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fíinwraáii t >ouuladt no Jlmsil tolo/uai, publicado
originalmentt nos anus 1970f agora em nova tra-
dução — com apêndice dorumcnlal inédito e
nova introdução do autor —, foi estudo pioneiro
da burocracia colonial na América portuguesaf
tanto pelo enfoque, a justiça, como pela abor-
dagem, que privilegiou as teias h u m a n a s que
formavam a burocracia.

Slaar^-l: Schwartz
COM PA N H IA DAS LETRAS
STUART B. SCHWARTZ

Burocracia e sociedade no
Brasil colonial
O Tribunal Superior da Bahia e seus desembargadores,
1609-1751

Tradução
Berilo Vargas

UERN/FAFIC/DHi
Grupo de Pesquisa
História do Nordeste:
Socl*dada • Cultura

PIBIC 2014/2015
Chamada Unlvertal CNPq 2014
A captura do olhar dooufro...
FSC
MISTO
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de florestas que foram gerenciadasde maneira ambientalmente correia, socialmente justa
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e economicamente viável, além de oulras fontes de origem controlada. COMPANHIA DAS LETRAS
Copyright © 2011 by Stuart B. Schwartz
Sumário
Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990,
que eniroti em vigor no Rrasil em 2009.

Título original
Sovereignty and society in colonial Brazil: The High Court of Bahia and its judges, 1009-1751

Capa
Mayumi Okuyama, sobre detalhe de Coimbra no século xvm
(GeorgBreun, Cívitates Orbis Terrarura, 1610)

Preparação
Ária Cecília Água de Melo

índice remissivo
Luciano Marchiori

Revisão
Valquíria Delia Pozza
Hueiidel Viana

Prefácio à nova edição -?


Prefácio 15
Abreviaturas 23

PRIMEIRA PARTE: JUSTIÇA E BUROCRACIA

1. A Justiça do rei: Portugal, África e Ásia 27


2. Justiça e juizes no Brasil, 1500-80 41
3. A reforma espanhola e o Tribunal Superior brasileiro 56
11-05834
4. Os magistrados 74
índice para catálogo sistemático;
t. Portugal : Burocracia e sociedade ; Brasil colonial i Administração
pública : História 35J.150946909BI
SEGUNDA PARTE: A RELAÇÃO NO BRASIL, 1609-26

5. Bahia: o meio social 93


Todos os direitos desta edição reservados à.
EDITORA SCHWAKCZ LTJJA. 6. Juizes, jesuítas e índios 112
Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32 7. Procedimentos e funções 125
04532-002—São Paulo — SP
Telefone (11) 3707-3500 8. Magistratura e sociedade 147
Fax (11) 3707-3501 9.0 Tribunal Superior em conflito 162
www.companhiadasktras.com.br
www.blogdacompanhia.com.br 10. A supressão da Relação 181
TERCEIRA PARTE: A RELAÇÃO RENASCIDA, 1652-1751
Prefácio à nova edição
11. Problemas de justiça ^7
12. Magistratura e burocracia 227
13.0 abrasileiramento da burocracia 253
14. Conclusão 287

Notas , 297
Agradecimentos 349

MATERIAL DE REFERÊNCIA

Apêndice i. Governantes de Portugal e do Brasil 353


Apêndice n. Casamentos de desembargadores no Brasil, 1609-1758 ... 357
Apêndice m. Desembargadores da Relação da Bahia, 1609-1758 362
Apêndice rv. Razões que deram os moradores da Bahia para se não
extinguir a Relação 379
Um livro é sempre produto de certo momento histórico, tanto para o
Bibliografia 385 autor como para seus leitores. Quando me vi diante da oportunidade de publi-
índice remissivo 407 car uma nova edição de Burocracia e sociedade no Brasil colonial, lançado em
inglês em 1973 e depois em uma tradução para o português da Editora
Perspectiva, em 1978, meu primeiro impulso foi acrescentar novo material
coletado por mim ao longo dos anos, em fontes como Livros de correspondência
do Desembargo do Paço (1614-38), na Torre do Tombo de Lisboa, e incorporar
os trabalhos de pesquisadores que abriram muitas novas janelas sobre aspectos
da história, que estavam fechadas, ou apenas parcialmente abertas, quando fiz
minha pesquisa.
Depois de hesitar um pouco, resisti à tentação, porque se cedesse a ela o
resultado seria um livro bem diferente. Mas tentarei, neste prefácio, situar o
livro no contexto dos debates historiográficos atuais. Acredito que suas contri-
buições ainda são válidas e úteis, e, em certo sentido, agora têm alguma relevân-
cia para as discussões históricas mais recentes sobre a natureza do governo e do
Estado no Brasil e no Império português. Com poucas exceções, devidamente
indicadas nas notas de rodapé, e o acréscimo de um novo apêndice documental,
o conteúdo do livro continua sendo o da publicação original, embora esta tra-
dução seja totalmente nova.
Um autor que hoje mergulhasse no estudo da Relação da Bahia e seus império, muito embora, pelo fato de cobrir apenas o fim do século xvm, sua
desembargadores teria perguntas diferentes a fazer sobre a burocracia, seguiria utilidade direta para a minha obra tenha sido limitada/ Apesar disso, agora é
uma orientação teórica bem diversa da análise essencialmente weberiana que leitura essencial para qualquer pessoa interessada na organização e nas funções
adotei, e tiraria bom proveito dos consideráveis avanços na matéria registrados do judiciário. Infelizmente, a Casa da Suplicação ou a Relação do Porto ainda
nos últimos trinta anos. Quando iniciei a pesquisa para este livro, no apagar das não encontraram seus historiadores. Ainda assim, houve avanços em outras
luzes do regime salazarista, em meados da década de 1960, a história adminis- áreas de administração imperial. Por exemplo, quando fiz a pesquisa para este
trativa de Portugal e seu império não estava bem desenvolvida. Bascei-me livro, a única obra disponível sobre o Conselho Ultramarino era um breve
essencialmente, àquela época, num clássico trabalho em múltiplos volumes de estudo de Marcelo Caetano. A situação melhorou muito, graças a dois estudio-
autoria de Henrique Gama Barros sobre as instituições do Portugal medieval, sos: Edval de Souza Barros, em Negócios de tanta importância (2008), examinou
como meu principal guia para o estudo do sistema e dos cargos do judiciário a política e o papel do Conselho Ultramarino durante o século xvn, do Oceano
português no Brasil, e achei-o mais informativo que algumas das histórias Índico ao Oceano Atlântico; Eryk Myrup, em "Governar a distância" examinou
administrativas então disponíveis. Mas desde a publicação de Burocracia e não apenas as decisões e as políticas do conselho e seus efeitos em Goiás, dis-
sociedade houve considerável desenvolvimento na literatura sobre direito, jus- tante fronteira do império, mas também as relações sociais e as carreiras de seus
tiça e administração em Portugal. Especialistas agora podem acessar o site lus membros num minucioso estudo prosopográfico.7
Lusitaniae, e consultar toda a legislação portuguesa do início da era moderna.1 Talvez tenha sido a análise prosopogrãfica ou biográfica coletiva dos 168
O historiador português António Manuel Hespanha tem muitas publicações desembargadores que serviram na Mação da Bahia de 1608 a 1751 a maior
sobre direito e governo, e escreveu numerosos manuais sobre a história política contribuição de Burocracia e sociedade, mas foi difícil situar os resultados dessa
e institucional de Portugal, que facilitam enormemente a iniciação do pesqui- análise num contexto geral, porque pouco se sabia, na época, sobre as origens c
sador desses temas.2 Há também um minucioso estudo do crime e do direito carreiras dos juizes em outros pontos de Portugal e seu império, ou sobre a bio-
nos últimos tempos do Portugal medieval, de autoria de Luís Miguel Duarte, grafia coletiva de outras categorias sociais. Nessa área é que se verificaram os
que examina não apenas esses temas, mas os cargos e a estrutura da Justiça avanços mais importantes na historiografia do império português nas últimas
quando Portugal iniciou a colonização do Brasil.3 O papei do direito e dos juizes três décadas. Os trabalhos resultantes de uni abrangente projeto patrocinado
no início do Portugal moderno foi explorado com minuciosa erudição por pelo Instituto de Ciências Sociais de Lisboa examinaram a biografia coletiva de
António Barbas Homem em Judex Perfectus, cuidadosa análise dos principais governadores e capitães-mores, de comerciantes de elite, de bispos e da alta
manuais, guias e textos teóricos usados para o treinamento da burocracia judi- nobreza.8 As obras de Muno Monteiro alteraram completa mente nosso entendi-
ciária.4 Estudos de desenvolvimentos paralelos na Espanha e no Império espa- mento da composição e das funções da alta nobreza, o mesmo que fez Fernando
nhol também oferecem agora melhor oportunidade para fazer comparações, e Olival com as ordens militares.9 Em 1973 era impossível comparar os padrões de
toda a questão do império da lei na construção de impérios em geral também se origem social e de carreira dos desembargadores da Bahia com o dos juizes que
tornou tema importante de história comparativa.5 serviram em Portugal ou em outras partes do império, mas essa deficiência foi
Outro avanço significativo ocorreu na história das instituições básicas de sanada pela obra de estudiosos portugueses. Nuno Camaririas produziu extensa
governo em Portugal, especialmente aquelas que tiveram influência direta na análise prosopogrãfica de todos os magistrados civis portugueses nos séculos
criação e aplicação da lei e da política na colónia, e cujos cargos por vezes eram xvii e xvni.10Seu estudo confirma que os padrões de origens geográficas e sociais
providos por homens que tinham servido no Brasil. O estudo de José Subtil e os padrões de carreira dos juizes baianos que descrevi neste livro eram, em
sobre o Desembargo do Paço, o tribunal e conselho supremo em questões judi- geral, semelhantes aos de toda a classe judicial.11 A mesma metodologia foi apli-
ciais» é uma importante contribuição à história administrativa de Portugal e seu cada por José Subtil num estudo sintético dos juizes de Portugal de 1640 a 1834.
Esse projeto resultou num minucioso dicionário de todos os desembargadores Estado e sociedade eram, havia muito, ponto focal de discussão e debate.
portugueses, que servirá de ponto de partida para futuras pesquisas.12 Diferentemente dos argumentos apresentados em Os donos do poder, o influente
A história do direito e do judiciário no Brasil também se desenvolveu livro de Raymundo Faoro (1958) que via a história do Brasil como produto da
muito nos últimos trinta anos. Por exemplo, estudos importantes foram reali- luta entre, de um lado, a sociedade e, de outro, o Estado e seus funcionários
zados por Linda Lewín sobre direito e práticas sucessórias, e por Muriel Nazarri indiferentes e exploradores, este livro ressalta, como seu argumento central, a
sobre a evolução do uso do dote, fazendo convergir a teoria e a história jurídi- maneira pela qual o Estado representava ou favorecia determinados grupos
cas.13 Manuais como Fiscais e meirinhos agora oferecem aos pesquisadores des- sociais, ou as estratégias adotados por grupos para tentar tirar vantagem do
crições concisas dos vários cargos de governo.14 Mas o mais importante talvez Estado, ou, ainda, no caso específico aqui analisado, do sistema de Justiça,
tenha sido o excelente estudo da Relação do Rio de Janeiro, de autoria de Arno incorporando os juizes, ou casando-se com eles e influenciando-os de outras
e Maria José Wehling.15 Este livro, em certo sentido, seguiu os passos de formas.16 Aqui tratei os desembargadores não apenas como burocratas ou fun-
Burocracia e sociedade, na atenção à biografia coletiva dos 87 juizes que servi- cionários do Estado, mas também como ativos participantes do sistema de
ram no tribunal do Rio, e na análise do papel histórico do próprio Tribunal relações sociais e como membros de uma classe burocrática com características,
Superior, mas foi bem mais longe na investigação da natureza da lei portuguesa aspirações e objetivos próprios.
e sua aplicação no Brasil. Tal fato, e a atenção que dedica aos conceitos de direito A preocupação com o Estado continua a influenciar, em novas formas, as
em processo de transformação no período pombalino, faz dessa obra leitura discussões sobre a história do Brasil. Com a paixão dos anos 1980 e 1990 por
essencial para os interessados na história da Justiça e do governo no Brasil colo- história cultural, micro-história, demografia e história económica quantitativa,
nial do século xviii. pouca gente teria previsto o surgimento de um novo e vigoroso debate sobre a
natureza do Império colonial português, ou sobre o governo português no
Brasil, mas foi exatamente o que aconteceu. Burocracia e sociedade foi um dos
GOVERNO E SOCIEDADE numerosos estudos anglo-americanos no anos 1970 que buscaram mostrar que
poderes ou instituições locais e regionais, como câmaras ou misericórdias,
Quando Burocracia e sociedade foi publicado, numerosos comentaristas tentavam subverter, limitar ou amenizar o controle imperial.17 Todos esses
acharam minha abordagem — uma história social da administração da lei no livros tiveram impacto no Brasil, mas em certa medida a nova preocupação
Brasil — inovadora. Àquela altura, o começo dos anos 1970, a história social com a natureza do governo no Império português, e com o contínuo poder de
estava na moda, e nos Estados Unidos havia estudiosos que se pudessem igno- autoridades ou grupos não ligados à realeza deve muito ao trabalho do histo-
rariam o contexto do Estado e das instituições para se concentrar apenas nos riador do direito António Manuel Hespanha. Sua obra, baseada numa curiosa
agrupamentos e nas interações sociais. Com isso, alguns leitores viram meu fusão de história jurídica alemã, história política e filosofia italiana, e exaustiva
livro somente como um ensaio de verdadeira história social. Mas, nas décadas análise quantitativa, examinou a natureza da autoridade em Portugal no século
seguintes, o reconhecimento do papel central das instituições e do governo xvii. Deu ênfase às limitações do poder e dos recursos reais e à contínua autori-
resultou num apelo para que os historiadores "voltassem a incluir o Estado". dade da nobreza, dos conselhos municipais e das autoridades eclesiásticas.18
Acho que essas reivindicações mostraram que minha tendência a dar impor- Tratava-se de um compartilhamento de poder, que obrigava a Coroa a governar
tância às estruturas e ao funcionamento do governo, assirn como à vida social por intermédio de um sistema de recompensas e incentivos, uma economia de
de seus membros e à sociedade, foi uma boa estratégia. Era preciso que o Estado agrados, e não do exercício da força e da autoridade. Tal interpretação impli-
e suas instituições estivessem presentes e, nessa abordagem, eu na verdade cava uma extensão do Estado patrimonial até uma fase adiantada do século
seguia uma longa tradição na historiografia do Brasil, na qual as relações entre xviii, e sublinhava o contínuo vigor da estrutura"feudal-corporativa" de recom-

10 11
pensa e serviço ao Estado. Essa ideia, desenvolvida primeiro em relação à histó- dependente da força e da expansão do governo, mas cujos interesses nem sem-
ria interna de Portugal, foi aplicada à situação colonial em Macau pelo próprio pre coincidiam com os do Estado, também complica o debate entre os propo-
Hespanha, e depois ao Brasil por João Fragoso, Maria Fernanda Bicalho e Maria nentes do forte controle metropolitano e os aderentes da ideia de fontes locais
de Fátima Gouvêa e outros académicos do Rio de Janeiro. Seu volume coletivo, de poder e autoridade. Nesse sentido, acho que Burocracia e sociedade pode ser
O antigo regime nos trópicos, trouxe à luz uma série de estudos que incorpora- relido com proveito, e contribuir para essas novas discussões sobre império,
vam a posição de Hespanha, mas a ampliavam e adaptavam à situação colonial, governo e sociedade. Sou grato, portanto, à Companhia das Letras pela oportu-
enfatizando o raio de ação e poder das elites locais e sugerindo que a estrutura nidade de levar este livro mais uma vez ao público brasileiro, e a todos aqueles
imperial portuguesa no Brasil foi, realmente, produto de uma negociação de que se interessam pela história do direito, do governo e do Estado no Brasil e no
poder entre o governo central e grupos locais. Essa interpretação também se Império marítimo português.
baseou na obra de Joaquim Romero Magalhães, John Russell-Wood e em estu-
dos mais antigos de Charles Boxer, que davam ênfase aos centros locais de StuartB. Schwartz
poder, e teve como efeito pôr em dúvida o papel predominante da Coroa e de Universidade Yale, março de 2011
um sistema colonial em que os interesses da metrópole necessariamente orde-
navam o sistema político. Saber se a ênfase deveria ser dada a um sistema polí-
tico pluralista e descentralizado, ou ao controle do centro, provocou considerá-
vel discussão, dando origem a novo e saudável interesse no papel do direito, das
instituições e de modelos políticos.19
Os recentes debates sobre essas questões me levam a acreditar que
Burocracia e sociedade é um estudo que mostra como os interesses do governo
imperial e das elites locais foram, de fato, solucionados mediante variados
mecanismos sociais e institucionais. Olhando para trás, dou-me conta de que
minha pesquisa original para este livro foi realizada de 1965 a 1973 no Portugal
de Salazar e no Brasil dos primeiros anos do regime militar, e o fato de residir
em Portugal e no Brasil durante esse período de Estado forte e centralizado sem
dúvida nenhuma influenciou minha percepção do passado e meu entendi-
mento da história do poder de Estado. Mas, apesar de achar que Hespanha
possa ter razão ao afirmar que o modelo corporativo e patrimonial perdurou
por muito mais tempo do que se suspeitava, ainda acredito que as ambições da
Coroa apontavam para a centralização, e que nesse sentido a burocracia judi-
cial, c especialmente os desembargadores, com os requisitos profissionais para
o serviço, os muitos regulamentos destinados a limitar os vínculos com a socie-
dade local, os interesses familiares, ou outras fontes de influência, e as tentativas
da Coroa de assegurar o apoio deles concedendo avanços na carreira, eram a
medula espinhal em que se baseavam as aspirações reais a um forte Estado
central. O fato de os letrados também se desenvolverem como classe separada,
Prefácio •

Três dedos com uma pena na mão é o oficio mais arriscado que tem o
governo humano. Quantos delitos se enfeitam com uma penada?
Quantos merecimentos se apagam com uma risca? Quantas famas se
escurecem com um borrão?
Padre António Vieira

Vasco da Gama no cais de Calecute, Hernán Cortês contemplando os


esplendores de Tenochtitlán, Francis Drake na costa da América espanhola.
Essas e outras imagens de soldados fanfarrões e marinheiros audaciosos desta-
cam-se tradicionalmente na história da expansão europeia. Mas na esteira des-
ses aventureiros vieram outros tipos mais mundanos — comerciantes, partei-
ras, padres, criadas e burocratas. Nas regiões da América colonizadas por esses
homens e essas mulheres, surgiu uma sociedade complexa, que mesclou os
elementos raciais e culturais da Europa, da África e da América, mas sempre
conservando um forte sabor europeu no governo e na organização social de
suas elites. A criação de impérios ultramarinos foi, sem dúvida, um dos proces-
sos mais significativos da história europeia e mundial no período posterior a
1450, e seus efeitos ainda hoje se fazem sentir.
Mais ou menos na época em que teve início a expansão ultramarina, outro
processo histórico começou a influenciar as sociedades da Europa Ocidental: A precoce expansão ultramarina de Portugal e Espanha estava, de algum
Estados fortemente centralizados surgiram, sob a égide da autoridade real. Os modo, relacionada à ascensão do poder monárquico. Em ambos os casos, e
monarcas, buscando estabelecer sua autoridade e diminuir os poderes de vários especialmente em Portugal, o investimento e o patrocínio reais tiveram papel
grupos, corporações e estamentos, dependiam cada vez mais dos serviços de significativo na descoberta e na exploração de novas fontes de riqueza que, por
uma burocracia profissional, cujos interesses se tornavam intimamente ligados sua vez, puderam ser usadas para dar suporte às crescentes responsabilidade
aos da Coroa. As "Novas Monarquias'' se viram diante da tarefa de cobrar tribu- administrativas e militares do Estado. Os processos mais ou menos contempo-
tos, manter a força militar e aplicar a lei. Os diversos ramos da administração râneos de expansão ultramarina e burocratização estatal imprimiram nas
(aos quais, em alguns casos, acrescentava-se a hierarquia da Igreja) representa- colónias americanas a marca de uma estrutura administrativa bem desenvol-
vam o esforço do Estado para fazer frente ao desafio de governar. Talvez seja um vida e de uma concepção curiosamente legalista do governo c da vida. A tradi-
exagero falar em "revolução administrativa", como o fez G. R. Elton a propósito ção do direito romano imbuída em juizes, amanuenses, tabeliães e na própria
da Inglaterra do período tudoriano, pois grande parte do novo estilo de governo lei foi transferida para o Novo Mundo. A principal responsabilidade do rei para
tinha precedentes medievais, e as mudanças não seguiam sempre o rumo da com os súditos, fossem coloniais, fossem metropolitanos, estava na justa aplica-
centralização crescente; mas houve mudança, sem dúvida. A Prússia, a Escan- ção da lei. Determinadas leis podiam ser injustas, advogados podiam ser deso-
dinávia, a França» a Inglaterra c a península Ibérica passaram por esse processo nestos e tribunais podiam ser corruptos, mas a lei, alicerce da sociedade, era,
nos séculos xvi e xvn e, apesar de o ritmo e o estilo diferirem de um país para por definição, um bem incontestável. Ainda hoje os brasileiros dizem "É legal"
outro, havia um movimento geral. Em meados do século xvn, burocracia e Estado quando se referem a qualquer coisa que seja muito boa.
já se haviam tornado sinónimos, e a máquina governamental atingira enormes Os brasileiros modernos também conservam outra tradição do passado
dimensão e complexidade.1 colonial, bem ilustrada pela seguinte anedota sobre um incidente que foi o
A península Ibérica é um caso especial. Em Castela, Fernando e Isabel estímulo inicial para o presente estudo. Quando eu estudava português na
criaram um Estado renascentista destruindo o poder dos fidalgos, lançando as Universidade Columbia, no verão de 1963, nossa classe foi solicitada a decorar
cidades contra a nobreza e desenvolvendo uma burocracia profissional para alguns diálogos que rcfletiam situações da vida diária no Brasil. Uni deles era
controlar tanto as primeiras quanto a segunda. 2 Em Portugal, a Casa de Avis mais ou menos assim — João: "Pedro, eu soube que você arranjou emprego no
dependia do apoio das classes mercantil e inferior em sua luta para estabelecer Ministério da Fazenda". Pedro: "É verdade, meu cunhado agora é subsecretário".
uma monarquia centralizada, mas, como Castela, também recorreu à adminis- Essa franca admissão de nepotismo provocou gargalhadas entre os alunos ame-
tração burocrática para formalizar sua conquista. Tsso não significa que a nobreza ricanos, mas a excelente professora brasileira do curso não via nada de engra-
tenha se retirado do governo. Os dois reinos reservavam lugares de distinção e çado naquilo. De que outra maneira se poderia conseguir emprego no
serviço para os nobres titulados, desde que eles vinculassem sua sorte à estrela Ministério da Fazenda? Esse incidente me fé/ pensar numa questão crucial:
ascendente da Coroa. Os condes e marqueses que serviam em conselhos reais, como o Império português, sistema altamente racional de organização buro-
representavam o rei em cortes estrangeiras, ou governavam como vice-reis crática, conciliou as relações pessoais de parentesco, amizade e interesse que
comprovam a contínua participação da nobreza no governo. Mas tanto na sempre caracterizaram a sociedade ibérica? A resposta a essa pergunta permite
Espanha como em Portugal os burocratas profissionais, esse quase-estado não apenas uma compreensão mais profunda do legado social e político rece-
constituído de empregados e servidores reais, eram geralmente advogados ou bido pelo Brasil, mas também uma tentativa de explicação para o seu desenvol-
juizes não nobres, cuja experiência nos procedimentos legais e na tradição do vimento histórico, num período de mais de trezentos anos, como colónia de
direito romano, assim como a ênfase que lhes davam e o respeito que por eles um país muito inferior em tamanho, população c riqueza.
tinham, acabou se difundindo por toda a sociedade. Minha premissa básica em todo este estudo é a de que o governo e a socie-

16
dade no Brasil colonial estruturavam-s e em torno de dois sistemas de organi- burocracia portuguesa e o surgimento dos magistrados como poder político
zação interligados. Num nível, uma administração controlada e dirigida pela tanto em Portugal como em suas colónias — em 1580, a união da Espanha e de
metrópole, caracterizada por normas burocráticas e relações impessoais, vin- Portugal resultou numa reforma geral da estrutura judiciária portuguesa,
culava indivíduos e grupos às instituições políticas do governo formal. Em período no qual nasceu a Relação da Bahia — e termina com um exame da
paralelo, havia uma rede de relações primárias interpessoais, baseada em inte- magistratura portuguesa e a descrição minuciosa da vida pessoal e profissional
resses, parentescos e objetivos comuns, a qual, embora não menos formal em dos dez primeiros magistrados (desembargadores) do Tribunal Superior da
certo sentido, não contava com o reconhecimento oficial. Este livro é uma ten- Bahia. Na segunda parte, usei a primeira Relação da Bahia (1609-26) como veí-
tativa de examinar a relação dinâmica entre esses dois sistemas de organização culo para o exame da estrutura, das funções, dos procedimentos e das ações dessa
humana no contexto de 250 anos de história brasileira, o período da fundação corte. Essa seção analisa o meio social da Bahia, a sede da Relação, e procura
e consolidação da principal colónia ultramarina de Portugal. mostrar o impacto desta nas condições locais. Os conflitos de jurisdição e de
Os homens que ocupavam cargos na administração do Império português interesses que surgiram entre a Relação e outras instituições são mostrados con-
tinham variados antecedentes sociais e profissionais. Nobres titulados, homens tra o pano de fundo de questões mais amplas, como a natureza e a eficácia do
da Igreja e contadores detinham posições administrativas e podiam ser chama- governo colonial. Em seguida, revelando as várias ligações entre família, amizade
dos de burocratas com razoável exatidão, mas é preciso lembrar que a Coroa e interesses comerciais, tentei uma análise da burocracia no contexto da sociedade
ancorava sua soberania no papel de guardiã da justiça. Apesar de suas responsa- colonial. Finalmente, o capítulo 9 demonstra como medidas tomadas e pressões
bilidades militares, fiscais e administrativas, a burocracia do Império português exercidas em tempos de guerra levaram à abolição temporária da Relação.
tinha como centro vital uma organização judiciária formada por magistrados - ' Na terceira parte analisam-se as razões do renascimento da Relação e
profissionais cuja vida, posição social e perspectivas estavam inextricavelmente esboça-se sua história até 1751. Partindo das biografias de todos os 168 magis-
ligadas ao governo. Concentrando-me no desenvolvimento e na operação do trados da Relação da Bahia (1609-1759), tentei uma análise geral da magistra-
Tribunal Superior (Relação) da Bahia, instituição judiciária e administrativa tura no Brasil colonial, com ênfase nas relações primárias estabelecidas entre os
estabelecida no Brasil em 1609, situei esses magistrados no âmago do meu juizes e a sociedade colonial.
estudo. Como a Relação era o principal vínculo entre os desejos da população . Apesar de discorrer sobre a natureza tanto da burocracia como da socie-
colonial e os ditames do governo real, dei destaque especial às funções adminis- dade no Brasil colonial, este volume não pretende ser um estudo exaustivo nem
trativas do Tribunal Superior e à natureza e ao desempenho de seu pessoal, de uma nem de outra. É, principalmente, um estudo das elites: de um lado, o
mais do que propriamente ao seu papel como órgão da Justiça. mais alto nível da burocracia profissional, os desembargadores; do outro, os
Minha intenção ao longo deste estudo foi destacar a natureza humana da senhores de engenho e criadores de gado que dominavam as instituições colo-
burocracia e examinar as dimensões históricas que uma abordagem do governo niais e costumavam monopolizar os recursos sociais e económicos disponíveis.
feita com base nas relações humanas é capaz de oferecer. Tabelas formais de A ênfase nas camadas mais altas do governo e da sociedade coloniais não reflete
organização não foram ignoradas, e o leitor encontrará muitas referências a um desinteresse pela ampla maioria da população. Na verdade, este livro reco-
conflitos institucionais, como tradicionalmente ocorre nas histórias adminis- nhece que as instituições sociais e políticas do Brasil colonial geralmente fun-
trativas; mas para compreender a operação do governo e da sociedade no Brasil cionavam em detrimento dessa maioria, tenta explicar como surgiu esse sistema
colonial precisamos olhar para além, para a complexa rede de outras relações e, mais importante, como e por que ele se perpetuou.
sociais e económicas que constituíam a essência da vida colonial. É nessa área, Ao preparar este livro, recorri a muitas obras sobre a história portuguesa e
acredito, que este estudo tem algo de novo a oferecer. brasileira, mas muito poucas diretamente ligadas ao meu assunto. Como resul-
O livro está dividido em três partes. A primeira examina a natureza da tado, este estudo baseia-se primariamente em documentos impressos e não
publicados provenientes de uma variedade de fontes, pequenos pedaços que percebeu que se tratava de "tipos ideais" que careciam de descrição, a n a h w c
tentei juntar. Os magistrados profissionais do Império português não formam refinamento históricos, mas o problema de passar de um tipo para o próximo o
um grupo de trato muito fácil para o historiador. Os portugueses raramente o ponto mais fraco do seu modelo. Esse processo de mudança é que é difícil do
sentiram a necessidade de perpetuar sua memória em prosa ou em retratos. O conciliar na teoria de Weber, e este livro deixa claro que a administração do
diário não é um género português, e, numa época em que todo burguês holandês Brasil colonial se caracterizava por mudanças constantes e urandc flexibilid-idi-
posava para um artista, a iconografia portuguesa limitava-se, essencialmente, a Além disso, formas patrimoniais e burocráticas de organização não n iroceni
reis e clérigos. Ao cabo de cinco anos de pesquisa, en não havia encontrado ter sido estágios mutuamente excludentes no caso brasileiro, mas tipos \a n
nenhum documento pessoal ou correspondência particular dos magistrados. tes que poderiam existir simultaneamente dentro da mesma organização \a razão é qu
Assim, muitos aspectos da vida privada deles, que teriam sido valiosos para este
estudo, continuam desconhecidos. O leitor pode lamentar meu fracasso nesta — as características projetadas para a realização direta de tarefas administrati-
área, mas eu lhe garanto que a ausência desse tipo de informação não se deve a vas— perde em utilidade numa análise que ressalta as relações não caiegóncus
desinteresse ou descuido. e pessoais dos burocratas, em oposição às relações categóricas e impessoais da
Enquanto estudos sobre a magistratura portuguesa são praticamente ine- burocracia.
xistentes, a literatura sobre a burocracia em geral é vasta. Excelentes estudos Apesar de ter evitado o modelo de Weber, incorporei alguns conceitos por
históricos seguiram o rastro do desenvolvimento das burocracias estatais em ele desenvolvidos, especialmente o conceito de controle patrimonial, segundo o
muitos países, e um grande volume de obras de ciência política e sociologia qual o governante incorporava legitimidade e autoridade e distribuía cargos
surgiu em torno de temas como administração pública, teoria da organização e com base em critérios particularistas, não no mérito. Em tal sistema, os interes-
burocracia. 3 Li muito, mas nem de longe exaustivamente, essa literatura, e, ses privados do funcionário e os interesses públicos do cargo geralmente fica-
embora este estudo não reivindique um lugar no campo da sociologia, aprendi vam indistintos, e os cargos eram, comumente, propriedade de seus ocupantes.7
algumas lições e tomei emprestados vários conceitos dessa disciplina. Mesmo Muitos elementos dessa forma de controle continuaram caracterizando os
evitando o rótulo de "funcionalista", minha abordagem se enquadraria basica- níveis inferiores da burocracia portuguesa muito tempo depois da adoção de
mente em um modelo de relações humanas, pós-weberiano. 4 mudanças destinadas a estabelecer a hierarquia, a especialização e a objetivi-
Sem dúvida, os clássicos estudos de Max Weber sobre a burocracia servi- dade da administração burocrática "racional". O fato de os desembargadores, o
ram de ponto de partida para a moderna análise histórica e sociológica do elemento mais profissional da burocracia, terem continuado a adotar valores c
fenómeno.'' Estudiosos como John l,. Phelan demonstraram a utilidade dura- perseguir objetivos contrários aos da administração racional mostra a dificuldade
doura do modelo de desenvolvimento burocrático de Weber, e sua aplicabili- de aplicar o modelo de Weber. Além disso, está implícita em todo o livro minha
dade no contexto de um império colonial.5 Há, enfim, muita coisa na aborda- crença de que o comportamento não burocrático se tornava mais frequente à
gem de Weber que me pareceu útil, mas evitei seu modelo por duas razões medida que se desciam os escalões administrativos. Dessa maneira, sejam quais
básicas. forem as evidências desse comportamento não racional entre os desembargado-
A primeira é que Weber estava preocupado, fundamentalmente, com está- res, elas serão várias vezes maiores entre os pequenos funcionários locais. Apesar
gios do desenvolvimento administrativo. Seus estágios ideais de autoridade de ter deliberadamente me concentrado em um único setor da burocracia, acre-
patriarcal, patrimonial e burocrática são particularmente inadequados para dito que boa parte de minha análise seja aplicável aos outros níveis.
uma análise do Império português, que se desenvolveu num período histórico A obra de S. N. Eiscnstadt foi-me especialmente útil para definir elementos
de transição e, portanto, continha elementos de pelo menos dois estágios webe- do processo histórico de formação burocrática e para ver esse processo como
rianos, não se encaixando em nenhum deles confortavelmente. Weber, é claro, uma mudança constante.8 Seguindo seus passos, tentei diferenciar os objetivos
e valores da burocracia (tais como definidos pela Coroa) daqueles dos burocra-
tas, tanto pessoais como profissionais. Minha abordagem básica consistiu em
Abreviaturas
ver a burocracia como um sistema social e como uma forma de administração,
e examinar as relações entre ela e a sociedade em geral. Ê no padrão dinâmico
dessas relações que se encontra a história da burocracia colonial.

ARQUIVOS

ACL Academia de Ciências de Lisboa


ACME Arquivo da Câmara Municipal da Bahia
ACM L Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa
AGI Archivo General de índias (Sevilha)
ACS Archivo General de Simancas
AHI Arquivo Histórico do í tâmara ty
AHNM Archivo Histórico Nacional Madrid
AHNKI Arquivo Histórico Nacional do Rio de Janeiro
AHU Arquivo Histórico Ultramarino
AM c Arquivo Municipal de Coimbra
ANTT Arquivo Nacional da Torre do lombo (Lisboa)
APB Arquivo Público do Estado da Bahia
ASCMB Arquivo da Santa Casa de Misericórdia da Bahia
AUC Arquivo da Universidade de Coimbra
BA Biblioteca da Ajuda (Lisboa)
BGUC Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra
BM Britísh Museum (Londres)
BNL Biblioteca Nacional de Lisboa
BMM Biblioteca Nacional de Madrid
BNRJ Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro
BPE Biblioteca Pública de Évora
Biblioteca Pública Municipal do Porto
IHGE Instituto Histórico e Geográfico do Brasil
PRÓ Public Reco rd Office (Londres)
RAHM Real Academia de Ia Historia (Madri)
SGL Sociedade de Geografia de Lisboa

PUBLICAÇÕES

ABNR Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro


ACVSP Actas da Câmara da Villa de São Paulo
AMP Anais do Museu Paulista
ARQUIVO CAIMVAL Os manuscritos do Arquivo da Casa de Cadava! respeitantes ao Brasil
CIELB Colóquio Internacional de Estudos Luso-brasileiros
COL. cfíKOjV. Collecção ckronologica da legislação portugueza
CSPF Calendar of State Papers Foreign Series
DHBNR Documentos históricos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro
Hispanic American Historical Review
História da administração da Justiça no Estado da índia
História da Companhia defesiií no Brasil
História da colonização portuguesa do Brasil PRIMEIRA PARTE:
LIVRO PRIVHRQ Livro Primeiro do governo do Brasil
i IVRO SEGUNDO "Livro Segundo do governo do Brasil", AMt>t 111 (l 927), 5-128
JUSTIÇA E BUROCRACIA
ORD. FIL. Ordenações Filipinas
ORD. MAN. Ordenações Manuelinas
i. A Justiça do rei: Portugal, África e Ásia

Um só mau oficial que há em uma cidade


destroi a comunidade;
Vede bem se farão mal,
muitos desta qualidade;
Deus e el rei não são servidos,
os povos são destruídos,
a policia danada,
a republica roubada,
e os pobres oprimidos.
Garcia de Resende, Miscelania (c. 1534)

O pelourinho, símbolo de justiça e autoridade real, ficava no coração da


maioria das cidades portuguesas do século xvi. À sua sombra, autoridades
civis liam proclamações e castigavam criminosos. Sua localização no centro da
comunidade refletia a crença ibérica de que a administração da justiça era o
mais importante atributo do governo. Os portugueses e espanhóis dos séculos
xvi e xvn achavam que a aplicação imparcial da lei e o honesto desempenho dos
deveres públicos garantiam o benvestar e o progresso do reino; no sentido
contrário, a adulteração da justiça por funcionários gananciosos ou por grupos
e indivíduos fortes provocava a ruína e o castigo divino. Em Portugal, a preocu- sós de servir à comunidade pelo período de um ano/ Um bastão vermelho
pação dos reis com a justiça atingiu um apogeu draconiano durante o reinado simbolizava a autoridade do magistrado municipal. Ele era responsável pela
de d. Pedro i (1357-97), para o qual a distribuição de justiça aos bem-nascidos manutenção da lei e da ordem no município, rnas geralmente encontrava obs-
e humildes se tornou uma fixação psicótica.l Vezes sem conta, tratados eruditos táculos na realização desse objetivo; como funcionário eíeito L- membro da
e as próprias leis mencionavam a justiça como a primeira responsabilidade do comunidade, o juiz ordinário e sua família ficavam expostos às ameaças e pres-
rei. Do século xm ao xvn, os portugueses viam uma estreita relação entre o rei e sões dos fidalgos e de outros indivíduos e grupos poderosos. Em contrapartida,
a sua lei,2 o magistrado municipal podia abusar da autoridade para favorecer amicos e
No ultramar, os rebentos coloniais de Espanha e Portugal não eram menos parentes.
ciosos do valor da justiça e da lei. Frei Vicente do Salvador, nascido no Brasil e Essas falhas levaram a Coroa a criar, já em 1352, o cargo de juiz de fora
um de seus primeiros historiadores, contou em sua História do Brasil um caso (literalmente, juiz que vinha de fora) para substituir o juiz municipal em certas
ilustrativo. Um terremoto na índia portuguesa tinha destruído toda a cidade de comunidades.7 Nomeados pelo rei, os juizes de fora eram, teoricamente, menos
Bassein, menos o pelourinho e um muro onde os azorragues da punição judi- sujeitos a pressões locais. Além disso, a política da Coroa era garantir que esses
cial ficavam pendurados. Frei Vicente extraiu desse incidente a conclusão moral magistrados não tivessem ligações pessoais nas áreas de sua jurisdição, Como
de que Deus preferia a perda de cidades e pessoas à suspensão de castigos para os juizes municipais, os magistrados reais podiam ouvir casos civis e criminais
crimes.3 A administração da justiça, portanto, é uma chave para o entendi- em primeira instância, cxceto aqueles que envolvessem prerrogativas reais. Em
mento dos Impérios de Espanha e Portugal nos séculos xvi e xvn. 1580 a autoridade real e central — simbolizada pelo cetro branco do juiz de
O Império marítimo português, do qual o Brasil era apenas uma parte, já fora — já tinha suplantado o controle judiciário municipal em mais de cin-
foi chamado de "talassocracia" e de império comercial num molde militar e quenta cidades de Portugal.8
religioso.4 Era um Estado organizado para o qual fora desenvolvida uma com- Logo abaixo, na estrutura administrativa, estavam as Comarcas ou
plexa maquinaria de controle. Os modelos de governo e instituições oficiais do Correições, em número de 21, divididas entre as seis províncias portuguesas de
Brasil baseavam-se nas formas originadas em Portugal ou nas áreas do Atlântico, Beira, Entre Douro e Minho, Trás-os-Montes, Alentejo, Estremadura e Algarve.
da África e da Ásia para onde os portugueses se expandiram. O desenvolvi- Para cada Correição era designado um corregedor (magistrado superior da
mento brasileiro antes e depois de 1580 foi com frequência precedido — ou Coroa), cujas funções eram, basicamente, de natureza investigatória e apelató-
ocorreu a par — de desenvolvimentos em Portugal ou em outros lugares do ria. Além disso, o corregedor, cujo título significa exatamente o que corrige,
Império. Por isso é preciso entender a organização da estruLura judicial portu- tinha o dever de processar criminosos, supervisionar obras públicas, fiscalizar
guesa em 1580 se quisermos compreender o período subsequente. Além disso, eleições municipais, aplicar ordenações reais e salvaguardar prerrogativas reais.
como veremos, a estrutura judicial tornou-se o modelo do arcabouço da buro- Ao longo do ano, esperava-se que o corregedor visitasse todas as cidades e
cracia colonial. aldeias sob sua jurisdição para certificar-se do estado da justiça, vistoriar o
A unidade básica da estrutura administrativa e judicial portuguesa era o procedimento de magistrados subalternos e ouvir aqueles casos em que esses
Conselho. Cada Conselho mantinha um determinado número de funcionários magistrados estivessem implicados ou fossem suspeitos. Fazer essa jornada era
que exerciam as funções administrativas e judiciais necessárias à vida urbana. fazer correição; daí o título de corregedor.9
Esses servidores incluíam o almotacel, o alcaide, o meirinho e o tabelião, mas o A presença do juiz de fora e do corregedor nas cidades e aldeias de Portugal
mais importante funcionário judiciário local era o juiz ordinário, às vezes cha- refletia uma tentativa da monarquia de limitar o controle de elementos locais
mado de juiz da terra.5 Cada Conselho incluía dois desses magistrados munici- de poder. Um observador contemporâneo de Portugal comentou que também
pais eleitos. Nem sempre formados em direito, eram cidadãos comuns desejo- era obrigação do corregedor "apaziguar facções e discórdias e restringir a
influência da província".10 Tanto o corregedor como o juiz de fora eram pilares A Casa do Cível estava estabelecida em Lisboa desde 1434. Todos os casos
do governo real em nível local. cíveis em Portugal, com direito a recurso, eram ouvidos por esse tribunal, que
No sistema judicial e administrativo português questões relativas a órfãos, exercia jurisdição final em disputas que envolvessem pequenas somas. Ações
instituições de caridade e validação de testamentos eram atribuídas a outro em que estavam em jogo somas maiores poderiam recorrer à Casa da
grupo de funcionários. No nível municipal, havia um juiz de órfãos, cujas obri- Suplicação. A Casa do Cível também tinha jurisdição em todos os casos crimi-
gações se limitavam à guarda de órfãos e de sua herança.11 Seu superior ime- nais da província de Estremadura e da cidade de Lisboa, sem recurso de apela-
diato no nível da Comarca era o provedor, encarregado de órfãos, hospitais, ção de suas decisões. A Casa do Cível tinha a reputação de excesso de trabalho
irmandades laicas e questões de testamento, assim como da supervisão da acumulado e de extrema lentidão na solução de litígios.
coleta de certos tributos e rendas. Pelo fim do século xvi, o juiz de fora e o cor- A Casa da Suplicação também era um Tribunal Superior de Apelação, mas
regedor tinham assumido esses cargos em muitos lugares, o que resultou na estava acima das outras cortes. Tinha começado como tribunal para o séquito
concentração de poder nas mãos dos magistrados reais, num nível que excedia do rei e, originariamente, funcionara nas instalações da Casa do Cível, mas em
as suas atribuições. 1392 foi separada em caráter permanente.14 Depois dessa data, a Casa da
Havia muitas exceções ao padrão geral esboçado acima. A maioria delas Suplicação passou a acompanhar o monarca e, por isso, costumava instalar-se
tinha sua origem em concessões e privilégios medievais, feitos por monarcas no Alentejo, na Estremadura e na cidade de Lisboa. Casos criminais originados
portugueses a grupos, instituições e indivíduos. As áreas pertencentes às fora da província de Estremadura, e que tivessem direito a apelação, eram ouvi-
ordens militares-religiosas de Cristo, Avis e Santiago não estavam submetidas dos pela Casa da Suplicação, assim como os casos civis fora da jurisdição da
ao sistema regular de administração, e nelas a lei era aplicada por um ouvidor, Casa do Cível. Recursos de decisões judiciais nas colónias eram também ouvi-
e não por um corregedor. Os poderes de um ouvidor equivaliam, mais ou dos pela Casa da Suplicação. Como tribunal para a corte do rei, ela mantinha
menos, aos dos magistrados superiores da Coroa, mas ele era indicado pela ainda dois magistrados (corregedores de corte) para julgar os processos de
ordem militar, e não pela Coroa. A Universidade de Coimbra também desfru- cortesãos e da casa real.
tava de posição distinta, uma vez que nela a justiça era administrada por um A organização e os procedimentos internos da Casa da Suplicação serviam
conservador da justiça, que tinha, sobre professores e estudantes, dentro e fora de modelo para todos os outros tribunais do Império português. Cada posição
do campus, a mesma jurisdição que o corregedor normalmente exercia numa dentro da estrutura do tribunal trazia, com suas funções, vantagens e prestígio
Comarca.12 O arcebispo de Braga — primaz das Espanhas — exercia controle que os magistrados ansiavam por adquirir. O principal órgão do tribunal era
temporal, além de eclesiástico, sobre grande território. Além disso, terras per- composto de desembargadores, divididos em desembargadores extravagantes e
tencentes a certos magnatas, como o prior do Crato, o duque de Bragança, o desembargadores dos agravos. Os primeiros eram membros menos graduados,
duque de Aveiro e o marquês de Vila Real, estavam isentas das visitas dos cor- geralmente homens mais jovens e inexperientes, designados, conforme a neces-
regedores e eram sujeitas apenas a limitado controle real em questões relativas sidade, para os casos presididos pelos desembargadores dos agravos. Em 1580
à administração da justiça.13 havia mais de vinte magistrados autorizados a servir na Casa da Suplicação.15
Os Tribunais Superiores de Apelação eram o nível seguinte da estrutura Os desembargadores eram distribuídos em duas câmaras (mesas), uma para
judiciária. O Tribunal Superior era conhecido, no mundo português, como casos civis e outra para casos criminais, cada qual dirigida por um desembarga-
Relação, às vezes Casa da Relação. Em 1580, havia três Tribunais Superiores em dor dos agravos, que usava o título de corregedor.16 Uma sessão plenária, a mesa
operação no Império português: dois tribunais subordinados, a Casa do Cível grande, era convocada apenas para questões de grande importância.
em Lisboa e a Relação da índia, em Goa, e a superior Casa da Suplicação, que Como em todos os tribunais superiores portugueses, o mais alto funcioná-
devia sua posição à proximidade da pessoa do rei. rio era geralmente um grande nobre, hierarca da Igreja ou, nas colónias, o
governador residente ou vice-rei. Sua posição e linhagem conferiam prestígio
investigações especiais (devassas) ou inspeções, e às vezes resolvia conflitos de
ao tribunal e, pelo menos em tese, colocavam-no acima das querelas de seus
competência entre tribunais ou magistrados subordinados. Os vários graus da
membros.17 Na Casa da Suplicação, como na Casa do Cível e nos tribunais pos-
magistratura real, do mais jovem juiz de fora ao mais experiente magistrado do
teriores do Império, o papel do presidente (regidor, governador) era mais
reino, eram submetidos a escrutínio, inspecão e inquirições do Desembargo do
honorário que funcional, e a verdadeira liderança cabia ao chanceler, que era de
Paço, Isso se aplicava tanto às colónias quanto à metrópole; e, diferentemente
fato o juiz supremo. Experiência e uma eminente carreira legal preparavam o
do Império espanhol, no qual o Conselho das índias nomeava magistrados
magistrado para a posição de chanceler, de grande responsabilidade. Os deveres
reais para as colónias, essa função permaneceu unificada sob o controle do
do chanceler incluíam designar juizes para julgar litígios, emitir sentenças,
Desembargo do Paço.19
rever decisões para evitar conflitos com as leis existentes e afixar o selo do tribu-
A composição do Desembargo do Paço não era fixa, embora o costume
nal. Em Lisboa, Goa, Bahia e Porto, as sedes de tribunais superiores do Império,
tenha mantido o número de magistrados em torno de seis. Na altura de 1580
a personalidade e o desempenho do chanceler geralmente determinavam o
havia treze desembargadores do Paço servindo ou autorizados a servir. Havia
andamento e o estilo de cada tribunal.
entre os membros um sacerdote especializado em direito canónico, para que os
Apesar de não ser geralmente considerada parte do aparelho administra-
direitos e privilégios da Igreja fossem preservados. Tornar-se membro do
tivo colonial, a Casa da Suplicação exercia alguma influência ao Brasil. Não só
Desembargo do Paço representava o pináculo da promoção no sistema judiciá-
porque sua estrutura serviu de modelo para tribunais brasileiros posteriores,
rio, e todos os magistrados aspiravam ao prestígio, à influência e ao alto salário
mas também porque, sendo o rnais alto tribunal de apelação, ela às vezes julgava
dessa posição.211
recursos apresentados nas colónias. Por isso, algumas das mais importantes
Um sistema de tribunais e funcionários eclesiásticos que aplicava a lei
decisões para a vida dos colonos eram tomadas nas câmaras da Casa da
canónica existia paralelamente à organização judicial esboçada acima. Clérigos
Suplicação. Infelizmente, quase nada se sabe da possível influência política
tinham direito a julgamento nos tribunais religiosos, os quais, via de regra,
desse tribunal sobre o processo decisório da Coroa.
eram lenientes e aplicavam penas leves.21 Um tribunal especial, a Inquisição, ou
No ápice do sistema judiciário ficava o Desembargo do Paço, órgão que,
Santo Ofício, mantinha sua própria organização e exercia jurisdição sobre o
tendo principiado como urna assembleia consultiva de d. João n (1481-95),
laicato e o clero em questões de moralidade, heresia e desvio sexual. A Inquisição
passara a uma instância governamental plenamente institucionalizada pelas
em Portugal operava a partir das cidades de Lisboa, Coimbra e Évora.
Ordenações Manuelinas de 1514. Embora casos de mérito especial pudessem
Havia uma comissão análoga ao Desembargo do Paço criada por d. João m
recorrer a esse órgão depois de esgotar todos os outros meios de conciliação,
em 1532 para aconselhá-lo em questões pertinentes à Igreja c à moralidade no
sua função básica não era a de tribunal, mas a de conselho e assembleia consul-
reino (consciência real). Essa Mesa da Consciência e Ordens era composta de
tiva em todas as questões de justiça e administração judiciária. Com o passar do
homens da Igreja e advogados laicos, que aconselhavam a Coroa em assuntos
tempo, o Desembargo do Paço tornou-se o órgão central da estrutura burocrá-
relativos à igreja, às ordens militares e à Universidade de Coimbra. Era também
tica do Império português.
responsabilidade da Mesa da Consciência prover todos os benefícios eclesiásti-
Era costume do Desembargo do Paço acompanhar o rei e reunir-se com
cos e das dioceses, resgatar cativos, administrar a propriedade de pessoas que
ele todas as tardes de sexta-feira para discutir a formulação e a emenda de leis, a
morriam sem deixar testamento e zelar de modo geral pela moralidade no
nomeação de magistrados e as condições políticas e legais do país em geral.18 O
reino. A Mesa da Consciência nomeava, ainda, os "provedores dos defuntos e
Desembargo do Paço nomeava magistrados reais, promovia-os e avaliava seu
resíduos" e coletava o dízimo no Brasil e outros domínios mediante urn sistema
desempenho por meio da residência (investigação) realizada no fim de seu
delegado de cobrança.
tempo de serviço. Se fosse o caso, o Desembargo do Paço também realizava
Como o Desembargo do Paço, a Mesa da Consciência também exercia
32
33
certas funções judiciais. Membros das ordens militares eram isentos da jurisdi- lizados mediante a concessão de títulos de nobreza e o ingresso nas ordens
ção civil e tinham direito de ser julgados por um juiz especial que sempre per- militares. Dessa maneira os magistrados começaram a adotar as atitudes e os
tencia a uma das ordens. Esse juiz dos cavaleiros tomava conhecimento de todos atributos da aristocracia militar. Mas, enquanto os fidalgos e a nobreza militar
os casos que envolvessem cavaleiros das ordens militares, e de suas decisões só inferior foram obrigados a lutar contra a violação de suas imunidades e seus
cabiam recursos à Mesa da Consciência. Da mesma forma, das decisões do con- privilégios tradicionais, a qual era inerente à centralização real, os letrados
servador da Universidade de Coimbra só cabia recurso à Mesa. Mais importante, deviam sua existência à expansão do poder real. Em Portugal e na Espanha, os
porém, era que a Mesa da Consciência debatia e resolvia os problemas morais letrados formavam um grupo estreitamente ligado à Coroa, profundamente
do domínio português no Brasil: a posição e a natureza dos índios, a legali- respeitoso da lei e da ordem e ansioso por encontrar soluções legais para os
dade e a moralidade do comércio de escravos africanos e indígenas e o problema problemas práticos do governo.25
da "guerra justa". Essas questões morais e sua solução exerceram considerável Os juizes da Coroa aspiravam à promoção na hierarquia judicial, de juiz de
influência na formação da sociedade e da mentalidade do Brasil colonial.22 fora ou juiz dos órfãos a corregedor ou provedor, e assim sucessivamente, gal-
O sistema de tribunais reais e eclesiásticos era, ao que tudo indica, um gando posições dentro dos tribunais superiores. Posteriormente, os letrados
mecanismo altamente racionalizado de administração judicial, um sistema mais capazes, ou mais bem relacionados, seriam designados para ugj~dos conse-
baseado no conceito de que a obrigação de fornecer os meios legais para corri- lhos reais, como o Desembargo do Paço, ou, ocasionalmente, para um dos órgãos
gir erros constituía a essência da autoridade do rei. Mas o observador se impres- consultivos que cuidavam de questões coloniais e financeiras. Cada promoção
siona, especialmente ante a organização judicial real, com as múltiplas respon- trazia mais prestígio, mais privilégios e maiores salários. O bem-estar dos letra-
sabilidades dos magistrados e sua tendência a assumir funções extrajudiciais. dos de nível universitário dependia em grande parte dos favores reais.26 Na luta
No processo de centralização, a Coroa portuguesa encontrara, no sistema dos reis portugueses para impor uma monarquia centralizada, os letrados se
judiciário, uma ferramenta conveniente e eficaz para a ampliação do poder real, tornaram aliados naturais. Quando a administração do Império ultramarino
e, no corpo de magistrados profissionais do sistema, a Coroa não apenas encon- transformou-se em preocupação permanente, a Coroa voltou-se novamente
trou, mas forjou um aliado competente. para a classe dos magistrados. Quem haveria de melhor que os sóbrios magistra-
Os letrados, ou pessoas com grau universitário, elevaram-se a posição de dos reais para controlar as forças centrífugas do Império geradas pelos senhores
destaque no século xiv, depois das Cortes de Coimbra de 1385. Em meados do de engenho brasileiros e pelos mercenários em Goa? E quem teria mais a ganhar
século xv, sua posição era a de quase igualdade com a classe dos cavaleiros e do que eles obedecendo à vontade e protegendo os interesses do rei? Em tese, os
fidalgos, embora os fidalgos se recusassem a reconhecer esse fato.23 Em meados magistrados representavam a Coroa e mereciam confiança devido aos controles
do século seguinte, os letrados começaram a assumir aspecto de casta, como burocráticos e ao desejo profissional de atingir objetivos carreiristas.
grupo que se perpetuava por meio de casamentos e relações de família, ocu- As possessões ultramarinas de Portugal, apesar de distintas pelas condi-
pando a maioria dos cargos judiciais e muitos cargos administrativos do ções peculiares e pela localização geográfica, eram subordinadas ao sistema
governo. Os filhos dos letrados seguiam os passos dos pais, saindo de um curso judiciário da metrópole. A lei portuguesa tornou-se a lei dos territórios que
de direito canónico ou de direito civil (geralmente na Universidade de Coimbra, acabavam de ser incluídos em seus domínios, e ministros da Justiça semelhan-
mas às vezes em Salamanca) para ingressar no serviço real. Depois disso, a pro- tes aos de Portugal assumiram cargos nas colónias para aplicar a lei. As condi-
moção dependia não apenas de antiguidade, diploma universitário e desempe- ções locais e as relações particulares da colónia com a Coroa, entretanto, deter-
nho, mas também do fato de o pai ter ou não igualmente servido.24 minavam, em certa medida, a natureza da administração judicial.
Embora a classe dos letrados tenha vindo de origens humildes no século Os postos avançados do norte da África — Ceuta, Tânger, Mazagão e
xiv, trezentos anos depois sua importância e seu prestígio estavam instituciona- Arzila — foram primeiramente estabelecimentos militares cujos capitães esta-

34 35
MAPA l O I M P É R I O PORTUGUÊS

1 P.AC/Í/CO

racá OCEANO
ATLÂNTICO

P>A C 7 F / C O
vam investidos de poderes judiciais sumários. Em casos de traição, deserção, Em primeiro lugar, as partes componentes do Estado da índia iam de
roubo, pirataria e sodomia, e em todos os casos que não envolvessem morte ou Macau a Moçambique, e eram separadas pela vastidão do oceano Índico.34
esquartejamento como castigo, os capitães tinham jurisdição final.27 Nos outros Além disso, a diversidade de instituições locais dificultava as coisas. Cidades
casos, cabiam recursos a Portugal.
como Goa e Macau tinham Câmaras municipais eleitas, com os costumeiros
Nos Açores, como no Brasil, os capitães tinham permissão para designar juizes locais, ao passo que nos estabelecimentos militares, nas fortalezas da
um ouvidor, mas a Coroa, periodicamente, enviava um corregedor para inspe- índia, o capitão da guarnição designava o ouvidor e seus meirinhos. D.
cionar a administração de justiça. O interesse do rei no controle judicial tam- Francisco de Almeida, o primeiro vice-rei da índia, recebera alguns poderes
bém era demonstrado pela presença de um juiz de fora na cidade de Ponta judiciais em suas instruções de 1505, mas na maior parte dos casos a autoridade
Delgada, na ilha de São Miguel. Na ilha da Madeira, onde o sistema de capita- judicial era atribuída a um juiz superior, ou ouvidor-geral, frequentemente
nias foi inaugurado, o capitão-mor tinha o direito de designar um ouvidor para membro da magistratura real. Os poderes desse cargo foram um tanto amplia-
administrar justiça. A Coroa, no entanto, reservava-se o direito de nomear o dos nas ordens dadas a João de Osório, que viajou em companhia de Vasco da
provedor dos órfãos.28
Gama em 1524, e a partir de então o ouvidor-geral manteve jurisdição de ape-
Em sua conquista ao longo da costa oeste da África, os portugueses não lação sobre os magistrados subordinados em todo o Estado da índia.35
tinham desenvolvido uma fórmula para a administração da justiça. Em Angola, Como funcionário designado pelo rei, sua ampla jurisdição e seu grande
o problema foi tratado pela primeira vez com a doação feita a Paulo Dias de poder geralmente punham o ouvidor-geral em conflito com o vice-rei e os
Novais em 1571. Dias de Novais foi tornado capitão e donatário de Angola, com moradores locais.36 O volume de litígios e a dificuldade imposta pela distância
poderes judiciais equivalentes aos anteriormente concedidos aos donatários geográfica já bastavam para reduzir a eficácia do ouvidor-geral e finalmente
brasileiros no começo dos anos de 1530.29 Ele tinha licença para designar ouvi- levaram à criação, em 1544, do Tribunal Superior de Apelação em Goa, com
dores e rever e confirmar nomeações para cargos judiciários feitas por funcio- base no modelo da Casa do Cível e da Casa da Suplicação.37
nários municipais.30 Nas ilhas de São Tomé e Cabo Verde e nas ilhas da costa da A Relação da índia, criada em 1544, foi o primeiro dos tribunais superiores
Guiné, os proprietários receberam jurisdição de natureza final, exceto nos casos de apelação a ser estabelecido fora das fronteiras de Portugal continental.
envolvendo pena de morte ou perda de membros.31 Descobriu-se, porém, que Apesar de criada para reduzir o volume de litígios e mediar disputas, ela se
esses amplos poderes privados eram prejudiciais aos interesses do rei e em 1516 envolveu constantemente em conflitos internos e choques ostensivos com
corregedores foram designados para investigar a atuação dos ouvidores que outras fontes de autoridade. Três anos depois de estabelecida, havia queixas
representavam os capitães.32 Os proprietários, portanto, continuaram a nomear contra a ganância e a incompetência dos magistrados da Relação. Da índia,
juizes, mas a Coroa usava seus corregedores para efetuar a supervisão destes e Simão Botelho escreveu em 1547 que, desde o estabelecimento da Relação,
das Câmaras municipais locais.33 "agora pior despacho que dantes: já pode ser por tudo ir em crescimento e as
No oceano Índico, Portugal começara a criar um império marítimo nas demandas mais que tudo".38 Essas acusações de ineficácia, preguiça e incompe-
rotas de comércio da China para Malacca e Goa. Soldados portugueses brigões, tência caracterizaram a história do tribunal de Goa desde a criação até sua
prelados arrogantes e funcionários gananciosos mesclavam-se aos moradores breve abolição pelo marquês de Pombal em 1774.39 Vários projetos de reforma
locais, criando graves problemas administrativos e judiciais. Em nenhum lugar foram incapazes de dar resultados, e, a acreditarmos em Diogo de Couto e
isso era mais visível do que na "Dourada Goa" sede do poder português na Ásia, outras testemunhas oculares, a magistratura no Estado da índia pouco mais fez
onde a luxúria, o concubinato e a má conduta floresciam. Administrar a justiça do que forrar os bolsos dos magistrados. Certamente, as fluidas condições
adequadamente além do Cabo da Boa Esperança era, talvez, tarefa impossível, sociais e económicas da índia portuguesa contribuíram para essa situação, mas
devido à natureza da região e aos problemas apresentados pela geografia. a similaridade das queixas registradas contra magistrados em Lisboa, índia e

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Brasil indica um padrão geral — se não de abusos judiciais, pelo menos da
percepção que a sociedade tinha da magistratura. 2. Justiça e juizes no Brasil, 1500-80
Soldados, comerciantes, clérigos e plebeus portugueses viarn na adminis-
tração da justiça o cerne do governo real e a principal justificativa do poder do
soberano. Por isso, esperavam os mais altos níveis de desempenho dos magis-
trados que aplicavam a justiça em nome do rei, e, quando um juiz deixava de
corresponder a essas expectativas, as reclamações costumavam ser ruidosas e
insistentes. O que a maioria das pessoas não via, no entanto, era que a organiza-
ção judiciária se tornara o plano estrutural do império. Racionalizada e siste-
matizada desde o século xiv, ela oferecia à Coroa um meio burocrático de con-
trole, e quase imperceptivclmente a magistratura real se estendera às colónias.
Como e por que a situação colonial transformava juizes em burocratas pode ser
visto com plena clareza nos primórdios da história do Brasil.

Não há paz, mas tudo ódio, murmurações e detraçocs, roubos e rapi-


nas, enganos e mentiras; não há obediência nem se guarda um só
mandamento de Deus, e muito menos os da Igreja.
Padre Manoel da Nóbrega (Bahia, 5 de julho cie 1549)

Terra de pau-brasil, de índios nus e de papagaios, havia pouco mais no


Brasil capa/, de preocupar o rei ou de atrair muitos colonos portugueses nos
trinta anos que se seguiram à descoberta da colónia, em 1500. Os raros e minús-
culos povoados e entrepostos comerciais na costa brasileira eram muito diferen-
tes da dourada Goa, e o controle real, como tudo o mais nesse remanso colonial,
desenvolveu-se lentamente. Até os anos de 1530 não houve nenhuma tentativa
de legislar para a nova terra de forma sistemática. Capitães de navios e chefes de
expedições militares e exploratórias exerciam suas prerrogativas tradicionais,
como árbitros de disputas a bordo. Para os poucos europeus que permaneciam
por algum período nessa costa inóspita, a justiça era do tipo de fronteira, dispen-
sada pessoalmente, por estocada de espada ou tiro de mosquete.
Nos primeiros anos da história do Brasif, a colónia era vista principal-
mente como empresa comercial, e sua integração à estrutura colonial existente
se dava por meio dos órgãos de comércio marítimo do governo. Por isso o
abastecimento do Brasil e dos navios que ali faziam comércio e a solução de em quinze pedaços, e entre 1533 e 1535 doou-os a doze fidalgos portugueses. Foi
disputas oriundas da atividade comercial e de navegação eram da alçada da uma tentativa de usar o sistema de donatários de Açores e Madeira para distri-
Casa da Guiné, Minas e índia e do juiz da Guiné e da índia.1 Como havia poucos buir o fardo da colonização entre um determinado número de indivíduos e
europeus permanentemente radicados no Brasil, não houve tentativa, nem era assim aliviar as obrigações reais.3 As concessões eram feitas por intermédio de
preciso que houvesse, de estabelecer um sistema regular de administração judi- dois instrumentos, a carta de doação, que delineava os poderes e os privilégios
cial na colónia. do receptor, e o foral, que declarava as obrigações dos donatários para com a
A expedição de Martim Afonso de Sousa, que partiu de Lisboa em 1530, Coroa e os habitantes do território. Os poderes judiciais concedidos aos donatá-
marcou importante transição da descuidada administração da justiça imposta rios enfatizavam os objetivos colonizadores. A Coroa reconhecia que a distribui-
pela necessidade militar para uma forma mais concreta, baseada no estabeleci- ção de terras em sesmarias, ou doações de terra, e o estabelecimento de cidades
mento de uma colonização permanente e no reconhecimento da necessidade dentro da tradição portuguesa exigiam uma estrutura judiciária. A jurisdição
de normatização da sociedade. Temendo avanços franceses na região, d. João ni dos proprietários correspondia quase exatamente à de Martim Afonso de Sousa.
patrocinou essa expedição a fim de garantir a nova colónia para Portugal, Para A carta de doação dava ao proprietário ampla jurisdição civil e criminal, a
tanto, Martim Afonso de Sousa foi instruído a realizar ações militares contra ser exercida por pessoas que ele nomeasse: um magistrado superior (ouvidor) e
quaisquer estrangeiros intrometidos encontrados na costa, e a fazer uma outros funcionários da justiça: escrivães, tabeliães e meirinhos. Um segundo
investigação preliminar do litoral com vistas à exploração terrestre. Ao mesmo ouvidor poderia ser nomeado quando o crescimento da população justificasse
tempo, entretanto, ele levava homens e material suficientes para uma povoa- tal medida. Ao magistrado superior cabia julgar casos em primeira instância,
ção permanente. oriundos de um raio de dez léguas da sua moradia, e todos os recursos de juizes
Os amplos poderes judiciais de Martim Afonso de Sousa, como capitão- inferiores. O donatário e o ouvidor tinham jurisdição em casos civis que não
-mor da frota, refletiam a natureza transacional e os duplos objetivos de sua ultrapassassem 100 mil-réis, sem recurso, e em casos criminais que envolvessem
expedição. Como comandante militar, foi-lhe concedida plena autoridade a pena de morte. Como no caso de Martim Afonso de Sousa, sua jurisdição
legal em todos os casos civis e criminais, e, fidalgos à parte, suas decisões não sobre os fidalgos era mais limitada. Os fidalgos poderiam ser julgados sem
comportavam nenhum tipo de recurso. Seu poder judicial estendia-se aos direito de recurso em casos civis que envolvessem menos que cem cruzados e,
demais membros da expedição e a todas as pessoas no Brasil. Esses amplos em casos criminais, poderiam ser condenados a até dez anos de exílio.4 Em
poderes inseriam-se na tradição da autoridade militar concedida a um coman- casos de blasfémia, heresia, sodomia e falsificação, nem mesmo os fidalgos
dante supremo; mas, em reconhecimento dos objetivos colonizadores da poderiam recorrer da pena de morte.
expedição, foi emitido um alvará separado que autorizava Martim Afonso a Tendo permissão para examinar a lista de cidadãos considerados aptos
criar os cargos judiciários e de governo necessários à administração adequada para servir na Câmara municipal, o donatário e o ouvidor exerciam considerá-
da nova colónia.2 A nova fórmula reconhecia os poderes sumários de um vel controle sobre a seleção e a confirmação de funcionários municipais. Como
comandante militar e os poderes de nomeação de um governador como os o juiz ordinário era normalmente um desses funcionários, o senhor proprietá-
dois aspectos fundamentais da administração judicial. Dentro de cinco anos, e rio controlava a justiça de alto a baixo. Isso é evidenciado pelo fato de que o
mesmo antes da volta de Martim Afonso para Portugal, a Coroa aplicou essa donatário também estava isento das visitas de qualquer magistrado superior da
fórmula em sua tentativa seguinte de garantir uma indiscutível posse portu- Coroa (corregedor) em sua capitania, mesmo que fosse acusado de um crime.5
guesa do Brasil. A Coroa esperava, entretanto, que, em vez de tentar inovações legais radicais, os
Convencido de que a povoação permanente era a única maneira de garantir proprietários obedecessem às leis de Portugal e aplicassem as leis subsequentes
a posse do Brasil contra rivais estrangeiros, d. João m dividiu sua nova conquista não codificadas que fossem introduzidas pela metrópole (leis extravagantes).6

43
Os privilégios e isenções judiciais estendidos aos proprietários lembram MAPA 2 BRASIL C O L O N I A L

aqueles que em Portugal tinham sido estendidos a dignitários como o duque de


Aveiro e o prior do Grato. Certas terras pertencentes a esses grandes senhores
gozavam de isenção das investigações dos corregedores, e os proprietários
podiam nomear magistrados. O título de ouvidor, escolhido para os represen-
tantes judiciais especiais, estava mais estreitamente ligado em Portugal às áreas
sob controle das ordens militares e aos territórios de grandes senhores — áreas
essas normalmente fora da jurisdição dos magistrados reais. Assim, os poderes
judiciais concedidos aos proprietários representavam uma volta a antigas con-
cessões reais a certos nobres, e iam de encontro à então dominante preocupação
real com a centralização. Apesar de os poderes judiciais concedidos aos donatá-
rios não serem, propriamente, feudais, eram sem dúvida retrógrados, e não
contribuíam para o crescimento do poder real. O deslize da Coroa, entretanto,
durou pouco, e, apesar de capitanias terem sido concedidas no Brasil ainda em
1685, a Coroa nunca mais entregou poderes judiciais com a liberalidade com
que o fizera nas doações originais aos primeiros proprietários.
Em geral, o sistema de donatários no Brasil mostrou-se tão ineficiente na
administração da justiça como na promoção da colonização. Geralmente, os
donatários ou seus representantes assumiam pessoalmente os poderes do ouvi-
dor, além das suas funções de capitão-rnor e governador. Por serem membros
da pequena nobreza com experiência apenas em questões militares, a maioria
cios proprietários não tinha treinamento nem vocação para desempenhar suas
obrigações judiciais. Os resultados foram claramente desastrosos. Apesar de
terem sobrevivido poucas informações relativas ao período anterior a 1550,
BRASIL COLONIAL
relatórios retrospectivos indicam abusos generalizados e frouxidão universal na
aplicação da lei.
Perturbado por essas condições, pelos fracassos dos proprietários e pela
constante pressão de estrangeiros intrusos, d. João m resolveu centralizar o
governo do Brasil na figura do governador-gera! e prover essa nova forma de ouvidor-geral (magistrado superior da Coroa). Pelos sessenta anos seguintes, a
governo dos funcionários de justiça apropriados. Essa decisão alterou o sistema justiça no Brasil seria administrada pelo ouvidor-geral e seus subordinados, c,
de capitanias, mas não o aboliu. Tomé de Souza, o primeiro governado r-gê r ai, nos problemas que esses homens enfrentaram, podemos ver não apenas as
foi mandado para a Bahia à frente de uma grande expedição, com instruções dificuldades da administração da justiça, mas também como e por que funcio-
específicas para colonizar e estabelecer um governo central na colónia. nários judiciários haveriam de assumir poderes administrativos e bu rocráticos.
Acompanhavam-no muitos homens designados para várias posições adminis- A chegada de Pêro Borges como ouvidor-geral em 1549 assinalou um sig-
trativas, como capitão da guarda costeira, provedor-mor e, mais importante, nificativo afastamento em relação à estrutura do judiciário brasileiro anterior a
essa data.7 No entanto,foi uma mudança em inteira conformidade com as novas homens habilitados a ocupar cargos públicos já terem conseguido algum
diretrizes da política real para o Brasil. Em vez de simplesmente abolir toda a emprego no serviço real, os cargos municipais eram ocupados por degredados
estrutura fundiária e administrativa prévia e criar uma administração real total- supostamente ineptos — alguns dos quais tinham perdido as orelhas em
mente centralizada, o ouvidor-geral sobrepôs-se à estrutura existente de magis- Portugal, como castigo.11 Outros serviam como tabeliães e amanuenses, sem
trados e ouvidores nomeados pelos donatários. O resultado foi um sistema darem a menor atenção aos regulamentos que prescreviam suas tarefas. As
confuso e às vezes inoperante de controle exercido pelo rei e pelo donatário. observações de Borges sobre essa questão são confirmadas pelo jesuíta padre
Embora as instruções dadas a Pêro Borges não tenham sido descobertas, Manoel da Nóbrega, agudo observador das coisas, que aconselhou a Coroa a
material suplementar indica que lhe foi concedida ampla jurisdição apelativa, mandar fazendeiros para o Brasil, no lugar de "oficiais, tantos e de tantos orde-
assim como funções e obrigações investigativas.8 Borges deveria julgar recursos nados, os quais não querem mais que acabar seu tempo e ganhar seus ordena-
de sentenças dos ouvidores nomeados pelos donatários e servir, ele próprio, dos [...] e como este é seu fim principal, não querem bem à terra, pois têm sua
como magistrado local da capitania da Bahia. Aiém disso, deveria visitar as afeição em Portugal".12 Nóbrega falava das condições da recém-fundada cidade
capitanias para examinar o estado da justiça de cada uma. Esse dever confíitava de Salvador, mas seus comentários também poderiam se aplicar a outras áreas
com a isenção de revista real anteriormente concedida aos donatários, e a visita de povoação.
do ouvidor-geral agora estendia o poder da Coroa às diversas capitanias. A A inaptidão judiciária contribuía para criar condições de turbulência no
estrutura judiciária anterior tornou-se, dessa maneira, subordinada ao magis- Brasil, mas na raiz desse estado de coisas estavam as muitas oportunidades de
trado da Corte, que fazia as vezes de intermediário entre os ouvidores e a Casa desvios e excessos. O braço da lei não alcançava as regiões remotas, e a esparsa
da Suplicação em Lisboa. Era uma estrutura semelhante à que se desenvolvera povoação não contava, assim, com pressões comunitárias em apoio da morali-
na índia portuguesa antes de 1544. dade consagrada e do respeito à lei. A blasfémia era comum entre os bem-nas-
As condições que Pêro Borges encontrou no Brasil nos anos de 1550 cidos e os de condição inferior e motivo de preocupação tanto das autoridades
podem ser vistas como próprias de todo o período a partir de 1535, e mostram civis como das eclesiásticas.13 O grande número de mulheres indígenas, cujo
claramente que para um funcionário real consciente de suas obrigações o Brasil conceito de moralidade sexual divergia consideravelmente das normas portu-
não era um mar de rosas. Abundavam casos de abuso de poder e incompetên- guesas, constituía compreensível motivo de atração para os primeiros colonos.
cia. Por exemplo, na ausência do donatário de Ilhéus, um castelhano chamado Mais que qualquer outro fator, a falta de mulheres europeias atirava os colonos
Francisco Romero servia como capitão-mor e ouvidor. Apesar de bom homem nos braços das índias. O escandaloso desregramento sexual dos primeiros colo-
e soldado tarimbado, Romero não estava preparado para atuar como juiz, pois nos era motivo de constante condenação sacerdotal. Os padres jesuítas que
era "ignorante e muito pobre, o que muitas vezes faz fazer aos homens o que chegaram na expedição de Tomé de Souza em 1549 produziam grande e cons-
não devem".9 Borges insistiu com a Coroa para que obrigasse os donatários a tante fluxo de críticas e sugestões para remediar a situação moral dos colonos.
escolherem seus ouvidores entre homens com pelo menos algum conheci- O padre Manoel da Nóbrega e outros achavam que a melhor solução seria des-
mento de direito. Lembrou que em Lisboa um magistrado altamente treinado e pachar mais moças portuguesas para a colónia, onde poderiam encontrar bons
experiente do Tribunal Superior julgava apenas alguns casos, enquanto no maridos.14 Apesar de tais medidas e dos infrequentes casamentos entre colonos
Brasil um analfabeto distribuía numerosas sentenças em total desacordo com portugueses e mulheres indígenas, a concubinagem era a regra e o range-range
os princípios legais.10 da rede era um ruído comum na terra. Essa lassidão dos costumes, entretanto,
O relatório de Borges também assinalava que a proliferação de emprega- preocupava mais o clero que os magistrados civis.
dos do governo, fenómeno característico da administração ibérica, já tinha Deve-se ter em mente que as leis portuguesas no Brasil se aplicavam quase
começado nos anos de 1550. Ele declarou que, devido ao fato de quase todos os exclusivamente aos europeus. A população indígena permanecia geralmente

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fora do alcance do governo civil e consequentemente não tinha acesso aos ordem vinha não apenas das condições de vida na fronteira, mas também do
canais judiciários normais. Mesmo as leis projetadas especificamente para acúmulo de responsabilidades adicionais do cargo de ouvidor-geral. É preciso
regular as relações entre portugueses e índios raramente eram cumpridas. O lembrar que a introdução do ouvidor-geral no Brasil refletiu não apenas o
padre Manoel da Nóbrega nos oferece um exemplo de como os portugueses desejo da Coroa de melhorar a situação da justiça, mas também o seu desejo de
administravam justiça à população indígena. Um índio que tinha matado um aumentar o controle real centralizado. Depois de 1550, o interesse da Coroa
português foi detido e, por ordem do governador, posto na boca de um canhão nessa região aumentou solidamente e o ouvidor-geral, como funcionário real
e literalmente feito em pedaços.15 Não há dúvida de que a execução teve o efeito de confiança, cada vez mais assumiu novas funções e responsabilidades em
desejado de amedrontar os índios. Outro jesuíta, o padre Fernão Cardim, escre- nome dos interesses reais. A Figura l demonstra o lugar do Brasil no contexto
veu sarcasticamente a respeito do abuso da autoridade judicial contra os índios, da estrutura judicial imperial.
advertindo sobre o castigo divino: Com base talvez em precedentes romanos, a prática judicial portuguesa
na Idade Média mantivera uma divisão entre os ramos fiscal e judicial da
Houve sempre uma justiça rigorosa contra os índios. Já foram enforcados, corta- burocracia.19 Como vimos, entretanto, as linhas divisórias foram considera-
dos aos pedaços, esquartejados, já lhes foram decepadas as mãos, já foram quei- velmente borradas nos séculos xvi e xvn, quando os magistrados reais cm
mados com tenazes quentes e colocados nas bocas dos canhões por terem matado Portugal começaram a assumir responsabilidades fiscais. Fenómeno similar
[...] portugueses {que porventura o tenham merecido). Mas havendo pessoas, e ocorreu no Brasil. Em 1554, além dos seus deveres de ouvidor-geral, Pêro
não são poucas no Brasil, como sempre houve, e ainda há, notoriamente infames Borges acumulou os de provedor-mor da Fazenda (superintendente do
por saquearem, roubarem, marcarem a ferro quente, venderem e matarem muitos Tesouro). Esse era um dos três cargos mais importantes da colónia, ao lado
índios, até hoje nunca houve demonstração de castigo, e é para se temer que, já dos de ouvidor-geral e governado r-geral, e o exercício de dois desses cargos
que ele falta na Terra, caia do Céu sobre todos os habitantes do Brasil.16 dava a Borges amplos poderes.20 Posteriormente, ouvidores-gerais também
assumiram essas responsabilidades fiscais, sobretudo em caráter interino. A
Esses índios que buscavam a proteção de funcionários judiciários sentiam distinção teórica entre os dois braços da burocracia foi mantida, mas, nas
que as balanças da justiça pesavam contra eles. O testemunho de um português, regiões mais pobres e fronteiriças, os magistrados reais geralmente exerciam
por exemplo, valia pelo de três ou quatro índios.17 Os colonos, de sua parte, não as funções de funcionários do Tesouro.
precisavam temer represália judicial quando abusavam dos índios ou cometiam Durante o mandado de Borges, apareceram outros problemas que mais
crimes contra eles. Os índios que viviam em aldeias controladas pelos jesuítas, tarde afligiriam a magistratura real no Brasil. O poder irradiado pelos magis-
entretanto, contavam com alguma proteção contra maus-tratos dos colonos. trados provocava conflitos com outras fontes de autoridade. Enquanto ocupava
Os jesuítas ofereciam um sistema legal paternalista, no qual os castigos não o cargo, Borges apoiou Duarte da Costa, o segundo e altamente impopular
eram severos, e meirinhos indígenas tinham permissão para deter e castigar por governador-geral, contra o bispo do Brasil, d. Pedro Sardinha.21 Foi provavel-
delitos menores. Esses meirinhos eram especialmente antipatizados pelos colo- mente mais por sua ligação com o odiado governador-geral do que por qual-
nos. Depois de 1580, os colonos fizeram várias tentativas de tirar a administra- quer pecado que ele mesmo tenha cometido que Borges recebeu críticas Lao
ção de justiça nas aldeias das mãos dos jesuítas e seus auxiliares indígenas, mas severas dos vereadores de Salvador em 1556. Eles alegaram que;
isso era parte da questão maior do controle da mão de obra indígena.18
Obviamente, as condições que predominavam na colónia e a existência de não há pessoa que para descanso de sua vida e seguridade de sua honra antes não
tantos abusos e injustiças representaram para Pêro Borges e seus sucessores escolhera ser cativo do xerife que cidadão nem morador desta cidade em quanto
uma tarefa hercúlea. O fracasso desses homens na tarefa de aperfeiçoar a lei e a for governada por d. Duarte e seu fiího e regida por Pêro Borges, os quais são tão

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FIGURA l A H I E R A R Q U I A DA JUSTIÇA REAL NO I M P É R I O U L T R A M A R I N O P O R T U G U Ê S , CA. 1580

Diferentemente dos antecessores, ele era,


era nas fileiras do serviço real até obter um
era o título honorífico de conselheiro do

l
imento aos seus talentos nesseDO
ILHAS campo que
ATLÂNTICO BRASIL ÍNDIA ÁFRICA
estões jurídicas especificamente amplia-
os. O privilégio de isenção
Madeira da visitação de São Tomé Cabo Verde Angola Norte da África
s donatários foi explicitamente revogado.
f Ouvidor ) nova, pois o
cio de uma etapa totalmente
nspecionar o estado da justiça nas capita-
a competência do governador para visitar Ouvidor na Ouvidor na
capitania capitania
ão da Coroa de ampliar o controle real.25
res ainda maiores, porque, como disse ao
malfeitores muitos dos quais mereciam a
a ocupação tramar coisas más".26 OTribunais
gover-de Primeira Instância
para punir e perdoar, pois desconfiava da
Tribunais de Segunda e Terceira Instâncias

s poderes do governador, reduzindo-os.


A queixa tinha fundamento, porque os processos, os litígios e os crimes come- ram sobre os ombros dos homens que serviram como ouvidores-gerais e n t r e
çaram a aumentar depois da chegada de Brás Fragoso.27 \9 c ÍÓ09.31 A administração judicial sem dúvida era afetada por essas distra-
O governo de Mem de Sá, de 1557 a 1572, foi um período importante para ções. O movimento é fácil de explicar. Como o mais alto funcionário do Brasil
o desenvolvimento da administração judicial brasileira. Quando não estava depois do govcrnador-geral, o ouvidor-geral parecia oferecer suas capacidades e
ocupado com questões militares, o governado r-gê r ai dedicava tempo e energia sua devoção à Coroa numa região onde pessoas alfabetizadas e leais eram r a r i -
à supressão do vício, da usura, do descumprimento do dever e da administração dade. A tendência metropolitana a fazer da hierarquia judicial uma bmocracu
incompetente. Seu êxito deve ser atribuído não apenas aos talentos particulares administrativa intensificou-se no permissivo clima de fronteiro da colónia.
e à sua personalidade, mas também ao fato de que ele era capaz de trabalhar As já citadas atividades não judiciais dos magistrados poderia m ser gran-
eficientemente com os subordinados. Além disso, contou com apoio considerá- demente ampliadas. Pêro Borges, Brás Fragoso e Fernão da Silva (que sucedeu a
vel dos jesuítas, que se tornavam força dominante na vida espiritual e sociopo- Fra°oso em 1566) foram todos convocados para servir como provedores
lítica da colónia. Sua aliança com a Ordern de Jesus para proteger a população -mores. Fernão da Silva c seu sucessor, Cosme Rangel, também serviram con 10
indígena dos ataques predatórios dos colonos era necessária para a preservação governadores interinos. E havia as obrigações militares. Fragoso e Silva capita-
da lei e da ordem, pelo menos no seu modo de entender. Depois de 1560, a nearam expedições punitivas contra índios hostis, e Cosmc Rangel chefiou
política pró-indígena do governador passou a ser apoiada por um novo funcio- tropas contra bandos saqueadores de escravos fugitivos. Posteriormente, c laí-
nário, o mamposteiro, civil designado em cada capitania para proteger a liber- vez isso seja o mais notável, Martim Leitão capitaneou a conquista da Paraíba,
dade dos índios. A nomeação dos mamposteiros no Brasil foi unia das primeiras e, apesar de suas façanhas o terem transformado em tema de poesia encomiás-
tentativas de submeter a questão indígena a controle secular, e refletiu o cres- tica, a administração de justiça nada ganhou com suas tarefas militares. 3 ' Em
cente desejo da Coroa de proteger os índios.28 aeral, as responsabilidades militares e fiscais dos magistrados da Coroa, embora
A eficiência de Mem de Sá foi prejudicada em seus últimos anos pela com frequência benéfica para a colónia, os distraíam do desempenho de sua
doença, e, antes disso, por inquietações militares. Brás Fragoso, cuja principal função básica de juizes. Parte do fracasso da administração judicial no Brasil
preocupação era judicial, descobriu que outras obrigações comprometiam sua resultou desse constante uso dos magistrados para tarefas diversas.
eficácia. Ele foi convocado para chefiar uma expedição punitiva contra os beli- Outro obstáculo, esse talvez inerente à natureza do governo colonial por-
cosos índios aimorés em Porto Seguro, e, como seu antecessor, também acumu- tuguês, embora certamente exacerbado pelas personalidades envolvidas, era a
lou as tarefas de provedor-mor. Essas novas obrigações dificultaram-lhe o constante disputa jurisdicional. Não há dúvida de que os magistrados da Coroa
desempenho dos deveres judiciais. 2y Em 1562, tornou-se claro, pelo menos para mergulhavam na voragem das brigas e rivalidades coloniais, nas quais a pode-
seus subordinados no Tesouro, que os deveres de ouvidor-geral e de provedor- rosa posição que ocupavam fazia deles valiosos aliados ou odiados adversários.
-mor eram incompatíveis. Os funcionários subalternos reclamavam de que Os jesuítas em disputa com os governadores Luís de Brito de Almeida (1573-8)
ambos os cargos exigiam talentos especiais e a atenção total de administradores e Manuel Telíes Barreto (1583-7) foram acusados de buscar os favores e o apoio
separados. Além disso, e aqui parece estar o principal motivo da sua queixa, o do ouvidor-geral, acusação que nunca negaram." Tais conflitos enfraqueciam a
ouvidor-geral precisava visitar as capitanias todos os anos, e sua ausência da dignidade e a autoridade do ouvidor-geral. Os colonos perdiam o respeito por
Bahia condenava o Tesouro ao abandono. Sem a assinatura e a aprovação do um juiz da Coroa quando, como nos casos de Ternão da Silva, Martim Leitão e
ouvidor-geral, os subordinados eram incapazes de desempenhar suas funções.30 Cosme Rangel, ele era mandado algemado para julgamento em Portugal.
Apesar desses comentários, a Coroa não se convenceu, e os dois cargos perma- Saber se as rixas entre magistrados e outros funcionários resultavam de
neceram unidos até o século xvn. jurisdições mal definidas, intencionalmente encorajadas pela Coroa para impe-
Crescentes responsabilidades burocráticas, fiscais e militares se acumula- dir o excesso de autonomia, ou se eram falhas acidentais do sistema de admims-
tração, é questão ainda sujeita a debates. Fossem quais fossem as causas, esses sedento de poder, usurpando o completo controle do governo. A Câmara
conflitos às vezes degeneravam em batalhas pessoais e institucionais. recusou-se a legalizar a posição de Rangel, e tanto a Câmara tomo o bispo dei-
Nas disputas administrativas, os governadores geralmente tomavam o xaram a cidade, em protesto contra as ações do ouvido r-gê r aí. Rangel imediata
partido dos juizes da Coroa, mas quando não era esse o caso o conflito podia mente aproveitou-se dessa ausência para transformar seus apaniguados cm
atingir extremos de virulência. A carreira do ouvidor-geral Fernão da Silva vereadores e criar novos cargos na Câmara para os artesãos que o apoiavam. O
oferece excelente exemplo. Ele galgara os escalões da magistratura profissional aovernador seguinte, Manuel Telles Barreto, depôs e prendeu Rangel em 1583.-
em Portugal antes de ser nomeado ouvidor-geral e provedor-mor do Brasil em Em 1580 o Brasil já tinha passado de uma frouxa administração indiciai de
1566.34 Com a morte de Mem de Sá, também assumiu interinamente as funções ouvidores nomeados privadamente para um sistema mais centralizado, cuia
de governado r-geral, mas a chegada do novo governador, Luís de Brito de base era o ouvidor-geral. Essa mudança ressaltava o crescente controle real da
Almeida, fez eclodir uma disputa. A causa do conflito está aberta a conjeturas. colónia que marcou o período a partir de 1549. Essas mudanças administrati-
Embora o historiador Gabriel Soares de Sousa achasse que o governador agiu vas, entretanto, revelam apenas parcialmente outras modificações mais impor-
ilegalmente contra Silva, há uma forte possibilidade de que a medíocre expedi- tantes na vida da colónia. A indústria açucareira começara a florescer nas áreas
ção de Silva contra os hostis índios potiguares em Pernambuco esteja por trás litorâneas de Pernambuco e Bahia durante os anos de 1570. Ã medida que os
de suas divergências. Seja como for, o governador apreendeu os bens de Silva e verdes canaviais se espalhavam pela costa nordestina, o tamanho da população
o mandou de volta para Portugal. Graças à intercessão dos jesuítas, entretanto, e o número de litígios cresciam rapidamente. No começo dos anos de 1580,
Silva foi absolvido pelo Desembargo do Paço, e retornou ao Brasil para recupe- ficou claro que um único ouvidor-geral seria incapaz de prover uma adminis-
rar suas propriedades, submeter-se a uma "residência11 e reunir a família para a tração de justiça adequada e correta. Mas o pulso político e administrativo do
viagem de volta a Portugal. Seu navio afundou na barra da Bahia, e Silva, a Brasil, uma colónia, não era inteiramente determinado por suas próprias
mulher, quatro filhas, um filho e três netos perderam-se no mar. Apenas um necessidades. O ano de 1580 trouxe uma crise dinástica em Portugal e o preten-
filho, Roque da Silva, sobreviveu ao desastre, levando adiante a rixa com os dente que emergiu vitorioso foi Filipe n, rei da Espanha." Filipe n via as deficiên-
descendentes de Luís de Brito. Esses ódios custavam a morrer no Brasil antigo.35 cias judiciais do Brasil como parte de um colapso geral da lei no Império portu-
Mais corriqueiras, mas não menos intensas, eram as disputas entre os guês, e foi exatamente para esse problema que ele voltou sua atenção cm i 581.
magistrados e outras fontes de autoridade, como as Câmaras municipais e o
clero. Martim Leitão, mesmo sendo capaz de produzir um certificado de auto-
ria de Cristóvão de Gouvea, o conhecido supervisor jesuíta, declarando que ele
era um dos melhores funcionários da justiça que jamais haviam servido na
colónia, entrou em choque com o bispo d. António Barreiros. Os pontos espe-
cíficos do conflito continuam obscuros, mas Leitão acabou preso e suspenso de
todos os cargos.36
A história de Cosme Rangel é outra que mostra como a vida privada e os
anseios individuais costumavam imiscuir-se em questões políticas. Rangel
chegou ao Brasil em companhia do governador Lourenço da Veiga em 1578.
Quando Veiga morreu, em 1581, Rangel, o bispo e a Câmara de Salvador fun-
cionaram como junta governante até que um novo governador pudesse ser
mandado de Portugal. Rangel logo se revelou um funcionário ambicioso e Filipe i de Portugal, como ocasionalmente aparece nos documentos citados neste livro. (N. E.)

54
3. A reforma espanhola e o Tribunal -Quibir, d. Sebastião e a ílor das armas de Portuga! sucumbiram aos mouros.
Muitos sobreviventes foram mantidos como reféns, de modo que numa única
Superior brasileiro batalha Portugal perdeu seu rei e a maioria de seus nobres. O cardeal Henrique,
tio-avô de d. Sebastião, assumiu o controle do reino como regente, mas era um
homem de idade avançada, sem talento, e logo ficou claro que a dinastia de Avis
já não podia controlar o trono português. De 1578 a 1580, pretendentes come-
çaram a aparecer para reclamar o título. Apesar de d. António, o prior do Crato,
filho ilegítimo do rei Manoel i, contar com o apoio de grande parte da popula-
ção, as reivindicações de Filipe n, cuja mãe era filha legítima de Manoel, eram
mais fortes. Além disso, ele tinha o Exército espanhol a seu dispor.
Consta que f ilipe n justificou seu direito à Coroa portuguesa declarando:
"Eu a comprei, eu a herdei, eu a conquistei". Na realização da primeira parte
dessa fórmula, Filipe convocou um grande número de simpatizantes e sicofan-
tas portugueses para enfiar prata espanhola nas mãos do alto clero c da nobreza
de Portugal, entre cujos membros havia alguns que desejavam usar o dinheiro
para pagar o resgate de seus parentes em poder dos infiéis no Marrocos. Ao
La Ciência de Ias leyes es comofuente dejusticia y aprovéchase de ella mesmo tempo, ele pôs os juristas espanhóis (e alguns portugueses) para traba-
dei mundo más que de otra ciência... lhar nas defesas legais da reivindicação dos Habsburgo. Quando, depois da
Lãs Siete Partidas morte do cardeal Henrique em 1580, d. António, apoiado pelas classes inferio-
res de Portugal, tentou apoderar-se do trono, Filipe mandou o duque de Alba e
Filipe n, rei da Espanha, era um burocrata; um monarca com bom olho seus soldados a Lisboa para resolver a questão.3 Pelos sessenta anos seguintes, os
para detalhes f uma queda para sutilezas burocráticas e um profundo senso de governantes Habsburgo da Espanha também portaram a coroa de Portugal,
responsabilidade administrativa. Herdara o sistema burocrático espanhol de mas os dois países e seus respectivos Impérios nunca se uniram. Em vez disso,
Fernando e Isabel e do pai, Carlos v, mas demonstrava um interesse pessoal pela surgiu uma solução liberal, pela qual o rei governava as duas terras, mas cada
expansão da burocracia e pelo aperfeiçoamento do sistema judicial do Império. uma mantinha seus costumes, suas leis, sua administração e sua integridade
Os anos de 1580 trouxeram importantes mudanças administrativas e burocrá- nacional. Essa solução, formalizada por Filipe ti e pelos estados portugueses nas
ticas para Castela. A principal delas foi a criação, em 1588, da Câmara de Cortes de Tomar (abril de 1581), continuou sendo o conjunto de princípios
Castilla, órgão de certa forma análogo ao Desembargo do Paço, que exercia orientadores durante todo o período em que os Habsburgo espanhóis governa-
amplos poderes sobre o recrutamento e o controle da burocracia profissional ram Portugal. Apesar de o acordo ter sofrido violações desde o início, Filipe n,
espanhola. Foi com o mesmo interesse que, durante esse período, Filipe 11 se de modo geral, aderiu a ele, e só no reino de Filipe iv foi ele seriamente amea-
voltou para sua recém-adquirida herança portuguesa.' çado. Criou-se um Conselho de Portugal para aconselhar o rei em questões
A Coroa de Portugal, e com ela o vasto e remoto Império português, tor- portuguesas, e um vice-rei governava em Lisboa em nome do rei. Com essas
nou-se possessão dos Habsburgo depois de um curioso e turbulento período de mudanças, Portugal e seu Império passaram às mãos dos Habsburgo espanhóis.
dois anos.2 Em 1578, d. Sebastião, o jovem e imprudente rei de Portugal, chefiou Apesar de ambições geopolíticas e imperiais estarem por trás do desejo de
uma cruzada no Marrocos, foi um desastre. Diante dos muros de Alcácer- Filipe n de portar a coroa portuguesa, é curioso notar que mesmo antes de 1580

57
Filipe já planejava uma reforma judicial e administrativa em Portugal. Para MAPA 3 PORTUGAL NOS SÉCULOS XVI A XVIII
ajudá-lo nessa questão, foi criada uma pequena junta que incluía o duque de
Alba, o melhor soldado de Filipe, e d. João da Silva, nobre espanhol ligado, por
sangue e casamento, à nobreza portuguesa, e que usava o título espanhol de Valenç

conde de Salinas e o português de conde de Portalegre. D. João da Silva tinha Caminha

servido como embaixador de Filipe na corte portuguesa no reino de d. Sebastião, Viana do Castelo

e acompanhara o infeliz monarca em sua cruzada infrutífera. Devido a suas


relações de família, experiência e conhecimentos, tornou-se, ao lado de
Cristóvão de Moura, o especialista de Filipe em assuntos portugueses.4
O homem escolhido para informar a junta sobre a estrutura judicial e y Freixo de Espada
à Cinta
administrativa de Portugal foi Rodrigo Vásquez de Arce, conhecido jurista Castelo Rodrigo
espanhol e firme defensor das pretensões de Filipe n,5 Vásquez foi enviado para • Almeida
conquistar adesões à causa dos Habsburgo, mas também recebeu instruções
para realizar um exame exaustivo do sistema legal português e relatar suas
descobertas à junta. Ele revelou-se um observador astuto, e de seus relatos cons-
tavam descrições minuciosas da organização administrativa portuguesa, dos
procedimentos legais e das infrações comuns, além de sugestões de melhorias.
Ele concluiu, com franqueza: "Que há falta de justiça neste reino e necessidade
de remediá-lo o confessam todos".6
•Castelo de Vide
O primeiro problema era o da codificação legal. O corpus da lei portuguesa
Grato- .Portalegre
era complexo. Desenvolvera-se a partir dos códigos romanos e visigóticos,
. Arrqnches
enriquecendo-se e complicando-se com concessões reais e com um caráter Avis- 'Fronteira

predominante de lei consuetudinária. A codificação tinha começado no século SÍnt \-


Cascais.
LisbO:
Estremoz

xv com as Ordenações Afonsinas (1446), revisadas no século xvi por d. Manoel Alma' Montemor-o-Novo
Setúbal Olivença
• Évora
em suas Ordenações Manuelinas (1514, 1521).7 Desde então, entretanto, um Sesimbra.
Alcácer do Sá!
considerável corpo normativo subsequente foi produzido. E o costume local e o Viana do"Alentejo
uso às vezes diferiam das formas legais prescritas. Vásquez notou que algumas
leis eram antiquadas ou injustas, ao passo que outras eram boas, mas ignoradas Beja*

na prática. No entanto, afirmou Vásquez, "a verdade é que a falta não está nas T

leis, mas na pouca força que aqui têm, e na pouca inclinação dos juizes para Mértola •
aplicá-las com integridade".8 Ele ainda acrescentou que os letrados e os magis-
A L G A R V E
trados reais eram mal treinados, mal pagos e mal dispostos com relação ao
•Silves
cumprimento do dever.
Em muitos casos, indivíduos poderosos agiam com impunidade em face
da leniência judicial e da impotência da lei. Aproveitando-se da riqueza, da
posição social e dos privilégios, os fidalgos geralmente colocavam seus empre- demonstraram uma tendência natural a adotar formas castelhanas em Portuga!.
gados em cargos judiciais e administrativos, onde funcionavam como advoga- O rei pensou em introduzir a herrnandad para "a boa execução da justiça c
dos dos patrões. O remédio sugerido por Vásquez era a indicação de juizes corn punição de delinquentes".11 Rodrigo Vásquez achava que, em vista da natureza
base estritamente no mérito, e a aplicação equânime da lei. Altos dignitários mercantil de Portugal, um código de lei comercial como o de Burgos deveria ser
eclesiásticos e fidalgos gozavam de privilegiada isenção de buscas em suas casas instituído.12 A voz da moderação do conde de Portalegre, no entanto, o conse-
e propriedades por funcionários da justiça. Vásquez considerava que, sem se lheiro pró-portugueses de Filipe, levantou-se para pedir cuidado:
revogar essa isenção, "não seria possível sequer pensar em reforma". 9
Outras propostas de reforma foram apresentadas. A grande demora no Qualquer mudança no governo deve ser íeita com a maior atenção cm estados
exame dos recursos, causada pela submissão de tais casos à Casa do Cível e à recém-adquiridos [...] pois cada província tem um estilo próprio que n experiên-
Casa da Suplicação em Lisboa, congestionava os canais da justiça. Rodrigo cia introduziu e estabeleceu, e que, embora pareça inconveniente para os estran-
Vásquez sugeriu que se concedesse jurisdição mais ampla ao juiz de fora e ao geiros, esses devem proceder com prudência, pois isso vem do fato de cies estarem
corregedor nas províncias, a fim de diminuir a necessidade de entrar com acostumados a outras usanças [...]. Os Estados de Vossa Majestade oferecem
recursos era Lisboa. Vásquez, na verdade, via com ceticismo os tribunais supe- meihores provas do que os de qualquer outro Príncipe [...] pois na Espanha já
riores de Portugal. Ele notou — com algum exagero — que os dois tribunais existem muitos costumes diferentes, porque houve muitos governantes, e cm
superiores de Lisboa tinham mais de setenta magistrados, e que o grande vossas outras possessões os costumes são também muito diferentes dos da
número de juizes, amanuenses, advogados e parasitas nesses tribunais aumen- Espanha, mas isso não quer dizer que as contradições do uso se oponham direta-
tava o volume dos litígios e provocava apelações e contestações desnecessários, mente à administração de justiça. 13
o que o levou a sugerir que a Casa do Cível fosse abolida. Essas sugestões e as
outras acima mencionadas indicam claramente que Rodrigo Vásquez deve ser Esse conselho moderado e a tendência de Filipe n a cumprir o acordo de
considerado o arquitero da reforma judicial e administrativa realizada pelos Tomar resultaram numa abordagem cautelosa e basicamente portuguesa da
Habsburgo em Portugal nos anos de 1580. Filipe n e seus conselheiros espa- reforma da justiça. Formas e usos portugueses foram empregados, e especialis-
nhóis, no entanto, não podem receber todo o crédito por tais reformas. 113 tas locais em direito realizaram a revisão necessária da lei escrita. Filipe estabe-
Durante os séculos xv e xvi, houve considerável pressão em Portugal para leceu uma comissão em Portugal formada por destacados advogados e presi-
que fosse feita uma reforma judicial. Nas Cortes de Tomar (abril de 1581), os dida por Damião de Aguiar, jurista português e leal defensor da causa dos
três estados — mas especialmente o terceiro estado — tinham pedido reforma Habsburgo. Em outras palavras, apesar de mostrar disposição para permitir aos
nos procedimentos, seleção de juizes, redução do número de desembargadores portugueses certa autonomia em sua reforma judicial, Filipe n não quis correr
e aumento de salários no judiciário. Este último pedido foi apresentado na o risco de qualquer autonomia ou violação de sua prerrogativa real. Damião de
esperança de que um salário adequado evitasse que os magistrados caíssem na Aguiar seria a garantia de Filipe contra tal risco.
tentação do suborno. Filipe n estava disposto a aquiescer nessa questão, mas A comissão concluiu a revisão das Ordenações Manuelinas em 1595,
tinha de agir com cautela. O acordo entre as Cortes portuguesas e Filipe, como acrescentando, revogando e emendando onde julgou necessário. A publicação
dito, bascava-se numa solução liberal, segundo a qual o rei espanhol renunciava do novo código, as Ordenações Filipinas, foi adiada até 1603, mas nesse ínterim
a qualquer interferência nas normas c nos costumes de Portugal, ou à introdu- a Coroa instituiu muitas das reformas projetadas. O período de 1581 a 1590 foi
ção de quaisquer leis ou ministros estrangeiros, especialmente castelhanos. de intensa atividade na reformulação da estrutura judiciária e administrativa
Mas, apesar de Filipe n ter agido cautelosamente, nem ele nem seus conse- de Portugal.14 Essas reformas teriam importantes efeitos não apenas em Portugal,
lheiros poderiam deixar de lado a herança das leis e tradições de Castela, e assim mas também nas colónias.

6o ói
A Lei de Reformulação da Justiça de 27 de julho de 1582 aboliu a Casa do também exigia atenção. Em vista da tendência de reforma judicial em Portugal,
Cível e estabeleceu a Casa da Suplicação permanentemente em Lisboa. Um representada pela reorganização dos tribunais da metrópole e de Goa, não é de
novo tribunal superior foi estabelecido no Porto para servir como corte de surpreender que os conselheiros agora pensassem na criação de um tribunal
apelação das províncias do Norte e reduzir a quantidade de casos da Casa da superior para o Brasil. Apesar de poucos documentos terem sobrevivido, no
Suplicação em Lisboa. As antigas dificuldades de comunicação entre o norte de que diz respeito às deliberações e decisões dos conselhos de governo sobre a
Portugal e Lisboa foram assim eliminadas. Em 27 de julho de 1582, tanto a Casa criação de um tribunal brasileiro, aparentemente em setembro de 1586 Filipe n
da Suplicação como a recém-criada Relação do Porto receberam seus regimen- estava decidido a examinar essa possibilidade.19 O rei mandou o Desembargo do
tos.15 As ideias semeadas por Rodrigo Vásquez tinham dado seu primeiro fruto. Paço apresentar sugestões e solicitou a opinião de Brás Fragoso e Cosme Rangel,
O novo Tribunal Superior do Porto, a Relação da Casa do Porto, servia que tinham experiência de primeira mão como antigos magistrados no Brasil.
como tribunal de apelação das províncias de Trás-os-Montes, Entre Douro e De modo geral, eles responderam favoravelmente e a maioria achava, como o
Minho e Beira, regiões nas quais, por causa da distância, era penoso ter de vice-rei de Portugal, que um tribunal superior administraria justiça com mais
recorrer a Lisboa. A Relação do Porto era uma grande corporação de mais de equanimidade do que fora possível sob a autoridade do ouvido r-geral.20
vinte magistrados e funcionários subalternos. Os magistrados para lá designa- No Brasil, as condições legais não tinham melhorado. Os sucessores de
dos tinham preferência nas promoções para a Casa da Suplicação e, assim, a Mem de Sá não reproduziram suas realizações administrativas. Por ora parecia
Relação do Porto se tornou um importante degrau na escada das promoções da que o êxito do terceiro governado r-geral, um letrado, tinha estimulado a Coroa
magistratura profissional.16 a buscar nesse grupo os governadores da colónia. Desse modo, Luís de Brito de
Depois das primeiras iniciativas de 1582, a Coroa insistiu em mais refor- Almeida e António de Salema eram ambos letrados, mais do que nobres impor-
mas. Em 1585, uma investigação do Desembargo do Paço e da Casa da tantes ou soldados experientes. Essa tendência, no entanto, durou pouco.21
Suplicação eliminou os magistrados que não haviam cumprido suas obrigações Enquanto isso, o crescimento da população e do comércio e o aumento conco-
ou que haviam abusado de sua autoridade. No mesmo período, a reforma mitante dos litígios ressaltavam a necessidade de reforma. A tarefa ficou sim-
começou a alcançar as colónias. Na África, mudanças e reformas foram tenta- plesmente grande demais para um homem só, e, como vimos, o ouvidor-geral
das em Angola e na Guiné. Entre 1583 e 1584, uma inspeção geral do estado da era incapaz de dedicar toda a sua atenção às questões de justiça, por causa das
justiça e do judiciário foi realizada em Angola, enquanto em 1587 magistrados outras responsabilidades burocráticas e militares. A Coroa também nem sem-
reais na Guiné receberam novas instruções, que ampliavam seu poder e sua pre tinha facilidade para preencher cargos no Brasil com letrados talentosos e
jurisdição.17 bem-dispostos. Foi por essa época, aliás, que Diogo Dias Cardoso eximiu-se de
As condições além do Cabo da Boa Esperança também pediam reforma. servir como ouvidor-geral no Brasil, alegando que sua mulher em Portugal
Nas fortalezas da índia, capitães obstruíam os ouvidores, impedindo que estava "doida varrida" e que ele não poderia, em sã consciência, abandoná-la.22
desempenhassem com êxito suas tarefas. Em resposta a essa situação, a Coroa Letrados indispostos a aceitar o emprego às vezes alcançavam grandes alturas
emitiu, em fevereiro de 1586, um novo regimento para os ouvidores, destinado imaginativas em suas desculpas. Embora alguns conselheiros reais achassem
a aumentar seu poder em face dos capitães. Nesse período, o Desembargo do que a seleção de magistrados mais experientes contribuiria para melhorar as
Paço também esboçou novas instruções para o Tribunal Superior em Goa, a notórias condições no Brasil, a maioria geralmente concordava que o próprio
fim de adequar os procedimentos e a organização daquele tribunal aos recém- sistema necessitava de mudanças estruturais.
-reformados tribunais metropolitanos.18 A reforma da estrutura judiciária projetada entre 1586 e 1588 refletia a já
Enquanto juristas discutiam as reformas e aplicavam novos remédios em descrita situação no Brasil e o padrão geral de reforma decretado por Filipe n
Portugal e em suas colónias asiáticas e africanas, o problema da justiça no Brasil em Portugal. A maioria dos autores que se ocuparam do desenvolvimento das

62 ;
instituições brasileiras no período colonial tem visto a criação do Tribunal Domingo, no Caribe. Giraldes e seus companheiros, incapazes de velejar para o
Superior do Brasil como resultado de fatores puramente brasileiros. Essa inter- sul ao longo da costa, devido às correntes contrárias daquela época do ano,
pretação não leva em conta a posição do Brasil como apenas uma das muitas reembarcaram rumo a Portugal. Quatro desembargadores conseguiram, de um
áreas coloniais sob controle português, e certamente não a mais importante jeito ou de outro, chegar ao Brasil, onde ocuparam vários cargos, mas n Tribunal
delas nesse período. O fato de que o novo tribunal foi criado de acordo com Superior não foi instituído.27
modelos portugueses não deve encobrir a presença da iniciativa espanhola na A tentativa não deixou de ter algum resultado. O regimento divulgado em
reforma original, ainda que o respeito de Filipe n pelo acordo de Tomar obri- 1588 não foi destruído, apenas engavetado. Esse conjunto de leis f sei itas, que
gasse essa influência a recuar para o fundo do quadro.23 Atualmente, naciona- esquematizava as funções do tribunal e especificava os deveres dos magistrados
listas portugueses querem nos fazer acreditar que as reformas espanholas foram e funcionários, indicava claramente que a recém-reformada Casa da Suplicação
mínimas, em suas conquistas e em seus resultados, mas o uso contínuo das deveria servir de modelo para a organização e o procedimento do Tribunal
Ordenações Filipinas depois que Portugal se separou da Espanha em 1640 e a Superior. Quando começou a funcionar, em 1609, a Relação do Brasil empre-
persistência da Relação do Porto até hoje atestam a durabilidade e a eficácia das gou o mesmo regimento, com pequenos acréscimos.28
reformas judiciais e administrativas fílipinas dos anos de 1580. Dois anos após o fracasso de 1588, o Desembargo do Paço voltou a atacar
Em contrapartida, é justo observar que muitas das reformas sugeridas o problema da administração judicial no Brasil. 29 O estado da justiça — ou
pelos conselheiros de Filipe u já tinham sido tentadas pelos próprios portugue- antes a falta dela — era um problema crónico e as condições que encorajaram
ses, tanto em Portugal como nas colónias. Tsso talvez explique a pronta aceita- a tentativa de estabelecer um Tribunal Superior em 1588 persistiam em 1590.
ção das mudanças. A Relação do Porto, por exemplo, foi recebida por muitos De fato, o número de recursos das decisões dos ouvidores aumentou de forrna
como uma reforma que já veio tarde.24 No Brasil, já ern 1562 funcionários constante, e os órgãos metropolitanos eram incapazes de cuidar efetivamente
subalternos do Tesouro tinham proposto que a administração da justiça fosse deles.30
feita por uma comissão de magistrados, e não por um ouvidor-gcral. 25 A suges- Para a Coroa parecia haver três alternativas: ( l ) o estabelecimento de um
tão com toda a certeza pressagiou a criação de um tribunal superior brasileiro tribunal superior de acordo com o plano original de 1588; (2) a continuação do
de apelação. Mas, fossem quais fossem as razões, esses antigos desejos portu- sistema existente, baseado no cargo de ouvidor-geral; (3) a instituição de uma
gueses receberam pouca atenção, até que um Habsburgo espanhol se sentou no nova organização judiciária que não fosse um tribunal superior. O Desembargo
trono de Portugal. do Paço discutiu esse problema e relatou suas conclusões à Coroa. Embora um
Reformas idealizadas em Portugal nern sempre coincidiam com a reali- de seus membros fosse favorável ao status quú judicial no Brasil, a maioria sen-
dade brasileira. Uma coisa era emitir um regimento para um novo tribunal tia necessidade de mudança. Os juizes não acreditavam que o regimento de
brasileiro e selecionar dez magistrados para ocupá-lo, outra, bem diferente, era 1588 fosse adequado às condições brasileiras, já que ele exigia a presença de dez
estabelecer esse órgão na colónia. A Relação da Bahia, criada em 1588 como magistrados reais, cuja residência na colónia resultaria num aumento dos pro-
parte da ampla reforma administrativa e judicial, nunca chegou à colónia. cessos, das disputas, da dissensão e do caos. Os conselheiros declararam "não
Porém, foram os ventos e as rnarés, mais do que qualquer conflito político ou ser a terra capaz de tantos letrados".31
administrativo, que provocaram o fracasso do tribunal. A história é simples. A Ali estava a causa subjacente de boa parte da resistência à instalação de um
maioria dos dez magistrados escolhidos para servir na Relação da Bahia embar- tribunal superior no Brasil. Como na índia, muitos observadores temiam que o
cou em 1588, em companhia do recém-nomeado governador Francisco estabelecimento de uma corte com dez juizes estimulasse um influxo de litígios
Giraldes.26 Seu navio, o galeão São Lucas, lutou contra ventos c correntes, sem desnecessários, advogados e chicaneiros, levando a solução de conflitos à para-
conseguir atravessar o Equador, e finalmente foi obrigado a aportar em Santo lisia. É tentador aceitar pelo valor de face essa crítica tantas vezes feita contra o
Tribunal Superior de Goa e as audiências hispano-americanas, especialmente oposta sugeriu que cinco letrados fossem enviados como um tribunal e, se isso
quando se leva em conta que a acusação vinha do experiente Desembargo do não pudesse ser feito, que o assunto fosse encerrado.
Paço. Esse conselho e seus contemporâneos fecharam os olhos, entretanto, para As opiniões conflitantes puseram a Coroa numa enrascada, pois, como o
as múltiplas funções da magistratura e as obrigações extras atribuídas aos juizes principal objetivo da criação do Tribunal Superior em 1588 tinha sido eliminar
coloniais. A presença de um tribunal de recursos no Brasil talvez estimulasse os a grande quantidade de recursos a Portugal, agora parecia estranho que com o
litígios, mas um aumento no número de magistrados poderia também permitir aumento dos litígios o número original de magistrados nomeados para esse
um julgamento pronto e adequado das disputas. O Desembargo do Paço tentou tribunal fosse considerado excessivo. Se um Tribunal Superior com dez juizes
um caminho intermediário. Em vez de instituir o tribunal pleno, decidiu des- era um fardo pesado demais para o Brasil, então a Coroa não julgava necessário
pachar cinco letrados com a obrigação de viajar para presidir audiências em alterar o sistema existente. Tal decisão foi formalizada numa carta ao Desembargo
outros lugares.32 do Paço, datada de 26 de novembro de 1590.33
O vice-rei de Portugal, cardeal Alberto, submeteu um plano alternativo, Mas durante quinze anos a questão permanecera em suspenso, muito
sugerindo a nomeação de três magistrados da Coroa para o Brasil: um ouvi- embora as condições na colónia cada vez mais justificassem modificações no
dor-geral na Bahia e ouvidores nomeados pela Coroa em Pernambuco e no sistema existente. A enxurrada de interesses em 1590, entretanto, indicava não
Rio de Janeiro. Percebendo que a indicação, pela Coroa, de ouvidores nessas apenas as grandes dificuldades funcionais e administrativas envolvidas numa
capitanias violava as cartas de doação originais, o vice-rei sugeriu que os novos reorganização do sistema judicial brasileiro, mas também o implícito desejo
funcionários fossem chamados de provedores, e procedessem como seus real de submeter essa colónia, que crescia em tamanho e importância, ao con-
homólogos em Portugal. A recomendação do vice-rei era, obviamente, uma trole da burocracia real. Além disso, as ideias apresentadas em 1590 não foram
tentativa de ampliar o poder real à custa dos donatários e, na verdade, essa completarnente estéreis: quando em 1609 o Tribunal Superior começou a fun-
tentativa era tão grosseira que ele se sentiu obrigado a disfarçá-la com o cionar no Brasil, manteve-se a figura do ouvidor-geral no Rio de Janeiro, como
emprego de complexa terminologia. O interesse dos governantes Habsburgo sugerido pelo vice-rei de Portugal, cardeal Alberto.
de Portugal em prosseguir no rumo da centralização iniciada pela Casa de Avis Filipe n morreu em 1598. Coube a seu jovem filho, Filipe m, o património
já era evidente, apesar de não ter se tornado preocupação dominante até o dos Habsburgo espanhóis, um legado que incluía Portugal e seu Império. Mas
reinado de Filipe iv. Nesse contexto, entretanto, a decisão final do Desembargo da herança também faziam parte a guerra em fogo brando nos Países Baixos,
do Paço é mais compreensível. um problema de segurança interna nas regiões apenas parcialmente hispaniza-
Uma facção do Desembargo do Paço aprovou a expansão do controle real, das e acima de tudo um orçamento que cada vez mais entrava no vermelho.
mas julgava os poderes dos provedores de Portugal insuficientes para lidar com Filipe in, fraco, irresoluto e facilmente influenciável pelos conselheiros, simples-
a situação existente no Brasil. Propôs, assim, uma expansão da jurisdição desses mente carecia do interesse do pai por questões de administração e justiça, e
provedores, para permitir que julgassem recursos das decisões dos julgadores encontrou nos urgentes problemas políticos e financeiros de sua época motivos
nomeados pelos donatários. Isso criaria, tanto no Rio de Janeiro como em mais do que suficientes para ocupar suas limitadas capacidades pessoais.
Pernambuco, o equivalente do ouvidor-geral. A facção oposta baseava sua opi- Apesar disso, durante esse período o Tribunal Superior foi finalmente estabele-
nião contrária em três argumentos. Primeiro, um provedor no modelo portu- cido no Brasil, provavelmente como resultado de condições locais.
guês, limitado a questões de sucessão, não conseguiria muita coisa e seria inútil Já em janeiro de 1605, Filipe ni ordenou ao então recém-criado conse-
no Brasil. Segundo, a criação de um ouvidor-geral de facto traria grandes difi- lho colonial português, o Conselho da índia, que examinasse a questão.34 As
culdades, especialmente pelas jurisdições conflitantes. Terceiro, todo o plano considerações principais do rei, ou pelo menos aquelas que ele manifestou
era contrário aos privilégios assegurados aos donatários. Em vez disso, a facção explicitamente, baseavam-se em seu interesse pela administração efetiva e

66
pelo estado do Tesouro real na colónia. Há fortes indícios, en tretanto, de que Depois que a Coroa resolveu reviver o Tribunal Superior do Rra,sii, as pri-
outras considerações existiam. Por exemplo, uma carta da Câmara da Bahia meiras tarefas a serem enfrentadas eram a seleção de um grupo apropriado de
ao rei (de 27 de janeiro de 1610) observava que antes de 1609 o governador e letrados bem treinados e o rascunho de um regimento revisado. O primeiro
o ouvidor-geral tinham juntado forças para eliminar seus adversários políti- problema era de extrema importância. Magistrados mal treinados c inexpe-
cos da Câmara municipal. 35 Era a mesma denúncia de conluio que Pêro rientes, numa situação difícil como a representada pelas condições de fronteira
Borges registrará contra os donatários e seus ouvidores.36 Além disso, nos do Brasil e pelo espírito combativo de seus habitantes, p o d e r i a m perturbar LI
últimos anos do século xvi, os ouvidores e o ouvidor-geral estavam deixando comunidade e criar mais dificuldades do que resolve-las. Desse modo, a Coroa
de cumprir seus deveres e abusando de sua autoridade. Domingos de Abreu desejava que fossem selecionados homens capazes e experiente^ 0 Originaria-
e Brito, investigador real que visitou o Brasil em 1591, informou que os fun- mente, o Conselho da índia assumiu a tarefa de nomear homens para cardos no
cionários da justiça eram facilmente corrompidos pelos fazendeiros e' Tribunal Superior, mas o conselho que os Habsburgo espanhóis mantinham na
comerciantes. Afirmo u ele que desde a época de Cosme Rangel faltava justiça Espanha como o mais alto órgão consultivo sobre questões portuguesas, o
na colónia.37 Conselho de Portugal, dcu-sc conta de que problemas técnicos de direito e do
Muito embora tais condições possam ter despertado novo interesse pela judiciário pertenciam ao Desembargo do Paço. Por sugestão do Conselho de
reforma, o conflito entre instituições coloniais também era um forte motivo Portugal, o rei enviou o regimento de 1588 e as nomeações feitas pelo Conselho
para a reorganização. As tradicionais rusgas entre funcionários seculares e ecle- da índia para o vice-rei de Portugal, instruindo-o a reunir-se com o Desembargo
siásticos no Brasil provocaram um apelo dos primeiros, que pediram à Coroa do Paço e, "no maior segredo" designar candidatos para o cargo e tomar nota
que mandasse um juiz especial para julgar tais disputas na colónia. O pedido, das emendas necessárias no regimento.'51 Por isso, três conjuntos de documen-
feito em fevereiro cie 1604, obteve resposta negativa da Coroa, mas os conflitos tos serviram de base para a decisão final do Conselho de Portugal: a opinião e as
não diminuíram, e quando o Tribunal Superior foi instalado no Brasil ern 1609 nomeações do Desembargo do Paço, os comentários do vice-rei e o regimento
um juiz foi designado especialmente para julgar esses litígios.38 e as nomeações do Conselho da índia.42
Quaisquer que tenham sido os motivos subjacentes que levaram a Coroa a Todos os funcionários e instituições na estrutura administrativa portu-
agir em 1605, a causa declarada da criação da Relação do Brasil foi o cresci- guesa obedeciam a um conjunto específico de normas escritas. Essa instrução,
mento em tamanho e importância da América Portuguesa. A colónia desabro- ou regimento, pode ser vista como aquilo que a Coroa considerava a conduta
chava e tornava-se importante estrategicamente, como linha de defesa militar, ideal de burocratas ou instituições burocráticas. A conduta real, entretanto,
e economicamente, como fonte de açúcar. Em 1605, o Conselho da índia foi geralmente desviava-se bastante do ideal burocrático expresso no regimento.
favorável ao estabelecimento de um tribunal permanente no Brasil, c dentro de Não obstante, essas instruções apresentavam as bases teóricas do desempenho
um ano a Coroa ordenou a d. Pedro de Castilho, vice-rei de Portugal, que do tribunal e os padrões de comportamento que a Coroa esperava. Uma análise
tomasse providências para esse fim. A ordem dizia: do regimento parece, portanto, a maneira apropriada de concluir esta discussão.
O novo Tribunal Superior brasileiro estava subordinado à Casa da Supli-
Por razão do descobrimento e conquista de novas terras e aumento do comércio cação, instituição na qual foi modelado. Seus membros tinham os mesmos
com que se tem dilatado muito aquele F.stado assirn em número de vassalos, como direitos e privilégios dos desembargadores dos outros tribunais superiores e os
em grande quantidade de fazendas por cujo respeito cresceram as dúvidas c salários deveriam ser iguais aos dos membros da Relação do Porto.41 Os atos de
demandas que cada dia se movem, em que se não pode administrar inteiramente votar e sentar-se no tribunal observavam estrita hierarquia. Para representar a
justiça na forma que convém, pelo ouvidor-geral [...]. Hei por bem de ordenar a dignidade do cargo, os desembargadores usavam togas escuras tanto no tribu-
dita Relação [..J.39 nal como na cidade, e estavam proibidos de vestir roupas afetadas. Difcren-
temente dos magistrados do Porto, entretanto, a lei não exigia que deixassem trados do Tribunal Superior e os funcionários subalternos, quando acusados
crescer longas barbas para representar a autoridade de senadores romanos.44 O de crime, ficavam sob jurisdição do chanceler, que servia também como juiz
regimento também estabelecia que os desembargadores deveriam ser abrigados dos cavaleiros no Brasil, sendo portanto superior imediato das ordens milita-
e mantidos com o menor custo e a menor inconveniência possíveis para os res em questões legais. Esse dever tornava necessário que ele pertencesse a uma
habitantes da Bahia e do resto da colónia.45 Era uma tentativa de reduzir atritos ordem militar.
entre o tribunal e os colonos. As despesas seriam pagas com o dinheiro das O chanceler era, de fato, o segundo mais alto funcionário da administra-
multas financeiras aplicadas pelo tribunal, e essa fonte de renda também deve- ção civil do Brasil, o que tinha reflexo em seu salário, assim como em seu poder
ria prover os salários de um capelão e de um médico, que cuidariam das neces- e prestígio. Em caso de ausência do governador, o chanceler servia como chefe
sidades espirituais e físicas dos magistrados. do governo, e entre 1609 e 1625 os governadores frequentemente estavam
Diferentemente da Casa da Suplicação, o Tribunal Superior não tinha um ausentes da Bahia, de modo que o chanceler do Tribunal Superior do Brasil
regedor designado para presidi-lo; em vez disso, o governador-geral do Brasil constantemente governava a capital da colónia.48
recebeu ordens para servir nessa posição. A fórmula tinha sido desenvolvida na O Tribunal Superior brasileiro tinha três desembargadores dos agravos
índia, onde o vice-rei desempenhava tais funções. As relações entre o governa- que julgavam ações civis envolvendo valores de até 2 mil-réis em bens imóveis e
dor-geral do Brasil e a Relação assemelhavam-se às do vice-rei do Peru com a 3 mil-réis em propriedade pessoal. Nos casos que envolvessem grandes valores,
Audiência em Lima. Como presidente da Relação, o governador podia assistir às cabiam recursos à Casa da Suplicação. No Brasil, os desembargadores julgavam
sessões do tribunal quando quisesse, mas sem ter o direito de votar ou emitir recursos das decisões de funcionários de justiça menos graduados, como os
sentenças. Um dos deveres do governador era zelar para que os magistrados do ouvidores das capitanias, bem como os recursos que emanavam de decisões do
tribunal recebessem prontamente o salário e, apesar de lhe ser vetado fazer ouvidor-geral e do provedor-mor dos defuntos. Todas as ações civis eram des-
nomeações permanentes, ele podia designar membros ad hoc. A cada três anos pachadas por tenções, segundo o costume da lei portuguesa. Na Casa da
o governador devia nomear um desembargador para fazer uma viagem de ser- Suplicação três votos iguais decidiam um caso envolvendo 10 mil-réis ou mais,
viço pelas outras capitanias, a fim de conduzir "residência" (investigação) de porém a distância da colónia e as dificuldades de apelação tornaram necessária
seus capitães e dos ouvidores. Se descobrisse infrações, deveria submeter o uma mudança de procedimento. Dessa forma, no Brasil dois votos bastavam
assunto ao procurador da Coroa, para a instauração de processo. Uma investi- para resolver disputas envolvendo valores de até 20 mil-réis, e três votos para
gação similar, mas separada, seria realizada a cada três anos na Bahia.46 Como valores mais altos. O voto da maioria dos desembargadores na Mesa Grande, a
suprema autoridade civil do Brasil, o governador tinha de preservar as prerro- sessão plenária, dava ou negava permissão para recorrer à Casa da Suplicação.
gativas reais de justiça, se houvesse intromissão eclesiástica. Nesse assunto, o O cargo de ouvidor-geral não foi abolido com a criação do novo tribunal,
governador deveria proceder de acordo com o regimento da Relação da índia.47 mas incorporado à sua estrutura. As funções do ouvidor-geral como membro
Como em outros tribunais superiores portugueses, o chanceler era o do Tribunal Superior do Brasil lembravam as do corregedor da corte da Casa da
magistrado-chefe. Era seu dever registrar as leis e ordenações emitidas pelo Suplicação.49 Três vezes por semana, às segundas, quartas e sextas, o ouvidor-
governador, e regulamentá-las ou emendá-las quando necessário. Como seus -geral sentava-se para ouvir casos civis e criminais. Nas disputas civis, ele podia
equivalentes em Goa, em Lisboa e no Porto, o chanceler revia decretos e sen- ouvir ações em primeira instância e julgá-las sem apelação em valores até 15
tenças para assegurar-se de que não eram contrários às leis existentes. Como o mil-réis em imóveis e 20 mil-réis em propriedade pessoal. Nas ações criminais,
mais alto magistrado do tribunal, ele também tinha jurisdição em queixas e tinha jurisdição original na capitania da Bahia, ou no lugar de sua residência
acusações contra o governador-geral. Durante o julgamento dessas acusações, temporária, se assim o desejasse, e jurisdição em segunda instância sobre o
o governador não tinha permissão para aparecer no tribunal. Os outros magis- resto do Brasil. Ao ouvidor-geral também era atribuída jurisdição legal sobre

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ações civis e criminais envolvendo destacamentos de tropas e soldados e oficiais Com pequenas modificações, a estrutu rã da Relação descrita acima conti-
das guarnições. nuou sendo a forma básica dos tribunais superiores brasileiros pelos duzento-,
Disputas que afetassem diretamente os interesses da Coroa eram de atri- an os seguintes. Como instituição, a Relação mudou pouco nesses dois séculos.

buição do juiz da Coroa, ou juiz dos feitos da Coroa e Fazenda. Ele julgava casos O que mudava constantemente, entretanto, eram seus membros, os magistra-
em primeira instância, quando originados na capitania da Bahia, e em apelação dos que ocupavam os assentos no tribunal. Os homens, e não as leis, fi/eram da
quando vinham de outra capitania. Como o tesouro real também era de sua Relação uma instituição dinâmica.
alçada, ele julgava recursos das decisões dos provedores das capitanias onde
houvesse uma parte ofendida, se estivesse mais perto da cena da disputa do que
o provedor-mor. Além disso, nos casos que envolvessem valores além da juris-
dição do provedor-mor, cabia recurso ao juiz dos feitos da Coroa.50
O procurador da Coroa representava orei nos casos julgados pelo juiz dos
feitos da Coroa e também servia como promotor em casos criminais. Como o
governador, o procurador da Coroa guardava as prerrogativas do rei, especial-
mente contra usurpação pela Igreja. Essa posição geralmente era ocupada por
um dos homens mais jovens do tribunal.
O provedor dos defuntos e resíduos encarregava-se dos espólios e cios
órfãos. Geralmente procedia como os provedores de Portugal. Nos casos em
que o falecido tinha deixado testamento e nomeado executor do espólio, o
provedor não tinha poder para interferir. Mas, quando os herdeiros estavam
ausentes ou eram desconhecidos, o provedor ficava encarregado de homologar
e pôr em ordem o espólio. Diferentemente dos provedores de Portugal, o pro-
vedor dos defuntos não podia julgar recursos das decisões dos juizes dos órfãos,
e no Brasil esses recursos iam para os desembargadores dos agravos.
Além dos cargos enumerados pelo regimento, havia também dois desem-
bargadores extravagantes selecionados para ajudar no trabalho do tribunal,
geralmente juntando-se a outros magistrados nos casos que requeriam decisão
de mais de um juiz. O regimento também estipulava determinado número de
funcionários subalternos. Eles incluíam seis secretários: dois para os recursos,
dois para o ouvidor-geral, um para o juiz da Coroa e outro para o chanceler.
Esses amanuenses preparavam as provas para apresentação, anotavam depoi-
mentos e interrogatórios, redigiam acusações e registravam leis. A Relação
também mantinha médico e capelão próprios para cuidar de suas necessidades
físicas e morais e assim tornar os juizes menos dependentes da comunidade. No
palácio de justiça um meirinho e um guarda-mor também coletavam as multas
aplicadas pelo Tribunal Superior.
pelo rápido crescimento do comércio da cana-de-açúcar. Para chegar a uma
4. Os magistrados visão integral da operação do governo real no Brasil, é preciso compreender
tanto a burocracia como os burocratas. Uma tabela de organização nos dirá
muita coisa, mas como expressão da realidade não faz sentido se não for com-
plementada por algum conhecimento das qualidades humanas dos homens
que ocupavam seus diversos cargos.
Deve ficar bem claro que os burocratas magistráticos constituíam um
pequeno grupo de especialistas. Dos milhares de cargos burocráticos maiores e
menores, talvez apenas quatrocentos fossem reservados para a burocracia
letrada durante a maior parte do período coberto pelos séculos xvi e xvn. Havia
três tipos de cargos burocráticos, cada um deles preenchido, até certo ponto,
por um grupo distinto. No topo, a velha aristocracia militar e latifundiária
continuava a servir a Coroa em várias posições, geralmente de natureza execu-
tiva ou conselherial. Seus membros serviam como vice-reis na índia, governa-
dores no Brasil e embaixadores nas cortes da Europa. Esses nobres tradicionais
tinham muito orgulho de sua linhagem, julgavam-se nascidos para comandar e
Escolha ministros de boa opinião não só na literatura mas na limpeza nunca deixavam de participar do governo. A Coroa esperava usar o prestígio
de mãos que este requisito último mais serve para os que vão adminis- desses homens para reforçar sua própria autoridade e aumentar-lhes a eficácia
trar justiça nos lugares ultramarinos. como seus representantes. Da nobreza vinham também muitos dos conselhei-
Consulta do Conselho Ultramarino (9 de julho de 1725) ros reais que compunham e chefiavam os diversos órgãos de governo descritos
no capítulo 1. Afinal, em certo sentido, a nobreza titulada era formada por
A criação de um Tribunal Superior brasileiro assinalou importante parentes e equivalentes sociais do rei, e seu legado de comando e amplas pers-
momento na história administrativa e social da colónia. Antes de 1609, as obri- pectivas os qualificava como conselheiros reais.
gações extrajudiciais dos ouvidores-gerais comprometiam o seu êxito como Os vários conselhos reais não eram, no entanto, domínio exclusivo da
juizes, e sua posição na colónia como únicos representantes da magistratura nobreza tradicional. Ao longo do século xvi a Coroa passou a requisitar, de
profissional reduzia o impacto e a amplitude de suas relações pessoais. Depois forma crescente, a burocracia letrada para esses órgãos. As opiniões divergem
de 1609, a presença de dez desembargadores no Brasil não só aumentou a pro- sobre a eficácia desses dois tipos de homens como conselheiros do rei. Um
babilidade de um melhor desempenho judicial, mas também multiplicou as observador do século xvn declarou que uma mistura de letrados e nobres titu-
oportunidades de contatos sociais. Os juizes que formavam o primeiro tribunal lados produziria as melhores decisões conselheriais. Ele achava que os letrados
brasileiro eram, em muitos sentidos, representantes típicos de sua profissão. O sabiam demais e intelectualizavam as coisas até o ponto de impossibilitar a
grau de continuidade entre eles e seus sucessores, em termos de origem social, ação; os aristocratas, ou "idiotas", eram capazes de agir com rapidez, mas geral-
padrão de carreira, nível de instrução e experiência, é notável. A chegada dos mente sem sabedoria. Portanto, a melhor solução era misturar os dois. A Coroa,
primeiros desembargadores pode ser vista como o começo do governo magis- aparentemente, concordava com essa interpretação, de rnodo que uma combi-
trático no Brasil, a completa extensão da burocracia real para a colónia numa nação de burocratas profissionais e nobres titulados continuou a ocupar
época em que ela entrava num período de prosperidade económica trazido assento nos conselhos do rei.1

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Como vimos, os magistrados eram burocratas profissionais cuja existência tabeliães estavam na corte em Lisboa e os piores rabiscavam u n i português de
como grupo estava inextricaveímente ligada à extensão da autoridade real à semianalrabcto nas pobres cidades coloniais. Geralmente, os letrados recusa-
custa das várias entidades corporativas. Todo acréscimo ao poder real criava vam-se a servir como tabeliães, de modo que esses empregos eram dados a
novas obrigações e novos poderes para a magistratura, cujos deveres permane- homens de instrução não mais do que rudimentar.
ceram judiciais apenas no sentido mais amplo do termo, uma vez que a justiça No século xvi, portugueses continentais ocupavam a maioria dos cardos
do rei podia ser equiparada ao bem-estar geral do reino. A magistratura se tor- na pequena burocracia do Brasil. No período dos Habsburgo, contudo, o.s
nara a espinha dorsal do governo real, tanto nas colónias como na metrópole, e moradores da colónia já tinham conquistado muitas dessas posições o compc
nessa condição ela c o tema deste estudo. Nem todos os níveis da burocracia tiam, ansiosamente, para se tornarem "filhos da folha". Cargos burocráticos
eram ocupados por profissionais de formação universitária, entretanto, e antes inferiores, com suas gratificações, comissões e salários, pareciam caídos do céu
de prosseguir nossa análise da magistratura é preciso descrever o grande para fidalgos empobrecidos, combatentes de índios em situação de indigência e
número de cargos burocráticos inferiores. viúvas geriátricas. O interesse geral por tornar-se funcionário do governo dava
Abaixo da magistratura havia uma terceira camada de burocracia, um à Coroa considerável eficácia política, pois a concessão ou a recusa desses pos-
vasto conjunto de cargos menores, de tabeliães e amanuenses a inspetores por- tos constituía um meio para o controle real de um importante "recurso f l u -
tuários e tesoureiros. Havia literalmente centenas desses cargos e sua presença tuante" para usar a expressão de Eisenstadt. 3 Nesse nível de emprego, havia
na folha de pagamento real indicava sua posição dentro do serviço real.2 Alguns oportunidades tanto para nobres como para plebeus. A presença de pessoas
desses empregos não exigiam qualificação ou experiência alguma, ou, se exi- bem-nascidas e pessoas de origem humilde nos cargos da burocracia indicava o
giam, os critérios costumavam ser ignorados na hora da designação. Muitos desejo da Coroa cie mobilizar fontes de poder opostas e equilibrá-las em vanta-
cargos na burocracia não profissional podiam ser comprados ou recebidos da gem própria. Entre o segundo e o terceiro estados, entretanto, algum grupo
Coroa como recompensa. A expressão "algum emprego na justiça ou no neutro tinha de servir como mediador de poder e guardião do sistema. Foi esse
Tesouro" geralmente era a resposta da Coroa a um peticionário que citasse seus o papel que a Coroa previu para a magistratura.
serviços meritórios ou suas façanhas militares como razões para uma recom- No fim do século xvi, a magistratura já se tornara urna classe semiautô-
pensa. Esses cargos não eram só concedidos pessoalmente a possíveis candidatos, noma, que de certa forma se perpetuava, com gerações se sucedendo no serviço
mas também, muitas vezes, eram dados a viúvas ou meninas órfãs, como dotes. real. Pessoas de outras camadas sociais, entretanto, continuaram a ingressar nas
Obviamente, os cargos inferiores constituíam património real, um recurso que fileiras dos letrados, e, embora filhos de magistrados tenham servido no pri-
permitia à Coroa conquistar lealdades e recompensar serviços. Sua função, por- meiro tribunal brasileiro, juizes de origem fidalga também o fizeram. Os requi-
tanto, não era puramente burocrática. Nesse nível de administração, o plura- sitos para matrícula na universidade e para ingresso no serviço real operavam
lismo (a ocupação de mais de um cargo) era comum, e o uso de substitutos, uma para excluir homens com certos antecedentes familiares. Em ambos os casos
prática corriqueira. "cristãos-novos" (eufemismo para designar criptojudeus) eram barrados,
Havia distinções entre os cargos inferiores, que exigiam pouca ou nenhuma numa tentativa de garantir para a Coroa funcionários racialmente "puros",
capacitação, e os que requeriam pelo menos alguma qualificação. Tabelionatos religiosamente ortodoxos e politicamente leais. Era impossível fazer, com rigor,
eram os mais importantes da última categoria. Cargos de amanuense requeriam essa seleção em todos os casos, mas um magistrado com a "mácula' de antece-
pelo menos algum nível de alfabetização, e geralmente o prémio de um tabelio- dentes "novo-cristãos" provavelmente sofreria limitações na carreira. Com esse
nato incluía uma cláusula exigindo prova de aptidão. As qualificações notariais, único fator de limitação, as origens sociais dos magistrados pareciam bastante
entretanto, pareciam diminuir na ra/ão direta da distância do trono, de modo diversificadas, e a magistratura incluía fidalgos e proprietários, mas também, e
que, se os documentos existentes podem ser usados como índice, os melhores sobretudo, aristocratas sem título e burocratas. Não há como determinar, no
atual estágio das pesquisas, até que ponto os filhos mais jovens dos proprietá- onde os títulos de licenciado e ííocforeram orgulhosamente exibidos e zelosa-
rios de terras buscavam seu meio de subsistência na burocracia magistrática, mente preservados.6 Os magistrados portugueses, diferentemente de seus
como alternativa para a Igreja ou o Exército, mas essa possibilidade certamente equivalentes espanhóis, preferiam o título funcional (como o de desembarga-
existia. dor) ao título universitário, como forma de classificação social. Curiosamente,
A chave para uma carreira no serviço real estava num curso universitário apesar do pouco valor intelectual atribuído ao doutorado, os magistrados que
de direito. As origens sociais ou o lugar de nascimento podiam variar conside- obtinham esse título geralmente insistiam em usá-lo.
ravelmente, mas quase sem exceção os magistrados tinham passado pela As exigências do governo e os objetivos particulares e políticos da Coroa
experiência comum de cursar as faculdades de direito canónico ou civil na influenciavam a natureza e o conteúdo da educação universitária em Portugal.
Universidade de Coimbra. O estudo do direito vinha ganhando importância O estudo do direito fazia mais do que preparar o aluno para a prática da advo-
desde que d. João m estabelecera permanentemente a universidade em Coim- cacia e o ingresso no serviço real num sentido técnico; também inculcava nele
bra. O direito canónico era um dos favoritos, porque preparava os alunos tanto um complexo modelo de padrões e ações aceitáveis. O estudo de direito em
para a burocracia civil como para a eclesiástica. Tanto no direito civil como no Coimbra era um processo de socialização que tinha como cerne a criação de
canónico, entretanto, o estudo se baseava num determinado número de cursos um senso de lealdade e obediência ao rei. É significativo que, ao longo dos tre-
que enfatizavam o corpus dos direitos romano e eclesiástico, os glosadores zentos anos da era colonial no Brasil, a única faculdade de direito no Império
medievais e os comentários de juristas, como o altamente apreciado Bártolo de português tenha sido a de Coimbra. Todo magistrado nesse Império, tivesse
Sassoferrato.4 Como na maioria das universidades europeias daquela época, os nascido na colónia ou no continente, passava pelo currículo daquela escola e
professores davam grande valor à decoreba e à capacidade que o estudante bebia seus conhecimentos de direito e estadística naquela fonte. Em certo sen-
demonstrasse de salpicar as margens de seu argumento ou tratado com citações tido, esse processo atava a elite intelectual da colónia à metrópole de modo
eruditas ou referências clássicas. Apesar disso, a julgar pelos poucos argumen- totalmente diverso da América Espanhola, onde universidades locais serviam à
tos escritos de advogados do Brasil e outros lugares que ainda sobrevivem, é .elite colonial. Havia magistrados nascidos no Peru e educados no Peru que
claro que sólidos raciocínios e precedentes legais também tinham seu peso nas nunca tinham estado na Espanha, mas nenhum magistrado nascido em colónia
decisões judiciais. do Império português deixara de estudar na metrópole.
Havia três títulos académicos em direito civil (Leis) ou canónico (Cânones). Do século xvi em diante Coimbra se tornou campo de treinamento do
O bacharelado era, de longe, o mais comum, e se tornou quase sinónimo de clero e da magistratura portugueses. Em seus saiões eles aprendiam a profissão
magistratura. Até o século xvn o bacharelado era mais valorizado que a licencia- e à sombra de seu campanário assimilavam a filosofia dominante da época. Este
tura, título que exigia quatro anos adicionais de estudos. Depois da reforma de não é o lugar apropriado para discutir em detalhes os grandes princípios do
Coimbra em 1612, a licenciatura perdeu importância, e tornou-se comple- pensamento político daquela época, uma vez que outros já desempenharam a
mento do título de bacharel.5 O doutorado era um título honorífico, que na tarefa de modo admirável, mas pejo menos um ponto deve ficar claro.
realidade não indicava qualidades ou instrução superiores, e era buscado prin- Na Renascença portuguesa as relações do rei com o povo e a lei consti-
cipalmente por homens que ingressavam no corpo docente da universidade. tuíam o âmago do pensamento político.7 Vários autores haviam desenvolvido
Esses homens podiam, no entanto, ingressar no serviço real depois de uma teorias subordinando o rei à lei e reconhecendo o direito do povo a resistir ao
carreira universitária, e encontravam-se antigos professores universitários nos tirano; mas poucos, se é que houve algum, declararam que a magistratura par-
cargos mais altos da burocracia profissional. tilhava o direito do povo de resistir a um mau governante. Em Coimbra, os
Títulos universitários serviam como marcas de distinção e status, mas jesuítas, que por intermédio do seu Colégio de São Paulo chegaram a dominar
nunca tiveram a importância que tinham na Espanha e na América Espanhola, a cena intelectual, enfatizavam que a magistratura era uma criação real e, por-

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tanto, subserviente à Coroa. Magistrados eram servidores reais, e não servidores avós viviam sem recorrer ao trabalho manual, ao oficio de artesão ou ao comér-
civis. Essa doutrina encontrava considerável amparo no pensamento jurídico cio varejista podiam ingressar na magistratura. Excecões eram fritas se o pai ou
estrangeiro. Ideias políticas italianas e espanholas não eram alheias a Coimbra, avô do candidato tivessem sido membros de um senado da Câmara ou da Casa
especialmente durante a era dos Habsburgo. Naquele período, as doutrinas de de Vinte-quatro, o órgão representativo das associações de artesãos, pois os
pensadores espanhóis como Francisco Suárez e Juan de Mariana eram ampla- membros dessas instituições gozavam de privilégio especial, que permitia a
mente lidas e debatidas. O jesuíta Suárez é muito importante nesse sentido, seus filhos ingressar no serviço real. Todos os testemunhos relevantes eram
pois, tendo lecionado em Coimbra na segunda década do século-xvn, seu então encaminhados a Lisboa, onde, junto com um certificado de boa conduta
impacto foi direto.8 Mais conhecido, talvez, como expoente da vontade popular de Coimbra, eram depositados na pasta do candidato. Se todos os depoimentos
contra a tirania, Suárez concebia a magistratura, no entanto, como submetida à fossem favoráveis, o candidato era convocado para "ier" diante do Desembarco
Coroa, não ao povo. Essa posição, obviamente, representava um sólido alicerce do Paço, ou, em outras palavras, para ser examinado em sua competência em
teórico para a subserviência da burocracia ao rei, posição que o monarca, fosse direito. Um desempenho positivo completava o processo de admissão e, se fosse
ele um Avis, um Habsburgo ou um Bragança, não poderia deixar de apoiar. 9 aprovado pelo Desembargo do Paço, o nome do candidato entrava numa lista
Nem todos os estudantes matriculados em Coimbra ingressavam no ser- de magistrados à espera de nomeação.
viço real depois de formados, mas aqueles que se decidiam por uma carreira O processo de investigação e exames, conhecido como "Leitura dos bacha-
burocrática geralmente começavam a se preparar para o exame de admissão no réis" supostamente assegurava à Coroa magistrados profissionais competentes,
último ano da universidade. Para entrar na magistratura, o candidato fazia uma cujas origens sociais eram relativamente homogéneas e em cuja ortodoxia reli-
petição ao Desembargo do Paço, que então realizava uma investigação pessoal giosa e política se podia confiar. Como qualquer processo do género, este nunca
e académica para determinar se ele preenchia os requisitos. Dos muitos docu- alcançava plenamente seus objetivos. A magistratura nunca esteve livre de
mentos relativos à burocracia portuguesa, nenhum é mais revelador dos pro- incompetentes e ladrões. O autor da Arte de furtar, em geral muito brando corn
cessos de recrutamento, dos critérios de seleção e das origens sociais dos magis- a magistratura, afirmava que a leninência educacional em Coimbra levava a
trados que os exames de admissão aplicados pelo Desembargo do Paço.10 ridículos desempenhos judiciais. Dizia ele que havia juizes tão ignorantes que
Eram requisitos para a admissão que os candidatos fossem formados cm "não sabem qual é a sua mão direita, mas [quando se tratava de] embolsarem
direito em Coimbra e tivessem praticado a advocacia por pelo menos dois anos. com ela espórtulas e ordenados, como se fossem Bartholos e Cova-Rubias"
Os estatutos do Desembargo do Paço também exigiam que o candidato tivesse sabiam distingui-la." De outro lado, o processo de recrutamento tinha relativo
pelo menos 28 anos na data da nomeação. A maioria dos estudantes de Coimbra sucesso em assegurar que pelo menos um nível mínimo de competência fosse
se formava entre os 26 e os 33 anos, dependendo do título obtido, de modo que mantido. Muito embora a Coroa não vendesse abertamente cargos de magis-
a exigência de idade não era um obstáculo sério. Ao receber um pedido, o trado, apadrinhamento e compra sem dúvida existiam clandestinamente na
Desembargo do Paço distribuía um questionário para o juiz real na cidade ou burocracia profissional. No entanto, o fato de que o recrutamento e a promoção
distrito natal dos pais e avós do candidato. O juiz, por sua vez, convocava uma dependiam, em última análise, de votação majoritária no Desembargo do Paço
série de testemunhas, que atestavam os antecedentes familiares, as atividades e garantia certo grau de competência e autonomia profissional. Fossem quais
a reputação do candidato e de sua família. Especificamente, o questionário fossem os desvios individuais, nem os reis nem os cortesãos jamais transforma-
buscava estabelecer a "pureza de sangue" do candidato, certificando-se de que ram a magistratura portuguesa num bando de sicofantas apadrinhados.
nem ele nem seus antepassados eram maculados com sangue "moro, mulato, A questão da autonomia burocrática é crucial em nossa análise, pois,
judeu ou outra raça infecta" Além disso, as origens e a ocupação social da famí- embora a Coroa previsse um corpo de funcionários dependente e submisso, o
lia também eram importantes, pois teoricamente só os homens cujos pais e treinamento e as práticas operacionais da magistratura produziam acõcs c ati-
tudes independentes dos desejos reais, e por vezes contrárias a eles. Os tempos fracasso em colocar favoritos no novo Tribunal Superior indica que o apadri-
de estudante em Coimbra, onde era tão normal beber e brigar como decorar nhamento, por si, era insuficiente para derrubar as decisões do Desembargo do
leis, costumavam resultar em coesão grupai e estreitas ligações pessoais, tanto Paço. Segundo, porque para apoiar seus candidatos o vice-rei enfatizara que
quanto na aceitação da lealdade à Coroa. As experiências partilhadas nos tem- eles eram solteiros e que esse era o estado civil preferido para os juizes do ultra-
pos universitários, bem como antigas ligações de escola, reforçavam a inclina- mar.12 O Conselho de Portugal sugeriu que dois cargos do Tribunal Superior
ção da magistratura à autonomia, tendência essa que o Desembargo do Paço, fossem ocupados por homens que já serviam no Brasil. Filipe m aceitou a suges-
como conselho semi-independeu te e totalmente profissional, também estimu- tão e designou Ambrósio de Siqueira e Francisco Sutil para o tribunal, como
lava. Aqui, portanto, verificava-se um problema enfrentado por todos os impé- recompensa por serviços prestados e porque a "notícia que têm dos negócios
rios burocráticos. A burocracia, criada pela Coroa para alcançar objetívos reais, daquelas partes a poderão dá-la aos outros que vão de novo".13 Os outros oito
acabava adquirindo autonomia e poder para buscar a realização de seus pró- letrados selecionados em 1606 eram o dr. Gaspar da Costa (chanceler), Gaspar
prios fins. Deixava de ser simples instrumento da Coroa. Pegado (juiz da Coroa e Fazenda), Afonso Garcia Tinoco (procurador da
A magistratura, assim, dispunha de opções: podia perseguir os objetivos Coroa), Álvaro Pessoa, Manoel Pinto da Rocha, Sebastião Pinto Lobo (desem-
do rei e atuar como agente real, ou buscar seus próprios objetivos. Além disso, bargadores extravagantes), Antão de Mesquita de Oliveira e Francisco da
os magistrados também podiam servir de mediadores entre grupos conflitantes Fonseca (Leitão) (desembargadores dos agravos). Nem todos eles, todavia,
ou outras fontes de poder e, assim fazendo, formar uma grande variedade de chegaram ao Brasil.14 Juntos, esses homens constituíam um grupo competente,
alianças temporárias. Esse padrão se complica ainda mais, porque os magistra- ainda que não particularmente notável, de advogados com formação universi-
dos, individualmente, podiam seguir, e de fato seguiam, programas de ação tária. Nove dos primeiros dez magistrados tinham experiência judicial anterior,
puramente pessoais. Nenhuma opção excluía as outras, e a magistratura podia, e alguns voltariam do Brasil, posteriormente, para ocupar posições de conside-
ocasionalmente, desempenhar dois ou mais papéis ao mesmo tempo, o que rável importância em conselhos metropolitanos. Seus antecedentes individuais
dava ao governo magistrático um caráter altamente complexo. e a história de sua nomeação oferecem um vislumbre revelador da magistratura
A burocracia não existe sem burocratas. Para compreender as ações da portuguesa.
magistratura precisamos compreender não apenas sua estrutura institucional e Os conselhos e indivíduos encarregados da seleção dos magistrados
sua história coletiva, mas também os homens que nela serviam — como eram tinham aprovado por unanimidade Gaspar da Costa como chanceler do
selecionados, e a natureza de sua história pessoal e profissional. Este tema será Tribunal Superior, uma vez que ele se distinguira anteriormente em serviço.
tratado com alguma profundidade, numa forma mais quantitativa, no capítulo Costa servira como desembargador dos agravos no Tribunal Superior do Porto
11, mas voltemo-nos, agora, para os homens que chegaram à Bahia em 1609, e na Casa da Suplicação. Obviamente, a Coroa escolhera um juiz experiente e
como magistrados do primeiro tribunal brasileiro. respeitado para presidir o novo tribunal.15
A nomeação dos dez primeiros magistrados lança alguma luz sobre o Um homem com os talentos e as possibilidades de Gaspar da Costa não
processo de seleção. De modo geral, o Desembargo do Paço e o Conselho da estava ansioso para deixar família, amigos e unia confortável posição em Lisboa
índia estavam de acordo quanto aos nomeados para os principais cargos do pelas incertezas da vida colonial.16 A relutância dos magistrados da Coroa em
novo tribunal, mas, nos casos em que as opiniões divergiram, o Desembargo do servir nas colónias não era, entretanto, fenómeno novo, e a Coroa tinha desen-
Paço exerceu mais influência. Quando, por exemplo, o vice-rei de Portugal volvido uma política de recompensas e seduções para conseguir funcionários
d. Pedro de Castilho patrocinou candidaturas ao tribunal, esses nomes quase que quisessem trabalhar além-mar. Fazia parte dessa política prometer benefí-
não foram levados em conta, embora tivessem as qualificações necessárias. As cios financeiros, honrarias e futuras promoções, como meio de convencer
indicações do vice-rei são interessantes por dois motivos. Primeiro, porque seu homens a servir na colónia. Como disse o rei no caso de Costa, os favores pro-

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metidos eram "para torná-lo mais disposto a servir-me".17 Assim, Costa recebeu esses serviços nunca tinham sido recompensados, e que havia boas razões para
uma concessão de fidalguia, a dignidade de cavaleiro da Ordem de Cristo, o que ele fosse dispensado. Primeiro, a viagem seria muito perigosa para a sua
título honorário de conselheiro do rei e benefícios financeiros no total de 300 saúde, uma vez que era "muito doente do estômago" e inclinado a enjoar no
mil-réis.ls mar. Além disso, tinha cinquenta anos e ainda era um homem solteiro à pro-
Como a Coroa suspeitara, a perspectiva de servir no Brasil não seduzia cura de uma esposa. A viagem compulsória acabaria com suas possibilidades
muito o experiente magistrado, mas ele já estava fazia tempo suficiente no matrimoniais em Portugal, e magistrados geralmente eram proibidos de casar-
judiciário para perceber os riscos de provocar o desagrado do rei. Portanto, em -se no brasil. 27 Dezoito anos de serviço lhe tinham ensinado a explorar toda,s as
vez de recusar o emprego, tentou obter mais concessões, pedindo um seguro de possibilidades, e por isso na mesma petição cie requereu que, caso não fos>c
vida de 80 mil-réis para a família e solicitando permissão para que o irmão dispensado, alguns privilégios c recompensas lhe fossem garantidos.
assumisse o cargo de abade da vila das Chãs de Tavares, perto de Viseu.11* Esses Os favores solicitados por Afonso Garcia eram mais ou menos os que
favores adicionais lhe foram negados, embora alguns arranjos tenham sido tinham sido concedidos a Gaspar da Costa. Na realidade, parte da relutância
feitos para sua família, e Costa não voltou a fazer pedidos, ante a declaração de Afonso Garcia em servir era provocada por inveja, pois ele estava havia
irritada do Conselho de Portugal de que "com isso e as mais mercês que se lhe mais tempo que Costa no serviço real e se sentia preterido. Esse ciúme e essa
tem feito se deve contentar e não fazer mais réplicas".20 Apesar de isso ter sido hostilidade profissionais eram comuns. Afonso Garcia também pediu à
comunicado a Costa em julho de 1606 e de ele ter sido instado a partir com os Coroa que permitisse seu retorno para Portugal depois de três ou quatro
primeiros ventos favoráveis, ele e os colegas só chegaram três anos depois.2'1 anos no Brasil, sem a necessidade de autorização adicional. Mais impor-
Esses atrasos eram comuns entre os recém-designados ministros de além-mar, tante, pediu para servir como desembargador dos agravos, a exemplo do
que tentavam isentar-se do serviço colonial. procurador da Coroa do Tribunal Superior do Porto. Com a estipulação de
Gaspar da Costa serviu apenas dois anos no Brasil, e por isso sua influência que serviria seis anos, a Coroa concedeu as duas últimas solicitações, mas
no novo tribunal foi limitada. Durante seu curto tempo de serviço, ele se tor- deixou claro que não queria saber de mais escusas de Afonso Garcia, ou de
nou um magistrado altamente respeitado e considerado. Em 7 de março de qualquer um dos demais.28
1610, a Câmara da Bahia escreveu ao rei dizendo que os êxitos do Tribunal Afonso Garcia Tinoco revelou-se um dos mais capazes e conscienciosos
Superior dependiam de Costa, "de cujo zelo, inteire/a e diligência pende por a membros do Tribunal Superior brasileiro, muito embora achasse tempo para
maior parte o remédio de tudo e reputação da própria casa".22 O trabalho de dcdicar-se a outros interesses, como o comércio de escravos. Em vez de seis, ficou
Costa, entretanto, foi cedo interrompido por sua morte, em 1611.23 catorze anos no Brasil, antes cie retornar a Portugal. Um voto unânime do Conselho
Afonso Garcia Tinoco representava os interesses da Coroa como procura- de Portugal o elegeu para a Casa da Suplicação em 12 de agosto de 1623.29
dor da Coroa e Fazenda.21 Nascido cm 1556, estudou na Universidade de Manoel Pinto da Rocha e Sebastião Pinto Lobo foram nomeados desem-
Coimbra e recebeu o título de licenciado em 1585.25 Em 1606, então juiz de fora bargadores dos agravos. Ambos se formaram em direito canónico na Univer-
l
de Tomar, Tinoco aguardava confiantemente a promoção para o Tribunal sidade de Coimbra, Pinto Lobo em 1584 e Pinto da Rocha em 1589.30 As infor-
Superior do Porto, quando chegou a amarga notícia da sua designação para o mações sobre a carreira de Sebastião Pinto Lobo antes de servir no Brasil são
tribunal brasileiro. escassas, muito embora se possa afirmar que ele era juiz dos órfãos no Porto na
Como a maioria dos colegas, Afonso Garcia Tinoco não tinha o mínimo época da sua nomeação para a Relação do Brasil. Seu serviço no Brasil não foi
interesse no exílio cultural e profissional que o serviço brasileiro representava. especialmente notável. Ao voltar para Portugal, serviu como provedor do Viseu,
Por isso, numa tentativa de escapar, submeteu uma petição informativa, e um antes de tornar-se desembargador extravagante da Relação do Porto.11 Retirou-se
tanto diverticla, resumindo seus dezoito anos a serviço do rei.26 Ressaltou que da vida pública em abril de 1636.32
A carreira profissional de Manoel Pinto da Rocha é bem documentada. Foi ouvidor-geral. A Coroa, agradecida, recompensou seus vinte anos de serviço na
um competente magistrado da Coroa que ascendera pelos canais normais da colónia com um cargo na Casa da Suplicação em 17 de outubro de 1630.43 Ele
hierarquia judicial portuguesa. Começando como juiz de fora em Montemor- morreu enquanto servia nesse cargo, no fim de 1636, ou começo de 1637.44
-o-Novo em 1592, ele ocupou sucessivamente os cargos de corregedor de Francisco da Fonseca (Leitão), apesar de nomeado desembargador extra-
Almada, ouvidor de Setúbal e corregedor de Viana.33 Originariamente indicado vagante, assumiu como desembargador dos agravos em 1609. Nascido em 1572,
para desembargador dos agravos, a Coroa o nomeou ouvidor-geral, e ele serviu Fonseca era de família nobre e tinha estudado direito em Coimbra. 45 Serviu
nesse posto até 1620, quando se tornou chanceler do Tribunal Superior do como juiz de fora de Vouzela e no conselho de Lafões de 1600 a 1604 e foi sub-
Brasil. Manoel Pinto da Rocha morreu no cargo em 1621.34 metido a uma residência sem nenhum dano à sua reputação.46 Em seguida ser-
Seguir a trajetória da vida pública de Antão de Mesquita de Oliveira é viu como juiz de fora de Miranda e estava empregado ali quando veio sua
tarefa complicada, pela simples razão de que um contemporâneo seu tinha nomeação para o Tribunal Superior brasileiro. Ele também quis ser dispensado
exatamente o mesmo nome, e era também advogado.35 Não obstante, pode-se e alegou que sua má saúde — confirmada por atestado médico — e seu recente
afirmar que o Antão de Mesquita que trabalhou no Brasil era natural de Guarda, casamento fariam do serviço no Brasil um grande sofrimento. Fonseca, entre-
e se formou em direito canónico em Coimbra em 1601.36 Ao ser admitido no tanto, não desejava dar a impressão de ser avesso a promoções, e com certa
serviço real, tentou emprego no Tribunal Superior em Goa, apresentando sua malícia sugeriu servir na Relação do Porto em vez de servir na Relação do
petição pessoalmente na corte em Valladolid. Naquela época, não havia vaga na Brasil.47 Sua petição recebeu a recusa de praxe. Nomeado para o Tribunal
índia, mas o rei estava disposto a conceder ao jovem advogado um emprego no Superior brasileiro em 7 de março de 1609, acabaria voltando para Portugal,
ultramar.37 Por isso, Antão de Mesquita figurou desde o início entre as nomea- onde serviu no Porto e, depois de 1629, na Casa da Suplicação.48
ções para o Tribunal Superior do Brasil, e, diferentemente dos colegas, não Como dois dos nomeados originais nunca chegaram ao Brasil, e o plano
tentou escusar-se, embora a Bahia não fosse, certamente, sua preferência. Foi de fazer dois magistrados que já se encontravam na colónia servirem no tribu-
nomeado desembargador dos agravos em 26 de novembro de 1609.38 nal não pôde ser posto em prática, quatro homens que não figuravam nas dis-
No Brasil, Antão de Mesquita foi um dos mais zelosos membros do cussões iniciais foram designados para o Tribunal Superior. Três deles — Rui
Tribunal Superior, e dos que mais mereceram a confiança da Coroa. Sua severi- Mendes de Abreu, Pêro de Cascais (de Abreu) e António das Póvoas — assumi-
dade era famosa, e não passou despercebida em Portugal.39 O bem-sucedido ram ativas funções no Tribunal Superior e se envolveram na maioria das dispu-
cumprimento de numerosas missões especiais resultou, em abril de 1622, em tas resultantes das atividades do tribunal. O quarto homem, Manoel Jácome
sua promoção para o cargo de ouvidor-geral, na vaga surgida quando Manoel Bravo, não se distinguiu no Brasil, mas tornou-se importante funcionário ao
Pinto da Rocha assumiu seus deveres de chanceler.40 Com a morte de Manoel voltar para Portugal.
Pinto da Rocha no ano seguinte, Antão de Mesquita foi promovido à cadeira de Bravo era natural de Viana do Castelo. Obteve o título de bacharel em
chanceler, e servia nessa posição quando os holandeses tomaram a cidade de Coimbra em 1598 e ingressou no serviço real como juiz de fora de Monção, em
Salvador em I624.41 1600.49 Serviu por seis anos no Brasil como desembargador extravagante e vol-
Imediatamente depois da retomada da cidade, Antão de Mesquita envol- tou a Portugal em 1617, onde serviu primeiro no Tribunal Superior do Porto, e
veu-se numa disputa com d. Fradique de Toledo, general da armada luso-espa- depois na Casa da Suplicação.50
nhola, sobre a jurisdição no inquérito judicial a respeito da queda da cidade. A Em 1628 Bravo já tinha provado o seu valor nesses cargos e em muitas
Coroa ordenou a Antão de Mesquita que conduzisse as investigações, e conside- tarefas especiais de natureza judicial, razão pela qual a Coroa o colocou na
rava sua presença no Brasil tão necessária que ele foi dispensado de uma missão Câmara de Lisboa como vereador em 7 de junho de 1628.51 Em 1632, Manoel
especial em Angola.42 Assim, de 1626 a 1630 ele permaneceu no Brasil como Jácome Bravo foi recompensado com um benefício na Ordem de Cristo, e

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nomeado, no mesmo ano, guarda-mor da Torre do Tombo,52 Os conselheiros prietários de terra, com a Igreja e até com outros membros do tribunal, espe-
de Filipe iv o incluíram no relatório secreto preparado no fim dos anos de 1630 cialmente o colega Pêro de Cascais.61
para a vice-rainha de Portugal, dona Margarida, mas naquela altura ele estava Pêro de Cascais, natural de Olivença, recebera o título de bacharel em
muito doente. Era considerado confiável pela facção espanhola em Portugal." Coimbra em 1596. Como dito, há poucas informações disponíveis sobre ele, em
.Por ter Gaspar Pegado sido incapaz de assumir o cargo no Brasil, outro especial sobre o início da sua carreira. Nomeado para .servir no Brasil em 161)9,
magistrado de igual estatura foi designado para as importantes funções de juiz ele acabou desempenhando não apenas a Função de desembargador extrava-
da Coroa. O homem escolhido foi Rui Mendes de Abreu, filho de um desem- gante como a de ou v ido r-geral. Em dado momento, também atuou como pro-
bargador da Casa da Suplicação, que tinha apoiado Filipe n durante a crise de vedor-mor interino da Fazenda. Pêro de Cascais assumiu um cargo no Tribunal
1580.54 Ruí-Mendes servira como juiz de fora em Campo Maior, Portalegre, Superior do Porto depois de retornar para Portugal, mas não parece ter ido
Coimbra e Mcrtola.55 Sua indicação para o Tribunal Superior do Brasil foi muito longe naquele tribunal. Aposentou-se com uma pensão em Ió26.!'2 É
acompanhada de um hábito da Ordem de Cristo, a promessa de um posto na provável que Pêro Cascais não tenha conseguido avançar no serviço real em
Casa da Suplicação e garantias de que, em caso de vaga na posição de chanceler, razão da natureza controvertida de suas ações no Brasil e de seu notório gosto
ele seria nomeado. Isso ocorreu em 16.11, com a morte de Gaspar cia Costa.56 Ao pela contenda.
retornar para Portugal cm 1620, Rui Mendes dedicou grande parte do seu Os homens selecionados para servir no primeiro tribunal brasileiro e os
tempo à tentativa de obter privilégios que julgava lhe serem devidos por servi- que lhes sucederam representavam a classe dos letrados. Pelo menos nove dos
ços prestados e por sua linhagem. Apesar de ter sido feito fidalgo da casa em dez primeiros tinham diploma em direito canónico ou civil obtido em Coim-
1626, a maioria das outras reivindicações permaneceu inatendida. 57 bra, e a maioria tinha pais, filhos ou outros parentes na profissão legal. Só o
António das Póvoas e Pêro de Cascais, membros mais jovens do Tribunal tempo e o curso dos acontecimentos diriam se a instrução e a experiência uni-
Superior, serviram como extravagantes. O primeiro acabaria galgando grandes versitárias haviam podido dotá-los de esprit de corps e de uma visão ideológica
alturas na burocracia administrativa portuguesa, enquanto o último desapare- comum. Uma coisa era certa: eles formavam uma raça distinta da dos réprobos
ceu no esquecimento oficial. Nascido em Midões, moço fidalgo de família ilus- "cristãos-novos", dos mestiços de fronteira e dos arrogantes senhores de enge-
tre, António das Póvoas ingressou no serviço real depois de sua graduação em nho que povoavam o Brasil colonial.
Coimbra em 1608.58 Ã época da sua nomeação para o Tribunal Superior do Apesar de os historiadores, favorecidos pela perspectiva da distância,
Brasil, a Coroa lhe prometeu um cargo no Tribunal Superior do Porto quando serem capazes de ver nítidas distinções entre os letrados e os outros grupos da
voltasse. No Brasil, Póvoas demonstrou particular talento cm questões relacio- sociedade, as atitudes e aspirações dos magistrados reais geralmente assemelha-
nadas ao Tesouro, e depois de sete anos de serviço voltou para a metrópole, vam-se às da velha aristocracia militar. Alguns desembargadores, como António
onde, em 1621, se tornou membro da Casa da Suplicação. Foi feito membro do das Póvoas e Francisco da Fonseca, alegavam descender de nobre estirpe,
Conselho da Fazenda — o Conselho Colonial — cm l637.59Em 12 de dezem- enquanto outros, como Rui Mendes de Abreu e Gaspar da Costa, ostentavam a
bro de 1640, assumiu também as funções de provedor da Alfândega de Lisboa, cobiçada cruz da Ordem de Cristo. Mas, como letrados e magistrados reais, seus
em nome do sobrinho menor de idade.60 interesses nunca foram, simplesmente, os da velha aristocracia. Em muitos
Depois da revolta de 1640, d. João iv reconfirmou Póvoas nos cargos e ele sentidos, permaneceram inextricavelmente ligados à Coroa e à manutenção da
ajudou a financiar as primeiras campanhas no Alentejo contra os espanhóis. autoridade real. Razões de princípios e interesses de classe diferenciavam os
Apesar de ter conquistado posições importantes em Portugal e ser um reconhe- letrados de outras elites da sociedade.
cido especialista em matérias fazendárias, no Brasil ele fora um magistrado A Coroa escolhia para o serviço brasileiro homens de talento comprovado.
particularmente irascível e inconstante, que se metia em altercações com pro- As biografias desses homens os apresentam como cristãos-velhos, advogados
de meia-idade, ascendendo na profissão, respeitáveis mas não eminentes. A
maioria tinha medo de que a nomeação para o Brasil os privasse de melhores e
mais prestigiosos cargos continentais, e esse temor talvez também estivesse por
trás de algumas de suas ações subsequentes no Brasil. Os magistrados do pri-
meiro Tribunal Superior e muitos de seus sucessores demonstravam profundo
apego por privilégios de precedência e formalidades no trato, o que reflete a
importância por eles atribuída à hierarquia profissional. Sua insistência cons-
tante em receber demonstrações de respeito e deferência de outros e seu com-
portamento insolente irritavam os menos refinados mas não menos sensíveis
habitantes da colónia. Apesar dessas diferenças, o poder e o prestígio dos magis-
trados e o favoritismo que lhes demonstrava a Coroa tornaram a aliança com a
magistratura particularmente atraente para os senhores de engenho coloniais,
que buscavam fortalecer sua posição de preponderância económica com o sta-
tus social c a legitimidade da magistratura, A força do Tribunal Superior, a
influência e as ações de seus membros e os esforços feitos por outros grupos e
instituições para incorporar essa nova fonte de poder aos padrões sociopolíti-
cos existentes constituem importante parte da história do Brasil nas primeiras SEGUNDA PARTE:
décadas do século xvn. Os padrões estabelecidos entre a magistratura e a socie- A RELAÇÃO NO BRASIL, 1609-26
dade no período de 1609 a 1625 prolongaram-se pelo século xvra e tipificaram
a natureza dessas relações.

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5. Bahia: o meio social

Todos, os que não furtam, muito pobres,


E eis aqui a cidade da Bahia.
Gregório de Matos (c. 1670)

Aqueles do Rio de Janeiro e das capitanias do norte não são nem de.
perto tão efeminados e corruptos quanto os da Bahia de Todos-os-
-Santos, que estando num clima favorável à indolência e libertina-
gem, a capital, um dos povoados mais antigos, é, sob todos os aspectos,
pior do que todos os outros.
EdmundBurke(1758)

Durante o primeiro século de existência do Brasil como colónia europeia,


vários grupos e instituições estabeleceram padrões de controle sobre os fatores
sociais, políticos e económicos da vida brasileira. Era de esperar que a intrusão
de uma nova força, um poderoso órgão judicial e administrativo, desestabili-
zasse alguns desses padrões e provocasse a oposição de quem sentisse seus
interesses contrariados. Surpreendentemente, porém, houve fraca oposição
colonial à criação do Tribunal Superior em Í609. Na verdade, a Relação parece
ter sido bem recebida pela maioria dos elementos da população.
As razoes dessa atitude eram complexas. Certamente, o antigo desejo Brasil representou, até o fim do século xvi, déficit para o Tesouro real, consu-
colonial de melhorar a qualidade da justiça não pode ser ignorado. Como mindo mais em salários e em gastos com defesa do que rendia em tributos.3 As
vimos, sugestões para o estabelecimento de um tribunal brasileiro tinham relações comerciais dentro do Brasil baseavam-se no escambo, não apenas
sido apresentadas já em 1562, mas os acidentes e a inércia administrativa entre brancos e índios, mas entre os portugueses também.4 Foi, na verdade, a
asfixiaram o projeto. Moradores da colónia, entretanto, nunca desistiram da união com a Espanha que trouxe moedas peruanas para o Brasil, depois de
ideia, e depois de 1580 descobriram na União Ibérica novas maneiras de jus- 1585, e a dependência dessa fonte de dinheiro ficou clara quando, em 1640, a
tificar suas reivindicações. Após o reconhecimento formal pelo Brasil da sobe- união luso-espanhola chegou ao fim e os portugueses no Brasil foram nova-
rania dos Habsburgo, proclamada pela Câmara municipal de Salvador no Dia mente reduzidos à prática do escambo.5
da Assunção (19 de maio) de 1582, brasileiros experientes adotaram a compa- As sementes do futuro, entretanto, já estavam lançadas na forma da cana-
ração como tática persuasiva.1 A América Espanhola oferecia excelente con- -de-açúcar importada de São Tomé no começo do século xvi. Nas terras férteis
traste, e os colonos brasileiros citavam as audiências do Peru e da Nova Espanha da costa brasileira, especialmente na região de Pernambuco e no preto massapé
como modelo a ser seguido pelo Brasil.2 É impossível dizer se tal estratégia do Recôncavo Baiano, a cana-de-açúcar começou a prosperar. O aperfeiçoa-
surtiu efeito, mas em junho de 1609 os primeiros magistrados da Relação da mento das técnicas de produção, a legislação favorável e o crescente mercado
Bahia desembarcaram no cais de Salvador. O governo magistrático chegara ao europeu ajudaram a desenvolver a agroindústria brasileira do açúcar. Pela
Brasil. O mundo em que os magistrados pisavam era o mundo excitante e por altura de 1570 os verdes canaviais tinham transformado a costa nordestina do
vezes anárquico de uma colónia europeia em formação. Muitos dos problemas Brasil na terra do açúcar. O predomínio dessa cultura e a natureza de sua pro-
enfrentados pela burocracia magístrática no Brasil eram de natureza especifica- dução exerceram considerável influência na formação da sociedade, nos
mente brasileira, de maneira que, para compreender as ações subsequentes da padrões de vida e na administração do governo no Brasil colonial.
Relação e seus juizes, precisamos primeiro examinar o tecido da sociedade na A produção do açúcar estimulou uma ampla variedade de atividades e
qual eles operavam. serviços. A cana-de-açúcar era uma cultura de plantation, que crescia em gran-
Se o Império colonial português contribuiu de alguma forma para o inte- des fazendas e era processada em engenhos pertencentes a grandes proprietá-
resse de Filipe n na conquista do trono de Portugal, foi a índia, e certamente não rios de terra. A força de trabalho usada na maior parte dessas fazendas era
o Brasil, que estimulou seu empenho. Embora mostrasse sinais de crescente suprida por escravos, inicialmente pela população indígena e depois por africa-
importância económica, especialmente após 1570, o Brasil, oitenta anos depois nos trazidos da costa da África Ocidental e de Angola. A necessidade de escravos
de descoberto, continuava sendo os fundos do Império. Sua escassa população e de suprimentos da Europa fomentou um ativo comércio marítimo e navios
europeia espalhava-se pelo litoral ou concentrava-se em torno de poucos voltavam para a Europa carregados de pau-brasil e de produtos agrícolas da
nódulos urbanos, vulneráveis a ataques de índios hostis e de invejosos rivais colónia. Mais do que qualquer outra mercadoria, entretanto, o açúcar consti-
europeus. Diferentemente dos vizinhos da América Espanhola, o Brasil não tuía o cerne económico do Brasil. A maior parte das receitas da colónia vinha
podia se gabar de universidades ou de imprensa e tinha poucos edifícios nobres dos tributos impostos ao comércio de açúcar e de escravos, fonte de renda que
e quase nenhuma riqueza mineral visível. Era uma dependência colonial no financiava a estrutura administrativa da colónia.
sentido clássico, fonte de matérias-primas e de produtos agrícolas tropicais. De O açúcar influenciou até a localização das cidades do Brasil, em certa
início, o pau-brasil, usado para tingir tecidos, fora o maior produto de exporta- medida. Recife, Salvador da Bahia e Rio de Janeiro eram portos, centros urba-
ção, mas, embora em algumas regiões, como Pernambuco, a exportação dessa nos situados em baía ou enseada para facilitar a chegada de navios trazendo
madeira continuasse sendo uma importante atividade económica ao longo do colonos, escravos e mercadorias europeus, e o fretamento desses mesmos
século xvni, o comércio de pau-brasil não podia, por si só, sustentar a colónia. O navios com o açúcar da terra. Era nessas cidades que artesãos, comerciantes,

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médicos, advogados e funcionários do governo ofereciam seus serviços à popu- Desde o começo dos anos de 1580, corsários ingleses, franceses e holande-
lação, de modo que era natural que o Tribunal Superior se estabelecesse numa ses navegando com a bandeira de d. António, o pretendente português, saquea-
delas. Pois o Brasil do século xvn, como sociedade agrícola e rural, dependia vam navios ibéricos. Depois de 1585, os ataques se intensificaram, com os
inteiramente de seus portos costeiros. ingleses usando o pretexto de capturas espanholas de produtos ingleses para
No fim do século xvi o complexo escravos^cana-de-açúcar tornara-se a suas depredações marítimas. Entre 1580 e 1600, o Bra.sil exportava cerca de
força motriz das colónias portuguesas no Atlântico Sul e, suplementado pelo 6400 toneladas de açúcar por ano, e os navios envolvidos nesse comércio eram
necessário comércio de artigos europeus, fazia do Brasil uma região atraente uma presa fácil e atraente para os inimigos da Espanha. 11 Esses navios de carga
para as transações legais e ilegais. Navios de carga portugueses, pequenas cara- brasileiros eram os trofeus capturados com mais frequência peios ingleses, qut,
velas superlotadas, transportavam açúcar brasileiro para Lisboa, o Porto e entre 1588 e 1591, tomaram 34 deles.12 Mas os navios carregados de açúcar não
outros portos portugueses, geralmente ao norte do rio Tejo. Lisboa, já um eram o único alvo. Navios espanhóis, portugueses e italiano:, transportando
importante entreposto europeu, tornou-se o centro dos produtos brasileiros, mercadorias europeias e escravos africanos também eram objeto de ataques.
adquiridos por comerciantes ingleses, alemães ou italianos e despachados para Por exemplo, o Ponte, um cargueiro veneziano, caiu nas mãos dos ingleses com
seus respectivos países. Um navio como o inglês Sea Flower, que partia de uma carga de vinho e azeite a caminho do Brasil13 Na segunda década do século
Lisboa para Londres em 1608, levava não apenas cortiça e madeira de Portugal xvn, as perdas foram espantosas. Entre 1624 e 1626, os portugueses perderam
e especiarias da índia, mas também 29 "cargas" de pau-brasil e 36 caixotes de ] 20 navios, com 60 mil caixas de açúcar e outros produtos — cerca de um terço
açúcar do Brasil.5 Do mesmo modo, o comércio direto com o Brasil não se do seu comércio com o Brasil.14 Essas dificuldades no comércio atingiam a
limitava a cascos portugueses. O livro de contabilidade de Miguel Dias de infraestrutura colonial, e as incertezas do negócio fizeram desabai o preço do
Santiago, comerciante que despachou açúcar na Bahia de 1596 a 1598, relacio- açúcar, obrigando fazendeiros a abandonar seus engenhos. Os comerciantes
nava navios provenientes de Ragusa, Copenhague e Maímo transportando brasileiros, em face do perigo das perdas marítimas, tentaram proteger sua
açúcar do Brasil. 7 Navios holandeses, ingleses e hanseáticos navegavam cm posição, comprando açúcar ao preço mais baixo possível ou investindo tam-
nome de comerciantes portugueses, para transportar produtos brasileiros. Em bém nas diversas fases de produção dessa mercadoria.
1621, havia de dez a quinze navios dos Países Baixos Unidos exclusivamente Os rivais europeus de Espanha e Portugal não se contentavam com a cap-
dedicados ao comércio com o Brasil e 29 refinarias de açúcar na Holanda. tura dos transportadores de mercadorias, e corsários constantementc ameaça-
Naquela época, cascos holandeses transportavam de metade a um terço do vam a costa do Brasil. Piratas como James Lancaster, que tomou Pernambuco
comércio com o Brasil.8 por um mês em 1585, e Paul Van Caarden, que atacou a Bahia em 1604, torna-
Embora as autoridades em Portugal lutassem para manter o comércio vam a vida e o comércio incertos para os portugueses no Brasil. Por isso são
brasileiro sob controle metropolitano, exigindo que todos os navios pagassem temas constantes na documentação desse período a manutenção da milícia, u
taxas em Lisboa, havia, entretanto, comércio direto com outros países euro- construção de fortificações e o suprimento de armas, especialmente canhões
peus.9 Comerciantes ingleses especializados em comércio ibérico buscavam para a defesa. Os ataques e o medo dos ataques determinaram boa parte das
estabelecer padrões diretos de tráfego marítimo com o Brasil. A presença do atividades dos brasileiros no século xvn, e se tornaram objeto de preocupação
Minion em Santos em 1580 ou do MerchantRoyalcm Olinda em 1583 testemu- de órgãos administrativos, como a Relação. Além disso, a questão da defesa,
nhava esse desejo.10 A relutância dos moradores locais em negociar com estran- corno um todo, passou a ser cada vez mais motivo de disputas entre moradores
geiros e a flutuação das relações internacionais, entretanto, tornavam o comér- do Brasil e o governo metropolitano, assim como entre os espanhóis, que pen-
cio direto com o Brasil praticamente impossível para não ibéricos. Mas aquilo savam em termos estratégicos e imperiais, e os portugueses, cujos horizontes
que não poderia ser obtido por métodos pacíficos às vezes era obtido à força. eram menos amplos e mais mercantilistas.15

96
A cidade de Salvador da Bahia de To dos-o s-Santos, capital do Brasil, era o que se transformaria no século xvni, mas pela altura de 1600 suas lojas e seus
mais importante terminal do comércio transatlântico e alvo comum dos açanv armazéns formavam parte essencial da vida brasileira, de importância óbvia
barcadores europeus. Ao mesmo tempo, a Bahia era um entreposto essencial do numa colónia tão orientada para a exportação de produtos agrícolas. Não está
comércio costeiro. O açúcar da periférica Ilhéus geralmente chegava à Bahia, de claro se a comunidade mercantil tinha uma identidade coletiva naquele
onde era exportado para a Europa, enquanto a mandioca e alimentos do Rio de período, ou se desejava alcançar objetivos comuns. Certamente existiam distin-
Janeiro também eram artigos comuns nos embarcadouros de Salvador.16 ções entre varejistas e os agentes de grandes firmas de importação-exportação,
Miguel Dias de Santiago tomou nota de remessas de tecido, ferro e outras mer- mas devia haver uma comunidade de interesses capaz de permitir algum grau
cadorias europeias da Bahia para o Rio de Janeiro e o Espírito Santo.17 Salvador de cooperação entre esses elementos sociais díspares.20 As funções económicas
ficava efetivamente no eixo das rotas horizontais transatlânticas de comércio e e os laços com grupos comerciais na metrópole faziam dos comerciantes brasi-
do padrão vertical do intercâmbio comercial costeiro. leiros uma fonte potencial de conflito para a Relação, mas a oposição mercantil
Parte desse padrão comercial costeiro ligava a Bahia com a colónia espa- . ao tribunal permaneceu muda. Primeiro porque, apesar de muitos comercian-
nhola no rio da Prata. A União Ibérica criou novas oportunidades de negócio tes não simpatizarem com a interferência judicial em suas lucrativas atividades
entre o Brasil e as colónias hispano-americanas, e pela altura de 1584 navios de contrabando, reclamações estridentes serviriam apenas para chamar atenção
portugueses frequentavam Buenos Aires. A capacidade dos portugueses de para o comércio clandestino. E era fato que a Relação representava uma exten-
fornecer escravos negros representava irresistível atração para os habitantes das são do poder real, e talvez um aumento da proteção real da costa e do comércio
colónias espanholas, que esperavam assegurar a mão de obra necessária para as da colónia. Tal posição beneficiaria os setores comerciais da colónia. Os comer-
minas de Potosí e até manifestavam o desejo de dispensar a população indígena ciantes, portanto, tinham algo a ganhar e algo a perder com a chegada da
desse trabalho.18 Empreiteiros portugueses tomaram a si a responsabilidade de Relação, e não podiam se queixar abertamente das possíveis perdas.
suprir as necessidades de mão de obra dos hispano-americanos. Buenos Aires Salvador não só abrigava uma ativa comunidade mercantil, mas também
deu permissão para um limitado volume de comércio com o Brasil, mas, era o centro nervoso da administração do Brasil e a mais importante área
embora esse comércio legal fosse estritamente controlado, as possibilidades de urbana da jovem colónia. Como sede do governo, do bispado e, com o tempo,
comércio ilegal continuavam a existir. Entre 1606 e 1626, verificou-se um prós- da Relação, a cidade merecia o título de "cabeça do Brasil". A escolha de Salvador
pero contrabando entre o Brasil e Buenos Aires, que conduzia escravos negros como capital da colónia não tinha sido aleatória. Embora um cronista achasse
para o porto espanhol, enquanto a prata peruana encontrava meios de chegar que d. João m, o rei português, tinha escolhido a Bahia por causa da "fertilidade
ao Brasil.19 O comércio de contrabando evitava taxas e impostos nas duas pon- da terra, bons ares, maravilhosas águas e da bondade dos mantimentos dela",
tas, fraudando o Tesouro de ambas as Coroas. Os governantes Habsburgo de houve outras considerações.21
Espanha e Portugal tinham evidentemente enorme interesse em conter esse O proprietário original da capitania, Francisco Pereira Coutinho, fora
intercâmbio ilegal, no qual funcionários alfandegários e do Fisco estavam fre- incapaz de lidar com os abusos dos colonos contra os índios tupinambás ou
quentemente envolvidos. A supressão do comércio ilegal entre o Brasil e Buenos com os ataques retaliatórios decorrentes. Apesar de uma pequena povoação ter
Aires e de outras irregularidades contra o Tesouro foi, na verdade, uma das sido construída em Vila Velha, com dois engenhos, a pressão da hostilidade dos
tarefas que a Relação assumiu durante sua existência na Bahia. No Tribunal índios e as disputas de facções obrigaram Pereira Coutinho a buscar refugio em
Superior, um membro, o juiz da Coroa e Fazenda, era especificamente desig- Ilhéus. Enquanto tentavam voltar para a Bahia, Pereira Coutinho e seus compa-
nado para combater tais infrações. nheiros naufragaram e foram devorados pelos índios. Assim, depois do paga-
A comunidade mercantil do Brasil, concentrada nos portos do Recife, Rio mento aos herdeiros de Pereira Coutinho, a capitania voltou a pertencer à
de Janeiro e especialmente Salvador, ainda não era a poderosa força política em Coroa.22 Enquanto em Pernambuco os Albuquerque Coelho exerciam amplos
poderes como proprietários e no Rio de Janeiro o clã dos Correia de Sá reinava, porâneo, calculava que havia oitocentas famílias só na cidade, o que, mult ipii-
a Bahia, livre de proprietário, apresentava menos dificuldades de jurisdição cado por cinco, daria uma população urbana de 4 mil brancos. O padre Cardim
para a Coroa. Por isso, Tomé de Souza chegou em 1549 com instruções explíci- estimava em 2 mil o número de famílias da capitania, ou cerca de 10 mil bran-
tas para o estabelecimento de uma cidade na baía de Todos-os-Santos.23 Uma cos. O número de escravos e negros libertos ainda é impossível de avaliar, mas
pomba da paz foi escolhida como símbolo da cidade — escolha por demais àquela altura eles já pareciam ser um elemento numeroso e desordeiro da
imprópria, uma vez que a história da cidade se caracterizaria por dissensões sociedade. 27 A função de Salvador como.centro administrativo e religioso,
internas e ataques estrangeiros. entretanto, resultava numa maior proporção de brancos relativamente as
As opiniões contemporâneas sobre os méritos da localização da cidade outras áreas da capitania ou da colónia. Além disso, os membros da aristocracia
divergiam, pois Tomé de Souza estabeleceu a nova povoação não em Vila Velha, açucareira dos distritos próximos geralmente mantinham, residências na
a antiga colónia de Pereira Coutinho ; mas num lugar no topo de uma ladeira cidade. Tratava-se de um hábito ditado pela necessidade de administrar as
íngreme corn vista para a baía de Todos-os-Santos.24 A nova cidade, como suas remessas de navios e os arranjos comerciais e pelos costumes sociais. Como a
equivalentes portuguesas e brasileiras, era medieval na aparência. As ruas tor- ostentação de riqueza era aceitável para os ricos, aparecer na cidade para mui>-
tas, os becos estreitos e as muralhas de proteção lembravam as cidades-fortaíe- trar jóias, cavalos, escravos e roupas finas desempenhava uma função social.
zas de Portugal e, apesar de um rudimentar plano geométrico ter sido imposto, A falta de fontes demográficas adequadas torna qualquer análise da com-
o terreno irregular criou seu próprio desenho. No fim do século xvi, a praça posição populacional baiana muito frágil. Estudos baseados nos registros da
central continha os prédios do governo civil, o palácio do governador, a prefei- Inquisição de 1591 -3 indicam que o maior grupo de imigrantes portugueses no
tura e a cadeia, a alfândega e um armazém real. Os baianos coloniais tinham Brasil vinha do norte de Portugal, e que Lisboa e a província do Alentejo tam-
reputação de piedosos e igrejas e outros edifícios religiosos pontilhavam a bém forneciam números consideráveis.2* isso era também verdade para a Bahia,
cidade. Além da catedral, a Sé do Bispo do Brasil, a cidade também abrigava onde no entanto havia um grande contingente das ilhas atlânticas e uma por-
mosteiros de carmelitas, beneditinos, capuchinhos da Província de Santo centagem maior de brasileiros nativos que em Pernambuco. 24 Na Bahia, a pre-
António e a igreja e o hospital da Misericórdia, a irmandade laica mais impor-. dominância das citadas regiões era reforçada pela grande intensidade cio tráfego
tante do Brasil Os jesuítas também estavam presentes. A maior parte dos seus mercantil entre a Bahia» Lisboa, Porto e Viana do Castelo. Os portos do Algarve
esforços se concentrava, nessa época, na conversão dos índios, mas seu colégio — Faro, Tavira, Lagos — aparecem raramente nos livros de contabilidade con-
(escola secundária) na Bahia era, sem dúvida, a melhor instituição de ensino da temporâneos. 30 A prevalência demográfica de homens na população portu-
colónia. As ordens religiosas mantinham seus estabelecimentos com canaviais, guesa era especialmente marcante na Bahia, e muitos dos que se casavam em
fazendas e rebanhos nas áreas circunvizinhas. 25 Portugal vinham desacompanhados de suas mulheres. 31 O número de órfãs
v
O comércio, e não a religião, dominava a cidade baixa. As docas de enviadas pela Coroa para corrigir a situação era mínimo, muito embora algu-
Salvador, que ficavam no sopé do penhasco, eram o centro da vida marítima da mas das moças e prostitutas destinadas à índia fossem desviadas para o Brasil.32
capitania. A zona portuária era dominada por marinheiros, escravos e estivado- Muitos colonos, tanto homens como mulheres, eram degredados ou exilados
res c a área provavelmente fervilhava com a rnesrna atividade que existe hoje. que, por diversas razões, tinham sido mandados para o Brasil. Apesar de muitos
Por volta de 1609, Salvador ainda não era a grande e opulenta cidade que viria a desses exilados serem judeus convertidos que tinham voltado a adotar a antiga
ser no século xvm, mas destacava-se como o centro administrativo e o entre- fé, nem todos os degredados eram semitas errantes, e o Brasil continuou a ser,
posto marítimo da colónia.2* durante o século xvm, lugar de despejo de homens como Francisco Pereira, o
H difícil estimar o tamanho da população da capitania da Bahia nos pri- chantre de uma igreja em Valença que as cortes exilaram no Brasil durante
meiros anos do século xvu. Gabriel Soares de Sousa, o melhor cronista contem- cinco anos por certa "desordem ocorrida num convénio de freiras".33
É correto dizer que os colonos portugueses provinham das duas pontas do na África. Ele requereu um cargo na Bahia e foi atendido, porque, "embora fosse
espectro social, e vinham, predominantemente, das regiões de Portugal que UIn cristão-novo, havia se casado com uma cristã de velha cepa e demonstrara
sempre forneceram o maior contingente de imigrantes: Minho, Trás-os- desejo de ser assim considerado. Tanto ele quanto seu pai não mais se davam
-Montes, Estremadura e Alentejo.34 Como o pequeno número de europeus de com cristãos-novos e ambos eram homens muito honrados".40 A população em
outros países também presentes na população, a maioria dos imigrantes portu- eeral, entretanto, desprezava os cristãos-novos e olhava com desconfiança as
gueses no Brasil esperava encontrar oportunidades de avanço económico e honras que lhes eram concedidas. Um observador espanhol comentou que
ascensão social. Essa sociedade coalhada de oportunistas apresentava conside- "fidalguia é uma nobreza que em Portugal se estima muito quando cai sobre
ráveis problemas para as instituições da lei e da ordem. sangue limpo, mas pouco para essa gente".41 O antissemitismo no Brasil, espe-
Um elemento da população merece atenção especial, pois, apesar de portu- cialmente em tempos de adversidade, poderia atingir extremos particularmente
guês, constituía um grupo distinto — mas nem sempre fácil de distinguir — na ' virulentos, mas, para crédito de Portugal, numa época de intolerância religiosa,
comunidade. A conversão forçada de todos os judeus que viviam em Portugal havia sempre aqueles para quem os pecados dos pais não deveriam recair sobre
em 1497 tinha produzido número considerável de "cristãos-novos", muitos dos os filhos.42
quais não eram propriamente ardorosos em sua fé recém-adotada.35 Embora a Geralmente, os cristãos-novos eram, em termos oficiais, cidadãos de
Coroa de vez em quando tentasse limitar a emigração de cristãos-novos para o segunda classe, que inspiravam antipatia e desconfiança, e eram discriminados
Brasil e outros territórios ultramarinos, havia pouco entusiasmo nessas tentati- por seus compatriotas. Na Bahia, entretanto, constituíam importante elemento
vas. O Brasil, na verdade, tornou-se lugar favorito para o desterro dos apóstatas da sociedade, integrados na população e exercendo uma influência relativa-
cristãos-novos.36 A conexão com a Espanha depois de 1580 aumentou o número mente grande em certos setores da economia. Os cristãos-novos estavam liga-
de imigrantes cristãos-novos no Brasil, mas, depois da primeira visita do Santo dos à agroindústria canavieira, e registros da Inquisição revelam ainda sua
Ofício à colónia, em 1591-3, muitos desses judeus secretos fugiram para Buenos participação como proprietários de engenho, agricultores arrendatários e
Aires, e de lá para o Peru.37 Grande parte do comércio de contrabando entre o comerciantes. Bem relacionados com seus correligionários em Portugal,
Brasil e o rio da Prata estava nas mãos de cristãos-novos portugueses. Na Bahia, Holanda e nas cidades hanseáticas, os cristãos-novos brasileiros que eram
os cristãos-novos viviam bem integrados à população e à vida económica da criptojudeus participavam ativamente do comércio e da produção do açúcar. A
capitania, onde participavam não apenas dos aspectos comerciais, mas também sinagoga clandestina na Bahia estava situada, de fato, não na cidade de Salva-
dos aspectos agrícolas da produção de açúcar. dor, mas no distrito canavieiro de Matoim.43
A política portuguesa era discriminatória. Reservava o ingresso nas ordens Para os cristãos-novos na Bahia, e sobretudo para o grande setor mercantil
militares, a concessão de fidalguia e a maior parte dos cargos no governo para desse grupo, o estabelecimento da Relação deve ter sido pouco auspicioso.
cristãos-velhos, não maculados com "a raça de judeu, mouro ou mulato".33 Certamente, o controle do contrabando com Buenos Aires, que a Relação pode-
Esses mesmos preconceitos vigiam no Brasil; por exemplo, Francisco Lopes, ria pôr em execução, contava como desvantagem. Além disso, os magistrados
candidato ao cargo de ouvidor da Paraíba, foi pretendo por ser cristão-novo e a da Relação eram cristãos-velhos de antecedentes imaculados e nenhum vestígio
Câmara do Rio de Janeiro ilegalmente destituiu um ouvidor pela mesma de escândalo fazia supor que qualquer dos desembargadores pudesse ser judeu.
razão.39 Exceções a essa regra geral podiam ser abertas, porém, e não eram inco- Com efeito, em 1623, pensou-se em fazer da Relação, por causa do seu prestígio
muns. A mácula dos antecedentes judaicos podia ser ignorada em troca de ser- e da sua pureza religiosa, um possível conselho permanente da Inquisição.44
viços prestados, especialmente aqueles de natureza financeira ou militar. Um Esses representantes magistráticos de uma política real discriminatória, por-
bom exemplo baiano de como o "defeito" podia ser ignorado é o caso de Manuel tanto, significavam, para os cristãos-novos da Bahia, controles mais estritos e
Serrão Botelho, filho de Lope Botelho, cristão-novo que servira com d. Sebastião condições mais difíceis. O papel da Relação no exame da coleta dos tributos

103
MAPA 4 A BAÍA DE TODOS-OS-SANTOS E SEU RECÔNCAVO século xvn, 63 engenhos espalhavam-se pelo Recôncavo c pelas ilhas da baia. Km
boa parte, a utilização do solo era determinada por seu tipo, sua fertilidade c MUI
localização. As melhores terras eram reservadas à cana, a cultura mais lucrativa de
todas, depois a outros produtos de exportação — como gengibre, algodão, e
s* Cachoeira
tabaco. As terras marginais eram dedicadas a culturas dc subsistência, ás pasta-
gens, a madeira para lenha. Mas a cana-de-açúcar era uma cultura ciumenta, e
3? <3 ,- PITANGA
$ \\ í H .t São Francisco do Gonde onde possível os colonos plantavam os caules verdes.
<R \\Si D
O açúcar dominava a região e a maior parte das outras atividades econòmi
:
cãs estava, de alguma forma, ligada à sua produção.46 A criação de gado, por
exemplo, desenvolveu-se a partir da agroindústria canavieira. O gaclo e os cava-
MV10IM los trazidos originariamente de Cabo Verde multiplicaram-se rapidamente na
Bahia, mas as terras marginais destinadas a pastagens no Recôncavo não com-
portavam um rebanho compatível com as necessidades dos engenhos. Mesmo
um engenho movido a água, como Sergipe do Conde, tinha 34 bois trabalhando
PARTPF
em 1591; no século xvu calculava-se que um engenho movido a boi precisava de
no mínimo doze a catorze juntas de bois para limpar, cultivar e colher, e três ou
quatro juntas de seis a oito bois para tocar o engenho.4' Cavalos, por sua vez,
tinham utilidade militar além de agrícola. Todos os homens ricos da colónia
aspiravam a um posto na cavalaria militar e os cavalos desempenhavam uma
função social, como símbolo de status. Os cavalos brasileiros, com eteito, torna-
ram-se artigo de exportação para Angola, onde tropas montadas se mostraram
eficazes contra os africanos. 48 A necessidade cada vez maior de gado e de cavalos
levou à expansão da produção de gado para novas áreas, e a região ao norte de
aplicados aos cristãos-novos em 1605 em troca de um perdão geral foi mais Salvador, em direção ao rio São Francisco, tornou-se um centro de criação cie
uma razão para o seu desagrado com o tribunal. Mas a posição precária dos gado. Essa região, Sergipe d'El Rey, colonizada por vaqueiros baianos, era um
cristãos-novos na sociedade e o desejo de passarem despercebidos silenciavam apêndice económico dos engenhos de açúcar do Recôncavo.19
sua oposição à Relação. No entanto, a bem da verdade, deve-se dizer que uma Os fazendeiros adquiriam terras no Recôncavo por meio de concessões
das mais ponderadas, apesar de críticas, descrições da Relação foi redigida por chamadas de sesmarias, que delimitavam o pedaço de terra e garantiam direitos
um crislão-novo, Ambrósio Fernandes Brandão.45 perpétuos sobre ele. A Coroa exigia do sesmeiro que construísse uma casa for-
Muito embora fosse o ponto focal da capitania e escoadouro urbano de uma tificada e fornecesse armas para a defesa dos moradores de sua área. O tamanho
sociedade rural, a cidade de Salvador dependia economicamente dos campos das sesmarias variava, mas a estipulação de que ninguém deveria receber mais
circunvizinhos. Envolvendo a baía de Todos-os-Santos havia terras ricas em solo terras do que poderia efetivamente usar era, quase sempre, contornada.
favorável ao cultivo da cana-de-açúcar. A área em torno da baía, o Recôncavo, Exigia-se dos sesmeiros que vivessem em suas propriedades ou na cidade de
estendia-se de Salvador a Tinharé em um grande crescente, c essa região garantia Salvador, e a terra não poderia ser vendida pelo prazo de três anos a partir da
o sustento da maior parte da população da capitania. Nas primeiras décadas do data da concessão.50 Na prática, entretanto, todos esses regulamentos costuma-

104
vam ser ignorados. As sesmarias, a quantidade de terra disponível, a escassez Os escravos forneciam a mão de obra das fazendas de cana-de-açúcar, e
original da população e as técnicas agrícolas da produção do açúcar contribuí- adquiri-los representava grande despesa. De início, os índios cativos forneciam
ram para a formação de latifúndios. Esse sistema teve importantes implicações braços para as plantações, e na verdade continuaram a ser usados durante todo
sociais e políticas, pois a aristocracia canavieira exercia um poder relativamente o século xvii, mas os escravos negros importados da África ganhavam cada vez
ilimitado sobre arrendatários, empregados e escravos. As relações pessoais nas mais importância como mão de obra nos engenhos. Em 1600, uma escrava
plantações de cana caracterizavam toda a sociedade brasileira daquele período. negra era vendida na Bahia por cerca de 30 mil-réis e um escravo negro, por 40
No Recôncavo, o corolário da terra era a água. A irrigação era desnecessária mil ou 45 mil-réis.53 Portanto, um engenho com 150 escravos comprometia
no denso e rico solo de massapé, mas tanto o gado como os seres humanos preci- cerca de seis contos de réis com sua força de trabalho. A união com a Espanha
savam de água doce. Muitos engenhos localiza vam-se ao longo de rios que desa- acabou provocando uma escassez de escravos negros na Bahia e os preços subi-
guavam na baía — o Paraguaçu, o Jaguaribe e o Sergipe — a fim de que a força ram. Contratadores portugueses importavam cargas de africanos para a
hidráulica pudesse ser usada para mover os engenhos e facilitar as remessas para a América Espanhola, onde alcançavam ótimos preços. Com isso, o número de
cidade. O papel da baía como meio interno de comunicação era vital. O açúcar era escravos disponíveis para o Brasil caiu e, consequentemente, os preços aumen-
despachado para a Europa nos embarcadouros de Salvador, e os engenhos do taram.54 A falta de negros no Brasil levou à volta do índio como trabalhador
Recôncavo transportavam seus produtos para a cidade em pequenos barcos. Em cativo e estimulou novos ataques às populações indígenas, especialmente na
sua descrição do Recôncavo, Gabriel Soares de Sousa calculou que havia mais de área de São Paulo. Os infelizes índios que caíam nas mãos dos paulistas eram
quatrocentos barcos desse tipo e que nenhum engenho tinha menos de quatro. A vendidos a fazendeiros do Recôncavo e de Pernambuco.
baía oferecia não apenas um meio de comunicação fácil e barato, mas também A doença dizimava os índios e negros empregados na produção do açúcar.
sustento. Os peixes eram produto básico na dieta de portugueses, índios e negros, "O meneio dos engenhos neste estado", escreveu Bernardo Ribeiro, feitor do
de modo que os pescadores eram empregados regulares dos engenhos. Praticava-se engenho de Sergipe do Conde, "é muito árduo e caro, pois depende dos escravos
também a caça à baleia na baía, como monopólio real alugado para indivíduos. que custam muito dinheiro. O trabalho é pesado e muitos deles morrem".55
Baseada na ilha de ítaparica, a indústria baleeira fornecia carne e óleo; a carne de Certamente o trabalho excessivo e os maus-tratos contribuíam para o índice de
baleia era artigo comum na dieta dos escravos e o óleo era usado para acender os mortalidade dos escravos, mas o contato com doenças europeias estranhas,
lampiões da colónia. Pelo menos um magistrado da Relação se sentiu tentado a para as quais os índios e os negros não tinham resistência natural, era ainda
investir na lucrativa indústria da pesca da baleia. mais letal. Epidemias podiam desfalcar, e de fato desfalcaram, a população
O estabelecimento de um engenho era dispendioso. A construção de edifica- escrava, como ocorreu em Ilhéus em 1582 e em Pernambuco em 1617.0 resul-
ções, o maquinário e os meios de transporte, assim como a compra e a manuten- tado era geralmente um declínio na produção do açúcar na área atingida.56
ção de mão de obra, exigiam grandes reservas de capital51 Os proprietários de Se, no entanto, um senhor de engenho conseguisse sobreviver aos perigos
engenhos continuaram, ao longo de todo o século xvn, a depender da Europa do fogo, das enchentes, da seca, do roubo, dos danos causados por animais, da
para a aquisição de mercadorias, desde o cobre e o azeite de oliva até o ubíquo morte e da fuga de escravos, dos ataques dos índios e dos credores impacientes,
bacalhau, todos eles artigos caros. Um grande engenho como o de Sergipe do havia prestígio, poder e fortuna a ganhar como barão do açúcar. Os fazendeiros
Conde gastava de 60 mil a 70 mil-réis por ano só com peixe, para não falar em sal, ricos formavam uma aristocracia rural, unida por laços de parentesco e interes-
carne e outros alimentos.52 Um artigo tão simples como a lenha também podia ses comuns.57 Pela riqueza, pelo status e pela influência, os parentes dos fazen-
custar caro, pois para processar dez medidas de cana-de-açúcar o engenho preci- deiros dominavam as capitanias dedicadas ao açúcar. Para proteger e promover
sava de quinze medidas de lenha e, à medida que o século avançava e as florestas seus interesses, os senhores de engenho buscavam e controlavam cargos muni-
eram destruídas, esse recurso tornou-se cada vez mais difícil de ser encontrado. cipais nas cidades costeiras. Na Bahia, quase todas as instituições urbanas eram

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dominadas pela elite agrícola. A Câmara municipal de Salvador era, nesse agroindústria açucareira era um processo complicado, que requeria habilidade^
período, controlada pelos fazendeiros, então chamados lavradores de cana, seus e técnicas especializadas, grande parte das quais era suprida por trabalhadores
arrendatários e dependentes.58 Em instituições como a Misericórdia e ordens assalariados. Um observador notou, nos anos de 1590, que o grande engenho
religiosas exclusivas, como a Terceira Ordem dos Franciscanos, os lavradores de de Sergipe do Conde empregava mais de vinte brancos que viviam à custa do
cana também tinham grande influência. Ele não relutavam, tampouco, em engenho, o que também ocorria em outros engenhos do mesmo tamanho r>>
servir em posições do governo real. Por exemplo, Pedro Viegas Giraldes, dono Fises trabalhadores livres — alguns eram claramente mestiços ou mulatos
de uma fazenda cm Pitanga, foi provedor-mor da Bahia.39 Os exemplos pode- serviam como tanoeiros, calafates, engradadores, vaqueiros e pescadores, além
riam ser facilmente multiplicados. O Recôncavo dominava a capitania, e a cie mecânicos e capatazes. Um capataz podia ganhar até 50 mil-rcis por .mo, na
aristocracia do açúcar com seus satélites dominava o Recôncavo. época um valor substancial.00 O mestre de açúcar, empregado encarregado dn
v
A riqueza do solo e a vastidão aparentemente infinita da terra levaram os dircção do plantio e do processamento, tinha tanta importância que eiVrnuito
fazendeiros brasileiros a prestar pouca atenção à rotatividade das colheitas, à mimado" pelo senhor de engenho e podia ganhar até 100 mil-réis por ano, mais
l
fertilização e à procura de tecnologias de produção melhores e mais baratas. alojamento e comida.67 Diferentemente dos lavradores, os assalariados pare-
Pelo fim do século xvn essa negligência tinha contribuído para o declínio da ciam ter poucas oportunidades de conquistar um cargo público. Dentro da
indústria açucareira do Brasil. Durante a primeira metade do século, entre- estrutura socioeconômica básica de senhores e escravos, portanto, existiam
tanto, os portugueses eram reconhecidamente os senhores dessa atividade, c outros elementos importantes da sociedade que procuravam melhorar sua
sua proficiência era notada pelos espanhóis que os empregavam e pelos ingleses posição por intermédio dos canais judiciais e políticos do governo. Determinar
que os copiavam.60 De 1580a 1630, a aristocracia açucareira viveu um tempo de ate que ponto a Relação era receptiva aos desejos desses vários grupos é uma
pujança, com o açúcar brasileiro dominando o mercado mundial numa tal forma de avaliar seu impacto no Brasil.
dimensão que a ilha da Madeira, também produtora de açúcar, implorava pela A aristocracia do açúcar era, sern dúvida, o elemento mais importante da
importação de açúcar brasileiro só para atrair navios, o que permitiria que o sociedade, por isso estava em posição de sofrer grandes perdas com a perturba-
açúcar da ilha fosse vendido "à sombra dos do Brasil".61 ção nos padrões sociopolíticos que a Relação causava. Antes, a distância e as
Embora a aristocracia do açúcar dominasse o Recôncavo, ela e seus escra- dificuldades de recorrer a Portugal punham os ricos do Brasil em situação pri-
vos não eram os únicos habitantes da região. O grande volume de capital neces- vilegiada. Laços de sangue e amizade mantinham muitos casos fora dos tribu-
sário para estabelecer um engenho obrigava muitos brancos livres a plantar nais, e aqueles que recorriam a Portugal geralmente acompanhavam seus apelos
cana para determinado engenho.62 Um grande engenho podia processar a cana de um engradado de açúcar, para acelerar as rodas da justiça e adoçar a disposi-
de até vinte lavradores. Uma percentagem fixa do açúcar produzido era divi- ção de magistrados venais. Quem não tivesse açúcar para mandar, ou parentes
dida entre o lavrador e o engenho; geralmente, um terço ou um quinto ficava bem situados em Portugal para defender seus interesses, achava a justiça lenta e
com o lavrador e o restante, com o engenho.63 Assim, os meeiros formavam cara.68 A presença do Tribunal Superior na Bahia, portanto, representava para
uma camada social numericamente importante, cujos interesses por vezes os habitantes mais pobres da colónia oportunidades de reparações judiciais que
divergiam daqueles da aristocracia canavieira. Não há dúvida de que existiam antes lhes eram vedadas. Ao mesmo tempo, a Relação significava uma ameaça à
atritos entre os barões do açúcar e os meeiros, mas a possibilidade, para os posição dominante da aristocracia açucareira.
lavradores, de ter escravos, acumular capital, comprar terras e ocupar cargos Apesar disso, foram os fazendeiros e os meeiros os que mais ficaram satis-
públicos talvez tenha servido para conter qualquer demonstração de franca íeitos com a chegada da Relação à Bahia. Sua posição, como expressa pela
hostilidade entre eles c os grandes proprietários.64 Câmara municipal de Salvador, era a de elogiar o Tribunal Superior como
Havia, além disso, outro grupo que ajudava na produção do-açúcar. A protetor da "vida, fazenda, honra e liberdade", contra as espoliações de governa

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dores venais e magistrados vigaristas, que tinham conspirado para subverter a político. Talvez a elite canavieira esperasse que certos mecanismos sociais fun-
justiça. A Câmara, na realidade, desejava "beijar as reais mãos", pelo favor único cionassem como limitadores da independência dos magistrados e tornassem a
de estabelecer a Relação na Bahia. O elogio dos vereadores tornou-se hiperbó- Relação receptiva aos interesses específicos do setor açucareiro. Foi o que veio
lico quando eles aplaudiram a Relação como obra de Deus, que dava ao rei, de fato a ocorrer no fim do século xvii, mas, antes que tais mecanismos pudes-
como conservador do Brasil, glória igual à que dera a seus ancestrais como sem operar plenamente, uma crise iria expor uma falha nos cálculos dos fazen-
fundadores da colónia.69 Embora a proteção contra excessos administrativos deiros. Os barões do açúcar tinham ignorado o fato de que a Relação represen-
tenha contribuído para a recepção favorável do Recôncavo à Relação, parece ter tava os interesses da Coroa, e não os da aristocracia local; apesar de o tribunal
havido outros motivos relacionados à natureza comercial do Brasil colonial. poder apoiar os fazendeiros contra os comerciantes, não havia motivos para
O nexo das relações entre comerciantes e fazendeiros estava na natureza e acreditar que, num conflito entre os primeiros e a Coroa, a Relação hesitasse em
nas exigências da produção do açúcar — e também a causa dos conflitos entre apoiar a Coroa. Esse conflito se apresentou na forma da controvérsia sobre a
eles. A dependência do trabalho escravo impunha um extraordinário fardo escravização dos índios, imediatamente depois da chegada da Relação. Dentro
financeiro ao setor açucareiro. Tanto os donos de engenho como os meeiros de pouco tempo seria pequeno o número de fazendeiros que ainda queriam
dependiam, cada vez mais, da constante importação de escravos africanos para "beijar as mãos do rei" por ele ter mandado a Relação para o Brasil.
o extenuante trabalho do cultivo. Como já observado, a importação de escravos
africanos implicava consideráveis despesas. As condições de trabalho e a susce-
tibilidade dos africanos a doenças no novo ambiente de enfermidades constan-
temente desfalcavam a força de trabalho e criavam uma perene necessidade de
mais escravos da África. Importação, doenças, excesso de trabalho e mais
importação constituíam o círculo fechado da escravidão brasileira. Além disso,
enquanto se expandia, no começo do século xvn, a produção de açúcar gerava
uma necessidade cada vez maior de mão de obra. Para fazer as reposições neces-
sárias, os senhores de engenho e os meeiros procuravam as casas comerciais de
Salvador em busca de empréstimos ou de crédito.70 Os comerciantes forneciam
escravos ou outros artigos, contra a garantia das colheitas vindouras da cana-
-de-açúcar. Os comerciantes estavam, então — pelo menos segundo os fazen-
deiros —, lucrando "cruelmente" com os empréstimos e hipotecas e forçando o
pagamento a taxas exorbitantes.
Diante dessa situação, o setor açucareiro tinha implorado à Coroa uma
moratória de três anos para pagamento das dívidas e a criação de um sistema
regulado de pagamento, com valor fixo sobre o preço do açúcar, a fim de que os
comerciantes deixassem de manipular o mercado e receber o açúcar a preços
reduzidos. Os fazendeiros e seus dependentes tinham pedido a intercessão real
em seu benefício, e para eles a Relação era a resposta da Coroa às suas dificulda-
des. Por conseguinte, estavam curiosamente dispostos, e até ansiosos, a apoiar
uma instituição que tinha o potencial de enfraquecer seu domínio social e

no
6. Juizes, jesuítas e índios índios, exccto em certas circunstâncias, tinham sido promulgada* ia cm l S I 2.
Talvez uma política ainda mais consistente dos monarcas Habsburgo tosse a
constante busca de metais preciosos, fator quintessencial de uma abordagem
bulionista da economia nacional. As condições no Brasil faziam da busca d u
novas fontes de riqueza mineral e da manutenção da liberdade indígena objeti-
vos contraditórios, mas a primeira década do século XVH testemunhou conside-
rável atividade em ambas as esferas. Talvez não Lenha sido por ac.iso oiu- a che-
gada da Relação em 1609 coincidiu com essa atividade.
Boa parte do cenário do conflito estava além das povoações costeii.is.
Estendendo-se para o oeste, rumo ao desconhecido interior do continente, o
sertão, como os portugueses sempre chamaram essa região, era ainda uma terra
de índios selvagens e de infundados rumores sobre minas de ouro e montanhas
de esmeralda. O exemplo do Peru espanhol, onde a montanha de prata de
Potosí tinha sido descoberta em 1545, não passara despercebido pelos portu-
gueses, que estavam convencidos cie que riqueza similar poderia ser encontrada
em sua metade do continente. A lendária riqueza do sertão arrastava homens
Hei por bem e mando que todos sejam postos em sua liberdade; e que aventureiros para o interior. Com os exemplos de Potosí e das minas leste-afri-
se tirem logo do poder de quaisquer pessoas em cujo poder estiverem. canas de Monomotapa em mente, expedições portuguesas penetraram o conti-
Lei de 30 de julho de 1609 nente desconhecido. Colonos na Bahia, no Espírito Santo e especialmente em
São Paulo, onde a proximidade do Peru representava um impulso adicional,
Um ano depois da chegada da Relação ao Brasil, surgiu uma situação que começaram em meados do século xvi sua procura por riqueza no imcrior.1 Ato
ameaçava a posição dos magistrados e a autoridade da Coroa. A crise girava cm o fim do século xvn, a busca foi inútil, mas durante o período de 1580 a 1640 o
torno da complexa questão da escravidão indígena, um problema que envolvia movimento para dentro do sertão adquiriu nova importância. A conexão espa-
os interesses dos colonos, o impulso missionário dos jesuítas e as bases morais nhola criou novas oportunidades.
ou teológicas do domínio português. Os índios e suas relações com o Estado e a Colonos no Brasil esperavam lucrar com o interesse da Coroa pela desco-
sociedade coloniais eram um problema persistente no Brasil, e em 1609 confli- berta de novas minas. A história de Gabriel Soares de Sousa é um bom exemplo.
tos ligados à escravidão indígena expuseram a inter-relação entre o litoral e o Ele passara devêsseis anos no Brasil, tornando-se um rico senhor de engenho
interior, os colonos e a Coroa, a mão de obra e a riqueza mineral. Parece evi- baiano. Fascinado com as histórias sobre as fabulosas riquezas cio sertão, foi
dente que a chegada da Relação estava intimamente ligada à política indigenista diretamente a Madri pleitear privilégios e direitos sobre as minas que "estava
dos Habsburgo. prestes a descobrir". Enquanto Lentava induzir o bom encaminhamento dos
O Brasil representava para os governantes Habsburgo de Espanha e próprios interesses, Soares de Sousa redigiu o Tratado como peça promocional
Portugal a dificuldade de conciliar dois objetivos potencialmente conflitantes. destinada a conquistar o apoio real para sua expedição ao sertão do rio São
De um lado, desde meados do século xvi os reis de Espanha tinham tentado Francisco. Pela riqueza de detalhes e precisão, essa obra é amplamente conside-
limitar o uso e o abuso, por parte dos colonos, da população indígena da rada como a mais valiosa descrição do Brasil do século xvi. Em 1591, a Coroa
América,., Com esse fim, leis que proibiam expressamente a escravização de finalmente concedeu amplos poderes a Sousa, fazendo-o governador e capitão-
-geral das Minas do São Francisco, com autoridade para designar funcionários, Vicente, e que essas capitanias fossem separadas do resto do Brasil. Também
usar a mão de obra de presos e tomar índios das aldeias jesuíticas para utilizar propôs que um tribunal separado fosse estabelecido nas capitanias meridionais,
nas minas. A expedição foi um fracasso total. Gabriel Soares morreu no sertão com as funções de Tribunal Superior. Essa proposta, se atendida, teria tornado
e seus ossos foram finalmente sepultados em Salvador, sob uma lápide que dizia aqueles territórios totalmente independentes da Bahia. Os conselhos de
simplesmente: "Aqui jaz um pecador".2 governo, tanto na Espanha como em Portugal, rejeitaram a ideia da separação
Apesar de o empreendimento de Soares de Sousa ter fracassado, nem a judicial das capitanias meridionais e do estabelecimento de um Tribunal
Coroa nem os portugueses desistiram de buscar as minas. O exemplo dele tinha Superior, mas concordaram em que a área deveria ter um ouvidor-geral sepa-
mostrado que amplas concessões poderiam ser obtidas da Coroa com a simples rado, embora os recursos de suas decisões tivessem de ser submetidos à Relação
promessa de descobrir minas. Outros não tardaram a seguir seus passos. Luís da Bahia.
Mendes de Vasconcellos, governador de Angola, queria abrir minas em sua Apesar de dispor de um funcionário executivo independente, o novo
colónia e requereu à Coroa os mesmos privilégios concedidos a Gabriel Soares governo das capitanias do Sul continuava judicialmente sujeito à Relação da
de Sousa, "natural do Brasil e pessoa de qualidade bem diferente [inferior] "3 Bahia, que tinha o poder de fiscalizar procedimentos e o desempenho da cha-
Mais importante, entretanto, era que o governador do Brasil ficara muito mada Repartição do Sul. A Relação da Bahia tornou-se, na prática, o único
interessado na expedição de Soares de Sousa e na exploração das riquezas controle administrativo que o Estado do Brasil mantinha sobre essas capitanias,
minerais da colónia. Em 1598, Francisco de Sousa partiu da Bahia e seguiu oficialmente separadas em 1608. Essa dependência do judiciário para manter as
rumo ao sul, de navio, acompanhado de dois especialistas alemães em minera- linhas de controle administrativo tornou-se característica constante do governo
ção. Apesar de ter parado no Espírito Santo para lançar Diogo Martins Cão à colonial brasileiro. Pela altura do século xvm, os vice-reis geralmente tinham
busca de pedras preciosas, seus verdadeiros interesses estavam mais ao sul, nas pouca autoridade em áreas subordinadas, e viam sua própria liberdade de
possibilidades da mineração perto de São Paulo. Em 1602, enquanto ainda movimento circunscrita por lei.6 A magistratura real mantinha sua organização
inspecionava a região ao redor da vila, Francisco de Sousa recebeu a notícia de hierárquica, suas linhas de comunicação e sua autoridade e, muito embora a
sua substituição pelo novo governador, Diogo Botelho. Voltando a Portugal, qualidade do sistema judicial diminuísse em áreas remotas, ela geralmente
Francisco de Sousa tentou obter privilégios que lhe permitissem explorar as fornecia as ataduras administrativas que preservavam a estrutura imperial.
minas do sul do Brasil. Ao mesmo tempo, outros no Brasil tentavam extrair Talvez parte do êxito de Francisco de Sousa em alcançar seus objetivos
benefícios dessas minas de pequena importância.4 tenha resultado da considerável ênfase que ele deu ao uso de espanhóis, da
Em março de 1607, os conselhos de governo se dispuseram a ouvir os pla- experiência espanhola e de formas espanholas na exploração das minas brasi-
nos de Francisco de Sousa para as minas do sul da colónia.5 Seu êxito em conse- leiras. Ele propôs que se empregassem homens das minas de ouro do Chile e das
guir apoio real refletia não apenas o interesse espanhol nas novas fontes de minas de prata do Peru, um especialista em pérolas da ilha de Margarita e um
riqueza mineral, mas também a quantidade de poderes administrativos e judi- especialista em mineração de ferro de Vizcaya para ajudar na extração de rique-
ciais que a Coroa estava disposta a ceder para assegurá-las. Essa disposição teve zas da repartição administrativa recém-criada. Francisco de Sousa queria que
impactos nas atribuições da Relação na Bahia, e o plano de Francisco de Sousa as leis aplicáveis às minas em sua área fossem aquelas instituídas no Peru pelo
acabou por resultar numa divisão administrativa do Brasil. vice-rei Francisco de Toledo (1567-81), e que a estrutura tributária fosse similar
Como o governador de Angola, Francisco de Sousa solicitou os privilégios à que vigorava na Nova Espanha.7 Para a manutenção e exploração da área, o
que tinham sido concedidos a Gabriel Soares de Sousa. Além disso, para evitar governador Sousa pediu ordem para mandar três navios por ano a Buenos
um conflito jurisdicional e administrativo, sugeriu que ele fosse designado Aires com a missão de buscar trigo e lhamas (carneiros de carga] "para subir as
governador das capitanias meridionais de Espírito Santo, Rio de Janeiro e São montanhas de ouro e prata".8 A petição de Francisco de Sousa revela algum

114 115
conhecimento das realidades hispano-americanas, e o empenho em criar situa- povoação permanente quase impossível no sertão. A fronteira estabelecida
ções parecidas no Brasil apelando para vários interesses dos Habsburgo. Na estava, de fato, fechada.
verdade, os portugueses no Brasil não se recusariam a atiçar esses interesses As relações entre os portugueses e os índios ainda eram u m problema
para alcançar objetivos contrários à política real já estabelecida. essencial, com ramificações morais, teológicas, políticas e económicas, nos
A política explícita dos Habsburgo espanhóis dispunha que os índios do primeiros anos do século xvii.12 Elas se tornaram o primeiro grande problema
Novo Mundo eram homens livres e não deveriam ser injustamente escraviza- com o qual a Relação da Rabia teve de lidar. A escravização dos índios no Brasil
dos. O desejo de obter mão de obra indígena, entretanto, era forte entre os viera lentamente, à medida que o sistema original de escambo se atrofiava e as
colonos no Brasil. Francisco de Sousa defendeu o uso da mão de obra indígena necessidades de mão de obra da lavoura canavieira se intensificavam. Mas a
nas minas do sul do Brasil, de acordo com as leis do Peru. Mais ou menos na escravização de homens livres, por mais selvagens que fossem para os padrões
mesma época, dois baianos, Domingo de Araújo e Belchior Dias Moreira, soli-' europeus, envolvia um problema moral, e em 1570 d. Sebastião promulgou a
citaram direitos similares para explorar minas no vale do rio São Francisco. Em primeira lei portuguesa destinada a regulamentar as relações entre portugueses
resposta, o Conselho de Portugal observou que as expedições de Gabriel Soares e índios. Essa lei proibia a captura e a escravização de índios, salvo quando
de Sousa e outros para descobrir minas tinham resultado em nada mais que tornados cm "guerra justa".13 A lei foi reforçada em 1574, quando o governador
tentativas de trazer escravos índios do sertão, e que esses dois requerentes eram do Norte, Luís de Brito de Almeida, e o governador do Sul, António de Salema,
homem ricos, que poderiam lucrar tanto trazendo índios como descobrindo se encontraram na Bahia e concordaram em aplicar a política indígena real.14
minas. Quando Francisco de Sousa submeteu pedido semelhante, Filipe m Os jesuítas consistentemente defenderam a causa da liberdade dos índios e
anotou, de próprio punho, à margem da Consulta: "Vai muito claro que estão se opuseram à escravização, política que lhes valeu a inimizade de muitos colo-
excluídas toda força e violência" para trazer índios. Claramente, a Coroa tentava nos. Membros da Companhia de Jesus formavam missões no litoral e perto de
conciliar os dois objetivos, ou pelo menos aliviar a consciência.9 Era óbvio que áreas povoadas, esperando, com a instrução constante e a organização comuni-
alguns portugueses no Brasil esperavam que a cobiça dos Habsburgo pela tária, doutrinar seus protegidos. Em 1600, havia, pelos cálculos dos jesuítas,
riqueza mineral pudesse ser usada para contornar sua política indigenista. 50 mil índios reunidos em 150 aldeias, quatro delas localizadas perto da cidade
A busca cias minas não estava, portanto, inteiramente divorciada de outra da Bahia.15 Os jesuítas afirmavam que, convertendo esses pagãos ao catolicismo,
questão muito mais complexa — a liberdade dos índios. O sertão era não ape- seu controle sobre os índios beneficiava a consciência real, ao mesmo tempo
nas o reino da lenda, mas também o domínio das tribos indígenas selvagens, que fortalecia a estrutura defensiva da colónia fornecendo uma força auxiliar
que continuavam a representar uma ameaça às regiões povoadas e que, ainda de arqueiros indígenas, a ser usada contra invasores estrangeiros, índios hostis
nos anos de 1670, atacavam as fazendas do Recôncavo.10 Na região da Bahia, as e escravos rebeldes. Os colonos que defendiam o controle laico dos índios fala-
tribos estavam em processo de migração bem antes da chegada dos portugue vam do efeito civilizador de forçar os selvagens a viver entre os portugueses, e
sés, e as guerras constantes entre tribos e ramos da mesma tribo causavam também enfatizavam o argumento da utilidade defensiva, de tão forte apelo
contínuos deslocamentos. A chegada dos portugueses, entretanto, expulsando para os reis espanhóis.16
os tupinambás do Recôncavo para o sertão, intensificara os movimentos A mão de obra, no entanto, era a chave da questão. Mesmo os jesuítas, cuja
migratórios e militares dos índios. 11 O número e a hostilidade dos índios no preocupação básica era espiritual, ressaltavam que as aldeias forneciam reservas
mato baiano — e o mesmo se aplicava ao resto do Brasil — detiveram a expan- de trabalhadores livres, que poderiam ser usados pelos colonos "para beneficiar
são da área povoada e, apesar das ocasionais colunas volantes de missionários, as fazendas e os engenhos dos portugueses".17 Os fazendeiros baianos não eram
exploradores, prospectores de metais e caçadores de escravos que se aventura- avessos ao uso da mão de obra livre dos índios contratados nas aldeias jesuítas
vam aleita do litoral, os perigos da natureza e os índios hostis tornavam a ou em povoações indígenas não supervisionadas, porque isso não implicava

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investimento de capital a longo prazo, nem os perigos e as responsabilidades da í Essas leis deveriam deixar claro para os colonos brasileiros que a política
propriedade. Alguns deles, como Gaspar da Cunha, capataz do engenho de j dos Habsburgo relativamente à liberdade dos índios no Brasil seguiria de perto
Sergipe do Conde, achavam que "os negros [...] não são tão necessários e pro- ou mesmo reproduziria as políticas aplicadas na América Espanhola. Ali, a
veitosos nela como os índios desta terra"; ele queria missões perto do engenho Coroa de há muito transformara a liberdade dos índios em lei, abandonara a
para fornecer trabalhadores e proteção.18 A localização das aldeias e missões concessão de grupos de índios como mão de obra ou tributo a colonos indivi-
tornou-se, portanto, outro aspecto do problema; enquanto os colonos defen- duais (sistema conhecido como encomienda) e adotara o repartimiento, um
diam a ideia de que elas deveriam ficar onde fossem mais convenientes, os tipo de trabalho forçado mas pago. A encomienda chegara ao apogeu nos anos
jesuítas argumentavam contra a ruptura dos padrões existentes de assenta- de 1540 e, embora prosseguisse até o século xvii (em alguns lugares por mais
mento indígena. Os produtores de açúcar não se puseram desde logo a eliminar tempo ainda), a Coroa deixara bem claro que por razões políticas, morais e
as aldeias comunais na periferia de suas plantações, já que elas eram uma even- demográficas queria que essa instituição desaparecesse.22 Apesar disso, ao que
tual fonte de mão de obra livre, mas posteriormente a experiência mostrou que tudo indica o governador Diogo Botelho tinha em mente a encomienda em
se tratava de um arranjo indesejável, visto que, em última análise, eram os 1605, quando pediu para os índios no Brasil serem controlados pelo mesmo
jesuítas que detinham o controle dessa mão de obra. Os fazendeiros não davam - sistema em vigor nas índias Espanholas, e que uma cópia das leis pertinentes
aos índios livres um tratamento muito diferente daquele dispensado aos escra- lhe fosse enviada o mais rápido possível. A encomienda tornou-se um objetivo
vos, e as crescentes objeções dos jesuítas lhes impunham maiores limitações. intensamente buscado, mas mal compreendido, pelos colonos no Brasil. Tinha
Os maus-tratos de índios e o uso indevido da cláusula da "guerra justa" ardorosos defensores em homens como Bento Maciel Parente, experimentado
como meio de contornar a lei para escravizá-los exigiram nova ação real contra combatente nas lutas contra os índios e soldado no Maranhão, que escreveu
os colonos em 1595.19 Àquela altura, o Brasil estava sob controle dos Habsburgo algumas memórias pedindo explicitamente o estabelecimento da encomienda
e Filipe ii já conhecia bem o problema das relações entre colonos e índios, por- no Brasil.23
que a questão vinha sendo calorosamente debatida na América Espanhola A ideia nunca morreu e prosperou especialmente na região amazônica,
havia quase um século. Ali, apesar de violações ocasionais, a Coroa interviera onde em certo sentido produziu amargos frutos no Sistema do Diretório, esta-
inequivocamente a favor da liberdade dos índios. Ao formular a lei de 1595, belecido no fim do século xvm, e em São Paulo, onde o controle laico sobre os
baseou-se em opiniões do padre jesuíta Gaspar Beliarte, dos antigos ouvidores- índios foi instituído em 1696.24 Durante o período dos Habsburgo, entretanto,
-gerais Cosme Rangel e Martim Leitão e de governadores de Portugal. Suas apelos pela adoção da encomienda caíram em terra safara, e mostraram que os
discussões resultaram na nova lei que definia "guerra justa" como aquela que colonos não percebiam as intenções reais da Coroa. Além disso, a defesa da
consistia apenas de ações autorizadas pela Coroa, insistia no pagamento de liberdade dos índios pelos jesuítas e o controle jesuíta das aldeias não cederam,
salários para os trabalhadores indígenas e ordenava a governadores, magistra- de modo que a hostilidade entre os donos de canavial e os padres continuou a
dos e capitães da colónia que aplicassem a legislação. Ao mesmo tempo, a Coroa crescer. Como a política real os favorecia, os jesuítas ansiavam por fortalecer a
baixou decreto que dava aos jesuítas o direito de trazer índios do sertão para autoridade da Coroa na colónia, como forma de reforçar sua própria posição. O
aldeias sob controle dos homens de batina preta. Os colonos podiam contratar padre Fernão Cardim, em sua reivindicação pelo estabelecimento de um
índios, mas não tinham permissão para empregá-los por mais de dois meses de Tribunal Superior no Brasil, ressaltou o papel dessa corte no controle dos abu-
cada vez, e um magistrado especial, um leigo português, julgaria todas as dispu- sos contra os índios e na interpretação correta da cláusula da "guerra justa".25 O
tas surgidas entre índios e brancos.20 A lei de 1595 foi reforçada em 1605 com padre Cardim e seus colegas jesuítas também viam a Relação como provável
uma simples reafirmação da liberdade dos índios provocada pelo contínuo aliada. Os senhores de engenho esperavam usá-la contra os comerciantes, e os
desprezo dos colonos pela legislação em vigor.21 jesuítas como reforço contra os senhores de engenho.

n8 119
A questão indígena transformou o Brasil num caldeirão dos interesses lar que a Coroa esperou que os magistrados desembarcassem no Brasil para dar
conflitantes da Coroa, dos jesuítas e dos colonos. A Relação chegou à Bahia em publicidade à controvertida ordenação. Parece que essa não era bern uma tá tio
junho de 1609, e quase imediatamente o caldeirão transbordou. Os colonos destinada a angariar popularidade para a Relação.
portugueses compreendiam apenas superficialmente as bases morais e teológi- Mas era uma tática que já havia sido usada antes. Em mais de uma ocasião
cas da política indígena dos Habsburgo e, apesar das tentativas da Coroa de nas índias, reis espanhóis tinham combinado a publicação de leis novas e con-
limitar a encomienda e reformar o repartimiento nas índias espanholas, os trovertidas com a chegada de altos funcionários ou com o estabelecimento de
senhores de engenho brasileiros ainda achavam que a encomienda-, em sua forma um tribunal. Tentativas reais de controlar a encomiendano México foum feitas
pura, poderia ser estabelecida no Brasil.26 Essa opinião parecia ignorar a defesa por intermédio da Audiência que chegou à Cidade do México em 1528, u.
cada vez mais resoluta da liberdade indígena pela Coroa, como expressavam as depois do seu lúgubre fracasso, da segunda Audiência de 1530.29 As Novas Leis
leis de 1587,1595 e 1605. de 1542, que impunham severas limitações ao controle dos índios pelos colo-
Em 1609, Filipe in examinou a questão indígena em seus dois Impérios. nos, exigiram medidas similares em todo o Império espanhol na América. No
Em maio, publicou uma ordenação para controle e regulamentação do reparti- Peru, a promulgação das Novas Leis foi seguida pela chegada de uma Audiência
miento na Nova Espanha, reconhecendo-o como um mal necessário, mas e do vice-rei Biasco Nunez de Ia Vela. Tanto o tribunal como o vice-rei tinham
declarando que ele só deveria ser usado em atividades que contribuíssem para instruções específicas para aplicar as leis. O estabelecimento da Audiência
o bem comum. No México, a audiência cautelosamente empregou a velha e de los Confines (Guatemala) e a visita ao México de um investigador real,
conhecida solução de aceitação sem submissão, de modo que a ordenação foi Francisco de Tello de Sandoval, estavam intimamente ligados à aplicação das
engavetada para não provocar rcação hostil dos colonos.-7 No Brasil, entretanto, Novas Leis.30 Dado o histórico dessa tática, a chegada da Relação cm junho e a
a recém-chegada Relação não agiu com a mesma cautela. Em Madri, ern 30 de publicação da lei em julho parecem ter sido rnais do que simples coincidência.
julho de 1609, urna nova lei foi instituída para "fechar a porta" aos excessos e Certamente, o texto da lei indica que a Relação deveria desempenhar papel
abusos na escravização da população indígena do Brasil. Essa lei declarava que significativo na aplicação de suas cláusulas. Depois da natimorta tentativa de
todos os índios, cristãos ou pagãos, eram, por natureza, homens livres, com 1588 e das infrutíferas discussões de 1590, a ideia de mandar um tribunal para
direito a salários por seu trabalho. A lei dava aos jesuítas permissão de trazer o Brasil fora abandonada. Somos tentados a especular que a ideia foi revitali-
índios da selva para áreas povoadas e mante-los em missões sob controle jesuíta. zada depois de 1605, porque Filipe ui precisava de um instrumento poderoso
Os jesuítas, também, foram forçados a pagar salários pelo trabalho executado. para fazer valer sua política indígena.3'
Dentro de cada missão, um magistrado especial seria designado pelo governa- Em vista da legislação anterior, essa nova e severa lei de 1609 não deveria
dor e pelo chanceler da Relação para julgar disputas entre brancos e índios. causar espanto, mas, ao tomar conhecimento dela, os colonos reagiram com
Mais importante, a lei declarava que todos os índios capturados ilegalmente violência- No Rio de Janeiro, houve uma sinistra ameaça de tumultos, e na
seriam libertados e todas as notas fiscais de compra ou decisões judiciais que Paraíba a Câmara de Filipeia abertamente denunciou a interferência espanhola,
justificassem sua escravização eram agora consideradas contrárias à lei e, por- afirmando que a lei fora "feita e consulada no reino de Castela", e que tinha
tanto, nulas e sem validade legal.2" Nenhum recurso contra esse dispositivo pouca aplicabilidade no Brasil.32 Os colonos que tinham, rcitcradamente,
seria aceito pela Coroa. A lei transferia boa parte do ónus de sua aplicação para citado exemplos espanhóis em suas tentativas de estabelecer a encomienda,
a Relação, "que ora vai para o Brasil" e exigia que o chanceler garantisse obe- diante de uma lei impopular viraram a casaca no primeiro momento, dizendo
diência mediante fiscalização anual, durante a qual todos os violadores seriam que os usos e precedentes espanhóis eram inaplicáveis no Brasil.
rápida c sumariamente punidos. A lei rnuiro provavelmente foi formulada A reação mais violenta teve lugar na Bahia.33 A revelação da lei à Câmara,
antes de a Relação chegar à Bahia em junho de 1609, e somos tentados a especu- pela Relação, precipitou uma tempestuosa reunião na tarde de 28 de janeiro de
1610. Realizou-se uma tumultuosa manifestação chefiada pelos vereadores e governador poderia autorizar as entradas para resgatar índios cativos e usá-los
magistrados; o advogado da Câmara, Gaspar Gonçalves, destacou-se como como servos contratados por períodos fixos. Dentro das aldeias, capitães leigos
agitador. Os jesuítas foram apontados como patrocinadores da nova norma, nomeados pelo governador, com aprovação do chanceler da Relação, deveriam
por isso a ira da turba voltou-se basicamente contra eles. Sugeriu-se que os governar, exercendo plenos poderes judiciais sobre os índios. Recursos de suas
padres fossem expulsos da cidade — tática posteriormente usada contra eles decisões iriam para o ouvidor local ou para o provedor-mor dos defuntos da
em São Paulo e no Maranhão. Enquanto a Câmara fazia um protesto oficial ao Relação, que agora assumia essas funções como um magistrado de assuntos
governador e a Gaspar da Costa, chanceler da Relação, a turba berrava suas indígenas.35
objeções diante dos prédios governamentais. Seguindo dali para o colégio Apesar de cuidadosamente redigida e apoiada por controles legais, a lei de
jesuíta, a multidão fez uma manifestação semelhante, que os jesuítas tentaram 1611 foi um passo para trás e um retorno ao status quo anterior a 1609. Queixas
acalmar negando qualquer papel na formulação do dispositivo. locais no Brasil tinham obrigado a Coroa a mudar de política. A Relação, a
No dia seguinte, um representante da Câmara, Jorge Lopes da Costa, apre- quem foi dado o papel principal na aplicação da lei de 1611, aparentemente não
sentou aos jesuítas, para que fosse assinado por eles, um documento qualifi- fez uso extensivo de seus poderes nessa esfera, com qualquer regularidade.
cando a lei de "notável desserviço de Deus e de Sua Majestade, e prejudicial a Outra importante legislação indígena não entraria em vigor antes de 1647 e o
todo este Estado". Os vereadores entregaram o documento com a mal velada estatuto de 1611 continuou a ser a lei da terra.
ameaça de que a recusa a assiná-lo provocaria uma reunião geral de todos os Não se sabe ao certo qual foi o papel da Relação na promulgação da con-
colonos do Recôncavo para expulsar e punir os jesuítas. Os padres da Companhia trovertida lei de 1609 e até que ponto os colonos responsabilizaram o Tribunal
de Jesus se recusaram a assinar, mas ficaram suficientemente amedrontados para Superior. Os jesuítas tinham tentado transferir a responsabilidade pela lei e a
concordar em firmar um documento garantindo aos colonos que os índios ira da turba para a Relação. Henrique Gomes, jesuíta e grande informante dos
legalmente capturados não seriam postos em liberdade, que os índios livres que acontecimentos de 28-29 de junho de 1610, afirmou que "a nova lei [...] veio
trabalhavam nas casas não seriam tomados e que os jesuítas não tinham inten- dirigida à Relação da Cidade e nela foi registrada" sem nenhuma consulta aos
ção de transferir às missões os índios usados para serviço pessoal. jesuítas e sem notificá-los.36 É impossível determinar se a Relação ficou desacre-
Até hoje não se sabe se os colonos chegaram a fazer algum progresso com ditada por ter promulgado a lei, mas para os senhores de engenho do Recôncavo
a Relação, mas em Diogo Meneses, o governador, eles encontraram um gene- tornou-se claro que o Tribunal Superior, que eles tinham acolhido como um
roso apoiador. Meneses escreveu à Coroa, em nome dos colonos, enfatizando a aliado contra a extorsão dos comerciantes, representava a política e a autori-
importância da mão de obra indígena e os "milhares de inconvenientes" da dade reais numa medida que nem o governador alcançava. O momento da crise
nova lei.34 Ressaltou que as entradas para levar índios à costa eram benéficas e de 1609 foi significativo, pois sua erupção logo depois da chegada dos magistra-
que impedi-las resultaria na redução da força de trabalho, ao passo que o con- dos deu aos senhores de engenho pouco tempo para deixar clara sua posição
trole dos jesuítas sobre as aldeias só beneficiaria os interesses dos jesuítas, e não aos desembargadores ou para influenciá-los por meio de contatos pessoais. Por
o bem comum. isso, os juizes não tiveram motivo para hesitar na aplicação da política real, e
Esses protestos e a massa de papéis enviados à metrópole levaram à revo- agiram em plena conformidade com as funções burocraticamente prescritas,
gação da lei de 1609 e sua substituição pelo estatuto de 10 de setembro de 1611, dando pouca ou nenhuma atenção a padrões ou objetivos conflitantes.
que reiterava a liberdade dos índios, mas previa sua escravização sob certas A atitude da Coroa de rescindir a lei de 1609 também merece comentário.
condições. Em caso de hostilidades, uma junta seria formada, consistindo do Por que a Coroa recuou de sua posição e aquiesceu à vontade dos colonos? Nas
governador, do bispo, de prelados das ordens religiosas e dos magistrados da índias espanholas os monarcas Habsburgo tinham geralmente demonstrado
Relação, para determinar se a guerra, no caso, seria ou não "justa". Além disso, o calculada indiferença pela posição dos colonos no que dizia respeito ao controle

123
dos índios. A resposta provavelmente está na natureza da colónia brasileira.
Sem uma população indígena grande, assentada e pagadora de impostos, c com
7. Procedimentos e funções
as riquezas minerais ainda a um século de distância no futuro, o alicerce econó-
mico do Brasil era o açúcar. Pelo começo do século xvn, o Nordeste do Brasil já
era o maior produtor de açúcar do mundo. Essa produção dependia inteira-
mente dos colonos e, apesar de certos benefícios e isenções fiscais, todos 05
custos agrícolas e industriais recaíam diretamente sobre eles. O senhor de
engenho fez do Brasil uma colónia valiosa, pois sem ele haveria pouca coisa
para sustentar a região. Assim, em 1609-11 e, como veremos, também em 1626,
a Coroa adotou uma posição mais leniente do que deveria em relação às
demandas dos fazendeiros. Os acontecimentos desses anos de fato deixaram
claro, entretanto, que a Relação, que fora saudada pelos fazendeiros como uma
aliada contra os comerciantes, era um órgão do governo real e, portanto, uma
possível ameaça à elite canavieira.

Compreende o governo civil, ou secular, a boa administração da


Justiça, a arrecadação da Fazenda Real e o governo económico do povo.
Luís dos Santos Vilhcna (c, 1798)

Na primavera de 1609, não havia em Salvador nenhum pelourinho repre-


sentando a justiça real. O símbolo da justiça, na verdade, tinha sido removido
por um antigo governador, Diogo Botelho, que fora condenado ao patíbulo aos
pés de um pelourinho em Portugal, c desde então não suportava a visão de um
deles.1 O símbolo ausente na capital do Brasil testemunhava a indisciplina e a
desordem que continuavam a caracterizar a sociedade brasileira. Funcionários
gananciosos, caçadores de fortunas, aventureiros, párias sociais e criminosos
formavam a maior parte da população portuguesa e apresentavam, para o tri-
bunal, um panorama amorfo e sem lei.2 Apenas na cidade de São Paulo, 65 dos
190 moradores eram fugitivos da Justiça, que ali tinham encontrado asilo.3
Dadas essas condições e a função tradicional dos tribunais superiores de
Portugal, as atribuições básicas da Relação da Bahia se concentravam em seu
papel de executora das leis e de tribunal de Justiça. Paradoxalmente, é esse o
aspecto mais difícil de documentar na história do Tribunal Superior. O traba-
lho judicial diário da Relação, os tipos de casos ouvidos e os métodos c procedi-

124
mentos do tribunal ainda são, especialmente no período de 1609 a 1626, desco-
caixa-forte pelo juiz. Para os pauperizados governadores do Brasil esse fundo
nhecidos. Documentos se perderam ou foram destruídos e o pouco que resta não reivindicado era uma constante tentação.6
deve ser usado com cautela. Embora essa deficiência não seja crucial para este
Muitas disputas sucessórias nasciam do costume brasileiro de fazer testa-
estudo, que ressalta a natureza burocrática do Tribunal Superior, não deixa de mentos nuncupativos (orais), prática que não raro conduzia à fraude. 7 Em
ser um grande hiato na história da instituição. O que se segue, agora, é uma geral, os espólios, no Brasil, valiam pouco, mas os testamentos contestados de
tentativa de juntar o pouco que existe sobre os procedimentos da Relação da vez em quando envolviam propriedades de grande valor. Um caso famoso e
Bahia no trato das questões judiciais normais. ilustrativo do processo de apelação, envolveu pretendentes ao espólio dos her-
Os procedimentos rotineiros na Relação do Brasil eram semelhantes aos deiros de Mem de Sá, que incluía o grande engenho de Sergipe do Conde. O
dos modelos metropolitanos. Os Livros i, ni e v das Ordenações Filipinas trata- Colégio Jesuíta da Bahia, a Misericórdia da Bahia e o Colégio Jesuíta de Santo
vam amplamente da estrutura e dos procedimentos dos tribunais. Uma leitura Antão de Lisboa tinham pretensões sobre o espólio. A ação foi apresentada pela
cuidadosa deles ainda impressiona o leitor pela complexidade do processo primeira vez perante o juiz dos órfãos em 1622, e a Misericórdia apelou de sua
judicial e pela tentativa de tornar as leis compreensíveis. Não se pode determi- decisão. A Relação confirmou a sentença anterior em 1623, e o caso foi levado
nar, entretanto, até que ponto variações locais não autorizadas se desenvolve- para os tribunais da metrópole, onde se arrastou até 1669, quando foi resolvido.
ram no Brasil, o que limita a utilidade de uma simples recontagem dos regula- Casos de sucessão dessa magnitude e complexidade eram, porém, incomuns.8
mentos, pois nas condições de vida da colónia legalidade e realidade muitas A maioria dos atos do tribunal e as petições a ele dirigidas se davam por
vezes se opunham. A descrição apresentada a seguir é mais um esboço sumário escrito, mediante testemunho sob juramento ou testemunho autenticado. Os
do que uma síntese completa dos procedimentos da Relação, recaindo a ênfase litigantes só podiam fazer sustentação oral nos casos que envolviam menos de l
sobre os desdobramentos particularmente brasileiros.4 mil-réis, mas, como se tratava de soma insignificante, poucos casos dessa
Embora o Tribunal Superior fosse um órgão colegiado, boa parte de suas dimensão chegavam ao tribunal.9 Essa dependência de súmulas, testemunhos £
tarefas era realizada por membros que agiam individualmente. O ouvidor- questionários escritos dava à função de escrevente do tribunal grande impor-
-geral, o juiz dos órfãos e o juiz da Coroa e Fazenda tinham jurisdição originária tância. O impulso português de legalizar todas as ações refletia-se, talvez, na
e de apelação» e podiam julgar sem a ajuda de outros magistrados do tribunal. importância desse cargo. Também não podemos ignorar o fato de que, como
Quando autorizados por lei, e se os litigantes assim o desejassem, recursos da intermediários entre os magistrados e os litigantes, os escreventes geralmente
decisão do juiz poderiam ser feitos à Relação como órgão; por sua vez, recursos exerciam funções decisórias. Eles tinham o poder de acelerar ou retardar pro-
da decisão da Relação deveriam ser apresentados à Casa da Suplicação em cessos e eram, portanto, muito mais do que simples tabeliães. O regimento da
Portugal.
Relação previa o emprego de cinco escreventes destinados a auxiliar os diversos
O cargo do juiz dos órfãos é um bom exemplo, e mostra como o sistema magistrados, mas parece certo que apenas quatro desses cargos foram preen-
funcionava. Cabia ao desembargador que servia como juiz dos órfãos do chidos de início.10
Tribunal Superior administrar a propriedade dos que morriam sem deixar tes- Diferentemente do emprego de magistrado, o cargo de escrevente na
tamento ou a caminho do Brasil, e julgar as disputas que surgissem entre os Relação poderia ser transmitido de uma geração para outra, tal qual uma pro-
herdeiros de um espólio.5 Quando os herdeiros estavam ausentes, a propriedade priedade. A nomeação ou a outorga do cargo de escrevente do tribunal poderia
era vendida em hasta pública e o dinheiro era remetido para Portugal, a fim de ser feita como recompensa por um serviço prestado à Coroa, mas essas outorgas
ser distribuído entre os herdeiros legítimos, ou enviado para os cofres da Coroa, geralmente pressupunham um exame para verificar um mínimo de aptidão. A
se não houvesse herdeiros. Antes de ser remetido para a metrópole por uma maneira como o cargo era conquistado no Brasil é bem ilustrada pelo caso de
letra de câmbio, ou às vezes convertido em ouro, o dinheiro era mantido numa Cristóvão Vieira Ravasco, pai do grande orador e escritor jesuíta padre António

126 127
Vieira. Cristóvão Vieira Ravasco tinha sido soldado e escrevente judicial em tribunal, entretanto, poderia ser impedido de trabalhar num caso no qual fosse
Lisboa, mas seu emprego de escrevente de apelação na Relação da Bahia foi litigante ou parte interessada.1''
adquirido por meio de casamento. Sua esposa, Maria de Azevedo, tinha rece- No nível de apelação, o regulamento exigia que um número ímpar de jui-
bido em 1604 a promessa de "qualquer ofício de justiça ou fazenda" para o zes decidisse um caso, para evitar impasses no tribunal. 16 Nos casos que envol-
homem com quem viesse a se casar. Tratava-se de um método comum, que viam pena de morte, porém, designava-se um número par do juizes — «eril-
permitia à Coroa amparar viúvas e órfãos honrados — em certo sentido, era mente seis — e a decisão final tinha de ser tomada por uma maioria de dois
uma forma de fornecer um dote. Cristóvão Vieira Ravasco, portanto, conseguiu votos. Em caso de empate, juizes extras eram designados, até que o n ú m e r o
o cargo por meio de casamento, mas precisou demonstrar suas aptidões." apropriado de votos convergentes fosse alcançado. No Brasil, esse sistema
Os escreventes da Relação tendiam a ser semiprofíssionais competentes. revelou-se absurdo, porque o limitado número de juizes e suas constantes
Seus salários variavam entre 20 mil-réis e 40 mil-réis por ano, mas também ausências da Bahia, motivadas por missões especiais, geralmente provocavam
recebiam honorários suplementares por serviços extras. O fato de esses cargos intermináveis adiamentos. As deficiências do sistema não passavam desperce-
poderem oferecer renda considerável tornava-os prebendas muito disputadas. bidas, e tornaram-se quase proverbiais. Um médico falastrão que compareceu
A venda ou outorga dessas posições não era, portanto, de forma alguma atípica diante da Inquisição em 1612 gabou-se, segundo consta, de que ele sozinho
no quadro da maneira europeia de administrar, na qual a concessão de cargos tinha poderes de vida e morte, enquanto a Relação precisava de quatro votos
se tornou uma forma de obter renda e fazer obséquios.12 Em Portugal e no seu para condenar à mortef o que raramente conseguia. l7
império, o titular de um cargo geralmente alugava-o a um substituto, que A Coroa acabou tomando providências para corrigir essa situação, com
desempenhava as tarefas por uma percentagem fixa do salário do titular. A um alvará de 1616 que reduzia para três o número de votos convergentes neces-
Coroa de vez em quando tomava providências para eliminar esses substitutos sários nos casos em que estava prevista a pena de morte e para dois nos casos de
(serventuários) e a Relação da Bahia examinava disputas decorrentes da aplica- crimes menos graves.18 Um atraso de três anos enquanto o preso apodrecia na
ção dessas leis e de reivindicações conflitantes do mesmo cargo, mas a nomea- cadeia de Salvador não era raro c, apesar das tentativas de reforma, as engrena-
ção de funcionários continuou sendo atribuição do governador. gens da Justiça giravam lenta e dolorosamente no Brasil. O problema básico,
As audiências do tribunal eram públicas e os litigantes ou seus advogados como veremos, era falta, e não excesso, de desembargadores.
compareciam diante do juiz para submeter suas demandas. Havia rígidos pro- As deliberações do tribunal eram secretas e nem mesmo os funcionários
cedimentos a observar, nos quais os deveres e o comportamento das partes, de tinham permissão para entrar nas salas, a não ser quando convocados pela
seus advogados e do tribunal eram estipulados. Na audiência, prisioneiros, sineta do chanceler.19 As decisões eram tomadas seguindo-se dois métodos —
clérigos, mulheres, agricultores e aqueles que tinham vindo de longe tinham conferência ou opinião. Num voto por conferência, o juiz original do caso lia os
prioridade.13 Assim que o pleito era registrado, ao réu era concedido um prazo pleitos e contestações c citava os pontos da lei pertinentes. Cada juiz então
para preparar uma resposta e, se alguma acusação precisasse ser acrescentada votava oralmente e todos assinavam a sentença sem indicação de divergência. O
ao pleito original, o réu ganhava mais tempo para preparar nova defesa. Isso era outro método, por opinião (tenção), era realizado por escrito. Cada juiz exami-
motivo constante de atrasos. Durante a audiência, o juiz podia fazer perguntas nava os documentos relevantes e redigia uma opinião cm latim, que eie então
aos litigantes e convocar testemunhas, mas as partes interessadas, "inimigos enviava, com os documentos, para o próximo membro do tribuna]. Quando
capitais" e escravos não tinham permissão para dar testemunho.1'1 Na audiência esse método era adotado, a minoria contrariada não assinava a sentença, nem
final, o juiz emitia a sentença, decidia quem ia pagar as custas e ouvia pedidos registrava uma divergência por escrito.
de recurso. Se o pedido fosse aceito, o caso era submetido então a um grupo de Nos casos criminais, a prisão geralmente era feita pela polícia depois que
desembargadores designados pelo chanceler. Qualquer juiz ou funcionário do um desembargador emitia um mandado.20 No Brasil, o mandado de prisão às

128 129
vezes era executado pessoalmente pelo ouvidor-geral. Os presos eram levados praticavam sua profissão no Brasil antes da chegada da Relação, mas a presença
para uma cadeia em Salvador. Exceto em casos em que estava prevista a pena de do tribunal criou novas oportunidades para os dois grupos.
morte, fidalgos, membros das ordens militares, os que tinham diploma de dou- O cargo de tabelião era cedido pela Coroa e o número de vagas era limitado
tor e suas mulheres eram soltos sob juramento.21 Os acusados eram informados O desejo de formalizar e legitimar todo tipo de ação pública ou privada levava à
das acusações e tinham prazo para submeter a defesa. O queixoso ou o advo- constante demanda por escreventes legais licenciados. Com o aumento dos lití-
gado da Coroa apresentava a resposta (tréplica). Tanto o queixoso como o réu gios, a necessidade de tabeliães também cresceu. Esses escreventes que recebiam
podiam, então, apresentar provas ou declarações perante o tribunal, dando honorários, alguns deles sem os conhecimentos básicos de sua profissão, constan-
início ao inquérito. Nesse ínterim, o preso podia ser solto sob fiança ou por temente eram o grande alvo das queixas da colónia. "Muitos deles", afirmou um
carta de seguro.22 As deliberações do tribunal geralmente incluíam a reunião contemporâneo, "apenas sabem fazer o seu sinal" [assinar o nome com a letra
de testemunhas sob juramento, de acordo com uma lista minuciosa ou um x].25 Essa incompetência não impedia que esses tabeliães cobrassem honorários
questionário preparado a partir das acusações e da defesa. Os testemunhos, exorbitantes e usassem o cargo para exercer influência nos salões do tribunal. O
portanto, tendiam a ser limitados e repetitivos. A tortura podia ser utilizada resultado de tal situação, ao longo do século XVH, foi a tendência dos moradores
contra o acusado para arrancar uma confissão, muito embora os regulamentos da colónia de fazer seus negócios mediante acordos verbais, ou sem a legalização
advertissem contra essa prática. No Brasil, a tortura foi usada raras vezes — ou de um documento autenticado.26 Isso era mais comum ainda nas áreas rurais,
nunca — antes de 1652.23 onde as taxas dos cartórios às vezes dobravam e triplicavam de valor.
A sentença era dada de acordo com a lei e o discernimento do magistrado. Apesar de as queixas contra tabeliães serem coisa comum, os verdadeiros
A lei prescrevia punição para a maioria dos crimes, mas os juizes poderiam vilões, do ponto de vista dos colonos, eram os advogados. Em tese, aqueles que
abrir exceções em razão de idade, saúde e posição social. Embora as multas, o serviam como procuradores ou advogados tinham estudado oito anos em
confisco e o banimento penal fossem as formas mais comuns de punição, a Coimbra, ou se submetido a exames no Desembargo do Paço. Aqui, também, a
forca, as galés, o tronco e a flagelação pública também eram usados. A flagelação situação na colónia exigia modificações dos padrões. Em áreas periféricas, a
pública trazia considerável desgraça, mas fidalgos, cavalheiros, cidadãos de Coroa às vezes permitia que homens sem um diploma de direito em Coimbra
certas localidades e todos os cidadãos do Algarve tinham isenção privilegiada militassem nos tribunais. 27 Na Bahia, entretanto, havia grandes advogados
desse castigo. À semelhança do que ocorria antes de 1609, a justiça para negros coloniais, como o cristão-novo Jorge Lopes da Costa, que, a julgar pela impor-
e índios era destinada a servir de exemplo, mais do que a remediar injustiças. tância de seus clientes e pelo valor de seus honorários, foi o melhor advogado
Dessa forma, em 1613, a Coroa aprovou a morte na forca e o esquartejamento de sua época.
de um índio salteador em Pernambuco, e sugeriu que os desembargadores Advogados vieram para o Brasil antes da chegada do Tribunal Superior,
agissem com presteza em casos semelhantes.24 mas a presença do tribunal na colónia sem dúvida criava novas oportunidades
Embora um indivíduo pudesse atuar como seu próprio representante legal para a profissão legal. As Ordenações Filipinas tentaram diminuir a chicanice
no tribunal, a complexidade dos procedimentos e da legislação tornou necessá- regulamentando honorários, prescrevendo penas por má conduta ou negligên-
rio um corpo treinado de advogados, promotores e procuradores, que ao lado cia profissional e controlando, em geral, a profissão legal. Mas a prática comum
dos tabeliães se tornaram parte integrante da vida brasileira. O legalismo for- das decisões interlocutórias [que não extinguiam o processo] levava a novos
malista, a constante necessidade de documentos autenticados e a onipresença requerimentos e contestações, com acúmulo de litígios e honorários. O resul-
do tabelião e do administrador governamental têm sido usados para caracteri- tado eram as ações demoradas, as montanhas de papel e o processo judicial
zar a forma atual de governo no Brasil como Estado cartorial. As raízes desse dolorosamente lento.
fenómeno, no entanto, remontam ao passado colonial. Advogados e tabeliães já De acordo com os regulamentos da Relação, uma lista de todos os casos

130 131
ouvidos por ela ao longo de um ano deveria ser submetida à metrópole. Essas venções ou ações cíveis ouvidas pelos juizes de primeira instância í juízo ordi-
listas — se de fato foram preparadas -— não sobreviveram até o presente e, por nário); 41% (1662) consistiam de disputas sucessórias, eiveis e questões de
isso, pouco se sabe do funcionamento e das decisões diárias da Relação. Nas tesouro; e 18% (728) eram processos criminais. Considerando-se que havia
capitanias, os magistrados locais e os ouvidores continuaram a administrar apenas dez desembargadores no tribunal baiano, a carga de trabalho parece
justiça e ainda podiam prender, sentenciar e punir dentro da área de sua juris- extraordinariamente pesada.31
dição. Apenas os casos que envolviam grandes somas, crimes sujeitos a pena de A repressão de crimes e a abertura de ações criminais eram tarefa do
morte ou sobre os quais a Relação tinha jurisdição original eram submetidos ao ouvidor-geral, cargo não desprovido de perigo. Pêro de Cascais, que serviu
devido magistrado do tribunal. Os casos apresentados à Relação eram variados como ouvidor-geral por dois anos, prendeu mais de 170 pessoiii durante esse
e, como não há listas, a generalização é difícil e inevitavelmente baseada em período, e em certa ocasião escapou por pouco de morrer nas mãos de um cri-
inferências. minoso quando tentava fazer uma prisão.32 O costume de andar armado, pró-
Quais eram a natureza c o volume dos crimes que chegavam à Relação? prio das zonas de expansão territorial, e a natureza rebelde dos colonos compli-
Como não existe compilação de casos para o período de 1609 a 1626, só pode- cavam os problemas da justiça. A lâmina nua geralmente resolvia as diferenças
mos especular com base ern outros períodos. Uma relação de crimes violentos e as partes em conflito por terras preferiam incendiar as propriedades do con-
cometidos em Olirida em 1671 dava conta de 206 assassinatos ou ataques cri- tendor a mover uma ação.33
minosos naquele ano, e as expressões "morto a punhaladas", "morto a espin- Crimes de paixão e violência decorrentes de afrontas à "honra" geralmente
garda" ou "morto a estocadas" se repetem com frequência. 28 A lista de exílios provocavam comentários de visitantes que andavam pelo Brasil nos séculos xv i
penais reproduzida por Charles Boxer e uma espiada nos Livros de Fiança e e xvni. Ainda hoje, pôr "chifres" em alguém (sinal do marido de adúltera) é, no
Perdão da Relação para o período de 1652 a 1750 indicam o predomínio de Brasil c em Portugal, um desafio à luta. Os portugueses coloniais, disse o inglês
negros e muJalos entre os réus condenados pelos tribunais coloniais. ?y Richard Ligon, em meados do século xvn, "têm mais ciúme de suas amantes cio
Obviamente, esses homens eram socialmente marginais e forçados a ultrapas- que os italianos de suas esposas".34 A atitude protetora dos portugueses para
sar os limites do comportamento aceitável pelas diversas formas de discrimina- com suas mulheres era quase lendária, mesmo entre os outros povos mediter-
ção ou pressão social. Além disso, quase sempre os escravos eram simplesmente râneos que compartilhavam a tradição do isolamento feminino. Não se tratava
usados para executar as vendetas de seus senhores e, quando apanhados, fica- apenas de um comportamento esperado, a lei permitia o assassinato de uma
vam com o fardo da culpa. De vez em quando, porém, os senhores, incluindo mulher infiel e de seu amante pelo marido enganado.35 O francês Pyrard de
desembargadores, intercediam em favor de seus escravos; os Livros de Fiança e Lavai, que visitou Salvador em 1610, deu notícia de um caso em que João de
Perdão estão salpicados de exemplos dessa natureza. 30 A impressão geral dei- Meneses, filho do governador Diogo de Meneses, foi flagrado nos braços da
xada pelos registros que chegaram até nós é a de urna sociedade afligida por mulher de outro homem. Tanto a mulher como o amante receberam alguns
muita violência e um submundo de salteadores, batedores de carteira e assassi- ferimentos de espada do furioso marido, muito embora, neste caso, não tenham
nos cruéis. sido fatais. Na verdade, João de Meneses e seus irmãos tinham um histórico de
O volume de litígios e de processos teria sido, por si, motivo de fracasso assediar mulheres à vontade, insultar ou ferir os maridos e depois se escudar em
judicial. Apesar de os registros cartonais do período da primeira Relação já sua posição de privilégio para evitar punição. Em 1612, o advogado Jorge Lopes
não existirem, pode-se fazer ideia do número de casos a partir de um docu- da Costa acusou João de Meneses de cometer adultério com sua mulher. 36 Essa
mento do fim do século xvn. Nos dezenove meses decorridos de outubro de acusação e as outras queixas sobre o comportamento dos filhos do governador
1690 a junho de 1692, a Relação tomou conhecimento de ou revisou decisões levaram a uma investigação conduzida pelo desembargador Manoel Pinto da
de tribunais inferiores relativas a 4035 casos. Desses, 41% (1645) eram contra- Rocha. Aparentemente, nenhuma acusação foi feita perante a Relação, mas a

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investigação deve ter bastado para acalmar o ardor dos irmãos. Nunca mais se influenciadas por objetivos pessoais, mas eles nunca perdiam de vista a necessi-
ouviram queixas contra eles. dade de aparecer como protetores dos assuntos do rei. Duas questões, uma
Outro escândalo desse tipo é muito interessante porque lança luz sobre as delas um problema crónico e a outra um acontecimento extraordinário, podem
possibilidades de subverter a justiça. Em 1614, Pêro de Cascais, como ouvidor- servir de ilustração da atuação do tribunal nessa esfera.
-geral, tinha prendido um jovem fogoso que seduzira a mulher de outro homem A Relação interessou-se viva e ativamente pela repressão do comércio ile-
e a mandara a Portugal para guardá-la em lugar seguro. Era delito grave, puní- gal de pau-brasil. O período de 1602 a 1610 tinha assistido não apenas a uma
vel com a morte, e o culpado agravara o crime resistindo à prisão. O jovem em intensa atividade de açambarcadores estrangeiros no comércio da madeira,
questão, entretanto, era sobrinho de Baíthasar Ferraz, o velho desembargador mas também a muitas ilegalidades no comércio autorizado. Foi por essa razão
que viera para o Brasil em 1588 com o malfadado primeiro tribunal. Ferraz que em 1605 Sebastião de Carvalho foi enviado a Pernambuco para investigar
permanecera na colónia e em 1614 era um membro influente, rico, admirado e tais irregularidades e crimes e processar os culpados.39 Excessos no corte do
bem relacionado da sociedade baiana — proprietário de terras e amigo íntimo pau-brasil tinham, peia altura dos primeiros anos do século xvn, causado con-
de Garcia d'Ávila, um dos homens mais poderosos do Brasil.37 Baíthasar Ferraz siderável desfiorestamento no litoral, de modo que em 1605 a Coroa tomou
trabalhou com tanta diligência eliminando testemunhas, preparando uma providências para conter o processo. Um novo regulamento para o corte de
defesa e, ao que tudo indica, recorrendo a ligações profissionais no tribunal, pau-brasil foi publicado, prevendo severas penas de morte e confisco para
que a Relação inocentou o culpado. A reação da comunidade foi forte e o clero quem desrespeitasse a lei. Quando a Relação chegou em 1609, o corpo de leis
trovejou do púlpito contra a decisão injusta, advertindo que Deus faria sua municipais que trazia incluía uma exortação especial para manter vigilância
própria justiça. Pouco depois, um acidente no mar provocou a morte do sobri- sobre as leis contra o desfio restamento. Além disso, os acusados na investigação
nho e do único filho de Ferraz; o velho advogado, arrasado com a perda, morreu de Carvalho que ainda estavam no Brasil foram entregues à Relação para serem
depois de confessar no leito de morte: "Padre, Deus me castiga em querer que processados.40
eu morra agora e meu sobrinho me cause a morte".38 A justiça divina, porém, Navios franceses, ingleses e holandeses, por vezes guiados por pilotos por-
não era parte regular do aparato legal: o sucesso de Ferraz em libertar o sobri- tugueses, e geralmente com a cumplicidade de moradores locais, continuavam
nho mostrou o que um advogado bem relacionado, com amigos no tribunal, a embarcar cargas de pau-brasil na costa. A Relação interessou-se viva e ativa-
era capaz de conseguir. mente pela repressão desse comércio ilegal Em 1612, dois navios estrangeiros
A natureza dramática de tais episódios não deve ocultar o fato de que a foram apreendidos — um em Ilhéus e outro em Ilha Grande, perto do Rio.
Relação gastava a maior parte do seu tempo com as complexidades das brigas Alguns prisioneiros, incluindo ingleses, escoceses e flamengos, foram manda-
por terra e de contratos de dízimos contestados. Além disso, a Coroa via, espe- dos para a Bahia, a fim de serem processados pelo promotor da Coroa, Afonso
cificamente, a proteção legal dos interesses reais e a aplicação da lei como deve- Garcia Tinoco.41 Apesar de ter surgido uma disputa jurisdicional entre o prove-
res básicos do Tribunal Superior. Nas questões que afetavam claramente os dor-mor e a Relação, ficou claro que o processo contra essas violações da lei era
interesses da Coroa e em relação às quais as tarefas da Relação eram explícitas, de responsabilidade da Relação. Havia àquela altura, no entanto, alguma dúvida
os magistrados estavam prontos a agir com vigor e presteza. Como a avaliação sobre a competência da Relação para julgar estrangeiros, e a questão foi subme-
do desempenho de um magistrado e o decorrente avanço na carreira se basea- tida a Portugal. A Coroa respondeu que em circunstância alguma presos estran-
vam, em grande parte, em sua obediência às normas profissionais e no empe- geiros deveriam ser mandados para Portugal, e que nos casos que não envolves-
nho com que protegia os interesses reais, os juizes tomavam cuidados especiais sem pena de morte eles seriam enviados para o exílio em Angola, onde
para aparecer sempre como advogados da causa do rei. Na verdade, as ações dos cumpririam pena de serviços forçados.42 Quatro dos prisioneiros levados para
magistrados geralmente eram limitadas por pressão social na colónia ou a Ilha Grande foram condenados à morte pela Relação, mas os juizes demons-

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traram certa relutância em executar a sentença. A Coroa, apesar de lamentar a rios leais e experientes nas colónias, ampliaram o âmbito de suas acões. Kso
demora, converteu a pena em serviço perpétuo nas galés.43 aeralmente cumulava os magistrados de responsabilidade^ pesadas c às vezes
Em 1616, o desembargador Manoel Jácome Bravo fez uma investigação na conflitantes.
Paraíba e ouviu relatos de cumplicidade portuguesa no incidente de 1612 na A Relação raramente exercia amplos poderes administrativos indepen-
Ilha Grande. Em 1619, Antão de Mesquita tomou depoimento de um índio dentemente dos desejos do governado r-gê r ai. A posição de presidente' da
sobre quatro navios franceses que foram apanhar madeira em Porto Seguro.44 Relação exercida pelo governador-geral punha os magistrados sob sen controle,
O interesse da Coroa nesse assunto foi realçado pelos relatos de seus agentes na e limitava as opções do tribunal em questões políticas. Essa situação era seme-
Europa, encaminhados ao Brasil, advertindo sobre recentes ou planejados lhante à ligação do vice-rei da índia com a Relação de Goa ou cio vice-iei do
embarques. Como muitas dessas empreitadas eram auxiliadas por moradores, Peru com a Audiência de Lima. A Relação da Bahia de fato participava da admi-
estrangeiros no Brasil tornaram-se altamente suspeitos de cumplicidade e a' nistração política da colónia, uma vez que tanto a tradição como as circunstân-
Coroa ordenou que todos fossem expulsos da colónia.'15 A ordem nunca foi cias permitiam esse papel, mas só em circunstâncias excepcionais esse aspecto
plenamente cumprida, mas esses estrangeiros residentes, quando flagrados no das atribuições do Tribunal Superior se torrava importante. Entre 1604 e 1621,
negócio ilegal, eram processados. Rodrigo Pedro, um holandês casado com por exemplo, os governadores-gerais estiveram com irequência ausentes cia
uma portuguesa c residente no Espírito Santo, por exemplo, foi preso quando Bahia e cm seu lugar o chanceler do Tribunal Superior e o provedor-mor costu-
guiava três navios holandeses para o Brasil. Para vexame da Relação, entretanto, mavam assumir a liderança administrativa. Essa situação deu à Relação um
os navios escaparam.'16 Depois de 1621, a ameaça dos açambarcadores estran- papel maior na formulação política e na administração. Mas as iunções tradi-
geiros tornou-sc ameaça de ataque militar e, mais do que de comércio clandes- cionais dos magistrados incluíam também tarefas administrativas e semiad mi-
tino e intermitente, de ocupação permanente. A supressão, ou pelo menos o nistrativas, que decorriam de suas responsabilidades na correcao de abusos e
controle, do corte ilegal de pau-brasil na segunda década do século xvu, porém, falhas no processo judicial.
foi resultado, basicamente, da atividade da Relação. A Coroa via a Relação como leal e inteligente fonte de informações, cujas
A aplicação das leis, a proteçào dos interesses reais e o cumprimento de opiniões em questões locais sempre levavam em conta os interesses reais. O
instruções eram questões relativamente fáceis para os desembargadores, chanceler podia corresponder-se diretamente com o trono e assim ter papel
quando a situação ou o acontecimento eram esperados. Mas eventos extraordi- ativo na formulação política. Os magistrados, vistos pela Coroa como funcio-
nários deixavam a Relação, como a maioria dos órgãos administrativos do nários leais e confiáveis, geralmente eram convocados para realizar tarefas não
governo colonial, temporariamente paralisada pela falta de capacidade para judiciais. No Brasil, a Relação funcionou com frequência como conselho con-
improvisar e pela inflexibilidade. Os governadores que tinham o poder de sultivo em questões de bem-estar comum. Ao voltar para Portugal, canto os
tomar decisões nem sempre agiam com presteza e determinação, e os colonos desembargadores como os governadores-gerais eram chamados para aconse-
reagiam tirando proveito da situação ou recusando-se a enfrentá-la. lhar a Coroa no que dizia respeito a problemas ou nomeações no Brasil.
Apesar de ser possível descrever as funções da Relação como judiciais e A Coroa reconheceu formalmente as funções consultivas da Relação em
administrativas, às vezes era difícil distinguir os dois domínios. Na verdade, 1611, quando a legislação indígena daquele ano convocou a Relação a romnr
nenhum conceito real de divisão de poderes existia, e não era raro que os mes- parte em deliberações sobre a validade da guerra contra os índios. As decisões
mos homens fossem investidos de poderes próprios a mais de um cargo ou políticas tomadas pelo Tribunal Superior reunido sob a presidência do gover-
jurisdição. Não há dúvida de que a Relação, como seus modelos europeus, nador-geral eram chamadas acórdãos. Esse arranjo formal raramente foi u.sado,
deveria funcionar basicamente como um tribunal de segunda instância, mas as porém, no século XVTI. Km vez disso, o governador-geral ou um dos conselho;;
funções tradicionais, somadas à necessidade da Coroa de contar com funcioná- reais simplesmente apelava para a Relação quando havia necessidade de uma

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opinião. Os governadores-gerais também usavam o Tribunal Superior como buscar o pessoal de que precisava para várias missões especiais. Algumas dessas
fonte de informações precisas e como conselho consultivo. Em 1612, o gover- tarefas simplesmente faziam parte da administração ordinária do governo.
nador Diogo de Meneses fez exatamente isso, quando estabeleceu, a conselho Atribuições fiscais como a coleta de 1% do imposto sobre as vendas para a
do Tribunal Superior, uma Câmara municipal no Rio Grande do Norte.47 construção de igrejas (obras pias) ou a administração de fundos coletados dos
Tanto a Relação como os magistrados individualmente por vezes eram cristãos-novos eram da alçada do juiz da Coroa, Afonso Garcia Tinoco.50 Desde
usados como fontes de informação. Em 1613, o governador Gaspar de Sousa o fim do século xvn e por todo o século xvm, o número e a diversidade dessas
sugeriu que uma Casa da Moeda fosse estabelecida no Brasil para acabar com a tarefas extras, afastando cada vez mais os juizes de suas obrigações normais,
crónica escassez de moeda e libertar a colónia de sua dependência da prata prejudicaram seriamente suas atribuições judiciais.
importada da América Espanhola. O Conselho da Fazenda resolveu cotejar o A Coroa também apelava para os desembargadores a fim de formar e con-
relatório do governador com outra fonte de informação, e apelou para a Relação, duzir os diversos comités ad hoce investigações que se tornaram parte integrante
que foi solicitada a submeter uma opinião sobre o assunto. A Relação declarou do processo administrativo. O primeiro exemplo desse fenómeno ocorreu entre
que a cunhagem de moeda de cobre no Brasil seria muito benéfica para os colo- 1613 e 1615, e ilustra como os magistrados podiam ser usados pela Coroa.
nos, uma vez que as moedas seriam usadas em todas as transações diárias e O comércio de contrabando, a fraude, a evasão fiscal e a especulação exi-
reduziriam o preço dos artigos de primeira necessidade. A proposta não foi giam um remédio. Em 1612, a Coroa nomeou André Farto da Costa, primo de
adotada, e o Brasil continuou sem uma Casa da Moeda até 1694. Mas a Coroa Jorge Lopes da Costa, secretário da Alfândega de Lisboa, e o mandou imediata-
emitiu 6 mil cruzados em moedas de cobre em Portugal, a serem mandadas para mente para o Brasil a fim de encabeçar uma Junta da Fazenda especial destinada
o Brasil a fim de amenizar a escassez. Quando certas medidas podiam ser úteis a conduzir uma devassa na colónia. A Junta era formada pelos desembargado-
tanto ao rei como aos colonos, a Relação não hesitava em propor reformas.48 res Francisco da Fonseca e António das Póvoas, por Farto da Costa e pelo pro-
Os desembargadores também ofereciam, individualmente, conselhos à vedor-mor Sebastião Borges. A primeira sessão da Junta realizou-se em
Coroa. Em 1617, Antão de Mesquita, que servia como advogado da Coroa, suge- Salvador, em 9 de fevereiro de 1613, e ela continuou a reunir-se intermitente-
riu o estabelecimento de um monopólio real sobre o gengibre, como medida mente até 1615.51
benéfica tanto para a Coroa como para os colonos. A cultura do gengibre era A Junta concentrou-se no uso impróprio e na apropriação indébita de
bastante viável na Bahia, mas em 1577 grupos portugueses envolvidos no fundos por funcionários da Alfândega e do Tesouro. Os dois desembargadores
comércio da índia tinham convencido a Coroa a proibir a produção de gengibre da Junta ficaram incumbidos de fazer as acusações formais, que eram encami-
no Brasil, como forma de manter o preço do produto indiano. Os colonos baia- nhadas ao advogado da Coroa na Relação. O Tribunal Superior, então, senten-
nos tinham ignorado a lei, e Antão de Mesquita sugeria apenas que um mono- ciava os culpados, geralmente ordenando o reembolso dos fundos desviados.
pólio real produziria receita para o Tesouro, ao mesmo tempo que permitiria aos Livros de contabilidade eram examinados, impostos atrasados, recebidos e os
colonos cultivar gengibre legalmente, acabando com a necessidade de vender o culpados, repreendidos. Os infratores geralmente dispunham de dois a três
produto em segredo aos holandeses e aos ingleses. Cabe lembrar que Antão de anos para reembolsar o Tesouro real.52
Mesquita era um dos magistrados casados no Brasil e, portanto, talvez fosse mais Uma questão mais difícil, com implicações políticas, era a eliminação do
afinado com os sentimentos coloniais do que seus colegas.49 contrabando na área do rio da Prata, na América Espanhola. A Junta não só
O uso dos magistrados do Tribunal Superior para executar tarefas extraju- tentou eliminar a navegação ilegal, mas também reclamou da prática de permi-
diciais de natureza fiscal, investigativa ou administrativa aumentava as atribui- tir que navios espanhóis autorizados embarcassem produtos no Brasil sem
ções e também os poderes dos juristas profissionais. A magistratura oferecia pagar tarifas alfandegárias. Por recomendação da Junta, o governador Luís de
uma reserva de funcionários capazes, treinados e leais, onde a Coroa podia Sousa e a Relação ordenaram que "quaisquer bens autorizados que os castelha-

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nos embarquem neste estado para o rio da Prata têm de pagar o dízimo, pois participação nela de membros do Tribunal Superior vinculou o o. gão ad hoc e
eles não são nativos e os bens vão para um país estrangeiro'/11 o permanente do governo. A Relação cooperou não apenas processando .>s
As relações entre a /unta e outros órgãos do governo eram às vezes tensas. culpados, mas também atuando como órgão consultivo. Apesar de alguns pou-
Os amplos poderes da Junta provocaram o ressentimento de funcionários reais cos desembargadores terem sido repreendidos por distribuírem sinecuras o de
e de Câmaras municipais. O governador Luís de Sousa queixou-se de que André a Relação e a Junta nem sempre verem toclos os problemas com os mesmos
Farto d,-) Costa não se dignara sequer a apresentar-lhe suas credenciais ou a olhos, uma e outra se complementavam.
revelar suas instruções, tendo se limitado a mostrar-lhe "maços cerrados". De longe a tarefa mais importante desempenhada pelos desembargadores
Sublinhando tal animosidade, entretanto, estava o ataque da Junta à prolifera- como representantes da autoridade central era a de juizes itinenmtes e investi-
ção de posições não autorizadas preenchidas pelos amigos e apaniguados do gadores especiais nas várias capitanias do Brasil. Desembargadores em missão
governador e pagas pelo Tesouro real Ern geral, os governadores tinham per- geralmente eram instrumentos da aplicação de políticas e às vezes ate as cria-
missão para manter uma guarda pessoal de vinte homens, à custa da Coroa, vam, como resultado de suas investigações. O poder magistrático de conduzir
rnas a Junta considerou que sinecuras tais como a de "assistente do sargento- investigações periódicas ou especiais em áreas remotas de sua jurisdição ou
-mor de Pernambuco" eram totalmente desnecessárias. Apesar de o governador mesmo em regiões que normalmente estariam fora do seu controle não era
ter se queixado a Portugal da eliminação desses cargos, o Conselho da Fazenda invenção recente. Hm Portugal, corregedores tinham, tradicionalmente, execu-
apoiou a ação da Junta.54 tado essa função e desembargadores eram periodicamente mandados em mis-
As Câmaras municipais em Salvador e Pernambuco relutaram crn subme- sões investigatórias especiais. A novidade no Brasil era o uso regular de desem-
ter seus livros-razão à inspeção de Farto da Costa. A Câmara da Bahia chegou a bargadores residentes como investigadores judiciais em áreas remotas.
acusá-lo de retirar ilegalmente fundos dos cofres do imposto sobre o vinho e A geografia administrativa do Brasil no século xvji dividia a colónia em
usá-los sem autorização."' Do mesmo modo, os membros da Relação não esta- quatro grandes unidades. O Norte distante, o estado do Maranhão, era admi-
vam satisfeitos com as ações da Junta. Os desembargadores que tinham cedido nistrado diretamente de Lisboa e, depois de 1621, tinha seu próprio governador-
ao hábito de dar emprego a amigos e assistentes ressentiram-se da revelação -geral. A costa do Nordeste era dominada por Pernambuco, a capital económica
dessas sinecuras. Os apelos dos culpados desembargadores, das Câmaras muni- do Brasil. Essa capitania e a vizinha Paraíba continham mais lavoura de cana e
cipais e do governador contaram com pouca simpatia em Portugal e o Conselho um comercio de pau-brasil maior do que qualquer outra região do Brasil. Foi
da Fazenda apoiou as ações da Junta, consideradas de "muito fruto e proveito a um empreendimento altamente lucrativo para o clã Albuquerque Coelho, pro-
fazenda de Vossa Majestade".5Ó prietário legal da capitania. Na costa central a Bahia dominava a região e eclipsava
As ações da Junta obviamente desagradaram a muita gente, mas em geral os vizinhos Ilhéus, Porto Seguro, Espírito Santo e Sergipe d'El Rey; a capitania de
seus eíeitos foram benéficos para a colónia. Na conclusão do seu serviço no transição entre Pernambuco e Bahia. As capitanias meridionais, politicamente
Brasil, em 1616, André Farto da Costa obteve cartas de recomendação da independentes da Bahia de 1608 a 1613, eram administradas do Rio de Janeiro, a
Câmara da Bahia, do desembargador Francisco da Fonseca e de Vasco de Sousa capital do Sul, onde a família Correia de Sá dominava. Mais para o sul, a capitão ia
Pacheco, capitão-mor de Pernambuco, que jurou que "depois da vinda da Junta de São Vicente continha a atípica cidade interiorana de São Paulo, centro conhe-
a este Fstado, questões do tesouro real [...] foram tratadas da forma apropriada, cido por sua indiferença à autoridade central e pela natureza exaltada e indepen-
de um modo diferente do que se fazia anteriormente".57 Conflitos com as dente de seus habitantes predominantemente mestiços.
Câmaras municipais, com o governador e mesmo com a Relação foram relati- Os funcionários de cada capitania, fossem nomeados pelo rei ou pelo
vamente abafados e a Junta prestou notável serviço à colónia, apesar de alguns proprietário, eram submetidos a uma investigação no término de seu tempo de
abusos terem persistido. A Junta da Fazenda era separada da Relação, mas a serviço. Ao fim de cada triénio, a Relação fazia um exame do desempenho do

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funcionário que saía.58 Tais investigações ocorriam no Brasil antes da chegada da Janeiro em 1612 para fazer uma devassa do ouvidor-geral do Sul e do governa-
Relação, mas, logo que o estabelecimento de um Tribunal Superior para a colónia dor do Rio de Janeiro, Afonso de Albuquerque. Em nome do governador do
foi planejado, sua responsabilidade por essas tarefas foi autorizada pela Coroa.59 Brasil, Bravo também ficou com a responsabilidade de reintegrar as capitanias
Como presidente da Relação, o governado r-gê r ai escolhia um desembar- meridionais ao resto do Brasil.62 A situação no Rio de Janeiro era turbulenta.
gador para visitar a capitania e realizar a investigação necessária. O governador- Afonso de Albuquerque e seu aliado, o prelado Matius Aborim, tinham insul-
-geral — ou, em sua ausência, o chanceler — dava instruções e autorização para tado a Câmara municipal a tal ponto que os vereadores abertamente fizeram
o inquérito e esperava-se que o magistrado nomeado tomasse conhecimento de pouco da autoridade do governador local. Albuquerque revidara ordenando a
quaisquer outras irregularidades cometidas na área. Esperava-se, também, que prisão do presidente da Câmara e, quando o ouvidor se recusou a cumprir a
anunciasse a investigação num raio de seis léguas da cidade em questão e exi- ordem, também foi preso. A cidade estava em pé de guerra e Bravo esperava
gisse testemunhos e acusações. Os documentos pertinentes eram então enca- restaurar a ordem e punir os culpados. Mas descobriu que todos os seus movi-
minhados para a Relação, juntamente com a opinião do desembargador. mentos eram barrados pelo governador e pelo prelado; o governador prendeu
Normalmente, o desembargador examinava o desempenho de alguns a guarda do desembargador e o prelado o excomungou, impedindo, com isso,
funcionários e geralmente sua viagem incluía mais de uma capitania. Manoel que exercesse cargo público. Os ânimos se inflamaram e, a certa altura, alguém
Pinto da Rocha foi autorizado em 1620 a fazer uma devassa do capitão-mor e disparou uma flecha com um recado ameaçador nos alojamentos de Bravo. A
de todos os funcionários judiciais e fiscais de Itamaracá, assim como do capi- situação só foi controlada em dezembro de 1613, quando Constantino Menelau
tão-mor e do ouvidor da Paraíba.60 O desembargador viajou acompanhado de foi nomeado para substituir Afonso de Albuquerque.63
pelo menos um escrevente e um meirinho. Manoel Jácome Bravo, enviado às Manoel Jácome Bravo tinha recebido seu batismo de fogo, mas logo perce-
capitanias do Sul em 1614 para fazer uma residência do ouvidor-geral do Sul, beu que suas tribulações não haviam acabado. Seguindo do Rio para São Paulo,
fez-se acompanhar de um escrevente, um meirinho, uma guarda de quatro sol- ele esperava continuar sua investigação sobre o estado da justiça nas capitanias
dados e dois negros armados de piques, cada um dos quais recebia uma diária meridionais. São Paulo, interiorana e remota, não estava acostumada à supervi-
paga pelo Tesouro. Um incentivo para agir com rigor, entretanto, estava presente são regular do ouvidor-geral do Sul e os magistrados locais aplicavam leis desa-
na estipulação de que essas diárias e o salário do desembargador seriam aumen- gradáveis com calculada negligência.64 Como a principal ocupação de muitos
tados se pudessem recair sobre os bens dos culpados.61 paulistas era caçar índios para escravizar, a lei de 1609 não fora bem recebida, e
Embora a Relação, como tribunal de apelação, exercesse suas tarefas nas mesmo depois da lei de 1611 o tópico continuara especialmente controvertido
capitanias quando convocada por uma parte ofendida, agindo, assim, de e potencialmente explosivo.
acordo com a vontade dos colonos, sua função corno instituição investigatória A chegada de Bravo a São Paulo foi motivo de consternação, especialmente
e semiadministrativa era motivo de animosidade e rancor regionais. Em quando ele começou a tratar de "questões do sertão".65 Os moradores da cidade
nenhum outro lugar isso era mais evidente do que nas capitanias meridionais, responsabilizaram a Câmara por não proteger os interesses locais e o advogado
onde o status judicial semi-independente e o curto histórico de separação da Câmara tentou dissuadir Bravo de continuar a explorar esse aspecto de sua
administrativa tornavam seus habitantes muitos sensíveis ao controle ou à investigação, porque, disse ele, o resultado seria a fuga dos moradores da área e
interferência centrais. Em 1612, 1619e 1624, um magistrado da Relação foi o despovoamento da terra.66 Mas a resposta paulista não foi inteiramente verbal
enviado para o Sul em missões de investigação, inspeção e revisão. Cada um e houve atentados contra a vida de Bravo em várias ocasiões, com flechas dispa-
deparou com a hostilidade de algum grupo ou funcionário e vez por outra o radas contra sua janela. Os desembargadores enviados para manter a lei e a
resultado foi o desafio ao desembargador visitante. ordem em São Paulo achavam sua missão perigosa sempre que tocavam no
Esse foi certamente o caso quando Manoel Jácome Bravo chegou ao Rio de nervo sensível da questão indígena.

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A hostilidade e a oposição encontradas por Manoel Jácome Bravo talvez gadores a tomar medidas administrativas que não estavam previstas especifi-
tenham influenciado seu sucessor, Antão de Mesquita de Oliveira, a adotar uma camente em suas instruções. Esta não era uma inovação surpreendente.
atitude menos ofensiva aos interesses locais. E provavelmente suas relações Corregedores em Portugal e ouvidores no Brasil tinham exercido autoridade
pessoais com a elite colonial o tornaram mais sensível a seus sentimentos. Ele semelhante — fato que no último caso explica por que os proprietários no
chegou às capitanias do Sul em 1619, com instruções para fazer uma residência Brasil com frequência reuniam as funções de ouvidor e de capitão- mor. Para a
de Conslantino de Menelau, o antigo governador do Rio de Janeiro. O novo colónia em sua totalidade, entretanto, a autoridade administrativa continuou
governador, Rui Vá z Pinto, acusou o desembargador de não processar nas mãos do governador-geral.
Constantino de Menelau e outros culpados de corte ilegal de pau-brasil e de A visita feita em 1624 às capitanias meridionais pelo desembargador João
cooperar com eles para obstruir a justiça. Parece que Antão de Mesquita tentava de Sousa Cardenas demonstrou suas funções de corregedor e provocou a típica
não contrariar a população, ainda que isso resultasse nas acusações feitas pelo resistência de grupos regionais e privados à interferência central em questões
governador do Rio, Rui Vaz Pinto.67 locais.69 O próprio Cardenas declarou que sua missão era conduzir uma resi-
Antão de Mesquita chegou a São Paulo em 1619. Ele regulamentou o pro- dência dos ouvidores e dos capitães-mores das capitanias do Sul, mas o registro
cesso eleitoral da Câmara, limitou a jurisdição original do ouvidor ao costu- existente de suas ações no Rio de Janeiro informa que ele veio "em correição".""
meiro raio de dez léguas, ordenou o fortalecimento da cadeia de Santos e ins- No Espírito Santo ele ordenou o reparo de prédios públicos, fez prisões, elimi-
truiu a Câmara a manter a estrada de São Paulo para Santos em boas condições. nou violações em procedimentos sucessórios e instituiu um novo imposto —
Como membro da Relação, Mesquita não podia ignorar a questão da liberdade tudo sem encontrar dificuldade.71 No Rio, porém, suas ações provocaram
indígena. Sua abordagem mais cautelosa consistiu em eliminar o atrito causado furiosa resistência. Ele ordenou obediência aos regulamentos existentes e emi-
pelo problema, em vez de atacar frontalmente os interesses especiais e as causas tiu novos, muitos deles diretamente relacionados às obrigações e aos poderes da
subjacentes. Ordenou multa pesada e prisão para qualquer um que tomasse um Câmara. 72 Essas medidas administrativas deixaram claro que o magistrado
índio de outro homem e reiterou a lei existente contra o cultivo de terras per- podia exercer poderes que normalmente eram prerrogativas de funcionários e
tencentes aos índios. Antão de Mesquita parecia mais interessado em preservar instituições locais. Tsso não surpreende, entretanto, uma vez que a separação
as prerrogativas da justiça real do que em enfrentar a questão indígena e ressal- entre os governos local e central nunca foi claramente definida.
tou que os infratores das leis contra a escravização estavam sob autoridade civil Duas ações, mais do que quaisquer outras, porém, despertaram a contra-
e não eclesiástica.^ Como resultado dessa atitude, ele encontrou pouca resis- riedade dos cidadãos e das autoridades do Rio de Janeiro. Em primeiro lugar,
tência em sua viagem de inspeção. Cardcnas, por ordem do governador-geral, Diogo Mendonça Furtado, criou
Está claro que por volta de 1619 as devassas periódicas de funcionários um novo imposto (avaria) para cobrir os custos do fortalecimento das defesas
feitas por magistrados cia Relação estavam vinculadas a uma viagem de inspe- da Bahia e de Pernambuco. A ameaça de ação militar holandesa contra o Brasil
ção e correção mais geral, na qual o desembargador itinerante se responsabili- era real e Filipe iv naturalmente esperava que os portugueses pagassem por sua
zava pela revisão e pela correção das condições locais. O poder de rever as própria defesa. Ele deixou, porém, de levar em conta o ressentimento portu-
ações dos administradores locais e de aprovar ou anular seus atos era, em si, guês e os interesses locais. No Rio de Janeiro, o novo imposto foi considerado
pelo menos uma função semiadministrativa. Além disso, esses magistrados um fardo tributário que beneficiava apenas a Bahia e Pernambuco e uma
por vezes desempenhavam funções administrativas, como impor ou regula- multidão irada obrigou Cardenas a buscar refúgio em Água da Carioca, a meia
mentar novos impostos, mas esse poder ainda emanava das ordens do gover- légua da cidade.73
nador. Uma vez em cena, porém, as condições locais e a necessidade de ação O infeliz desembargador também provocou forte oposição com sua
imediata em uma época de comunicação íenta às vezes levavam os desembar- reforma do processo eleitoral da Câmara. O poder de revisar as eleições m u n i -

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cipais tinha sido expressamente concedido a corregedores, ouvidores e desem-
bargadores por uma lei de 12 de novembro de 1611, publicada em Portugal e
8. Magistratura e sociedade
registrada no Livro de Ouro da Relação, mas Cardenas pôs a lei em vigor
tirando do rol de eleitores todos aqueles que não moravam ou não mantinham
ao menos uma residência na cidade.74 Moradores das áreas circunvizinhas,
empregados que recebiam por seus serviços, estalajadeiros e vendedores tam-
bém foram excluídos. As mudanças perturbaram os padrões de poder e
influência existentes e eram, obviamente, prejudiciais a elementos importantes
da sociedade. Cardenas sofreu pressões, queixas contra ele foram encaminha-
das a Portugal e parece que em determinado momento ele foi preso, juntamente
com o ouvidor local. Mesmo assim, suas reformas foram implantadas.75
O uso de desembargadores da Relação como juizes itinerantes nas capita-
nias do Brasil, somado à suas frequentes ausências da Bahia no cumprimento
de seus deveres normais, teve efeito deletério no desempenho do Tribunal
Superior. Levantamentos de agrimensura geralmente tiravam o magistrado do
tribunal em Salvador e as tarefas de juiz dos órfãos também incluíam uma via-
gem anual de inspeção de questões sucessórias em outras áreas.76 A contínua Porque do casar [os desembargadores] se seguem dois danos: o pri-
ausência dos juizes de Salvador e seu uso, pela Coroa, em funções não judiciais meiro aparentar-se com quase toda esta terra, de que ficam sendo
provocavam atrasos cada vez maiores na administração de justiça na colónia. A suspeitos. O segundo adquirirem fazendas de patrimónios com que se
interferência dos magistrados em questões locais durante inspeções nas capita- seguem contendas, demandas e às vezes brigas,
nias era motivo de animosidade, especialmente quando os interesses do Gov. António Luís da Câmara Coutinho (Bahia, 25 de junho de 1691)
governo central iam de encontro aos interesses das elites políticas ou socioeco-
nômicas locais. Os sóbrios magistrados graduados na Universidade que desembarcaram
no cais de Salvador em junho de 1609 penetraram num mundo colonial, um
universo social baseado em modelos portugueses tradicionais, mas moldado
para acomodar e superar as peculiaridades de uma sociedade e de uma econo-
mia em formação. Os magistrados representavam poder e status para essa
sociedade, não apenas coletivamente, como tribunal, mas individualmente
também. Em vista disso, uma descrição das ações do Tribunal Superior não
pode explicar, por si mesma, o impacto desse órgão na sociedade brasileira.
Burocratas são humanos e ignorar esse truísmo é perder de vista as relações
dinâmicas existentes entre burocracia e sociedade. A história do impacto da
burocracia no Brasil colonial é a história dos múltiplos, e por vezes divergentes,
objetivos do governo metropolitano, dos interesses coloniais e dos próprios
magistrados, seja individualmente, seja em grupo. Cada fator dessa equação

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burocrática buscava dominar os outros e apropriar-se de certos recursos ou A Coroa usava dois métodos para assegurar a lealdade, a imparcialidade e
vantagens. Os fracassos e sucessos de cada um são, em certo sentido, a história a eficácia administrativa dos juizes. Primeiro, por serem os desembargadores
da formação social e política do Brasil colonial. representantes da autoridade real, todos os esforços eram empregados para
A Coroa percebeu que pressões sociais e económicas poderiam ser exercidas elevá-los acima da sociedade e dar-lhes, por meio de prestígio, rique/a e
sobre a magistratura profissional e que a formação de vínculos entre os magistra- influência social, uma posição de respeito inatacável. ,\e colonial dava
dos e a sociedade poderia criar metas alternativas além daquelas sancionadas grande importância ao status atribuído. Um rico proprietário de terras com
pelas normas burocráticas. Em grande medida, a legislação relativa à magistra- veleidades de nobreza não acedia prontamente à lei aplicada por homens eme
tura profissional foi projetada para organizar todos os comportamentos magis- ele considerava socialmente inferiores. Como veremos, .muito poucos desem-
tráticos de acordo com padrões que servissem às finalidades administrativas reais. bargadores provinham de famílias fidalgas e por isso lhes faltava <-\l pree-
A justiça real e a burocracia real baseavam-se na honestidade e na imparcialidade minência social da nobreza.3 A Coroa fazia tudo o que estava ao .seu alcance
da magistratura e, ao mesmo tempo, em sua obediência e lealdade ao rei. Talvez o portanto, para assegurar c respaldar a dignidade e a posição desses jui/cs.
juramento que cada desembargador fazia ao assumir formalmente o cargo seja a Desembargadores recebiam altos salários, gratificações financeiras c isenções
melhor medida do que a Coroa esperava de seus juizes. Dizia o juramento: de certos impostos. A pessoa dos juizes se fazia inviolável. Ataques físicos a um
desembargador eram punidos com a morte e calúnias contra ele resultavam em
Que não dei a nenhuma pessoa, darei nem prometi dar, nem mandar, nem man- exílio penal. 4 Magistrados geralmente recebiam hábitos nas ordens militares,
darei coisa alguma, e alguma pessoa por causa de me ser doado este ofício f...l especialmente na cobiçada Ordem de Cristo. Na colónia, os desembargadores
observarei bem direita e fielmente e guardarei inteiramente o serviço de Deus e do ocupavam lugares de honra em diversos acontecimentos civis e religiosos. A
dito Senhor (El-Rei) e o direito e justiça igualmente as partes de qualquer natu- visão de eruditos juizes de toga preta marchando logo atrás do governador e do
reza, sorte estado preeminência e condição que seja.1 bispo demonstrava, simbolicamente, a união desses funcionários e a elevada
posição do juiz na sociedade. Ao mesmo tempo, as vantagens de privilégio e
Relatórios do governador e devassas periódicas apresentam outra medida posição não deixavam de agir sobre os magistrados. Eslava claro que favores
do que a Coroa considerava como comportamento magistrático aceitável. A fluíam da Coroa c que importantes recompensas poderiam advir da obediência
repetição de expressões como "de bom entendimento" e "de boas letras" aparece às normas burocráticas.
continuamente nas avaliações laudatórias dos magistrados.2 Essas descrições Enquanto tentava assegurar o status dos magistrados, a Coroa também
indicam que a competência profissional era altamente valorizada. Além disso, buscava isolá-los da sociedade em que viviam. Esperava-se que os magistrados
esperava-se dos juizes reais queprojetassem certa imagem. A Coroa queria que morassem perto uns dos outros e limitassem suas permutas sociais com o resto
a vida pessoal deles fosse caracterizada por grande sobriedade e adjetivos como da sociedade. O casamento com mulheres brasileiras foi expressamente proi-
"sério, grave, capaz e prudente" estavam entre os mais altos elogios que um bido pelo alvará de 22 de novembro de 1610, muito embora, a pedido, a Coroa
magistrado podia receber. Acima de tudo, entretanto, a expressão que aparece pudesse abrir exceção.5 Regulamentos reais também proibiam o magistrado de
como um refrão nas avaliações dos magistrados é "limpeza de mãos" Um juiz ter um negócio ou de possuir terras na área de sua jurisdição.0 Por trás dessas
de mãos limpas era um juiz não corrompido por suborno, malfeitoria ou inte- medidas havia a crença básica de que a magistratura seria capaz de funcionar
resses pessoais — um homem que se mantinha totalmente afastado da influên- em um vácuo social, longe das pressões de família, de amizade ou de interesse.
cia de outros e que vivia guiado apenas pelos regulamentos de sua profissão e Tal ideia era utópica, para dizer o mínimo.
pelos desejos da Coroa tais como expressos em ordenações reais. Taís homens Isolar os desembargadores da sociedade era impossível. Os magistrados
eram poucos e raros. não eram nem piores nem melhores do que a sociedade em que viviam e tom

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frequência eles tentavam usar o cargo para obter benefícios pessoais. Suborno e como razão suficiente para abolir o Tribunal Superior. Os defensores afirma-
subversão da justiça naturalmente não foram registrados, mas nos registros da vam, entretanto, que o problema estava nos abusos cometidos por indivíduos e
primeira Relação aparecem insinuações de tais atividades. Num caso, António não na estrutura judicial. Fossem quais fossem os problemas da Relação, a pre-
das Póvoas foi declarado inapto para o serviço num comité financeiro porque sença de dez magistrados de olho uns nos outros era, sem dúvida, preferível ao
era suspeito em algumas questões examinadas. Noutro caso, a Coroa ordenou sistema anterior, em que um ouvidor-geraí agia relativamente sem supervisão.
ao governador Gaspar de Sousa que investigasse as condições que cercavam a Como escreveu um observador anónimo em 1626: "Se o bom cheiro de âmbar
concessão de certo contrato de dízimo, a fim de determinar "se o contratador ou dinheiro ou o ruim do negro pode tanto que chegando ao olfato de um
teve um entendimento com os juizes do Tribunal Superior que os levasse a impede a justiça em uma Relação, que fará se chegar a um só que não só há de
tomar decisões tão extraordinárias e favoráveis em seu benefício".7 Menos escu- cheirar mas gostar? Que sentenças dará? Será sua vontade Lei?"13
sas, mas não menos ilegais, eram as atividades económicas dos magistrados da Os esforços reais para elevar os desembargadores acima da sociedade e
primeira Relação. Vestígios de suas transações podem ser vistos em documen- separá-los dela tiveram efeito exatamente oposto. A riqueza, o poder, o status e
tos da época. O desembargador Francisco da Fonseca adquiriu em 1609 uma a posição dos desembargadores tornavam o contato com eles tanto mais dese-
sesmaria do governador, uma grande concessão de seis léguas quadradas na jável para importantes grupos socioeconômicos ou grandes famílias. Os víncu-
rica região canavieira do Recôncavo.8 Pêro de Cascais meteu-se em muitos los entre os magistrados e a sociedade podem ser classificados em duas catego-
empreendimentos comerciais, como o equipamento de navios para a tempo- rias: não ritualizados e ritualizados. Na primeira categoria, diversas formas de
rada baleeira de 1613. Essas atividades lhe trouxeram muitas dívidas e muitas associação voluntária, de amizade e de parceria constituíam os principais
dores de cabeça jurisdicionais.9 conectivos. A dignidade e o poder dos desembargadores tornavam-nos amigos
A instituição da escravidão permeava de tal maneira a sociedade do Brasil prediletos e membros bem-vindos de certas organizações locais. Não é surpresa
colonial que os desembargadores não estavam livres de seus efeitos. A maioria encontrar Manoel Pinto da Rocha, chanceler da Relação, servindo como prove-
parece ter aderido às fileiras dos proprietários de escravos ao chegar ao Brasil e dor da Santa Casa da Misericórdia. A Misericórdia era uma irmandade benefi-
alguns se envolveram no negócio do tráfico de escravos. Um livro de registro cente que sempre incluía os cidadãos mais respeitáveis da cidade entre seus
dos escravos recebidos de Angola sob contrato de António Fernandes de Eivas sócios. O provedor era o mais alto funcionário da Misericórdia e obviamente
relaciona a aquisição de escravos africanos pelos desembargadores Rui Mendes Manoel Pinto da Rocha fora escolhido por seu prestígio de chanceler da Relação.
de Abreu e Afonso Garcia Tinoco. Rui Mendes de Abreu comprou um adulto e Na realidade, no começo do século xvm o cargo de provedor da Misericórdia era
duas crianças em 1618, enquanto Afonso Garcia Tinoco comprou três escravos geralmente controlado pelos desembargadores do Tribunal Superior.14
de Angola entre 1619 e 1620.10 Mas este não foi o primeiro contato de Afonso As tentativas das instituições ou grupos coloniais de se apropriar do poder
Garcia Tinoco com a carne africana, pois em julho de 1612 ele tinha vendido e do prestígio dos desembargadores para os objetivos da entidade corporativa
sete africanos em hasta pública na Bahia, em nome do amigo ou sócio André também ocorriam no nível individual. É compreensível que Jerônima Fernandes,
Velho Fonseca, magistrado em Angola.11 Dados censitários do século xvm e velha e honrada viúva, dispusesse em seu testamento que seu neto viveria e
referências ocasionais do fim do século xvii indicam que escravos dos desem- estudaria com o desembargador Antão de Mesquita, de modo que o menino
bargadores eram utilizados basicamente como criados domésticos ou carrega- um dia pudesse tornar-se padre ou frade. No culto e respeitado magistrado o
dores. Magistrados com grandes propriedades agrícolas usavam trabalho rapaz teria um professor capaz e um poderoso protetor.15
escravo em suas terras.12 Entre os métodos ritualmente sancionados de vinculação social entre os
Críticos da Relação e do judiciário em geral (e sempre houve muitos) magistrados e a sociedade, o casamento era, sem dúvida, o mais importante.
apontavam a indiferença aos estatutos e as negociatas dos desembargadores Embora o estatuto real e os precedentes admoestassem contra a união de juizes

150
da Coroa com moradores locais, peio menos 17% dos 168 desembargadores F T G U R A 2 — CONEXÕES MATRIMONIAIS DOS ORSl-
que serviram no Brasil antes de 1759 casaram-se com brasileiras.16 Cada união ANTÃO D R MESQUITA E MANOEL PINTO DA ROCH \s e lhes oferecia oportunidades econ

enredava o noivo numa extensa rede de ligações de família e obrigações sociais.


Certamente, a possibilidade de conflito com parentes da esposa não estava
ausente no século xvu, mas o método formal de contrato de casamento e corte
— para n^o mencionar os interesses de família nos arranjos matrimoniais —
sem dúvida reduziu o nível ou a frequência de tais conflitos. O casamento era
um empreendimento comercial tanto para os juizes como para as famílias
coloniais. Além da satisfação de certas necessidades sociais, sexuais e psíquicas,
o juiz buscava posição económica, enquanto a família esperava incorporar o
poder, o prestígio e o status do desembargador na rede familiar. Havia, em
outras palavras, uma troca de recursos, com expectativas de reciprocidade e
esperança mútua de vantagens.17
Do grupo original de dez desembargadores, dois se casaram no Brasil, c a
natureza das famílias nas quais se casaram dá ideia do tipo de vínculo que essas
uniões criavam. Os dois desembargadores se casaram com filhas da aristocracia
canavieira pernambucana. Antão de Mesquita recebeii licença real para casar-se
com Antônia Bezerra, filha de Paulo Bezerra, senhor de engenho e, posterior- magistrados do Tribunal Superior. Por sen turno, as grandes famílias colo-
mente, vereador da Câmara municipal de Olinda. 18 O desembargador Manoel niais não poderiam deixar de perceber as vantagens reais e potenciais de ter
Pinto da Rocha também encontrou esposa na aristocracia pernambucana. um amigo no tribunal e, quem sabe, com o tempo até mesmo um parente nos
Casou-se com Catherina de Frielas (Lopes) em 28 de junho de 1612, na catedral conselhos do rei.
de Olinda.' 9 Foi o segundo casamento de sua mulher e, ao que tudo indica, Um segundo conjunto possível de vínculos ritualizados enlre os magistra-
Pinto da Rocha foi introduzido num relacionamento familiar com a família dos e a sociedade colonial era formado pelo compadrio. Ser padrinho de baí ismo
Bezerra Barriga, à qual Antão de Mesquita também passara a pertencer por ou testemunha de casamento para alguém criava obrigações aceitas reciproca-
casamento. Esta era uma das grandes linhagens de Pernambuco, com origens mente e sancionadas religiosamente. Tais relações estendiam a genealogia social
nos Paredes, de Viana do Castelo, no norte de Portugal.20 ou soma dos vínculos sanguíneos, rituais e pessoais de um indivíduo para
Se, de fato, o pai da esposa de Antão de Mesquita era o mesmo Paulo muito além dos limites biológicos ou de parentesco por casamento. Numa área
Bezerra irmão de António Bezerra, marido da irmã da esposa de Pinto da de intensa competição pelos escassos recursos, tais relações desempenhavam
Rocha, então os dois desembargadores estavam vinculados a um dos mais um papel significativo. Infelizmente, existem poucos registros paroquiais baia-
poderosos clãs do Brasil colonial. Manoel Gonçalves Cerqueira, o enteado do nos para o período da primeira Relação, mas registros contemporâneos de
desembargador Manoel Pinto da Rocha, era um cavaleiro da Ordem de Cristo Portugal e a prática dos desembargadores na Bahia no fim do século xvu permi-
e familiar da Inquisição no Brasil. Sua esposa, Isabel Cavalcanti, pertencia à tem supor, com segurança, que os magistrados do primeiro tribunal baiano
grande família Cavalcanti Albuquerque, que dominava as capitanias seten- também mantiveram essas relações.21
trionais da colónia. Fossem quais fossem os sentimentos pessoais envolvidos, As relações primárias tendiam a crescer numa proporção quase geomé-
a ligação com essas famílias representava um grande atrativo para os magis- trica. Uma vez estabelecido o primeiro contato, fosse por casamento, sociedade

1S2 153
ou outra forma qualquer, as relações logo se acumulavam. Como uma pedra trativa e a politicagem interna geralmente tinham mais peso do que os apelos
jogada num lago, não havia como prever onde os círculos de parentesco e ami- coloniais. A dificuldade de influenciar a formação de leis na metrópole e a falta
zade iam acabar. Além disso, as relações ritualizadas e não rituaíizadas pareciam de instituições representativas na colónia obrigavam os grupos de interesse no
agrupar-se em volta dos mesmos indivíduos. Uma vez integrado na estrutura Brasil a exercer pressão sobre funcionários do governo em nível local. A corrup-
de parentesco, o magistrado era aceito como membro da sociedade colonial ção permitia a esses grupos influenciar a lei no nível da aplicação, uma vez que
Certamente não por acaso Manoel Pinto da Rocha foi escolhido provedor da sua influência na formulação política estava restrita de diversas maneiras. Os
Misericórdia. Basta o fato de que ele era um dos dois magistrados do primeiro laços entre os burocratas reais e a sociedade colonial davam espaço para consi-
tribunal que se casaram com brasileiras. Na realidade, todos os desembargado- derável interação e para a expressão dos interesses coloniais dentro da estrutura
res que ocuparam esse cargo antes de 1755 eram casados com brasileiras, formal de governo.23 É preciso deixar claro, entretanto, que nem todos os seg-
quando não eram brasileiros de nascimento.22 Além disso, tal associação, quase mentos da população colonial tinham acesso a essa forma de influência. O tipo
invariavelmente, levava à aquisição de propriedades, fosse por meio de arranjos de recurso social ou económico que levava os magistrados a estabelecer relações
de dotes, fosse por herança. primárias só podia ser oferecido, no Brasil do século xvn, pela elite canavieira
A considerável divergência entre as normas burocráticas estabelecidas branca, por outros funcionários do governo e possivelmente por uns poucos
para o desempenho do corpo de magistrados e as muitas violações dessas regras comerciantes atacadistas exportadores. Era pequena a possibilidade de que um
parece irreconciliável. Essa dicotomia não resultou, entretanto, no colapso do sapateiro mulato ou um agricultor branco pobre se tornasse sogro ou sócio
sistema administrativo. Para compreender por quê, precisamos inserir uma comercial de um desembargador.
terceira categoria, a de "comportamento aceitável", em algum lugar entre a Usando o critério do comportamento aceitável, também é lícito perguntar
legalidade e a prática efetiva. Embora a lei estipulasse que nenhum juiz podia se as relações primárias não poderiam ser igualadas com o suborno como
ter laços de parentesco dentro da área de sua jurisdição, a Coroa podia permitir forma de corrupção. De acordo com as normas burocráticas, esse era o caso,
certo grau de desvio desses princípios legais. Mas, quando um magistrado mas os padrões comunitários obviamente permitiam uma interpretação dife-
ultrapassava os limites do comportamento aceitável, então a letra da lei podia rente. Pode-se avaliar essa diferença verificando até que ponto o mando do
ser estritamente aplicada e a violação punida. Tal modelo punha a avaliação da sigilo acobertava as ações de um magistrado. Nenhum desembargador diria
conduta e o controle definitivo do desempenho burocrático nas mãos da Coroa, publicamente que recebeu comissão ou que se envolveu em suborno, ao passo
apesar de dar margem a considerável flexibilidade. Esta era, talvez, a única que seus laços de parentesco e amizade e, até certo ponto, suas transações
maneira de conciliar as demandas do governo real com os desejos dos magistra- comerciais podiam ser do conhecimento de todos. Obviamente, existia um
dos e as necessidades dos moradores da colónia. padrão comunitário, além dos regulamentos escritos, e os desembargadores
De um ponto de vista estritamente legal, os laços pessoais, os contatos obedeciam ao primeiro com mais frequência do que aos últimos. A divergência
comerciais e os vínculos de parentesco eram formas anormais de comporta- entre o que a burocracia e a colónia entendiam por corrupção pode explicar
mento, que prejudicavam o bom funcionamento do governo. Tal definição por que os colonos ora atacavam o Tribunal Superior como instituição cor-
obscurece os aspectos funcionais das relações primárias e das diversas formas rupta, ora corriam em sua defesa, quando a Coroa tomava providências contra
de corrupção. O sistema político do Império português carecia de mecanismos os juizes que pareciam, pela amplitude de suas relações pessoais, mais corruptos
bem definidos de expressão dos interesses de grupo. Os representantes coloniais do que os outros.
não eram incluídos sequer nas reuniões das Cortes (a Assembleia dos Três A importância das relações de família e primárias na sociedade do Brasil
Estados), que ocorriam raramente e quando o rei queria; e, muito embora indiví- colonial seria difícil de superestimar. Embora historiadores modernos com
duos ou grupos pudessem peticionar diretamente à Coroa, a inércia adminis- frequência ignorem ou depreciem as histórias genealógicas do Brasil colonial,

154 155
essas obras de fato refletem o entendimento que os seus autores tinham da jurisdicionais que afligiram a sociedade colonial podem ter surgido de bridas c
realidade e sublinham a importância do parentesco nessa sociedade. Não é de animosidades pessoais, tanto quanto de conflitos institucionais
surpreender, portanto, que burocratas profissionais esperassem utilizar rela- Muito embora membros da sociedade colonial pudessem usar prestíeio
ções primárias ou de parentesco para complementar os recursos sociais e eco- poder e influência para incorporar ou negar a autoridade do Tribunal Superior
nómicos oferecidos por sua profissão. Pelo fim do século XVTI, os desembarga- e subverter a liberdade da justiça por meio de pressões exteriores, a Relação
dores geralmente chegavam ao Brasil acompanhados de família, amigos e nunca se tornou propriedade de nenhum grupo da sociedade braMleim
dependentes, que também formavam suas próprias genealogias sociais, com Integridade profissional, orgulho, malícia e devoção à Coroa contribuíam para
isso enredando mais ainda os magistrados na sociedade colonial. a manutenção da autonomia institucional em face de pressões de p.rupos e
A ênfase na cooperação e ern relações primárias amistosas não deve obscu- indivíduos. Os magistrados movidos por considerações de carreira dependiam
recer o fato de que relações primárias não categóricas também podiam ser da Coroa para promoções e recompensas. Era a velha história da dependência
hostis. Um magistrado podia ser coagido e não lisonjeado. Ern 1681, Cristóvão mútua entre a magistratura e o poder real, apenas ligeiramente alterada na
de Burgos, desembargador no Brasil durante 26 anos, escreveu que homens colónia. O interesse real jamais poderia ser cornpletamente submetido a objcti-
poderosos geralmente ameaçavam magistrados na colónia e sentenças não vos pessoais, se houvesse alguma esperança de avanço profissional. Grupos c
eram executadas.24 Suas declarações também poderiam ser aplicadas à segunda indivíduos dominantes na sociedade brasileira acharam, portanto, difícil desa-
década do século xvn. As transações comerciais e as grandes dívidas em que fiar a Relação.
alguns magistrados incorriam os tornavam especialmente vulneráveis a quedas Ninguém estava fora da esfera de poder do tribunal Jorge Lopes da Costa,
de braço financeiras. Um bom exemplo é o caso de Pêro de Cascais, que pren- o advogado demagogo da Câmara, foi banido da Bahia por breve período por
deu dois homens por perturbarem a ordem pública. Os arruaceiros eram insultar o ouvidor-geral. Costa tinha entre seus clientes e protetores a condessa
capangas do provedor-mor Sebastião Borges, que acusou o desembargador de de Linhares, os jesuítas e António Fernandes de Eivas, dono do contrato de
participação num esquema de caça à baleia. Obviamente, a eficácia do juiz foi escravos angolanos, mas a Relação não aceitara desaforos dele.2' Aincia mais
prejudicada por sua vulnerabilidade em questões não burocráticas. Cascais representativo é o caso de Luís de Aguiar, residente no Brasil havia 27 anos, piloto
alegou, em sua defesa, que era um juiz "de portas abertas" e que "desde a desço e capitão da guarda costeira, fluente na língua geral e capaz secretário lega!.
berta do Brasil nem Vossa Majestade nem o povo tiveram outro que servisse tão Aguiar era um honrado e respeitado membro da comunidade baiana que podia
bem; e este, meu Rei e Senhor, é meu único crime".25 O conflito entre Cascais e obter cartas de recomendação de três ex-governadores e da Câmara municipal
Borges também mostra que grupos primários que possuíam aliados ou mem- de Salvador. Apesar disso, ele entrou em choque com três desembargadores, que
bros burocráticos mas não magistráticos podiam criar dificuldades considerá- o levaram à barra do tribunal. Aguiar alegou ter sido condenado a dez anos nas
veis para os desembargadores. Funcionários gananciosos, ou seus parentes e galés, "mais por seus ódios e paixões que por matérias odiosas".-*
amigos, podiam usar sua posição para contornar a justiça. Pêro de Cascais, o Uma maneira de avaliar a independência do Tribunal Superior é examinar
desembargador valoroso, se bem que às vezes cabeça-dura, da primeira Relação, suas relações com a aristocracia açucareira. No século xvn, esse selor, mais do
mais uma vez oferece um bom exemplo. Certa vez cie prendeu o primeiro-sar- que qualquer outro, exerceu considerável pressão política tanto na colónia
gento António de Azevedo por açoitar o porteiro da Relação. A/evedo era amigo como na metrópole. Não se pode determinar se, como afirmou um observador
e dependente, do governador Gaspar de Sousa e por causa desse incidente contemporâneo, os oficiais de justiça no Brasil foram advertidos pela Coroa
Cascais ganhou um poderoso inimigo na pessoa do governador. A animosidade para evitar molestar os canavieiros.29 Não há dúvida, entretanto, de que o setor
entre Cascais e Caspar de Sousa provavelmente contribuiu para a suspensão de canavieiro podia exercer considerável pressão sobre a Coroa e seus representan-
Cascais em, I(jl4." Incidentes dessa natureza indicam que algumas disputas tes. O desenvolvimento da colónia dependia diretamente da produção agrícola

156
do setor canavieiro. Apesar do contínuo, ainda que declinante, comércio de pau- mente tinham as mesmas origens sociais dos senhores de engenho, mas lhes
-brasil e da constante procura por minerais, açúcar e Brasil tinham se tornado faltava o capital necessário para construir um engenho. Assim, estavam dispos-
sinónimos e a indústria canavieira sempre foi criação do setor privado, fato que tos a fornecer cana para um proprietário, na esperança de um dia acumular
a Coroa reconhecia. A elite canavieira controlava as Câmaras municipais do capital ou crédito suficiente para se tornarem também senhores de engenho A
Nordeste do Brasil e formava urn grupo de influência significativo nos conselhos dominação económica e social marcava as relações dos senhores de engenho
do rei, mas jamais exerceu pleno controle sobre os magistrados da Relação. com os lavradores. Os senhores tratavam os arrendatários e meeiros como
Claramente, a aplicação, pelo Tribunal Superior, da lei de proteção aos dependentes e para estes era caro ou demorado demais recorrer aos tribunais
índios de 1609 tinha esmagado rapidamente qualquer esperança que os cana- metropolitanos. A presença da Relação na Bahia depois de 1609 abriu novos
vieiros pudessem ter alimentado de encontrar no tribunal um aliado dócil. A canais de justiça para os lavradores de cana.
partir de então, ficou claro que os serviços que o Tribunal Superior tinha a ofe- Em 1616, Manoel de Couto, agindo como representante da condessa de
recer aos canavieiros seriam mais do que compensados pela ameaça potencial Linhares, instituiu um novo arranjo pelo qual os arrendatários do seu engenho
que ele representava para o domínio desse setor. de Sergipe do Conde pagariam ao engenho dois terços do açúcar produzido a
A presença da Relação na Bahia facilitou alguns assuntos para os canaviei- cada ano. Os lavradores se opuseram com veemência a esse novo contrato.
ros. Disputas entre iguais agora podiam ser resolvidas a custo menor e em Além disso, alguns deles tinham comprado terras de antigos capatazes do enge-
menos tempo. Pelo menos uma grande proprietária de terras ausente, a con- nho e Couto agora alegava que as vendas tinham sido realizadas sem autoriza-
dessa de Linhares, obteve o direito de ter todas as ações que envolvessem suas ção da condessa de Linhares. Ele fez uma petição solicitando que os então pro-
propriedades ouvidas por um magistrado designado, nesse caso o desembarga- prietários fossem retirados e que toda a terra fosse devolvida ao engenho.
dor Afonso Garcia Tinoco.30 Levantamentos e demarcação de terras eram Advogados do engenho prepararam uma forte súmula em defesa da posição da
outros serviços que o tribunal realizava. As leis exigiam que esses levantamentos condessa, mas a Relação, em duas decisões separadas, pronunciou-se a favor
fossem feitos por um letrado e ao longo de toda a história da Relação os desem- dos lavradores.33
bargadores desempenharam essa tarefa.31 Esse serviço era uma boa coisa, mas Num terceiro caso julgado na mesma época, Francisco de Aguilar de
nem tanto, para os canavieiros. De um lado, direitos sobre uso de água e de Araújo, arrendatário, recusara-se a aceitar o novo contrato de um terço e o
propriedade estavam firmemente estabelecidos, mas no Recôncavo, onde representante da condessa de Linhares tinha aberto um processo de despejo.
grande parte da terra tinha sido adquirida sem títulos formais, esses levanta- Aguilar de Araújo alegava que tinha trabalhado naquele lote durante trinta
mentos ameaçavam o status quo em que os canavieiros tinham capital investido. anos e que havia feito consideráveis benfeitorias na propriedade. Mais uma vez
A eliminação da fraude, a aplicação da lei reguladora e o ordenamento de uma a Relação votou contra o grande engenho e os juizes decidiram que Aguilar de
sociedade indisciplinada, na qual o poder pessoal tinha previamente resolvido Araújo não poderia ser despejado, a não ser que fosse indenizado por todas as
a maioria das disputas, tudo isso fazia da Relação uma ameaça potencial para a benfeitorias que realizara. A decisão, disse Manoel de Couto, foi "cousa que nos
elite canavieira. temos por mui injusta mas como cabia na alçada da Relação do Brasil não ape-
O papel da Relação no julgamento das disputas entre os senhores de enge- lamos a sentença".34
nho e seus arrendatários, meeiros e lavradores de cana é um índice do efeito do A pressão sobre o grande engenho não diminuiu com as decisões adversas
Tribunal Superior sobre os modelos de dominação existentes. Muito embora de 1616. No ano seguinte, Antão de Mesquita, como promotor da Coroa, quei-
em muitas questões os magnatas do açúcar e os lavradores de cana partilhassem xou-se de que a condessa de Linhares tinha tomado muito mais terra do que a
atitudes e interesses comuns, as relações entre arrendatários e senhores de enge- que estava incluída em sua sesmaria original de duas léguas por quatro léguas.
nho também provocavam conflitos entre tais grupos.32 Os lavradores geral- Ressaltou ele que as terras usurpadas pertenciam à Coroa e que essas proprie-

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dades do Recôncavo em Sergipe do Conde nunca haviam sido adequadamente de parentesco que deveria tc-los impedido de servirem simultaneamente na
demarcadas. A posse dessas terras pela condessa representava um prejuízo para Câmara municipal.35 Eles eram homens poderosos, cuja posição se baseava na
o Tesouro real, com o qual a Coroa mal tinha condições de arcar. Tais pressões riqueza e nas relações de família. Gaspar de Amorim era dono de rebanhos, de
sobre a poderosa condessa de Linhares, proprietária que tinha privilégios espe escravos, de sesmarias e provavelmente de um engenho. 37 António -\nclrade
ciais no tribunal, mostravam de que maneira a Relação impedia as atividades Caminha era "nobre de geração e aparentado com a melhor gente de
arrogantes da elite canavieira. 35 Às vezes a Relação podia argumentar em favor Pernambuco donde nela serviu de juiz e vereador da Viilc de Olinda"- M F. inte
dos senhores de engenho e de seus dependentes, mas a autoridade do Tribunal rossante notar que as famílias de Andrade Caminha e Amorim eram ambas de
Superior e o poder independente dos canavieiros estavam condenados a entrar origem galega, fato que Miguel Maciel não deixou de mencionar. 3 '' Tanto
em conflito. Andrade Caminha como Amorim defenderam sua participação conjunta na
A presença da Relação no Brasil, entretanto, não acabou com o poder das Câmara, apesar dos laços de família, alegando que havia pouca gente na ca pita-
famílias interligadas, a maioria delas envolvida na indústria acucareira, nem nia qualificada para preencher o cargo de vereador.
enfraqueceu seu controle das rédeas sociais e económicas da colónia. A utiliza Miguel Maciel não aceitou calado sua suspensão e logo apareceu na casa de
cão de cargos nas Câmaras municipais e na hierarquia judicial local permitia a António Andrade Caminha, onde gritou que o ouvidor era um 'galego imundo"
esses aparentados controlar muitas áreas da atividade política e económica e que todos os galegos eram "cabrões e judeus".'"' Desafiou o ouvidor a deixar de
Mais uma vez, entretanto, a presença da Relação pelo menos abriu novos canar lado seu bastão de ouvidor e pegar uma espada. Insultos pessoais tão escandalo-
de queixa e possível reparação para quem sofresse as consequências de seus sos contra um juiz eram ilegais. Em vez de puxar a espada, Andrade Caminhíi
métodos arrogantes. Mas, desde que os interesses reais não estivessem em jogo moveu uma ação e reuniu testemunhas contra Maciel, que junto com o irmão
e a autoridade real não fosse questionada, o poder desses grupos e indivíduo* foi condenado a quatro anos de exílio no norte da África. Significativamente, entre
continuou incontestado. Felizmente, os documentos de uma disputa envol- as testemunhas convocadas para testemunhar contra Maciel estavam os cunha-
vendo um desses clãs foram submetidos à Relação e sobreviveram, de modo dos de Andrade Caminha, Gaspar de Oliveira e Manuel Curvello Velho. Maciel e
que a partir deles é possível ter uma noção clara de corno essas famílias inlerh o irmão escaparam da prisão e recorreram à Relação em busca de justiça. Maciel
gadas exerciam controle político. alegou que Andrade Caminha, Amorim, Curvello Velho e Oliveira eram seus
A disputa girava em torno de Miguel Maciel, secretário da Câmara muni "inimigos figadais" e, portanto, estavam impedidos por lei de dar testemunho ou
cipal de Sergipe d'El Rey e tabelião. Maciel não tinha poder na comunidade, participar do julgamento das acusações.
mas por ser moço fidalgo sua posição era importante. Hm 1615, Maciel envol- Não se sabe qual foi a decisão da Relação para esse recurso, mas, como o
veu-se num áspero confronto com representantes clericais dos tribunais eclesiás- governador apoiava o ouvidor, é de supor que o recurso fracassou. Miguel
ticos c, apesar de a Relação — sempre disposta a controlar poderes eclesiásticos Maciel estava, sem dúvida, errado em boa parte da disputa, mas a capacidade de
judiciais — apoiá-lo, Maciel foi tirado do cargo pelo ouvidor de Sergipe, certos indivíduos para controlar a justiça no nível local c a incapacidade ou às
António Andrade Caminha. vezes a falta de vontade da Relação para mudar a situação são óbvias.
Embora houvesse numerosas acusações contra Maciel, ele alegou que a As relações que se estabeleceram entre os desembargadores e elementos da
causa subjacente de sua suspensão tinha sido sua recusa a entregar ao ouvidor sociedade brasileira durante os primeiros anos do século xvn criaram o padrão
documentos que comprometiam Gaspar de Amorim, Gaspar de Oliveira e seis que perdurou pelo resto do período colonial, muito embora as condições espe-
ou sete amigos seus em roubos e fraudes. Andrade Caminha, Amorim, Oliveira cíficas tenham mudado com o tempo. O tribunal nunca cedeu completamente
e Manuel Curvello Velho tinham servido na Câmara de Sergipe e os três últimos sua independência e autoridade, mas, individualmente, alguns magistrados se
eram casados com mulheres que eram irmãs entre si, o que os punha num grau vincularam, por parentesco e por interesses, à sociedade brasileira.

160
-ir

9.0 Tribunal Superior em conflito cisas sobre a natureza do conflito administrativo colonial podem emergir apenas
do exame rigoroso de casos específicos. Muitos dos incidentes descritos neste
capítulo não foram registrados nas histórias gerais do Brasil, pois pouco teriam
contribuído para uma cronologia política ou para uma história repleta de cor-
netas e batalhas. Para compreender a natureza do governo colonial e o papel da
Relação, entretanto, esses detalhes são indispensáveis.
A administração civil do Brasil colonial caracterizou-se pela delegação
tripartite de poderes — político-militar, fiscal e judicial. Cada ramo do governo
mantinha sua organização, seus membros, seus regulamentos e seus padrões.
Apesar de todos esses atributos emanarem de uma mesma e única fonte, a
Coroa, eles eram, por vezes, contraditórios.1 O governador-geral, como chefe
político de Estado, ocupava a posição mais alta e, na qualidade de presidente do
Tribunal Superior, exercia alguma autoridade em assuntos judiciais. O bispo
residente encabeçava a instituição eclesiástica e era responsável pelo bem-estar
espiritual dos moradores da colónia. Deveres, funções e jurisdições sobrepostos
em vários ramos do governo, vistos pela Coroa como um sistema de controle
Bons conselhos são muito bons de dar e muito maus de os tomar; recíproco, eram constante fonte de atritos e rixas na colónia. Padrões e objetivos
muitos os dão e poucos os tomam. conflitantes entre os órgãos administrativos, e dentro deles, resultavam em
Arte de furtai (1652) constantes consultas a Lisboa e aos desejos do rei, tais como expressos por
intermédio de seus conselhos. Esse sistema geralmente acarretava protelações
E sendo o dito Estado governado por um governador e ouvidor-geral, burocráticas e competição administrativa, mas também mantinha as rédeas do
eles são os reis e não somente eles mas os bispos, donatários e podero- governo colonial nas mãos do rei e de seus conselheiros metropolitanos.
sos, procedendo em tudo com poder absoluto, e Sua Majestade fica só O governador-geral, no ápice da burocracia colonial brasileira, era o repre-
rei no nome. sentante direto da Coroa e o comandante supremo da colónia. Durante o
Defesa anónima da Relação (1626) período dos Habsburgo, os homens que serviram como governadores-gerais
eram todos os membros da nobreza militar, cavalheiros cujo inquestionável
Os extensos poderes corporativos e as múltiplas atribuições da Relação status social reforçava sua autoridade política. As relações dos governadores-
provocaram o ciúme, a hostilidade e a oposição de outras instituições na colónia. -gerais Diogo de Meneses (1608-12), Gaspar de Sousa (1613-7), Luís de Sousa
Tais conflitos talvez fossem inevitáveis, em vista da natureza e da estrutura do (1617-21), Diogo de Mendonça Furtado (1621-4) e Diogo Luís de Oliveira
governo colonial e do jogo dos poderes e das personalidades envolvidas. Embora (1627-35) com o Tribunal Superior e com seus membros variaram de acordo
a legalidade do Tribunal Superior permanecesse fora de questão, muitos indiví- com as circunstâncias, as personalidades e a interpretação de seus deveres.
duos e instituições lutaram vigorosamente para proteger seus interesses especí- Gaspar de Sousa, por exemplo, tinha interesse genuíno por questões de justiça e
ficos e coletivos e suas esferas de autoridade. Este capítulo vai analisar as relações quando estava na Bahia assistia regularmente às sessões da Relação, usando
entre a Relação e os governado rés-gerais, a Câmara municipal de Salvador, o seus magistrados como conselho consultivo. Luís de Sousa também manteve
episcopado baiano e o escritório do Tesouro real no Brasil. Generalizações pre- relações razoavelmente boas com o Tribunal Superior. Diogo de Mendonça

162 : ,
Furtado, que chegou ao Brasil em 1621 com o segundo grupo de desembarga- Bste Estado é mui rico para os moradores dele c rendoso para a sua Majestade [ ...l
dores, substitutos do corpo original, geralmente adotava atitude benigna para mas para o governador é pobríssimo e assim o estou, t irei assim porque mio tomo
com eles, apesar das violentas disputas que surgiam de vez em quando.2 nada a ninguém nem se pode tomar em consciência. Não trato porque não tenho
Geralmente, o governador-geral e a Relação trabalhavam em harmonia. O cabedal para isso,, não
não há terras já para engenhos qn uu pe dar,
Ht,,. nem permite
- Sua
governador-geral não apenas controlava os principais cargos políticos, admi- Majestade que haja sertão parai escravos, o ordenado
ordenado não basta para a melidi* do
nistrativos e militares da colónia, mas também servia como presidente da ano por a terra ser caríssima [...] .s
Relação, com funções definidas dentro do tribunal, muito embora fossem fun-
ções basicamente de natureza administrativa. A cooperação, ou pelo menos Mas esse lamento não soa verdadeiro, pois Botelho foi acusado, em 1604
uma não interferência nascida de obrigações c preocupações diversas, caracte- de combinação de preços, interferência em hastas públicas c na atribuição de-
rizou o seu trato com a Relação. O viés militar dos governadores-gerais no pri- Cargos, venalidade e indiferença geral à lei.7 Mesmo um governador-oera! res-
meiro quartel do século xvn e a sempre crescente ameaça externa levaram esses peitado como Luís de Sousa esteve envolvido em atividades económicas não
homens a concentrar sua atenção na defesa e na conquista, mais do que nas autorizadas.*
obrigações judiciais e nas demais obrigações civis. Essa tendência se manteve Apesar dos efeitos prejudiciais no comando político da colónia e na
até o século xvm. Suas preocupações, além disso, voltavam-se, às vezes, para defesa da Bahia provocados pela presença dos governadores-gerais cm
questões de posição social, poderes, prestígio e seu lugar na hierarquia do Pernambuco, sua ausência da Bahia reduziu os atritos com a Relação.
governo. Diogo Botelho tentou, cm vão, obter o título de vice-rei do Brasil. r-nquanto os governadores-gerais permaneciam em Pernambuco, suas fun-
Diogo de Meneses queixou-se amargamente de perda de autoridade, quando, ções eram exercidas pelo chanceler da Relação, auxiliado, às vezes, pelo prove-
em 1609, as capitanias do Sul íoram excluídas de sua jurisdição. Gaspar de dor-mor. Esses dois homens correspondiam-se diretamente com o governador-
Sousa, depois de voltar para Portugal, tentou conseguir terras no Maranhão, geral e também com a Coroa, cuidando dos problemas locais de governo e
juntamente com encotniendas e outros favores.3 administração. Infelizmente, os governadores-gerais chegavam ao Brasil
De 1602a 1618, os governadores-gerais passavam a maior parte do tempo acompanhados de uma grande comitiva de soldados, pretendentes a cargos,
em Pernambuco, ostensivamente por razões de Estado, rnas também por amigos e amigos de amigos, os chamados "criados", muitos dos quais permane-
motivos mais pessoais.1 Diogo Botelho deu início à prática de seguir, de navio, ciam em Salvador, enquanto o governador-geral estava ausente. Formavam um
diretamente para as capitanias do Norte, e não para a Bahia, ato que incorreu bando rebelde e arrogante, e mais de uma vez a Relação teve motivos para
no desagrado da Coroa e pelo qual Botelho foi, posteriormente, criticado. Sua repreendê-los. Além disso, para satisfazer a ambição desses homens, os gover-
ação foi institucionalizada na administração de Gaspar de Sousa, que foi auto- nadores-gerais tinham inventado cargos desnecessários, que pesavam no Tesouro
rizado a permanecer em Pernambuco enquanto comandava a conquista do real. A Coroa já havia criticado tais práticas em 1602, por meio de um alvará
Maranhão.5 Com o tempo, porém, quando a presença do governador-geral já devidamente registrado pela Relação.9 Mas, apesar da vigilância do Tribunal
não era necessária no Norte, a Coroa não teve como obrigá-lo a voltar para Superior nessa questão, a investigação de André Farto da Costa em 1612 mostrou
Salvador. que o abuso persistia. Portanto, no que dizia respeito aos seus amigos, as relações
Um alto cargo no Império português do século xvn era um empreendi- entre o governador-geral e a Relação às vezes se estremeciam.
mento cotnercial e o governador ou vice-rei que não utilizava seu cargo para Podiam surgir conflitos em torno de assuntos mundanos, mais do que em
obter lucro era muito raro. As oportunidades, porém, eram até certo ponto torno de questões de Estado. Nos primeiros anos do século xvn, os governado-
limitadas'pelos controles administrativos, pela lei e pelos recursos pessoais. res-gerais e o Tribunal Superior discutiram continuamente sobre o direito de
Queixou-fe Diogo Botelho: residir nos edifícios governamentais de Salvador ou de retirar dinheiro cio

164
Tesouro real para pagar despesas de moradia.10 Essa situação produziu rancor ele chegassem ao tribunal; se tomara parte num caso em que fosse parte interes-
entre os magistrados e os governadores-gerais, mas a construção de um novo sada; ou"se favoreceu os julgadores e mais ministros em seus ofícios e na execu-
prédio do tribunal, de 1620 a 1627, acabou com o problema sem deixar cicatri- ção deles ou se intrometeu no que eles lhes tocava, ou impedia a execução de
zes duradouras.11 algumas sentenças"16
A causa subjacente das relações basicamente amigáveis entre os governa- Na residência de Luís de Sousa, Antão de Mesquita, auxiliado pelos magis-
dores-gerais e o Tribunal Superior estava na interdependência das duas insti- trados Francisco Mendes Marrecos e Nuno Vaz Fialho, ouviu o testemunho, de
tuições e em sua posição de controle recíproco. Os governadores-gerais tinham acordo com o questionário, de mais de cinquenta pessoas. Embora nenhum
o poder de suspender magistrados da Relação, de fazer nomeações interinas ou desembargador tenha testemunhado, algumas das testemunhas tinham liga-
para comités, determinar viagens de serviço e informar à Coroa, por relatório ções com o Tribunal Superior. Os escreventes Cristóvão Vieira Ravasco e
secreto, sobre as ações dos juizes.12 Tal foi o caso ern 1615, quando uma briga Domingos de Andrade, o porteiro Domingos da Fonseca Pinto e o médico do
nada edificante entre Pêro de Cascais e António das Póvoas surgiu no meio de tribunal Diogo Pereira foram convocados para testemunhar sobre as ações do
uma sessão do tribunal e resultou na suspensão temporária dos dois magistra- governador-geral. Essas testemunhas, e todas as demais, foram solicitadas a
dos.13 Com tais poderes, o governado r-geral podia exercer considerável controle fazer comentários sobre o cumprimento, por Luís de Sousa, de suas obrigações
sobre os trabalhos internos da Relação, muito embora não pudesse participar para com o Tribunal Superior e para com a justiça em geral. A maioria, como
de suas deliberações judiciais. Cosme de Sá Peixoto, senhor de engenho e posteriormente vereador na Bahia,
De outro lado, a Relação servia para controlar o governador-geral, por atestou que Sousa "favoreceu os julgadores e mais ministros de Justiça em seus
meio de vários mecanismos. Ordens emitidas pelo governador-geral eram ofícios, e na execução deles, ou se intrometeu no que a eles lhes tocava, ou
submetidas à revisão legal do chanceler e, quando surgia uma questão de opi- impediu a execução de algumas sentenças".17 Da lista final de quinze acusações
nião, a legalidade do assunto era decidida pela Relação.14 Além disso, a Relação preparada pelo Tribunal Superior, três diziam respeito ao fato de o governador-
e n carregava-se da revisão judicial ou residência exigida no término do man- -geral não ter cooperado com esse órgão ou acatado suas sentenças.
dato de cada governador. O poder concedido ao Tribunal Superior de conduzir uma residência do
Os documentos existentes sobre a residência de Luís de Sousa, feita em governador-geral servia-para controlar seus atos no que dizia respeito à Relação
1624, oferecem uma excelente visão do modo como o Tribunal Superior e seus membros. Inversamente, os poderes reguladores e disciplinares exercidos
desempenhava suas tarefas e ilustram a esperada relação entre o governador- pelo governador-geral sobre o Tribunal Superior equilibravam a relação. O
-geral e o Tribunal Superior.'5 O chanceler do Tribunal Superior, neste caso resultado era um mecanismo institucional que reduzia a tensão entre os dois
Antão de Mesquita, tinha recebido ordem da Coroa para conduzir a investiga- ramos do governo.
ção. Ele deveria divulgar um anúncio determinando que todas as queixas e Isso não quer dizer, entretanto, que não surgissem disputas pessoais entre
acusações contra o governador-geral que deixava o cargo fossem feitas no prazo membros da Relação e governadores-gerais. A hostilidade entre Gaspar de
de trinta dias, a contar da data do anúncio. As instruções incluíam uma lista dos Sousa e Pêro de Cascais, já mencionada, é um bom exemplo. Não obstante, a
itens a ser indagados sobre a conduta do governador-geral. A partir dessa lista presença da Relação pelo menos manteve essas querelas num nível mínimo,
seria elaborado um interrogatório menor de questões pertinentes. Essas per- dentro dos limites da legalidade. Com a remoção da Relação, o governador-
guntas cobriam amplas áreas e destinavam-se a revelar venalidade, malfeitorias, -geral, desembaraçado de uma forte oposição legal, podia exercer poder relati-
descumprimento do dever ou outros procedimentos ilegais, especialmente vamente irrestrito. Foi esse o caso em 1627, quando o governador-geral Diogo
envolvimento em comércio. Muitas perguntas diziam respeito às relações gerais Luís de Oliveira acusou o desembargador Diogo de São Miguel Garcês de má
do governador com o Tribunal Superior: se tinha impedido que queixas contra conduta e de ultrapassar os limites de sua autoridade. Garcês tinha sido

166
nomeado desembargador extravagante em 1620 e chegara ao Brasil em 1621. que fossem detidos em flagrante, os soldados não deveriam ser prc.sos .som con
Km 1622, ele recebera o cargo de juiz dos órfãos e, em 1626, depois da abolição solta ao governador-geral.24 As queixas da Câmara contra os militares, porem,
da Relação, tinha sido autorizado a permanecer no Brasil nessa atividade.18 eram basicamente económicas, pois o fardo das despesas militares caía sobre <^
Garcês alegou que o verdadeiro motivo de sua suspensão em 1627 foi ter feito ombros da população. Em janeiro de 1610, pouco depois da chegada do Trib
uma investigação constrangedora para o governador-geral. Superior, a Câmara escreveu à Coroa pedindo que a guarnição da Bahia f
Diogo Luís de Oliveira, não contente com ter suspendido Garcês, impediu- reduzida para sessenta ou setenta homens. Os colonos se queixa-un
-o de tomar o navio para Portugal, receber seu salário ou encontrar um oficial quando havia conflito, eles, e não os soldados pagos, é que consriminin
de justiça que ouvisse seus apelos. Finalmente, em março de 1628, depois de um guarda, mas "os moradores [eram] conlra quem principalmente m i l i t [ j v a m !
ano de aborrecimentos, Garcês conseguiu licença para embarcar para Lisboa. estes soldados".25 Esse sentimento piorou depois de 1621, e especialmente depois
Na última hora seus objetos de uso pessoal foram retirados do navio e apreen- de 1625, quando as necessidades de defesa e fortificação se tornara rn prcocu pacão
didos, sob alegação de que ele tinha roubado utensílios de prata, mas, na ver- prioritária e as despesas de moradia e aprovisionamento da guarnição ,se avolu-
dade, tratava-se de uma tentativa de tomar-lhe os documentos da investigação maram. For volta de 1626, havia um contingente de novecentos militares espa-
incriminadora. 19 Esse tipo de conduta arrogante não era comum quando a nhóis e portugueses na Bahia e a Câmara municipal queixava-se amargamente
Relação estava na Bahia, e um contemporâneo advertiu, como já citado, que dos impostos resultantes e do aquartelamento público da guarnição. 25
num Brasil "governado por um governador e ouvidor-geral eles são os reis e As acusações de ineficácia levantadas pela Câmara contra a guarnição não
não somente eles mas os bispos, donatários e poderosos, procedendo em tudo deixavam de ter fundamento e criaram um problema quando foram examina-
com poder absoluto, e Sua Majestade fica só rei no nome"."0 das pela Relação. Em 17 de fevereiro de 1614, cinco navios corsários franceses
Embora não seja difícil documentar as relações cia Relação com o governa- apareceram na baía de Todos-os-Santos e, na ausência do govcrnador-geral
dor-geral, é quase impossível determinar as da Relação com a Câmara munici- Gaspar de Sousa, o capitão-mor, Balthasar de Aragãc, organizou uma pequena
pal de Salvador. A invasão holandesa da Bahia em 1624 destruiu o livro cie frota para enfrentar o inimigo. "Os mais nobres e honrados mancebos desta
minutas da Câmara municipal e as evidências que restaram são escassas.21 O terra" se apresentaram voluntariamente c a frota saiu-sc bem, à exceção do
material que existe, entretanto, mostra relações relativamente plácidas entre navio comandado por Bento de Araújo, capitão da guarnição." 7 Um estranhe
esses dois órgãos, fato de certa forma surpreendente, em vista da crónica de acidente, porém, acabou com o êxito que os portugueses tinham conseguido. O
atritos. Mesmo depois de 1626, antigos membros da Relação deram pareceres navio de Balthasar de Aragão abriu as portinholas para disparar contra a ini-
favoráveis à Câmara de Salvador em Portugal. 22 Um fator que contribuiu para migo c entrou água pelas aberturas. O navio afundou como uma pedra e, como
essa cooperação foi a mútua oposição do Tribunal Superior e da Câmara muni- os demais não puderam ou não quiseram fazer o resgate da tripulação, mais de
cipal a outras duas instituições, a guarnição militar e o episcopado. duzentos homens morreram na baía. Esse desastre provocou — como escreveu
Não se desperdiçava amor entre a Relação e a instituição militar no Brasil. a Câmara de Salvador — "tão grande confusão e pranto que se não sabia d a r á
Os soldados e seus oficiais demonstravam antipatia e desprezo por advogados, gente o conselho e foi na verdade para esta terra a mais notável e lastimosa
eruditos e monges, de acordo com urna linha de conduta tradicionalmente perda que podia acontecer e que tocou a todos".2B
anti-intelectualista." Os magistrados, por sua vez, não sabiam o que fazer com Os cidadãos da Bahia, enlouquecidos, responsabilizaram o govcrnadov-
os soldados rebeldes e sem instrução. Já em 1610, a Relação tinha prendido -geral ausente e o fraco desempenho de Bento de Araújo e de seu contingente
alguns oficiais da guarnição, incluindo o filho do govcrnador-geral Diogo de das tropas da guarnição. Uma investigação do episódio foi feita por um mem-
Meneses e o primeiro-sargento. O incidente provocou considerável disputa bro da Relação, o desembargador António das Póvoas. O magistrado esforçou
entre os sedados e os magistrados e a Coroa finalmente decidiu que, a não ser -se para punir os culpados, mas a investigação se arrastou por mais de dois anos

168
e Póvoas finalmente teve de ser afastado do caso, devido a suas disputas com o Apesar de a maior parte do Livro n das Ordenações Filipinas definir as
capitão da guarnição, Bento de Araújo.29 relações entre autoridade e jurisdição civil e eclesiástica, os magistrados no
Tanto a Câmara municipal como a Relação estavam frequentemente às Brasil depararam com bispos intransigentes e briguemos entre seus maiores
turras com o bispo do Brasil Quando a ocasião surgia, os magistrados não adversários. Significativamente, tanto o bispo Constantino Barradas {1600-18)
hesitavam em apoiar a Câmara municipal — ou, por sinal, qualquer pessoa — como o bispo Marcos Teixeira (1622-4) lutaram contra a Relação e os governa-
contra os excessos do prelado ou da hierarquia eclesiástica. Um tipo de inci- dores-gerais, o que sugere a existência de interesses semelhantes dessas institui-
dente que provocava ásperas disputas hoje pode parecer coisa de pouca monta, ções em manter prerrogativas reais. Embora o Tribunal Superior tenha tido
mas para a mentalidade ibérica do século xvn tinha grande importância. pouca ou nenhuma dificuldade com as ordens religiosas no Brasil, conflitos
Precedência numa procissão religiosa, numa sociedade em que a vida civil e com o bispo eram quase inerentes a uma estrutura política em que a instituição
religiosa se baseava numa hierarquia de status, tinha significado imediato. A eclesiástica mantinha seu próprio sistema judicial. O conflito no Brasil foi ape-
procissão de Corpus Christi era o mais importante festejo público do calendá- nas um capítulo da grande luta entre a Igreja e o Estado na Europa Ocidental,
rio religioso e a posição do vereador era motivo de interminável contenda, mas os magistrados no Brasil encontraram pouco consolo nesse fato, que tam-
tanto antes da chegada da Relação como depois de sua abolição.30 Enquanto a bém não ajudou a amenizar o calor do debate.
Relação esteve na Bahia, entretanto, ela representou um meio de julgar essas Conflitos jurisdicionais civil-religiosos não eram novidade no Brasil, onde
disputas. a congruência de personalidades fortes nas mais altas posições das duas hierar-
Em junho de 1623, a Câmara de Salvador insistiu em colocar a bandeira quias costumava resultar em algum tipo de disputa. Esse foi o caso no conflito
municipal na frente das cruzes na procissão, dando origem a uma altercação. entre o segundo governador-geral, Duarte da Costa, e o bispo Pedro Sardinha.
O bispo Marcos Teixeira submeteu o caso à Relação, que decidiu a favor da Mesmo antes da chegada do Tribunal Superior ao Brasil, o bispo Constantino
Câmara. O bispo apelou para a Mesa de Consciência em Portugal, que, mal- Barradas tinha brigado com a autoridade civil, queixando-se de que o governa-
grado seu, buscou o conselho do desembargador Afonso Garcia Tinoco, dor-geral Diogo Botelho tinha destinado para os militares fundos que deveriam
"quem passou muitos anos naquelas partes". Garcia Tinoco lembrou que num ter ido para órfãos e viúvas.34 As ações do próprio bispo, entretanto, tinham
caso parecido em Faro a Coroa tinha apoiado a Câmara municipal. 31 A Mesa provocado queixas do ouvidor-geral Ambrósio de Siqueira.35 Sejam quais forem
da Consciência, a conselho do desembargador, confirmou a decisão da as dificuldades que o bispo Barradas tenha deparado em suas obras de caridade
Relação, mas foi preciso um alvará de 1627 para obrigar os hierarcas da Igreja antes de 1608, elas foram multiplicadas pela chegada, aquele ano, do décimo
a obedecer.32 Ainda em 1643 os vereadores e o bispo discutiam esse ponto do governador-geral do Brasil, Diogo de Meneses. Os poderes do cargo e sua pró-
protocolo.33 pria personalidade faziam de Barradas um homem de trato especialmente difícil,
As relações entre o Tribunal Superior e a Câmara de Salvador oscilavam como o governador-geral e outros logo descobriram. Caracteristicamente, a
entre a aliança ocasional e a hostilidade constrangedora. A Câmara municipal, disputa entre Barradas e Diogo de Meneses surgiu em torno da questão de pre-
representando a elite açucareira, dirigia à Relação, representante do poder real, cedência na procissão de Corpus Christi em Pernambuco, em junho de 1608;
antipatia e desconfiança. De outro lado, por haver magistrados e vereadores nessa disputa, a Câmara de Olinda também se sentiu parte agravada.36 Por trás
que às vezes se ligavam por laços de parentesco ou interesses comuns, as rela- desse incidente e da animosidade do bispo, porém, é possível que tenha havido
ções nem sempre eram hostis. Mas, quando a Câmara se sentia ameaçada, podia medidas tomadas pelo governador-geral contra atividades económicas ilegais
atacar a Relação. Em 1625 a Câmara de Salvador foi parcialmente responsável do bispo.37
pela abolição da Relação. No fim do século xvn, a Câmara mais uma vez tentaria A chegada da Relação apresentou para os queixosos a oportunidade de
ver abolido o Tribunal Superior. recorrer das ações do bispo. Uma dessas queixas foi registrada pela Irmandade

170 ' i
do Santíssimo Sacramento em Pernambuco contra a contínua interferência cio dos próprios salários antes dos da Igreja, especialmente porque a porção eclesiás-
prelado.38 A Relação emitiu três mandados contra as ações do bispo, a nenhum tica era grande. O sentimento de animosidade em torno do controle do di/imo
dos quais ele achou por bem obedecer. As relações entre o Tribunal Superior e e do pronto pagamento dos salários eclesiásticos existia mesmo antes da che-
Barradas pioraram quando em fevereiro de 1610 ele excomungou o desembar- gada do Tribunal Superior, quando os custos anuais da justiça eram de 663
gador Pêro de Cascais (na época servindo como provedor-mor interino) por rnil-réis. 43 Com a Relação instalada na Bahia, entretanto, as despesas iu li -'
deixar de pagar integralmente os salários eclesiásticos. Mesmo quando os salá- subiram para 4 contos e 954 mil-réis por ano, de modo que a consequente rivi-
rios estavam prestes a chegar, Barradas se recusou a aceitar parte deles em açú- lidade entre a Relação e o bispo em torno da prioridade do pagamento é t o t i l -
car, como era de hábito, e insistiu no pagamento em espécie. O governador- mente compreensível.44
-geral considerou a exigência desarrazoada e escreveu à Coroa dizendo que Nas disputas entre o bispo e o Tribunal Superior, a Coroa agia com camda
"neste Estado açúcar é como dinheiro".39 O Tribunal Superior concordou com Apesar de um alvará ter sido emitido de início, exigindo o retorno a Portugal de
ele e mais uma vez emitiu três mandados ordenando ao bispo que obedecesse, qualquer eclesiástico que se recusasse a obedecer aos mandados da Relação, a
mas de novo eles foram ignorados. legislação subsequente não apoiou os magistrados, admoestando-os, apenas, a
No fim de 1610, a questão ainda não tinha sido resolvida e o bispo voltou proceder com cautela e motivos legítimos em disputas com a Igreja. 45 Houve
a excomungar o provedor-mor, que por sua vez recorreu à Relação. Os magis- uma tentativa em 1616 para regularizar o processo de acordos em açnes envol-
trados decidiram a seu favor e ordenaram ao bispo que suspendesse a pena. vendo a igreja. Um alvará foi emitido encarregando o chanceler e dois dos mais
Novamente o prelado se mostrou intransigente, aumentando a hostilidade antigos desembargadores dos agravos de ouvir esses casos na presença do
entre as instituições civil e eclesiástica. O bispo Barradas brandiu a excomu- governador-geral. Recursos das decisões da Relação poderiam, então, ser enca-
nhão e a interdição para impor sua vontade c alcançar seus objetivos, que, de minhados ao Desembargo do Paço.46
acordo com Diogo de Meneses, eram totalmente monetários. Para o governa- Os salários eclesiásticos não eram, entretanto, os únicos motivos de disputa
d o r-geral, "não há lei, não há bula papal, não há acordo, não há sentença do entre a Igreja e o Tribunal Superior. A jurisdição dos tribunais eclesiásticos e as
Tribunal Superior que ele [o bispo Barradas] acate que não seja o frio dinheiro".'10 relações destes com a justiça civil eram de interesse muito mais imediato para
Essa acusação era exagerada — mas não muito. O bispo estava, sem dúvida, os magistrados. Os tribunais eclesiásticos, dirigidos pelo vigário-geral, exer-
preocupado com os atributos e deveres financeiros do cargo. Foi essa preocupa- ciam considerável autoridade reguladora e jurídica sobre a população em
ção que causou sua briga com Diogo Botelho em 1605 e ainda em 1614 Barradas questões de moralidade. Além disso, a comunidade religiosa desfrutava o privi-
citava a "miséria do clero" e a atribuía à "ganância de alguns que distribuem as légio de ser julgada nos notoriamente lenicntes tribunais eclesiásticos. Os fun-
rendas reais".41 cionários da justiça eclesiástica tinham muitas das imunidades e prerrogativas
Certamente a questão dos salários eclesiásticos era uma importante área dos seus homólogos leigos, como a honra de usar o bastão branco da justiça.
de contenção entre as autoridades civis e religiosas. A coleta dos dízimos não Tanto o bispo Barradas como seu sucessor, o bispo Marcos Teixeira, resguarda-
era feita diretamente pela Igreja, mas pelo rei em sua função de grão-mestre da ram suas prerrogativas nessa área e a ambos tinha sido concedido o específico
Ordem de Cristo.42 Com essa renda, o Estado mantinha as instituições fiscal, direito de nomear meirinhos eclesiásticos.47
militar, judicial e religiosa no Brasil, pois o que justificava a existência da coló- Os desembargadores não eram menos zelosos de suas prerrogativas e se
nia era a ampliação da cristandade. O controle real da coleta do dízimo, entre- ressentiam, claramente, da intrusão do bispo em questões que consideravam da
tanto, colocava os eclesiásticos numa posição desvantajosa, porque os ministros sua alçada. Frei Vicente de Salvador, que como franciscano não era parte desin-
do Tesouro podiam fechar a bolsa se assim o desejassem. Funcionários reais — teressada, acusou os magistrados de excessiva resistência aos ministros da jus-
incluindo deseni-bargadorcs — tinham uma tendência a garantir o pagamento tiça eclesiástica e disse que "a conta de defenderem a jurisdição de El-Rey

172
totalmente extinguiam a da Igreja, o que Deus não quer, nem o próprio rei"48 O que preferia amaldiçoá-la, pois a construção do fone desviava fundos das obras
Tribunal Superior, na verdade, tinha obstruído o funcionamento dos tribunais da catedral.51 Somada a essa, houve outra disputa entre o bispo e o governador-
religiosos a tal ponto que o bispo foi incapaz de encontrar um clérigo que qui- -geral por causa do dízimo, na qual o prelado mais uma vez ameaçou excomun-
sesse servir como viga rio-geral.49 gar os ministros do Tesouro.
Um exame minucioso indica que na realidade a Relação não tinha meios Com o Tribunal Superior o conflito girou em torno de um caso específico.
efetivos de coerção contra as autoridades eclesiásticas. A Relação podia emitir O tribunal eclesiástico tinha condenado dois colonos que, longe de suas esposas
mandados e interferir nos tribunais religiosos, mas não tinha autoridade final em Portugal, haviam arranjado mulheres no Brasil. O bispo lhes ordenou que
sobre o bispo. O apelo a Portugal era um processo demorado e enquanto ele se voltassem para Portugal e abandonassem a vida de imoralidade que levavam
arrastava o prelado podia simplesmente recusar-se a obedecer às ordens do com suas amantes (presumivelmente indígenas). Os dois libertinos estavam a
Tribunal Superior. Sem meios institucionais de exercer controle direto, a bordo de um navio aguardando a partida quando o promotor da Coroa,
Relação recorria a medidas extraordinárias, como intimidação ou reter os salá- Francisco Mendes Marrecos, interveio.52 Ele tirou os dois homens do navio e
rios eclesiásticos. O bispo, entretanto, dispunha da excomunhão e da interdição, alegou que os tribunais eclesiásticos não tinham autoridade para ordenar sua
armas muito mais poderosas do que qualquer uma que os magistrados pudes- deportação. O bispo respondeu rapidamente excomungando o desembargador
sem usar, e não hesitava em empregar essas armas para alcançar os objetivos da ofensor. A Coroa mediou com uma carta régia de 7 de maio de 1624, mas a
Igreja tal como os compreendia. O problema subjacente era o seguinte: disputa tinha sido áspera e as cicatrizes se tornaram permanentes.53 Algum tipo
enquanto o governador-geral e o Tribunal Superior exerciam certo controle de relação institucionalizada entre o bispo e os desembargadores poderia ter
recíproco por meio da residência e do relatório secreto, não havia nenhum sis- reduzido a hostilidade entre eles. Na verdade, isso quase foi estabelecido em
tema institucionalizado de controle entre o Tribunal Superior e o bispo. De 1622, quando o Conselho de Portugal sugeriu a criação de uma comissão per-
fato, a Relação e o bispo faziam parte de burocracias diferentes, cada qual com manente da Inquisição dirigida pelo bispo e auxiliada pelos desembargadores.
seus próprios objetivos e padrões. As esferas de poder, posição e protocolo do O fato de tal plano não ter obtido a aprovação do inquisidor-geral de Portugal
bispo e da Relação nunca foram suficientemente definidas, apesar de tentativas e do Conselho da Inquisição resultou em relações continuamente instáveis
das Ordenações Filipinas e da legislação subsequente. O resultado era, na entre a Igreja e o Tribunal Superior.54
melhor hipótese, a paz incómoda e, na pior, cáustica batalha. A oposição à Relação veio também de outro setor. A primeira década de
O bispo Marcos Teixeira, que chegou à Bahia em 1622, não era adversá- existência do Tribunal Superior no Brasil caracterizou-se por quase perene
rio menos formidável do que seu antecessor. Desde o dia da sua chegada, o batalha verbal e legal com o provedor-mor da fazenda, Sebastião Borges. À
bispo Teixeira brigou constantemente com o Tribunal Superior e com o época da chegada do Tribunal Superior em 1609, Borges já tinha sido nomeado
governador-geral.50 para o cargo no Brasil, mas só assumiu em 1611. A Borges não faltava experiên-
Em 8 de dezembro de 1622, o dia em que desembarcou na Bahia, surgiu cia, tendo ele servido em cargos municipais no Porto, sua cidade natal, mas a
um desentendimento entre o bispo Teixeira e o governador-geral Diogo de nomeação vitalícia para o Brasil foi obtida com o patrocínio do bispo d. Jorge
Mendonça Furtado sobre o lugar a ser ocupado pelo governador-geral na pro- de Ataíde, a quem Borges tinha vinculado sua sorte política.55
cissão de boas-vindas. Como resultado da disputa, o governador-geral recusou- A natureza permanente do cargo de Borges e seu direito de propriedade
-se a participar e mandou em seu lugar o Tribunal Superior. A briga logo se talvez o tornassem extremamente sensível a intrusões na área que controlava;
ampliou por causa de uma diferença de opiniões a respeito da designação dos em todo caso, ele via as responsabilidades fiscais de membros da Relação com
assentos na catedral da Bahia, mas os ânimos se exacerbaram em 1624, quando suspeita e desconfiança. Além disso, o poder que tinha o Tribunal Superior de
o bispo se recusou a abençoar a pedra angular de um novo forte, declarando julgar recursos de ações do provedor-mor e de alterar suas decisões foi causa de

174 175
contínua disputa, especialmente porque a Relação tinha tendência a ultrapassai- decisões do provedor-mor e obstruía sua aplicação; também ordenavj a seus
os limites de sua autoridade nessa área. subordinados que as desobedecessem. Essa tática foi criticada nda Cu roa c n
Uma disputa não tardou a surgir. Havia um ressentimento natural entre os chanceler Rui Mendes de Abreu foi convocado para dar uma boa explicação
desembargadores, que na ausência de Borges tinham controlado as questões para seu uso.61
financeiras na colónia, mas foram afastados dessas funções com a sua vinda. O Outra questão que jogava os juizes contra o Tesouro real era o contrato
sentimento de rancor entre Borges e Pêro de Cascais, que fora provedor-mor, baiano de caça às baleias.62 Em 1602, um grupo de bascos ti nhã coh se»uido u m
era especialmente intenso. A primeira área de contenção era o contrato de dízi- contrato real para caçar baleias na baía de Todos-os-Santos. Os bascos acre< l iui-
mos de 16l2<,No Brasil, a cobrança dos dízimos era feita por particulares ou por vam que o contrato lhes clava direitos de monopólio e quando, em 160S, os
associações de capitalistas que compravam os direitos de fazê-lo em hasta moradores locais começaram a caçar baleias, eles entraram com um LI acãu.' ' O
pública, por uma fração da renda esperada, O contratante pagava à Coroa em Tribunal Superior decidiu contra os bascos em 1609 e o desembargador Pêro àc
espécie ou em açúcar pelo privilegio de cobrar as taxas e seu lucro vinha da Cascais declarou a opinião do tribunal: "E assim conforme a direito e razão não
diferença entre o preço de compra do contrato e o montante dos dízimos cole- se deve negar aos naturais vassalos Vossos o que aos estrangeiros se concedeu"" 1
taclos.36 Em 1612, por alguma razão, Borges recusou-se a assinar o contrato. (Ao Os magistrados tinham se manifestado claramente em favor dos interesses
que tudo indica, ele tinha sido feito antes da sua chegada.) O contratante recor- locais e portugueses.
reu à Relação e o tribunal emitiu um mandado ordenando a Borges o seu A decisão do Tribunal Superior abriu a poria e, com o caminho livre, mui-
cumprimento. O provedor-mor alegou que não era advogado e que antes de tos residentes da Bahia começaram a equipar baleeiras. Entre eles estava Pêro de
obedecer à ordem do tribunal precisaria de um parecer legal. A protelação levou Cascais, que investiu em alguns desses empreendimentos como um sócio não
a Relação a suspendê-lo do cargo e impor pesada multa. Borges alegou que a exatamente oculto.6" Os problemas começaram a surgir, entretanto, em 1614,
Relação não tinha autoridade em questões do Tesouro e buscou apoio em quando o provedor-mor Sebastião Borges instituiu um sistema de contrato de
Portugal. Em 22 de julho de 1612, a Coroa ordenou que a sentença do Tribunal monopólio para a caça à baleia semelhante aos contratos para cobrança de tri-
Superior fosse revogada e que a Relação parasse de intrometer-se em assuntos butos por particulares. Esse sistema colocaria a pesca da baleia sob controle real
que não lhe pertenciam. "Hei disso por muito deservido", escreveu o rei.57 e iria excluir todos, salvo o contratante. Quando o primeiro contrato foi feito, a
A Relação-não desistiu. No ano seguinte, magistrados do Tribunal Superior preços suspeitamente baixos, houve estridentes protestos contra a novidade e
acusaram Borges de negligência na administração do contrato de dízimos, Essa muitos homens, incluindo o sócio de Cascais, decidiram ignorá-la.66
acusação parece difícil de justificar, urna vez que o contrato bienal de 1613-4 A batalha conquistou adeptos. A Relação considerou Borges suspeito neste
tinha sido cencedido a Manoel Rodrigues Sanches por 54500 cruzados por caso e ordenou-lhe que entregasse todos os documentos relevantes. Ele se recu-
ano, a maior quantia contratada até aquela data. Na realidade, a Relação acaba- sou e repetiu que o tribunal não tinha autoridade para julgá-lo em questões do
ria socorrendo Rodrigues Sanches, quando, por causa da grande seca de 1613, Tesouro e os desembargadores não eram seus superiores no quadro da organi-
ele foi incapaz de cumprir suas obrigações para com o Tesouro real.58 Foi tam- zação da colonial7 Borges queixou-se de que, em qualquer ação movida contra
bém em 1613 que a Relação julgou uma disputa entre o provedor-mor e os ele na Relação, ele era sempre considerado culpado. Disse que o Tribuna!
donos do contrato angolano de escravos, era favor destes últimos.59 Hm 1614, Superior tinha esquecido de que já fora repreendido pela Coroa em 1612, por
Afonso Garcia Tinoco, com o apoio dos colegas, desafiou uma ordem de Sebastião tê-lo suspendido e multado. Borges apelou para o rei: "o Tribunal Superior c o
Borges e desembarcou urna carga de pau-brasil. Foi esta a causa do alvará de 20 juiz da Coroa (Afonso Garcia Tinoco) não me permitem exercer o cargo a ser-
de novembro de 1614, mais uma vez ordenando aos magistrados que desistis- viço de Vossa Majestade [...] e estou continuamente metido em conflitos de
sem de interferir em questões do Tesouro.60 O Tribunal Superior não só alterava jurisdição com eles".68

176
Pêro de Cascais, que como vimos não era parte desinteressada, justificou ciosa de tudo controlar".71 Mais uma vez a Coroa repreendeu o Tribunal Superior
suas ações num revelador memorial à Coroa. Primeiro, Cascais alegou que por interferência em questões do Tesouro e lembrou ao governador que ordens
Borges tinha instituído um novo arranjo contratual sem autorização específica da mesma natureza tinham sido emitidas no passado.72 Neste caso Rui Mendes
e que tais inovações, especialmente no campo dos impostos, eram sempre pre- de Abreu foi obrigado a pagar indenização do próprio bolso ao funcionário
judiciais à "república" quando feitas sem prévia consulta ao rei. Segundo, a caça preso e o Tribunal Superior recebeu ordens para, no futuro, informar o Conselho
à baleia feita por homens como ele próprio trazia grandes benefícios ao povo, da Fazenda sobre abusos e aguardar permissão antes de voltar a interferir em
baixando o preço do óleo e gerando mais impostos para os cofres do rei do que assuntos do Tesouro.73 Depois de 1618, as turbulentas relações entre a Relação e
seria possível sob contrato de monopólio. Cascais argumentou que desde a o Tesouro reduziram-se a uma cautelosa cooperação, resultado da mediação real
descoberta do Brasil a pesca era uma atividade aberta a todos e isso tinha sido e talvez da mudança de funcionários, com a aposentadoria de Rui Mendes de
confirmado por uma decisão da Relação em 1609. O furioso desembargador Abreu em 1621. Depois de 1652, quando a Relação abriu novamente as portas, o
também alegou que Borges estava ressentido porque ele prendera alguns ami- conflito com os funcionários do Tesouro real tornou-se tema recorrente.
gos e criados seus. Cascais disse que tinha agido corretamente: "Pois valha-me Invariavelmente, os magistrados interferiam no Tesouro ou tentavam exercer
Deus que mal fiz fazendo o que todos sempre fizeram, não sendo contra Deus jurisdição em assuntos fiscais. Os funcionários do Tesouro se queixavam à Coroa
nem contra Vosso serviço antes que em proveito de Vossa fazenda e ds morado- e a Relação recebia ordem para não se meter em questões do Tesouro. Houve
res vassalos Vossos".69 decretos reais a esse respeito em 1670,1674,1684,1694 e 1740.74
A questão foi revista pelo Conselho da Fazenda em Lisboa, cujos membros Inquestionavelmente, conflitos que jogavam a Relação contra outras insti-
geralmente apoiavam a Relação e não encontravam nenhuma infração em suas tuições governamentais prejudicavam o desempenho das funções judiciais
ações. Pêro de Cascais não foi repreendido por sua parte no episódio, uma normais do tribunal. Choques e brigas pessoais obviamente contribuíram para
indicação de que sua participação e seus investimentos na pesca da baleia não criar tal situação, mas explicar os conflitos da Relação apenas nesses termos
foram considerados contrários às leis que proibiam desembargadores de desen- seria incorrer em petição de princípio. O governo colonial português consistia
volver atividades económicas dentro da área de sua jurisdição — ou pelo menos de jurisdições e poderes mal definidos, muitas vezes contraditórios, que em
de que isso não era contrário à conduta esperada. Uma decisão tomada pelo rei última análise dependiam de decisões da metrópole. Esse sistema impedia que
em 13 de janeiro de 1616 absolveu todos aqueles que tinham violado o contrato, qualquer instituição colonial adquirisse poderes excessivos e obrigava a cons-
porque tinham agido em conformidade com a decisão da Relação. Entretanto, tantes consultas a Lisboa. Às vezes, o sistema era reforçado pelos objetivos
a partir de então o provedor-mor deveria conceder o contrato exclusivo a quem divergentes de diferentes ramos do governo. As variadas finalidades da Igreja e
fizesse o lance mais aito no leilão e, se não houvesse lances, um imposto seria do Estado vêm imediatamente à lembrança e podem explicar a luta constante
cobrado de quem caçasse baleias.70 entre o Tribunal Superior e o episcopado. O conflito entre a Relação e os fun-
Mesmo com Borges fora do cargo, a hostilidade entre o Tribunal Superior e cionários do Tesouro indica a existência de divisões dentro da burocracia civil.
o provedor-mor não diminuiu. Em 1617, o chanceler Rui Mendes.de Abreu, Aqui, se usarmos o modelo de Phelan, os padrões e objetivos dos ramos fiscal e
irritado com a demora no recebimento do salário, ordenou a prisão do funcio- judicial eram por vezes discordantes. É de notar que em todos os casos a Coroa
nário do Tesouro. O novo provedor-mor, Pedro Gouvea de Mello, importante apoiou o escritório do Tesouro contra a intrusão do Tribunal Superior.75
cavalheiro baiano, queixou-se das ações do chanceler e notificou a Coroa sobre o Por que a Relação se intrometia reiteradamente em questões que não lhe
incidente. Ele escreveu que as disputas anteriores entre Mendes de Abreu e diziam respeito diretamente, mesmo desagradando ao rei? Na resposta está a
Borges se deviam ao fato de que o primeiro "intrometeu-se em assuntos do chave para o papel do Tribunal Superior na estrutura política da colónia. No
Tesouro [...] sem ter mais base para tanto do que sua natureza turbulenta, ambi- Império português os tribunais superiores tinham alguns deveres administra-

178 J79
tivos e políticos. O uso de instituições judiciais para tais propósitos tinha unia
lógica interna, pois justiça e rei eram sinónimos. O verdadeiro poder do
10. A supressão da Relação
Tribunal Superior era negativo. Embora houvesse muitas coisas que ele não
podia fazer, em seu papel de cão de guarda dos interesses reais ele podia impedir
que outras instituições agissem, ou protelar tais ações até que se soubesse qual
era a vontade do rei. Essa era a função política mais importante do Tribunal.
Os constantes conflitos governamentais levaram alguns contemporâneos,
como Frei Vicente cio Salvador, a temer o castigo divino por esses pecacíos con-
tra o povo.76 Hm seu modo de pensar, foi a mão de Deus que enviou a frota
holandesa à baía de Todos-os-Santos em 9 de maio de 1624 e permitiu que ela
capturasse a cidade logo depois.

[...] certo donatário que não quer que. lhe entrem desembargadores
em sua terra, e pelo interece de não haver Relação, o dita donatário fez
com os oficiais da Câmara que fizessem a um criado seu, procurador
desta Câmara da Bahia [...] em chegando ao Reino a primeira coisa
que rcquereufoi que se extinguisse a Relação.
Defesa anónima da Relação (c. 1626)

A queda e a reconquista da cidade de Salvador marcaram o início de uma


nova época na história do Brasil. Pelos trinta anos seguintes, as áreas do norte
da costa brasileira transformaram-se em campo de batalha no conflito global
entre os holandeses e seus inimigos ibéricos. Exigências de defesa e de guerra
provocaram consideráveis modificações no sistema colonial português. A abo-
lição da Relação foi uma delas. Explicar a morte do Tribunal Superior como
uma mera resposta a condições fiscais e militares extraordinárias seria contar
apenas parte da história, pois forças e sentimentos poderosos tanto na colónia
como na metrópole também estavam por trás da ordem real de 5 de abril de
1626 que aboliu a Relação.1
Os fatos sobre o colapso do Tribunal Superior podem ser facilmente
expostos. Uma poderosa armada holandesa tomou a cidade de Salvador ern l O

180 181
de maio de 1626.? A maioria dos habitantes fugiu para as áreas circunvizinhas que holandês tinha assinalado uma virada na história da colónia, f-ilipe iv c seus
do Recôncavo, mas o governador e muitas pessoas importantes, como o ministros agora estavam vitalmente preocupados com a segurança das posses-
desembargador Pedro Casqueiro da Rocha, tornaram-se cativos dos invasores. sões americanas. Na geopolítica imperial espanhola, o Brasil se tornara pedra
Os outros magistrados escaparam para o Recôncavo com o resto da popula-
angular, não pelo valor intrínseco, mas por sua posição estratégica. Planejadores
ção.3 O chanceler Antão de Mesquita de Oliveira, um dos magistrados mais militares em Lisboa, Madri e Amsterdam reconheceram que o controle holan-
estreitamente ligados aos interesses coloniais, por laços de casamento, foi dês da costa brasileira poderia oferecer uma base de operações contra as tontos
eleito chefe temporário da resistência, porque Matias de Albuquerque, suces- vitais do Império ibérico. Uma força hostil entrincheirada no Recito ou em
sor oficial do governador capturado Diogo de Mendonça Furtado, estava em Salvador poderia atacar os portos da costa do Atlântico e do Pacífico na América
Pernambuco. do Sul, interceptar as frotas de prata espanhola no Caribe e os navios portu^ue-
A eleição de Antão de Mesquita não foi aceita sem oposição. Relatos con- sés que vinham da índia no Atlântico, interditar o comércio atlântico de escra-
temporâneos divergem considcravclinente a respeito de sua remoção do vos e, de modo geral, provocar muita destruição no Império atlântico dos
comando das forças de resistência e da assunção do bispo Marcos Teixeira a esse Habsburgo. Acima de tudo, os estrategistas políticos espanhóis viam a costa
posto. Qualquer que tenha sido a sequência exata dos acontecimentos, o bispo brasileira como a primeira barreira de defesa do Peru. O Peru e sua prata, não o
Teixeira e seus partidários tomaram o controle de Aníão de Mesquita poucos Brasil e seu açúcar, eram o coração do Império, c ninguém sabia com certeza a
dias depois da eleição do desembargador.4 Hssa acão era usualmente justificada que distância ficavam as minas de Potosí do Litoral brasileiro.5
pela incapacidade do magistrado de organizar operações de guerrilha contra os A percepção espanhola da importância estratégica do Brasil explica muito
holandeses, devido à idade avançada e à falta de experiência... Essas alegações do entusiasmo com que a Coroa despachou a armada conjunta de 1625, des-
não resistem à luz do escrutínio histórico, pois se Antão de Mesquita estava mentindo o ditado segundo o qual "ajuda da Espanha chega tarde, pouca ou
doente ou senil é estranho que, depois da abolição da Relação, ele sozinho tenha nunca" De 1625 até a separação de Espanha e Portugal, em 1640, a Coroa via o
sido escolhido para permanecer como magistrado real no Brasil. Além disso, Brasil em termos geopolíticos e para sua defesa Filipe iv e seus conselheiros
sua reivindicação subsequente de honras e prémios e a manifesta satisfação da estavam dispostos a ignorar os acordos de Tomar e o desenvolvimento interno
Coroa com seu desempenho tendem a refutar as alegações do bispo. Antão de da colónia. Em dado momento, Filipe iv chegou ao extremo de ordenar o assen-
Mesquita fora eleito por ser o mais alto magistrado da Relação, juiz respeitado tamento de colonos italianos na costa brasileira, como meio de fortalecer as
e talvez muito ligado, por parentesco, a importantes elementos da sociedade defesas da colónia.6 A medida nunca foi posta em prática, mas ia claramente de
baiana. Inimizade entre o Tribunal Superior e os bispos sempre existira e, como encontro aos acordos de Tomar.
vimos, disputas civil-eclesiásticas tinham arruinado o começo dos anos de Para pagar pelas fortificações, tropas e artilharia, novos impostos foram
1620. O afastamento de Antão de Mesquita talvez tenha resultado mais das cobrados tanto no Brasil como em Portugal. Menos inclinados a pensar em
rivalidades e do facciosismo do que das deficiências militares do desembarga- termos políticos, os portugueses resistiram aos novos impostos e começaram a
dor. A morte do bispo Teixeira durante a campanha e a aura de martírio que questionar a teoria política que havia por trás deles. Em 1626 os governadores
mais tarde cercou sua memória provavelmente atenuaram a amargura de seus de Portuga] perguntaram, abertamente, "se a utilidade de fechar o comércio aos
adversários políticos e o incidente acabou esquecido. F.m 1626 a bandeira por- inimigos valia mais do que os prejuízos causados pela falta de comércio11.7 Esse
tuguesa voltou a tremular sobre a cidade, como resultado dos esforços combi- sentimento intensificou-se e depois de 1630 o contínuo tributo em homens e
nados de tropas irregulares coloniais e uma frota conjunta luso-espanhola sob dinheiro em apoio de uma política impopular contribuiu para a revolta deci-
o comando de d. Fradique de Toledo, experiente almirante espanhol. siva de Portugal cm 1640 e sua separação da Espanha.
Apesar de a capital do Brasil mais uma vez abrigar armas católicas, o ata- Parte do fardo da defesa do Brasil recaía diretamente sobre a colónia c,

182
para pagar essa despesa, a Coroa cortou gastos em outras áreas de governo. Sob burocracia letrada não passou despercebido. Aqueles que se preocupavam com
a pressão da guerra, o judiciário foi considerado supérfluo e, por sugestão do os males da sociedade espanhola e as razões das crescentes dificuldade^ econó-
Conselho de Estado, Filipe iv mandou abolir a Relação do Brasil em 31 de micas e militares da Espanha geralmente incluíam o crescimento da burocracia,
março de 1626.8 O rei ordenou especificamente que os salários do Tribunal ou pelo menos da classe dos letrados, entre os grandes problemas do reino Fsso
Superior fossem usados para prover a guarnição da Bahia. Exatamente quanto era um sentimento manifesto também pela velha nobreza militar. De tempos
dinheiro estava envolvido nesse ajuste fiscal é difícil dizer c depende de quais em tempos, a Coroa fazia tentativas não muito entusiasmadas de l i m i t a r n
salários são calculados no total. Os salários dos dez magistrados somavam aumento da burocracia. Ern 1624, a Coroa ordenou que n e n h u m a \a fosse
3460000 réis por ano, aos quais devem ser acrescentados os salários do capelão, preenchida em qualquer cargo criado depois da morte de Filipe n, cm 1598. ! -
do porteiro e dos secretários do tribunal. Além disso, custos ocasionais, como Apesar de a ordem ter sido logo ignorada, o começo do século x\ f o i uni
os das viagens pelo interior, que podiam chegar a 500 mil-réis cada um, tam- período de crescente preocupação corn os problemas causados pelo cresci-
bém devem ser levados em conta. 9 Esses fundos passaram a ser destinados à mento do Estado.
manutenção das tropas reais. Os requisitos fiscais de defesa tinham precedência Em todo o Portugal metropolitano e colonial os excessos da profissão legal
sobre as necessidades da justiça real. e o aumento do número de letrados e magistrados provocavam preocupação
Considerações fiscais e militares devem ter influenciado a decisão da parecida. À medida que a ameaça estrangeira se agravava e os exércitos portu-
Coroa de suprimir a Relação, mas explicar a morte do tribunal apenas nesses gueses sofriam reveses na Ásia e na America, surgiram vozes contra as ocupações
termos é perder de vista outros fatores diretamente relacionados a seu desem- intelectuais e a "improdutiva" profissão legal. A reclamação mais comum era:
penho e reputação. Esses fatores podem ser definidos como gerais e específicos
e envolviam tanto as condições locais como as metropolitanas. Primeiro, a persona qnc tiene dos hijos iuego quiere applicar el uno a Ias letras de donde, .•>>: sigue
antipatia generalizada por advogados, procuradores e chicaneiros que "sangra- que falta gente para labrar y cultivar Io s campos, para los ofícios mecânicos, para
vam rios de dinheiro" do populacho era comum de um extremo ao outro dos marineros, y sobre todo para Ia guerra y exercício de armai com Ias quales elRcyno de
Impérios ibérjcos.10 É inegável que a presença da Relação na Bahia tinha atraído Portugal se ha fundado estabelecido y crescido.14
esses parasita* para os corredores do tribunal, onde tentavam obter lucros com
as oportunidades de mais e mais litígios. Os registros da Inquisição de 1618 Aí estava a clássica batalha entre as armas e as letras que os ibéricos
relacionam seis desses advogados, alguns deles de reputação duvidosa." A crí- vinham discutindo desde o século xv.15 Os Impérios de Espanha e Portugal,
tica era dirigida não apenas contra a profissão de advogado, mas também con- nascidos da coragem de seus soldados, se haviam tornado grandes estruturas
tra os juizes; na realidade, toda a profissão legal esteve sob suspeita na segunda mercantis, construídas em torno de armações burocráticas. Com essas estru-
década do século xvu. turas assediadas por dificuldades cada vez maiores, espanhóis e portugueses
Ao lado do tradicional zelo ibérico pelas formalidades legais, uma tradição olhavam para trás, para os prósperos dias de Cortês e Vasco da Gama, e ideali-
oposta de antipatia e desconfiança no que dizia respeito a tribunais e advogados zavam uma época mais simples e heróica, povoada de bravos soldados, e não
se desenvolvera. Essa tendência surgiu em parte como resposta a ressentimen- de advogados chicaneiros.
tos fundados, contra a corrupção judicial e advogados suspeitos, e em parte De Goa à Bahia e ao Porto, as críticas à magistratura, à profissão legal e ao
porque os tribunais representavam a intrusão real nas prerrogativas de certos próprio sistema judiciário atingiam novos níveis de intensidade. Diogo cie
setores ou corporações, ou ainda o conlroíe real de áreas coloniais. Mais de urna Couto, em seus Diálogos do soldado, observou que na índia portuguesa a viola-
vez, nas índias espanholas, colonos pediram que nenhum advogado tivesse ção das leis e o uso de brechas legais haviam se transformado numa arte nas
permissão paca atuar em sua província. 12 Na própria Espanha o crescimento da mãos dos advogados. 16 Suas observações foram repetidas por Francisco
Rodrigues de Silveira, outro homem que servira no Exército além do Cabo da qualquer diminuição das fileiras magistráticas, mas essa ação de 1623 e a já
Boa Esperança e que lamentava ver terras conquistadas com o sangue de solda- mencionada lei espanhola de 1624 deixam claro que o monarca Habsbureo de
dos entregues a advogados venais e nobres inexperientes. Ele considerava as Espanha e Portugal estava muito preocupado com a burocratização de seus
condições em Portugal ainda piores, com poderosos magnatas e funcionários Impérios e os problemas decorrentes.
desonestos transformando a justiça numa farsa. Os comentários de Rodrigues de Num contexto de insatisfação geral com o sistema judicial, desejo real de
Silveira sobre a Relação do Porto estão impregnados de implicações para o tribu- enxugar as fileiras da magistratura e dificuldades económicas cada vez maiores,
nal irmão da Bahia, pois suas queixas são também as queixas dos colonos ameri- é fácil compreender o apelo de um argumento de base fiscal em favor da aboli-
canos. Rodrigues de Silveira afirmava que o Tribunal Superior do Porto, criado ção do Tribunal Superior do Brasil. Deve-se ter em mente, entretanto, que,
para acelerar o processo judicial, tinha, na realidade, estimulado mais litígios, o apesar dos ressentimentos válidos, o ataque geral à profissão legal e à magistra-
que tornava o processo ainda mais lento. Num acesso de autocrítica, ele atribui tura real também constituía uma tentativa, por parte da velha aristocracia
parte da culpa à "natureza inquieta e contenciosa dos portugueses, que, em sua militar e das novas elites coloniais, de conter a maré de centralização real; tra-
inclinação para processos e trapaças fabricados na oficina de sua malícia, seu tava-se de uma escaramuça na longa guerra entre o poder real e os interesses de
ódio, sua inveja e sua má vontade, excedem todos os outros países do mundo".17 corporações e de classe. Na primeira metade do século xvn, o momento era
A crítica exagerada e o boato maldoso eram características nacionais que propício para essa investida. A Coroa, em face do espectro de uma guerra glo-
muitos autores portugueses dos séculos xvi e xvn lamentavam.18 Para alguns, o bal, mais uma vez precisava dos seus nobres.
efeito mais deletério desses maus hábitos era o fato de quase sempre resultarem No Brasil, surgiram condições específicas que geraram novas queixas con-
em litígios. No Brasil, como vimos, havia uma longa tradição de sentimentos tra o judiciário e fortaleceram a posição dos adversários da magistratura. A
antijudiciais. Um bom exemplo da segunda década do século xvn pode ser perturbação causada pela campanha militar de 1625-6 e a contínua presença de
encontrado no Livro que dá razão do Estado do Brasil (1612), de Diogo de autoridades militares em Salvador depois de sua reconquista criaram novas
Campos Moreno. Como sargento-mor do Brasil, Campos Moreno manifestava condições de conflito. Ao reocupar a cidade, o comandante-chefe, d. Fradique
a antipatia normal do soldado pelo letrado e pelos clérigos. Dizia ele que as de Toledo, ordenou que a Relação entregasse os documentos de sua investiga-
brigas por motivos fúteis e as calúnias dos colonos tinham efeitos perniciosos ção sobre a débâcle da cidade à maior autoridade legal da frota. Era uma ques-
porque "daí nasce tanto trocar, tanto mentir, tanta trapaça que as novas delas tão extremamente melindrosa, uma vez que muitas pessoas importantes,
não fazem mais que acarretar bacharéis à pobre província". Em suas palavras, incluindo o bispo, tinham agido de maneira não exatamente heróica. Além
"nesta cidade [Salvador] se tem a Relação por coisa pesada".19 disso, muitos cristãos-novos haviam sido acusados de colaborar com os holan-
O clima de sentimento antijudicial em todo o Império e o crescente cla- deses e o antissemitismo alastrava-se pela cidade.21 Circulavam boatos de que
mor por reformas levaram o assunto à consideração da Coroa. Os custos cada uma "punhalada pelas costas" dada pelos judeus provocara a captura da cidade
vez mais altos da burocracia e a multiplicação aparentemente infinita de fun- e até de que os judeus tinham envenenado o bispo.22 Alguns cristãos-novos
cionários, especialmente nos cargos não profissionais, eram fonte de dificulda- foram sumariamente condenados à morte por d. Fradique de Toledo, mas a
des aparentemente intermináveis. Em 1623, as demandas dos magistrados por Relação reclamou contra a interferência dele em sua jurisdição. O chanceler
promoções, somadas às críticas antijudiciais, fizeram a Coroa examinar o pro- Antão de Mesquita queixou-se à Coroa da atitude do almirante e os prisionei-
blema em profundidade. Foi preparada uma lista de todos os magistrados reais ros foram libertados. É impossível determinar se os acusados eram "apadrona-
em Portugal e, apesar de os magistrados do Tribunal Superior e os juizes colo- dos pela nobreza da colónia", como alegou um informante, mas o envolvimento
niais não terem sido incluídos, a lista continha 214 juizes servindo ou aguar- de Antão de Mesquita, o juiz que se revelara o mais estreitamente ligado aos
dando nomeação.20 O Desembargo do Paço, como era de esperar, votou contra interesses coloniais, dá alguma credibilidade à história.23

186 187
A investigação sobre a queda da Bahia em 1624 foi finalmente conduzida É impossível
r reconstruir uma lista completa das queixas
p ^.ici uus OMPÍV-, -pernambucanas
, t
pela Relação. O Tribunal Superior tinha conseguido manter à distância d. contra a Relação e o governo central, mas dos documentos existentes -
Fradique de Toledo e as autoridades militares, mas agora outros grupos pode- um padrão claro de hostilidade c irritação com o controle baiano Os
rosos também estavam interessados em sua abolição. Tanto os êxitos como os bucanos tinham obtido grandes lucros com o comércio leoal e ilegal t- a.' • r
fracassos da Relação lhe haviam custado inimigos, alguns deles suficientemente gação de André Farto da Costa em 1613, da qual a Relação participara h- •'•
poderosos para influenciar conselhos metropolitanos. atingido muita gente. A Câmara de Olinda, representando interesses loc-ús
Quem defenderia a Relação e argumentaria em favor de sua permanên- tentara, com subterfúgios c táticas protelatórias, atrapalhar a investigação - r
cia? Certamente não o bispo nem o clero diocesano, que tinham lutado encar- Além disso, as investigações judiciais periódicas provavelmente causaram tanta
niçadamente com os magistrados e a certa altura proposto o fim do Tribunal hostilidade em Pernambuco como no Rio de Janeiro. Em setembro de 1612, por
Superior. Os barões do açúcar, menos capazes de impor sua vontade a arren- exemplo, Afonso Garcia Tinoco e dois outros desembargadores receberam ordens
datários e trabalhadores, não desperdiçavam seu amor com a Relação, nem a para conduzir uma investigação de todos os funcionários em Pernambuco,
Câmara de Salvador, que de modo geral representava os senhores de engenho. ouvir todos os casos apresentados aos juizes locais e assistir na distribuição de
Os proprietários c as Câmaras de outras capitanias do Brasil, ansiosos por se sesmarias na capitania nortista do Rio Grande."
livrar das visitas periódicas e das investigações dos desembargadores, certa- A essa oposição regional de praxe ao controle central deve-se acrescentar o
mente não intercederiam em favor da Relação. Em suma, a Relação tinha fator pessoal. Os representantes de Duarte de Albuquerque Coelho governavam
feito inimigos demais» e o maior deles era o clã dos Albuquerque Coelho de a capitania de maneira bastante autoritária e aqueles que se opunham à paneli-
Pernambuco. nha dos Albuquerque Coelho costumavam buscar o apoio da Relação em seus
Pernambuco era, por todos os cálculos, a capitania mais rica do Brasil litígios. Matias de Albuquerque, o representante dos interesses da família e
colonial. Ainda era uma área importante de exportação do pau-brasil e abrigava capitão de Pernambuco a partir de 1629, mal disfarçava sua irritação com a
mais de 150 engenhos em redor da cidade de Olinda.-"3 A partir de meados do intromissão do Tribunal Superior nos assuntos pernambucanos. Queixou-se
século xvi começou a crescer por lá um ressentimento contra o domínio polí- da intervenção da Relação quando nomeou o tesoureiro da capitania e em
tico baiano e o controle real.-5 Colonos pernambucanos ressentiam-se das outras ocasiões discutiu com membros do tribunal. 13 O fato de que Matias de
funções investigativas e reguladoras exercidas pelos desembargadores em suas Albuquerque jamais criticou abertamente a Relação pode indicar um saudável
viagens pelo interior. Como vimos, essas viagens provocaram muita hostilidade respeito por seu poder e a percepção de que um ataque teria de ser oblíquo.
em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde os colonos tinham oferecido oposição Quando o governo caiu nas mãos de Matias de Albuquerque, seu ataque ao
legal e física à interferência da Relação. Em Pernambuco, essa resistência à auto- tribunal não se fez esperar.
ridade real era especialmente forte, pois a capitania nortista prosperara no sis- A gota d'água parece ter sido a recusa, por parte da Relação, de suspender
tema descentralizado dos donatários. A família Albuquerque Coelho c a oligar- a justiça criminal, medida cie tempo de guerra sugerida por Matias de
quia açucareira exerciam grande dose de controle político sobre os assuntos Albuquerque como meio de recrutar tropas contra os holandeses. Como gover-
locais, e ressentiam qualquer interferência de Portugal ou de Salvador. O exer- nador, Matias de Albuquerque tinha concedido uma série de indultos c suspen -
cício da autoridade, por parte da Relação, naquilo que o proprietário, Duarte de dera o julgamento de certos crimes, num esforço para fortalecer as defesas da
Albuquerque Coelho, e seu irmão, Matias de Albuquerque, consideravam seus colónia. Fizera isso sem consultar a Relação. Os magistrados, vendo nessas
domínios, era motivo certo de conflito. Além disso, sua oposição era apoiada medidas uma invasão de seus poderes, recusaram-se a obedecer às ordens do
pela oligarquia açucareira da capitania nortista, que pelo início do século XVH governador e voltaram a prender alguns dos indultados. Finalmente, Matias de
manifestava um senso cada vê?, maior de interesse regional. Albuquerque apelou dirctamente à Coroa. Seu pedido obteve apoio real e em l *-
de abril de 1626 a Coroa ordenou à Relação que recuasse de sua posição. Quatro esmiuçar cláusulas nas concessões dos donatários que os obrigassem a arcar
dias depois, a Relação foi abolida por ordem real.29 com os custos da defesa de suas capitanias.32 Obviamente, a Coroa buscava
A conexão entre as queixas de Matias de Albuquerque e o fim da Relação é maneiras de conquistar o apoio de grupos capazes de trazer recursos militares
apoiada não apenas pela estreita correlação cronológica, mas também por evi- ou financeiros para o esforço de guerra e, se necessário, certas concessões seriam
dências contemporâneas. O relatório não assinado de c. 1626 (Apêndice iv) feitas para assegurar esse apoio.
submetido por colonos baianos em apoio da Relação fornece a chave.30 Dizia A Relação era um alvo perfeito. Já havia uma preocupação da Coroa com o
ele que em 1625 certo donatário, recusando-se a aceitar a interferência dos tamanho da burocracia e uma antipatia geral pela profissão legal. O Tribunal
desembargadores em sua capitania, juntara-se à Câmara da cidade de Salvador Superior da Bahia, com seus salários e despesas extras, parecia dispensável para
para conseguir a abolição do Tribunal Superior. Um dependente do donatário o esforço de guerra e se, com sua abolição, os salários pudessem ser direciona-
foi escolhido como procurador da Câmara municipal e, ao voltar para Portugal, dos para a defesa, tanto melhor. Além disso, ao aceitar as demandas da Câmara
teria apresentado "falsas informações e papéis assinados por pessoas apaixona- da Bahia e do donatário de Pernambuco, a Coroa também esperava obter seu
das e criados de fidalgos", a fim de provocar a abolição do tribunal. O donatário apoio total. Assim, a Relação tornou-se uma espécie de sacrifício real aos inte-
em questão era quase certamente Duarte de Albuquerque Coelho, proprietário resses coloniais. Razões de Estado e interesses privados se combinaram para
de Pernambuco, que chegara ao Brasil na armada luso-espanhola de 1625 e fechar as portas do primeiro Tribunal Superior brasileiro.
estava, portanto, na Bahia no período seguinte à reconquista da cidade. A acu- Não havia ninguém, então, que falasse em defesa do tribunal? Essas pes-
sação feita contra ele não deixa de ter fundamento. Apesar de os documentos soas, na realidade, existiam. Seu requerimento não assinado, "Razões q. darão
em questão não terem sido encontrados, uma carta de Filipe iv para os governa- os moradores da Bahia para não se extinguem a Relação", defendia a permanên-
dores de Portugal mencionava os relatórios de Matias de Albuquerque, do cia da Relação como o único significativo contrapeso para os excessos dos bis-
provedor-mor e do sargento-mor Pedro Correia da Gama, relativos à guarni- pos, donatários e poderosos da terra, que intimidavam escreventes e capitães de
ção; continham sugestões específicas referentes ao Tribunal Superior.31 Essas navio, de modo que os pobres eram incapazes de preparar suas ações ou mesmo
sugestões sem dúvida eram argumentos a favor da abolição da Relação e podem de transportá-las para os tribunais metropolitanos.33 Esses colonos não afirma-
ser tidas como a causa que precipitou seu fim. vam que tudo tinha corrido bem enquanto a Relação estivera na Bahia; o que
A abolição da Relação da Bahia resultou de uma combinação de fatores, afirmavam é que as faltas pessoais dos magistrados não eram, necessariamente,
alguns acidentais e outros inerentes à história da instituição. Primeiro, as con- as da instituição. Se havia faltado justiça enquanto o Tribunal Superior estivera
dições criadas pela reabertura da guerra nos Países Baixos e pela tomada da no Brasil, sem ele a situação voltaria a ser caótica. No que dizia respeito ao
Bahia pelos holandeses exerceram pressão sobre a estrutura defensiva dos dinheiro para a guarnição, diziam eles que "não há Rei tão pobre, que 4 nem 5
Impérios ibéricos, a qual impunha demandas militares cada vez maiores aos mil crusados mais o enriqueçam, nem empobreçam, quanto mais [...] Sua
recursos fiscais da Coroa. A Coroa começou a virar-se para todos os lados à Majestade". Novamente, como no passado, eles mencionaram as cinco audiên-
procura de dinheiro ou de maneiras de forçar certos grupos a assumir obriga- cias no vice-reino do Peru e o tribunal nas espanholas Ilhas Canárias. Era justo,
ções financeiras ou militares, com pequeno custo adicional para ela. A tributa- perguntavam, que algumas ilhas com uma pequena população tivessem um tri-
ção era um desses métodos, e a cobrança de novos impostos para financiar a bunal residente, e o Brasil, tão grande e tão distante da metrópole, não tivesse?
guerra contra os holandeses tornou-se grande motivo de agitação em Portugal A essência do seu argumento, entretanto, eram os benefícios produzidos
e na própria Espanha. Tentou-se pintar a guerra como um conflito religioso, pela presença de um grande grupo de juizes que, como um órgão, ficavam
para forçar os cavaleiros das ordens militares espanholas e portuguesas a cum- menos sujeitos às pressões dos grupos de interesse e dos funcionários venais.
prir suas antigas obrigações de defensores da fé. A Coroa pôs juristas para Fossem quais fossem os excessos e abusos cometidos pelos desembargadores, a

190 191
situação era bem pior antes de 1609, quando o ouvidor-geraí administrava a
justiça na colónia. E por que o tribunal brasileiro fora escolhido?

E se algum disser que também os desembargadores são ladrões e fazem injustiças


digo que isso não procede da Relação mas de seu mau procedimento e cristandade
e que isso não é causa para se extinguir a Relação: os que são maus sejam muito
bem castigados para exemplo de outros c ponham-se outros em seu lugar que
muitos letrados há [...]. K se por os desembargadores fazerem o que não devem
fosse causa para se extinguirem as Relações [não haveria] a nenhuma, porque cm
todas houve bons e maus que também na casa da Suplicação em Lisboa houve
alguns que foram bem descaminhados e por isso os dcprivarão dos cargos, e não
desfizeram a Casa da Suplicação.34

Sem a Relação no Brasil, alegavam eles, o passo da justiça tinha diminuído,


as celas estavam cheias, os judeus não eram punidos por sua traição, os funcio-
nários poderosos impunham sua vontade ilegal e as coisas estavam de pernas
para o ar.
Esse documento expõe um ponto de vista que difere muito das fontes tra-
dicionalmente usadas para avaliar o desempenho da Relação da Bahia antes de
1626. Tal divergência de opiniões pode ser parcialmente explicada pelas origens
dos autores envolvidos. Evidências internas indicam que o autor ou autores do
documento não assinado "Ra/ões q. darão os moradores" representavam pes-
soas mais pobres, de origens católicas ortodoxas, que tinham ódio e medo dos
funcionários reais, dos senhores de engenho, da Câmara local e dos cristãos-
-novos. Talvez estejamos lidando aqui com artesãos ou arrendatários, que
achavam que o Tribunal Superior lhes havia oferecido oportunidades de justiça
antes inexistentes.
Nesse contexto, c importante lembrar que os autores dos três relatos tradi-
cionais sobre a Relação representam, cada um, grupos de interesse com antigas
queixas contra o Tribunal Superior. O frade franciscano Vicente do Salvador
tinha se ofendido com o ataque dos magistrados à autoridade do bispo e às i. Soberania e justiça: O rei como juiz supremo. (De Ordenações Manuelinas (1514);
prerrogativas dos tribunais eclesiásticos. Sua História do Brasil (1627) expres- reprodução defoel Serrão (ed.), Dicionário de História de Portugal, //, Lisboa, 1965.)
sava o que cie sentia pelo tribunal. O soldado profissional, o sargento-mor
Diogo de Campos Moreno, via na Relação uma instituição desnecessária, con-
duzida por letrados, grupo pelo qual não tinha afeição alguma. Seu Livro que dá

192
3. Magistrado português do século xvii. (Museu Nacional de Arte Antiga,
Lisboa.)
2. Coimbra no século xvn. (De Georg Braun, Civitates Orbis Terrarum, 1610;
Newberry Library.)
*% -v *- 5 J^fl"" e Perspectiva de Salvador, 1714. (De A. Frezier, Relation du voyage aux cotes d u Chi!
- du Perou, Paris, 1716; James Ford Bell I.ibrary, Universidade de Minnesotn.}

4. Uma vista de Salvador a partir do porto, 1671. (De John Ogilby, America: Being the
latest and most accurate description of the New World... Londres, 1671; James Ford Bell
Library, Universidade ds Minnesota.)
6. Funcionários portugueses e jesuítas capturados pelos holan-
}J atLcmioatfti í>0iitm aoltcarjc.iiftrí4* «zx
deses na queda de Salvador, 1624. (Gravura de autoria de Claes
a*_ Jo.Ja.ltifit Otría-tela. imotArnctàftla {r*tufÁLCv- Q£,-<
Jansz Visscher, 1624; reprodução de Serafim Leite, História da
Companhia de Jesus no Brasil, v, Lisboa, 1945.) —^/* y /*/* 6í/ ti' ^ y ^ <"^ ^--' yx^ ^ ^ *
n&3ca$fiJi*br'attt/Htmitiíbr, offtaiugmmna^iaÍÁa* VJ^Vertpartít&iMJífasp*^
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8. Relatório sobre a justiça no Brasil, com assinatura autográfica do desembargador


7. O Solar do Unhão. (Reprodução de Luís Gardel.) Cristóvão de Burgos, 1681. (Coleção de microfilmes da Bancroft Library.)
razão do Estado do Brasil (1612) reflete o desprezo do soldado pelo advogado.
desprezo certamente intensificado pelas lutas entre a Relação e a guarnição,
discutidas no capítulo 9. A crítica mais pungente da Relação pode ser encon-
trada nos Diálogos das grandezas do Brasil, escriLos em | i S ] R por Ambrósio
Fernandes Brandão. Brandão era um senhor de engenho cristão-novo, ligado a
Pernambuco, e, embora grande parte de sua crítica do Tribunal Superior soe
verdadeira, ele também talvez o visse com excessiva parcialidade. Apesar de
todas as suas faltas, a Relação provavelmente ofereceu justiça a um círculo mais
amplo e a uma maior proporção da população da colónia do que jamais ocor
rera, e as próprias queixas dos representantes da Igreja, dos militares e da elite
açucareira são provas dessas realizações.
Ê importante notar que o ataque à Relação jamais questionou sua legiti-
midade; em vez disso, enfatizava as necessidades financeiras da Coroa. Grupos
e indivíduos podiam disputar pontos da lei e esferas de jurisdição com o
Tribunal Superior, mas a legitimidade dos juizes parecia inviolada. E n q u a n t o
os jesuítas no Brasil, e mesmo os ouvidores, de vez em quando eram expulsos
de comunidades porque suas opiniões impopulares ofendiam os colonos,
nenhuma tentativa desse tipo foi feita contra os desembargadores como classe.
Fazer isso equivaleria a rebelar-se contra o rei, pois os magistrados representa-
9- Desembargadores no Rio de Janeiro do fim do período colonial. (De}. B. Debret, Voyage
Pittoresque et historiquc au Brésil..., Paris, 1834-1839; Newberry Library.) vam a autoridade da Coroa, tanto na realidade como no entendimento popular.
Portanto, qualquer tentativa de controlar ou cercear a autoridade da Relação
precisava ser feita pelos canais competentes de apelação à metrópole c pela
persuasão de que o desejo de controle centralizado da Coroa impunha o ataque
a seus urgentes problemas fiscais.
O recurso à metrópole como meio de enfraquecer a Relação indica que as
tentativas de integrar os magistrados no tecido social e económico da colónia, a
fim de incorporar o poder do tribunal e subverter sua independência, não
foram totalmente bem-sucedidas. Os magistrados com frequência manifesta-
vam interesse na colónia c no bem-estar dos colonos, tanto quanto no seu pró-
prio ganho pessoal, mas em última análise a Relação permaneceu ligada à
Coroa e quase sempre além do controle da elite colónia!.
O fechamento da Relação provocou muitos reajustes na estrutura da
Justiça. Com o fim do Tribunal Superior, o sistema anterior, baseado num
ouvidor-geral, foi reinstituído. Antão de Mesquita, casado no Brasil e talvez
desejoso de ali permanecer» foi escolhido para ficar na colónia como ouvidor-
-geral. Na verdade, a Coroa também pensou em nomeá-lo provedor dos defun-
tos, mas essa função foi dada a Diogo de São Miguel Garcês.35 Os outros desem-
bargadores foram instruídos a voltar para casa e o rei ordenou aos governadores
de Portugal que arranjassem meios de providenciar posições para eles na
metrópole. Os magistrados esperavam receber assentos na Casa da Suplicação
ou na Relação do Porto, como ocorrera com seus antecessores em 1621, "sendo
costume sagrado que magistrados vindos do Brasil os recebam antes dos
outros"36 A maioria dos magistrados teve seus desejos atendidos e alguns rece-
beram cargos ainda melhores. Martim Afonso Coelho tornou-se juiz da índia e
Mina, António das Póvoas passou a ser membro do Conselho da Fazenda e
Manoel Jácome Bravo conseguiu assento na Câmara municipal de Lisboa.
Alguns dos desembargadores se tornaram conselheiros regulares em assuntos
brasileiros, e eram convocados por órgãos de governo para dar opiniões e con-
selhos especializados.37 Assim, iniciou-se uma tradição que seria revivida no
século xviu. Os desembargadores, escreveu Sebastião da Rocha Pitta em 1724,
"voltando para Portugal, ocuparão os maiores conselhos do Reino e o supremo
lugar de letras onde se acham de presente alguns exercendo dignissimamente TERCEIRA PARTE:
aqueles superiores empregos".38 A RELAÇÃO RENASCIDA,
Em 14 de abril de 1628, o regimento do ouvidor-geral foi reeditado por
1652-1751
Paulo Leitão de Abreu.39 As capitanias do Sul tinham mantido sua autonomia
judiciai sob o ouvidor-geral do Sul, mas a remoção da Relação da Bahia tornou
necessário recorrer de suas decisões a Portugal. Os velhos problemas de custo e
atraso voltaram a aparecer, mas agora exacerbados pelas ténues comunicações
através do hostil Atlântico infestado de navios inimigos. Queixas dos colonos
do Rio de Janeiro contra a situação levaram a Coroa a ampliar os poderes do
ouvidor-geral do Sul, num novo regimento de 1630, e no mesmo ano um novo
conjunto de instruções foi baixado pelo ouvidor-geral do Brasil na Bahia.40
De 1630 a 1652, as pressões da guerra contra os holandeses no Brasil e a
guerra da independência contra a Espanha, que começou com a revolta portu-
guesa de 1640, impediram que se desse muita atenção ao sistema judicial, mas a
Relação não era uma instituição esquecida. Apesar de inconveniente para
alguns e odioso para outros, o Tribunal Superior havia demonstrado seu valor.
Tanto a Coroa como os colonos tinham interesse no seu restabelecimento e em
1652 a Relação foi mais uma vez autorizada para o Brasil.

194
ii. Problemas de justiça

As capitanias do Estado do Brasil e Reino de Angola têm recebido


quase tanto dano das alçadas como dos holandeses.
Salvador Correia de Sá (1673)

LEI E ORDEM COLONIAL

As décadas de meados do século xvn trouxeram mudanças consideráveis


para Portugal e seu Império. Na Europa, a nobreza portuguesa, convencida de
que a conexão espanhola já não a beneficiava, finalmente associou-se a seus
compatriotas nacionalistas, ou pelo menos antiespanhóis, das classes mais
pobres. O estandarte da revolta foi erguido em dezembro de 1640, e um novo
rei proclamado; era João, duque de Bragança, que agora se tornaria d. João iv,
rei de Portugal. A Espanha, acossada nos Países Baixos c às voltas com uma séria
rebelião na Catalunha, não podia reunir todas as suas forças contra os portu-
gueses, que mostraram considerável determinação na longa série de choques e
cercos fronteiriços que constituíram a guerra da independência. Essa luta,
geralmente chamada de Guerra da Restauração, terminou em 1668 com os
espanhóis reconhecendo a independência portuguesa.'

197
Enquanto isso, a estrutura imperial também passava por mudanças. Todas
mais uma vez se queixaram dos dispendiosos recursos legais à metrópole. Essas
as áreas coloniais portuguesas, com exceção apenas de Ceuta, declararam fide-
petições finalmente tiveram efeito em 1651, quando a Coroa começou a sele-
lidade a d. João iv. O perigo de ações espanholas nas colónias como parte da
cionar magistrados para um novo Tribunal Superior. O último apelo da Câmara
luta luso-espanhola era real, mas revelaria, no decorrer do tempo, ser coisa de
veio em janeiro de 1652. Numa lista de queixas e aspirações, o restabelecimento
pouca monta.2 Em contrapartida, os holandeses continuaram a ser a maior
da Relação vinha em primeiro lugar.6 Em 12 de setembro de 1652, um novo
ameaça aos postos coloniais portugueses. A guerra portuguesa contra os holan-
regimento foi emitido para a Relação, e em março de 1653 os juizes prestaram
deses nos "três continentes e cinco mares" tinha sido resultado, em parte, dos
seu juramento do cargo na Bahia. À frente, como chanceler, estava Jorge Seco de
laços de Portugal com a Espanha. Apesar das esperanças portuguesas em sen-
Macedo, antigo desembargador em Goa e juiz na Casa da Suplicação.7
tido contrário, o conflito continuou mesmo depois da separação da Espanha
Nem todo mundo no Brasil tinha boas lembranças da Relação, e protestos
em 1640, impelido por seu próprio desenvolvimento e tornando-se em muitos contra o seu renascimento vieram de vários setores. Talvez a mais afiada
sentidos uma guerra puramente colonial.
expressão de discórdia tenha sido a de um letrado que mais tarde se tornaria
A luta terminou, como observou C. R. Boxer, com uma vitória holandesa membro do Tribunal Superior. Luís Salema de Carvalho, magistrado que já
na Ásia, um empate na África e um triunfo português no Brasil. Os luso-brasi- estava no Brasil em missão judicial, notou a existência de alguma desconfiança
leiros expulsaram os holandeses de Angola em 1648 e libertaram as capitanias na colónia com relação ao Tribunal Superior. Ele escreveu ao Conselho
nortistas do Brasil até 1654.3 Vitórias holandesas em Malacca, Colombo e na Ultramarino dizendo que enviar a Relação para o Brasil equivalia a "guardar
costa de Malabar representaram duros golpes para o sonho imperial português, ovelhas dos lobos por mandar mais lobos".8 Era, em certo sentido, uma decla-
mas em meados do século XVTI o oceano Índico já não era o nexo do Império. O ração profética.
açúcar e os escravos do Atlântico tinham superado as especiarias do Leste nos A Bahia, nos cem anos entre 1650 e 1760, era uma área colonial que crescia
cálculos imperiais. Portanto, em termos de valor, Portugal retivera o núcleo de e amadurecia. Em 1700 a região urbana de Salvador tinha mais de 40 mil mora-
seu poderio colonial
dores, e em 1770 a população total da capitania foi calculada em 288 848 almas.9
Durante o período de restauração em Portugal, a reforma administrativa Visitantes no século xviii geralmente falavam da preponderância de negros e
que mais afetou as colónias foi a criação de um novo Conselho Ultramarino. mulatos nas ruas de Salvador. O viajante francês Amédée Frézier provavelmente
Esse órgão suplantou o Conselho da Fazenda e assumiu o controle de todos os exagerava ao calcular a proporção de vinte negros para cada branco na cidade,
assuntos coloniais de natureza civil e militar, com exceção das nomeações de mas um censo eclesiástico da mesma década revela que mesmo uma paróquia
letrados para a magistratura colonial, que continuaram nas mãos do urbana como Conceição tinha 2820 escravos numa população total de 4938, ou
Desembargo do Paço. Estabelecido em 1642, o Conselho Ultramarino conti- 57% de escravos, para não falar em negros libertos e mulatos. 10 Esse mesmo
nuou a ser um importante órgão de governo até o século xix, mas a criação de censo revelou uma proporção ainda mais alta entre escravos e homens livres em
uma Secretaria Colonial em 1736 e o desenvolvimento de um poderoso algumas das paróquias açucareiras do Recôncavo, onde, depois de 1700, africa-
Ministério Colonial nos anos de 1760 restringiram severamente o seu poder.4 nos da costa da Mina começaram a chegar em grande número, como resultado
Um ano depois da criação do Conselho Ultramarino, seus conselheiros do comércio transatlântico cujo centro era a Bahia.
receberam uma petição para o restabelecimento da Relação da Bahia. Os padrões de vida estabelecidos nos primeiros cern anos da cidade ama-
Curiosamente, a Câmara de Salvador, que em 1626 desempenhara importante dureceram e floresceram em barroca efusão no século seguinte. A religião e o
papel no fechamento do Tribunal Superior, agora era uma agitadora da causa sexo parecem ter sido os principais passatempos da população urbana. Muitos
do seu renascimento.5 Em 1642, sugeriu que a Relação fosse reinstituída na observadores mencionavam a devoção dos baianos, suas pródigas procissões e
Bahia e, quando a guerra holandesa chegava ao fim, os poderosos da cidade a beleza de suas igrejas. Na realidade, essa religiosidade encontrou expressão

198
199
entre 1650 e 1750 numa intensa atividade arquitetônica. William Dampier, que sar de o açúcar brasileiro já não controlar o mercado europeu, o açúcar e os
visitou a cidade em 1699, informou que havia treze igrejas e capelas na cidade, senhores de engenho mantiveram seu domínio regional.
entre elas um convento das Pobres Clarissas, que datava de 1677." A magnífica A importância de outras atividades económicas cresceu no século \\':n. O
igreja jesuíta, concluída em 1672, deu o tom das construções, que outros segui- tabaco era um item importante na economia regional. Seu cultivo concentrava-
ram. Um dos templos mais adoráveis era o convento de Santa Teresa (1686), -se nos arredores das cidades de Cachoeira e Maragogipe, no Recôncavo. Hm
construído pelas Carmelitas Descalças, num belo lugar dominando a baía. Esse meados do século xvin, o tabaco baiano era exportado para a Europa, para
fervor arquitetônico era acompanhado do vigor da atividade institucional. No outras capitanias brasileiras e para a costa da Mina, onde se tomou importante
fim do século xvn e começo do século xvni, as irmandades religiosas de Salvador mercadoria de troca no comércio de escravos africanos. 13 O rabaco era agricul-
floresceram. A Misericórdia e a Terceira Ordem de São Francisco, de classe tura de "pequenos". Não exigia o grande capital de giro de um engenho cie cana
alta, continuaram sendo as mais prestigiosas organizações laicas, mas a elas se e os plantadores de tabaco não eram ricos nem politicamente poderosos como
juntaram irmandades negras, como Nossa Senhora do Rosário (1685) e Santo os plantadores de cana. Não se poderia dizer o mesmo dos homens envolvidos
António de Catagcró (1699), e outras que recebiam com prazer a crescente no outro crescente setor da economia baiana, a criação de gado. No começo do
população mulata. Uma rcação secular, que se revelou num declínio dos lega- século xvin, fazendas de gado se estabeleceram no interior da capitania, espe-
dos caritativos, teve início em meados do século xvin, mas os baianos preserva- cialmente ao longo das margens meridionais do rio São Francisco. Rebanhos
ram sua reputação de beatice.1- eram periodicamente levados do interior para as cidades perto do Recôncavo,
Os moradores de Salvador também tinham reputação de sensualidade e onde o gado era vendido para a produção de carne c couro ou para uso como
depravação. Observadores estrangeiros talvez exagerassem no tamanho da animais de tração nos engenhos. Os criadores, alguns deles donos de milhares
prostituição e na disponibilidade até de "senhoras decentes", mas não há dúvida de cabeças em seus imensos pedaços de terra, diferiam muito pouco dos senho-
de que as oportunidades de encontros sexuais eram praticamente ilimitadas. O res de engenho, no que dizia respeito às origens e aspirações sociais. ÀS ve/es os
grande número de pessoas de sangue mestiço indicava o alto nível de miscige- criadores também eram donos de engenho e muitos que não eram t i n h a m
nação. "Negra para trabalhar, branca para casar, mulata para a cama'' era a vínculos de sangue e casamento com famílias canavieiras da costa. Os "potenta-
fantasia dos machos baianos. Virgindade, dotes, noivas, amantes c bastardos dos do interior" como eram chamados criadores de gado do calibre de António
eram tópicos de grande interesse popular e de preocupação comum. Guedes de Brito e João Peixoto Viegas, não representavam ameaça ao domínio
A economia também ocupava alto lugar entre as preocupações baianas. político da classe canavieira; em vez disso, representavam outro setor dentro da
Depois de 1650, a concorrência cada vez maior de ilhas açucareiras do Caribe e elite de proprietários de terra e uma ampliação da aristocracia baiana.
as vicissitudes dessa agricultura no Brasil inibiram seriamente o crescimento da A diversificação da economia baiana, a contínua exportação de açúcar e o
indústria brasileira do açúcar. Surgiu uma crise nos anos de 1680 c, apesar de próspero comercio de tabaco e couro estimulavam a expansão da comunidade
ter tido alguma recuperação depois disso, a indústria sofreu um segundo cho- mercantil de Salvador e o papel dessa cidade como importante porto comercial
que no fim dos anos de 1690. A descoberta de ouro em Minas Gerais em 1695 brasileiro. O comércio com Portugal organizou-se, depois de 1649, num sis-
atraiu muitos homens das regiões costeiras e fez disparar o preço dos escravos. tema de comboios anuais, que funcionou irregularmente até 1765." Alguns dos
Essa situação, associada à queda do preço do açúcar em mercados europeus, navios que formavam esses comboios foram construídos nos estaleiros da
atingiu duramente os produtores marginais e os lavradores de cana. Muitos Bahia, que no início do século xvm fabricavam navios para a navegação de
foram alijados j da indústria ou sofreram perda de status e de posição econó- cabotagem e para o comércio na índia.15 Em 1759, Salvador tinha mais de cem
mica. As famílias proprietárias dos grandes engenhos sobreviveram e continua- navios mercantes envolvidos no comércio com Portugal,Álrica e outros portos
ram a representar o mais poderoso grupo socioeconômico da capitania e, ape- brasileiros. Talvez o avanço mais importante no setor de exportação e importa-
cão tenha sido o surgimento do comércio com a costa da Mina na África, onde a escravos negros, mulatos e estrangeiros. Uma exceção, entretanto, foi a maior
a aguardente e o tabaco baianos davam aos comerciantes de Salvador conside- execução em massa do Brasil colonial, quando, em 1718, 27 piratas ingleses
rável vantagem sobre seus concorrentes de Portugal. Só o porto de Whydah foram condenados pela Relação e enforcados na Bahia.21
fornecia à Bahia de lOmila 12 mil escravos anualmente por volta de 1731.16 A aplicação da lei à população de origens não europeias ainda servia mais
É claro que nem todos os homens de negócio de Salvador participavam do como lição prática do que como administração de justiça. Os índios permane-
comércio transatlântico. Alguns se especializavam em finanças e investimentos ceram, basicamente, fora do interesse do judiciário civil, apesar de uma lei de
na capitania, onde a demanda de crédito sempre fora grande. Outros obtinham 1700 ter dado ao ouvidor-geral jurisdição apelatória em todos os casos que os
lucros consideráveis no comércio legal e ilegal de ouro, que se desenvolveu envolvessem.22 Os índios, no entanto, eram considerados, ao lado dos mulatos e
depois da abertura das Minas Gerais. Os comerciantes, como vimos no capítulo dos negros, grandes encrenqueiros e, portanto, merecedores de atenção judicial
5, estavam firmemente estabelecidos em Salvador desde os primeiros dias. Nos específica.23 No Rio de Janeiro, em Pernambuco, em São Paulo e em Minas Gerais
cem anos que se seguiram a 1650, o setor mercantil cresceu e expandiu seus ouvidores podiam condenar esses "tipos criminosos" à morte. Escravos rugidos
papéis sociais e políticos. Entre 1700 e 1750, começou a adquirir um prestígio também eram da alçada das autoridades civis. Geralmente, depois da captura,
social correspondente à sua riqueza. Isso era demonstrado pela crescente acei- eram simplesmente devolvidos aos donos, muito embora os que tivessem se
tação dos comerciantes em altos postos dentro da irmandade da Misericórdia.17 juntado a mocambos, atacado fazendas ou molestado viajantes fossem sentencia-
A posição dos varejistas e da numerosa população de artesãos da cidade, muitos dos ao açoite e às galés ou ao exílio penal.24 Em 1690, o desembargador José de
dos quais eram mulatos ou negros libertos, não parece ter mudado muito até o Freitas Serrão queixou-se de que exilar fugitivos para Angola ou São Tomé não
século xvni, apesar de seu crescimento numérico. chegava a ser castigo, pois equivalia a mandá-los para casa. Sugeriu que, em vez
Os problemas de justiça encontrados pelo novo Tribunal Superior de disso, eles fossem empregados pela Coroa em obras públicas.25 Depois de 1741,
Apelação eram os mesmos que seu antecessor tinha enfrentado: uma sociedade todos os fugitivos recapturados eram marcados a ferro com a letra "F"26
colonial indisciplinada, grande poder nas mãos de indivíduos e famílias e vastos Em suas atitudes para com mestiços, mulatos e negros os desembargado-
setores da população incapazes ou sem vontade de sujeitar-se às normas sociais. res de brancura lirial refletiam os preconceitos dos portugueses coloniais, mas
O pelourinho que se erguia na frente do Colégio Jesuíta testemunhava a puni- como representantes da Coroa também eram chamados a eliminar afrontosas
ção de presos condenados de todos os níveis da sociedade e de todas as cores.18 violações nas relações entre senhores e escravos. Os magistrados por vezes
Além dos castigos comuns das multas financeiras, do exílio penal e das galés, as achavam difícil superar seus temores e inseguranças nessa questão. O desem-
marcações a ferro, os açoites, o enforcamento e a decapitação também eram bargador Cristóvão de Burgos dedicou um parágrafo inteiro, em seu relatório
usados.19 A relutância do primeiro Tribunal Superior em emitir sentenças de de 1681 sobre o estado da justiça, ao problema dos negros libertos e escravos,
morte não reapareceu no novo tribunal. A corda e o machado do carrasco tam- cujas habilidades com venenos eram de tal ordem que eles poderiam eliminar
bém funcionaram, embora o machado costumasse ser reservado para os bem- famílias inteiras sem deixar traços de suas ações.27 A preocupação de Burgos
-nascidos, uma vez que a morte por enforcamento era considerada desonrosa. provavelmente vinha do fato de que Francisco Mendes de Burgos, parente seu,
Foi esse o caso, em 1687, quando Fernão Barbalho Bezerra, rico e respeitado fora morto por seu escravo mulato.28 Apesar disso, pelo fim do século xvn a
senhor de engenho pernambucano, morreu pelo machado do algoz, por ter Relação passou a dar mais atenção a esses problemas. Em 1700, os juizes recebe-
matado a mulher, três filhas e um sobrinho, na crença de que uma de suas filhas ram ordem real para investigar relatos de que senhores brasileiros cruelmente
tinha se submetido a relações ilícitas em casa, desonrando-o.20 Casos dessa açoitavam, mutilavam e matavam de fome seus escravos.29 De tempos em tem-
natureza eram raros o bastante para levar observadores contemporâneos a pos, a Relação obrigava senhores a vender escravos que sofriam abusos. Havia,
registrá-los, algo que nem sempre faziam com casos de pena de morte aplicada porém, certa leniência com senhores acusados de maltratar seus escravos.

203
Exemplo disso foi Francisco Jorge, preso por matar seu escravo a chicotadas. morte do Tribunal Superior em 1626 e o seu renascimento cm 1652, a popula-
Diante de um recurso que alegava ser ele homem pobre, com muitos filhos, e ção da colónia crescera e a área povoada estendera-se alem da faixa costchv..
que a acusação era falsa, a Relação lhe concedeu perdão.30 Reconhecer essas mudanças restabelecendo a Relação tinha sentido nm ia/ê-
Na realidade, a facilidade com que os criminosos eram soltos sob fiança, -lo em escala menor não tinha sentido algum.
recebiam permissão para continuar em liberdade (cartas de seguro) ou eram A insuficiência de pessoal afligiu o Tribunal Superior cia Bahia ao lontii) <1.'
perdoados enfraquecia seriamente a autoridade da Relação. Curiosamente, toda a sua história. Queixas de excesso de trabalho, feitas pelos inanishados,
homens dos extremos opostos da estrutura social tinham mais êxito em conse- devem ser encaradas com reservas, mas o volume e a consistência de p l e i t o s
guir esses mandados. Brancos costumavam ter o poder, a influência ou a riqueza semelhantes, oriundos de várias fontes, não podem ser ignorados. Tui/<jb ausen-
necessários para escapar das autoridades civis. Escravos presos por crimes tes de Salvador em investigações especiais, atribuições extras de natureza admi-
banais, e às vezes por crimes graves, tinham a vantagem de contar com um nistrativa e um grande número de casos à espera de julgamento combinavam
senhor que podia pedir sua soltura alegando que eles eram necessários para o para retardar o processo judicial. Crimes que previam pena de morte geral-
seu sustento. Os do meio — brancos pobres, libertos, artesãos e trabalhadores mente não eram punidos porque o quorum exigido de seis juizes não podia srr
manuais — não tinham ninguém para interceder por eles, nem dinheiro ou reunido.34 A Coroa autorizou a elevação do número de vagas no Tribunal
relações para conseguir a própria soltura. Eram eles que mais sofriam com as Superior para dez, em 1658, rnas por alguma razão, provavelmente de natureva
miseráveis condições das cadeias de Salvador, que, a despeito de várias tentativas orçamentaria, a medida não entrou em vigor.3" Só uma serie de queixas era 169S
de reforma, continuavam a ser buracos imundos. Apesar disso, a leniência do finalmente conseguiu aumentar o contingente do Tribuna! Superior para dez
Tribunal Superior em conceder perdões motivava queixas periódicas, que leva- juizes, mas o crescimento da colónia e os compromissos cada vez mais numero-
ram a Coroa a agir em 1679. Em 1681, o desembargador Cristóvão de Burgos sos dos desembargadores não resultaram num decréscimo das pressões sobre o
lamentou a persistente situação c em 1698 a Coroa mais uma vez agiu para cargo magistrático.36
restringir a concessão de perdões e fianças.31 Uma olhada no Livro de perdões e Os dez juizes da Relação eram, simplesmente, incapazes de lidar com o
fiança da Relação demonstra a ineficácia dessa medida. número de casos que aguardavam no tribunal. Como vimos no capítulo 4, o
O regimento emitido para a Relação não diferia significativamente das volume de litígios excedia em muito o tempo disponível. Alérn disso, o Tribuna'
diretrizes anteriores de 1609. A jurisdição do Tribunal Superior continuou Superior geralmente funcionava abaixo de sua capacidade plena, porque os
basicamente inalterada. 32 Todas as outras capitanias ficaram mais uma vez juizes, como qualquer pessoa no Brasil, estavam sujeitos à alta morbidade c às
subordinadas judicialmente à Relação na Bahia, enquanto o estado do Maranhão más condições de saúde da colónia. Referências a desembargadores doentes ou
permaneceu uma entidade separada, sobre a qual o tribunal baiano não exercia incapacitados para o desempenho de suas funções podem ser encontradas em
controle. O Conselho Ultramarino rejeitou algumas sugestões para estabelecer toda a história do Tribunal Superior, mas o incidente mais sério íoi certamente
um tribunal em Pernambuco, com o argumento de que o Brasil era incapaz de a morte de cinco juizes na epidemia de febre amarela de 1685-7, situação que
manter tantos juizes. Os conselheiros alegavam que era insensato permitir um fez o tribunal suspender suas atividades.37 Os magistrados, às vezes, aproveita-
aumento do número de letrados no Brasil, que precisava urgentemente de sol- vam-se da má reputação do Brasil como lugar insalubre para abreviar seu
dados, não de advogados, em seu solo." Esses sentimentos influenciaram a tempo de serviço, alegando que seus "achaques" exigiam cuidados médicos só
composição do próprio Tribunal Superior, de modo que, em vez de dez desem- existentes em Portugal. Foi o caso do chanceler Manoel Carneiro de Sá, que
bargadores, o recóm-criado tribunal só tinha lugar para oito juizes. Mais uma pediu e obteve permissão em 1691 para partir depois de quatro anos de serviço,
vez a rivalidade magistrático-militar e a desilusão geral com a burocracia legal em vez de cumprir o tempo de seis anos.38 Reais ou fingidas, essas doenças des-
prejudicaram a atuação do Tribunal Superior. No quarto de século entre a falcavam a força de trabalho do Tribunal Superior.

204
Para piorar a situação, a Relação mantinha um estrito programa de proce- natural, pois, à boa moda ibérica, tais conselhos geralmente exerciam poderes
dimentos no tribunal, em que os recursos civis eram ouvidos primeiro, os casos judiciais. Eis novamente um exemplo de como a magistratura assumia outras
criminais em seguida e os negócios da Coroa por último.39 O volume de recur- tarefas burocráticas na colónia.
sos civis costumava ser tão grande que sobrava pouco tempo para outros casos. Como no caso da primeira Relação, os magistrados reais eram geralmente
Como resultado, pessoas acusadas de delitos criminais geralmente padeciam incumbidos de tarefas especiais ou de participar de comissões ad hoc.4í Uma de
meses, ou anos, na decrépita cadeia de Salvador, sofrendo extremas privações; suas atribuições mais importantes no fim do século xvn e começo do século
alguns até morriam de fome. Só as obras de caridade da Misericórdia, que ofe- xvin era fixar o preço do açúcar.44 Esse artigo continuava tendo papel central na
recia alguns cuidados médicos e alimentos para esses infelizes, impediam que as vida agrícola da capitania e seu preço era assunto de interesse geral. Os senhores
condições piorassem ainda mais.40 Certamente, os magistrados tinham alguma de engenho havia muito reclamavam que os comerciantes de Salvador manipu-
responsabilidade pela situação, mas a carga de trabalho de cada um devia ser lavam os índices do açúcar, reduzindo o preço e arruinando os produtores.
enorme e o uso constante dos desembargadores pela Coroa para tarefas alheias Durante a maior parte do século xvn, a Câmara tinha assumido a tarefa de fixar
ao tribunal complicava mais ainda o problema. Era uma questão de justaposi- o preço do açúcar por meio de uma comissão com representantes dos consumi-
ção burocrática, na qual a Coroa achava mais oportuno aumentar os poderes e dores, produtores e exportadores, presidida por um magistrado real. Em 1690,
responsabilidades da burocracia existente do que criar novos cargos e nomear a Coroa estabeleceu uma comissão que deveria se reunir duas semanas antes da
outros funcionários. chegada da frota, a fim de fixar um preço justo. Esse órgão incluía representan-
Os juizes ofereciam uma reserva de burocratas bem treinados, suposta- tes dos senhores de engenho e dos comerciantes, com dois desembargadores na
mente leais ao trono e portanto hábeis solucionadores de problemas e membros função de árbitros.45 Em 1697 e 1698, a Relação fixou o preço por conta própria.
de novos órgãos administrativos. Sempre que uma situação particularmente Em 1751, uma comissão permanente, a Mesa da Inspeção, foi criada para regu-
perigosa ocorria no Brasil, um desembargador do tribunal baiano era mandado lar preços e controlar a qualidade dos produtos agrícolas de exportação, espe-
para investigar e relatar. O ataque francês ao Rio de Janeiro em 1710, os tumul- cialmente açúcar e tabaco. Na Bahia, o funcionário que presidia esse órgão, o
tos urbanos em Minas Gerais em 1720 e a luta entre os senhores de engenho e intendente-geral, era sempre um desembargador.46 A inclusão desses deveres na
os comerciantes em Pernambuco em 1711 (a Guerra dos Mascates) resultaram rotina diária dos magistrados do Tribunal Superior era lógica, e talvez até
em investigações conduzidas por magistrados reais. Às vezes as tarefas eram necessária, mas seus efeitos finais na administração de justiça se mostraram
ainda mais perigosas. O desembargador Dionísio de Ávila Varieiro embarcou deletérios. Fossem quais fossem as dificuldades criadas pelas crescentes respon-
com cinquenta soldados para Porto Seguro em 1692 com a missão de dispersar sabilidades em Salvador, entretanto, elas eram de longe excedidas pelo papel
um bando de assassinos brutais que aterrorizavam a capitania. Ele conseguiu cada vez maior dos magistrados do Tribunal Superior dentro da colónia e
capturar os chefes, que foram julgados e enforcados pela Relação.41 mesmo para além dela.
Mais demorado e menos heróico era o serviço magistrático em órgãos A disposição da Coroa de ampliar as responsabilidades da Relação pode
administrativos recém-criados, nos quais a dignidade institucionalizada e o ser avaliada no caso da África Ocidental. Em meados do século xvn, o Brasil
status dos juizes davam um senso de legitimidade a instituições que ainda care- tinha superado a índia como a mais importante colónia do Império português.
ciam da patina do tempo. A Junta do Conselho da Fazenda, estabelecida em Lentamente, a Coroa começou a reconhecer esse fato estendendo a jurisdição
1652, incluía entre seus servidores o juiz da Coroa e Fazenda da Relação, dois de funcionários coloniais no Brasil para que partes da África Ocidental fossem
desembargadores dos agravos, o procurador da Coroa e o provedor da Fazenda. incluídas. A sugestão de incluir Angola na jurisdição apelatória da Relação da
A Casa da Moeda, que datava de 1694, sempre teve um chanceler da Relação Bahia, em vez de mante-la diretamente sob a metropolitana Casa da Supl icação,
como superintendente.42 A participação de desembargadores nesses órgãos era foi apresentada já em 1626 e funcionários de ambas as colónias reiteravam a

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proposta de tempos em tempos."17 Embora a Coroa nunca tenha i mplementado Os criminosos do sertão vinham dos dois extremos da escala social
essa mudança, os desembargadores da Relação conduziram residências e devas- Roubos e assassinatos cometidos por mulatos, mestiços e escravos fugidos tor-
sas na África. Em 1684, o desembargador António Rodrigues Banha foi man- naram-se tema constante no sertão e nas áreas rurais ao longo da costa. Mesmo
dado da Bahia para Luanda para conduzir uma residência do governador. uma cidade do Recôncavo como Maragogipe tinha sórdida reputação de "cuvi!
Outro exemplo foi a escolha de um juiz do tribunal baiano para conduzir uma de ladrões"/1 No distrito de Minas Gerais, aberto depois de 1695, caçadores de
investigação em São Tomé em 1714.48 No fim do século xvn, a Coroa costumava ouro, vagabundos e oportunistas corriam para as lavagens de ouro e criavam
conceder o título de desembargador da Relação da Bahia a juizes mandados em nas cidades da região uma população altamente transitória. O interior de Minai
missões especiais de Portugal para a África, ainda que esses homens não ocu- Gerais, além disso, era continuamente perturbado por grande número de
passem cargos na Bahia. escravos fugidos que não raro se voltavam para a bandidagem. 52
O Tribunal Superior da Bahia nem sempre estava ansioso para aumentar a Os escravos fugidos, vagabundos e salteadores que infestavam as trilhas do
área de suas responsabilidades e atribuições. Em 1744, quando sete chefes de interior do Brasil não eram a única fonte de dificuldades. Os grandes criadores
uma revolta de escravos que explodira em São Tomé chegaram à Bahia paia de gado que tinham empurrado seus rebanhos ao longo do rio São Francisco e
serem sentenciados pela Relação, os juizes hesitaram. Escreveram para a Coroa cuias sesmarias geralmente incluíam enormes pedaços de terra reinavam nu
alegando que a Relação não tinha jurisdição formal sobre a África. 49 A Coroa sertão, com pouca ou nenhuma oposição da autoridade real. A ameaça de vio-
rejeitou suas objeções e ordenou que as sentenças fossem proferidas. Missões à lência, os laços de parentesco e a deferência devida a pessoas de posição social
África Ocidental, entretanto, nunca se mostraram urn grande problema. Muito superior permitiam a esses poderosos do sertão favorecer aliados, destruir opo-
mais importante era o próprio Brasil. nentes e fugir dos castigos da lei. Em 1699, a Coroa avaliou essa situação, mas de
A lenta c às vezes dolorosa expansão da área povoada para o iníerior criou modo geral as testemunhas tinham tanto medo que se recusavam a depor, a não
problemas administrativos e judiciais, que acabaram sendo de responsabilidade ser com garantia de proteção real;53 mesmo assim, no sertão, a proteção de um
da Relação. A necessidade cie recorrer sempre a Salvador ou a outras cidades rico fa/endeiro e seus capangas valia muito mais do que um mandado da Coroa.
litorâneas para obter documentos reconhecidos cm cartório, decisões adminis- Essa situação perdurou, praticamente inalterada, até o século xx, mas,
trativas e proteção policial tornou-se cada vez mais dispendiosa para a crescente durante a enérgica administração de d. íoão de Lcncastre (1694-1702) e seu
população do sertão. No Recôncavo, cidades agrícolas como Cachoeira, sucessor. Vasco Fernandes César de Meneses (1720-35), muitas povoações do
Jaguaripe e São Francisco do Conde cresceram na segunda metade do século interior foram oficialmente incorporadas como municipalidades, num estorço
xvn a tal ponto que a sua incorporação como municipalidades independentes para lhes dar melhor administração e base judicial mais sólida. Cada cidade
se tornou necessária. E pequenas comunidades começaram a pontilhar o ser- passava a ter seu juiz ordinário, como membro da Câmara municipal, e, dessa
tão, nas margens do rio São Francisco e nas capitanias de Sergipe d'El Rei, forma, a contar com um funcionário da justiça residente. Em 1698 e novamente
Pernambuco e Piauí. As dificuldades de comunicação e transporte e as grandes em 1700, a Coroa ordenou que as paróquias rurais do sertão também tivessem
distâncias entre as áreas povoadas tornavam impossível a supervisão judicial a um juiz residente e um capitão-mor para assisti-lo no julgamento de crimino-
partir de Salvador. Desembargadores enviados de Salvador para conduzir sos.54 Essas medidas se mostraram inúteis, para dizer o mínimo. Não só os cri-
investigações no sertão geralmente relutavam em deixar os confortos da capita! minosos — grandes ou pequenos — continuaram a se impor na maioria das
e, quando embarcavam em tais missões, tinham dificuldade para conseguir áreas, como os próprios funcionários geralmente deixavam a desejar e em
comida e alojamento no interior/1* Essas condições contribuíram para a ilegali- conjunto constituíam outra fonte de ilegalidade.
dade que imperava no interior e tornaram as palavras "sertão" e "esconderijo" Encontrar homens para os cargos era o primeiro problema. Em sua maio-
praticamente equivalentes. ria, os homens do interior e os vaqueiros que habitavam o sertão eram analfa-

208
K"

betos funcionais. A Coroa determinou que, contanto que o seu secretário sou-
onde por volta de 1721 o índice de crimes violentos tinha sido drasticamente
besse ler e escrever, um juiz não precisava ser tão preparado.55 Mas escreventes reduzido, muitas dificuldades continuaram sem solução.59 O poder pessoal con-
alfabetizados eram tão escassos quanto os juizes alfabetizados. Os capitães- tinuava a dominar o interior, e salteadores descobriram que sua mobilidade lhes
-mores que governavam as capitanias se revelaram mais uma causa de proble- dava ampla proteção. Os criminosos geralmente fugiam de uma jurisdição para
mas do que um remédio para eles. Abusavam continuamente do cargo e do outra, a fim de evitar a captura. A divisa entre Bahia e Pernambuco, formada pelo
poder e geralmente entravam em choque com as Câmaras, com os funcionários rio São Francisco, era causa de dificuldades. Embora a Coroa tivesse tentado
locais e com os magistrados reais.56 Devido a ignorância, impotência ou paren- fechar essa brecha em 1749, permitindo que juizes cruzassem a divisa durante
tesco, os juizes locais raramente processavam os capitães-mores.57
uma perseguição, ela ainda era motivo de contenda e dificuldade vinte anos
Para corrigir a situação, a Coroa introduziu magistrados reais profissionais, depois.60 O problema parecia vir tanto dos funcionários da justiça .como dos
nos níveis local e regional (comarcas). Em 1696, o primeiro juiz de fora assumiu homens que eles deveriam prender. Os colonos frequentemente relatavam casos
o cargo em Salvador e, no mesmo ano, um ouvidor-geral do crime foi designado de venalidade, favoritismo, contrabando e ignorância envolvendo os ouvidores.
para a comarca da Bahia. Como se argumentara em Portugal, esses magistrados Tentativas de fazer ouvidores conduzirem residências de colegas nas capi-
profissionais estavam menos sujeitos a pressões locais do que os juizes munici- tanias vizinhas revelaram-se medida ineficiente. Interesses comuns, antigos
pais eleitos. O vice-rei do Brasil, o marquês de Angeja, apresentou esse argu- laços de escola e uma tendência à troca de favores profissionais faziam dessas
mento em 1715, ao destacar a necessidade de juizes de fora nas cidades do avaliações uma farsa rasa.61 A lassidão de tais exames e o fato de que era difícil
Recôncavo, onde os juizes locais "por parentes ou respeitosos aos delinquentes encontrar um juiz que não tivesse "por seu Mecenas alguns dos velhos do
os deixam continuar nas suas insolências".58 Apesar de o Conselho Ultramarino Desembargo do Paço" levavam esses magistrados a ignorar as decisões da
ter recusado esse pedido, por considerações orçamentarias, juizes de fora e ouvi- Relação e a fazer pouco dos governadores e outros funcionários reais.62 Em
dores designados pelo rei tornaram-se elemento permanente da estrutura judi- 1725, o vice-rei do Brasil, o conde de Sabugosa, queixou-se ao Conselho
ciaí-administrativa do Brasil do século xvm.
Ultramarino das "confusões" do ouvidor-geral da Paraíba, dos "absurdos" dos
Juizes de fora fixaram residência em grandes cidades como O linda, Rio de magistrados de Alagoas e Sergipe d'El Rei, dos "excessos" do ouvidor-geral de
Janeiro e Salvador. A Ouvidoria da Bahia (a jurisdição de um ouvidor), estabele- São Paulo e do casamento ilegal do magistrado da Coroa no Rio de Janeiro. 63
cida em 1696, foi dividida em 1742, num esforço para permitir melhor controle Esses letrados, disse o vice-rei, pareciam formar "uma formidável liga contra a
do crime. Naquele ano, uma Ouvidoria do sul da Bahia, independente, destinada lei de Deus, as leis de Vossa Majestade e os direitos do povo".64 Infelizmente,
a administrar justiça na metade meridional da capitania, foi criada com sede em queixas semelhantes, embora um pouco menos eloquentes, eram constantes no
Jacobina. Cargos semelhantes foram criados em outros lugares. Cada capitania período colonial.
tinha um ouvidor-geral, que geralmente servia como provedor da Fazenda e A resposta da Coroa a essa situação foi incumbir os desembargadores da
também como juiz dos órfãos. As áreas recém-povoadas também não foram revisão judicial dos magistrados subalternos. Assim, enquanto a criação das
esquecidas. No distrito de minas de ouro de Minas Gerais, magistrados reais jurisdições inferiores tinha reduzido a responsabilidade da Relação na primeira
assumiram cargos em quatro distritos, depois de 1714. Havia ouvidores em Vila instância, os magistrados do Tribunal Superior agora se tornavam responsáveis
Rica, Sabará, Rio das Mortes e Serro Frio. Além disso, havia um juiz de fora em pelo controle dos novos juizes. Para desempenhar tais funções — tanto as resi-
Ribeirão do Carmo e um magistrado real servia como intendente-geral na região dências trienais como as menos regulares devassas —, os desembargadores
de mineração de diamante do oeste de Minas Gerais e Mato Grosso. tinham de ausentar-se dos salões do tribunal baiano. Com frequência essas
Esses funcionários não estancaram a onda de crimes violentos no sertão, missões incluíam não só uma investigação do desempenho de determinado
nem em qualquer outra parte. Apesar de êxitos parciais, como em Jacobina, indivíduo, mas também uma análise geral do estado da justiça naquela região.
Por mais benéfica que fosse para as capitanias da colónia, essa ausência dos TABiíLA l -—CUSTOS DA DEVASSA POR DM
desembargadores de Salvador atrapalhava o funcionamento do Tribunal Superior.
Na realidade, o crescente papel dos desembargadores nos órgãos administrati- Para Pernambuco, Para Vila Nova de PataoserU.
São Francisco, 1704 haiar.n, ,71.:
vos de Salvador e suas cada vez mais numerosas atribuições de revisão judicial 1612 (cm réis)
em outras capitanias eram tendências difíceis de conciliar. O desempenho de (em reis) lenireis)

uma tarefa prejudicava a outra. Em agosto de 1709, o governador do Brasil Desembargador 1200 ^500 501(( -

escreveu à Coroa informando que não tinha mandado um desembargador Meirinho 600 2000 Jl)00

investigar um incidente no sertão porque havia muito poucos desembargado- Escreventes (2a) 600 2000 ( 2 , 1 ) if, u o
res em Salvador e os poucos que havia ocupavam dois ou três cargos.65 O acú- Guardas (63)550 (12 a) 320 (2/1 a) 300
mulo de tarefas administrativas em Salvador e o uso de desembargadores como' Total 6300 103/|0 2-Í200

juizes itinerantcs e investigadores especiais em outras capitanias eram tendên-


Fonte: BI, Correspondência de Gaspar de Sousa, f. 117; DHR,VJÍ, ixv (1944), 154-6; DÍUV,?, \c\, 128-31.
cias que vinham do período da primeira Relação. À medida que a colónia cres-
cia em tamanho e população, essas demandas se tornaram mais pesadas e a
eficácia do Tribunal Superior, ainda mais questionável.
E havia outro problema: as devassas custavam caro. Muito embora as Habitantes de outras capitanias de vê/, ein quando tentavam evitar as
remunerações variassem de acordo com a época e a dificuldade, a Tabela l indica visitas de magistrados baianos e os custos dos recursos a Salvador pedindo c
a amplitude da variação e os níveis de possíveis custos. estabelecimento de uma Relação em sua área. Mesmo uma cidade/inha
Geralmente, as despesas eram custeadas pela cobrança de multas dos cul- pequena como Sirinhaém (Pernambuco) tentou essa solução.08 Nas capita-
pados ou pela exigência de que os moradores locais fornecessem comida e alo- nias do Sul, havia, é claro, uma tradição de certa autonomia judicial, unia vez
jamento, política que pesava bastante no bolso dos colonos. Também faziam que no século xvn essa área tinha seu próprio ouvidor-geral. Queixas contra a
parte do problema os desembargadores desonestos, que inflavam suas despesas necessidade de recorrer de suas decisões na Bahia eram feitas de tempos em
ou trabalhavam tão lentamente que o custo das missões atingia somas astronó- tempos. F,m 1658, por exemplo, colonos do Rio de janeiro pediram que fun-
micas. O desembargador Diogo Filipe Pereira fez uma inspeção judicial no cionários acusados cm devassas tivessem licença para apresentar sua defesa
Recôncavo em 1716, pela qual pediu urna bonificação equivalente a 435 dias de no Rio, em vez de arcar com as despesas de uma audiência na Bahia.69 O
serviço; mais tarde se descobriu que a missão durara apenas 104 dias/6 Em crescimento de Minas Gerais agravou o problema, pois o volume de apelações
1673, o desembargador Manoel da Costa Palma retirou mil cruzados por mês aumentou mais ou menos na proporção do crescimento da população. Hm
como seu estipêndio durante missão na Paraíba. Isso provocou inflamadas 1733, as Câmaras de vereadores de Vila Rica e Ribeirão do Carmo voltaram ao
queixas dos colonos da capitania, que foram obrigados a pagar a conta. Relatos assunto, oferecendo-se para pagar parte dos custos do estabelecimento de
do incidente acabaram chegando ao Conselho Ultramarino cm Lisboa, onde uma nova Relação no Rio de Janeiro.70 A Coroa autorizou a criação de um
Salvador Correia de Sá, velho funcionário do Brasil e eterno defensor dos inte- novo tribunal mas ao que tudo indica a falta de fundos impediu que o p roje to
resses da colónia, tomou o partido dos colonos. Com certo exagero, ele afirmou fosse adiante.
que "o Estado do Brasil e o Reino de Angola sofreram quase tantos danos das Em meados do século, a Coroa já não podia mais ignorar as alterações
missões judiciais quanto dos holandeses"67 A solução que propôs foi estabelecer J demográficas e económicas. A florescente população de Minas Gerais e o valor
' í*
um prazo para essas visitas, findo o qual nenhum salário poderia ser retirado. A do ouro tirado de seus cursos d'água deram ao sul do Brasil nova importância.
proposta aparentemente não entrou em vigor. Além disso, a investida portuguesa para o extremo sul, em direção à capitania

2T2
do Rio Grande de São Pedro e às margens do rio da Prata, fez do Sul uma região A Relação e a Câmara municipal de Salvador viviam uma curiosa dialética
estrategicamente vital para as ambições imperiais de Portugal. O Rio de Janeiro, de necessidade e rejeição.75 Esse, é claro, tinha sido o padrão histórico estabele-
o principal porto da costa meridional, ficava mais perto das minas e da fron- cido na época do primeiro Tribunal Superior. A Câmara de Salvador aceitara o
teira militar luso-espanhola do Sul. No século xvm, o papel de entreposto para Tribunal Superior como aliado em 1609, mas desiludira-se com a legislação
Minas Gerais e área de preparação para expedições ao sul veio somar-se à sua indígena que resultou na lei de 1611.Entre 1624e 1626,aCãmara tinha desem-
antiga posição de centro administrativo regional. A criação da Relação do Rio penhado papel fundamental na campanha para abolir a Relação. Em 1643,
de Janeiro em 1751 foi um passo rumo ao reconhecimento da importância entretanto, os vereadores da cidade de Salvador tinham, mais uma vez, feito
política da cidade, que culminaria com a sua elevação, em 1763, a capital do petição para o estabelecimento de um Tribunal Superior residente e em 1652
vice-reino. A criação desse novo tribunal no Rio de Janeiro dividiu a jurisdição alcançaram seu objetivo. Frequentemente insatisfeita quando o Tribunal
do Tribunal Superior baiano em duas, separando-o das capitanias ao sul do Superior se estabelecia em Salvador, a Câmara municipal tinha concluído que
Espírito Santo e das novas terras do oeste. as dificuldades e as despesas implicadas em pleitos judiciais encaminhados a
Portugal eram maiores do que as desvantagens de ter um tribunal residente. Os
desembargadores, por sua vez, não tinham respeito algum pelos juizes eleitos
CONFLITOS ADMINISTRATIVOS
da Câmara municipal, que consideravam ignorantes e venais. O padrão geral
das relações entre as duas instituições só mudou em 1696, quando a Relação se
tornou responsável direta pela seleção do pessoal da Câmara. Durante um
Basicamente, os padrões de conflito entre a Relação da Bahia e outros
século, a partir de 1652, a cooperação rompida de vez em quando por conflitos
braços do governo colonial seguiram sem maiores alterações ao longo dos sécu-
caracterizou essas relações.
los xvn e xvm. As disputas com o provedor-mor permaneceram característica
O último grande período de conflitos entre os vereadores e os desembar-
constante da história do Tribunal Superior. Invariavelmente, a Coroa repreen-
gadores foram os anos de 1670. O confronto envolveu problemas de natureza
dia o juiz por se imiscuir em questões do Tesouro, e invariavelmente também
pessoal e institucional. Teoricamente, a justiça no Brasil deveria ser universal,
eles voltavam a se imiscuir.71 Apesar de um súbito alvoroço nos anos de 1690, as
distribuída correta e igualmente para todos. Como esse objetivo raramente era
ferozes batalhas com o episcopado, que tinham caracterizado a história da pri-
atingido, a Câmara municipal recorria à segunda melhor alternativa: a justiça e
meira Relação, não reapareceram depois de 1652.72 Talvez a criação de um a administração mais favorável a seus interesses, que eram basicamente os da
arcebispado em Salvador em 1676 tenha contribuído, de alguma forma, para aristocracia colonial dos senhores de engenho e proprietários de escravos. Para
reduzir as antigas tensões. Na realidade, o Conselho Ultramarino foi obrigado tanto, a elite canavieira baiana buscava casamentos, relações de amizade e posi-
a intervir em 1679 para impedir que o desembargador Pedro Cordeiro de ções para seus filhos no tribunal a fim de assegurar uma audiência favorável nos
Espinosa servisse como diácono da catedral e membro do tribunal eclesiástico salões da Relação. Essa política, entretanto, nem sempre dava resultados. Os
enquanto ocupava cargo na Relação.73 Essa situação violava a prática comum magistrados mais estreitamente ligados à sociedade baiana costumavam ser os
de manter uma estrita separação entre a burocracia civil e a burocracia eclesiás- homens que mais causavam problemas. A alta posição social combinada com
tica. A cooperação, ou pelo menos a não interferência, substituiu a antiga ani- conexões locais e, geralmente, riqueza pessoal os tornava impermeáveis aos
mosidade entre o bispo e os juizes. Inversamente, o Tribunal Superior encon- controles legais e sociais. A Câmara, por exemplo, queixou-se mais de uma vez
trou um novo adversário na Alfândega da Bahia, com a qual entrou em choque de Cristóvão de Burgos, rico magistrado baiano, que sistematicamente se recu-
em 1745 por questões de controle e jurisdição. Mas esse incidente parece ter sava a obedecer aos regulamentos municipais ou a pagar impostos.76 Outro
sido caso isolado.74 desembargador, Cristóvão Tavares de Morais, que se casara no Brasil, envolveu-

214 5
-se numa áspera disputa com a Câmara em 1714, por causa da questão das sendo continuamente circunscritos.32 O Desembargo do Paço relutava, por-
propriedades municipais.77 tanto, em acatar a decisão do Conselho Ultramarino, não tanto por divergência
Peia altura de 1670, a Câmara de Salvador mais uma vez se queixava das filosófica, mas pelo desejo de preservar sua autonomia jurisdicional. Assim, cm
atividades dos desembargadores e defendia a abolição do Tribunal Superior, 1677, um baiano, João da Rocha Pitta, foi nomeado pelo Desembarco do Paço
tm resposta a essas queixas, a Coroa ordenou uma investigação. G desembar- para servir na Relação da Bahia. O Conselho Ultramarino objetou, pedindo
gador João de Couto foi nomeado para atuar como secretário da comissão de que Rocha Pitta fosse enviado para outra posição "e não na sua pátria aonde os
investigação, o que fez com que nenhuma testemunha se dispusesse a depor parentescos e amizades pervertiam aquela inteireza que n de;, devia haver por
enquanto esse "amigo e colega" do culpado participasse da comissão. Nada se serem sujeitos ao ódio e ao amor".8-1 O Desembargo do Paço ignorou o pedido c
conseguiu, e os vereadores continuaram a queixar-se de que "por todos os Rocha Pilta conseguiu sua promoção, mas agora estava cimo que a política real
caminhos serve de ruína aquela Relação".78 a partir de então excluiria brasileiros do Tribunal Superior baiano.
Os vereadores talvez tivessem um bom motivo de queixa, mas suas postu- Os colonos reagiram com veemência a essa mudança. As Câmaras munici-
ras anteriores com relação ao Tribunal Superior e suas várias mudanças de pais do Rio de Janeiro, de Pernambuco e da Paraíba queixaram-se de que seus
opinião certamente lhes reduziam a credibilidade. O Conselho Ultramarino filhos tinham ido para Coimbra, com grandes despesas c riscos, na esperança de
mostrou-se, basicamente, pouco simpático à posição da Câmara. O represen- trabalhar para o rei. Excluí-los porque os baianos eram sust_etíveis demais uo
tante da Coroa no Conselho Ultramarino pôs o dedo na ferida ao dizer que a interesse privado não tinha sentido, uma vez que Pernambuco e K i o de Janeiro
Câmara não se limitara a pedir a demissão dos magistrados cuja conduta se estavam a centenas de quilómetros de Salvador."'1 Seu apelo encontrou algum
reprovava, mas buscara a abolição do Tribunal Superior. Tsso, disse ele, nada apoio no Conselho Ultramarino, onde o procurador da Coroa argumentou que
mais era do que uma disputa de direitos e poderes. Ele sugeriu que o rei deixasse permitir que os brasileiros servissem os estimularia a se tornarem letrados, grupo
bem claro à Câmara municipal de Salvador "que V.A. não tinha repartido com "sem o qual se não podiam governar as monarquias'?3 Os apelos dessas capita mas
eles o cuidado de como há de governar a sua monarquia".79 A recusa curta e tiveram êxito limitado. J£m 1680, Francisco da Silveira Sottomayor, natural do Rio
grossa teve pouco efeito entre os graúdos da cidade, que no ano seguinte volta- de Janeiro, tornou se juiz da Relação. Mas nos 38 anos que SÉ seguiram n e n h u m
ram a pedir a abolição do Tribunal Superior.1"1 brasileiro recebeu a cobiçada toga do Tribunal Supepor. A Camará de Salvador
Numa questão o Conselho Ultramarino e a Câmara de Salvador podiam tinha alcançado uni dos seus objetivos ao eliminar alguns magistrados reais
concordar: os magistrados nascidos no Brasil criavam muitos problemas. potencialmente mais difíceis, mas não conseguira diminuir o poder da Relação.
Depois do restabelecimento da Relação em 1652, a Coroa tinha reconhecido a incapaz de ganhar em Lisboa, a Câmara começou a atirar diretamente
contribuição colonial para a vitória contra os holandeses, permitindo que bra- contra o Tribunal Superior. Desde 1674, os magistrados tinham permissão para
sileiros servissem no tribunal baiano. A política fora retomada em 1668 e manter seu próprio açougue a fim de evitar os custos da compra de carne, í)
seguida pelo rei, àquela época d. Pedro n. 81 A hostil carta da Câmara em 1670 Tribunal Superior arrendava esse açougue ao prcço-padrão de 150 mil-réis,
levou o Conselho Ultramarino a reconsiderar toda a questão dos naturais da pagáveis à Câmara municipal. Em 1679, no meio da disputa com a Relação, a
terra que serviam na área onde nasceram, situação que violava um dos princí- Câmara arrendou o açougue a outra pessoa, sem sequer informar os magistra-
pios da organização burocrática portuguesa. Uma coisa era o Conselho dos reais da Relação. Os juizes reclamaram com veemência, mas a rés pôs Ui que
Ultramarino decidir que nenhum magistrado brasileiro seria nomeado no obtiveram com sua reclamação foi que o açougue agora renderia 650 mil-réis
Brasil, mas outra bem diferente era convencer o Desembargo do Paço de Lisboa, num leilão público e, portanto, o arranjo anterior fora anulado. Foi um inci-
o órgão responsável pela nomeação de magistrados, a obedecer. Os dois conse- dente menor, mas que ilustra até onde as duas instituições estavam dispostas a
lhos disputava^) o direito de nomear desde 1656 e os poderes do último vinham chegar em sua disputa/6

216
Toda a natureza da relação mudou com a introdução de um juiz de fora ainda eram possíveis, porém nunca mais a Câmara municipal ameaçou a exis-
como membro permanente e presidente da Câmara municipal de Salvador.87 A tência do Tribunal Superior.
ideia surgiu no calor das batalhas dos anos de 1670. A Relação tinha sugerido à Os governadores-gerais ou vice-reis, os mais altos funcionários da Coroa
Coroa em agosto de 1677 que um magistrado profissional residente na Câmara no Brasil, eram os principais apoios e os maiores adversários da Relação **3 No
municipal não apenas poderia melhorar a administração de justiça eliminando sistema imperial português, o governador-geral era não apenas o funcionário
o favoritismo e a parcialidade dos juizes ordinários, mas também seria capaz de que presidia o Tribunal Superior, mas também seu grande contrapeso e opo-
impedir a apropriação indébita de fundos pela Câmara.88 A Coroa não aceitou nente. A Coroa queria que as engrenagens do governo colonial funcionassem sem
a recomendação na época, mas em 1696, como vimos, a medida foi instituída sobressaltos, ao mesmo tempo que desencorajava uma relação muito estreita
por insistência de d. João de Lencastre, o ativo e imaginoso governado r-geral do entre os diversos cargos. Escreveu o Conselho Ultramarino em 1728: "Não era
Brasil. Na realidade, o estabelecimento do juiz de fora em Salvador foi, de certa mui conveniente ao serviço de VMgc que entre os governadores e ministros
forma, como o estabelecimento de novas cidades no Recôncavo e no sertão — maiores que com eles ser vem houvesse grandes amizades por ser mui útil que
uma medida destinada a aumentar o controle real da população da colónia, que uns se receiam dos outros [,..]".94 Essa atitude dos conselhos metropolitanos
acabou por enfraquecer o poder das Câmaras municipais da costa.89 contribuiu para alimentar os conflitos que pontilharam os períodos relativa-
Essas alterações foram acompanhadas de um novo método para a seleção mente longos de cooperação entre os juizes e os governadores-gerais.
dos vereadores, que dava à Relação poderes adicionais para controlar a Câmara. Ordens reais instruíam os governadores-gerais a assumir seriamente o
Em vez do antigo sistema, no qual listas de cidadãos elegíveis eram preparadas, papel de regidores do Tribuna! Superior e a se empenhar regularmente nos seus
para então uma delas ser selecionada por sorteio, membros da Relação agora encargos. O regimento dado ao governador Roque da Costa Barreto em 1677
podiam participar da seleção do próximo grupo de vereadores. Uma entidade servia de modelo; nele o governador foi exortado a zelar pela lei e pela justiça do
especial, a Mesa do Desembargo do Paço, composta do governador, do chance- rei, a certificar-se de que os magistrados cumpriam suas obrigações e a fazer
ler e do desembargador de agravos mais velho, ficou incumbida de analisar as relatórios sobre o desempenho de cada juiz.95 Alguns levaram a sério essas ins-
listas trienais de cidadãos elegíveis e a partir delas selecionar os vereadores. Essa truções, outros não. Todos os governadores-gerais faziam o juramento como
mudança obviamente pôs a Relação numa posição vital, permitindo-lhe esco- regidor do Tribunal Superior ao tomar posse, mas é impossível saber quantos
lher o pessoal da Câmara.90 Embora a Câmara municipal ainda fosse capaz de regularmente assistiam às suas sessões. As funções normais do regidor— desig-
exercer uma função independente, como alguns magistrados e o governador- nar magistrados para missões especiais, autorizar viagens de serviço e fazer
-geral descobriram, as relações entre a Câmara e os funcionários reais foram nomeações interinas — eram, de fato, desempenhadas por alguns desses altos
relativamente plácidas depois de 1696. A Coroa encorajou os vereadores a funcionários, como a pasta de cópias de cartas do governador Francisco Barreto
produzir pareceres sobre a atuação de governadores e magistrados que se apo- indica, mas a ausência de ordens similares na correspondência de outros
sentavam, como forma de mante-los sob controle. As ocasionais cartas de governadores-gerais provavelmente significa que tais funções eram desempe-
avaliação da Câmara normalmente elogiavam esses oficiais nos termos rnais nhadas pelo chanceler.96 Poderia parecer que os governadores-gerais que pres-
laudatórios, recomendando sua subsequente promoção a altos cargos do tavam pouca atenção à Relação eram capazes de evitar conflitos abertos, ao
governo.91 Apesar de os termos inflamados serem, por vezes, merecidos, como passo que os altos funcionários que levavam a sério suas obrigações geralmente
no caso de Francisco Mendes Galvão, segundo todos os relatos o juiz mais entravam em choque com os juizes.
imparcial que jamais passou pela Relação, os comentários laudatórios torna- As avaliações de membros do Tribunal Superior feitas por governadores
ram-se quase um procedimento-padrão.92 O que poderia ter sido um instru- eram com frequência de natureza tão genérica que não tinham utilidade
mento de controle eficaz, tornou-se uma fórmula vazia. Disputas e conflitos alguma. De vez em quando, entretanto, havia tentativas verdadeiras de infor-

218 - !-'
mar sobre o comportamento dos magistrados, de rnodo que, como tais, esses ordenado não representava a renda real do cargo de desembargador. Ao
documentos oferecem valiosos vislumbres da aíuacão da Relação e de seus dos anos, depois do restabelecimento da Relação em 1652, os go vê rn adores -
membros. Os relatórios do governador-geral António Luís de Câmara Cominho -gerais criaram diversos bónus, como forma eficaz de manter relações cordiais
eram modelos dessa espécie, fazendo avaliações críticas de cada magistrado do com os juizes e calar sua oposição. Entre 1652 e 1740 os governadores gorais
tribunal e sugerindo reformas gerais.97 Em 1692, por exemplo, de pediu que autorizaram onze dessas propinas, mas o ponto alto foi atingido sob d. João de
magistrados de mais idade, e supostamente mais sábios, fossem escolhidos para Lencastre (1694-1702) e seu sucessor d. Rodrigo da Costa (1702-5). Esses
servir no Tribunal Superior. Ele também fez duras críticas ao fato de os desem- homens autorizaram subvenções especiais, como 10 mil-réis para cada juiz
bargadores terem permissão para permanecer no Brasil depois do prazo estabe- como bónus de Páscoa (a partir de 1703), 20 mil-réis no Dia de Santo António,
lecido de seis anos e ao casamento de magistrados no Brasil, práticas que 50 mil-réis no Dia de São João, 20 mil-réis no Dia de São Miguel ftodos a partir
resultavam num excessivo envolvimento com a sociedade local e na perda de' de 1695), 50 mil-réis nos festejos de Nossa Senhora (a partir de 1704) e 10 mil-
credibilidade do Tribunal Superior. Essas avaliações por vezes provocavam ação -réis nos festejos das Onze Mil Virgens. Km cada caso, o governador-geral
real. Em 1680, por exemplo, as recomendações do governador-geral Roque da também autorizou o pagamento de bónus a si próprio, equivalente, em média, a
Costa Barreto fizeram quatro magistrados serem chamados de volta.^8 três vezes o valor dos bónus concedidos aos juizes.101 Km meados do século xvm,
Os mecanismos de controle recíproco c os objetivos comuns que existiam os desembargadores recebiam 600 mil-réis de salário, mais 270 mil-réis de propi-
na época da primeira .Relação continuaram a operar depois de 1652. A coopera- nas ordinárias e 330 mil-réis de propinas extras (também chamadas de emolu-
ção e os conflitos entre os juizes c os governadores-gerais não podem ser anali- mentos) em homenagem a eventos especiais, como aniversários reais. Com todos
sados como um processo histórico que evolui com o tempo, mas como duas esses pagamentos, a renda legal dos desembargadores chegava a l conío e 200
tendências simultâneas, cada uma delas se manifestando em reação a um acon- mil-réis, sem contar honorários por serviços especiais, ou salários extras em
tecimento específico, ou à congruência de certas personalidades em diversos comissões especiais ou visitas.103 Essas recompensas provavelmente muito contri-
cargos. A comunidade de interesses entre a Relação e o principal funcionário da buíram para reduzir a tensão ente o Tribunal Superior e o Palácio do Governador.
Coroa poderia ser acentuada por uma ameaça externa. Foi assim que em 1658 Em teoria, a Relação deveria ser conselheira constante do govcrnador-
o Tribunal Superior e o governador-geral Francisco Barreto uniram forças -geraí em todas as questões importantes da colónia. A sessão plenária, ou Mesa
contra André Vidal de Negreiros, o governador de Pernambuco, que desafiara grande, presidida pelo governador-geral em sua função de regidor, loi criada
abertamente a autoridade do governo central recusando-se a obedecer a ordens exatamente com esse objetivo. Mas, apesar de a Coroa recomendar essas con-
que lhe clíegaram da Bahia. O Tribunal Superior mostrou-se zeloso do seu sultas de vez em quando, os juizes raramente eram convocados para essa finali-
prestígio e; consequeníemente, do seu poder real. O governador e os juizes dade. Exceção notável ocorreu em 1669, quando o governador-geral Alexandre
concordaram que "a autoridade deste tribunal estava ofendida e desprezada, a de Sousa Freire pediu que a Relação aprovasse uma grande expedição militar
jurisdição deste governo e capitania geral violentamente usurpada". Sob pres- contra índios hostis no sul da Bahia e declarasse que tal ação era uma "guerra
são, Vidal de Negreiros finalmente submeteu-se à autoridade da Bahia." justa" nos termos da lei de í6II.103Essas decisões políticas, no entanto, eram
Os govcrnadorcs-gerais constantcmente descobriam que abrir a carteira extremamente raras. É surpreendente o número de vezes que a mesa grande foi
era uma boa maneira de conquistar a boa vontade magistrática. A Coroa tentou convocada para resolver disputas sobre precedência dentro dos salões dos tri-
manter os salários e as mordomias dos magistrados em dia com a alta do custo bunais ou para nomear um novo barbeiro do tribunal, e não para agir cm
devida na cblônia. Em 1699, o ordenado foi aumentado para ajustar-se à tabela questões de importância política. O Tribunal Superior continuou a ser um
de pagamento de outros tribunais superiores portugueses, e em 1726 subiu executor de política real, e às vezes um mediador entre essa política e os grupos
para 600 mil-réis, nível em que permaneceu por todo o século xvm.100 Mas o coloniais, tanto por sua natureza corporativa, como um tribunal, quanto pelas
relações pessoais dos magistrados. Não se tornou, porém, um formulador de governador-geral de que ele seria responsabilizado pelo que viesse a acontecer
política, nem a rigor jamais disputou o predomínio do governador-geral nessa com Macedo Velho.107
esfera. Os magistrados reconheciam sua subordinação nessa área, e os conflitos Um incidente, reconhecidamente extraordinário mesmo para os padrões
que surgiram entre eles e os governadores-gerais não costumavam envolver brasileiros, ilustra o nível de conflito e cooperação que podia existir entre
questões de poder político. desembargadores e governador-geral. Além disso, ressalta até que ponto magis-
Uma explicação dessa situação provavelmente está na relativa facilidade de trados podiam ser arrastados para o turbilhão das rixas de família e facção, que
contato com Portugal e a política de centralização a partir de Lisboa patroci- agiam como contraponto na vida colonial. O protagonista desse episódio foi
nada pela Coroa. O tempo de viagem que separava a Bahia de Lisboa era menor António de Sousa de Meneses, um velho soldado, vigoroso e dado ao comando,
do que o que separava Lima ou o México de Madri; assim, as decisões reais que costumava demonstrar mais coragem do que bom senso. Perdera o braço
podiam ser tomadas e aplicadas com maior rapidez do que no Império espa- direito numa batalha naval contra os holandeses e em seu lugar usava um mem-
nhol. O centro em Lisboa, o profissionalismo dos magistrados e a autoridade bro de prata, que deu origem ao seu apelido de "Braço de Prata".108 Chegou
do governador-geral se combinavam para criar uma situação em que o Tribunal como governador-geral em 1682 e rapidamente conquistou a antipatia de pes-
Superior permanecia como um executor, mas não um formulador, de políticas. soas importantes e de facções poderosas, especialmente o clã Vieira Ravasco.
Dado o fato de que a teoria imperial exige que cada elemento do governo Esse grupo incluía Bernardo Vieira Ravasco, secretário de Estado do Brasil, seu
zele por suas prerrogativas e assim contenha os excessos de qualquer outro filho Gonçalo Ravasco Cavalcanti de Albuquerque e o irmão de Vieira Ravasco,
elemento, os atritos entre governadores-gerais e magistrados são compreensí- o padre António Vieira, idoso e eminente pregador e missionário jesuíta que
veis. Os governadores-gerais muitas vezes provocavam a má vontade dos voltara ao Brasil em 1681 para viver seus últimos anos. A família tinha fortes
desembargadores simplesmente cumprindo os deveres de regidor. A censura ligações com a Relação; sua linhagem brasileira havia começado com a chegada
de magistrados por deixarem de cumprir suas obrigações era uma fonte de do pai de Bernardo, Cristóvão Vieira Ravasco, escrevente do primeiro Tribunal
problemas. O chanceler Jorge Seco de Macedo provocou muitas queixas pela Superior, e uma das irmãs de Bernardo casara-se com o desembargador Simão
negligência com que dava seus veredictos e o governador-geral Francisco Álvares da Penha, de importante família pernambucana.109 A presença dos
Barreto ameaçou reter o seu salário em razão disso.104 Na verdade, foi esta a sobrenomes Cavalcanti e Albuquerque na árvore genealógica da família Vieira
ação tomada pelo conde de Óbidos em 1667, quando impediu o desembarga- Ravasco indica a existência de laços com outros clãs de Pernambuco.
dor Manoel de Almeida Peixoto de retirar o seu salário.105 A razão citada foi o O governador-geral, porém, tinha seus próprios defensores e amigos no
absenteísmo de Almeida Peixoto, mas a história tem ainda um outro lado. tribunal. Os desembargadores Manoel da Costa Palma e João de Góes e
Almeida Peixoto alegou que o governador-geral tinha tramado o seu assassi- Araújo, nascido na Bahia, eram estreitamente ligados ao governador-geral e
nato e que, por isso, fugira para um mosteiro em busca de proteção, onde faziam o que ele mandava. Góes e Araújo ocupava um lugar de destaque na
permaneceu, incapaz de comparecer às sessões do Tribunal Superior.106 As sociedade baiana; fazia doações para o convento do Desterro, era um irmão da
instituições religiosas de Salvador tornaram-se, de fato, refugio costumeiro de Misericórdia e era ligado pelo casamento de suas duas irmãs a importantes
magistrados que tentavam escapar do poder da autoridade central. O governa- famílias de São Paulo.110 O padre Vieira o acusou de ser "a mão com que António
dor-geral Pedro de Vasconcelos brigava constantemente com os magistrados de Sousa escreve".111 Mais importante, Góes e Araújo e o governador-geral tor-
do Tribunal Superior, que, na sua opinião, não demonstravam o respeito que naram-se bons amigos de Francisco Telles de Meneses, cavalheiro baiano e
lhe era devido. Um deles, António de Macedo Velho, teve de fugir para o mos- enteado do desembargador Cristóvão de Burgos, que comprara o cargo de
teiro franciscano, a fim de escapar da ira do governador-geral. Curiosamente, alcaide-mor e cujos abusos de poder e língua ferina lhe haviam granjeado um
o Conselho Ultramarino, ao tomar conhecimento do incidente, advertiu o batalhão de inimigos, incluindo os Vieira Ravasco.112

123
Com a chegada de António de Sousa de Meneses em 1682, o alcaide-mor em defesa de si próprio e da sua famH ia. Seu longo serviço na corte em Portuga!
começou uma campanha de vingança contra os inimigos seus c de sua família, lhe conquistara muitos amigos influentes e Vieira não hesitou em pedir-lhes
muitos dos quais eram os principais cidadãos da capitania. Todas as pessoas ajuda. Ao ex-governador-geral do Brasil Roque da Costa Barreto, Vieira escre-
ligadas por laços de parentesco ou amizade a esses homens também corriam veu dizendo que as injustas acusações contra ele e sua família facilmente seriam
perigo nas mãos da facção de Telles de Meneses. A situação certamente foi o provadas, pois ninguém na Bahia teria coragem de dar um testemunho que
ponto culminante de rivalidades de família que se arrastavam por gerações e contradissesse o governador-geral. "Sou eu tão mau sacerdote, tão mau reli-
davam à Bahia um sabor da Verona de Shakespeare. oioso, tão mau cristão e tão mau homem que deixei Roma e Portugal, ern idade
Um desembargador, João Couto de Andrade, opôs-se ao brutal abuso de de setenta e cinco anos para vir ao Brasil mandar matar homens?" disse Vieira
poder do governador-geral, mas se viu obrigado a buscar proteção no Colégio com a sua costumeira eloquência. li: Outro pauzinho metropolitano que ele
Jesuíta, onde logo foram juntar-se a ele muitos outros perseguidos pela facção começou a mexer levou a Diogo Marcha o Temudo, juiz do Desembargo do
de Telles de Meneses. Houve uma tentativa de reconciliação na véspera do Paço."6 As cartas de Vieira a esses homens indicam claramente que relações na
Natal de 1682, quando o padre Vieira intercedeu junto ao governador-geral. metrópole podiam ser usadas para solucionar disputas coloniais e que esses
Depois de uma áspera troca de palavras, o jesuíta recebeu ordem para sair da laços pessoais, cuja força é impossível medir, desempenhavam um papel no
sala e nunca mais entrar no palácio. Vieira achou irónico, pois, corno disse, governo e na administração de justiça da colónia.
sempre fora bem recebido em todos os palácios da Europa.113 Para fundamentar suas acusações, António de Sousa deu início ;; nina
A contenda continuou nas ruas. António de Brito de Castro insultou um investigação dirigida pelo desembargador Manoel da Costa Palma — que difi-
sobrinho de Telles de Meneses. O sobrinho respondeu com uma emboscada, na cilmente poderia ser considerado parte desinteressada. As estreitas e conhecidas
qual António de Brito foi gravemente ferido. Enxergando a mão de Telles de relações desse magistrado com a facção de Telles de Meneses causaram alvoroço
Meneses nesse ataque, António de Brito recolheu-se no Colégio Jesuíta, onde, em Salvador, só aplacado quando ele foi substituído por joão da Rocha Pitu,
talvez com a conivência dos que ali estavam asilados, tramou a morte do magistrado nascido na Bahia, mas urn dos poucos juizes sern compromissos
alcaide-mor. O complô era um segredo mal guardado e notícias dele chegaram com nenhuma das partes em disputa. A investigação arrastou-se pelos tribunais
aos ouvidos da futura vítima, mas Telles de Meneses confiava tanLo em seus até 1692, quando António de Brito de Castro foi finalmente perdoado. Os Vieira
aliados poderosos e estava tão seguro de que sua "nobre e extensa" família o Ravasco tinham sido absolvidos nesse ínterim, embora Bernardo tenha conti-
protegeria que ignorou todos os avisos. £m4de junho de 1683, ao passar perto nuado sob perigo até que o governador-geral foi substituído, em 1684.
da catedral numa liteira carregada por seus escravos, foi atacado por onze mas- O incidente com "Braço de Prata" é interessante de muitos pontos de vista.
carados.111 Um escravo foi morto, outro ferido e Telles de Meneses recebeu Primeiro, mostra claramente até que ponto relações pessoais e familiares
ferimentos fatais. Os culpados, entre eles António de Brito de Castro, fugiram influenciavam as ações de funcionários coloniais e reais. A personalidade do
para o Colégio Jesuíta. Um ataque como aquele, à luz do dia, contra um alto governador-geral obviamente tinha papel crucial na determinação da intensi-
funcionário, foi demais até mesmo para a Bahia. O governador-geral, fora de si dade, se não do curso, da disputa. Idiossincrasias pessoais e choques de perso-
de raiva, cercou imediatamente o Colégio jesuíta com a guarda palaciana. nalidades tornam extremamente frágil qualquer tentativa de generalizar sobre
Seguiu-se uma série de prisões, com as quais o governador-geral tentou deter a natureza das relações entre instituições governamentais. Nessa disputa espe-
todos os que se opunham à facção de Telles de Meneses. Bernardo Vieira cífica, também é óbvio que os juizes do Tribunal Superior não responderam
Ravasco foi levado para uma masmorra e o próprio padre Vieira foi acusado de como um órgão, mas ficaram divididos, aliando-se a uma ou outra facção.
cumplicidade no crime. Muito embora fosse um órgão corporativo, a Relação era composta de magis-
O venerável jesuíta não era um adversário tímido e usou a poderosa pena trados individuais, que geralmente seguiam linhas de ação individuais. Por fim.

224
o incidente mostra claramente que os juizes não eram pró teto rés desinteressa-
dos da lei, pairando acima da poeira da política local, das rixas de facções e dos 12. Magistratura e burocracia
interesses pessoais, mas faziam parte da sociedade colonial e, por isso, estavam
plenamente enredados nos laços de amizade, parentesco e interesses que inte-
gravam essa sociedade.

Quem for para julgar no povo eleito convém das altas virtudes ser
dotado, despido de qualquer humano efeito de Juízo e discurso levan-
tado igual ao rico e pobre, sem respeito considerado livre, inteiro,
ousado amigo da verdade, e que a não torça por rogo, ameaça, peita,
ou força.
Rehuel Jessurun, Dialogo dos Montes (1624)

Os juizes do Tribunal Superior baiano não só buscavam os benefícios dis-


poníveis na colónia brasileira, mas, como membros de uma estrutura mais
ampla, o Império burocrático português, também perseguiam certas metas
profissionais intimamente ligadas ao funcionamento dessa burocracia. As anti-
gas lutas da Coroa e da aristocracia, que precipitaram o surgimento de uma
classe burocrática, pelos meados do século xvn já estavam a uma distância de
250 anos no passado. Esse longo período tinha testemunhado a crescente buro-
cratização da monarquia portuguesa e a extensão da burocracia para áreas
coloniais tomadas pelas armas portuguesas ou conquistadas pela diplomacia
portuguesa. Apesar de certos vestígios "patrimoniais" de governo — posições
concedidas por causa do status social de nascimento e certos cargos vendidos
ou dados como prémio —, o processo de burocratização, baseado na existência

226 227
de uma elite burocrática profissional, desempenhou papel cada vez maior na
administração do governo. A Coroa fomentara a profissionalização dos buro- bertas "brasileiras" no contexto da estrutura imperial. Com es vi restrição om
cratas magistráticos e a formulação de objetivos, normas e motivações profis- mente, no entanto, uma visão composta dos magistrados e uma analise do sis-
sionais numa tentativa de transformar esses homens em servidores plenamente tema burocrático em que operavam podem oferecer novas ideias sobro o redime
colonial e sua operação no Brasil.
submissos aos interesses reais.1 Essa era a teoria do gerenciamento burocrático,
pouco preocupada com a realidade social. À maneira pavloviana, só os estímu- As origens geográficas dos desembargadores da Bahia parecem reflctir
los do avarrço burocrático deveriam provocar resposta magistrática. antes a distribuição demográfica da população portuguesa que q u a l q u e r ten-
Como vimos, essa teoria do controle burocrático ignorava, de um lado, a dência de predomínio regional dentro da burocracia profissional. 4 Os dni.s
existênciaMe fortes normas c motivações rivais embutidas nas relações dos aspectos mais notáveis das origens geográficas dos magistrados são o número
burocratas com outros grupos sociais por meio de laços de interesses, de família ' extraordinariamente pequeno de juizes do Algarve e c grande número dos jui-
e de associação. Além disso, o surgimento da burocracia profissional como zes de Lisboa. O Algarve sempre foi, tradicionalmente, uma área de baixa deu
classe, com tradições e objetivos próprios, que podiam, por vezes, entrar em sidide demográfica, o que pode explicar a ausência de homens dessa região
conflito com os da Coroa, foi outro resultado imprevisto do processo de profis entre os juizes baianos. Deve-se notar, também, que o Algarve tinha pouca
sionalização. Ainda assim, muitos dos objeíivos e atitudes da burocracia real ligação com o Brasil ou com o comércio brasileiro. Até que se faca um estudo da
foram adotados pelos magistrados, na medida em que eles buscavam galgar os magistratura portuguesa em sua totalidade, será impossível determinar se o
degraus da carreira, cada um dos quais trazia novas recompensas sob a forma pequeno número de algarvios no tribunal baiano era proporcional a sua pre-
de status, prestígio c riqueza. Os desembargadores agiam em resposta a motiva- sença no serviço real, ou se por falta de interesse ou de conexões no Brasil esses
ções profissionais, interesses de classe, razões particulares e pressões coloniais. homens procuravam servir em outras áreas. Lisboa, de outro lado, está mais do
Para compreender a importância desses dois últimos fato rés é necessário exa- que representada. A maior cidade do reino e centro tradicional das profissões,
minar o funcionamento dos outros — a composição e os mecanismos da dos ofícios c dos negócios, Lisboa era naturalmente o lugar de nascimento de
magistratura, seja como classe social, seja como ramo da burocracia real, juizes, pois muitos vinham de famílias de burocratas, comerciantes ou arte-
Um ponto de partida lógico c apresentar unia visão composta da vida e da sãos.5 Junto com a burocracia, crescia o número de empregos em Lisboa c com
carreira dos próprios desembargadores. 2 O material para análise prosopográ- isso um número cada vez maior de filhos dos homens que ocupavam esses
fica está muito disperso e é difícil de obter; mas, usando-se uma lista dos magis- cargos nascia nessa cidade. Dos 168 desembargadores da Bahia, 28% eram
trados baianos preparada em 1759 por José António Caldas e corrigindo-a, naturais de Lisboa e, se somarmos os nascidos no interior da Estremadura, a
cifra chega a 40%.
preenchendo suas omissões e acrescentando-lhe os nomes dos magistrados da
primeira Relação f 1609-26), é possível reconstruir um catálogo completo des- Outras áreas parecem estar proporcionalmente representadas, como mos-
ses homens. Nessa nova lista (Apêndice m) estão 168 desembargadores que tra a Tabela 2. As regiões mais densamente povoadas de Minho c Trás-os-
serviram no Tribunal Superior da Bahia no século e meio decorrido de 1609 a -Montes são, depois de Lisboa-Estremadura, as mais bem representadas. Logo
1759, Registros universitários, exames de admissão no serviço real (leitura dos em seguida vem a província da Beira, onde está situada a cidade de Coimbra,
bacharéis) e assentamentos da chancelaria real fornecem um esqueleto da vida outro centro burocrático e sede da universidade, onde os pais de alguns desem-
profissional desses homens.3 Mas cabe aqui uma palavra de cautela. Como não bargadores estudavam quando os filhos nasceram. Notáveis pela ausência são
existe nenhum estudo sobre o pessoal que compunha a burocracia portuguesa juizes nascidos no Estado português da índia ou em colónias da África
ou sobrfquálquer de suas seções, a análise que se segue fica severamente limi- Ocidental. No período em discussão, essas áreas não continham uma popula-
tada em sua capacidade de oferecer conclusões gerais ou de inserir essas desco- ção europeia numericamente significativa e, além disso, as crianças ali nascidas
tinham .grande probabilidade de trazer a "mancha" do sangue mestiço ou da
228
è- ^
heterodoxia religiosa. Os Açores, entretanto, eram uma área de assentamento TABELA 2— ORIGENS GEOGRÁFICAS DOS DESEMBARGADORES
europeu e estavam bem representados no Tribunal Superior baiano. O Brasil era DA BAHIA 1609-1759
também uma colónia de assentamento e, no fim do século xvm, tinha uma Região Nfi Percentagem
população de 1,5 milhão, da qual talvez 20% podia remontar às suas origens Lisboa e subúrbios 39 28
europeias.6 Não só dez brasileiros serviram no tribunal baiano, apesar das regras .Estremadura 16 12

que desencorajavam isso, mas magistrados nascidos no Brasil também ocupa- Minho e Trás-os-Montes 27 19

ram cargos inferiores no Brasil, assim como na índia, na África Ocidental e em Beira 21 17

Portugal.7 A Coroa aparentemente não se incomodava de usar magistrados Alentejo 16 12

nascidos no Brasil em cargos na metrópole ou em outras áreas do Império. A Algarve 2 l

falta de uma universidade no Brasil e os custos da matrícula em Coimbra deixa- Açores S 4


vam os brasileiros mais pobres fora do processo educacional, de modo que os Brasil 10 7
magistrados brasileiros eram filhos da oligarquia colonial ou de funcionários Bahia 7
reais a serviço no Brasil. No entanto, os que investiam numa carreira magistrá- Pernambuco 2
tica não tinham no nascimento colonial um obstáculo ao avanço profissional. Rio de Janeiro i
A Coroa recrutava magistrados profissionais de um vasto espectro da socie- 136 100

dade portuguesa, mas homens de determinadas origens sociais tendiam a predo- Sem localização a 7 —
minar. A maioria dos magistrados que serviram no tribunal baiano entre 1609 e Não identificados b 25 —
1759 era constituída de homens de nível intermediário, cuja presença no serviço 168 100

real refletia o fato de usarem a profissão legal como um meio de ascensão social. A
Fonte: ANTT, Leitura dos Bacharéis; AUC, verbetes de matrícula; AHU, Bahia papéis
velha nobreza militar e rural nem abandonou seus cargos nos conselhos reais
avulsos.
nem desapareceu na obscuridade social. A história social de Portugal não foi a O nome da cidade está disponível, mas foi impossível determinar a província.
simplesmente a história de uma burguesia sempre em ascensão. Enquanto Todas ficam em Portugal continental,
comerciantes e grupos mercantis moldavam o Estado e suas políticas em muitos b Nenhuma informação disponível.
sentidos, a nobreza, por intermédio do controle da propriedade rural, da partici-
pação em projetos comerciais e da influência na corte continuou sendo uma
poderosa força nacional. Sendo impossível conter a ascensão dos comerciantes e segundo estado, seu sistema de valores permeava a sociedade e estabelecia os
dos letrados como classes sociais estreitamente ligadas ao poder real, a nobreza parâmetros a que outros aspiravam.
titulada preferiu manter pelo menos as manifestações exteriores de suas funções Entre os desembargadores baianos, os filhos de famílias fidalgas eram
tradicionais. A carreira das armas ainda era considerada mais apropriada para raros. Com base numa amostragem de cem desembargadores, temos que ape-
um fidalgo do que a carreira das letras; embora a primeira pudesse acabar condu- nas 8% tinham ascendência nobre ou haviam herdado reivindicações de fidal-
zindo a um cargo administrativo, os princípios em que se baseava diferiam consi- guia. Além disso, sua presença parece ter diminuído com o tempo. Dos 96
deravelmente dos do burocrata letrado. Forçada a reconhecer o poder dos letra- magistrados nomeados entre 1700 e 1759, apenas dois podem ser identificados
dos e a riqueza das grandes casas comerciais, a nobreza assumiu uma postura de como filhos de fidalgos.
distanciamento social, entrincheirada na segurança dos títulos, da classe e das Muitos desembargadores poderiam ser descritos como filhos não nobres
propriedades. Fossem quais fossem as vicissitudes económicas ou políticas do da classe alta, homens com um pai identificado como "honrado" "que vive de

230 231
suas posses" ou "um dos principais desta cidade". Magistrados com tais antece- caso de António Rodrigues Banha, que ingressou na Relação da Bahia crn ! 7^9 -
dentes constituíam 28% do total. Outra categoria importante era a dos homens que tinha sido precedido no tribunal pelo pai; Dionísio de Azevedo e Arevabb c
cujos pais tinham sido funcionários públicos, como coletores de impostos, pelo avô materno e xará, não era incomum na burocracia portuguesa."
inspetores de mercado e tabeliães. Cerca de 11% dos juizes baianos vinham Muitas outras categorias sociais aparecem com surpreendente regulari-
dessas origens. Assim, os filhos das boas famílias e de.funcionários subalternos dade nas origens dos desembargadores. Ern tese, os filhos de artesãos e comer-
compreendiam cerca de 40% dos desembargadores, o que indica que para os ciantes não poderiam ingressar no serviço real, uma vez que tais'ocupações
homens dessas categorias sociais uma carreira no serviço real era particular- eram consideradas ignóbeis e o estigma desses antecedentes era passado de pai
mente atraente. Isso talvez se explique, em parte, como uma busca de legitimi- para filho. No entanto, essas duas categorias representavam 16% da amosiru-
dade institucionalizada, na qual o título, a dignidade e o reconhecimento con- oem profissional. Como observado no capítulo 4, os filhos de artesãos que
cedidos a um magistrado real diminuíam a insegurança sentida por homens tinham servido no órgão representativo das guildas comerciais, a Casa cio
cujas origens, apesar de não serem humildes, não eram notáveis. A presença Vinte-quatro, não estavam sujeitos à exclusão costumeira dos empregos reais.
desses homens na magistratura certamente indicava que existiam oportunida- Essa era normalmente a razão pela qual magistrados com ancestrais artesãos
des de mobilidade social. Já se assinalou, noutro contexto nacional, entretanto, podiam ser encontrados no tribunal da Relação. Durante os exames de admis-
que, numa sociedade ainda não plenamente estratificada por classe, na quaí são, alguns homens deparavam com sérias objeções a seus antecedentes fami-
propriedades ou ordens ainda são usadas para definir papéis sociais, a mobili- liares. Diogo Pacheco de Carvalho quase teve seu ingresso no serviço real
dade rende a ser geracional. 8 Os dados sobre os juizes baianos tendem a confir- negado porque o avó paterno fora sapateiro o o pai começara a aprender o ofício
mar essa asserção, e há muitos exemplos de magistrados cujos avós eram quando jovem.12 Objeções semelhantes encontrou Dionísio Azevedo, quando
comerciantes e mesmo agricultores e cujos pais eram "honrados" proprietários se descobriu que seu avô materno tinha sido almocreve.13 Em ambos os casos, o
ou funcionários subalternos. 9 Para essas famílias, a colocação de um filho na Desembargo do Paço fez vista grossa ao "impedimento" de nascimento. Excecões
magistratura, o que possibilitava o ingresso na Ordem de Cristo ou até mesmo às restrições sociais tradicionais indicam que havia oportunidades de ascensão
uma concessão de fidalguia, constituía o ponto culminante de três gerações de social para súditos da Coroa supostamente desqualificados, mas é impossível
mobilidade social.
determinar a frequência estatística dessas exceçòcs, uma vez que os homens
De longe a maior categoria de magistrados era a dos filhos de advogados e analisados aqui foram, obviamente, aqueles que contornaram, com êxito, as
burocratas de formação universitária. Pelo menos 22% dos juizes tinham pais restrições de costume.
letrados e muitos podiam contar com pelo menos um avô da classe dos letra- Descendentes de homens que viviam do comércio não podiam, em tese,
dos, filhos seguiam pais na universidade e depois no serviço real, em geral ingressar nas fileiras da magistratura. Os portugueses tinham grande dificul-
encontrando o caminho já preparado por orientação paterna e nepotismo. Esse dade, entretanto, para reconciliar a importância do comércio e cios comercian-
favoritismo, além de considerado inteiramente aceitável, era, na realidade, ins- tes em seu Império com as restrições sociais herdadas de época anterior. A
titucionalizado. Em 1710, Manoel da Costa Bonicho fez petição solicitando um solução, em essência, foi uma definição baseada no sucesso. A prática social
lugar na Relação da Bahia como recompensa pelos serviços prestados pelo pai à portuguesa distinguia entre os que trabalhavam em lojas ou lidavam com venda
Coroa, uma vez que eram "premiados e preferidos os filhos dos ministros que a varejo e os atacadistas ou negociantes que controlavam exportação c impor-
bem serviam" Apesar de ser ele filho bastardo e de outros homens aguardarem tação.14 Estes últimos, ao longo dos anos, foram aceitos por viver de acordo com
essa nomeação, o Desembargo do Paço atendeu ao pedido.10 Os filhos e netos de a lei da nobreza, sendo, assim, elegíveis para o serviço real. Quase sem exceçao, os
letrados geralmente se casavam com filhas de outros letrados, de modo que um desembargadores com pais comerciantes vinham dessa categoria. Costumavam
gosto pela endogamia e pela perpetuação de classe caracterizava esse grupo. O ser descritos como "mercadores de grosso trato", às vezes com o adendo "sem Ler
232
tenda nem loja". O pai do desembargador João de Sá Sottomayor encaixava-se TABELA 3 ORIGENS SOCIAIS DOS DESEMBARGADORES DA BAHIA
nessa categoria porque, como corretor de imóveis e dono de milhares de casas, 16O9-1759*
também era considerado "grande" comerciante.15 Dois magistrados da Bahia
Profissão ou posição Profissão ou posição
eram filhos de comerciantes estrangeiros que viviam em Lisboa — um deles Número Número
social do pai social do pai
flamengo, o outro veneziano. Isso não representou obstáculo para que ingres-
sassem no serviço da Coroa.16 Fidalgo 8 Imóveis . 1
Os filhos de soldados profissionais eram claramente considerados qualifi- Letrado 22 Agricultor 1
cados para o serviço real, pois havia nobreza na carreira das armas, mas os Comerciante 9 "Humilde" 1
marinheiros não contavam com a mesma estima. Quando Manoel da Costa Médico 2 Cargo subalterno 11
Palma tentou entrar no serviço real, em 1656, muitos desembargadores do Paço Militar 9 "Honrado" 3 17
puseram em dúvida sua adequação e alegaram que tanto o pai como o avô Capitão de Navio 2 "Propriedades" b 11
materno tinham sido capitães de navio no comércio da índia.17 Outros mem- Artesão/Lojista 6
bros do Desembargo do Paço mencionaram exemplos anteriores que estabele-
* Dos 168 magistrados, 103 possuem dados disponíveis sobre origem social. Usei uma amostra-
ciam a aceitabilidade dos capitães de navio. Quando João Guedes de Sá, cujo pai gem de 100.
tinha capitaneado um navio no comércio do Brasil, compareceu perante o a Esta categoria é geralmente referida como "honrado", "da governança" ou "gente principal da
Conselho de Justiça, em 1681, nenhuma voz se ergueu contra a sua adequação vila". Todos esses termos indicam, simplesmente, que o homem é considerado decente e, por isso,
para o serviço.18 está qualificado para servir na Câmara municipal de sua cidade.
b Homens desta categoria são geralmente descritos como pessoas que vivem de suas proprieda-
Os dados sobre origens sociais tornam-se mais significativos quando colo- des (fazendas).
cados no contexto do tamanho e da distribuição social da população portuguesa.
Nos séculos xvii e xvm, Portugal tinha de 2 milhões a 3 milhões de habitantes. A
grande maioria era constituída de camponeses ou formava o proletariado rural. Os antecedentes profissionais não eram o único critério para o serviço real;
As diversas restrições ao ingresso no serviço real de homens com essas origens outros impedimentos também excluíam homens da magistratura. No caso de
obviamente eliminavam uma grande camada da população. As brechas deixadas descobrir-se que um candidato, ou qualquer dos seus ancestrais masculinos,
para os filhos de artesãos tornaram-se a grande porta de entrada dos filhos do era filho ilegítimo, havia motivo suficiente para lhe negar acesso. A proibição
povo. O número relativamente pequeno de fidalgos de nascimento entre os contra bastardos ou descendentes de artesãos foi suspensa, ao que tudo indica,
magistrados é ainda mais significativo, pois, embora a classe dos fidalgos e da com muito mais frequência do que aquela contra pessoas maculadas com o
nobreza com títulos constituísse menos de 5% da população, as restrições fun- sangue "moro, mulato, judeu ou outra raça infecta". Poucos homens com essa
cionavam a seu favor. Os fidalgos tinham oportunidade de ingressar na burocra- inaptidão chegavam a comparecer perante o Desembargo do Paço. Isso se devia,
cia profissional em número desproporcional ao total deles na população. Muitos em parte, ao processo de seleção iniciado quando um homem buscava admis-
que ingressaram eram provavelmente filhos mais jovens, que não esperavam são na universidade de Coimbra, que, ocasionalmente, adotava restrições seme-
receber herança. Foram, entretanto, como o demonstra a Tabela 3, os grupos lhantes. Muitos cristãos-novos, os principais alvos dessas restrições no século
situados entre os camponeses e a nobreza que preencheram os cargos da buro- xvii, tiveram sua possível candidatura eliminada bem antes de se apresentarem
cracia em números muito superiores à sua proporção na população total. As diante do Desembargo do Paço. Mas os cristãos-novos eram tão ubíquos que
classes altas não nobres, os funcionários subalternos e especialmente os letrados alguns certamente passaram pela rede de restrições e seria surpreendente, de
serviram à Coroa e a si próprios na magistratura. fato, se uns poucos desembargadores plenamente ortodoxos e "racialmente"

234 235
puros não tivessem esqueletos semitas escondidos no guarda-roupa da família.
proporção subiu para t>3%. hssa tendência refle te uma crescente seculari/ação
A "pureza de sangue" de apenas dois juizes baianos foi formalmente posta em
do Estado e uma dissociação cada vez maior das burocracias real e eclesiástica. ~
dúvida, mas só um deles pôde ser positivamente identificado como descen-
Essas tendências que iam se modificando c mesmo as reformas universitá-
dente de cristãos-novos.19 Os detalhes desse caso oferecem curioso vislumbre
rias do fim do século xvm não alteraram significativamente a natureza da edu-
do funcionamento da burocracia portuguesa,
cação jurídica ou da jurisprudência portuguesas. Coimbra manteve seu mono-
Afonso Rodrigues Bernardo e Sampaio era filho de um médico de Alço- póiio nessa esfera.23 O estudo do direito continuou consistindo, essencialmente,
baça.20 Depois de concluir um curso de direito civil em Coimbra, ele ingressou na leitura e na explicação dos códigos romanos e dos glosadorcs medievais. Um
na magistratura e serviu em Cabo Verde como juiz itinerante. A Coroa prome-
jurista português caracterizou os escritos jurídicos de seu país como "sórdida e
tera recompensar o bom desempenho nesse posto com uma promoção para a
afetada Erudição degenerada em h um pedantismo formal sobre a profusão
Relação da Bahia. Enquanto ele estava em Portugal aguardando a nomeação, um
insuportável de autoridade, com que encherão e engrossarão os seus livros; o
inimigo alegou que a avó paterna de Bernardo e Sampaio tinha sido condenada que era uma consequência da falta de boa Lógica, de Método, de Sistema".24 O
pela Inquisição por seguir o judaísmo. Um inquérito foi aberto e provas crn
estudo de tais fontes não chegava a ser uma preparação adequada para as tarefas
apoio da acusação vieram à luz. O Desembargo do Paço aconselhou-se com a
cada vez mais numerosas postas nas mãos da judicatura. Não obstante, a teoria
Mesa da Consciência. A decisão final, baseada num caso anterior de 1605, foi de que a familiaridade com o direito romano preparava um homem para a
que a lei vetava aos cristãos-novos a "leitura" para o ingresso na magistratura, magistratura e de que os magistrados eram os mais bem qualificados para as
mas não exigia que aqueles que já ocupavam cargos perdessem as suas posições, obrigações burocráticas continuou a prevalecer.-3
especialmente se tivessem cumprido seus deveres de fornia impecável. O Fossem quais fossem as deficiências do estudo das leis como preparação
Desembargo do Faço promoveu Bernardo e Sampaio para o tribunal baiano e para as tarefas do governo, a experiência coimbrã produziu efeitos que deram à
ordenou que a questão fosse relegada a silêncio perpétuo. Pode-se argumentar burocracia portuguesa seu caráter distinto. Primeiro, como todos os magistra-
que esse caso demonstra certo grau de tolerância e disposição para contornar dos tinham de obter um diploma em Coimbra, fossem quais fossem as suas
restrições sociais. Como Bernardo e Sampaio jamais recebeu outro posto, é origens sociais ou seu lugar de nascimento, a universidade funcionava como
provavelmente mais lógico supor que o Desembargo do Paço tenha varrido o agente centralizador. Tentativas de estabelecer outras universidades no Império,
caso para debaixo do tapete, numa tentativa de manter a imagem de ortodoxia como a realizada em 1675, para transformar o Colégio Jesuíta dn Bahia numa
e pureza racial como pilar da autoridade magístrática. 21
universidade, não tiveram êxito, O resultado foi um sistema de preparação
Restrições à parte, o recrutamento para a magistratura ainda não era intei- burocrática centralizado na metrópole e, portanto, mais sujeito ao controle
ramente aberto, mas continuou reservado a homens com diploma universitário real. Segundo, a experiência universitária compartilhada criou, entre os funcio-
em direito canónico ou civil. A maioria tinha apenas diploma de bacharel, muito nários da magistratura e entre os advogados, condições que, apesar de contra-
embora alguns desembargadores da Bahia possuíssem um doutorado. A espe- producentes em termos de objetivos burocráticos, facilitaram a ascensão de
cialização curricular dos juízos baianos mudou lentamente com o passar do uma classe dos letrados. Da experiência comum em Coimbra resultavam rela-
tempo. A preferência do século xvn pelo diploma em direito canónico, que per- ções de amizade e proteção, de modo que geralmente havia pequena distância
mitia ao diplomado ingressar tanto na hierarquia civil como na eclesiástica, social entre advogados e juizes. Esse fato talvez ajude a explicar a relativa inefi-
começou a esmorecer no fim do século. No começo do século xvin, uma tendên- cácia das residências que investigavam a conduta de juizes, geralmente coman-
cia ao direito civil pode ser notada nos diplomas dos desembargadores nomea- dadas por outros magistrados.
dos para a Bahia. No meio século anterior a 1700, apenas 33% dos magistrados As biografias compostas dos desembargadores também apontam para um
analisados t,injiam diploma em direito civil. No período de 170! a 1758, essa padrão geral da carreira magístrática dentro da burocracia. Depois de se formar
236
em Coimbra, a maioria desses letrados dava início ao processo de exames, que FIGURA 3 TÍPICOS PADRÕES DE CARREIRA DA BUROCRACIA MAGISTRÁTICA PORTUGUESA
costumava se estender por dois anos. Como vimos, os jovens letrados ingressa-
vam no serviço entre os 26 e os 28 anos. A primeira designação geralmente era
para um cargo de juiz de fora numa cidade portuguesa de província. A conclu-
são bem-sucedida de um período de três anos levava a uma segunda nomeação,
de novo como juiz de fora ou para o nível seguinte da magistratura, como cor-
regedor ou ouvidor de comarca. Outras nomeações podiam ocorrer a interva-
los de três ou seis anos e a extensão do período de ocupação de um mesmo
cargo não era incomum. Esse padrão de serviço dava ao magistrado considerá-
vel experiência e treino, antes que pudesse ser promovido para um dos três tri-
bunais superiores— Goa, Bahia e Porto. Os homens que atingiam esse nível da
magistratura eram considerados a elite burocrática e o título de desembargador
era ardentemente desejado pelos magistrados, como culminação de uma car-
reira. Os magistrados que serviram no tribunal brasileiro tinham, cm média,
quinze anos de experiência antes de chegarem à Bahia. Padrões típicos de car-
reira são mostrados na JFigura 3.
Havia, c claro, outros padrões de carreira. Magistrados nascidos no Brasil
parecem ter sido particularmente bem-succdidos em assegurar posições na
Relação com menos de dez anos de experiência. Alguns letrados aparentemente
faziam o exame de admissão e depois preferiam exercer a advocacia antes de
aceitar um cargo na magistratura. 26 João da Rocha Pitta exerceu a advocacia na
Relação da Bahia durante quase seis anos antes de receber uni cargo judicial
naquele órgão em 1678. Paschoal Ferreira de Veras defendeu causas no tribunal
do Porto por seis anos antes de exercer o primeiro cargo de ouvidor-geral do
Espírito Santo em 1739. Posteriormente, em 1745, foi promovido para a
Relação da Bahia.27 Outro padrão pode ser observado na carreira de homens
que conseguiam altas colocações na magistratura depois de lecionarcm em
Coimbra. Manoel da Costa Bonicho foi diretamentc do salão de conferências
para o Tribunal Superior da Bahia em 1695, como o faria um professor de
direito canónico, António Álvares da Cunha, em 1741.28 Essas colocações reve- A idade média de um desembargador ao chegar à Bahia era 42 anos. A
lavam um grande respeito pelo saber e pela erudição jurídica. Havia ainda maioria desses homens, portanto, passava a fase dos quarenta anos no Tribunal
outro padrão estabelecido pelos designados para postos como juiz dos órfãos, Superior. Como grupo, os desembargadores eram experientes burocratas de
auditor ou inspetor de alfândega, vale dizer, para posições fazendárias. 29 Tais meia-idade, amadurecidos em quinze anos de serviço. Já tinham deixado para
designações não parecem ter correlação alguma com as origens sociais ou com trás a impulsividade da juventude e demonstrado suas capacidades, ou pelo
o diploma universitário do designado. menos a habilidade para conformar-se aos regulamentos e expectativas da

238 239
burocracia real. Confiáveis, Jeais e experientes, os desembargadores tornaram-
F I G U R A 4 — EXPERIÊNCIA P R E V I A DOS DESEMBARGADORES BAIANOS
-se os suportes ideais da administração colonial.
NO ALÉM-MAR
Apesar de não existir ordem ou decisão do Desembargo do Paço que indi-
que mudança na política de promoções ou do serviço prévio requerido dos
candidatos ao tribunal baiano, unia análise estatística dos padrões da carreira de
magistrado mostra que esse foi o caso. Em algum momento antes de 1690, ocor-
reu, de fato, uma mudança, e grande número de candidatos começou a chegar à
Bailia depois de servir no judiciário colonial. Até 1690, apenas 9% (cinco em 54)
dos desembargadores
> tinham experiência colonial prévia, mas no período de
1690'a 175Ç~mais de 43% (44 em 105) já haviam ocupado cargos no Império
ultramarin^. Além disso, 23% de todos os desembargadores nomeados nesse
período e mais de 50% dos que Linharn experiência colonial já haviam servido
no Brasil antes de ser designados para a Relação. Muitos tinham sido ouvidores-
-gerais nas capitanias. A explicação para essa mudança pode estar na exclusão de
brasileiros do Tribunal Superior, resultado das lutas entre a Câmara e a Relação
no fim do século xvn. O conhecimento direto da vida na colónia, suprido antes
pelos juizes brasileiros, era muito necessário, de modo que o Desembargo do
Paço provavelmente recorreu a juizes já com experiência na colónia como solu-
ção alternativa.' 0 A Figura 4 parece apoiar esta asserção.
A experiência prévia no Brasil sem dúvida preparava os juizes para o ser-
abril de 1747. Gonçalves Pereira certamente chegou à Relação com muita expe-
viço na Relação e talvez os tornasse mais sensíveis aos interesses coloniais, mas riência, mas não exatamente aquela do tipo prescrito nos regulamentos buro-
não era uma vantagem tnconteste. Queixas de colonos contra magistrados cráticos.
inferiores no Brasil lançam sérias dúvidas sobre sua honestidade e competência
Apesar da tendência real a empregar juizes com experiência colonial, ape-
para ocupar qualquer cargo, quanto mais uma posição na Relação. A promoção
nas em dois casos magistrados que tinham servido no Estado português na
para o tribunal às vezes dava poderes aos homens mais estreitamente ligados a
índia também se desincumbiram de suas obrigações profissionais no Brasil
interesses particulares ou motivados por objetivos venais. Veja-se, por exemplo,
Dos 152 juizes nomeados entre 1652 e 1758, apenas dois tinham estado na
o caso de João Gonçalves Pereira, bacharel em direito canónico que se tornou
índia, e um, Jorge Seco de Macedo, foi designado chanceler rio Brasil depois de
ouvidor-geral de Cuiabá em 1735.3' Nessa condição, ele inventou uma ameaça
longos anos de serviço na Casa da Suplicação — prova de que sua experiência
espanhola na fronteira de Mato Grosso para camuflar uma expedição comercial na índia contava muito pouco.33 Hm sentido inverso, homens que tinham ser-
ilícita que, de acordo com algumas versões, ele mesmo organizara em colabora-
vido nas colónias de Angola, Cabo Verde, São Tomé e Guiné na África Ocidental
ção com comerciantes de Cuiabá. As ações ilegais de Gonçalves Pereira na sen- acabavam geralmente sendo mandados para a Relação na Bahia. De fato, havia
sível fronteira entre a espanhola Chiquitos e o português Mato Grosso levaram dois ramos da magistratura colonial, um órgão do oceano Índico e um órgão do
o capitào-mor de São Paulo a comentar que Gonçalves Pereira só podia estar oceano Atlântico. Cada um tinha seus funcionários e canais de promoção, mas
"demente ou cego de ambição" para tentar semelhante aventura." Essa crítica ambos estavam integrados no sistema burocrático da península. Magistrados
não impediu a promoção desse magistrado venal para o tribunal baiano em de qualquer um dos dois ramos coloniais podiam ser promovidos para cargos
."*'
240
na metrópole, mas praticamente não havia contato entre os órgãos. Esse padrão
reira burocrática, o Porto sempre esteve acima da Bahia. Não obstante, a
de separação não existia entre executivos coloniais, pois no século xvni não era
nomeação para a Relação da Bahia era prémio altamente cobiçado.
raro que homens que tinham servido como vice-reis na índia ocupassem,
Tornou-se hábito do Desembargo do Paço prometer um lugar no Tribunal
depois, uma posição similar no Brasil.34
Superior baiano a magistrados enviados como ouvidores para as capitanias do
O estado atual das pesquisas não nos permite avaliar a importância desses
Brasil e até a juizes mandados para a África Ocidental. João de Sá Sottomayor
ramos da magistratura como canais de avanço na"carreira, nem fazer uma afir-
foi para Sergipe como ouvidor em 1704, levando não apenas a promessa de
mação sobre seu prestígio em comparação com o serviço metropolitano em sua
Lima vaga na Relação, mas o privilégio de usar a toga de desembargador
totalidade. Imagina-se que os magistrados que começavam servindo em
enquanto ocupava o cargo inferior.38 Jerônimo da Cunha Pimentel recebeu a
Portugal mantinham melhores vínculos de patronagem do que aqueles que
promessa de um cargo no Tribunal Superior da Bahia tão logo surgisse uma
eram enviados para o Brasil ou para a Ásia e, assim, alcançavam rapidamente as
vaga.39 Nesse meio-tempo, foi mandado para Angola. Em 1705, um acúmulo de
melhores posições. O fato de apenas 7% dos magistrados que serviram na
magistrados que tinham recebido a promessa de um lugar no Tribunal Superior
Relação da Bahia terem atingido mais tarde postos hierarquicamente acima da
e não podiam assumir a posição levou muitos homens a se queixarem à Coroa.
Casa da Suplicação indica que os mais altos cargos dos conselhos reais eram
O problema tornou-se ainda mais complicado quando, depois de 1718, o
ocupados por letrados que haviam feito carreira na índia ou, mais provavel-
Desembargo do Paço tentou cumprir suas promessas fazendo nomeações
mente, que haviam adquirido toda a sua experiência em Portugal. Se os magis-
supranumerárias.40
trados enviados para o Brasil tivessem percebido que estavam ingressando num
Magistrados buscavam ativamente uma posição no Tribunal Superior,
ramo de serviço de grau ou prestígio inferior e que promoções ulteriores
mas, embora muitos cargos burocráticos não profissionais pudessem ser com-
poderiam ser prejudicadas por esse fato, os códigos burocráticos de conduta
prados, as vagas magistráticas aparentemente não estavam à venda — pelo
teriam tido muito menos efeito sobre eles. A consciência de que mesmo um
menos não publicamente. Eram reservadas para burocratas profissionais desig-
desempenho exemplar não garantiria recompensa profissional no futuro pode-
nados, em tese, exclusivamente com base no mérito e na experiência. A venda
ria ter levado os desembargadores a praticar atos que ofereciam suas próprias
de tais cargos teria sido uma aberta violação da ideologia sobre a qual se cons-
recompensas.
truíra o edifício do governo real. Apesar disso, nos anos de 1680 alguns j uízes na
Não há evidências, entretanto, de que magistrados brasileiros ou magis-
Bahia eram referidos como proprietários de seus cargos. Em outro contexto,
trados que serviam no Brasil se dessem conta de sua desvantagem no que se
esse termo geralmente significaria que o ocupante de um cargo poderia tratá-lo
referia a promoções futuras.35 Tem-se a impressão, em vez disso, de que pelo
como algo seu, vendê-lo, legá-lo a um herdeiro ou desfazer-se dele. Nas cartas
fim do século xvn a Relação da Bahia se tornara um posto cobiçado dentro da
de nomeação desses magistrados, entretanto, não há menção a pagamento
magistratura. Enquanto quase todos os primeiros desembargadores de 1609
pelos direitos de propriedade, nem nenhum outro indício de que o cargo
tinham tentado se esquivar do serviço brasileiro, no fim daquele século os letra-
pudesse ter sido comprado. Parece que, em alguns casos, o termo "proprietário"
dos faziam questão de pedir tais nomeações.36 O crescimento da colónia, sua
é usado apenas como sinónimo de ocupante.41 Talvez uma explicação mais
importância cada vez maior dentro da estrutura imperial e, depois da desco-
satisfatória possa ser encontrada na nomeação de Francisco de Figueiredo Vaz
berta de ouro nos anos de 1690, sua legendária riqueza sem dúvida tiveram
em 1757.42 Sua "carta de propriedade de um lugar de desembargador" lhe asse-
influência nessa mudança de opinião.37 Existem até referências ao tribunal
gura uma posição pelo prazo normal de seis anos, mas acrescenta que ele pode
baiano como mais importante do que o do Porto. No século xvni, tais afirma-
ocupar o cargo por mais tempo, até que seja mandado um substituto. Neste
ções talvez refletissem a situação real, mas, no que diz respeito a avanço na car-
caso, a propriedade talvez fosse um privilégio especial que permitia ao magis-
.-í- ,>'/-.?• .-^
242 -4 ? ,-t,Ȓ -,-

243
trado ter algum controle de sua ocupação, enquanto o controle definitivo per- questão em aberto. Não obstante, está claro que em casos como os de Bento
manecia nas mãos do rei.
Rabello (1655), Francisco de Figueiredo (1657) e António Rodrigues Banha
A Coroa continuou a oferecer outros incentivos e privilégios aos homens (1733) o ingresso na Ordem de Cristo veio pouco antes ou logo depois da
escolhidos para servir no Tribunal Superior baiano. Os juizes costumavam nomeação para a Relação.4*
receber um bónus especial para fazer face aos custos da mudança para o Brasil. Embora a magistratura tivesse se desenvolvido como um corpo de buro-
Geralmente isso era acompanhado da promessa de amparar a família do magis- cratas profissionais, com funções específicas dentro de uma estrutura política,
trado, caso este sofresse algum acidente. Assim como os magistrados mandados ao longo dos anos os magistrados também procuraram transformar sua posi-
para as capitanias do Brasil podiam receber a promessa de um lugar na Relação ção numa base de status social. Tendo surgido sob tutela real como contrapeso
da Bahia, os, desembargadores da Bahia também quase invariavelmente rece- de grupos tradicionais, como a nobreza titulada, os juizes da Coroa começaram
biam a promessa de uma promoção para a Relação do Porto. Como privilégio, a exigir os privilégios, os símbolos e o reconhecimento pertinentes aos próprios
alguns juizes tinham permissão para assumir o cargo no Porto imediatamente, grupos cujo poder tinham inibido. Portugal compartilhou esse processo histó-
de modo que a antiguidade naquele tribunal começava a contar antes de con- rico com outros países da Europa Ocidental e, como na Prússia e na França, os
cluírem suas tarefas baianas. 43 A promoção para o nível de desembargador burocratas magistráticos não se tornaram inimigos implacáveis da aristocracia,
também trazia certos benefícios e privilégios, os proes eprecalços, como a isen- buscando, cm vez disso, penetrar em suas fileiras.49 Duas tendências podem ser
ção de impostos.'1'1
identificadas nesse processo. Primeira, os magistrados justificavam sua ascen-
A Coroa continuou a distribuir hábitos na Ordem de Cristo e a conceder dência social desenvolvendo urna base teórica para a própria nobreza. Esse
fidalguia a magistrados, em reconhecimento de serviços passados c como tema subjaz aos debates da espada contra a pena no século xvir, quando os
forma de reforçar sua autoridade. As ordens militares tinham perdido muito do letrados tentavam demonstrar sua utilidade para o Estado. Pelo século xvni, os
seu significado como organizações de combate pelo fim do século xvn. Os sím- juristas argumentavam que o estudo do direito por si enobrecia, literalmente, o
bolos exteriores de cavalheirismo permaneceram, mas as ordens militares se indivíduo c que por extensão todos os juizes deveriam ser considerados à altura
tornaram clubes exclusivos, cujos postos eram preenchidos não apenas por da nobreza proprietária e militar.-10 Enquanto justificavam sua própria posição,
soldados que se distinguiam, mas por pessoas que prestavam serviços ao entretanto, os magistrados também tentavam penetrar nas fileiras da aristocra-
trono/ 5 Os magistrados entravam nesta última categoria. Entre 1609 e 1759, cia por intermédio da aquisição das insígnias e dos privilégios tradicionalmente
pelo menos 22% dos desembargadores da Bahia usavam a cobiçada cruz da concedidos a ela. Esta segunda tendência era, até certo ponto, patrocinada pela
Ordem de Cristo brasonada na toga.46 Geralmente esses prémios eram dados a Coroa, que pela concessão desses prémios conseguia manter controle sobre a
homens provenientes de famílias de artesãos ou de gente bem situada, mas sem atuação dos seus magistrados.
origem nobre, homens que normalmente seriam excluídos das ordens militares O controle da Coroa tanto sobre os símbolos que legitimavam a ascensão
por urn "defeito" em suas origens. O caso de Domingos Gonçalves Santiago é social como sobre as recompensas internas da burocracia mantinha a magistra-
ilustrativo. Embora seu avô materno fosse artesão, Gonçalves Santiago foi tura vinculada aos interesses reais. A magistratura tornou-se, até certo ponto,
admitido como membro especificamente porque tinha sido nomeado para a uma classe autoperpetuadora, com tendência à hereditariedade da profissão,
Relação da Bahia.47 Em outras palavras, a importância do seu cargo tinha supe- embora não do cargo. Seus títulos passaram a ser, com efeito, designações sociais.
rado um defeito de nascimento. Saber se a aquisição desses prémios por homens Uma vez que um homem ocupava o cargo de desembargador, ele invariavel-
como Gonçalves Santiago reflele uma tentativa da Coroa de fortalecer a autori- mente usava o título, não importando se continuava ou não a ocupar o cargo.
dade dos magistrados e ocultar origens medíocres, ou se foi um esforço dos Mas ho Império português a magistratura não se tornou uma noblesse de Ia
próprips juizes para aplacar seu próprio senso de insegurança social, é uma /-o/junina nobreza identificável com base no cargo e na função. Os magistrados,

244
individualmente, podiam ser — e com frequência o eram — integrados à João de Góes e Araújo ocupou sua posição por treze anos (1667-80) e morreu
nobreza tradicional por laços de matrimónio, assim como podiam alcançar no cargo. João da Rocha Pitta serviu no Tribunal Superior durante 24 anos
essa posição por ato da Coroa; mas uma classe magistrática, competindo com a (1678-1702) e, apesar de ter sido nomeado para cargos em Portugal, recusou-se
aristocracia proprietária e militar ou a ela adjunta, nunca se desenvolveu como a sair de sua Bahia natal. Laços de família, propriedade e familiaridade segura-
entidade autónoma, com objetivos de classe independentes além daqueles vam esses homens no Brasil e exerciam influência mais forte sobre eles do que
prescritos pela Coroa.
as motivações profissionais. O comportamento desses magistrados indica cla-
Uma vez designado para a Relação, um desembargador poderia demorar ramente que os objetivos da promoção burocrática e as normas da vida buro-
até dois anos para resolver seus assuntos e pôr a casa em ordem antes de partir crática nunca foram inteiramente adotados por todos os magistrados. Fontes
para o Brasil. Mas o mais comum era um intervalo de quatro a seis meses entre alternativas de renda e prestígio reduziam severamente a força das motivações
a nomeação e a chegada à colónia. A Coroa tentava escalonar as substituições, burocráticas e contribuíam para a conduta não profissional de muitos juizes.
enviando dois ou três magistrados ao mesmo tempo a fim de manter no tribu- Os crescentes atrativos financeiros e pessoais do Brasil no século xvm fize-
nal uma combinação de juizes experientes e recém-chegados. O objetivo óbvio ram aparecer outro tipo de problema. Ficou cada vez mais difícil obrigar
era a continuidade burocrática. Os seis desembargadores que assumiram o desembargadores a voltar para Portugal quando seu tempo de serviço no Brasil
cargo em fevereiro de 1710 formaram o maior grupo de substitutos a assumir o expirava. Magistrados reais ainda gastavam seu tempo precioso procurando
cargo simultaneamente. Foi uma situação extraordinária, ocorrida porque alcançar postos na colónia, mas, por volta de 1706, a Coroa também se viu
quatro desembargadores, acusados numa devassa em 1709, tinham sido cha- diante de desembargadores que encontravam desculpas para lá permanecer
mados de volta.51 Ao chegar à Bahia, cada juiz fazia o juramento de posse na depois de seis anos.54 Embora alguns governadores quisessem empregá-los em
presença dos colegas e do vice-rei. Com essa cerimónia, o desembargador dava funções judiciais para aliviar o fardo dos legítimos desembargadores, a Coroa se
início ao cumprimento de suas funções. recusava a permitir tal medida. Alguns juizes ficavam tão enamorados da coló-
Como a data do término do trabalho na Relação geralmente não pode ser nia que simplesmente recusavam novas nomeações. Bernardo de Sousa Estrela,
determinada, é difícil estimar o tempo médio de serviço na Bahia. No período magistrado dos Açores que se casara no Brasil, serviu seis anos na Relação e
da primeira Relação, os juizes eram mandados para o Brasil com a promessa de aposentou-se em 1730 aos sessenta anos. Passou os trinta anos seguintes na
promoção depois de seis anos de serviço satisfatório. Essa fórmula tornou-se Bahia, vivendo das propriedades da mulher e adquirindo reputação de piedoso.
padrão, mas houve muitas exceções e alguns juizes ultrapassaram duas ou três Foi sepultado no mosteiro franciscano em cerimónia solene, na qual os desem-
vezes o tempo-Hmite de seis anos.52 Magistrados cuja vida pessoal os mantinha bargadores da Relação ajudaram a carregar o caixão.55 Esse último fato ressalta
estreitamente ligados à colónia tendiam a violar os seis anos regulamentares. O um fenómeno interessante. O título e a dignidade de desembargador continua-
casamento, é claro, criava tais vínculos e o caso de Antão de Mesquita de vam fazendo parte do homem mesmo quando ele já não ocupava o cargo. O
Oliveira, que se casara no Brasil e serviu 21 anos na colónia (1609-30), ilustra título se tornou descrição de posição social, e não meramente de função, e a
essa questão. Em 1683, o Conselho Ultramarino queixou-se de que a virtual influência que um magistrado aposentado era capaz de exercer sobre seus
perpetuidade dos empregos no além-mar punha em risco os próprios alicerces sucessores não deve ser ignorada.
do governo, especialmente quando muitos dos que ficavam mais de seis anos Para os desembargadores que voltavam para Portugal, era normal ser
eram "naturais da terra". Queixas semelhantes foram apresentadas novamente promovido para o Tribunal Superior do Porto. De vez em quando, devassas ou
em 1691, aparentemente com pouco resultado.53 residências poderiam impedir a promoção de alguns magistrados, mas elas
Magistrados nascidos no Brasil com grande consistência contornavam o tinham relativamente pouco efeito. Na realidade, um membro do Conselho
limite de seis anos. Cristóvão de Burgos ficou 26 anos na Relação (1654-80); Ultramarino queixou-se em 1728 de que as devassas ordinárias no Brasil eram
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inúteis, pois mesmo nos casos mais notórios ninguém se convencia a testemu-
dor de agravos na Casa da Suplicação"."8 Tais recompensas garantiam o desen-
nhar.' 6 O emprego no Porto, portanto» era garantido. De 58% f96 em 168) dos
volvimento de tradições de família dentro da magistratura e fomentavam a
desembargadores promovidos para outro cargo, 86% (83 em 96) iam primeiro
continuidade através de gerações.
para o Porto. Cerca de metade deles finalmente chegava à Casa da Suplicação.
Muito poucos conseguiam vagas nos conselhos reais. O mérito era um princípio burocrático nascido cie u m a t r a d i ç ã o dife-
rente. Em tese, quando a burocracia se tornou rrmis profissional o racional,
Os canais de promoção e a mortalidade natural excluíam magistrados do
concentrando todas as atividades na resolução de suas tarefa:, especificas, o
serviço real e reservavam posições no ápice da burocracia para homens com o
mérito deveria ter se convertido no princípio central da promoção burocrá-
mais alto grau de competência, os melhores patronos, a maior experiência e o
tica. Mas o mérito, nesse contexto, deve equivaler a competência, não a excelên-
maior vigor. O sucesso profissional, em última análise, provavelmente dependia
cia. Esperava-se do magistrado que desempenhasse suas atribuições sem «raves
de uma combinação de todos esses elementos- Os degraus regulamentares da
desvios. Nas suas tarefas havia pouca margem para a inovação ou para a admi-
promoção também incentivavam o desempenho que fosse do agrado dos supe-
nistração criativa e os exames aplicados no término do seu tunpo de serviço
riores e que se conformasse ao código de conduta burocrática estabelecido pelas
buscavam identificar infrações dos regulamentos, e não desempenho notável.
Ordenações Filipinas. Os poucos magistrados que serviram no Brasil e depois
O magistrado modelar era aquele que desempenhava suas tarefas de tal fornia
ocuparam altos cargos em conselhos reais, como o Conselho Ultramarino ou o
que ninguém pudesse reclamar. Francisco Mendes Galvão Linha tal reputação.
Desembargo do Paço, não têm, aparentemente, em sua biografia pessoal ou
Nos anos de 1690, o governador António Luís Gonçalves da Câmara Coutinho
profissional características comuns que expliquem o seu progresso. Suas carrei-
derramou-se em elogios às virtudes desse desembargador, que "serve n seu
ras, como a de seus colegas, dependeram, em grande medida, dos princípios
operacionais da burocracia imperial.5'' lugar com tanta autoridade e justiça que lhe pode ter inveja o mais ciente
senado"/9 Seis anos depois, em 1697, Câmara Coutinho disse: "Mesmo aquelas
Quatro princípios cimentavam as diversas partes da burocracia e guiavam
partes contra as quais ele emite sentenças, como muitas vezes ouvi falar, deixam
as decisões pessoais dentro dela. Antiguidade, mérito, precedência e nepotismo
sua casa dizendo que se Francisco Mendes Galvão não vê justiça cm seu pleito c
tornaram-sc os pilares sobre os quais se assentavam as promoções e recompen-
porque não há justiça em seu pleito"/'1 A ênfase na imparcialidade e na honesti-
sas. A palronagern também poderia ser acrescentada à lista, mas nesse caso há
dade indica as bases do mérito magistrático. O que a maioria dos juizes desejava
tão poucas evidências explícitas para o historiador e é tão grande a dose de
era cumprir seu tempo de serviço sem provocar murmúrios. Na realidade, o
inferência, que tal princípio deve continuar sendo uma característica reconhe-
mérito ou a excelência era um princípio negativo, na medida em que afetava a
cível, mas indefinível, da magistratura. Como a patronagem, o nepotismo foi
promoção burocrática mais pela ausência do que pela presença.
um elemento de administração patrimonial que subsistiu pelo século xvm
A antiguidade, porém, era plenamente usada como um princípio de pro-
afora, muito tempo depois de a magistratura ter se tornado, em tese, plena-
moção na burocracia portuguesa.61 tíaseava-se na crença de que tempo e expe-
mente "racional" e profissional. A criação de uma classe de letrados fé/, da insti-
riência de serviço naturalmente resultavam em sabedoria acumulada. Deferência
tucionalização do nepotismo um objctivo desejado dentro da magistratura. Ele
à idade também estava presente no princípio de antiguidade, mas parece que n
assegurava tratamento preferencial para os parentes de magistrados e contribuía
antiguidade no serviço, mais do que a simples idade, tinha mais peso. A promo -
para um senso de solidariedade profissional e talvez de classe. Quando Manoel
cão entre posições e a precedência dentro delas dependiam, diretamcntc, de
da Costa Bonicho, fiJho de um ex-desembargador da Bahia, foi nomeado para a
antiguidade. Os desembargadores demonstravam aguda sensibilidade para essa
Relação, o documento correspondente não fazia menção a serviços anterior-
questão e eram extremamente zelosos na defesa de sua antiguidade na posição.
mente prestados, de acordo com a fórmula de costume, mas afirmava que o cargo
Magistrados nomeados para a Relação que não podiam assumir o cargo de ime-
lhe fora concedido porque "ele é filho de Manoel da Costa Bonicho, desembarga-
diato por vezes mandavam um representante fazer o juramento de posse na

249
Bahia, para não perder tempo no cômputo de antiguidade no posto. A ideia de acesso aos livros da chancelaria, onde podiam procurar e encontrar preceden-
que, reduzindo a necessidade de competição profissional, a antiguidade pode Ler tes. No Brasil, entretanto, eles só podiam recorrei aos livros de registro da
minimizado a agressão intragrupo na burocracia não tem apoio na história da Relação. O boca a boca provavelmente teve uni papel importante rui transmis-
Relação/2 A antiguidade pode ter aliviado a tensão e a competição em outras são desse conhecimento e se desenvolveu uma espécie de tradição oral burocrá-
esferas de atividade, mas ao mesmo tempo concentrou o conflito num determi- tica na qual os usos da magistratura eram passados de uma geração de juizes
nado ponto, pois cada magistrado tentava estabelecer sua antiguidade e as para a próxima. Tal situação obviamente dava aos juizes que ficavam longos
prerrogativas a que ela lhe dava direito. períodos em seus cargos um poder extra, já que eles se tornavam repositórios
A maioria das disputas entre os magistrados surgia por questões de anti- de informações para os colegas. Assim, os brasileiros e os mai.s apegados ao
guidade e precedência nas salas do tribunal Os desembargadores tinham Brasil» que tendiam a permanecer mais tempo no cargo do que os seus colegas,
especial cuidado para assegurar sua precedência não apenas por razões de talvez tenham tido uma influência na Relação que não se reflcEia inteiramente
prestígio, mas também porque promoções e nomeações futuras poderiam em seu número.
depender desse critério. Geralmente a disputa dizia respeito ao estabelecimento O serviço na Relação da Bahia representava um degrau na escada da pro-
da data em que determinado juiz tinha assumido o cargo ou, mais exatamente, gressão burocrática, que em tese ia dos salões de conferência de Coimbra aos
se seu tempo de serviço deveria ser calculado a partir da data em que tinha feito conselhos do rei. Magistrados que conseguiam um posto no tribunal baiano
o juramento do cargo ou do seu primeiro dia de serviço. Foi exatamente essa a não podiam dedicar toda a sua energia e todo o seu interesse à resolução de
questão que surgiu cm 1716, entre Tomás Feliciano de Albernás e Manoel da problemas pessoais e profissionais num contexto exclusivamente brasileiro, se
Costa Moreira, e que se repetiu em 1721 com outros dois juizes.63 Uma segunda a esperança de avanço na carreira Linha algum significado para eles. Os desem-
causa dessas querelas era a promoção de desembargadores de um cargo para bargadores eram parte de um sistema imperial de administração que libava
outro dentro da Relação. A antiguidade na posição versus a antiguidade na áreas díspares do Império e, como tais, suas ações por vezes respondiam a
Relação eram os poios das disputas. Em 1675, Cristóvão de Burgos contestou o pressões geradas fora da colónia. O grau de integração das várias camadas da
direito de seu colega Agostinho de Azevedo Monteiro a sentar-se imediata- magistratura ao sistema e a facilidade com que esses magistrados iam de cargos
mente à direita do chanceler, a mais alta posição do tribunal, Azevedo Monteiro em Portugal para as colónias e depois faziam o caminho de volta demonstram
tinha ocupado aquela posição porque estava servindo como chanceler interino, o nível de continuidade burocrática que o sistema oferecia. Um subsistema
rnas Burgos considerava que, por ser ele o mais antigo desembargador de agra- brasileiro de magistratura profissional só se desenvolveu depois de 1690,
vos, a cadeira lhe pertencia. Uma reunião plenária da Relação foi convocada quando cargos iniciais na colónia passaram a servir de preparação para o
pelo governador e, depois que os dois disputantes saíram da sala, os outros jui- Tribunal Superior da Bahia. Mesmo então, as promoções ulteriores quase inva
zes votaram a favor de Burgos.64 A maioria das disputas dessa natureza era riavelineiite levavam de volta a Portugal.65 Muito embora em termos político-
resolvida com dignidade, mas não faltaram exemplos de xingamentos e até -econômicos o Brasil ocupasse uma clássica posição colonial dentro do
troca de socos nas salas do tribunal. Império português, em termos burocráticos estava bem integrado à metrópole.
Precedentes operacionais tornavam-se usos e costumes que modificavam Magistrados enviados para o Brasil podiam mobilizar certos recursos pessoais
os estatutos de conduta burocrática. Se um magistrado pedia um favor especial, na colónia sem dar muita importância aos efeitos dessas ações na sua vida pro-
um estipêndio extra ou dispensa de algum dever, ele geralmente citava um caso fissional, mas muitos juizes viam o serviço no Brasil simplesmente como uma
anterior da mesma natureza. Como essas informações se tornavam disponíveis etapa da carreira. Essa visão obviamente influenciava o entendimento que os
para os juizes ou, mais exatamente, como eram transmitidas, é um problema magistrados tinham do seu papei, dos seus deveres e da moralidade profissio-
particularmente interessante. Magistrados em Portugal provavelmente tinham nal. Tendia a isolar os juizes da sociedade e obrigá-los a observa r u m padrão de

250
formalismo no tratamento de questões tanlo pessoais como profissionais. O
aspecto mais notável da burocracia magistrática no Brasil colonial, porém, é o
13. O abrasileiramento da burocracia
grau em que o formalismo e o distanciamento burocráticos, apesar do forte
encorajamento ao progresso na carreira e ao profissionalismo, sucumbiam em
face dos objetivos pessoais, das relações não categóricas c dos diversos atrativos
da colónia.

Mesmo que lhe reconheçamos o mérito, n capacidade c o iaL'n!o puni


servira Vossa Alteza, ative ser em outra p arte e não nesta terra, onde o
parentesco e a amizade pervertem o desinteresse necessário. Juizes são
homens de carne e osso, sujeitos ao ódio e ao amor.
Câmara de Salvador (l-de setembro dr 1676)

Muitos ministros do Tribunal Superior tornam-se patronos dos casos


que lhe são apresentados.
Conselho Ultramarino (1725)

No século que transcorreu entre o restabelecimento da Relação da Bahia


(1625) e a criação de um segundo Tribunal Superior brasileiro no Rio de Janeiro
(1751), burocratas magistráticos tornaram-se parte da vida diária da colónia.
Como membros do tribunal e como indivíduos, os desembargadores desempe-
nharam papel ativo na vida social, cultural c económica da colónia, com fre-
quência de modo não desejado nem pretendido pelos regulamentos burocráti-
cos, O impacto da magistratura na sociedade colonial precisa ser visto não
apenaís em termos de suas açõcs profissionais, mas à luz do estilo de vida e das
.motivações pessoais dos magistrados e das reações ou iniciativas de certos ele-
mentos da população colonial em relação a ela. Fórmulas burocráticas são '
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geralmente escritas como se a população a ser servida (ou controlada) tivesse O


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pouco efeito sobre os burocratas. No Brasil isso era uma suposição infundada. f (/>
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O aspecto mais notável do governo era a interpenetração de duas formai !rí
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supostamente hostis de organização humana: burocracia e relações de paren- 41 D
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tesco e pessoais. A sociedade colonial mostrou extraordinária capacidade de
"abrasileirar" os burocratas, quando não a própria burocracia —- quer dizer, de
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integrá-los ao sistema existente de poder e patronagem. Os estímulos ofereci- r-- 5? *£, WP^ S" lí\1 12;
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dos por grupos e indivíduos da colónia e os desejos dos magistrados puseram O c u^'C N ^J, d^bí'*'
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em movimento o processo de interpenetração. Q T3
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Ao chegar a Salvador, a primeira preocupação pessoal do magistrado era C^
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estabelecer residência. Muitos juizes alugavam casas na cidade alta, perto do t-1
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tribunal e de outros prédios administrativos. Registros cartonais ocasional-
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mente fornecem esse tipo de informação. Em 1702, por exemplo, António j ri d
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Rodrigues Banha morava na rua que ia do Colégio Jesuíta ao mosteiro carme- 1 S t-
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lita, e seu colega Belchior Ramires de Carvalho residia na rua abaixo da igreja 1 Ê W
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beneditina. 1 Um censo de 1775 revela que seis desembargadores viviam na fre- O
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guesia de São Pedro, no coração da cidade. Mas havia exceções, especialmente f C 'í?
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entre homens estreitamente ligados à colónia por laços de família ou de inte- í -
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resse. Pedro de Unhão Castelobranco, que começou seu serviço na Relação em ) < S
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1686, construiu um belo casarão à beira-mar, num lugar pitoresco, a leste das -i . *^ C
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principais instalações portuárias. Esse prédio, o Solar do Unhão, tornou-se rt /-. it—"
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ponto de referência no panorama da cidade, o que continua sendo até hoje.2 j C3
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Desembargadores que compravam propriedades nas áreas rurais da Bahia por oo
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vezes passavam muito tempo fora de Salvador. O brasileiro Luís de Sousa ";<'-.^: ^ o LO CO C/D O

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Pereira mantinha residência em Cachoeira, apesar de ter casas em Salvador.-5
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Os magistrados costumavam trazer a família para o Brasil. Além da mulher - - 1-1
e dos filhos, a casa de um juiz podia incluir parentes, afilhados, criados, empre- Íii w
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gados e escravos; os escravos eram usados para transportar a liteira do juiz ou, 1
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no século xix, serviam como lacaios para acompanhar sua carruagem. A pre-
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sença de parentes e protegidos sob o teto de um magistrado acrescentava novas
dimensões ao alcance e à complexidade de suas relações sociais, pois essas pes-
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soas não só exerciam influência sobre o chefe da casa, mas também, por meio de

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suas ligações na sociedade, abriam novos canais de influência ou de pressão i 5
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entre indivíduos e o Tribuna! Superior.4 A Tabela 4, baseada no censo de 1775,

•254-
dá ideia da estrutura interna da casa de urn magistrado. Os papéis de marido, acusação de que Dionísio de Azevedo e Are vai os havia recorrido à fraude para
pai, patrono e proLetor eram tão inerentes à vida do magistrado quanto suas conseguir o cargo.7 Essas queixas resultaram numa ordem ival que excluía os
obrigações profissionais. desembargadores da função de provedor, mas lhes P erm itia c o n t i n u a r na mesa
Era talvez no campo espiritual, entretanto, que a participação dos magis- diretora da Misericórdia.
trados na vida colonial se tornava mais clara. A Relação empregava um capelão Como muitas outras instituições religiosas no Brasil colonial, a Misericórdia
para conduzir as missas ditas antes de cada sessão do tribunal, e muitos juizes servia como fonte de crédito, emprestando dinheiro à costumeira taxa de 6,2"> n ,,
levavam a sério suas obrigações religiosas. Quase por definição, um bom servi- para empreendimentos sólidos, como construção de casas ou compra de terras
dor do rei era também um bom católico, mas a onipresença da Igreja conduzia A sociedade na Misericórdia e um papel ativo em sua mesa diretora provavel-
os desembargadores a situações que conflitavam com suas funções de desinte- mente traziam vantagens financeiras a um magistrado, tanto por lhe permitir
ressados guardiães da lei. acesso ao capital como pelo poder que ele podia exercerem nome de a micose
A vida religiosa no Brasil colonial era rica e havia muitas oportunidades de dependentes. Não é surpresa encontrar o desembargador Cristóvão de Burgos,
participação. Individualmente, os magistrados se tornavam benfeitores das provedor da Misericórdia em 1665, ainda em sua lista de devedores em 1694.-- A
igrejas e dos conventos de Salvador. Como funcionários eminentes, os desem- influência pessoal na Misericórdia tornava os empréstimos sem fiador, ou com
bargadores eram, muitas vezes, convocados para assumir papéis de liderança e fiadores insuficientes, mais fáceis de obter e podia até livrar um homem de suas
obrigações financeiras durante as grandes comemorações religiosas. Foi o que dívidas. Não é de admirar, pois, que desembargadores disputassem os cargos de
aconteceu em 1702, quando o chanceler António Rodrigues Banha se juntou ao direção cia Misericórdia.
juiz de fora de Salvador e a um rico comerciante como patronos e diretores da Como era preciso ter um padrinho para ingressar como irmão da Miseri-
procissão da Festa da Ressurreição? Esses esforços individuais se faziam acom córdia, os registros da instituição também oferecem alguns indícios dos vínculos
panhar da celebração coíctíva, pelo Tribunal Superior, da Festa do Espírito pessoais dos magistrados. O apadrinhamento dos desembargadores vinha cie duas
Santo, realizada anualmente na igreja dos carmelitas. Essa comemoração era fontes: colegas do tribunal ou membros da elite baiana. Dessa maneira, o desem-
frequentada pelos mais altos funcionários e pela eíite da colónia e um sermão bargador Pedro de Unhão Castelobranco apadrinhou a candidatura de dois
especial sobre justiça, proferido por um padre afamado ou mesmo pelo arce- colegas em 1693. Ambos foram admitidos como irmãos de maior condição/' A
bispo, geralmente acompanhava a missa/ Tais atividades representavam, para outra tendência pode ser vista na admissão do desembargador Cristóvão
os juizes, o cumprimento de suas obrigações religiosas, otereciam certos bene- Tavares de Morais, que foi apadrinhado ern 1705 pelo sogro, o coronel Cristóvão
fícios psicológicos e simultaneamente fortaleciam o elevado status dos desem- Cavalcanti de Albuquerque, rico senhor de engenho baiano. Cavalcanti de
bargadores e de seu tribunal. Albuquerque casou outra filha com um desembargador, João de Sá Sottomayor,
Os desembargadores eram proibidos de ingressar na prestigiosa e exclu- que também ingressou na irmandade em 1720.'" Muitos dos magistrados que
siva Terceira Ordem dos Franciscanos e Carmelitas, mas eles procuravam, tentavam ingressar na Misericórdia pertenciam a uma das ordens militares ou
consistentemente, associar-se à Misericórdia de Salvador. Essa instituição, eram familiares da Inquisição.11 Assim, sua pureza racial c sua ortodoxia reli-
dedicada a obras sociais e de caridade, tornou-se na Bahia um clube social ao giosa já tinham sido, supostamcnte, comprovadas por testes anteriores, motivo
qual pertencia a "melhor" gente. A categoria e a dignidade dos juizes tornavam- suficiente para que o ingresso na irmandade não fosse contestado.
-nos membros adequados, excelentes candidatos à mesa diretora da Misericórdia, Em seu estudo da Misericórdia baiana, o professor A. J. R. Russell-Wood
eleita anualmente, e possíveis indicados para o seu cargo principal, o de provedor. fez a interessante sugestão de que o domínio magistrático do cargo de provedor
Na verdade, entre 1711 e 1715 três desembargadores controlaram esse cargo, no começo do século xvm reflcte um período de transição no qual a antiga oli-
. situação ícué provocou sérias queixas em 1716, quando críticos levantaram a garquia canavieira lentamente cedia o controle que exercia sobre os principais
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cargos da irmandade, enquanto o setor mercantil ainda não tinha condições de refletindo as tendências intelectuais de Portugal. Homens de cultura no Brasil,
assumir esses papéis.17 Um exame atento dos desembargadores que ocuparam ou pelo menos homens com alguma instrução, eram encontrados basicamente
o cargo de provedor indica, porém, que os canavieiros, mesmo se retirando, no clero e nas profissões liberais. Entre os clérigos, os jesuítas certamente esta-
sabiam travar um bom combate na retaguarda. Os oito desembargadores que vam no topo da.lista em qualidade e quantidade, muito embora notáveis fran-
ocuparam o cargo de provedor entre 1609 e 1716 foram, sem exceção, nascidos ciscanos e beneditinos também tenham dado sua contribuição para a vida
na Bahia ou casados com brasileiras. Em geral, as esposas desses magistrados intelectual da colónia. Entre os autores seculares, a grande maioria era de letra-
eram filhas de canavieiros e alguns juizes possuíam eles próprios canaviais, dos. Os nomes do poeta Gregório de Matos Guerra (1636-96) ou, mais tarde, do
podendo qualificar-se, como o fizeram Cristóvão de Burgos e Dionísío de desembargador Tomás António Gonzaga (1744-1809), poeta e ensaísta, vêm
Azevedo e Arevalos, como senhores de engenho. É difícil, porém, ver um cana- -nos logo à mente, mas outras figuras mais obscuras também podem ser encon-
vieiro recuar na presença de urn desses provedores. Em vez disso, está claro que, tradas entre os intelectuais letrados.
independentemente da posição e do prestígio de um desembargador, apenas Iodos os desembargadores tinham instrução universitária, mas no período
aqueles estreitamente ligados à colónia tinham acesso a altos cargos na anterior a 1760 eles pareciam pouco inclinados a atividades intelectuais ou pelo
Misericórdia. Em acréscimo, essa situação também ressalta a integração da eíite menos literárias. A ausência de autores desembargadores não quer dizer que os
magistrática com a oligarquia açucareira segundo modelos que desafiam sua juizes não se interessavam pela cultura ou pelas ideias, mas provavelmente
classificação como grupos distintos e concorrentes. reílete a ausência de uma atmosfera que pudesse gerar atividade mais explícita
Os desembargadores eram, obviamente, mais do que participantes em nessa área. Diferentemente de Lima ou da Cidade do México, onde os magistra-
relações sociológicas, pois como qualquer um eles também agiam de acordo dos da América Espanhola geralmente dividiam seu tempo entre o tribunal e a
com ideias, princípios e preconceitos. A falia de correspondência pessoal
universidade, a Bahia não tinha universidade, nem imprensa. Nenhum
magistrática impede qualquer análise individual desse fenómeno e vários prin-
Solórzano Pereira, Matienzo ou Morga surgiu entre os magistrados brasileiros,
cípios e motivações profissionais foram delineados acima. É importante, entre -
nenhum desembargador cujos escritos sobre questões contemporâneas, direito,
tanto, lembrar que os juizes eram homens de cultura, cuja educação inspirava
arte de governar ou história sejam lembrados hoje, muito menos lidos. 13 Mas
estudo cuidadoso e atenta reflexão numa tomada de decisão. Seu nível de ins-
sempre que homens se reuniam para discussões intelectuais no Brasil, magis-
trução e suas inclinações intelectuais os levavam a manter contatos estreitos
trados e letrados estavam entre eles.
uns com os outros e com o pequeno grupo de brasileiros que formavam a
Em 1724 o vice-rci do Brasil, conde de Sabugosa, estabeleceu cm Salvador
pequena comunidade intelectual da colónia.
a Academia dos Esquecidos, uma sociedade de eruditos fundada em parte para
O status colonial do Brasil impunha limitações à sua vida intelectual. A
ajudar a Academia Real Portuguesa de História a escrever a história da nação.
localização remota, a falta de imprensa e o fato de não ter sido fundada uma
Dos sete membros originais, dois eram desembargadores e um terceiro era juiz
universidade na colónia se combinavam para asfixiar o desenvolvimento inte-
de fora de Salvador.14 Entre esses três letrados, destaca-se o chanceler Caetano
lectual ou direcioná-lo para a metrópole. O sistema português de administra-
ção colonial, que tornava cada área dependente de Lisboa e centralizava a Brito de Figueiredo. Esse juiz erudito lia para os colegas o tratado de história
administração sob a Coroa, deixando pouco poder para instituições intermediá- natural do Brasil, que incluía longas scçõcs sobre origens indígenas, clima,
rias, encontrava paralelos em questões culturais e intelectuais. Autores no Brasil insetos, pássaros e outros fenómenos naturais. 15 Esse manuscrito ainda inédito
tinham que buscar licenças para publicar, e mesmo editores, na metrópole. está cheio de referências não apenas às autoridades clássicas mas também a
Estudantes que quisessem frequentar a universidade faziam a longa viagem autores portugueses como Francisco de Brito Freyre, que escreveu sobre o
para Portugal. Não é de admirar que o Brasil tenha passado um longo tempo Brasil, e a espanhóis como o padre José de Acosta e António de Herrera, que

258 2.59
estudaram a América Espanhola.10 Obviamente, esse desembargador Linha lido gos, as idiossincrasias c as características pessoais dos juizes se tornavam obieto
muita literatura não incluída no currículo de direito de Coimbra. de críticas e eram ridicularizadas. Alguns ganhavam apelidos como "Ocupado';
Ainda mais interessante é o grau em que Brito de Figueiredo consciente ou enquanto outros recebiam alcunhas menos respeitosas. £ pouco provável que
inconscientemente absorveu uma perspectiva nativista. Como os outros mem- muitos usassem o apelido de José de Freitas Serrão, "Rubo do Vaca", em sua
bros do grupo, esse magistrado nascido na península fez o elogio do Brasil, essa presença. Desnecessário dizer, poucas informações como essas sobreviveram
"jóia preciosa do cetro lusitano, a mais valiosa pedra da Coroa portuguesa".17 até o presente, mas relatos oficiais sobre o desempenho dos magistrados geral-
Além disso, atitudes coloniais predominantes também aparecem em sua obra. mente citam a vox publica como fonte de informações e: dado o sempre lem-
Ele considerava a escravidão benéfica para a colónia, apesar de dizer que antes brado passatempo colonial de contar histórias, seria s u r p r e e n d e n t e se o.->
da chegada dos africanos ao Brasil havia pouca doença e os primeiros colonos magistrados passassem despercebidos.
viviam até idade muito avançada. Dessa maneira, portanto, com a "utilidade c Talvez a melhor fonte de opiniões contemporâneas sobre os desembarga-
conveniência" da escravidão tinham vindo os malefícios da doença. A descrição dores e a Relação seja encontrada não em material histórico tradicional, mas na
que o chanceler faz dos índios representava a tradicional posição colonialista, e poesia do satirista baiano Gregório de Matos Guerra. 20 Letrado formado em
não a postura dos jesuítas. Ele chamava os índios de Coimbra, Gregório de Matos serviu como magistrado real cm Portugal antes de
voltar para sua Bahia natal. Seus versos frequentemente escandalosos e sempre
feras racionais sern Pé, Lei nem Religião, sombras c brutais rascunhos da humana picantes conquistaram admiradores e uma legião de inimigos c, por causa de
natureza. Dizem que nos da Flórida, nos de México, nos de Peru e nos de Chile se seus escritos, ele acabaria sendo deportado para Angola. E n q u a n t o i-su-ve na
encontrara toda a civilidade e polícia e costumes muito diversos, senão (oi que os Bahia, entretanto, Gregório de Matos manteve relações estreitas, quando não
escritores daqueles descobrimentos e conquistas quiseram afetar hipérboles para cordiais, com muitos desembargadores e como ex-magistrado t i n h a particular
se engrandecerem e para que com maior aplauso retumbassem os brados das suas interesse pela natureza e pelo estado do judiciário brasileiro.
fazendas.15 Os escritos de Gregório de Matos mostram os desembargadores não como
funcionários sem rosto, isolados da sociedade na qual serviam, mas como
Tais atitudes mostram até que ponto juizes nascidos na península podiam homens de carne e osso, cujas façanhas e fraquezas se tornavam lema de preo
adquirir atitudes coloniais c perspectivas coloniais. A obra de Brito de Figueiredo cupaçôes e comentários públicos. Seu modo de tratar os magistrados indivi-
parece não menos nativista do que a mais famosa História da América Portuguesa^ dualmente variava de acordo com suas relações pessoais com eles. Alguns ele
do brasileiro Sebastião da Rocha Pitta, outro membro do grupo. Pouco mais se elogiava, outros amaldiçoava. Dionísio de Ávila Varieiro tornou-se tema de
pode dizer das atividades intelectuais dos desembargadores no período anterior poemas laudatórios que descreveram suas proezas e o elogiaram quando ele
a 1750. A Academia dos Esquecidos reuniu-se apenas dezoito vezes c o próprio morreu. 21 O desembargador Pedro de Unhão Castelobranco, dono de um
nome "Esquecidos" reflctia suas relações com o conjunto da comunidade. É grande casarão, casado com unia baiana c provedor da Misericórdia, devia ser
possível pensar que a maioria dos juizes voltava sua energia para questões pes- figura muito conhecida na sociedade baiana quando Gregório de Matos escre-
soais e profissionais.19 veu um poema um tanto sarcástico sobre ele.22 Para alguns juizes, Gregório de
Uma vez estabelecidos em Salvador, os desembargadores tornavam-se Matos podia mergulhar sua pena em tinta mais ácida e seus versos sobre os
parte da rotina diária da capitania. Chapéus eram tirados em sinal de respeito malfeitos de "Rabo de Vaca" deixam pouco por dizer.23
quando os juizes passavam pelas ruas no trajcto de ida e volta ao tribunal. As Gregório de Matos organizou suas críticas à Relação e à judicatura cm
pessoas a eles se dirigiam nos termos mais respeitosos, em deferência à sua torno dos temas do poder e da corrupção. A autoridade dos magistrados não
LQp Mas, como ocorre com a maioria dos homens que ocupam altos car- deveria, ser questionada, nem sua vida ameaçada, pois os juí/es tinham o poder

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de destruir um homem, ou de emitir sentenças que ultrapassavam de longe a processo não foi totalmente negativo para a operacionalidade do sistema colo-
gravidade de seu crime. Num poema sobre três mulatos que ameaçaram alguns nial, uma vez que a penetração de padrões e critérios não burocráticos na rígida
desembargadores e foram enforcados, arrastados e esquartejados por seus ato;, estrutura imperial criou a elasticidade e a flexibilidade que permitiram ao
criminosos, Gregório de Matos foi muito claro. Usando a alegoria de um jogo governo continuar, a despeito de circunstâncias históricas e sociais em cons-
de cartas, ele advertiu que jogar com os juizes era esporte perigoso, pois "que os tante transformação.27
três de paus da Relação sempre é carta de ganhar" 24 O poder das autoridades No sentido mais amplo, a corrupção cobria uma grande diversidade de
legais geralmente excedia a força da lei. Quem ofendia um desembargador ou desvios das normas legais e burocráticas. Através de toda a história do Império
entrava em choque com o Tribunal Superior não tinha outro recurso senão português, observadores, tanto nacionais como estrangeiros, fizeram comentá-
fugir. Uma vez condenado, pouco podia ser feito, e erros judiciais quase nunca rios sobre a natureza venal da magistratura e a facilidade com que a justiça
eram reparados. O caso de Domingos da Costa Guimarães, condenado injusta- podia ser subvertida. O comentário do lorde Tyrawley, enviado da Inglaterra a
mente pela Relação ao açoitamento público, mas em cuja defesa veio mais tarde Lisboa nos anos de 1730, pode servir de exemplo:
a Coroa, obrigando os desembargadores a pagar-lhe indenização, destaca-se
como clara exceção.25 O povo no Brasil via a Relação com temeroso respeito. Os portugueses, mais do que qualquer outro povo, seguem à risca aquela regra das
Esse respeito nada tinha a ver com admiração, pois, se os poemas de Escrituras, de que um presente abre espaço para um homem, e é incrível como um
Gregório de Matos servem de indício, a venalidade e a conduta ilegal de funcio- presente atenua as dificuldades de uma solicitação; além disso, eles até já esperam
nários da justiça, mesmo de magistrados profissionais, tinham atingido níveis recebê-lo, e apesar de os presentes necessários não serem consideráveis, pois algu-
incontroláveis no fim do século xvn. Embora talvez Gregório de Matos tenha mas dúzias de garrafas de vinho estrangeiro ou algumas jardas de tecido fino são
exagerado, seu próprio conhecimento do direito e outras provas documentais suficientes, isso, repetido com frequência, representa dinheiro,28
fornecidas por fontes colaterais geralmente dão crédito a suas críticas. Afirmava
ele que todos os níveis da burocracia — juizes, letrados, escreventes e tabeliães As observações de Tyrawley sobre Portugal podem ser transferidas, com
— pareciam "feitos do mesmo tecido" No topo, membros do Desembargo do pequenos ajustes, para as colónias portuguesas. Na verdade, apesar de as evi-
Paço, esse guardião da justiça do rei, agiam como "vilões arrogantes" de "cora- dências serem fragmentárias e impressionistas, parece que o nível de corrupção
ção de ferro", enquanto os juizes baianos aceitavam propinas tanto dos queixo- colonial aumentou com o tempo, de modo que as queixas feitas contra magis-
sos como dos acusados, num processo judicial tão demorado que "a morte e o trados no Brasil do século XVIH foram mais numerosas do que nos séculos
juízo universal chegam antes da sentença derradeira do tribunal". A justiça, anteriores.
dizia Gregório de Matos, era "vendida, injusta e tornada bastarda".26 A crescente burocratização do Império e o contínuo acúmulo de obriga-
Embora tenha identificado a corrupção como uma grande falha do sis- ções e poderes pelos desembargadores criavam oportunidades de corrupção
tema judicial, Gregório de Matos não fazia distinção entre os vários tipos de cada vez mais numerosas. Os magistrados não só controlavam o Tribunal
corrupção e seus efeitos relativos no judiciário ou na sociedade. Abuso do cargo Superior e os tribunais inferiores, mas, como funcionários mais graduados,
para alcançar objetivos pessoais talvez fosse uma infração dos deveres profissio- também exerciam considerável influência sobre instituições como o Tesouro e
nais do juiz, mas do ponto de vista social tinha bem menos impacto do que as a Casa da Moeda e sobre o vice-rei em sua função de provedor de cargos.
formas de corrupção que envolviam troca de favores e recompensas entre um Qualquer um que se candidatasse a escrevente ou a um posto num tabelionato
magistrado e outro membro qualquer da sociedade. O "abrasileiramento" da geralmente pedia carta de recomendação de um desembargador. Além disso,
magistratura foi a corrupção dos objetivos puramente burocráticos por nume- depois de 1678, nenhum advogado podia exercer a profissão na Bahia sem um
rosos critérios pessoais, classistas, monetários e atributivos. O resultado desse certificado da Relação, de modo que mais uma vez os poderes dos juizes foram
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ampliados. 29 Não c necessário citar a máxima de lorde Acton sobre o poder para envolvidos em tais atividadcs são encontrados ao longo de toda a história do
compreender como responsabilidades cada vez maiores levaram ao aumento Tribunal Superior. O desembargador Francisco Rodrigues da Silva tomou 250
da corrupção. mil-réis emprestados, à taxa costumeira de 6,25%, do grande financista baiano
É importante lembrar que nem todos os atos considerados corruptos na João de Matos de Aguiar, que fez esse empréstimo cm 1699 tomando como
burocracia ^-ram necessariamente ilegais. Magistrados e outros luncionários garantia os canaviais do juiz em Passé.^ Noutro caso, em 1/28 Cosme Rolim de
reais servia ai sob normas destinadas a aumentar sua eficiência como burocra- Moura emprestou 4 mil cruzados ao desembargador Uris de Sousa Pereira. N'o
tas, de modo que eles estavam proibidos de exercer certas atividadcs que. mesmo ano e no mesmo mês, Sousa Pereira emprestou 2 mil cruzados ao coro-
embora 1140 fossem ilegais, erarn tidas como prejudiciais ao desempenho de nel Bernardino Cavalcanti de Albuquerque, tomando como çanmtia uma
suas funções. A maior dessas restrições era a legislação real que proibia qual- fazenda de criação de gado com 250 cabeças e oito escravos. As duas transações
quer funcionário da Coroa de negociar, ou exercer atividade comercial, na área foram feitas a juros de 6, 25%, a cifra mais alta possível de acordo com as defi-
de sua jurisdição. Essa lei sempre foi de difícil aplicação, especialmente entre nições eclesiásticas de usura, mas é difícil acreditar que Sousa Pereira não pre-
governadores e capitães-mores, que não raro viam seus postos mais como posi- tendesse, mediante cobrança de taxas de juros ocultas, obter bom lucro com
ções patrimoniais do que como cargos burocráticos. 30 todas essas negociatas.36 O que é significativo, porém, é que esses contratos
Os magistrados no Brasil desobedeciam continuamente às restrições de eram feitos em público, perante um tabelião. Se fossem considerados ilegais,
comércio e geralmente mantinham negócios, em seu próprio nome ou utili- isso não teria como ocorrer.3'
zando testas de ferro como agentes. As leis contra tais atividadcs estavam nos Parece que algumas formas de comércio eram permitidas ou toleradas na
livros desde que a Relação começou a funcionar, mas sua aplicação se revelou magistratura e que a Coroa preferia aplicar os critérios burocráticos de manei rã
praticamente impossível. Em 1720, a Coroa resolveu agir contra essas contínuas seletiva. Mais uma vez podemos recorrer aqui à distinção entre lei e comporta
infrações publicando uma reiteração das restrições, chamada de lei novíssima.^ mento aceitável. A Coroa estava disposta a permitir alguma atividade comer-
Logo depois, uma grande investigação foi iniciada pela Coroa e quatro desem- cial, desde que esta não provocasse fortes objcçõcs dos outros funcionários ou
bargadores baianos foram implicados. Dois foram punidos com demissão do da população colonial e não perturbasse o funcionamento da burocracia.
serviço real por "negociarem em seu próprio nome".32 Os dois desembargado Quando alguém levantava objcções, a Coroa tinha sempre o recurso de aplicar
rés, Manoel Ferreira de Carvalho e Afonso Rodrigues Bernardo e Sampaio, as leis existentes. Embora os desembargadores fossem submetidos a frequente
tinham servido na África e provavelmente estavam envolvidos com o tráfico de fiscalização e, em alguns casos, até chamados de volta, apenas os dois juizes
escravos. Bernardo e Sampaio era o juiz cristão-novo do qual se falou no capí- acima mencionados sofreram severas punições por suas infrações.Jli Obviamente,
tulo anterior c há motivos para suspeitar de que a punição tenha caído pesada- a frequência do castigo não coincidia com a incidência cio abuso.
mente sobre ele em razão de seus antecedentes familiares, tanto quanto por seus Magistrados geralmente usavam o poder e a influência do cargo para obter
crimes.3J Certamente, sua punição não abalou os colegas, pois em 1728 o ouvi- ganhos pessoais, por conveniência ou para proteger a família e seus dependen-
dor-geral da Bahia queixou-se de que os desembargadores continuavam a tes. Exemplos de tal conduta são encontrados ao longo cie toda a história da
manter negócios. Havia pouco que se pudesse fazer e ainda em 1799 desembar- Relação. Em 1676, José de Freitas Serrão recusou-se a desocupar as casas que
gadores se dedicavam ao contrabando. 3 ^ alugava, apesar de um mandado de despejo, e impediu que seu senhorio conse-
Dois.?aspectos das atividades comerciais magistráticas requerem algum guisse uma audiência nos tribunais. 39 Caetano Brito de Figueiredo, depois de
comentárkíj Primeiro, uni levantamento dos registros notariais de Salvador tomar vultosas somas de dinheiro emprestadas para financiar a compra de um
deixa bern^feiaro que o ato de tomar emprestado ou emprestar dinheiro não engenho, de canaviais e de jóias, recusou-se, durante nove anos, a pagar a
o que proibia o comércio. Exemplos de desembargadores tUvida-*Quando o credor tentou processá-lo, o desembargador usou o cargo
para impedir qualquer ação legal.40 Talvez ainda mais sério fosse o uso de A Coroa tinha visualizado paradigmas sóbrios e modestos, de vida simples, mas
influência magistrática para sabotar o tribunal em casos de delitos graves numa sociedade colonial já conhecida pela ostentação e dissipação esse estilo de
cometidos por parentes ou dependentes dos juizes. Já vimos um exemplo desse vida parecia impossível. Desembargadores geralmente tinham de arcar com
procedimento no caso de Balthasar Ferraz, mas o problema continuou depois pesados encargos financeiros. Ao ser nomeado em Portugal, o magistrado pre-
de 1652. Jorge Seco, sobrinho do chanceler Jorge Seco de Macedo, matou um cisava arranjar transporte para si e geralmente para a família. Quando chegava
homem na Bahia e fugiu para o mosteiro carmelita em Salvador, Devido ao a Salvador, tinha de comprar ou alugar alojamentos, adquirir uma liteira e
poder e à influência do tio, ninguém o levou à justiça.41 Em 1716, os escravos de alguns escravos e contratar empregados domésticos. Depois dessas despesas
Cristóvão Tavares de Morais meteram-se numa briga de rua na frente da casa preliminares, as pressões para manter certa imagem que refletisse sua elevada
do desembargador. Quando a força policial interveio, um dos policiais foi posição e talvez a insistência da mulher, que não queria parecer menos rica do
ferido na confusão. Nesse momento, o desembargador saiu de casa, o bastão do que as damas coloniais, levavam-no a cometer certos abusos.
cargo na mão, não para ajudar a prender os escravos, mas para libertá-los. O A história de Agostinho de Azevedo Monteiro oferece um quadro em
vice-rei prendeu Tavares de Morais e ele só foi solto depois de recorrer à Coroa.42 miniatura desse processo.45 Ele chegou à Bahia em 1659, acompanhado da
Geralmente o abuso do cargo visava ao ganho pessoal direto. As acusações mulher, sete filhos, uma escrava e um criado moço. Nem de longe um homem
feitas por Francisco de Estrada contra o desembargador António Rodrigues rico, dizia-se dele na época que não tinha "dezoito camisas que fossem suas" O
Bahia em 1692 mostram as técnicas que os juizes empregavam para aumentar a salário anual de Azevedo Monteiro, como desembargador, era de 400 mil-réis,
própria fortuna. 43 Estrada tinha herdado um engenho do pai, mas, incapaz de dos quais usava 60 mil-réis para pagar aluguel. O que lhe sobrava era insufi-
cumprir as exigências dos credores, levou a leilão o engenho, seu equipamento, ciente para sustentar a família por mais de meio ano. Sob tamanha pressão, ele
quatro fazendas de cana dependentes e quarenta escravos. Quando os lances se lançou em atividades financeiras. Pelo uso da forca, confiscou alguns lotes
começaram, Rodrigues Banha, o magistrado encarregado do leilão, insistiu em Salvador por preços bem inferiores ao que valiam no mercado. Voltando-se
para que eles fossem feitos em dinheiro vivo. Como sempre havia pouco então para o Recôncavo, alugou terra, escravos e gado. Manteve essa proprie-
dinheiro em espécie na colónia, essa exigência extraordinária eliminou a maio- dade durante seis anos sem pagar um centavo e, quando o dono moveu uma
ria dos interessados, de modo que a sogra de Rodrigues Banha adquiriu a pro- ação, Azevedo Monteiro usou sua influência para retardar o processo. Essa
priedade para o genro por uma soma bem abaixo do preço de mercado. Estrada prática funcionou tão bem que ele resolveu adotá-la de novo, alugando cana-
tentou mover ação, mas, como Rodrigues Banha pertencia à Relação, nada pôde viais, colhendo uma safra de cana e recusando-se a pagar aluguel ao proprietá-
ser feito. O desembargador, segundo alegou Estrada, chegara até a contratar rio. Em 1675, a Câmara de Salvador queixou-se de que esse outrora pobre
capangas para atacar um advogado que trabalhava no caso. Não contente com magistrado agora possuía 27 escravos, que valiam l conto e 200 mil-réis, sem
o êxito, Rodrigues Banha passou a pressionar outros credores de Estrada para falar dos cavalos, bois e ferramentas. Não admira que Azevedo Monteiro jamais
que eles o obrigassem a pagar suas dívidas. Estrada, incapaz de satisfazer essas tenha buscado promoção em Portugal, contentando-se em permanecer em seu
exigências, fugiu para as "entranhas do sertão" para escapar da cadeia. Era pra- posto brasileiro durante dezesseis anos.
ticamente tudo o que podia fazer.44 A carreira de Azevedo Monteiro indica que suborno não era apenas uma
As razões desse tipo de comportamento eram variadas, mas as pressões resposta a pressões financeiras, um resultado de baixos salários e altas despesas.
financeiras e aspirações de status contribuíam para que os magistrados abu- Mesmo quando tais pressões diminuíam e o magistrado podia viver conforta-
sassem do cargo em proveito pessoal. Embora os salários e emolumentos fos- velmente, ele continuava a usar o cargo em proveito próprio. A posição dos
sem substanciais, em comparação com os de outros funcionários, os desem- desembargadores no fulcro do poder oferecia oportunidades que poucos
bargadores esperavam manter um estilo de vida compatível com sua posição. homens — bem ou mal pagos — deixariam passar. Os juizes viam a disparidade
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entre sua posição e sua renda. As aspirações magistráticas de classe social não se
De todos os abusos magistráticos, o que provocava cuiKlenaçào mais severa
reduziam a alcançar um status igual ao da nobreza, mas incluíam a aquisição era a venda da justiça. Gregório de Matos escrevera contra a subversão da justiça
dos benefícios e símbolos materiais tradicionalmente associados a tal status. por meio de propinas e contra o modo como juizes venais vendiam a integridade
Apesar de os desembargadores desempenharem atividades comerciais e de do Tribunal Superior. Boatos sobre esse tipo de comportamento tornaram-se
por vezes ocuparem cargos menores que geravam taxas e honorários, seu prin- moeda corrente, mas era difícil prová-lo. Dizia-se que Feruão da Maia [ ; urudo
cipal objetivo era adquirir terras,40 A riqueza em terras, mais do que a linhagem aceitava suborno e dava aconselhamento jurídico a pessoas por ele julgadas/'
nobre, criou a aristocracia brasileira e, portanto, não é de surpreender que Uma investigação de suas atividades realizada em 1655 nada ix-velou c ele per-
magistrados no Brasil se esforçassem para adquirir canaviais ou engenhos. maneceu no cargo até se aposentar, em 1663. A disseminação dessa forma de
Alguns desembargadores tinham sesmarias, mas a maioria obtinha suas terras corrupção é sugerida numa carta de 1799, que joga alguma luz sobre épocas
por compra, herança ou dote. Parece que eles preferiam as terras canaviciras do anteriores. O governador da Bahia informava que ura canavieiro local mandava
Recôncavo. Luís de Sousa Pereira era dono de terras canavieiras ern Cachoeira c anualmente para todos os desembargadores alguns caixotes de açúcar ''como em
Iguape; Pedro de Unhão Castelobranco, em São Francisco do Conde; e Dionísio todo o tempo tem praticado e praticarão outras pessoas nesta cidade".-"'11
de Azevedo e Arevalos, em Paripe. Este último juiz acabou administrando as Os colonos reprovavam particularmente o fato de que pouco se podia fa/cr
plantações de cana da sogra, o engenho Jacareacanga, que pertencera ao marido para punir esses abusos dos magistrados. Apesar de existirem competição e i m-
desta, o desembargador António Rodrigues Banha. 47 Juizes nascidos no Brasil, mizade entre os desembargadores, amizade e cooperação formavam o padrão
como João de Góes e Araújo, geralmente superavam os colegas no que dizia mais corrente. Regulamentos reais patrocinavam a interação social entre os j u i -
respeito à propriedade de terras, adquirindo-as por doação, herança e compra.^ zes ao impor limites a outras opções sociais. Além disso, atitudes profissionais
A terra dava aos magistrados riqueza e status compatíveis com suas aspirações. compartilhadas, origens comuns e interesses semelhantes levavam os magistra-
A aquisição de uma fonte de renda independente, entretanto, diminuía a dos a cooperar com os colegas de tribunal. Como poderia um comerciante ou
força das motivações profissionais c das restrições burocráticas. Um magistrado senhor de engenho processar um desembargador, se os amigos, colegas c compa-
que fizesse fortuna no Brasil podia perder o interesse numa eventual promoção. dres do juiz pertenciam ao tribunal que julgaria o caso? Um exemplo é mais do
O suborno criava seu próprio círculo fechado. Um desembargador infringia o que suficiente. Em 168.1, João Rodrigues dos Reis entrou na justiça contra as
regulamento burocrático para obter riqueza ou terras e, tendo feilo isso, as leis ações de um desembargador, mas passou-se um ano e meio sem qne uma deci-
destinadas a impedir taí comportamento e canalizá-lo para os objetivos da são fosse tomada. Rodrigues dos Reis afirmou que o chanceler não tinha agido,
carreira tornavam-se cada vez menos importantes. As restrições burocráticas nem agiria, por causa "da particular amizade com que se trata com o suplicado
perdiam força à medida que ele acumulava riqueza e propriedades e conse- assistindo de ordinário em sua companhia" Na verdade, ele pediu que o prove-
quentcmente cada ato venal facilitava o seguinte. dor-mor conduzisse a investigação, uma vez que os "mais ministros [eram] mal
Os brasileiros raramente se queixavam do fato de os juizes adquirirem afctados ao suplicante por ser o suplicado desembargador1?1
terras ou acumularem riqueza, pois os padrões da sociedade não eram os mes- Juizes considerados "suspeitos" ou pessoalmente envolvidos num caso
mos da burocracia. Muitos coionos tinham ido para o Brasil em busca de for- eram, por vezes, afastados, mas essas medidas talvez tenham sido ineficazes
tuna e não reprovavam os magistrados por fazerem o mesmo. O que preocu- numa situação em que os laços de interesse c amizade eram muitos e o número
pava os colonos, entretanto, era o inequívoco mau uso do cargo em proveito de juizes era pequeno. A frustração diante desse estado de coisas e a inveja às
pessoal, a subversão da justiça por meio de propinas e favoritismo e o abuso vezes levavam a violentos ataques aos desembargadores. Em 1693, sete homens
egoísta de poder. Tais atividades eram injustas, tanto pelos padrões coloniais foram acusados de tocaiar o desembargador João de Sousa. Os acusados pedi-
como pelos.b$rocráticos. v . •••-í íi .. ram uma mudança do local de juízo, alegando que Sousa e outro desembarga-

268
dor eram seus inimigos pessoais e tinham fabricado as acusações.52 Em 1734,
podia ser transmitida para parentes, de modo que o contato direto com os
um assassino matou o desembargador Luís de Sousa Pereira enquanto ele desembargadores não era sequer necessário, desde que algum amigo ou parente
jantava em sua propriedade em Iguape.53 Tais ataques constituíam a forma tivesse acesso à "fonte" da influência.
definitiva de reprovação colonial.
Esse exemplo também indica o nível da sociedade no qual era rnais prová-
Suborno e má conduta provocavam censura tanto da colónia como do rei, vel que tais relações fossem encontradas. Catherina Fogaça não era uma viúva
mas tais atividades não eram a única forma de comportamento magistrátíco necessitada, mas membro da família Dias d'Âvila, proprietária de grandes
que violava o código burocrático de desempenho. Como observado no capítulo pedaços de terra ao norte de Salvador e também do rio São Francisco e um dos
8> relações primárias vinculavam os desembargadores à sociedade e criavam mais poderosos clãs do Brasil colonial.56 Tomé Pereira Falcão era seu cunhado.
pressões que poderiam ter efeito em seu desempenho profissional. As tendên- Esse cavalheiro baiano, tão bem relacionado com os desembargadores da
cias já notadas no período de 1609 a 1626 continuaram a prevalecer depois de Relação, era filho de um senhor de engenho, capitão de Iguape no Recôncavo, e,
1652. As numerosas relações primárias associativas ou ritualizadas dos desem- como vereador da Câmara de Salvador em 1671, defendeu o direito de os brasi-
bargadores só eram limitadas peias quase sempre ignoradas proibições e pelas leiros servirem na Relação.57 Sem dúvida, os contatos pessoais mais comuns e
distinções sociais que concentravam tais contatos em certos estratos da socie- eficazes eram os estabelecidos entre os magistrados e a elite de senhores de
dade. Interesses compartilhados, cooperação em alguma tarefa, um arranjo engenho e criadores de gado do Brasil, especialmente na capitania da Bahia.
comercial, filiação a uma mesma organização e até um estilo de vida em comum Certamente tais relações também existiam entre os juizes e pessoas de nível
criavam uma teia de contatos associativos que violavam o teórico isolamento social inferior, mas, como era pequena a possibilidade de troca de "favores" nas
da magistratura. Além disso, uma segunda camada de relações primárias, for- relações entre superiores e inferiores, é de suspeitar que estas tenham tido
mada por consanguinidade, parentesco por afinidade, casamento e apadrinha- impacto bem menor na conduta judicial.
mento ritual, era geralmente ritualizada dentro da Igreja.54 Essa camada tendia Deve-se também registrar a outra face dessas relações primárias: delas
a tornar-se cumulativa, de modo que, uma vez estabelecida uma ligação desse podiam resultar antipatia, competição e inimizade com a mesma facilidade
tipo, outras se seguiam quase inevitavelmente. As relações ritualizadas também com que resultavam a amizade e a cooperação. Não havia garantia de que o
tinham tendência a ampliar-se através de gerações, o que lhes dava um caráter parentesco ou a participação conjunta na Misericórdia sempre produzissem
de permanência não encontrado nas ligações associativas. Tanto os contatos respeito e harmonia. Apesar disso, um desembargador que agisse na profissão
associativos como os ritualizados exerciam forte pressão sobre o funciona- por maldade ou ódio, em contradição com as leis e os méritos do caso, introdu-
mento do governo no Brasil colonial.
zia critérios não burocráticos no funcionamento do governo, tanto quanto o
Um exemplo talvez possa revelar todo o universo desses vínculos e, assim, juiz que agia por amizade.
demonstrar não apenas sua existência, mas também sua complexidade. Em Os parentescos por afinidade estavam no coração dessas relações. No
1681, Manoel Pais de Costa casou-se com Isabel d'Ávila, mas a mãe da moça, a Brasil o número de famílias de elite — as de origem nobre, descendentes dos
viúva Catherina Fogaça, alegou que sua filha tinha sido levada a contragosto.55 primeiros colonos, e a rica oligarquia do açúcar e do gado — continuou limi-
Uma investigação foi iniciada, mas Costa queixou-se de que tinha pouca espe- tado. A genealogia das famílias baianas do século xvin de frei António de Santa
rança de um julgamento justo, pois havia "com grandes razões de suspeita nos Maria Jaboatão relaciona apenas 148 linhagens distintas, e em qualquer ponto
mais ministros daquele estado pela afinidade e parentesco que há entre a dita do tempo o número era sempre menor que esse.58 A infusão de sangue novo de
Catherina Fogaça e Thome Pereira Falcão e ter este muitos desembargadores Portugal não oferecia, de fato, uma alternativa viável; a população metropoli-
daquela Relação seus pares e amigos". Aqui se vê não apenas a ameaça de rela- tana era pequena, e os portugueses que migraram para o Brasil geralmente
ções pessoais no julgamento de um caso, como também que essa influência vinham de categorias sociais com as quais os orgulhosos brasileiros não que-
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271
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riam ter nenhuma ligação. Assim, o totaí de uniões possíveis era pequeno e as
árvores genealógicas da colónia tornaram-se emaranhadas e retorcidas num adicionais para a família e eram, portanto, cuidadosamente isolada-
trançado de constantes casamentos entre primos. Um sinal dessas convoluções de ladas para servir a objetivos familiares, situação tendenre a impossibiliur o*
enlaces por amor.60
família é o modo como os nomes começaram a encornpridar. Um simples "João
de Sousa'1 do século xvr tornara-se "João de Sousa Pacheco dê Carvalho" no século Muito embora a lei de 1610 proibisse esses casamentos e não obstante o
xviíi, já que os patronímicas eram empregados para distinguir ramos de família e fato de que a maioria dos desembargadores vinha para o Brasil como homens
evitar confusões. Como a riqueza, a propriedade, o poder e a influência geral- maduros, já casados, quase 20% (32 de 168) dos magistrados casara m-se com
brasileiras. A maioria dos juizes obtinha a licença necessária an tcs de se cas.i r na
mente se tornavam disponíveis para alguém como resultado desses vínculos,
passava a ser imperativo para membros desse estrato social identificar parentes colónia, mas o número crescente dessas uniões no começo do século xvin pro\-
até um grau distante. É uma arte não completamente morta no Brasil de hoje. cou considerável preocupação real. Em 1706, a Coroa ordenou ao Desembalo
do Paço qne se abstivesse de conceder essas licenças a magistrados além-rnar.
O casamento servia como principal vínculo entre íamílias e o método
mais eficaz de incorporar os magistrados ã sociedade local em caráter perma- Essa política logo foi abandonada, entretanto, quando a Coroa descobriu que os
nente. Os atrativos de trazer um desembargador para a família eram muitos. magistrados se casariam com ou sem permissão. Fsso ficou claro em 1728,
Primeiro, limitações cada vez maiores no número de possíveis combinações de quando dois juizes da Relação agiram exatamente assim.61 Bernardo de Sousa
família impostas por laços de sangue e brigas entre clãs tornavam os desembar- Estrela casou-se na Bahia contra a vontade expressa da Coroa e c Conselho
gadores particularmente bem-vindos, pois, diferentemente de muitos imigran- Ultramarino queria que ele fosse publicamente desonrado para servir de exem-
tes portugueses, os juizes eram aceitáveis .socialmente em virtude de sua posi- plo. O juiz, escapou da punição, mas se afastou em 1730, muito provavelmente
ção. A toga do desembargador obscurecia suas origens. Dos quinze magistrados por reconhecer que seus superiores não lhe permitiam avançar na carreira. 62
nascidos em Portugal que se casaram no Brasil e sobre cujas origens sociais Francisco de Santa Bárbara e Moura tinha recebido licença para se easar quando
dispomos de informações, nenhum era fidalgo; sele vinham de famílias de servia em Angola e alegava que a permissão era válida também para o Brasil. 63
letrados e cinco eram filhos de comerciantes e soldados. Certamente, as origens Apesar de alguns colegas desejarem que fosse demitido, suas promoções poste-
peninsulares dos juizes não* poderiam ter ajudado a atrair a oligarquia baiana. riores indicam que a Coroa não adotou nenhuma medida contra ele. Em 1734,
Em contrapartida, os juizes pareciam oferecer poder e prestígio em benefício a Coroa, percebendo as dificuldades de controlar a situação, ameaçou expulsar
direto da família enquanto servissem na r colônia, e, ao voltarem para Portugal, qualquer juiz que se casasse no Brasil sem permissão expressa.61 Casamentos
podiam até trazer novos laços, propriedades e influência na metrópole para semelhantes são encontrados no século xrx, mas sua frequência parece ter dimi-
uma família brasileira. -*
:; nuído depois dos anos de 1740.
Apesar de as origens sociais de todas as noivas não poderem ser determi-
Os desembargadores, por
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seu turno, podiam ver um casamento colonial
como oportunidade de adquirir a riqueza e a propriedade correspondentes à nadas, a amostra existente (doze de 34) indica que essas mulheres vinham de
posição social a que aspiravam. Terá António Rodrigues Banha se casado com ; dois elementos da população colonial. As filhas ou viúvas de outros funcioná-
Maria ^rancisca de Vasconcellos porque ela ia herdar o engenho Jacareacanga? rios reais não estavam, pelo menos em tese, sobrecarregadas de vínculos colo-
Quanta influência o enorme dote de 24 contos de réis terá exercido sobre o niais e, portanto, eram noivas adequadas para os desembargadores. Mas, como
desembargador Tomás Feliciano Albernás para que escolhesse a filha do coro- funcionários reais constan temente participavam da vida colonial, o casamento
nel João Teixeira de Sousa como sua mulher? 59 Trata-se de perguntas sem res- com suas filhas criava as mesmas complicações do casamento com a filha de um
posta, mas que sugerem as razões plausíveis para tais uniões. Não se pode afas- senhor de engenho, o outro grupo onde os juizes buscavam suas esposas. As
origens sociais das noivas, relacionadas no Apêndice n, não deveriam causar
tar a hipótese de amor, mas nesse sistema social as mulheres traziam recursos - '/.
-•; * f- V-L- -..Í--*1, &Í-5&*- •&^^*-"--'' . "' tais uniões como uma permutado poder e do prós-
tígio magistráticos com o acesso à riqueza e às propriedades das famílias colo-
A genealogia social de um desembargador, a rede de parentesco e de outras
niais. Cabe notar também que algumas das noivas eram viúvas. Dada a idade
relações primárias, simplesmente constitui uma série de possíveis influências
média dos desembargadores, é provável que muitos se casassem pela segunda
primárias em seu comportamento profissional.67 Na maioria dos casos, é
vez. Segundas núpcias levantam questões sobre a possível influência de um
impossível determinar as motivações de uma decisão particular, mesmo
magistrado sobre seus enteados e os vínculos que se estabeleciam entre um e
quando há indícios que sugerem relações primárias. Os desembargadores,
outros, mas atualmente não há respostas para essas questões.
como a maioria dos homens, agiam em resposta a uma mistura de motivações
Outra área que desafia a análise é a existência de relações sexuais ilícitas. de que, devido a certas suposições e racionalizações subconscientes, eles mes-
Obviamente tais informações são difíceis de obter, mas referências ocasionais a mos não se davam conta plenamente. Portanto, a identificação de relações pri-
concubinagem e homossexualidade entre os desembargadores, relatos de don- márias simplesmente acrescenta uma variável, se bem que importante, à mis-
-juanismo magistrático e de reconhecimento de filhos ilegítimos sugerem a tura. A análise de parentesco tem outras limitações. Como descendentes de
existência de tais relações.65 Difícil é determinar até que ponto tais ligações Adão, todos os homens são, pelo menos alegoricamente, aparentados. No Brasil
influenciaram padrões de influência e patronagem, pois, apesar da ausência de colonial, onde o número de colonos era limitado, laços de família acabavam
reconhecimento jurídico, elas podem ter sido mais íntimas e duradouras do ligando todos os clãs da elite, de modo que mesmo os rivais mais encarniçados
que as relações formais. Uma coisa é certa: os desembargadores podiam manter podiam encontrar um antepassado comum em suas árvores genealógicas.
uma ativa vida sexual na colónia, e os braços de mulatas, de jovens cadetes e de Dessa maneira, cada indivíduo escolhia, entre todas as ligações sanguíneas,
matronas solitárias se abriam para eles.
matrimoniais e rituais, certo número de indivíduos que ele considerava paren-
Na sociedade portuguesa, o número de vínculos podia aumentar com a tes seus. A família por afinidade, portanto, era uma "construção orientada pelo
criação de parentescos fictícios. Isso era feito normalmente por meio da insti- ego"68 um cálculo dos vínculos que o indivíduo considerava eficazes. Assim, as
tuição sancionada pela Igreja do compadrio. Ao servir como padrinho de descrições genealógicas podem, quando muito, estabelecer apenas um campo
batismo ou testemunha de casamento, um indivíduo criava uma série de laços
de possibilidades.
não apenas com o afilhado ou o casal, mas também com os país naturais. Laços Mas mesmo diante dessas limitações ainda é possível notar certas tendên-
de compadrio geravam obrigações genuínas para as partes envolvidas e consi- cias nos vínculos estabelecidos entre os desembargadores e a sociedade brasi-
derava-se que criavam, de fato, graus de afinidade que proibiam a união leira. Certas famílias baianas pareciam preferir as conexões com a magistratura
sexual.66 O compadrio podia estabelecer relações primárias entre inferior e quase como questão de política. Assim, nas genealogias sociais de três famílias
superior, por exemplo, entre um senhor de engenho e seu arrendatário, mas importantes, os Cavalcanti de Albuquerque, os Rocha Pitta e os Ferrão
geralmente era usado para criar vínculos entre pessoas do mesmo nível social, Castelobranço, pode-se ver a maioria das características distintivas de uma
ou para reforçar laços já existentes de consanguinidade ou amizade. Diferen-
conexão rnagistrática.
temente do vínculo matrimonial, que ligava diretamente um juiz a apenas uma A família Cavalcanti de Albuquerque era uma das maiores e mais podero-
família, ou pelo menos a uma família de cada vez, as relações fictícias eram sas do norte do Brasil, e uma das de maior prestígio. Sua linhagem poderia ser
teoricamente ilimitadas. Um desembargador podia tornar-se compadre sempre traçada até os donatários de Pernambuco, um cavalheiro florentino, Felipe
que fosse convidado, se assim o desejasse. Assim, o parentesco fictício represen- Cavalcanti, que fugiu para o Brasil a fim de escapar à ira de Cosmo de Mediei, e
tava em termos quantitativos uma ameaça ainda maior para a isenção judicial um nobre flamengo, Arnau de Holanda, um dos primeiros colonizadores de
do que os laços de sangue e casamento. Mas, se era para os juizes viver em socie- Pernambuco. A família espalhara-se pelas capitanias do norte do Brasil e um
dade, casar, ter filhos, então a doutrina da Igreja exigia, e a Coroa era obrigada a ramo se estabelecera na Bahia desde o período da Guerra Holandesa. As liga-
permitir, a criação desses laços.
ções dos Cavalcanti com o Tribunal Superior existiam já no período da primeira
274
275
Relação, pelo casamento de Manoel Pinto da Rocha com uma moça do ramo
pernambucano, e, como o demonstra a Figura 5, esses vínculos desenvolvcram-
-se também depois de 1652.
O coronel Cristóvão Cavalcanti de Albuquerque, rico e distinto proprietá-
rio de terras baiano, casou-se com Isabel de Aragao, filha de um senhor de
engenho que contava entre seus tios e tias o alcaide-mor e a mulher de Jerônimo
U
Sodré Pereira, outro canavieiro rico, militar e antigo provedor-mor da
Misericórdia de Salvador.69 A união de Cristóvão Cavalcanti de Albuquerque e
Isabel de Aragao produziu três filhos: António Cavalcanti, Ana de Aragao e E-
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P5
Joana Cavalcanti de Albuquerque. António tinha propriedades em Cachoeira,
mas conquistou a reputação de jovem dissipado e valente que teve muitos filhos
bastardos. Essas desventuras talve?, expliquem o seu assassinato, que alguns
dizem ter sido ordenado pelo pai para proteger o nome da família. Os outros
filhos levaram vida mais ordeira. Ana de Aragao casou-se com Sebastião da
Rocha Pitta, o célebre historiador. Joana casou-se três vezes: primeiro com o
U
coronel Francisco Pereira Botelho e, depois de sua morte, com o desembarga-
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dor José de Sá de Mendonça, em 1690. Com a morte deste, ela se casou com um
de seus colegas, o desembargador Bernardo de Sousa Estrela, em 1721. Essa
terceira união produziu dois filhos, ambos donos de propriedades e de cargos
militares em Cachoeira.
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Enquanto isso, Isabel de Aragao morreu e Cristóvão Cavalcanti de U "^


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Albuquerque casou-se outra vez. Esta segunda união resultou em oito filhos, 1 1
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entre eles Adriana Cavalcanti de Albuquerque, que se casou com o desembarga- O
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dor Cristóvão Tavares de Morais, e o coronel Bernardino Cavalcanti de ) -Q
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Albuquerque, rico canavieiro.70 Dessa forma, três desembargadores estavam U o
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vinculados por casamento ao grupo familiar dos Cavalcanti de Albuquerque e, A
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por intermédio deles, a outras notáveis famílias baianas como os Rocha Pitta, os 3 V3
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Vieira Ravasco c os Araújo. É impossível determinar até que ponto os laços de Z í-4
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parentesco influenciavam as ações dos juizes ou até que grau de distância os laços
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de parentesco continuavam em vigor; mas, em vista da importância da família e 'L.
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das muitas referências à influência de papéis atributivos no comportamento
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burocrático, parece seguro supor que a influência era considerável. Não só o 'S w ^
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parentesco influenciava o desempenho burocrático, mas pelos laços de associa- S -^ H"
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ção e amizade os vínculos de sangue e casamento podiam estimular outras rela-
ções. Não é de admirar, portanto, que se encontre o coronel Bernardino

276
Cavalcanti de Albuquerque, cunhado de um desembargador, tomando dinheiro comércio de escravos e o engenho Freguesia em Matoim, que se limitava com o
emprestado em 1728 de Luís de Sousa Pereira,71 outro desembargador. engenho Caboto, de Fonseca de Siqueira. A sociedade baiana reconheceu-lhe o
A genealogia dos Rocha Pitta revela múltiplas conexões magistráticas por sucesso recebendo-o na prestigiosa Terceira Ordem dos Franciscanos e ele-
nascimento ou casamento com a classe canavieira do Brasil e também ilustra gendo-o provedor da Misericórdia em 1700.75
como esses laços podiam estender-se até a metrópole. A linhagem dos Rocha Do seu impetuoso casamento com a sobrinha de Tomé Pereira Falcão,
Pitta desafiava até mesmo os esforços de genealogistas contemporâneos e as Maria da Rocha Pitta (provavelmente uma prima distante), nasceu-lhe um
exatas relações entre os três ramos da família continuam nebulosas. De particu- filho. O menino, Francisco, mais tarde se casou com a filha do tio da mãe —
lar interesse é o ramo ligado à família pernambucana Penha Deusdará. Durante quer dizer, a filha de Tomé Pereira Falcão —> o que talvez indica que tenha
a Guerra Holandesa, Manoel Álvares da Penha ganhara o apelido de "Deusdará5', havido uma reconciliação. Morta a primeira mulher, entretanto, António da
pelos suprimentos que fornecia para as forças luso-brasileiras em Pernambuco.72 Rocha Pitta partiu para um segundo casamento, escolhendo como noiva
Seus esforços lhe valeram não apenas a alcunha, que ele incorporou ao nome de Aldonça da Penha Deusdará, filha do proprietário do engenho Caboto. Ê a
família, mas também a gratidão da Coroa, expressa num título de nobreza com partir dessa segunda união que se podem traçar novas conexões magistráticas.
brasão e na propriedade do lucrativo cargo de provedor da Alfândega de (Ver Figura 6.)
Pernambuco. O reconhecimento desses serviços pela Coroa provavelmente está Aldonça da Penha Deusdará e António da Rocha Pitta tiveram cinco filhos.
por trás da nomeação, em 1653, do filho de Manoel, Simão Álvares da Penha Duas filhas se casaram com desembargadores do tribunal baiano, que sem
Deusdará, como primeiro desembargador nascido no Brasil. Em 1637, Simão se dúvida foram atraídos pela riqueza e posição social dos sogros. Um desses jui-
casara com Leonarda Vieira Ravasco, que, como já vimos, era irmã do padre zes, João Homem Freire, casou-se com Francisca Xavier em 1723. Depois ele
António Vieira. Simão se mudou com a mulher, os filhos e a irmã para a Bahia, voltou para Portugal acompanhado da mulher e da cunhada solteira, Maria da
onde assumiu o cargo de desembargador da Relação, acumulando o cargo na Rocha Pitta. Lá, ele arranjou o casamento da cunhada com seu sobrinho, que
Alfândega que o pai lhe transmitira.73 herdara uma propriedade perto de Coimbra. Os laços formados no Brasil
Na Bahia, Simão Álvares arranjou um casamento adequado para a irmã, podiam estender-se de volta até a metrópole,7"
Francisca da Penha Deusdará, com Simão da Fonseca de Siqueira, proprietário Retraçando-se, pela Figura 7, as relações primárias da terceira família, a
do engenho Caboto, na freguesia de Matoim, no Recôncavo. Pouco depois, o Ferrão Castelobranco, é possível ver como o casamento de um desembargador
desembargador, a mulher, a mãe e os filhos morreram num naufrágio, ficando e seu estabelecimento no Brasil podiam forjar uma série de vínculos horizon-
apenas a irmã para transmitir o nome da família para a filha, Aldonça da Penha tais com outros de sua geração, assim como criar vínculos verticais através de
Deusdará.74 seus descendentes. O casamento de um magistrado podia resultar na criação de
Aldonça casou-se com o viúvo António da Rocha Pitta, cuja história é, por uma nova família de elite, sujeita a aliança ou competição com outras famílias
si, uma epopeia colonial. Ele viera de Portugal atendendo a chamado do tio sem coloniais, que no futuro talvez viesse a buscar novamente uma conexão magis-
filhos que possuía canaviais em Iguape. Essas terras talvez fossem contíguas aos trática.
canaviais de Tomé Pereira Falcão. Lá, ele se apaixonou pela sobrinha do pro- Pedro de Unhão Castelobranco entrou na Relação em 1686, depois de
prietário e em 1678 fugiu com a moça contra a vontade da família, sendo ferido servir como ouvidor-gcral no Rio de Janeiro, onde tinha sido denunciado pelo
a tiros durante a fuga. Com a herança recebida do tio e alguma sorte, António governador da capitania numa tradicional desavença entre Executivo e
logo se tornou um dos homens mais ricos da capitania da Bahia e um dos cinco Judiciário. As acusações não impediram a promoção de Castelobranco para o
maiores proprietários de terras de todo o Nordeste. Suas propriedades incluíam Tribunal Superior.77 Em Salvador, ele se casou com a lisboeta Damiana Francisca
sesmarias ao norte de Salvador, canaviais em íguape, pelo menos um navio no da Sirva e estabeleceu-se em seu casarão à beira-mar como figura dominante na

278 279
sociedade baiana do fim do século xvn. Seu casamento produziu dois filhos e,
acompanhando suas vidas, pode-se compreender a intcracão dinâmica de
parentesco, poder e riqueza.
A filha de Pedro de Unhão Castelobranco, Maria Frandsca, contraiu exce-
lente matrimónio com António Gomes. O noivo era cavaleiro da Ordem de
Cristo, moço fidalgo, cunhado de Salvador Correia cie Sn do Rio de Janeiro e
S N
£< filho de Pedro Gomes, distinto militar e governador provisório do Rio de
rx Janeiro (1681 -2).7S A experiência do desembargador Unhão Castelobranco nas
f",
vO
capitanias meridionais tinha provavelmente levado a essa conexão, e aqui se vê
U
a rede de relações primárias que se estende de uma região para outra. O casa-
mento foi um acontecimento social de alguma importância. O governador do
Brasil, Matias da Cunha, e a mulher do desembargador carioca Francisco da
Silveira Sottomayor serviram de testemunhas na cerimónia, estabelecendo,
assim, laços rituais de apadrinhamento tanto para os recém-casados como para
u- seus pais.7y Mais tarde, Maria Francisca casou-se em segundas núpcias com um
-o •« p
õi' desembargador da Casa da Suplicação em Portugal.
Sl
O irmão de Maria Francisca, António Ferrão Castclobranco, seguiu car-
reira nas armas, chegando a tenente-general e governador de São Tomé.
Quando estava na Bahia, António Ferrão tornou-scum rico e respeitável cava-
lheiro cuja posição social era tal que ele chegou a ser uni dos principais candi-
datos ao cargo de provedor da Misericórdia no período de 1717-20, posição
acuradamente disputada por seu maior adversário, Gonçalo Ravasco Cavalcanti
U de Albuquerque. A competição entre António Ferrão e Gonçalo Ravasco foi, em
certo sentido, representativa da luta de duas importantes tamílias baianas,
ambas estreitamente vinculadas à magistratura. António Ferrão conquistou c


cargo cm 1718, o mesmo que o pai ocupara em 1693. Usando sua influência na
Misericórdia, António Ferrão começou a cuidar dos interesses de sua família.* 1
O casamento de António Ferrão produziu seis filhos. Um fiiho, João
Ferrão, ingressou na Ordem dos Jesuítas; outro morreu em tenra idade; uma
íilha casou-se e três outras entraram em conventos em Portugal. A hm de pre-
parar os doLes necessários para colocar essas filhas em instituições religiosas,
António Ferrão tinha conseguido 300 mil-réis da Misericórdia. Como a
• £
Misericórdia só deveria fornecer dotes para moças pobres, queixas foram apre-
J o
ÍE sentadas e em 1728 o conselho diretor tentou revogar a concessão/1 António
Ferrão, na época em Portugal, levou o caso para íi Casa da Suplicação, que

281
decidiu em seu favor e obrigou a Misericórdia a honrar o arranjo. A decisão de
Lisboa não deveria ser surpresa, uma vez que o cunhado de António Ferrão
Jerônimo da Costa de Almeida, era juiz daquele tribunal.
Os netos do desembargador Pedro de Unhão Castelobranco, por intermé- •
"Si c
dio da filha, estabeleceram o nome Castelobranco como elemento permanente
da sociedade baiana. Maria Francisca deu dois filhos a António Gomes. O mais
U U
velho, Alexandre Gomes Ferrão Castelobranco, tinha título de fidalgo e tornou-
-se cavaleiro da Ordem de Cristo. Serviu como coronel de milícia e com o
tempo estabeleceu suas vastas propriedades no rio São Francisco como inalie-
náveis. O filho mais moço, Gonçalo José Gomes Castelobranco, também tinha E3
Ê .3
título de fidalgo. Seus padrinhos de batismo tinham sido o desembargador
Belchior Ramires de Carvalho e Domingos Dias Machado, filho bastardo e
único herdeiro de António Pais de Aragão, descendente fabulosamente rico da
Ê
poderosa família Garcia de Aragão.82 O apadrinhamento ritual agora ligava o
O
esses dois homens à família Unhão Castelobranco. Mais tarde, Gonçalo José
casou-se com Aldonça Francisca da Rocha Pitta, de uma família que tinha suas

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próprias conexões magistráticas. O U
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A quarta geração pode ser traçada seguindo-se os quatro filhos de Alexandre <
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Gomes Ferrão Castelobranco. Poucas informações ainda subsistem sobre a vida <
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dos filhos Diogo e Salvador, mas Pedro tornou-se padre. António, o primogé- CO £ J
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poderoso da terra como primeiro-sargento de um regimento colonial e verea- õ
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dor da Câmara de Salvador em 1755. António escolheu por esposa Maria Felícia jr
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de Albernás, a filha de Tomás Feliciano Albernás, ouvidor de Sergipe e poste- -o *—'»' '

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riormente desembargador da Bahia — mais uma vez, a conexão magistrática. "0 c A
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Esses laços de parentesco permitiram que o filho e xará de Tomás Feliciano de £ _o o
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Albernás alugasse, do cunhado, o engenho Paporiú em São Francisco do Conde w <?
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por valor muito razoável.83 A história pode ser trazida até o fim do século xvrn U a> o
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na pessoa de Pedro Gomes Ferrão Castelobranco, filho de António e Maria 52 .b
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Felícia, que herdou a propriedade, tornou-se coronel de milícia, vereador de u
Salvador em 1785 e homem poderoso no fim do século.84 Eis aqui um clã colo- u
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nial com origens e conexões magistráticas. O Q ca
Se algum grupo de desembargadores infringiu consistentemente a norma Q
burocrática que proibia envolvimentos locais, esse grupo foi, certamente, o dos
dez magistrados nascidos no Brasil. Esses homens chegaram ao Tribunal

282
Superior com laços preexistentes de familiaridade, amizade e família na coló- que Burgos não poderia ser nomeado na Bahia, "donde e natural e que depois
nia. Quatro se casaram com brasileiras, ampliando, dessa forma, seu círculo de usou na mesma cidade muito rico e sem licença necessária"" 9
contatos pessoais. Os pais dos magistrados nascidos no Brasil pertenciam à elite Pelos 26 anos seguintes, Cristóvão de Burgos serviu na Relação, provu-
proprietária de terras ou tinham servido como funcionários reais no Brasil. undo reações diversas dos outros colonos. De um lado, havia, certo or-ulho e
Como vimos, era impossível distinguir entre essas duas categorias, cm muitos satisfação de ter um brasileiro no Tribunal Superior, mas, de outro, Burgos
casos. As diferenças de posição social ou profissão dos pais não tiveram efeito provocou muitas queixas. A Câmara de Salvador consrantemen te o acusava de
apreciável no desempenho desses juizes. O desembargador António Rodrigues evasão fiscal e de uso do cargo em proveito próprio. Em 1675, a Cãmai a m u n i
Banha, filho e neto de desembargadores, e Luís de Sousa Pereira, filho do cipal observou que o fato de Burgos deixar de pagar certos impo.stoí, era mau
desembargador Luís de Sousa, participaram da vida social e económica da exemplo e que em seu caso isso era especialmente condenável por ser ek- '"u
colónia com o mesmo vigor de João de Góes e Araújo ou de João Rodrigues mais afazendado da terra".*1
Campeio, filhos da elite açucareira. A afirmação pode ter sido hiperbólica, mas uma investigação das pastas
A extensão do envolvimento magistrático com a sociedade colonial, favo- notariais e das concessões de terras da Bahia indica claramente que Cristóvão
recido pela nomeação de brasileiros para a Relação, pode ser vista na fascinante de Burgos não era um indigente. Tinha recebido uma grande doação de terra
história do desembargador Cristóvão de Burgos Contreiras. 85 Nascido na Bahia, no rio São Francisco em 1659, mas suas principais propriedades estavam nas
provavelmente entre 1615 e 1618, Burgos era filho de Maria Pacheco e Jerônimo freguesias do Recôncavo.91 Além das terras que possuía em Santo Amaro da
de Burgos, letrado que teve vários empregos burocráticos de menor importân- Pitanga, Burgos controlava três engenhos de açúcar, dois na freguesia de Paripe
cia na colónia. Além disso, Jerônimo de Burgos era um respeitado membro da e outro em Passe. Um desses engenhos fora adquirido como parte da herança
sociedade baiana, irmão da Misericórdia e em 1633 vereador da Câmara muni- da mulher. Pelo menos dois desses engenhos tinham plantadores de cana
cipal.86 O jovem Cristóvão foi mandado para Coimbra, onde recebeu diploma dependentes e arrendatários. Portanto, Cristóvão de Burgos não era apenas um
cie bacharel em direito civil; cm 1644, ingressou no serviço real. Depois de uma juiz do Tribunal Superior da Bahia, mas um senhor de engenho rico e bem
viagem de serviço como juiz de fora de Ponta Delgada, nos Açores, ele voltou relacionado, com escravos e dependentes.92
para o Brasil, onde, em novembro de 1651, se casou com a viúva Helena da Silva £is um homem vinculado à colónia por interesse, família, nascimento e
Pimentel. Essa senhora era filha de Bernardo Pimentel de Almeida, canavieiro e associação, de uma forma jamais pretendida pelas decididas proibições da lei e
por algum tempo vereador da Câmara municipal de Salvador. Além disso, seu dos regulamentos de sua profissão. Sua posição social foi reconhecida pela
primeiro marido fora um viúvo com sete filhos, de maneira que Cristóvão de filiação à Misericórdia e pela eleição para seu conselho diretor em 1691.''3 Ele
Burgos criou vínculos não apenas com a família Pimentel, mas também com contava entre seus parentes outros membros da elite canavieira e entre seus
esses filhos, um dos quais era Francisco Telles de Meneses, alcaide-mor de colegas os mais altos funcionários reaís da colónia. E em 1680, quando uma
Salvador.87 promoção o elevou à Casa da Suplicação, Burgos tornou-se um influente con-
Logo depois do casamento, Burgos pediu à Coroa uma posição na recém- sultor de assuntos brasileiros na metrópole.
-criada Relação da Bahia e em 1654 ingressou no Tribunal Superior substi- Outros exemplos desse padrão são fáceis de encontrar, mas talvez um
tuindo Simão Álvares da Penha Deusdará. 88 Nos anos que se seguiram à expul- conlraexemplo, um juiz brasileiro que evitava essas conexões, seja ainda mais
são dos holandeses do Brasil, a Coroa parecia disposta a conceder aos brasileiros revelador. João da Rocha Pitta sobressaía continuamente nos anos de 1690
o direito de ocupar altos cargos coloniais. É de supor que o L^esembargo do como um magistrado exemplar, que "vivia como se não fora daquela terra' 1 e
Paço tenha conscientemente escolhido Burgos por essa razão, mas membros do "nem tinha nenhuma roça da fazenda11 (a ênfase é minha).*91 Tais afirmações
Conselho Ultramarino não eram favoráveis a tal política. Eles se queixaram de mostram que as conexões pessoais e a posse de terra eram características que já

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se esperavam dos juizes nascidos no Brasil; quem não participasse de tais ativi-
dades constituía, sem dúvida, rara exceção. Urna descrição do desempenho de 14. Conclusão
João da Rocha Pitta pelo governador ressalta não apenas suas virtudes, mas
também as práticas rotineiras dos desembargadores:

Doutor João da Rocha Pitta sendo filho desta terra e estando nela há tantos anos,
vive sem casar tendo a idade de 55 anos e parece que não tem parentes pela isenção
notável com que vive; e não tem fazenda nenhuma neste Estado e vive só com seus
ordenados e limpeza de mãos com grande crédito de ministro de V. Mge.95

João da Rocha Pitta era a exceção que confirmava a regra.

Do bom e mau há grande diferença;


Qual for o juiz, tal será a sentença.
Epitáfio do Diu português (1580)

Não há tribunais que bastem para proteger a lei quando o dever se


ausenta da consciência dos juizes.
Rui Barbosa

A década iniciada em 1750 oferece um ponto conveniente para lançar-


mos um olhar retroativo sobre o processo que viemos seguindo. A ascensão
de d. José i ao trono foi logo seguida pelo predomínio político de seu pri-
meiro-ministro, Sebastião José de Carvalho e Melo, mais tarde marquês de
Pombal. Esse autocrata de vontade férrea anunciou um período de profundas
reformas na estrutura administrativa e económica do Império português.
Com base em suas observações sobre a supremacia da Inglaterra e empre-
gando poderes praticamente despóticos, Pombal lançou uma política de
intervenção do Estado nos setores agrícola, manufatureiro e comercial da eco-
nomia. Essas medidas foram acompanhadas de numerosas reformas adminis-
trativas destinadas a permitir um controle real mais rigoroso do Império e um

286 287
modo mais eficiente de cobrar os tributos necessários para os programas de carreira e os objelivos dos burocratas e os interesses de vários setores da socie-
reconstrução nacional.1 dade colonial. O sistema político da colónia resultava da tnteniçno de caJu um
As medidas que Pombal tomou em relação ao Brasil devem ser vistas con- desses elementos.3
tra o pano de fundo da crise colonial de declínio da receita e da ameaça de A Relação da Bahia, presidida pelo governador ou pdo vice-rci, era o ápice
confronto militar com a Espanha nas fronteiras meridional e ocidental. Corno da estrutura administrativa colonial e, como tal, a melhor reproen Lmte da base
mostrou Dauril Alden, os dois problemas estavam relacionados, pois a receita institucional do governo real. Em questões judiciais, como o mais alto tribunal
proveniente do Brasil diminuía na proporção em que as despesas militares do Brasil, sua autoridade era indisputável. Só depois de 1751 ela passaria a divi-
aumentavam/ Pelos anos de 1750 o volume da produção de ouro e diamante dir esse status com o Tribunal Superior do Rio de Janeiro. Os poderes político
começara a declinar, assim como as receitas reais. O açúcar e o tabaco foiam -administrativos da Relação da Bahia, apesar de grandes, eram até certo ponto
afetados por condições naturais e por um ambiente comercial desfavorável na negativos. Muitos aspectos do governo colonial estavam nas mãos de outras
Europa. Nessa tapeçaria melancólica, Pombal teceu um desenbo de reforma. instituições, mas a capacidade do Tribunal Superior de fiscalizar, limitar ou
Alterou o sistema tributário nas áreas de mineração, estabeleceu empresas de retardar as políticas e os atos de praticamente qualquer indivíduo na colónia o
monopólio comercial, criou conselhos de controle para regular a exportação de colocava no fulcro do poder. O poder de impedir algo era tão crucial quanto o
produtos agrícolas, reorganizou a administração fiscal e estimulou o desenvol- poder de agir, e conferia à Relação enorme influência na condução do governo.
vimento agrícola em regiões como o Maranhão. A criação da Relação do Rio de Ao longo de sua história, praticamente não houve aspecto do governo no qual
Janeiro foi uma das primeiras mudanças pombalinas introduzidas no Brasil. o Tribunal Superior não tenha, em algum momento, interferido.
Ela assinalou o fim de uma era na história da estrutura judiciária e administra- Num sistema de poderes que se contrabalançavam, superposição jurisdi-
tiva da colónia e foi o primeiro passo na mudança de governo do Nordeste para cional e múltiplos padrões ou objetivos, a Relação ocupou posição central. Por
o Sul. Esse movimento reconhecia as realidades económicas do complexo açu- seu poder de fiscalizar, a Coroa via no Tribunal Superior um guardião dos
careiro em declínio na costa nordestina e a necessidade de obter mais receitai interesses e padrões reais. Os numerosos conflitos e divergências entre os
das áreas de produção mineral de Minas Gerais e Goiás. Ao mesmo tempo, a desembargadores e outros funcionários na colónia ensejavam o recurso à
crescente população das capitanias meridionais c a ameaça militar da Espanha metrópole e, em último caso, à decisão da Coroa. Tal sistema era adequado ao
na região do Prata exigiam controle real mais firme. O estabelecimento do Rio estabelecimento e manutenção da dependência colonial, pois fazia dos conse-
de Janeiro em 1763 corno capital do vice-reino apenas completou um processo lhos cm Lisboa os árbitros definitivos da vida colonial e impedia o desenvolvi-
iniciado na década anterior. mento do processo de tomada de decisões na colónia.
Podiam-se criar instituições e mudar capitais de lugar com relativa facili- A Relação era poderosa quando foi criada, em 1609, e quando foi recriada,
dade, mas a natureza do governo colonial era mais difícil de alterar. Depois de em 1652, e a Coroa continuamente ampliou suas atribuições e os deveres dos
250 anos de administração, as relações entre Estado e sociedade no Brasil magistrados. Esse processo era perfeitamente compreensível, dado o papel
tinham sido estabelecidas como uma equação dinâmica de interesses e pode- histórico do judiciário como aliado da Coroa, como representante da autori-
res. Considerações económicas, absolutismo real, objetivos burocráticos, dade real c como burocracia profissional. Mas a dependência real da lealdade e
motivações profissionais, interesses pessoais e de classe, tudo isso determinava competência da magistratura representava um fardo insuportável para as
a natureza e o funcionamento do governo na colónia, muito embora a influên- capacidades profissionais e pessoais de seus integrantes, o que tinha um efeito
cia de cada elemento variasse de acordo com situações históricas específicas. deletério na aplicação da lei. Cada nova tarefa atribuída aos desembargadores
Neste estudo, tentamos identificar e analisar a estrutura institucional do prejudicava seu desempenho em outras áreas, c seus deveres no tribunal pare-
governo magistrático, a natureza e as funções da burocracia, os padrões de ciam sofrer mais que tudo. A expansão de outros ramos da burocracia e o

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aumento do número de magistrados subordinados não suavizaram a situação nobres vice-reis e embaixadores, cuja preeminência vinha tanto da posição
Como guardiães derradeiros dos interesses reais, a Relação e seus juizes desco- social como da natureza de seus serviços. A magistratura representava tudo o
briram que, por mais que essas medidas os dispensassem de algumas atribui- que havia de racional e profissional na burocracia do Império, mas não deve-
ções, tal efeito era anulado pelas novas responsabilidades reguladoras e inves- mos confundir os magistrados com servidores públicos civis. Enquanto o con-
tigatórias que o Tribunal Superior assumia sobre os novos funcionários. ceito de servir ao Estado ou à comunidade esteve embutido nas obrigações do
Inquestionavelmente, a corrupção, a negligência e as limitações pessoais con- rei para com o reino, os magistrados foram servidores reais. Apesar disso, não
tribuíram em certa medida para a notória reputação do sistema judicial da era incomum para aqueles que serviam no Brasil representar interesses colo-
colónia, mas o problema vinha em grande parte da estrutura da burocracia, niais, ou conciliar a legislação com as realidades brasileiras.
que fundia vários poderes e responsabilidades de governo nas mesmas insti- Provenientes de diferentes origens sociais, mas representando em grande
tuições e nos mesmos homens. medida a pequena nobreza não titulada, a burguesia e os funcionários, os
As falhas da Relação e dos magistrados subordinados na administração da magistrados compartilhavam a experiência comum de terem estudado direito
justiça eram, até certo ponto, compensadas, do ponto de vista da Coroa, pelas em Coimbra. Os salões da universidade tornaram-se a preparação para o
funções políticas que desempenhavam. Quando o Brasil passou do governo dos governo imperial. Ali os estudantes aprendiam os princípios legais, as teorias de
donatários das capitanias para o controle real direto, os funcionários judi- governo e os padrões de desempenho que fariam deles leais e competentes ser-
ciais — primeiro o ouvidor-geral e depois os desembargadores, ouvidores e vidores da Coroa. A educação coimbrã compartilhada por todos os magistrados
juizes de fora — assumiram importantes papéis administrativos e políticos. As era, efetivamente, um processo de socialização burocrática, que preparava os
relações coloniais do Brasil com a metrópole portuguesa desenvolveram-se em jovens para a toga do cargo. Depois do ingresso na magistratura, o progresso na
torno da capacidade brasileira de fornecer produtos agrícolas e minerais para carreira pelos canais da promoção podia levar ao Tribunal Superior da Bahia e,
Portugal dentro de um sistema comercial controlado. Apesar da realidade eco- além dele, aos conselhos do rei. Os homens que serviam no tribunal baiano ali
nómica, os contornos da organização colonial não eram prioritariamente eco- chegavam geralmente com quinze anos de experiência profissional, como vete-
nómicos. Por razões de história e filosofia política, a estrutura da administração ranos da vida burocrática.
judiciária tornou-se, também, o cerne da estrutura administrativa do Império. A formação universitária comum, os objetivos de carreira e a experiência
Como em Portugal, onde os letrados tinham sido o braço forte do absolutismo profissional criavam um senso de consciência de classe entre os magistrados. A
real, também no Brasil eles foram usados para controlar as forças centrípetas política de promoção, privilégio e recompensa da Coroa, destinada a fortalecer
geradas por específicos interesses de classe. Sem os senhores de engenho e, a autoridade da magistratura, também alimentava a ambição e o orgulho dos
depois, os "donos de gado e gente", os criadores de gado do sertão, o Brasil como burocratas, que por vezes adotavam as atitudes e as aspirações da nobreza ou da
colónia não tinha nenhum significado; mas o poder desses homens também elite colonial. Uma vez criada, a burocracia adquiria vida própria, e os magis-
ameaçava o funcionamento do governo colonial. A Coroa sempre tentou elimi- trados às vezes perseguiam objetivos coletivos ou individuais para além daque-
nar, ou pelo menos controlar, esses interesses, instituições ou grupos que se les prescritos pela lei. A Coroa, entretanto, mantinha controle sobre o Estado e
erguiam entre o monarca e seus súditos. O governo burocrático baseado em a burocracia. Por meio do sistema de educação e promoção, rotatividade no
prerrogativas judiciais da Coroa e administrado pela magistratura tornou-se cargo e controles institucionais, a magistratura permanecia atada ao interesse
um meio de alcançar esse fim. real e dependente da Coroa. Essa era uma importante característica da estru-
Embora os níveis da burocracia fossem numerosos, os magistrados clara- tura administrativa e social portuguesa. Apesar das tradições familiais de ser-
mente constituíam um patriciado administrativo, os funcionários mais respei- viço burocrático, não se pode falar, a rigor, de uma nobreza do cargo magistrá-
tados e privilegiados da Coroa, ultrapassados em posição e honras apenas pelos tico, uma nobreza da toga, que viesse a encarar os empregos burocráticos como

290 "•
seu domínio exclusivo, ou o cargo como uma extensão da posição social. A fontes cada vez maiores de poder e influência. A natureza dinâmica de.vst- p r o -
magistratura era, em tese, aberta a todos {excluídos os judeus, os cristãos-novos cesso oferece pelo menos uma explicação parcial para a resistência do redime
os negros e os mulatos). Desembargadores e magistrados subalternos não eram colonial e para a longevidade da elite brasileira. Ao fazer aliança* sociais com os
donos do cargo, nem podiam transmiti-lo para alguém da sua escolha. Todos os burocratas, grupos, famílias e indivíduos na colónia conquistavam poderosos
magistrados estavam sempre sujeitos a revista, demissão e substituição. Enquanto defensores capazes de intervir na implementação de políticas c no c u m p r i -
os títulos de nobreza ou a filiação a ordens militares honoríficas podiam ser con- mento da lei— áreas especialmente importantes, urna vez que'os colonos nem
cedidos para recompensar ou encorajar a dedicação ao serviço burocrático, os sempre participavam da formulação de leis ou de políticas. Embora o governo
altos cargos não conferiam automaticamente nobreza a seus ocupantes. pudesse expandir-se e novos cargos pudessem ser criados, a tabela tWmal de
Portanto, diferentemente da nobreza da toga na França ou da nobreza judicial organização do Império e seus princípios subjacentes permaneceram, basica-
prussiana, os magistrados portugueses formavam uma elite profissional, mais mente, estáticos. A penetração de relações primárias na estrutura de governo
que uma ciasse social distinta, apesar da perene tendência a se tornarem urna.! criou certa flexibilidade que facilitou a acomodação de novas forcas políticas,
A Coroa usava as promoções, as honrarias, os privilégios e amplos estipên- sociais e económicas, c permitiu a resolução de problemas em nível loca!.
dios para elevar os magistrados acima dos interesses egoístas ou da influência A magistratura desempenhou papel crucial na tabela formal de organiza
de outros. A formação de funcionários que possam desempenhar suas tarefas e cão. Apesar de seu desenvolvimento parcial como classe social, continuou a
tomar decisões sine ira etstudio é um objetivo clássico do governo burocrático. 5 representar o governo real e tudo o que havia de profissional, racional e categó
Mas as mesmas medidas destinadas a reforçar a autoridade e a dignidade dos rico na burocracia. Se os desembargadores, os magistrados profissionais de
desembargadores não os isolavam de uma sociedade tomada de temor reveren- mais alto nível e supostamenle os mais competentes, podiam ser subornados
ciai. O prestígio e o poder da magistratura estimulavam a elite colonial a fazer por parentesco c propina, que esperança haveria para os magistrados menos
alianças com ela, e os magistrados, por sua vez, não tardavam a usar sua posição graduados, governadores, coletores de impostos e escreventes, cujo conceito de
em proveito próprio ou da família. Magistrados desinteressados eram os guar- cargo se assemelhava muito mais ao de propriedade de um bem lucrativo? De
diães da estrutura formal do Império imaginada pela Coroa, mas esses homens acordo com as normas burocráticas, as ligações de um magistrado com a socie-
geralmente buscavam alcançar objetivos individuais e coletivos que conflita- dade violavam os padrões de sua profissão, mas tal situação não era inteira-
vam abertamente com os padrões do cargo. Esse era o paradoxo do governo mente prejudicial ao funcionamento do governo. Talvez fosse o melhor que se
colonial, mas era um paradoxo que dava vida ao regime ao conciliar os interes- poderia esperar de um regime autoritário no qual o aparelho burocrático nunca
ses da metrópole e da colónia. suplantou a natureza fortemente particularista da sociedade ibérica. Essa situa
A burocracia e a sociedade no Brasil colonial formavam dois sistemas cão persiste no Brasil contemporâneo, onde o uso do pistolão é quase um modo
interligados de organização. A administração metropolitana, caracterizada por de vida. Suas raízes, entretanto, remontam à herança colonial.6
relações categóricas e impessoais, servia corno o delineamento básico do O regime colonial no Brasil de há muito confunde os historiadores, pois,
governo imperial, a estrutura de soberania que prendia politicamente a colónia embora queixas contra sua ineficiência e deterioração fossem moeda corrente,
à Coroa como a carne ao osso. Como um desenho anatómico num manual de ele teve êxito em manter a colónia unida à metrópole durante mais cie cies sécu-
medicina, no entanto, a peie da estrutura formal de governo podia ser retirada los. Mesmo depois que os laços políticos foram rompidos, em 1822, muitos
para revelar um complexo sistema de veias e nervos criado por relações inter- vínculos dinásticos, comerciais, culturais e pessoais persistiram. As razões do
pessoais primárias baseadas em parentesco, amizade, patronagem c suborno. sucesso do regime colonial estão tanto em suas conquistas como em seus fra-
Aqui cessa a analogia diagramática, pois a rede de relações pessoais mudava cassos, bem como nos contornos peculiares da sociedade e da economia colo
constantemente, à medida que personalidades, forças e alianças buscavam niais. Em quase todos os níveis, as manobras do governo colonial apontavam

292
para a constante dependência em relação à metrópole e para a integração do parte verdade, num sentido institucional, também é verdade que as falhas do
Brasil na estrutura imperial mais ampla. Os poderes relativamente limitados do governo colonial derivavam do reconhecimento e da satisfação de certas exi-
vice-rei sobre os governadores que lhe eram subordinados, os múltiplos con- gências coloniais. Como os escalões inferiores de governo ofereciam à Coroa
troles institucionais recíprocos, a incorporação dos postos brasileiros à hierar- uma área de patronagem, a burocracia nesse nível tendia a crescer em resposta
quia de cargos e canais de promoção e a constante necessidade de remeter as às suas próprias demandas por cargos, ou à necessidade que tinha a Coroa de
questões a Portugal — tudo isso vinculava a burocracia à Coroa e o governo dar recompensas, mais do que ao volume de suas tarefas. Os homens que ocu-
colonial à metrópole. A ausência de uma universidade ou mesmo de imprensa pavam esses cargos, e entre eles havia muitos colonos, geralmente exigiam mais
no Brasil significava que a educação superior, a formação profissional e até as da sociedade do que aquilo que a ela ofereciam, e o fardo do governo, tanto fis-
atívidades intelectuais levavam cada geração da elite colonial de volta à metró- cal como psicológico, recaía sobre os que mais necessitavam de sua proteção. Os
pole. A absorção de burocratas na sociedade colonial tinha função similar. Essa magistrados, os homens mais prováveis ou capazes para dar essa proteção,
brecha na administração racional era uma falha deliberada. geralmente não o faziam.
A Coroa estabeleceu sua autoridade no Brasil sobre a base da identificação Os brasileiros queixavam-se com frequência de abusos burocráticos, mas
filosófica com a soberania da lei, e administrou a aplicação da lei por um raramente criticavam a natureza do governo ou o fato de que funcionários
governo de magistrados. Mesmo em épocas de crise ou revolta, as ameaças à acumulavam fortunas e criavam laços com a sociedade. Em vez disso, o que os
soberania real eram raras e a insatisfação colonial geralmente se voltava contra brasileiros queriam era conseguir um lugar para seus filhos no serviço real, ou
homens e leis particulares, mais do que contra os princípios do governo real. Da casar as filhas com funcionários reais. Essas oportunidades talvez tenham sido
mesma forma, durante a maior parte da história da colónia a Coroa reconheceu mais efémeras do que reais, mas, desde que a burocracia permanecesse teorica-
que os investimentos e esforços económicos do setor privado haviam feito do mente aberta aos colonos e pudesse ser "abrasileirada", a elite brasileira a acei-
Brasil uma possessão valiosa. Dessa maneira, desde que a soberania real fosse tava como se fosse sua. O governo na colónia era, quase sempre, ineficaz, por
reconhecida, os impostos fossem cobrados e os contornos da administração vezes opressivo e geralmente corrupto, mas raramente era visto como instru-
fossem mantidos, os senhores de engenho e os criadores de gado comandavam mento de dominação estrangeira.
com rédeas relativamente largas a vida social e económica da colónia, com Em suma, a integração de magistratura e sociedade ligou a elite económica
pouca interferência da Coroa. A Relação e os magistrados a ela subordinados, à elite governamental num casamento de riqueza e poder. A corrupção da buro-
movidos por princípios, objetivos profissionais e lealdade, chegaram o mais cracia, fosse por laços de família, fosse por dinheiro, deixou a ampla maioria
próximo possível do ideal de aplicação imperial da lei, mas, em vista das reali- dos moradores da colónia impossibilitada de tomar parte no controle do pró-
dades geográficas e sociais da vida colonial, esse ideal raramente foi atingido. prio destino. Para o escravo agrícola, o sapateiro e o vaqueiro, pouco importava
Para muitos brasileiros, especialmente nas áreas rurais, a justiça chegava na se a opressão vinha de Lisboa ou da Bahia, dos funcionários reais ou de poten-
ponta do chicote do senhor de engenho ou na bota do criador de gado. Essa tados locais. A integração de Estado e sociedade, com os benefícios que porven-
situação existia até certo ponto porque a Coroa permitia, e porque a elite colo- tura tenha trazido a certos elementos da colónia, foi comprada à custa da
nial foi capaz de integrar os funcionários da Coroa num sistema de relações maioria dos brasileiros.
primárias, O regime colonial perdurou porque poderosos interesses tanto no
Brasil como em Portugal tiravam dele seu sustento.
Já se disse que as deficiências do governo português no Brasil resultaram
do transplante de formas de governo e instituições europeias, com quase
nenhuma adaptação, para as realidades do Novo Mundo.7 Embora isso seja em

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Notas

PREFÁCIO À NOVA EDIÇÃO [pp. 7-13]

1. lus Lusitaniae. fontes Históricas do Direito Português: <www.iuslusitaniae.fcsh.unl.pt>.


2. António Manuel Hcspanha, História das instituições. Épocas medieval e moderna
(Coimbra: Livraria Almedina, 1982); História de Portugal moderno. Político e. institucional
(Lisboa: Universidade Aberta, 1995); Poder e. instituições no antigo regime. Guia de estudo (Lisboa:
Cosmos, 1991).
3. Luís Miguel Duarte, Justiça e criminalidade no Portugal medievo (1459-1481). (Coimbra:
Fundação Calouste Gulbenkian/ Ministério da Ciência e da Tecnologia, 1999).
4. António Pedro Barbas Homem, Judezperjectus. Função jurisdicional c estatuto judicial em
Portugal, 1640-1820 (Coimbra: Livraria Almedina, 2003).
5. Jean-Marc Pelorson, Lês "letrados" jurists castillans sons Philipee n: (Lê Puy-en-Velay,
1980); Tamar Herzog, La admínistración como un fenómeno social. Lajuslicia penal en Ia dudade
de Quito, J650-J750 (Madri, Centro de Estúdios Constitucionales, 1980). Sobre direito e constru-
ção de impérios coloniais, ver Lauren Benton, l.awand Colonial Cultures (Cambridge: Cambridge
University Press, 2002).
6. José Manuel Lozada Lopes Subtil, O Desembargo do Paço, 1750-1820 (Lisboa: Universidade
Autónoma de Lisboa, 1996).
7. Edval de Souza Barres, Negócios de tanta importância. O Conselho Ultramarino e a disputa
pela condução da Guerra, no Atlântico e no Índico (1643-1661} (Lisboa: eu AM, 2008); Erik Mirup,
'"Governar a distância: O Brasil na composição do Conselho Ultramarino, 1642-1833", em Stunrt
Schwartz e Erik Myrup (coords.), O Brasil no império marítimo português (Bauru: EDUSC:, 2008),
pp. 263-98.
8. Nuno Gonçalo R Monteiro, Pedro Cardim e Mafalda Soares da Cunha (eds.), Óptima nr (1953). 55-82; José António Maravall, u Los 'lUimbres de Sabei' o letrjdcs v l.t lor
pars: elites ibero-americanas do antigo regime (Lisboa: Imprensa das Ciências Sociais, Universidade mación de su consciência estamental" em Estúdios de historia de pen^itnu-nto ,^">a
de Lisboa, 2005). 1967), 345-80.
9. Nuno Gonçalo Freitas Monteiro, O crepúsculo dos grandes (1750-1832) (Lisboa: Imprensa 3. Um resumo c uma análise excelentes dessa literatura são apresintj.di^
Nacional Casa da Moeda, 1998); Elites e poder entre o antigo regime e o liberalismo (Lisboa- Mouzelis, Organisation and Bureaucracy (Chicago, 1968). Richnrd Hall, ' " l h e
Imprensa de Ciências Sociais, 2003); Fernanda Olival, As ordem militares e o Estada moderno Eiureaucracy: An Empirical Assessment" American Journal ofSocinlogy, i.xi\l [
(Lisboa: Estar, 2001). avalia um grande volume de literatura em termos comparativos.
10. Nuno Camarinhas, lês juristes portugais de 1'ancien regime (xvu-xvm siedes) (Paris- 4. Mouzelis, Organisaíion, 55-75; Eugene Litwak, "Models of Bmejuci-;u y Wh
EHESS, 2010); Juizes e administração da justiça no antigo regime. Portugal e o império colonial Conflict", American Journal ofSociology, LXVII (set. 1961), 177-184. CoiiMílet o P C Í L I
Séculosxvn e xvm {Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2011). Dynamics of Bureaucracy, 2* ed. (Chicago, 1963), Michel Crozier, TheBmaiUf.ratu Pl
11. Ver também Nuno Camarinhas,"O aparelho judicial ultramarino português. O caso do (Chicago, 1964) e Robert K. Merton et ai., Readtr in Bureaucracy (Nova York, 1 9 S ? ] ,
Brasil, 1620-1800",Almanack braziliense, ns 9 (maio, 2009), <www.almanack.usp.br>. mente sugestivos e úteis.
12. José Subtil, Dicionário dos desembargadores (l 640-1834), (Lisboa: EDiUAL,2010). 5. MaxWeber, The Theory of Social and Economíc Organization, Lrad. A. M.
13. Linda Lewin, Surprise Heirs. Illegitimacy, Patrimonial Rights, and Legal Nationalism in Talcott Parsons (Nova York, 1947); From Max Weber, trad. e ed. H. H. Gerth e C
Luso-Brazílian Inheritance, 2 vols. (Stanford: Stanford University Press, 2003): Muriel Nazarri, (Nova York, 1946); Julien Freund, The Sociology o/Max Weher (Nova York, 1969), especialnK-uU 1
TheDisapptarance ofthe Dowry: Women, the Family and Property in São Paulo (Stanford: Stanford pp. 229-67.
University Press, 1991), ó. John LeddyPhelan, The Kingdom of Quito in the Seventeenih Ct-nrwry (Madison, 19ó7).
14. Graça Salgado (coord.), Fiscais e meirinhos, A administração no Brasil colonial (Rio de 7. Um argumento convincente em defesa de VVeber é apresentado por William Ddany e ir.
Janeiro; Arquivo Nacional/ Nova Fronteira, 1985). "The Development and Decline of Patrimonial and Bureaucratic Admini.srnKio V;
15. Arno e Maria José Wehling, Direito e justiça no Brasil colonial O tribunal da Relação do Administrative Science Quarterly, vi! (mar. 1963), 458-501.
Rio de Janeiro (1751-1808). (Rio de Janeiro: Renovar, 2004). 8. A bibliografia de£isenstadt sobre o assunto é muito ampla, mas suas principais ideias
16. Raimundo Faoro, Os donos do poder (Porto Alegre: Globo, 1958). estão reunidas em The Political Systems ofEmpires (Nova York, 1963).
17. C. R. Boxer, Português? Suciety in íhe Tropics. (Madison: University of Wisconsin Press,
1965); Dauril Alden, Royal Government in Colonial Brazil (Berkeley: University of Califórnia
Press, 1968); A. J. R. Russell-Wood, Fidalgos and Philanthropists. The Santa Casa da Misericórdia 1. A JUSTIÇA DO REI: PORTUGAL, ÁFRICA E ÁSIA [pp. 27-40]
of Bahia, 1550-1755 (Berkeley: University of Califórnia Press, 1968): Kenneth Maxwell, Conflicts
and Conspiracies. Brazil and Portugal, 1750-1808 (Cambridge: Cambridge University Press, 1. H. V. Livermore. A History o f Portugal (Cambridge, 1947), pp. 161-3; Fernao Lopes,
1973). Crónica de D. Pedro i, em Clássicos portugueses. Trechos escolhidos (Lisboa, 1943).
18. Às vésperas do Leviathan. Instituições e poder político. Portugal sec. xvn, 2 vols. (Lisboa, 2. Martim de Albuquerque, O poder político no renascimento português (Lisboa, 1968), 146,
1986). 152.
19. Um exame desses desenvolvimentos e alguma crítica da tese de Hespanha estão em 3. Frei Vicente do Salvador, História do Brasil, 1500 1627, João Capistrano de Abreu,
Laura de Mello e Souza, "Política e administração colonial: problemas e perspectivas" em O Rodolfo Garcia,Frei Venâncio Willike (eds.), 5» ed. (São Paulo, 1965), liv. iv, cap. 40, p. 346. Todas
governo dos povos, Laura de Mello e Souza, júnía Ferreira Furtado, Maria Fernanda Bicalho as citações futuras são desta edição.
(orgs.) (São Paulo: Alameda, 2009), pp. 63-90. Hespanha respondera previamente a algumas 4. C. R. Boxer, ThePortugueseSeabourneEmpire (Londres, 1969).
dessas críticas a sua posição era "Depois do Leviathan", Almanack Braziliense, n2 5 (maio de 5. C. R. Boxer, Portuguese Society in the Tropics. The Municipal Councils of Goa, Mação,
2007) <www.almanack.usp.br>. ttahia, and Luanda (Madison, 1965), p. 5. Comunidades menores, que tinham de vinte a duzen-
tos moradores e nenhum juiz ordinário, dispunham de um magistrado local, o juiz de vintena.
Essa descrição do sistema judicial português (c. 1580) baseia-se antes de tudo num manuscrito
PREFÁCIO [pp. 15-22] que está na Biblioteca Nacional de Madri (Códice 2292, fólios 5-21) ; intitulado "Descripción de
Portugal". A BMM atribui ao manuscrito a data de 1599, mas indícios internos sugerem que a dala
i.G.R. Elton, TheTudor Revohttion in Government (Cambridge, f 962). Para uma excelente real talvez seja 1579.
apresentação geral, ver Hans Rosenberg, Bure.aucracy, Aristocracy, and Autocracy- The Prussian 6. Ordenações do Senhor Rey D. Manuel, 5 vols. in 4° (Coimbra, 1797), i, tit. xi.n (dUulo,
Experience, 1660-1815 (Cambridge, 1958), pp. 1-26. daqui por diante, como Ora. m«n.)i W. Ferreira, História do direito brasileiro, 4 vols. (São Paulo,
2. J. Beneyto, "La gestación de Ia magistratura moderna", Anuário de Ia Historia de Oerecho 1951-6), i, 189 (o autor usou a 23 ed. do vol. i, que traz o subtítulo As capitanias coloniais de juro c

298
herdade, São Paulo, 1962); Forlunato de Almeida, História de Portugal-, 6 vols. (Coimbra, 1925) 14. Henrique da Gama fartos. História fatáministmçõopííhlitu em fr r i,t^i!,2-^\ l l -.U.
ni,331. (Lisboa, 1945), iit, 272. Citado, daqui em diante, como Í-IAPP.
7. Duarte Nunes de Leão, Descripção do Reino de Portugal (Lisboa, 1610), pp. 4-10, apre- 15. A confusão quanto ao número de membros do Tribunal Superior vem do a » u - r i • >v
senta uma lista completa da divisão administrativa e judicial de Portugal. As instalações dos juí?es conceder o título de desembargador ao magistrado antes que ele s <j i n > u ' ,^> j£ S s • <\ >.,-,
de fora mudavam periodicamente. BNM, Cod. 2292, relaciona juizes nas seguintes comunidades- frequência o caso quando um magistrado da Coroa era mandado àj cólon Lr, em nu-,MH (-.r>
(l) Estremadura: Abrantes, Alemquer, Coimbra, Leiria, Óbidos, Santarém, Sintra, Tomar, Torres cia) que requeria o uso de poderes extraordinários. Por isso não c i n i i M i j J , . O ; V I M I ' I , - .-
Vedras. (2) Beira: Castelo Branco, Castelo Rodrigo, Covilhã, Conselho de Fonis (?), Guarda magistrado em Angola ou no Brasil identificado corno desembargado r d,i KtLuVt., L %> iv.i to -,-•<••
Lamego, Penamaior, Pinhel, Sea, Trancoso, Viseu. (3) Entre Douro e Minho: Guimarães, Ponte do da Casa da Suplicação, muito embora seja óbvio que não se trata de u m mem/m. ; - ^ i , k n t L '
Lima, Porto, Monção, Viana, (4) Trás-os-Montes; Freixo de Espada à Cinta, Miranda. (5) desse tribunal.
Alentejo: Arronches, Beja, Campomaior, Castelo de Vide, Eivas, Estremoz, Évora, Mertola, 16. José Gomes B. Câmara, Subsídios para a História do Direito Pátric. 3 •>..,!- . ;•,,,•. ,L
Montemor-O-Novo, Moura, Mourão, Olivença, Portalegre, Serpa. (ri) Algarve: l;aro, Lagos, Janeiro, 1954-1965), i, 79.
Loulé, Silves, Ta vira. Havia também juizes de tora ern cidades localizadas em territórios sob 17. Ord. man. i, tit. i.
jurisdição das Ordens Militares de Santiago (Alcácer do Sal, Setúbal) e Avis (Fronteira, Avis). 18. Durante o período dos Habsburgo, o Desembargo do Paço ficava em Lisboa u iV/ía seu c ,
S. As Ord. man., tit. xxxvit, tentaram eliminar abusos proibindo todos os funcionários contatos com o rei por intermédio do Conselho de Portugal, que tinha permanecido n ri Espalha.
judiciais de comprar, vender, alugar ou envolver-se em qualquer tipo de comércio na área de sua 19. No Império espanhol, o controle da burocracia peninsular e americana era dividido
jurisdição. A medida se dirigia, especificamente, aos magistrados da Coroa. entre o Consejo de índias e a Câmara de Castiíla. Sobre a burocracia habsburga, ver Richard l,.
9. Ord. man., tit. xxxix, 247-69. Apesar de similar em origem, nome e certas funções, o cor- Kagan, "Educaiion and The State in Hapsburg Spain" tese de doutorado inédita (Universidade de
regedor de Castela não pode ser equiparado ao de Portugal- Os corregedores espanhóis exerciam Cambridge, 1968).
maior controle político sobre o governo municipal do que os portugueses. Além disso, certas 20. PRÓ, State Papers 9/207, ff. 1163-5. BNM, Cod. 2292; Câmara, Subsídios, i, 85.
atribuições fiscais do corregedor espanhol não eram exercidas pelo corregedor em Portugal, mas 21. Um famoso incidente no reino de d. Pedro i, que não gostava da leniência dos tribunais
cabiam ao provedor. Os corregedores portugueses eram quase sempre juizes, ao passo que na eclesiásticos, é relatado por Edgar Prestage, The Chmnides ofFernão Lopes and Gomes Eunnes de
Espanha militares às vezes eram utilizados, especialmente nas regiões fronteiriças. Mas havia Zurara (Watford, 1928), pp. 10-3.
semelhanças, e nos dois países o corregedor representava a extensão da autoridade real e central. 22. PRÓ, State Papers 9/207, f. 1164; Malhias Kieman, O. F. M., Thelndian Policy of Portugal
Ver Jerónimo Castillo de Bovadilla, Política para corregedores y seriares de vassalbs en tiempo de in theAmazon Régio n, 1614-1693 (Washington, 1954), p. 4; Câmara, Subsídios, i, 83-5. A maior
pus y guerra, 2 vols. (Barcelona, 1616), e o artigo baseado nele, Robert S. Chamberlain, "The parte da documentação relativa à Mesa da Consciência está guardada agora na Torre do Tombo,
Corregedor in Castile in the Sixteenth Century and the Residência as applied to the Corregedor" em Lisboa. Os registros usados para este estudo foram os Livros de. registro das consultas, que são
HAHR, xxill (1943), 222-47. as minutas das deliberações daquele órgão.
10. BNM, Cód. 2292, "Descripción de Portugal", f. 10. 23. Gama Barres, HAPP, m, 256-8; Edgar Prestage, The Royal Power and the Cortei m Portugal
n. Ord. fil, i, tit. LXII; Ord. man.-, tit. I.XVH, dispunham que todas as cidades com mais de (Watford, 1927), pp. 12-20; e sobre os letrados nas Cortes de Coimbra de Í385, ver Marcello
quatrocentos moradores teriam um juiz dos órfãos. Em cidades menores, o juiz ordinário desem- Caetano, "As Cortes de 1385", Revista Portuguesa de I listaria, v.vol.n (1951), 5-86.
penharia suas atribuições. Duas edições das Ordenações Filipinas foram usadas para este estudo: 24. BCIJC, Cod. 460, "Consulta do Desembargo do Paço" (Lisboa, 26 de janeiro de 1636!,
Cândido Mendes de Almeida (ed.), Código philippino ou Ordenações e leis do reino de Portugal, ff. 59-61, ua qual Pêro Nogueira Coelho, da Relação do Porto, registrou que "costumava fazer em
24a ed. (Rio de Janeiro, 1870), é uma excelente edição comentada, mas, devido à sua raridade, semelhantes occasiões a pessoas de qualidade e principalmente filhos de desembargadores".
citações textuais, a não ser quando indicado de outra maneira, se referem a Ordenações t leis do 25. Cf. John H. Parry, The Audiência oj New Galida in the Sixteenth Century (Cambridge,
ré mo de Portugal, 5 vols. em 4 (Coimbra, 1833). Mass., 1948), pp.3-4.
12. Para uma descrição dos deveres do conservador da Universidade de Coimbra, ver Serafim 2ó. As isenções e os privilégios financeiros e jurídicos de que gozavam os membros dos
Leite (ed,), Estatutos da Universidade de. Coimbra ( l 550), (Coimbra 1963),cap. 49, p. 146. Tribunais Superiores são estabelecidos em Ord. man., n, XLIII.
13. BNM, Cód. 2292; Ord. man., u, tit. xxvt, art. 15, dispunha que as terras da nobreza estavam 27. Ord. míjn.,ii,tit.xxvn.
sujeitas a visitas do corregedor. Também dispunha que não deveria haver exceções, a não ser no 28. Ord. man., \ tit. viu, estabelecem que apelações das decisões dos magistrados nas ilhas
caso das isenções expressamente concedidas por d. Fernando (1388-1421) ou qualquer dos seus atlânticas podiam ser ouvidas na Casa da Suplicação. Havia três desembargadores das Ilhas para
sucessores. Em tais casos, o ouvidor exercia o direito de correição. É interessante notar que essa o julgamento dos recursos que só podiam ser submetidos em ações civis.
era exatamente a isenção que caracterizava a jurisdição dos proprietários concedida aos donatá- 29. Ver, adiante, pp. 42-7.
rios do Brasil nos anos de 1530. ^o. Alfredo de Albuquerque Felner, Angola: Apontamentos sobre a ocupação c início tio cstn-

300
belecimento dos portugueses no Congo, Angola e Benguela {Coimbra, 1933), doe. 17, "Carta de 4. A expressão usada de fato é"gente da mor qualidade". Incluía, provavelmente, não apenas
Doação a Paulo Dias de Novais", pp. 407-12. os que eram legalmente fidalgos, mas também funcionários reais que não tinham esse título.
31. António Brásío, ed., Monumenta missionaria aficana: África occidental, 2a ed. ser., 3 vols 5. A capitania ou área controlada pelo donatário também gozava de posição privilegiada
(Lisboa, 1963), i, doe. 87, "Doação das Ilhas de Cabo Verde ao Duque de Beja" (30 de maio de como refugio para os que tentavam escapar da justiça ou de alguma represália. A extensão dos
1489), 568-9. conceitos jurídicos portugueses de asilo (couto, homizio) para as capitanias do Brasil foi feita
32. Ibid., n, doe. 41, "Carta régia ao Corregedor do Fogo" (8 de novembro de 1516), 135-6. num esforço para estimular a imigração para aquelas áreas. O mesmo fora feito na índia, onde as
33- Ibid., n, doe. 65, "Carta da Capitania da Ilha do Fogo ao Conde de Penela" (20 de abril de cidades de Pangim, Cannanore e Damão tinham o privilégio de couto, como meio de fomentar a
•• 1528), 208-9; doe. 69, "Carta régia ao Corregedor de Cabo Verde" (25 de novembro de 1530), colonização. No Brasil, os que fugiam de punição por heresia, sodomia, traição e falsificação não
216-7; doe. 108, "Carta de Corregedor a Pêro de Araújo" (1D de outubro de 1542), 36-3; doe. 116, tinham direito ao couto. Ver W. Ferreira, História do direito brasileiro, i, 117-22; Gonçalves Pereira,
"Primeiro juiz dos órfãos de Cabo Verde" (28 de novembro de 1545), 384-5; doe. 118, "Carta do /M/EI, i, 126; PRÓ, State Papers 9/207, n° 24.
Corregedor de Cabo Verde ao Doutor Pedro Moniz" (20 de dezembro de 1546), 388-9.0 sistema 6. Marchant, "Feudal and Capitalistic Elements", 505; W. Ferreira, História do direito, i, 130-
de propriedade privada foi introduzido na Guiné em 1550 com a nomeação do capitão-mor de -241, para uma discussão minuciosa, mas quase sempre irrelevante, dos aspectos judiciais das
Cabo Verde e Guiné. Na época da aquisição de Portugal por Filipe n, o desembargador Gaspar de capitanias.
Andrade servia como corregedor, provedor dos defuntos e capitão da cidade de Ribeira Grande, na 7. Pêro Borges servira como corregedor em Loulé e Eivas. Seu passado não era imaculado,
ilha de Santiago — ou seja, em Cabo Verde e Guiné. Ver Christiano José de Senna Barcellos, pois em Eivas se senvolvera na apropriação indébita de dinheiro público no começo dos anos
Subsídios para a história de Cabo Verde e Guiné, 3 vols. (Lisboa, 1899-1911), i, 153. 1540. Ver Pedro de Azevedo, "A instituição do governo geral", HCPB, in, 341.
34. Ver Boxer, Portuguese Society, caps. l ,2. 8. DHBNR, xxxv (1937), 23-6. Varnhagen, História geral, i, 234, acha que o regimento entregue
35. Gonçalves Pereira, HA/H, i, 14-5,39. Uma relação de funcionários de justiça inferiores no a Borges era análogo ao que foi dado em 1628 a Paulo Leitão de Abreu. Apesar de Varnhagen não
Estado da índia no ano de 1545 está nas pp. 85-6. citar nenhuma referência, sua opinião provavelmente se baseava numa consulta do Desembargo
36. Ibid., Caps. 3,5; Archivo Portuguez-Oriental (Nova Goa, 1857), fas. i, doe. 18 (Rei para a do Paço, AGS, Sec. Prov. 1475.
Câmara de Goa, 1552), 34. 9. A carta de Pêro Borges é reproduzida na íntegra em HCPB, m, 267-9.
37. O regimento da Relação da índia de 1554 está reproduzido na íntegra em Carlos Renato 10. Ibid.
Gonçalves Pereira, Tribunal da Relação da Goa (Lisboa, 1964). n. Ibid.
38. Gonçalves Pereira, HAJEI, i, 93,95. 12. Serafim Leite, ed., Cartas e mais escritos do P. Manuel da Nóbrega (opera omnia)
39. Ibid., p. 80. Pombal criticou a Relação de Goa por ser um "congresso de bacharéis". (Coimbra, 1955),p. 114. Citadas, daqui em diante, como Cartas Nóbrega.
13. Ibid., Nóbrega a P. Simão Rodrigues {Bahia, 9 de agosto de 1549), p. 31, diz que tinha
submetido a questão da blasfémia generalizada à atenção de Pêro Borges. O mais famoso blasfe-
2. JUSTIÇA E JUIZES NO BRASIL, 1500-80 [pp. 41-55] mador do início do Brasil colonial foi Pêro do Campo Tourinho, o donatário de Porto Seguro,
mandado de volta para ser julgado pela Inquisição de Lisboa. Ver DHBNR, xxxvin, p. 224, e a descri-
1. O juiz da Guiné decidia todas as questões ultramarinas relativas a comércio ou a inciden- ção em João Capistrano de Abreu, Caminhos antigos e povoamento do Brasil (Rio de Janeiro,
tes a bordo de navios. O cargo era ocupado por um letrado. Recursos de suas decisões eram 1930),pp. 37-52.
apresentados diretamente à Casa da Suplicação. 14. Leite, Cartas Nóbrega, pp. 31-79. Segundo Nóbrega, eram os portugueses mais pobres
2. Os poderes judiciais concedidos a Martim Afonso de Sousa são encontrados em dois que se casavam com as índias. Ele sugeriu que fossem mandadas mulheres de todos os tipos,
documentos: ANTT, Chan. D. João m, liv. 41, f. 103 e f. 105. Ambos os documentos, e outros inclusive prostitutas. Órfãs de famílias respeitáveis poderiam ter esperança de casar-se com colo-
relativos à viagem, são reproduzidos em Carlos Malheiro Dias (ed.), História da colonização nos da melhor classe, "homens bons e ricos".
portuguesa do Brasil, 3 vols. (Porto, 1924-1926), m, 159-64. (Citado daqui em diante como 15. Ibid., Nóbrega para P. Martin de Azpilcueta (Bahia, 10 de agosto de 1549), p. 54.
HCPB). Para um relato adequado da expedição, ver Francisco Adolfo de Varhagen, História geral 16. Samuel Purchas, HakluytusPosthumous or His Pilgrims, 5 vols. (Londres, 1625), iv, 1324.
do Brasil, 71 ed., 6 vols. em 3 (São Paulo, 1962), i, 124-50. (Ortografia e pontuação foram modernizadas).
3. A perpétua questão da natureza feudal ou capitalista do sistema de capitanias pode ser 17. Serafim Leite, História da Companhia de Jesus no Brasil, 10 vols. (Lisboa, 1938-50), n,
acompanhada nos artigos pertinentes do HCPB, especialmente Paulo Mera, "A solução do Brasil", 61-4. {Citado, daqui em diante, como HC/B). Na América Espanhola.de acordo com o famoso
iii, 167-88; C. Malheiro Dias, "O regimen feudal dos donatários", ni, 190-216. Suas opiniões são jurista Juan Solórzano Pereira, Política indiana, 2 vols. (Madri [1647-8]), i, cap. 28,234-5, o teste-
refutadas no importante artigo de Alexander Marchant, "Feudal and Capitalistic Elements in the munho de seis índios era considerado igual ao de um homem branco.
Portuguese Settlement of Brazil" HAHR, xxn (1942), 493-512. Um sumário de outra bibliografia é 18.0 código legal das aldeias é reproduzido em Serafim Leite, Monumenta Brasiliae, 4 vols.
fornecido por Bailey W. Diffie, Latin American Civilization (Harrisburg, 1945), p. 643n. até agora (Roma, 1960), iv, doe. 44 (Bahia, 30 de julho de 1566). Sobre o problema da administra-

302 303
cão judicial indígena, ver, do mesmo autor, "As raças do Brasil perante a ordem teológica moral e que a todos sobre puja en paxy e'gucrra
jurídica portuguesa nos séculos xvi a XVIN", Actas, v Colóquio Internacional de Estudos Lmo- no Embotando su pluma lança y espada.
- brasileiros, m, 18;"Os'Capítulos'de Gabriel Soares de Sousa" Ethnos,u (1941), 31, 33. Leite, "Os Capítulos", p. 17.
19. A. Jones, Studies inRoman Law and Administratinn (Oxford, 1960).
34. Fernão da Silva tinha sido juiz de tora de Silves e juiz dos órfãos de Sanurem. Vá
20. DHsJv/í,xxxv(1937),pp. 237-9,277-8. A união dos dois cargos fora sugerida por To n lede 35. íbid.; Varnhagen, História geral, í, 362. Muitas inforrmiçCx\ deste parati .ifit ,,io
Sousa, mas foi feita pelo governador-geral Duarte da Costa, depois que ele removeu António
das por uma petição de Bartolomeu Cunha, marido da neta de Silv.i, submetida r-n
Cardoso de Barros do cargo de provedor-mor. Costa tirou Barros do cargo ostensivamente pu r
Conselho de Portuga! e agora registrada como AGS, Sec. Prov. Hó7 (Mcuiii, 31. ,j c d ;- h n j k
negligência, mas mais provavelmente porque Barros apoiara a facção do bispo Sardinha na bii"a
ff. 3-41. Sobre a ligação de Silva com os jesuítas, ver ABNR, xix (1897), 115.
do prelado com o governador.
36. Vice-rei cardeal Alberto ao rei (Lisboa, 18 de outubro de 1586),...es Soe. l ! i « r .
21. Frei Vicente do Salvador, História do Brasil, liv. m, caps. 2-6, pp. 163-70.
536-7. Leitão alegou que no cumprimento do dever no Brasil fé?, muitos iiiuiiiL-.^ c qm'
22. HCPK, m, Carta dos membros da Câmara de Salvador (U de dezembro de 1556), 581.
devido às suas falsas acusações. Como Leitão tinha recebido o hábito n;i Ordeni de <
23. Frei Vicente do Salvador, História do ftrasil, liv. m, cap. 6, p. 1 72.
época de sua nomeação como ouvidor-geral, seu caso foi ouvido pelo juiz dos c.iv.
24. Sobre os antecedentes e feitos de Mem de Sá, ver o sucinto artigo de Ruth L. Butler,
1596, ele apresentou recurso ao Desembargo do Paço, pedindo que fosse recor.ckuidu
"Mera de Sá, Third Governor-General of Brasil, 1557-1572" Mid-America, xxvi (abril de 1944),
111-37, e as fontes ali citadas. mas, embora tenha recuperado a maioria dos privilégios financeiros, ainda esUKa -,
25. ABXR, xxvii, 219-23. colocação em 1598. Ver AGS, Sec. Prov. 1460, n e 29; Vice-rei Pedro de Castilho ao rei (Lisb
2ó. Ibid., xxvi, 228. janeiro de 1597), BA, 51-VH-17, ff. 10-llv;BA,44-xrv-18,f.77.
27. Fragoso chegou em companhia do novo bispo Pedro Leitão em 9 de dezembro de 1559. 37. Leite, "Os Capítulos", 20; Varnhagen, História geral, i, 379.
O aumento dos litígios é comentado em Frei Vicente do Salvador, História do Brasil, liv. m, cap. 6,
p. 172.
28. Varnhagen, História geral, i, 307-8. Nem Kieman, fndian Policy, nem A. Marchant, From 3, A R F F O R M A ESPANHOLA E O TRIBUNAL SUPERIOR BRASILEIRO [pp. 56-73]

Bartt-r to Slavery (Baltimore, 1942) fazem qualquer referência ao papel do msmposteiro e seu
contato com os índios. Em Portugal, o marnposteiro era encarregado da coleta de fundos para o 1. O interesse de Filipe n nessa questão é visível em "Advertimento de mano de Su MiigJ
resgate de prisioneiros, especialmente os que estavam em poder dos piratas do norte da África. O sobre el neg° de Ia jusricia de Portugal en Lisboa xyde enero de 1582", AGS, Estado, Nego cia cio n es
cargo era geralmente ocupado por um leigo e administrado pela Mesa da Consciência. No Brasil, de Portugal, 428, no qual o rei declara: "aunque tengo por ver quase todo Io que vi no ayer assi de
o cargo assumiu função diferente. Fm cada capitania, deveria haver pelo menos um mamposteiro Madrid, como de Flandres, Francia, y Inglatíerra he querido ver primero esto de Ia justicia por Io
para impedir a escravização ilegal dos índios. Cf. IÍNL, Co/, Pomb., 741, "Regimento dos que importa Ia brevidad". Para. o conselho de Carlos v a Filipe n sobre questões de justiça, ver
Mamposteiros-rnores" ff. 1-29. Francisco Caeiro, O Arquiduque Alberto de Áustria (Lisboa, 1961), p. 63.
29. Varnhagen, História geral, i, 277. 2. Relacionei as principais fontes sobre a união de Espanha c Portugal em "Luso-Spanish
30. AKNR, xxvn, 239-241. "[...] que as ocupações que tem na judicatura nam lhe daa lugar a Rclations in Hapsburg Brazil, 1580-1640", TlieAtnericas,xx.v (julho de 1968), 33 48. Ver também
emtemder nem pode ir a ela com he necesaryo por esta ocupação que tem e por que também o o excelente sumário em John Lynch, Spain under the Hapsburgs, 2 vols. (Nova York, 1964-9), i,
sentido que lem nas cousas da judicatura lhe faz remoto das da fazenda [... [ e indo ele a fazer 304-1 L
correiçam nelas fiqua qua o negocio da fazenda desfeito e o contador atado que nam pode dar 3. Para uma defesa moderna de d. António, ver Joaquim Veríssimo Serrão, O reinado de. D.
fim a conta alguma nem outro algum negocio". António, Prior do Crato ISSO-1582, l vol.até agora (Coimbra, 1956).
31. Os homens que serviram como ouvidores-gcrais no Brasil entre 1549 e í 609 foram Pêro 4. Figura das mais interessantes, d. João da Silva tornou-se quarto conde de Portalegre ao
Borges (j 549-58), Brás Fragoso (1559-65), Fcrnão da Silva (1566-75), Cosme Rangel (1577-87), casar-se em 1577 com Filipa da Silva. João da Silva, soldado, diplomata e autor, nasceu cm Toledo,
Martim Leitão (1583-?), Diogo Roiz Cardoso (1586-8), Gaspar de Figueiredo Homem (1591- em 1528, filho de pai espanhol e mãe portuguesa. Serviu em campanhas militares em Oran, antes
-159?), Diogo Dias Cardoso (1597-8), Brás de Almeida (1599-1604) e Ambrósío de Siqueira de assumir seu posto diplomático em Portugal como embaixador de Filipe n. Ferido e capturado
(1604-8). em Alcácer-Qmbir, foi resgatado por Filipe n e nomeado senescal de Portugal, posição na qual
32. BPE,CXVI, l-26,"Sumario das armadas..." Por exemplo: serviu durante as Cortes de Tomar. De 1593 a 1600, foi membro do conselho de governadores que
Martim Leitan se nombra este cxcellente governou Portugal. Morreu em Toledo em 1601. Escreveu poesias, cartas e costuma ser tido tomo
que tanto illustra aquestra noble Lierra autor, ou fonte, de DeH3Unione dei regno de Portogallo alia carona ai Castiglia. Diogo Barbosa
Con su valor iscieníia tan sabrada Machado, Biblioteca Lusitana, 4 vols., 21 ed. (Lisboa, 1933), n, 689-691; Nobreza dt Portugal, 3 vols.
Quês diole Díos tan dilkandame'te
(Lisboa, 1960-61),in, 160.

304
5. Em 14 de abril de 1579 a decisão de mandar Rodrigo Vásquez já fora tomada. Ver Carlos reconstruir por causa do incêndio de 1631, que destrua, „ prédio do T n b u n a [ s .()r ^ j
Riba Garcia, Correspondência privada de Filipe n con su secretário Mateo Vásquez, p. 204. Rod rigo maior parte de seus arquivos (AGS, Sec. Prov. 1527, ,n 1S2). Ha mr, R r a n d e v o l u m e d(. m a l t T ..,
Vásquez de Arce nasceu em 1529, numa família de juristas famosos. Frequentou a Universidade referente ao tribunal desde o fim do século xvn aos dias atua[ b . Modernos resisti >. l "K
de Valladolid e serviu no Tribunal Superior da divisão de Granada, Depois di- servir em Portugal, estão guardados
" no arquivo do Tribunal da Relação do Pono nue on .,.- \i j
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voltou para a Espanha e em 1584 tornou-se presidente do Consejo de Hacienda. Em 1592, foi cionários dessa instituição, pude examinar detidamente em 1966. Documentos V R - i • i
feito presidente do Consejo Real. Após a morte de Filipe u, Vásquez caiu em desgraça e foi banido Porto, dos séculos xvm e m, estão agora no Arquivo Disttiul do Porto. As seim' -t - í
da corte, ao que tudo indica devido à sua intransigência contra qualquer tipo de perdão para os manuscritas também contêm informações ' relativas à Relação do Porto " C ir* ' L l \ r' K1
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criptojudeus. Ele morreu em 1599. Ver Dicdona.no de Historia de Espana. Desde sus orígenes hasta Porto, BGUC, Códice 695, pp. xvi, 335; }osé Luís Ferreira Nobre, "Compendio d..i -Xnti^ui•'< i '
elfin dei remado de Alfonsoxm, 2 vols. (Madri, 1952). establicímento da Relação do Porto e Lisboa", BPMP, ms. l. 114, f r". i-3b ; Aniõnir. J • s - ,
6. "Advertências dadas a Philip n para Ia bucna administración de Ia justicia en Portugal", Coelho Caldas,"Coleçam doq. mais essentialmente contem os Libros tb Esfera c dn-, -x,! T'
BNM, Códice 8686, f. 63. da Relaçam do Porto (1733)", BPMP, ms. 795; "Historia abreviada da Relação do Por í o t-- < t-, ui i
7. Ordenações do Senhor Rey D. Manuel, 5 vols. in 4 (Coimbra, 1797). Todas as íuturas cita- Suplicação", ACL, ms. 185.
ções são dessa edição. Para uma discussão do desenvolvimento da lei portuguesa, ver Gania 17. Caeiro, O Arquiduque, 66-9; Eelner, Angula, does. 18,19,20, pp. 412-7, Sen,-.;: B.IR . - ' [ , , • -
ISarros,/ÍAPP, 1,5-136. Subsídios,:, 161-7.
S. AGS, Estado, Negociaciones de Portugal, 428 (10 de outubro de í 581). 18 Gonçalves Pereira, HAÍÍÍ, i,83,153-4; Vice-rei cardeal ao rei, AGS, Scc. ?'0". 15:A i". M í
9- Ibid. (Lisboa, l ^ de março de 1586). O regimento do Tribunal Superior de Goa está publicado un ' • •,/>••/,
10. Almeida, História de Portugaliu, 328-35,341-4;HelmutKocnigsbergcr, The Govemmenl 1,364-81.
ofSicify under Philip u o/Spain (Londres, 1951), p. 116, concorda com essa opinião sobre a preo- 19. Vice-rei cardeal Alberto ao rei (Lisboa, I L de outubro de 1586), ACS, Sec. F'i o /. l ~>y), f
cupação de Filipe n com a justiça, assim como J. M. González de Echávarri y Vivanco, La justicia y 525. A falta de material se deve ao falo de que muitos documentos originais foram submendoí ao
Felipe n. Estúdio historico-crítico en vista de diezysiele reales cédulas y cartas acordadas dei Consejo Conselho da índia em 1606 e ficaram na Casa da índia, que depois foi destruída no cerre m o l o
inéditas (Valladolid, 1917). Cândido Mendes de Almeida, Código philippino, pp.xxm-i v, sugere que atingiu Lisboa em 1755 e nos incêndios e inundações subsequentes. Ver Mendes da Li.z, O
que o motivo da reforma judicial em Portugal foi o desejo de Filipe n de revisar as relações entre Conselho da índia, 117-8.
a lei civil e a lei eclesiástica impostas pela aceitação passiva do Conselho de Trento em Portugal. 20. AGS, Sec. Prov. 1550, f. 52, "porque se deve correr melhor e co' mais igoaldade na admi-
Essa opinião não leva em conta as reformas judiciais de Filipe n na Espanha, os relatos de Rodrigo nistração da iusf1"1 nesta orden q. por hu soo ouvidor como tequi foy".
Vásquez, nem o desejo de reforma dos próprios portugueses. 21. í lá indícios de que a substituição nos altos cargos do governo colonial da nobreza mili-
11. "Advertimiento", AGS, Estado, Negociaciones de Portugal, 428 (Lisboa, 15 de janeiro de tar e proprietária de terras pela classe magistrática provocou ressentimentos e contribuiu para
1582). A sanla hcrmandadeva uma forca policiai e judicial para manutenção da ordem em áreas que a nobreza substituída aceitasse Filipe n. O capítulo xi da petição da nobreza feita em Tomar
rurais e nas estradas. Organizada inicialmente pelas municipalidades castelhanas, depois de 1496 pede que "as capitanias de Mina, São Tomé, Cabo Verde, Brasil, [...] se provejam pelo modo
foi patrocinada pela Coroa espanhola. antigo a fidalgos, pois eles as ganharam e defenderão e não a letrados como de poucos anos a esta
12. "Advertências" BNM, Cod. 8686. A referência ao código comercial de Burgos diz respeito parte contra o antigo e bom costhume dos Reis passados se introduziu [...]". Ver Patente das
ao consulado, ou guilda mercantil, de Burgos, estabelecido em 1494. Ver Robert S. Smith, The mercês, graças e privilégios... (Lisboa, 1582).
Spanish GuildMerchant, A Historyofthe Consulado, 1250-1700 (Durham, 1940). Esta sugestão 22. ACS, Sec. Prov. 1550, f. 443. Alguma reflexão foi dedicada a melhorar e fortalecer o cargo
deu fruto em 1592, com a criação do Tribunal e Mesa do Consulado de Lisboa, baseado em de ouvidor-geral àquela época. Ver Vice-rei cardeal Alberto ao rei (Lisboa, 7 de junho de 1586),
modelos espanhóis. Ver Eulália Mana Lehmeyer Lobo, Aspectos da influência dos homens de negó- A<;S, Scc. Prov. 1550, f. 261.
cio na política comercial Ibero-Americana (Rio de Janeiro, 1963). Sobre um projeto posterior