Você está na página 1de 4

Avaliação Mediadora - Uma Prática da Pré-Escola à Universidade

Jussara Hoffmann

Esta obra discute a avaliação numa perspectiva construtivista que se contraponha à prática
de avaliação tradicional, buscando o sentido em direção a uma escola igualitária e libertadora
desde a educação infantil, o ensino fundamental, médio, até a universidade.

O livro inicia com a discussão da escola de qualidade e sobre o compromisso de manter na


escola o aluno favorecendo-lhe de fato o acesso ao saber (não simplesmente por promovê-
lo), a outros graus de ensino, de permanência e continuidade nos estudos. Melhoria da
qualidade do ensino requer: escolaridade para todas as crianças e escolas que compreendam
essas crianças a ponto de auxiliá-las a usufruir seu direito ao ensino fundamental no sentido
de sua promoção como cidadãos participantes nesta sociedade; que perceba a educação
como direito da criança consciente desse direito.

Numa perspectiva construtivista da avaliação, a questão da qualidade do ensino deve ser


analisada em termos dos objetivos efetivamente perseguidos no sentido do desenvolvimento
máximo possível dos alunos, à aprendizagem, no seu sentido amplo, alcançada pela criança
a partir das oportunidades que o meio lhe oferece.

A qualidade do ensino na concepção classificatória, a qualidade se refere a padrões


preestabelecidos, em bases comparativas: critérios de promoção, gabaritos de respostas,
padrões de comportamento ideal. Uma qualidade que se confunde com quantidade.

Qualidade, na perspectiva mediadora da avaliação, significa desenvolvimento máximo


possível, um permanente “vir a ser”, sem limites preestabelecidos, embora com objetivos
delineados e aceitação das pré-condições socioculturais do educando.

A avaliação apresenta uma importância social e política fundamental no fazer educativo


vinculando-a a idéia de qualidade. Avaliar qualitativamente significa um julgamento mais
global e intenso, no qual o aluno é observado como um ser integral, colocado em
determinada situação relacionada às expectativas do professor e também deles mesmos.

A autora pesquisou as causas do fracasso escolar junto aos professores (30) de escolas
estaduais de educação infantil, ensino fundamental e médio, os quais responderam:
1. o aluno não se interessa pelo conteúdo da escola. (10)
2. o aluno apresenta problemas de relacionamento com professores e colegas. (10)
3. o aluno não apresenta maturidade. (06)
4. o aluno não tem oportunidade de expressar suas idéias ao professor. (03)
5. o professor apresenta falta de conhecimento quanto a questões de aprendizagem. (1)

Percebe-se que alguns professores atribuem a responsabilidade a si próprios, porém a


maioria atribui a culpa aos alunos, os quais passam a ser um misto de réu e vítima.

Quem são os responsáveis pelo fracasso escolar: professores, alunos ou sociedade? O


compromisso do professor diante da criança e do jovem deve proceder diante das diferenças
individuais dos alunos em relação a todos os níveis
socioculturais. Um dos princípios da teoria construtivista é fundamental para avaliação: o
indivíduo se dá por estágios evolutivos do pensamento a partir de sua maturação e suas
vivências.

Neste sentido, deve-se ter uma visão construtivista do erro em termos da correção das
tarefas feitas pelos alunos em todas as situações de aprendizagem. Os erros e as dúvidas
dos alunos são componentes significativos ao desenvolvimento da ação educacional, pois
permitirá ao docente a observação e investigação de como o aluno se coloca diante da
realidade ao construir seu conhecimento.

A autora distingue o diálogo entre professor e aluno como indicador de aprendizagem,


necessário, à reformulação de alternativas de solução para que a construção do saber
aconteça. A reflexão do professor sobre seus próprios posicionamentos metodológicos, na
elaboração de questões e na análise de respostas dos alunos deve ter sempre um caráter
dinâmico.

Na avaliação mediadora o professor deve interpretar a prova não para saber o que o aluno
não sabe, mas para pensar nas estratégias pedagógicas que ele deverá utilizar para interagir
com esse aluno. Para que isso aconteça, o desenvolvimento dessa prática avaliativa deverá
desvelar a trajetória de vida do aluno durante a qual ocorrem mudanças em múltiplas
dimensões.

Em relação ao processo de aprendizagem toda resposta do aluno é ponto de partida para


novas interrogações ou desafios do professor. Devem-se oportunizar aos discentes emitir
idéias sobre um assunto, para ressaltar as hipóteses em construção, ou as que já foram
elaboradas. São estas atitudes que idealizam, de fato, um processo de avaliação contínua e
mediadora.

A objetividade e a subjetividade em geral refere-se a forma de elaboração das questões, mas


é pela correção que as questões se caracterizam em “objetivas” ou “subjetivas”.

A partir das considerações, apontamos alguns princípios coerentes à ação avaliativa


mediadora:
- oportunizar aos alunos muitos momentos de expressar suas idéias – as tarefas são
elementos essenciais para a observação das hipóteses construída pelos alunos ao longo do
processo;
- oportunizar discussões entre os alunos a partir de situações desencadeadoras - os
trabalhos em grupo são “gatilhos” para a reflexão de cada aluno, para o desenvolvimento do
conhecimento em sua perspectiva de compreensão;
- realizar várias tarefas individuais, menores e sucessivas, investigando teoricamente,
procurando entender razões para as respostas apresentadas pelos estudantes – a avaliação
mediadora exige a observação individual, ou seja uma relação direta com o aluno a partir de
muitas tarefas (orais ou escritas), interpretando-as (respeito a subjetividade), refletindo e
investigando teoricamente razões para soluções apresentadas de acordo com os estágios
e as experiências do aluno;
- em vez do certo/errado e da atribuição de pontos, fazer comentários sobre as tarefas dos
alunos, auxiliando-os a localizar as dificuldades, oferecendo-lhes oportunidades de
descobrirem melhores soluções – é preciso ultrapassar a sistemática tradicional de buscar
certos e errados em relação às respostas do aluno e atribuir significado ao que se
observa em sua tarefa, valorizando idéia e dando importância a suas dificuldades. O respeito
e a valorização de cada tarefa favorecem a expressão de crenças verdadeiramente
espontâneas.
- transformar os registros de avaliação em anotações significativas sobre o acompanhamento
dos alunos em seu processo de construção de conhecimento – os registros do professor
devem responder às questões: O aluno aprendeu? Ainda não aprendeu? Por que não
aprendeu? Quais os encaminhamentos feitos ou por fazer nesse sentido?

Em relação à correção há duas posturas que se opõem naturalmente:

Avaliação Classificatória Avaliação Mediadora


Analisar Teoricamente as várias manifestações dos aluno
situações de aprendizagem (verbais ou escritas, outra prod
Corrigir tarefas e provas do aluno para verificar para acompanhar as hipóteses que vem formulando a resp
respostas certas e erradas e, com base nesta determinados assuntos, em diferentes áreas de conhecime
verificação periódica, tomar decisões quanto ao forma a exercer uma ação educativa que lhes favoreça a de
seu aproveitamento escolar, sua aprovação em de melhores soluções ou reformulação de hipóteses prelimin
cada série ou grau de ensino (prática Avaliativa). formuladas. Acompanhamento esse que visa ao acesso grad
aluno a um saber competente na escola e, portanto, sua pro
outras séries e graus de ensino

As diferentes posturas também se revelam nas expectativas dos alunos (pedindo para
professor dar nota em toda atividade; não aceitando que sua tarefa tenha erro), dos pais
( não aceitando que não se corrija o caderno de seu filho), dos professores (corrijo tudo, não
corrijo, o que fazer?).

Na concepção mediadora a correção se faz presente pensando na evolução do conhecimento


de forma dinâmica, de descoberta por ensaio e erro, de tomada de consciência sobre o fazer,
muito mais que a preocupação com resultados imediatos ou fórmulas definitivas de solução
apresentadas pelo professor.

Não significa aceitar tudo o que a criança faz. Considerar, valorizar, não significa observar e
deixar como está. Ao contrário exige do professor a reflexão teórica necessária para o
planejamento de situações provocativas ao aluno que favoreçam a sua descoberta. As
tarefas de aprendizagem são pontos de partida do professor no sentido de gerar conflitos
entre as crianças pela confrontação entre elas a respeito de diferentes soluções pensadas em
evolução.

A ação mediadora do professor, a sua intervenção pedagógica, desafiadora, não pode ser
uniforme em todas as situações de tarefas dos alunos. Os erros que a criança apresenta
podem ser de natureza diversa. Nenhum extremo é válido: considerar que sempre devemos
dizer a resposta certa ou no outro extremo, considerar que todo e qualquer erro que o aluno
cometa tenha o caráter construtivo e que ele poderá descobrir todas as respostas.

A tarefa do aluno está presente entre uma tarefa do aluno e a posterior. A tarefa do
professor consiste em favorecer a este aluno o alcance de um saber competente e a
aproximação com a verdade científica.

O tema correção envolve essencialmente o respeito à criança em suas etapas de


desenvolvimento e, por isso é urgente incluir o termo “ainda” no seu vocabulário. Ao invés
de analisar os exercícios dos alunos para responder quem errou ou quem acertou, analisá-los
para observar quem aprendeu e quem “ainda” não aprendeu.

Os registros de avaliação refletem a concepção de educação do professor. Relatórios de


avaliação devem expressar avanços, conquistas, descobertas, bem como relatar o processo
vivido em sua evolução, em seu desenvolvimento, dirigindose aos encaminhamentos, às
sugestões de cooperação entre todos que participam do processo. Ao relatarmos um
processo efetivamente vivido, encontraremos as representações que lhes dêem verdadeiro
sentido.

Há muitas crenças que a avaliação mediadora é restrita aos professores das séries iniciais do
ensino fundamental, mas a autora revela o desenvolvimento desta perspectiva no ensino
médio e no ensino universitário através de pesquisas realizadas.

O modelo que se instala em cursos de formação, é um modelo reprodutivista sendo muito


mais forte que qualquer teoria que o aluno possa adquirir, pois é vivida em seu cotidiano.

Em sua pesquisa no curso universitário a autora aponta algumas concepções apresentadas


pelos professores resistentes à avaliação mediadora e assinala caminhos para reflexão :
1. alunos desinteressados e desatentos – observa-se , nesta visão, um compromisso do
educador alienado de uma relação de aproximação com o pensar do aluno: o professor “dá”
a aula e o aluno “pega” as explicações. Na avaliação mediadora despertaria, então, o
educador para a relação dialógica da avaliação, buscando alternativas para estabelecer sua
aproximação e descoberta dos diferentes modos de pensar.

2. tempos e disponibilidade: entraves do processo – a avaliação mediadora opõe-se ao


modelo “transmitir-verificar-registrar” e evolui no sentido de uma ação reflexiva e
desafiadora do educador em termos de contribuir, elucidar, favorecer a troca de idéias entre
e com seus alunos.

3. o diálogo professor/aluno – o diálogo entendido a partir da relação epistemológica, não se


processa obrigatoriamente através da conversa, enquanto comunicação verbal com o
estudante.

Refletir em conjunto com o aluno sobre o objeto do conhecimento, para encaminhar-se à


superação, significa desenvolver uma relação dialógica, princípio fundamental da avaliação
mediadora.

4. acompanhamento individualizado – o diálogo, compreendido como leitura curiosa e


investigativa do professor das tarefas de aprendizagem, poderá se estabelecer mesmo se o
educador trabalhar com muitos alunos, no sentido de permitir lhe, senão a proximidade
corpo a corpo com o estudante, o debruçar-se sobre suas idéias e as do grupo para
acompanhar seus argumentos e vir a discuti-los ou enriquecê-los.

Portanto, o maior desafio é favorecer a descoberta pelos professores do significado da


avaliação mediadora para a formação de um profissional competente.

Confirmando a hipótese da autora que experiências em avaliação mediadora possam


provocar espontaneamente um reestudo do currículo, realizou um trabalho junto a uma
universidade e constatou que a prática avaliativa foi sendo reformulada e explicitada em seu
desenvolvimento através de reflexões constantes e ajustes necessários.

Os professores participantes do projeto no Ensino Médio relataram algumas conclusões:


- o processo de transformação inicia de forma lenta com muitas resistências dos alunos. Uma
vez compreendido, o processo alcança bons resultados; · a proposta exige a reflexão
permanente do grupo e ajustes freqüentes;
- a cooperação entre os alunos e destes com a professora é um dos resultados alcançados.
Os alunos passam a mostrar-se mais interessados em vencer suas dificuldades e a refazer
seus trabalhos; · a não-atribuição de notas à tarefas e situações não-declaradas de “prova”
causam menor pressão e resultados mais favoráveis de aprendizagem;
- o processo provoca naturalmente a revisão do currículo pelos professores e o repensar de
sua metodologia;
- percebe-se com maior clareza a dimensão das dificuldades dos alunos.

Nesta perspectiva, avaliação mediadora é uma postura de vida e os fundamentos de uma


ação avaliativa mediadora ultrapassam estudos sobre teorias de avaliação e exigem o
aprofundamento em teorias de conhecimento bem como estudos referentes a áreas
específicas de trabalho do professor.

A ação avaliativa mediadora se desenvolve em benefício ao educando e dá-se


fundamentalmente pela proximidade entre quem educa e quem é educado. Pela curiosidade
de conhecer a quem educa e conhecendo, a descoberta de si
próprio. Conhecimento das possibilidades dos educandos de contínuo vir a ser, desde que lhe
sejam oferecidas as oportunidades de viver muitas e desafiadoras situações de vida.