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JOSÉ DIRCEU EM CONVERSACOM MINO CARTA,

O EX-MINISTROAPONTAA CULPA DE QUEM É OU FINGIU


SE_RDE ESQUERD~ PELA INDIFERENÇAPOPULAR.
"NAO ESTIVEMOSA ALTURA DA MISSAO QUE NOS CABIA"

cartacapital .com.br ••• ED IT OR A


: :: CONFIAN ÇA

NOBRASIL
ACONTECE
TODOS
OSDIAS
PORQUE O MASSACREDIÁRIO DE POBRESE PRETOSNO PAÍS
NÃO PROVOCAA MESMA COMOÇÃO?
Memória/ Umhomem
universal
Luiz Gonzaga Belluzzo lembra Carlos Lessa

É doloroso falar dos amigos na hora de sua morte. Digo isso porque me assalta
a certeza de que Carlos Lessa era a vida . A vida em todas as dimensões que a
tornam digna de ser vivida, a vida afetiva, intelectual, cultural. Lessa era um
homem universal. Em suas ações e intervenções associava a transcendência à
imanência , o abstrato ao concreto. Não era apenas um professor que recitava
lições . Era um tribuno que inflamava plateias, entusiasmava os alunos que se
sentiam impelidos a buscar apaixonadamente o conhec imento a partir da
dúvida . Era um homem sem medo que admitia o sacrifício pessoal para
defender suas ideias e seus princípios. Era, enfim, um homem universal.

Mais refugiados

O número de cidadãos no Brasil que agora possuem status de refugiados saltou


de 6 mil em dezembro para 43 mil atualmente, segundo o Comitê Nacional para
os Refugiados (Conare), um aumento de mais de sete vezes . O dado , que
corresponde em sua maioria a pedidos feitos por venezuelanos (38 mil, ou 88%
do total), explica -se pela aprovação de três levas de demandas em dezembro ,
janeiro e abril. Com a situa ção do país vizinho classificada pelo governo
brasileiro como de "grave violação dos direitos humanos", a aprovação dos
pedidos é facilitada.
Armas/ Arsenal
paraosmilicianos
Dispara a venda de muni ções a c ivis no Brasil
ltiJ9..

Eduardo Bolsonaro se exibe. As milícias adoram

As vendas no Brasil de munição para cidadãos com direito a posse ou porte de


armas dispararam em relação ao ano passado, seguindo as políticas de
armamento promovidas pelo governo - um aumento que correspondeu, de
janeiro a maio, a quase o dobro do mesmo período anterior {98%). Segundo
dados obtidos pelo jornal O Globo via Lei de Acesso à Informação, foram pouco
mais de 1,5 milhão de cartuchos vendidos somente em maio, ou cerca de 2 mil
por hora. Os dados excluem as compras de munição feitas por forças de
segurança pública, como as po lícias, além de integrantes de órgãos de
inteligência, e vão ao encont ro da portaria publicada em 23 de abril, que
aumentou o limite de cartuchos que podem ser comprados por cidadãos . Antes
fixada em 200 unidades por ano, a medida alterou o marco para de 50 a 300 por
mês, um aumento que pode corresponder a 18 vezes mais munição a depender
do comprador.
Anistia/ à perseguição
Elogio
Damares Alves suspende indenizações de vítimas da ditadura

-
Deve faltar o que fa z er no ministé rio

A ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, anulou na


segunda-feira 8 a anistia concedida a 300 brasileiros perseguidos pela ditadura.
De acordo com o ministério, a medida acarreta na suspensão das indenizações
mensais a cabos da Aeronáutica desligados da instituição em 1964 por
perseguição política. A medida de Damares foi publicada após o Supremo
autorizar a revisão de 2,5 mil anistias dadas pelo mesmo motivo , a portaria de
1964, que especificava o desligamento após oito anos de serviço. Os afetados
pela decisão não serão obrigados a devolver as indenizações , mas terão os
pagamentos mensais suspensos . Ao todo, o ministério calcula que elas custem
mais de 30 milhões de reais por mês.

O antivírusem Hong Kong

Uma nova lei de segurança nacional chinesa que pretende reclassificar as


atividades consideradas como subversão , terrorismo e atitudes separatistas em
Hong Kong foi comparada, pelo vice-diretor chinês de assuntos da região
autônoma, a um "antivírus". Segundo Zhang Xiaoming , as man ifestações que
acontecem há meses na ilha e que pedem menos intervenções do governo
central chinês estão indo "longe demais ". A nova lei, quando aprovada,
funcionaria "como se um antivírus fosse instalado em Hong Kong", disse
Xiaoming na segunda-feira.
Argentina/ Sojaestatizada
O governo encampa a maior beneficiado ra de grãos do país

Fernández : em nome da segurança alimentar

O presidente da Argentina, Alberto Fernández, anunciou o plano de intervir e


futuramente expropriar a Vicentín, maior beneficiadora de soja do país. A
empresa atravessa grave crise financeira e declarou falência em dezembro do
ano passado . O governo pretende, com um tempo, transformá-la em uma
companhia de capital misto. Apesar das dificuldades de caixa, a Vicentín foi a
maior doadora da fracassada campanha à reeleição de Maurício Macri em
2019, com um aporte de 13,5 milhões de pesos (cerca de 600 mil dólares). Com
uma dívida anunciada de 1,5 bilhão de dólares, 300 milhões ao Banco Nacional
da Argentina, o ex-presidente da empresa é alvo de denúncia da promotoria
federal, que alega irregularidades em empréstimos concedidos à empresa um
pouco antes da declaração de falência. Segundo Fernández, a intervenção
imediata será feita pela YPF-Agro, braço agrícola da estatal petroleira, e os
planos para a expropriação seguirão em projeto de lei no Congresso.

e CRÉDITOSDA PÁGINA: CLEBERBONATO,REDESSOCIAIS E PRESIDÊNCIAARGENTINA


Capa

Umproblema
decor
Vidas negras importam? Não no Brasil, mostram os números e a realidade

Por Thais Reis Oliveira

Em São Paulo, milhares nas ruas contra o racismo e a favor da democracia

No último país do continente a abolir a escravidão, o desbalanço entre as raças


começa cedo. A depender da cor de sua pele, uma mulher grávida pode ter duas
vezes mais risco de morrer no parto. Nascidos, os bebês correm o dobro de
risco de perecer antes do pr imeiro ano de vida. Também se reflete na morte. Os
dados mais recentes sobre a diferença entre a expectativa de vida entre negros
e brancos, de 2011 , sugerem que os primeiros vivem , em média , cinco anos a
menos . Estão mais sujeitos a mortes evitáveis, aquelas que se pode prevenir
por ações efetivas dos serviços de saúde . Reflete-se também nas novíssimas
doenças: a morte pelo coronavírus, indicam os dados preliminares, cresce
desproporciona lmente conforme a tez do pac iente . E também aos
assassinatos . Apesar da tendência de queda nos números globais do morticínio
bras ileiro, pretos e pardos são as grandes vítimas das duas moda lidades que
seguem em alta : o feminicídio e a morte por interven ção policial. Segundo o
Anuário Brasileiro de Segurança Pública do ano passado , negros somam 75,4%
dos mortos em decorrência de intervenções da po lícia em 2018 . Também
compunham ma is da metade dos po liciais mortos em confronto. Das mulheres
assassinadas pelo machismo, 6 em cada 1O são negras. A dolorosa realidade
reflete-se ainda nos números do IBGE: entre 2012 e 2017, a taxa de homicídios
manteve-se estável na população branca, mas cresceu entre pretos e pardos, de
37,2 para 43,4 homicídios por 100 mil habitantes.

Entre o berço e o caixão, os que não carregam a insígnia da brancura estão


sujeitos a uma vida de violações e privação aos direitos causadas por uma
estrutura que, embora não esteja escancarada na letra da lei, se impõe sobre
55% da população por uma complexa engenharia de cores. Mais negros vivem
em domicílios sem coleta de lixo (12% contra 6% dos brancos), sem
abastecimento de água por rede geral (20% contra 11%), e sem esgoto sanitário
por rede coletora ou pluvial (43% contra 26%), vulnerabilidade sanitária que
aumenta a exposição a vetores de doenças. São minoria entre os cargos
gerenciais, e maioria entre desempregados e trabalhadores informais. Mesmo
com o diploma na mão, recebem menos que os colegas brancos. Entre a safra
de parlamentares eleita em 201 8 para a Câmara dos Deputados, apenas 125
dos 513 se declararam pretos ou pardos.

NO PRIMEIRO TRIMESTRE, EM SÃO PAULO, A POLÍCIA


MATOU UM PRETO A CADA 16 HORAS

Quando se fala negro, fala-se conjuntamente das populações preta e parda no


Brasil. Trata-se de uma conquista histórica do movimento negro que terminou
incorporada oficialmente pelo IBGE. E se justifica por duas razões.
Estatisticamente, pela uniformidade de características socioeconômicas dos
dois grupos. E, do ponto de vista teórico, porque as discriminações sofridas por
ambos são da mesma natureza. Ou seja, é pelo quanto são pretos que os
pardos são discriminados. Em tempos nos quais o mundo pergunta se as vidas
negras importam, os números brasileiros mostram, infelizmente, que aqui não.
Não por falta de esforços para lidar com essa realidade . "É verdade que, para
uma parte minoritária da sociedade, vidas negras não só não importam, como
precisam ser ceifadas. Uma outra camada continua em silêncio, entre as muitas
razões, para manter sua condição de privilégio . Mas, para nós, as vidas negras
importam muito. Lutamos há séculos para mudar esse quadro", avalia Jurema
Werneck, diretora- executiva da Anistia Internacional Brasil. Nascida no Morro
dos Cabritos, no Rio de Janeiro, Werneck formou -se em Medicina pela
Universidade Federal Fluminense. Foi, durante anos, a única estudante negra do
curso. "Se o racismo espolia e exclui muita gente, é natural que ele seja
vantajoso à outra parte", analisa.
Para Miguel, de 5 anos , a negligência da patroa da mãe foi fatal. Para João Pedro ,
de 14 , o Estado brasileiro .

A chance de um jovem negro ser vítima de homicídio no Brasil é, em média, 2,5


vezes superior àquela de um jovem branco, segundo dados do Índice de
Vulnerabilidade Juvenil à Violência e Desigualdade Racial de 2018. Além do
sofrimento físico e psicológico, o morticínio mina a confiança nas instituições ,
amplia os gastos com saúde e implica perda de produtividade econômica,
especial quando essas taxas atingem com mais intensidade a população
jovem. A média de idade dos assassinados no Brasil gira em torno dos 29 anos.
A face mais explícita dessa realidade dá-se nas relações com a polícia. Quando
a morte vem pelas mãos do Estado, o sarrafo etário é ainda mais baixo. Um
terço das vítimas tem entre 20 e 24 anos. O ápice das mortes em decorrência
de intervenções policiais no Brasil dá-se aos 20 anos de idade. Em São Paulo,
estado mais populoso do País, a polícia matou um negro a cada 16 horas no
primeiro trimestre deste ano, segundo dados oficiais do governo paulista . Não
se trata de um fenômeno isolado. Uma pesquisa da própria corporação,
concluiu que, nos últ imos 20 anos, o número de mortes de civis pela PM
cresceu 46%. Elizeu Lopes, ouvidor das polícias do estado, minimiza: "É
importante fazer uma distinção entre o agente policial e a polícia. O racismo no
Brasil é estrutural, não está restrito a uma instituição. Tudo isso é consequência
dos sintomas da realidade brasileira, de um processo de uma mudança
estrutural que não foi concretizada".

"A JUVENTUDE PRETA DA FAVELADEIXOU DE VIVER


PARA SOBREVIVER",DIZ O ESTUDANTE BRENO
LAERTE,MORADOR DO COMPLEXO DA MARÉ
O policial que matou George Floyd foi preso. O segu rança que matou Pedro
Henrique Gonzaga, em 2018, não

Na outra ponta do processo há a Justiça . Pretos e pardos são mais


condenados, compõem 65% da massa carcerária brasileir a, hoje calculada em
mais de 800 mil detentos. O fenômeno é atribuído, em grande parte , a uma
distorção trazida pela Lei de Drogas, aprovada em 2006. Ao não estabelecer
parâmetros objetivos para diferenciar traficante de usuário, costuma prevalecer
na hora do julgamento o entendimento da tríade formada por polícia, Ministério
Público e magistrados. Um levantamento da Agência Pública mostrou que os
negros são mais condenados por tráfico e com menor quantidade de drogas. A
agência analisou 4 mil sentenças de tráfico em 2017 . E concluiu que a maioria
das apreensões é inferior a 100 gramas e que 8 em cada 1O processos com até
1O gramas t iveram testemunho exclusivo de policiais . O debate final sob re um
dos artigos da lei, que trata da descriminalização do porte para uso pessoal,
aguarda decisão do STF. Presa em junho passado após uma controve rsa
ofensiva do Ministério Público paulista contra movimentos de moradia popular,
a cantora e ativista cultural Preta Ferreira passou 109 dias na cadeia. "Quando
cheguei na prisão, vi muitas pessoas negras como eu muitas vezes condenadas
sem julgamento" , relata . A experiência aproximou-a das teses do abolicionismo
penal. "Só pediam pela Preta Livre, Preta Livre. Por que têm que direcionar a
mim? Todos são presos políticos , quando o País não oferece educação e
acesso igualitário, todos os presos são políticos."

A onda global de protestos antirracismo provocada pela morte do norte-


americano George Floyd ressuscitou um antigo debate sobre o enfrentamento à
violência racista . Diante das imagens de confronto aberto entre policiais e
manifestantes, levantou-se uma suposta "passividade" dos negros brasileiros
em relação a uma realidade tão (ou até mais) violenta quanto à dos Estados
Unidos . Por lá, o risco de um homem negro ser atingido pela polícia, segundo
uma pesquisa do ano passado, é de 96 em 100 mil - mais de 2,5 vezes o risco
de um homem branco. A diferença é a mesma no Brasil. Mas a corporação
brasileira é bem mais letal. No ano passado, a PM teve envolvimento na morte
de 5.804 cidadãos negros . Entre os norte-americanos, no mesmo período , foram
pouco mais de mil. Só no estado do Rio de Janeiro, um terço desse total morreu
nos últimos dois meses pelas mãos da PM, apesar da diminuição do crime
durante a pandemia . O caso mais emblemático foi a morte de João Pedro Pinto,
morto dentro de casa no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo. Em mais
uma ofensiva sem nenhum planejamento ou apoio de inteligência, agentes da
Polícia Civil e da Polícia Federal entraram em uma das residências da
comunidade atirando e jogando granadas . Um dos tiros atingiu o menino . No
Complexo da Maré, onde o coronavírus matou até agora ao menos oito
moradores, o temor pela doença coexiste com o medo dos fuzis . "A juventude
preta da favela deixou de viver para sobreviver", afirma o estudante Breno
Laerte, morador do complexo. Entre as táticas para evitar o pior, o jovem jamais
sai sem um documento de identidade em mãos e evita reagir a abordagens
policiais. Embora lamente o desdém da sociedade às mortes, ele rejeita a tese
de que não se luta contra a violência policial no Brasil. 'Todas as ações que
estão ocorrendo nas favelas, distribuição de cestas básicas, distribuição de
itens de higiene pessoal, estão acontecendo por nossa conta. Muita gente diz
que o que ocorre nos EUA deve ser feito no Brasil. Está sendo feito. Tem uma
galera lutando há muito tempo, mas parece que a 'branquitude' só enxerga isso
agora ."

O caminho para o fim da impunidade é longo. Embora seja obrigatório instalar


inquéritos para todos os casos, quase nunca o desfecho é a punição . "Muitas
vezes não há investigação diligente da morte, fica -se restrito às palavras dos
policiais envolvidos", lamenta Daniel Lozoya, defensor público do Núcleo de
Defesa dos Direitos Humanos do Rio de Janeiro. Há alguns anos, a CPI dos
Autos de Resistência, de autoria do então deputado estadual Marcelo Freixo
(PSOL) apurou inquéritos sobre mortes cometidas por policiais fluminenses.
Concluiu, em 2016, que 98% dos casos eram arquivados . A realidade mudou
pouco. "O sistema de Justiça criminal é marcado pelo racismo . Um policial que
dispara contra um jovem negro tem na retaguarda um comandante da tropa, o
secretário de Segurança, o governador. Ao lado, com o dever de fazer o controle,
tem o Ministério Público . Todo mundo sabe. Homicídios por policiais são
homicídios cujo autor tem nome, endereço conhecido, local de trabalho
conhecido, é sabido qual arma usou. Todos os elementos estão ali. O homicídio
da polícia é fácil de resolver", pontua Jurema Werneck . E não apenas no Brasil.
"Na Jamaica e nos Estados Unidos é a mesma coisa ."
ASCORES
DADESIGUALDADE
A inclusão precária da população
negra também se traduziu em
fragilidade econômica e social

TRABALHO
INFORMAL DESEMPREGO
ESUBOCUPAÇÃO

3S% 47% 33% 66 %


Brancos Pardos ou pretos Brancos Pardos ou pretos

CARGOS
GERENCIAIS RENDIMENTO
MÉDIO
68,6 % 29,9 % R$
.2.796 R$
1.608 Brancos Pardos ou pretos
Brancos Pardos ou pretos

POLÍTICA HORA
DOTRABALHADOR
DIPLOMADO
2018,só "94
Dos deputados eleitos em

~ % são pretos R
$33 R
$23
ou pardos
Brancos Pardos ou pretos
Fonte : IBGE/Oesigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil , 2019
Em Bristol , protesto do Black Lives Matter pôs abaixo monumento a traficante de
escravos

As diferenças entre norte-americanos e brasileiros passam também por ques-


tões históricas. Todos os motins, revoltas e conjurações que contaram com a
participação de negros, como a Balaiada e a Revolta dos Malês, foram
brutalmente reprimidos, com direito a enforcamentos e corpos esquartejados
expostos pela cidade. Uma reação contrária ao chamado "haitianismo": o temor
de que os negros brasileiros formassem maioria e se insurgissem como os
moradores da ilha da América Central. Ao longo dos séculos, esse pavor ganhou
diferentes contornos. De pavor direto passou aos intelectuais eugenistas da
República, entre eles Renato Kehl, Vital Brazil e Monteiro Lobato. "Houve um
movimento da psicologia que nasceu com teorias de que violência, agressão,
alcoolismo, perversão sexual, todos eram problemas congênitos do negro",
explica Ale Santos, pesquisador da história da cultura negra e autor do livro
Rastros de Resistência. Esse ideário, além de permear até hoje as relações
raciais brasileiras, se traduziu em diversas tentativas de desarticular a formação
de uma intelectualidade negra brasileira. Durante a ditadura, o regime acabou
com a Frente Negra Brasileira e o Teatro Experimental do Negro de Abdias do
Nascimento. Agora, o artífice dessa empreitada é Sérgio Camargo, um
negacionista do racismo empossado presidente da Fundação Palmares que
considera o movimento negro "escória" . "Nunca houve um rompimento direto
com o racismo científico no Brasil", pontua Santos. O trecho que previa "a
emancipação lenta dos negros" desapareceu da Constituição de 1824, que não
fez nenhuma menção à escravidão, cujo fim só se daria dali a 64 anos . Nos
Estados Unidos, onde a abolição da escravatura veio mais cedo e por meio de
uma guerra civil com a participação dos negros, os libertos puderam pensar em
como se integrariam àquela sociedade. Não sem tensões. O presidente
Abraham Lincoln achava que os negros não tinham lugar na América branca, e
que aproveitariam a liberdade para empreender uma jornada de retorno à África .
Como efeito colateral, as leis segregacionistas e o pendor separatista deram
liberdade à intelectualidade negra dos EUA No Brasil, isso só ocorreria com
mais amplitude no fim dos anos 1980 . Diante dessas diferenças, Santos
questiona as loas brasileiras aos protestos aos moldes norte-americanos . "O
Brasil tem uma tradição de chacina, de genocídios, de todas as revoltas
populares . Se um negro é identificado, podem ele e os amigos ser assassinados
num bar, dentro de uma favela. As chacinas da Candelária e do Carandiru são
partes da história recente brasileira, é preciso se proteger de várias formas."

Lopes, ouvidor das polícias paulistas: violência policial é consequência do racismo

MORTES
DECORRENTES
DEINTERVENÇÕES
POLICIAIS
Por raça/co r (Brasil, 2017-2018) Em %

75,4%
80

60

40
24,4%
20
0,2% 0%
o
Amarelo Branco Indígena Negro
Fonte : Análise produzida a partir dos mic rodados dos registros policiais e das
Secretarias Estaduais de Segurança Pública e/ou Defesa Social , elaborada pelo
Fórum Brasileiro de Segurança Pública
Essa efervescência global nas ruas, em meio à maior crise sanitária do século,
cujo impacto na economia não mostrou sua pior face, abre oportunidades
únicas. Se as revoltas não duram para sempre, é fato que sempre projetam um
futuro . Segundo Sílvio Almeida, presidente e advogado do Instituto Luiz Gama e
atualmente professor convidado da Duke University, na Carolina do Norte, a
urgência ultrapassa as tensões raciais. "É claro que essa adesão global tem a
ver com o poder econômico e cultural dos Estados Unidos. Mas a raiz é uma
crise ampla e global, é a crise do capitalismo, é uma crise civilizatória. O gatilho
é o racismo para que a insatisfação exploda", pontua . É importante evitar, avalia,
uma visão "moralizante" do racismo e atacar sua estrutura . "Não se pode
aceitar o trabalho uberizado . Lutar contra ele é parte da luta antirracista, não
podemos cair no papo de que não podemos ter renda mínima. As vítimas
dessas mudanças têm cor, não têm? Os filtros da meritocracia são
racializados." Jurema Werneck, de sua parte, prefere não fazer apostas, mas um
convite : "É preciso que mais gente se mova. Essa não é a primeira crise, e se
não avançarmos, vamos entrar em outra. Corremos hoje muito mais risco do
que em 2013. Todos deveriam aproveitar essa satisfação e transformá-la em
luta. Ou não vai sobrar nada para ninguém" . •
"NÃO
HÁRAZÃO
PARA
APOLÍCIA
PERDER
OCONTROLE
NOSPROTESTOS"
É o que diz o coordenador do movimen t o dos poli ciais pela democraci a

Por Victor Calcagno

Silva : HÉ preciso reformular a formação policial #

Composto de agentes de segurança pública, o movimento dos policiais pró-


democracia, fundado em 2017, combate a escalada do autoritarismo e alerta
para a expansão de forças paramilitares pró-Bolsonaro . Segundo Luciano Silva,
ex-comandante da PM em Maceió e um dos coordenadores do grupo, o Brasil
segue um projeto de segurança pública que tem servido para legitimar ações de
força excessiva. O ex-policial vê uma disparidade da polícia, um uso político e
uma ameaça às liberdades.

CartaCapital : O que significa ser policial e participar do movimento?


Luciano Silva: É ser um policial democrata, comunitário , de aproximação, que
busca servir a todos sem distinguir classe social, cor, raça. Que trabalha em prol
da democracia e de todos os direitos, sobretudo os humanos .

CC: É um grupo minoritário na polícia?


LS: Sim, sabemos que o posicionamento ativo ainda germina na polícia e
demanda mais agentes para poder crescer de fato . Basicamente, queremos
uma polícia definitivamente democrática
CC: Policiais são formados por uma lógica racista?
LS: Claramente, a formação policial precisa ser reformulada, pois existem
resquícios da ditadura. Não podemos negar que houve um avanço em alguns
lugares, principalmente quando falamos de polícia comunitária, mas
ultimamente há uma regressão, sem dúvida fruto da formação. Por isso
queremos melhorá-la e desmilitarizar os órgãos de segurança pública . A polícia
é uma organização essencialmente civil e a estética militar leva agentes a
exceder no uso da força.

CC: E como isso encontra ressonância no atual governo?


LS: Um discurso de que "bandido bom é bandido morto", como agora, não tem
base legal. Generalizar a política de segurança é dar sinal verde para o agente
se sentir legitimado a matar . Isso se liga à legislação de armas que tem sido
promovida pelo governo, apesar de ir na contramão das pesquisas científicas no
mundo todo, que não fazem relação alguma entre população mais segura e
mais armas nas ruas. Ao contrário, quanto mais armas em circulação, mais
homicídios. Violência no tratamento de segurança e mais armamento sinalizam,
portanto, para que agentes possam ser mais arbitrários.

CC: O clima começa a esquentar nas ruas, com manifestações contra e a favor
do presidente . A polícia está preparada para enfrentar esses conflitos ou há
uma parcialidade? Acha que pode sair do controle?
LS: Não há uma orientação clara dos comandos policiais para que as
manifestações sejam tratadas de um jeito especial pelos agentes destacados,
mas se percebe uma certa diferenciação no procedimento aplicado. Quando a
manifestação é pró-governo, há uma certa liberação para alguns excessos
cometidos . Quando o protesto é pró-democracia, há uma contenção mais forte.
É preocupante, pois a polícia é uma força de Estado, não de governo, e tem de
agir da mesma forma em relação aos dois lados. As manifestações pró-
democracia são pacíficas, então a polícia não terá motivo algum para "perder o
controle". Justamente pelos casos que vimos, em que parece haver uma
parcialidade, os comandos policiais deveriam deixar claro aos agentes que é
preciso tratar ambos os lados de maneira idêntica e dentro da legalidade. Essa
diferença não pode acontecer de maneira alguma, mesmo sabendo que nos
órgãos de segurança pública parece haver uma boa parte que idolatra o
presidente.

CC: No Rio de Janeiro, um policial apontou um fuzil para um manifestante


desarmado, durante um pequeno e pacífico protesto contra o racismo no início
do mês. O que explica uma cena dessas?
LS: É o despreparo do policial militar, que deve ser chamado pelo seu comando,
responder pelo excesso coletivo e servir de exemplo para os demais. Uma cena
dessas não pode acontecer.

CC: Normalmente, a justificativa para a violência contra manifestantes é o


vandalismo. Acredita que isso pode servir de pretexto para medidas autoritárias
no futuro do País?
LS: O vandalismo não pode ser aceito em nenhum dos lados e a polícia deve
agir quando ele acontece, mas pensando na legalidade e sem excessos, como
esse do fuzil. É preciso conter e, se preciso, levar até a delegacia, mas não
exatamente atacar ou agir de forma arbitrária. Além disso, a orientação clara
para as manifestações pró-democracia é a de que não haja nenhum tipo de
vandalismo .

- CRÉDITOSDA PÁGl~A: ANDRESSAANHOLETE/ GETTY IMAGES/ AFP E REDESSOCIAIS- REDESSOCIAIS


'..I -REDESSOCIAIS,CAMARA MUNICIPALDE MOGI DAS CRUZESE ACERVOPESSOAL
Capa

àbrasileira
Racismo
Menos explícita , não menos perversa, a discr imina ção no País exibe a secular
for ça dos senhores

Por Marcos Rezende*

Brasil , domingo, 7 de junho

O assassinato de George Floyd em Minneapolis serviu de gatilho para uma série


de protestos em cidades dos EUA. Anos atrás, a morte do jovem negro Michael
Brown, de apenas 18 anos, atingido em plena luz do dia por seis t iros
disparados por um policial branco da cidade de Ferguson, no estado do
Missouri, também tomou o país, transformando -o em um grande palco da luta
racial.

Os protestos, na oportunidade, foram sim ilares aos que acontecem agora, tendo
início no local em que ocorreu a violência policial e amp liando-se para outras
dezenas de cidades e estados dos Estados Unidos, causando grande
repercussão internaciona l. Enquanto isso, no Brasil, um conjunto de outros
casos seme lhantes, como o do garoto João Pedro, de 14 anos , baleado no
Complexo do Salgueiro, no Rio de Janeiro, não cria tamanha revolta popular ,
restringindo manifestações a grupos de ativistas e mantendo silenciosa a
maioria absoluta da soc iedade.
O que leva essas manifestações a acontecerem com tanta potência por lá e não
alcançarem aqui a mesma comoção? Em princípio, é preciso pontuar as
diferenças sociais entre os dois países, principalmente a forma de
manifestação do racismo nas duas sociedades e a construção histórica desses
formatos de discriminação.

Nos Estados Unidos, as violências raciais apresentam-se de formas muito mais


diretas e contundentes - embora lá haja mais "permissões" do racismo
sistêmico para que negros alcancem maiores níveis econômicos,
marcadamente na música ou no esporte . Aqui, apesar de não ser menos
violento o racismo, ele se apresenta de formas engenhosas, menos explícitas,
adotando feições que o fazem ser escamoteado.

No geral, nas metrópoles brasileiras, o racismo dificilmente será manifestado


com xingamentos violentos, como pode ocorrer em Nova York. Contudo,
excluirá negros e negras da educação, do direito à saúde, à moradia, às terras e
a uma série de instrumentos de bem-estar social. Fará com que sofram
restrições, estejam em posições subalternizadas e os destinará à pobreza .
Percurso inverso dos brancos brasileiros.

O BRASIL NUNCA EXISTIU ENQUANTO NAÇÃO.


SOMOS APENAS UM ESBOÇO NUNCA TERMINADO

A abolição formal e inacabada do escravismo no Brasil fincou -se no abandono


socioeconômico da população negra "liberta" . Parlamentares abolicionistas,
entre eles o engenheiro negro André Rebouças, pautaram à época que,
juntamente com a proibição do trabalho escravo, ocorresse reforma agrária em
reparação à população negra, o que, como sabemos, não ocorreu até hoje, 132
anos após o "fim" da escravatura . A ausência de terra, enquanto sinônimo de
riqueza monetizada, apartou a população negra dos benefícios econômicos
gerados pelo próprio trabalho .

Essa negação à ascensão econômica e social, que inclui todos os direitos


aviltados dessa população, mitiga a capacidade do negro brasileiro em ecoar e
comunicar o "racismo à brasileira". Essa menor reverberação do racismo
ocorrido no Brasil sinaliza que o capital branco-burguês opera de forma potente
e perversa para silenciar os crimes por ele cometido - muito embora as
estatísticas indiquem diferenças inversas em relação à dicotomia racista
brasileira e estadunidense.
Os autores Frank Edwards, Hedwig Lee e Michael Esposito demonstram que a
possibilidade de um homem negro ser atingido pela polícia, nos Estado Unidos,
é 2,5 vezes maior daquela de um homem branco. No Brasil, os dados do Fórum
Brasileiro de Segurança Pública informam que esse risco é cinco vezes maior .

Esses números demonstram a importância de assinalar que o racismo é um


conceito atrelado a uma relação de poder. Cria cenários sociais de
constrangimentos e vulnerabilidades para os negros e de poder e segurança
para os brancos . Ao passo que vivemos um processo de sistemática negação
do racismo , considerando que, por aqui, convencionou-se tratar as
desigualdades raciais como uma questão social, estratégia que dá conta de
ilustrar a fina sofisticação do racismo no Brasil. A disseminada ideia do racismo
cordial e da miscigenação das raças dilacera a perspectiva identitária racial no
País.

Do outro lado dessa dicotomia, nos Estados Unidos, devemos lembrar que, logo
após a Guerra de Secessão, ou Guerra Civil Americana, as tropas federais
estacionaram nos estados do Sul para que a aristocracia branca não voltasse a
escravizar os negros, até que se oficializasse a decisão de implantar o sistema
de Apartheid, momento que fundou parte da identidade e da ideia de unidade
nacional estadunidense, pois a oficialização da segregação racial permitiu
unificar os brancos do Norte e do Sul.

Na sequência, em 1896, no caso Plessy vs . Ferguson, a Suprema Corte tomou


uma decisão que originou a doutrina jurídica da lei constitucional dos Estados
Unidos , denominada "Separados, mas Iguais", que permitiu a segregação racial
naquele país, desde que não se configurasse violação da 14ª Emenda, que
garantia proteção e direitos civis iguais a todos os seus cidadãos .

No Brasil, os adventos da República e do "fim" da escravidão foram marcados


por uma elite nacional usando de desfaçatez e ocultamento para tratar a
questão dos libertos, manipulando a construção de conceitos de brasilidade,
cordialidade e miscigenação, que ocultavam princípios de eugenia ancorados
no que se viu elaborado, depois, como racismo científico . Tudo isso foi
estratégia para mudar o regime de escravatura , mantendo a opressão sobre
corpos negros. Além disso, o citado pós-abolicionismo sem garantias de
direitos criou um abismo entre a população negra e a igualdade, que a
democracia deveria garantir como básico .

A herança escravocrata vem se perpetuando pela história, sem reestrutura ção


ou reparação . A fragilidade de nossas instituições tem raiz no período colonial,
quando eram fortes apenas na metrópole. Nossa história foi sempre contada a
partir das referências europeias . O Brasil nunca existiu enquanto nação. Somos
apenas um esboço não terminado. A população negra, nesse contexto, é a base
de exploração do capitalismo. Nossos corpos valem tanto quanto uma peça de
máquina de fábrica. Se quebrar, o patrão repõe por outra, sem se importar em
descartar a usada.

Por fim, o racismo em países do capitalismo periférico tem ainda mais força
justamente pela forma cheia de desfaçatez que se apresenta. E aqui "a vida
valerá sempre menos" . Logo, a morte de um brasileiro constitui-se como um
"crime perfeito" e valerá sempre menos que a de um norte-americano ou
europeu, mesmo que ele seja preto. Somos periferia, enquanto projeto de nação.

*Ogan, historiador, mestre em Desenvolvimento e Gestão Social pela UFBA e


coordenador do Coletivo de Entidades Negras (CEN)

e CRÉDITOSDA PÁGINA: BRUNA PRADO/ GETTY IMAGES/ AFP


Capa

é nossa
Aculpa
Está errado responsabiliza r o povo por seu distanciamento da realidad e, nós da
esquerda é que não estivemo s à altura da missão de consci entiz á-lo, afirma
Jos é Dirceu

Por Mino Carta

Dirceu não teme a verdade

Ao galgar o Sinai, Moisés não escu lpiu nas tábuas das leis o pecado da
indiferença. Papa Francisco, o estadista empenhado em devolver a Igreja
Católica à sua mais autêntica missão, avisa: a situação atual, que nos obriga "à
distância fís ica e a permanecer em casa", nos convida a redescobrir a
necessidade das relações sociais, e que, "longe de aumentar a desconfiança e a
indiferença, esta condição deveria nos tornar mais atentos à nossa maneira de
nos relac ionarmos com os outros" . E mais : "E a oração com a qual Deus toca e
move o nosso coração abre-nos as carências do amor, da dignidade e liberdade
de nossos irmãos, bem como ao cuidado por toda a criação" .

A lição papal ganha notável realce na comparação entre as manifestações


mundiais contra o racismo, precip itadas pela morte de George Floyd, e a
constatação de que episódios tão vio lentos e ofensivos ocorrem amiúde no
Brasil sem provocar no povo qualquer gênero de reação. Somos pecadores pela
indiferença, a qual diz respeito também à presença de um governo demente que
haveria de nos vexar e à devastação ambiental, em relação à qual o País
desempenha um papel decisivo na destruição da Amazônia, pulmão da Terra.

Francisco : indiferença é pecado

É a indiferença popular, raramente rompida por uma ou outra manifestação de


repulsa, inevitavelmente tíbia, que gera a impressão da normalidade em uma
hora tão anormal. Para esta edição tive mais uma conversa com um velho e
bom amigo, daqueles que estão dispostos a tomar um copo de vinho comigo.
Refiro-me a uma figura inequivocamente de esquerda, com passagens que a
qualificam em termos de coerência, coragem e lealdade. Preso em função de
acusações sem provas, partidas da grotesca República de Curitiba, José Dirceu
recusou-se a se submeter à delação premiada, ao contrário da passiva entrega
de tantos outros presos pela dupla fatídica de Moro e Dallagnol. Certa vez,
comentei o fato com Lula. Ele disse: "Zé Dirceu tem princípios e crenças
inabaláveis".

Entre os políticos que tenho ouvido nos últimos tempos, Dirceu é o primeiro
disposto a reconhecer que o pecado do povo brasileiro não recai sobre ele, e
sim sobre quem não soube organizá-lo . Agrada-me que no caso ele use o verbo
conscientizar, que me empurra de volta aos tempos das reformas de base
programadas pelo governo de Jango Goulart, depois da renúncia de Jânio
Quadros . Dirceu toma um rumo oposto àquele acostumado a cair nos meus
decepcionados ouvidos . Nós, diz ele, aludindo, obviamente, à esquerda,
autêntica ou fingida, que não soube estar à altura da missão imposta pela
situação . O povo não foi alcançado por quem tinha a obrigação de confrontá-lo
com a sua própria realidade e esta é a explicação para tudo o mais que se deu e
a inutilidade, a falácia, melhor ainda, de jogar a culpa nas costas de uma nação
ainda em formação . Se há uma culpa, é da esquerda, que não soube cumprir
corretamente a sua tarefa .

Dirceu recusa uma velha definição da política, a qualificá-la como arte do


possível. Não, de jeito algum. A política é, antes de mais nada, paixão e ele tem
largas provas para demonstrar a sua própria (leia ma is adiante os principais
tópicos da conversa que tivemos). Não diria se tratar de uma confissão, do
resultado de um exame de consciência . Dirceu é concreto e sempre muito
preciso. Não nega as evidências, mas elabora um raciocínio oposto àquele dos
que se dizem de esquerda, assinam manifestos, proclamam virtudes
inexistentes. A situação é irretorquível, mas inverte as responsabilidades.

O VÉIO DA HAVAN, SILAS MALAFAIA, OLAVO DE


CARVALHO,QUE DESAFIA BOLSONARO,
PROTAGONISTASDE UMA HISTÓRIA QUE EXPÕEO
NÍVEL DA POLÍTICA BRASILEIRA. E DA CULTURA...

Grande parte do povo brasileiro vive politicamente no limbo e sabemos que sua
ignorância e seu primarismo foram criados por uma elite que ainda manda
como se a Idade Média não tivesse terminado há muito tempo. Seria possível,
sem confronto, livrar-se desta presen ça insuportável de uma casa-grande
integrada por uma nesga mínima da população ? Eis outro ponto revolucionário,
novo em folha, no discurso de Dirceu. O PT parece esperar por uma solução
pacífica e negociada. Dirceu reafirma sua fidelidade a Lula e ao seu partido, mas
diz que não há acordo com a elite, "não há conciliações". Ao Brasil convém a
revolução social, capaz de mudar em profundidade os hábitos, as tendências, os
vezas que até hoje o tolhem, bem como os privilégios de poucos. Seria preciso
dar ao trabalhador brasileiro a dignidade que ele foi perdendo inexoravelmente
depois da memorável resistência à ditadura encabeçada por Lula com as
greves, em 1978, 79 e 80, a criarem uma nova geração de sindicalistas para
substituir o deplorável peleguismo.

A chantagem do guru funcionou a contento graças à Hvaquinha " de Luciano Hang

Sobra-nos um governo militarizado, em que a figura do vice-presidente Hamilton


Mourão assusta ainda mais do que a do ex-capitão, e os crimes de
responsabilidade praticados pelo governo apontam para a solução do
impeachment. Mas que esperar dos poderes da República, Congresso e STF,
habilitados a promovê-lo, coniventes inequívocos com a tragédia que vivemos,
para não dizer que prestaram uma colaboração decisiva. Sobra-nos para expor o
nível dos envolvidos a singular ameaça de Olavo de Carvalho, perfeito intérprete
da cultura governista, de abandonar o pupilo Bolsonaro . Vocacionado para
professor de turpilóquio, que alguns chamam de astrólogo, Olavo tem uma
condenação nas costas determinada pela falsa acusação de pedofilia atirada
estupidamente contra Caetano Veloso. Os 2 milhões, mais alguns quebrados,
obrigado a pagar pela sentença talvez pesem demais nos bolsos do autor de O
Mínimo Que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota. Quem sabe o desastre
judiciário pudesse ser um capítulo do precioso ensaio. Desde já a chantagem é
transparente. De fato, há quem chegue para socorrer o chantagista , até mesmo
o empresário Luciano Hang, também conhecido como Véio da Havan e Zé
Carioca, em condições de digerir insultos dos mais pesados.

Olavo, na sua primeira surtida , disse, no seu linguajar de baixo calão, as coisas
mais virulentas a respeito do presidente da República. Provocou a imediata
reação do pastor Silas Malafaia, que o chama astrólogo falido. De todo modo,
depois da "vaquinha" arrumada pelo Véio da Havan, o episódio passou para o
esquecimento e a manobra de Olavo redundou na pacificação entre ofensor e
ofendido . Este penoso enredo é um exemplo impecável do que pode acontece r
hoje em dia no Brasil de Bolsonaro, diante da indiferença geral, no caso não de
todo deplorável. Ganhamos a amostra indiscutível do nível atingido pela política
nativa. Da cultura também. Selada a paz entre a Virgínia e o Planalto, não falta
quem sonhe tranquilo. •

·- ÍNDICE

A CRÉDITOS DA PÁGINA : DANIEL WA INSTEIN /V ALOR/ FOLHAPRE SS E REMO CASI LLI/ A FP - REDES
.,., SOCIAI S, ANDRE BORGES/ N URPHOTO/ AFP E ISAC NOBREGA/ PR
Capa

Apaixão
deDirceu
Um sentimento que exclui a arte do possível

Por Mino Carta

O jovem offlce-boy tornou -se líder estudantil

Aqui estão os principais tópicos da longa conversa com José Dirceu,


transmitida ao vivo na tarde de segunda-feira 8 e ainda disponível no site de
CartaCapital. Como sempre, tratou-se de uma conversa entre amigos, igual
àquelas já publicadas com Lula e com Ciro Gomes . Explico que a conversa
sempre envolve figuras que valorizaram a minha existência como cidadão e
jornalista, e que, a despeito de eventuais divergências, foram companheiras
preciosas de vida na qualidade de partícipes desejados. Por causa disso, ao
concluir a conversa, lembrei-me de um vinho tinto Pêra-Manca que Zé Dirceu me
ofereceu anos atrás, espero tomar outro o mais rapidamente possível, ao sair da
quarentena a que ambos somos condenados. De saída, comento uma definição
clássica da política: ela é a arte do possível?

Nunca, responde Dirceu, eu não teria feito o que fiz na vida, a partir de quando
cheguei em São Paulo, offlce-boy com 14 anos de idade, e vi do alto de um
prédio os estudantes do Mackenzie comemorando o golpe. Tomei consciência
de que estava do outro lado . Em confronto com eles, a elite, os almofadinhas, os
conservadores, os reacionários . Eu era um jovem office-boy, trabalhei num
almoxarifado. Como seria possível aceitar a tese da política como arte do
possível, organizar uma eleição nas ruas, com tropa de choque jogando
bombas , cavalaria investindo, para eleger o Centro Acadêmico e, depois de um
ano, para eleger a União Estadual dos Estudantes? E como se daria que, depois
da prisão e da soltura por causa da troca pelo embaixador , eu voltasse para o
Brasil, fazer uma plástica, viver em São Paulo, no Brás? Aliás , um bairro tão
próximo da Itália e do Brasil. E depois viver no Paraná, com o nome de Carlos
Henrique Gouveia de Melo? E o sonho do PT, de const ruir um partido dos
trabalhadores para governar o País? Então, a política é audácia, semp re, é
paixão. Política sem paixão, para mim, não é política.

Ata lho: "Isto significa também uma vida com princípios, ideais, crenças, ideias ..."

Responde: "Importante é não mudar de lado. Mudar sem mudar de lado, as


coisas mudam , a vida muda" .

DE MAIS UM VELHO E BOM AMIGO ESPERO UM NOVO


PRESENTE: UMA GARRAFA DE TINTO PÊRA-MANCA

A PRISÃO
Quando fui preso, em 201 5, fiquei muito deprimido. Minha filha estava
ameaçada de prisão, meu irmão foi preso, pois este é o jogo para levar à
delação . Superei a depressão com disciplina, mas ela ficou por dentro. ( ...) A
prisão é algo contra a natureza humana, perder a liberdade e as circunstâncias
em que a perdia . (...) O Lula e tudo que estava acontecendo com o Brasil, a
carga era muito pesada .

LEMBRANDO O GUSHIKEN
Preso, sempre lembrava dos meus companheiros que morreram na tortura , e
outro , o Luiz Gushiken. ( ...) Uma força da natureza , primeiro ele era um
estrategista político. ( ...) Organizador do movimento social, um estudioso . ( ...)
Enfrentou o câncer de frente . (...) Era o nosso samurai.

A PREPOTÊNCIA FARDADA
Quando Villas Bôas tuíta que não pode dar habeas corpus para Lula, quando o
Estado--Maior do Exército se reúne no mesmo dia do STF. ( ...) Vemos que o
poder está nas mãos dos militares . (...) A forma ção deles é histórica, temos de
recordar que o Estado Novo foi uma ditadura militar, quando Getúlio chamava
Góis Monteiro, que pedia para Francisco Campos, o Chico Ciência, redigir a
Polaca. (...) Quando a FEB voltou da Itália, já cultivava a ideia do pró-
american ismo, da democracia ocidental. ( ...) O governo Bolsonaro está
militarizado. ( ...) O Mourão militarizou a Comissão da Amazônia, o Ministério da
Infraestrutura. ( ...) Só detém o golpe a luta popular nas ruas, a resistência, o
combate . Acordos, conchavos, conciliações, não funcionam, discursos não vão
resolver . Tem de haver povo na rua.

A FRENTE
Nós temos que constituir uma frente de esquerda para lutar contra Bolsonaro e
para ser a alternativa no Brasil. ( ...) Você há de convir comigo que não é esta a
posição do PDT, PSB, PCdoB. ( ...) Mesmo do PSOL. (...) Fernando Henrique, Ciro
Gomes, Marina e a Globo avançam para uma proposta de frente ampla e é
evidente que vão trabalhar para uma transição por cima, já tivemos esta
experiência no Brasil. Temos que trabalhar para uma ruptura e uma transição
por baixo nas ruas, como se deu na campanha das Diretas Já.

O CANDIDATO LULA
Lula tem dito que não quer ser candidato, assim estou lendo . ( ...) Ele não quer,
quer contribuir para a unidade da esquerda, é a leitura que eu faço. Ele fala de
Flávio Dino, de Rui Costa, como tem falado de Fernando Haddad, ainda que o
Haddad seja o candidato, vamos dizer assim, natural do ex-presidente .

Luiz Gushiken, sempre admirado, e o maior respeito por Lula

POVO NA RUA
É preciso fazer luta política, cultural , ideológica, para organizar o povo, e nós não
organizamos . Por que não organizamos as mães do Bolsa Família? Por que não
organizamos os filhos do ProUni? Nós subestimamos , ou acreditamos
ingenuamente que a elite brasileira , o aparato do Estado, a Justiça, as Forças
Armadas e o Ministério Público aceitariam . ( ...) Mesmo depois de Collor e
Fernando Henrique, o povo elegeu Lula duas vezes e Dilma também duas. E ia
eleger a quinta vez depois do golpe, se tivéssemos uma eleição limpa, nós
íamos ganhar a eleição de 2018. Então têm forças no Brasil, tem legado, tem
memória, agora o problema é se nós estamos à altura destas forças. Parece
que não. ( ...) Não estamos à altura deste povo, para organizá-lo, para mobilizá-
lo, para conscientizá-lo . ( ...) Nós é que precisamos nos colocar à altura, sempre
digo que a militância do PT é muito melhor que nós, os dirigentes, e estou me
incluindo.

O ERRO DA ESQUERDA
Um dos principais erros nossos foi não mobilizar o povo, não confrontar o
nosso contra o deles, classes médias conservadoras, que eles põem nas ruas
como puseram contra Dilma.

A REVOLUÇÃO SOCIAL
O Brasil precisa, e digo em meu nome, já que, no caso, não posso falar em nome
do PT, que nós precisamos retomar o fio da revolução brasileira inacabada, para
fazer uma revolução social pelos caminhos da distribuição da propriedade, da
renda e da riqueza. O Brasil não pode mudar se não retomar o projeto de
desenvolvimento nacional para fazer uma revolução social, que é uma reforma
radical tributária, uma reforma do sistema bancário, já que hoje a classe
trabalhadora brasileira é expropriada nos juros e na estrutura tributária. (...) É
uma mudança radical na estrutura política do País. •

e CRÉDITOSDA PÁGINA: ARQUIVO/AE,ELZA FIÚZA/ ABR E SÉRGIOLIMA/ AFP


Paulo Nogueira Jr.

Churchill
enossos
dilemas

"Só há uma coisa pior do que lutar com aliados",dizia o


premier britânico. "Lutarsem aliados"

"Só tenho um objetivo, a destruição de Hitler, e isso simplifica minha vida


consideravelmente. Se Hitler invadisse o inferno, eu faria pelo menos uma
referência favorável ao Diabo na Câmara dos Comuns ." Winston Churchill disse
essa frase a propósito da aliança com Stalin e a União Soviética - aliança que
repugnava a muitos integrantes da classe dirigente britânica . Lembrei-me dela a
propósito da situação no Brasil hoje.

A ideia de uma frente ampla em defesa da democracia é polêmica, suscita


reações compreensíveis. A principal razão é clara. Nos anos recentes,
praticamente desapareceu o centro político no Brasil. Não existe mais, a rigor,
um conjunto discernível e relevante de forças políticas de centro. Propor uma
frente ampla significa, portanto, propor uma aliança da esquerda com a direita -
uma aliança contra a extrema-direita que se instalou em Brasília.

Bem sei que a proposta é indigesta . A direita tradicional merece os epítetos que
a esquerda costuma lançar contra ela. É repulsivo, em espec ial, defender a
democracia ao lado de figuras que apoiaram e ativamente promoveram o golpe
parlamentar de 2016 e as barbaridades subsequentes . A questão, leito r, é que -
como a Inglaterra de Churchill - o Brasil corre um risco mortal.
Como não perceber, a esta altura, que o que temos hoje é um governo de
destruição nacional? Não há área da vida pública brasileira que não esteja
submetida a um processo de desestabilização e desintegração - a economia, o
emprego, a saúde em meio à pandemia, o meio ambiente, a educação, a cultura,
a administração pública, a soberania nacional. Já não escapa a ninguém, além
disso, que o governo Bolsonaro constitui uma ameaça real ao que sobrou da
democracia brasileira depois do golpe de 2016 e dos desmandos dos anos
seguintes. Muitos que na Justiça, na mídia e na política fazem oposição a
Bolsonaro são integrantes, não raro destacados, da tradicional direita brasileira
- agora alarmada com as tendências desagregadoras e ditatoriais do governo
federal.

Bolsonaro está mais isolado hoje do que estava há poucos meses. Infelizmente,
não é verdade, porém, que o seu governo tenha chegado ao fim da linha.
Conserva ainda capacidade de produzir imensos estragos .

Nessas condições, não deve a oposição de esquerda ou centro-esquerda engolir


seco e trabalhar em conjunto, quando houver oportunidade, com forças da
direita tradicional dispostas a defender a democracia e fazer oposição ao
governo? Na minha modesta opinião, a resposta deve ser afirmativa.

A questão é espinhosa, volto a dizer. O manifesto "Estamos Juntos", por


exemplo, pede que sejam deixadas de lado velhas disputas e apela para a união
da esquerda, do centro e da direita. Percorri a lista de signatários e encontrei
muitos que respeito e admiro . Mas a verdade é que, no seu conjunto, a lista é
ligeiramente tenebrosa. Aparecem ali muitos políticos, economistas, jornalistas
que deram contribuição notável à desgraça que estamos vivendo .

Devo dar exemplos? A língua me coça. Mas não, não darei nomes aos bois
desta vez. É a minha pequena contribuição ao clima de entendimento que
precisa prevalecer na frente ampla em formação.

Compreendo perfeitamente a recusa de muitos na esquerda a aceitar aliados da


direita. O mesmo sentimento, diga-se, deve existir do lado de lá. Mas só há uma
coisa pior do que lutar com aliados: lutar sem aliados - outra tirada de Churchill
que merece ser lembrada. Ele sabia perfeitamente, diga-se de passagem, que a
União Soviética era indispensável na guerra contra a Alemanha.

A frente ampla é circunstancial, fruto da emergência em que se encontra o


Brasil. A aliança possível hoje e que alguns tentam construir não é, nem pode
ser, uma aliança programática. Tampouco pode ser uma aliança do tipo
eleitoral.
Se funcionar, ela terá propósitos limitados, mas cruciais. Defender,
primeiramente, o que sobra da democracia brasileira contra os arroubos
ditatoriais e golpistas do atual governo e seus asseclas. E a experiência mostra ,
de forma cada vez mais clara, que defender a democracia significa trabalhar
incansavelmente para afastar , o mais rápido possível , Bolsonaro da Presidência
da República.·

e ILUSTRAÇÃO: BAPTISTÃO
Guilherme Boulos

Porquefuiaosprotestos

Além da pandemia,enfrentamosa escalada autoritária


de Bolsonaro.Mas o jogo começa a virar

O mundo enfrenta a maior crise sanitária do século . São centenas de milhares


de mortos e milhões de contaminados pela Covid-19. Todos os esforços
deveriam estar focados em defender a vida e combater o vírus . Nisso o Brasil
vai muito mal. Um presidente insano. Um país sem ministro da Saúde há
semanas . E com recorde de mortos todos os dias. Mas, enquanto o vírus faz
vítimas, aqui outro perigo também cresce: a escalada autoritária de Bolsonaro .

Há alguns meses, as praças do Brasil tornaram-se palco de agressões a


enfermeiras, espancamento de jornalistas e de gente confessadamente armada
acampando na Esplanada dos Ministérios . Bolsonaro estimulou e participou de
manifestações em defesa do Al-5, do fechamento do Congresso e do Supremo
Tribunal Federal. Criou-se um clima pesado e violento . Por mais que todas as
pesquisas mostrem a perda de apoio ao governo, os fanáticos bolsonaristas
impuseram terror nas ruas.

A disputa das ruas não é secundária . Define o clima social e ajuda a alterar a
correlação das forças políticas . Movidos por um clima de indignação, grupos de
torcedores organizados, articulados sob a bandeira de "Somos Democracia" ,
tomaram as ruas em 31 de maio para dar um basta às agressões covardes e
sinalizar que há resistência aos desmandos bolsonaristas . No domingo
seguinte , somaram -se aos torcedores coletivos do movimento negro -
expressando o levante antirracista mundial - e movimentos sociais da Frente
Povo Sem Medo. As manifestações pela democracia e contra o racismo foram
muito maiores, em todo o Brasil, do que os grupos que pediam intervenção
militar. O jogo começou a virar. Finalmente, a maioria social traduziu-se nas
ruas.

As manifestações abriram uma polêmica na sociedade e na própria esquerda


brasileira. Estamos em uma pandemia e defendemos o isolamento social como
forma de combater a propagação do vírus. Denunciamos Bolsonaro pelas
aglomerações que promoveu em Brasília. Estaríamos nos igualando a ele?
Outros questionaram os riscos de o bolsonarismo infiltrar gente nas
manifestações e usar cenas de violência como pretexto para intervenções mais
duras, como um estado de sítio ou uma Garantia de Lei e Ordem. São
questionamentos legítimos. Vamos analisá-los.

Em primeiro lugar, ninguém gostaria de estar nas ruas neste momento.


Gostaríamos de estar todos em casa, na quarentena, esperando o controle da
pandemia. Convenhamos que esse não é o caso da maioria da população,
impedida de seguir o isolamento por falta de condições econômicas ou por
precariedade na situação de moradia. Milhões de brasileiros seguem pegando
ônibus cheios todos os dias, por descaso e falta de políticas de proteção pelo
Poder Público. Dito isso, é importante diferenciar tipos de manifestação a partir
de seus cuidados sanitários.

Nas manifestações da extrema-direita, Bolsonaro foi várias vezes sem máscara,


carregou crianças e estimulou o empurra-empurra. Só com muita má-fé para
igualar isso com o que foi feito no Largo da Batata e em outras praças do País
no último domingo. Lá havia mais de cem médicos e enfermeiros voluntários,
distribuindo álcool em gel e orientando distanciamento, foram entregues 4 mil
máscaras por coletivos de costureiras do MTST e a todo momento o carro de
som alertava para a necessidade de distanciamento. Não é o ideal,
evidentemente, mas não há comparação possível com a irresponsabilidade
genocida de Bolsonaro.

Em segundo lugar, a questão da violência e dos pretextos para a ditadura. As


manifestações foram pacíficas, em quase todo o Brasil, até policiais atacarem
quem estava nos atos. Várias imagens são chocantes. Ficou claro para a
sociedade a proposta das manifestações e a violência seletiva da polícia. Além
disso, se olharmos a história, veremos que o autoritarismo nunca precisou
exatamente que a esquerda lhes desse pretexto. São especialistas em produzir
os próprios. Aliás, Bolsonaro tem avançado no autoritarismo sem que a
esquerda dê qualquer "pretexto" .
A História tem esses momentos de encruzilhada , em que um fato pode mudar o
destino da nação . Iniciativas da sociedade civil, abaixo-assinados e ações
institucionais são importantes na luta democrática, mas não suficientes . Por
isso vejo muita legitimidade nas manifestações que se iniciaram com
torcedores , pela democracia, e que estão sendo feitas com cuidados sanitários
e com orientação de evitar violência .

Não podemos, no entanto, cair em ciladas num momento como este . A divisão
no Brasil não está entre quem vai ou não para as ruas . A divisão é entre quem
defende a democracia e é antirracista, de um lado, e os fascistas de outro. Cada
um pode protestar à sua maneira. Nas janelas, nas redes ou nas ruas. •

e ILUSTRAÇÃO: BAPTISTÃO
Capa

Poder
cidadão
THEOBSERVER Sem o apoio das Forças Armadas , Donald Trump recua do
ímpeto de reprimir as manifesta ções e se isola cada vez mais

Por Chris McGreal, em Minneapolis

Uma mensagem repetida mundo afora

Os Estados Unidos viveram isso no passado, a div isão racial que deixou suas
cidades em chamas e seus cidadãos a exigir um país diferente. Mas não
acontec ia há meio século, e nunca com um presidente cujas reações às
demandas por justiça básica fossem tão beligerantes que até as antigas
autoridades militares se voltassem contra ele.

Donald Trump, que prometeu constru ir um "grande e belo muro" para proteger
os EUA, tinha erguido uma grande cerca de aço em torno da Casa Branca, à
medida que aumentava a sensação de uma Presidênc ia sitiada. Os incêndios
causados em Minneapolis por um policial que tirou a vida de George Floyd ao
ajoelhar-se em seu pescoço por quase 9 minutos levaram aos maiores
protestos desde o mov imento pelos direitos civis e contra a Guerra do Vietnã da
década de 1960. A maioria das manifestações foi pacífica e, onde houve
tumulto, geralmente ele foi causado pela polícia . Mas os manifestantes
deixaram uma cicatriz de 8 qu ilôme t ros ao sul de Minneapo lis, enqua nto
deixaram uma cicatriz de 8 quilômetros ao sul de Minneapolis, enquanto
queimavam e saqueavam uma das principais vias comerciais da região, depois
de atacarem a delegacia no centro da tempestade pela morte de Floyd.

A partir daí, uma onda de raiva percorreu todo o país, motivada em grande parte
pela natureza do vídeo de 9 minutos da morte de Floyd, mas também pela
frustração de todas as promessas feitas cada vez que a polícia mata um
homem negro desarmado.

Quando o vídeo traumático de Floyd implorando por sua vida se somou ao


período de semanas de bloqueio pelo coronavírus, o aumento do desemprego e
uma economia em queda, o fogo percorreu a América . Ele desencadeou
protestos e tumultos de Nova York a Los Angeles, depois Londres, Berlim e
outras cidades.

Agora, como há 50 anos, a Guarda Nacional foi convocada para enfrentar os


manifestantes, embora, desta vez, também fosse para praticar a dispersão
violenta de um protesto legal e pacífico para que Trump posasse para uma foto
em autopromoção . Agora, como então, o presidente acusou "agitadores
externos" - chamou-os de terroristas - de instigar a confusão . Desta vez,
porém, vozes do establishment norte -americano manifestaram-se em apoio a
essas demandas e alertaram que os Estados Unidos estão em um ponto de
inflexão. Assim como, aparentemente, a Presidência Trump. O republicano
debate-se com sua tática de dividir para governar, que se mostra menos eficaz .
A potência dos quase 9 minutos de sofrimento de Floyd, enquanto o policial
acusado de seu assassinato, Derek Chauvin, olhava para a câmera, foi tomada
como uma declaração de desprezo da polícia pelas vidas afro-americanas e
pelo movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) .

Em poucos dias, a cultura e a prática de policiamento passaram a ser julgadas,


e não apenas em relação a Floyd. Mas era mais que apenas policiamento. Tim
Walz, o governador de Minnesota, onde os protestos começaram , descreveu a
revolta como uma oportunidade singular na história de seu estado de romper a
cadeia do racismo e da falta de responsabilidade em toda a sociedade que
levou ao assassinato em pleno dia de um homem negro numa rua de
Minneapolis . "Acho que esta é provavelmente nossa última chance como
estado e nação de corrigir esse problema sistêmico ."

Trump atacou instintivamente uma crise que ele não podia controlar, com suas
tentativas habituais de criar divisão e caos. Os últimos dias provaram ser
aqueles em que começaram a ser traçados os limites do poder subversivo do
republicano. Tudo começou com a chamada batalha de Lafayette Square, em
um pequeno parque em frente à Casa Branca. Um grupo grande e barulhento de
manifestantes reuniu-se lá para afirmar seu apoio às demandas de que todos os
policiais envolvidos na morte de Floyd fossem presos. Sempre sensível às
críticas, Trump sentia-se humilhado por uma reportagem segundo a qual ele
havia fugido para um abrigo blindado sob a Casa Branca alguns dias antes,
quando manifestantes tentaram escalar sua cerca.

Impulsionado por seu Putin interior, Trump decidiu provar sua coragem ao entrar
virilmente na Lafayette Square para tirar uma foto com uma Bíblia em frente a
uma igreja . Isso teria o benefício adicional de atrair votos evangélicos. Mas
primeiro os manifestantes pacíficos precisavam ser removidos. O secretário da
Justiça de Trump, William Barr, ordenou que a polícia esvaziasse a praça, o que
fez com rodadas de gás lacrimogêneo e cassetete apoiadas por soldados da
Guarda Nacional. Pouco tempo depois, a visão do chefe do Estado-Maior
Conjunto , general Mark Milley, em uniforme de combate atrás do presidente ao
atravessar a Lafayette Square, parecia um sinal de aprovação à ameaça de
Trump de enviar os militares contra os que ele rotulou de terroristas internos.
Aliados do presidente no Congresso aumentaram a aposta, com o senador Tom
Cotton propondo enviar a 82ª Brigada Aerotransportada, ou "o que for preciso",
contra aqueles que chamou de "insurrecionistas". Trump, como sempre no
Twitter, aprovou essa ideia.

SÃO OS MAIORES PROTESTOS DESDE OS


MOVIMENTOS PELOS DIREITOS CIVIS E CONTRA A
GUERRA DO VIETNÃ

Diante disso, o establishment militar dos EUA escolheu um lado. O primeiro a se


pronunciar foi James Mattis, general da Marinha que renunciou ao cargo de
secretário da Defesa de Trump em dezembro de 2018 e manteve o silêncio até
agora . Ele se descreveu "zangado e chocado" com a reação aos protestos e a
chamou de ameaça à Constituição. O almirante Mike Mullen, ex-presidente do
Comando Militar Conjunto, disse que ficou "enojado" ao ver a Guarda Nacional e
outras forças de segurança serem usadas para "violenta e forçosamente" abrir
caminho para a "cena montada" do presidente. O chefe da Guarda Nacional,
general Joseph Lengyel, achou necessário definir uma posição caso alguém
pensasse que ele estava do lado do presidente sobre o valor das vidas negras.
Ele disse que ficou "enfurecido" pela morte de homens negros desarmados nas
mãos da "brutalidade policial e violência extrajudicial" .

Na quarta-feira 3, o governo rejeitou a ideia de enviar militares para controlar as


ruas das cidades. Pouco depois, o Pentágono começou a retirar 1,6 mil
soldados enviados para a área de Washington durante os protestos . Mas o dano
real foi infligido a Trump . Seu manejo caótico da Covid-19, com as mortes de
11O mil pessoas e aumentando, havia prejudicado suas perspectivas de
reeleição.

A pandemia também atingiu gravemente a questão em que muitos eleitores de


Trump estavam dispostos a perdoá-lo: a economia. Mais de 20 milhões de
empregos foram perdidos em abril. Em maio, 2,5 milhões retornaram ao
mercado de trabalho, embora o desemprego dos afro-americanos continuasse a
aumentar.·

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

e CRÉDITOSDA PÁGINA: TASOS KATOPODIS/GETTY IMAGES/ AFP


Capa

Maisumcrime
Com a pandemia fora de controle, Bolsonaro apela para uma grosseira
manipulação de dados

Por Rodrigo Martins

A rampa do Palácio do Planalto amanheceu tingida de vermelho na segunda-feira 8

Ninguém mais pode acusar Jair Bolsonaro de falta de empenho na redução do


número de vítimas do novo coronavírus. Desde o início da pandemia, o ex-
capitão sabotou as medidas de isolamento social e apostou todas as fichas na
cloroquina, medicamento apresentado como cura milagrosa da Covid-19, a
despeito de numerosas pesquisas que refutam a eficácia da droga. Beneficiado
pela distância de 16 mil quilômetros da China, o País teve tempo para se
preparar, mas o governo colocou tudo a perder com seu desprezo pela ciência e
a assombrosa negligência. Hoje, o Brasil é o segundo com maior número de
casos confirmados, além de disputar com o Reino Unido a vice-liderança no
ranking mundial de mortalidade. Na desesperada tentativa de reverter o prejuízo
político da tragédia sanitária, Bolsonaro apelou para uma velha tática das
ditaduras: distorcer e sonegar dados para a população. Somente assim
conseguiu, da noite para o dia, "reduzir" os óbitos diários.
Desde a demissão do ministro Nelson Teich, que abandonou o cargo em menos
de um mês diante das pressões do presidente pela liberação da cloroquina, o
Ministério da Saúde está sob o comando "interino" de Eduardo Pazuello, general
de divisão do Exército. No período, ele nomeou ao menos 25 militares para
postos estratégicos da pasta, a grande maioria sem experiência na área da
Saúde. Com a lealdade hierárquica dos comandados, foi mais fácil controlar as
informações da pandemia e buscar maneiras de esconder os dados negativos.

SONEGAR DADOS É TÍPICO DE DITADURAS. O


GOVERNO VIOLA DE MANEIRA DESCARADA A
CONSTITUIÇÃO

Logo após a saída de Teich, o governo passou a priorizar a divulgação do


"Placar da Vida" nas redes sociais. Na tentativa de ludibriar os incautos, a
Secretaria de Comunicação Social da Presidência começou a destacar para a
divulgação o número de "brasileiros salvos" ou "em recuperação", enquanto
omitia o total de mortos. "No jornal da manhã é caixão, corpo. Na hora do
almoço, é caixão novamente. No jornal da noite é caixão, corpo e número de
mortos . Eu pergunto a todos : como é que você acha que uma senhora de idade,
uma pessoa humilde, ou que sofre de outra enfermidade, se sente com essa
maciça divulgação desses fatos negativos? Não está ajudando", tentou justificar
o ministro Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, um dos idealizadores
da manobra publicitária .

Como a mídia e a população não embarcaram na cascata, foi preciso adotar


estratégias ainda mais desonestas . Primeiro, o Ministério da Saúde passou a
retardar a divulgação do boletim com o número de mortos e infectados. Na
gestão de Luiz Henrique Mandetta, os números eram apresentados por volta
das 17 horas, normalmente em uma entrevista com técnicos da pasta . Com
Teich, os dados passaram a ser revelados às 19 horas, e as coletivas ficaram
mais esporádicas. Sob o comando "interino" de Pazuello, os atrasos tornaram-
se recorrentes, até o general determinar que os dados só seriam apresentados
às 22 horas . "Acabou matéria no Jornal Nacional", celebrou Bolsonaro no
sábado 6, ao comentar a mudança . Não deu certo. A Rede Globo decidiu
interromper a novela e transmitir um "plantão" para divulgar os dados
sonegados pelo governo antes do telejornal.

Sem se dar por vencido, o ministério modificou o "Painel do Coronavírus", que


passou a ser atualizado apenas com os novos casos diários, sem fazer a soma
do total de infectados e mortos . Pior, só passaram a ser computados os óbitos
que efetivamente ocorreram nas últimas 24 horas. Aqueles que morreram nos
dias anteriores , mas só tiveram a confirmação do diagnóstico de Covid-19
depois, simplesmente foram excluídos das estatísticas oficiais , que já não eram
confiáveis , devido à elevada subnotiflcação da doença causada pelos
gravíssimos problemas de testagem no País. Dessa forma , na segunda-feira 8, a
pasta contabilizou 679 novas mortes em um dia, enquanto as secretarias
estaduais de Saúde reportaram 849 óbitos registrados nas últimas 24 horas.

O ª interino " Pazuello segue à risca as ordens do ex-capitão

Segundo uma reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, a mudança ocorreu


após Bolsonaro ordenar a Pazuello que o número de mortes diárias por Covid-
19 deveria ficar abaixo de mil. Missão dada, missão cumprida . O general passou
a demanda aos seus comandados, que encontraram uma forma de atender ao
pedido do chefe. Durante uma live com o ministro Gilmar Mendes , do Supremo
Tribunal Federal, Mandetta relembrou que, no início dos anos 1970, a ditadura
impediu a divulgação de informações sobre a maior epidemia de meningite da
história do País, e criticou a disposição dos militares aboletados no governo de
respaldar a maquiagem de dados em meio à crise do coronavírus . Segundo ele,
trata-se de uma "lealdade burra e genocida" .

NOS ANOS 1970, O REGIME ESCONDEU OS NÚMEROS


DE UM EPIDEMIA DE MENINGITE. OS MILITARES DE
BOLSONARO REPETEM A MANOBRA
Para agravar a situação, o empresário Carlos Wizard Martins, convidado a
chefiar a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério
da Saúde, anunciou a intenção de fazer uma recontagem dos mortos por Covid-
19, e não por causa dos problemas de subnotificação. 'Temos uma equipe de
inteligência no ministério. Essa equipe encontrou indícios de que alguns
estados e municípios estão inflacionando os dados para receber benefícios
federais", acusou. A declaração gerou uma avalanche de notas de repúdio
divulgadas por entidades médicas e de gestores da Saúde. "Wizard menospreza
a inteligência de todos os brasileiros, que, num momento de tanto sofrimento e
dor, veem seus entes queridos mortos tratados como 'mercadoria'. Sua
declaração grosseira, falaciosa, desprovida de qualquer senso ético, de
humanidade e de respeito, merece nosso profundo desprezo, repúdio e asco",
diz uma das manifestações, subscritas por Alberto Beltrame, presidente do
Conselho Nacional de Secretários de Saúde.

Com a atitude, o empresário só conseguiu fortalecer a indústria de fake news,


que há tempos inventa histórias de caixões vazios sepultados e outras cascatas
do gênero, além de mobilizar uma campanha de boicote às empresas que
controla, entre elas a Mundo Verde. A escola de idiomas Wizard, fundada por
ele, viu-se forçada a esclarecer que a marca foi comprada pela multinacional de
educação Pearson em 2014. Não tem, portanto, qualquer relação com o ex-
futuro-secretário, que desistiu de ocupar o cargo público ao ver seus negócios
ameaçados.

Wizard pulou fora do barco bolsonarista quando viu os negócios ameaçados


Ao cabo, o ministro Alexandre de Moraes, do STF,acolheu um pedido feito pelos
partidos Rede Sustentabilidade, PCdoB e PSOL, e determinou que o governo
federal volte a divulgar a íntegra dos dados acumulados de mortes e casos
confirmados de Covid-19 no site do Ministério da Saúde. Para evitar uma nova
malandragem, enfatizou que a divulgação deve ocorrer "exatamente conforme
(era) realizado até 4 de junho", antes, portanto, das mudanças feitas pela pasta.

A grosseira tentativa de manipulação de dados escandalizou o mundo. Só não


superou a "solução" encontrada pelo ditador do Turcomenistão, Gurbanguly
Berdimuhamedow, que simplesmente proibiu a população local de mencionar a
palavra "coronavírus". "À medida que as mortes por coronavírus no Brasil
aumentam, Bolsonaro limita a divulgação de dados", estampou em manchete o
jornal norte-americano Washington Post. O britânico The Guardian lembra que a
decisão ocorre "após meses de críticas de especialistas que dizem que as
estatísticas do Brasil são terrivelmente deficientes e, em alguns casos,
manipuladas, o que significa que talvez nunca seja possível obter uma
compreensão real da profundidade da pandemia no País". O diretor de
emergências da Organização Mundial da Saúde, Michael Ryan, também
manifestou preocupação . Segundo ele, os brasileiros não podem ser privados
de informações confiáveis. "Eles precisam saber o que está acontecendo."

A maquiagem de dados causa graves prejuízos no combate à pandemia, alerta


José Angelo Lindoso, pesquisador do Instituto de Medicina Tropical da USP e
infectologista do Hospital Emílio Ribas, na capital paulista, onde apenas dois
dos 40 leitos de UTI reservados para pacientes com Covid-19 estavam
desocupados no momento da entrevista. "Os gestores planejam as suas ações
com base em números. Se confiar em indicadores falsos, podem subestimar,
por exemplo, a necessidade de criar mais leitos de UTI em certa localidade", diz .
"Outro ponto é a mensagem passada à população. Se ela é induzida ao erro e
acredita que o número de casos está em queda, pode relaxar as medidas de
prevenção."

Mais do que desonesta, a manipulação de dados oficiais é crime, alerta o


advogado Lenio Streck, professor de Direito Constitucional da Unisinos e pós-
doutor pela Universidade de Lisboa. O especialista menciona o artigo 313-A do
Código Penal, incluído pela Lei 9.983, a prever de 2 a 12 anos de reclusão para
quem promover ou facilitar a "inserção de dados falsos, alterar ou excluir
indevidamente dados corretos nos sistemas informatizados ou bancos de
dados da Administração Pública com o fim de obter vantagem indevida para si
ou para outrem ou para causar dano". Da mesma forma, Streck acredita que o
ministro interino da Saúde e o presidente da República podem ser acusados de
prevaricação, tipificada no artigo 319 como o ato de "retardar ou deixar de
praticar, indevidamente, ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa
em lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal" .

O Brasil está prestes a ocupar a vice-liderança no ranking mundial de mortos por


Covid-19

Que ato de ofício seria esse? "Manter a população informada sobre a pandemia,
conforme as orientações da OMS e dos especialistas", responde o advogado.
Não é tudo. Streck acredita ainda que a manipulação dos dados pode ser
considerada crime de responsabilidade, ou seja, servir de justificativa jurídica
para o impeachment de Bolsonaro. "Fui promotor de Justiça por 28 anos e, às
vezes, me deparava com casos de criminosos contumazes, com longa ficha
corrida. A gente costuma brincar que era preciso aplicar todo o Código Penal",
comenta Streck. "O governo parece se esforçar para fazer o mesmo."

Sem as manobras do governo para maquiar os dados, o Brasil registrou 1.185


novas mortes em 24 horas, segundo informações divulgadas pelas Secretarias
Estaduais de Saúde na terça-feira 9. Não deve tardar a bater a marca de 40 mil
óbitos e ocupar a vice-liderança no ranking mundial de mortalidade . A pandemia
segue fora de controle. O pior cego é aquele que se recusa a enxergar. •

A CRÉDITOS DA PÁGINA: SÉRGIO LIMA /A FP E ERASMO SALOMÃO/ MS- FÁBIO TEIXEIRA/A NADOLU
\ií1 AGENCY/A FP E REDES SOCIAIS
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Abolsa
doPosto
lpiranga
O plano do ministro ajudará Bolsonaro a compensar no povão a perda de apoio
nas elites?

Por André Barroca!

A salvação de Bolsonaro está nas mãos de Guedes

Além de protestos de rua, Jair Bolsonaro sente o fogo sob os pés no Tribunal
Superior Eleitoral. A corte voltou a julgar uma ação que propõe cassar sua
chapa devido ao ataque, na eleição, de milícias digitais bolsonaristas a uma
página feminista no Facebook. Incl ina-se a reabrir o caso e a requisitar uma
perícia policial. O Ministério Público surpreendeu e concordou com o uso no
TSE, em outras duas ações de cassação da chapa, estas a acusar o ex-capitão
de espalhar mentiras sobre o petista Fernando Haddad na campanha, do
inquérito do Supremo Tribunal Federal contra as tais milícias.

No dia desses fatos, Bolsonaro juntou seus ministros, e Paulo Guedes, o titular
da Economia, fez um anúncio capaz de dar sobrevida política ao ex-capitão,
pelo potencial de lbope . O governo unificará, em breve, os programas sociais
sob o nome de Renda Brasil. Uma forma de manter o auxílio emergencial pago a
50 milhões de vulneráveis na pandemia, ainda que com contornos mais
modestos, e de engo lir o Bolsa Família, inseparável de Lula.
O auxílio de 600 reais funcionará com Bolsonaro na crise sanitária como o
Bolsa Família com Lula no "mensalão"? Naquela época, as classes média e alta
romperam com o petista, que encontrou sustentação política nos pobres. Na
crise do coronavírus, os mais ricos e ensinados afastam-se do presidente, e
este compensa na baixa renda menos escolarizada, graças ao auxílio, a perda
de apoio . O fenômeno é perceptível nas duas últimas pesquisas do Datafolha.
Veio para ficar?

O AUXÍLIO EMERGENCIAL PAGOU, EM MÉDIA, 840


REAIS PARA CADA FAMÍLIA,QUATRO VEZES MAIS QUE
O PROGRAMA CRIADO POR LULA

O auxílio acabaria este mês, mas será estendido até agosto. A dúvida é o valor.
Guedes quer cortar a 300 reais. Os deputados, não. A última parcela na regra
atual começa a ser paga dia 17. A primeira, de abril, chegou a 50,2 milhões de
beneficiados, dos quais 9,4 milhões de mulheres chefes de família. É um de
cada quatro brasileiros . Já eram conhecidos do governo 30 milhões, presentes
no banco de dados sobre pobres e miseráveis, o Cadastro Único. Os outros 20,2
milhões eram invisíveis para Brasília. Foram identificadas ao solicitarem o
benefício à Caixa Econômica Federal. São números de um relatório de junho do
Tribunal de Contas da União, ajudante do Congresso .

Pelo documento, a quantia média recebida por família foi de 840 reais. É
possível mais de um beneficiado por família. Mães chefes de casa podem
ganhar dois benefícios. Por iniciativa da oposição no Senado, mães menores de
idade foram acolhidas, pois a maioridade era pré-condição. O valor é quatro
vezes a média de 188 reais paga, em março, pelo maior programa de
transferência de renda do País. Imagine -se a festa do pessoal do Bolsa Família.
Dos 30 milhões que receberam o auxílio e estavam no Cadastro Único, 19,2
milhões ganham a bolsa lulista. Podiam escolher entre ela e o auxílio, mais
gordo. Já teriam pego tanto dinheiro de uma vez?

A grana tem sido gasta por moradores de favelas com necessidades básicas:
95% com comida, 91 % com higiene, 77% com remédios. Por essa pesquisa do
DataFavela, 34% dessas pessoas perderam toda a renda na pandemia e 39%
viram -na cair à metade. Nessas comunidades, 65% foram atrás do auxílio e 25%
ficaram sem. O levantamento mapeou ainda a situação nas classes A e B. Dos
17 milhões de famílias de alta renda, 5,6 milhões (33%) tentaram pôr a mão no
auxílio e 3,9 milhões (22%) conseguiram. Os abastados acham-se certos.
Enxergam-se como pagadores de impostos merecedores de apoio. Essa "elite"
nacional. ..
Criar um tipo de renda mínima foi promessa de campanha de Bolsonaro, mas o
governo que agora parece querer tirar proveito político do auxílio emergencial,
no início fez corpo mole, por ideologia. O neoliberal Guedes anunciou-o em 18
de março. Valor : 200 reais. Só para autônomos e informais: quem é do Bolsa
Família, fora. Atenderia de 15 milhões a 20 milhões de pessoas, ao custo de 5
bilhões de reais mensais. O governo não enviou lei ao Congresso . Foram os
deputados que desengavetaram um projeto de 2017. Puseram dentro a turma
do Bolsa Família e autorizaram mães chefes de família a ganhar dobrado.
Acharam 200 reais ridículos : no mínimo, 500. Na hora H, Bolsonaro orientou seu
líder, Vítor Hugo, a propor 600, para ter a paternidade.

Aprovada a lei, Guedes invocou a necessidade de mudar a Constituição antes


de pagar. Bolsonaro mandava a aliados, pelo celular, um vídeo com uma
apoiadora a dizer-lhe : "Eu não quero dinheiro do governo, eu quero trabalho",
presidente, "abra esse comércio". Resposta dele: "A senhora pode ter certeza
que fala por milhões de pessoas". Uma semana depois, a Presidência
propagandeava na web que "o auxílio emergencial ( ...) não é de prefeituras nem
de governos estaduais ( ...), é fornecido pelo governo federal". Versão crível, pois
quem entrega a grana é a Caixa. Em abril, a despesa foi de 35,7 bilhões, sete
vezes a ideia original de Guedes.

O apelo popular do auxílio agrada ao "Centrão", neoaliado do governo. Foi em


uma reunião com líderes do bloco que Guedes antecipou seus planos. No grupo,
comenta-se que o ministro esteve com um pé fora do cargo um tempo atrás e
só sobreviveu porque o presidente não quis lidar com dois pepinos ao mesmo
tempo - o outro foi a saída de Sérgio Moro . Será? Há pistas de que é verdade.

A reunião ministerial de 22 de abril, que o País viu em vídeo e levaria à


debandada de Moro, selou uma alternativa ao neoliberalismo de Guedes. Um
pacote de obras públicas, feito por generais-ministros. Guedes não sabia,
mostrou sua bronca diante da ideia de gastos estatais e não participou da
divulgação. No dia seguinte, o Jornal da Record, canal governista, apontou-o
como fraco em Brasília e sem sensibilidade social. Para interlocutores do
ministro, por trás da reportagem estava Marcos Pereira, vice-presidente da
Câmara. Ele é "bispo" da Igreja Universal (Record) e do Republicanos, partido do
"Centrão". Tinha estado com Bolsonaro por aqueles dias .

O Banco Mundial prevê queda de 8% do PIB brasileiro neste ano. Para a OCDE,
só não faremos pior que a Zona do Euro. Haja auxílio para salvar Bolsonaro e a
própria pele, hein ministro Guedes? •

e CRÉDITOS DA PÁGINA : MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA


Economia

Feito
emcasa
PRODUÇÃOA reconversão industrial em resposta à pandemia avança, mas a
omissão do governo reduz seu fôlego

Por Carlos Drummond

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A produção do respirador nacional exigiu superar condições adversas

Alternativa de aproveitamento da capacidade ociosa para fabricar produtos não


disponíveis nas suas linhas, mas com demanda em alta repentina por causa da
pandemia, a reconversão industrial para produzir equipamentos e insumos da
área da saúde avança no mundo e aj uda a enfrentar a crise no setor
manufatureiro . No Brasil, por causa da ausência do governo federal no
processo, ficou lim itada, no entanto, a esfo rços pont uais de empresas e
entidades setoria is, relatam profissionais e instituições . O exemp lo da WEG, de
Santa Catarina, que na quinta-fe ira 4 anunciou entregas ao SUS de vent iladores
pulmonares fabricados no Brasil com índice de naciona lização de 70%, é
referência de reconversão bem -sucedida, mas evidencia, ao mesmo tempo, as
limitações dos esforços isolados nessa direção .

Os governos de Alemanha, França, EUA, Japão, China e Reino Unido


mobilizaram empresas e partic ipantes de seus sistemas de inovação para
reconverterem linhas de produção e fabricarem respiradores, ventiladores e
equipamentos de proteção individual para seus agentes de saúde e baixaram
medidas para remover restrições regulatórias, favorecer a formação de
consórcios voluntários, estimular soluções inovadoras e conceder apoio
financeiro às iniciativas .

"A WEG é um caso que sempre salta aos olhos e enfatizamos, pois é uma
grande empresa brasileira que tem competências tecnológicas importantes",
sublinha Rafael Cagnin, economista-chefe do Instituto de Estudos para o
Desenvolvimento Industrial. A emp resa catarinense foi uma das seis brasileiras
classificadas entre as 2,5 mil que mais investiram em pesquisa e inovação no
mundo em 2018 , segundo o Índice Global de Inovação da Comissão Europeia. O
contexto geral para a indústria e a inovação ainda é, entretanto, muito negativo,
como mostra a última Pesquisa de Inovação do IBGE,ressa lta Cagnin. A edição
mais recente dessa pesquisa revela que o porcentual de empresas que inovam
caiu de 36% para 33,6% do total, entre 2014 e 2017.

A brasileiraWEGtornou-se um caso de sucesso de


adaptação às novas demandas

Para fabricar ventiladores pulmonares com alto índice de nacionalização, a WEG


precisou verticalizar sua produção, isto é, passou a fazer por conta própria
vários componentes que em fases de maior vita lidade do setor industrial
brasileiro seriam adquiridos de fornecedores locais. Importar não seria uma
opção , dada a escassez aguda dos itens necessá rios no mercado mundial.
Trata-se de um problema crônico, como mostra o relatório "A Cadeia de Valor de
Máquinas e Equipamentos no Brasil", de Cristina Fróes de Borja Reis, da
Universidade Federal do ABC. Por causa de vários problemas de
competitividade e de lacunas no sistema de inovação e no tecido industrial, as
empresas brasileiras, princ ipalmente aquelas de bens de capital, são obrigadas
a ter uma organ ização muito verticalizada, destaca a economista .

A fragmentação das iniciativas de inovação da indústria no País e seu


isolamento em relação ao resto do mundo, no que se refe re à integração
econômica, "privam as nossas empresas, até aquelas com características mais
evidentes de inovação, da participação em mercados, de relacionamento com
clientes e fornecedores que tenham também esse componente tecnológico e
inovador e que ajudem a impulsioná-las nessa direção ", afirma Cagnin . "É
importante lembrar que as inovações mais relevantes surgem da interação entre
clientes e fornecedo res em determinados segmentos das indústrias, a exemplo
das de bens de capital e de química fina, para solucionar problemas de
fornecedores e de clientes . É aí que surge a inovação de verdade ."
Os êxitos da reconversão provam a resiliência da indústria nacional

Contida pelas limitações da estrutura industrial local em crise crônica, a


reconversão doméstica diante da pandemia não deslancha . "Conversão
industrial concreta, da forma que estamos querendo, não aconteceu. Há
esforços pontuais, que não vão prosseguir quando as indústrias retomarem a
produção habitual. Poderiam, entretanto, dar continuidade à produção de
equipamentos e insumos para a área da saúde, pois a ociosidade é muito
grande . A falta de coordenação por parte do governo é o grande entrave. Uma
atuação governamental deveria incluir um mapeamento nacional, crédito e
garantia de compras", sublinha Wellington Damasceno, diretor de Políticas
Industriais do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

As empresas de bens de capital são destaque entre as que realizam conversão


industrial e passaram a fabricar, além dos seus produtos típicos, respiradores
pulmonares, máscaras, protetores faciais (face shields), leitos hospitalares,
peças, partes, componentes e insumos para equipamentos, além de prestar
serviços de usinagem, corte a laser de peças, impressão 3D, modelagem e
simulações, documenta um levantamento da Associação Brasileira da Indústria
de Máquinas e Equipamentos.

A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq)


relata exemplos como o da fabricante de máquinas para embalagem lndata, de
Palhoça, Santa Catarina, que passou a produzir também peças plásticas
usinadas para circuitos de respiradores mecânicos, a pedido de um hospital
regional. A Lanmar, de Hortolândia, São Paulo, especializada em usinagem de
precisão, tem fabricado conectores para peças utilizadas na produção de
respiradores pulmonares pela Embraer. As empresas Flextronics, Bosch,
Mercedes, Toyota, ABB, GM, SCM Automação e Ornei organizaram-se para
produzir subconjuntos e prestar serviços de apoio à KTK, à Magnamed e à
lntermed na fabricação de respiradores. A experiência da Festa Brasil, de São
Paulo, especializada em soluções para automação industrial, revela quanto a
reconversão pode ser vantajosa para o País. As válvulas para respiradores
pulmonares que a empresa paulistana começou a produzir custam metade do
preço do produto importado .

Um espessante com base na madeira , desenvolvido pela Klabin , inovou a produção


de álcool gel

Entre as grandes empresas de outros setores destaca-se a Klabin, que, em


parceria com o Instituto Senai, desenvolveu um espessante à base de madeira
em substituição à matéria-prima derivada de petróleo utilizada para transformar
álcool líquido em gel. "A reconversão não vai salvar a indústria nem no Brasil
nem no mundo, mas é importante porque ocupa capacidade ociosa e deixa
claro que o setor tem condições de dar respostas às demandas da sociedade,
que, no momento, precisa de respiradores e outros produtos para o setor da
saúde . O processo poderia ser acelerado com um programa de financiamento
do BNDES,compras governamentais ou licitações ou algum tipo de bonificação
de imposto para as empresas que fizessem uma reconversão" , defende Cagnin .
A opção é relevante também por deixar evidente que a preservação e o
fortalecimento das competências industriais dos países são estratégicos. "O
nosso parque industrial, apesar de ter inúmeros problemas, ainda é o nono do
mundo e possui competências tecnológicas e produtivas importantes . É flexível
e resiliente o suficiente para dar respostas."

Na conversão industrial , o setor de bens de capital


destaca-se

As expectativas quanto ao potencial dinamizador da reconversão aumentaram


depois do tombo recorde da produção industr ial em abril, de 18%, o pior da
história do setor, segundo o IBGE. A reconversão está em sintonia com as
tendências em curso de desglobalização, ruptura das cadeias mundiais de
suprimento e sua internalização nos países, redução compulsória da
dependência de suprimentos externos e favorecimento da produção e das
finanças domésticas . O processo requer apoio ativo do Estado para funcionar,
condição aceita nos países desenvolvidos e em emergentes bem-sucedidos,
como a China, mas de concretização improvável no caso do Brasil, ainda
dominado por políticas econômicas anacrônicas e radicais de austeridade e
privatização. •

e CRÉDITOS DA PÁGINA: PREFEITURA DE SÃO V ICENTE E BETO JR ./F IEB - ADEMIR BRITO/CMSJC
Luiz Gonzaga Belluzzo

Ospoderes
dodinheiro

Os mercadosfinanceirosperderam a capacidadede
avaliar os preços dos ativos. O medo esmagou a
ganância

As torres de marfim dos economistas, práticos e acadêmicos, estão


alvoroçadas com as descobertas da Moderna Teoria Monetária. Em meio à
ruptura dos mercados provocada pela pandemia, ganhou mais força de
novidade o poder de criação monetária abrigado nos bancos e nos Bancos
Centrais. Amigos que se dedicam ao estudo do dinheiro e de sua história de
estripulias sentem incômodos diante da reapresentação do Velho Monarca dos
mercados com a roupagem de um influencer novidadeiro.

Vamos passar a bola para um historiador. Em sua obra Civilização Material e


Capitalismo, Fernand Braudel afirma que "é na cúspide da sociedade que o
capitalismo afirma a sua força e revela a sua natureza . É na altura dos Bardi,
dos Jacques Coer, dos Fugger, dos John Law e dos Necker que devemos fazer
as perguntas, que temos a chance de descobrir o capitalismo" .

Braudel não está falando do mercado, do jogo das trocas que, desde a
antiguidade, se insinua nos interstícios da vida social. Ele está se referindo ao
capitalismo dos bancos, ou seja, à ordem econômica em que o dinheiro não é
apenas um intermediário nas transações, mas a forma geral da riqueza e o
objetivo final da concorrência entre os produtores . O capitalismo supõe o
mercado, mas o mercado apenas anuncia a possibilidade do capitalismo que só
se efetiva quando a produção se organiza sob uma forma adequada ao
propósito do ganho monetário e não apenas para a troca eventual de
mercadorias, destinada simplesmente a diversificar o consumo dos produtores
independentes .

A produção organizada diretamente para a troca, ou seja, o intercâmbio


generalizado de mercadorias, só pode existir sob o capitalismo. A sociabilidade
dos produtores privados que produzem diretamente para a troca começa a ser
definida a partir da numeração das mercadorias - inclusive dos proprietários da
força de trabalho - por uma medida comum de valor . Numa segunda etapa, os
indivíduos "separados" devem se submeter ao teste do reconhecimento social
da "declaração" de valor de seu produto mediante o veredicto anônimo do
mercado. Isto é, a mercadoria particular deve transfigurar-se realmente em sua
forma geral, o dinheiro.

Se, no "salto-mortal" para o dinheiro a mercadoria sucumbe, o produtor também


soçobra. O dinheiro é, portanto, fundamento das relações entre os produtores
privados e, por outro lado, o único critério quantitativo admissível para a
avaliação do enriquecimento privado.

Esse sistema complexo, em sua evolução, criou uma forma interessante de criar
dinheiro para dar início ao jogo do mercado. O dinheiro criado pelos bancos foi
adquirindo um caráter universal, ou seja, deve ser aceito em todas as
negociações, transações e, sobretudo, na marcação do valor da riqueza
registrada nos balanços. Não só as mercadorias têm de receber o carimbo
monetário, mas a situação patrimonial, devedora ou credora das empresas e
dos bancos deve estar registrada nos balanços. Nesse caso, o dinheiro aparece
em sua função de reserva de valor, forma geral da riqueza.

O Estado é o senhor da moeda, mas os bancos, sob a supervisão e o controle


do Banco Central, são incumbidos da criação monetária. Os "fluxos de crédito"
promovem contínuas mudanças na composição nos estoques de riqueza. São
íntimas as relações entre o avanço do sistema de crédito e a acumulação de
títulos que representam direitos sobre a renda e a riqueza.

Gerado ao logo de vários ciclos de dinheiro de crédito, esse estoque de


certificados de propriedade (ações) e títulos de dívida é avaliado diariamente
nos mercados organizados. Essa avaliação depende fundamentalmente das
expectativas dos agentes do mercado . Essas expectativas flutuam conforme as
ondas de otimismo e pessimismo ou, se quiserem, conforme a alternância entre
a ganância e o medo .

Na crise do coronavírus , os mercados financeiros perderam a capacidade de


avaliar os preços dos ativos . O medo esmagou a ganância. Os senhores da
riqueza financeira precipitaram seus portfólios na busca desesperada pelo
dinheiro . Se todos querem vender, ninguém quer comprar. Só o provimento de
grana pelo Banco Central salva os desesperados. Os bancos centrais salvaram
e estão a salvar. Os mercados socorridos aprofundam as divergências abissais
entre a valorização das ações nas bolsas de valores e a derrocada do circuito de
formação da renda e do emprego.

Os atônitos comentaristas econômicos da mídia não sabem se aplaudem as


bolsas de valores eufóricas ou se pranteiam os milhões de desempregados que
vagueiam pelo planeta . É a mesma turma que repete sem cessar na cola dos
Paulo Guedes da vida: "Não há dinheiro". •

e ILUSTRAÇÃO: BAPTISTÃO
' Plural

"Nosonho,
eleditacoisas"
ENTREVISTAJoão Bosco, principal parceiro de Aldir Blanc, lembra a convivência
com o letrista e revela a inacabada "Valongo"

A Pedro Alexandre Sanches

Bosco mantém certa distância das lives


O músico João Basco perdeu para a pandemia o parceiro com quem há 51 anos
iniciou sua história profissional, o poeta Aldir Blanc. O coronavírus levou o autor
de uma infinidade de letras históricas da música brasileira, como "Bala com
Bala", "Kid Cavaquinho", "O Mestre-Sala dos Mares", "De Frente pro Crime", "O
Ronco da Cuíca", "Rancho da Goiabada", "Linha de Passe", "O Bêbado e a
Equilibrista" ... O cantor e violonista estava prestes a lançar o DVD e CD ao vivo
Abricó-de-Macaco, quando o parceiro foi internado. O baque adiou a circulação
do projeto, que conta com três releituras de composições também históricas
Bosco-Blanc , 'Transversal do Tempo", "Profissionalismo É Isso Aí" e "Nação".

Em entrevista por telefone do Rio de Janeiro , onde mora, Basco revela que ele e
Blanc trabalhavam em duas novas parcerias, uma delas plenamente identificada
com o espírito deste tempo, que deveria resultar na canção "Valongo", em honra
à localidade carioca onde desembarcavam os africanos escravizados pelos
portugueses . A africanidade latente foi uma das inúme ras afinidades a
aproximar Aldir, carioca nascido no bairro do Estácio, berço do samba , e João,
mineiro nascido em Ponte Nova, na Zona da Mata mineira, região rica em
quilombos e tradições afro-brasileiras. "De repente, eu sonho com ele e ele me
dita aqui as coisas", diz, em referência a "Valongo" .

Diziam que "a gente exagerava na análise, mas a gente


viu depois que não, que o Brasil era isso mesmo"

CartaCapital : O que é um abricó-de-macaco?


João Basco: É um fruto tropical que tem a sua origem lá na Amazônia, mas
aqui no Rio de Janeiro é muito visto pelas pessoas, porque tem em várias
praças. É um fruto interessante, porque tem sua forma esférica numa casca
muito dura e dá ao longo da árvore várias esferas que vão encostando umas
nas outras e vão subindo o tronco em direção à copa. Numa certa estação do
ano, aquela esfera se abre em algo muito florido , muito bonito, muito
exuberante. O samba com esse nome (parceria inédita com seu filho, Francisco
Basco) fala de uma coisa assim, que dá essa sensação de vida, daquilo que
existe entre o firmamento e o chão.

CC: Você usa duas palavras, "exuberância" e "vida", que contrastam com este
momento que estamos vivendo. Em que a pandemia mudou o plano inicial
desse trabalho?
JB : Esse DVD foi gravado em outubro do ano passado, a gente ainda não tinha
uma notícia concreta da pandemia . Então foi um DVD que não estava dentro
dessa atmosfera. Com a pandemia, tudo ganha outros elementos. O Brasil não
deixou de ter os seus problemas básicos, a diferença de classe social, de
distribuição de riquezas e de dificuldades, que a gente, durante muitos anos,
vem empurrando com a barriga . Não faltam governos de todo tipo, de
ideologias diferentes, mas esse é um problema que parece crônico , não se
resolve. O Brasil tem uma expectativa sempre muito boa de futuro , mas ela não
se resolve como o abricó-de-macaco, que acaba abrindo em flor . Somos uma
potência que ainda está ali incubada num certo banzo, numa certa saudade
daquilo que ainda não se concretizou . Nós já inflamos o peito para dizer que
éramos a oitava economia do mundo, mas, quando chega uma pandemia, você
vê que 70% da população não tem nem como se isolar .

CC: Você aderiu à moda das lives?


JB: Não, nem tive muito clima para isso, porque, no momento em que fiz uma
live para o Sesc, o Aldir estava hospitalizado . Eu aceito fazer uma ou outra live,
mas não tenho muito jeito . É difícil para mim ficar pegando o violão e cantando
para um iPhone . Eu sempre gostei de tocar no palco com as pessoas a 1 metro
e meio de mim, eu vendo as reações . Olhando um iPhone não dá para imagina r
que atrás daquele iPhone tem outras pessoas, outros iPhones . Não dá, é uma
coisa muito fria .

ABRICÓ- DE- MACACO .


CD e DVD de João Bosco .
MPB/Som Livre .

CC: Você regravou duas músicas dos discos Gagabirô e Cabeça de Nego, que
nunca havia retomado. São desse momento em que desenvolveu muito
fortemente uma característica única , de fazer jogos de palavras inventadas ,
aliterações . De onde vem isso?
JB: Alguém chamou. Não sei quem foi , mas essas can ções surgiram . Cabeça
de Nego tem um chamamento . O (sambista) Aniceto falava das pessoas que
participavam de uma noite de jongo, que ficavam jogando certos enigmas na
roda, uma espécie de competição , entre aspas, entre jongueiros. Um jongo do
Aniceto dizia cacurucá eu tô/ perrengando tô, querendo dizer que o jongo estava
doente , fraco, esquecido. Aquelas palavras que uso, zimba cuba cuba, zimba
cubão, soam palavrão, soam volumosas, soam a ilha de Cuba, onde nasce a
santería, o afro-cubano. Essas coisas você chama e numa certa hora elas vêm.
É uma música que não quer ser decifrada, quer ser sentida. Você não precisa
falar, fazer um discurso sobre isso .

CC : Essa outra linguagem inventada se fortalece quando diminui a parceria com


Aldir. Por que uma coisa seguiu a outra?
JB: Quando conheci Aldir, eu tocava desse jeito . Se você for pegar o samba
"Bala com Bala", ele queria ser traduzido, e Aldir foi para (canta acentuando as
consoantes) a sala cala e o jornal prepara quem está na sala com pipoca e bala
e o urubu sai voando. Vamos lembrar que, quando comecei minha carreira, Aldir
tocava percussão comigo, ele tocava as congas . Se você for lá em "Agnus Sei",
ê-anda pacatárandá/ que Deus tudo vê, essa música já tem a sua percussão. Se
for olhar "Quilombo", ê, cama arruma a cama arruma a cama/ ê, cana apanha
cana apanha cana, são sons parecidos, que vão se repetindo. Ele traduz esse
som e escreve essa palavra correspondente ao som que é uma coisa belíssima,
um trabalho dificílimo.

Para Bosco, a engenhosidade do parceiro Aldir Blanc (à dir.) estava presente


também em autores como Nelson Cavaquinho

CC: As letras do Aldir dos anos 1970 retratavam um Brasil de fato daquela
época ...
JB: Houve até pessoas que diziam que a gente exagerava na análise, mas a
gente viu depois que não, que era isso mesmo. Esses problemas de que a gente
falava criaram raízes na sociedade brasileira e estão aí. A música brasileira é
belíssima e tem essa parte intuitiva ... Nelson Cavaquinho, por exemplo, o cara
dizer (declama versos de "Juízo Final", de 1973) o sol há de brilhar mais uma
vez/ a luz há de chegar nos corações/ do mal será queimada a semente/ e o
amor será eterno novamente/ é o juízo final/ a histó ria do bem e do mal. .. Essa
história do bem e do mal é uma coisa, nós e eles, essa intolerância. Quero ter
olhos pra ver a maldade desaparecer, caramba, parece que o cara fez isso hoje.

CC: Com a mo rte do Aldir, ele foi muito homenageado, e com isso você foi
também . Foi emocionante?
JB: Sim. Nós estávamos envolvidos com duas músicas, um convite que
recebemos através do Sesc e do Felipe Hirsch. Parte de escritores estrangeiros
que escreveram livros em línguas que não o português, sobre o Brasil. Um
desses livros é a história do local aqui no Rio conhecido como Valongo. Fiz uma
introdução, escrevi três palavras no primeiro verso, "Valongo, vala de africano".
Ele estava lendo o livro, e falamos sobre isso por telefone uma semana antes de
ser internado . Foi complicado (emociona-se), porque estou com esse "Valongo"
aqui na minha cabeça, posso imaginar o samba que viria . E agora estou te
contando essa história, pela primeira vez estou falando isso com alguém. O
cara foi embora com o Valongo, e eu fiquei aqui com esse troço na mão. Eu
devia ter me antecipado talvez.

"Estamosdiante de um governoque governa com


ressentimento,vingança, paranoia"

CC: Não é possível que ele tenha feito os versos?


JB: Não sei, aí eu teria que saber . Vamos ver o que vai acontecer ... De repente,
eu sonho com ele e ele me dita aqui as coisas. Aldir disse para mim que letrou
"Escadas da Penha" (1975) num sonho, "ouvi a sua música e no meio do sonho
vi a letra inteirinha" . Quem sabe no "Valongo" não aconteça o contrário, e eu é
que sonho com ele dizendo .

CC: Você poderia fazer um diagnóstico sobre este Brasil atual?


JB: Nós estamos diante de um governo que governa com ressentimento, com
vingança, com paranoia. Estamos vivendo no extremo do absurdo. Uma vez,
estava tomando um chape com Zeca Pagodinho , e a certa altura, avariado, falei:
"Zeca, agora preciso ir embora, porque senão não vou consegui r nem saber qual
é o caminho para chegar em casa" . Ele disse : "Que é isso, cara? Depois que a
gente errou de prédio, qualquer andar serve". Atualmente, penso o seguinte :
você troca ministro por outro ministro e está apenas trocando de andar. Não
adianta, você já errou de prédio . O que tem que mudar é o prédio. Tem que
achar é o endereço certo, e este governo não é o endereço certo. Só espero que
a gente termine com essa história do bem e do mal, porque , afinal, ninguém aqui
está vivendo o juízo final ainda. •

Leia a íntegra da entrevista em www.farofafa.cartacapital.com.br.


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Plural
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ACinemateca
agoniza
AUDIOVISUALA mais antiga instituição de preservação do cinema nacional está
sem perspectiva de socorro

Por Jotabê Medeiros

Os profissionais do setor se manifestaram na quinta-feira 4 em frente à sede

Entre cem e 150 produtores, cineastas, cinéfilos, atores e atrizes se reuniram na


manhã da quinta-feira 4, na calçada em frente à sede da Cinemateca Brasileira,
na Vila Mariana, em São Paulo, para chamar atenção para o perigo que ronda a
instituição. A mais antiga do País, responsável pela preservação de 245 mil
rolos de películas , 30 mil filmes e 1 milhão de documentos, a Cinemateca
Brasileira agoniza. Tem 450 mil reais somente em contas de luz atrasadas, o
que ameaçava o prédio de corte iminente de eletricidade no início desta semana
- o problema é que a eletricidade é imprescindível para manter a climatização
do acervo.

Os cerca de 1 50 funcionários estão sem receber salários desde abril,


sobrevivendo de vaquinhas e, segundo ofício do Ministério Público, o governo
federal, por meio da Secretaria Especial de Cultura, não repassou nenhuma
parcela do orçamento de 12 milhões de reais relativo a 2020 . A Cinemateca
existe desde 1946. Para piorar, a maior reserva técnica do País subitamente
virou moeda de troca do governo bolsonarista há alguns dias, quando a então
secretária de Cultura, a atriz Regina Duarte, foi afastada do cargo e, tentando
simular que "caíra para cima", revelou que o presidente lhe tinha reservado a
direção-geral da Cinemateca (um cargo que, a rigor, nem existe).

O cineasta Roberto Gervitz, que discursou no ato, estima que a crise da


Cinemateca se arraste há seis anos. Houve um incêndio em 2016, que queimou
mil rolos de filmes antigos, e uma inundação em fevereiro deste ano. A penúria
foi aprofundada ao ter sua gestão repassada pelo ex-ministro da Cultura de
Michel Temer, Sérgio Sá Leitão, para a organização social Associação de
Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp). O regime bolsonarista falou em
simplesmente extinguir a Cinemateca e, em seguida, em refederalizá-la. Mas a
estratégia geral é não fazer nada, deixando pegar fogo em tudo que represente
conhecimento e preservação historiográfica.

O terreno onde funciona a Cinemateca, pertence à prefeitura e foi cedido à


União para abrigar a instituição. O vereador Gilberto Natalini (PV) enviou pedido
à prefeitura para que intervenha no caso, negociando com a União. "Fechar a
Cinemateca seria um crime contra a memória do cinema nacional", diz o
vereador. Um abaixo-assinado com firmas, entre milhares de outras, da escritora
Lygia Fagundes Telles e dos cineastas Cacá Diegues e Walter Salles, corre na
internet.

O descaso ecoa no cenário internacional. A Coordinadora Latinoamericana de


Archivos de lmágenes en Movimiento (Claim), que reúne 35 instituições e
arquivos latino-americanos, manifestou em nota pública sua preocupação com
a crise.

"A Cinemateca brasileira é uma referência para os arquivos latino-americanos,


um centro de pesquisa e transmissão de conhecimento, tanto por sua produção
cultural quanto pela missão de preservação e difusão do cinema brasileiro e
latino -americano", acentua o texto da organização internacional. •

e CRÉDITOSDA PÁGINA: REDESSOCIAIS


QI/ Geopolítica

Encaixe
aspeças
Reflexões sobre a Nova Ordem Mundial depois da pandemi a

Por Celso Amorim*

Embora seja muito difícil prever como será o mundo pós-Covid-19, parece haver
consenso entre os principais analistas que mudanças profundas ocorrerão no
ordenamento vigente depois da Segunda Guerra Mundia l, incluídas aí as
importantes alterações geopo líticas - menos estáve is do que se supun ha - que
se seguiram ao fim do "socia lismo real" e à dissolução da União Soviética.

Uma das mudanças mais previsíveis, sobre a qual não parece haver grande
discordânc ia (independentemente dos juízos de valor sobre ela) é a
ultrapassagem dos Estados Unidos pela China como a maior economia do
planeta . Essa ultrapassagem já ocorreu em termos de poder de compra, critério
frequentemente usado pelas institu ições financeiras internaciona is, como o
Fundo Monetário e o Banco Mundial, para expurgar flutuações cambiais da
medição do peso econômico de cada país. Em mais alguns anos, a superação
da economia norte-americana pela chinesa deverá, segundo toda probabilidade,
ocorrer também no que se refere ao PIB medido em preços de mercado .
Note-se que a ascensão econômica da China, como costuma ocorrer, reflete-se
no plano político e, em menor escala - mas de forma perceptível -, no terreno
estratégico militar. Mesmo pensadores ocidentais, notadamente norte-
americanos, apontam para o acréscimo do chamado "poder brando" chinês, em
contraste com o declínio da capacidade de atração dos EUA. Pesquisas
recentes, durante a pandemia, demonstram uma perda de popularidade da
autointitulada "terra da liberdade" no imaginário de países europeus, muito
especialmente na Alemanha . Nos últimos anos, assistiu-se a uma maior
atratividade chinesa , em virtude de programas, como o "Um Cinturão, uma
Rota", que levaram ao país asiático líderes de diversas nações desenvolvidas . A
força de atração da China, apesar de continuadas reticências com relação ao
seu regime político, tenderá, a curto e médio prazo, a acentuar-se em virtude da
percepção de que, bem ou mal, o país foi capaz de conter o vírus, do ativismo
diplomático em ações de cooperação em relação à pandemia , da maior
disponibilidade para investimentos em outras áreas do mundo. Ao mesmo
tempo, a atitude de indiferença ou mesmo de hostilidade de Donald Trump para
com outros países resultará , como apontou, entre outros, Joseph Nye (o criador
do conceito), em declínio ainda mais acentuado do "pode r brando" (soft power)
norte-americano.

Em vez de bipolaridade,deveríamospensar em um
"tripé" de poder mundial

Uma das grandes incógnitas, a ser esclarecida nos próximos meses, é


justamente saber para onde vai a política externa dos Estados Unidos .
Obviamente, os interesses estruturais norte-americanos continuarão a ser os
mesmos, a começar pelo capital financeiro, pelas grandes empresas de
tecnologia e por considerações de natur eza estratégico-militar, ainda que
câmbios internos, derivados da pandemia e da crescente revolta da população
de origem africana, possam modular substancialmente a forma com que esses
interesses são apresentados e defendidos mundo afora . Essencialmente, trata-
se de saber, por ocasião da esco lha ent re Joe Biden e Trump, se Washington
manterá a atitude de defesa agressiva dos seus interesses econômicos e
estratégicos, sem levar em consideração outras posições ou sensibilidades, ou
se, como ocorreu em larga medida desde a Segunda Guerra Mundi al, buscará
modular sua ação de modo a evitar conflitos arriscados e confrontações
desnecessárias . A resposta a essa pergunta teremos nos primeiros dias de
novembro.

A anteposição EUA-China poderia indic ar que o mundo transitará do arremedo


de unipolaridade pós-Guerra Fria, que vinha esmaecendo nas duas últimas
décadas, em direção a uma nova bipolaridade (alguns analistas falam em "nova
Guerra Fria"). Não há que menosprezar o potencial de conflito e rivalidade entre
as duas maiores economias do mundo. Um respeitado analista político, que
exerceu cargos importantes na administração norte-americana, Graham Allison,
cunhou a expressão "Armadilha de Tucídides", a propósito do risco (ou quase
certeza) de confrontação ou guerra quando uma potência emergente ultrapassa
ou ameaça a supremacia de outra, dominante até então. Foi o que ocorreu entre
Atenas e Esparta na Guerra do Peloponeso, cinco séculos antes da nossa era.

Transição . Trump quer deter à força a troca de guarda, enquanto a China de Xi


Jinping exercita o soft power

Mas não é necessariamente assim . Em primeiro lugar, do ponto de vista


estratégico -militar, não há como descartar a Rússia, cujo potencial em
armamentos modernos, de alto poder destrutivo tem sido constantemente
atualizado e aprimorado , de foguetes hipersônicos a torpedos de longuíssimo
alcance com capacidade nuclear. Além disso, a Rússia detém um vastíssimo
território, que vai do coração da Europa às lonjuras árticas do Extremo Oriente,
rico em recursos naturais, a começar por petróleo e gás, cujos papéis na
economia mundial dispensam comentários. Sem falar no fato de que, após o
período da "ressaca" yeltsiana, pós-dissolução da URSS,Moscou voltou a
demonstrar grande assertividade no terreno internacional, ilustrada, entre
outras, pelas ações na Crimeia e na Síria. Assim, do ponto de vista estratégico-
militar, mas com óbvio impacto político, seria talvez mais correto, em vez de
bipolaridade, falar-se, como já me referi, de um "tripé ", em que três
superpotências buscariam equilíbrios variáveis.
Hoje, esse equilíbrio tende a se realizar com uma aliança "eurasia na" entre
Moscou e Pequim, em face de um governo norte-americano voluntariosamente
agressivo e com alto grau de imp revisibilidade, o que ficou demonstrado nos
conflitos da Síria e do Afeganistão e, até certo ponto, com relação à Coreia do
Norte . Mas a estabilidade dessa aliança está longe de ser um dado permanente .
Nada exclui que, como no passado (quem não se lembra do conflito sino-
soviético dos anos 1960 e 1970?), choques de interesse venham a ocorrer entre
as duas grandes potências do continente eurasiano e que, eventualmente ,
Washington possa beneficiar-se . Uma extensíssima fronteira comum pode
ensejar importantes ações de cooperação, mas frequentemente é também
fonte de atritos . Não é um cenário provável, por ora, dada a grande dependência
da Rússia em relação a investimentos e apoio econômico da China, mas não é
de se descartar em um cenár io de mais longo prazo .

Em um mundo reconstruído,a União Europeiacontinuará


a ter peso relevante

O "tripé estratégico" não esgota o quadro de atores que conformarão a nova


ordem mundial pós-vírus. Em um mundo reconstruído, a União Europeia
continuará a ter peso relevante. Decisões recentes parecem indicar uma
renovada disposição de seus mais importantes integrantes, notadamente a
Alemanha de Angela Merkel e a França de Emmanuel Macron, em reforçar a
União, em particular com uma nova concepção do papel das instituições
europeias na política fiscal. Para além de empréstimos, governantes europeus
acordaram estímulos diretos de grande vulto, na casa do trilhão de euros , sob a
forma de subsídios, para impulsionar a reconstrução pós-pandemia.
Obviamente, é necessário aguardar para ver como essas boas intenções
anunciadas pela Comissão Europeia se traduzirão em projetos concretos em
benefício de economias mais atingidas pela crise. Em um sistema multipolar,
em que será necessário contrabalançar o exercício cru do poder com atitudes
de autêntica cooperação, a capacidade de iniciativa e de negociação da União
Europeia não deve ser subestimada. Paradoxa lmente , a médio prazo, o Brexit,
sempre apontado como um sintoma de fraqueza, pode ter contribuído para um
reforço do eixo Paris-Berlim, com ramificações, sobretudo, na Europa
Meridional. Claro está que a unidade europeia continuará a enfrentar grandes
desafios, entre eles a tendência autocrática de alguns países da antiga órbita
soviética, que ameaça tisnar a imagem democrática que o Velho Continente
deseja projetar. Seja como for, nas grandes negociações sobre temas globais ,
como clima, imigração, comércio e direitos humanos, a Europa tenderá a atuar
de forma coordenada . Em um mundo de grandes blocos (Estados Unidos, China
e Rússia são blocos em si mesmos), a União Europeia fará sentir sua influência.

Isso nos leva, finalmente, à pergunta: qual é o lugar da América Latina e do


Caribe e, em particular, do Brasil na construção da Nova Ordem? Uma opção
para os países da região seria a atuação isolada, cada um buscando retirar o
máximo de vantagens individuais de alianças preferenciais com algum dos
grandes polos estratégicos. Essa opção pela "subalternidade", que na verdade
tem sido praticada por alguns governos, nos deixará reféns dos interesses de
uma das grandes potências responsáveis pelo equilíbrio global. Sempre que o
interesse do país ou da região se chocar com a potência hegemônica, este ou
esta terá de ceder. No plano dos valores, ideias como solidariedade, cooperação
e diálogo pacífico serão postas de lado em deferência ao "destino manifesto" do
país líder. Pareceria mais lógico, em uma nova "multipolaridade" (ainda que com
traços de bipolaridade) que se avizinha, que as nações da América Latina e do
Caribe atuem de forma tão unida quanto possível, países em desenvolvimento
que são e que necessitam ainda se capacitar para os grandes desafios
econômicos e tecnológicos do futuro .

Naturalmente, é até difícil imaginar nos dias de hoje, com governos tão díspares
e com o maior dos países da região abraçado a uma política de submissão
explícita, que um cenário de maior independência possa produzir-se. Mas é
essencial que tenhamos clareza a esse respeito para implementar uma
verdadeira política de integração e cooperação latino-americana e caribenha (se
necessário, no nosso caso, precedida por maior integração sul-americana),
quando as condições permitirem.

Esta sonhada unidade sul/latino-americana (e caribenha), para ser eficaz, não


poderá dispensar parcerias com outros grupos de países em desenvolvimento.
A África, apesar da variedade de situações e de inclinações políticas, tem
sabido manter -se unida nas grandes questões globais, das mudanças
climáticas ao acesso a vacinas, da oposição às sanções econômicas à defesa
do multilateral ismo. A cooperação com a África, no caso do Brasil uma
obrigação histórica e cultural, é essencial para lograr interesses das nações em
desenvolvimento, como se revelou em mais de uma oportunidade, em
discussões ambientais, comerciais ou relativas à saúde global. Algo semelhante
se dará em relação aos países em desenvolvimento da Ásia (afora a China, que,
a rigor, não pode ser considerada "em desenvolvimento"), a começar pela Índia,
cuja economia, medida pelo poder de compra, está entre as cinco maiores do
mundo. Até que ponto essas nações lograrão um posicionamento independente
sem cair na subordinação ou, contrariamente, na hostilidade em relação à China
é algo que terá de ser acompanhado e sobre o que não é possível fazer
prognósticos claros .

Cabe aqui um parêntese para assinalar que a visão estratégica hoje


prevalecente em Washington procura desde já subverter a efetividade desse
"arranjo multipolar". Em plena pandemia, sob a liderança do secretário de
Estado norte-americano, reuniram-se virtualmente os ministros das Relações
Exteriores de sete países. Além dos EUA, estavam presentes, segundo noticiário
indiano, os titulares das pastas do Exterior de Brasil, Israel, Índia, Austrália,
Japão e Coreia do Sul. Esse grupo, aparentemente heterogêneo, tem um traço
em comum . Seja por motivos ideológicos, seja por interesses e rivalidades
regionais, são vistos como potenciais aliados em uma política de
enfrentamento com a China. Curiosamente, nenhum país da Europa, cujos
governantes se têm mostrado bastante pragmáticos em relação a Pequim.
Embora seja prematuro julgar a estabilidade dessa configuração, ela não deixa
de indicar como o atual governo norte-americano vislumbra uma eventual
arregimentação antichinesa, totalmente contrária aos nossos interesses, como
país e como região. Grupos como os Brics e o lbas (Índia, Brasil, África do Sul),
dos quais o Brasil faz parte, podem e devem atuar para diluir essa visão de
confronto.

O terceiro . Putin recoloca a Rúss ia no jogo . Seu maior trunfo? Reservas


gigantescas de petróleo e gás

Seria altamente simplificador não considerar, na antevisão do que poderá ser


uma nova ordem mundial, as mudanças que ocorrerão nos países ou
transversalmente dentro deles. As impressionantes manifestações antirracistas
que se estenderam dos EUA para o mundo, com fortes conotações de práticas
colonialistas ainda hoje presentes nas políticas migratórias de países europeus,
exigirão reformas de fôlego, que virão a se somar a outras demandadas pela
pandemia, como melhores serviços de saúde, expansão da esfera pública em
questões sociais e culturais. Por outro lado, a fadiga com o neoliberalismo, que
havia provocado protestos de massa em países como Chile, Colômbia e
Equador, tenderá a alastrar-se por toda a região, na esteira da recessão e do
desemprego, na medida em que políticas míopes de austeridade não cedam
lugar a investimentos públicos, com maior participação direta do Estado. Não
se pode excluir que, em alguns países, de instituições frágeis ou fragilizadas,
ocorram grandes convulsões sociais, que tanto podem apontar no sentido de
uma verdadeira democratização da sociedade, como - há que se admitir -
suscitar anseios por segurança e ordem com conotações fascistoides, para
além das tendências presentes em países como Brasil e Bolívia . Tais mudanças
internas, cuja direção vai depender, em parte, da capacidade de articulação das
forças progressistas, não podem ser desconsideradas no desenho que se
queira fazer da futura ordem internacional.

Em suma, nos meses e anos que virão, mudanças internas e no quadro geo-
político mundial vão interagir para que um novo ordenamento substitua o que aí
está . Isso deverá, em graus diversos, acontecer em institui ções formais , como
as Nações Unidas, e nas informa is, como os variados "Gs", onde se debatem os
temas globais e se elaboram consensos que depois orientarão decisões
nacionais e internacionais. Questões como clima, pandemia e emprego
ocuparão o centro desses debates. Se eles se realizarão sob uma ótica de
solidariedade e cooperação ou do egoísmo e do conflito é algo que vai
depender de articulações que possam ser feitas por Estados nacionais e grupos
transnacionais, inclusive da sociedade civil. Como sempre, a História apenas
coloca os problemas. Cabe aos seres humanos, devidamente conectados,
resolvê-los. •

*Ex-chanceler e ex-ministro da Defesa


QI/Ciência

alaser
Arqueologia
Novas tecnologias aceleram a descoberta de sítios históricos

Sem o Lidar, Aguada Fénix ficaria escondida


Indiana Jones inspirou gerações. Bastava ao excêntrico professor universitário
trocar o paletó Tweed por um chapéu de caubói para a aventu ra começar. A
arqueologia , dizia Hollywood, não era coisa para velhos soterrados por uma
pilha de documentos empoeirados . Bem distante do glamour do cinema, o
trabalho do arqueólogo costuma ser, no entanto, um pouco mais metódico .
Cuidadosas pinceladas na terra seca, fragmentos de um quebra-cabeça quase
sempre incomp leto, horas de leitura e entrevistas consomem anos, décadas de
esforço. Às vezes, uma vida inteira . Pequenos passos de homens e mulheres
viram grandes passos para a humanidade.

É um trabalho romântico , humano em sua essência, mas nada mal se a


tecnologia der uma força. Novos equipamentos e técnicas têm facilitado a vida
dos especialistas. No início deste mês , arqueólogos localizaram em uma
floresta na fronteira do México com a Guatemala o que dizem ser a maior e
mais antiga estrutura maia. Segundo os pesquisadores, que publicaram a
descoberta na revista Nature, o Aguada Fénix supera o sítio de Ceibal,
construído em 950 antes de Cristo, em antiguidade e tamanho . O monumento
estende-se por quase 1,4 quilômetro de comprimento, sua altura varia de 9 a 15
metros e teria sido construído entre 1.000 a.e . e 800 a.e .

A descoberta só foi possível por causa de uma tecnologia chamada Lidar (Light
Detection and Ranging) . A partir de um avião, raios laser lançados em uma
determinada área conseguem "penetrar" o dossel de árvores e revelar as formas
tridimensionais abaixo de uma floresta sem danificá-la . "Essa área é
desenvolvida, não é só a selva : há moradores por lá", acrescentou Takeshi
lnomata, coordenador da pesquisa e professor da Universidade do Arizona.

Os pesquisadoresacharam o maior monumentomaia e


detalhes de uma antiga cidade romana

Técnica semelhante permitiu o mapeamento completo de Falerii Novi, uma


antiga cidade romana a 50 quilômetros de Roma. Os detalhes revelados, afirma
a equipe de arqueólogos das universidades de Cambridge e Ghent, vão
revolucionar a compreensão de como os aglomerados urbanos da época
funcionavam . "Se você está interessado no Império Romano, as cidades são
absolutamente críticas porque foi assim que funcionou. O império percorreu
tudo pelas cidades locais", disse Martin Millett, professor de arqueologia
clássica da Universidade de Cambridge.

Ocupada pela primeira vez em 241 a.C., Falerii Novi prosperou até cerca de 700
d.C., mas poucas ruínas eram visíveis acima do solo. •
Afonsinho

Dúvida
existencial

Como retomar o futebol, entre a bola divididado lucro


dos clubes e a saúde dos atletas?

Ao que parece o futebol, depois de idas e vindas, de iniciativas desencontradas,


chegou a um plano para o retorno às atividades, com o "protocolo" divulgado
esta semana pela Confederação Brasileira de Futebol a sintetizar as propostas
anteriores. Até aí, tudo bem . Uma hora haveria de se chegar a um termo comum
em relação às varias propostas oferecidas, os poderes estaduais e municipais
continuam se enroscando em relação ao que pode e o que não pode, o tempo
vai passando . Resta acompanhar o comportamento da "curva", mais falada que
a famosa "folha-seca" de Didi.

O pano de fundo continua sendo a batida "bola dividida" entre dinheiro e saúde .
Note-se que não é a economia como um todo. Uns puxam para um lado, outros,
enviesados pela grana, não enxergam outra coisa, forçam a barra em pleno
crescimento do contágio virai. A CBF elaborou um protocolo e deixou a cada
clube a responsabilidade da aplicação das orientações . Claro que o assunto é
complexo e depende, acima de tudo , das autoridades políticas. Difícil é o
controle de todas as variantes num universo tão diferente da realidade de cada
clube. Ainda mais num momento bastante confuso das normas entre as
"autoridades" . Aí mora o perigo.

No Rio de Janeiro, foram liberadas atividades comerciais na segunda -feira 8. A


maioria da população tem a sobrevivência como horizonte e vai em frente, um
dado que exige atenção é a subnotificação real e forjada , cuidado! Vamos ter de
suportar a fase dos estádios sem público, a parte mais decepcionante para os
jogadores. Paciência.

Mundo afora, cada qual vai estipulando as fases de acordo com a tal curva,
sempre de olho numa possível segunda onda. Onde o esporte já voltou a
competir, as diferenças de uma região para outra, em diversas fases de
abertura, podem ajudar as tomadas de decisão em nosso País.

São Paulo anuncia para 15 de junho a retomada das atividades . Cada estado
tem sua previsão. Enquanto isso, rolam as renovações, saídas, contratações e
as discussões da situação crítica da maioria dos clubes brasileiros agravada
pela crise sanitária. A notícia de maior impacto, embora não seja mais novidade,
nem lá nem aqui, foi a mudança completa, de armas e bagagens, do importante
time mexicano Monarcas da cidade de Morelia para outra cidade a mais de 700
quilômetros de distância. Detestáveis "tempos modernos".

Esta semana tivemos a conversa fiada de afastar o Brasil da Organização


Mundial da Saúde, uma imitação deslavada, simples e direta . Depois não
podemos nos queixar de sermos surpreendidos com a tomada do poder pelo
obscurantismo. Menos mal que começa a ganhar vulto em resistência à
escalada golpista.

A exemplo dos blocos de países que vão se formando na defesa de interesses


comuns, formam-se também as entidades que concentram a defesa dos
interesses comuns a todos os homens, direitos humanos, por exemplo,
problemas de saúde, e por aí vamos .

São explícitas, por incrível que pareçam, as desídias delirantes que retrocedem,
de maneira indefensável, a esta altura do campeonato, buscando impor a todos
a defesa do lucro de alguns. Resistência, sempre.

Tivemos declarações patéticas, primeiro do encarregado da fazenda implorando


"me deixem governar, me deem um voto de confiança" . Vive voando na
repetição desse tipo de imagem "fazemos uma aterrissagem , reformas, em
seguida vamos decolar". É claro na precariedade do seu raciocínio(?) "são
muitos direitos e poucos postos de trabalho", resultado da equação que propõe,
muitos escravos e poucos imperadores, primário .

Foi além, do alto do comando da economia do País declarou "descobrimos que


temos 38 milhões de invisíveis". Agora, ministro?
Por outro lado, o ministro do STF retornou da licença médica, recebeu a visita do
primeiro mandatário, em seguida fez pronunciamento acuado tecendo loas à
vocação "democrática" dos mandatários de plantão.

As relações globalizadas, a aproximação dos homens entre si, em última


análise somos todos da mesma espécie rigorosamente com as mesmas
necessidades básicas são mais que desejáveis.

Nada consegue esconder nem sequer disfarçar o engano deste período da vida
brasileira no mesmo rumo que tivemos em outras ocasiões (Jânio, Collor) com
o discurso da anticorrupção tão almejada pela população trabalhadora e do
moralismo.

Capitular diante do "Centrão" afastou qualquer possibilidade de um verniz


democrático. Esgotados os argumentos no caso de um acordo político militar
nesse sentido, não resta alternativa senão a mudança. •

e ILUSTRAÇÃO: BAPTISTÃO
Charge

TUCANOS JA !! !

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