Você está na página 1de 13

Art.

121 – Homicídio

1. Homicídio simples (artigo 121, caput):

1.1 – Objeto material: O tipo penal prevê como crime de homicídio o ato de suprimir a vida humana, não
definindo o modo empregado para tanto.

Assim, a norma admite criminosa qualquer conduta voltada ao término da vida da vítima: disparar arma de fogo,
desferir golpes de faca, golpeá-la com pedras ou pedaços de pau, eletrocutá-la, provocar ou libertar animal para
que a ataque etc. São incontáveis as maneiras que o autor do fato pode usar para matar alguém. Deve restar
caracterizado, entretanto, o nexo causal entre a conduta e o resultado morte.

O crime também pode restar caracterizado pela omissão do autor, nas hipóteses de crime omissivo impróprio
(também designado comissivo-omissivo ou comissivo por omissão), que ocorre quando a norma impõe ao autor
obrigação de impedir a ocorrência crime (fala-se também em impedir o resultado), previstas no artigo 13, §2.º,
do Código Penal.

A conduta também admite a colaboração de terceiros: a coautoria e/ou a participação.

Obs¹: O homicídio simples será considerado hediondo se praticado em “... atividade típica de grupo de
extermínio...”, mesmo praticado por um só agente. Também será hediondo o homicídio qualificado, previsto nas
hipóteses do § 2.º do artigo 121 (artigo 1.º, inciso I, da Lei n.º 8072/90).

1.2. – Sujeito ativo: Qualquer pessoa pode praticar o crime de homicídio (ele é considerado um crime comum),
sem exigir a lei alguma qualificação particular do autor.

1.3. – Sujeito passivo: Qualquer um (ser humano) pode ser vítima de homicídio, basta ter sido concebido a partir
do ventre materno (ter nascido de mulher) e ter vida.

Também são vítimas de homicídio o deformado, o moribundo, o paciente terminal etc., pois, mesmo quando
severamente debilitados e acometidos de sofrimento imensurável, são titulares do bem jurídico tutelado (a vida
humana).
A eutanásia desses não escapa do alcance do artigo 121, pois também configura homicídio. Contudo, ao
menos em tese, ela pode autorizar o reconhecimento do homicídio privilegiado, impelido por relevante valor
moral, em razão de um espírito de piedade, com o fim de encerrar o sofrimento da vítima.

Obs¹: A eutanásia, por sua vez, não caracteriza homicídio, pois, resumindo-se apenas à aplicação de paliativos
para a dor e o sofrimento, até a morte natural do doente terminal, disso não advirá nexo causal entre terapia
ministrada e o resultado fatal. Tampouco se pode reconhecer na hipótese o crime comissivo por omissão, pois,
não havendo cura para a doença, não haverá omissão médica, em razão da falta de tratamento à espécie.

Obs²: Na hipótese de nascituro, compreende a doutrina que dar causa à morte do feto antes do início do trabalho
de parto caracteriza o crime de aborto. Após, haverá homicídio. Aliás, a mesma orientação segue o tipo penal do
infanticídio, já que este só se caracterizará quando a conduta da mãe ocorrer “durante o parto ou logo após” (art.
123 do Código Penal). Antes disso, a contrario sensu, o crime será de aborto.

O argumento de que o neonato (recém-nascido) não sobreviveria, por sua vez, também não descaracteriza do
crime, pois para o homicídio basta a vítima ter nascido com vida.
1
Obs³: O natimorto ou o cadáver não podem ser considerados vítimas de homicídio, justamente por não
possuírem vida.

1.4. – Elemento subjetivo: Constitui-se no animus necandi, no animus occidendi, que se traduzem a intenção de
tirar a vida do ser humano. O que configura o dolo do homicida é o agir consciente na prática de ato cujo
resultado será a morte de terceiro.

Também é possível o dolo eventual, em que o autor age admitindo o óbito, no máximo, como possível, sem
pretendê-lo diretamente.

1.5 – Consumação: O crime se consuma quando a conduta do autor resulta na morte da vítima, pois nesse caso o
fato contém “... todos os elementos de sua definição legal.” (artigo 14, inciso I, do código Penal).

A tentativa ocorre quando, não obstante praticados os atos de execução para a ocorrência da morte, ela não
advém “... por circunstâncias alheias à vontade do agente.” (artigo 14, inciso II, do Código Penal).

Um simples exemplo disso é o da vítima que sobrevive depois de alvejada por disparos de arma de fogo. O
evento morte não ocorreu apesar do esforço do autor em tentar obtê-lo.

Quando a vítima sobreviver da tentativa e restar lesionada, contudo, não se pode reconhecer o enquadramento
da conduta do autor como sendo crime de lesão corporal, justamente porque o dolo (o animus necandi) dele foi
muito além da mera intenção de ofender a integridade física. O elemento subjetivo, nessas hipóteses, será,
então, o que difere o homicídio frustrado (tentado) de algum outro delito menos grave e (ao menos
materialmente) consumado, como pode ser a lesão corporal.

2. – Homicídio Privilegiado (§ 1.º do artigo 121):

A doutrina fraciona o estudo do homicídio privilegiado previsto no § 1.º do artigo 121 do Código Penal em razão
dos motivos determinantes do crime.

Num primeiro momento, considera o relevante valor social ou moral.

O relevante valor social é aquele que alcança mais a defesa dos interesses da coletividade.

O relevante valor moral é aquele que toca o espírito de moralidade do autor (sua compaixão, piedade etc.),
citando a doutrina como clássico exemplo a possibilidade da eutanásia, pela qual o autor encerra a vida da vítima
em razão de um sofrimento interminável e incurável.

A seguir, considera privilegiado aquele homicídio impelido por violenta emoção, seguida da injusta provocação
da vítima.

Esta privilegiadora compõe-se de três elementos: a emoção violenta, a injusta provocação da vítima e a reação
imediata em razão da provocação.

A emoção violenta para fins deste parágrafo é aquela que domina o autor, provocando-lhe um choque
emocional, já que a lei fala “... sob o domínio...”.

2
Injustiça da provocação é a relação de contrariedade deste ato com a lei, a atitude legítima da vítima não
configura o homicídio privilegiado.

A reação do autor também deve ser imediata, sem premetidações ou intervalos de tempo que permitam
compreender cessado o violento estado emotivo que o dominou.

Obs¹: Se a violenta emoção já não dominar o autor no momento do crime, agindo ele apenas sob a influência dela
e/ou a injusta provocação não é mais imediata, não se pode falar em homicídio privilegiado, configurando-se, no
máximo, homicídio simples, no qual se pode considerar, em tese, a circunstância atenuante do artigo 65, inciso
III, alínea “c” do Código Penal.

3. – Homicídio qualificado (§ 2.º do artigo 121)

O crime qualificado é aquele que, tendo como delituosa conduta já prevista em lei, agregam-se a ela outros
elementos que demonstram uma maior ofensividade ao bem jurídico, daí se justificando uma pena diversa (mais
severa) daquela prevista para a forma simples do crime.

O homicídio será qualificado quando verificadas no caso concreto as hipóteses do § 2.º do artigo 121 do Código
Penal.

Obs¹: Em todas as hipóteses de homicídio qualificado do § 2.º o crime será hediondo, por força do inciso I do
artigo 1.º da Lei n.º 8072/90.

Obs²: A jurisprudência considera a possibilidade de haver crime qualificado-privilegiado, no qual se admite a


coexistência dos motivos do § 1.º (circunstâncias subjetivas) e das circunstâncias do § 2.º (circunstâncias
objetivas) do artigo 121, compreendendo, contudo, que nessas situações não é reconhecida a natureza hedionda
do delito.

3.1 – No inciso I restará qualificado o crime cometido mediante paga ou promessa de recompensa (homicídio
mercenário), respondendo por ele o executor.

O mandante, que paga e/ou promete a recompensa também responde pela qualificadora, pois as condições de
caráter pessoal previstas no tipo se comunicam – artigo 30 do Código Penal.

Pode haver concurso de pessoas em coautoria ou participação desde que os terceiros envolvidos saibam dessa
condição.

O motivo torpe também provoca a hediondez do crime, que se constitui na motivação moralmente reprovável
(ex: a rejeição, a inveja, etc.).

3.2 – No inciso II aparece isolada a figura do motivo fútil, que é o insignificante, desarrazoado, desproporcional à
própria conduta do homicídio. Evidencia-se ele quando se destaca a insignificância da motivação em relação ao
crime praticado (ex: morte por dívida, por ofensa verbal etc.).

O ciúme é compreendido como motivo fútil pela desproporção entre tal sentimento e o ato de matar.

A doutrina debate se a ausência de motivação do homicida também não caracterizaria o motivo fútil, pois, ao
menos em tese, a falta de razões para matar é mais desproporcional que o motivo insignificante.
3
Sobre o tema, os precedentes do Superior Tribunal de Justiça não admitem que a falta e motivos para matar seja
igualada à insignificância de alguma razão, pelo que se compreende incidente, neste caso, apenas a figura do
homicídio simples:

“HABEAS CORPUS. HOMICÍDIO QUALIFICADO TENTADO. RECURSO QUE DIFICULTOU A DEFESA. MOTIVO FÚTIL.
PRONÚNCIA. EXCLUSÃO. QUALIFICADORA MANIFESTAMENTE IMPROCEDENTE. AUSÊNCIA DE MOTIVOS NÃO SE
EQUIPARA À FUTILIDADE. CONSTRANGIMENTO ILEGAL EVIDENCIADO. ORDEM CONCEDIDA. 1. Em respeito ao
princípio do juiz natural, somente é cabível a exclusão das qualificadoras na sentença de pronúncia quando
manifestamente improcedentes e descabidas, porquanto a decisão acerca da sua caracterização ou não deve
ficar a cargo do Conselho de Sentença, conforme já decidido por esta Corte. 2. Na hipótese em apreço, a
incidência da qualificadora prevista no art. 121, § 2º, inciso II, do Código Penal, é manifestamente descabida,
porquanto motivo fútil não se confunde com ausência de motivos, de tal sorte que se o crime for praticado
sem nenhuma razão, o agente somente poderá ser denunciado por homicídio simples (Precedentes STJ). 3.
Ordem concedida para excluir da sentença de pronúncia a qualificadora prevista no inciso II do § 2º do art. 121
do Código Penal. (STJ, HC 152.548/MG, Rel. Ministro Jorge Mussi, 5.ª Turma, julgado em 22/02/2011, DJe
25/04/2011).

3.3 – O inciso III não contém dificuldades em sua redação, deixando claro que o emprego de veneno, fogo,
explosivo, asfixia ou tortura no ato de matar qualificam o delito.

Por sua vez, o meio insidioso é o desleal, o desconhecido pela vítima, e o cruel é o que impõe a ela um
sofrimento maior do que o necessário para a prática do crime.

O meio que pode resultar em perigo comum pode ser a provocação de um desastre natural capaz de atingir
terceiros, como inundação, contaminação de águas, envenenamento de alimentos etc.

3.4 – No inciso IV, compreende-se que a traição é o ataque inesperado, que não foi pressentido pela vítima.

De outro lado, a emboscada é a tocaia, na qual o autor se oculta em determinado local à espera da vítima.

A parte final do inciso IV acaba mantendo aberto um espectro indefinido de meios (recursos) aptos a
qualificarem o crime. E para incidirem, basta que o uso deles resulte na dificuldade ou impossibilidade de a vítima
oferecer defesa contra a agressão.

3.5 – No inciso V, admite-se qualificado o homicídio praticado com o fim de garantir a execução, ocultação,
impunidade ou a vantagem de outro crime. Tal circunstância se configura quando também comprovada a prática
do crime fim, aquele cuja execução, ocultação, impunidade ou proveito se quer garantir.

3.6 – inciso VI – Feminicídio – A qualificação do homicídio que tem como vítima a mulher se trata de inovação
recente, a partir da Lei nº 13.104 de 2015.

Pela sumária leitura do inciso VI se poderia concluir que basta a condição biológica de gênero feminino da vítima
para que o homicídio assim se torne qualificado. Contudo, o alcance da norma acaba contido pelo § 2º-A, que
cuida de definir as hipóteses nas quais, efetivamente, a situação se configura autêntico feminicídio.

A tese da violação ao princípio constitucional da igualdade entre homens e mulheres tem potencial de esbarrar
na outorga que a própria Carta Magna confere à lei, de estabelecer desigualdades consubstanciais em seu
4
conteúdo (artigo 5º, caput, da Constituição Federal). Além disso, a política de proteção contra a violência
doméstica também dá suporte à adoção de sanções mais severas, objetivando repreender e prevenir com maior
rigor delitos desta natureza.

3.7 – inciso VII - Passa a ser qualificado, também, o crime cuja vítima integra as Forças Armadas (Marinha,
Exército e Aeronáutica), tal como os integrantes dos órgãos de segurança pública constitucionalmente instituídos
(artigos 142 e 144 CF), além dos servidores do sistema prisional e da Força Nacional de Segurança Pública.

Doutrinariamente, esta qualificadora se justifica porque o atentado a tais servidores resulta em maior lesividade
à sociedade, ofendida justamente nos contingentes responsáveis pelo resguardo da soberania e da segurança da
nação, acabando por alcançar, também, os familiares de ditos servidores, enquanto vítimas..

Quer parecer que a incidência da qualificadora do inciso VII pressupõe prévia ciência do autor do fato sobre a
condição pessoal da vítima, enquanto integrante das instituições de defesa e segurança e seus parentes
próximos.
§ 2º-A - Cuidou o legislador de atribuir ao § 2º-A do artigo 121 o efetivo alcance das situações do inciso VI do § 2º
do artigo 121, expondo em seu inciso I as hipóteses de violência doméstica e familiar, normativamente elencadas
nos incisos I a III do artigo 5º da Lei nº 11.340/06. Em resumo, a proximidade afetiva, familiar e domiciliar entre
autor e vítima bastam para que o homicídio assuma viés de feminicídio.

Atos de menosprezo, desdém, desconsideração etc. ou discriminação e segregação, integrantes da conduta


homicida, também são aptos a qualificarem o homicídio, independendo, neste caso, de alguma proximidade
familiar, de hospitalidade ou afetiva entre autor e vítima.

Apesar de aparente imprecisão do legislador ao empregar o termo “discriminação”, quer parecer que neste caso
ela deve ser depreciativa da vítima.

4. Homicídio culposo é o que advém do descumprimento de um dever de cuidado objetivo, resultado da


imprudência, imperícia ou negligência do autor. E apesar de ser esperado o resultado, ele não é consentido. Por
certo, os demais elementos do crime também devem estar presentes para que o delito se constitua (tipicidade,
antijuridicidade, culpabilidade etc.).

Obs¹: O homicídio culposo de trânsito encontra regulação especial no Código de Trânsito Brasileiro (artigo 302 da
Lei n.º 9.503/97).

A primeira parte do artigo 70 do Código Penal admite a hipótese de concurso formal para o homicídio culposo. Se
houver concurso de homicídios, ele será homogêneo, se o crime de homicídio concorrer com outra espécie
delitiva o concurso será heterogêneo.

5. - § 4.º - A primeira parte do § 4.º do artigo 121 do Código Penal prevê que será aumentada a pena do
homicídio culposo quando o autor viola regra técnica de profissão, arte ou ofício. Noutros termos, se, além da
imprudência, imperícia ou negligência, a conduta do autor denotar violação de norma técnica relativa profissão,
arte ou ofício, incidirá o aumento de 1/3 (um terço) da pena.

5
Contudo, deve se compreender a regra técnica violada como particularmente oponível ao autor (ex: sendo
engenheiro de segurança, orientar empregados de empresa a fim de que laborem sem utilização do
equipamento de proteção individual exigido).

A negativa de socorro à vítima ou a fuga do local para evitar a prisão em flagrante também autorizam o aumento
da pena. Mas quando justificadas a omissão do socorro ou a fuga, o aumento por tais fundamentos não deve
incidir. A fuga, por seu turno deve ter o fim especial de evitar a prisão em flagrante.

- A segunda parte do § 4.º do artigo 121 do Código Penal é criticada pela doutrina em razão da posição em que
colocada dentro da norma, já que deslocada da apreciação do homicídio doloso.

Seu objetivo, contudo, é o de impor maior proteção o menor de 14 anos e ao maior de 60, que, pelas reduzidas
aptidões físicas, presume-se não conseguirem opor resistência às agressões que lhes são dirigidas.

6. - § 5.º - Perdão Judicial – A disciplina do § 5.º do Código Penal contempla a hipótese de perdão judicial para o
crime de homicídio culposo, pelo qual se confere ao Juiz a possibilidade de deixar de aplicar a pena, se as
consequências do crime se revelarem tão severas que, por si só já implicam em punição.

Um exemplo possível disso é o homicídio culposo em que o pai desastroso mata o próprio filho, por certo que sua
a “culpa”, entendida aqui como a agrura de seu sofrimento emocional, já é punição suficientemente capaz de
dispensá-lo da imposição de uma pena privativa de liberdade, pelo que a lei confere ao Juiz a faculdade de deixar
de aplicar a pena. Também o acidente em que o próprio autor restou mutilado pode constituir hipótese a ensejar
o perdão judicial.

7. - § 6.º - Aumento de pena na hipótese da prática de crime por milícia privada ou grupo de extermínio – A
causa especial de aumento do artigo 121 do código penal prevista aqui, recentemente acrescentada pela Lei n.º
12.720/12, autoriza o aumento da pena de 1/3 (um terço) até metade, se o homicídio foi promovido por milícia
privada, que atuou motivada pela prestação de serviço de segurança, ou por grupo de extermínio.

A rigor, quando da atuação de milícia privada, extrai-se a exigência de um dolo específico para a incidência do
aumento, que é justamente o homicídio quando da realização de serviço de segurança.

Quando a prática do crime decorrer da atuação de grupo de extermínio, contudo, não se exige essa motivação
especial.

Entretanto, o assunto é novo e, por sua relevância, passível de importante debate.

8. - § 7º - Estas causas especiais de aumento de pena incidem quando reconhecida a prática do crime contra
gestante ou pós-gestante, no prazo máximo de três meses do parto, contra a menor de 14 anos ou maior de 60,
assim como na presença de ascendente ou descendente da vítima.

Homicídio simples
Art 121. Matar alguém:
Pena - reclusão, de seis a vinte anos.
Caso de diminuição de pena

6
§ 1º Se o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor social ou moral, ou sob o domínio de
violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima, ou juiz pode reduzir a pena de um sexto a um
terço.
Homicídio qualificado
§ 2° Se o homicídio é cometido:
I - mediante paga ou promessa de recompensa, ou por outro motivo torpe;
II - por motivo futil;
III - com emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou outro meio insidioso ou cruel, ou de que possa
resultar perigo comum;
IV - à traição, de emboscada, ou mediante dissimulação ou outro recurso que dificulte ou torne impossível a
defesa do ofendido;
V - para assegurar a execução, a ocultação, a impunidade ou vantagem de outro crime:
Feminicídio (Incluído pela Lei nº 13.104, de 2015)
VI - contra a mulher por razões da condição de sexo feminino: (Incluído pela Lei nº 13.104, de 2015)
VII – contra autoridade ou agente descrito nos arts. 142 e 144 da Constituição Federal, integrantes do sistema
prisional e da Força Nacional de Segurança Pública, no exercício da função ou em decorrência dela, ou contra seu
cônjuge, companheiro ou parente consanguíneo até terceiro grau, em razão dessa condição: (Incluído pela
Lei nº 13.142, de 2015)
Pena - reclusão, de doze a trinta anos.
§ 2o-A Considera-se que há razões de condição de sexo feminino quando o crime envolve: (Incluído pela Lei
nº 13.104, de 2015)
I - violência doméstica e familiar; (Incluído pela Lei nº 13.104, de 2015)
II - menosprezo ou discriminação à condição de mulher. (Incluído pela Lei nº 13.104, de 2015)
Pena - reclusão, de doze a trinta anos.
Homicídio culposo
§ 3º Se o homicídio é culposo:
Pena - detenção, de um a três anos.
Aumento de pena
§ 4o No homicídio culposo, a pena é aumentada de 1/3 (um terço), se o crime resulta de inobservância de regra
técnica de profissão, arte ou ofício, ou se o agente deixa de prestar imediato socorro à vítima, não procura
diminuir as conseqüências do seu ato, ou foge para evitar prisão em flagrante. Sendo doloso o homicídio, a pena
é aumentada de 1/3 (um terço) se o crime é praticado contra pessoa menor de 14 (quatorze) ou maior de 60
(sessenta) anos.
§ 5º - Na hipótese de homicídio culposo, o juiz poderá deixar de aplicar a pena, se as conseqüências da infração
atingirem o próprio agente de forma tão grave que a sanção penal se torne desnecessária.
§ 6o A pena é aumentada de 1/3 (um terço) até a metade se o crime for praticado por milícia privada, sob o
pretexto de prestação de serviço de segurança, ou por grupo de extermínio.
§ 7o A pena do feminicídio é aumentada de 1/3 (um terço) até a metade se o crime for praticado: (Incluído
pela Lei nº 13.104, de 2015)
I - durante a gestação ou nos 3 (três) meses posteriores ao parto; (Incluído pela Lei nº 13.104, de 2015)
II - contra pessoa menor de 14 (catorze) anos, maior de 60 (sessenta) anos ou com deficiência; (Incluído pela Lei
nº 13.104, de 2015)III - na presença de descendente ou de ascendente da vítima.

Art. 122 - Induzimento, instigação ou auxílio a suicídio

Induzimento, instigação ou auxílio a suicídio


Art. 122 - Induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou prestar-lhe auxílio para que o faça:
Pena - reclusão, de dois a seis anos, se o suicídio se consuma; ou reclusão, de um a três anos, se da tentativa de
7
suicídio resulta lesão corporal de natureza grave.
Parágrafo único - A pena é duplicada:
Aumento de pena
I - se o crime é praticado por motivo egoístico;
II - se a vítima é menor ou tem diminuída, por qualquer causa, a capacidade de resistência.

1.1 – Objeto material: O tipo penal resume às condutas de induzir, instigar ou auxiliar o suicídio ou a tentativa
dele que resultar em lesão corporal de natureza grave.

O induzimento assume o significado de sugestão de vontade, de fazer surgir na mente da vítima a ideia do
suicídio.

A instigação pode ser compreendida como o estímulo a uma vontade suicida preexistente na psique da vítima.

O auxilio é a ajuda material no fornecimento do instrumento, podendo ser também a indicação do modo como
proceder para obter o óbito, situação em que o auxílio será moral.

Em qualquer hipótese, contudo, é indispensável a prova do nexo causal entre a ingerência do autor do fato e o
suicídio (ou tentativa).

A realização da conduta por omissão é controversa, havendo argumentos no sentido de não ser possível omissão
no induzimento, na instigação ou no auxílio, por se tratarem de condutas comissivas. De outro lado, argumenta-
se que o crime admite a possibilidade de ser comissivo-impróprio quando o autor é incumbido do dever de
impedir o resultado.

1.2. – Sujeito ativo: Qualquer pessoa pode induzir, instigar ou auxiliar o suicídio. Trata-se de crime comum.

1.3. – Sujeito passivo: É a pessoa física que pode ser induzida, instigada ou auxiliada a fim de que pratique
suicídio. Então, extrai-se daí que aquele sem completa aptidão mental para formular validamente algum ideal
suicida, sem condições de responder por seus atos, como é o inimputável, não pode ser vítima de suicídio.

Neste caso, haverá crime de homicídio por autoria mediata. Não possuindo consciência do que faz, a vítima será
o instrumento da vontade de outro em sua própria morte. Então, aquele que “induziu”, “instigou” ou “auxiliou” o
interditado será o autêntico homicida.

Conclui-se, portanto, que para se configurar o tipo do artigo 122, a vítima deve possuir alguma compreensão das
consequências do ato que pretende praticar e o autor do crime incorrerá nas sanções do artigo 122 do Código
Penal quando fomentar a vontade autodestrutiva daquela, praticando uma das três condutas elencadas na
norma.

1.4. – Elemento subjetivo: Compreende apenas o dolo, a vontade consciente de induzir, instigar ou auxiliar o
suicídio. Não há previsão à modalidade culposa.

1.5. – Consumação – O crime se consuma com o induzimento, a instigação ou o auxílio, do qual sobrevém o
suicídio ou a lesão corporal de natureza grave, sendo estes dois últimos elementos os resultados da conduta da
própria vítima.

8
A tentativa, contudo, não se afigura possível, pois, com a prática de uma das três condutas inicialmente descritas,
a ação delitiva do autor já encerra todos os elementos da definição legal do crime. A norma penal não quer punir
a conduta do suicida, mas apenas daquele que induziu, instigou ou auxiliou-o na própria morte.

Assim, se o suicida não lograr êxito na própria morte e da tentativa também não resultar lesão corporal de
natureza grave, a conduta será atípica.

2. – O parágrafo único contém formas qualificadas para o tipo penal do artigo 122 do Código Penal, que, quando
reconhecidas, impõem a duplicação da pena.

Uma delas é o delito motivado por razões egoísticas, não necessariamente pecuniárias (ex: herança, vantagem
pessoal etc.).

Outra decorre da menoridade da vítima ou da redução de sua capacidade de resistência, por qualquer causa (ex:
alguma perturbação mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado).

Obs¹: O suicídio, considerado em si mesmo, não é crime, não punindo a lei aquele que, por ato próprio,
extermina a própria vida, ou ao menos tenta. Contudo, a norma penal responsabiliza o terceiro que manifesta
importante apoio pessoal ao suicida, manifestando-o através das condutas previstas no artigo 122 do Código
Penal.

Art. 123 - Infanticídio


Infanticídio

Art. 123 - Matar, sob a influência do estado puerperal, o próprio filho, durante o parto ou logo após:
Pena - detenção, de dois a seis anos.

1.1. - Objeto material: O tipo descreve o ato de matar, sem destacar alguma forma preestabelecida para tanto.

Exige-se, contudo que o delito ocorra durante ou logo após o parto, ainda estando autora sob a influência do
estado puerperal.

Há, assim, um elemento temporal, pois o ato deve ser praticado durante o parto ou logo após. Se for praticado
antes do parto, será aborto. Se for praticado muito após o parto, será homicídio. Sem ignorar, também, o estado
puerperal.

Este, por seu turno, é considerado um desequilíbrio fisiopsíquico da mãe, não sendo suficiente para reconhecê-lo
apenas alguma motivação moral para o crime.

1.2. – Sujeito ativo: Considera-se crime próprio porque a lei impõe ao sujeito ativo uma qualidade especial. No
caso, a mãe da vítima será a autora do crime de infanticídio (“Matar, sob a influência do estado puerperal, o
próprio filho...”).

Obs¹: Apesar de se considerar crime próprio, reconhece-se no infanticídio a coautoria e a participação de


terceiros, que também responderão por ele, mesmo que, sob o aspecto fisiopsíquico, não estejam sob influência
do estado puerperal. Isso ocorre sob o argumento de que as condições de caráter pessoal, no caso, são
elementares do tipo, assim, elas se comunicam a terceiros (artigo 30 do Código Penal).
9
1.3. – Sujeito passivo é aquele que está nascendo ou o recém-nascido, quando possuírem vida. A prova da vida
deve ocorrer através de exame pericial, pelas docimasias respiratórias e não respiratórias.

1.4. - Elemento subjetivo: É o dolo. Por não prever a norma penal modalidade de infanticídio culposo, a autora
só responderá pela prática de homicídio culposo.

1.5. – Consumação: O crime se consuma com a morte da vítima, admitindo-se a tentativa quando o óbito não
sobrevém por circunstâncias alheias à vontade do autor.
Art. 124 - Aborto provocado pela gestante ou com seu consentimento

Aborto provocado pela gestante ou com seu consentimento

Art. 124 - Provocar aborto em si mesma ou consentir que outrem lho provoque:
Pena - detenção, de um a três anos.

1.1. – Objeto material: A norma pune inicialmente o autoaborto, ato de a gestante provocar em si mesma a
interrupção da gravidez. Após, acaba coibindo o consentimento da gestante para que terceiro lhe provoque
aborto.
Obs²: O terceiro que obteve o consentimento para o aborto responde como incurso no tipo penal previsto no
artigo 126 do Código Penal, caso o provoque.
1.2. – Sujeito ativo: É crime próprio, no qual só se considera autora do crime a gestante.
Admite-se, contudo, participação e coautoria daquele que presta auxílio a ela.
1.3. – Sujeito passivo: Pode ser o zigoto, o embrião ou o feto, independentemente do estágio de
desenvolvimento, também se pode considerar como sujeito passivo o Estado, pois a proteção do nascituro e da
vida são seus interesses.
1.4. – Elemento subjetivo: É o dolo de provocar o aborto ou consentir para que outra pessoa o faça. Pode haver
dolo eventual, mas não há crime de aborto culposo.
1.5. – Consumação: O delito se consuma com o êxito do aborto, a morte do nascituro. Admitindo-se a tentativa
se tal resultado não advém, apesar das manobras abortivas empregadas.

Aborto do Anencéfalo (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 54)

No julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 54 (ADPF nº 54), compreendeu o


pleno do Supremo Tribunal Federal pela atipicidade do crime de aborto quando da interrupção da gravidez do
embrião anencéfalo, sem margem a ampliação do entendimento a outras doenças congênitas, sob o fundamento
da inviabilidade do desenvolvimento do feto, assim como da vida extrauterina, dentre outras razões.

Aborto até o terceiro mês de gestação (Habeas Corpus nº 124.306-RJ – STF)

No julgamento do Habeas Corpus nº 124.306/RJ, admitiu-se a concessão da liberdade nos casos de crime de
aborto, compreendendo-se pela atipicidade da manobra abortiva até o terceiro mês de gravidez,
independentemente da viabilidade da sobrevida do embrião, não se tratando, assim, de conduta criminosa.

Isso sob os fundamentos dos direitos sexuais e reprodutivos da mulher, sua autonomia, integridade física e
psíquica, tal como a própria igualdade em relação ao homem. Com destaque a estes fundamentos, entre outros
de aspecto processual e formal, o Ministro Luís Roberto Barroso justificou seu voto pela concessão da ordem.

10
Tal decisão, contudo, trata-se apenas de um precedente jurisprudencial, sem efeito vinculante.
Art. 126 - Aborto provocado por terceiro com o consentimento da gestante.

Aborto provocado por terceiro com o consentimento da gestante.


Art. 126 - Provocar aborto com o consentimento da gestante:
Pena - reclusão, de um a quatro anos.
Parágrafo único. Aplica-se a pena do artigo anterior, se a gestante não é maior de quatorze anos, ou é alienada
ou debil mental, ou se o consentimento é obtido mediante fraude, grave ameaça ou violência.

1.1. – Objeto material: Neste tipo penal há repreensão à conduta de provocar o aborto, que recebe menos rigor
daquela prevista no artigo 125 porque aqui é consentida pela gestante.

1.2. – Sujeito ativo: Qualquer pessoa que provoque o aborto, mediante consentimento da gestante.

1.3. – Sujeito passivo: O feto e também o Estado (defesa dos interesses do nascituro e da vida), sem
desconsiderar a controvérsia da doutrina sobre quem é efetivamente o sujeito passivo do crime.

1.4. – Elemento subjetivo: É apenas o dolo, a vontade consciente de provocar o aborto, mediante consentimento
da gestante. Não há previsão para o crime culposo nesta hipótese.

1.5. – Consumação: O crime se consuma com a morte do feto e há espaço para a tentativa, quando o resultado
não ocorre por circunstâncias alheias à vontade do autor.

2. – Consentimento viciado (Parágrafo único): Quando a gestante não é maior de 14 anos a lei não considera o
seu consentimento, por presumir que ele é inválido, incapaz, assim, de aproveitar o terceiro que pratica o aborto.
Este deve responder, nesta situação, pela modalidade mais grave, como se tivesse praticado o delito sem a
anuência da gestante, na forma do artigo 125 do Código Penal.

A mesma regra incide quando demonstrada a alienação ou a debilidade mental da gestante, ou a obtenção do
seu consentimento mediante fraude, grave ameaça ou violência.

Aborto do Anencéfalo (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 54)

No julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 54 (ADPF nº 54), compreendeu o


pleno do Supremo Tribunal Federal pela atipicidade do crime de aborto quando da interrupção da gravidez do
embrião anencéfalo, sem margem a ampliação do entendimento a outras doenças congênitas, sob o fundamento
da inviabilidade do desenvolvimento do feto, assim como da vida extrauterina, dentre outras razões.

Aborto até o terceiro mês de gestação (Habeas Corpus nº 124.306-RJ – STF)

No julgamento do Habeas Corpus nº 124.306/RJ, admitiu-se a concessão da liberdade nos casos de crime de
aborto, compreendendo-se pela atipicidade da manobra abortiva até o terceiro mês de gravidez,
independentemente da viabilidade da sobrevida do embrião, não se tratando, assim, de conduta criminosa.

Isso sob os fundamentos dos direitos sexuais e reprodutivos da mulher, sua autonomia, integridade física e
psíquica, tal como a própria igualdade em relação ao homem. Com destaque a estes fundamentos, entre outros
de aspecto processual e formal, o Ministro Luís Roberto Barroso justificou seu voto pela concessão da ordem.
11
Tal decisão, contudo, trata-se apenas de um precedente jurisprudencial, sem efeito vinculante.

Art. 127 - Forma qualificada

Forma qualificada

Art. 127 - As penas cominadas nos dois artigos anteriores são aumentadas de um terço, se, em conseqüência do
aborto ou dos meios empregados para provocá-lo, a gestante sofre lesão corporal de natureza grave; e são
duplicadas, se, por qualquer dessas causas, lhe sobrevém a morte.

1. – Formas qualificadas: Se do aborto ou do método empregado para realizá-lo resultar lesão corporal de
natureza grave à autora, a pena deve ser aumentada em 1/3. Se resultar na morte da gestante, a pena deve ser
duplicada.
Tanto a lesão corporal como a morte da gestante devem ser consideradas para o aumento da pena, na forma
desse artigo, apenas ao terceiro que pratica as condutas do artigo 125 e 126 do Código Penal.
Configura-se aqui uma hipótese de crime preterdoloso, em que a lesão corporal de natureza grave ou a morte
sobrevêm a título de culpa.
Entretanto, se a lesão corporal ou a morte eram pretendidas pelo autor, a situação configura concurso de crimes
(aborto e homicídio).
Art. 128 - Hipóteses de aborto legitimado (aborto legal)

Hipóteses de aborto legitimado (aborto legal)


Art. 128 - Não se pune o aborto praticado por médico:
Aborto necessário
I - se não há outro meio de salvar a vida da gestante;
Aborto no caso de gravidez resultante de estupro
II - se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de
seu representante legal.

1.1. – A hipótese de aborto necessário (inciso I do artigo 128 do Código Penal) se enquadraria no artigo 24 do
Código Penal, pelo sacrifício de um bem jurídico (a vida intrauterina) para o salvamento de outro (a vida da
gestante). Mesmo assim, o legislador entendeu por discipliná-lo na Parte Especial do Código Penal, que se difere
da excludente de ilicitude da Parte Geral por não exigir aqui a existência de perigo atual ao bem jurídico que se
quer salvar.

1.2. – O aborto em vítima de estupro, por seu turno, depende de prévio consentimento dela ou, enquanto
incapaz, de seu representante legal. A doutrina designa essa excludente como aborto humanitário, ético ou
sentimental, por permitir que a vítima de estupro aborte ser concebido de modo indesejado, violento. Não lhe
impõe, assim, a obrigação de aceitar a concepção advinda da violência que sofreu.

Não há exigência de se reconhecer judicialmente a prática do crime de estupro. Contudo, alguma cautela se
impõe antes de se admitir o aborto nessas circunstâncias.

O aborto necessário e o humanitário são considerados pela doutrina como excludentes da ilicitude, embora a
redação da norma dê a entender que se trata de excludente da punibilidade, ao empregar no artigo 127 do
Código penal a expressão “Não se pune...”.

12
1.3. – O Aborto eugênico não está previsto em lei, sendo, contudo, reconhecido como legítimo pela doutrina e
jurisprudência, ocorrendo quando demonstrada a inviabilidade da vida do nascituro fora do útero, em razão de
anomalias, malformações e/ou doenças:

HABEAS CORPUS INTERRUPÇÃO DA GRAVIDEZ – FETO PORTADOR DE SÍNDROME DE EDWARDS – VIDA


EXTRAUTERINA INVIÁVEL – RISCO EMINENTE À GESTANTE – MANUTENÇÃO DA GESTAÇÃO QUE PODE CAUSAR
GRANDES TRANSTORNOS À SAÚDE FÍSICA E EMOCIONAL – ATENÇÃO AO PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA
HUMANA ORDEM CONCEDIDA. (TJSP, Habeas Corpus n.º0210254-34.2012.8.26.0000, 6.ª Câmara Criminal, Rel.
Marco Antônio Marques da Silva, j. em 27/09/2012).

APELAÇÃO. PEDIDO DE INTERRUPÇÃO DE GESTAÇÃO. FETO ANENCÉFALO E COM MÚLTIPLAS MAL-FORMAÇÕES


CONGÊNITAS. INVIABILIDADE DE VIDA EXTRA-UTERINA COMPROVADA POR EXAMES MÉDICOS. PRINCÍPIO DA
DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA. APLICAÇÃO DO ARTIGO 128, I, DO CÓDIGO PENAL, POR ANALOGIA IN BONAM
PARTEM. Comprovadas por variados exames médicos a anencefalia e as múltiplas mal-formações congênitas
do feto, de modo a tornar certa a inviabilidade de vida extra-uterina do nascituro, é possível a interrupção da
gestação com base no Princípio constitucional da Dignidade da Pessoa Humana e, por analogia in bonam
partem, no artigo 128, I, do Código Penal. (...). O aborto eugênico, embora não autorizado expressamente pelo
Código Penal, pode ser judicialmente permitido nas hipóteses em que comprovada a inviabilidade da vida
extra-uterina, independente de risco de morte da gestante, pois também a sua saúde psíquica é tutelada pelo
ordenamento jurídico. A imposição de uma gestação comprovadamente inviável constitui tratamento
desumano e cruel à gestante. 3. Parecer favorável do Ministério Público, nas duas instâncias. RECURSO
PROVIDO. (TJRGS, Apelação Crime nº 70040663163, 3.ª Câmara Criminal, Relator: Nereu José Giacomolli, j. em
30/12/2010).

Aborto do Anencéfalo (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 54)

No julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 54 (ADPF nº 54), compreendeu o


pleno do Supremo Tribunal Federal pela atipicidade do crime de aborto quando da interrupção da gravidez do
embrião anencéfalo, sem margem a ampliação do entendimento a outras doenças congênitas, sob o fundamento
da inviabilidade do desenvolvimento do feto, assim como da vida extrauterina, dentre outras razões.

Aborto até o terceiro mês de gestação (Habeas Corpus nº 124.306-RJ – STF)

No julgamento do Habeas Corpus nº 124.306/RJ, admitiu-se a concessão da liberdade nos casos de crime de
aborto, compreendendo-se pela atipicidade da manobra abortiva até o terceiro mês de gravidez,
independentemente da viabilidade da sobrevida do embrião, não se tratando, assim, de conduta criminosa.

Isso sob os fundamentos dos direitos sexuais e reprodutivos da mulher, sua autonomia, integridade física e
psíquica, tal como a própria igualdade em relação ao homem. Com destaque a estes fundamentos, entre outros
de aspecto processual e formal, o Ministro Luís Roberto Barroso justificou seu voto pela concessão da ordem.

Tal decisão, contudo, trata-se apenas de um precedente jurisprudencial, sem efeito vinculante.

13