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FACULDADE DE TECNOLOGIA SENAC Blumenau SC

UNIDADE VINCULADA SENAC Brusque SC

Disciplina: Negócios e sustentabilidade


Professor: Diego B Vargas

Crescimento e desenvolvimento econômico

O ponto de partida da ideia de desenvolvimento teve sua primeira expressão


pelo conceito de progresso. Por sua vez, a noção de progresso teve seu ápice no
século XIX, sendo reconhecida como um evento histórico, cuja explicação provinha dos
fatos, em geral, se desenvolverem ao longo do tempo sempre no sentido mais desejável
pelos indivíduos e com crescente aperfeiçoamento. Contudo, no século XX o termo foi à
descrença, sobretudo, pelas mudanças de paradigmas sociais e filosóficos oriundo das
duas Grandes Guerras Mundiais e das crises econômicas. A crença no progresso como
condição necessária a todas as nações, entrega suas esperanças e promessas à ideia
de desenvolvimento (HEIDEMANN, 2009; HERSHBERG, 2001). “Com efeito, o
aumento do fluxo de renda, por unidade de força de trabalho utilizada [o PIB – Produto
Interno Bruto], tem sido aceito, desde a época dos [economistas] clássicos, como o
melhor indicador do processo de desenvolvimento de uma economia.” (FURTADO,
1983a, p. 77).
Muitas vezes, o conceito de desenvolvimento foi e ainda é confundido com o de
crescimento. O fato do nível de vida da população estar relacionado com o de renda
contribuiu para os conceitos terem certa proximidade. A diferença está no crescimento
alterar somente estruturas simples, enquanto, o desenvolvimento realizar mudanças
estruturais em conjuntos complexos. “Se o conjunto econômico apresenta estrutura
simples, [...] como no caso de uma empresa ou de um setor produtivo especializado,
convém evitar o conceito de desenvolvimento e utilizar simplesmente o de crescimento.”
(FURTADO, 1983a, p. 78). Pois, crescimento é a expansão da produção real em um
subconjunto econômico, cujas modificações não implicam alterações nas funções de
produção, isto é, na forma em que se combinam os fatores em um determinado setor
produtivo.

Assim, o conceito de desenvolvimento compreende a ideia de


crescimento, superando-a. Com efeito: ele se refere ao crescimento de
um conjunto de estrutura complexa. Essa complexidade estrutural não é
uma questão de nível tecnológico. Na verdade, ela traduz a diversidade
das formas sociais e econômicas engendrada pela divisão do trabalho
social. Porque deve satisfazer às múltiplas necessidades de uma
coletividade é que o conjunto econômico nacional apresenta sua grande
complexidade de estrutura. Esta sofre a ação permanente de uma
multiplicidade de fatores sociais e institucionais que escapam à análise
econômica corrente (FURTADO, 1983a, p. 78, grifo meu).

19/05/2020
Por sua vez, “a teoria do desenvolvimento trata de explicar, numa perspectiva
macroeconômica, as causas e o mecanismo do aumento da produção e na forma como
se distribui e utiliza o produto social.” (FURTADO, 1983a, p. 15). No entanto, não
interessa aqui, o aumento da produtividade de uma empresa individual, pois, a teoria do
desenvolvimento não pode ser deduzida do estudo isolado de uma ou duas empresas.
Aumento de produtividade individual não se trata de desenvolvimento, cujo processo
não poderia se concretizar sem realizar modificações na forma de distribuição e
utilização da renda.

Podemos, portanto, admitir que o crescimento é o aumento da produção,


ou seja, do fluxo de renda, ao nível de um subconjunto econômico
especializado, e que o desenvolvimento é o mesmo fenômeno quando
observado do ponto de vista de suas repercussões no conjunto
econômico de estrutura complexa que inclui o referido setor
especializado (FURTADO, 1983a, p. 79, grifo do autor).

“O conceito de desenvolvimento se refere a um processo de mudança social,


buscado de forma deliberada [...], viabilizado pela mobilização de recursos (econômicos
e não-econômicos), visando alcançar fins previamente definidos por uma coletividade
ou por grupos sociais que a representem”. (SOUZA; THEIS, 2009, p. 12).
Cabe perguntar: qual o substrato do desenvolvimento? Para Celso Furtado, as
experiências demonstravam que o verdadeiro desenvolvimento fundamenta-se nos
processos de ativação e canalização de forças sociais. “Trata-se de um processo social
e cultural, e só ancilarmente [em parte] econômico. Produz-se o desenvolvimento
quando na sociedade manifesta-se uma energia capaz de canalizar, de forma
convergente, forças que estavam latentes ou dispersas.” (FURTADO, 1983b, p. 149).
Deste modo,

uma verdadeira política de desenvolvimento terá que ser a expressão


das preocupações e aspirações de grupos sociais que tomam
consciência de seus problemas e se empenham em resolvê-los. Ora,
somente a atividade política pode canalizar essas energias de forma a
produzir os fenômenos de sinergia (FURTADO, 1983b, p. 149).

O ideal desenvolvimentista; a histórica “corrida” das nações menos


desenvolvidas para alcançarem aquelas mais desenvolvidas, tornou-se uma lógica que
subjaz a própria política de Estado. Nesse contexto, o mercado torna-se politicamente
regulado: de um lado, interesses de Estado, os quais representam (ou deveriam
representar) a sociedade em sua totalidade e, de outro, a racionalidade econômica,
manifestada pelo mercado, cujos membros tomam decisões e agem por interesses
privados. Ambos os agentes são políticos e pouco neutros, sua participação no
desenvolvimento das sociedades variam de nível dependendo das especificidades em
que se inserem.

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REFERÊNCIAS

FURTADO, Celso. Teoria e política do desenvolvimento econômico. São Paulo:


Abril Cultural, 1983a. (Os economistas).

FURTADO, Celso. A nova dependência: dívida externa e monetarismo. 5. ed. Rio de


Janeiro: Paz e Terra, 1983b. 150 p. (Estudos brasileiros, v .63).

HEIDEMANN, Francisco G. Do sonho do progresso às políticas de desenvolvimento. In:


HEIDEMANN, Francisco. G.; SALM, José Francisco. (Orgs). Políticas Públicas e
Desenvolvimento: bases epistemológicas e modelos de análise. Brasília: Editora da
Universidade de Brasília, 2009. 340 p.

HERSHBERG, E. Development: socioeconomic aspects. International Encyclopedia


of the Social & Behavioral Sciences, Editors-in-Chief: Neil J. Smelser and Paul B.
Baltes, Oxford, 2001, pages 3592-3597.

SOUZA, Cristiane Mansur de Moraes; THEIS, Ivo Marcos. Desenvolvimento regional:


abordagens contemporâneas. Blumenau: Edifurb, 2009. 221 p.