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Os anjos

Do alto da montanha pedi aos anjos que me mostrassem o que é a vida. Já não
pergunto mais quem eu sou, mas o que sou. Se sou vida, o que ela é que não eu?
Pedi a primeira vez e nada, nenhum anjo, nenhuma resposta. Os anjos
calaram-se.
Pensei na minha infância, pai, mãe, irmãos, parentes e amigos. Não consegui
associar aquelas tantas pessoas ao meu destino, à minha vida. Cheguei a duvidar da
vida e da sua própria existência, mas sabia que uma força estranha me movia. Olhei
ao redor, as árvores não se moviam, as pedras não se moviam, os rastos apagaram-se
do chão. Tudo tinha começo e tinha fim.
Pela segunda vez, perguntei aos anjos e eles novamente silenciaram. Nenhuma
imagem, nenhum som. Os pássaros do final da tarde passaram em revoada, vidas
suspensas no ar. De onde estão vindo e para onde estão indo? As aves se moviam, os
insetos se moviam, os pequenos micro organismo que eu não via, se moviam. Tudo se
move, tudo passa. A lua se preparava para iluminar a escuridão da noite e eu ali
buscava algum sentido para a vida. O instante é a vida ou a vida é o instante?
Assim como os pássaros, eu estava suspensa no cosmo, rotacionando e
translacionando com as pedras sob os meus pés. Quando a lua chegou senti-me
renovada e entreguei para a terra um pouco de meu sangue, combustível que mantinha
a minha carcaça funcionando. Cada movimento do meu corpo era determinado pelo
fluxo sanguíneo bombeado pela válvula do coração. Na terra, quem determina o
correr das águas dos rios para o mar?
Na terceira vez, perguntei, com todo o amor que transbordava do meu coração,
e os anjos finalmente responderam. Eram três seres de luz, de mãos postas em minha
direção. O primeiro tinha os olhos da cor do mar, o segundo cor de terra e o terceiro
cor de folha. Eles sorriam. O sorriso é a linguagem universal da aceitação. Os anjos
sorriam para mim com os seus olhos coloridos. Sentaram ao meu lado e me fizeram
adormecer. Virei uma existência, sem corpo e entrei, com leveza, nos olhos das águas,
nos olhos de terra, nos olhos do vento e nos olhos do fogo.
Acordei com uma sensação de plenitude; uma vida em cada batida do coração,
em cada respiração, em cada raio de luz, em cada gota d`água.
Os anjos, então, me pediram para revisitar todos os amigos, familiares, irmãos,
pai, mãe e encontrar, dentro do meu coração, o devido lugar de cada um:
- Reposicione-os.
Fechei os olhos e de um em um, foram tomando assento dentro dos meus
sonhos. Aqueles capazes de destruir a sutiliza do amor dentro de mim, foram sendo
vagarosamente eliminados da minha vida.
Acordei.
Deitada, olhando para o céu, vi os anjos partirem com os feixes de luz, para o
mesmo lugar que seguiam os pássaros. Do alto, a lua me sorria.
A vida não é uma experiência com data e hora marcadas. A vida é uma
existência divina sem começo nem fim, como um feixe de luz que transcende o tempo
e o espaço.
Nas minhas costas um vulcão em erupção. Uma espada se finca entre a cabeça
e o pescoço. Uma luz se apaga e outra acende clareando os meus olhos. O som as
arpas inundam os meus ouvidos
Se, ao morrer, o tempo lhe perguntar o que fez da vida? Diga, simplesmente,
que viveu.