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ECE – Temas e Problemas em Filosofia (matutino)

Prof. Cadu Ribeiro

Aluno: Leonardo Ramos


Moreira RA: 13201910076

Atividade de revisão do eixo 1

1. A partir do texto As teses contrárias a respeito da origem da Filosofia, de M.


Chaui, faça um resumo das três teses e apresente, mais detalhadamente, as
características da terceira tese definida pela autora.
R: Milagre grego vs orientalismo:

O primeiro historiador, Diógenes de Laércio, que reuniu e publicou as opiniões dos


filósofos pode ser considerado o principal responsável pela dicotomia entre o “milagre grego”
e “origem oriental da filosofia, descrevendo, logo na abertura de sua obra, a oposição de ideias
acerca do surgimento da filosofia e reivindica ao gregos -- contrariando, inclusive Aristóteles e
Heródoto -- o nascimento não só da filosofia, mas de todo a humanidade, já que para um
grego, os homens se dividiam em bárbaros, com costumes e línguas rudes e os próprios
gregos, com linguagem e cultura superior. “[...] ao atribuir aos estrangeiros as próprias
invenções dos gregos, todos esses autores pecam por ignorância, pois os gregos deram
nascimento não só a filosofia, mas como a todo o gênero humano [...]. Sim, foram os gregos
que criaram a filosofia, cujo nome, aliás, não soa estrangeiro” (Diógenes de Laércio, p.31).

A ideia “orientalista” surge em dois momentos diferentes, primeiro durante a Grécia


clássica, quando historiadores e filósofos importantes reconheceram a influência dos ditos
“bárbaros” na filosofia grega, e depois durante o helenismo. A tese ganha ainda mais força na
Renascença, quando filósofos ocultistas afirmarem que eram os egípcios os criadores de todos
os saberes, baseando no fato de Platão ter considerado a sabedoria dos sacerdotes de Egito
superiores.

Esse pensamento não é absurdo, se levarmos em conta as relações entre os povos pré-
helênicos com as grandes civilizações orientais, como Egito e Babilônia, que já tinham um
começo do desenvolvimento de ciência. A tese orientalista é reforçada pelo fato das religiões e
mitos apresentarem semelhanças em algumas concepções incorporadas pelos gregos. Mas
como observa o historiador Abel Rey, os poetas gregos exaltavam a sabedoria oriental por dois
motivos: 1) o mito da Idade do Ouro, onde havia comunhão entre homens e deuses,
felicidade, conhecimento e imortalidade. 2) pelo conservadorismo e medo de chocar os
contemporâneos com ideias novas, tendo a crença de que o antigo é sempre uma autoridade
de conhecimento pelo simples fato de ser antigo ou tradicional.

A ideia defendida por Diógenes afirma a originalidade da filosofia grega como um


milagre, pois não teria nada nas culturas vizinhas que se assemelharia a ela, pois é repentina e
não poderia ser explicada pelas relações de causa e efeito que se desenvolveu com o passar do
tempo. Milagre, pois, a criação para o Ocidente vai além da filosofia, criaram a ciência e o
modo de pensar e intervir na sociedade cujo legado permanece até os dias de hoje.
As duas teses são carregadas de exageros e preconceitos, que foram limitados por
estudos durante os séculos XIX e XX, e mostraram que de fato houve influência oriental na
construção da cultura grega. Porém nada nos impede de falar num “milagre grego” se
levarmos em conta alguns aspectos: 1) a mudança qualitativa nas ciências, principalmente na
matemática e astronomia, produzida pelos gregos em relação a outros povos. 2) numa
melhora sobre as formas de organização social e política. 3) na própria criação do que
chamamos de cultura, uma relação entre comunidade e indivíduo do homem como ser
racional e político. O “milagre” como o fato de a filosofia ter surgido na Grécia sem influências
históricas é uma inverdade.

Harmonia luminosa vs Dilaceramento desmedido:

O classicismo de Goethe e de tantos outros retoma a ideia do “milagre grego” por um


outro aspecto, consideram que o “gênio helênico” se perdeu com o passar dos anos e por isso
não haveria outra civilização com as características necessárias para a criação da filosofia. Para
esses autores, o grego seria diferente de todos os outros povos, seriam o povo que
conseguiriam combinar intelecto com sensibilidade, natureza e humanidade, matéria e
espírito.

Contrapondo essa ideia estão os filósofos Rousseau e Nietzsche. O primeiro afirma que
a grandeza dos gregos é explicada pelo antagonismo de suas cidades, tanto no interior de cada
uma, como entre a diferença entre elas, como também aconteceu, posteriormente, no
surgimento das cidades italianas na Renascença, não seria a paz e harmonia que explicaria o
mito grego e sim as lutas e disputas que estimulariam as criações sociais, políticas e
intelectuais gregas. Para Nietzsche, os gregos só foram capazes de criar a filosofia, porque
havia, em seu povo uma dicotomia, o princípio dionisíaco, da barbárie, do cruel, da
embriaguez e do pessimismo em contrapartida com o princípio apolíneo, da luz e da
serenidade, essa antítese governaria os gregos.

Para Nietzsche, a filosofia nasce e morre nos pré-Socráticos, pois eles passaram por
essa dicotomia, enquanto Sócrates, Platão e Aristóteles estavam somente preocupados com o
lado apolíneo. Sustentando a sua opinião, menciona fragmentos de filósofos pré-socráticos. A
partir de Sócrates, morre a filosofia e nasce a racionalidade.

As duas idealizações, feitas por Goethe e Nietzsche, são extremas. Ambas


desconsideram as condições históricas que levaram a formação da sociedade e política grega e
as próprias contradições interna das cidades gregas.

Descontinuidade entre mito e filosofia vs continuidade entre mito e filosofia:

Hegel descreve a filosofia oriental como uma religião, argumentando que não existe a
individualidade e sim o ser infinito, indeterminado que não pode ser pensado. Em confronto
com essa ideia, surge na Grécia a filosofia que antes era indefinida e indeterminada passa a ser
qualificada, individualizada, pensada e nomeada. Aponta também condições objetivas que
tornaram possível o nascimento da filosofia grega, o desaparecimento da sociedade patriarcal,
surgimento das cidades livres e organizadas por lei, a consagração do conhecimento científico,
colocando o filósofo grego como um homem político e pensador, e não uma figura religiosa
como encontramos no “filósofo oriental”.
Outros pensadores, como Burnet afirmam que “a filosofia nasce quando as velhas
explicações míticas e religiosas da realidade já não podiam explicar coisa alguma e haviam se
tornado contos fantasiosos aos quais ninguém dava crédito”. As viagens comerciais facilitaram
a liberação do mito grego, já que muitos negociantes percorriam terras que era descrita por
poetas e descobriram que não havia deuses ou monstros, mas sim outros seres humanos.
Porém duas outras qualidades dos gregos também contribuíram para o nascimento não só da
filosofia, como o nascimento da ciência ocidental, da lógica e da razão: o espírito de
observação e o poder de raciocínio. Influenciado pelo cientificismo da época, Burnet, contra a
continuidade da filosofia pelo mito descreve duas características do mito que são contrárias a
filosofia nascente: 1) enquanto o mito narra sobre o antes de tudo existir, o filosofo pergunta e
explica coisas que existem, o mito narra o passado, o filosofo explica o presente; 2) o mito usa
as contradições para justificar os deuses, o filósofo afirma que tudo pode ser compreendido
pela razão. Discorre sobre os avanços dos conhecimentos científicos e técnicos deixados pelos
gregos.

Contra esse pensamento, encontramos Cornford, que contesta a ideia de uma ruptura
direta e total da filosofia com os mitos e diz: a filosofia nascente não observa a natureza nem
faz experimentos, desconhece a ideia de verificação e de prova, ela transporta numa forma
laica e num pensamento mais abstrato, as formulações da religião e do mito sobre a natureza
e os homens.

Para esse segundo autor, os historiadores devem-se atentar à diferenciação entre


cosmogonia e cosmologia. A primeira sempre pergunta “como do caos surgiu o mundo
ordenado?’’. E respondem fazendo genealogia dos seres por meio das relações entre os
elementos (água, ar, terra e fogo). Já os primeiros filósofos fazem cosmologias,
despersonalizam os elementos e tratam como potencias naturais, mas ainda divinas que se
combinam dando origem ao mundo ordenado. A diferença seria no processo gerador, não
deuses e sim forças impessoais.

Mostra também o modelo geral que será seguido peças cosmologias dos primeiros
filósofos: 1) no começo há o caos, estado de indeterminação onde nada aparece; 2) dessa
unidade, vão surgindo pares opostos que diferenciarão as quatro principais regiões do mundo
ordenado; 3) os opostos começam a se reunir e se combinar e dessa combinação nascem
todas as coisas. O autor vai além e mostra também a presença dos mitos em filósofos
posteriores como Platão. Os filósofos retiraram o lado fantástico e antropomórfico que os
mitos possuíam, mas permaneceram no mesmo lado em questões sobre a origem do mundo e
das coisas.

Jaeger, filósofo alemão, considera que o mito recebe a logica da filosofia, enquanto a
filosofia recebe do mito os conteúdos que precisam sem pensados, havendo assim uma
conexão orgânica entre mito e filosofia própria dos gregos. Jean Pierre Vernant, considera a
crítica de Cornford e Jaeger à ideia de ruptura entre mito e filosofia, mas escreve que não
podemos nos contentar com a ideia de que a filosofia diz o mesmo que o mito.

O mito é uma narrativa mágica, completa de analogias e metáforas, com a função de


resolver conflitos e tensões num plano imaginativo o que não se pode ser resolvido no plano
da realidade. Já a filosofia retoma as questões postas pelo mito, mas dá uma explicação
racional, nasce como racionalização da narrativa mítica e deixando-a no passado imaginário. O
que antes eram usados seres divinos, passa a ser realidade concreta.

Podemos agora distinguir teogonia, que narra por meio das relações sexuais dos
deuses o nascimento de tudo, da cosmogonia, que narra a geração da ordem pela relação de
forças vitais divinas e cosmologia, forma inicia da filosofia que é a explicação da ordem do
mundo pelo princípio racional.

Os primeiros filósofos não se resumem na explicação apenas na origem das coisas, mas
também as causas das mudanças, das semelhanças e no desaparecimento. Excluindo qualquer
forma de sobrenatural estabelecida pelo mito somado a um pensamento abstrato. Propondo
que a natureza poderia ser racionalmente conhecida, porque é ordenada e estruturada por
leis, assim como o pensamento.

2. Qual a relação entre o poema de Parmênides e a terceira tese sobre o


nascimento da Filosofia estudada?
R: No poema de Parmênides, a fala da Deusa se distancia da linguagem
sagrada e misteriosa tão comum aos mitos tradicionais, e se aproxima da racionalidade
que foi característica dos primeiros discursos filosóficos. Busca respostas objetivas e
generalistas para o ser e em contraposição, num paradoxo, tenta explicar o nada, o
não ser.

3. Comente a afirmação:
"Contudo, e evidentemente, o poema de Parmênides não é simplesmente um
mito. Ele veicula uma sabedoria, propõe um ensinamento que já não tem as
características do mito tradicional. Se não demonstra propriamente, sua
verdade também não se revela por inspiração poética, e não o lemos da mesma
maneira como escutaríamos a um poeta ou aedo".
R: Apesar de usar personagens mitológicos, diferente de outros autores,
Parmênides usa a racionalidade como ponto de partida do seu poema, descobre a “lei
fundamental do pensamento” é afirmada a identidade entre o pensar, o ser e o dizer.

4. A partir do debate realizado em sala e da leitura da referência abaixo, por que


o ensino de Filosofia no Brasil tem um compromisso com um polidiálogo no
sentido de visibilizar a Filosofia Africana, Afrodiaspórica e Afro-Brasileira dentro de
uma perspectiva de educação antirracista?
R: Pois há, sem dúvidas, uma disputa no campo da epistemologia que é
correlacionada com os processos de colonialidade, subalternidade e racismo. E
levando em conta que a filosofia produz mentes ricas capazes de, a partir da crítica e
observação, encontrar e propor soluções para problemas da sociedade, um aluno com
uma mente com maior diversidade de epistemologia daquelas ensinadas nos âmbitos
escolares. Neste sentido, a filosofia tem a reponsabilidade de ser um dos combatentes
ao racismo reconhecendo que há ciência fora da Europa.
5. Leia a passagem seguinte de Vernant e comente os três aspectos definidos por
ele que caracterizam a vida na pólis no que tange ao nascimento da Filosofia.

R: 1: a palavra sobre todos os outros instrumentos de poder, o debate, a


argumentação. O que antes era função de um soberano, passa a ser feito pela
discussão e poder de persuasão da oratória de um grupo perante outro.
2: o surgimento do domínio público com a escrita como prática essencial para o ser
político. O debate era feito em domínio público, não são mais exclusivos da
aristocracia, usando a escrita como um divulgador do conhecimento. O que antes era
sujeito a distorções, a lei passa a ancorar na escrita a sua credibilidade. Passa a ser
comum e superior a todos.
O hábito da escrita também é responsável pelo avanço do conhecimento comum, pois
deixa de ser exclusiva e reservada a alguns.
3: o ideal de isonomia. É igual a participação de todos os indivíduos no âmbito publico
para o exercício da lei.

6. Se você tivesse que relacionar as temáticas do eixo 1 (O nascimento da


Filosofia) com o eixo 2 (O filósofo e a Cidade) que iniciamos no mês março,
quais pontos de contato você poderia apresentar?
R: A importância da palavra somada a escrita como forma de levar o debate
para o público, que antes eram cercados de mistérios e segredos, o poder
divino do saber que antes era dedicado somente a aristocracia é estendido aos
demais. Todos poderiam anotar suas ideias e pensamentos e compartilhar nas
ágoras o conhecimento adquirido e a cada nova descobertas. Há também a
formação de grupos fechados e hierarquizados onde jovens são iniciados e
recebem ensinamentos da sabedoria e mistérios ocultos, onde serão elevados
a condição superior de sábio. É nessa ambiguidade que a filosofia nasce, com
seus métodos e inspirações. É ao mesmo tempo dada à iniciação dos mistérios
e caracterizada por integrar-se aos debates das praças públicas podendo
também como o movimento sofista, oferecer-se livremente a cada cidadão,
conforme pagamento em dinheiro.