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Revisão contratual em relações paritárias e a teoria da base objetiva dos contratos

Thiago Luiz Minicelli Martins


Uma análise da possibilidade de revisão judicial dos contratos, por alteração
superveniente das circunstâncias, no âmbito das relações puramente civis.

O presente estudo tem como principal objetivo a análise da possibilidade de revisão


judicial dos contratos, por alteração superveniente das circunstâncias, no âmbito das
relações puramente civis, com ênfase em interpretação extensiva do que dispõe o artigo
317 doCódigo Civil Brasileiro, verificando-se, em suma, o histórico de tramitação do
aludido dispositivo legal, as três variantes teóricas que auxiliaram a formação
jurisprudencial acerca da revisão contratual, bem como o escopo de aplicação do
instituto da revisão de contratos, à luz do princípio da continuação dos negócios
jurídicos e de cláusulas gerais de Direito Privado, tais como a Boa-Fé Objetiva e a
Função Social do Contrato.
O que se tem verificado é uma grande dificuldade de se preencher todos os pressupostos
e situações próprias das Teorias da Imprevisão e da Onerosidade Excessiva, conforme
previsão do artigo 478 do Código Civil e da interpretação literal do que dispõe o
sobredito artigo 317.
O que se propõe, como solução pertinente para a criação de um modelo mais operativo e
moderno, à luz da Nova Teoria Contratual, que é baseada em conceitos como o
Dirigismo Contratual e Justiça e Equilíbrio Contratuais, é de fato, a abertura de um
campo de entendimento que possibilite uma interpretação extensiva do artigo 317 do
Código Civil, à luz de uma análise teleológica de todo o Código, a dar guarida à Teoria
da Quebra da Base Objetiva do Negócio Jurídico, também, em relações puramente civis.
Ao contrário do Código de Defesa do Consumidor, que já previu a aludida Teoria, em
atenção à leitura estrita do artigo 51, inciso IV, o Código Civil, por sua vez, em uma
primeira análise, se alinhou mais com os requisitos previstos pela Teoria da
Onerosidade Excessiva.
Cabe esclarecer, primeiramente, o que diferencia cada uma das Teorias mencionadas,
porquanto, adotando-se uma ou outra, estaríamos a aumentar ou restringir o escopo da
revisão contratual no Direito puramente civil.
Tem-se que a Teoria da Onerosidade Excessiva, segundo Jorge Cesa Ferreira da
Silva[1], prevê, como requisitos para a revisão dos contratos, a ocorrência de fatos
supervenientes que atinjam a prestação, de modo a dotá-la de um valor muito distinto
do anterior E que esses fatos sejam imprevisíveis e extraordinários.
Ao passo que, no que toca à Teoria da Quebra da Base Objetiva dos Negócios Jurídicos,
mais operativa e moderna a nosso ver, tem-se que, segundo Laura Coradini Frantz[2],
essa prevê, como requisitos para a revisão dos contratos a destruição da relação de
equivalência (na medida da Boa-Fé) OU a impossibilidade de se alcançar a
finalidade do contrato(na medida da Função Social).
Comparando a Teoria da Onerosidade Excessiva com a da Base Objetiva é certo que a
primeira possui um campo de aplicação muito mais abrangente do que a segunda, por
dispensar o requisito da imprevisibilidade e correlacionar a revisão do contrato com a
Cláusula Geral da Boa-Fé.
E sobre a possibilidade de se fundamentar a revisão contratual na vertente da Teoria da
Quebra da Base, importante ponderar que o Novo Código previu requisitos menos
rígidos do que os inerentes à Teoria da Excessiva Onerosidade em sua origem, pois, de
antemão, afastou-se do conceito de extraordinariedade, exigindo-se, tão somente, a
imprevisibilidade do evento causador da desproporção, isto é, não correspondente às
legítimas expectativas das partes, estas a serem consideradas objetivamente.
Depreende-se, assim, que o instituto da revisão contratual, na égide do Direito pátrio, a
despeito de se aproximar muito da Teoria da Onerosidade Excessiva, não seguiu,
integralmente, o âmbito de aplicação vislumbrado pelo Legislador italiano, o que, para
Ruy Rosado de Aguiar Junior corrobora o fato de que o Código Civil Brasileiro teria
previsto, de forma muito limitada, a onerosidade excessiva, ao passo que teria
sobrelevado as Cláusulas Gerais da Boa-Fé Objetiva e da Função Social do
Contrato.[3]
Ao que tudo indica, mormente pelo processo legislativo ocorrido sobre o artigo 317 do
Código Civil, a atual legislação, com base em construção jurisprudencial anterior à sua
vigência, buscou aumentar o escopo de aplicação do instituto da revisão contratual, seja
pela constante busca pelos primados da Boa-Fé Objetiva, Função Social do Contrato e
Princípio da Solidariedade ou, ainda, por prever, expressamente, que a continuação dos
negócios jurídicos haverá de ser, constantemente, perseguida, de modo que não faz
sentido interpretar o instituto da revisão contratual, conforme requisitos tão estanques,
tais como os decorrentes das Teorias da Imprevisão e da Onerosidade Excessiva.
Durante toda a tramitação do artigo 317 do Código Civil, ficou clara a tentativa de
ampliar o escopo da revisão contratual – mormente por se entender que o instituto não
deveria se limitar à previsão de desvalorização da moeda, mas, também, a "outros
fatos", ainda que "imprevisíveis" – quando o Senador Josaphat Marinho, Relator da
Comissão Especial destinada a examinar o Projeto de Lei da Câmara, assim expôs:
"sobretudo porque não se deve considerar a desvalorização da moeda, para admitir a
revisão de valores convencionados. Outros fatores, e imprevisíveis, poderão ocorrer,
gerando o desequilíbrio das prestações e justificando o reajustamento delas."
Ou seja, com o evidente intuito de ampliar o instituto da revisão para "outros fatores
além da desvalorização da moeda", o Legislador, equivocadamente, acabou por
restringi-lo com a atual redação literal do artigo 317.
A despeito disso, no entanto, tem-se verificado que a doutrina e a jurisprudência mais
abalizadas vêm entendendo a revisão contratual, à luz das Cláusulas Gerais da Boa-Fé e
da Função Social do Contrato, de modo a imputar ao instituto verdadeira diretriz de
socialidade, mitigando a subjetividade buscada pelas Teorias da Imprevisão e da
Onerosidade Excessiva para, assim, se atingir a equidade de forma objetiva.
Vale destacar trecho do aludido acórdão extraído TJRS, Ap. Civ. 193051083, Quarta
Câmara Cível, Rel. Des. Márcio de Oliveira Puggina, j. em 24.06.1994, que bem
exprime o "espírito" que deve calcar a melhor interpretação ao artigo 317 do Código
Civil: "não se perquire mais, como na Teoria da Imprevisão, sobre a previsibilidade do
fato econômico superveniente. E nem se deveria. Com efeito, o fato pode ser até
previsível, mas não é esperado, porque se esperado fosse, nem o banco emprestaria o
dinheiro e nem o tomador assumiria um compromisso que não pode arcar. Logo, o fato
previsível, mas não esperado, situa-se na área de risco inerente a qualquer atividade
negocial."
Como se vê, a Teoria da Base Objetiva tem tido o seu campo de aplicação recepcionado
pela Jurisprudência brasileira, já antes da vigência do atual Código Civil, conforme se
depreende, também, exemplificativamente, da análise do acórdão prolatado pelo
Desembargador Ruy Rosado de Aguiar Junior, já em 06 de dezembro de 1988, quando
do julgamento da Apelação Cível nº 588059113, pela 5ª Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do Estado do Rio Grande do Sul.
Cumpre destacar, que, mesmo após a redação final do Código Civil, não se tem
desprezado o uso da Teoria da Quebra da Base Objetiva do Negócio Jurídico para
revisão contratual em relações paritárias, conforme se depreende, exemplificativamente,
da análise do acórdão prolatado pelo Desembargador Francisco Loureiro, em 2009, pelo
Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, quando do julgamento da Apelação nº
419.044-4.5, ao passo que se tem recepcionado o uso da referida Teoria através das
Cláusulas Gerais da Boa-Fé e da Função Social, que devem ser sobrepostas aos
requisitos inerentes da Teoria da Onerosidade Excessiva, à luz do princípio da
continuidade das relações jurídicas, que deve permear o Direito Civil.
Assim, o que se propõe é o uso mais frequente da aludida Teoria da Quebra da Base
Objetiva dos Contratos, também, para revisão em relações paritárias.
___________

[1] FERREIRA DA SILVA, Jorge Cesa. Adimplemento e Extinção das Obrigações.


In: REALE, Miguel. MARTINS-COSTA, Judith (coords.). Biblioteca de Direito Civil –
Estudos em homenagem ao Professor Miguel Reale. São Paulo: Ed. RT, 2007, vol. 6. p.
170.
[2] FRANTZ, Laura Coradini. Revisão dos contratos: elementos para sua construção
dogmática.1ª ed. São Paulo: Saraiva, 2007. p. 54.
[3] AGUIAR JÚNIOR, Ruy Rosado de. Extinção dos Contratos por incumprimento
do devedor. 2ª ed. Rio de Janeiro: AIDE, 2003. P. 148.

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