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Ciência, tecnologia e economia: características frente à primeira e segunda


revoluções industriais

Article · November 2006

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André Rauen
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA
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24/02/2017 Ciência, tecnologia e economia: características frente à primeira e segunda revoluções industriais

por ANDRÉ      
TORTATO
RAUEN Ciência, tecnologia e economia:  
Professor do
Departamento de características frente à primeira e  
Economia da
Universidade do segunda revoluções industriais
Extremo Sul  
  
Catarinense –
UNESC. O artigo que se apresenta, tem por objetivos discorrer
Economista e sobre as principais características da relação entre
Mestre em ciência, tecnologia e economia tanto num período
Política histórico marcado pela primeira revolução industrial,
Científica e quanto naquele que se segue após a segunda revolução
Tecnológica. industrial. Portanto, defende‐se a hipótese de que a
distinção fundamental entre estes dois períodos
históricos é justamente o fato de que ora a técnica
precedeu a ciência e ora a ciência precedeu a técnica.
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O padrão do progresso tecnológico ou o relacionamento entre ciência e tecnologia
Espaço Acadêmico presente na segunda revolução industrial foi qualitativamente diferente do verificado
Bibliografia: quando da primeira revolução industrial. Comecemos, pois, com a caracterização deste
Benko, G.
padrão durante a primeira revolução.
Economia, espaço e
globalização na
As principais inovações introduzidas pela primeira revolução industrial, diziam respeito
aurora do século principalmente à criação da máquina a vapor, a qual difundiu‐se da indústria aos
XXI. Hucitec. São transportes, revolucionando o funcionamento de todo o conjunto da economia.
Paulo. 1996.
No contexto da primeira revolução industrial, o progresso técnico era desenvolvido através
Freeman, C. A
teoria econômica da
da precedência da técnica sobre a ciência. Ou seja, a observação empírica determinava a
inovação industrial. criação das inovações. Um exemplo clássico, que é citado tanto por Landes (1969) quanto
Alinza Editorial. por Freeman (1974) é o da influência que a máquina a vapor teve sobre a criação da teoria
Madrid. 1974. termodinâmica. Assim sendo, a produção tinha de “confiar num empirismo talentoso”
Landes, D. The (Landes, 1969). 
unbound
prometeus. Contudo, esta relação de precedência da técnica sobre a ciência inerente à lógica da
Cambridge primeira revolução industrial após seu pleno desenvolvimento encontrava o esgotamento
University Press. de suas possibilidades. Dessa forma, a introdução de novas máquinas, baseadas nessa
Cambridge. 1969.
relação entre tecnologia e ciência, não mais garantiam rendimentos suficientes para
Mowery, D. e permitir a cobertura dos custos de sua compra. O padrão de desenvolvimento tecnológico
Rosenberg, N. existente não possibilitava mais a introdução no mercado das inovações, pois, estas já não
Technology and the
pursuit of economic eram mais economicamente viáveis. Esse processo de diminuição do produto marginal das
growth. Cambridge inovações esta no cerne da explicação do esgotamento do padrão de desenvolvimento
University Press. tecnológico baseado na observação empírica dos fatos.
Cambridge. 1989.
Como resultado do avanço tecnológico permitido pela primeira revolução industrial,
Noble, D. America
by design. Alfred A. principalmente referente à queda no preço dos alimentos, ocorre uma mudança nos
Knopf. New York, padrões de consumo. A elevação da renda per capita permitiu que camadas mais pobres da
1979. população passassem a demandar além de bens de primeira necessidade, produtos
Piore, M. Sabel, manufaturados.
C.  The second
industrial divide – Não obstante, a esta elevação da renda per capita, os aumentos de produtividade gerados
possibilities for pela introdução de inovações ao longo de todo o século XIX e referentes à primeira
prosperity. Basic revolução, permitiram a queda dos custos reais de produção e a conseqüente deflação.
Books. E. U. A. Mas, com o já referido esgotamento do padrão de desenvolvimento tecnológico adveio a
1984.
significativa diminuição do investimento autônomo e com ele a estagnação econômica,
notadamente da economia inglesa, então motor da economia mundial.
A dinâmica que marca a transição de um padrão para outro diz respeito também à
passagem de comando da economia, marcando assim, a ascensão dos Estados Unidos e da
Alemanha em detrimento do Reino Unido.
A desaceleração econômica marcada pelo esgotamento do padrão de progresso tecnológico
inerente a primeira revolução só foi revertido quando grandes avanços na área da ciência
permitiram a criação e o desenvolvimento de novas técnicas que por sua vez possibilitaram
a introdução de inovações, as quais permitiram a elevação do produto marginal das novas
técnicas empregadas.
O progresso técnico neste contexto, quando da segunda revolução industrial, era
alcançado através da precedência da ciência sobre a técnica. Em outras palavras, a
observação empírica já não bastava para o desenvolvimento das inovações – obviamente o
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24/02/2017 Ciência, tecnologia e economia: características frente à primeira e segunda revoluções industriais
observação empírica já não bastava para o desenvolvimento das inovações – obviamente o
empirismo mostra‐se ainda muito relevante. Isto não quer dizer que os problemas práticos
não demandavam pesquisas, mas que agora o grau de complexidade requerido pelas
inovações inviabilizavam a manutenção do paradigma anterior de resolução de problemas
técnicos.
Sobre a transição do padrão de desenvolvimento tecnológico verificado entre a primeira e
a segunda revolução industrial, Freeman (1974), afirma que as técnicas empíricas só deram
lugar a uma nova concepção de criação de inovações quando estas alcançaram uma
complexidade que as técnicas vigentes não podiam conceber.
Para Noble (1979), o período que precedeu a introdução da ciência no sistema produtivo,
foi marcado pela distancia entre a ciência e as possíveis aplicações práticas e nada tinha
haver com o que ele chama de atividade de money – making.
A transição do modelo baseado na técnica para o modelo de desenvolvimento tecnológico
fundado na ciência segundo Landes (1969), ocorreu de forma inevitável. Uma vez que, a
gama de problemas encontrados, não podia ser solucionada através da observação
empírica dos fatos, muitas vezes isto era virtualmente impossível. Assim, com o passar do
tempo o paradigma baseado na observação empírica não mais respondia a questões cada
vez mais complexas. Surgindo daí, a necessidade de se modificar a forma como eram
tratados o progresso tecnológico e o próprio desenvolvimento de inovações.
O desenvolvimento tecnológico presente na segunda revolução industrial, nada mais é para
Noble (1979) que a transformação da ciência visando à acumulação de capital através das
aplicações das descobertas no campo da física e da química, ambas inseridas no processo
produtivo de linhas montagem.
A segunda revolução industrial caracterizou‐se pela introdução do aço barato, da
capacidade de não só gerar, mas de distribuir de forma estável energia elétrica, do motor
a explosão e notadamente do que se convencionou chamar de administração científica, a
qual dizia respeito à racionalização da produção no chão de fábrica, facilmente visualizada
na difusão das linhas de montagem.
A consolidação do padrão de progresso tecnológico baseado no conhecimento científico,
cria na economia um incentivo às corporações a aventurar‐se nos caminhos tanto da
pesquisa básica quanto da pesquisa aplicada. Pois, o surgimento de inventos, previstos ou
não, com base nos conhecimentos científicos, não possuía precedentes na história
econômica. A indústria encomendava então, seus desejos aos laboratórios de P&D assim
como encomendava insumos de seus fornecedores (Landes, 1969).
A segunda revolução industrial também possibilitou que os processos produtivos fossem
revistos. Os problemas logísticos advindos do aumento da escala de produção e uma
conseqüente tendência à racionalização das atividades produtivas demandavam soluções
fundadas na ciência. Assim, emergem a padronização e a metrologia, as quais permitiram
a criação de respostas aos problemas enfrentados nessa nova dinâmica industrial.
O processo de transição do modelo empirista ao modelo científico caracteriza‐se também
por uma institucionalização do desenvolvimento tecnológico. Nesse sentido, o papel das
grandes corporações é fundamental. Uma vez que, por motivos de escala os grandes
conglomerados podiam mais facilmente que pequenas e medias empresas, incorrer no
processo de pesquisa, pois, os elevados custos e riscos inerentes a essa atividade
constituam‐se em significativas barreiras à entrada.
Freeman (1974) e Noble (1979) concordam que a indústria neste momento histórico,
internaliza o processo de P&D e profissionaliza a busca por inovações. Esta se dá, através
da construção de uma, sólida, sistêmica e de grande escala, base de conhecimentos. O
grande exemplo dessa dinâmica é a realidade encontrada na indústria química
estadunidense, na qual, devido a grande complexidade do processo produtivo exigia – se
que toda a análise feita sobre o mesmo dever‐se‐ia basear em conhecimentos científicos.
Noble (1979) afirma que o desenvolvimento tecnológico baseado em conhecimentos
científicos ocorre lado a lado com a ascensão e o desenvolvimento das grandes
corporações estadunidenses. Assim, entender o processo de desenvolvimento da grande
corporação estadunidense é compreender como se deu a evolução do conhecimento
técnico baseado na ciência.
O desenvolvimento das peças intercambiáveis, isto é, fabricação de peças uniformes foi
sem dúvida alguma uma significativa mudança nos padrões de produção, que inclusive
tornaram factíveis as linhas de montagem iniciadas a partir da segunda revolução.
Assim, o esgotamento do modelo presente na primeira revolução industrial marca um
momento de ruptura na história do capitalismo de fins do século XIX e inícios do século XX,
no qual passam a emergir as indústrias baseadas em conhecimentos e consolida‐se a
posição dominante das grandes corporações. É no interior desse processo, de consolidação
da big science que emerge o hoje tão combatido modelo linear de inovação, ou science
push model.
Não obstante ao esgotamento das possibilidades da observação empírica para a expansão
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24/02/2017 Ciência, tecnologia e economia: características frente à primeira e segunda revoluções industriais
Não obstante ao esgotamento das possibilidades da observação empírica para a expansão
de um novo ciclo econômico, e a transformação qualitativa da relação ciência/tecnologia
já na segunda revolução industrial, a precedência da ciência sobre a técnica atinge toda
sua potencialidade apenas no que alguns, ousam chamar de terceira revolução industrial,
ou seja, na transição de um paradigma eminentemente fordista para algo parecido com
uma especialização flexível da produção (Benko:1996), esta última, fortemente baseada
nas rápidas transformações microinformáticas iniciadas ainda nas décadas de sessenta e
setenta do século XX.  Portanto, deve – se encarar a segunda revolução industrial mais
como um momento de transição entre ciência e técnica, do que realmente o completo fim
da preponderância da técnica sobre a ciência, a qual só se esgota completamente no
findar do século XX.
 
por ANDRÉ TORTATO RAUEN

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