios, um adjetivo derivado de kosmos ("ordem",
"adorno") e significa "disciplinado", "com boas maneiras", "honroso".9 No grego secular, esse termo é usado
para descrever uma pessoa bem disciplinada, de boas maneiras, considerada pelos outros como respeitável e
honrada.'11 Essas idéias se encaixam bem na passagem sob consideração. Paulo, então, está dizendo que as
mulheres devem adornar-se "com respeitável/honroso procedimento", que se expressa numa conduta moral
correta e aparência exterior modesta, isto é, vestuário. A ênfase parece estar sobre o impacto que tal conduta
por parte das mulheres exerce sobre os outros; elas serão consideradas senhoras respeitáveis.
A expressão seguinte "com modéstia e bom senso" é introduzida pela preposição meta ("com"), que não foi
traduzida na versão revista em inglês, e indica "a maneira pela qual o ato se realiza";11 nesse caso, o ato é o de
adornar-se. Os termos "modéstia" [aidos] e "bom senso" [sophrosune] são ricos em significado e usados também
na literatura grega em conjunto com kosmios ("honrado").12 Aidos ("modéstia, respeito") vem de um verbo que
significa "temer, respeitar". Esse temor foi considerado o "respeitoso e secreto temor que alguém sente para
consigo",13 uma sensação de vergonha que é experimentada após romper os limites, do decoro e que pode ser
equacionada com aquilo que chamaríamos pudor ou modéstia.14 Os gregos a consideravam uma virtude e a
descreviam como "uma restrição, dignidade, modéstia ou discrição que impede a pessoa de exceder-se;
portanto, um respeito próprio e um senso de honra que é freqüentemente identificado com a modéstia".15 E a
virtude de aidos que "impede a pessoa de cometer um ato indigno de si mesma; faz com que se evite aquilo que é
vil".16 Com efeito, essa virtude é o oposto de arrogância (hybris)." É esse conjunto de idéias que devemos
conservar em mente quando o termo é traduzido como "modéstia" em I Timóteo 2:9.
O termo sophrosune ("sensatez, decência"), traduzido como "bom senso", vem de um verbo cujo
significado básico é "ter mente sã". A diversidade de empregos desse substantivo nos escritos gregos torna
difícil encontrar uma palavra apropriada no vernáculo para ela. Entre os possíveis sentidos, encontramos
"prudência, moderação, sólido discernimento, decência, auto-controle, domínio das paixões". As idéias
mais comuns associadas com ela na época do N T parecem ter sido autocontrole e sensatez, sugerindo
que sophrosune se refere ao "domínio da nous [mente, intelecto] sobre os impulsos inferiores". Nos
escritos gregos e inscrições em tumbas, essa virtude é muito freqüentemente atribuída a mulheres e
"refere-se sempre a uma Vida bem-ordenada', uma vida acima de qualquer suspeita e crítica, uma
'mulher honesta', o oposto de devassidão. ... Os costumes de uma mulher assim estão acima de
repreensão."
E esse conjunto de idéias que Paulo parece ter em mente ao usar sophrosune em nossa passagem. Parece
que ele quer se referir a ela como uma decência 23 que se determina pelo domínio próprio e bom
discernimento e se expressa no procedimento pessoal. Nas Epístolas Pastorais, essa família de palavras é
usada especialmente para indicar uma conduta caracterizada por ponderado autocontrole. A forma
verbal (sophroneo, "ter autocontrole") descreve a conduta esperada dos moços (Tito 2:6),24 e o adjetivo
(sophron, "sensível, controlado") é usado para designar a qualidade de anciãos de igreja (I Tim. 3:2: Tito
1:8), homens idosos (Tito 2:2) e mulheres jovens (2:5). A fonte dessa virtude se localiza na graça de
Deus, que ensina todos nós a vivermos "sensata [sophronos, "sensivelmente, de forma disciplinada"], justa
e piedosamente" (Tito 2:11 e 12). Com efeito, Paulo considera o Espírito como o agente ativo dessa
virtude: "Pois Deus não nos tem dado espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação
[sophronismos, "disciplina própria"]" (II Tim. 1:7).
Num ambiente cristão, essa virtude não é o resultado de autodisciplina racional, mas dos ensinos do
evangelho e da obra do Espírito no coração de todos os crentes, homens e mulheres.
Paulo está solicitando que o adorno das mulheres esteja nos domínios do "porte" (katastole), na maneira
como agem e se apresentam; uma conduta qualificada como "respeitável/honrada" (kosmios); em outras
palavras, com boas maneiras e disciplina. Ele define esse adorno ainda mais em termos de "modéstia"
(aidos), compreendida como evitar excessos e respeitar os limites do decoro com base no respeito próprio;
e "decência" (sophrosune), um ponderado autocontrole definido pela graça de Deus e a obra do Espírito
na vida do indivíduo. Esses são os princípios básicos que devem governar o adorno do crente.

2. Definição de adorno impróprio

Paulo passa a identificar casos específicos de adorno pessoal que são incompatíveis com a experiência
religiosa do crente e com a instrução que está sendo dada. O verso 9b ainda é governado pela combinação
dos verbos principais usados em 9a: "[Quero que as mulheres] não [se ataviem] com cabeleira frisada e com
ouro, ou pérolas, ou vestuário dispendioso." Essa ordem negativa serve ao propósito de esclarecer de modo
mais específico o que o apóstolo tinha em mente quanto ao assunto do adorno pessoal.
O termo plegma ("cabeleira frisada"), usado somente aqui no NT, refere-se a "qualquer coisa torcida,
entretecida, trançada", e não apenas ao cabelo.25 Mesmo assim, os eruditos aceitam que nesse caso
particular a referência seja feita a cabelo trançado. O fato de o termo "cabelo" não ser usado no texto
sugeriria que, no contexto de adorno, plegma era entendido como se referindo a penteado, da mesma
forma como o mencionado e rejeitado por Pedro. Esse penteado específico é também considerado por
Paulo como incompatível com o verdadeiro espírito cristão.
Aqui o termo "ouro" (chrusiori), como indicamos antes, está mais provavelmente designando
ornamentos de ouro.26 Alguns eruditos têm interpretado essa palavra em íntima ligação com a
anterior,plegma ("cabeleira frisada"), para indicar que no pentear do cabelo eram usados ornamentos de
ouro, o que significa dizer que o cabelo, pelo menos, era trançado com ouro. 27 Esse ponto de vista,
embora possível, é exegeticamente muito improvável.28 A leitura mais natural do grego é tomar a
conjunção "e" (kat) como introduzindo um outro item na lista. Os outros elementos são colocados em
relação seqüencial a ela pelo uso da partícula correlativa "ou".29
Paulo também menciona "pérolas" (margaritais) como um tipo de ornamento que deve ser rejeitado.
Elas eram consideradas muito preciosas e usadas para o adorno do corpo ou de roupas entre os
membros abastados da sociedade.30 O último item da lista é "vestuário dispendioso" (himatismo
poluteleí). Himatismos era usado no grego para referir-se a roupas ou trajes em geral31 e isso explica por
que Paulo o qualifica descrevendo-o como dispendioso. Tem sido mostrado que "em seus vários
empregos, esse adjetivo significa 'opressivamente caro' ou 'raro e luxuoso', até mesmo 'suntuoso'".32 Ao
usar esse termo, Paulo está indicando que ele descreve um tipo de traje que não é simplesmente caro,
mas muito caro. A ênfase não está necessariamente sobre o custo da roupa, mas particularmente sobre
um tipo luxuoso c chamativo de vestuário, que não reflete a natureza da verdadeira beleza,
compreendida pela comunidade cristã.

3. Adorno e espiritualidade

O apóstolo contrasta o adorno exterior que acaba de rejeitar com aquele que deve caracterizar as
mulheres cristãs. Uma vez mais o contraste está entre "não" (me) aquele tipo de adorno "mas" (alia)
este outro. O que se diz no verso 10 está relacionado com o que foi dito em 9a, e serve como um tipo
de resumo, trazendo a discussão ao seu final. Agora se declara explicitamente que há uma ligação íntima
entre o adorno e a experiência espiritual do indivíduo; um é o reflexo da outra.
O adorno que o apóstolo está recomendando é aquele que corresponde aos reclamos religiosos do
crente: "como é próprio às mulheres que professam ser piedosas". O verbo impessoal pre-po ("ser
próprio") designa "aquilo que é conveniente e apropriado",33 mas não contém a idéia de obrigação em si.
Em outras palavras, "como é próprio" é algo que a pessoa em questão não está sob a obrigatoriedade de
fazer. O uso da palavra no NT, entretanto, sugere que "a justiça e as exigências da situação tornam a
conduta especificada não só conveniente, mas imperativa"" (cf. Mat. 3:15; Efés. 4:3; Tito 2:1; Heb.
2:10; 7:26). De outra forma, a base para a conduta esperada ficaria desacreditada ou desqualificada. Por
exemplo: em nossa passagem, "como é próprio é determinado por uma alegação feita pelas mulheres:
elas professam ser religiosas. Se não fizessem aquilo que é próprio à alegação, poder-se-ia concluir que
a alegação não é verdadeira.
As mulheres a quem Paulo se dirige são descritas como pessoas "que professam ser piedosas". O verbo
epanggellomai ("professai ) significa entre outras coisas "prometer", "professar"»: "alegar",1' e em nossa
passagem expressa a idéia de fazer uma declaração, afirmando algo. Elas alegam theosebeia ("reverência a
Deus", "religião"), viver uma vida agradável a Deus.36 Sendo esse o caso, espera-se que elas "confirmem sua
confissão de religião mediante boas obras".37 A expressão "com [dia] boas obras" significa "por meio de boas
obras" e é sintaticamente ligada ao verbo "ataviar-se".38
Nas Epístolas Pastorais, as "boas obras" são consideradas um sinal significativo e indispensável de genuíno
cristianismo.39 Esse tipo de obras, portanto, é também requerido dos homens (I Tim. 5:25) e mais
especificamente de crentes abastados (6:18), de viúvas (5:10) e de todos os crentes (Tito 3:8). A possibilidade
de fazer boas obras se baseia no fato de que Cristo nos redimiu de toda iniqüidade (2:14) e de que
mediante o estudo das Escrituras somos habilitados "para toda boa obra" (II Tim. 3:17). Daí ser o adorno
das boas obras esperado daqueles que professam ser religiosos.
Paulo encerra sua discussão sobre o adorno apropriado das mulheres com uma descrição positiva da
natureza do verdadeiro ornamento. Fundamentalmente é viver uma vida na qual o compromisso
pessoal com o Senhor se expressa através de atos que sejam uma clara e visível manifestação desse
compromisso. A implicação é que o cristianismo é tão valioso e atraente que, se for posto em prática,
embelezará a vida dos crentes, tornando-os pessoas honradas e respeitadas na sociedade dentro da
qual vivem.

C. O Motivo e o Propósito da Instrução

Devemos agora tratar da razão que motivou a discussão do tema do adorno feminino em I Timóteo.
Sugeriu-se que Paulo está reagindo ao tipo de vestido usado pelas mulheres que participavam do culto
da fertilidade de Ártemis, em Éfeso. Seu propósito teria sido instruir os membros da igreja acerca da
diferença entre o culto cristão e o culto pagão.40 Mas não há uma evidência, no contexto imediato ou na
epístola em si, que apóie essa sugestão. Tanto quanto possamos afirmar, o adorno rejeitado por Paulo
era muito popular em sua sociedade, e não estava confinado ao culto de Ártemis.
Também se sugeriu que a rejeição do adorno exterior era uma expressão "da submissão da mulher ao seu
marido e um reconhecimento de seu lugar entre os homens em geral".41 Isso significaria que Paulo estava
com efeito instruindo as mulheres a demonstrarem sua submissão aos maridos através da maneira como
se vestiam e enfeitavam. Essa idéia dificilmente se apresenta em nossa passagem. Na verdade, não há
evidência clara para apoiar a idéia de que na sociedade greco-romana a ausência de adorno exterior era
simplesmente uma expressão de submissão ao marido. O adorno que Paulo está rejeitando era
geralmente associado com ostentação e impureza.42
A leitura do contexto de I Tim. 2:9 e 10 sugere que o adorno impróprio de algumas senhoras podia
estar criando tensões na igreja e prejudicando-lhe a reputação. Nos versos anteriores Paulo mostrou
preocupação com ambos os elementos. Em 2:2, ele apela aos crentes para que vivam uma vida piedosa e
respeitosa na sociedade. Ao mesmo tempo, exorta-os a adorarem em paz uns com os outros (2:8). É
muito provável que o tipo de vestuário usado por algumas mulheres na igreja não só fosse aparatoso,
mas pudesse ter trazido divisões na igreja ao estabelecer desnecessárias distinções sociais. Ao mesmo
tempo, a reputação das mulheres, e portanto da igreja, estaria sendo prejudicada aos olhos daqueles que
na sociedade defendiam elevados padrões morais e que associavam esse tipo de adorno a uma conduta
moral questionável.43
Paulo, assim como Pedro, parece estar muito interessado na reputação do cristianismo entre os não-
cristãos e em sua influência positiva na sociedade. A esse respeito, o conselho de Paulo corresponde
perfeitamente ao que Pedro tinha em mente. M;is, enquanto o conselho de Pedro estava
primordialmente baseado no AT, no caso de Paulo não há referência às Escrituras enquanto ele descreve a
natureza do verdadeiro adorno cristão. Paulo, assim, parece estar mais próximo da linguagem dos
moralistas gregos e romanos do que Pedro.
E interessante notar que a terminologia usada por ele é muito rara no NT e na Septuaginta; porém,
comum nos escritos gregos helenísticos.44 Isso poderia levar alguns a concluir que Paulo está promovendo
os ideais morais greco-romanos na comunidade cristã. Isso não está necessariamente errado, porque ele,
apóstolo do evangelho e guiado pelo Espírito, teria tido condições de identificar práticas sociais
compatíveis com a mensagem cristã.45 Mas o interessante é que para Paulo as virtudes que ele está pro-
movendo também são vistas como o resultado da obra do Espírito e da graça de Deus na vida do
crente.46 Elas são identificadas como virtudes cristãs ou se tornaram como tais. Deve-se levar em
consideração a probabilidade de que o apóstolo tenha baseado seu conselho nas tradições do Antigo
Testamento (veja Isa. 3:16-23),47 usando uma linguagem comum aos seus leitores. Como em Pedro,
encontramos aqui uma congruência entre valores cristãos e a moralidade helenística.
No mundo greco-romano, as jóias eram também usadas por homens, e os moralistas tinham instruções
para eles, e não só para as mulheres. 48 Somos forçados a perguntar por que Paulo não deu instruções
semelhantes aos homens. E difícil responder, mas já mostramos que aquilo que Paulo considera o
genuíno adorno de unia mulher cristã também se aplica a todos os membros da comunidade cristã.
Seria errado concluir que a modéstia no vestuário é requerida só das mulheres, e que os homens
podem trajar-se de maneira indecente; ou que as boas obras não são exigidas dos homens da igreja.
Ele escreve às mulheres porque nesse caso particular algumas delas não estão vivendo à altura da
norma cristã quanto ao procedimento. Um conselho dado a um segmento da comunidade cristã não
significa que o restante da comunidade possa agir como bem lhe convier. Na verdade, ao dirigir-se a
um grupo, Paulo estava instruindo a igreja em geral.49

D. Conclusão

Indubitavelmente, Paulo está definindo alguns princípios a serem usados pelas mulheres ao se
adornarem. Esse fato sugeri.' claramente que Paulo não está rejeitando in totó o adorno exterior para os
cristãos.50 Esses princípios estabelecem limites e, ao mesmo tempo, abrem tremendas possibilidades para o
testemunho cristão. Primeiro: o adorno deve ter lugar no âmbito da conduta ou do proceder das mulheres,
na forma como agem e se vestem. Deve ser honroso, inspirando o respeito por elas como mulheres
cristãs. Segundo: deve ser modesto, evitando excessos e respeitando os limites do decoro e do respeito
próprio. Terceiro: deve-se caracterizar pela decência, um ponderado autocontrole, influenciado pela
graça de Deus e a atuação do Espírito, que se expressam num bom discernimento.
Os exemplos específicos relacionados por Paulo ilustram o tipo de adorno que violaria os princípios
enunciados por ele. No que se refere a penteado, há um tipo que o apóstolo consideraria apropriado para
as mulheres, mas não o que ele está descrevendo. A expressão "roupas muito caras" dá a entender que há
um certo tipo de vestuário compatível com os valores cristãos. Em outras palavras, ele não rejeita o devido
cuidado das mulheres com o cabelo e o uso de trajes convenientes. Mas no caso das jóias, ele não sugere ou
dá a entender que algumas delas sejam modestas. Paulo simplesmente diz: "Não quero que as mulheres
se ataviem... com ouro e pérolas." Ele dificilmente poderia ter sido mais específico ao rejeitar o uso de
jóias como adorno pessoal.51
O fato de que Paulo menciona apenas ornamentos de ouro e pérolas tem sido tomado por alguns como
significando que ele rejeita somente as jóias caras.52 De acordo com esse argumento, Paulo está
interessado apenas no princípio da economia. Essa linha de raciocínio parece encontrar algum apoio no
fato de que ele rejeita "vestuário dispendioso" (I Tini. 2:9), dando a entender que as roupas baratas são
apropriadas. Essa interpretação particular, no entanto, traz para o texto uma idéia que pareço não
estar na mente de Paulo e que mais parece uma racionalização do que uma conclusão exegética.
Baseamos essa crítica em várias considerações.
Primeira: a expressão "vestuário dispendioso" não enfatiza o valor econômico das roupas mas, como já
se indicou, sua natureza chamativa e luxuosa. É nesse aspecto que Paulo coloca a verdadeira ênfase. O
tipo oposto de roupa que ele está implicitamente recomendando é aquele que não é aparatoso e
luxuoso; ele não recomenda um que seja luxuoso mas menos caro.
Segunda: a razão mais provável pela qual o apóstolo está fazendo distinção entre diferentes tipos de
vestuário é que a roupa é uma necessidade humana básica e não pode ser condenada in totó. O uso de
jóias ornamentais, entretanto, não é uma necessidade humana básica que possa e deva ser satisfeita pelo
uso de um tipo menos caro. Conseqüentemente, ele não faz nenhuma distinção implícita ou explícita
entre diferentes tipos de jóias. Em outras palavras, no contexto não há indicação de que Paulo esteja
graduando as jóias ornamentais em termos de seu custo, a fim de determinar qual é ou não é
apropriada como adorno pessoal.
Terceira: no texto Paulo trata do adorno cristão apropriado, mas não abre espaço em sua discussão para
o uso de jóias ornamentais econômicas. O adorno cristão é fundamentalmente interior, mas se expressa
na apresentação e conduta exterior do crente. Mais uma vez, se a questão fossem as jóias caras, então a
conclusão lógica seria que são aceitáveis as jóias ornamentais vistosas, mas econômicas. Nada existe no
contexto para apoiar a idéia de que Paulo estava estimulando o uso de jóias ornamentais modestas.

Quarta: Paulo menciona ouro e pérolas porque era o tipo de jóias usadas em seus dias como adorno
pessoal.53 Ele não inclui todos os itens que se encaixariam nessa categoria, como pedras preciosas e
prata, indicando que a lista não era completa. Ele está lidando claramente com jóias ornamentais em
qualquer uma de suas formas, e as formas e os materiais usados variarão de cultura para cultura.
Baseados nos exemplos que Paulo dá, podemos concluir que ele rejeita o adorno que tenha o simples
propósito de estabelecer distinções sociais na igreja, talvez separando os ricos dos pobres, e que seja
chamativo, incompatível com o espírito de modéstia e decência. Em lugar desse tipo de adorno, ele apela
para as boas obras, que são uma expressão da entrega do indivíduo a Deus. Vem implícita a idéia de que
aquilo que usamos constitui uma declaração de nossos valores e do objeto de nosso verdadeiro
compromisso. Para aqueles que temem ao Senhor, o adorno ostensivo deve consistir na prática de boas
obras em favor dos outros.

UM A A N Á L IS EE X E G É T IC AD E I P E D R O. 3 :1 -6
A. Considerações Contextuais

Esta passagem pertence à seção da epístola na qual Pedro está discutindo como os cristãos devem
relacionar-se com outras pessoas, especialmente com aquelas que não fazem parte da comunidade
cristã. São solicitados a respeitar a autoridade de reis e governadores (2:13-17), e os escravos são
aconselhados a submeter-se a seus senhores (2:18-25). O objetivo é "emudecer a ignorância dos
insensatos" (v. 15), que buscam oportunidades de opor-se à igreja cristã.
A seguir, Pedro se dirige às mulheres casadas da igreja e seus esposos (3:1-7). A maior parte do
conselho é dirigida às esposas, porque um bom número delas era casada com descrentes. Solicita-se
que se submetam a seus maridos com o propósito de testemunhar mediante seu comportamento, na
esperança de que eles se convertam ao evangelho. Submeter-se ao marido parece ter explicação nos
termos de viver uma vida de "honesto comportamento cheio de temor" (3:2; uma tradução literal
seria: "Vendo/observando vosso puro comportamento em temor"), isento de conflitos verbais ao
testificar perante seus maridos através do procedimento cristão. O adjetivo hagnos ("puro") muito
provavelmente enfatiza aqui a pureza moral, mas também inclui a idéia de rejeitar o mal em geral,
isto é, pureza de vida.1 Esperava-se esta mesma qualidade de vida de todos os crentes e dos líderes da
igreja (Fil. 4:8; I Tim. 5:22). "Em temor" não significa que a esposa devia ter medo de seu marido,
mas está se referindo ao temor ou comprometimento dela com o Senhor (cf. 1:17; 2:17 e 18). Essa
idéia tem apoio no verso 6, onde elas são incentivadas a fazer o que e correto, sem temer a
ninguém. 2 A pureza no temor do Senhor significa que o procedimento puro das esposas "brota da
reverência para com Deus".3
B. Análise da Passagem Bíblica

Adorno exterior

O comprometimento das esposas com o Senhor se expressa de forma elementar na maneira como se
adornam. Em 3:3 e 4, vemos um contraste entre o adorno pessoal, que é exterior e não agrada ao
Senhor, e aquele que é interior e agrada ao Senhor. O apóstolo menciona três casos ilustrativos do tipo
de adorno que ele considera impróprio para a mulher cristã. O primeiro é o "frisado de cabelos"
(emplokes trichori). Essa é uma expressão técnica que descreve um tipo específico de penteado, comum
durante o tempo de Pedro, particularmente entre mulheres ricas.4 Era um estilo elaborado de pentear-se
fazendo trancas, de altura fora do comum, e que às vezes era "sustentado por um arame ou laça".5 Sem
dúvida, "esses penteados requeriam tempo para serem construídos, às vezes por meio de um ferro de
fazer cachos e freqüentemente com a ajuda de uma escrava".6
O cabelo era algumas vezes enfeitado "com incontáveis lantejoulas de ouro ocultando quase inteiramente
o cabelo, brilhando e reluzindo a cada movimento da cabeça".7 Strabo descreve um povo que "embelezava
sua aparência trançando o cabelo, cultivando longas barbas, usando ornamentos de ouro... E só raramente
podiam ser vistos tocando um ao outro ao caminhar, por medo de que o adorno de seu cabelo não
permanecesse intacto".8 Pedro rejeita o ornamento que consiste em usar adornos de ouro (ho exothen...
peritheseos chrusion, literalmente "o [adorno] exterior de usar [objetos de] ouro"). Estes incluiriam
colares, brincos, braceletes e ornamentos de ouro usados em torno do cabelo.9 Não era incomum
encontrar no território do Império Romano mulheres carregadas com todo tipo de jóias. Muitas delas,
segundo alguns historiadores, pareciam joalherias ambulantes. Pedro considera isso incompatível com o
espírito cristão.
Finalmente, o apóstolo menciona "aparato de vestuário" (enduseos himation, literalmente "usar trajes").
É óbvio que Pedro tem em mente certo tipo de vestuário e não as roupas em geral. Daí as traduções
"aparato de vestuário", "vestidos caros", "roupas bonitas" e outras." A palavra himation, traduzida como
"vestuário", designava originalmente uma peça específica do traje, o manto exterior "formado por uma
peça comprida de tecido usada sobre a chiton [túnica, roupa de baixo]";12 embora também fosse usada
para referir-se a trajes de maneira geral.
Esse tipo de roupa poderia ser muito simples ou muito sofisticado, tornando-se um adorno e
estabelecendo distinções sociais, (cf. Lucas 7:25).
As vestes têm um significado simbólico na Bíblia. É interessante observar que nas Escrituras “a condição e
os pensamentos íntimos de uma pessoa se expressam por sua aparência, que inclui roupas”. Esse é o caso
das vestes resplandecentes na transfiguração de Jesus (Mar. 9:3, Mat. 17:2), da veste cheia de poder do
Salvador (Mar. 5:27, 28 e 30; 6:56; Mat. 14:36) e das vestes finas dos indolentes aristocratas (Luc. 7:25).14
Pedro está interessado num tipo de traje que seja compatível com o espírito e os valores cristãos.

2. Rejeição das jóias ou mo impróprio?

Tendo definido em certa medida o que Pedro tinha em mente na sua descrição do adorno que ele rejeita,
devemos agora determinar se ele estava condenando o uso de jóias ou somente um uso impróprio. A
opinião predominante entre comentadores é que Pedro não estava condenando o uso moderado de jóias.
Seu enfoque, argumenta-se, "é que o atrativo da esposa crista sobre o marido pagão não deve consistir em
adorno exterior, mas nas mais importantes qualidades interiores, esboçadas no versículo seguinte".15
Outro escritor sugere que "é incorreto, portanto, usar esse texto para proibir as mulheres de trançar o
cabelo ou usar jóias de ouro, pois pelo mesmo argumento alguém teria de proibir o 'UNO de roupas'. A
idéia de Pedro não é que essas coisas sejam proibidas, mas que não devem ser o 'enfeite' de uma mulher,
sua fonte de beleza."16 A frase grega, tem-se argumentado, "poderia bem ser traduzida: 'Sua beleza deve vir
não tanto do adorno exterior... mas deve ser aquela de seu íntimo'".17 Essa tradução provavelmente se
baseia no argumento de que, numa sentença grega, a combinação "não [o«]... mas [alia]" às vezes pode
significar "'não tanto... como' na qual o primeiro elemento não é inteiramente negado, só abrandado"18
(Mat. 4:4; João 11:52; l Pccl. 2:18). Mas também é verdade que alia ("mas") "aparece mais fre-
qüentemente como o contrário do precedente 0«"("não")' l) c, mais importante, sempre que "não" (ou)
está negando a frase no imperativo, como no caso em I Ped. 3:3, o "mas" (alia) seguinte introduz o
assunto contrastante e simplesmente significa "não (isto)... mas ao contrário..."
O que, então, deveríamos concluir? Há várias coisas que podem ser ditas acerca da intenção de Pedro
nesta passagem. Primeira, temos aqui uma proibição expressa pela autoridade apostólica de Pedro.21 Ele
contrasta claramente dois tipos de comportamento ou valores, rejeitando um e promovendo o outro. Mas
isso é mais do que promover. Ele está estabelecendo o que é certo, o que se espera de uma mulher cristã,
e o que não é aceitável na comunidade dos crentes. Discutiremos mais tarde se o ponto de vista dele é
culturalmente condicionado ou não.
Segunda, Pedro não parece estar rejeitando totalmente o adorno pessoal. Como observamos, ele não
está condenando penteados, mas certo tipo de penteado. O mesmo aplica-se ao vestuário. O substantivo
"adorno" (em grego, kosmos) na literatura grega designa "arranjo, ordem"22 e também beleza ou adorno.23
No NT (Novo Testamento), é somente em I Ped. 3:3 que esse substantivo significa "adorno" e seu uso
não sugere que haja algo intrinsecamente errado em adornar-se. A questão real é a rejeição de certo tipo
de adorno.
Os cristãos devem tomar o devido cuidado com sua aparência, mas ela não deve estar em conflito com
os valores cristãos e o objetivo de uma vida cristã.
Finalmente, Pedro está rejeitando o uso de jóias como adorno exterior e provavelmente também como
sinal de status social. O texto não considera o uso de jóias com outros propósitos funcionais (exemplo:
como selos ou sinete), embora Pedro tenha consciência do fato de que o ouro tem outros usos apropriados
além de ornamento (exemplo: moeda; I Ped. 1:18). Essas distinções são importantes se desejamos
compreender corretamente a norma que ele está estabelecendo para o crente nesta passagem. A posição de Pe-
dro é compatível com o que encontramos no Antigo Testamento.

3. A fonte da ordem de Pedro

Nossa próxima questão tem a ver com a motivação por trás dessa ordem. Estaria Pedro simplesmente
promovendo os valores da sociedade na qual vivia? Em que medida aquilo que ele diz é válido para a
igreja em todas as épocas?
Um bom número de eruditos argumenta que as idéias de Pedro foram motivadas por problemas
específicos que a igreja enfrentava no primeiro século e, portanto, não se aplicam mais à igreja de hoje
porque ela existe num ambiente social diferente. Esses eruditos dão ênfase ao princípio que Pedro está
promovendo e não aos exemplos específicos usados por ele para ilustrar o princípio. De acordo com eles,
Pedro apela aos cristãos para que controlem seu desejo de ostentação e luxo, 24 para promover o princípio
da simplicidade no vestuário25 e a liberdade da dependência de exibição exterior.26
Esses eruditos se afastaram dos exemplos específicos, motivados em parte pelo fato de que na tradição
greco-romana se cria que o vestuário feminino apropriado deveria se caracterizar pela simplicidade e
modéstia, desestimulando-se conseqüentemente o uso de jóias.27 Pedro estava escrevendo a mulheres que
se haviam tornado cristãs, rejeitando a religião de seus maridos, algo considerado pela sociedade em
geral como um ato de insubordinação por parte das esposas.28
Seu conselho a elas se baseia num código de conduta comum para as esposas no mundo greco-romano e
tem o propósito de mostrar que, quando se trata do comportamento delas e do modo como se vestem e se
adornam, as esposas cristãs apóiam os valores morais de seus maridos. Essa leitura do texto torna a
proibição específica de Pedro culturalmente condicionada e, em certa medida, irrelevante para a cultura
ocidental de hoje. Conclui-se então que o intérprete bíblico poderia transferir para a igreja de hoje
somente os princípios por trás dos exemplos específicos.
Obviamente, temos de levantar a questão do valor dessa abordagem do texto bíblico. Existe um fato que
devemos aceitar, a saber: temos escritores gregos e romanos da época de Pedro dando conselhos muito
semelhantes às mulheres na sociedade romana. E realmente provável que Pedro tenha tido conhecimento
dos ensinos desses moralistas não-cristãos. Mas a questão permanece: proporcionaram eles a Pedro os
valores que ele está promovendo? Está ele pedindo que as esposas de não-cristãos ajustem sua conduta ao
que se esperava delas pela sociedade como um todo?
Para a primeira pergunta, devemos dar uma resposta negativa. O próprio Pedro nos revela a fonte de sua
proibição. Ele faz referência específica às "santas mulheres" do AT. Elas, e não os ensinos dos moralistas
romanos, proporcionaram-lhe o modelo a ser seguido pelas esposas cristãs. É até provável que o apóstolo
também tenha em mente Isa. 3:18-24. Seu "uso freqüente de Isaías nos versos precedentes,
especialmente 2:22-25, torna provável o conhecimento dessa passagem".
Contudo, ele não menciona um ensino abstrato, mas aponta para pessoas que o incorporaram à sua vida.
Além disso, Pedro indica que as genuínas virtudes espirituais, o adorno interior do cristão, são
"preciosas" à vista de Deus (3:4); Ele as "considera e valoriza em alto grau".30
Esse é o critério essencial para o adorno apropriado, e não o que é socialmente conveniente. As
implicações são bem claras. O adorno usado por santas mulheres numa época e cultura diferentes é
considerado por Pedro como válido para as mulheres cristãs de seu tempo e continua sendo precioso
diante do Senhor. Ele não separa o exemplo concreto do princípio em si. A norma que ele estabelece
não parece ser culturalmente condicionada O fato de que a sociedade romana promovia os mesmos valo-
res que a igreja promove, dá a Pedro a oportunidade de lembrar à comunidade que os cristãos podem
usá-los para promover a respeitabilidade do cristianismo num ambiente pagão e que podem também
tornar-se instrumento para conquistar maridos não-cristãos para o evangelho. Ele parece estar dizendo
que não é função do cristianismo subverter a ordem social, mas apoiá-la sempre que possível.31
As instruções de Pedro sobre o adorno apropriado pertencem à tradição cristã (cf. I Tim. 2:9 e IO). 32
Poder-se-ia dizer que Pedro tem um objetivo apologético, já que de acordo com ele a moralidade cristã
não é incompatível com os mais elevados valores morais de uma sociedade paga.33 Os ensinos morais dos
escritores gregos e romanos não determinam o conteúdo do ensino de Pedro, mas apresentam uma
razão para sua inclusão na epístola. Os valores em comum contribuem para uma redução das tensões
com a sociedade romana.

4. A natureza do verdadeiro adorno

O verdadeiro adorno é "o homem interior do coração, unido ao incorruptível trajo de um espírito manso
[fraeos] e tranqüilo [hesuchiou], que é de grande valor diante de Deus" (3:4). O contraste que o apóstolo
está apresentando não é entre as dimensões visíveis e invisíveis de uma pessoa; não há dualismo aqui. Na
expressão "o homem interior do coração", o substantivo "coração" explica o que significa "o homem
interior", ou seja, o centro do pensamento e da ação.

Podemos então sugerir que "'o homem interior' não é o lado interno da pessoa, mas o ser humano total,
determinado de dentro, 'do coração', isto é, dos pensamentos e desejos". Essa pessoa é visível para Deus e
se expressa através de atos externos e disposições visíveis aos outros.

Pedro indica que a beleza do coração se expressa no "incorruptível trajo de um espírito manso e
tranqüilo". A implicação é que o adorno exterior é perecível e pertence à esfera do efêmero, carente de
valor perene (cf. I Ped. 1:18). "Manso" (gr. prays) como adjetivo designa a ausência de violência,
baseada na COM fiança no Senhor.37 Descreve os pobres, até mesmo os oprimidos que nada têm a exibir
exceto sua confiança em Deus, e por conseguinte esperam pacientemente Nele (Mat. 5:5).
Existe uma ausência de orgulho em tais indivíduos.38 Sua dependência de Deus os torna mansos, ternos e
bondosos, mesmo sob circunstâncias difíceis.39 Esse espírito manso e terno caracterizou Jesus (Mat. 11:29)
e ele esperava que também fosse a marca daqueles que viessem a segui-Lo, homens ou mulheres (Mat.
5:5; cf. o uso do substantivo [praytes, "mansidão"] em Gál. 5:23; Efés. 4:2 e Gol. 3:12). Tal espírito ou
disposição deve controlar o procedimento de esposas e crentes em geral.
O "espírito manso" reforça a idéia da ausência de conflito na vida cristã. O adjetivo hesuchios significa
"quieto, tranqüilo". Um espírito "'tranqüilo' é o ideal, tanto para a comunidade cristã (l Tim. 2:2) como
para os indivíduos cristãos (I Tess. 4:11; II Tess. 3:12)",40 ou seja, seria uma característica de ambos,
homem e mulher. Como virtude cristã, designa a disposição da tranqüilidade e serenidade em meio a
conflitos reais ou em potencial, possivelmente com base na tranqüilidade interior produzida por estar em
paz com Deus.41 A ausência dessa virtude gera turbulência pessoal e social.42 "Um espírito manso e
tranqüilo" fará mais em favor da esposa cristã de um descrente do que qualquer adorno exterior. Porém, o
mais importante é que por meio desse tipo de adorno, as mulheres se identificam com o sistema de
valores de Deus e o incorporam à sua vida.4'
C. Conclusão

Podemos concluir que a proibição do uso de jóias como adorno não é determinada por fatores
locais enfrentados pela igreja durante o tempo de Pedro. Não é culturalmente determinada. Ele
descreve para a igreja aquilo que o Senhor sempre esperou de Seu povo, desde o tempo do AT. O que era
apropria do em termos de adorno para as "santas mulheres" de Israel ainda é válido para o crente
cristão.
Dá para se extrair do texto diferentes razões possíveis para a proibição. Primeira: parece haver uma
preocupação com o uso correto dos recursos financeiros. No entanto, isso não nos parece ser uma das
razões básicas para a injunção contra certos tipos de adorno exterior. Pelo menos o apóstolo não realça
esse fato de modo específico e o contexto não parece apontá-lo como elemento significativo no
desenvolvimento do tema.
Segunda: sendo que os adornos descritos por Pedro são aqueles geralmente usados por mulheres ricas, seria
correto sugerir que eles também tinham o propósito de estabelecer distinções sociais entre ricos e pobres. Se
for esse o caso, então Pedro também está rejeitando o uso de jóias como sinal de status social entre os crentes.
Mas novamente isso não é declarado de forma categórica no texto.
Terceira: o contraste entre os adornos exteriores e os ocultos revela claramente a razão para a rejeição
dos primeiros. O adorno que está sendo rejeitado é considerado por Pedro como não sendo uma
expressão de um "espírito manso". Se nossa compreensão dessa frase está correta, então o que ele está
sugerindo é que há um tipo de adorno exterior que é expressão de orgulho e autoconfiança, em lugar de
ser uma expressão da submissão da pessoa e sua dependência de Deus. É, portanto, lógico para o cristão
rejeitar um e usar o outro. Quando contrastado com o "espírito manso", o adorno exterior se torna
expressão de uma atitude inquieta, símbolo de uma necessidade, até mesmo a busca da paz interior que
não foi satisfeita mas deve ser plenamente suprida pelo evangelho. Daí esse adorno ser incompatível com
os frutos da mensagem cristã.
Quarta: Pedro refere-se às mulheres do Antigo Testamento que usaram o adorno apropriado como "santas
mulheres". Nesse caso particular, "santas" provavelmente significa que pertenciam ao Senhor, que faziam
parte do povo de Deus. Seu adorno tinha o propósito de fixar limites, estabelecendo distinções religiosas
com respeito a outras nações. A implicação é que o autêntico adorno rr.i uma expressão de seu
comprometimento com o Senhor.
Finalmente, Pedro rejeita certo tipo de adorno exterior porque ele não é "de grande valor diante de
Deus". A implicação que os cristãos devem identificar-se com aquilo que o Senhor considera valioso.
Nesse processo, eles estão desenvolvendo atitudes e gosto estético correspondentes aos de Deus. A
imitatio dei funciona até mesmo na maneira como os cristãos se adornam. Afinal de contas, Deus não
usa jóias.

A s M U L H E R ENS A S E P ÍS T O L APSA S T O R A IS
I T IM Ó T E O2 :1 1-1 5C O M OP A R T EDO CONTEXTO DE 2:9 E 10
Em nossa discussão anterior, de I Timóteo 2:9 e 10, não fizemos a tentativa de relacionar essa passagem
aos versos 11 a 15, dando a impressão de que estavam sendo ignorados. Embora seja verdade que a
discussão sobre jóias é uma unidade por si só, também é verdade que os versos seguintes continuam
lidando com questões relativas às mulheres na igreja de Éfeso e, portanto, merecem atenção a fim de
justificar nosso procedimento exegético. O problema crítico se mostra como segue. Se as passagens sobre
jóias, como temos argumentado, ainda continuam normativas para a igreja, não seriam normativos
também os versos seguintes, exigindo que as mulheres guardem silêncio na igreja e não ensinem, mas
sejam submissas aos homens? Por que se argumentaria em favor de uma posição e não da outra?
Esse é um dos problemas que teólogos evangélicos têm enfrentado ao considerar 2:11-15 como normativo,
mas não 2:9 e 10.'Alguns têm procurado lidar com o problema sugerindo que ambas as passagens são
culturalmente condicionadas,2 enquanto outros argumentam que devemos reter apenas os princípios que
servem de base aos conselhos dados pelo apóstolo.3 Eles tentam pelo menos ser coerentes em sua
interpretação da passagem como um todo.
Os adventistas, tradicionalmente, têm-se sentido desconfortáveis ao incluir em sua hermenêutica a idéia
de que algumas passagens bíblicas podem ser determinadas pela cultura da época Temos estado
dispostos, entretanto, a reconhecer que em certas situações pode ser esse o caso.
O exemplo tradicional é a passagem que diz respeito ao procedimento de as mulheres cobrirem a
cabeça durante o culto, registrada em I Coríntios 11:5-16. O Comentário Bíblico Adventista diz:
"...podemos entender que Paulo, em I Cor. 11:4-16, estava arrazoando com os coríntios quanto ao
princípio da correção e do decoro religioso em termos dos costumes da época. Apesar de as fontes
antigas deixarem vestígio impreciso quanto ao costume de cobrir a cabeça em Corinto ou em qualquer
outro lugar, parece evidente que o costume considerava a cabeça descoberta- como apropriada para o
homem, mas inadequada para a mulher. ... Prosseguindo, então, com a razoável pressuposição de que
Paulo esteja lidando aqui com a aplicação de um princípio ao costume do país e da época, podemos
tomar de modo literal e significativo suas palavras, sem passar a concluir que sua aplicação específica
ao princípio naquele tempo exija a mesma aplicação específica hoje".4
Fazer a distinção entre práticas condicionadas pela época e aquilo que é permanentemente válido para o povo
de Deus ao longo do tempo e das culturas, pode não ser tão difícil quanto imaginamos, se levarmos em
consideração que a Bíblia é sua própria intérprete. E o testemunho das Escrituras em sua totalidade que
deve ser usado ao tomar uma decisão, conservando em mente que mesmo nos casos em que as práticas
locais estavam sendo usadas, há sempre princípios envolvidos que continuam válidos para nós hoje. No
caso das jóias, parece-nos que o abundante testemunho das Escrituras deixa claro que neste particular
não estamos lidando com uma prática cultural antiga e irrelevante para a igreja de hoje. Era importante
no Antigo e Novo Testamento, e continua sendo importante para o povo de Deus em nosso mundo
moderno.
Não estou sugerindo que I Timóteo 2:11-15 descreve uma prática culturalmente condicionada e que,
seja o que for que Paulo esteja dizendo, tem pouco ou nenhum valor para a igreja. Indubitavelmente, a
interpretação desses versos é uma tarefa difícil e exigiria mais espaço do que aquele de que dispomos
aqui. Cada palavra desses versos já foi cuidadosamente esquadrinhada por eruditos, por causa das
implicações do texto para o papel das mulheres na igreja, mais especificamente sua ordenação ao
ministério evangélico. Desde o início, devo declarar que essa passagem não trata do assunto de ordenar
ou não as mulheres, e por isso não cuidarei dessa questão. A fim de entendermos o texto corretamente,
devemos abordá-lo a partir da perspectiva das questões que Paulo enfrentava na igreja de Efeso,
conforme ele as descreve para nós nas Epístolas Pastorais. Minha abordagem é identificar o que Paulo
está dizendo acerca das mulheres nas Epístolas Pastorais e ver como nossos versículos se encaixam na
preocupação geral que ele tinha. Tentaremos prestar atenção ao próprio texto.

B. As Mulheres nas Epístolas Pastorais

As Epístolas Pastorais contêm boa quantidade de material instrutivo endereçado às mulheres, dando a
entender que elas desempenhavam um papel significativo na igreja. A maior parte do material trata dos
deveres delas em suas funções específicas, mas em alguns casos a instrução soa mais como uma
repreensão, sugerindo uma situação de conflito na igreja. Uma atenção particular é dada às viúvas (I
Tim. 5:3-16).
Timóteo é aconselhado a dar o devido reconhecimento às viúvas que estivessem passando necessidade
(5:3). Algumas delas eram absolutamente consagradas ao Senhor (5:5), enquanto outras viviam para o
prazer e eram espiritualmente mortas (5:6). Outro problema ocasionado pelo número de viúvas na igreja
era que em algumas famílias os parentes não lhes proviam o sustento e elas se haviam tornado um fardo
financeiro para a igreja (5:16). A essas famílias, Paulo dirigiu palavras muito fortes: "Se alguém não tem
cuidado dos seus e especialmente dos da própria casa, tem negado a fé e é pior do que o descrente" (5:8).
Essa era uma responsabilidade dos integrantes de ambos os sexos da família (5:4 e 16).
A igreja deveria tomar providências em favor das viúvas que estivessem passando real necessidade e fossem
membros leais da igreja (5:9 e 10). As viúvas jovens não deveriam ser tratadas como viu- vás porque, tendo
supridas as suas necessidades, elas teriam tempo livre para serem preguiçosas e irem de casa em casa
tagarelando, "ralando o que não devem" (5:13). Tal conduta estava criando sérios problemas na igreja. Por
isso, era melhor que elas se casassem (5:14).
Importantes instruções foram dadas a um grupo de mulheres que eram diaconisas ou viúvas de diáconos.
Elas deviam ser "respeitáveis, não maldizentes, temperantes e fiéis em tudo" (I Tim. 3:11). As mulheres de
mais idade são chamadas a ser "sérias em seu proceder,-não caluniadoras, não escravizadas a muito vinho;
sejam mestras do bem", instruindo as mais jovens quanto a questões familiares e à piedade religiosa (Tito
2:3-5).
Sendo que as mulheres estavam ativamente envolvidas na igreja, não deveria surpreender-nos descobrir
que falsos mestres, infiltrados na igreja, tentariam persuadi-las e usá-las na promoção de suas idéias.
Esses falsos mestres tinham muito interesse em "questões e contendas de palavras, de que nascem inveja,
provocação, difamações, suspeitas malignas, altercações sem fim, por homens cuja mente é pervertida e
privados da verdade, supondo que a piedade é fonte de lucro" (I Tim. 6:3-5).
O ataque desses falsos líderes foi levado muito a sério por Paulo, que decidiu lembrar Timóteo, Tito e
os anciãos da igreja da importância de preservar e ensinar a verdadeira doutrina da igreja (I Tim. 4:16;
Tito 2: l; I Tim. 5:17). Várias vezes ele a chama de "sã doutrina" (I Tim. 1:10; II Tim. 4:3; Tito 2:1),
"boa doutrina" (I Tim. 4:6), "ensino segundo a piedade" (I Tim. 6:3) e "meus [de Paulo] ensinos". As
Escrituras são a fonte de seu ensino confiável (II Tim. 3:16). Em oposição a essa doutrina autêntica,
Paulo enfrenta falsos ensinos que se infiltram na igreja (l Tim. 6:1) e os chama "ensinos de demônios" (I
Tim. 1:4). Essa forte ênfase sobre os ensinos da igreja, bem como sobre a responsabilidade dos líderes no
sentido de preservar e ensiná-las é, nas Epístolas Pastorais, uma reação à obra dos falsos mestres.5
Paulo se refere aos falsos mestres como aqueles "que penetram sorrateiramente nas casas e conseguem
cativar mulherinhas sobrecarregadas de pecados, conduzidas de várias paixões, que aprendem sempre e
jamais podem chegar ao conhecimento da verdade" (II Tim. 3:6 e 7). O verbo enduno, traduzido como
"penetrar sorrateiramente", significa "insinuar-se" e sugere um engano que ocorre ao se usarem falsas
pretensões para conseguir acesso à vítima.6 Essas mulheres eram vítimas fáceis porque estavam carregadas
com seus pecados passados e com maus desejos, e tinham a disposição de ouvir quem pudesse ter algo a
oferecer-lhes. Estavam ansiosas por aprender com os falsos mestres, mas eram incapazes de distinguir a
verdade do erro. Os falsos mestres entravam nas casas delas e as capturavam, obtendo controle sobre
elas, tornando-as instrumentos na propagação de suas falsas doutrinas. Como algumas dessas mulheres
eram muito ricas, exerciam mais atração sobre os falsos mestres que, devido ao seu interesse por lucro
financeiro, viam nelas boas contribuintes.
Essa descrição não deve ser interpretada como significando que somente as mulheres estavam sendo
enganadas pelos falsos mestres. A situação na igreja parece ter sido muito séria e Tito é solicitado a
repreendê-los [a qualquer envolvido] severamente, "para que sejam sadios na fé e não se ocupem com
fábulas judaicas, nem com mandamentos de homens desviados da verdade" (Tito 1:14). Sem dúvida,
alguns homens também estavam apoiando os falsos mestres, mas Paulo se dirige às mulheres porque
elas podem ter sido mais eficientes ou agressivas na propagação da heresia.
É esse plano de fundo, proporcionado pelas próprias Epístolas Pastorais, que é indispensável para uma
correta compreensão de I Tim. 2:11-15.7 O conselho dado por Paulo nessa passagem é sua tentativa de
pôr um pouco de ordem na igreja, encerrando a atividade de mulheres que haviam sido influenciadas
pelos pontos de vista dos novos mestres.

C. Análise de I Timóteo 2:11-15

Aprender em silêncio - 2:11 e 12

O problema criado por algumas mulheres que trouxeram ; as discussões e os argumentos do falso
mestre para a igreja, levou Paulo a dizer: "A mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. E não
permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem; esteja, porém, em silêncio." Há alguns
pormenores importantes que devemos observar ao lidar com esses versos.
Primeiro: o principal foco da passagem é, em princípio, positivo: a mulher deve aprender.8 No contexto,
essa experiência de aprendizado parece ocorrer basicamente na igreja. A sede de conhecimento dê uma
mulher deve ser suprida pela igreja e não por falsos mestres. A igreja cristã deu às mulheres o direito
de aprender junto com os homens da congregação. Esse não parece ter sido o caso na sinagoga judaica. 9
Portanto, de acordo com Paulo, a solução para as incursões que os falsos ensinadores estavam fazendo
entre as mulheres não era proibi-las de ouvir o falso mestre e depois conservá-las na ignorância, mas
desenvolver seu conhecimento da verdade mediante professores bem preparados no evangelho. Essa era
uma abordagem positiva.
Segundo: para que o aprendizado fosse eficaz, Paulo delineia um procedimento específico: "A mulher
aprenda em silêncio." O sentido da expressão "em silêncio" é de importância fundamental para a
compreensão do verso. O texto grego diz en hesuchia, indicando, através do uso da preposição en ("em"),
que o silêncio se refere à condição sob a qual ocorre a experiência do aprendizado,10 e não à condição
permanente da mulher na igreja ou na sociedade.
“Fontes extrabíblicas usam essa mesma expressão para designar a atitude esperada de uma pessoa que deseja
aprender.” Por exemplo, Filo de Alexandria escreve: "Alguém disse alguma coisa digna de ser ouvida? Preste
muita atenção, não o contradiga, fique em silêncio [en hesuchia}."12 Essa é uma bela definição da frase,
porque está colocada em paralelo com duas outras expressões que esclarecem o sentido. Aprender em
silêncio é prestar cuidadosa atenção ao professor e evitar controvérsias e discussões com o instrutor.
O termo hesuchia ("quieto, tranqüilo") e palavras pertencentes à mesma família expressam no Novo
Testamento a idéia de silêncio como ausência de conflito, e não necessariamente ausência de fala.13 É
usado para expressar pelo menos três idéias principais. (l) O silêncio que encerra ou conserva sob controle
uma discussão ou confrontação (Atos 11:18; 21:14; 22:2); (2) silêncio para evitar uma confrontação
aberta, usando linguagem agressiva (Luc. 14:4); (3) silêncio como característica da vida cristã que
consiste J numa existência livre de controvérsias que poderiam desintegrar a comunidade dos crentes
(I Tess. 4:11; I Tim. 2:2).
O uso da expressão "em silêncio" no Novo Testamento, bem como fora dele, indica claramente que o
pedido de Paulo por silêncio da parte das mulheres "não proíbe fazer perguntas ou falar em geral, mas sim
uma fala que crie perturbação".14 A própria epístola sugere que a devastação era o resultado da aceitação ou da
influência dos falsos mestres. Paulo está deixando claro que essas mulheres vinham à igreja não para
ensinar, mas para aprender a verdade do evangelho, e ele não está disposto a permitir que essas senhoras
perturbem o processo do aprendizado. Ao proibir esse tipo de fala, Paulo está protegendo o direito dos
outros de ouvir e aprender; um falar controvertido é simplesmente inaceitável.
Terceiro: observe que o verso não diz a quem a mulher deve submeter-se,15 forçando-nos assim a
examinar o contexto para entender a intenção do apóstolo ao pedir-lhe que aprenda "com toda a
submissão", ou "em completa submissão".16 Mais uma vez, o uso da preposição en ("em") limita a
submissão ao contexto do processo de aprendizado, ajudando-nos a interpretá-la em termos de aceitar a
autoridade do professor17 ou submeter-se à autoridade do próprio ensino e aceitá-lo.18
No primeiro caso, a mulher teria sido solicitada a não contradizer a autoridade do professor,
argumentando com ele. A frase seria então um sinônimo de "em silêncio". No segundo caso, Paulo
estaria dizendo à mulher que a verdade é encontrada somente na instrução que ela recebe na igreja, e
não no ensino dos falsos apóstolos, e que portanto ela deve se submeter a essa instrução, rendendo-se a
ela. Qualquer uma dessas duas possibilidades faz excelente sentido no contexto. É provável, entretanto,
que Paulo tenha em mente ambas as idéias ao mesmo tempo. Essa sugestão pode ser apoiada por Gál.
2:5, onde Paulo descreve seu confronto com alguns falsos irmãos, a quem ele não se submeteu nem por
um momento. Em outras palavras, ele não os reconheceu como verdadeiros mestres, não se submetendo a
eles nem lhes aceitando os ensinos.19
Quarto: por causa da situação na igreja de Éfeso, Paulo não permite que as mulheres ensinem. Em outras
palavras, os estudantes não estão numa posição que lhes possibilite ensinar e, mesmo que isso lhes fosse
permitido, o resultado seria controvérsia na igreja por causa da influência dos falsos mestres sobre essas
mulheres.20 O contraste com o verso anterior se baseia no fato de que essas mulheres não estavam
preparadas para ensinar,21 e por isso Paulo diz: "não permito que a mulher ensine".22 Além disso, a
proibição contra o ensino não é universal ou permanente, porque o Novo Testamento nos informa que as
mulheres podiam ensinar (Atos 18:26; Tito 2:4); na verdade, todo membro da igreja é exortado a
ensinar (Gol. 3:16; I Cor. 14:12).23
Quinto: o verbo "permitir" ("não permito") parece ter sido usado aqui para designar um limite imposto
por conta da situação em Efeso e não está descrevendo uma situação universal.24 A frase "não permito que
a mulher" é seguida pelo uso de dois infinitivos - ensinar, ter autoridade - e depois contrastada com o
que Paulo espera das mulheres - ficar em silêncio.25 Já vimos que esta última frase é usada por ele para
descrever a conduta das mulheres como estudantes. No contexto, não há indicador no sentido de que o
apóstolo esteja usando essa mesma frase agora de modo diferente. Portanto, as duas coisas que Paulo não
permite devem ser definidas no contexto de uma discussão sobre a atitude adequada de uma mulher, ao
ser instruída na igreja. Durante o processo da instrução, ela não deve assumir o papel de professora ou
"ter autoridade sobre um homem".
Sexto: o significado do termo grego authenteo ("ter autoridade sobre") é incerto, mas deve ser
interpretado com base no seu contexto. Este é o único lugar em que o verbo é usado no Novo
Testamento, tornando necessário que os eruditos examinem seu uso em fontes não-bíblicas.26 Os mais
recentes estudos dessas fontes concluíram que o verbo é usado de várias formas diferentes, conforme se
indica no seguinte quadro:27

O Significado de Authenteo

1.Governar, reinar com soberania


2.Controlar, dominar
A. compelir, influenciar algo alguém
B. estar em vigência, ter posição legal
C. hiperbolicamente: dominar exercer papel de tirano
D. conceder autorização

2. Agir independentemente

A. assumir autoridade sobre


B. exercer sua própria jurisdição
C. escarnecer da autoridade de
1.Ser basicamente responsável por, instigar algo
2.Cometer homicídio

Qual desses possíveis significados teria Paulo em mente? Certamente não é fácil decidir, mas podemos
deixar fora "cometer homicídio" porque não se encaixa no contexto e porque esse uso do verbo só foi
verificado num documento do décimo século d.C.; e também "governar", porque esse uso designa
autoridade real. É óbvio que o verbo expressa a idéia de autoridade.

Os seguintes significados são possíveis: controlar, dominar, compelir, influenciar, agir


independentemente, assumir autoridade sobre, dominar e escarnecer da autoridade de. Temos apenas o
contexto para decidir qual é o mais apropriado.
Seja qual for o significado que escolhermos, precisamos ter em mente que Paulo está tratando da atitude
conveniente das mulheres como estudantes. Ele já indicou que não deseja que elas assu mam o papel de
professoras, e agora acrescenta que não devem "ter ou assumir autoridade sobre o homem". O que ele
quer dizer? Os diferentes usos do verbo nos dão várias possibilidades no contexto da passagem: Tentar
controlar ou dominar o professor, assumir autoridade sobre ele ou mesmo zombar de sua autoridade.28
Qualquer um desses se encaixaria muito bem no contexto. Tal atitude por parte das mulheres perturbaria
o processo de aprendizado, criando sério conflito na igreja. Ao assumir uma atitude de autoridade que não
lhes pertence como alunas, essas mulheres estariam agindo independentemente do restante dos crentes. A
fim de impedir ou evitar essa situação, Paulo volta ao seu conselho do início da passagem: que as
mulheres estejam/aprendam em silêncio.
Nossa discussão de I Tim. 2:11 e 12 indica que, numa reação à obra dos falsos mestres entre as mulheres
da igreja, Paulo está motivando-as a crescer no conhecimento da fé cristã. Mas isso deve ser feito numa
condição de paz, isenta de discussões e disputas que causem divisão, sujeitando-se à doutrina cristã.
Sendo que elas ainda não estão preparadas para serem professoras, Paulo não lhes permite ensinar e, além
disso, não quer que se apropriem de autoridade, agindo independentemente dos outros em sua busca de
conhecimento.

2. Adão e Eva - 2:13 e 14

Os últimos três versos desta passagem que estamos estudando são muito difíceis de interpretar,
particularmente o verso 15. Vamos lidar primeiro com os versos 13 e 14: "Porque, primeiro, foi formado
Adão, depois, Eva. E Adão não foi iludido, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão."
Devemos observar a importância da palavra introdutória "porque" (grego gar). Qual é a sua função
nesta sentença? As possibilidades são essencialmente duas: considerá-la como aprc sentando a razão
para o que se disse antes,29 ou uma explicação daquilo que foi dito antes de se usar uma ilustração.30
Aqueles que optam pela primeira interpretação argumentam que Paulo está dando razões para as
proibições contra o ensino e a autoridade sobre os homens, introduzidas no verso anterior. Eles en-
contram duas razões para a subordinação das mulheres ao homem. A primeira é a ordem da criação:
Adão foi criado primeiro e depois Eva, e portanto as mulheres devem estar em submissão aos homens
(provavelmente o marido). A segunda é que as mulheres são enganadas mais facilmente que os homens e
não se lhes pode confiar o ensino apostólico.31
Essa interpretação pressupõe que a principal preocupação dos versos anteriores seja o reconhecimento por
parte das mulheres de que elas devem estar sob a autoridade dos homens. Mas, como já indicamos, não é
esse o caso. O principal interesse do apóstolo é regulamentar a atitude esperada das mulheres, ao serem
instruídas na igreja. Paulo está tentando controlar a influência dos falsos mestres, que atuam por intermédio de
algumas das mulheres. Ele quer que as mulheres e os homens trabalhem juntos contra uma ameaça comum.
Agora no verso 13 ele ilustra o que acaba de declarar nos versos anteriores. O verso contém um simples fato
bíblico: Adão foi criado primeiro, e depois Eva. Essa foi a maneira como Deus criou a raça humana. Aqui
não há uma sugestão de que, por ter Eva sido formada depois de Adão, ela seria de alguma forma inferior ou
subordinada a ele.32 Com efeito, a idéia também está ausente do relato da criação em Gênesis. Nesse caso
particular, a ordem cronológica não deve "ser considerada tão significativa, já que Adão foi criado depois
dos animais e, ainda assim, recebeu domínio sobre eles. A questão aqui é que a humanidade consistia de
um casal (Adão e Eva). Eva devia ser urna companheira para Adão. Seu relacionamento não deve ser
considerado competitivo, mas complementar.33 Paulo está usando o registro da criação para ilustrar a im-
portância, para homens e mulheres, de permanecerem e trabalharem juntos ao enfrentar o engano.
Paulo prossegue e acrescenta que, a despeito do fato de terem sido criados para ficar juntos, Eva e não
Adão - decidiu agir independentemente, e como resultado foi enganada. Ele coloca A ênfase no ato de
Eva e em suas danosas conseqüências, porque seu conselho é dirigido às mulheres. É importante notar
que nessa passagem o pecado de Eva não consistiu em sua rebelião contra uma suposta sujeição à
autoridade de Adão, mas em ouvir e cair no engano. Ela, como as mulheres na igreja de Éfeso, estava
procurando por si o conhecimento, mas foi enganada e caiu em transgressão. Foi persuadida por um
intruso a crer em algo que não era verdade. Isso ilustra muito bem a situação na igreja de Éfeso, onde
algumas mulheres, diz Paulo, "já... se desviaram, seguindo a Satanás" (I Tim. 5:15). Talvez também
esteja implícita a idéia de que, uma vez enganada, Eva se tornou instrumento para enganar.

3. Missão de mãe - 2:15

O verso final começa com o verbo "salvar" no tempo futuro passivo, terceira pessoa do singular "Ela será
salva" passando no verbo seguinte para a terceira pessoa do plural - "se permanecerem na fé..." A forma
natural de ler o verso sugeriria que o primeiro verbo ainda se refere a Eva, mas o plural do segundo
verbo indica que o apóstolo tem em mente as mulheres para quem está escrevendo. Pode-se concluir
que, para Paulo, a experiência de Eva ilustra a experiência de algumas mulheres e isso lhe permite
passar do singular para o plural.36
A dificuldade seguinte se localiza no significado da frase "[ela será salva] através de sua missão de mãe
[teknogonias]". A princípio, isso parece uma idéia estranha e conseqüentemente tem resultado em diferentes
interpretações.37 As questões básicas têm a ver com o sentido do verbo "será salva" e a expressão "missão de
mãe". O verbo tem sido interpretado por alguns como significando salvação num sentido espiritual ou
como salvação no sentido de preservação física.38 Há duas interpretações comuns da passagem, sendo a
primeira que a mulher que caiu em pecado, Eva, será salva ao "dar à luz uma criança", o Messias. Quer
dizer, as mulheres também são objeto da graça de Deus. A segunda é que a passagem declara que o papel da
mulher é ter filhos e permanecer na fé. perante o parto, serão protegidas ou preservadas por Deus.
Ambas as interpretações enfrentam dificuldades. O termo "parto" no original é uma forma estranha de
referir-se ao Messias, porque a expressão descreve o ato de dar à luz uma criança em vez de descrever a
criança que nasceu. Por outro lado, se o texto se refere à capacidade das mulheres de dar à luz, então Pau-
lo estaria dizendo que, para uma mulher, a salvação é o resultado de ter filhos. Isso seria teologicamente
errado. Além disso, o verbo "salvar", nas Epístolas Pastorais, designa a obra de Deus de preservar os seres
humanos da morte eterna39 e não do perigo de morte durante o parto.
O que, então, podemos dizer? Muito pouco. A segunda parte do verso parece expressar o principal
interesse do apóstolo: se permanecerem "em fé, e amor, e santificação, com bom senso". Em seu
contexto, o verso 15 é um chamado às mulheres para que permaneçam na fé e vivam vida santa. E um
convite a que preservem sua lealdade ao evangelho cristão, não dando ouvidos aos falsos mestres. Nesse
caso, a primeira parte da passagem poderia se referir à salvação disponível a elas mediante o Cristo nascido
de uma mulher e prometido a Adão e Eva. A despeito dessas dificuldades, esta parece ser a única
interpretação que coloca a passagem em clara harmonia teológica com a doutrina da salvação.40 A
salvação está disponível a todos, incluindo as mulheres, mas elas têm de permanecer leais à fé que lhes foi
confiada, ou seja, não devem prestar atenção aos falsos ensinos.

D. Conclusão

A passagem que estudamos é difícil de ser interpretada e isso nos deve tornar sensíveis à importância de
levar em consideração o contexto que o próprio apóstolo nos proporcionou. Se examinarmos o contexto,
torna-se claro que Paulo está lidando com uma situação particular que surgiu na igreja de Éfeso. Estava
dando instruções específicas sobre como controlar ou mesmo encerrar a obra dos falsos mestres naquela
igreja, particularmente entre algumas das mulheres membros da congregação. Em seu conselho, não há
praticamente nada que não possamos implementar hoje numa igreja que pode estar enfrentando
condições semelhantes ou idênticas àquelas encontradas na igreja de Efeso. Seu conselho pode ser
igualmente aplicado a homens e mulheres que, sob a influência de falsos ensinos, criam tensões e divisões
em nossas igrejas. Sim, Paulo estava tratando de uma situação específica, mas ao fazê-lo estava também
instruindo a todos nós.
RE S U M OD O M A T E R IA LBÍBLICO
MU
FU N D A M EN TO
P A R A A N O R M ADA IGREJA

Tendo examinado as passagens bíblicas que tratam do assunto das jóias, agora é o momento de
resumirmos nossas descobertas e refletir sobre elas. Nos próximos dois capítulos tentaremos esclarecer
seu significado e suas implicações para a igreja e o crente individual. Nesse processo, teremos a
oportunidade de lidar com algumas das perguntas específicas que estão sendo feitas a respeito da norma
da igreja quanto ao uso de jóias. Já se demonstrou no primeiro capítulo deste documento a necessidade
desse tipo de discussão e análise.

A. Resumo do Ensino Bíblico Sobre Jóias Ornamentais

Recapitulando os resultados de nossa pesquisa bíblica sobre o assunto das jóias, há várias coisas que
podem ser ditas ao tentarmos resumir os principais conceitos relacionados com o tema. Isso nos
proporcionará uma base para a discussão sobre o significado e as implicações desses conceitos para a
igreja de hoje.

/. Diversidade de funções

A evidência bíblica indica que as pessoas usavam e possuíam jóias por múltiplas razões e para propósitos
que em muitos casos eram complementares, e nem sempre para uma única finalidade. Consideramos
esse fato como sendo uma evidência importante em nossa tentativa de compreender a atitude bíblica
para com as jóias, porque nos força a reconsiderar a idéia de que, em geral, o propósito básico da jóia é o
adorno pessoal. Não se deve negar sua função ornamental, mas a sua função básica jaz em outro as-
pecto. A beleza dos ornamentos se torna veículo para atingir um propósito, do ponto de vista do usuário,
mais significativo e importante; por exemplo, impressionar os outros com a riqueza pessoal, posição e
poder social, ou função religiosa.

2. Atitude geral desfavorável

A evidência bíblica demonstra claramente que, em geral, há uma atitude desfavorável para com as jóias
nas Escrituras. Encontramos o próprio Deus pedindo que Seu povo remova os adornos de seu corpo, no
contexto de um apelo para uma reconsagração ao Senhor (Êxodo 33:4-6; cf. Gên. 35:2-4). Isso também
é indicado pela denúncia profética contra quase todos os tipos de jóias usadas tanto por homens como
por mulheres (Isa. 3:18-21). O fato de que os israelitas tenham tirado seus adornos a partir do Sinai
sugere que os primeiros israelitas não usavam jóias. As evidências arqueológicas indicam que deve ter
sido esse o caso porque, com raras exceções, as escavações em sítios israelitas revelaram poucas jóias, e
somente de qualidade inferior.
Essa tendência de desvalorizar as jóias se reflete no fato de que não se mencionam casos e situações
onde esperaríamos referências ao seu uso. Assim, por exemplo, durante a criação de Adão e Eva, e
particularmente depois que o Senhor os vestiu (Gên. 3:21), não há referência explícita ou implícita a
adornos. Em Apocalipse 12:1 e 2, usa-se uma mulher como símbolo do povo de Deus, mas há uma
total ausência de jóias em seu corpo. A mulher que representa os inimigos do povo de Deus, contudo,
é descrita como carregada de jóias (Apõe. 17:4). Além disso, em total contraste com as práticas
do antigo Oriente Próximo, o Deus de Israel não usa jóias. Ele jamais aparece usando adornos e
nunca é visto em visão pelos profetas ostentando ornamentos. Reconhecendo-se que há na Bíblia um
número significativo de passagens que tratam de jóias, seria incorreto atribuir essa situação a um
mero acaso. Ela reflete a atitude da fé bíblica para com as jóias e sugere que, cm termos gerais, essa
atitude não era positiva.
3.Sem malignidade intrínseca

Deve-se também aceitar o fato de que a Bíblia não considera as jóias como sendo essencialmente más.
De outra forma, teria sido impossível que Deus ordenasse a Moisés que fizesse para Arão um traje
adornado com jóias, ou que o rei usasse uma coroa, ou que alguém tivesse um anel como sinete. Mas
todos esses casos constituem, até certo ponto, um uso apropriado de jóias. As jóias não podem ser
essencialmente más porque os belos materiais usados em sua produção foram criados pelo próprio Deus.
O mal das jóias se localiza no coração do usuário, e não simplesmente no objeto em si.

4. Uso restrito de jóias

Se estivermos dispostos a aceitar que na Bíblia as jóias têm diferentes funções, que há uma atitude geral
desfavorável para com elas e que, ainda assim, elas não são intrinsecamente más, então devemos aceitar
também que nem todos os seus usos são aprovados pelo Senhor. A Bíblia tem uma atitude restritiva para
com o uso de jóias. Aqui devemos tomar o cuidado de distinguir o que é aceitável daquilo que não é.
O fato é que a utilização de jóias é em sua maioria rejeitada pelos escritores bíblicos.
As jóias religiosas, mágicas e protetoras são provavelmente rejeitadas por causa da idolatria. Mais
importante é o fato de que aos israelitas não foi recomendada nenhuma jóia religiosa através da qual
pudessem expressar suas convicções religiosas e seu compromisso com o Senhor. Este não é um
argumento baseado no silêncio do registro bíblico. O Senhor, como já demonstramos, disse aos
israelitas o que usar a fim de informar aos outros que eles adoravam a Ele somente, e a nenhum outro
deus. Requereu deles um acessório particular simbólico em seu vestuário, mas não eram jóias. Esse
símbolo indicava que eram santos ao Senhor (Num. 15:37-41). De acordo com o Novo Testamento, essa
vida santa deveria adornar o cristão (I Ped. 3:4 e 5).
O uso de jóias como símbolo de status social, poder e autoridade se restringe a poucos casos apenas.
Aqui podemos mencionar as vestes do sumo sacerdote, as jóias do rei e da rainha, e o anel como sinete.
Desses, somente o primeiro foi explicitamente instituído pelo próprio Deus e os outros parecem ter sido
permitidos ou tolerados por Ele. Nesses casos, o elemento de adorno desempenha um papel secundário.
Quando outras pessoas além do casal real usavam jóias para estabelecer distinções sociais, os profetas
erguiam a voz contra elas (Isa. 3:18-21; I Tim. 2:9 e 10; I Ped. 3:3-6), indicando que esse tipo de jóia
não era totalmente aceitável. Mas essas exceções servem para mostrar que, pelo menos em alguns casos,
eram aceitas as jóias funcionais.

5. Rejeição de jóias ornamentais

As Escrituras deixam claro que as jóias ornamentais não deviam fazer parte do adorno do povo de
Deus. Embora a jóia realçasse a aparência do indivíduo, ela era usada por outra razão. As jóias usadas
pelo sumo sacerdote o embelezavam, mas seu propósito primordial era identificá-lo como líder
espiritual em Israel e representante do povo perante o Senhor. Sempre que se rejeitasse a natureza
funcional de uma jóia, sua função ornamental também era rejeitada. Em outras palavras, não há evi-
dência para indicar que, por exemplo, as jóais mágicas fossem aceitas se usadas só para fins ornamentais.
A rejeição de uma era também a rejeição da outra.
Nos tempos do Novo Testamento, as jóias eram comumente usadas como adorno pessoal, mas mesmo
então outras funções eram associadas a elas. Nos casos em que as jóias eram basicamente ornamentais, as
passagens bíblicas são claras ao rejeitá-las e ao descrever a natureza do verdadeiro adorno pessoal como a
prática das virtudes cristãs na vida diária do crente (I Tim. 2:9 c 10; I Ped. 3:3-6). Na verdade, o adorno
pessoal não é totalmente rejeitado, mas um tipo específico de adorno exterior é identificado como
incompatível com a vida cristã. A jóia ornamental cai dentro dessa categoria de adorno.

Podemos resumir nossa discussão dizendo que a Bíblia rejeita o uso de jóias ornamentais por parte do
povo de Deus, enquanto ao mesmo tempo aceita ou tolera o uso restrito de algumas jóias funcionais.
É óbvio que a questão das jóias na Bíblia não pode ser tratada em termos de categorias como
"totalmente errado" ou "totalmente certo". Sobre essa base, a igreja deve apegar-se àquilo que é
claro e usar os princípios bíblicos para tratar daquelas áreas em que se requer uma decisão pessoal.'

B. Fundamento Para a Norma da igreja.

Nosso estudo mostrou que há material importante sobre o assunto das jóias na Bíblia, distribuído
desde o Gênesis até o Apocalipse. O assunto está bem presente nas Escrituras, e é de interesse dos
escritores bíblicos. Esse fenômeno deve limitar significativamente o argumento de que a norma
adventista sobre jóias ornamentais brota da era vitoriana, durante o século 19. A razão fundamental
pela qual a Igreja Adventista estabeleceu essa norma foi porque nossos pioneiros criam que ela era um
ensino bíblico, herdado de outras comunidades cristãs.
Já existia uma norma cristã acerca das jóias muito tempo antes do surgimento de um adventista ou
protestante. Ela aparece no tempo da igreja primitiva pós-apostólica, para não mencionar a igreja
apostólica, na qual era apoiada não simplesmente com base nas preocupações culturais, mas com base
nas Escrituras.1 E fato que durante os primeiros três séculos da era cristã a igreja se apegava a um
padrão muito elevado no que diz respeito ao uso de jóias ornamentais. Tertuliano (160-225 d.C.)
escreveu contra ornamentos de ouro, prata e pedras preciosas, mas indicou ao mesmo tempo que não
estava estimulando a desconsideração para com uma boa aparência pessoal. Ele apontou para "o limite
e a norma e a justa medida do cultivo da pessoa. Não se deve ultrapassar a linha em que o refinamento
simples e suficiente limita os desejos - a linha que é agradável ao Senhor".2 Obviamente ele tinha em
mente I Ped. 3:3 e 4 c l Tim. 2:9 e 10, mencionados em outros lugares onde ele discutiu o adorno
cristão apropriado.3
Também encontramos Clemente de Alexandria condenando as jóias ornamentais, desafiando as
mulheres a "lançarem fora totalmente"4 os adornos e dizendo aos homens que não havia necessidade
de usarem ornamentos de ouro.5 Os brincos eram rejeitados porque "a Palavra nos proíbe cometer
violência contra a natureza, perfurando o lóbulo das orelhas". 6 E curioso que Clemente faz distinção
entre jóias ornamentais e jóias funcionais. Ele argumenta que a Palavra permite que um homem ou
mulher use um anel de ouro "para selar coisas que vale a pena guardar em casa com segurança".7 Mas
ele vai além, sugerindo que as mulheres casadas com homens não-cristãos que querem que elas usem
jóias ornamentais, só o façam para agradar o marido. Mas deveria ser seu alvo atrair gentilmente o ma-
rido para a simplicidade.8
Durante o terceiro século, pode-se começar a detectar uma leve tendência ao relaxamento quanto à
norma sobre as jóias. Mas ela ainda é defendida por escritores como Cipriano, bispo de Cartago
(morreu em 258), que admoestou mulheres ricas que queriam usar suas riquezas como bem entendiam, a
"usá-las, certamente, mas para as coisas da salvação; usá-las, mas para bons propósitos; usá-las, mas para
as coisas que Deus ordenou e as que o Senhor estabeleceu. Que os pobres sintam que sois abastadas; que
os necessitados sintam que sois ricas".9 Então ele cita Paulo, Pedro e Isaías para demonstrar que aqueles
que se adornam com ouro, pérolas e colares "perderam os ornamentos do coração e do espírito".10 Cipriano
associou as jóias à corrupção moral (prostituição) e falta de modéstia.
Por volta do quarto século, as jóias já se tornavam comuns na igreja, levando João Crisóstomo (347-
407) a tratar da questão em algumas de suas homilias. Ele considerava os ornamentos de ouro
desnecessários para homens e mulheres. Com efeito, era ridículo, dizia ele, que uma mulher fosse à
igreja usando seus adornos de ouro: "Qual é a razão possível para que ela entre aqui usando
ornamentos de ouro, ela que deveria entrar para ouvir [o preceito] 'que as mulheres se ataviem com
modéstia, ... não com ouro, ou pérolas, ou vestuário dispendioso' (I Tini. 2:9)? Com que objetivo,
então, ó mulher, entras aqui? Seria na verdade para lutar com Paulo e mostrar que, mesmo que ele
repetisse essas coisas dez milhares de vezes, não as consideradas? Ou seria um desejo de envergonhar
teus mestres, que discursariam sobre esses assuntos em vão?"11 Crisóstomo conclui essa seção com um
apelo muito específico: "Que a imagem de Deus não seja adornada com estas coisas: que a mulher se
adorne com gentileza, e a gentileza é ausência de orgulho e de jactanciosa ostentação."12
Dei atenção especial a esses escritores cristãos primitivos porque ilustram a compreensão cristã inicial da
visão bíblica sobre as jóias ornamentais, bem antes da era vitoriana. Os primeiros séculos são marcados
por forte resistência ao uso de jóias ornamentais pelos crentes. Após o quinto século, como indicou
Bacchiocchi, as jóias se tornaram o adorno oficial das ordens clericais, e muito populares entre os cristãos
durante o restante da Idade Média.13 Os Reformadores condenaram essa prática da igreja e chamaram os
cristãos de volta a uma vida de simplicidade, desestimulando o uso de jóias para o adorno pessoal. Esse
era particularmente o caso entre os anabatistas, que procuraram reformar a igreja não só em termos de
doutrinas, mas também quanto a um estilo de vida bíblico.

Essa tradição foi continuada entre os menonitas, os Irmãos e metodistas, entre outros.
Os adventistas são herdeiros dessa compreensão genuinamente bíblica dos primeiros católicos e dos
protestantes a respeito do adorno pessoal. A História indica uma tendência recorrente entre aqueles que
têm defendido uma elevada norma bíblica sobre jóias ornamentais, no sentido de relaxar a norma até
que se torne virtualmente inexistente. Talvez o motivo seja que a sua base bíblica é esquecida ou
considerada irrelevante. Esse é o tipo de pressão que a Igreja Adventista enfrenta hoje.

C. Conclusão

A multiplicidade de referências bíblicas sobre jóias, quando cuidadosamente analisada, revela um


padrão consistente de significado e coerência através das Escrituras. Reconhecendo que na Bíblia as
jóias têm diferentes funções e que algumas delas são aceitas ou toleradas, enquanto outras são rejeitadas,
podemos entender a atitude dos escritores bíblicos para com as jóias. Foi precisamente esse material
bíblico que proporcionou à igreja cristã, e mais particularmente à Igreja Adventista, o fundamento sufi-
ciente para uma norma bíblica acerca do uso de jóias.

IM P L IC A Ç Õ EPSA R AA I G R E J AE P E R I G O SP O T E N C IA IS

Aqueles que crêem que a Bíblia é sua norma de fé e prática estão dispostos a perguntar como os ensinos
bíblicos sobre o uso de jóias afetam sua vida cristã. Reconhecemos que é um assunto delicado guiar as
pessoas no tocante ao que usar ou não usar, mas o fundamental neste caso é a questão da autoridade da
Bíblia em nossa vida. Os adventistas sempre alegaram estar dispostos a ouvir e submeter-se à vontade de
Deus expressa nas Escrituras, e por essa razão deveríamos sentir-nos livres para explorar as implicações
do ensino bíblico sobre jóias para nós hoje. Curiosamente, esse assunto não é tão complexo quanto
alguns tendem a crer, uma vez que compreendamos o ponto de vista bíblico sobre o tema. Exploremos,
então, algumas dessas implicações.

A. Algumas Implicações

/. A norma adventista acerca das jóias e a Bíblia

A norma adventista acerca das jóias rejeita o uso de jóias de adorno, reconhecendo ao mesmo tempo que
existe algo considerado jóia funcional e que usá-la não é necessariamente uma violação dessa norma. Como
já se discutiu anteriormente, é isso que a Bíblia declara a respeito do uso de jóias. E verdade que para algu-
mas pessoas é difícil aceitar o conceito de que as jóias poderiam ter hoje diferentes funções, mas as jóias
mesmo no mundo ocidental desempenham funções diversas. Jóias religiosas são comuns no movimento da
Nova Era, bem como entre alguns cristãos (exemplo: o crucifixo, entre os católicos); e o interesse pelo
oculto tem trazido consigo o uso de jóias com função protetora. Em alguns países, as jóias são usadas para
indicar o papel social de rainhas, reis e chefes tribais. Logicamente, a mais bem conhecida peça de jóia
funcional é a aliança de casamento, usada como símbolo de um compromisso de amor com o cônjuge.
Entretanto, na maioria dos casos a função primordial de uma jóia hoje parece ser o adorno. É esse aspecto
ornamental que a igreja, seguindo as Escrituras, tem rejeitado como impróprio para os cristãos.
Geralmente, mas não exclusivamente, as jóias de adorno assumem a forma de brincos, pendentes para o
nariz, braceletes, anéis, colares e tornozeleiras, usados para realçar a aparência da pessoa. Em certa medida,
essa é a definição explícita de jóia ornamental que encontramos no "Voto Sobre Ostentação e Adorno",
tomado pela Associação Geral durante o Concilio Anual de 1972. Ele declara: "Que na área do adorno
pessoal, não sejam usados colares, brincos, braceletes, anéis com pedras e outros anéis ornamentais."1
2, Uso restritivo de jóias funcionais

Sem dúvida, esta é a área que tende a criar confusão na mente de alguns adventistas que preferem
rejeitar todo tipo de jóia como mau, ou entre aqueles que se interessam em rejeitar a norma enquanto
preservam o princípio por trás dela. Ao permitir o uso limitado de uma jóia funcional, a igreja está
seguindo a posição bíblica. A questão que a igreja enfrenta aqui é definir jóia funcional e declarar em
que ponto ela se torna jóia ornamental.
Sendo que a maior parte das sociedades parece ter uma compreensão cultural clara do que seja uma jóia
funcional, não é necessariamente difícil identificá-la. Talvez o que precisemos perguntar seja: Qual é o
propósito particular desta peça de joalheria em nossa própria cultura? Se formos incapazes de encontrar
um propósito, então ela é provavelmente um adorno. No mundo ocidental, é geralmente fácil identificar a
jóia funcional porque sua função é parte intrínseca de suas possibilidades de mercado c satisfaz a uma
necessidade específica na apresentação ou na vida do indivíduo. Por exemplo, um relógio é feito com o
expresso propósito de nos ajudar a conservar a noção do tempo; unia aliança de casamento é vendida
precisamente como aliança de casamento; as abotoaduras são feitas de maneira a facilitar a junção dos
punhos. O broche pode ser um adorno funcional se prender peças do vestuário, como o faziam as
presilhas no mundo antigo.
É óbvio que a jóia funcional pode ser confeccionada de tal modo que sua função de adorno se evidencie
acima de qualquer outro propósito útil. Nesse caso, deve ser considerada imprópria para ser usada por
um cristão. Sobre qual base se deve decidir essa questão? A solução que o texto bíblico parece sugerir é
usar princípios bíblicos para determinar o que é e o que não é apropriado como adorno pessoal.
Provavelmente, poderiam ser identificados muitos princípios, mas a igreja identificou os três mais
importantes: simplicidade, modéstia e economia. As jóias funcionais devem ser avaliadas com base
nesses três princípios.
A "simplicidade"', embora não seja um termo bíblico comum, é considerada uma importante virtude
cristã. No Novo Testamento, o termo grego haplotes parece ser o mais importante usado para expressar
conceitos de simplicidade, singularidade, sinceridade.2 A utilização desse termo na tradução grega do
Antigo Testamento e no Novo Testamento indica que a simplicidade consiste numa dedicação não
dividida a um só propósito, isto é, o serviço de Deus. Caracteriza-se pela ausência de comportamento
ambíguo ou dúbio (cf. II Cor. 11:3; Mat. 6:22). Com efeito, "em oposição a pessoas irresolutas, aquelas
que têm o coração dividido, as que são simples não têm outra preocupação a não ser cumprir a vontade de
Deus, observar-Lhe os preceitos; sua existência inteira expressa essa disposição do coração, essa retidão."1
A simplicidade como entrega total e sem reservas ao Senhor c Sua vontade se expressa na maneira como
agimos e nos adornamos. As jóias funcionais devem revelar que o centro de nossa vida está em nosso
compromisso com Cristo e não numa exibição ego cêntrica de adornos aparatosos. Um coração não dividido
mostrará sua plena lealdade ao Salvador num estilo de vida e serviço sem ambigüidade, a Ele e aos outros.
O princípio da simplicidade na escolha das jóias funcionais significa que essas jóias darão testemunho do
fato de que vivemos uma vida despretensiosa e irrepreensível, voltada exclusivamente para nosso
Salvador e Senhor. Isso é realmente a coerência da simplicidade do coração.4
A "modéstia" é usada por Paulo em sua discussão do adorno cristão apropriado (I Tim. 2:9), e com isso
ele queria referir-se a um respeito próprio determinado pela alegação de estar vivendo uma vida
agradável ao Senhor. Conseqüentemente, isso leva a evitar o excesso dos extremos e reconhece os
limites daquilo que é apropriado, agindo em harmonia com eles. O que é apropriado não é
simplesmente o que a sociedade tem estabelecido, mas primordialmente o que foi especificado nas
instruções dadas pelo apóstolo à comunidade dos crentes. Onde quer que a instrução cristã coincida
com os valores da sociedade, há benefício para a igreja no sentido de que os valores de seus membros
não entram em conflito com aqueles dos não-crentes. Em resumo, as jóias funcionais modestas evitam
extremos de ostentação e são leais aos parâmetros cristãos quanto ao decoro pessoal.
É difícil definir a "economia", porque varia de pessoa para pessoa. O que é barato pode a longo prazo mostrar-
se caro, e o que é caro pode revelar-se mais econômico. Nos textos bíblicos que tratam de jóias, não se dá
ênfase ao princípio da economia. A Bíblia, contudo, tem muito a dizer acerca da mordomia de nossos
recursos financeiros e nossa prestação de contas para com Deus.5 No caso de jóias funcionais, a "economia"
provavelmente tenha o significado de que, como em geral as jóias caras tendem a ser chamativas, devemos evi-
tar adquiri-las, e que viola nossa responsabilidade como mordomos de Deus investir quantias significativas
de dinheiro naquilo que, do ponto de vista bíblico, é de pouco valor para a vida cristã.

3. Símbolo de status social

A jóia como símbolo de status social e poder é em alguns poucos casos tolerada na Bíblia, mas em outros é
desaprovada. Esse fenômeno deve alertar-nos a ser muito cuidadosos quando lidamos com essa função
particular das jóias na igreja. Aqui enfrentamos uma situação na qual as práticas culturais ao redor do
mundo podem desempenhar uma função importante naquilo que for decidido pela igreja. Por exemplo, os
oficiais militares geralmente exibem nos uniformes as insígnias e medalhas que servem para identificar atos
de coragem e seu papel social. Essa é uma prática social bem-aceita e a igreja pode considerar esse tipo de
jóia como funcional. Outro exemplo: o anel de formatura serve apenas como sinal de nossa superioridade
sobre outros que, por várias razões, não puderam conseguir aquilo que nós conseguimos no mundo acadê-
mico. É ele uma peça apropriada de joalheria funcional? Dificilmente. Mas talvez o princípio dominante
seja que qualquer ação, atitude ou símbolo que introduza distinções sociais desnecessárias entre os crentes
deva ser cuidadosamente avaliado e, sempre que possível, deposto aos pés da cruz, onde todos somos
igualmente pecadores e carentes da graça. A ênfase deve ser colocada sobre aquilo que une — não sobre
aquilo que separa.

4. Princípios versus normas

A norma sobre jóias (rejeição das jóias de adorno; uso restritivo das jóias funcionais) e os princípios que
regem o uso de jóias funcionais (como por exemplo a modéstia), têm relevância permanente através do
tempo e das culturas. Esses princípios podem e devem ser usados para determinar o que é apropriado
com respeito a jóias funcionais. Nesse caso particular, a igreja não deve apresentar uma lista daquilo que é
apropriado ou não, mas dar orientação geral e permitir que os membros, sob a guia do Espírito,
apliquem os princípios bíblicos a cada prática cultural específica. Devemos reconhecer que existem áreas
na vida cristã em que a própria pessoa e seu Senhor devem decidir o que fazer. Isso é, com efeito, sinal de
maturidade cristã e espiritual. É possível c até provável que alguns usem mal a sua liberdade, mas esse
argumento não deve ser empregado para negar a liberdade que nos c garantida pela própria Bíblia.

B. Perigos Associados com a Norma Acerca das Jóias

Qualquer norma cristã pode ser mal usada e aplicada, perdendo portanto sua intenção original positiva e
sua contribuição para com o bem-estar do crente. A norma bíblica sobre jóias não é, com certeza, uma
exceção. Exploraremos alguns dos perigos que podemos enfrentar ao dar ênfase à aceitação da norma
sobre jóias, dando ao mesmo tempo algumas sugestões sobre como lidar com elas em nossa vida.

1. Pecado e jóias

Não há dúvida de que na Bíblia o pecado é muito mais do que um determinado ato que prejudica o
perpetrador ou alguém mais. Pecado é a condição sob a qual existimos; ele tem corrompido nossa
natureza a ponto de que, seja o que for que fizermos, precisaremos da mediação de Cristo diante de
Deus a fim de que Ele nos aceite. Nenhum ato nosso, "bom" ou "mau", deixa de estar maculado pelo
pecado. Pode-se provavelmente dizer que o pecado precede o pecado como ato mau. Esse estado e o
ambiente pecaminoso no qual existimos não serão erradicados antes da gloriosa manifestação de nosso
Salvador e Senhor Jesus Cristo em Sua segunda vinda.
Enquanto isso, o Espírito opera em nosso coração, não permitindo que nossa natureza pecaminosa nos
governe para nos levar a um comportamento pecaminoso. O domínio do pecado sobre nós é fortalecido e
mesmo concretizado por nossos atos pecaminosos. Não é urna trivialização do pecado defini-lo como atos
cometidos contra a vontade de Deus, os quais nos prejudicam e, em muitos casos, àqueles que nos
rodeiam. Pecado é matar alguém, furtar, trabalhar no sábado, porque nesses atos pecaminosos o domínio
do pecado sobre nós se materializa. Vencer esses atos pecaminosos é uma vitória sobre o pecado como ato
e também como estado. Esse é o tipo de vitória que o Senhor deseja que desfrutemos.
O fato de que a norma sobre as jóias trate mais diretamente de atos exteriores não trivializa o pecado6
mas, ao contrário, nos informa como o Espírito pode limitar o poder, o domínio e as incursões do
pecado em nossa vida. Pode-se dizer que a obediência às ordens específicas de Deus é unia proclamação
da soberania de Cristo em nossa vida. Isso, obviamente, não significa que nossa natureza tenha sido
libertada de uma vez por todas de sua pecaminosidade, mas significa que estamos alegremente aguar-
dando o momento em que isso ocorrerá.

2. Legalismo e jóias

O perigo mais ameaçador enfrentado por aqueles que enfatizam a obediência à Lei de Deus e às normas
bíblicas específicas é o legalismo. O legalismo distorce a obediência, criando uma monstruosidade
religiosa que destrói a própria essência da mensagem cristã da salvação exclusivamente em Cristo, e
nesse processo cria no indivíduo uma sensação de orgulho. Essa ameaça é enfrentada não só por aqueles
que aceitam a norma bíblica sobre jóias, mas por qualquer pessoa que procure obedecer ao Senhor. No
caso das jóias, uma remoção legalista de jóias ornamentais e o uso de jóias funcionais simples, modestas
e econômicas destrói a própria intenção da norma, porque em lugar da negação própria e da humildade,
leva ao egoísmo e orgulho.
O legalismo vem sempre acompanhado por uma atitude julgadora. Aqueles que aceitam a norma bíblica
acerca das jóias podem ser tentados a sentir-se superiores em relação aos que não se comprometeram com
ela por completo. Obviamente, poderíamos dizer a mesma coisa acerca da observância do sábado, da de-
volução do dízimo e da realização de trabalho missionário. Por conseguinte, a questão não é a jóia, mas o
engano do coração humano que às vezes toma aquilo que é bom - a obediência a Deus - e o transforma
num meio de conquistas pessoais e orgulho. Necessita-se de uma consciência do fato de que a genuína
obediência é uma expressão humilde de gratidão para com Deus e nosso Salvador, por aquilo 'que
fizeram por nós na cruz. Nossa obediência é uma oferta de amor a Deus, e Ele não espera que
comparemos aquilo que Lhe trazemos com o que outros seres humanos estão trazendo a Ele. Sempre
que tentarmos auxiliar os outros em sua experiência cristã, devemos fazê-lo com amor e não com
espírito de condenação e rejeição.

3.Princípios, jóias, casas, carros?

Não há dúvida de que os princípios de simplicidade, modéstia e economia estendem-se para além da
esfera do vestuário e adorno pessoal. Devemos pessoalmente buscar aplicá-los da maneira mais ampla
possível a cada dimensão de nosso caminhar com Deus. Talvez, por vezes, a igreja tenha
involuntariamente se inclinado a sublinhar sua aplicabilidade apenas à área do vestuário e adorno. Se foi
esse o caso, o apelo à igreja é expandir a aplicação desses princípios a muitos outros aspectos da
experiência cristã. Nessa tarefa, entretanto, a igreja precisa ser extremamente cuidadosa para não criar
novas normas que poderiam ser desnecessariamente um fardo para os membros da igreja.
Ninguém deveria esperar que a igreja decidisse por seus membros o que é um carro modesto e econômico,
uma casa modesta ou um relógio simples. Essas são áreas nas quais a igreja deve apenas ensinar os
princípios cristãos e desafiar seus membros a usá-los na tomada de decisões pessoais na sua vida diária. A
pergunta óbvia é: Por que não podemos fazer o mesmo quando se trata da norma sobre jóias
ornamentais? A resposta é simples: A própria Bíblia estabeleceu para isso uma norma particular e, portan-
to, a igreja pode e deve ensiná-la. Naquelas áreas em que a Escritura fala claramente, não temos escolha a
não ser atentar para ela. A aplicação dos princípios que governam a norma acerca das jóias e outras áreas
deve ser deixada para a atuação do Espírito no coração daqueles que alegam viver uma vida agradável ao
Senhor.

4. Gênero e jóias

Também tem havido na igreja uma tendência de apresentar a questão das jóias quase exclusivamente
com referência a seus
membros da ala feminina. Até certo ponto isso é compreensível, se levarmos em consideração o fato de
que, até recentemente, a maioria das jóias ornamentais no mundo ocidental era usada principalmente
por mulheres, e de que algumas das passagens bíblicas eram dirigidas especificamente a elas. Mas agora
está claro que nos tempos bíblicos a questão das jóias afetava a ambos os gêneros e que hoje as jóias são
usadas tanto por homens como por mulheres. Por isso, não deveríamos lidar com esse tema como se
fosse um problema feminino, mas considerá-lo como realmente é: uma parte do dilema humano.

C. Conclusão

Não se deve permitir que o assunto das jóias distraia nossa atenção das boas-novas da salvação pela fé em
Cristo. É dentro do contexto do evangelho que devemos ensinar a norma bíblica sobre as jóias; caso
contrário, cairemos na armadilha do legalismo ou da tendência de julgar os outros. Ao ensinar a norma
bíblica acerca das jóias, devemos deixar claro que a jóia ornamental é rejeitada, mas a funcional não. Fazer
distinção entre ambas pode parecer às vezes um pouco difícil, mas não precisa ser difícil.
A jóia funcional é facilmente identificada na maioria das culturas e, portanto, devemos permitir que as
práticas culturais nos tragam essa informação. Em outras palavras, a jóia funcional não é definida por
desejos pessoais mas por respeitadas crenças e práticas culturais. Por exemplo: a igreja deve estar
disposta a reconhecer que, em algumas culturas, um colar serve para indicar que a mulher que o usa é
casada; em outras culturas, o colar é um simples adorno. Na primeira situação, o colar é aceitável, mas
na outra deve ser rejeitado. Na seleção de jóias funcionais, o cristão deve seguir os princípios bíblicos
de modéstia, simplicidade e economia.
Essa abordagem da questão das jóias se baseia no fato de que a Bíblia combina uma norma específica
sobre jóias (rejeição de jóias ornamentais e uso restritivo de jóias funcionais) com um conjunto de
princípios a serem usados na seleção de jóias funcionais. Para que a igreja permaneça fiel ao testemunho
das Escrituras, deve ensinar ambos os elementos.

RA Z Õ E SP A R A A N O R M AB Í B L I C AA C E R C AD A S JÓ IA S

Dificilmente encontramos uma razão explícita dada pelos escritores bíblicos para a norma acerca das
jóias. Com efeito, raramente encontramos uma justificativa bíblica para alguma ordem específica do
Senhor. Como o Deus do concerto, Ele informou ao Seu povo o que espera dele em termos de como
relacionar-se com Ele e uns com os outros. E principalmente através da análise teológica que somos
capazes de descobrir algumas das razões para aquilo que o Senhor requeria de Seu povo. No caso das
jóias, uma série de conceitos associados a elas proporciona algum entendimento sobre a utilidade da
norma.

A A Norma Acerca das Jóias e a Vontade de Deus

A razão fundamental dada na Bíblia para a obediência a qualquer um dos mandamentos é que eles são a
expressão da vontade inquestionável de Deus para Seu povo. Essa abordagem autoritária não é popular
em nosso tempo, quando se questiona a autoridade e tudo é avaliado não meramente em termos do que
é razoável, mas particularmente em termos do benefício a ser obtido. Se não posso tirar proveito, não
há razão para me incomodar com isso. O que geralmente se passa por alto nessa abordagem é que a
expressão da vontade de Deus para nós traz sempre consigo tremendos benefícios para aqueles que a
aceitam. Podemos não querer argumentar que a obediência à vontade de Deus deva basear-se em
motivos egoístas, mas o fato é que a vontade de Deus para nós é sempre boa.

O chamado de Deus a uma inquestionável obediência tem o propósito fundamental de nos auxiliar a
vencer o egocentrismo. A submissão à Sua vontade requer de nós o reconhecimento de que Ele, como
Criador e Redentor, tem a autoridade de definir para nós o que é melhor para a nossa vida. A submissão à
Sua vontade é essencialmente um ato de negação do próprio eu, que é precisamente o que Ele pretende
conseguir através da ordem. Ele está na realidade tentando nos recriar e restaurar à nossa condição original
de completa harmonia com Ele. Por conseguinte, quando Deus nos informa que o uso de jóias
ornamentais não está de acordo com Sua vontade para nós, Ele está ensinando a negação do próprio eu na
maneira como nos adornamos. Com muita freqüência, a reação natural humana é opor-se à vontade de
Deus ou questioná-la, porque a natureza humana caída não está interessada em negar-se. Queremos ser nós
mesmos; ser da maneira como somos. Mas o que o Senhor está declarando é que a maneira como somos
hoje não é a maneira como Ele nos criou no início, e que Ele está interessado em nos ajudar a sermos aquilo
que realmente devemos ser.
Cada um dos mandamentos de Deus é um chamado à negação do eu, um convite para colocar de lado
nossa vontade para a nossa vida e aceitar a Sua vontade para nós. Substituir nossa vontade pela Dele é
algo realizado pelo Espírito para nosso próprio benefício, e não para benefício de Deus. Ele não precisa
de nossa submissão a Ele; nós é que necessitamos dela, porque é nesse ato que nos tornamos aquilo para
o qual fomos criados e aquilo que de fato gostaríamos de ser. Deus deseja nos curar da doença do
egocentrismo e isso se faz, entre muitas outras maneiras, através do chamado à negação do eu na forma
como nos adornamos.

B. A Norma Acerca das Jóias e o Valor Humano

A sociedade nos condicionou a crer que nosso valor pessoal depende de coisas como títulos acadêmicos,
riqueza, o tipo de carro que dirigimos, a casa e o local onde moramos e nossa aparência pessoal. A
norma bíblica sobre as jóias é uma acusação contra uma sociedade que nos escraviza, destruindo nosso
valor próprio a fim de tentar cultivá-lo adicionando à nossa vida cois as externas e supérfluas. Pareceria
que, para a sobrevivência de sistemas econômicos mundiais, seria necessário que primeiro eles
diminuíssem nossa auto-imagem e depois nos convencessem a crer que, para sermos atraentes, influentes
e poderosos, precisaríamos comprar o que eles nos oferecem. A Bíblia deseja que rompamos com esse
poder social e econômico escravizador.1
A Bíblia reafirma nosso valor próprio com base na criação e redenção. Deus nos criou à Sua imagem e
não associou esse valor intrínseco á jóias ornamentais exteriores (Gên. 3:21). Cristo, tampouco, espera
que nos embelezemos a fim de termos valor para Ele. Somos ricos Nele, mas essa é a riqueza e o valor de
uma existência vivida em comunhão com Ele. Se há um tempo em que a norma bíblica sobre as jóias
deve ser defendida, é agora. A opressão social é sempre maligna, mas tendemos a passar por alto
algumas de suas mais óbvias expressões. Conseqüentemente, temos a tendência de nos submetermos
humildemente a elas e, nesse processo, nossa dignidade se reduz. Nossa norma acerca das jóias é uma
rebelião contra essa exigência social penetrante e uma reafirmação de nosso valor em Cristo.

C. A Norma Acerca das Jóias e uma Vida Sossegada

Existe uma grande inquietação no coração humano, a qual se revela de diferentes maneiras, incluindo a
forma como os seres humanos se enfeitam. O sossego é uma necessidade humana fundamental. E
verdade que nos realizamos através de nossas ações, pois somos agentes dinâmicos e não há nada de
errado com esse aspecto de nossa existência. Mas, por causa do pecado, a função de nossos feitos e ações
tem sido distorcida e eles se tornaram o meio através do qual buscamos a realização pessoal à parte de
Cristo. Foi provavelmente em resposta a esse problema que Jesus disse: "Vinde a Mim, todos os que estais
cansados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei" (Mat. 11:28).
Pedro associa a norma acerca das jóias com "um espírito manso e tranqüilo", e isso quer dizer confiança
em Deus e serenidade (I Ped. 3:4). A norma sobre as jóias é um chamado a uma vida de descanso em Cristo.
Pedro parece estar dizendo que o uso de jóias de adorno tende a revelar um espírito inquieto, uma busca
não concretizada por paz interior e tranqüilidade, e ele deseja que indiquemos, através de nosso adorno
pessoal, que encontramos repouso em Cristo. Não é necessário que aqueles que seguem a Jesus costurem
"folhas de figueira e [façam] cintas para si" (Gên. 3:7).

D. A Norma Acerca das Jóias e a Humildade

Na Bíblia, as jóias estão por vezes associadas a orgulho, ostentação e idolatria (veja Isa. 3:18-21; Gên.
35:2-4). São consideradas uma expressão de nosso poder e a forma como nos vemos e aos outros. O
orgulho é fundamentalmente uma autopercepção idolatra que nos faz crer que somos mais do que na
realidade somos. Esse auto-engano exerce um impacto sobre a maneira como tratamos os outros, já que os
percebemos como inferiores a nós. O adorno exterior tende a expressar e alimentar esse orgulho, e dessa
forma pode deslocar nosso amor a Deus. Chamando-nos a colocar de lado as jóias ornamentais, o Senhor
nos convida para um caminhar humilde ao Seu lado, o que contribuirá para aprofundar nosso amor para
com Ele, para romper as barreiras sociais e nos ensinar a confiar em Seu divino poder em nossa vida (I Ped.
3:4).
O Senhor está procurando atingir o mesmo alvo de muitas maneiras, a norma acerca das jóias contribui
para isso. Portanto, para um cristão é contraproducente ter orgulho de não usar jóias, porque a
própria norma é um chamado à humildade cristã. A humildade não deve ser entendida como
significando que não se deve dar atenção a nossa aparência exterior. Lembre-se de que a Bíblia não
condena todas as formas de adorno exterior, mas qualifica-o como simples, modesto e econômico.

E. A Norma Acerca das Jóias, a Graça de Deus e a Comunidade dos Crentes

As Escrituras colocam significativa ênfase sobre o ato de lembrar o que o Senhor tem feito por nós no passado,
porque essa lembrança exerce impacto sobre o presente e o futuro. Os seres humanos esquecem, mas Deus
não quer que nos esqueçamos de Sua longanimidade para conosco. E interessante notar que a rejeição das
jóias está relacionada com uma humilde rededicação a Ele, a qual se apóia em Sua graça perdoadora (veja
Êxo. 33:5 e 6). É possível dizer que a implementação da norma sobre as jóias na vida dos crentes pode
funcionar como um lembrete do fato de que Deus, por Sua amorável graça, não exige que eles se
melhorem a fim de ser aceitos por Ele. Nossa redenção não foi comprada com ouro e prata, mas com o
sangue do Filho de Deus (I Ped. 1:18 e 19).
Essa transferência das trevas para a luz de Cristo nos incorpora na família de Deus. Pedro fala de
santidade no contexto das jóias, no sentido de sermos parte do povo de Deus, isto é, pertencermos a Ele
e à comunidade dos crentes (I Ped. 3:5). A norma cristã acerca das jóias estabelece limites e contribui
para a identidade exterior dos membros dessa comunidade. Isso requer uma renovação e uma
rededicação à nossa compreensão comunitária de um estilo de vida bíblico e cristão, e envolve a rejeição
de uma idéia particular a esse respeito.2

F. A Norma Acerca das Jóias e a Recriação

As Escrituras declaram que uma vida adornada com a graça de Deus, e não com jóias ornamentais, é
agradável a Deus (I Ped. 3:4). O sistema de valores divino governa a vida de Seu povo. O pecado
distorceu a compreensão dos verdadeiros valores, mas Deus é descrito como disposto a nos ajudar a
reconhecê-los. Quando seguimos a instrução bíblica sobre o adorno pessoal, desenvolvemos através do
poder do Espírito novos valores, e até mesmo um novo gosto estético. Na verdade, estamos
incorporando em nossa vida os valores e a estética de Deus. Obviamente essa não é a única maneira
como Deus realiza isso, mas é uma delas.
Deus está disposto a usar a norma bíblica sobre as jóias para nos transformar à Sua semelhança. Ao
colocá-la em prática, estamos imitando a Deus, tornando-nos mais e mais como Ele e aceitando os
princípios da estética pessoal que são mantidos por Ele em valor real.

G. A Norma Acerca das Jóias e a Soberania de Cristo

As boas-novas do evangelho são que Cristo morreu em nosso lugar, levando nosso pecado e culpa a fim de
sermos justificados pela fé Nele. Podemos reivindicá-Lo como nosso Salvador. Mas o evangelho também nos
convida a reivindicá-Lo como o Senhor de nossa vida. É importante recordar que esse senhorio não se
retringe a uma experiência espiritual ou religiosa separada da realidade de nossa vida diária. Deve Ele ser
Senhor sobre cada aspecto da vida.

Os adventistas têm insistido no fato de que Cristo é Senhor de nosso tempo, espaço, intelecto, recursos
e corpo. Com efeito, chegamos a dizer que Ele é Senhor até mesmo daquilo que comemos, informando-
nos o tipo de alimento que devemos consumir. Não existe dimensão secular na vida de um cristão. A nor-
ma sobre o uso de jóias nos informa que Ele também é Senhor da maneira como nos enfeitamos.
Nossos valores se expressam pelo modo como adornamos nosso corpo, contando aos outros o que tem
importância fundamental em nossa vida. Não podemos ser permanentemente leais a nós mesmos se
aquilo que fazemos e o modo como nos apresentamos não estão de acordo com nossos valores e
convicções íntimas.
Quando nos olhamos no espelho, a ausência de jóias de adorno deve nos lembrar que Cristo é na verdade o
Senhor de nossa vida. Mas também deve nos lembrar que Ele deseja que demonstremos a Sua soberania
em nossa vida diária, incorporando os princípios de simplicidade, modéstia e economia em tudo o que
fazemos.

H. Conclusão
A norma adventista quanto ao uso de jóias é apoiada pela análise contextual dos textos bíblicos
(devendo o uso cristão dês- sãs passagens desenvolver uma norma acerca das jóias) e também por razões
religiosas, teológicas e pragmáticas fundamentais. Há muita coisa em jogo, para que a igreja negligencie
ou rejeite a expressão da vontade de Deus para Seu povo nessa área. Necessita-se de uma compreensão
clara por parte de pastores, professores e líderes da igreja a respeito dessa norma, a fim de torná-la relevan-
te para os membros da igreja ao redor do mundo.
Uma responsabilidade particular repousa sobre os ombros daqueles que trabalham com os jovens, ao
transmitirem para a nova geração uma norma que vai contra a índole da sociedade. Talvez seja esse o tipo de
desafio de que nossos jovens precisam: um chamado para denunciar a sociedade numa área que afeta sua
auto-imagem de modo muito direto. Nessa tarefa, a igreja inteira deve proporcionar apoio moral, vivendo a
norma bíblica acerca das jóias.

Você também pode gostar