Você está na página 1de 12

tópico especial

Plano Oclusal Estético Funcional

Carlos Alexandre Câmara1, Renato Parsekian Martins2

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/2177-6709.21.4.114-125.sar

Introdução: uma exposição razoável dos incisivos e da gengiva é, geralmente, considerada mais atraente do que quando há
excesso ou falta de exposição, tanto de dentes quanto de gengiva. Essa faixa razoável encontra-se em torno de 0 a 2mm de ex-
posição gengival durante o sorriso e de 2 a 4mm de exposição da borda incisal dos incisivos superiores em repouso.

Objetivo: o objetivo do presente trabalho é apresentar o plano oclusal estético funcional (POEF), que tem por propósito
auxiliar no diagnóstico da relação de posicionamento entre molares, incisivos e ponto estômio do lábio superior.

Conclusão: o POEF pode ser um complemento ao plano de tratamento ortodôntico já existente e estabelecido, facili-
tando a visualização das demandas estéticas e funcionais, dando um enfoque maior à posição dos incisivos na relação entre
os incisivos, molares e o ponto estômio do lábio superior.

Palavras-chave: Estética. Sorriso. Oclusão dentária. Ortodontia.

Como citar este artigo: Câmara CA, Martins RP. Functional Aesthetic Occlu-
1
Ortodontista, Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro/RJ, sal Plane (FAOP). Dental Press J Orthod. 2016 July-Aug;21(4):114-25.
Brasil. Editor-chefe da Revista Clínica de Ortodontia Dental Press. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/2177-6709.21.4.114-125.sar
2
Mestre, Doutor e Pós-doutor em Ortodontia e Ortopedia Facial pela Universidade
Estadual Paulista (UNESP), Araraquara, São Paulo, Brasil. Doutorado Sanduíche Enviado em: 19 de maio de 2016
pela Baylor College of Dentistry, Dallas, TX/ EUA. Revisado e aceito: 06 de junho de 2016

» O(s) paciente(s) que aparece(m) no presente artigo autorizou(aram) previamente


a publicação de suas fotografias faciais e intrabucais, e/ou radiografias.

» Os autores declaram não ter interesses associativos, comerciais, de propriedade


ou financeiros, que representem conflito de interesse, nos produtos e companhias
descritos nesse artigo.

Endereço para correspondência: Carlos Alexandre Câmara


E-mail: carlosalexandrecamara@gmail.com

© 2016 Dental Press Journal of Orthodontics 114 Dental Press J Orthod. 2016 July-Aug;21(4):114-25
Câmara CA, Martins RP tópico especial

INTRODUÇÃO na sua posição original em indivíduos sem crescimento,


A exposição dos incisivos durante a fala, o sorriso e sem alteração do espaço livre entre esses.
o repouso labial é um importante fator na estética facial, Entender a dinâmica do posicionamento vertical
pois interfere na percepção da face humana. Uma expo- de incisivos e molares leva a concluir que um plano
sição razoável dos incisivos e da gengiva é, geralmente, oclusal que inclua essas estruturas dentárias também
considerada mais atraente do que quando há excesso ou sofre alterações com o tempo. Sendo assim, pode-se
falta de exposição, tanto de dentes quanto de gengiva1. perguntar: por que não acrescentar um componente
A literatura estabelece essa faixa razoável em torno de estético ao plano oclusal funcional, que também leve
0 a 2mm de exposição gengival durante o sorriso2,3 e em consideração o posicionamento dos dentes com
de 2 a 4mm de exposição da borda incisal dos incisivos o tempo? O que leva a uma segunda pergunta: qual
superiores em repouso4. Uma característica que torna componente estético seria esse?
esse aspecto morfológico ainda mais importante é que Já que a exposição dos incisivos em relação aos lá-
a posição relativa dos incisivos se altera com o tempo. bios é um importante fator estético, o estômio do lábio
Enquanto a exposição dos incisivos superiores diminui superior seria o ponto eleito a ser acrescentado nesse
com a idade, a exposição dos incisivos inferiores aumen- plano oclusal estético funcional (POEF). Dessa forma,
ta5,6. Em outras palavras, indivíduos mais novos expõem pode-se presumir que a utilização de um plano oclu-
mais os incisivos superiores, enquanto os mais velhos sal que leve em consideração fatores estéticos e fun-
expõem mais os inferiores. Essa informação é importan- cionais — como a possibilidade de movimentação dos
te porque observar a exposição dos incisivos (superiores incisivos superiores e inferiores, a manutenção da rela-
e inferiores) nos dá pistas da faixa etária dos indivíduos ção oclusal vertical posterior dos molares e que tenha
e nos baliza sobre as necessidades estéticas dos pacientes, uma relação com o lábio superior — poderá preencher
de acordo com sua idade.  uma importante lacuna existente na Ortodontia, que é
Felizmente, nos dias de hoje, existem alternativas a de criar uma ponte entre os fatores estéticos e oclu-
para se modificar a posição dos incisivos superiores de sais. Mas, para que essa conexão se evidencie de forma
forma consistente, tanto extruindo-os7, quanto intruin- correta, é necessário que estabeleça uma correlação
do-os8, e o mesmo se aplica em relação aos inferiores, os com a face. Dessa forma, a leitura do POEF será fei-
quais também podem ser movimentados com previsibi- ta em conjunto com o perfil facial, preenchendo mais
lidade9. Enquanto isso, os dentes posteriores, especifica- uma necessidade de avaliação integral, que é o relacio-
mente os molares, parecem não alterar substancialmente namento interativo entre dentes e face.
a sua posição vertical com o passar do tempo. Embora Assim, o presente artigo se propõe a descrever uma
haja mudanças verticais na posição dos molares durante referência diagnóstica denominada Plano Oclusal Es-
o crescimento, esse efeito parece ser notavelmente maior tético Funcional (POEF), que leva em consideração a
nas fases de pré-puberdade e puberdade, comparadas à dimensão vertical estabelecida pela oclusão dos molares
fase adulta10. Desgastes rápidos e acentuados na estru- e o posicionamento vertical (estético) dos incisivos com
tura dentária podem, sim, alterar a relação vertical dos relação ao ponto estômio do lábio superior, tendo como
molares em indivíduos sem crescimento, mas deve-se referência as proporções faciais.
considerar esse fato como algo incomum e que pode ser
visto como anormal. Apesar de, com o advento dos dis- Plano Oclusal Estético Funcional (POEF)
positivos de ancoragem esquelética temporária, movi- Tomando-se como referência o ponto de contato
mentações extensas dos dentes posteriores terem passa- médio entre os primeiros molares superiores e infe-
do a ser possíveis, ainda não existem evidências fortes de riores e o estômio do lábio superior, traça-se uma li-
que grandes movimentações ortodônticas verticais em nha entre esses dois pontos, para a determinação do
pacientes adultos se mantêm ao longo do tempo. As re- POEF (Fig.  1). A borda do incisivo superior (ou a
cidivas de tratamentos ortodônticos em adultos com planejada, se o mesmo for ser futuramente restaura-
movimentações verticais são relatadas na literatura11,12 e do) deve, como objetivo, ser posicionada 2 a 4mm
vêm confirmar a suspeita de que essa relação (vertical) abaixo desse plano. A borda do incisivo inferior deve
dos dentes posteriores parece ser estável se for mantida tocar o plano. Essas medidas servirão de referência e

© 2016 Dental Press Journal of Orthodontics 115 Dental Press J Orthod. 2016 July-Aug;21(4):114-25
tópico especial Plano Oclusal Estético Funcional

Figura 1 - Plano Oclusal Estético Funcional (POEF): a borda incisal do incisivo Figura 2 - Proporções entre os terços médio (Glabela-Subnasal) e inferior
superior deve estar posicionada 2 a 4mm abaixo do POEF e a borda incisal (Subnasal-Gnátio) 50%(45%) / 50%(55%).
do incisivo inferior deve tocar no plano.

visam facilitar o entendimento estético-funcional dos na, conferia-lhe uma aparência envelhecida (Fig. 3).
dentes anteriores, mas estarão sujeitas a pequenas va- Traçando o POEF, pôde-se observar que os incisivos su-
riações, dependendo da idade, proporções dentárias, periores tocavam o plano e os incisivos inferiores estavam
sobremordida e linha do sorriso. No POEF, as pro- 2mm abaixo (Fig. 4). Como já foi explicado, o ideal seria
porções 50% (45%) / 50%(55%) (G-Sn/Sn-Gn) entre que os incisivos superiores estivessem 2 a 3mm abaixo do
os terços faciais médio e inferior serão utilizadas como POEF e que os incisivos inferiores o tocassem. Dessa for-
base para a avaliação das proporções faciais, sendo a ma, a exposição dos incisivos estaria dentro dos padrões
proporção 45% / 55% considerada o limite de nor- estéticos com os lábios em repouso, o que beneficiaria a
malidade13 (Fig. 2). O POEF leva em consideração o exposição incisal durante a fala e, provavelmente, durante
posicionamento estético dos incisivos superiores e in- o sorriso, uma vez que a linha do sorriso era baixa.
feriores com relação aos lábios, sem alterar o posicio- Deve-se lembrar que uma correta interpretação do
namento vertical dos molares, sem acometer a função POEF passa pela avaliação das proporções faciais, as quais,
e com conexão com o perfil facial. Como  exemplo, no presente caso, estavam no limite da normalidade, com
será apresentada a sua utilização no tratamento de 45% / 55% (G-Sn/Sn-Gn) entre os terços médio e inferior
dois casos clínicos: um de mordida aberta e o outro da face (Fig. 5). Essa observação é importante porque a to-
de mordida profunda. mada de decisões corretas depende dessa verificação. Caso
as proporções faciais estejam fora dos padrões de normali-
Plano Oclusal Estético Funcional no tratamento da dade e com comprometimento estético, a possibilidade de
mordida aberta uma cirurgia ortognática torna-se evidente. A ideia é que os
Paciente do sexo feminino, com 16 anos de idade e problemas estéticos e funcionais sejam corrigidos em con-
uma má oclusão de Classe III com mordida aberta an- junto; assim, em casos nos quais as proporções faciais estejam
terior de -2mm entre os incisivos. Sua queixa princi- em desarmonia, esse objetivo não é possível. Outra possi-
pal, embora envolvesse questões funcionais — como a bilidade para a correção da mordida aberta seria a intrusão
dificuldade para morder na região anterior —, referia-se dos molares, com o respectivo giro da mandíbula em sentido
às questões estéticas, pois não gostava do seu sorriso e anti-horário. Nesse caso em particular, essa alternativa estava
argumentava que parecia envelhecido. fora de cogitação, pois a paciente não obteria nenhum bene-
No exame clínico estético, constatou-se um sorriso fício com a intrusão dos molares, uma vez que o problema
baixo e invertido, com linha incisal plana, o que torna- poderia ser resolvido apenas com a extrusão dos incisivos, o
va o sorriso desagradável e, somado à linha incisal pla- que propiciaria os benefícios estéticos e funcionais desejados.

© 2016 Dental Press Journal of Orthodontics 116 Dental Press J Orthod. 2016 July-Aug;21(4):114-25
Câmara CA, Martins RP tópico especial

A B C D

E F G

Figura 3 - Fotografias iniciais: extrabucais (A, B, C), telerradiografia (D) e intrabucais (E, F, G).

Figura 4 - Incisivos superiores tocam (0mm) o POEF; o ideal seria que estives- Figura 5 - Proporções faciais dentro do limite de normalidade, 45% /  55%
sem 2 a 4mm abaixo do POEF. Incisivos inferiores estão 2mm abaixo (-2mm) (G-Sn/Sn-Gn).
do POEF; o ideal seria que tocassem o POEF.

Como estratégia de tratamento, adotou-se uma me- da movimentação dentária, embora o MEAW seja um arco
cânica que promovesse a extrusão dos incisivos. Para que precise de maior cooperação do paciente. O efeito ex-
conseguir esse objetivo, optou-se por um arco MEAW trusivo do MEAW nos incisivos inferiores contemplou os
(Multiloop Edgewise Arch Wire)14, composto por dobras de objetivos traçados, que buscavam que esses incisivos tocas-
segunda ordem, na arcada inferior; na arcada superior, sem o POEF. Embora os incisivos inferiores não tenham
foram realizadas dobras de segunda ordem em fio retan- alcançado integralmente esse objetivo (Fig. 7 e 8), pode-se
gular 0,019” x 0,025” de TMA. Foram, também, utili- dizer que chegaram próximo e não comprometeram o re-
zados elásticos verticais anteriores e de Classe III (Fig. 6). sultado final, uma vez que a sobremordida foi corrigida e a
Essa mecânica foi a escolhida porque traria maior controle estética do sorriso melhorou (Fig. 9, 10 e 11).

© 2016 Dental Press Journal of Orthodontics 117 Dental Press J Orthod. 2016 July-Aug;21(4):114-25
tópico especial Plano Oclusal Estético Funcional

Figura 6 - Utilização de mecânica do arco MEAW (Multiloop Edgewise Arch Wire).

A B

Figura 7 - Posicionamento dos incisivos em relação ao POEF: pré-tratamento (A) e pós-tratamento (B)

© 2016 Dental Press Journal of Orthodontics 118 Dental Press J Orthod. 2016 July-Aug;21(4):114-25
Câmara CA, Martins RP tópico especial

Figura 8 - Sobreposições dos traçados cefalo-


métricos inicial (preto) e final (vermelho): A) total
A B e B) parciais.

A B C D

E F G

Figura 9 - Fotografias finais: extrabucais (A, B, C), telerradiografia (D) e intrabucais (E, F, G).

Figura 10 - Fotografias de face sorrindo: A) antes


A B e B) depois.

© 2016 Dental Press Journal of Orthodontics 119 Dental Press J Orthod. 2016 July-Aug;21(4):114-25
tópico especial Plano Oclusal Estético Funcional

A B

Figura 11 - Sorriso: A) antes e B) depois.

Plano Oclusal Estético Funcional no tratamento O ideal seria que os incisivos superiores estivessem ul-
da mordida profunda trapassando o plano em 2 a 3mm, e que os inferiores
O POEF pode ser utilizado, também, para auxiliar no tocassem o plano. Dessa forma, a exposição dos incisivos
plano de tratamento de pacientes portadores de mordida estaria dentro dos padrões estéticos com os lábios em
profunda, visando manter os incisivos superiores em uma repouso, o que beneficiaria a exposição incisal durante a
posição mais estática e estética possível, sem comprome- fala e, provavelmente, no sorriso.
ter os objetivos ortodônticos e a função. Pode-se obser- No sentido anteroposterior, optou-se pela remoção de
var, para a paciente apresentada na Figura 12 — sexo fe- um pré-molar superior do lado direito da paciente, que era
minino, 23  anos de idade, portadora de má oclusão de o lado mais acometido pela Classe II; enquanto optou-se
Classe  II, mais severa do lado esquerdo, com trespasse pelo uso de elásticos intermaxilares no lado esquerdo da
vertical de 6mm entre os incisivos, caracterizando uma paciente, que era menos acometido pela Classe II e cuja
mordida profunda com trespasse de 2/3 dos incisivos in- intensidade do problema não justificava extrações.
feriores  —,  o planejamento, no POEF, para posiciona- Foram utilizados braquetes autoligáveis slot 0,018”
mento dos incisivos (Fig. 13). de prescrição MBT (Speed, Strite Industries Limited,
Traçando-se o POEF na telerradiografia inicial, Cambridge, Ontário, Canadá) no tratamento dessa
observou-se que os incisivos superiores ultrapassavam o paciente. Para potencializar a intrusão dos incisivos,
plano em 3mm, e que os incisivos inferiores também o os  braquetes dos caninos foram colados na mesma
ultrapassavam em 3mm, totalizando os 6mm de trespas- altura dos pré-molares inferiores, e os de incisivos
se vertical da paciente (Fig. 13). Nesse tipo de situação, inferiores foram colados com 1mm de diferença de
o POEF dará pistas consistentes sobre a estratégia de altura para os caninos (Fig.  14). Na arcada superior,
tratamento, uma vez que as opções terapêuticas podem foram utilizados fios 0,016” e 0,016” x 0,022” de
recair sobre a intrusão de incisivos, extrusão de mola- NiTi superelástico e 0,016” x 0,022”de aço, para o
res ou correção cirúrgica. Nesse caso, a opção foi pela nivelamento e alinhamento; enquanto na arcada in-
intrusão de incisivos, visto que a paciente possuía uma ferior foram utilizados fios 0,014” e 0,016” x 0,022”
boa proporção facial (50% / 50%, descartando a necessi- de NiTi superelástico e 0,016” x 0,022”de aço inoxi-
dade de cirurgia) e estava na fase adulta, na qual não é dável. A retração superior foi realizada com fio de aço
recomendada a extrusão de molares — devido à possi- 0,016” x 0,022” com extensões, para realizar o desli-
bilidade de recidiva. Sendo assim, optou-se pela intrusão zamento aplicando-se elásticos em cadeia dos molares
dos incisivos, com o foco maior na intrusão dos incisivos às extensões (Fig. 15). Desgastes interproximais foram
inferiores, que estavam ultrapassando em 3mm o POEF. realizados na arcada inferior, de canino a canino, para

© 2016 Dental Press Journal of Orthodontics 120 Dental Press J Orthod. 2016 July-Aug;21(4):114-25
Câmara CA, Martins RP tópico especial

A B C D

E F G

Figura 12 - Fotografias iniciais: extrabucais (A, B, C), telerradiografia (D) e intrabucais (E, F, G).

Figura 13 - Planejamento do posicionamento dos incisivos: os superiores


estavam 3mm abaixo do POEF, em posição ideal; enquanto os inferiores
estavam 3mm acima do POEF — o ideal é que tocassem o POEF. Nesse caso,
o planejamento envolveu somente a intrusão dos incisivos inferiores.

Figura 14 - Fotografias intrabucais da paciente da Figura 12, onde pode-se ver os fios, superior 0,016" de NiTi e inferior 0,014" de NiTi, inseridos nos braquetes. Observa-se a
deflexão dos fios de nivelamento, mostrando a colagem seguindo o planejamento de se corrigir a mordida profunda apenas pela correção da arcada inferior.

Figura 15 - Fotografias intrabucais da paciente da Figuras 12 e 13, com fios de aço 0,016" x 0,022" inseridos, e a retração sendo realizada por deslizamento.

© 2016 Dental Press Journal of Orthodontics 121 Dental Press J Orthod. 2016 July-Aug;21(4):114-25
tópico especial Plano Oclusal Estético Funcional

se ajustar o trespasse horizontal e a relação de Classe I. devido à prescrição com torque suplementar nos incisi-
A finalização foi realizada com fios de aço, sendo vos superiores, e uma planificação da curva de Spee in-
0,016”x 0,022” na arcada superior e 0,016” na arcada ferior, sem muita vestibularização dos incisivos — devido
inferior (Fig. 16). à prescrição negativa (-6º ) dos incisivos inferiores, so-
Nas fotografias finais, pode-se observar que foi obtido mada ao desgaste interproximal e retração desses dentes.
um bom alinhamento dos dentes anteriores e que uma re- Obteve-se um bom posicionamento dos incisivos em re-
lação de Classe I em ambos os caninos foi atingida (Fig. 17). lação ao POEF (Fig. 19, 20 e 21), seguindo o planejado
Radiograficamente, percebe-se que houve uma alteração e resultando na correção da mordida profunda e em uma
favorável na inclinação dos incisivos superiores  (Fig.  18), boa estética do sorriso da paciente.

Figura 16 - Fotografias intrabucais da paciente da Figura 12, no estágio de finalização. Observam-se os elásticos em cadeia inseridos por baixo do fio de finalização,
pois os braquetes diminutos em tamanho não permitiam a sua inserção por cima do fio.

A B C D

E F G

Figura 17 - Fotografias finais: extrabucais (A, B, C), telerradiografia (D) e intrabucais (E, F, G).

© 2016 Dental Press Journal of Orthodontics 122 Dental Press J Orthod. 2016 July-Aug;21(4):114-25
Câmara CA, Martins RP tópico especial

A B

Figura 18 - Sobreposição dos traçados inicial (preto) e final (vermelho).

A B

Figura 19 - Posicionamento dos incisivos em relação ao POEF: pré-tratamento (A) e pós-tratamento (B).

Figura 20 - Fotografias faciais do sorriso: pré-trata-


A B mento (A) e pós-tratamento (B).

© 2016 Dental Press Journal of Orthodontics 123 Dental Press J Orthod. 2016 July-Aug;21(4):114-25
tópico especial Plano Oclusal Estético Funcional

A B

Figura 21 - Sorrisos aproximados: pré-tratamento (A) e pós-tratamento (B).

DISCUSSÃO Geralmente, isso é conseguido com a borda incisal dos


O POEF fornece importantes informações, uma vez incisivos inferiores posicionada em 0mm com o POEF.
que a observação da relação vertical dos incisivos com os Do ponto de vista clínico, seria interessante que a altura
lábios em repouso e o posicionamento dos molares em dos incisivos inferiores não ultrapassasse em mais do que
contato facilita o entendimento e as limitações de um 1mm a altura do estômio do lábio superior ou o estômio
tratamento com demandas estéticas e funcionais (oclu- do lábio inferior (quando não houver o contato labial).
sais). Ele também nos informa quanto às possibilidades O uso do POEF facilita o diagnóstico estético e fun-
e necessidades estéticas do paciente, visto que a relação cional de casos com necessidades reabilitadoras e orto-
dos incisivos com os lábios, por meio da exposição in- dônticas, uma vez que, com a utilização desse plano,
cisal, indica se a exposição deles está dentro dos limites pode-se avaliar facilmente quais estruturas estão fora do
aceitáveis de acordo com a idade, ao mesmo tempo que padrão esperado (incisivos) e quais devem ser mantidas
indica a posição de referência dos molares e a sua respec- (molares), levando-se sempre em consideração a idade
tiva dimensão vertical. do paciente. Deve-se cuidar que a leitura do POEF seja
A ideia de um plano estético funcional não é nova, sempre feita em conjunto com a face. A desarmonia dos
Burstone e Marcotte15 sugeriram um plano estético oclu- terços faciais indicará que as necessidades estéticas podem
sal que levasse em consideração o posicionamento dos estar além do âmbito dentário, com comprometimento
molares, incisivos superiores e lábio superior, sendo que ósseo. Uma proporção entre os terços médio e inferior da
os incisivos superiores deveriam estar 3mm abaixo do lá- face de 50%(45%) / 50%(55%) (G-Gn/Sn-Gn) — sen-
bio superior. Embora similar ao proposto nesse trabalho, do a proporção 45%/55% o limite aceitável — é o parâ-
o plano oclusal apresentado pelos autores não levou em metro a ser usado como base13. Proporções faciais que
consideração, especificamente, o posicionamento dos in- se distanciem desses números podem ser um indica-
cisivos inferiores e nem a sua relação com a face. tivo de necessidades cirúrgicas. Pacientes com desar-
Com relação aos incisivos inferiores, o ideal é que monias faciais severas não parecem se beneficiar, do
a borda incisal desses dentes toque o POEF quando os ponto de vista estético, de tratamentos ortodônticos
lábios estiverem em contato (0mm). Deve-se levar em que incluam apenas movimentos dentários. Embora
consideração que, com a curva de Spee planificada, é haja relatos de uso de ancoragem esquelética para mo-
necessário que os incisivos inferiores guardem uma boa vimentação de dentes no sentido vertical, com conse-
relação de trespasse vertical com os incisivos superio- quentes mudanças morfológicas, elas ainda não estão
res, devido à necessidade de ausência de contato entre suficientemente fundamentadas, no que tange à esta-
eles nos movimentos de lateralidade e para que a pro- bilidade dos resultados, para determinar essa terapia
trusão promova a desoclusão dos dentes posteriores. como conduta clínica segura11,12.

© 2016 Dental Press Journal of Orthodontics 124 Dental Press J Orthod. 2016 July-Aug;21(4):114-25
Câmara CA, Martins RP tópico especial

Muitos dos tratamentos de problemas verticais são exe- os mesmos parâmetros e princípios são utilizados. É feita
cutados de forma aleatória, do ponto de vista estético, pois uma avaliação da relação dos dentes posteriores e da altura
a falta de parâmetros precisos para indicar quais dentes de- dos molares, e uma avaliação da relação dos incisivos com
vem ser movimentados faz com que o foco do tratamento o estômio do lábio superior. No caso dos molares, com
esteja na biomecânica empregada (plano de tratamento), exceção para os pacientes em crescimento, a altura inicial
em vez de nos indicadores estéticos (diagnóstico). Mor- deve ser mantida. Em relação aos incisivos, segue-se o
didas abertas são fechadas contando com a extrusão dos parâmetro dos incisivos superiores e inferiores com o es-
incisivos ou a intrusão dos molares, mas sem levar em con- tômio do lábio superior: a incisal dos incisivos superiores
sideração valores objetivos quanto à quantidade necessária 2 a 4mm abaixo do estômio do lábio superior e a incisal
de movimentação para cada grupo de dentes e as implica- dos incisivos inferiores tocando esse ponto.
ções dessas necessidades e mudanças faciais. Essa estraté-
gia aleatória faz com que os resultados fiquem satisfatórios CONCLUSÃO
do ponto de vista oclusal e fechamento da mordida aber- O POEF pode ser considerado um complemento ao
ta, mas que falhem nos objetivos estéticos. Uma extrusão plano de tratamento ortodôntico já existente e estabele-
exagerada dos incisivos superiores e inferiores, e que não cido, facilitando a visualização das demandas estéticas e
leve em consideração a sua exposição com relação ao lábio funcionais, dando um enfoque maior à posição dos inci-
e à idade do paciente, dificilmente terá efeitos agradáveis. sivos na relação entre os incisivos, molares e o ponto es-
O POEF pode servir, como já demonstrado, como tômio do lábio superior. Por meio dos dois casos clínicos
parâmetro vertical tanto para mordidas abertas quanto apresentados, pode-se verificar que o POEF é aplicável
para sobremordidas exageradas. Nessas duas situações, para uso clínico em Ortodontia.

REFERÊNCIAS

1. Câmara CALP. Estética em Ortodontia: diagramas de referências estéticas 10. Björk A, Skieller V. Facial development and tooth eruption. An implant study
dentárias (DRED) e Faciais (DREF). Rev Dental Press Ortod Ortop Facial. at the age of puberty. Am J Orthod. 1972 Oct;62(4):339-83.
2006;11(6):130-56. 11. Baek MS, Choi YJ, Yu HS, Lee KJ, Kwak J, Park YC. Long-term stability of
2. Hulsey CM. An esthetic evaluation of lip-teeth relationships present in the anterior open-bite treatment by intrusion of maxillary posterior teeth. Am J
smile. Am J Orthod. 1970 Feb;57(2):132-44. Orthod Dentofacial Orthop. 2010 Oct;138(4):396.e1-9; discussion 396-8.
3. Kokich VG. Esthetics: the orthodontic-periodontic restorative connection. 12. Sugawara J, Baik UB, Umemori M, Takahashi I, Nagasaka H, Kawamura H,
Semin Orthod. 1996;2(1):21-30. et al. Treatment and posttreatment dentoalveolar changes following
4. Kokich VG. Esthetics and vertical tooth position: orthodontic possibilities. intrusion of mandibular molars with application of a skeletal anchorage
Compend Contin Educ Dent. 1997 Dec;18(12):1225-31; quiz 1232. system (SAS) for open bite correction. Int J Adult Orthodon Orthognath
5. Vig RG, Brundo GC. The kinetics of anterior tooth display. J Prosthet Dent. Surg. 2002;17(4):243-53.
1978 May;39(5):502-4. 13. Epcker BN. Adjunctive esthetic surgery in the orthognathic surgery patient.
6. Miller CJ. The smile line as a guide to anterior esthetics. Dent Clin North Am. In: McNamara JA Jr. Esthetics and the treatment of facial form. 1st ed.
1989 Apr;33(2):157-64. Ann Arbor: Center for Human Growth and Development The University of
7. Deguchi T, Kurosaka H, Oikawa H, Kuroda S, Takahashi I, Yamashiro T, et al. Michigan; 1993. p. 187-216.
Comparison of orthodontic treatment outcomes in adults with skeletal 14. Kim YH. Anterior open bite and its treatment with multiloop edgewise
open bite between conventional edgewise treatment and implant-anchored archwire. Angle Orthod. 1987 Oct;57(4):290-321.
orthodontics. Am J Orthod Dentofacial Orthop. 2011 Apr; 15. Burstone CJ, Marcotte MR. Problem solving in Orthodontics: goal-oriented
139(4 Suppl):S60-8. treatment strategies. 1st ed. Illininois: Quintessence; 2000.
8. Kale Varlık S, Onur Alpakan Ö, Türköz Ç. Deepbite correction with incisor
intrusion in adults: a long-term cephalometric study. Am J Orthod
Dentofacial Orthop. 2013 Sept;144(3):414-9.
9. Preston CB, Maggard MB, Lampasso J, Chalabi O. Long-term effectiveness
of the continuous and the sectional archwire techniques in leveling the
curve of Spee. Am J Orthod Dentofacial Orthop. 2008 Apr;133(4):550-5.

© 2016 Dental Press Journal of Orthodontics 125 Dental Press J Orthod. 2016 July-Aug;21(4):114-25

Você também pode gostar