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Comunicador: Fernando Neves (Filosofia – UERJ)

Título: O nascimento da fenomenologia como possibilidade


filosófica
1. Exposição do problema
➢ Há a necessidade de uma radical distinção entre a
Filosofia e Ciências Empíricas?
➢ Qual é a importância desta distinção?
➢ Quais são as consequências desta não delimitação?

• 1.1. Abordarei estas duas questões apresentando como a


fenomenologia nasce como crítica ao psicologismo e. por extensão,
ao naturalismo.

• 1.2. Utilizarei o livro Investigações Lógicas – Prolegômenos à Lógica


Pura do filósofo alemão: Edmund Husserl.
1.1. Dois apontamentos feitos por Edmund Husserl, com relação as
ciências, em seu livro Prolegômenos à Lógica Pura:
1° apontamento: A definição de uma ciência interfere diretamente
em seu desenvolvimento:
- A definição de uma ciência expressa seus objetivos;
- A definição de uma ciência reflete em seu desenvolvimento;
o Fenomenologia é a ciência de essências - Condições de
possibilidade de aparição.
o Psicologia é a ciência da consciência de indivíduos psíquicos -
Está comprometida com a realidade psíquica espaço-
temporalmente concebida.

“A apreensão dos objetivos de uma ciência encontra, porém, a sua


expressão na definição da mesma. Não podemos, naturalmente, ser de
opinião de que à elaboração bem-sucedida de uma disciplina tem de
anteceder uma determinação conceitual adequada do seu domínio. As
definições de uma ciência refletem as etapas do seu desenvolvimento;
com a ciência progride, também, o conhecimento subsequente das
propriedades conceituais dos seus objetos, a delimitação e situação do
seu domínio”. [HUSSERL, Prolegomenos, §2]
Reino da Verdade

Ciência: Ciência:
Fenomenologia Psicologia
Domínio: Domínio:
Idealidades Investigação: Empírico
Consciência
Ciência: Ciência:
Lógica Pura Física

Unidades
objetivas
2° apontamento: A confusão de domínios.
O erro na delimitação dos domínios de uma ciência culmina em
uma perigosa imperfeição, a saber, a confusão de domínios:
“Mais perigosa é, entretanto, uma outra imperfeição na delimitação do
domínio, a saber, a confusão de domínios, a mistura do que é
heterogêneo numa pretensa unidade de domínio, especialmente
quando se funda numa interpretação totalmente errônea do objeto cuja
investigação pretende ser o objetivo
essencial da ciência visada”.
Esquema 2:

Domínio:
Empírico

Relativismo
Ciência: cético
Psicologia

Impossibilidade
das ciências

1.2. Psicologismo

- Tentar explicar aquilo que não é psicológico, como se fosse


psicológico.
Pegando o fio condutor do naturalismo de que tudo que há possui uma
existência real-natural, a psicologia empírica cuida dos dados psíquicos
reais.
Diz-se psicologismo a tentativa de investigar elementos que não são da
ordem do psicológico, ou seja, que não são reais-naturais, como se fossem
explicáveis ou redutíveis ao psicológico.
Psicologismo lógico é um procedimento teórico que encarrega à psicologia
fundamentar a arte lógica1. Isto é, é na psicologia que se encontra as fontes
de onde brotam os conceitos lógicos e matemáticos, pois estes são redutíveis
a nossa atividade psíquica.

1.3. Quais são as consequências da confusão de domínios: os


contrassensos.
O contrassenso gerado pela confusão de domínios inviabiliza a própria
psicologia como ciência
1° Contrassenso - metodológico: O contrassenso gerado pela confusão de
domínios inviabiliza a própria psicologia como ciência.
Por quê?

- A própria psicologia, para iniciar sua pesquisa, parte de conceitos


dados pela Lógica: indução, dedução, hipótese, conceito etc. Como
pode a psicologia ser o fundamento daquilo que é fundamento da
própria psicologia?
Se a psicologia precisasse fundar seu método de investigação para
então começar a investigar, ela não sairia do lugar. Ou cairia em um
círculo vicioso.

1
SANTOS, J.H. Do empirismo à fenomenologia. Crítica do psicologismo
nas Investigações Lógicas de Husserl. P. 38. São Paulo: Loyola, 2010.
2° Contrassenso interpessoal

A) Atos psicológicos nunca são repetíveis.


Para os autores psicologistas: O ato de consciência e o seu
correlato (o ato de imaginar e o imaginado) são da mesma
ordem, isto é, são empíricos, fazem parte do fluxo psicofísico
da mente humana.

Imaginem alguma coisa. Direcione sua atenção para outra


coisa. Logo em seguida tente imaginar aquela mesma coisa
que você imaginou anteriormente.

Os dois atos de imaginar são diferentes, por mais que sejam


semelhantes. Mas o fenômeno é o mesmo. Se o ato subjetivo
de imaginar e o seu correlato fossem da mesma ordem, ou
seja, empíricos e subjetivos, como é possível repetir o mesmo
ato de imaginação se atos não são repetíveis?

Como pode eu ter um ato imaginativo uma vez, logo em


seguida eu ter outro ato e ainda assim seja possível eu estar
falando da mesma coisa? Se todos os componentes de
consciência fossem empíricos, não seria possível jamais eu
repetir um ato psíquico.
B) Como seria possível a comunicação entre pessoas?
A expressão é dividia em: o ato subjetivo de empresar e o significado
da expressão. Se o significado fosse também parte da subjetividade,
como vocês poderiam entender o que eu falo, visto que vocês nunca
saberiam que o significado que o meu psiquismo criou é o mesmo que
vocês estão concebendo?

2. O nascimento da fenomenologia
- Diante do contrassenso gerado pelo psicologismo na lógica e na
epistemologia, vê-se a necessidade de uma ciência que possa
descrever os elementos da experiência sem que essa descrição possa
se confundir com uma explicação da experiência.
- Precisa-se de uma ciência que reflete acerca de essências e não de
explicações experimentais acerca da consciência.

2.1. O conceito de Intencionalidade

- A essência da consciência é que seu modo de ser consiste em estar


direcionada a seus objetos.
- O movimento básico e primitivo da consciência é abrir a
possibilidade para a aparição.
Ex: toda vez que se tem um ato de perceber se tem o percebido, toda
vez que se tem um ato de imaginar se tem o imaginado.

2.2. A consciência está direcionada para essências (idealidades)


- O que a fenomenologia trás de crucial com o conceito de Intencionalidade
é que a consciência desde seu início está direcionada para idealidades:
Idealidade: elemento objetivo transcendente à consciência individual e que
torna possível a aparição de qualquer coisa.
-> Com isso está inaugurado um novo campo de objetos, típico de uma
filosofia fenomenológica: o domínio das essências.
Questões anteriormente expostas:
O avanço e a autonomização das ciências empíricas (de fatos) consolidou um
método e um domínio de objetos para estas ciências: o método indutivo e
experimental e os fatos do mundo e suas leis. Tudo aquilo que se
particulariza no mundo é objeto de uma ciência empírica específica.

O que resta à filosofia?


Resposta de Tugendhat – Sobre o método da filosofia do ponto de vista
analítico
1° Perguntar sobre o método e objeto da filosofia nos conduz à essência da
filosofia: seu caráter de estar sempre em aberto, devido ao seu caráter radical
de questionabilidade.
2° Apesar do caráter em aberto da filosofia, desde os gregos, ela vem se
preocupando com duas coisas: por um lado, a clarificação de conceitos, e por
outro, a preocupação com o todo de nossa compreensão (com o universal).
Em outras palavras, com as condições de possibilidade de nossa experiência.

➔ A fenomenologia apresenta-se como uma filosofia capaz de tal


intento, porém, a ideia de “universal” é crucial para seu trabalho
enquanto uma disciplina filosófica.
➔ Sem o universal há filosofia?

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