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Sistema vocálico do

Português
Disciplina: Fonética e Fonologia da Língua Portuguesa
Licenciatura em Letras
Departamento de Estudos Linguísticos e Literários, IBILCE/UNESP.
Luciani Tenani
Sistema vocálico do Português:
Roteiro de aula
1. Noções iniciais: parâmetros articulatórios para análise de vogais,
contexto fonológico, alofone, fonema, traço distintivo, par mínimo.
2. Contextos de análise e processos fonético-fonológicos
2.1. Vogais orais tônicas
2.2. Vogais orais pretônicas
2.3. Vogais orais postônicas não-finais
2.4. Vogais postônicas finais
2.5. Vogais nasais
3. Resumo
4. Exercícios
5. Referências bibliográficas

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Noções iniciais: definição de vogais

❖ Objetivos:
 Introduzir noções básicas sobre estrutura em fonologia;
 Descrever os segmentos vocálicos do Português Brasileiro (PB):
alofones e fonemas;
 Apresentar processos fonético-fonológicos que envolvem as vogais
do PB.
 Perspectiva adotada: abordagem estruturalista (CAMARA JR., 1970).
 VOGAIS: conjunto de segmentos que, foneticamente, se caracterizam
como um som “produzido pela ressonância bucal, onde a corrente de
ar passou livremente” (CAMARA Jr., 1970, p. 37).
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Noções iniciais: conceitos básicos

 Contexto fonológico: características do ambiente estrutural relevantes


para descrever o segmento que se quer analisar.
Ex: “s[a]ca” e “s[e]ca”  Contexto: sílaba tônica da palavra
 Quando dois segmentos se opõem entre si numa dada língua, isto é,
distinguem vocábulos, identificam-se fonemas.
 Cada segmento é formado por um conjunto de traços ou propriedades
distintivas e têm por característica serem as menores unidades fonológicas
(Cagliari & Massini-Cagliari, 2001).
 Traços Distintivos: propriedades articulatórias e acústicas dos segmentos.
 Quando duas palavras diferem entre si por apenas um traço distintivo,
formam um par mínimo. Ex: “s[E]ca” e “s[e]ca” traço  altura da língua.

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Noções iniciais: critérios de classificação
➢ Parâmetros articulatórios para classificação das vogais (Camara
Jr, 1970, p.39-41):
1) Altura da língua: movimento da língua no eixo vertical da
cavidade bucal. Distinção de 3 posições: alta, média, baixa.
2) Avanço/recuo da língua: movimento da língua no eixo
horizontal da cavidade bucal. Distinção de 3 posições: anterior,
central, posterior.
3) Arredondamento dos lábios: movimento dos lábios que levam
à distinção de 2 posições: arredondado, não-arredondado.

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Noções iniciais: articulação secundária
➢ Articulações secundárias de segmentos vocálicos:
• Duração: tempo gasto para realização da vogal. Em Inglês, a duração tem
função distintiva: “to leave” [li:v] (sair) X “to live” [liv] (viver). Em
Português, não há essa função distintiva, mas vogais tônicas são mais
longas do que vogais átonas: “b[a]t[a:]t[a]”. Diacrítico [:]
• Desvozeamento: as vogais são vozeadas (há vibração nas cordas vocais),
mas podem vir a ser desvozeadas, principalmente, quando átonas em final
de palavras, como em “públic[a]”. Diacrítico [  ]
• Nasalização: propriedade que se observa pelo abaixamento do véu
palatino durante a articulação da vogal, quando parte do fluxo de ar é
expelida pelas narinas. Nasalização é um processo de assimilação, como
em “c[ã]mada”. Diacrítico [~]
• Tensão: o segmento é tenso quando produzido com maior esforço
muscular. No Português, são vogais tensas: altas tônicas, como em
“jac[u]”, “sac[i]”; são vogais frouxas: altas átonas postônicas, como em
“pat[U]”, “safar[I]”.
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Sistema vocálico:
contextos de análise em uma
abordagem estruturalista

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Sistema vocálico: contextos de análise
Para analisar vogais, consideram-se dois contextos:
1. Tonicidade da sílaba  sílaba tônica e átona;
2. Posição da vogal na sílaba  centro (ápice) e fim de sílaba.
No centro de sílaba tônica, observam-se fonemas vocálicos;
No centro de sílaba átona, ocorrem alofones vocálicos;
Em posição assilábica, ocorrem glides ou semivogais.
 Contextos de análise de vogais:
1. Posição tônica
2. Posições átonas: 2.1. Pretônica;
2.2. Postônica não-final;
2.3. Postônica final

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Vogais tônicas: fonemas

1. Posição tônica: posição em que ficam explícitos os traços


distintivos das vogais  se definem os fonemas vocálicos.
Quadro 1. Vogais orais em posição tônica

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Vogais tônicas: contexto nasal
 Vogais tônicas: diante de consoante nasal desaparece a oposição
entre as vogais médias baixas e médias. Comparar (1.1) com (1.2).

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Vogais tônicas em proparoxítonas
❖ Vogais tônicas em proparoxítonas: quando médias, sempre são abertas. Neutralização das médias
“m[E]dico” “cadav[E]rico” “mal[E]fico” “p[E]tala” acentuadas condicionada
“c[]coras” “r[]tulo” “psic[]logo” “hist[]rico” por um padrão rítmico
especial: [    ]
 Wetzels (1992) observa que há uma restrição prosódica que proíbe vogais médias
altas [e, o] na antepenúltima posição e sempre se realizam como [E, ]: regra de
abaixamento datílico.
 Exceções: evidência de que se trata de regra de natureza lexical
• Algumas palavras não-derivadas têm vogal média alta /e, o/: “pêssego”, “trôpego”,
“bêbado”, “esôfago”.
• A regra não se aplica a verbos regulares na 1ª e 2ª pessoas do pl. do mais-que-
perfeito do indicativo e imperfeito do subjuntivo: “perdêramos”, “perdêreis”
“perdêssemos”, “perdêsseis”.

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Vogais tônicas em paroxítonas
terminadas por consoante
❖ Vogais tônicas em paroxítonas terminadas por consoantes: quando
Neutralização das médias
médias, sempre são abertas. acentuadas condicionada
“rep[]rter” “d[]cil” “m[]vel” “d[]lar” pelo pé métrico espondeu:
“c[E]sar” “r[E]ptil” “est[E]ril” “el[E]tron” [   ]
 Wetzels (1992) observa que essa neutralização das vogais médias tônicas em
favor das vogais médias baixas [E, ] é condicionada por um padrão rítmico
excepcional do pé espondeu: regra de abaixamento do espondeu.
 Exceções: evidência da natureza lexical da regra
• Adjunção do sufixo de flexional de número {-s} não gera contexto para a regra.
Ex: “mesa” > “m[e]sas”, nunca *m[E]sas.
• Adjunção de sufixos verbais de número, como {-m} ou {-s}, não gera contexto
para a regra. Ex: “esqu[e]ças”, “esqu[e]çam” nunca *esqu[E]ças, *esqu[E]çam.

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Vogais átonas: fonemas

2. Posição átona: há neutralização entre os fonemas vocálicos, isto


é, deixa de haver distinção fonológica (Camara Jr, 1970).
Como se dá essa neutralização entre vogais depende da tonicidade
da sílaba: se pretônica, postônica final e postônica não-final.
➢ Sistema vocálico oral do PB:
• Sílaba pretônica: 5 fonemas /a, e, i, o, u/.
• Sílaba postônica não-final: 4 fonemas /a, e, i, u/.
• Sílaba postônica final: 3 fonemas /a, i, u/.
➢ A depender dessas tonicidades das sílabas, observam-se vários
processos fonético-fonológicos que afetam as vogais.
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Vogais pretônicas: fonemas

 2.1. Posição pretônica: há neutralização entre médias-altas e


médias-baixas.
Quadro 3. Fonemas vocálicos em posição pretônica

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Vogais pretônicas: neutralização

 2.1. Posição pretônica


 Em posição tônica ocorrem as vogais médias altas (Nº ímpares
dos exemplos), mas essas vogais passam a médias baixas quando
passam a ser pretônicas (Nº pares dos exemplos).
Em palavras derivadas, as vogais médias baixas não ocorrem
em sílabas pretônicas em variedades do sul/sudeste do Brasil.

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Vogais pretônicas
 No entanto, há vogais médias altas nos dados abaixo da mesma
variedade do PB:

 Os sufixos “-(z)inho(a)”, “íssimo(a)”, “-mente” não funcionam


como os demais sufixos da língua, mas como palavras
fonológicas.
 Portanto, não ocorrem vogais médias abertas em posição
pretônica em variedades do sul/sudeste (como em Rio Preto),
exceto quando for uma forma derivada com os sufixos “-
(z)inho(a)”, “íssimo(a), “-mente”.
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Vogais pretônicas: alçamento
 2.1. Posição pretônica: processos fonológicos
2.1.1. Alçamento vocálico: as vogais médias-altas /e/ e /o/ passam a ser
realizadas, respectivamente, como altas [I] e [U].
• "av[e]nida" ~ "av[I]nida"
• "c[o]stume" ~ "c[U]stume" In: Tenani (2009)
 O alçamento vocálico é resultado de dois processos de assimilação:
a. Harmonização vocálica: assimilação entre vogais. Ex:
“m[ I ]tira”
b. Redução vocálica: assimilação entre vogal e consoante. Ex:
“b[U]teco”
 Quando ambos os contextos se verificam, sempre há alçamento vocálico
em variedades do sul/sudeste. Ex: “k[U]zinha”
Obs: Em Rio Preto, a taxa de alçamento atestada foi de 16,3% (811/4967), cf. Carmo
e Tenani (2013). Sistema vocálico do Português
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Vogais pretônicas: alçamento
 2.1. Posição pretônica: processos fonológicos
2.1.1.1. Alçamento vocálico por harmonização vocálica
• Em muitos dos casos de alçamento vocálico, há uma vogal alta na sílaba
seguinte à da pretônica-alvo (aquela que será alçada). Essa vogal alta na sílaba
seguinte serve como gatilho à aplicação do alçamento. É um processo de
assimilação regressiva.
• O alçamento decorre de uma harmonização vocálica: vogais com
mesma altura. Ex. “f[I]rida”
• Condição para aplicação do processo: a vogal alta deve estar adjacente à vogal
média a ser alçada.
 "p[o]dia" ~ "p[U]dia" MAS "p[o]deria" ~ *"p[U]deria"

Formas verbais do Futuro do Pretérito do Indicativo inibem a harmonização


vocálica porque há uma fronteira de palavra entre a pretônica média e a vogal
gatilho: “poder+ia” (In: Collischonn e Schwindt, 2004).
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Vogais pretônicas: alçamento
 2.1. Posição pretônica: processos fonológicos (Tenani, 2009)
2.1.1.2. Alçamento vocálico por redução vocálica
 O alçamento vocálico também pode ocorrer pela influência do ponto
de articulação da(s) consoante(s) adjacente(s) à vogal-pretônica.
Assim, o alçamento decorre de uma redução da diferença entre
vogal e consoante.
➢ Ex. "b[U]neca", "m[U]leque"
o O traço [labial] de /b/ motiva o alçamento da vogal média /o/ para
vogal alta [U], por esta ser uma vogal mais labializada.
➢ Ex. "p[I]queno"
o O traço [alto] de /k/ motiva o alçamento da vogal média /e/ para
vogal alta [I], pois esta é mais alta que aquela.

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Vogais pretônicas: abaixamento
 2.1. Posição pretônica: processos fonológicos
2.1.2. Abaixamento vocálico: as vogais médias-altas /e/ e /o/ se realizam,
respectivamente, como médias-baixas [E] e [].
• “m[e]nino" ~ “m[E]nino"
In: Cristófaro Silva, 1999, p. 83.
• "c[o]ração" ~ "c[]ração" Ver discussão em Lee (2009).
 O abaixamento também pode ser resultado de assimilação:
Harmonização vocálica: assimilação do traço de altura entre vogal pretônica
e tônica. Ex: “r[E] l []gio”
 Em João Pessoa, há condição para aplicação do abaixamento por
harmonização vocálica: as vogais devem partilhar o traço [anterior].
• Salvador e João Pessoa Salvador João Pessoa

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Vogais postônicas não-finais: fonemas

 2.2. Posição postônica não-final: há neutralização entre


médias-altas e médias-baixas e, para Camara Jr (1970),
também entre as posteriores média-alta e alta.
Quadro 4. Fonemas vocálicos em posição postônica não-final

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Vogais postônicas não-finais: síncope

 2.2. Posição postônica não-final: processos fonológicos


2.2.1. Síncope ou apagamento vocálico: ocorre o apagamento das
vogais postônicas não-finais. Ex.: (Ramos e Tenani, 2009)
(1) “abóbora” (2) “xícara”

• Motivação para o processo: com a realização do processo, os


vocábulos passam de proparoxítonos (estrutura marcada, porque
formada por um pé dátilo: ´) a paroxítonos (estrutura prosódica
preferencial do PB, formada por um pé troqueu: ´):
´ > ´

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Vogais postônicas não-finais: síncope
 2.2. Posição postônica não-final: processos fonológicos
2.2.1. Síncope ou apagamento vocálico: (Ramos e Tenani, 2009)
• Condições para haver o processo: possibilidade de a consoante da
sílaba em que a vogal foi apagada ser ressilabificada.
1. Consoante da sílaba seguinte é uma líquida [l] ou [R] e forma
ataque complexo da nova sílaba:

2. Consoante da sílaba em que a vogal foi apagada passa a ser coda


da sílaba que lhe é precedente, se for:
 Fricativa:
 Nasal:
 Rótico:
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Vogais postônicas não-finais: alçamento

 2.2. Posição postônica não-final: processos fonológicos


2.2.2. Alçamento vocálico: as vogais médias-altas /e/ e /o/ passam a
ser pronunciadas, respectivamente, como altas [I] e [U]. Processo
característico de variedades do sul e sudeste brasileiro.
o O processo se aplica quando não há condições para aplicação da
síncope vocálica. A sílaba é sempre preservada.

Dados de Ramos e Tenani (2009)

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Vogais postônicas não-finais:
abaixamento
 2.2. Posição postônica não-final: processos fonológicos
2.2.3. Abaixamento vocálico: as vogais médias-altas /e, o/ são
abaixadas para médias-baixas [E, ]. Processo que não é atestado
em variedades do sul e sudeste brasileiro, como em Rio Preto.

Dados de Cristófaro Silva (1999, p.87).

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Vogais postônicas finais: fonemas

 2.3. Posição postônica final: há neutralização entre as médias


(abaixas e altas) e as altas.
Quadro 5. Fonemas vocálicos em posição postônica final

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Vogais postônicas finais: alofones

 2.3. Posição postônica final: maior grau de atonicidade

In: Cristófaro Silva (1999).

2.3.1. Em sílabas CV: a oposição entre [e] e [i] é tênue em pares


mínimos como “jure” x “júri” (Camara Jr, 1970). Ambos tendem a ser
realizados “jur[I]”. A oposição entre /o/ e /u/ não se verifica. É
convenção ortográfica o emprego de “o” em final de palavras. Realizam-
se apenas três fonemas: “mat/a/”, “mat/i/”, “mat/u/”.

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Vogais postônicas finais

 2.3. Posição postônica final


2.3.2. Em sílabas CVC: ocorre [e], mas essa vogal se realiza [I]
em sílaba travada por /S/e após queda de /R/ e /N/. Ex:
(1) “saudad[e]s” ~ “saudad[I]s” ~ “saudad[I]”
(2) “revólv[e]r” ~ “revólv[I]”
(3) “jov[eI]m” ~ “jov[I]”
(4) “tún[e]l” ~ * “tun[I]”
• Obs: com a vocalização de /l/, ocorre o ditongo [eU] e,
portanto, não há contexto para alçamento de [e].

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Vogais nasais: nasalidade X nasalização

3. Vogais nasais: nasalidade X nasalização


 Características articulatórias dos sons orais, nasais e nasalizados:
1. Segmento oral: produzido com a cavidade nasal fechada pelo véu
palatino;
2. Segmento nasal: produzido com a cavidade nasal completamente
aberta e a cavidade oral fechada;
3. Segmento nasalizado: produzido sem o fechamento da cavidade oral
e da cavidade nasal, de modo que o som sai por ambas as cavidades
de ressonância.
(1) “l[a]” (2) “[m]á” (3) “l[ã]ma”

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Vogais nasais: tipos de nasalidade
 A nasalidade apresenta duas manifestações estruturais nas línguas do
mundo: (a) nasalidade pura /bõ/:/bÕ/ (“bom” x “bonne”, Fr); (b)
nasalidade transmitida pela consoante nasal adjacente “l[ã]ça”
(“lança”, Port).
 Dois tipos de nasalidade em Português: (Camara Jr, 1970)
1. Nasalidade transmitida à vogal por uma consoante nasal na mesma
sílaba: “canta” x “cata”; “minto” x “mito”; “lendo” x “ledo”; “monte”
x “mote”; “mundo” x “mudo”.
2. Nasalidade transmitida à vogal por uma consoante nasal na sílaba
seguinte: “sana”, “sino”, “seno”, “sono”, “suma”.

Nasalidade: em (1), tem função distintiva; em (2), efeito de processo de


assimilação do traço nasal da consoante da sílaba adjacente à vogal. Para Camara
Jr. (1970, p.31), a nasalização da vogal (em 1) é “consequência obrigatória em
português do travamento da sílaba por uma consoantes nasal pós-vocálica” 30

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Vogais nasais: assimilação da nasalidade

 Nasalidade por assimilação:


 O processo de assimilação regressiva (em 2) é obrigatório quando for
tônica a sílaba com a vogal-alvo, mas opcional quando for pretônica a
sílaba com a vogal-alvo. Mas sempre haverá assimilação da nasal pela
vogal quando a nasal for palatal.

Sílaba tônica Sílaba pretônica


1. “c[ã]ma” “c[ã]mareira” ~ “c[a]mareira”
2. “c[ã]na” “c[ã]navial” ~ “c[a]navial”
3. “b[a]nha” “b[ã]nheira” ~ * “b[a]nheira”

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Vogais nasais: nasalidade distintiva

 Três fatos que sustentam haver consoante nasal travando a sílaba:


1. Não há degeminação entre vocábulos com sílaba com travada por
nasal, “lã azul”, mas há entre vocábulos com sílabas orais, “casa
azul”;
2. Realização exclusiva de /r/ após sílaba travada por consoante,
como “guel/r/a” e “Is/r/ael”, também se atesta após a vogal
nasal “hon/r/a”;
3. Não há hiatos nasalizados, apontando para presença de elemento
interveniente: “bom” + “a” = “boa” (*bõa).

In: Camara Jr (1970).


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Vogais nasais: nasalidade distintiva

 A consoante nasal em fim de sílaba é “indiferenciada quanto ao


ponto de articulação” (CAMARA JR, 1970, p.30). Há assimilação de
ponto da consoante no início da sílaba seguinte: labial,
alveolar/dental, velar ou palatal.
 Há relação de homorganicidade entre as consoantes. Por essa
razão, a consoante nasal pós-vocálica corresponde a um
“arquifonema dos fonemas nasais existentes em português, que
deles conserva apenas o traço comum da nasalidade”.
1. “campo”: Vogal nasal: vogal mais
2. “canto”: arquifonema nasal: VN. É de
caráter fonológico a nasalidade:
3. “canga”: “campo”:“capo”; “canto”:“cato”.
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Vogais nasais: desafios para análise

 Outras abordagens das vogais nasais em Português


• Lopez (1979): segue Camara Jr ao assumir que não existem vogais nasais, mas
vogais nasalizadas em Português por uma consoante nasal em final de sílaba.
• Diferença entre Lopez (1979) e Camara Jr. (1970): a nasal pós-vocálica é
plenamente especificada como coronal (uma alveolar nos termos de Camara Jr).
Essa interpretação também é adotada por Mateus (1975) com base em palavras
derivadas. Ex.: “bem” > “benéfico”; “fim” > “final”; “lã” > “lanifício”.
• Lopez (1979) assume que a consoante nasal pós-vocálica assimila o traço da
consoante seguinte e observa:
i. Se o segmento for [-contínuo], ocorre uma nasal homorgânica à consoante
vizinha. Ex: “ca[m]po”, “ca[n]to”, “ca[N]ga”.
ii. Se o segmento for [+ contínuo], pode ocorrer uma consoante transicional, mas
não necessariamente. Ex: “co[n]vite”, “ma[n]so”, “fra[N]ja”.

Sistema vocálico do Português 34


Vogais nasais: desafios para análise
 Outros fatos sobre as vogais nasais em Português
• Cagliari (2007, p.95): trata detalhadamente das características fonéticas das
nasais em Português. Destacamos o contexto de final de sílaba dentro de
palavra, onde três realizações se verificam:
Ortografia (1) (2) (3)
tombo [tob] [toNb] [tomb]
pente [petI] [petI] [pentI] Em (3), ocorre consoante nasal homorgânica à
consoante seguinte: (a) se a consoante for
canta [kta] [kNta] [knta]
contínua, o traço de lugar/ponto será o da
finca [fika] [fika] [fiNka] consoante; (b) se a consoante não for contínua, a
nasal não se manifesta e, se ocorrer, terá o traço
infeliz [ ifelis] [ ifelis]
da vogal precedente.
onça [osa] [osa]
enche [eSI] [eSI]
Em (2), ocorre consoante nasal homorgânica à vogal:
(a) se vogal anterior, a nasal será palatal; (b) se
Em (1), ocorre apenas a vogal nasal, vogal posterior, a nasal será velar; (c) se vogal baixa
sem manifestação de consoante [], pode ocorrer uma nasal
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velar ou palatal ou,
ainda, sem consoante nasal.
Sistema vocálico do Português
Sistema vocálico: resumo

Sistema vocálico do Português 36


Sistema vocálico: resumo
1. Vogais tônicas
1. Vogais orais: /a, E, e, i, , o, u/
Vogais nasais: /a, e, i, o, u/
2.
2. Vogais átonas
1. Vogais pretônicas: 5 fonemas vocálicos /a, e, i, o, u/
2. Vogais postônicas não-finais: 4 fonemas vocálicos /a, e, i, u/
3. Vogais postônicas finais: 3 fonemas vocálicos /a, i, u/
3. Vogais nasais
1. Nasalidade: efeito de processo de assimilação “l[ã]ma” /‘lama/
2. Nasalização: tem valor distintivo “lança” x “laça” /‘laNsa : ‘lasa/

Sistema vocálico do Português 37


Sistema vocálico: resumo

 Principais processos que afetam as vogais átonas:


1. Alçamento: processo em que vogais médias-altas passam a
vogais altas.
2. Abaixamento: processo em que vogais médias-altas passam a
vogais médias-baixas.
3. Harmonia vocálica: processo de assimilação regressiva entre
vogais.
4. Redução vocálica: processo de assimilação entre vogal e
consoante.
5. Síncope vocálica: processo de queda/apagamento da vogal.
Sistema vocálico do Português 38
Sistema vocálico: exercícios

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Exercícios de fixação
 Identifique, no conjunto de dados, contextos de aplicação de
alçamento vocálico na sua fala. Sistematize os dados em função dos
contextos e descreva em quais há: (i) aplicação variável; (ii) aplicação
categórica; (iii) não aplicação da regra. Identifique os processos que
levam ao alçamento. Explique os casos de não aplicação da regra.

“moqueca” “senhora” “registrou” “volume”


“bolada” “cozinha” “almocei” “estágio”
“entrada” “destino” “espada” “beleza”
“emprego” “desespero” “refiz” “refrigerante”
“recuperação” “prefeito” “desfeito” “procuro”
“espetáculo” “pequeno” “gordura” “formatura”
“mexido” “almofada” “ferida” “programei”
Sistema vocálico do Português 40
Exercícios de fixação
Aplicação
 Resolução variável: 98%
Harmonização “pr[U]curo”, “f[I]rida”, “g[U]rdura”, “m[I]xido”
Redução “s[I]nhora”, “alm[U]çou”, “p[I]queno”, “alm[U]fada” Aplicação
Harm. e Redução “m[U]queca”, “c[U]zinha” categórica
Alçamento em “[I]ntrada”, “[I]mprego”, “[I]stágio”, “[I]spada”, “[I]sp[e]táculo” Aplicação
de 99%
Contextos particulares “d[I]sfeito”, “d[I]stino”, “d[I]s[I]spero”
Não aplicação “r[e]fiz”,“r[e]cup[e]ração”, “r[e]frig[e]rante”, “r[e]gistrou”
“v[o]lume”, “f[o]rmatura” Alçamento de /e/
em: sílaba VC, com
“pr[o]gramei”, “pr[e]feito” coda nasal e fricativa;
“b[e]leza” (bela), “b[o]lada” (bola) sílabas/prefixos “des”

Contextos: (1) consoantes fricativas: /x/ para /e/ e /v, f/ para /o/;
(2) sílaba CCV; (3) pretônicas que eram tônicas em palavras primitivas.
Sistema vocálico do Português 41

Cf. Carmo & Tenani (2013)


Exercícios: dados EF II
 Objetivo: analisar os registros ortográficos atestados em escrita
infanto-juvenil (Reis; Tenani, 2011) a partir dos conceitos
fonético-fonológicos estudados e dos processos que afetam as
vogais.
i. Identifique os contextos fonético-fonológicos em que ocorrem
os registros não-convencionais de vogais;
ii. Organize os dados em função dos contextos identificados e
explicite processos a que as vogais estão sujeitas na fala.
(1)“pidido”; (3)“persiguição”; (5)“fuguete” (7)“cusinhar”
(2)“filizes”; (4)“bunitinho”; (6)“muleque” (8)“acustuma”
Harmonização vocálica: 1 e 2; Redução vocálica: 5 e 6.
Harmonização e redução vocálica: 3, 4, 7 e 8.
42
Sistema vocálico do Português
Exercícios: dados do EF II
➢ Classifique as grafias listadas em dois grupos, identificando as
características de cada grupo.
1. “desculpas”
2. “descobriu”
3. “persegui-los”
4. “perseguição”
5. “avistou”
6. “inteira”
7. “fugiu”
8. “importante”
Sistema vocálico do Português Grafias baseadas na realização Grafias baseadas43na tentativa
Cf. Reis & Tenani (2011) alçada das vogais pretônicas de alçar a ortografia
Exercícios: sistematização para dados de
EF II
 Sistematização de relações entre alofones, fonemas e grafemas:
ortografia e variação fonético-fonológica.

Sistema vocálico do Português 44


Referências
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Introdução a estudos de fonologia do português brasileiro. EDIPUCRS, 1996, P. 165-
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CAMARA Jr., J. M. [1970] Estrutura da língua portuguesa. 20ª ed. Petrópolis: Editora
Vozes, 1991.
CAGLIARI, L. C. Elementos de Fonética do Português Brasileiro. São Paulo:
Paulistana, 2007.
CAGLIARI, L; MASSINI-CAGLIARI, G. Fonética. In: MUSSALIN, F.; BENTES, A. C.
Introdução à linguística: domínios e fronteiras. São Paulo: Cortez Editora, 2001, p.
105-146.
CARMO, M. C.; TENANI, L. Vogais médias pretônicas na variedade do noroeste
paulista: Uma análise sociolinguística. Alfa: Revista de Linguística (UNESP. Online),
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COLLISCHONN, G.; SCHWINDT, L. C. Harmonia vocálica no sistema verbal do
português do sul do Brasil. Estudos de Fonologia e de Morfologia. Porto Alegre, v. 18,
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CRISTÓFARO SILVA, T. Fonética e Fonologia do Português Brasileiro: Roteiro de
Estudo e doGuia
Sistema vocálico de Exercícios. São Paulo: Contexto. 1999.
Português 45
Referências
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no ponto mais oriental das Américas. 1ed. João Pessoa: Ideia, 2009, p.29-43.
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de doutorado. Los Angeles: Universidade of California, Ann Arbor, 1979.
RAMOS, Adriana Perpétua; TENANI, Luciani. Análise métrica do apagamento das
vogais postônicas não-finais no dialeto do noroeste paulista. Estudos Linguísticos
(São Paulo. 1978), v.38, p.21-34, 2009.
REIS, M. C.; TENANI, Luciani. Registros da heterogeneidade da escrita: um olhar
para as grafias não-convencionais de vogais pretônicas. São Paulo: Cultura
Acadêmica - Editora UNESP, 2011, p.144.
TENANI, L. As vogais átonas do noroeste paulista: fatores estruturais. Estudos
Linguísticos (São Paulo. 1978), v.28, p.69 - 82, 2009.
WETZELS, L. Mid vowel neutralization in Brazilian Portuguese. Cadernos de Estudos
Linguísticos, Campinas, 23, p.19-55, 1992.

Sistema vocálico do Português 46

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