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No dia 12 de março de 2017, Tarcísio, nascido em 22 de abril de 1997,

encontrava-se em uma biblioteca pública na cidade de Betim/MG. Por vota das


16:00 horas, em virtude do cansaço, resolveu fazer uma pausa e ir comprar um
café na cantina do local, tendo deixado seu notebook carregando na tomada.
Ao se lembrar de um compromisso às 16:30 horas com sua namorada Lídia,
Tarcísio retornou rapidamente à biblioteca, retirando o notebook da tomada e
encaminhando-se rapidamente para a residência de Lídia. Três dias depois,
Tarcísio foi informado a respeito da realização de registro de ocorrência na
Delegacia em seu desfavor, tendo em vista que as câmeras de segurança da
biblioteca captaram o momento em que subtraiu o notebook de Luís André, que
havia colocado seu computador para carregar em substituição ao de Tarcísio, o
qual estava ao lado.

No dia seguinte, antes mesmo de qualquer busca e apreensão do bem ou


atitude da autoridade policial, Tarcísio procurou Luís André e restituiu a este o
notebook. Ao tomar conhecimento do fato, o Ministério Público denunciou
Tarcísio pela prática do crime de furto qualificado pelo emprego de fraude,
tipificado no Art. 155, §4º, II do Código Penal, vez que este se fez passar pelo
verdadeiro proprietário do notebook para a subtração do bem. Esclareça-se
que a inicial foi oferecida pelo MP antes de finalizado o inquérito policial, sendo
instruída com a cópia do Boletim de Ocorrência.

A denúncia foi recebida em 18 de abril de 2018, sendo Tarcísio devidamente


citado no dia 24 de abril de 2020, sexta-feira. Considerando apenas as
informações narradas, redija a peça jurídica cabível, diferente de habeas
corpus, apresentando todas as teses jurídicas pertinentes. A peça deverá ser
datada no último dia do prazo para apresentação.
JERCIARA TEIXEIRA LOPES               RA: 31625943
TATIANE SILVA ROCHA                       RA: 31626958

EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA ... VARA


CRIMINAL DA COMARCA DE BETIM/MG

Processo n. ...

Tarcício, já qualificada nos autos do processo em epígrafe, vem, muito


respeitosamente, diante de Vossa Excelência, através de seu advogado
infrafirmado, procuração em anexo, oferecer ALEGAÇÕES FINAIS, na forma
do art. 403, §3º do Código de Processo Penal, nos seguintes termos:

1. SÍNTESE FÁTICA

Conforme narrado na denúncia, Roberta, no dia 23.02.2016, então com 20


anos de idade, teria furtado um notebook pertencente a Cláudia na cantina de
um curso preparatório para concurso na cidade de Manaus/AM.

Com base nesses fatos foi denunciada pela prática do crime previsto no art.
155, caput, do Código Penal.

O Ministério Público deixou de oferecer proposta de suspensão condicional do


processo, destacando que o delito de furto não é de menor potencial ofensivo.

A denúncia foi recebida e houve regular instrução do processo.

Em juízo, a vítima Cláudia confirmou ter deixado seu notebook acoplado à


tomada, mas que Roberta o subtraíra.
Roberta, em seu interrogatório, confirma os fatos, mas esclarece que
acreditava que o notebook subtraído era o seu e, por isso, levara-o para casa.

2. PRELIMINARES: Do oferecimento da suspensão condicional do processo

O delito imputado a Roberta, esta que não está sendo processada e nunca foi
condenada por outro crime, possui cominação mínima de um ano, o que
significa que a proposta de suspensão condicional do processo devia ter sido
oferecida pelo Ministério Público quando do oferecimento da denúncia, por ser
um dever imposto por lei. Assim, a alegação de que o crime de furto não é de
menor potencial ofensivo como justificativa para o não oferecimento da
proposta sucumbe à dicção do art. 89 da Lei 9.099/95, que prevê que caberá
ao Ministério Público oferecer a suspensão do processo quando a pena mínima
cominada ao crime imposto for igual ou inferior a um ano, abrangidas ou não
por esta Lei, preenchidos os demais requisitos legais, dentre os quais a
primariedade do agente e a presença dos requisitos que autorizariam a
suspensão condicional da pena (art. 77 do Código Penal).

Tendo em vista que não foi oferecida a proposta da suspensão condicional do


processo, deve ser imposta a nulidade de toda instrução processual, nos
termos do art. 564, IV do Código de Processo Penal, ou, se for o caso de
entendimento diverso e insista o Ministério Público pelo não oferecimento, que
sejam remetidos os autos ao Procurador de Justiça, aplicando-se por analogia
o art. 28 do Código de Processo Penal.

3. MÉRITO: Da ocorrência do erro de tipo essencial

Roberta, na data do fato, ao final da aula, resolveu ir comprar um café na


cantina, tendo deixado seu notebook carregando na tomada. Ocorre que ao
retornar retirou o notebook de Cláudia da tomada achando que era o seu.
Quando inquirida em juízo, confirma os fatos, mas esclarece que acreditava
que o notebook subtraído era seu e, por isso, levara-o para casa.

Dispõe o caput do art. 155 do Código Penal que pratica furto quem subtrai
coisa alheia móvel para si ou para outrem, sendo que de acordo com o
esclarecido por Roberta ela incorreu em erro em relação a uma das
elementares do tipo penal do furto, qual seja, a coisa alheia móvel, pois levou o
notebook de Cláudia para casa achando que era o seu, equívoco tal que exclui
a configuração do crime.

O art. 20 do Código Penal aduz que o erro sobre elemento constitutivo do tipo
legal de crime exclui o dolo, mas permite a punição por crime culposo, se
previsto em lei. Sabe-se que crime é todo fato típico, ilícito e culpável. O fato
típico tem como uma de suas características a conduta, sendo que esta deve
ser dolosa ou culposa a fim de que seja configurada a característica típica do
fato. Na conduta de Roberta não restou caracterizado nem o dolo nem a culpa,
sendo que o erro de tipo que ela incorreu era escusável, achava de forma
sincera que não estava praticando um crime, movida por um equívoco.

Resta, assim, absolutamente, caracterizada a atipicidade de sua conduta.


Ainda que o erro fosse inescusável, não há previsto no delito de furto a
modalidade culposa. Deve, pois, ser absolvida nos termos do art. 386, III ou VI,
do Código de Processo Penal.

4. TESES SUBSIDIÁRIAS

Na hipótese de Vossa Excelência não se filiar com o exposto acima, a defesa


apresenta as seguintes teses subsidiárias:

4.1 Da pena-base em seu mínimo legal

Roberta é primária, sua Folha de Antecedentes Criminais não há nenhuma


outra anotação. Sendo assim, na hipótese de uma eventual condenação, a
pena-base aplicada deve ser fixada em seu mínimo legal, já que favorável à ré
todas as circunstâncias judiciais previstas no art. 59 do Código Penal e seus
bons antecedentes.

4.2 Da confissão e menoridade relativa


A ré confessou em juízo o fato, ainda que tenha se movido por lapso. Dessa
forma, na segunda fase da dosimetria deve ser reconhecida a atenuante da
confissão, prevista no art. 65, III, a, do Código Penal, e reconhecida de igual
forma, a atenuante da menoridade relativa (art. 65, I, do Código Penal), pois à
época do fato contava com 20 anos de idade.

4.3 Do arrependimento posterior

Roberta está sendo acusada de um crime em que não houve o emprego de


violência ou grave ameaça, sendo que restituiu, por livre e espontânea
vontade, o bem da suposta vítima quando viu se tratar de um engano. Dessa
forma há a possibilidade de se reconhecer o arrependimento posterior, e a
redução da pena na sua fração máxima, qual seja, dois terços, nos termos do
art. 16 do Código Penal.

4.4 Da substituição da pena privativa de liberdade por pena restritiva de direitos

A pena a ser aplicada a acusada não passará de quatro anos, na conduta não
houve o emprego de violência ou grave ameaça, ela não é reincidente em
crime doloso, assim, no caso de aplicação de pena privativa de liberdade, esta
deve ser substituída por penas restritivas de direitos, pois presentes todos os
requisitos do art. 44 do Código Penal.

4.5 Do regime aberto de cumprimento de pena

O regime inicial de cumprimento de pena deve ser o aberto, pois preenchidos


os requisitos do art. 33, § 2º, c, do Código Penal, que prevê que o condenado
não reincidente, cuja pena seja igual ou inferior a 4 (quatro) anos, poderá,
desde o início, cumpri-la em regime aberto.

5. PEDIDOS

Diante de todo o exposto, requer principalmente:


a) nulidade da instrução processual em razão do não oferecimento da proposta
da suspensão condicional do processo.

b) absolvição com base no art. 386, III ou VI do Código de Processo Penal, em


decorrência do reconhecimento do erro de tipo essencial.

Requer subsidiariamente:

a) a aplicação da pena base em seu mínimo legal, diante das condições


favoráveis do art. 59 do Código Penal.

b) o reconhecimento, na segunda fase da dosimetria, das atenuantes previstas


no art. 65, I e III, a, do Código Penal.

c) na terceira fase da dosimetria, a aplicação da redução de pena em sua


fração máxima em virtude do arrependimento posterior previsto no art. 16 do
Código Penal.

d) em caso de aplicação de pena privativa de liberdade a sua substituição por


penas restritivas de direitos, nos termos do art. 44 do Código Penal.

e) no caso do douto juiz entender pelo efetivo cumprimento de pena privativa


de liberdade que seja estabelecido o regime aberto, nos termos do art. 33, §2º,
c, do Código Penal.

Nestes termos,

Pede deferimento

Manaus/AM, 29 de agosto de 2016

Advogado

Número da OAB

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