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A Geopolítica Americana

no Pós Guerra-Fria
João Rua*

RESUMO potência imperial americana, tradicional-


O presente trabalho pretende demons- mente ligada aos temas clássicos da estraté-
trar e debater as contradições que têm gia e das relações de poder, é vista, aqui,
marcado a política externa dos Estados do ponto de vista da influência que os
Unidos da América após o término da aspectos econômicos (hoje mais importan-
Guerra-Fria. Tal fato tem apontado para tes), políticos e culturais têm na sua estabi-
mudanças de paradigmas no controle lidade hegemônica.
político e nas relações internacionais, agora PALAVRA.S—C"VE:
marcados por um mundo crescentemente Estados Unidos; Política Externa;
partido e unificado a um só tempo. A Globalismo; Poder Econômico.

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o se fazer uma análise da geopolíti- mensões política e militar, na estratégia das rela-

A
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ca dos Estados Unidos parece pos- ções internacionais dos Estados Unidos.
sível identificar, grosso modo, três O objetivo central deste trabalho é examinar
períodos marcados alternadamente as ações geopolíticas do estado norte-americano
pela predominância das dimensões militar, po- no período posterior ao término da Guerra-Fria,
lítica ou econômica na estratégia das relações em fins do século XX, fortemente marcadas pe-
internacionais desse país. As três dimensões sem- las concepções (neo)-realista e globalista, alter-
pre se fizeram sentir, mesmo com a predomi- nadamente ou, até mesmo, combinadas. A fu-
nância de uma sobre as demais, na estratégia são da concepção realista (ou neo-realista) com a
intervencionista (com maior ou menor ênfase) internacionalista-globalista tem sido dominan-
da potência americana, desde as suas origens, te a partir dos anos oitenta, tornando-se mais
como estado-nação. importante durante o governo Clinton, quando
Até a Segunda Guerra Mundial, predominou o discurso globalista foi tingido com doses de
a dimensão militar ao sustentar o expansionis- realismo (a política do intervencionismo seleti-
mo econômico e político, mesmo que houvesse vo). Ao que parece, o atual governo de George
alguns curtos períodos de maior visibilidade da W. Bush amplia a importância dessa concepção
dimensão política. Durante a Guerra-Fria foi a realista (retomada da política bélica) sem aban-
dimensão política marcada pela concepção rea- donar o globalismo (base da ação econômica) ao
lista, alavancada pela militar e econômica, que manter o intervencionismo seletivo (ação exter-
ganhou ênfase. Atualmente, no período pós na somente quando os interesses norte-america-
Guerra-Fria, é a dimensão econômica, enfatiza- nos forem atingidos)1 e ao praticar um unilate-
da pela concepção globalista, que domina as di- ralismo no não cumprimento de diversos acor-

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dos internacionais, sem levar em consideração a cem a hegemonia mundial e alerta para os riscos
posição de parceiros e aliados. que correm ao menosprezar as relações Norte-
Algumas indagações balizarão esta reflexão e Sul.
acabarão por definir as distintas partes do estu- Huntington (1994) ao advertir para o inevi-
do apresentado, que se voltará apenas para a di- tável declínio do Ocidente em relação ao resto
mensão externa da problemática internacional do mundo, chama atenção para a importância
da geopolítica americana sem, aqui, levar em dos laços civilizacionais, superando, inclusive, os
consideração os rebatimentos da relação socie- econômicos e políticos, nas relações internacio-
dade-Estado em sua expressão interna. Como se nais. Defende posições realistas ao propor atua-
mantém a expansão planetária dos Estados Uni- ção seletiva (diferenciada) dos Estados Unidos
dos e que prioridades têm sido estabelecidas? em cada situação e para cada país, nos conflitos
Como se apresentam os dilemas, contradições, internacionais que deixariam de ser de ordem
dubiedades e incertezas da política externa nor- político-militar ou econômica e passariam a ser
te-americana neste início de milênio? de ordem civilizacional. Demonstra sua preocu-
Temos plena ciência de como fica incomple- pação com as idéias do multiculturalismo que
ta esta análise por ficarem pouco destacadas im- poderiam conduzir a um Choque de Civiliza-
portantes contribuições, de diversos autores, ções dentro dos Estados Unidos, caso ocorra uma
como as de Wallerstein com suas influências "desamericanização" provocada pela crescente
braudelianas, Paul Kennedy (e seu declinismo importância dos imigrantes na sociedade ameri-
dos impérios), Huntington e seu paradigma ci- cana.
vilizacional, que Chiappin (1994, p. 39) quali- A impossibilidade de trabalhar com muitos
fica de "neo-realista", além de outros que contri- autores, por mais significativos que sejam (Thu-
24 buíram para a compreensão de tão complexa row, Naisbitt, Fukuyama, Lacoste dentre outros),
problemática, como a das relações internacionais explicita os limites deste trabalho. Entretanto,
e da geopolítica, na última década. Importante mesmo de maneira incompleta, procurou-se
discussão a respeito das "Novas Geopolíticas" foi abranger as principais concepções que têm ba-
desenvolvida por Vesentini (2000) quando ana- lizado a atuação dos Estados Unidos como po-
lisa as idéias dos principais autores que influen- tência planetária. Como não faremos estudos
ciam, atualmente, esse campo do conhecimen- comparativos, fica pouco contemplada a abor-
to. O caráter resumido deste artigo nos obriga a dagem relacionada às relações de poder que exa-
referências esporádicas. Entretanto, mesmo sem mina o caráter hierárquico dos estados dentro
aprofundar o pensamento desses autores, tenta- de ordem mundial e a capacidade deles influí-
remos dialogar com suas idéias ao longo do tra- rem na mudança de comportamento de outros
balho. estados, tão importante para se entender um
Kennedy (1989 e 1993) além de prevenir mundo simultaneamente uni e multi-polar como
para o declínio dos Estados Unidos como po- o atual. Da mesma maneira, o paradigma civili-
tência planetária, adverte para os crescentes con- zacional de Huntington, que pretende substi-
flitos, fruto das disparidades, entre Norte e Sul tuir o paradigma realista e a estratégia da con-
ao analisar os desafios que se apresentam para o tenção nas relações internacionais, e que, para
século XXI, destacando os problemas decorren- Chiappin (1994), apenas troca o "inimigo" subs-
tes das migrações em massa para os países cen- tituindo os soviéticos pelas civilizações não-oci-
trais e do "excessivo crescimento demográfico nos dentais, fica pouco enfatizado (e criticado).
países periféricos" (Rua, 1998, p. 57). Em sín- Faltaria incluir, ainda, num estudo mais com-
tese, critica os países ricos pela forma como exer- pleto, a visão originária da economia política

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(como a análise da organização política da eco- uma tríade, o que significa que há agora
nomia-mundo de Wallerstein), segundo a qual três loci ou núcleos centrais em torno dos
não se pode compreender a geopolítica sem con- quais a economia está organizada, e que
siderar a dinâmica da economia global. Na abor- estes três são suficientemente competitivos
dagem wallersteniana, considera-se as ligações uns com os outros para que nenhum dos
entre os processos de acumulação de capital, com- três, agora ou no fiauro imediato, possa com
petição por recursos e política externa como parte facilidade se distanciar dos demais.
de um singular e interdependente sistema glo-
bal no qual o capitalismo determina o caráter e a Alega em seguida que esta distribuição em
configuração dos estados. tríade foi, inicialmente, percebida apenas como
Vesentini (2000, p. 40) critica Wallerstein fenômeno econômico, mas que não pode deixar
ao afirmar: de ter implicações geopolíticas. Na mesma pá-
gina, adiante, afirma que:
Mas o grande problema dessa constru-
ção teórica é pretender deduzir as partes Os Estados Unidos permanecem sendo
do todo — a lógica do sistema-mundo pre- nos anos noventa, de longe, o maior poder
cede as ações dos atores (Estados, empresas, militar do mundo, o que é ainda mais ver-
associações internacionais) — e, com isso, dadeiro se considerado o colapso da URSS.
perde-se a contingência das ações huma- Mas esse é um poder que tende a se esvae-
nas, perde-se enfim a política entendida cer, em decorrência do declínio de sua base
como o entrecruzamento conflituoso de de sustentação e de sua legitimidade in-
ações/projetos de grupos com vistas ao exer- ternas (Wallerstein, 1998, p. 19).
cício do poder.
I 25
A seguir, apresenta uma interessante con-
Concordando com Vesentini quanto ao ca- tribuição à geopolítica, ao se preocupar com o
ráter quase determinista da relação todo/par- domínio do espaço mundial, quando faz uma
tes e que, num estudo dos Estados Unidos análise das relações entre os três núcleos da
nesta perspectiva, seríamos induzidos a consi- tríade mundial e a possibilidade de se torna-
derar esse país como equivalente ao sistema- rem uma díade. Escreve Wallerstein (1998,
mundo, mesmo assim, esta abordagem será p. 21) que os três núcleos da tríade vêm reu-
uma das bases da análise que faremos sem, nindo forças ao construírem "redutos proteci-
entretanto, enfatizar exageradamente os aspec- onistas" ("networks" regionais), para futuras
tos econômicos, como é comum entre os au- expansões, e que
tores que utilizam esta linha de interpretação
das relações internacionais. Neste quadro, o resultado da batalha
Wallerstein (1998), ao analisar o papel dos para reduzir a tríade a uma díade será
Estados Unidos, por vezes aproxima-se de Ken- mais provavelmente a aliança do Japão e
nedy e seu declinismo e de Huntington e o cho- dos Estados Unidos do que a associação de
que das civilizações, como se percebe em Wal- qualquer um deles com a Europa. Os mo-
lerstein (1998, p. 19) quando escreve que: tivos não são principalmente econômicos,
por que economicamente qualquer uma
Parece senso comum que, dado o declí- das três combinações poderia ter bons re-
nio relativo da força econômica dos Esta- sultados. As razões são políticas e culturais
dos Unidos, o sistema mundial tornou-se (Wallerstein, 1998, p. 22).

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Para ele, o cenário provável é uma díade for- trina (que substitua o Destino Manifesto — cren-
mada, de um lado, pela Europa e a Rússia e, do ça do cidadão comum, pouco informado) e de
outro, pela aliança tripartite Estados Unidos, uma nova leitura que lhe permita redefinir suas
Japão e China. relações com o resto do mundo. Quais são os
Como veremos no final deste artigo, há muitas termos de referências e de comparações históri-
controvérsias com relação ao papel dos Estados cas mais apropriados para compreender os desa-
Unidos no mundo atual. O mais provável é que os fios com os quais os EUA se confrontam nos dias
principais autores, cada um com sua própria abor- atuais?
dagem, tenham parcelas de razão. O mundo tor- É necessário comparar a fase isolacionista dos
nou-se tão complexo que, simultaneamente, pode anos 1920-1941 com aquela de intervencionis-
se perceber declínios, expansões, choques cultu- mo total dos anos 1941-1991 para concluir que
rais, ameaças e defensismos nas relações Norte-Sul, os EUA parecem inventar um terceiro modo (a
uni, multi e a-polaridades. As duas últimas déca- que alguns chamam de globalista ou globalista/
das têm desmentido as previsões e demonstrado internacionalista, como já visto) de engajamen-
como há espaço para a contingência e para novos to, que ultrapassa os dois primeiros. Será que
atores no cenário global. Se é inconteste, até o está definido que haverá somente as duas formas
momento atual, a supremacia norte-americana e de intervencionismo encarnadas pelos presiden-
se o papel deste país é dominante na tríade, tam- tes americanos Woodrow Wilson e Theodore
bém é preciso observar que novos fatos surgem a Roosevelt, retomadas recentemente (anos 70-80)
todo o momento (basta lembrar a devastadora ação no debate entre os realistas Henry Kissinger e
terrorista de 11 de setembro de 2001 contra os Brezinski sobre a missão dos EUA perante o
EUA para se perceber como se torna quimérico o mundo? Este debate está em aberto e muda sem-
26 projeto isolacionista do governo George W. Bush) pre de acordo com os acontecimentos mundiais
e influem no desenrolar dos acontecimentos. Como e as perspectivas e resultados das eleições ameri-
se verá ao longo do trabalho, iremos valorizar os canas, naturalmente.
Estados Unidos, nosso objeto de estudo, como Baseados em Jacquet e Moisi (1996, p. 262),
potência dominante nos campos político, econô- lembramos que os Estados Unidos desejaram
mico e cultural. Entretanto afastamos qualquer engajar-se nas relações internacionais para trans-
idéia de determinismos ou teleologias e, temos ci- formá-las, impor a vitória da moral sobre o mal
ência, que se hoje esse país é dominante, existem, e celebrar o "triunfo universal do bem" para usar
no momento, movimentos em marcha que podem expressões de Wilson. Um tal mundo seria go-
criar fatos novos e alterar o quadro geral. Referimo- vernado pelo direito internacional e tais princí-
nos a iniciativas de organização da sociedade civil pios só poderiam ser aplicados, em seu universa-
em nível supranacional e à ação das ONGs, numa lismo, à humanidade inteira.
outra leitura da concepção globalista/internacio- Visão moral ou visão estratégica? Para os in-
nalista. Torna-se dificil escolher uma única abor- ternacionalistas realistas, segundo a visão de
dagem (concepção) e nela permanecer, sob pena Roosevelt, as idéias de Wilson são generosas e
de se perder a riqueza que a pluralidade de análises belas, mas impraticáveis e foram rejeitadas pela
pode oferecer na análise da complexidade do mun- maioria dos americanos quando este presidente
do atual. não conseguiu apoio para a "Liga das Nações",
no pós-Primeira Guerra. Para complicar mais
* * ainda esse quadro e não ficar tão marcada a dife-
Uma década após o fim da Guerra-Fria, os rença entre o bem e o mal, encarnada na figura
EUA parecem estar à procura de uma nova dou- dos dois presidentes referidos acima, é preciso

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lembrar que se Roosevelt foi claramente inter- que só ela poderia assumir face à ameaça so-
vencionista, com a sua política do "Big Stick", viética, depois da derrocada da Europa;
Wilson, apesar de seu discurso idealista, foi res- A percepção da vulnerabilidade dos Estados
ponsável por algumas intervenções na América Unidos (depois de Pearl Harbor e da nuclea-
Latina, O México que o diga... rização do mundo) demonstrou que o país
O comportamento dos Estados Unidos fren- não podia se desinteressar do resto do mun-
te ao mundo guarda, ainda, traços de suas ori- do, pois o mundo poderia se "interessar" pela
gens como estado-nação. Ao se proclamar inde- América.
pendente, a América, em nome da liberdade re- A guerra do Vietnã que fez com que a Améri-
ligiosa e da filosofia do Iluminismo, se ergueu ca descobrisse a "tragédia" (fartamente explo-
como uma anti-Europa. Face à Europa da into- rada pela mídia) e a complexidade do mun-
lerância e da guerra, a nascente nação opunha a do "exterior".
vontade de criar um mundo radicalmente novo. Num Mundo marcado por tal complexida-
Ocupados em expandir seu território de leste para de, a América não se sente à vontade para traçar
oeste e para o sul e em forjar uma identidade na- políticas e prioridades e encontrar um novo modo
cional graças à Guerra Civil (1860-66), os EUA de funcionamento com seus aliados já que tem
muito lentamente (e com reticências) tomaram alternado posições de parceria com atitudes uni-
(tomam) consciência de sua nova potência. laterais de líder inconteste, principalmente em
Será Theodore Roosevelt quem fará os Esta- termos militares.
dos Unidos entrarem como ator protagonista na Ainda, com os mesmos autores (1996, p.
cena internacional. Quando chegou ao poder em 265), em termos econômicos, entretanto, é com
1901, a América já era, economicamente, um seus aliados que surgem os maiores problemas
dos grandes. Sua produção industrial já repre- nas rodadas internacionais. I 27
sentava entre 20% a 25% da produção mundial
e já atuava em numerosos conflitos internacio- POR QUÊ SER "XERIFE" no
nais como mediador. Para Roosevelt, que, antes MuNno? ou Os DILEMAS
de se tornar presidente, fazia parte do mesmo CoNTnvuAm
grupo de Mahan, as relações internacionais eram
relações de força. Era necessário "speak softly and A América gostaria de continuar a ser a po-
carry a big stick". Acreditava que a missão inter- tência número um, mas ao menor custo possível
nacional da América era, a partir de sua posição e com o menor risco para seus soldados. O que
geográfica de ilha-continente, desempenhar o pode ser entendido como intervenções rápidas e
papel de equilíbrio de forças que a Grã-Breta- retiradas o mais rápidas possível, antes que a opi-
nha havia desempenhado ao longo do século nião pública se mobilize contra tais intervenções.
XIX. A potência industrial, que se apresentava Vista no contexto internacional, a política
ao mundo, exigia a fusão da economia com a externa americana parece definida apenas, com
política e a estratégia, que Mahan tão bem ex- relação aos contatos comerciais, num mundo
plicitava. desigualmente globalizado, onde a agressivida-
Foi muito gradativamente e a contragosto que de é absoluta. A prioridade geoeconômica ultra-
a América tornou-se uma potência imperial. passa aquela puramente geo-estratégica e se tra-
Isto foi resultante de três fatores: duziu, nos anos Clinton, por uma agressividade
1.A Segunda Guerra Mundial e a Guerra-Fria quase guerreira no comércio exterior. Para ganhar
colocam a América no centro do sistema in- mercados e reforçar sua competitividade inter-
ternacional, impondo-lhe responsabilidades nacional, a América tem utilizado todos os mei-

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os, inclusive pressões políticas sobre os compra- político internacional centralizada na po-
dores e vendedores. Utiliza-se, cada vez mais, das tência hegemônica — apesar de não haver
atividades de espionagem industrial desenvolvi- consolidado um domínio (°imperium') que
das pela CIA, para as quais são dirigidas as mai- garantisse a supressão dos conflitos inter-
ores energias liberadas com o fim da Guerra-Fria. nacionais pelo exercício de uma "gendar-
Isto ficou bastante evidente na recente crise (ju- merie" global permanente — limita, deci-
nho de 2000) em que a União Européia denun- sivamente, a eficácia dos Estados Nacio-
ciou a espionagem industrial americana (com a nais como agentes de poder soberano, com-
cumplicidade da Grã-Bretanha), no setor aero- prometendo, inclusive, sua capacidade de
náutico, nas duas últimas décadas. regulação econômica e proteção social.
A mesma América "generosa" com seus alia-
dos nos anos 50-70 (no contexto da Guerra-Fria) Essa ênfase no geopolítico marcado, fortemen-
torna-se "brutal" na defesa das firmas america- te, pelo geoeconômico demonstra como a con-
nas e do livre-mercado, o que vem desagradando cepção globalista/internacionalista vai ultrapas-
a europeus e japoneses e cria novas tensões entre sando a concepção realista/neo-realista. Entre-
"aliados". O que se pode observar é que, em iní- tanto, os Estados Unidos não são o único ator na
cio do século )0(1, a América não tem os meios cena contemporânea e mesmo sendo pressiona-
(nem a vontade?) de dominar o mundo, mas tam- do internamente para abandonar a política in-
bém não tem a possibilidade de se retirar do papel tervencionista, diversas situações internacionais
de protagonista nas relações internacionais. impedem que tal intento seja levado a cabo, até
Assim, o que se percebe, é que as crises que mesmo por que o poderoso "lobby" da indústria
abalaram a economia mundial, desde os anos 70, armamentista não cessa de agir...
28 foram ultrapassadas pelos Estados Unidos com Moisi (1998, p. 61) nos relata que em um
base em dois movimentos de reafirmação da he- discurso pronunciado em 5 de junho de 1997,
gemonia americana: no plano geoeconômico, a na Universidade de Harvard, para celebrar o 50°
chamada diplomacia do dólar, ao transformar a aniversário de lançamento, nesse mesmo local,
moeda americana em dólar financeiro (e não do Plano Marshall, Madeleine Albright (então
apenas dólar monetário, como até então) capaz Secretária de Estado do governo Clinton) apre-
de acelerar o processo de globalização financei- sentou a nova filosofia internacional dos Estados
ra, que tem sustentado a supremacia econômica Unidos: a celebração de que os Estados Unidos
dos Estados Unidos; no plano geopolítico, a cha- eram o líder mundial e que a América não dese-
mada diplomacia das armas (Tavares e Melin, java ser o único responsável pelo mundo.
1998, p. 55) que marcaram, profundamente, o Aí foram definidas algumas prioridades da
funcionamento e a hierarquia das relações inter- política externa americana, mostrando uma nova
nacionais a partir do começo dos anos 80 e cujos geografia estratégica marcada por interesses po-
efeitos ainda se fazem sentir ao inaugurarem uma líticos e econômicos, e apresentadas algumas
nova divisão internacional do trabalho. ações que a implementariam.
Dizem os mesmos autores (p. 56) que: Estabelecer uma nova arquitetura de se-
gurança para o continente europeu estável, unifi-
Do ponto de vista geopolítico, a partir cado e democrático, ao mesmo tempo que se assi-
da derrota da ex-URSS e do desmonte da na um novo pacto de segurança com a Rússia;
velha "ordem bipolar", criou-se uma situ- As relações com a China, que, recentemen-
ação de instabilidade estrutural em que a te, tomou o primeiro lugar nas atenções dos
tendência a uma hierarquização do poder americanos ao encontrar no nacionalismo uma

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ideologia de substituição do comunismo. A pos- Japão, reunidos. Por outro lado, há alguns acor-
sibilidade de um realinhamento do Japão com dos de parceria entre o Mercosul e a Europa que
os Estados Unidos, com a China sendo pressib- demonstram, pelo menos na intenção, um não
nada para dele participar, parece dar razão às for- atrelamento exclusivo às relações comerciais com
mulações de Wallerstein, antes referidas. os Estados Unidos.
Favorecer o fortalecimento de um sistema Para se entender as perspectivas de sucesso
econômico internacional ainda mais aberto, in- dessa integração das Américas, é preciso levar em
centivando a participação de todos os países (in- consideração as políticas desenvolvidas por al-
clusive da China) nos organismos reguladores. guns países latino-americanos que, por mais con-
Controlar as problemáticas "novas", não traditório que pareça, sugerem que há resistên-
relacionadas, diretamente, às relações entre es- cia a uma integração passiva à ALCA. O governo
tados: a luta contra o tráfico de drogas; o terro- George W. Bush retoma as discussões e "docili-
rismo; os riscos de proliferação de armas nuclea- za" as divergências, como ficou patente na "Cú-
res; a proliferação internacional do crime. pula das Américas", realizada no Canadá em
Diversos acordos têm sido assinados com os 2001.
países do Caribe e alguns da América do Sul so- Uma análise precisa é apresentada por Costa
bre o combate ao tráfico de drogas. Desde que a (1999, p. 28) quando chama atenção para algu-
ameaça subversiva diminuiu, o combate ao trá- mas questões relacionadas à integração sul-ame-
fico de drogas aparece como uma legitimação da ricana no Mercosul e as previsíveis dificuldades
presença dos EUA no Caribe e na América Lati- antepostas pelos Estados Unidos a essa integra-
na, mesmo da presença militar. É claro que não ção, na busca do fortalecimento do projeto
se pode minimizar o interesse americano no Cari- ALCA. Afirma o autor que
be, seu tradicional "quintal" de atuação. Basta lem-
brar a importância que o canal do Panamá ainda enquanto bloco comercial (os países do
desempenha nas ligações leste-oeste dos EUA e Mercosul) têm enfrentado a competição nos
no fluxo de importação de petróleo bruto. mercados mundiais em posição mais van-
Uma estratégia particular para integrar as tajosa que se isolados, como no passado. Isto
Américas, de tal forma que se neutralizem as in- inclui uma certa agressividade seletiva
vestidas econômicas das outras potências. (questões de tarifas externas e demandas
A respeito desta prioridade dos Estados Unidos, junto à OMC) face a determinados con-
tentaremos lançar um olhar mais aprofundado. correntes, combinada a políticas (também
Um relançamento das relações interamerica- seletivas) de parcerias estratégicas, caso de
nas, iniciado pelo presidente Bush em sua "ini- alguns acordos multilaterais, de comércio,
ciativa para as Américas", desembocou, em 1994, como o firmado recentemente com a União
na primeira "Cúpula das Américas" que apro- Européia.
vou a criação da ALCA que irá integrar todo o
continente americano, tendo como horizonte o Demonstra, mais adiante, as pressões norte-
ano de 2005. americanas sobre os atuais e potenciais integran-
Os EUA tentam, com esse projeto, contra- tes do Mercosul com vistas à aceleração da consti-
balançar a importância dos europeus e japone- tuição da ALCA e quão acertada é aposição brasi-
ses no comércio com os países da América. A leira de "dar um tempo" para período de estudos
título de exemplo, pode-se ver que o comércio sobre o assunto, enquanto ressalta, o autor, que
do Mercosul com os Estados Unidos é equiva- seja inevitável a discussão futura dessa temática,
lente àquele que se realiza com a Europa e com o para a qual é preciso acumular forças.

I Geo UERJ Revista do Departamento de Geografia, UERJ, RJ, n. 10, p. 23-33,2° semestre de 2001 I
Costa (1999, p. 29) aponta para as intenções ender as múltiplas realidades que se apresentam.
claras de integração da infra-estrutura de todo o De um lado, os grandes dilemas que, desde a
continente sul-americano, em termos de rodovias, fundação da nação, marcam a sociedade ameri-
ferrovias e hidrovias, além da acalentada integração cana: federalismo ou localismo; agrarismo ou
econômica Mercosul e Pacto Andino. industrialismo; utopismo humanitário ou prag-
Apresenta, o referido autor, uma rearticula- matismo; liberalismo ou intervenção do Estado;
ção territorial em nosso continente, com base na homogeneização cultural ou multiculturalismo;
interação de diversos vetores, e que pode condu- isolacionismo ou internacionalismo/intervenci-
zir para novos arranjos territoriais, que são: arti- onismo relacionados aos diversos tipos de reais-
culações meridionais, formadas pelos países do mo/globalismo etc. Na verdade, esses e outros
Mercosul; articulações orientais, centradas em dilemas, que não são exclusivos da sociedade
São Paulo e que constituem um subsistema das americana, têm tido uma leitura própria que tem
articulações meridionais; articulações ocidentais, provocado seguidos paradoxos e intensas polari-
formadas, grosso-modo, pelo Centro-Oeste bra- dades diante dos quais a "gangorra política" tem
sileiro, pela Amazônia Ocidental, pela Bolívia e se apresentado quase sempre oscilante, como bem
pelo Peru; articulações setentrionais, formadas pela o tem ilustrado a atuação dos Estados Unidos
Amazônia do Norte-Oriental e Colômbia, Vene- como potência planetária.
zuela e as Guianas, onde se desenvolvem diversas Ramonet (1996, p. 7), ao analisar o "século
iniciativas brasileiras de integração regional. americano", enfatiza a recuperação política e eco-
Este movimento integrador demonstra a inten- nômica dos EUA, nas últimas décadas (acordos
ção de fortalecer o continente nas futuras negocia- do GATT/OMC, NAFTA), no plano mundial,
ções com a ALGA. Há obstáculos situados em pa- ao mesmo tempo que aponta para o novo mode-
30 I íses como a Colômbia, tão pressionada pelo gover- lo americano baseado no Estado reduzido, na
no norte-americano, e que deseja uma integração precariedade social e na expansão das comunica-
imediata com a NAFTA (o que será um passo a ções em todas as suas formas.
mais na direção da ALGA), além de rejeitar a pro- Diz o referido autor que a partir da interven-
posta de acordos bilaterais de livre-comércio, apre- ção americana na Primeira Guerra Mundial co-
sentadas pelo Brasil (Leo, 2000, p. A5) meça a se falar, na Europa, de "modelo america-
Entretanto, a extroversão planejada/induzi- no", que seduz a partir das imagens mostradas
da das economias da região prossegue juntamen- por seus filmes; modelo de vida "à americana"
te com as suas estratégias de enlaces preferenci- que vai marcar, culturalmente, gerações de jo-
ais nas escalas regional e global, como volta a vens no mundo inteiro. A América, definitiva-
nos mostrar Costa (1999, p. 28-29). mente, para o melhor e o pior, passa a ser sinô-
Tudo isto ocorre simultaneamente à crise nimo de modernidade. Os anos 60 (com os as-
Argentina, de 2000-2001, que põe em risco a sassinatos dos Kennedys, de Malcolm X, Luther
integração econômica do Mercosul e amplia a King, com a explosão dos guetos urbanos, den-
possibilidade de intervenção dos Estados Uni- tre outros fatos importantes) marcam o desper-
dos nesse bloco. tar do sonho e o despertar é brutal. A crise de
Cuba, as intervenções militares (sempre antide-
CONCLUINDO... COM MUITA mocráticas) na América Latina, as ações no Ori-
DIFICULDADE... ente Médio, sempre ao lado de Israel, e, sobre-
tudo, a guerra do Vietnã e suas atrocidades, que
Ao se estudar um país como os Estados Uni- duraram até 1975, tornam-se pesadelos para o
dos, percebe-se quão complexo se torna compre- cidadão comum.

1 Geo UERJ Revista do Departamento de Geografia, UERJ, RJ, n. 10, p. 23-33, 2° semestre de 2001 I
A queda de Saigon marca o fim de um tempo ser o maior produtor e comerciante de armamen-
— o fim de uma América branca, segura dela tos do mundo.
mesma e dominadora. Os problemas internos
explodem com a questão das minorias negras (so-
bretudo) e a febre libertária dos anos 60. A vio- Ao se mudar os rumos deste trabalho, quan-
lência e as drogas devastam as grandes cidades do se tratou de uma nova geopolítica, muito mais
onde o equilíbrio demográfico se modifica. Os próxima da geografia política, tentou-se, além
brancos partem para os subúrbios distantes, con- de enriquecer a análise, demonstrar como, na fase
fortáveis e seguros, enquanto os negros e os his- atual das relações internacionais, os marcos são
pânicos ocupam as áreas centrais abandonadas. outros. Não são as posições físico-geográficas que
Nos anos 70 e 80, embora dominando mili- interessam e sim as posições político-econômico-
tarmente e economicamente, a América deixa de cultural-geográficas, numa enorme complexida-
ser, para muitos, o modelo desejado de socieda- de, em uma espécie de fusão entre as idéias de
de. O Japão e a Alemanha aparecem como rivais Wallerstein, Huntington, Aron e outros, mas sem
no bloco ocidental. Quanto à URSS... esquecer Mackinder e Spykman (redescobertos
A queda do muro de Berlim muda comple- neste final de século), para só falar de alguns.
tamente o quadro. A implosão da URSS, em Os anos 90 demonstraram que, ao mesmo
1991, vem quase junto com a vitória americana tempo que se apresentam novos alinhamentos,
na Guerra do Golfo. Pela primeira vez sem rival, em grandes blocos econômicos (onde o territó-
os EUA dominam enfim o mundo. E, no entan- rio e o estado nacional parecem estar enfraqueci-
to, sua sociedade está mais doente do que nun- dos), pode perceber-se o aprofundamento dos
ca. Bush ganhou a Guerra do Golfo, mas perdeu "localismos" em níveis, além do econômico, nos
a guerra (e as eleições) interna para o desempre- espaços existentes, quando volta-se a valorizar o
go, a discriminação, em suas diversas faces, as território em suas diferentes escalas. O nascimen-
cidades deterioradas, a insegurança e as marcan- to de novos estados e a reivindicação por frontei-
tes desigualdades que se acentuam. ras definidas registra a afirmação de identidades
Ao escolher Clinton, os americanos sinaliza- coletivas, como se voltássemos ao final do século
ram as prioridades: o retorno aos problemas in- XIX, com a acelerada balcanização e com as lu-
ternos e ao progresso social que acabaram por tas de cunho regional-nacionalista.
conseguir, sem entretanto sanar muitos daque- Esse movimento contraditório de "valoriza-
les problemas. ção" e "desvalorização" do território é visto por
A diplomacia americana domina na política Badie (1999, p. 7) quando diz que "os territóri-
internacional, onde fixa prioridades (negociações os parecem ser mais do que nunca objetos de
de paz — Oriente Médio, Bósnia — e interven- paixão" e que cada minoria procura traduzir numa
ções militares), principalmente no campo das reivindicação territorial a vontade de se afirmar
negociações comerciais do GATT/OMC, que e se distinguir, num processo de arrumação e re-
consagra o triunfo do livre-comércio, criação do arrumação dos frágeis mapas do mundo.
NAFTA, dominada pelos EUA. O resto fica em Entretanto, é o próprio autor supracitado, que
segundo plano. A desconfiança nas organizações demonstra que "embora se reafirme, em deter-
internacionais, como a ONU, da qual é o prin- minados sítios, a solenidade do princípio terri-
cipal devedor, a diminuição das contribuições torial, contribui-se, noutros, para estender as
financeiras (a ajuda à África foi reduzida em lógicas das redes de relações que retêm uma par-
35%) têm marcado a política americana que, te crescente, essencial, da atualidade da cena
embora sem discurso armamentista, continua a mundial" (1999, p. 7).

1 Geo IJERJ Revista do Departamento de Geografia, UERJ, RJ, n. 10, p. 2333, 2° semestre de 2001 1
Chama atenção, ainda, para a banalização das nos, extensivos às empresas norte-americanas. Es-
relações internacionais com a conseqüente desva- tas não se desligam de seu país de origem, consti-
lorização do papel político, econômico e social dos tuindo para os Estados Unidos uma questão de
territórios, provocada, principalmente, pelos cir- política internacional ao lhes fornecer garantias para
cuitos financeiros, pelas trocas comerciais, pela difu- as atividades que desenvolvem. A opção pela con-
são de ondas e de imagens, pelas migrações ou pelas cepção globalista/intemacionalista nas relações in-
solidariedades religiosas, culturais e lingüísticas. ternacionais (com a ênfase nas questões geoeconô-
Nos últimos anos (final da década de 1990 e micas) se inscreve nesses princípios gerais que vêm
início do século XXI), tem havido um ressurgi- se estruturando na última década do século XX e
mento do interesse em estudos sobre o poder e parecem prosseguir neste início de século.
sobre as relações de poder. Isto trouxe as novas A renovada discussão sobre a defesa da auto-
espacialidades do poder para o centro da discus- suficiência energética (abertura de reservas na-
são, como bem nos mostram Massey et al (1999, turais no Alaska a empresas petrolíferas e conso-
p. 171). Para esses autores, trata-se de se inter- lidação da posição americana no Oriente Mé-
rogar sobre as maneiras pelas quais o espaço afe- dio, são exemplos disso) e da supremacia militar
ta a operação e a realização do poder; de como o americana (ao ressuscitar a Guerra nas Estrelas,
espaço das nações e das fronteiras pode atuar como agora com base no programa de proteção anti-
diferenciador ou interromper as operações e a in- mísseis) é evidência de preocupação que tempe-
fluência de algumas instituições. Assim, o espaço, ra com marcas realistas a concepção globalista/
como território, está presente e atua como "pano internacionalista.
de fundo" nas relações internacionais, continu- É preciso estar ciente que não existe uma con-
ando a ser importante fator para a geopolítica. cepção, seja ela de qualquer matriz teórica, que,
32 Esse intrincado jogo de influências dá à geo- sozinha, consiga explicar, coerentemente e de
política atual (agora "libertada" da concepção maneira universal, este complexo jogo planetá-
naturalista de território, que tanto tem marcado rio que compõe as relações internacionais e que
a análise realista) uma carga de referenciais teó- caracteriza as geopolíticas (ou as geografias polí-
ricos indispensáveis que, juntando a Geografia, ticas?) contemporâneas que, até agora, têm sido
a História e a Ciência Política, permitem uma marcadas pela atuação dos Estados Unidos como
melhor reflexão sobre este conturbado mundo, potência planetária. O que as novas contingên-
balizado por "ordens e desordens", globalização cias políticas e econômicas podem apresentar, fica
e fragmentação onde as relações internacionais como desafio para outros estudos.
estão, ainda, à busca de regulações e, nelas, de
um novo papel para os Estados Unidos que con- NoTAs
siga definir, para esse país, uma nova política
planetária, menos marcada pela "razão cínica" * Professor-Assistente do Departamento de Geografia
(um discurso não sustentado por ações) que, aco- da UERJ e do Departamento de Geografia e Meio
piada ao realismo, tem predominado até aqui, Ambiente da PUC-Rio. Artigo encaminhado para pu-
blicação em julho de 2001. E-mail: negef@uerj.br.
mesmo subsumido a outras concepções geopolí-
1 Estas concepções estão discutidas em Rua (2001), em
ticas, como a globalista, por exemplo. artigo que serve como parte inicial deste trabalho, com-
Sem o confronto que marcou a Guerra-Fria e pondo ambos uma unidade versando sobre a Geopo-
sem antagonistas de igual porte, a política externa lítica Americana. Ver bibliografia. Por problemas de
dos Estados Unidos deixa a retórica de salvador da limitação de espaço não apresentamos aqui as defini-
humanidade e se baseia em princípios que tornem ções das concepções aludidas, o que foi feito no artigo
o mundo mais seguro para os interesses america- citado.

Geo UERJ Revista do Departamento de Geografia, UERJ, RJ, n. 10, p. 23-33, 20 semestre de 2001
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