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E Q U I P E N º .

274

C ASO C R I ST A L T O V A R V S . R EP ÚB L ICA D E M O CRÁT ICA DE E XCL UT IA

R E P R E SE NT ANT E DO E ST ADO

1
E Q U I P E Nº . 274

II. Í NDICE

I – P ÁG INA DO

T ÍT UL O ................................................................................01

II- Í NDICE ..................................................................................................02

III – Í NDICE DE

J UST IF IC A T I V A S ..................................................................04

A. L I V R O S E A R T I G O S ........................................................................04

B. I N ST R U M E N T O S N O R M AT IVO S .........................................................05

C. C A SO S ..........................................................................................06

A. C OM I SSÃ O I NT E RAM E RICA NA DE D IRE I T O S

H U M A N O S .............06

B. CORTE I NT E RAM E RICA NA DE D IRE I T O S

H U M A N O S ..................07

IV – A B RE V I A T U R A S ...................................................................................09

V – D E CL A R A Ç Ã O DOS F A T O S ......................................................................10

1- D E C L A R A Ç Ã O DOS F A T O S ...............................................................10

VI – A NÁL I SE L EG A L ..................................................................................13

2 - E X C E Ç Õ E S P R E L I M I N ARE S .............................................................13

2.1 - D A C OM P E T Ê NCIA .............................................................14

2.1.1 - D A C OM P E T Ê NCIA R A T IONE P E R SONA E ....................14

2.1.2 - DA C O MP E T Ê NCIA R AT I O N E

M A T E R I A E ....................15

2.1.3 - D A C OM P E T Ê NCIA – C O NCL USÃO ............................16

2
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2.2 - D O S R E Q U I SI T O S DE A DM ISSIB IL ID ADE ...............................16

2.2.1 - D O E SG O T AM E NT O DO S R E CURSO S I NT E RNO S ..........16

2.2.1.1 - D A A ÇÃO DE I NCO NST IT UCIO N AL ID ADE .......17

2.2.1.2 - DO ACIONAMENTO DO MINISTÉRIO PÚBLICO........18

2.2.1.3 - D O H AB E AS C O RP US ..................................19

2.2.2 - DA F O RM UL A DE Q UA R T A

I N ST A N C I A ......................20

2.2.3 - DO D E CURSO DO

T E M PO .........................................21

2.3 - D A S C O N C L USÕ E S S O B RE AS E XCE ÇÕ E S


P R E L I M I N A R E S .........23
3 - A NÁL I SE M A T E R I A L ...............................................................................24
3.1 DA NÃO VIOLAÇÃO AO S A RT IG O S 3, 5, 7, 8, 11, 24, E 25 EM

RELAÇÃO AO D E VE R DE R E SP E IT AR D IRE I T O S
C O N V E N I A D O S ................24
3.1.1. DA N ÃO V IO L AÇÃO AO D IRE IT O DE

P E R SO N A L I D A D E .........24
3.1.1.1 D A D EF ICIÊ N CIA M E NT AL D IAG NO ST IC ADA …………
24
3.1.1.2 DA I NT E RDIÇÃO J UDICI AL DE C RIST A L
T O V A R ….....25
3.1.1.3 DO CONSENTIMENTO PARA O TRATAMENTO
MÉDICO.................25
3.1.2 DA NÃO VIOLAÇÃO AO DIREITO À INTEGRIDADE PESSOA.......................
26
3.1.2.1 DO TRATAMENTO MÉDICO E DA MEDICAÇÃO
MINISTRADA.......26

3
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3.1.2.2 D A P E RM ANÊ NCI A DE C RIST AL T O VAR NO Q UA R T O


DE I SO L A M E N T O ……………………………………………………….....
…27
3.1.3 D A N Ã O V I O L AÇÃO AO D IRE IT O À L IB E RDADE P E SSO AL ...…
28
3.1.3.1 D O I NG RE SSO I NVO L UNT ÁRIO DE C RIST AL T O VA R À

I N ST I T U I Ç Ã O E ST A T AL “L A C ASIT A ”……………………….......…28
3.1.3.2. DO ISOLAMENTO INVOLUNTÁRIO DE CRISTAL
TOVAR...............28
3.1.4 D A N Ã O V I O L AÇÃO AO D IRE IT O DE P RO T E ÇÃO DA HONRA E

DA D I G N I D A D E ...................................................................................29
3.1.4.1. DO RECONHECIMENTO DA DIGNIDADE DE CRISTAL
TOVAR......29
3.1.4.2. DO RESPEITO À VIDA PRIVADA DE CRISTAL
TOVAR...................29
3.1.4.3. DA DEFICIÊNCIA SENSORIAL DE CRISTAL
TOVAR…..................30
3.1.4.4. DOS RECURSOS, AMBIENTE E CONDIÇÕES DE VIDA DE “LA
CASITA”…………………………………………………………….....................30
3.1.5. DA NÃO VIOLAÇÃO AO DIREITO DE IGUALDADE PERANTE A LEI......
….30
3.1.6. D A N Ã O V I O L AÇÃO AO S D IRE IT O S ÀS G ARANT I AS J UDIC I A I S
E DE P RO T E Ç Ã O
J UD I C I A L .....................................................................31
3.1.6.1. D O J UIZ N AT URAL , C O MP E T E NT E , I NDE P E NDE N T E E

I M P A R C I A L ...............................................................................31
3.1.6.2. DOS P RA Z O S
R A Z O Á V E I S .....................................32
3.1.6.3. DO DIRE IT O DE SE R O UVIDO ……………………...…

32

4
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3.1.6.4. DOS RE CUR SO S J UDICIA IS E SE U

C U M P R I M E N T O .....32

3.1.7. DA POSSIBILIDADE DE RESTRIÇÃO AOS DIREITOS


RECONHECIDOS.......33
3.2 DA NÃO VIOLAÇÃO AO S A RT IG O S 3, 5, 7, 8, 11, 24, E 25 EM

R E L AÇÃO AO DEVER A DO T AR D ISP O SIÇÕ E S DE D IRE I T O


I NT E RNO ..................33
4 - M E DID A S P R O V I SI O N A I S .........................................................................34
VII. S O L I C I T A Ç Ã O DE

A SSIST Ê NC I A ............................................................35

III. Í NDICE DE J UST IF IC AT IV AS

A. L I V R O S E ARTIGOS

OMS. Mental Health. “Gender and women's mental health”. Disponível em:

<http://www.who.int/mental_health/prevention/genderwomen/en/>…..........................pag. 17

Instituto Interamericano de Derechos Humanos. El sistema interamericano de protección de

los derechos humanos: aspectos institucionales y procesales / Héctor Ledesma Faúndez. -- 3

ed. -- San José, C.R.: Instituto Interamericano de Derechos Humanos, 2004…….……pag. 05

Diego Rodríguez-Pinzón. La Comision Interamericana de Derechos Humanos. “Manual

sobre Derecho Internacional de los Derechos Humanos: Teoría y Práctica” .Compiladores:

Carlos Ayala Corao, Claudia Martin y Diego Rodríguez-Pinzón Ed. Universidad Católica

Andrés Bello, Venezuela, 2008....................……………………………...….……pag. 05

Emergências Psiquiátricas [recurso eletrônico]/ Organizadores: João Quevedo e André F.

Carvalho. Brasil, Porto Alegre: Artmed, 3ª Ed., 2014. Disponível em:

<http://books.google.com.br/books?
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id=N4k6AgAAQBAJ&pg=PA82&lpg=PA82&dq=isolamento+involunt

%C3%A1rio&source=bl&ots=SIfh6rJa5_&sig=5w6l2Z2CNx3dXtJyAcGjOKsEJv4&hl=ptB

R&sa=X&ei=Sk0rU7rMFJPQkQf7goHICA&ved=0CGgQ6AEwCA#v=onepage&q=isolame

nto%20involunt%C3%A1rio&f=false>.............................................Pag. 19

B. I N ST R U M E N T O S N O R M AT IVO S

Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de San José da Costa Rica),

Assinada na Conferência Especializada Interamericana sobre Direitos Humanos, San

José, Costa Rica, em 22/11/1969............Pags. 9, 11, 12, 14, 15, 18, 19, 22, 30, 32, 33

Convenção sobre os Direitos das Pessoas Portadoras de Deficiência, Resolução nº 61/106

adotada pela Assembleia Geral, em 13 de dezembro de 2006...................................Pag. 32

Convenção Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação

contra as Pessoas Portadoras de Deficiência, Adotada em Cidade do Guatemala,

Guatemala em 7 de junho de 1999, no vigésimo noveno período ordinário de sessões da

Assembéia Geral..................................................................................................Pag.14 e 32

Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem, Aprovada na Nona

Conferência Internacional Americana, Bogotá, 1948................................................Pag. 23

Declaração dos Direitos das Pessoas Deficientes Mentais, Proclamada pela Resolução

2856 (XXVI) da Assembleia Geral das Nações Unidas, de 20 de dezembro de

1971................................................................................................Pags. 24, 25, 27, 32

Declaração dos Direitos das Pessoas Portadoras de Deficiência, Resolução n° 30/84, de 9

de dezembro de 1975...........................................................................................Pag. 28, 32

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Princípios para a Proteção de Doentes Mentais e o Melhoramento da Atenção à Saúde

Mental, Adotados pela Resolução 46/119 da Assembleia Geral das Nações Unidas, de 17

de Dezembro de 1991...........................................Pag. 23, 24, 25, 26, 27, 28, 29, 32

Protocolo Adicional à Convenção Americana sobre Direitos Humanos em matéria de

Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (Protocolo de San Salvador) Assinado em San

Salvador, El Salvador, em 17 de novembro de 1998, no 18º período Ordinário de Sessões

da Assembléia Geral....... Pags. 25, 29, 32

Regulamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Aprovado pela Corte no seu

LXXXV Período Ordinário de Sessões celebrado de 16 a 28 de novembro de

2009...........................................................................................................................Pag. 09

C. C A SO S

A. C OM I SSÃ O I N T E RAM E RIC ANA DE D IRE IT O S H UM ANO S

Informe Nº. 29/88, Informe Anual 1987-1988, Clifton Wright c. Jamaica, Caso 9260,

16/09/1988.......................................................................................................... ............Pag. 20

Informe No. 39/96, Informe Anual de 1996, Marzioni c. Argentina, Caso 11.673,

14/03/1997.......................................................................................................... ............Pag. 20

Informe No. 85/98, Informe Anual de 1998, Gilbert Bernard Little c.Costa Rica, Caso

11.472...............................................................................................................................Pag. 20

Informe Nº. 71/02, caso 12.360, Admisibilidad, Santander Tristán Donoso, Panamá.

24/11/2002…………………...…………………………………………………………Pag. 17

Informe Nº. 63/07. Petición 625-01. Inadimissibilidad. Luís Astorga y Otros v. Costa Rica.

Decicion de 27/07/2007………………………..……………………………………….Pag. 18

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B. C O R T E I N T E R A M E RICA NA DE D IRE IT O S H UM ANO S

Caso Bámaca Velásquez Vs. Guatemala. Mérito. Sentença de 25/11/2000. Série C No.

70......................................................................................................................................Pag. 23

Caso Barbani Duarte e outros Vs. Uruguai. Fundo, Reparações e Custas. Sentença de

13/11/2011. Série C No. 234…………………………………………………………... Pag. 32

Caso Castañeda Gutman Vs. Estados Unidos Mexicanos. Sentencia de 6/08/2008.

Excepciones Preliminares, Fondo, Reparaciones y Costas… …………………Pags. 16,30,32

Caso Castillo Petruzzi e outros Vs. Perú. Mérito, Reparações e Custas. Sentença de

30/05/1999. Série C No. 52..............................................................................................Pag. 33

Caso Castillo Petruzzi y otros Vs. Perú. Excepciones Preliminares. Sentencia de

4/09/1998..................................................................................................................Pags. 14, 20

Caso Chaparro Álvarez e Lapo Íñiguez Vs. Equador. Exceções Preliminares, Fundo,

Reparações e Custas. Sentença de 21/11/2007. Série C No. 170......................Pags. 27, 28, 32

Caso Chitay Nech e outros. Vs. Guatemala. Exceções Preliminares, Mérito, Reparações e

Custas. Sentença de 25/05/2010. Série C No. 212...........................................................Pag. 33

Caso del Pueblo Saramaka. Vs. Surinam. Excepción Preliminar, Fondo, Reparaciones y

Costas. Sentencia de 28/11/2007. Serie C No. 172………………….………………….Pag. 17

Caso del Tribunal Constitucional. Competencia. Sentencia de 24/09/1999. Serie C No.

55………………………………………………………………………………………..Pag. 19

Caso Genie Lacayo Vs. Nicarágua. Fundo, Reparações e Custas. Sentença de 29/01/1997.

Série C No. 30…...............................................................................................................Pag 32

Caso las Palmeras Vs. Colombia. Excepciones Preliminares.Sentencia de

4/02/2000…......................................................................................................................Pag 16

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Caso Neira Alegría y otros Vs. Perú. Excepciones preliminares, sentencia del

11/12/1991……………………………………………………………………………Pag. 22

Caso Salvador Chiriboga Vs. Ecuador. Excepción Preliminar y Fondo. Sentencia de

6/05/2008. Serie C No. 179..............................................................................................Pag. 17

Caso Tristán Donan Vs.Panamá. Exceção Preliminar, Fundo, Reparações e Custas. Sentença

de 27/01/2009. Série C No. 193...............................................................................Pags. 30, 33

Caso Velásquez Rodríguez Vs. Honduras. Excepciones Preliminares. Sentencia de

26/06/1987. Serie C No. 1................................................................................................Pag. 17

Caso Vera Vera e outra Vs. Equador. Exceção Preliminar, Fundo, Reparações e Custas.

Sentença de 19/05/2011. Série C No. 226.......................................................................Pag. 26

Caso Ximenes Lopes Vs. Brasil. Sentença de 04/07/2006.....................Pags. 26,28,29,31,33

Opinión Consultiva OC-9/87 del 6/10/1987. Serie A No. 9……………………………Pag. 19

Opinión Consultiva OC-8/87 de 30/01/1987. Serie A No. 8…………………………...Pag. 20

Opinión Consultiva OC-19/05. República Bolivariana de Venezuela. 28/11/2005........Pag. 23

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IV. A B RE VIAT UR AS

CADH: Convenção Americana de Direitos

Humanos DDPPD: Declaração dos Direitos das

CDPPD: Convenção sobre os Direitos das Pessoas Portadoras de Deficiência

Pessoas Portadoras de Deficiência ODINEI: Organização “Deficiência não é

CID-10: Classificação Internacional de Incapacidade”

Doenças e Problemas Relacionados à Saúde OMS: Organização Mundial de Saúde

CIDH: Comissão Interamericana de Direitos ONU: Organização das Nações Unidas

Humanos PACADHDESC: Protocolo Adicional à

CIETFDPPD: Convenção Interamericana Convenção Americana sobre Direitos

para a Eliminação de Todas as Formas de Humanos em matéria de Direitos

Discriminação contra as Pessoas Portadoras Econômicos, Sociais e Culturais (Protocolo

de Deficiência de San Salvador)

Corte ou Corte IDH: Corte Interamericana PPDMMASM: Princípios para a Proteção de

de Direitos Humanos Doentes Mentais e o Melhoramento da

DADDH: Declaração Americana dos Atenção à Saúde Mental

Direitos e Deveres do Homem

DDPDM: Declaração dos Direitos das

Pessoas Deficientes Mentais

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E XCE L E NT Í SSI M O SENHOR P RE SIDE NT E DE ST E E XCE L SO P RE T Ó RIO DA

E G RÉ G IA C O R T E I N T E R A M E R I CA NA DE D IRE IT O S H UM ANO S

A República Democrática de Exclutia vem, através de seus representantes,

tempestivamente, em conformidade com o artigo 41 do Regulamento desta Distinta Corte

Interamericana de Direitos Humanos, apresentar as razões de fato e de direito demandando a

inadmissibilidade do presente caso em virtude de erros formais cometidos durante a tramitação

perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e, também, a improcedência das

supostas violações aos artigos 3, 5, 7, 8, 11, 24 e 25 da Convenção Americana, todos eles

relacionados aos artigos 1.1 e 2 de dito Instrumento, em prejuízo da Senhora Cristal Tovar, nos

termos consubstanciados no Relatório de Fundo Nº12/12 da Douta Comissão Interamericana de

Direitos Humanos.

V. D E CL ARAÇÃO DO S F AT O S

1. DECLARAÇÃO DOS FATOS

“La Casita” é uma instituição estatal na qual residem pessoas em situação de risco

gratuitamente. A única exigência para o ingresso é não ter qualquer apoio para morar na

comunidade. Apesar de possuir alguns problemas em sua estrutura, o Estado ao tomar

conhecimento da real situação, através de um recurso de amparo interposto, adotou medidas

dentro das possibilidades para dar melhor conforto e dignidade aos seus residentes.¹ Era

oferecido aos residentes tratamento psicológico e físico, e treinamento para a vida cotidiana, de

acordo com suas necessidades individuais.

Especificamente nas áreas que abrigavam deficientes intelectuais e mentais, existiam

quartos de isolamento, por questão de segurança; quando as pessoas estavam dentro deles, não

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poderiam sair sob qualquer circunstância. Excepcionalmente, Cristal permaneceu confinada, por

apenas uma vez, em razão de uma crise nervosa, visto que colocava em risco sua própria

integridade física, assim como dos funcionários e de outros pacientes; ressalta-se também que ela

agrediu um funcionário durante esta mesma crise.

Em virtude desse ocorrido, foi solicitado à Corte Interamericana, pela ODNEI, medidas

provisórias em favor de Cristal Tovar. A CIDH demonstra apoio a esse pedido. O Estado, por

sua vez, alegou que, uma situação excepcional, feita para proteger a integridade das outras

pessoas do centro, por apenas quatro horas, não seria motivo para a Corte acolher o pedido dos

representantes.

Ainda se observa que, por todo o período que Cristal residiu em “La Casita”, presenciou

somente três confinamentos justificados pelo motivo de salvaguardar a segurança pessoal deles e

de outrem por um período não superior ao seu tempo de crise.

Durante sua estada em “La Casita”, Cristal Tovar, consentiu e aceitou seu tratamento, a

base de psicotrópicos e fora informada, após sua interdição, que as injeções de anticoncepcional

que recebia eram necessárias para sua saúde e bem estar. Todavia, em decorrência de seu

tratamento, a residente começou a sentir efeitos colaterais e foi encaminhada, primeiramente ao

médico da Instituição e, posteriormente, ao “Hospital Nacional Raúl Cano”, permanecendo ali,

em observação, durante sua melhora.

Nesse período de internação, Cristal conhece, informalmente, a advogada Mirtha Sicha,

por meio da ajuda de sua irmã de Ângela, a enfermeira responsável. Mirtha trabalhava para uma

organização de Direitos Humanos chamada ODNEI; depois de ter conhecimento do caso de

Cristal, começou a tomar as providências que julgou necessárias.

12
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A interdição de Cristal Tovar foi questionada pela ODNEI em e o juiz de primeira

instância declarou, por falta de legitimidade, o recurso inadmissível. Apelando da decisão em 1º

de outubro de 2008, Dra. Lira, curadora de Cristal, é convocada pelo Tribunal de Apelação de

Inclutiarán para uma audiência, e diz que Cristal recebia o tratamento adequado em “La Casita” e

que não existiriam lugar e atendimento melhores dos que os oferecidos pela instituição. Em 18

de abril de 2009, tendo como base a justificativa de um não abuso por parte da curadora, o

Tribunal nega provimento à apelação e diz que o recurso passível, no caso, seria uma ação

inconstitucional no Corte Constitucional de Exclutia; a decisão foi notificada no dia seguinte.

A ODNEI apresentou uma petição perante a Comissão Interamericana de Direitos

Humanos, no dia 1º de setembro de 2009, alegando a responsabilidade internacional do Estado

de Exclutia pela violação dos direitos arrolados nos artigos 3º, 5º, 7º, 8º, 11, 24 e 25 da

Convenção Americana, todos combinados com os artigos 1.1 e 2 da mesma carta, tendo como

vítima Cristal Tovar. Foram pedidas também, conjuntamente, medidas cautelares para todos os

abrigados em “La Casita”; estas foram outorgadas pela Corte em um mês. Quanto à primeira

petição, foi enviada à Exclutia, às partes pertinentes da denúncia em 22 de dezembro de 2009.

Por sua vez, Estado declarou a inadmissibilidade da petição, de acordo com o artigo 46, inciso I,

alínea b, da Convenção Americana, rejeitando também as alegações de violação de Direitos

Humanos.

A Comissão admitiu as mencionadas violações à Convenção Americana, através do

relatório de admissibilidade Nº 55/11, adotando, em seguida o relatório de fundo Nº 12/13,

indicando recomendações a respeito das presumidas violação de direitos de Cristal Tovar.

O Estado renunciou à possibilidade de interpor exceções preliminares em relação ao

prazo estabelecido no artigo 51 da Convenção Americana. O caso foi enviado à Corte pela

13
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Comissão, que discordava das medidas adotadas pelo Estado, que iniciou um processo legislativo

para alterar o seu Código Civil, na parte concernente à interdição.

O Estado interpôs, em sua resposta à apresentação do caso, uma exceção preliminar

alegando que a petição perante a CIDH havia sido apresentada mais de seis meses depois da

notificação de amparo, a qual tinha resultado favorável para Cristal. Nesse sentido, a CIDH

deveria ter declarado a petição inadmissível por extemporaneidade, pautada no já citado artigo

46, I, b, da Convenção Americana, o que levaria a uma não análise do mérito. A Comissão

alegou que considerava o prazo inicial a decisão do Tribunal de Apelação, de 18 de abril de

2009; assim, não haveria o descumprimento do prazo de seis meses. Alegou ainda que, na etapa

de admissibilidade perante a CIDH, o Estado não tinha apresentado argumentos a respeito da

inadmissibilidade da petição, mencionando apenas genericamente a aplicabilidade do artigo 46,

I, B, da Convenção Americana, em seu memorial de resposta.

Pelo exposto, foi alegado pelo Estado que a Comissão teria que suspender as medidas

cautelares em favor das pessoas que residiam em “La Casita”, caso a Corte rejeitasse a

solicitação de medidas provisórias. Foi emitida uma Resolução Convocatória sobre o Caso

Cristal Tovar v. Exclutia.

VI. A NÁL ISE L E G AL

2. E XC E Ç Õ E S P R E L I M I N A R E S

A República de Exclutia, através destes representantes, afirma, com base nas normas

vigentes e nos fatos ocorridos do presente caso, que não se verificaram todos os requisitos para

que esta Corte possa conhecê-lo; logo, é incompetente. Do mesmo modo, não se apresentam os

critérios para admissibilidade da petição, assim devendo, alternativamente, declarar sua

inadmissibilidade.

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Ainda que não haja uma norma expressa sobre a determinação da competência do

tribunal para pronunciar-se sobre sua propria competência, é princípio consagrado pelo Direito

Internacional, amplamente reconhecido pela doutrina1 e pela jurisprudência, que o Tribunal se

obriga a estabelecer se possui jurisdição e competência para conhecer dos assuntos que lhe são

submetidos.

2.1. D A C OM P E T Ê N C I A

2.1.1. D A C OM P E T Ê NCIA R A T IONE P E R SONA E

Pela análise do caso concreto, a ODNEI é uma organização ilegítima para pleitear os

Direitos de Cristal Tovar. Foi, inclusive, em diversas tentativas declarada parte ilegítima pelo

direito interno.

Esclarece que o contato com a suposta vítima se deu baixo condições ilegais, durante um

tratamento médico, no qual Cristal Tovar estava sob observação, no período de uma internação

hospitalar. Deve-se levar em conta também que a suposta vítima se encontrava interditada e com

sua capacidade de discernimento reduzida devido ao quadro de depressão profunda apresentado.

Pode ser considerado pela parte contrária, que toda pessoa, grupo de pessoas ou

Organizações não governamentais podem acionar o Sistema Interamericano através de petição

individual. Todavia, trata-se de uma mera interpretação estrita, sem levar em conta as condições

de legitimidade e capacidade para realização de um ato de caráter procedimental.

É o que entende esta Corte, através de elucidativo voto2 emitido pelo Juiz Fernando Vidal

Ramírez, no qual expressa que para legitimação ativa do peticionário deve a Organização Não

1
Instituto Interamericano de Derechos Humanos. El sistema interamericano de protección de los derechos
humanos: aspectos institucionales y procesales / Héctor Ledesma Faúndez. -- 3 ed. -- San José, C.R.: Instituto
Interamericano de Derechos Humanos, 2004.
2
Corte I.D.H. Caso Castillo Petruzzi y otros Vs. Perú. Excepciones Preliminares. Sentencia de 4 de Septiembre de
1998. Voto Disidente Del Juez Vidal Ramírez. §4.
15
E Q U I P E Nº . 274

Governamental atuar com poder de representação, visto que atua em nome de outro. Caso

contrário, tampouco, um grupo de pessoas interessadas, pode ser considerado.

Pelo exposto, tem-se que devido à sua interdição, Cristal Tovar não possui capacidade

para conceder um mandato para a legitimação da ONG ODNEI; neste sentido, é evidente que

este processo e consequente pedido não sejam apreciados. Com efeito, diante da ilegitimidade da

parte ativa e consequente equívoco da Comissão, requer seja esta ação extinta sem o julgamento

do mérito.

2.1.2. D A C OM P E T Ê NCIA R A T IONE M A T E R IA E

A Convenção Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação

Contra as Pessoas Portadoras de Deficiência não apresenta em seu corpo legal nenhuma

disposição a qual faz referência à competência contenciosa deste Pretório para solução de

conflitos.

Em tela, tem-se que a Comissão não indicou diretamente nenhum dispositivo que

apresente estas características; entretanto, devido à prática recorrente desta Corte e das vítimas

em invocar o princípio iuria novit curia, esta representação se adianta à hipótese, invocando esta

preliminar que se segue:

Expressa o Artigo 44 da Convenção Americana que as denúncias apresentadas ante a

Comissão devem ser feitas em relação à violação de matérias contidas neste Instrumento.

Sendo este o posicionamento adotado por esta r. Corte no Caso Las Palmeras v.

Colombia3, entende-se que os Estados apenas outorgaram seu consentimento para a aplicação das

disposições da Convenção Americana sob sua competência contenciosa. A exegese é clara e a

interpretação das violações deve ser feita de acordo com a função diretiva deste dispositivo. Ou

3
Corte I.D.H. Caso las Palmeras v. Colombia. Excepciones Preliminares.Sentencia de 4 de febrero de 2000. §§
32,33.
16
E Q U I P E Nº . 274

seja, não devem ser analisadas normas de tratados que não atribuem competência direta a esta

Corte. Com efeito, esta representação requer sejam afastadas referidas tentativas devido à

incompetência material existente.

2.1.3. D A C OM P E T Ê NCIA – C O NCL USÃO

Pelo exposto, baseado nas razões de fato e direito apresentadas, solicita-se a esta Corte

que seja declarada sua incompetência, vez que, em relação a Ratione Personae, não há formação

da relação jurídica processual devido a ilegitimidade da parte ativa, não havendo possibilidade de

exercer jurisdição sobre uma relação inexistente. A respeito da Ratione Materiae, as normas que

não expressem claramente em seu texto a jurisdição desta Corte não devem ser aplicadas. Tendo

em vista a não existência de jurisdição, torna-se incompetente. Entretanto, caso entenda de

forma diversa, concluindo que possui jurisdição e consequente competência, não deve prosperar

a análise do mérito, visto que os requisitos de admissibilidade não são cumpridos, conforme será

demonstrado a seguir.

2.2. D O S R E Q U I SI T O S DE A DM ISSIB IL ID ADE

2.2.1. D O E SG O T A M E NT O DO S R E CURSO S I NT E RNO S

Um dos princípios mais importantes a ter em conta sobre os efeitos da admissibilidade de

um caso é o do esgotamento dos recursos internos, que deve ser aplicado de maneira consciente

por esta r. Corte, com sua natureza internacional e garantindo a preservação dos objetivos

básicos dos instrumentos consagrados de proteção aos direitos humanos.

Pela interpretação do referido instrumento normativo, este Sublime Pretório entende que

os recursos que devem ser esgotados são aqueles que sejam adequados para resolver a

questão, ou seja, que sejam consagrados na legislação interna para garantir a vigência do direito

17
E Q U I P E Nº . 274

que se alega violado. Além disso, os recursos devem ser efetivos, ou seja, que são capazes de

alcançar o resultado necessário para a proteção do direito afetado4.

2.2.1.1. D A A ÇÃO DE I NCO NST IT UC IO NAL I DADE

No caso em tela, temos que a ODNEI acionou o aparato judicial interno, tendo sua

pretensão afastada por falta de legitimidade; entrou, entretanto, com apelação da decisão. Nota-

se que apesar de contrariar o próprio Direito Interno, o Tribunal de Apelação acionou a

representante da curatela, para certificar-se da real situação, sendo denegado o recurso,

constando na decisão que o recurso idôneo para discutir a legitimidade seria uma ação de

inconstitucionalidade perante a Corte Constitucional5.

Extrai-se das circunstâncias do caso, que, para resolver o problema da legitimidade e

requerer a revisão do procedimento de interdição; de acordo com o Código de Processo Civil de

Exclutia, cabe a curadora e ao Ministério Público, caso seja verificada alguma irregularidade.

Em momento algum foi tentado o acionamento desta forma de revisão da decisão,

caracterizando claramente a falta do esgotamento dos recursos internos. Alega esta representação

que a determinação dos recursos que são adequados e que possuem exigência de esgotamento

deve fazer-se caso a caso, baseando-se na sua própria idoneidade, adequação e eficácia para

solucionar referido litígio. Havendo inclusive a r. Comissão se pronunciado neste sentido,

devendo, esta, determinar qual é o recurso adequado para esgotar-se segundo as circunstâncias,

entendendo por tal, aquele que possa solucionar a situação jurídica infringida6.

4
Corte I.D.H. Caso Castañeda Gutman Vs. Estados Unidos Mexicanos. Sentencia de 6 de Agosto de 2008.
Excepciones Preliminares, Fondo, Reparaciones y Costas. § 34. Caso Velásquez Rodríguez Vs. Honduras.
Excepciones Preliminares. Sentencia de 26 de junio de 1987. Serie C No. 1, §. 88. Caso del Pueblo Saramaka. Vs.
Surinam. Excepción Preliminar, Fondo, Reparaciones y Costas. Sentencia de 28 de noviembre de 2007. Serie C No.
172, § 43. Caso Salvador Chiriboga Vs. Ecuador. Excepción Preliminar y Fondo. Sentencia de 6 de mayo de
2008. Serie C No. 179, §. 40.
5
WCL. Caso Hipotético Cristal Tovar vs. Republica de Exclutia. Processos Internos. §33.
6
CIDH. Informe No. 23/07, petición 435/06, Eduardo Landaeta Mejías (Venezuela). 9 de marzo de 2007. §. 43.
18
E Q U I P E Nº . 274

Em relação à Ação de Inconstitucionalidade, no caso pode e deve ser considerada idônea,

visto que o tema central do debate é uma norma do Código de Processo Civil, que não confere

legitimidade à ODNEI para representar Cristal Tovar em juízo. É claro em qualquer sistema

democrático que a Ação de Inconstitucionalidade é o meio adequado para se pleitear uma

discussão sobre a própria norma, e sua inclusão dentro do Ordenamento Pátrio.

Desta maneira, nota-se que se trata de uma discussão de competência e legitimação para

propor ação, sendo o recurso efetivo e adequado a ação de constitucionalidade, que qualquer

pessoa tem capacidade postulatória para apresentá-la7. Corroboram para este entendimento

diversos entendimentos da CIDH, que apesar de caráter extremamente formal deste tipo de

recurso, permite a alteração normativa pertinente 8.

Ainda a CIDH, já se pronunciou diversas vezes em casos de matérias semelhantes 9; se

considera que não se esgotaram corretamente os recursos, necessários para atingir o resultado

querido. Por esta razão, deve esta Corte considerar que ainda existem recursos internos os quais

o peticionário possa utilizar, e assim, clarifica-se a inadmissibilidade da presente demanda, tendo

em vista o Artigo. 46.1.a da Convenção.

2.2.1.2 D O A CIO NAM E NT O DO M INIST É RIO P ÚB L ICO

Igualmente esta representação indica a falta de diligência da denunciante, visto que não

acionou o Ministério Público, via âmbito administrativo, para atuar no presente caso, cumprindo

seu papel que é considerado como função essencial à justiça e caracteriza-se por zelar pelo

efetivo respeito dos poderes públicos, dos serviços de relevância pública e aos direitos

7
WCL. Caso Hipotético Cristal Tovar vs. Republica de Exclutia. Perguntas de Esclarecimento Nº. 20.
8
CIDH. Informe No. 71/02, caso 12.360, Admisibilidad, Santander Tristán Donoso, Panamá. 24 de octubre de
2002. §. 22
9
CIDH. Informe Nº. 63/07. Petición 625-01. Inadimissibilidad. Luís Astorga y Otros v. Costa Rica. Decicion de
27 de Julio de 2007. §§. 63, 64.
19
E Q U I P E Nº . 274

assegurados através da promoção de medidas necessárias ao cumprimento da lei e as garantias

inerentes a pessoa humana.

A denunciante no caso concreto nem ao menos tentou a intervenção desta nobre

Instituição, visando suprir a capacidade postulatória e a garantia de direitos, que apenas uma

provocação poderia levar a uma investigação adequada e eficaz sobre o caso concreto e, assim,

analisar se havia ou não o desrespeito alegado.

Ressalta-se que a interpretação efetuada por esta Colenda Corte indica que a aplicação

das garantias judiciais não se limita a atuações junto ao exercício da jurisdição pelo Estado, mas

contempla o conjunto de requisitos que devem ser observados para a garantia de Direitos, o que

inclui o procedimento administrativo junto a Órgãos e Instituições competentes, no caso concreto

o Ministério Público10. Neste sentido, deve-se recordar que as medidas administrativas são tão

eficazes quanto às medidas judiciais no cumprimento e nas garantias de direitos.

Com efeito, caracteriza-se claramente o abandono desta forma efetiva de garantia de

direitos e atuação, que por uma interpretação extensiva do Sistema Jurídico pode ser considerada

como uma forma de recurso, diante da ilegitimidade da parte, perante o Direito Adjetivo da

Republica de Exclutia.

2.2.1.3. D O H AB E AS C O RP US

10
Corte I.D.H., Caso del Tribunal Constitucional Vs. Perú. Sentencia de 31 de enero de 2001. Serie C No. 71. §
69. Citando. Garantías judiciales en Estados de Emergencia (arts. 27.2, 25 y 8 Convención Americana sobre
Derechos Humanos). Opinión Consultiva OC-9/87 del 6 de octubre de 1987. Serie A No. 9, §27.
20
E Q U I P E Nº . 274

Na Denúncia apresentada ante a CIDH, alega-se que Cristal Tovar teve seu direito à

liberdade tolhido pela ação do Estado ao acolher-la junto a “La Casita”, entretanto tal argumento

não deve prosperar, visto sequer fora pleiteado junto ao Direito Interno de Exclutia.

A denunciante não fez o uso do Habeas Corpus, previsto como recurso pela legislação

de Exclutia, o qual pode ser interposto por qualquer pessoa interessada. 11 Se a fórmula

consagrada pela CADH é o esgotamento dos Recursos Internos, e ocorrendo privação indevida

da liberdade, de acordo com a denunciante, de Cristal Tovar, o recurso efetivo e adequado seria o

Habeas Corpus que, reafirmamos, sequer fora cogitado junto ao Sistema de Direito Interno.

Em tempo, deve-se informar que qualquer pessoa que tenha interesse legítimo pode

pleitear referido recurso, de acordo com a Legislação de Exclutia, o que indicaria a possibilidade

de Cristal Tovar, ter a garantia efetiva de seu direito.

O principal assunto que se aborta neste tópico é a falta de esgotamento oportuno dos

recursos de jurisdição interna. Em prévias Resoluções 12, esta excelsa Corte já sustentou que, com

efeito, é o recurso idôneo, adequado e eficaz para combater possíveis violações ao direito à

liberdade pessoal, conforme alegado. Devendo esta Corte declarar inadmissível a denúncia,

extinguindo-a sem o julgamento do mérito.

2.2.2. D A F Ó RM U L A DE Q UART A I NST ÂN CIA .

Fora apresentado pela denunciante um recurso de amparo em 2 de novembro de 2008. A

Colenda Turma de Constitucionalidade do Exclutia claramente aceitou as alegações,

comprovando a adequação e a efetividade do Instrumento utilizado, declarando-se favorável um

mês depois da data da apresentação 13. Nota-se que o Estado tomou as medidas a garantir a

11
WCL. Caso Hipotético Cristal Tovar vs. Republica de Exclutia. Perguntas de Esclarecimento Nº. 61
12
Corte I.D.H. Caso Castillo Petruzzi y Otros. Excepciones Preliminares. Sentencia de 4 de Septiembre de 1998.
SerieC Nº 41. §§. 60, 61. Opinión Consultiva OC-8/87 de 30 de enero de 1987. Serie A No. 8, §§. 35 e 42.
13
WCL. Caso Hipotético Cristal Tovar vs. Republica de Exclutia. Processos Internos. §34
21
E Q U I P E Nº . 274

efetivação da medida e principalmente, de acordo com o princípio da reserva do possível e da

progressividade dos direitos humanos, remodelando a estrutura, a fim de dignificar a Instituição

para seus cidadãos nelas acolhidos14.

O Instrumento apresentou-se como adequado e efetivo, visto que mudanças na estrutura

foram realizadas; todavia, se as medidas tomadas dentro dos princípios básicos de atuação da

atividade estatal não foram as desejadas pela denunciante, ou mesmo que tenham ocorrido

abaixo de suas expectativas, não seria motivo suficiente para pleitear revisão de sentença junto

ao Sistema Interamericano, o que caracteriza claramente o uso inadequado do Sistema como

forma de Quarta Instância – na qual já se estabeleceu que as decisões de tribunais domésticos

imparciais e independentes não estão sujeitas a análise da CIDH15.

No caso concreto é claramente extraído da intenção da denunciante em se reformar uma

decisão, adequada e eficaz, mas tida como aquém das suas próprias expectativas, caracterizando

assim a má utilização deste r. Sistema16.

Diante deste equívoco faz-se mister que este egrégio Pretório, declare inadmissível a

demanda, extinguindo-a sem o julgamento do seu mérito.

2.2.3. D O D E C U R SO DO T EM P O

A petição de denúncia foi apresentada para a CIDH, aproximadamente nove meses depois

da ciência da decisão de um recurso que apresentou a forma de res iudicata. Nota-se que o prazo

explicito é de seis meses contado da data da notificação da decisão, sendo inconsebivel a

admissibilidade deste pedido, em decurso do tempo

14
WCL. Caso Hipotético Cristal Tovar vs. Republica de Exclutia. Perguntas de Esclarecimento Nº. 16.
15
CIDH. Informe Anual 1987-1988, Informe No. 29/88, Clifton Wright c. Jamaica, Caso 9260, 16 septiembre
1988, §5.
16
CIDH, Informe Anual de 1996, Informe No. 39/96, Marzioni c. Argentina, Caso 11.673, 14 marzo 1997, pág.
76; CIDH, Informe Anual de 1998, Informe No. 85/98, Gilbert Bernard Little c.Costa Rica, Caso 11.472,; CIDH,
Informe Anual de 1997, Informe No. 34/9, Jorge Enrique Benavides c. Colombia
22
E Q U I P E Nº . 274

No presente caso o prazo para a suposta vítima acionar o sistema interamericano, tendo

em vista a data da Decisão do Tribunal de Apelações, a saber: 02/12/2008, seria no máximo em

meados de junho do ano subsequente, entretanto, a petição fora apresentada apenas em Setembro

daquele ano, evidenciando a prescrição de tal direito.

Considera esta representação que não há o que se falar em medidas protelatórias, ou

mesmo contraditórias por parte da República de Exclutia. Diferentemente do Caso Neira Alegría

y otros v. Perú17, que se tratava de recursos ainda em andamento, sem decisão nacional,

entretanto com posicionamento adequado e efetivo dos representantes das vítimas. Emm tela,

tem-se notadamente uma atuação em sentido contrário, de imperícia no uso do Ordenamento

Local, por este motivo deve ser afastada a aplicação do Princípio de Estoppel, pois não se trata

de uma atuação contraditória por parte do Estado.

Conforme já fora demonstrado nos tópicos antecedentes, é evidente que a representação

da vítima não se utilizou dos recursos disponíveis e idoneos, que por sua vez eram eficazes e

adequados para a proteção dos interesses da suposta vítima. Com efeito, ao analisar o caso

concreto, não há o que se falar em decurso do prazo da Decisão do Tribunal de Apelação, visto

que não foram esgotadas as instancias internas.

Apesar da flexibilização recorrente desta norma, é evidente o abuso no exercício de suas

funções pela CIDH, já que o decurso do prazo tem por função garantir a segurança jurídica, e

afastar a arbitrariedade nos julgamentos, é inconcebível que o seja permitida uma dilatação por

mais de três meses da data objetiva de seu término, conforme se apresenta no caso em tela.

17
Corte I.D.H., Caso Neira Alegría y otros. Excepciones preliminares, sentencia del 11 de diciembre de 1991, §§
28 e 29.
23
E Q U I P E Nº . 274

Com efeito, esta representação requer seja declarado a inadmissibilidade da Petição

através do conseqüente controle da legalidade dos atos da CIDH 18, devido ao não cumprimento

do disposto no Art. 46.1.b do Pacto de São José, sem julgamento de mérito.

2.3 D A S C O N C L U SÕ E S SO B RE AS E XCE ÇÕ E S P RE L IM INARE S

Com efeito, o peticionário não apresentou argumentos justificados para não interpor os

recursos previstos na legislação interna para que o Estado pudesse resolver o assunto dentro de

seu marco legal interno antes de enfrentar o procedimento internacional do Sistema Protetivo

Interamericano ante a Comissão.

Por conseguinte, ante a clara não efetivação dos preceitos de esgotamento dos recursos

internos; do uso indevido desta Corte como instancia revisional de decisões internas; caso não

seja este o entendimento, recorda-se alternativamente, do transcurso do tempo, devido ao uso

inadequado do Sistema Juridico Local pelo denunciante, e da sua consequente prescrição do

exercício do direito de ação, esta representação, com fulcro no Artigo 62.1 da Convenção

Interamericana de Direitos Humanos, requer seja, desacreditada a petição do denunciante,

declarando inadmissível perante o Sistema Interamericano de Proteção, não devendo este

Excelso Pretório se posicionar sobre o mérito das violações alegadas.

Contudo, se esta Egrégia Corte não considerar as arguições por esta representação

levantadas, em relação as Exceções Preliminares, partir-se-á para a análise das questões de fundo

material do presente caso.

3. A NÁL ISE M A T E R I A L
3.1 D A N Ã O V I O L A Ç Ã O AO S A RT IG O S 3º, 5º, 7º, 8º, 11, 24, E 25 EM
R E L AÇ Ã O A O D E V E R D E R E SP E IT AR D IRE IT O S C O NVE NIADO S
3.1.1. DA NÃO VIOLAÇÃO AO DIREITO DE PERSONALIDADE

18
Corte IDH. O.C. -19/05. República Bolivariana de Venezuela. 28 de Noviembro de 2005. Control de
Legalidad em el Ejercicio de las Atribuciones de la Comisíon Interamericana de Derechos Humanos.
Decision. §§ 2, 3.
24
E Q U I P E Nº . 274

A República de Exclutia não violou o direito de personalidade de Cristal Tovar em razão

de sua deficiência mental torná-la incapaz de exercer seus direitos e exigir representação para

fazê-lo, mantida, todavia, sua condição de titular de direitos 19. A Corte20 entende que o direito ao

reconhecimento da personalidade jurídica deve ser interpretado à luz do artigo XVII da DADDH,

o qual estabelece que o direito ao reconhecimento da personalidade jurídica implica a capacidade

de ser titular de direitos e deveres e a capacidade de gozo e exercício dos mesmos, sendo que o

comprometimento da segunda não afasta a primeira, mas apenas requer o instituto da

representação pessoal.

3.1.1.1.DA DEFICIÊNCIA MENTAL DIAGNOSTICADA

O Estado de Exclutia salienta que a determinação da deficiência mental de Cristal foi

efetuada com base em normas médicas internacionalmente reconhecidas 21, com fundamento em

razão que se refere diretamente a seu estado de saúde mental 22, para fins diretamente

relacionados à própria doença mental ou suas consequências23. Tendo em vista tais requisitos,

relembra que o quadro de saúde mental apresentado por Cristal é descrito no Capítulo V da CID-

1024, em que são abordados os transtornos mentais e comportamentais, bem como que seu

diagnóstico resultou de exame médico realizado por profissional de saúde mental qualificado, a

fim de que Cristal fosse acomodada na área mais apropriada do centro e recebesse o tratamento

médico necessário às suas condições de saúde.

19
PPDMMASM. Princípio 13, parágrafo 1, alínea “a”.
20
Corte IDH, Caso Bámaca Velásquez Vs. Guatemala. Mérito. Sentença de 25 de novembro de 2000. Série C No.
70, parágrafo 179.
21
PPDMMASM. Princípio 4, parágrafo 1.
22
PPDMMASM. Princípio 4, parágrafo 2.
23
PPDMMASM. Princípio 4, parágrafo 5.
24
A Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (também conhecida como
Classificação Internacional de Doenças – CID 10) é publicada pela OMS e visa padronizar a codificação de doenças
e outros problemas relacionados à saúde.
25
E Q U I P E Nº . 274

Em relação ao gênero feminino e as doenças mentais, a OMS aponta que a doença

mental, significantemente associada à deficiência mental, ocorre de forma predominante nas

mulheres. O gênero é um determinante crítico das doenças mentais, pois determina os diferentes

poder e controle que homens e mulheres detêm sobre os fatores socioeconômicos de sua saúde

mental e sobre sua suscetibilidade e exposição a riscos específicos de doenças mentais, sendo

que a depressão é o problema mais comum de doença mental apresentada pelas mulheres25.

3.1.1.2 . DA INTERDIÇÃO JUDICIAL DE CRISTAL TOVAR

O processo judicial de interdição de Cristal Tovar observou a legislação nacional acerca

da regulamentação da capacidade jurídica das pessoas portadoras de deficiência26 vigente à época

dos fatos, sendo que lhe foi nomeada representante pessoal27, conforme necessário e apropriado a

sua condição28. É reconhecido ao deficiente mental o direito a um tutor qualificado quando tal

seja necessário para proteger seu bem estar e seus interesses pessoais29.

3.1.1.3 DO CONSENTIMENTO PARA O TRATAMENTO MÉDICO

A curadora de Cristal Tovar tinha acesso às informações referentes ao seu tratamento

médico e consentiu em seu nome30, em conformidade com o regime de curatela total. Quanto ao

início do tratamento, anterior à interdição judicial de Cristal, o Estado de Exclutia ressalta sua

aplicação por médico qualificado e autorizado por lei frente a sua urgência e necessidade, a fim

de impedir o agravamento do quadro cínico de Cristal31, protegendo-a de iminentes malefícios32.

A Corte33 tem reconhecido não ser absoluto o direito das pessoas à autonomia, visto que
25
OMS. Mental Health. “Gender and women's mental health”, linhas 2, 15, 19, 27, 29 e 44.
26
Código Civil do Estado de Exclutia, Seção IV, artigo 41.
27
PPDMMASM. Definições.
28
PPDMMASM. Princípio 1, parágrafo 7.
29
DDPDM. Parágrafo 5.
30
PPDMMASM. Princípio 11, parágrafo 7.
31
PPDMMASM. Princípio 11, parágrafo 8.
32
PPDMMASM. Princípio 8, parágrafo 2.
33
Corte IDH. Caso Ximenes Lopes Vs. Brasil. Sentença de 04 de julho de 2006. Série C No. 149, parágrafo 130.
26
E Q U I P E Nº . 274

algumas vezes as próprias necessidades do paciente podem exigir a adoção de medidas sem

contar com o seu consentimento, sendo que, quando comprovada a incapacidade do paciente

para consentir, caberá aos seus representantes legais fazê-lo.

3.1.2 DA NÃO VIOLAÇÃO AO DIREITO À INTEGRIDADE PESSOAL

O Estado de Exclutia não violou o direito à integridade pessoal de Cristal Tovar por

considerar que este direito encontra-se direta e imediatamente vinculado à atenção com a saúde

humana34, reconhecendo esta como bem público35 e garantindo-a a todos os indivíduos que se

encontram sob sua jurisdição.

3.1.2.1 DO TRATAMENTO MÉDICO E DA MEDICAÇÃO MINISTRADA

O Estado de Exclutia reafirma ter assegurado a Cristal prestação de cuidado médico

eficaz a sua deficiência mental, incluindo o acesso a serviços básicos de saúde 36, pois, além do

serviço médico prestado em “La Casita”, a instituição estatal prontamente transferiu Cristal para

hospital melhor equipado quando a condição de sua saúde o exigiu.

Ademais, foram prestados a Cristal os mesmos cuidados médicos aplicados a todos os

residentes em situação semelhante37, com respeito, inclusive, ao seu direito a tratamento médico

adequado38. Os antidepressivos foram-lhe ministrados por profissionais de saúde mental 39

autorizados por lei40, com fins unicamente terapêuticos, conforme as necessidades fundamentais

de sua saúde41, sendo que o mal estar por ela sentido consistia em efeito secundário do

tratamento médico, um mal necessário a fim de evitar o agravamento da enfermidade mental.


34
Corte IDH, Caso Vera Vera e outra Vs. Equador. Exceção Preliminar, Fundo, Reparações e Custas. Sentença de
19 de maio de 2011. Série C No. 226, parágrafo 43.
35
PACADHDESC. Artigo 10, parágrafo 2.
36
Corte IDH. Caso Ximenes Lopes Vs. Brasil. Sentença de 04 de julho de 2006. Série C No. 149, parágrafo 128.
37
PPDMMASM. Princípio 8, parágrafo 1.
38
DDPDM. Parágrafo 2.
39

40
PPDMMASM. Princípio 10, parágrafo 2.
41
PPDMMASM. Princípio 10, parágrafo 1.
27
E Q U I P E Nº . 274

Adicionalmente à medicação, também foram oferecidas terapias físicas e psicológicas,

para preservar a dignidade e a autonomia de Cristal, bem como reduzir o impacto de sua

enfermidade mental e melhorar sua qualidade de vida.

Quanto à administração de anticoncepcional injetável, a curadora de Cristal estava ciente

do procedimento e consentiu em seu nome42, a fim de assegurar os interesses da curatelada 43 e

evitar as consequências de uma possível gravidez indesejada, potencialmente gravosas às

condições de saúde mental de Cristal.

3.1.2.2 DA PERMANÊNCIA DE CRISTAL TOVAR NO QUARTO DE


ISOLAMENTO
A instituição estatal utilizou-se das técnicas de isolamento involuntário e

incomunicabilidade para fins de salvaguardar a própria integridade de Cristal e das demais

pessoas ao seu redor quando de sua crise, bem como para não disseminar quadros de agitação

entre os demais pacientes44, tratando-se de medida excepcional e por período não prolongando

além do necessário45. Dessa forma, o Estado de Exclutia ressalta o emprego do isolamento

involuntário como medida de último recurso e unicamente para proteger o paciente, os

funcionários da instituição e os demais residentes, frente à ameaça do comportamento de

Cristal46.

3.1.3 DA NÃO VIOLAÇÃO AO DIREITO À LIBERDADE PESSOAL

3.1.3.1. DO INGRESSO INVOLUNTÁRIO DE CRISTAL TOVAR À

INSTITUIÇÃO ESTATAL “LA CASITA”

42
PPDMMASM. Princípio 11, parágrafo 7.
43
PPDMMASM. Princípio 1, parágrafo 7.
44
Emergências Psiquiátricas [recurso eletrônico]/ Organizadores: João Quevedo e André F. Carvalho. Brasil,
Porto Alegre: Artmed, 3ª Ed., 2014, página 82.
45
Corte IDH. Caso Chaparro Álvarez e Lapo Íñiguez Vs. Equador. Exceções Preliminares, Fundo, Reparações e
Custas. Sentença de 21 de novembro de 2007. Série C No. 170, parágrafo 171.
46
Corte IDH. Caso Ximenes Lopes Vs. Brasil. Sentença de 04 de julho de 2006. Série C No. 149, parágrafo 134.
28
E Q U I P E Nº . 274

O Estado de Exclutia salienta que Cristal Tovar ingressou involuntariamente à instituição

em razão de apresentar enfermidade mental grave e estar com capacidade de discernimento

diminuída, sendo que sua não retenção ensejaria sério agravamento de sua condição de saúde

mental e impediria a prestação do tratamento médico adequado47.

A retenção de Cristal Tovar como paciente de “La Casita”, portanto, reafirma o

posicionamento do Estado de que a condição de saúde física e mental do paciente é a finalidade

última da prestação de serviços de saúde, conforme tem considerado a Corte48, além de garantir o

direito de Cristal a cuidados médicos adequados49.

3.1.3.2. DO ISOLAMENTO INVOLUNTÁRIO DE CRISTAL TOVAR

O Estado de Exclutia reitera o já exposto acerca da excepcionalidade e da necessidade do

isolamento involuntário de Cristal Tovar frente à situação de crise, visto que a Corte 50 reconhece

não ser absoluto o direito à liberdade pessoal, entendendo que a liberdade é a regra, e a limitação

ou restrição é sempre a exceção.

3.1.4 DA NÃO VIOLAÇÃO AO DIREITO DE PROTEÇÃO DA HONRA E DA

DIGNIDADE

3.1.4.1. DO RECONHECIMENTO DA DIGNIDADE DE CRISTAL TOVAR

A conduta adotada pela instituição estatal perante Cristal Tovar, inclusive quanto às

medidas excepcionais de contenção, em nenhum momento configuraram atos de violação a sua

dignidade. Ao revés, as posturas do Estado de Exclutia e de sua instituição foram adotadas


47
PPDMMASM. Princípio 16, alínea “b”.
48
Corte IDH. Caso Ximenes Lopes Vs. Brasil. Sentença de 04 de julho de 2006. Série C No. 149, parágrafo 139.
49
DDPDM. Parágrafo 2.
50
Corte IDH. Caso Chaparro Álvarez e Lapo Íñiguez Vs. Equador. Exceções Preliminares, Fundo, Reparações e
Custas. Sentença de 21 de novembro de 2007. Serie C No. 170, parágrafo 53.
29
E Q U I P E Nº . 274

unicamente para atender às suas necessidades e fazer valer todos os seus direitos, na medida do

possível, conforme exigência de suas condições de saúde e da proteção de sua pessoa e de

terceiros51. Para tanto, o Estado reafirma o posicionamento da Corte 52 em considerar os

PPDMMASM da ONU como um guia útil para determinar se a atenção médica tem observado os

cuidados mínimos para preservar a dignidade do paciente.

No que tange ao cabelo de Cristal cortado quando de seu ingresso no centro estatal, tal

medida foi empregada por motivos de higiene, para que fosse protegida de qualquer malefício ou

desconforto físico consequente do contato coletivo53.

3.1.4.2. DO RESPEITO À VIDA PRIVADA DE CRISTAL TOVAR

O Estado de Excutia salienta em momento algum ter havido qualquer interferência

abusiva ou arbitrária à vida privada de Cristal Tovar, visto que a administração de seus assuntos

cabia a sua curadora, sem que esta tenha cometido qualquer abuso no âmbito da curatela. A

Corte54 tem estabelecido não ser absoluto o direito à vida privada, podendo ser restringido pelos

Estados sempre que a interferência não seja abusiva ou arbitrária.

Ademais, a disponibilização de móveis para uso pessoal dos residentes do centro, quando

do incremento do orçamento, demonstrou o respeito e o cuidado do Estado em preservar a vida

privada de cada residente55, bem como sua individualidade frente à moradia coletiva.

3.1.4.3. DA DEFICIÊNCIA SENSORIAL DE CRISTAL TOVAR

A Cristal Tovar foram oferecidas terapia física e psicológica, bem como treinamento para

vida cotidiana, tendo em vista sua cegueira permanente, a fim de que fosse preservada a sua

51
PPDMMASM. Princípio 9, parágrafo 1; Princípio 11, parágrafo 11; DDPPD. Parágrafo 3.
52
Corte IDH. Caso Ximenes Lopes Vs. Brasil. Sentença de 04 de julho de 2006. Série C No. 149, parágrafo 131.
53
PPDMMASM. Princípio 8, parágrafo 2.
54
Corte IDH. Caso Tristán Donan Vs.Panamá. Exceção Preliminar, Fundo, Reparações e Custas. Sentença de 27
de janeiro de 2009. Série C No. 193, parágrafo 56.
55
PPDMMASM. Princípio 13, parágrafo 1, alínea “b”.
30
E Q U I P E Nº . 274

dignidade e a sua autonomia, bem como para reduzir o impacto de sua enfermidade mental e

melhorar sua qualidade de vida.

3.1.4.4. DOS RECURSOS, AMBIENTE E CONDIÇÕES DE VIDA DE “LA

CASITA”

O Estado de Exclutia ressalta que as orientações internacionais acerca dos recursos, do

ambiente e das condições de vida nas instituições psiquiátricas devem ser analisadas conforme o

máximo de recursos à disposição de cada Estado e levando em conta o seu grau de

desenvolvimento56. Dessa forma, atenta para o fato de ser um país em desenvolvimento, com

consideráveis taxas de pobreza e de indigência, bem como apresentar um dos índices de

desigualdade mais altos de sua região dos países de sua região com maior desigualdade. O

Estado de Exclutia atenta também para a progressividade do processo de desenvolvimento social.

3.1.5. DA NÃO VIOLAÇÃO AO DIREITO DE IGUALDADE PERANTE A LEI

O Estado de Exclutia salienta que não ter sido cometida nenhuma discriminação em

relação a Cristal perante a lei, mas sim ter-lhe sido empregada uma distinção de tratamento,

tendo em vista sua incapacidade para exercer efetivamente seus direitos. Sustenta a Corte 57 que

distinções de tratamento distinguem-se de discriminações, pois consistem em diferenciações

compatíveis com a CADH, por serem razoáveis, proporcionais e objetivas.

3.1.6. DA NÃO VIOLAÇÃO AOS DIREITOS ÀS GARANTIAS JUDICIAIS E DE

PROTEÇÃO JUDICIAL

O Estado de Exclutia ressalta que a integralidade dos procedimentos de seus órgãos

judiciais internos esteve em conformidade com as disposições internacionais 58, bem como que os

56
PACADHDESC. Artigo 1.
57
Corte IDH. Caso Castañeda Gutman Vs. México. Exceções Preliminares, Fundo, Reparações e Custas. Sentença
de 6 de agosto de 2008. Série C No. 184, parágrafo 211.
58
Corte IDH. Caso Ximenes Lopes Vs. Brasil. Sentença de 04 de julho de 2006. Série C No. 149, parágrafo 174.
31
E Q U I P E Nº . 274

recursos judiciais fornecidos eram efetivos e tramitaram de acordo com as regras do devido

processo legal59.

3.1.6.1. DO JUIZ NATURAL, COMPETENTE, INDEPENDENTE E

IMPARCIAL

Em todos os procedimentos internos envolvidos no presente caso, os juízes haviam sido

estabelecidos anteriormente por lei, sendo que nenhum dos tribunais era de exceção, em

observância ao princípio do juiz natural. No que tange à independência e imparcialidade dos

juízes que apreciaram e julgaram todos os processos internos concernentes ao presente caso, não

há notícia de fato que comprove sua inveridicidade60.

A respeito do quesito competência, o juízo da VI Vara Cível da cidade de Inclutiarán era

competente para apreciar e julgar o processo de interdição de Cristal Tovar, juízo este também

competente para apreciar e julgar o pedido de questionamento dessa interdição, por tratar-se de

matéria disciplinada pelo Código Civil. A apelação da decisão acerca do pedido de

questionamento da interdicção judicial foi apreciada e julgada pelo Tribunal de Apelações de

Inclutiarán, competente para tanto. Por fim, o recurso de amparo apresentado paralelamente pela

ODNEI foi apreciado e julgado pela Segunda Turma de Constitucionalidade, competente por

tratar-se de matéria constitucional, visto que os tratados internacionais de direitos humanos são

hierarquicamente normas de nível constitucional.

3.1.6.2.DOS PRAZOS RAZOÁVEIS

O Estado de Exclutia salienta que todos os processos internos concernente ao presente

caso observaram o princípio do prazo razoável, tendo em vista a complexidade do assunto, a

59
Corte IDH. Caso Ximenes Lopes Vs. Brasil. Sentença de 04 de julho de 2006. Série C No. 149, parágrafo 175.
60

32
E Q U I P E Nº . 274

atividade processual dos interessados e a conduta das autoridades judiciais exclutenses,

elementos estes determinantes da razoabilidade do processo61.

3.1.6.3.DO DIREITO DE SER OUVIDA DE CRISTAL TOVAR

A atividade dos órgãos do Estado de Exclutia não violou o direito de Cristal Tovar em ser

ouvida, pois sua curadora, ouvida em juízo, garantiu seu acesso ao juízo que determinaria seus

direitos, tendo em vista compreender o direito de ser ouvido no direito de acesso da pessoa ao

tribunal ou órgão encarregado de determinar seus direitos62.

3.1.6.4.DOS RECURSOS JUDICIAIS E SEU CUMPRIMENTO

Em todas as situações foi proporcionada possibilidade real de interposição de recurso

idôneo e efetivo63, com exceção das hipóteses em que o recurso interposto não atendia ao devido

processo legal64. Ademais, foi assegurado o cumprimento da decisão quando procedente o

recurso, sendo que a Segunda Turma de Inconstitucionalidade exigiu que o Estado de Exclutia

tomasse as medidas necessárias para cumprir com a decisão do recurso de amparo provido.

3.1.7. DA POSSIBILIDADE DE RESTRIÇÃO AOS DIREITOS RECONHECIDOS

O Estado de Exclutia ressalta que todas as restrições aos direitos elencados pela CADH

foram empregadas com propósito legítimo e observaram ao procedimento previsto em lei, sendo

que em várias situações a Corte65 reconhece a possibilidade de tais restrições Do mesmo modo,

os dispositivos internacionais acerca dos direitos dos deficientes mentais também reconhecem a
61
Corte IDH, Caso Genie Lacayo Vs. Nicarágua. Fundo, Reparações e Custas. Sentença de 29 de janeiro de 1997.
Série C No. 30, parágrafo 77.
62
Corte IDH. Caso Barbani Duarte e outros Vs. Uruguai. Fundo, Reparações e Custas. Sentença de 13 de outubro
de 2011. Série C No. 234, parágrafo 120.
63
Corte IDH. Caso Castañeda Gutman Vs. México. Exceções Preliminares, Fundo, Reparações e Custas. Sentença
de 6 de agosto de 2008. Série C No. 184, parágrafo 78.
64
Corte IDH. Caso Ximenes Lopes Vs. Brasil. Sentença de 04 de julho de 2006. Série C No. 149, parágrafo 175.
65
Corte IDH. Caso Ximenes Lopes Vs. Brasil. Sentença de 04 de julho de 2006. Série C No. 149, parágrafos 130 e
134. Corte IDH. Caso Chaparro Álvarez e Lapo Íñiguez Vs. Equador. Exceções Preliminares, Fundo,
Reparações e Custas. Sentença de 21 de novembro de 2007. Série C No. 170, parágrafo 171. Corte IDH. Caso
Tristán Donan Vs.Panamá. Exceção Preliminar, Fundo, Reparações e Custas. Sentença de 27 de janeiro de 2009.
Série C No. 193, parágrafo 56.
33
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possibilidade de cerceamento dos direitos internacionalmente reconhecidos quando das hipóteses

levantadas pelo Estado na presente elucidação66.

3.2 DA NÃO VIOLAÇÃO DOS ARTIGOS 3º, 5º, 7º, 8º, 11, 24 E 25 EM

RELAÇÃO AO ARTIGO 2º, DA CADH

A República de Exclutia não violou sua obrigação geral de adequar seu direito interno às

disposições da CADH para garantir os direitos nela consagrados, visto que adotou medidas nas

duas vertentes mencionadas pela Corte67, quais sejam: a supressão das normas e práticas, de

qualquer natureza, que envolvam violação às garantias previstas na referida Convenção, e a

expedição de normas e o desenvolvimento de práticas conducentes à efetiva observância das

mencionadas garantias.

Em relação à segunda vertente, o Estado de Exclutia ratificou a CADH e seu

PACADHDESC, bem como a CIETFDPPD e a CDPPD, além de sujeitar-se a todos os princípios

e orientações da CIDH e da ONU sobre Direitos Humanos. Ademais, aceitou a jurisdição

contenciosa desta Corte.

Ademais, a República de Exclutia é um centro regionalmente reconhecido por suas

reformas legislativas progressistas dos últimos treze anos, atribuindo, ainda, hierarquia de norma

constitucional aos tratados de Direitos Humanos dos quais é parte. Além disso, inúmeras

políticas sociais foram implementadas pelo governo de Exclutia entre 2008 e 2013, além da

existência de unidades residenciais com os serviços adequados às necessidades das pessoas que

nelas residem.

66
DDPDM. Parágrafo 7; DDPPD. Parágrafo 4; PPDMMASM. Cláusula Geral de Restrição.
67
Corte IDH, Caso Castillo Petruzzi e outros Vs. Perú. Mérito, Reparações e Custas. Sentença de 30 de maio de
1999. Série C No. 52, parágrafo 207; Caso Chitay Nech e outros. Vs. Guatemala. Exceções Preliminares, Mérito,
Reparações e Custas. Sentença de 25 de maio de 2010. Série C No. 212, parágrafo 213.
34
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Em relação à primeira vertente, seguindo as recomendações adicionadas ao Relatório de

Fundo No. 12/13 da CIDH, o Congresso do Estado de Exclutia redigiu projeto de lei para

reformar o artigo 41 do Código Civil, a fim de garantir e respeitar os direitos assegurados pela

CADH. Ademais, destacam-se as medidas tomadas pelo Estado para melhorar a infraestrutura de

“La Casita”, a fim de suprimir eventual violação aos direitos de seus residentes.

4. M E D I D A S P R O V I SÓ R I A S

No presente caso observa-se que foi pedido medidas provisorias, tendo em vista o

isolamento temporário de Cristal Tovar. Entretanto, tal alegação não deve prosperar.

De acordó com os instrumentos normativos cabiveis, as Medidas Provisórias se aplicam

apenas nos casos de extrema necessidade e urgencia, de acordo com os Artigos 63.2 da CADH e

25 do Regramento da Corte. Ainda é evidente que a situação que se apresenta seja de extrema

gravidade, sendo que possa ser ocasionado um dano irreparavel na vitima.

Nota-se que a prática de isolamento ela é permitida e admitida como forma de proteção a

integridade física da pessoa que passa por tal medida extrema. No caso não se caracteriza

nenhuma das situações, visto que a situação rápidamente foi solucionada, sendo Cristal Tovar

liberada do isolamento, logo após a crise nervosa. Não se encontra presente requisito algum para

que tais medidas possam vir a serem aplicadas, em conformidade com as disposições desta

Corte.

Cumpre destacar o entendimento desta Honorável Corte, em sede da Resolução de 25 de

novembro de 2009, na qual afirma que o Estado tem a obrigação de proteger a vida e a

35
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integridade das pessoas, e é claro que a medida de isolamento tem esse objetivo definido. Não

havendo motivos para se falar em medidas provisórias68

VII. S O L I C I T A Ç Ã O DE A SSI ST Ê N CIA

Diante do exposto, a República de Exclutia respeitosamente solicita que esta Honorável

Corte:

(i) considere inadmissível o presente caso, ou, alternativamente,

(ii) afaste o pedido de medidas provisórias apresentado pela ODNEI em favor da peticionaria e

(iii) julgue improcedente o pedido inicial apresentado pela CIDH pelas supostas violações aos

artigos 3º, 5º, 7º, 8º, 11, 24 e 25, em relação aos artigos 1.1 e 2º, todos da CADH.

68
Corte IDH. Resolução de 25 de novembro de 2009. Op. Cit. § 41; Caso Juan Humberto Sánchez
Vs.Honduras. Interpretación de la Sentencia de Excepción Preliminar, Fondo y Reparaciones. Sentencia de 26 de
noviembre de 2003. Serie C No. 102. § 111.
36