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Pierre Bourdieu e Alain Darbel

com a colaboração de Dominique Schnapper

o amorpela arle
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Reitora Suely Vilela


os museus de arle na europa e seu
Vice-reitor Franco Maria Lajolo
púb//co
EDITORA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Plinio Martins Filho Tradução


Diretor-presidente
Guilherme João de Freitas Teixeira
COMISSÃO EDITORIAL
Presidente José Mindlin
Vice-presidente Carlos Alberto Barbosa Dantas
Benjamin Abdala Júnior
Carlos Augusto Monteiro
2aedição
Maria Arminda do Nascimento Arruda
Nélio Marco Vincenzo Bizzo
Ricardo Toledo Silva

Diretora Editorial Silvana Biral


Diretora Comercial Ivete Silva
Diretora Administrativa Gina de Oliveira Santos
Diretor de Livrarias Paulinho Mota
Editoras-assistentes Marilena Vizentin
Carla Femanda Fontana
Mônica Cristina Guimarães dos Santos zçrUl(
.I
copyright © 2003 editora zouk (edição brasileira)
copyright © 1969 les editions de minuit
SUmar10
título original: l'amour de l'art - les musées d'art européens et leur public
paris, col. "le sens commun"
isbn do original francês: 2-7073-0028-4

projeto gráfico: alexandre dias & rogério de almeida


editoração: william c. amaral
tradução: guilherme joão de freitas teixeira
revisão: rogério de almeida

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Departamento Nacional do Livro, Brasil)
apresentação 07
Bourdieu, Pierre. · preâmbulo 13
O amor pela arte: os museus de arte na Europa e seu
público / Pierre Bourdieu, Alain Darbel; tradução Guilherme · o ar do tempo 17
João de Freitas Teixeira.
- 2. ed. - São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; · procedimentos da pesquisa 23
Porto Alegre: Zouk, 2007.
ISBN 978-85-88840-64-5 · primeira parte - condições sociais da prática cultural 37
ISBN 978-85-314-1001-7
· segunda parte - obras culturais e disposição culta 69
1. Cultura. 2. Museus. L Darbel, Alain. lI. Título.
· terceira parte - leis da difusão cultural 113
D729 CDD - 306.4
· conclusão 163

2a edÍção · cronologia das pesquisas efetuadas 171


direitos reservados à · apêndices 173
EDITORA ZOUK n° 1 - questionários utilizados e método de sondagem 174
r. garibaldi, 1329
90035-052 - bom fim - porto alegre - rs - brasil n° 2 - o público de museus franceses, segundo a amostra
f. 51 3024-7554 e 3012-0057
zouk@editorazouk.com.br - www.editorazouk.com.br nacional 189
EDUSP n° 3 - pesquisas de verificação 203
avoprof. luciano gualberto, travessa j, 374, 6° andar 210
ed. da antiga reitoria - cidade universitária
n° 4 - análise de 250 entrevistas semi-estruturadas
05508-900 - são paulo - sp - brasil 217
f. 11 3091-4150/4008. sac. 11 3091-2911. fax. 11 3091-4151 n° 5 - o público de museus na europa
edusp@usp.br - www.edusp.com.br 228
· elementos de bibliografia
· notas e referências bibliográficas 230
Printed in Brazil 2007
A caosp d!'Hooo: à

..A..:ESI> ~
Foi feito o depósito legal MSCÇ'N;AO ij!l"':iileflt, tif.1Wtil0:; ",P;WG91<HCU

AUTÜRiZADA. E
apresenlação

a cu/luFa não é ULl2?FfOfÚYfO


naluFa/

Transcorridos mais de 35 anos desde sua aparição original, o


que leva a Editora Zouk e a EDUSP a publicarem o presente livro? É
preciso reconhecer inicialmente que Pierre Bourdieu (1930-2002), ao
longo de quatro décadas e meia, produziu sólida obra, abarcando os
mais variados domínios da realidade social. Ele procurou entener e
explicar a sociedade francesa de seu tempo (sendo possível estender
muitas de suas conclusões a outras realidades geográficas) como
espaço(s) de dominação cujos mecanismos são dissimulados - por isso
vai se valer em seus escritos de termos como "violência simbólica"
(dominação suave) ou revelação dos "fundamentos ocultos a
dominação". Como diz MariaD. Vasconcellos (2002), "para ele, o papel
do sociólogo é o de desvendar o que se passa 'por detrás do pano'''.
Sua análise envolve a educação, a cultura, a indústria cultural,
os domínios científico, político, religioso, as esferas do gosto e das
tomadas de posição (políticas) dos agentes, bem como a utilização
de conceitos e de esquemas analíticos tomados (e recriados) de várias
disciplinas: sociologia, antropologia, etnologia, filosofia, matemática,
história, economia, artes, lingüística ... Além disso, a partir do início
da década passada, com maior intensidade ampliou seu trabalho
intelectual de intervenção política junto aos trabalhadores e
sindicatos europeus contra os princípios da política neoliberal,
"... empenhada em precarizar as condições de trabalho, em restringir
e desgastar os níveis de renda dos trabalhadores, em colocar sob
ameaça uma história sofrida de lutas e conquistas sociais" (Miceli,
2002). Convém igualmente ressaltar, pensando ainda em Bourdieu,
que não se conhece, na história intelectual contemporânea, "qualquer
cientista social importante que não tenha, ao mesmo tempo,

apresentação 7
assumido uma postura combativa, quase sempre buscando atuar com A. Darbel, J. P. Rivet e C. Seibel); Le déraCÍnemen0Ia crise de
nos planos da vida intelectual e do sistema político. Isso ocorreu FagricuIture traditionnelle em AIgérie (1964, com A. Sayad); Les
tanto lá fora como aqui: basta invocar os nomes de Caio Prado, étudiants et Ieur études (1964, comJ .c.Passeron); Les hérÍtiers, Ies
Florestan Fernandes ou Antonio Candido. No Brasil, também étudiants et Ia euIture (1964, comJ. C. Passeron); Un art moyen
possuímos a tradição de combater nessas duas frentes essai sur Ies usages soCÍaux de Ia photographie (1965, com
complementares" (Miceli, 2002; ver, também, Said, 2003). L.Boltanski, R. Castel e J. C. Chamboredon) e Rapport pédagogique
Em segundo lugar - e esta se constitui, creio, a razão eteommunication (1965, comJ. C. Passeron e M. de Saint-Martin).
fundamental para a edição brasileira deste livro -, percebe-se que a Em O amor pela arte, Bourdieu pondera que os museus
problemática central explorada na pesquisa desenvolvida em meados abrigam tesouros artísticos que se encontram, ao mesmo tempo (e
dos anos 60 permanece atual. É a essa questão que irei me dedicar a paradoxalmente), abertos a todos e interditados à maioria das
partir de agora. pessoas. Indivíduos pertencentes a qualquer classe social e com
O amor pela arte: os museus de arte na Europa e seu público distintos graus de escolaridarização freqüentam museus, certo? Bem,
saiu originalmente em 1966, baseando-se a presente tradução na edição em termos: para viver a plenitude desse amor, livre de
revista e ampliada, de 1969. Bourdieu dirigiu o conjunto da pesquisa condicionamentos e limitações, é necessário que os amantes possuam
com a colaboração de Dominique Schnapper, enquanto Alain Darbel algumas disposições, adquiridas lentamente, envolvendo dedicação,
construiu o plano de sondagem e elaborou o modelo matemático afinco e o cumprimento de obrigações. Não existe nem pecado nem
destinado à análise da freqüência das visitas a museus. O trabalho, perdão, esse amor é uma graça ou um mimo que surge
envolvendo uma grande equipe de pesquisadores e auxiliares "naturalmente", após a assimilação do princípio do praze~ (culto),
(destaquem-se Francine Dreyfus, Yvette Delsaut, Claude Grignon e produto artificial da arte e do artifício - "a verdade oculta
François Bonvin, que irão colaborar durante anos com Bourdieu) e do gosto culto". Bourdieu pergunta se "a prática obrigatória pode
financiado parcialmente pelo Serviço de Estudos e Pesquisas do conduzir ao verdadeiro deleite ou se o prazer cultivado é
Ministério das Questões Culturais francês, consistiu na aplicação de irremediavelmente marcado pela impureza de suas origens".
questionários em amostras selecionadas de museus na França, Ao longo de O amor pela arte, mostra-se como o coração
Espanha, Grécia, Itália, Holanda e Polônia em 1964 e 1965. obedece à razão, pois desvendam-se as condições sociais de acesso
Com preâmbulo, introduções ~ conclusões, além de detalhados às práticas cultivadas, fazendo ver que "a cultura não é um privilégio
apêndices, O amor pela arte organiza-se em três grandes partes: natural, mas que seria necessário e bastaria que todos possuíssem
"Condições sociais da prática cultural", "Obras culturais e disposição os meios para dela tomarem posse para que pertencesse a todos".
culta" e "Leis da difusão' cultural". Quando de sua publicação, A freqüência dos museus em todos os países pesquisados
Bourdieu era uma estrela em ascensão: contava com 36 anos, aumenta consideravelmente à medida que se eleva o nível de instrução,
estudara na ÉeoIe Normal Supérieure (ENS), graduara-se em filosofia correspondendo quase que exclusivamente a um modo de ser das
(agrégê}, era diretor de estudos em Paris (ÉeoIe des Hautes Études classes cultas. A "necessidade cultural" é, em seu entender, produto
em Sdenees Sodales) e diretor do Centre de SodoIogie de F Édueadon da educação, da ação da escola. Acho que não é por outra razão que a
et de Ia CuIture. Havia feito seu serviço militar na Argélia (onde epígrafe da parte 3 do livro, "Leis da difusão cultural", seja emprestada
realiza seus primeiros trabalhos de campo), trabalhado no Liceu de do filósofo e matemático alemão Leibniz: "a educação consegue tudo;
Moulins e nas Faculdades de Letras de Argel, de Paris (Sorbonne) e faz dançar os ursos" . A ação escolar, bastante desigual - porque atua
de Lille, além de já ter publicado artigos e os seguintes livros: sobre indivíduos previamente dotados, pela ação familiar, com
SodoIogie de I'AIgérie (1958); 1i'avaiIet travailleurs em AIgérie (1963, distintos níveis de competência artística -, envolve jovens já

8 l)
o aIllorpela arle apresenlação
"iniciados" nesse domínio cultural. A escola, ao inculcar disposições com quadros diversificados participam desse circuito, encarregando-
duradouras à prática culta, auxiliando decisivamente na transmissão se de projetos referentes a ações educativas, à busca de patrocínios,
do código das obras de cultura erudita, transforma as desigualdades à utilização de leis de incentivos fiscais, à edição de catálogos, à
diante da cultura em desigualdades de sucesso. Fecha-se o círculo maior divulgação em geral, etc.
que faz com que capital cultural leve a capital cultural. Em 1969, cético com relação aos limites que a ação do
A categoria mais respeitada nos museus é a dos detentores conservador impunha a qualquer tipo de incitação direta à prática
de um diploma de final de estudos secundários, ou seja, indivíduos cultural, Bourdieu escrevia: "quem acredita na eficácia milagrosa de
que assimilaram parte das disposições cultas, produto de uma uma política de incitação para visitar museus e, em particular, de
educação distribuída de forma desigual, tratando "as aptidões uma ação publicitária pela imprensa, rádio ou televisão - sem se dar
herdadas como se fossem virtudes próprias das pessoas ['dons'], ao conta de que ela se limitaria a acrescentar, de forma redundante,
mesmo tempo naturais e meritórias". informações já fornecidas em abundância pelos guias, postos de
Os questionários aplicados correlacionam, detalhadamente, turismo ou cartazes afixados à entrada das cidades turísticas -
uma série de variáveis, tais como categoria sócio-profissional, nível assemelha-se às pessoas que imaginam que, para serem mais bem
de escolaridade, profissão, renda, sexo, local de residência, faixa compreendidas por um estrangeiro, basta falar mais alto" .
etária, museu(s) visitado(s), dia(s) e horário(s) em que ocorreu (ram) Parte do contido em O amor pela arte já aparecia em Un Art
a(s) visitas(s), tempo médio da(s) visita(s) à exposição(ões) Moyen, surgiria posteriormente em artigos na revista Actes de Ia
temporária(s), correlação entre visita(s) a museu(s), cinemas e recherche em sdences sociales e, também, em ao menos dois outros
teatros, influência familiar e de amigos para a(s) visita(s) segundo o livros de Bourdieu: La Distinction. Critique sociale dujugement(1979)
nível cultural, juízos sobre os museus e as exposições, tipo de arte eLes Regles de Fart. Genese et structure du champ littéraire (1992).
preferido, motivo(s) declarado(s) da visita, nome(s) de pintor (es) e Em suma, pela leitura de vários textos de Bourdieu - O amor
de escola(s), etc.
pela arte dentre eles - é possível compreender os mecanismos através
A minuciosa pesquisa desenvolvida por Bourdieu e sua equipe
dos quais apenas parte dos indivíduos consegue obter as chaves
possui um caráter pioneiro, qual seja, o de colocar em evidência a
para a plena fruição das obras de arte (ou, para falar como Max
dimensão eminentemente social dos meios de apropriação dos bens
Weber, gozam "do monopólio da manipulação dos bens de cultura e
culturais existentes em museus - dimensão ~ssa que se constitui
dos signos institucionais da salvação cultural").
em privilégio apenas daqueles dotados da faculdade de se apropriarem
das obras. Entretanto, tenho dúvidas se ainda é possível concordar
com o autor em uma série de considerações que realiza, envolvendo Afrânio Mendes Catani
o turismo cultural e a visita a museus (essa modalidade, segundo
ele, continua a atrair apenas categorias sócio-profissionais munidas
de diplomas, isto é, o público já tradicional dos museus). O mesmo Referências Bibliográficas
pode-se dizer quando fala do estágio relativamente amador em MlCELI, Sergio. "Depoimento a Maria Andréa Loyola." ln: pjerre Bourdieu
que se encontrava a "museologia" - hoje consideravelmente Entrevistado por Maria Andréa Loyola. Rio de Janeiro, EdUERJ, 2002.
transformada -, ou ainda quando fala dos conservadores de museus, SAlD, Edward W. "Um acadêmico comprometido: Pierre Bourdieu (1930-
2002)." ln: Cultura e política. Trad. Luiz Bernardo Pericás. São Paulo, Boitempo,
pertencentes aos extratos superiores, pouco afeitos a questões que Editorial, 2003.
envolviam uma gama relativamente ampla de papéis (homem de VASCONCELLOS, Maria Drosila. "Pierre Bourdieu: a herança sociológica."
ciência, comerciante, diretor administrativo, educador): hoje equipes Educação e Sociedade, Campinas, ano XXIII, n. 78, abril, 2002.

lO
o amor pela arle 11
apresenlação
preâm6uk

Os resultados apresentados neste livro foram obtidos graças


ao trabalho de uma equipe que se encarregou da aplicação de um
grande número de pesquisas; neste caso, somente uma verdadeira
lista de "créditos" permitiria prestar homenagem a todos aqueles
que forneceram contribuições igualmente indispensáveis - embora
desiguais, do ponto de vista quantitativo e qualitativo.
O professor Pierre Bourdieu dirigiu o conjunto da pesquisa
com a colaboração da professora Dominique Schnapper; por sua vez,
o professor Alain Darbel construiu o plano de sondagem e elaborou
o modelo matemático destinado à análise da freqüência das visitas a
museus.

Francine Dreyfus participou de todas as fases da pesquisa,


desde a realização das sondagens em diferentes museus e a formação
dos entrevistadores, até a organização da codificação e apuração dos
resultados; além disso, com a colaboração do Centro de Ciências
Sociais de Atenas, organizou a pesquisa na Grécia.
Yvette Delsaut e Madeleine Lemaire, assessoradas por uma
equipe de estudantes da cidade de Ulle (F. Bonvin, D. Chave, M.
Davaine, P. Dubois, M. EI Bahi, J.-P. Hautecoeur, M. Pinçon),
organizaram as pré-sondagens e as sondagens realizadas nos Museus
de Ulle, Arras e Douai, tendo obtido observações sutis e precisas
sobre o comportamento dos visitantes. Por sua vez, Pierre Riviere,
responsável pela área de cálculo matemático no InstÍtut Blaíse-Pascal,
elaborou o programa de tratamento mecanográfico; Wenceslas

13
preâmbuh
Fernandez Della Vega, integrante do Centro de Cálculo da Maison Arles, Arras, Autun, Bourg-en-Bresse, Colmar, Dieppe, Dijon, Douai,
des sdences de l'homme, garantiu a aplicação do programa de análise Dreux, Laon, Ulle, Louviers, Lyon, Marselha, Moulins, Pau, Rouen,
fatoria!. Tours, além do Musée desArts décorati/Se Musée duJeu de Paume,
Eric Walter realizou a sondagem, por correspondência, junto em Paris; tampouco, sem a colaboração prestada por alguns deles.
aos membros da Sodété des Amis du Louvre; as senhoritas Aqui, desejamos manifestar-Ihes nosso agradecimento, assim como
Loubinoux e Vidal, assim como os senhores Darmon e Grignon, ao Diretor e integrantes da diretoria dos Musées de France que
empreenderam sondagens sobre o ensino artístico nos garantiram um incessante apoio a nosso empreendimento;
estabelecimentos secundários (liceus parisienses e de província, igualmente, ao Inspecteur général des musées de provincee a seus
colégios de ensino geral e de ensino técnico). colaboradores de quem recebemos conselhos preciosos; por último,
à Superintendência do Musée des Arts décorati/S que achou por
As senhoras e senhoritas Barrat, Bacabeille, Carrera, de
bem nos confiar a análise de 4.000 questionários, coletados por
Catheu, Chocat, Constans, Couland, Cron, Devaulx de Chambord,
ocasião da exposição "Antagonismes".
Hippula, Lefevre, Marcadon, Maréchal, Massoutier, Rouquette, de
Thézy, assim como os senhores Fontaine, Sempere, Van Loyen, Queremos agradecer, também, aos Conservadores do Museu
administraram os questionários aplicados nos diferentes museus do Prado, em Madri, e dos Museus do Povo Espanhol, de Arte
da amostra; Moderna e de Picasso, em Barcelona; do Museu Arqueológico
Nacional e de Benald, em Atenas, e, ainda na Grécia, do Museu de
As senhoritas Moreno, Sastre e os senhores Abbas, Benyahia,
Delfos e de Náuplia; do Rijksmuseum de Amsterdã, do
Benyacoub, Bouhedja, Maillet, Mindja, Saghi, Settoui, colaboradores
Gemeentemuseum de Haia, do Museu de Groningen e de Utrecht,
da área técnica no Centre de sodologie européenne, realizaram as
na Holanda; do Castello Sforzesco e da Pinacoteca de La Brera de
operações - quase sempre complexas - de codificação dos resultados;
Milão; do Museu de Poznan, de Lublin, de Varsóvia, de Cracóvia e
finalmente, o senhor Salah Bouhedja garantiu o controle das
de Lodz, na Polônia. A colaboração de todos eles é que, no plano
apurações mecanográficas.
europeu, nos permitiu realizar a pesquisa.
O senhor Villaverde, sob a direção do professor Aranguren da
Universidade de Madri, organizou a sondagem no Museu do Prado,
enquanto as senhoritas Sastre e Moreno exerceram a mesma função
nos Museus de Barcelona; Hélene Argyriades, integrante do Centro
de Ciências Sociais de Atenas, dirigido pelo professor Peristiany,
efetuou a sondagem na Grécia; Angela Cacciari orientou e realizou a
sondagem nos três Museus de Milão e em Bolonha; Gilbert Kirscher
organizou a pesquisa na Holanda; finalmente, com a colaboração da
Academia das Ciências da Polônia, Nina Lagneau-Markiewicz
encarregou-se da sondagem efetuada nos museus desse país.
Todas essas pesquisas não poderiam ter sido levadas a bom
termo sem a compreensão dos Conservadores dos Museus de Agen,

14 15
o amor pela arle preâmbU/c;
o ar ck lempo

Além de seus integristas, a religião da arte conta com seus


modernistas; no entanto, uns e outros estão de acordo para formular
a questão da salvação cultural, utilizando a linguagem da graça.
"De maneira geral, escreve Pierre Francastel, convém registrar que
se a existência de homens com falta de audição é, geralmente,
reconhecida, todos imaginam veras formas de modo espontâneo e
correto. Não é isso, porém, o que se passa; aliás, é surpreendente o
número de homens inteligentes que não vêemas formas, nem as
cores - enquanto outros, pouco cultos, têm uma visão perfeita."!
Não será esse o tom da mística da salvação? "O coração tem seu
funcionamento próprio; a mente, também, baseada em princípios e
na demonstração." E a lógica que impele a outorgar, somente a
alguns, os signos e os meios da eleição é a mesma que elogia asanta
simplicidade dos ignorantes e das crianças: "Asabedoria nos envia à
infância: nÍSj effJdamjnj skut parvuJj". "Não se admirem que
"Deixem que as obras de arte manifestem sua eloqüência natural e elas serão pessoas simples acreditem sem proceder a qualquer raciocínio."2
compreendidas por um número crescente de pessoas; este método será mais
eficaz do que a influência exercida por todos os guias, conferências e discursos." Da mesma forma, a representação mística da experiência estética
F. SCHMIDT-DEGENER, pode fazer com que a graça da visão artística, designada por "olho",
"Musées" in Les Cahiers de Ia république des Iettres, des seja reservada aristocraticamente, por alguns, a determinados eleitos,
sdences et des arts, XIII.
enquanto outros a outorgam, com liberalidade, aos "pobres de
espírito".
"O que era, essencialmente, um bastião aristocrático tornou-se, em nossos dias,
um espaço de encontro para as pessoas da rua." Daí, segue-se que a oposição entre os tradicionalistas e os
"Le musée en tant que centre culturel, son rôle dans le modernistas é mais aparente do que real: os primeiros nada exigem
développement de Ia collectivité", UNESCO.
do espaço e dos instrumentos do culto artístico senão colocar os

oardo/empo 17
fiéis em estado de receber a graça. O despojamento e o possível e colocá-Ias bem em evidência; sua única preocupação
desnudamento servem de estímulo à ascese que conduz à visão consistia em evitar a bagunça e o alarido."5 Assim, quem defende
beatífica: "Apesar de ser bom que uma certa agitação venha bater à que, atualmente, a ascese ritual e o despojamento cisterciense
porta do museu, o visitante, mal a transpõe, deve encontrar o não são os únicos meios de ter acesso à comunhão com a obra,
elemento sem o qual não poderá ocorrer o encontro profundo com pretendendo propor determinadas vias menos abruptas aos fiéis,
a obra plástica: o silêncio". 3 Quando tudo é questão de disposição pode invocar o patrocínio daquele que, através da compra de
e de predisposições - já que não existe nenhum ensino racional pedras preciosas, cerâmicas raras, vitrais, esmaltes e tecidos,
para o que não se pode aprender -, será possível fazer outra coisa "anunciava a rapacidade desinteressada do diretor de museu
senão criar as condições favoráveis para que despertem as moderno". Mas, à semelhança deste, não será que ele se inspira
virtualidades adormecidas em algumas pessoas? A inquietação na convicção de que a obra contenha suficiente persuasão
relativa às características sociais ou culturais dos visitantes não milagrosa para converter ou impregnar, unicamente por sua
seria uma forma de pressupor que estes possam estar separados eficácia, as almas bem-nascidas? Não será partidário do
por diferenças que nada têm a ver com aquelas criadas pela anagogkus mos, do método de elevação que, à harmonia e
distribuição imprevisível dos dons? "O discernimento dos irradiação (compactÍo e clarÍtas) das obras materiais, confere o
visitantes, de sua classe social e de sua nacionalidade, aparece, poder de conduzir à iluminação, "transferindo das coisas
por um lado, como bastante complicado e, por outro, considerado materiais para as coisas imateriais" (de materÍaiÍbus ad
por muitos sem interesse, nem utilidade. Alguns museus chegaram ÍmmaterÍaiÍa transferendo)?
mesmo a julgar que esta questão era inatual, inclusive, "Quando determinados objetos possuem um valor plástico,
inconveniente (...). Um grande número de museus reconhece que, eles detêm tal força sugestiva que é mais fácil torná-l o perceptível
além de não terem feito nenhuma tentativa, nem possuírem do que evitar prestar atenção a ele (...). Para existir, o objeto deve
nenhuma experiência nesse sentido, declaram que tal operação é deixar-se saborear."6 "Um museu deveria ser um espaço em que o
impossível. "4 visitante sonolento fosse intimado a reagir em contato com obras
"Enquanto São Bernardo, diz-nos Erwin Pano fs ky, (... ) sublimes."? "O verdadeiro ímã* do turismo é a curiosidade histórica
grita com indignação: 'De que serve o ouro no santuário?', Suger e artística."8 "Em vez de tirar partido da possibilidade única e
pede que todos os esplêndidos paramentos e objetos sagrados, incomparável de ensinar pela impressão obtida diretamente dos
adquiridos durante sua administração, sejam levados para a igreja objetos, a pessoa se perde na série de outros procedimentos
(... ). Nada estava mais afastado da mente de Suger do que a educativos que pretendem transmitir conhecimentos, mais ou
idéia de manter os seculares fora da Casa de Deus: ele pretendia menos superficiais, por meio de conceitos puramente intelectuais.
acolher uma multidão tão grande quanto possível, contanto que Aliás, esses métodos didáticos nunca conseguirão atingir as
fosse evitada a desordem - assim, tinha necessidade de uma camadas profundas do público."g E, a partir do espaço reservado
igreja mais espaçosa. Nada lhe parecia mais injustificado do
que impedir os curiosos de terem acesso aos objetos sagrados: * No original, aimant; este termo tem um adjetivo homônimo que deriva do verbo
ele pretendia expor suas relíquias de forma tão 'nobre' quanto aimer [amar], cujo significado é "amante". (N.T.)

18 o amorpela arfe oarrkfempo 19


por nossa civilização à imagem, as testemunhas mais líricas tiram como se toda a sua representação da cultura tivesse a finalidade de
um argumento para se convencerem de que, atualmente, autorizá-Ios a convencer-se de que, segundo a expressão de um idoso
reduplicou a força de atração da obra pictural: "Aarte, escreve René bastante culto, "a educação é algo de inato".
Huyghe, nunca foi tão importante e obsedante, a não ser em nosso
tempo; nunca foi tão difundida, saboreada e, concomitantemente,
nunca tão analisada e explicada. Ela tira partido (e, sobretudo, a
pintura) do papel primordial conquistado em nossa civilização pelas
imagens".1OO homem da cultura da imagem não será imediatamente
dotado da cultura necessária para decifrar a obra pictural, ou seja,
a imagem entre as imagens? "O museu tem o privilégio de falar a
linguagem da época, a Hnguagem da imagem, linguagem inteligível
para todos e a mesma em todos os países (...). O museu faz parte
integrante de nossos costumes; em breve, será o complemento
necessário, o substrato de todas as nossas atividades."ll E, em
todo caso, não será possível colocar a força das imagens a serviço
do culto da imagem? "Apublicidade inteligentemente organizada
é que pode encaminhar de forma exclusiva uma nova corte, de
extensão insuspeita, para nossas coleções de arte."12
Os tempos já chegaram e o advento do Reino da Arte deixa-
se entrever na Terra: "De forma premente e grave, parece necessário
chamar a atenção dos Estados para este aspecto, a fim de que eles
dêem satisfação às necessidades novas e imperativas das populações
modernas que estão sendo como que atingidas por uma nova fome
- desta vez, espiritual- e exigem um novo alimento terrestre".13 A
profecia escatológica é o coroamento natural dessa mística da
salvação.
Em definitivo, os antigos e os modernos estão de acordo para
abandonar, completamente, as possibilidades de salvação cultural
aos acasos insondáveis da graça ou, melhor ainda, ao arbítrio dos
"dons". Como se aqueles que falam de cultura, para si mesmos e
para os outros, ou seja, os homens cultos, só pudessem pensar a
salvação cultural segundo a lógica da predestinação; como se, por
terem sido adquiridas, suas virtudes se encontrassem desvalorizadas;

21
20 o amorpela arle oardolempo
procedimenlos da pesruisa

Antes de iniciarmos a análise e a interpretação dos resultados das


diferentes sondagens que forneceram a matéria para este livro, vamos
descrever, de forma tão precisa quanto possível, as condições em que
foram obtidos.

Tendo à nossa disposição um conjunto de hipóteses - já


comprovadas, anteriormente, pela aplicação de numerosas
pesquisas sobre os processos de difusão cultural -, a sondagem
sistemática sobre o público de museus, na Europa, suas
características sociais e escolares, suas atitudes em relação ao
museu e suas preferências artísticas, poderia ser concebida como
umprocedimento de verificação destinado a confrontar um sistema
coerente de proposições teóricas com um sistema coerente de fatos
produzidos pelas - e não em favor das - hipóteses que deveriam
ser validadas.

o questionário

A utilização de um questionário muito simples (d.


Apêndice 1) impunha-se, particularmente, em um domínio em
que os sujeitos investem valores e, portanto, são levados, até
mesmo inconscientemente, à autovalorização, fornecendo a
resposta que consideram mais nobre. Se, no caso da questão (III)
sobre as razões da ida ao museu, houve a recusa deliberada de

23
procedimentos da pesruisa
prever as respostas "nobres" - tais como: "porque gosto de arte" -, dos dados da sondagem, permitiu verificar que as ordens de
tal postura não ocorreu em nome de uma espécie de agnosticismo grandeza fornecidas pela estatística oficial poderiam ser
estético, mas porque a pré-sondagem realizada no Museu de Lille consideradas como válidas.l4
e as entrevistas semi-estruturadas haviam mostrado que tais Se as flutuações constatadas de um para outro ano, no mesmo
respostas eram mais atraentes para os sujeitos que, na realidade, museu, sob o efeito da atração exerci da por uma exposição ou por
tinham ido ao museu por outras razões. Preocupações semelhantes uma manifestação local, impedem que a pesquisa obtenha uma
dominaram a elaboração das questões de opinião: a intenção do maior precisão, pode-se considerar, no entanto, que o número anual
questionário não consistia em colocar em votação a introdução de visitas define, de maneira satisfatória, a hierarquia dos museus.
de flechas e de fichas explicativas (questões V e VI) nos museus, Assim, em relação à França, o sorteio de uma amostra
mas avaliar Índiretamenteas expectativas pedagógicas do público, representativa de vinte e um museus pôde apoiar-se na análise
identificadas a partir das pré-sondagens e das entrevistas livres. multivariada das relações entre as diferentes características dos
As condições de sua aplicação impunham, por outro lado, que o museus, incluindo o número anual de visitas. Com essa finalidade,
texto fosse bastante claro, muito breve (para não demorar mais um júri composto por cinco conservadores e especialistas de arte
do que quinze minutos) e, sobretudo, que não incluísse nada selecionou, no território francês, cento e vinte e três museus de
que pudesse chocar os visitantes dos diferentes meios sociais; arte (cujo acervo era constituído por pinturas e esculturas);lS e,
aliás, não foi fácil respeitar esta última condição, já que as para cada museu, avaliou a facilidade do acesso, o dinamismo do
questões que poderiam parecer simplistas a alguns poderiam dar conservador, o número de obras expostas, o número de obras do
a impressão a outros de serem difíceis (d. Ínfra, a análise das acervo, o tipo de obras (pinturas, esculturas, souvenirs históricos,
"não-respostas") . objetos de folclore, etc.), a qualidade global das obras (notada de O
a 5), assim como o tipo de apresentação. Além disso, tendo como
indicador o número de estrelas atribuídas pelo i'Guide Vert" * à cidade,
A amostra e a sondagem
ao próprio museu e às obras exibidas, foi determinada a atração
turística de cada museu, obtendo-se a seguinte classificação: uma
Para garantir toda a eficácia ao método de amostragem estrela - Arras, Douai, Dreux, Laon, Louviers, Moulins; três estrelas
adotado, era necessário tirar partido do que já era conhecido a _ Agen, Dieppe, Ulle, Lyon; quatro estrelas - Arles, Bourg-en-Bresse,
respeito dos museus e de seu público. De fato, as estatísticas Marselha, Pau, Tours; sete estrelas - Autun; oito estrelas - Dijon;
disponíveis em relação aos diferentes países europeus dez estrelas - Colmar, Rouen. Por último, foi considerada a atração
apresentavam um grande número de incertezas em razão da turística (avaliada a partir dos mesmos índices aplicados à avaliação
heterogeneidade dos procedimentos de comabilização dos do museu), a situação econômica e o equipamento universitário da
visitantes segundo os países e, até mesmo, segundo os museus cidade ou da região onde se situa o museu.
(em particular, por não ter sido efetuada a contagem separada
dos diferentes tipos de visitas, principalmente, visitas gratuitas), * Esta publicação - lançada, pela primeira vez, em 1900. com uma capa "rouge",
e em razão, também, da ausência de estatística mensal relativa às pelos irmãos Michelin, inventores do pneumático desmontável - destinava-se a
ajudar os veranistas a preparar suas viagens com informações de caráter turístico,
visitas. Todavia, o cálculo das médias diárias das visitas, a partir controladas antecipadamente pela equipe de redação. (N.T.)

25
24 o amor pela arle procechmenlos da pesruisa
Foi apurado, na análise, que a maior parte das características fornecida pelos guias turísticos, coincide com a hierarquia
dos museus estavam estreitamente ligadas entre si: se excetuarmos "vivenciada", expressa pelo número de visitas, e com a hierarquia
os museus que recebem menos de 2.000 visitantes por ano (ou seja, "legítima", definida pelas "autoridades culturais".
6 museus com acesso bastante difícil, oferecendo poucas obras que Assim, pelo fato de estar em correlação coma maior parte das
são apresentadas de forma medíocre), constatamos que o número características dos museus, o número anual de visitantes pode ser
de obras expostas está grandemente associado ao número de considerado um critério estratificador (o que garante a precisão dos
visitantes (com exceção de alguns grandes museus que expõem resultados): basta, portanto, constituir alguns grandes estratos,
relativamente poucas obras, embora de grande qualidade ou bastante tomando como critério o fluxo anual de visitas e, a fim de garantir a
célebres). O mesmo acontece com a notoriedade das obras e de sua comparabilidade entre os estratos, escolher aleatoriamente um
qualidade (avaliada pelo júri de especialistas), o que tende a mostrar número igual de museus em cada um deles, salvo para o estrato
que, nesta matéria, a hierarquia "oficial" dos museus, tal como é superior que tem o fluxo mais elevado de visitas e comporta o menor
número de museus (o que permite obter a mesma precisão com uma
amostra ligeiramente mais reduzida) .16 Para os museus parisienses,
Estrato 4
2 II
Estrelas
3 OOArras
2Laon
32
4
5 O
Qualidade
O *26000
Toulouse
Fluxo
2 Museus
Col1uar
Tours
2 2500
3300
35000
85000
11700
5500
1650
14000
7800
70000
193000
180000
11000
6500
3000
25000
30000
8900
que são outros tantos casos particulares em uma cidade incomparável
às outras, dois museus de arte de tipos diferentes - o Musée duJeu
de Paume e o Musée des Arts décoratilS - foram escolhidos fora do
plano da sondagem.
Os mesmos métodos de amostragem conduziram a adotar, em
relação à Grécia, o Museu Arqueológico Nacional e o Museu Benald
de Atenas, assim como os Museus de Delfos e de Náuplia; em relação
à Holanda, o Rijksmuseum de Amsterdã, o Gemeentemuseum de
Haia e os Museus de Groningen e de Utrecht; e, em relação à Polônia,
os Museus de Poznan, de Lublin, de Varsóvia, de Cracóvia e de Lodz.
No que diz respeito à Espanha, por falta de informações estatísticas
sobre os fluxos de visitantes, não foi possível proceder a uma
amostragem metódica, nem considerar o Museu do Prado de Madri, e
o Museu Picasso, do Povo Espanhol e de Arte Moderna de Barcelona,
como representativos do conjunto dos museus espanhóis, embora
seu público apresente características totalmente conformes às leis
estabelecidas a propósito dos outros países. I?
Realizada a seleção dos museus, tratava-se de proceder a uma
escolha aleatória das pessoas a serem entrevistadas; era importante
que todos os visitantes do museu, durante o desenrolar da sondagem,
* Números fornecidos pelo senhor Delesalle, membro da diretoria de Musées de France. fossem integrados na amostra. Com essa finalidade, os entrevistadores

27
26 o amor jJe/a arle proced.imenlos da jJesf(wsa
(uns enviados pelo Centredesodologieeuropéenne; outros recrutados Do mesmo modo, o sentido das questões sobre a freqüência dos
na própria cidade, quase sempre, com a colaboração do conservador, e museus (VIII e IX) não é o mesmo para todos os sujeitos: 25% dos
formados por pesquisadores do Centre) receberam o encargo de visitantes das classes populares não conseguem citar sequer um museu
apresentar o questionário aos visitantes, segundo instruções bem e, como foi demonstrado pela sondagem de verificação, sua abstenção
definidas e aperfeiçoadas no decorrer da pré-sondagem. A unidade limita-se a exprimir a ignorância, enquanto, entre os visitantes das
estatística selecionada foi a visita e não o visitante; deste modo, classes cultas, ela denuncia a impaciência diante de uma questão
teoricamente, o mesmo indivíduo poderia figurar mais de uma vez na "ingênua". Assim também, a questão sobre os pintores preferidos (XI)
amostra (ocorrência que, considerando a duração da sondagem, é percebida pelos visitantes das classes populares como uma pergunta
apareceriaapenas de forma excepcional),recebendo um peso proporcional de erudição, enquanto é considerada como primária pelos sujeitos das
à freqüência média de suas visitas ao museu. As visitas de grupos classes superiores.
escolares ou turísticos levantavam um problema: deveria ser conferido Considerando as flutuações do número dos visitantes e da
a cada membro do grupo um peso semelhante ao visitante individual? estrutura do público no decorrer do tempo, conviria ainda escolher,
Afinal de contas, a mesma indagação era válida para as visitas familiares. metodicamente, os momentos da sondagem. Como a pré-sondagem,
A solução menos imperfeita consistia em atribuir o mesmo peso a cada realizada no Museu de Ulle, demonstrou que a estrutura social do
indivíduo adulto, correndo o risco de isolar os grupos na análise; assim,
público varia segundo os dias da semana, poderíamos pressupor
em dois terços dos museus, pôde ser obtida uma taxa de respostas
que as férias determinassem também algumas variações; para
igual ou superior a 75% (levando em consideração os grupos). apreender as flutuações sazonais, sem prolongar a duração da
Apesar de terem aceitado submeter-se à sondagem, alguns sondagem, as férias de Páscoa foram incluídas no período da
visitantes não responderam a determinadas questões; a proporção dos sondagem. No entanto, levantou-se a dúvida de que esse período
"sem-resposta" (SR) varia de maneira significativa segundo o tipo de pudesse ser representativo das férias em seu conjunto, na medida
questões e segundo as categorias sociais ou, mais exatamente, segundo em que os turistas de Páscoa tenderiam a pertencer,
a significaçãoque as diferentes categorias sociaisconferiram às diferentes preferencialmente, às classes favorecidas. A fim de testar o valor dos
questões. Assim, as perguntas sobre as razões e as condições da visita resultados obtidos, uma sondagem complementar desenrolou-se,
(III e IV) aparecem, para a maioria do público, como questões de fato, no mês de julho, em cinco museus franceses: uns situados em uma
mas a parcela mais elevada das classes superiores pode suspeitar, nessas região pouco freqüentada pelos turistas (Arras, Laon, Ulle); enquanto
perguntas, uma intenção: para justificar a visita, algumas razões seriam os outros se encontravam em regiões turísticas (Arles, Autun) [d.
nobres, enquanto outras seriam menos nobres, e o indivíduo Apêndke 3, Tabela 1]. Ficou evidente que, nas regiões situadas no
demonstraria maior seriedade ao visitar um museu com a ajuda de um Sul do rio Loire, * a estrutura do público no verão é idêntica à da
guia ou de um catálogo; em relação aos outros grupos sociais, verifica- Páscoa, de modo que o efeito do turismo é praticamente o mesmo
se uma abstenção maior por parte dos professores e dos especialistas
de arte como se, através dessa atitude, eles pretendessem testemunhar
que contestam a pertinência das questões e das respostas previstas * O rio Loire é o mais longo da França (1.020 km); sua bacia estende-se desde sua
nascente no Maciço Central até desaguar no Atlântico, depois de atravessar a cidade
pelo questionário (na medida em que as respostas "nobres" foram de Nantes. Segundo a tradição, seu trajeto divide o território francês: assim, a
voluntariamente omitidas) [cf.Apêndice 2, Tabela 3]. margem direita corresponde ao Norte, enquanto a esquerda, ao Sul. (N.T.)

29
28 o amor pek arle procedimenfos da pes7uisa
durante os dois períodos; no Norte, que atrai poucos turistas, a somente depois de terem sido identificadas, por outros métodos,
estrutura do público, quase idêntico no verão e no período dos dias as relações entre as principais variáveis explicativas. Para realizar
úteis, é diferente na Páscoa, pelo fato de que, nesta época do ano, a esta análise fatorial, os 9.226 questionários coletados nos museus
prática do turismo é mais freqüente entre as classes favorecidas que franceses foram separados em duas subpopulações: a dos indivíduos
se encontram, então, ligeiramente sub-representadas. de nível inferior ao baccalauréat" (M1) e a dos indivíduos de nível
Para definir o peso que seria importante conferir às sondagens igualou superior ao vestibular (M2) .19 Contrariamente ao que foi
efetuadas em cada um dos dois períodos, bastaria determinar o feito no estudo principal, cada questionário recebeu um peso igual;
número relativo das visitas correspondente a cada período; por falta entre os 53 itens do questionário, apenas catorze foram adotados
de estatísticas mensais precisas, tivemos de recorrer ao cálculo para por terem sido considerados mais significativos. Em Apêndice, serão
estimar que, na França, perto da metade (45%) das visitas efetuam- encontradas as matrizes de correlação para M1 e M2, assim como
se durante as férias (ou seja, no período de cerca de quatro meses) .18 as médias e os desvios padrão para cada uma das variáveis em cada
uma dessas subpopulações; no entanto, pelo fato de ter confirmado
Realizada em dois planos (em primeiro lugar, os museus;
em seguida, as visitas), a pesquisa talvez tenha sido assimilada a o que já era conhecido, o cálculo dos "valores próprios" e dos
"vetores próprios" aferentes a cada uma delas não será reproduzido.
uma sondagem em um só plano; neste caso, o número de museus
escolhidos foi responsável, essencialmente, pelo erro de Como a principal sondagem permitiu estabelecer, a
amostragem. Além disso, uma amostra aleatória refere-se, em geral, propósito de uma amostra bastante ampla, as estruturas
a uma população-mãe bem definida e de dimensão bem delimitada, fundamentais do público dos museus e as relações significativas
enquanto o público virtual dos museus não tem limites precisos, e significantes entre as características sociais dos visitantes e
nem espaciais, nem temporais; aliás, teoricamente, um museu pode suas atitudes ou opiniões, tornava-se possível e necessário
recrutar seus visitantes na escala do universo. Daí, resultam riscos verificar ou analisar de forma mais sutil, em determinados pontos,
de distorção - de resto, mínimos - e uma certa limitação intrínseca os conhecimentos adquiridos. Eis a razão pela qual foram
da precisão de qualquer pesquisa relativa ao público dos museus. empreendidas várias sondagens sucessivas, incidindo sobre
amostras relativamente restritas (entre 300 e 1.000 visitantes)
do público de um ou de vários museus, cujas características eram
A codi/icação e a análise dos resultados
conhecidas. Tais sondagens forneceram informações sobre a
relação entre o tempo de visita declarado pelos visitantes e o
Sabendo que não basta apurar a análise lógica das respostas tempo de visita real, avaliado por observadores; sobre os ritmos
e de suas combinações possíveis para se conformar às articulações da freqüência dos museus e suas variações, segundo as diferentes
características sociais dos visitantes; e sobre a relação entre a
do real, cada uma das grades de análise foi estabelecida a partir de
um exame parcial dos resultados e foi definida com precisão sempre freqüência dos museus e outras práticas culturais. Todos estes
que tal postura era exigida pelos casos encontrados. A mesma
preocupação de rigor levou a elaborar o programa de tratamento
* O termo baccaIauréatdesigna, ao mesmo tempo, os exames e o diploma conferido
mecanográfico somente depois da análise de uma amostra de 1.000 ao final do 2° ciclo do ensino de 2° grau (no Brasil, Ensino Médio); daqui em diante,
questionários, assim como a aplicar um programa de análise fatorial será traduzido por vestÍbular. (N.T.)

30 31
o amor pela arle proceelimenlos elapesruisa
resultados foram submetidos a uma última verificação por meio sem a aliança mais estreita de dois métodos, igualmente,
de uma pesquisa que, em 1965, foi administrada a 2.000 visitantes rigorosos.20
de diferentes museus franceses. O método das sondagens
sucessivas permitiu não só preencher as lacunas da informação
prodigalizada pela sondagem inicial, mas também e, sobretudo,
o estudo comparativo

testar pelo menor custo as hipóteses que foram colocadas em


evidência pela análise e interpretação dos dados fornecidos pela Para garantirmos a comparabilidade dos resultados, ficamos
primeira experimentação. atentos à utilização de procedimentos idênticos, em todas as fases
da pesquisa, nos cinco países estudados, ou seja, Espanha, França,
Grécia, Holanda e Polônia. O mesmo questionário (salvo algumas
A tentativa de formalização
adaptações indispensáveis para levar em consideração as situações
nacionais) foi administrado, nas mesmas condições, ao público
Diante das páginas de matemática deste livro, nosso dos diferentes países. As mesmas grades de análise foram aplicadas
primeiro leitor confessava considerar-se como a personagem de ao material coletado, em particular, para tudo o que diz respeito às
Christophe* que, ao assistir a uma longa demonstração do características sociais e escolares dos visitantes. A pretensão de
professor Cosinus levando à fórmula U = O, achava que tal buscar a homogeneidade formal dos códigos - aliás, não seria
operação exigia muito sofrimento por um, resultado bem precário; possível ignorar tal eventualidade - incorria no perigo, inerente a
pelo contrário, outros leitores, mais sensíveis ao rigor fecundo qualquer comparação de índices abstratos e falsamente
do raciocínio matemático, ficarão limitados a ver, talvez, as análises intermutáveis, de comparar fatos formalmente comparáveis, embora
"compreensivas" como aproximações impressionistas. Após a realmente incomparáveis e, inversamente, omitir a comparação de
tentativa de tantos outros estudos, convirá empreender a fatos formalmente incomparáveis, apesar de serem realmente
justificação metodológica do esforço de formalização, correndo o comparáveis. No entanto, ao adotarmos categorias de análise mais
risco de suscitar a crença de que o método de uma ciência é uma bem ajustadas às particularidades das diferentes condições
técnica abstrata e formal que deveria simplesmente ser "aplicada" nacionais, por exemplo, no que diz respeito aos níveis de instrução,
ao conteúdo empírico? "As ciências naturais, afirmava Henri coibimo-nos, de saída, de proceder a qualquer possibilidade de
Poincaré, falam de seus resultados; por sua vez, as ciências sociais comparação quando, afinal, uma interpretação estrutural pode
falam de seus métodos." Para desmentir - pelo menos, uma vez- sempre recolocar fatos conscientemente construidos por meio de
este dito espirituoso, ficaremos satisfeitos em remeter aos operações formalmente idênticas no sistema completo das relações
resultados, com a certeza de que estes não poderiam ser obtidos que lhes fornecem seu sentido e seu valor.
Aos problemas encontrados por qualquer pesquisa
* ChrÍstophe (referência ao navegador Cristóvão Colombo) é o nome artístico de
comparativa, tal como o estabelecimento de relações entre fatos
Georges Colomb (1856-1945). Tendo sido partidário de uma pedagogia fundada ou sistemas de fatos inseridos em sistemas de relações que lhes
no desenho, é considerado pelos franceses como o criador da "história em
quadrinhos"; entre suas obras, conta-se J:ldée fixe du savant CosÍnus, (N,T.) fornecem as propriedades específicas, acrescentavam-se todas as

33
32 procedimenlos dapesruisa
dificuldades resultantes das incertezas ou lacunas das fontes colocação entre parênteses do verdadeiro objeto da comparação,
estatísticas. Com efeito, escapar à armadilha das semelhanças ou ou seja, dos sistemas de relações de que são retirados os fatos
dessemelhanças aparentes, diretamente reveladas pela comparados.
experimentação, só seria possível com a condição de levar em
consideração, em uma comparação sistemática, as diferenças
sistemáticas ou, melhor ainda, os diferentes sistemas de fatores
que exercem o que pode ser designado por efeito de estrutura
sobre cada um dos fatos empiricamente constatados. Um perfeito
acionamento desses princípios de método teria exigido que, além
dos dados fornecidos pela sondagem sobre as características sociais
e escolares dos visitantes de museu, fosse possível mobilizar
informações estatísticas precisas e construídas segundo categorias
idênticas sobre a estrutura das diferentes populações-mães,
segundo o sexo, a idade, as classes sociais e os níveis de instrução,
sobre os fluxos de turistas e de visitantes nos diferentes museus,
assim como sobre o número e a qualidade das obras expostas em
cada um dos museus, etc. Considerando que era praticamente
impossível obter todas estas informações sobre todos os países
estudados e que as informações obtidas nem sempre eram
diretamente comparáveis em razão das divergências entre os
sistemas de classificação utilizados pelos diferentes países, a
comparação propriamente estrutural que pôde ser realizada
apresenta um grande número de incertezas. Se as conclusões
prudentes - e, muitas vezes, mais negativas do que positivas -
extraídas destas análises vierem a decepcionar quem desejasse
receber respostas simples e categóricas para determinadas
questões, tais como a problemática sobre a eficácia relativa das
políticas culturais elaboradas por regimes políticos diferentes, o
método proposto tem, pelo menos, o seguinte mérito: por um
lado, tornar possível, desde que isso seja permitido pelas
informações obtidas, uma comparação rigorosa; e, por outro,
sobretudo, advertir contra as comparações imprudentes e
inconsideradas que, apesar de não se apoiarem em números
fantasistas, permanecem fictícias e falaciosas, por pressuporem a

.14 35
o amor pela arfe procedimenfos da pesruisa
primeira parle

condições sociais da prálica


cuRural
Se a análise das relações empiricamente constatadas entre a
freqüência dos museus e diferentes características econômicas,
sociais e escolares dos visitantes deve permitir, por um lado,
apreender o conjunto dos fatores que determinam ou favorecem a
freqüência dos museus e, por outro, estabelecer o peso relativo de
cada um deles e a estrutura das relações que os unem (Primeira
Parte), não se pode explicar a eficácia de tais fatores explicativos a
não ser identificando a gênese e a estrutura da disposição em relação
a obras culturais, tornada manifesta pela freqüência dos museus
(Segunda Parte). Finalmente, é importante que o sistema de causas
e de razões - permitindo compreender e explicar a freqüência de um
museu, através da análise das condições mais gerais da recepção
adequada de uma obra de cultura erudita, ou seja, peça de teatro,
romance, concerto ou quadro - seja submetido à prova da
"Quem cultiva as ciências exatas - cuja independência e generalidade são, aliás, generalização (Terceira Parte).
tão apropriadas para engrandecer o espírito e elevá-Ia acima da esfera comum -
não prestou à filosofia racional os serviços que ela teria direito de esperar e A freqüência dos museus - que aumenta consideravelmente
exigir. Ao utilizar o método claro, preciso e seguro de tais ciências, para tratar à medida que o nível de instrução é mais elevado - corresponde a
algumas questões delicadas, ainda não abordadas por falta de ousadia (...), essa
pessoa teria evitado um grande número de disputas, encontrando solução para um modo de ser, quase exclusivo, das classes cultas.21 Verifica-se
dificuldades bastante espinhosas e destruindo preconceitos bem enraizados e que, em relação ao público que freqüenta os museus franceses, a
antigos; além disso, duas ou três páginas de análise, ou até mesmo se
quisermos, uma simples fórmula exposta em duas linhas, teriam demonstrado - parcela das diferentes categorias sócio-profissionais corresponde
com rigor e com a evidência que não admite nenhuma dúvida e que, inutilmente, quase exatamente à razão inversa de sua parcela na população global.
os sofistas tentariam menosprezar com todas as suas sutilezas e chicanas -
determinadas verdades já descobertas também pelos filósofos, embora com a Sabendo que o visitante modal dos museus franceses é bacheJjer"
ajuda de instrumentos menos aperfeiçoados."
NAIGEON
* Trata-se do estudante que concluiu com sucesso seus estudos secundários e, por
Encydopédje méthodjque, t. III conseguinte, tornou-se portador do baccalauréat. (N.T.)

conchções sociais da prdlica cu/iura/ 37


(55% dos visitantes são, no mínimo, titulares do vestibular), não anos de estudos secundários sem terem obtido um diploma. Por
será surpreendente que a estrutura do público, distribuído segundo conseguinte, o nível de instrução avaliado pelo diploma é, talvez,
a categoria social, seja bastante próxima da estrutura da população menos significativo (pelo menos, em matéria de práticas e atitudes
dos estudantes das faculdades francesas, distribuídos segundo sua culturais) do que o nível cultural de aspjração. o visitante que se
origem social: em relação ao público dos museus de arte franceses, atribui o nível de vestibular - quando, na realidade, tem apenas a 4a
a parcela dos agricultores corresponde a 1%, a dos operários a 4%, a série ou interrompeu os estudos no 2° ano do 2° grau - iria a um
dos artesãos e comerciantes a 5%, a dos empregados e quadros médios museu se não se atribuísse o nível cultural que o legitima a visitar
a 23% (dos quais 5% de professores primários) e a das classes os museus? Sabendo que o visitante modal dos museus possui o
superiores a 45%. A distribuição dos visitantes, segundo seu nível vestibular, não teremos bons motivos para supor que a pretensão a
de instrução, ainda é mais expressiva: 9% somente dos visitantes _ esse nível de instrução contribui, em parte, para suscitar naqueles
entre os quais 75% de escolares - estão desprovidos de qualquer que não o têm uma "prática de quem possui tal diploma"?
diploma, 11 % são titulares do diploma de final de estudos primários Em seu conjunto, o público dos museus é relativamente
(C. E. R), 17% de um diploma de ensino técnico ou de um diploma jovem, já que a parcela dos visitantes com idade compreendida entre
de ensino geral do segundo grau (B. E. R C.), 31 % têm o vestibular
quinze e vinte e quatro anos corresponde, na França, a 37% contra
e 24% possuem um diploma equivalente ou superior à lkence. * 18% relativamente à população total e essa super-representação é
Neste caso, compreende-se que a parcela dos visitantes que estudaram particularmente marcante nas classes populares e médias (aliás, 13%
latim (índice bastante revelador do pertencimento a um meio culto) dos visitantes oriundos das classes populares e médias declaram ter
atinge 40% - dos quais 4% são oriundos das classes populares, 24% descoberto o museu no decorrer de sua adolescência, em companhia
das classes médias e 75% das classes superiores.
de colegas). Além disso, a idade média dos visitantes aumenta
A constatação de que os visitantes das classes médias se continuamente à medida que se sobe na hierarquia social, o que
distinguem do conjunto de sua categoria por um nível de instrução parece indicar que o efeito da ação escolar é tanto mais duradouro
ligeiramente mais elevado se deve (como ficou demonstrado pela quanto mais elevado é o nível escolar atingido: portanto, essa ação
sondagem de verificação) ao fato de que, às vezes, eles se atribuem ter-se-ia exercido de forma mais prolongada; todo aquele que a
um nível cultural superior ao que indicam seus diplomas, exprimindo suportou disporia previamente de uma maior competência adquirida
dessa forma, à semelhança de muitas outras condutas, sua boa pelo contato precoce e direto com as obras (sabe-se que tal contato
vontade cultural; no entanto, tal fenômeno se verifica também porque é sempre mais freqüente à medida que se sobe na hierarquia social);
o diploma nem sempre serve de indicador irrepreensível do nível e uma atmosfera cultural favorável viria alavancar e intermediar sua
cultural, no sentido em que não leva em consideração determinados eficácia. Considerando, por um lado, que os escolares e os estudantes
conhecimentos, no caso, por exemplo, dos sujeitos que completaram constituem 78% dos visitantes com idade compreendida entre quinze
sua formação como autodidatas (e que são, particularmente, e vinte e quatro anos quando, em relação às faixas etárias
numerosos nas classes médias) ou daqueles que freqüentaram vários correspondentes, a parcela dos sujeitos escolarizados na população
francesa é de apenas 24,5%; e, por outro, que a taxa de freqüência
* Diploma universitário, título intermediário entre o 10 e o 3° ciclos do ensino
indica uma queda brutal (de 37 para 16%) quando se sai da faixa
superior. (N.T.) etáriamais fortemente escolarizada (de quinze a vinte e quatro anos),

38 39
o amor pela arle condições sociais da prálica cu/iural
para diminuir, em seguida, de forma regular e tanto mais rapidamente Bj e profissão Ck, venha a visitar um museu de arte. No entanto,
que se avança em direção às categorias mais idosas (ou seja, 15, 10, como as diferentes variáveis estão em co-variância e constituem
8 e 4% relativamente às faixas etárias de trinta e três a quarenta e um complexo que pode ser identificado, graças a um número
quatro anos, quarenta e cinco a cinqüenta e quatro anos, cinqüenta mais restrito delas, encontramo-nos diante do problema clássico
e cinco a sessenta e quatro anos e acima de sessenta e cinco anos), da colinearidade. Todavia, se P (Ai, Bj) = P (Ai, Bj, Ck), ou dito
podemos nos interrogar se a relação que une a idade e a freqüência por outras palavras, se a idade e o nível de instrução são
de um museu não traduz simplesmente o efeito da instrução. As conhecidos, o conhecimento da profissão não fornece informação
relações entre tal freqüência e a categoria sócio-profissional ou a suplementar, esse critério pode ser considerado independente da
residência formulam, de fato, a mesma questão, tornando necessário, freqüência de um museu (sem que a recíproca seja verdadeira, já
por meio de outras técnicas, tentar determinar a influência respectiva que, conhecendo unicamente a profissão, associada ao nível de
dos diferentes critérios que, à primeira vista, parecem igualmente instrução, possuímos uma informação sobre a freqüentação) e
associados à visita assídua de museus. podemos concluir que a profissão não exerce uma influência
específica, na medida em que a relação que a une à visita assídua
A busca da explicação exige, portanto, que as taxas de
a museus não passa de uma outra expressão da relação entre o
representação das diferentes categorias de visitantes no conjunto
nível de instrução e tal freqüência.
do público dos museus sejam substituídas pela probabilidade
reconhecida a cada sujeito de entrar em um museu, durante Este método sofre os limites que lhe são impostos pelas condições
determinado tempo, segundo as diferentes características que o de experimentação estatística: em virtude da associação entre os
definem. Como a população potencial de um museu é mal delimitada diferentes critérios e do reduzido tamanho da amostra, é
ou ilimitada (pelo menos, virtualmente), a avaliação da população inevitável que, além da sub-representação de algumas categorias,
total das categorias às quais se deve relacionar o efetivo dos visitantes seja restrito o número de probabilidades Pi, j, k, ... cujo cálculo
de cada categoria é necessariamente imprecisa, mas o é tanto menos seja significativo. Apesar de ser fácil isolar o efeito da idade, do
quanto maior for a unidade espacial e temporal selecionada: apesar sexo, do diploma ou da profissão, a identificação da influência
de ser absurdo relacionar o número dos visitantes do Museu de simultânea do diploma e da profissão ou do diploma e do habitat
Lille com a população da cidade, é razoável calcular a relação entre o é mais difícil porque tais critérios estão ligados de forma bastante
número anual de visitantes de cada categoria e o efetivo global dessa forte.
categoria ou, ainda, entre o número total de originários de De fato (ver Tabela 1), com a fixação do nível de instrução,
determinado país que visitaram um dos museus nacionais e a o conhecimento do sexo ou da categoria sócio-profissional dos
população global desse país, o que eqüivale a admitir que, entre os visitantes fornece, em geral, poucas informações suplementares.
diferentes países, se verifique uma compensação aproximativa dos Sem dúvida, a assiduidade dos professores e especialistas de arte
movimentos de turismo cultural.
é, em nível igual, nitidamente superior à das outras categorias
Como cada visitante é definido por um conjunto de critérios sócio-profissionais; sem dúvida, as mulheres oriundas da classe
(idade, diplomas, profissão, simbolicamente designados por A, alta visitam os museus com maior freqüência do que os homens.22
B, C), pode-se calcular, portanto, as probabilidades P (Ai, Bj, Sem dúvida, para justificar a precária representação dos
Ck), ou seja, a probabilidade que uma pessoa de idade Ai, diploma agricultores (que se encontra no limite da significação estatística

40 41
o amor pela arfe condições sociais elaprática cullural
em razão da reduzida importância numérica dessa categoria de Tabela 1
visitantes), é necessário invocar, além do afastamento espacial, a
influência desfavorável da atmosfera cultural, própria ao meio
rural. No entanto, o fato de que a taxa de prática dos quadros TAXA DE FREQÜÊNCIA DE MUSEUS, POR ANO,
superiores, com um nível de instrução (C. E. P. ou B. E. P. C.) SEGUNDO AS CATEGORIAS*
inferior ao nível modal de sua categoria, seja inferior às outras
categorias sociais, leva a concluir, ainda aqui, que a instrução (expectativa matemática de visita, durante um ano, em porcentagem)
tem uma influência específica e determinante que não pode ser
compensada unicamente pelo pertencimento às classes sociais
mais elevadas, nem pela influência difusa dos grupos de referência.
Licence Sem
60
21,3
14,7
15,3
5,3
1,1
2,3 427122,8
B.E.P.C.
1,5
1,6
24,4
23,2
2,3
5,8
20,4
12,3
2,8
0,421,3
43,3258
3,886
vestibular
21,3
30,7
19,9 77,6
70,5
569,8
33,2
5,7
473,6
42,54,6
80,1
6,2
6,1
65,1
681,6
64,44,5
0,6
6,3
0,1
7,9
9,4
151,5
(163,8)153,7 1
0,7
1,9
7,5
4,9
0,4
1,1
0,3
0,2
9,8 2,0 1
2,80,5 e acima
Se os sujeitos classificados especialistas
na categoria
de dos artesãos e
diploma C.E.P.
conjunto (68,1)
comerciantes
superiores
quadros médios arte
comerciantes têm, em 45
os aaa24
acima
Sexo 64
todos Artesãos
Operários
15 anos
deanos
25níveis, 65uma
feminino
44 eanosanos taxa de freqüência de Professores,
Quadros
Empregados,
Conjunto
Sexo masculino
museus mais elevada do que as outras categorias é porque
Agricultores
pertencem, em grande parte, a uma subcategoria completamente
atípica, tanto por um nível de instrução superior à média da
categoria,23 quanto por opiniões mais próximas das opiniões das
classes superiores do que das opiniões das outras classes médias
(em particular, sobre a utilização de flechas e o tipo de visitas
preferido [cf. Apêndice 2, Tabela 2]): de fato, 15% exercem uma
profissão relacionada com a moda, 8% são livreiros ou
proprietários de gráfica e 36% (quase todos, em Paris)
desempenham uma atividade relativa à arte (antiquário e decorador,
ceramista, oleiro, desenhista de jóias e de cartazes).

Embora a maioria dos visitantes estejam de acordo ao julgar


que os preços de ingresso são bastante baratos [cf. Apêndice 3,
Tabela 3], podemos nos interrogar se, apesar de tudo, a renda
familiar não exerce uma influência específica sobre os ritmos de
freqüência, já que o custo de uma visita inclui outras despesas, no
mínimo tão importantes, tais como as despesas com transporte ou
os custos implicados em qualquer saída familiar, e se um freio
orçamentário não continuaria a agir, até mesmo, na hipótese da
gratuidade dos ingressos. A distribuição da renda segundo a
categoria sócio-profissional dos visitantes concorda, sem dúvida,
com a distribuição da renda dessas categorias, tal como aparece * Em relação aos outros países, ver o Apêndice 5.

42
o amor pela arfe condições sociais elaprdfica cuRural 43

•..
nas estatísticas do L N. S.E. E. * [cf. Apêndice 3, Tabelas 4 e 5]; no manifestamente pela influência da Escola. De todos os fatores, o
entanto, por impossibilidade de calcular as taxas de freqüência em nível de instrução é, de fato, o mais determinante. Uma pessoa do
função, ao mesmo tempo, da renda e do nível de instrução (por ser nível do C. E. P. tem, durante o ano, 2,3 possibilidades em cem de
desconhecida ainda a distribuição da renda dos franceses, segundo visitar um museu, o que eqüivale a afirmar que será necessário
seu diploma), não foi possível tirar qualquer conclusão a esse esperar quarenta e seis anos para que se realize a expectativa
respeito. Em todo caso, nada seria mais ingênuo do que esperar matemática de vê-Ia entrar em um museu:24 excetuando as visitas
que a simples queda do preço dos ingressos viesse a suscitar o efetuadas sob a influência direta da Escola, a maior parte dos
aumento da freqüência de museus por parte das classes populares. indivíduos dessa categoria nunca visitarão um museu. No nível do
Se a parcela dos sujeitos que visitam os museus ao domingo - e B. E. P. c., é necessário esperar quase cinco anos, mas passada a
mesmo quando, nesse dia, a entrada não é franca - em família, idade escolar, as visitas acontecerão somente de seis em seis ou de
quase sempre para acompanhar os filhos, decresce regularmente à sete em sete anos. Para os detentores de vestibular, o ritmo das
medida que se sobe na hierarquia social, é porque, antes de tudo, visitas será de três por ano, durante a idade escolar e, em seguida,
o lazer das classes populares encontra-se submetido, mais de uma visita de dois em dois anos. Em níveis superiores, a taxa de
estreitamente, aos ritmos coletivos [cf. Apêndice 2, Tabela 16]. visita é idêntica ao que era, para os níveis precedentes, a taxa na
idade escolar, o que é compreensível, já que neste caso a influência
Quanto à influência específica do habÍtat, ela não pôde ser
da Escola é comparável, ou seja, o ritmo estabiliza-se, nas idades
isolada (salvo para os rurais) em razão dos vínculos muito estreitos
que unem esta variável à categoria sócio-profissional e ao nível de pós-universitárias, por volta de duas visitas de três em três anos.
instrução. Tudo parece indicar, de fato, que as desigualdades culturais Como o diploma é um indicador bastante grosseiro do nível
associadas à residência estão ligadas às desigualdades de nível de cultural, pode-se pressupor que determinadas diferenças ainda
instrução e de situação social. Se, excetuando os pequenos museus, separam os visitantes do mesmo nível escolar, segundo diferentes
aos quais o "Guide Vert" não atribui nenhuma estrela, os museus características secundárias. E de fato, em nível igual, aqueles que
recebem quase exclusivamente visitantes que habitam as cidades receberam uma formação clássica são sempre mais representados
universitárias, é porque as possibilidades de residir em uma grande no público dos museus do que aqueles que não estudaram latim e
cidade aumentam à medida que se sobe na hierarquia social e também têm sempre ritmos de prática (declarados) mais intensos. Para
porque as pequenas cidades limitam-se a oferecer poucas evitar atribuir, como se faz freqüentemente, uma eficácia cultural
manifestações e incitações culturais. misteriosa, sobretudo, no caso particular, aos estudos clássicos, é
necessário evidentemente ver nessa variável, não um fator
O fato de que as faixas etárias mais jovens sejam mais
determinante, mas um índice de pertencimento a um meio culto,
fortemente representadas nos museus - a taxa de freqüência
permanece estável até a idade de sessenta e cinco anos, após uma já que se sabe que a orientação para tais estudos é cada vez mais
primeira ruptura em torno dos vinte e cinco anos -, explica-se freqüente, mantendo-se iguais todas as outras variáveis, à medida
que se sobe na hierarquia social. O tipo de estudos secundários
não é, certamente, a única nem a mais determinante das
* Sigla de Institut national de la statistique et des études économiques, organismo características secundárias que explicam que, entre os indivíduos
público francês, encarregado da publicação de estatísticas, pesquisas e estudos, em
particular, sobre a conjuntura econômica. (N.T.) dotados de determinado nível de instrução - por exemplo, o nível

45
44 o amor pela arle condições sociais da prálica cuRural
do vestibular, que pode ser considerado como a condição necessária, Sepressupomosque a populaçãoé homogêneae que designamospor
embora não suficiente, de uma freqüência assídua dos museus -, p a taxa de freqüênciaanualmédia,o número de pessoasque visitam,
ainda se possa distinguir diferentes graus de devoção cultural. pela primeiravez um museu, entre a idade t e a idadet + dt, é dado
Sabe-se que é possível constatar fortes variações nas práticas pela expressão (1 - p)t-I pdt; neste caso, a proporção total das
culturais, assim como nas preferências artísticas de indivíduos do "primeiras visitas" escreve-se em primeira aproximação:
mesmo nível escolar ou social, segundo o nível cultural de sua PI = _1_ tT (1- p)t-Ipdt
família de origem (avaliado pelo nível de instrução e pela profissão pT
de seus ascendentes em linha paterna e materna). Em razão da
em que T é da ordem de grandeza do período da vida (digamos
lentidão do processo de aculturação, sobretudo, em matéria de 50 ou 60 anos), durante o qual podem ser efetuadas visitas. Assim,
cultura artística, determinadas diferenças sutis, associadas à temos:
antigüidade do acesso à cultura, continuam, portanto, separando
indivíduos aparentemente iguais no que diz respeito à situação PI = -1 (1 _qT)
Tq log q
social e, até mesmo, ao nível escolar. A nobreza cultural possui,
igualmente, seus redutos. com q = 1 - p. Para p muito baixo, temos:
Para estabelecer se, à semelhança da taxa de praticantes, a
intensidade da prática (avaliada a partir de sua freqüência no
decorrer do tempo) aumenta à medida que o nível de instrução se
(PI tende para a unidade quando p tende a zero).
eleva, é necessário verificar se os praticantes têm uma prática
tanto mais intensa na medida em que representem uma proporção
Pelo contrário, se p é suficientemente grande, PI está próximo de
mais importante de sua categoria ou, ainda, se as diferentes
zero. Observemos que basta que p esteja próximo de 20% para
categorias separadas, segundo o grau de instrução, são
que PI esteja próximo de um. Concebe-se que, se a taxa de
homogêneas relativamente à freqüência de sua prática. Pode-se
freqüência é bastante reduzida, a proporção das primeiras visitas
ver uma prova disso no fato de que as classes sociais, mais
será bastante elevada e, no oposto, que se a taxa de freqüência é
representadas no público dos museus, são também as que declaram
importante, a maior parte dos visitantes serão freqüentadores
uma freqüência anterior mais intensa; eis o que ocorre, até mesmo,
assíduos. Em resumo, PIé uma função decrescente de p.
na Polônia, país em que o público é mais jovem e menos
competente em matéria de pintura do que o público francês ou Sabendo pela observação que, no nível do C. E. P.,P = 2,3% com
holandês.25 Além disso, a comparação da taxa teórica de primeiras T = 60, tem-se, por conseqüência, PI = 55%, número igual à
visitas ao museu (calculada na hipótese em que cada categoria proporção experimental, o que permite tirar a conclusão de que a
seria homogênea relativamente aos ritmos da prática) com a taxa população dos visitantes desse nível é homogênea, tanto mais que
das primeiras visitas efetivamente constatadas permite estabelecer os mesmos resultados podem ser obtidos escrevendo que a
que essa taxa é tanto mais elevada em determinada categoria, distribuição das visitas a um museu segue uma lei de Poisson de
quanto mais baixa for a taxa de freqüência de museus por parte parâmetro À = Tp, em que T e p têm a mesma significação,
dessa categoria, e inversamente. indicada mais acima.

47
46 o amor pela arle condições sociais da prática cullural
A título de verificação, aventemos a hipótese de heretogeneidade enquanto tal, uma influência determinante sobre a prática?
e admitamos que p corresponda à forma a PI em que PI é a taxa Considerando que a taxa experimental de primeiras visitas a um museu
de freqüência de uma subpopulação de importância relativa (e nunca excede, até mesmo nas categorias mais favorecidas, a taxa teórica
relativamente reduzida), enquanto à subpopulação complementar de primeiras visitas calculada na hipótese em que cada uma das
(de peso 1 - a) está associada uma taxa Pl nula de freqüência. categorias consideradas fosse perfeitamente homogênea, no que diz
Temos, então: respeito aos ritmos da prática, nada permite inferir que a taxa de
P=I I.aJT(I_p)t-Ipctt=
----- o 1 1 -1 [I-qTJ 1 freqüência do conjunto da população francesa (e, por conseguinte, o
a PI T ql T log ql público de museus) esteja, atualmente, em via de aumentar de forma
bastante sensível quando se sabe, por outros estudos, que a taxa
Encontra-se uma relação semelhante a (1); no entanto, desta vez,
global dos franceses com direito a férias está aumentando
ela diz respeito à taxa de freqüência PI da subpopulação dos
consideravelmente. Isso bastaria para nos levar a duvidar da eficácia
"devotos". PI revela-se próximo de zero, embora se presuma que
específica do turismo se não soubéssemos, por outro lado, que a
p esteja, igualmente, próximo de zero.
parcela dos que visitam museus apenas durante as férias (excetuando
De forma mais geral, mostra-se que se P2 não é rigorosamente os professores primários) é sempre bastante reduzida e que a proporção
nulo, tem-se: das primeiras visitas (indicador dos ritmos de freqüência) decresce,
PI # - ..]22- 1 [1 - TpJ
em cada categoria, à medida que a taxa de freqüência aumenta: isso
P P2T log q2 significa que o turismo só pode exercer um efeito diferencial segundo
as categorias sociais, já que - se ele pode incitar os sujeitos menos
que está próximo de zero se P2 é insignificante diante de p, o que
cultos a visitar pela primeira vez um museu - é, por si só, incapaz de
foi admitido como hipótese.16 Como o resultado teórico diverge,
determinar "conversões" duradouras [cf. Apêndice2, Tabela 6].
realmente, do resultado experimental, a hipótese de
heterogeneidade pode ser rejeitada. De fato, sabe-se que, em primeiro lugar, o turismo não é
independente da instrução já que a amplitude, a duração e a
Pode-se, portanto, considerar como comprovado que as
freqüência dos deslocamentos turísticos estão, de uma forma bastante
diferentes categorias de visitantes, distintas segundo o grau de
estreita, associadas à profissão e à renda, portanto, à instrução:
instrução, são homogêneas relativamente à intensidade de sua
23% das famílias, cujos recursos são inferiores ou iguais a 600 F
prática, que varia como a taxa de freqüência que as caracteriza, de
mensais, tiram férias, contra 93% das famílias, cujos recursos
modo que a prática se intensifica à medida que se eleva o nível de
superam 2.000 F; do mesmo modo, a parcela dos "veranistas" varia
instrução.
de forma considerável segundo a categoria profissional, ou seja, 18,5%
Se a freqüência dos museus é, em seus ritmos, quase dos agricultores, 55% dos operários, 60% dos artesãos e comerciantes,
independente das regularidades que definem o calendário social, 81 % dos quadros médios e 93% dos quadros superiores e
nem por isso deixa de estar integrada nele, pelo viés do turismo, representantes das profissões liberaisY
que favorece uma intensificação da prática cultural, da oposição
Além disso, o próprio estilo do turismo e o lugar reservado
sazonal entre os períodos de dias úteis e as férias. Será que isso
nele para as atividades culturais não dependem somente da estância
significa que, conforme afirmação corrente, o turismo exerce,
ou da duração das férias. Enquanto oportunidade, entre outras, de

48 49
o amor pela arle condições sociais da prálica cuflural
atualizar uma atitude culta, o turismo cultural, ou seja, o turismo do turismo é extremamente reduzida (8%) [d. Apêndice 2, Tabelas
que reserva um tempo para as visitas a museus, depende do nível 5 e 6]. Sem dúvida, mais de 25% dos sujeitos (28%) que entraram
de instrução ainda mais fortemente do que o turismo comum em um museu, na idade compreendida entre quinze e vinte e quatro
[d. Apêndice 2, Tabela 11]. A parcela dos sujeitos que, a pretexto anos, fizeram tal visita a pretexto do turismo, mas constituem apenas
do turismo, visitam museus cresce à medida que se sobe na 25% do público de museus; sem dúvida, metade daqueles que o
hierarquia social: passa de 45% relativamente às classes populares descobriram depois de terem completado vinte e quatro anos foram
para 61 % das classes médias e 63% das classes superiores [d. induzidos a tal visita pelo turismo, mas representam apenas 3% do
Apêndice2, Tabela 17].28Inversamente, 56% dos visitantes das classes conjunto dos visitantes. Em suma, as possibilidades de descobrir o
desfavorecidas visitam o museu de sua própria cidade contra 52% museu pelo turismo aumentam à medida que se avança em idade,
dos membros das classes médias e 33% dos membros das classes ou seja, à medida que decrescem as possibilidades de descobri-Io;
superiores [cf. Apêndice 2, Tabela 10]. Do mesmo modo, 75% dos assim, bastaria dar a incitação inicial, uma vez que o turismo não
visitantes que habitam em municípios cuja população é inferior a pode compensar a ausência de formação artística ou intelectual.
30.000 habitantes freqüentam o museu de sua cidade, o que, entre Como o turismo está associado ao nível de instrução por
outras coisas, pode significar que os visitantes originários das intermédio da renda, os visitantes que têm as oportunidades mais
pequenas cidades ou das aldeias vizinhas sentem-se menos deslocados freqüentes de visitar os museus identificam-se com os que sentem
no museu local - habitualmente, menos solene - do que em um maior inclinação em proceder a tal visita. Trata-se aí de uma das
grande museu turístico; ou, então, relativamente aos menos cultos, conjunções que fazem com que, em matéria de cultura, tanto as
pode significar que eles entraram no museu por acaso e com o objetivo vantagens como as desvantagens sejam cumulativas. Portanto, a
de passar o tempo, por ocasião de uma de suas idas à cidade. De influência exercida pelo turismo sobre a freqüência dos museus é
fato, raros no conjunto do público de museus (8%), os visitantes limitada, antes de mais nada, em sua duração, já que se trata de um
que afirmam explicitamente ter entrado no museu por acaso fenômeno sazonal; mas sobretudo, em seu alcance, já que aparece
recrutam-se, sobretudo, entre os representantes das classes mais como condição permissiva e não como causa necessitante: ele pode
desfavorecidas (ou seja, 36% dos agricultores e 27% dos operários) facilitar a prática cultural ampliando o campo das ocasiões de visita,
e, à semelhança do que ocorre com a parcela dos visitantes por acaso, embora, por si só, não seja suficiente para determinar uma
a proporção daqueles que afirmam ter vindo para acompanhar os intensificação da prática. Em outra linguagem, se é demasiado
filhos não cessa de decrescer, à medida que se sobe na hierarquia evidente que o turismo cultural pressupõe o turismo (na qualidade
social ou à medida que cresce a atração turística do museu visitado de condição necessária), nem por isso deixa de variar nos limites
[cf. Apêndice 2, Tabela I 7]. Segue-se de tudo isso que até mesmo na assim definidos, como o nível de instrução e não como o turismo.
hipótese de que as oportunidades turísticas viessem a tornar-se iguais, À maneira da exposição, o turismo reativa os sentimentos de
as diferentes categorias sociais continuariam a conformar-se, de obrigação que são constitutivos do sentimento de fazer parte do
forma desigual, com o turismo cultural. mundo culto; quando a visita habitual a um museu sempre acessível
Ainda, por um grande número de índices, vê-se que a ação a todos escapa aos ritmos e controles coletivos e nada fica devendo
específica do turismo se reduz a quase nada. Assim, a parcela dos às pressões difusas que impõem a participação (enquanto presença
visitantes que pela primeira vez entraram em um museu a pretexto e representação) nas cerimônias coletivas, é um verdadeiro programa

51
50 o amor pela arfe condições sociais da práfica cu/iural

i:lrüi
de práticas obrigatórias que, por ocasião dos deslocamentos Como os imperativos culturais só podem constranger aqueles
turísticos, é invocada por aqueles que têm ambições culturais mais que entendem manifestar seu pertencimento ao mundo culto, ao
consistentes, ou seja, aqueles que pertencem ou aspiram a fazer obedecerem às regras que definem precisamente tal pertencimento,
parte do mundo culto: este programa recebe sua força de coerção _ a intensificação da prática favorecida pelo turismo é tanto mais forte
pelo menos, em parte - das normas difusas, definidas e evocadas quanto mais se avança em direção às classes mais cultas (definidas
pelos grupos de referência, amigos ou companheiros de trabalho por um nível de recepção mais elevado); além disso, os deslocamentos
aos quais serão relatadas as férias e, também, pelos manuais turísticos turísticos podem oferecer, no máximo, algumas possibilidades
da arte de viver - "Guide Bleu" utilizado, sobretudo, pelas classes suplementares de visitas aos sujeitos das classes populares que, na
superiores; "Guide Vert", mais comum entre as classes médias _ maior parte do tempo, não passam de visitantes por acaso. Enquanto
que ditam o que deve ser feito para poder falar aos outros e dizer a si os membros das classes cultas sentem-se convocados a respeitar
mesmo que já se "conhece" a Grécia ou a Itália. "Não poderia deixar determinadas obrigações culturais que lhes são impostas na qualidade
Lille sem visitar seu museu - diz um quadro superior; já tinha ouvido do dever-ser constitutivo de seu ser social, os membros das classes
falar de seus belos quadros." Por conseguinte, o crescimento populares que, em sua prática, rompessem com as normas estéticas
(correlato de um aumento do volume global dos visitantes) da e culturais respeitadas pelas pessoas à sua volta (procedendo à
representação das classes favorecidas, do ponto de vista social e decoração de suas casas com reproduções de quadros, em vez de
cultural, observado em alguns museus por ocasião das férias, é tanto qualquer outra imagem, ou escutando música clássica, em vez de
mais marcante quanto maior for sua força de atração turística canções) seriam chamados à ordem por seu grupo, pronto a perceber
(definida pela notoriedade da cidade em que se encontram e, o esforço para "se cultivar" como uma tentativa para "se aburguesar";
sobretudo, pela celebridade das obras do seu acervo) e, e, de fato, a boa vontade cultural das classes médias é um efeito da
correlativamente, quanto mais elevado for o nível de informação ascensão social, ao mesmo tempo que uma dimensão essencial da
que eles propõem [d. Apêndke2, Tabela 9].29 aspiração aos direitos (e aos deveres) da burguesia. Na medida em
Assim, o Museu de Autun, grande museu turístico (pelas célebres que as aspirações são sempre avaliadas de acordo com as possibilidades
obras de seu acervoe pela qualidade excepcionalda apresentação), objetivas, o acesso à cultura erudita, assim como a ambição de ter
recebe quase exclusivamente um público de turistas cultos (75% acesso a ela, não pode ser o produto milagroso de uma conversão
são detentores do vestibular), diferentemente das cidades de cultural, mas, no estado atual, pressupõe uma mudança de condição
econômica e social.
importância equivalente, tais como Moulins (uma estrela) ou Agen
(três estrelas), em que o público localrepresenta, respectivamente, Assim, as relações observadas entre a freqüência assídua de
21 % e 14% dos visitantes. No conjunto dos museus que receberam museus e determinadas variáveis, tais como a categoria sócio-
de uma a quatro estrelas, a parcela relativa dos operários chega a profissional, a idade ou o habitat, reduzem-se quase totalmente à
14% do público, limitada a 4% no conjunto dos outros museus e relação entre o nível de instrução e tal freqüência. Uma prova
nula nos dois Museus de Paris Ueu de Paume e Arts décoratÍfs), suplementar pode ser encontrada no fato de que a análise fatorial
cujo público é particularmente aristocrático. Em compensação, a aplicada, separadamente, a duas subpopulações (o que tende a
proporção dos quadros superiores passa de 41,5% nos museus neutralizara influência do nível de instrução) - ou seja, a dos
com uma estrela para 71,3% no Musée duJeu de Paume. visitantes de nível inferior ao vestibular e a dos visitantes que, no

52
o amor pela arle condições sociais da prálica cufiural 53
mlmmo, são titulares desse diploma - não identifica correlações Os diferentes tipos de relações entre as diferentes variáveis
significativas entre as diferentes variáveis selecionadas (seja em que foram descritos mais acima podem ser resumidos sob a forma
relação a características sociais e culturais ou a atitudes e opiniões) do seguinte esquema lógico.
quando, relativamente ao conjunto da população, relações bastante Os dados da experiência podem ser indicados da seguinte maneira:
fortes unem cada uma dessas variáveis no nível de instrução.30
(1) F=I
A população dos visitantes, cujo diploma é inferior ao vestibular, (2) F=C
é ligeiramente menos homogênea, de modo que aparecem (3) F=R
correlações inferiores ao patamar de significação, embora (4) F=A
ligeiramente mais fortes do que na outra categoria. Isso explica-se (5) F;tS
pelo fato de que, abaixo do nível que define o visitante moda!, o e (6) F - I ;t C (em primeira aproximação)
"rendimento" do ensino é fortemente crescente, de modo que (7) F-I;tR
pequenas diferenças de nível cultural implicam fortes diferenças mas (8) F-I'= A
de comportamento; no entanto, o inverso é verdadeiro para a
população de nível superior ao vestibular [d. Apêndice 2, Tabelas SIMBOLISMO UTILIZADO
22 e 23]. Daí, como veremos, segue-se que um ano de ensino
X--7Y estocasticamente
causa de Z; Y é uma variável
suplementar pode levar ao museu um número mais elevado de XxY
X--7Y
X=Y = Y,estocasticamente,
--7Z necessariamente
que Operadores o que
de implica
Escola
Renda
Turismo
Sexo
Idade*
Nível XeYestãoassociados
de
X
é,Xeem
Categoria Instrução
implicaYprofissional
Variáveis são
aplicado
Finalmente, independentes
sobrese
evidentemente
probabilidade,
X;tYimplica
YXX-Y
causa =X
será
XdeZ; Y,não
X
Y é é causacausa
de Y,ou Y de X
X.
visitantes suplementares entre as classes menos cultas do que entre
visita variável
mas não
definirdo
diferente
empírica oY -residual
o contrário
neutralizando símbolo
X.
constatadaem Xuma
X obtida,
- aY
entreligação
como
X e Y;a
ISR seria possível
permissiva,masnão definir variável
F (familiar e escolar)
os detentores de um diploma igualou superior T Campo das dos
A Freqüência
E ao vestibular.
PC
museus
ocasiões da
A existência de uma relação tão forte entre o nível de instrução
e a prática cultural não deve dissimular que, considerando os
pressupostos implícitos que a comandam, a ação educativa do sistema
escolar tradicional só pode alcançar toda a sua eficácia enquanto se
exercer sobre indivíduos previamente dotados, pela educação familiar,
de uma certa familiaridade com o mundo da arte: daí, segue-se que a
ação da Escola - exercida de forma bastante desigual (nem que fosse no
que diz respeito à duração) sobre as crianças oriundas das diferentes
classes sociais e que não é bem-sucedida senão de forma bastante
desigual junto àqueles que ela atinge - tende, pelo menos, em países
como a França ou a Holanda,31 a reduplicar e consagrar, por suas sanções,
as desigualdades iniciais diante da cultura. Assim, considerando que a
parcela daqueles que receberam da família uma iniciação precoce cresce
consideravelmente com o nível de instrução, o que é possível identificar
através do nível de instrução limita-se a ser o acúmulo dos efeitos da
formação adquirida no seio da família com as aprendizagens escolares,
* Em francês, âge
por sua vez, pressupostas por tal formação.

55
54 o amor pela ar/e condições sociais da prálica culfural
Esta última relação (8) traduz, de fato, a relação causal (9) primeira visita não tenha continuidade; no entanto, ocorre que,
E -7 F (ação direta da Escola). além de um certo número de visitas, a familiarização resultante
Pode-se, portanto, induzir a relação causal fundamental: da freqüência repetida deve reforçar a disposição para tal
(10) 1-7 F assiduidade.

Daí, o gráfico:
É fácil dar conta, então, de todas as relações empíricas porque
I -7 R o que implica I= R
I -7 C o que implica I= C

Se as relações (1) a (7) tivessem um caráter absoluto e não empírico,


estaria se tratando de uma verdadeira demonstração. Nada impede,
portanto, de determinar F - C ou F - R e estabelecer relações:
F-C=I e F-C;tR
F-R=I e F-R=C

Daí, resulta que I possui a maior "virtude" explicativa. Em


compensação, o procedimento estatístico encontra, aqui, seu Finalmente, se este esquema é válido, I desempenha o papel de
limite; e, ainda, convirá estabelecer a lógica das relações causais. uma variável latente no sentido de Lazarsfeld, ou seja, de tal modo
que todas as correlações parciais, tais como r (i, j, 1) sejam nulas;
Falta reintroduzir o turismo. A relação (10) deve ser completada
pela relação evidente: neste caso, i e j designam a variável que se quiser e, em particular,

(11) IxP-7F uma das numerosas variáveis de atitude que se pode imaginar.
Em compensação, cada uma dessas variáveis pode depender de L
o nível de instrução age sobre um campo de ocasiões de visita P
O cálculo da matriz [rjj] para a subpopulação inferior ao nível do
[correspondente, na Terceira Parte, à soma ill(x)].
vestibular e à população superior a esse nível [ver supra, p. 54 e
Se este campo está vazio (igual a zero), Apêndíce 2] coloca em evidência, além disso, a existência de
I x (P = O) -7 O "classes latentes", ou seja, de classes em que cada uma se reagrupa,

T faz parte de P, portanto; praticamente, em determinado ponto do campo da variável latente,


isto é, uma classe além do vestibular - que poderia corresponder
(12) I x T -7 F
rigorosamente ao que se chama comumente o público culto - e,
Em compensação, se T = O, tem-se sempre I x (T = O) -7 F e a no mínimo, duas aquém do vestibular.
relação T -7 F só é verdadeira se existir L
Por se estabelecer no intermédio de diferenres variáveis, em
Por último, podemos nos interrogar se a relação F -7 F é si mesmas independentes, a relação entre a variável explicativa e a
comprovada, ou seja, se a freqüência pode, por si só, implicar uma variável explicada apresenta uma grande estabilidade, manifestada
intensificação da freqüência. De fato, verificam-se todas as pela análise comparativa da estrutura social do público dos museus
possibilidades de que, em relação aos sujeitos poucos cultos, a de países tão diferentes, em diferentes aspectos, tais como a Espanha,

56
o amor pek ar/e condições sociais da prática cufiural 57
a França, a Grécia, a Holanda e a Polônia. Todas as diferenças que do público, cuja freqüência está associada de forma mais estreita à
incidam apenas sobre uma das variáveis intermediárias - por exemplo, influência direta ou indireta da escola, é também bastante estável,
o turismo ou a distribuição por categoria sócio-profissional - não já que os estudantes e os escolares representam 31 a 32% dos
são acompanhadas por nenhuma modificação importante relativa à públicos francês, grego e holandês, além de 39% do público polonês.
freqüência, como mostra o caso da Polônia que recebe um número A distribuição por sexo é também bastante semelhante nos diferentes
bastante reduzido de turistas estrangeiros ou a constância das países; por toda parte, os homens são mais representados do que as
estruturas dos públicos de países dotados de estruturas sociais mulheres. Se, diferentemente da França, a proporção das mulheres
bastante diferentes. Tudo acontece como se a eficácia de cada um permanece inferior à dos homens, até mesmo nos níveis de instrução
dos fatores secundários estivesse subordinada à estrutura do mais elevados, é porque a parcela das mulheres que terminam os
conjunto dos fatores, de modo que a modificação de um deles pode estudos superiores é inferior à dos homens; assim, pelo menos, à
sempre ser compensada, enquanto a estrutura do conjunto não sofrer primeira abordagem, somente a Polônia distingue-se dos outros
a transformação sistemática que, segundo parece, seria a única capaz países por um conjunto de diferenças do mesmo sentido que, segundo
de afetar, de maneira sensível, a relação fundamental entre a instrução parece, traduzem o efeito de uma ação escolar mais intensa.32
e a freqüência. Todavia, por não termos relacionado a distribuição do público
O público de museus, analisado segundo as principais de museus de arte dos diferentes países, segundo as diferentes
variáveis sócio-demográficas, apresenta características sensivelmente variáveis, com a distribuição da população global segundo as mesmas
comparáveis nos diferentes países estudados: assim, a proporção variáveis, expomo-nos a considerar disparidades ou similitudes que
dos visitantes que receberam uma educação secundária ou superior podem referir-se a simples diferenças morfológicas como se fossem
atinge 89% na Grécia, 78% na França, 63,3% na Holanda (e 90,4% tributárias de diferenças institucionais ou culturais. É evidente,
se for incluído o primário superior), contra 60% somente na Polônia por exemplo, que a comparação direta entre duas populações de
[cf. Apêndke 5, Tabela 1]. Os jovens de idade compreendida entre visitantes só tem sentido se as populações globais correspondentes
quinze a vinte e cinco anos constituem sempre uma importante apresentarem composições semelhantes, pelo menos, no que diz
parcela do público, ou seja, 41 % dos visitantes gregos, 39% dos respeito à idade e ao nível de instrução, assim como ao conjunto
visitantes franceses e holandeses, além de 47% dos visitantes dos fatores associados à freqüência. Quando não existem tais
poloneses [d. Apêndke 5, Tabela 2]. Por toda parte, as taxas de condições, só é possível comparar as características de categorias
freqüência decrescem com a idade, sensivelmente segundo a mesma dotadas de propriedades idênticas. Por sua vez, esta comparação só
lei. Nesses diferentes países, é mínima a diferença de estrutura social encontra seu fundamento na hipótese em que a estrutura global
do público: os operários representam 2% dos visitantes gregos e das características inerentes às diferéntes categorias, ou dos fatores
holandeses, 4% dos visitantes franceses e 10% dos visitantes que as comandam, não possa ser considerada, em si mesma, como
poloneses; por sua vez, a proporção dos agricultores é sempre inferior um fator determinante dos diferentes tipos da prática: assim, uma
(ou seja, entre 1 e 3%). As proporções dos quadros médios, quadros prática determinada, em sua totalidade ou em parte, pela busca da
superiores e professores ou especialistas de arte são notavelmente "distinção" que se designa comum ente pelo nome de esnobismo
constantes já que se situam, respectivamente, em torno de 17% depende da importância numérica relativa do grupo ou da classe
(13% na Grécia), 15% e 8 a 10% [d. Apêndke5, Tabela 3]. A parcela social implicados em tal busca e, sobretudo, de sua posição na

59
58 o amor pela arle condições sociais da prdlica cu/iural
estrutura social, de modo que toda modificação de uma parte do estatísticas, ou mais exatamente ao princípio dessas relações,
sistema das relações entre os grupos envolvidos implicaria na permitem reencontrar as estruturas de todos os outros sistemas de
modificação das características do conjunto dos grupos. A questão relações, com exceção de algumas variáveis independentes,
é particularmente importante por se tratar de práticas culturais que, relativamente pouco numerosas e secundárias, cujas variações são
como se sabe, obedecem, em geral, à dialética da divulgação e da independentes das variáveis associadas.
distinção.
Em um primeiro momento, pode-se relacionar a distribuição
Com todo o rigor, a comparação metodologicamente do público segundo a idade ou o nível de instrução, com a
irrepreensível das características dos diferentes públicos pressupõe distribuição da população nacional segundo as mesmas relações, a
que se possa construir o sistema das co-variâncias pelas quais a fim de determinar se as diferenças constatadas na composição dos
estrutura do sistema de relações entre diferentes variáveis, que diferentes públicos são o efeito de diferenças na estrutura demo gráfica
definem o público de cada país, se transforme em uma outra, de e escolar da população global. Observa-se então que, como sugeria a
modo que, a cada um dos sistemas estudados, seja possível conferir leitura direta das distribuições por idade, a parcela relativa dos jovens
sua posição no âmbito do conjunto dos casos possíveis, incluindo no público é maior na Polônia. Neste caso, a relação entre a
os que foram realmente observados. Isso significa que, estabelecida população dos visitantes com idade compreendida entre quinze e
pela sondagem a estrutura dos públicos dos diferentes museus da vinte e cinco anos no público de museus de arte e a proporção
Europa, ou seja, o sistema das relações diretas ou mediatas entre correspondente na população nacional passa de 3 na Polônia, para
variáveis dependentes ou independentes - tais como sexo, idade, 2,8 na França, 2,15 na Grécia, 2 na Holanda; além disso, o decréscimo
nível de instrução, categorias sócio-profissionais, preferências em da freqüência com a idade é tanto mais forte quanto maior é a parcela
matéria de pintura, expectativas relacionadas com a organização dos dos jovens no público de cada país [d. Apêndice 5, Tabela 3]. É
museus e com a apresentação das obras, etc. -, pretenderíamos levar difícil estabelecer a separação entre o que deve ser imputado à idade
em consideração os valores de posÍção que cada uma dessas relações e o que deve ser imputado à geração, já que, sobretudo no caso da
deve a seu pertencimento a um sistema particular de relações: no Polônia, as diferentes gerações foram submetidas a sistemas de
entanto, semelhante comparação sistemática teria pressuposto uma ensino profundamente diferentes; além disso, tudo leva a pressupor
informação sistemática sobre o conjunto das características dos que, ao democratizar-se - por conseguinte, atingindo classes sociais
diferentes subsistemas de cada nação e, em particular, um dotadas de um capital cultural menos importante - qualquer sistema
conhecimento aprofundado de cada um dos sistemas de ensino, com de ensino perde sua eficácia para essas novas categorias.
suas tradições pedagógicas próprias, as diferentes políticas culturais,
Muito mais difícil é proceder a uma comparação metódica das
etc. Para evitar, em todo caso, comparar o incomparável e omitir de
relações entre a proporção dos visitantes dotados dos diferentes níveis
comparar o comparável, era importante controlar a ação sistemática
de instrução e a proporção das populações correspondentes no
exercida pelo sistema das características demográficas e sociais
conjunto da população. De alguma forma, todas as diferenças
inerentes a cada país - ou seja, a estrutura da população segundo o sistemáticas entre os diferentes sistemas escolares acabam ficando
sexo, a idade, o emprego e o nível de instrução - sobre cada uma das
inscritas em cada uma das relações comparadas: pelo fato de que os
relações, determinando as leis de transformação que, conhecimentos adquiridos na escola, correspondentes a um mesmo
sistematicamente aplicadas a um dos sistemas de relações número de anos de estudos ou a um diploma "equivalente", podem
60
o amor pela arle condições sociais daprálica cuJiural 61
variar consideravelmente - segundo o conteúdo do ensino e, em entradas não são levadas em consideração; qualquer procedimento
particular, do ensino de cultura; segundo os métodos pedagógicos utilizado para contar o número de visitantes - seja pela estimativa
utilizados e os valores que, implícita ou explicitamente, regem a dos guardas, por catraca ou célula foto elétrica - acaba apresentando
transmissão da cultura e, em particular, da cultura artística; segundo diversos inconvenientes que só poderiam ser evitados pela contagem
o recrutamento social dos docentes e discentes; e segundo o modo dos ingressos individuais ou coletivos. Ainda mesmo nestas
de atribuição dos diplomas escolares (concurso, exame ou simples condições, é possível tentar determinar os fluxos teóricos de
certificado de escolaridade), etc. -, assim também as categorias visitantes nos diversos países estudados ao lhes atribuir as
definidas pela posse de diplomas, formalmente equivalentes, podem expectativas de freqüência do público de museus franceses, ou seja,
diferir profundamente em sua aptidão para a prática cultural e em na hipótese em que os comportamentos das diferentes categorias
suas atitudes em relação à cultura. A despeito de tais reservas, dos países estrangeiros fossem idênticos aos das categorias homólogas
observa-se que, em todos os países, a distribuição dos ratios de da população francesa; assim, a comparação de tais fluxos teóricos
freqüência obedece à mesma lei: os ratios entre a proporção de com os fluxos declarados deveriam permitir que nos interrogássemos
visitantes de museus dotados de um nível de instrução superior e a sobre os fatores explicativos que, depois da exclusão dos fatores
proporção correspondente da população são de 17,3 na Holanda, demográficos, pudessem justificar desvios superiores aos erros de
12,5 na França, 11,7 na Polônia e 11,5 na Grécia, contra 20 na avaliação.
Holanda, 10,5 na Grécia, 10 na França e 1 na Polônia, no nível Quando - por exemplo, no caso da Grécia - dispomos da
secundário; por sua vez, no nível primário, situam-se em torno distribuição da população segundo o sexo, a idade e o nível de
de 0,5 em todos os países, com exceção daPolônia (1,5) [cf.ApêndÍce5, instrução, basta aplicar as expectativas matemáticas de visita das
Tabela 4].33 diferentes categorias da população francesa [d. acima, Tabela 1] para
Para avançar além de uma simples comparação das estruturas determinar o que seria o fluxo teórico anual de visitantes gregos, na
do público ou, até mesmo, das estruturas corrigidas pela ponderação hipótese em que as diferentes categorias da população grega tivessem
das categorias consideradas na população global, seria necessário, expectativas de visita semelhantes às das categorias correspondentes
com todo o rigor, calcular, como se fez em relação à França, as da população francesa: como este fluxo teórico pode ser estimado
expectativas de freqüência associadas a cada uma das categorias em cerca de 640.000 visitantes, vemos que os gregos têm uma prática
reputadas como homogêneas no que diz respeito a tal assiduidade; que, segundo parece, é nitidamente mais reduzida do que a dos
mas, de fato, os diferentes censos nem sempre fornecem as franceses, já que, segundo é demonstrado pela sondagem junto ao
distribuições da população segundo a idade e o nível de instrução. público de museus gregos, em 1.300.000 visitas registradas no
Ainda outro aspecto, além de nunca isolarem o público nacional, as conjunto dos museus helênicos, 10% somente dizem respeito ao
estimativas oficiais dos fluxos anuais de visitantes limitam-se a público nacional. Em relação à Polônia, o fluxo teórico calculado
apoiar-se em estatísticas das entradas nos museus, estabelecidas segundo o mesmo método atinge o número de 1.850.000 visitas,
sem a preocupação de garantir a comparabilidade entre os diferentes enquanto o número total dos visitantes dos cinco maiores museus
países ou, até mesmo, entre os diferentes museus de determinado poloneses (Varsóvia, Cracóvia, Lodz, Lublin e Wroclaw) se eleva, em
país: a contagem das visitas gratuitas ou as visitas coletivas obedece 1963, a cerca de 2.300.000 (este número inclui as visitas gratuitas
a métodos diferentes e, às vezes, é descurada; em alguns museus, as contadas por meio de uma célula foto elétrica no Museu de Varsóvia,

63
62 o amor pela arle condições sociais da prática cuDural
o que implica, sem dúvida, uma superestimação): daí, podemos Escola, particularmente, intensa, cujos efeitos podem ser avaliados
concluir que a freqüência dos poloneses é, mantendo-se iguais todas pela taxa bastante elevada de escolares e estudantes entre os visitantes
as outras variáveis, ligeiramente superior à dos franceses. Em relação (e, correlativamente, pela elevada taxa de jovens), assim como pela
à Holanda, a falta de informações sobre a distribuição da população elevada taxa de visitantes que devem sua primeira visita à Escola.
por idade e por nível de instrução obriga a proceder a uma estimativa De fato, tudo parece indicar que o público polonês que, em relação
a partir de dados existentes, portanto, a introduzir um elemento à freqüência, se situa no mesmo plano do público holandês ou
suplementar de incerteza: por exemplo, foi necessário admitir que francês, distingue-se muito mais nitidamente desses dois públicos
os efetivos de diplomados do ensino secundário e do ensino superior por suas atitudes e opiniões que parecem revelar um nível de
eram proporcionais, em cada faixa etária, ao número de diplomados competência artística mais próximo do nível do público grego do
de cada uma dessas ordens de ensino na época em que a categoria que do nível dos outros dois públicos. Quando se considera, de
considerada se encontrava em idade de obter diplomas (ou seja, por fato, indicadores de atitude ou de competência tão diferentes quanto
exemplo, que o número de indivíduos de quarenta a cinqüenta anos o tipo de visita desejado [cf.Apêndice 5, Tabela 5], as opiniões sobre
com um nível de instrução superior era proporcional ao número de os subsídios desejados [cf.ApêndiceS, Tabela 6], as preferências em
diplomas atribuídos entre os anos de 1940 e 1950). Seja qual for o matéria de pintura [cf. Apêndice 5, Tabela 7], ou de gênero artístico
grau de aproximação desse cálculo, parece possível dizer que a [cf. Apêndice 5, Tabela 8], o tipo da primeira visita [cf. Apêndice 5,
freqüência dos holandeses é praticamente igual à dos franceses, já Tabela 9] ou o número de museus precedentemente visitados [cf.
que o fluxo teórico de 2.300.000 visitantes é inferior ao fluxo Apêndice 5, Tabela 10], etc., observa-se que a Grécia, a Polônia, a
oficialmente declarado para o público de museus holandeses França e a Holanda se classificam regularmente na mesma ordem;
(3.500.000), embora igual ao fluxo nacional tal como ele pode ser assim, a probabilidade de aparição de atitudes e de opiniões que, em
calculado por subtração dos visitantes estrangeiros (ou seja, segundo determinado país, estão associadas a um elevado nível de instrução
a sondagem junto ao público, 42% dos visitantes). (e, por conseguinte, a uma posição elevada na sociedade), é tanto
Assim, no que diz respeito às taxas de freqüência, a Polônia, mais forte para o conjunto das categorias de determinado país quanto
a Holanda e a França opõem-se nitidamente à Grécia: como se sabe, mais elevada for sua posição na hierarquia dos países estudados. É,
este país tem taxas de escolarização bastante inferiores às dos outros sem dúvida, na distribuição dos públicos dos diferentes países
três países, além de reservar um espaço reduzidíssimo ao desenho e segundo o tipo da primeira visita ao museu que, mais claramente,
à história da arte em um sistema de ensino primordialmente se revela o modo privilegiado de transmissão da cultura artística
consagrado à língua e à literatura antigas. A elevada taxa que se (que é o princípio da relação privilegiada com essa cultura) e, por
verifica na Polônia deve ser imputada, segundo parece, não tanto a conseguinte, a antigüidade e a força da tradição cultural: as primeiras
uma ação direta que tivesse sido exercida sobre o público adulto visitas são suscitadas pela família, de forma mais freqüente, na
(como é testemunhado pela taxa bastante reduzida de visitantes Holanda e na França (e, com maior freqüência na Holanda do que
que afirmam ter entrado, pela primeira vez, em um museu, na idade na França); pela Escola, com uma freqüência muito maior, na Polônia;
adulta, por ocasião de visitas promovidas por associações ou e pelo acaso ou pela recomendação de um amigo, muito mais
organismos de ação cultural), mas a uma transformação da freqüentemente, na Grécia [cf. Apêndice 5, Tabela 9]. Assim, como
significação social do museu e, sobretudo, a uma ação direta da mostra também a comparação dos números médios de pintores ou

65
64 o amor pela arle condições soáais da prálica cuBura!
de escolas de pintura citados, em nível de instrução equivalente, transmissão da cultura artística, compreende-se que a prática cultural
pelos visitantes dos diferentes países [d. Apêndice 5, Tabela 7], a e, mais ainda, a competência artística e as atitudes em relação às
Holanda e, em menor grau, a França - país em que a tradição artística, obras culturais estejam estreitamente associadas ao capital cultural
ao mesmo tempo antiga e sempre viva, portanto profundamente nacional: toda a tradição cultural dos países de velha tradição exprime-
inscrita nos costumes das classes privilegiadas - opõem-se a países, se, de fato, em uma relação tradicional com a cultura que não pode
tais como a Grécia, país em que a freqüência de museus e o gosto ser constituída em sua modalidade própria, com a cumplicidade das
pela arte estão reservados a uma minoria de amadores apaixonados, instituições encarregadas de organizar o culto da cultura, a não ser
ou a Polônia que, à escala da sociedade, tende a compensar a no caso em que o princípio da devoção cultural foi inculcado, desde
fragilidade relativa de seu capital cultural por uma espécie de boa a primeira infância, pelas incitações e sanções da tradição familiar.
vontade cultural.34 Tudo parece indicar que as diferentes estruturas
das distribuições das atitudes, segundo os níveis de instrução ou as
classes sociais, podem ser obtidas por translação a partir de uma
dessas variáveis, como se o princípio de todas as diferenças
sistemáticas em matéria de competência artística e, sobretudo, talvez,
de atitude em relação à cultura, que separam os visitantes dos
diferentes países, não fosse outra coisa senão o que poderia ser
designado por capital cultural nadonal; este seria avaliado pelo grau
de desenvolvimento do sistema de ensino (e pela antigüidade desse
desenvolvimento), assim como pela importância do capital artístico
que, por sua vez, depende da antigüidade e da vitalidade das tradições
artísticas (cujos índices seriam encontrados na existência de escolas
de pintura, de coleções particulares, etc.).35 A dupla posição da
Polônia se explicaria, então, pelo fato de que o efeito de aceleração
do processo de aculturação, em decorrência da intensificação da ação
direta da Escola, manifesta-se de uma forma mais diretamente
observável nas práticas do que nas atitudes e aptidões: o decréscimo
particularmente rápido, com a idade, das taxas de freqüência do
público polonês dá testemunho, com efeito, de que uma disposição
à prática que seja inculcada principalmente pela Escola está votada
a enfraquecer-se mais rapidamente do que a disposição produzida
pela ação escolar quando exerci da sobre indivíduos dotados, tais
como as crianças oriundas das classes privilegiadas dos países da
"velha cultura", da familiaridade adquirida pelas experiências
precoces. Considerando a parte que pode caber à família na

66 67
o amor pela arle condições sociais da prdlica cufiural
seyunda parle

obras cuRurais
e dispOS1ÇãocuRa
A estatística revela que o acesso às obras culturais é privilégio
da classe culta; no entanto, tal privilégio exibe a aparência da
legitimidade. Com efeito, neste aspecto, são excluídos apenas aqueles
que se excluem. Considerando que nada é mais acessível do que os
museus e que os obstáculos econômicos - cuja ação é evidente em
outras áreas - têm, aqui, pouca importância, parece que há motivos
para invocar a desigualdade natural das "necessidades culturais".
Contudo, o caráter autodestrutivo dessa ideologia salta aos olhos:
se é incontestável que nossa sociedade oferece a todos a possibilidade
pura de tirar proveito das obras expostas nos museus, ocorre que
somente alguns têm a possibilidade real de concretizá-Ia.
Considerando que a aspiração à prática cultural varia como a prática
cultural e que a "necessidade cultural" reduplica à medida que esta
é satisfeita, a falta de prática é acompanhada pela ausência do
sentimento dessa privação; considerando também que, nesta matéria,
a concretização da intenção depende de sua existência, temos o
SerpentÍn: "Ao dirigir-lhe meu pensamento, este reflete-se em sua mente na
direito de concluir que ela só existe se vier a se concretizar. O que é
medida em que encontra aí idéias correspondentes e palavras convenientes. Aliás, raro não são os objetos, mas a propensão em consumi-Ios, ou seja,
ele formula-se aí por meio de palavras que, segundo parece, o senhor entende; e a "necessidade cultural" que, diferentemente das "necessidades
reveste-se de sua própria língua, de suas frases habituais. Provavelmente, seus
acompanhantes entendem o que lhe digo, mas, cada um conservando suas básicas", é produto da educação: daí, segue-se que as desigualdades
diferenças individuais de vocabulário e de elocução." diante das obras de cultura não passam de um aspecto das
Barnstaple: "E eis a razão pela qual, uma vez por outra - por exemplo (...) desigualdades diante da Escola que cria a "necessidade cultural" e,
quando o senhor se eleva até idéias, de cuja existência nossas mentes nem
suspeitam -, não entendemos nada." ao mesmo tempo, oferece os meios para satisfazê-Ia.
H. G. WELLS, Além da prática e de seus ritmos, todas as condutas dos
MonsÍeur Barnstaple chez les Hommes-DÍeux. visitantes e todas as suas atitudes em relação às obras expostas

69
obras cuiíurais e disposição cuiía
estão associadas, direta e quase exclusivamente, à instrução avaliada, ritmo de três ou quatro visitas anuais que, segundo parece, define a
seja pelos diplomas obtidos, seja pela duração da escolaridade. Assim, imagem feita pela maioria a respeito do que seria a prática
ao ser considerado um bom indicador do valor objetivamente atribuído conveniente [d. Apêndice 3, Tabela 2].
às obras apresentadas - seja qual for a experiência subjetiva O tempo dedicado pelo visitante à contemplação das obras
correspondente, prazer estético, boa vontade cultural, sentimento apresentadas, ou seja, o tempo de que tem necessidade para "esgotar"
de obrigação ou uma miscelânea de tudo isso' -, o tempo médio as significações que lhe são propostas, constitui, sem dúvida, um
efetivamente dedicado à visita cresce regularmente com a instrução bom indicador de sua aptidão em decifrar e saborear tais
recebida, passando de vinte e dois minutos em relação aos visitantes significações:37 a inexauribilidade da "mensagem" faz com que a
das classes populares para trinta e cinco minutos utilizados pelos riqueza da "recepção" (avaliada, grosseiramente, por sua duração)
representantes das classes médias e quarenta e sete minutos dependa, antes de tudo, da competência do "receptor", ou seja, do
relativamente aos visitantes das classes superiores. Sabendo-se, por grau de seu controle relativamente ao código da "mensagem". Cada
outro lado, que o tempo que os visitantes declaram ter passado no indivíduo possui uma capacidade definida e limitada de apreensão
museu permanece constante, seja qual for seu nível de instrução, da "informação" proposta pela obra, capacidade que depende de seu
pode-se supor que a sobreavaliação (tanto mais forte quanto mais conhecimento global (por sua vez, dependente de sua educação e de
baixo for o nível de instrução do visitante) do tempo efetivamente seu meio) em relação ao código genérico do tipo de mensagem
passado no museu denuncia (à semelhança do que ocorre com outros considerado, seja a pintura em seu conjunto, seja a pintura de tal
índices) o esforço dos sujeitos menos cultos para se adaptarem ao época, escola ou autor. Quando a mensagem excede as possibilidades
que consideram como a norma da prática legítima - norma que de apreensão do espectador, este não apreende sua "intenção" e
permanece praticamente invariável, em determinado museu, para os desinteressa-se do que lhe parece ser uma confusão sem o menor
visitantes das diferentes categorias. sentido, ou um jogo de manchas de cores sem qualquer utilidade.
Os tempos médios declarados pelos visitantes de cada museu Ou, dito por outras palavras, colocado diante de uma mensagem
podem ser considerados como indicadores da norma social do rica demais para ele - ou, como diz a teoria da informação,
tempo de visita que merece cada museu. A hierarquia dos museus, "acabrunhante" (overwhelmíng) -, o visitante sente-se "asfixiado"
segundo a parcela dos visitantes que declaram ter dedicado mais e abrevia a visita.
de uma hora à visita, corresponde, grosso modo, àquela que A obra de arte considerada enquanto bem simbólico não existe
poderia ser estabelecida com a ajuda de indicadores, tais como o como tal a não ser para quem detenha os meios de apropriar-se dela,
número de estrelas que os guias atribuem aos museus: Rouen - ou seja, de decifrá-Ia. O grau de competência artística de um agente
59,5%; jeu de Paume - 58,5%; Lyon - 55,5%; Dijon - 51%; Lille - é avaliado pelo grau de seu controle relativo ao conjunto dos
47%; Colmar - 46%; Douai - 43%; Tours - 42%; Laon - 40%; Bourg- instrumentos da apropriação da obra de arte, disponíveis em
en-Bresse - 37%; Agen - 35%.36 determinado momento do tempo, ou seja, os esquemas de
A mesma lógica explica que os visitantes, por um lado, interpretação que são a condição da apropriação do capital artístico,
sobreavaliem tanto mais o ritmo de sua prática, quanto mais reduzida ou, em outros termos, a condição da decifração das obras de arte
é sua freqüência e mais baixo é seu nível de instrução, e, por outro, oferecidas a determinada sociedade, em determinado momento do
manifestem a tendência em estar de acordo para se atribuírem um tempo. A competência artística pode ser definida, provisoriamente,

71
70 o amor pela arle obras cuRurais e disposição cuRa
como o conhecimento prévio das divisões possíveis em classes possibilidades estilísticas; no outro caso, ele trata as folhas e as
complementares de um universo de representações: o controle dessa nuvens como indicações ou sinais, associados, segundo a lógica
espécie de sistema de classificação permite situar cada elemento do definida acima, a significações transcendentes à própria representação
universo em uma classe necessariamente definida em relação a outra ("trata-se de um choupo, de uma tempestade"), ignorando
classe, constituída por todas as representações artísticas levadas completamente tanto o que define a representação como tal, quanto
em consideração, de forma consciente ou inconsciente, que não o que lhe confere sua especificidade, a saber, seu estilo como método
pertencem à classe em questão. O estilo próprio a uma época e a um particular de representação.
grupo social não é outra coisa senão tal classe definida em relação à A competência artística define-se, portanto, como o
classe das obras do mesmo universo que ela exclui e que constituem conhecimento prévio dos princípios de divisão, propriamente
seu complemento. O reconhecimento (ou a atribuição, conforme o artísticos, que permitem situar uma representação, pela classificação
termo utilizado pelos historiadores da arte, aliás, extraído do próprio das indicações estiJísticas que ela contém, entre as possibilidades
vocabulário da lógica) procede pela eliminação sucessiva das de representação que constituem o universo artístico. Esse modo
possibilidades às quais se refere (negativamente) a classe da qual de classificação opõe-se ao modo que consistiria em classificar uma
faz parte a possibilidade efetivamente realizada na obra considerada. obra entre as possibilidades de representação que constituem o
Vê-se imediatamente que a incerteza diante das diferentes universo dos objetos cotidianos (ou, mais precisamente, dos
características suscetíveis de serem atribuídas à obra considerada utensílios) ou o universo dos signos, o que eqüivaleria a tratá-Ia
(autores, escolas, épocas, estilos, temas, etc. ) pode ser suprimida como um simples monumento, ou seja, como um simples meio de
pela instalação de códigos diferentes que funcionem como sistemas comunicação, encarregado de transmitir uma significação
de classificação: seja um código propriamente artístico que, ao transcendente. Perceber a obra de arte de maneira propriamente
autorizar a decifração das características especificamente estilísticas, estética, ou seja, enquanto significante que nada significa além
permite incluir a obra considerada na classe constituída pelo dele próprio, consiste em evitar considerá-Ia, como se diz às vezes,
conjunto das obras de uma época, de uma sociedade, de uma escola "desligada de tudo, do ponto de vista emocional ou intelectual,
ou de um autor ("trata-se de um Cézanne"); seja o código da vida salvo dela mesma", em suma, abandonar-se à obra apreendida em
cotidiana que, enquanto conhecimento prévio das divisões possíveis sua singularidade irredutível, e, em vez disso, identificar seus
em classes complementares do universo dos significantes e do traços estiJísticos distintivos, colocando-a em relação exclusiva
universo dos significados, além das correlações entre as divisões de com o conjunto das obras que constituem a classe da qual faz
cada um deles, permite incluir a representação particular, tratada parte. No lado oposto, o gosto das classes populares define-se, à
como signo, em uma classe de significantes e, por conseguinte, maneira do que Kant descreve na CrÍtica da /àculdade do juÍzo,
saber, graças às correlações com o universo dos significados, que o sob o nome de "gosto bárbaro", pela recusa ou pela impossibilidade
significado correspondente faz parte de tal classe de significados (conviria dizer a recusa-impossibilidade) de operar a distinção
("trata-se de uma floresta"). No primeiro caso, o espectador entre "o que agrada" e "o que dá prazer" e, de forma mais geral,
interessa-se pela maneÍra de trataras folhas ou as nuvens, ou seja, entre o "desinteresse", única garantia da qualidade estética da
pelas indicações estilísticas, situando a possibilidade realizada, contemplação, e "o interesse dos sentidos" que define "o agradável"
característica de uma classe de obras, por oposição ao universo das ou "o interesse da Razão": ele exige que toda imagem desempenhe

73
72 o amorpela arle oeras cuRurais e disposição cuRa
uma função, nem que fosse a de signo; ora, essa representação O código artístico, como sistema dos princípios de divisões
"funcionalista" da obra de arte pode basear-se na recusa da gratuidade, possíveis em classes complementares do universo das representações
no culto do trabalho ou na valorização do "instrutivo" (por oposição oferecidas a determinada sociedade em determinado momento do
ao "interessante") e, também, na impossibilidade de situar cada obra tempo, assume o caráter de uma instituição social. Sistema
particular no universo das representações, por falta de princípios de historicamente constituído e baseado na realidade social, este
classificação propriamente estilísticos.38 Daí, segue-se que uma obra conjunto de instrumentos de percepção que constitui o modo de
de arte que, segundo a expectativa de tais princípios, deverá exprimir apropriação dos bens artísticos (e, de forma mais geral, dos bens
sem equívocos uma significação transcendente ao significante torna- culturais) em determinada sociedade, em determinado momento do
se tanto mais confusa para os mais desprovidos, quanto mais tempo, não depende das vontades, nem das consciências individuais,
completamente vier a abolir (à semelhança do que ocorre com as além de impor-se aos indivíduos singulares, quase sempre sem seu
conhecimento, definindo as distinções que eles podem operar e as
artes não figurativas) sua função narrativa e designativa.
que lhes escapam. Cada época organiza o conjunto das representações
O grau de competência artística depende não só do grau de
artísticas segundo um sistema institucional de classificação que
controle do sistema de classificação disponível, mas ainda do grau
lhe é próprio, encontrando analogias ou distinções entre obras que,
de complexidade ou de requinte desse sistema; portanto, avalia-se
em outras épocas, eram consideradas distintas ou semelhantes; além
através da aptidão para operar um maior ou menor número de divisões disso, os indivíduos sentem dificuldade para pensar em outras
sucessivas no universo das representações e, por conseguinte, para diferenças que não sejam aquelas que o sistema de classificação
determinar classes mais ou menos apuradas. Para quem disponha
disponívellhes permite pensar. "Suponhamos, escreve Longhi, que
apenas do princípio de divisão em arte romana e em arte gótica, os naturalistas e impressionistas franceses, entre 1680 e 1880, não
todas as catedrais góticas encontram-se alinhadas na mesma classe tivessem assinado suas obras, nem tivessem a seu lado, como arautos,
e, desta forma, permanecem ÍndÍstÍntas, enquanto uma maior determinados críticos e jornalistas com a inteligência de um Geffroy
competência permite identificar as diferenças entre os estilos próprios ou de um Duret. Imaginemo-Ios esquecidos, em decorrência de uma
às épocas "primitiva", "clássica" e "tardia", ou ainda reconhecer as reviravolta do gosto e de uma longa decadência da investigação
obras de determinada escola no âmbito de cada um desses estilos.
erudita, esquecidos durante cem ou cento e cinqüenta anos. O que
Assim, a apreensão dos traços que definem a odgÍnajjdadedas obras aconteceria, imediatamente, com o retorno da atenção a seu respeito?
de uma época em relação às obras de outra época, ou, no âmago É fácil prever que, em uma primeira fase, a análise começaria por
dessa classe, as obras de uma escola ou de um agrupamento artístico distinguir, entre esses materiais silenciosos, várias entidades mais
em relação a um outro, ou ainda, as obras de um autor em relação às simbólicas do que históricas. A primeira usaria, como símbolo, o
outras obras de sua escola ou de sua época, ou, até mesmo, de uma nome de Manet que absorveria uma parte da produção juvenil de
obra particular de um autor em relação ao conjunto de sua obra, é Renoir e, até mesmo, receio, alguns Gervex, sem contar com toda a
indissociável da apreensão das redundândas, ou seja, da identificação obra de Gonzales e de Morizat, além de toda a obra de juventude de
dos tratamentos típicos da matéria pictural que definem um estilo: Monet: quanto ao Monet mais tardio, que também se tornou
em suma, a identificação das semelhanças pressupõe areferência símbolo, incluiria quase toda a obra de Sisley, uma boa parte da obra
implícita ou explícita às diferenças, e inversamente.39 de Renoir e, o que é pior, algumas dezenas de obras de Boudin, além

75
74 o amor pela arle obras cu/iurais e disposição cu/ia
de vários quadros de Lebour e de Lépine. Não está excluído, de institucionalizada ou não, elas caracterizam-se por diferentes níveis
modo algum, que alguns quadros de Pissarro - e, até mesmo, de emissão, de modo que a legibilidade de uma obra de arte para um
reparação pouco lisonjeira, mais de um quadro de Guillaumin - indivíduo particular depende da djférença entre o nível de emissão,42
sejam, em semelhante caso, atribuídos a Cézanne."4o Ainda mais definido como o grau de complexidade e de sutileza intrínsecas do
convincente do que essa espécie de diversão imaginária, o estudo código exigido pela obra, e o nível de recepção, definido como o
histórico de Berne]offroy sobre as representações sucessivas da obra grau de controle atingido por esse indivíduo relativamente ao código
de Caravaggio mostra que a imagem pública de uma obra, concebida social que pode ser mais ou menos adequado ao código exigido pela
pelos indivíduos de determinada época, é, propriamente falando, o obra. Ao ser superado em sutileza e em complexidade pelo código da
produto dos instrumentos de percepção, historicamente obra, o código do espectador já não consegue controlar uma
constituídos, portamo, historicamente mutáveis, que lhes são mensagem que lhe parece desprovida de qualquer utilidade.
fornecidos pela sociedade de que fazem parte: "Sei muitíssimo bem Como aplicação particular da lei geral da legibilidade, as regras
o que se diz a respeito das querelas relativas à atribuição; elas nada
que, em cada época, definem a legibilidade da arte contemporânea
têm a ver com a arte, são mesquinhas e a arte é grande (...). Nossa variam, em primeiro lugar, segundo a relação que os criadores
idéia a respeito de um artista depende das obras que lhe são atribuídas alimentam, em determinada época, em determinada sociedade, com
e, queiramos ou não, essa nossa idéia global a seu respeito acaba o código da época precedente: assim, de forma bastante grosseira,
colorindo nosso olhar sobre cada uma de suas obras"Y Assim, a
pode-se estabelecer a distinção entre períodos clássÍCosem que um
história dos instrumentos de percepção da obra é o complemento estilo alcança sua perfeição própria e em que os criadores exploram
indispensável da história dos instrumentos de produção da obra, na até consumar e, talvez, esgotar, as possibilidades fornecidas por uma
medida em que toda obra é, de alguma forma, elaborada duas vezes: arte de inventar herdada, e períodos de ruptura em que se inventa
pelo criador e pelo espectador, ou melhor ainda, pela sociedade a uma nova arte de inventar, em que se engendra uma nova gramática
que pertence o espectador.
gerativa de formas, em ruptura com as tradições estéticas de um
A legibilidade modal de uma obra de arte (para determinada tempo e de um meio. A defasagem entre o código social e o código
sociedade de determinada época) depende da diferença entre o código exigido pelas obras apresenta, evidentemente, todas as condições
exigido objetivamente pela obra considerada e o código como de ser mais reduzida nos períodos clássicos do que nos períodos de
instituição historicamente constituída: a legibilidade de uma obra ruptura, infinitamente mais reduzida, sobretudo, do que nos períodos
de arte para um indivíduo particular depende da diferença entre o de ruptura continuada, tal como aquele em que nos encontramos
código, mais ou menos complexo e requintado, exigido pela obra e hoje. A transformação dos instrumentos de produção artística precede
a competência individual, definida pelo grau de controle atingido necessariamente a transformação dos instrumentos de percepção
por cada sujeito relativamente ao código social que, por sua vez, é artística; ora, a transformação dos modos de percepção só pode ser
mais ou menos complexo e requintado. Pelo fato de que as obras operada de forma lenta, já que se trata de desenraizar um tipo de
que constituem o capital artístico de determinada sociedade, em competência artística (produto da interiorização de um código social,
determinado momento do tempo, exigem códigos desigualmente tão profundamente inscrito nos hábitos e memórias que funciona
complexos e requintados, portanto, suscetíveis de serem adquiridos, no plano inconsciente) para ser substituído por outro, por um novo
com maior ou menor facilidade e rapidez, por uma aprendizagem processo de interiorização, necessariamente, longo e difíci1.43A

77
76 o amor pela arle obras cu/iurais e disposição cu/ia
inércia própria das competências artísticas (ou, se quisermos, do Quem não recebeu da família ou da Escola os instrumentos,
habitus) faz com que, nos períodos de ruptura, as obras produzidas que somente a familiaridade pode proporcionar, está condenado a uma
por meio de instrumentos de produção artísticos de um novo tipo percepção da obra de arte que toma de empréstimo suas categorias à
sejam percebidas, durante um certo tempo, por meio de antigos experiência cotidiana e termina no simples reconhecimento do objeto
instrumentos de percepção, ou seja, aqueles mesmo contra os quais representado: com efeito, o espectador desarmado não pode ver outra
elas foram constituídas.
coisa senão as significações primárias que não caracterizam em nada
De qualquer modo, a falta de competência artística não é uma o estilo da obra de arte, além de estar condenado a recorrer, na melhor
condição necessária, nem suficiente, da percepção adequada das obras das hipóteses, a "conceitos demonstrativos" que, de acordo com a
inovadoras ou, a fortiori, da produção de tais obras. Aqui, a observação de Panofsky, limitam-se a apreender e a designar as
ingenuidade do olhar não seria mais do que a forma suprema do propriedades sensíveis da obra (por exemplo, quando se descreve uma
requinte do olho. O fato de ser desprovido de chaves não predispõe, pele como aveludada ou um bordado como delicado) ou a experiência
de modo algum, a compreender obras que exigem somente a rejeição emocional (quando alguém fala de cores austeras ou alegres), suscitada
de todas as chaves antigas, na expectativa de que a obra forneça a por essas propriedades.45
chave de sua própria decifração. Como se vê, trata-se da atitude que "Aodesignar o conjunto de cores claras que se encontram no
os mais desprovidos diante da arte erudita estão menos dispostos a centro do quadro da 'Ressurreição' de Grünewald como 'um homem
tomar: a ideologia segundo a qual as mais modernas formas da arte com as mãos e os pés transpassados que se eleva nos ares', transgrido
não figurativa seriam mais diretamente acessíveis à inocência da (...) os limites de uma pura descrição formal, mas ainda permaneço
infância ou da ignorância do que à competência adquirida por uma em uma esfera de representações de sentido que são familiares e
formação considerada deformante, tal como a da Escola, não é somente acessíveis ao espectador com base em sua intuição óptica e em sua
refutada pelos fatos. Se as mais inovadoras formas de arte se oferecem, percepção tátil e dinâmica, em suma, com base em sua experiência
inicialmente, apenas a alguns virtuoses (cujas posições de vanguarda exi~tencialimediata. Se, pelo contrário, considero esse conjunto de
explicam-se sempre, em parte, pela posição que ocupam no campo cores claras como 'um Cristo que se eleva nos ares', pressuponho
intelectual e, de forma mais geral, na estrutura social) é porque elas algo que é culturalmente estabelecido" .46Em poucas palavras, para
exigem a aptidão para romper com todos os códigos, a começar passar da "camada primária dos sentidos que podemos penetrar com
evidentemente pelo código da existência cotidiana; e porque essa base em nossa experiência existencial", ou, em outros termos, do
aptidão se adquire não só através da visita assídua a obras que exigem "sentido fenomenal que pode se subdividir em sentido das coisas e
códigos diferentes, mas também através da experiência da história em sentido das expressões", para a "camada do sentido - por sua
da arte, como sucessão de rupturas com os códigos estabelecidos. vez, secundária - que não pode ser decifrada senão a partir de um
Em suma, a aptidão do indivíduo para suspender todos os códigos saber transmitido de maneira literária" e pode ser chamada "esfera
disponíveis a fim de se confiar à própria obra - no que esta possui, do sentido do significado",47 devemos dispor de "conceitos
à primeira vista, de mais insólito - pressupõe o perfeito controle do propriamente caracterizantes" (em oposição aos "conceitos
código dos códigos que regula a aplicação adequada dos diferentes demonstrativos") que superem a simples designação das propriedades
códigos sociais objetivamente exigidos pelo conjunto das obras sensíveis e, apreendendo as características propriamente estilísticas
disponíveis em determinado momento do tempo.44 da obra de arte (tais como "pictural" ou "plástica"), constituam

78
o amor peh arle obras culiurais e disposição culia 79
uma verdadeira "interpretação" da obra.48"O princípio da interpretação Portanto, a observação sociológica permite descobrir as formas
(...) é sempre constituído pela faculdade cognoscitiva e pelo de percepção, efetivamente realizadas, correspondentes aos diferentes
patrimônio cognoscitivo do sujeito que executa a interpretação, ou níveis constituídos pelas análises teóricas como uma distinção da
seja, por nossa experiência existencial, quando se trata de descobrir razão. Qualquer bem cultural, desde a cozinha até a música serial,
somente o sentido do fenomenal, e por nosso saber literário quando passando pelos filmes de faroeste, pode ser objeto de apreensões
se trata do sentido do significado".49 Privados do "conhecimento do que vão da simples sensação atual até o deleite erudito, armado com
estilo" e da "teoria dos tipos" - únicos procedimentos capazes de o conhecimento·· das tradições e das regras do gênero. Se, por
corrigir, respectivamente, a decifração do sentido fenomenal e do abstração, é possível estabelecer a distinção entre duas formas opostas
sentido do significado -, os sujeitos menos cultos estão condenados e extremas do prazer estético, separadas por todas as gradações
a apreender as obras de arte em sua pura materialidade fenomenal, intermediárias, ou seja, entre a fruição que acompanha a percepção
ou seja, à maneira de simples objetos do mundo; e se eles se sentem estética reduzida à simples aisthesise o deleite proporcionado pela
tão fortemente inclinados a procurar e exigir o realismo da degustação erudita e que pressupõe, a título de condição necessária,
representação é porque, entre outras razões, desprovidos de categorias embora não suficiente, a decifração adequada, ocorre que a percepção
específicas de percepção, não podem aplicar às obras senão a "cifra" mais desarmada tende sempre a superar o nível das sensações e das
que lhes permite apreender os objetos de seu meio ambiente cotidiano afeições, ou seja, a pura e simples aisthesis: a interpretação
como dotados de sentido.
assimiladora que leva a aplicar, a um universo desconhecido e
À semelhança de qualquer objeto cultural, a obra de arte pode estranho, os esquemas de interpretação disponíveis, ou seja, aqueles
fornecer significações de nível diferente segundo a grade de que permitem apreender o universo familiar como dotado de sentido,
interpretação que lhe é aplicada; além disso, as significações de nível impõe-se como meio de restaurar a unidade de uma percepção
inferior, ou seja, as mais superficiais, permanecem parciais e integrada. Os lingüistas conhecem os fenômenos de falso
mutiladas - por conseguinte, errôneas -, enquanto não forem reconhecimento ou de falsa apreciação que resultam da aplicação de
adotadas as significações de nível superior que as englobam e as categorias inadequadas e do que se pode chamar a "cegueira cultural"
transfiguram. A "compreensão" das qualidades "expressivas" - e, se por analogia com o que eles designam por "surdez cultural": "A
é que se pode dizer, "fisionômicas" - da obra não é senão uma forma métrica russa, observa N. S. Troubetzkoy, é construída a partir da
inferior da experiência estética porque, por não ser amparada, alternância regular entre sílabas acentuadas e sílabas inacentuadas -
controlada nem corrigi da pelo conhecimento propriamente aquelas são longas, enquanto estas são breves. O fim das palavras
iconológico, ela se arma de uma cifra que não é adequada, nem pode ocorrer em qualquer lugar do verso e o agrupamento sempre
específica. Sem dúvida, pode-se admitir que a experiência interna, irregular desses fins de palavras serve para animar e variar as
como capacidade de resposta emocional à conotação da obra de arte, estruturas do verso. O verso tcheco assenta em uma distribuição
seja uma das chaves da experiência artística; no entanto, a sensação irregular do fim das palavras, de modo que cada início de palavra é
ou a afeição suscitadas pela obra modificam seu valor conforme elas sublinhado por um reforço da voz: pelo contrário, as sílabas breves
constituam o todo de uma experiência da obra de arte reduzida à e as sílabas longas estão distribuídas de forma irregular no verso e
identificação do que se pode chamar sua expressividade, ou conforme seu agrupamento livre serve para animá-Io. Ao ouvir um poema
se integrem na unidade de uma experiência adequada. russo, um tcheco considera sua métrica como quantitativa e todo o

80
o amor peb arle obras cuRurais e ch:SposiçãocuRa 81
poema como bastante monótono; pelo contrário, ao ouvir um poema do trabalho." "Para avaliar um quadro, baseio-me na data indicada e
tcheco, pela primeira vez, um russo fica, em geral, completamente fico embasbacado quando me dou conta de que já passou tanto tempo
desorientado e desprovido de condições para identificar a métrica a e que, nessa época, trabalhavam tão bem." Entre as razões
partir da qual o poema foi composto" .50Aqueles para quem as obras manifestadas para atribuir uma admiração decisória, a mais segura e
de cultura erudita falam uma língua estrangeira estão condenados a infalível é, sem dúvida, a antigüidade das coisas apresentadas. "Ê
importar, em seu exercício de percepção e apreciação da obra de arte, muito lindo ... É antigo. Talvez fosse necessário ter museus para as
categorias e valores extrínsecos, ou seja, precisamente as categorias obras modernas, mas isso deixaria de ser um museu. Aqui, tudo é
e valores que organizam sua percepção cotidiana e orientam seus realmente antigo, entende?!" O valor das coisas antigas não será
juízos práticos. Por não terem condições de apreender a representação comprovada simplesmente pelo fato de terem sido conservadas e a
segundo uma intenção propriamente estética, eles não conseguem antigüidade das coisas conservadas não será uma justificação
captar a cor de um rosto como um elemento de um sistema de relações suficiente para sua conservação? Neste aspecto, a única função do
entre cores (as do paletó, do chapéu ou da parede situada no segundo discurso consiste em fornecer a quem o profere as razões de uma
plano) mas, "situando-se imediatamente em seu sentido", para falar adesão incondicional a uma obra, cuja razão lhe escapa. Não será
como Husserl, lêem em tal cor, diretamente, uma significação significativo que, convidados a dar sua opinião sobre as obras e sua
psicológica ou fisiológica, à semelhança do que ocorre na experiência apresentação, os visitantes menos cultos manifestem uma aprovação
cotidiana. A apreensão do quadro como sistema de relações de total e maciça que se limita a exprimir, sob uma outra forma, uma
oposição e de complementaridade entre cores pressupõe não só a confusão à medida de sua reverência? "É muito lindo. Não se pode
ruptura com a percepção primeira que é a condição da constituição apresentá-Ias melhor do que estão expostas." '~chei que tudo é
da obra de arte como obra de arte, ou seja, da apreensão dessa obra muito lindo." Do mesmo modo, como se quisessem exprimir desta
segundo uma intenção em conformidade com sua intenção objetiva forma que eles sabem apreciar, em seu justo valor, o que lhes é
(irredutível à intenção do artista), mas ainda a posse da grade de oferecido pelo museu, os visitantes são tanto mais numerosos a
análise indispensável para apreender as diferenças sutis que, por julgar barato o preço do ingresso quanto menor é seu nível de
exemplo, separam uma gama de tons ordenados segundo as leis de instrução [d. Apêndke 3, Tabela 3].
uma modulação requintada em tal quadro de Turner ou de Bonnard.51 De que maneira uma percepção tão desprovida de princípios
Compreende-se, portanto, que a estética limita-se a ser, salvo organizadores poderia apreender as significações organizadas que
exceção, uma dimensão da ética (ou, melhor ainda, do ethos) de entrariam em um conjunto de saberes acumulados? "Para me
classe. Para "saborear", ou seja, "apreender as diferenças e apreciar"52 lembrar, é outra história. Não compreendi nada de Picasso; no meu
as obras apresentadas, e para justificar o valor que lhes atribui, o caso, não consigo me lembrar dos nomes" (mulher comerciante,
visitante pouco culto só pode invocar a qualidade e a quantidade do Lens). "Gosto de todos os quadros onde aparece o Cristo" (operária,
trabalho; neste caso, o respeito moral toma o lugar da admiração Ulle). Dois terços dos visitantes, oriundos das classes populares,
estética. "Conviria mostrar o valor de tudo o que há aqui, que não conseguem citar, no termo de sua visita, o nome de uma obra
representa um trabalho com vários séculos, entende ... Se tudo isso ou de um autor que lhes tivesse agradado, do mesmo modo que, de
foi conservado é para mostrar o trabalho executado há séculos e que uma visita anterior, não retiram saberes que pudessem ajudá-Ias em
tudo o que se faz tem alguma utilidade." "Aprecio muito a dificuldade sua visita presente: assim, compreende-se que uma visita, muitas

83
82 o amor pela arle obras cuBurais e disposição cuBa
chacota dos borra-tintas e as advertências dos guardas. Aliás, tal
vezes determinada por razões do acaso, não é suficiente para incitá-
situação é evocada por Zola ao descrever as deambulações das
Ias ou prepará-Ias para empreender outra visita. Totalmente tributários
núpcias de Gervaise com Coupeau, através das salas do Museu do
do museu e dos subsídios que este lhes oferece, eles se sentem
Louvre: "A nudez severa da escadaria tornou-os sisudos. Sua
particularmente desnorteados em museus que, por vocação, se
emoção reduplicou-se à vista de um soberbo bedel, usando colete
destinam ao público culto: 77% desejariam receber ajuda de um
vermelho e libré ornado com galões dourados, que parecia estar à
conferencista ou de um amigo [ef. Apêndice 2, Tabela 2], 67%
sua espera no patamar. Foi com respeito, avançando o mais
gostariam que a visita fosse orientada com flechas e 89% que as
lentamente possível, que eles penetraram na galeria de arte
obras estivessem acompanhadas por tabuletas explicativas [ef.
francesa."
Apêndice 2, Tabela 3]. Mais da metade das opiniões declaradas contêm
esta expectativa: "Para alguém que queira se interessar, é difícil. o melhor revelador da significação objetiva do museu tradicional
Limita-se a ver pintura, datas. Para poder discernir diferenças, é é a mudança de atitude que, entre os visitantes do museu de Lille,
necessário um guia. Caso contrário, é tudo igual" (operário, Lille). determinou a passagem da exposição dinamarquesa para as salas
"Prefiro visitar o museu ao lado de um guia que me explique e me do museu:, "Na sala de exposição dinamarquesa, entrou um casal
faça compreender os pontos obscuros para o comum dos mortais" bastante idoso; além de botinas grosseiras, a mulher usa um manto
(empregado, Pau). um tanto deformado, caído na parte da frente; por sua vez, o
homem continua sentindo arrepios em seu sobretudo, comprido
A ausência de qualquer indicação capaz de facilitar a visita é
considerada pelos visitantes oriundos das classes populares, às vezes, demais, que chega até a altura da barriga das pernas; eles
deambulam ao acaso, apontam com o dedo, ao longe, o que lhes
como a expressão de uma vontade de excluir pelo esoterismo ou, no
mínimo, como afirmam naturalmente os visitantes mais cultos, uma agradaria ver de mais perto, falando em voz alta. Passam
intenção comercial (a saber, favorecer a venda dos catálogos). De rapidamente diante de alguns estandes, sem se deterem. Ao acaso
de suas deambulações, acabam entrando na sala de cerâmicas do
fato, flechas, tabuletas, guias, conferencistas ou recepcionistas não
conseguiriam substituir verdadeiramente a falta de formação escolar, museu. Avançam bem devagar à volta e, escrupulosamente,

mas proclamariam, por sua simples existência, o direito de ignorar, inspecionam cada vitrine, uma após outra; agora, o homem tem as
mãos nos bolsos e mal se ouve a voz deles; no entanto, aqui, o
o direito de estar presente como ignorante, o direito dos ignorantes
de estarem presentes; contribuiriam para minimizar o sentimento casal está só." Igualmente, é bastante diferente a atmosfera nas

de inacessibilidade da obra e de indignidade do espectador, duas partes do museu: ''Aqui, é o silêncio recolhido e a calma
manifestada perfeitamente nesta reflexão ouvida no Palácio de ordem dos lentos movimentos ao longo das paredes; lá, na

Versalhes: "Este Palácio não foi feito para o povo e isso não mudou ..." afluência da tarde, fica-se um pouco atordoado pelas conversações
barulhentas, os objetos que são removidos e fazem ruído ao serem
Todas as condutas dos visitantes oriundos das classes populares
arrastados pelo chão, os guris que correm de um lado para o outro,
dão testemunho do efeito de distanciamento sacralizante exercido
enquanto ós pais procuram, com veemência, chamá-Ios à ordem.
pelo museu. Essa é a perturbação respeitosa de todos os visitantes
Aliás, há um grande número de crianças o que é motivo de
ocasionais, impelidos pela exaltação de um dia de festa ou pela
admiração para o guarda: 'Afinal, há muitas famílias numerosas,
ociosidade de um domingo chuvoso, e votados a provocar, à sua
hein!' Os visitantes tocam em tudo, sentam-se nas poltronas,
passagem, as reflexões maldosas dos freqüentadores assíduos, a

85
84 o6ras cuflurais e disposição cufla
o amor pela arle

••
levantam as almofadasdos canapés, abaixam-se para olhar debaixo a autovigilância com receio de chamarem a atenção por alguma
das mesas. Batem com o dedo na madeira ou no metal para ter incongruência. "Temos receio de encontrar um conhecedor (...). Para
uma idéia do valor da matéria e estimam o peso dos talheres. Um conseguir uma boa preparação antes, é necessário ser um profissional
casal inclina-se para observar melhor os talheres de prata: 'Você ou especialista do assunto. Não, um cara como eu entra e sai
está vendo, diz a mulher, se eu tivesse de escolher a minha primeira anonimamente" (operário, Ulle). Se os agricultores e os operários
baixela, eu compraria uma como esta.' Ela pega uma faca e um são, ligeiramente, mais favoráveis às flechas do que às tabuletas
garfo, finge cortar alguma coisa em um prato imaginário e leva o com inscrições é talvez porque, por falta de um mínimo de cultura,
garfo à boca". E os comportamentos dos visitantes diferem tão sentem de maneira menos urgente a necessidade de esclarecimentos;
profundamente que o observador - condenado, em um primeiro é talvez, também, porque exprimem dessa forma o sentimento -
momento, à sociologia espontânea - imputa, a uma diferença no suscitado neles pelo espaço do museu - de estarem perdidos (às
recrutamento social do público (desmentida pela análise vezes, no sentido primeiro do termo); é, sem dúvida,
estatística), as diferenças que, antes de tudo, se referem à fundamentalmente, porque encontrariam nesse "caminho a seguir"
significação social do museu e de uma exposição que introduz a primeira resposta à sua preocupação em passar despercebidos
nele, por exceção, a atmosfera de uma loja de departamentos, através da adoção de uma conduta conveniente. "As flechas são
museu do pobre; aliás, tal ocorrência não deixa de suscitar alguma necessárias; na primeira vez, a gente se sente em um nevoeiro"
indignação entre os visitantes habituais do museu tradicional. A (operário, Ulle). "O que faz falta são as flechas! Para indicar
conversão de toda a atitude operada pelos visitantes pode resumir- determinados lugares ... Há um instante em que a gente vê todas as
se nas seguintes oposições, aquelas mesmas que estabelecem a peças e não sabe para onde ir" (operária, Ulle). E se os visitantes
distinção entre o universo sagrado e o universo profano: intocável- oriundos das classes populares preferem visitar o museu, seja com
tocável; ruído - silêncio recolhido; exploração rápida e sem parentes ou com colegas, é porque, sem dúvida, encontram no grupo
ordem - procissão lenta e regulada;apreciaçãointeressada de obras um meio de conjurar seu sentimento de mal-estar; pelo contrário, o
venais - apreciaçãopura de obras "sem preço". desejo de fazer sozinho tal visita exprime-se com uma freqüência
Tendo de enfrentar a prova (no sentido escolar do termo) que cada vez maior à medida que é mais elevada a posição na hierarquia
o museu representa para eles, os visitantes menos cultos sentem-se social (ou seja, na França, em 16% dos agricultores e operários, em
pouco inclinados, de fato, a recorrer ao guia ou ao conferencista 30% dos membros das classes médias e 40% das classes superiores)
(quando estes existem) por terem receio de revelar sua [d. Apêndice 2, Tabela 1].
incompetência. "Para uma pessoa que vem pela primeira vez, em A parcela dos visitantes que declaram preferir a visita solitária do
minha opinião, ela se sente um tanto perdida ... Na verdade, as museu cresce, em todos os países, à medida que se eleva o nível de
flechas, antes de tudo, poderiam servir de guia; não é nada agradável instrução ou a posição na hierarquia social, passando, na Grécia,
pedir informações" (faxineira, Ulle). Ignorando a conduta conveniente de 17% nas classes populares para 20% nas classes superiores
e, antes de tudo, preocupados em não se denunciarem por (com uma taxa de 13% para as classes médias); na Polônia, de
comportamentos contrários ao que julgam ser a conveniência, eles 28% nas classes populares para 42% e 44% nas classes médias e
contentam-se em ler, tão discretamente quanto possível, as tabuletas- superiores, respectivamente; e, na Holanda, de 33% para 51% e
quando estas existem. Em suma, sentem-se "deslocados" e exercem 59%, nas categorias correspondentes. A hierarquia que se

86
o amor pela arfe obras cuilurais e disposição cuila 87
estabelece entre os diferentes países parece, portanto, indicar que Não é, sem dúvida, exagerado pensar que o sentimento
a taxa de visitantes que desejam fazer uma visita solitária ao museu profundo da indignidade (e da incompetência) que assombra os
é tanto mais elevada quanto mais elevado for o capital cultural visitantes menos cultos, como que esmagados pelo respeito diante
nacional [ct Apêndke 5, Tabela 5].
do universo sagrado da cultura legítima, contribui consideravelmente
Enquanto os membros das classes cultas sentem repugnância para mantê-Ios afastados dos museus. Não será significativo que a
pelas formas mais escolares de ajuda, preferindo o amigo competente parcela dos visitantes que têm a atitude mais sacralizante em relação
ao conferencista e o conferencista ao guia que se ri da ironia distinta, ao museu decresce muito fortemente quando a posição social se
os visitantes oriundos das classes populares não têm receio do aspecto, eleva (79% dos membros das classes populares associam o museu à
evidentemente escolar, de um eventual enquadramento: "No que diz imagem de uma igreja, contra 49% nas classes médias e 35% nas
respeito a explicações, quanto mais houver, melhor ... É sempre bom classes superiores), enquanto cresce a proporção dos sujeitos que
ter explicações seja lá para o que for (...). O mais importante é o guia desejam que os visitantes sejam pouco numerosos (ou seja, 39%
que nos orienta e nos fornece explicações" (operário, Ulle). "Em vez nas classes populares, 67% nas classes médias e 70% nas classes
de ficar só, gostaria de estar com alguém qualificado; caso contrário, superiores), preferindo a intimidade selecionada da capela à afluência
a gente passa ao lado e não vê nada" (operário, Lille). Por não terem da igreja [cf. Apêndke4, Tabelas 7 e 8]?
condições de definir, com clareza, os meios de preencher as lacunas Não será significativo também que a hostilidade em relação
de sua informação, eles invocam, de maneira quase mágica, a aos esforços despendidos para tornar as obras mais acessíveis se
intervenção dos mais consagrados intercessores e mediadores, capazes encontre, sobretudo, entre os membros da classe culta? Por um
de tornar mais próximas as obras inacessíveis; deste modo, a parcela paradoxo aparente, as classes mais bem providas em subsídios
dos visitantes que desejam a ajuda de um conferencista (em vez de pessoais, tais como guias ou catálogos (aliás, o conhecimento desses
um amigo competente) passa, na França, de 57,5% relativamente às instrumentos e a arte de utilizá-Ios pressupõem cultura), é que
classes populares para 36,5% em relação às classes médias e para 29% recusam com maior frequência os subsídios institucionalizados e
dos representantes das classes superiores [cf. Apêndke 2, Tabela 2] :53 coletivos: "Penso que é inútil pretender impor um caminho a seguir
"Na verdade, um conferencista nos instrui ... Os conferencistas são na visita do museu, diz um estudante. Pessoalmente, gosto de ser
quase sempre acadêmicos que conhecem as coisas na ponta da língua, livre, estar só em minha escolha e inspiração. Sem ir longe demais,
são professores, o que dizem é útil para nós". Vê-se que aqueles que comparo a visita de um museu a uma viagem, porém, à maneira de
invocam a repugnância das classes populares em relação à ação escolar Montaigne, avançando até o fim do atalho, impelido pelo ar e pelo
limitam-se a atribuir-Ihes, segundo o etnocentrismo de classe que vento, saboreando o tempo presente, sem pressa nem guia, sonhando
caracteriza a ideologia populista, sua própria atitude em relação à com o passado" (Louviers). "Sinto saudades, diz um professor, do
cultura e à Escola.54 A questão não é tanto de saber se todos os antigo Salon Carré do Louvre, no qual havia tantas coisas para
esclarecimentos fornecerão "olhos" a quem não "vê", tampouco se as descobrir. Agora, somos privados do intenso prazer da descoberta,
tabuletas explicativas serão lidas e lidas corretamente; mesmo que já que os quadros nos são impostos em salas separadas. Obrigam-
não fossem lidas ou, como é provável, somente por quem sente menos nos a olhar exclusivamente tais quadros. Deixou de ser uma festa
necessidade de tais esclarecimentos, nem por isso deixariam de para se transformar em uma escola primária. Ver, compreender e
desempenhar sua função simbólica. saber tudo: que trindade pedante! Assim, não há mais alegria" (Lille).

88
o amor pela arle obras cuRurais e disposição cuRa 89
As atitudes dos diferentes públicos nacionais em relação aos "Com certeza, é possível amar de paixão, à primeira vista; mas, isso
subsídios pedagógicos exprimem, uma vez mais, a hierarquia dos só acóntece depois de ter lido muito, sobretudo, em relação à pintura
diferentes países, classificadossegundo a importância de seu capital moderna" (operário, Ulle).
cultural, de modo que a explicação invocada para justificar as
A confusão vivenciada diante das obras expostas decresce
diferenças constatadas' nas atitudes das diferentes classes sociais
desde que a percepção possa se armar de saberes típicos, por mais
de determinado país aplica-se também às diferenças entre os
imprecisos que sejam. O primeiro grau da competência propriamente
diferentes países: de fato, os visitantes holandeses manifestam
estética define-se pelo controle de um arsenal de palavras que
uma hostilidade nitidamente mais marcante do que os franceses
permitem dar nome às diferenças e constituí-Ias ao nomeá-Ias: trata-
em relação às flechas e tabuletas explicativas; os poloneses, cuja
se dos nomes de pintores célebres - Da Vinci, Picasso, Van Gogh -
prática é mais imediatamente tributária da ação direta da Escola,
que funcionam enquanto categorias genéricas, já que se pode dizer
ocupam uma posição intermediária entre a da França e a da Grécia,
diante de toda pintura (ou qualquer objeto) de inspiração não realista
se excetuarmos os estudantes e os professores que, ainda mais
"Isto é um Picasso" ou diante de qualquer obra que evoque, de
nitidamente do que seus homólogos franceses, manifestam sua
perto ou de longe, a maneira de pintar do artista florentino: "Parece
reserva em relação a todas as formas de ajuda, talvez porque se
um Da Vinci"; trata-se também de categorias bem amplas, tais como
encontram em melhores condições para avaliar o custo que essas
os "impressionistas" (cuja definição, análoga à adotada pelo Musée
disciplinas podem implicar para eles. Dotados de um nível de
du Jeu de Paume, estende-se comumente a Gauguin, Cézanne e
competência pouco elevado, os visitantes gregos não podem deixar
Degas) ou "os holandeses" ou, ainda, "o Renascimento". Assim,
de sentir, com um vigorparticular, a necessidade de serem ajudados
para nos limitarmos a um indicador extremamente grosseiro, a parcela
na visita de museus que apresentam, sobretudo, vestígios dos sujeitos que, ao responder à pergunta sobre suas preferências
arqueológicos [d. Apêndice 5, Gráfico 6].
picturais, citam uma ou várias escolas cresce de forma bastante
Será motivo de espanto o fato de que a ideologia do dom significativa à medida que se eleva o nível cultural (ou seja, 5% para
natural e do olho novo esteja tão disseminada entre os visitantes os detentores do C. E. P., 13% para os titulares do B. E. P. C., 25%
mais cultos e em tantos conservadores de museu, e de que os para os estudantes que passaram no vestibular, 27% para os que
profissionais da análise erudita das obras de arte sintam, obtiveram a IÍcence, e 37% para os detentores de um diploma superior
freqüentemente, repugnância em proporcionar aos não-iniciados o à Ikence). Do mesmo modo, entre os visitantes oriundos das classes
equivalente ou o substituto do programa de percepção armada de populares, 55% não citam nenhum nome de pintor; por sua vez, os
que são detentores e constituintes de sua cultura?55 Se a ideologia restantes nomeiam, quase sempre, os mesmos autores, consagrados
carismática que transforma o encontro com a obra na ocasião de pela tradição escolar e pelas reproduções dos livros de história e das
uma descida da graça (charÍsma) proporciona aos privilegiados a enciclopédias, ou seja, Leonardo Da Vinci ou Rembrandt.
mais "indiscutível" justificação de seu privilégio cultural, fazendo A parcela dos visitantes que citam escolas cresce, em todos os
esquecer que a percepção da obra é necessariamente erudita _ por países, à medida que se eleva o nível de instrução. Sempre
conseguinte, aprendida -, os visitantes oriundos das classes
bastante reduzida, essa taxa corresponde, na Polónia, a 2% para
populares estão bem posicionados para saber que o amor pela arte as classes médias e a 5% para as classes superiores, enquanto a
nasce de um convívio bem prolongado e não de um golpe repentino: parcela dos visitantes que citam, exclusivamente, pintores

90
o amor pela arle obras cuRurais e disposição cuRa 91
bastante célebres passa de 39% relativamente às classes populares (pinturas ou esculturas) [d. Apêndice 2, Tabelas 14 e 15].56 Do
para 24% das classes médias e para 15,5% das classes superiores. mesmo modo, finalmente, a taxa dos visitantes que conhecem já as
Na Grécia, a taxa dos visitantes que citam pelo menos uma escola obras que vinham ver no museu cresce fortemente à medida que se
de pintura é nula em relação àqueles que possuem apenas o sobe na hierarquia social (ou seja, 13% nas classes populares, 25,5%
ensino primário, correspondendo a 6% relativamente àqueles nas classes médias e 54,5% nas classes superiores); uma parcela
que freqüentaram o ensino técnico, 24% em relação àqueles que desses visitantes (26% nas classes populares, 45% nas classes médias
têm o nível de vestibular e 19% para aqueles que atingiram o e 26% nas classes superiores) já conhecia as obras através de
nível universitário. Entre o público holandês, a hierarquia é a reproduções [cf.Apêndice 4, Tabela 4]. Em suma, os saberes genéricos
mesma, embora as taxas de citações de escolas sejam globalmente - ou seja, a condição da percepção das diferenças e da fixação das
mais elevadas, o que se compreende facilmente, considerando lembranças, nomes próprios, conceitos históricos, técnicos ou
que a escolaridade secundária e superior é nitidamente mais estéticos - são cada vez mais numerosos e mais específicos à medida
disseminada e que a riqueza e a diversidade das coleções que se avança em direção às classes mais cultas.
holandesas de pintura conferem a seus museus um nível de oferta
O oposto de um desmentido de tais proposições é o que
sem qualquer proporção com o dos museus poloneses nem com
deve ser observado no fato de que os visitantes orientam sua escolha
o dos museus de arte gregos, pelo menos no que diz respeito à
para os pintores mais célebres e mais consagrados pela Escola com
pintura. Assim, 14% dos holandeses do nível primário, 25% do
uma freqüência tanto maior quanto menor é seu nível de instrução;
nível técnico, 66% do nível do vestibular e 43% do nível
pelo contrário, os visitantes mais cultos, residentes nas grandes
universitário, citam, no mínimo, uma escola de pintura [d.
cidades, são os únicos a citar pintores modernos que têm menos
Apêndke 5, Tabela 7]. Na França, país em que as taxas são
possibilidades de encontrar lugar no ensino [d. Apêndice 2, Tabela
ligeiramente inferiores, observa-se que 22% dos agricultores
20]. O acesso aos juízos de gosto, classificados como "pessoais",
citam, pelo menos, um pintor não representado no museu, contra
é ainda um efeito da instrução recebida: a liberdade de se libertar
39% dos operários, 54% dos artesãos e comerciantes, 63% dos
das restrições escolares pertence apenas àqueles que assimilaram
empregados e quadros médios, 70% dos quadros superiores,
suficientemente a cultura escolar para interiorizar a atitude
77% dos professores primários e 78% de outros professores,
autonomizada em relação a essa cultura, ensinada por uma Escola
especialistas de arte e estudantes.
tão profundamente impregnada pelos valores das classes
Do mesmo modo, os visitantes oriundos das classes populares dominantes que ela retoma, por sua conta, a desvalorização mundana
se interessam, preferencialmente, pelas obras "menores" que lhes das práticas escolares. A oposição escolar entre a cultura canônica,
são mais acessíveis, como os móveis ou as cerâmicas, os objetos estereotipada e, como diria Marx Weber, "rotinizada", por um lado,
históricos ou do folclore, seja porque conhecem seu uso, dispondo e, por outro, a cultura autêntica, libertada dos discursos escolares,
de elementos de comparação e de critérios de avaliação (ou, ainda só tem sentido para uma ínfima minoria de homens cultos, porque
melhor, de apreciação em seu verdadeiro sentido), ou porque a cultura a plena posse da cultura escolar é a condição da superação da cultura
exigida para a compreensão de tais objetos, a saber, a cultura da Escola em direção à cultura livre - ou seja, libertada de suas
histórica, é mais comum; por sua vez, os membros das classes origens escolares - considerada pela classe burguesa e sua Escola
superiores prestam maior atenção às obras de arte mais nobres como o valor dos valores.

92 93
o amor pela arle obras cuRurais e dispoÚção cuRa
11\"

Na França, os visitantes de nível inferior ao vestibular orientam-se, precedente, ou seja, Van Gogh, Rembrandt, Picasso, Goya, Cézanne,
quase exclusivamente, em direção aos pintores mais renomados Renoir e Da Vinci. O fato de que o público de cada um dos países
(como Van Gogh ou Renoir, que foram objeto de filmes, ou Picasso manifeste a tendência para colocar pintores nacionais nos
e Buffet, que fazem parte da atualidade) e mais consagrados pela primeiros lugares explica-se, sem dúvida, pelo apego aos valores
tradição escolar (tais como Da Vinci, Rembrandt ou Michelangelo) pátrias, estimulado pelas tradições escolares (em particular,
ou por reproduções de manuais (como Le Nain, David, La Tour, veiculadas pelos livros adotados na escola) e, ao mesmo tempo,
Greuze ou Rafael); os visitantes detentores do vestibular cedem pelo conteúdo das coleções nacionais. É assim que os poloneses
menos às solicitações da atualidade (Van Gogh cai do primeiro atribuem uma preferência bastante marcante a pintores (uma dúzia,
para o segundo lugar; Picasso do terceiro para o sexto; e Buffet do entre os vinte nomes citados), cuja obra está estreitamente
quinto para o décimo-sexto) e citam com menor freqüência os associada à história nacional; por sua vez, além de colocarem El
pintores mais "escolares" que cedem o lugar a Gauguin, Braque, Greco em primeiro lugar, os gregos citam outros pintores nacionais,
Cézanne, Dufy, Fra Angelica, El Greco e Velásquez. Além de terem embora em menor proporção do que os poloneses, sem dúvida,
um leque de escolhas nitidamente mais aberto (como é porque o ensino não reconhece à pintura grega da época moderna
testemunhado pelo fato de que os vinte pintores mencionados com um lugar e sentido análogos aos que lhe são conferidos na Polônia,
maior freqüência não constituem senão 44% dos pintores citados, e também porque, sendo seus gostos e preferências menos
contra 56% nas classes médias e 65% nas classes populares), os tributários diretamente de um ensino que reserva um lugar
visitantes de nível superior ao vestibular propõem uma classificação extremamente reduzido à história da arte, eles atribuem uma
que se distingue, tanto pela originalidade dos nomes citados Gáque importância maior aos pintores estrangeiros. O fato de que os
se vê aparecer Botticelli, Klee, Poussin, Vermeer, Bosch, Ticiano), vinte pintores citados com maior freqüência representem 94,1%
quanto pela hierarquia das preferências (Van Gogh cai para o sexto das menções na Grécia, 81,1 % na Polônia, 60,9% na Holanda e
lugar, Da Vinci para o oitavo, Rafael para o décimo-quinto): sem 50,8% na França, e de que, também, os dois primeiros pintores
dúvida, o mais importante é que, ao lado dos pintores
citados representem, por si só, quase metade das menções na Grécia
impressionistas, citados com menor freqüência, e dos grandes e na Polônia (54,2% e 46,3%, contra 37,3% na Holanda e 16,3%
clássicos, comuns a todas as listas (Da Vinci, Rembrandt, Delacroix,
na França), dá testemunho de que o campo dos pintores conhecidos
etc.), aparecem, com boa classificação, pintores modernos, tais
(e amados) tende a aumentar à medida que cresce o capital cultural
como Klee (7) e Braque (8), assim como clássicos menos renomados, nacional. As diferenças entre as preferências do público francês e
tais como Poussin (8), Vermeer (8), Velásquez (8) ou Ticiano (15)
[cf. ApêndÍce 2, Tabela 21]. do público holandês explicam-se, sem dúvida, por um lado, pelo
conteúdo das coleções artísticas dos dois países; além disso, é
Apesar de ser possível verificar o crescimento da parcela das notável que pintores, tais como Klee (que, na França, só aparece
citações originais à medida que se sobe na hierarquia social, os na classificação das classes superiores) ou Mondrian e Kandinsky,
visitantes de museus na Europa estão de acordo, com pequenas apareçam em lugar bastante bom entre os pintores citados pelo
variantes de caráter nacional, em relação a uma hierarquia comum conjunto do público holandês [cf. Apêndice 5, Tabela 11]. Bastante
das notoriedades da qual fazem parte, em proporções praticamente apegados a suas tradições nacionais e, sobretudo, regionais, os
iguais, os valores mais clássicos e os revolucionários da geração italianos colocam nos primeiros lugares os pintores locais,

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95
. o amor pela arle obras cuRurais e chsposição cuRa
ao lado das glórias mais reconhecidas, Botticelli ou Da Vinci, contas, bastante ortodoxos e que, segundo observava Boas, "o
enquanto Rembrandt, Goya e os impressionsitas só aparecem pensamento do que chamamos de classes cultas seja controlado,
mencionados pelo público culto de Milão.
principalmente, pelos ideais que foram transmitidos pelas gerações
Os visitantes mais cultos manifestam, muitas vezes, o passadas"?57 Se, com maior freqüência do que os outros, os mais
sentimento de participar de uma cultura livre, fazendo incidir suas deserdados em matéria de cultura detêm e exprimem o que aparece
escolhas, por um lado, nos pintores revolucionários das gerações ao observador como a verdade objetiva da experiência culta é pela
seguinte razão: do mesmo modo que a ilusão da compreensão
precedentes, em vez dos pintores mais antigos, desvalorizados pelo
hábito e pela falsa famílíaridade, ou, por outro, nos mais inovadores imediata do meio ambiente cultural não é possível senão no âmbito
dos criadores contemporâneos. do mundo natal, em que os comportamentos e os objetos culturais
são moldados segundo determinados modelos imediatamente
Uma pesquisa anterior sobre as opiniões e as práticas dos controlados, assim também a ilusão carísmática, advinda da
estudantes em matéria de pintura mostrou que, apesar de sua
familiaridade, só pode desenvolver-se naqueles para quem o mundo
aspiração à originalidade, os estudantes franceses davam, da cultura erudita é também o mundo natal. Ou, dito por outras
maciçamente, sua preferência aos pintores mais consagrados entre palavras, o desnorteamento e a confusão daqueles que estão
os que eram propostos à sua seleção.O apego aos valores seguros desprovidos da "cifra" cultural lembram que a compreensão de uma
observa-se, tanto à escala da história geral da pintura - os primeiros conduta ou de uma obra cultural é sempre dedfTação mediata, até
lugares são atribuídos a Da Vinci,Poussin, Chardin, Légere Dali _, mesmo no caso particular em que a cultura objetiva e objetivada
quanto em relação à pintura francesaposterior ao impressionismo. tornou-se, no termo de um longo e lento processo de interiorização,
No entanto, do mesmo modo que os visitantes estão tanto mais cultura no sentido subjetivo.
inclinados ao conformismo, quanto mais baixa é sua posição na
Eis o motivo pelo qual afirmar que os homens cultos são os
hierarquia social e cultural, assim também a escolha dos clássicos
possuidores de cultura é mais do que uma simples tautologia. Ao
mais notórios é mais freqüente entre os filhos de camponeses e de
aplicarem - por exemplo, às obras de sua época - determinadas
operários. Uma análise mais minuciosa permitiria até mesmo
categorias herdadas e, ao mesmo tempo, ignorarem a novidade
estabelecer uma distinção entre pintores apreciados,
irredutível de obras que trazem em seu bojo as próprias categorias
indiferentemente da classe social de origem dos visitantes (Van
de sua própria percepção, os homens cultos - que fazem parte da
Gogh, Gauguin, Monet, Buffet); pintores cujo prestígio cresce à
cultura tanto quanto a cultura lhes pertence -limitam-se a exprimir
medida que essa origem social é mais elevada (Degas, Sisley, a verdade da experiência culta que é, por definição, tradicional. Como
Modigliani);pintores mais apreciadospelos estudantes originários se vê, os devotos da cultura, votados ao culto das obras consagradas
das classes populares (Renoir, Cézanne); e alguns pintores que, dos profetas defuntos, assim como os sacerdotes da cultura,
segundo parece, correspondem às preferências próprias às classes dedicados à organização desse culto, encontram-se do lado
médias (Utrillo, Toulouse-Lautrec).
completamente oposto aos profetas culturais que transtornam a
Será surpreendente que os gostos e o bom gosto que os rotina do fervor ritualizado, enquanto não tiver passado o tempo
sujeitos mais cultos devem à ação homogênea e homogeneizante, necessário para que, por sua vez, sejam "rotinizados" por novos
"rotinizada" e "rotinizante" da instituição escolar, sejam, afinal de sacerdotes e novos cl,evotos.

96
o amor pekz arle obras cu/iurais e disposição cu/ia 97
Mas será que temos o direito de tirar a conclusão de que, das de ensino e, talvez, todo o sistema socia].58A desvalorização do
relações estabeleci das entre o nível de instrução e todos os caracteres ensino artístico participa da desvalorização de todo ensino técnico,
da prática cultural, a influência da Escola é determinante, sabendo ou seja, de todo ensino das "artes mecânicas" que exige, sobretudo,
que, pelo menos na França, por falta dos mais indispensáveis meios o trabalho manual; ora, é significativo que o professor de desenho
materiais e institucionais, a ação direta da Escola (educação artística, encontre algum prestígio somente no universo, globalmente
ensino da história da arte, visitas guiadas de museus, etc.) é desvalorizado, do ensino técnico. Além disso, o fato de que o
extremamente precária? Ora, esta carência é particularmente grave, ensino da história da arte esteja dissociado do ensino das técnicas
já que somente 3% dos visitantes atuais de museus entraram pela artísticas e tenha sido confiado aos professores de história,
primeira vez em um museu depois de terem completado vinte e quatro disciplina canônica, manifesta a tendência de todo sistema de ensino
anos (o que significa que o destino é definido bem precocemente) e francês em subordinar a produção de obras ao discurso sobre as
já que as crianças originárias dos meios desfavorecidos não visitam obras. Mas, por outro lado, o ensino do desenho ou da música
museus a não ser por intermédio da Escola [cf. Apêndke2, Tabela deve também sua situação subalterna ao fato de que a sociedade
5]. Por falta de uma organização específica, diretamente orientada burguesa que exalta o consumo das obras atribua pouco valor à
para a inculcação da cultura artística e encarregada de sancionar prátÍca das artes recreativas e aos produtores profissionais de obras
sua assimilação, as operações escolares de difusão cultural são de arte. Convém citar as KreislerÍana de Hoffman: "É evidente
abandonadas à iniciativa dos professores, de modo que a influência que, ao crescerem, as crianças devem renunciar à prática da arte;
direta da Escola é bastante reduzida: 7% somente dos visitantes com efeito, tais coisas não podem convir a homens sérios e, muitas
franceses afirmam ter descoberto o museu pela Escola e aqueles que vezes, levam as damas a negligenciar os deveres superiores do
devem seu interesse pela pintura à influência direta de um professor mundo. Desde então, limitam-se a ter uma fruição passiva da
são relativamente pouco numerosos [cf. Apêndke 2, Tabela 6]. música e fazem com que, em seu lugar, esta seja tocada pelos
filhos ou artistas profissionais. Desta adequada definição da arte,
Não se pode compreender que o ensino do desenho ocupe, na
conclui-se que os artistas - ou seja, pessoas que dedicam (na verdade,
França, um espaço tão restrito nos programas educacionais e que
de forma bem absurda!) sua vida inteira a uma ocupação que
os professores encarregados de tal ensino sejam tradicionalmente
serve apenas para sua recreação e distração - devem ser
considerados, tanto pela administração quanto por seus colegas e
considerados como ralé e só devem ser tolerados por colocarem
pelos alunos, como docentes de segunda ordem, votados aos
em prática o miscereutili du1ce. Nunca um homem de bom senso
ensinos secundários, com todas as conseqüências pedagógicas e
e de mente madura irá atribuir ao mais excelente artista uma
materiais daí decorrentes (falta de locais especializados e de
estima semelhante àquela que dedica a um laborioso escrivão ou,
material, falta de apoios institucionais); tampouco se pode
até mesmo, ao artesão que confeccionou a almofada em cima da
compreender o fato de que a história da arte seja confiada, não aos
qual está sentado o conselheiro em seu gabinete ou o comerciante
professores de desenho, exclusivamente votados ao ensino das
diante do caixa: com efeito, uns têm em vista o útil, enquanto os
técnicas, mas aos professores de história que, subjugados à tirania
outros ligam somente para o agradável. Portanto, o fato de nos
dos programas, consagram à arte, como afirma um deles, "uma
mostrarmos delicados e amáveis para com o artista só pode ser a
aula por século", se este estado de coisas não for visto como a
conseqüência de nossa civilização e de nossa bonomia que nos
expressão da hierarquia dos valores que domina todo o sistema

99
98 o amor pela arle obras cuHurais e disposição cuHa
levam exatamente a sermos gentis e frívolos com as crianças e admirar e amar certas obras ou classes de obras acaba aparecendo,
com as outras pessoas menos sérias". aos poucos, como ligado a um certo estatuto escolar e social; por
Mesmo que a instituição escolar reserve apenas um espaço outro lado, uma aptidão, igualmente generalizada e transponível
restrito para o ensino propriamente artístico, mesmo que, portanto, para a classificação por autores, gêneros, escolas ou épocas: o
não forneça nem uma incitação específica à prática cultural, nem remanejamento das categorias escolares da análise literária e o hábito
um corpo de conceitos especificamente adequados às obras de arte de adotar uma postura crítica predispõem a adquirir, pelo menos,
plástica, ela tende, por um lado, a inspirar uma certa famiJjaridade as categorias equivalentes em outras áreas e a entesourar os saberes
- constitutiva do sentimento de pertencer ao mundo culto - com típicos que, até mesmo extrínsecos e acessórios, tornam possível
o universo da arte em que nos sentimos perfeitamente à vontade e uma forma elementar de apreensão específica da representação,
em perfeita harmonia com o autor na qualidade de destinatários baseada no recurso à metáfora literária ou na invocação de analogias
titulares de obras que não se revelam a qualquer pessoa. Assim, tomadas de empréstimo à experiência visual. Assim, pelo fato de
por exemplo, se o acesso à faculdade desencadeia na maior parte que a compra de um guia ou de um catálogo pressupõe uma
dos estudantes uma espécie de bulimia cultural, é porque marca verdadeira atitude em relação à obra de arte, atitude constituída
(entre outras coisas) a entrada no mundo culto, ou seja, o acesso pela educação, a utilização dessas espécies de manuais que fornecem
ao direito e, o que dá no mesmo, ao dever de se apropriar da cultura; um programa de percepção armada restringem-se, quase
é, também, porque a incitação à prática cultural exercida pelos exclusivamente, aos visitantes mais cultos, de modo que sua função
grupos de referência torna-se, neste caso, particularmente forte. se limita a iniciar quem já é iniciado.
Do mesmo modo, a diferença bastante marcante entre as taxas dos Na França, a taxa de possuidores de "Guides Verts" (que propõem
visitantes dotados de instrução primária e as taxas daqueles que programas leves e realizáveis) corresponde a 2% nas classes
freqüentaram estudos secundários dá testemunho de que o ensino populares, 7% dos membros das classes médias e dos quadros
secundário - pelo menos, nos países e períodos em que a quase superiores, além de 8% dos professores e especialistas de arte
totalidade das classes populares e uma forte proporção das classes que procuram no "Guide Bleu", mais difícil e mais completo
médias continuavam excluídas dele - está associado, tanto em sua (adquirido por 5% e 8% destes últimos, contra 3% das classes
significação social quanto em sua significação vivenciada, a um médias), uma informação exaustiva, cuja utilização pressupõe a
certo tipo de relação com a cultura que implica a possibilidade de dissociação entre a simples percepção e o conhecimento erudito.
freqüentar museus.
Na Polônia, os utilizadores do catálogo limitam-se aos
A Escola tende, além disso, a inculcar (em graus diferentes, professores, incluindo os do ensino primário (14%), aos artistas
nos diferentes países europeus) uma disposição erudita ou escolar, e escritores (7%) ou aos estudantes (6%). A utilização de um
definida pelo reconhecimento do valor das obras de arte, assim guia "erudito" ("Guide Bleu" ou equivalente) e, até mesmo, de
como pela aptidão duradoura e generalizada, a se apropriar dos um guia turístico simplificado ("Guide Vert" ou equivalente) é
meios destinados à sua apropriação. 59 Apesar de ser orientada quase ainda mais reduzida na Grécia, país em que a menção aos guias
exclusivamente para as obras literárias, a aprendizagem escolar só aparece no nível dos titulares do vestibular (3,5% e 1,5%,
tende a criar, por um lado, uma disposição transponível para admirar respectivamente) e de um diploma universitário (5% e 1%). Do
obras consagradas no âmbito escolar, de modo que o dever de mesmo modo, na Holanda, 4% dos titulares do vestibular

100
o amor peh arle obras cuRurais e disposição cuRa 101
utilizam o "Guide Vert" e 6% o "Guide Bleu"; no entanto, a
para as classes superiores (r = 0,39 e r = 0,50), o que tende a
proporção dos utilizadores de guias cai para 2% entre aqueles
mostrar que a disposição culta como atitude generalizada é cada
que fizeram estudos superiores.6o
vez mais freqüente à medida que se sobe na hierarquia social. A
A melhor prova de que os princípios gerais da transferência freqüência do teatro, mais intensa do que a assistência ao concerto
das aprendizagens são válidos, também, relativamente às (já que o ritmo modal corresponde a uma representação de três
aprendizagens escolares reside no fato de que as práticas de em três ou de quatro em quatro meses), está também
determinado indivíduo ou, pelo menos, dos indivíduos de uma estreitamente associada à freqüência do museu (r = 0,31 nas
categoria social ou de determinado nível de instrução, tendem a classes médi~s e r = 0,33 nas classes superiores) e varia, portanto,
constituir um sistema, de modo que um certo tipo de prática em em função da posição na hierarquia social e do nível de instrução.
um domínio qualquer da cultura está associado, com uma O fato de que os visitantes oriundos das classes populares tenham
probabilidade bastante forte, a um tipo de prática equivalente em uma prática do teatro e do concerto extremamente reduzida tende
todos os outros domínios. É assim que a freqüência assídua de a confirmar que sua visita assídua a um museu não exprime uma
museus está, mais ou menos necessariamente, associada a uma verdadeira disposição culta. Pelo contrário, a freqüência das salas
freqüência equivalente do teatro e, em menor grau, do concerto. Da de cinema, muito mais intensa do que as outras práticas culturais
mesma forma, tudo parece indicar que os conhecimentos e os gostos (já que o ritmo modal corresponde a uma sessão por semana),
tendem a se constituir em constelações (estritamente associadas ao não está, de modo algum, associada à freqüência dos museus
nível de instrução), de modo que a estrutura típica das preferências (r = 0,11 para as classes médias e r = 0,07 para as classes
e saberes em pintura apresenta todas as condições de ser associada superiores) e depende, de forma reduzida, do nível de instrução,
à estrutura do mesmo tipo de conhecimentos e gostos em música de modo que, se excetuarmos uma minoria de estetas que mantêm
ou, até mesmo, em jazz ou em cinema. 61 uma atitude semelhante diante do cinema, do teatro ou do museu,
podemos considerar que a freqüência das salas de cinema obedece
Os visitantes de museus declaram ritmos de freqüência do
a uma lógica que já nada tem a ver com a das práticas nobres
concerto, no conjunto, nitidamente inferiores a seus ritmos de
[d. Apêndice 3, Tabela 7].62
visita a um museu: todos os visitantes oriundos das classes
populares, salvo um, 51 % dos visitantes das classes médias e 26,6% Podemos ver uma outra prova da transferabilidade das
dos visitantes das classes superiores afirmam que nunca foram a aprendizagens escolares no fato de que, contrariamente a certas
representações da sociologia espontânea, um elevado grau de
um concerto; além disso, o ritmo modal é, em relação ao museu,
de uma visita de três em três ou de quatro em quatro meses. Por competência em domínios da cultura estrangeiros ao ensino, tais

sua vez, a distribuição dos visitantes segundo o ritmo de sua como o jazz ou o cinema, tem fortes possibilidades de ser associado

freqüência do concerto apresenta dois modos: o mais elevado na a um elevado grau de competência nos domínios diretamente
ensinados e consagrados pela Escola, tais como o teatro, e, por
rubrica "nunca"; enquanto o segundo em "três ou quatro vezes
conseguinte, encontrar-se entre os estudantes colocados nas mais
por ano". À semelhança da visita assídua a um museu, a freqüência
elevadas posições da hierarquia escolar, portanto, mais aptos a
do concerto cresce fortemente à medida que se sobe na hierarquia
aplicar ao cinema uma atitude erudita e a memorizar saberes, tais
social; neste caso, a correlação entre os ritmos de freqüência
como os nomes dos diretores dos filmes.
aumenta concomitantemente quando se passa das classes médias

102
o aIllorpela arle obras cu/iurais e disposição cu/ia 103
Será possível objetar que a pior maneira de abordar as obras com as obras de arte, com reduplicações e requintes indefinidos,
de arte consiste em aplicar-Ihes categorias e conceitos tão pouco autorizados por tal relação - é porque, neste domínio em que tudo
específicos, quanto os da história literária. E a oposição entre "as é questão de maneira de ser, a maneira correta não se adquire senão
impressões ingênuas de um olhar novo" e os discursos escolares através das aprendizagens imperceptíveis e inconscientes de uma
sobre a pintura já se tornou um lugar comum da conversação culta. primeira educação, ao mesmo tempo, difusa e total: em suma, os
De fato, antes de tudo, tal postura esquece que o "rendimento social" matizes ínfimos e infinitos de uma disposição autenticamente culta
da cultura artística depende, no mínimo, tanto da aptidão para em que nada deve evocar o trabalho de aquisição remetem, em última
exprimir as experiências artísticas, quanto da qualidade intrínseca análise, a um modo particular de aquisição.
e inverificável de tais experiências. Além disso, a representação que Pelo fato de que a obra de arte apresenta-se como uma
opõe a atitude autenticamente culta à pura fruição passiva e, ao individualidade concreta que nunca se deixa deduzir dos princípios e
mesmo tempo, à disposição escolar - sobre a qual recai a suspeita regras que definem um estilo, a aquisição dos instrumentos que tornam
de confinar a virtualidade da perversão ascética que leva a privilegiar possível a familiaridade com as obras de arte não pode operar senão
os acompanhamentos rituais da fruição em detrimento da própria por uma lenta familiarização. A competência do conhecedor não pode
fruição -, desempenha uma função ideológica ao descrever ser transmitida, exclusivamente, por preceitos ou prescrições. E a
determinada maneÍra de abordar as obras, produto de um tipo aprendizagem artística pressupõe o equivalente do contato prolongado
particular de aprendizagem, como a única legítima. De fato, entre o discípulo e o mestre em um ensino tradicional, ou seja, o
privilegiar, entre todos os tipos de disposição, aquele que carrega contato repetido com a obra (ou com obras da mesma classe): assim,
menos vestígios de sua gênese, isto é, a facilidade ou o "natural", é por exemplo, a visita assídua a obras apresentadas segundo uma
uma forma de estabelecer a separação intransponível entre os classificação metódica, por escolas, épocas ou autores, tende a produzir
detentores da maneira correta de consumir os bens culturais que a espécie de familiaridade global e inconsciente com seus princípios,
faz a qualidade do consumidor (e, em certos casos, o valor do bem permitindo que o espectador culto atribua, imediatamente, uma obra
consumido), e os novos-ricos da cultura que denunciam, nos mais singular à uma classe, seja relativa à maneira de pintar de um autor,
insignificantes detalhes de sua prática, as carências sutis de uma ao estilo de uma época ou de uma escola. Do mesmo modo que o
cultura adquirida em más condições - ou seja, autodidatas, cujos aprendiz ou o discípulo pode adquirir ÍnconscÍentementeas regras da
saberes discordantes permanecerão sempre distintos dos arte, incluindo as que não são explicitamente conhecidas pelo próprio
conhecimentos bem comedidos do homem que freqüentou a Escola mestre, mediante uma verdadeira renúncia de si que exclui a análise
pelo simples fato de que tais saberes não foram adquiridos segundo e a seleção dos elementos da conduta exemplar, assim também o amador
as regras e na ordem correta, "pedantes" e "primários" que, através de arte pode, ao abandonar-se de alguma forma à obra, interiorizar
de conhecimentos e interesses exclusivamente escolares, revelam seus princípios e regras de construção sem que, em momento algum,
ser tributários da Escola em relação a todas as suas aquisições de estes sejam trazidos à consciência e formulados enquanto tais, o que
ordem cultural. Se "a arte infinitamente variada de marcar as faz toda a diferença entre o teórico da arte e o conhecedor, quase
distâncias", da qual falava Proust, encontra seu terreno predileto sempre incapaz de explicitar os princípios de seus juízos. Neste
na maneira de usar sistemas simbólicos - adereços e automóvel, domínio, como em outros (por exemplo, a aprendizagem da gramática
indumentária e mobília, linguagem e atitude, e, sobretudo, na relação da língua materna), a educação escolar tende a favorecer a retomada

105
104 o amor pela arle obras cu/iurais e disposição cu/ia
consciente de esquemas de pensamento, de percepção ou de expressão, Quanto mais a tarefa de transmissão cultural for abandonada
já controlados inconscientemente, por um lado, ao formular pela Escola à família e tanto mais a ação escolar tenderá a consagrar
explicitamente os princípios da gramática criadora, por exemplo, as e legitimar as desigualdades prévias, já que seu rendimento depende
leis da harmonia e do contraponto, ou as regras da composição da competência - prévia e distribuída de forma desigual - dos
pictural, e, por outro, ao fornecer o material verbal e conceitual indivíduos sobre os quais ela se exerce.63 Além disso, mesmo que,
indispensável para dar nome às diferenças, antes de tudo, percebidas parcialmente, a instituição escolar chegasse a tomar o lugar das
de maneira puramente intuitiva. Um ensino artístico que se reduza a instâncias tradicionais de transmissão ao trabalhar diretamente para
um discurso (histórico, estético ou outro) sobre as obras é proporcionar a familiaridade com as obras, pressuposta por qualquer
necessariamente um ensino de segundo plano: à semelhança do que tipo de educação artística, o produto de sua ação correria sempre o
ocorre com o ensino da língua materna, a educação literária ou artística risco de aparecer como o substituto desvalorizado da disposição
(ou seja, "as humanidades" do ensino tradicional) pressupõe conveniente, enquanto a representação predominante da disposição
necessariamente - sem nunca, ou quase, se organizar em função dessa culta continuar a se impor como a única legítima, e enquanto a
condição prévia - indivíduos dotados de uma competência previamente ação escolar coexistir com os modos de transmissão que estão em
adquirida e de um verdadeiro capital de experiências (visitas de museus harmonia com essa representação ideológica por lhe servirem de
ou de monumentos, audições de concertos, leituras, etc.) que se fundamento e a justificarem. De fato, uma incitação que não tenha
encontram distribuídas, de forma bastante desigual, entre os diferentes necessidade de ser deliberada e metódica para ser eficaz, e cuja
meios sociais. afirmação é tão imperceptível que, muitas vezes, age sem ser sentida,
só pode reforçar a ilusão carismática; neste caso, para fornecer o
A parcela dos visitantes que afirmam ter vindo a um museu pela
sentimento da familiaridade com as obras culturais, nada melhor do
primeira vez com a família cresce fortemente à medida que se
sobe na hierarquia social (ou seja, 6% dos agricultores, 18% dos
que promover, precocemente, a visita assídua - e inserida nos ritmos
familiares da vida familiar - de tais obras.
operários e as classes médias e 30% dos quadros superiores).
Nota-se que estas diferenças ainda se encontram minimizadas Ao se eximir de trabalhar de forma metódica e sistemática,
porque a parcela dos visitantes que afirmam ter feito sozinhos a através da mobilização de todos os meios disponíveis, desde os
primeira visita (com ou sem razão e, em todo caso, sem que isso primeiros anos da escolaridade, em proporcionar a todos, na situação
signifique que eles não tivessem recebido a influência difusa ou as escolar, o contato direto com as obras ou, pelo menos, um substituto
incitações formais de sua família) cresce à medida que se avança aproximativo dessa experiência, a instituição escolar abdica do poder,
em direção às classes mais favorecidas [cf. Apêndke 2, Tabela 6]. que lhe incumbe diretamente, de exercer a ação continuada e
A primeira visita é sempre tanto mais precoce quanto mais elevado prolongada, metódica e uniforme, em suma, universal ou tendendo
for o nível de instrução; neste caso, a parcela dos visitantes que à universalidade; ora, tal ação é a única capaz de produzir em série,
entraram em um museu antes de completarem quinze anos, passa provocando grande escândalo entre os detentores do monopólio da
de 26% entre os 'visitantes oriundos das classes populares (cuja distinção culta, indivíduos competentes, providos dos esquemas de
primeira visita está, muitas vezes, associada ao turismo) para percepção, de pensamento e de expressão que são a condição da
37,5% nas classes médias, mais fortemente tributárias da Escola, apropriação dos bens culturais, e dotados da disposição generalizada
para atingir 56% nas classes superiores [d. Apêndke 2, Tabela 5]. e permanente para se apropriar de tais bens. A Escola, cuja função

106 107
o amor pela arle obras cuRurais e disposição cuRa
específica consiste em desenvolver ou criar as disposições que fazem cursus* escolar, em graus desiguais de conhecimento e de prática
o homem culto e constituem o suporte de uma prática duradoura artística, compreende-se que o sistema escolar, ao se ocupar apenas
e intensa, ao mesmo tempo, de forma qualitativa e quantitativa, de discentes iguais em direitos e em deveres, se limite na maior
poderia compensar (pelo menos, parcialmente) a desvantagem parte das vezes a reduplicar e sancionar as desigualdades iniciais
inicial daqueles que, em seu meio familiar, não encontram a diante da cultura. E se as desigualdades diante do museu são ainda
incitação à prática cultural, nem a familiaridade com as obras, mais brutais do que as desigualdades diante da Escola (como mostra
pressuposta por todo discurso pedagógico sobre as obras, com a a comparação da estrutura do público de museus com a estrutura
condição somente de que ela utilize todos os meios disponíveis do público do ensino superior) é porque a influência do privilégio
para quebrar o encadeamento circular de processos cumulativos cultural nunca é tão grande a não ser no domínio da cultura "livre",
ao qual está condenada qualquer ação de educação cultural. Quem ou seja, a menos escolar: assim, por exemplo, embora os estudantes
ridiculariza, considerando-o primário, o ensino que, por técnicas tenham um conhecimento do teatro tanto mais extenso quanto
simples (por exemplo, pela apresentação de reproduções e pelo mais elevado for o meio social do qual fazem parte, a inferioridade
treino relativo à atribuição), entendesse transmitir saberes dos estudantes oriundos das classes populares, que se atenua nos
rudimentares, tais como datas, escolas ou épocas, esquece que mais consagrados domínios da cultura teatral, ou seja, em relação
esses métodos, por mais grosseiros que possam parecer, às obras "clássicas", é particularmente marcante em matéria de
transmitiriam, pelo menos, um conhecimento mínimo que, teatro de vanguarda ou de bulevar; do mesmo modo, em pintura,
legitimamente, não pode ser desdenhado senão por referência a as diferenças que tendem a se anular no que diz respeito aos
técnicas de transmissão mais exigentes. Ao proceder como se as pintores mais consagrados (Renoir, Van Gogh, Cézanne) reaparecem
desigualdades em matéria de cultura não pudessem se referir senão em toda a sua brutalidade desde que se avance em direção a
a desigualdades de natureza, ou seja, desigualdades de dom, e ao conhecimentos menos diretamente veiculados pelo ensino e, no
omitir de fornecer a todos o que alguns recebem da família, o caso concreto, pelo ensino secundário, quando se trata, por
sistema escolar perpetua e sanciona as desigualdades iniciais.
exemplo, de pintores menos célebres, tais como Cranach,
Se as vantagens ou desvantagens sociais pesam tão Chassériau, Moreaux, ou, ainda mais nitidamente, de pintores
consideravelmente sobre as carreiras escolares e, de forma mais modernos, tais como Klee, Mondrian, Dubuffet.64 Assim, quem
geral, sobre toda a vida cultural, é porque, percebidas ou recebe da família as mais fortes incitações explícitas ou difusas
despercebidas, elas são sempre cumulativas. Sabendo que, de um para a prática cultural conserva também o máximo de possibilidades,
lado, os níveis culturais dos diferentes membros de determinada não só de se manter por mais tempo na instituição escolar porque
família estão fortemente associados entre si, que as possibilidades traz para esta a "cultura livre", pressuposta e exigida por ela, sem
de prosseguir os estoudos em uma grande ou pequena cidade, em nunca a revelar de forma metódica; mas também, de assistir à
um liceu ou em um colégio de ensino geral, de ter acesso a estudos transformação das predisposições moldadas pelas aprendizagens
clássicos ou ser condenado ao "moderno", dependem estreitamente inconscientes da primeira educação em disposição culta.
da posição social da família; e sabendo que, por outro lado, a
atmosfera cultural da infância e o passado escolar estão
* Termo que designa o percurso (mais ou menos longo, nesse ou naquele ramo de
estreitamente associados, até mesmo no nível mais elevado do ensino ou estabelecimento) efetuado pelo aluno no decorrer de sua escolaridade. (N.T.)

108
o amor pela arle obras cuBurais e disposição cuBa 109
Contra a ideologia carismática que instala a oposição entre a que está mais ou menos próxima - tanto em seu conteúdo, quanto
experiência autêntica da obra de arte como "afeição" do coração ou em relação à atitude relativamente às obras de cultura erudita ou à
compreensão imediata da intuição, por um lado, e, por outro, os aprendizagem cultural que ela implica - da cultura erudita
procedimentos laboriosos e os frios comentários da inteligência, transmitida pela Escala e dos modelos lingüísticas e culturais
passando sob silêncio as condições sociais e culturais que tornam segundo os quais a Escola efetua tal transmissão. Considerando
possível tal experiência e tratando, concomitantemente, como graça que a experiência direta das obras de cultura erudita e a aquisição
de nascimento a virtuosidade adquirida por uma longa familiarização institucionalmente organizada da cultura que é a condição da
ou pelos exercícios de uma aprendizagem metódica, a sociologia experiência adequada dessas obras estão submetidas às mesmas leis,
estabelece, do ponto de vista lógico e, ao mesmo tempo, experimental, compreende-se como é difícil quebrar o círculo que faz com que o
que a apreensão adequada da obra cultural e, em particular, da obra capital cultural leve ao capital cultural: de fato, basta que a
de cultura erudita, pressupõe, a título de ato de decifração, a posse instituição escolar permita o funcionamento dos mecanismos
da cifra que serviu para codificá-Ia. No sentido objetivo de cifra (ou objetivos da difusão cultural e se exima de trabalhar,
de código), a cultura é a condição da inteligibilidade dos sistemas sistematicamente, para fornecer a todos, na e pela própria mensagem
concretos de significação, organizados por ela e aos quais permanece pedagógica, os instrumentos que condicionam a recepção adequada
irredutÍvel, à semelhança da língua em relação à palavra; enquanto a da mensagem escolar para que a Escola reduplique as desigualdades
cultura, no sentido de competência, não é outra coisa senão a cultura iniciais e, por suas sanções, legitime a transmissão do capital cultural.
(no sentido objetivo) interiorizada e tornada disposição permanente
e generalizada para decifrar os objetos e os comportamentos culturais,
utilizando o código que serviu para sua codificação. No caso
particular das obras de cultura erudita, o controle do código não
pode ser adquirido completamente pelas simples aprendizagens
difusas da experiência cotidiana e pressupõe um treino metódico,
organizado por uma instituição especialmente preparada para tal
fim: Daí, segue-se que a apreensão da obra de arte depende em sua
intensidade, modalidade e própria existência do controle que o
espectador detém do código genérico e específico da obra (ou seja,
de sua competência artística) e é tributário, em parte, do treino
recebido na escola; ora, o valor, a intensidade e a modalidade da
comunicação pedagógica, encarregada, entre outras funções, de
transmitir o código das obras de cultura erudita (ao mesmo tempo
que o código segundo o qual se efetua tal transmissão) dependem,
por sua vez, da cultura (como sistema de esquemas de percepção, de
apreciação, de pensamento e de ação, historicamente constituído e
socialmente condicionado) recebida do meio familiar pelo receptor e

111
110 o amor pela arle
obras cuBurais e dispos.ição cuBa
lerceira parle

leis da difusão cu/iural

Por oposição à visita ocasional- muitas vezes, simples efeito


do acaso -, a prática regular exprime e pressupõe uma adequação,
mais ou menos completa, entre as obras oferecidas e o grau de
competência pictural dos visitantes, entendido como capacidade para
apreender as informações propostas e decifrá-Ias, vislumbrá-Ias como
significações ou, melhor ainda, formas significantes.
Ou dito por outras palavras, a freqüência de museus obedece
a uma lógica bem conhecida da teoria da comunicação, já que, à
maneira de um emissor de rádio ou televisão, o museu propõe uma
informação que pode se dirigir a qualquer sujeito possível sem
implicar em um custo maior e só adquire sentiro e valor para um
sujeito capaz de decifrá-Ia e saboreá-Ia. Daí, segue-se que o público
adequado da mensagem é definido, do ponto de vista lógico e, ao
mesmo tempo, experimental, pelo "apelo" exercido sobre ele pelos
museus ou, melhor ainda, pela aptidão para receber a informação
que propõem: de fato, embora essa informação única possa ser
desigual e diferentemente decifrada por sujeitos diferentes, ocorre
que se pode pressupor que a freqüência assídua implica o controle
do código da mensagem proposta e a adesão a um sistema de valores
que serve de fundamento à outorga de valor às significações
decifradas, à decifração dessas significações e ao deleite proporcionado
por tal decifração. Daí, segue-se que a estrutura (no que diz respeito
à competência escolar) do público assíduo dos museus (e de todo
"A Educação consegue tudo: faz dançar os ursos." público de determinada mensagem) pode ser considerada como um
LEIBNIZ
indicador aproximativo do nível da informação proposta pelos

113
kis da chfusãocufiura/
museus. Assim, pelo fato de que a categoria mais representada, de informação que ela contém. Em seguida, porque não pode ser definido
longe, entre o público de museus seja a dos detentores de um independentemente das aspirações que lhe fornecem sua verdadeira
diploma de final de estudos secundários; pelo fato também de que significação; neste caso, a boa vontade cultural pode levar a considerar
os visitantes que não atingiram esse nível manifestem sua confusão instrutiva a contemplação de obras superiores a seu próprio nível.
através de um grande número de índices, pode-se concluir que a Por falta de condições para criar a situação experimental que
informação oferecida pelos museus franceses corresponde - permitiria comparar a estrutura do público que respondesse a
permitamo-nos a expressão - "ao nível do vestibular". informações de níveis diferentes, embora estritamente homogêneos,
De fato, apesar de possuir um grande valor operatório no pode-se tentar verificar, através da análise da estrutura do público
sentido em que permite justificar a estrutura do público de museus, de museus que oferecem informações de níveis diferentes, se as
a informação globalmente oferecida pelos museus permanece uma variações do nível da informação oferecida são acompanhadas por
abstração e, concomitantemente, o nível dessa informação. Além de variações na estrutura do público, distribuída segundo a competência
que cada um dos museus oferece necessariamente uma informação escolar, e se o grau de homogeneidade do público, nesse mesmo
global- cujo nível particular é definido, grosseiramente, pelo tipo, aspecto, corresponde ao grau de homogeneidade das obras oferecidas.
qualidade e quantidade das obras apresentadas -, esse nível em si Considerando que os níveis de informação oferecida não podem
mesmo não pode ser definido pontualmente porque, salvo raras ser definidos pontualmente e que não seria possível classificar,
exceções, o conteúdo de um museu ou, até mesmo, de uma linearmente, os museus sem ignorar as sobreposições decorrentes
exposição, nunca é perfeitamente homogêneo: a maior parte dos do fato de que cada um deles oferece um leque de obras de níveis
museus propõe vários tipos de obras, desde objetos de folclore, diferentes, pode-se, em um primeiro momento, classificar os
lembranças históricas, mobiliário ou cerâmica, até pintura e emissores - ou seja, os museus - e os receptores - ou seja, os
escultura; além disso, no âmbito de determinado tipo, justapõe obras visitantes - em dois níveis e admitir que a ressonância da
desigualmente legíveis - por exemplo, impressionistas e abstratas - mensagem será tanto maior quanto mais homogêneo for o nível
para os homens "cultos" de nossas sociedades. A esse aspecto, dos receptores, ou dito por outras palavras, quanto mais
convém acrescentar que a mesma obra pode ser decifrada a partir de adequadamente for efetuada a recepção no caso em que os níveis
várias grades e que, à semelhança dos filmes de faroeste que podem de emissão e de recepção forem idênticos. Se pressupomos que a
ser objeto de uma aceitação ingênua ou de uma leitura erudita, a hierarquia, assim estabelecida, é contínua - como é o caso
mesma obra pictural pode ser recebida diferentemente por receptores
(aproximadamente) quando se adota a escala dos níveis de
de níveis diferentes e, por exemplo, satisfazer o interesse em relação instrução -, vemos que cada população será caracterizada pela
a determinado detalhe ou chamar a atenção exclusivamente por suas curva de "demanda" (D) que representa a distribuição de tal
propriedades formais. Vê-se assim, com toda a evidência, que o nível
população, segundo o nível de instrução ou, se quisermos, a
cultural tampouco pode ser definido pontualmente: em primeiro
distribuição dos indivíduos que a compõem segundo seu nível de
lugar, porque está sempre em devir e porque cada percepção nova da
recepção; do mesmo modo, cada obra (ou cada museu) será
obra acaba transformando as percepções ulteriores; assim, a percepção
caracterizada por um certo nível de informação oferecida, figurada
repetida é uma forma de reduzir a "originalidade" da obra (no sentido
graficamentepor uma vertical (O), cuja abscissa Xo marcará o nível.
da teoria da informação), ao assimilar uma parcela cada vez maior da

115
114 o amor pela arle le1s da chfusão cu/iural

l1ic
Freqüência de um indicador certo, mas por uma distribuição de probabilidades.
Por conseguinte, o conhecimento da oferta e da demanda não
Dx
permite prever quem irá ao museu, mas define a probabilidade
inerente a cada sujeito de visitar um museu, na hipótese, verificada
precedentemente (Primeira Parte), em que as categorias de
visitantes, caracterizadas por um certo nível de instrução, são
homogêneas no que diz respeito aos ritmos de freqüência.
Considerando que os fatores aleatórios (como o mau tempo ou os
acasos de um passeio familiar) parecem funcionar de forma
uniforme e que seus efeitos tendem a se anular; considerando, por
outro lado, que o turismo, capaz de favorecer a prática, não pode
xo Nível Cultural
por si (mantendo-se iguais todas as outras variáveis) criar uma
prática duradoura e modificar duravelmente as probabilidades e
Por outras palavras, a mensagem irá atingir unicamente a fração
as taxas de freqüência, é legítimo deixar de lado tais fenômenoS
da população de nível Xo e de efetivo D(x); a possibilidade de que
nO modelo. '
a comunicação se estabeleça nO decorrer de determinado período
de tempo é, então, independente de xo'
Freqüência
(1) t (x) = O para x:;i:xo
t(x) = t", para x = Xo D(x)

No entanto, como o nível da informação oferecida por uma obra


e, a fortÍori, por um museu, não pode ser definido pontualmente
(pelas razões já apontadas), portanto, ele não pode ser figurado
senão por uma função de densidade inerente a cada nível da escala
hierárquica, ou seja, m(x) que, na hipótese precedente, era
supostamente nulo, salvo para um certo valor de x. Ou seja, Q(x)
a distribuição da oferta, a demanda, isto é, a aptidão para a recepção
da obra, associada ao nível de instrução, deve ser objeto da mesma d Nível Cultural
generalização por todas as razões já expostas e, também, porque a
distribuição das aptidões ou das preferências, e,m um grupo A probabjHdade de ver uma pessoa de nível x entrar nO museu é,
relativamente homogêneo, é de caráter probabilista; neste caso, a segundo (1), t(x) = m(x); a proporção de pessoas deste nível que
distribUição das notas em um exame, por exemplo, segue, em entram nO museu é, portanto, d (x). m(x) e, para o conjunto do
geral, uma lei de Laplace-Gauss. intervalo de variação da variável, esta proporção obtém-se pela soma
O modelo proposto é rigorosamente probabilista no sentido em (2) L d (x) m(x)
t = x=o
que define o nível de recepção e o nível de emissão não por meio

116 117
o amor peb arle féis da difusão cu/iural
o valor da soma ~
X=o d(x) representa, para cada indivíduo, um da mensagem, profecia religiosa, discurso político, imagem
nível total de demanda e ela varia, em cada indivíduo, em razão publicitária, objeto técnico, etc., a recepção depende dos esquemas
de seus conhecimentos culturais; assim, vamos supor que, de percepção, de pensamento e de apreciação dos receptores, de modo
mantendo-se iguais todas as outras variáveis, as diferenças que, em uma sociedade diferenciada, uma estreita relação se
individuais são insignificantes no conjunto e que estabelece entre a natureza e a qualidade das informações fornecidas,
x~od(x) = kd por um lado, e, por outro, a estrutura do público.65 Ou dito por
outras palavras, as leis da difusão diferencial da informação
Se nos limitarmos a um raciocínio global, a distribuição D(x) do
constituem um caso particular da lógica dos empréstimos culturais,
público, segundo a variável x, permitirá que façamos uma idéia,
no mesmo plano da difusão da mensagem profética: "Basta imaginar,
em relação a determinado país, da distribuição da demanda,
escreveJoseph Schumpeter, o que teria acontecido se ajihadtivesse
enquanto ~x w(x) atingirá valores tanto mais elevados, quanto
sido pregada aos 'pescadores' pacíficos da Galiléia, à 'ralé' .da
maior o número e mais fortemente consagradas forem as obras
apresentadas. Palestina. Não é exagerado considerar como certo que eles não teriam
respondido ao apelo, não teriam conseguido dar-lhe resposta e que,
A taxa de prática assume a forma: se tivessem feito tal tentativa, teriam fracassado de maneira
t = ko" kd' x=o
~ D. (x). Q(x) deplorável, destruindo sua própria comunidade. E se, inversamente,
~ ~ Maomé tivesse pregado a humildade e a submissão a seus cavaleiros
com ~ D (x) = x=o
X=o
~ Q(x) = 1 beduínos, estes não se teriam revoltado contra ele? E se o tivessem
ouvido, sua comunidade não teria desaparecido? Um profeta não é
o produto K= k",. kd pode interpretar-se como um capital cultural somente aquele que formula uma mensagem aceitável para seus
nacional. As variáveis k", e kd não são, evidentemente, primeiros partidários; ele não é bem-sucedido, nem compreendido,
independentes, já que a riqueza do tesouro artístico de um país e senão quando chegou a formular também uma política aceitável no
a força de sua tradição cultural contribuem para determinar, em imediato. É precisamente o que distingue o profeta bem-sucedido -
cada instante, a intensidade da aptidão para a prática. o 'verdadeiro' profeta - do profeta que fracassa - o 'falso' profeta. O
verdadeiro profeta reconhece as exigências da situação em que se
É evidente que, ao modificar-se a forma da função de oferta,
encontra - aliás, situação que existe de forma totalmente
modifica-se a estrutura do público receptor, enquanto ao
independente dele; e, quando tais exigências sofrem mudanças, ele
modificar-se o nível de oferta por simples afinidade em relação
acomoda-se para adotar uma nova política, evitando que os fiéis
com o eixo dos x, modifica-se a taxa de freqüência em uma
experimentem tal transição como uma traição". 66
relação igual à relação de afinidade; neste caso, a estrutura do
público permanece invariável. Assim, ao fortalecer a intensidade Assim, sempre que uma mensagem única é proposta a uma
sociedade diferenciada, ela é objeto de uma recepção quantitativa e
da soma L
x w(x) sem modificar sua estrutura, a exposição atrai
qualitativamente diversificada: sua legibilidade e eficácia são tanto
um público mais numeroso, embora de estrutura quase idêntica.
mais fortes, quanto mais diretamente corresponderem às
As leis que regem a recepção das obras de arte constituem expectativas, implícitas ou explícitas, que os receptores ficam devendo
um caso particular das leis da difusão cultural: seja qual for a natureza à sua educação e que a pressão difusa do grupo de referência alimenta,

118
o amor pela arle Jeis da dfusão GuBural 119
alavanca e fortalece por meio de invocações incessantes da norma d e O) são dois parâmetros - por exemplo, a média, se esta existe,

("Será que você já leu ...?", "Você deveria ter visto isso!"); neste ou qualquer outro parâmetro - tais como as curvas
caso, as diferentes instâncias de legitimidade cultural (academias, D (x, dj) e D (x, d) (3) por um lado, e
universidades, críticos, júris de prêmios literários e artísticos, etc.)
O (x, O)j) e O (x, 0) (4) por outro
e, de forma mais direta, as pessoas que se encontram à volta,
deduzem-se, respectivamente, uma da outra por meio de
investidas de autoridade em matéria de cultura, "style leaders" ou
" taste makers', desempenham, aqui, um papel, sem dúvida alguma, translações de amplitude a e ~.
ainda mais determinante do que os "opÍnÍon leaders' em matéria de ou seja D (x + a, d) == D (x, dj)
escolhas eleitorais.67 Quando a mensagem não pode ser decifrada e O (x + ~'0)2) == O (x, O)j)
senão pelos detentores de um código que deve ser adquirido por
A integral (D O dx é uma função de d e 0), ou seja, F (d, 0).
uma longa aprendizagem institucionalmente organizada, é evidente
que a recepção depende do controle que o receptor tem do código Para que F seja uma função de d - 0), é necessário e suficiente que
-.Õ.E ==- oF
ou, por outras palavras, depende da diferença entre o nível da
od (0)
informação oferecida e o nível de competência do receptor.
Ora,
De forma mais precisa, segue-se das hipóteses precedentes que a
~=;: D'dOdx e oF =
~ r
o DO' m dx
taxa de freqüência é uma função da diferença entre a oferta média od (0)
(ou modal) e a demanda média (ou modal). Esta propriedade,
intuitivamente admissível, não se refere à forma analítica das A derivação de (3) e (4) dá:

funções O(x) ou D(x). D'd = D'x d!X- (5) e O' m = O' x -dl2- (6)
dd dO)
Mediante certas condições bastante gerais de integrabilidade ou
derivabilidade, mostra-se facilmente, em primeiro lugar, qúe t Transferindo (6) para (5), obtém-se:
pode colocar-se sob a fórmula t = t (O)- d) e, em segundo lugar, ~ = ~º'_. J D'O dx e -.Õ.E= ~Jl J DO' dx
que, se as distribuições são unimodais, a taxa de freqüência passa, od d~ dO) dO)
no máximo, por um valor de O)- d bastante próximo de zero, mas
Ao integrar por partes, obtém-se:
que só pode ser nulo se as distribuições O e D forem simétricas;
além disso, neste último caso, intervém uma função de (O)- dF e, ~ = -d!X-[D O( - ~_ J DO' dx
od dd dd
então, é possível enunciar que a taxa de freqüêncÍa é uma função
decrescente do quadrado da djferença médÍa entre a oferta e a O primeiro termo é nulo - como condição necessária de
demanda.
integrabilidade de (DO).
De fato, admitamos que as funções de oferta e de demanda têm a Se, além disso ~ = ~Ü
seguinte fórmula: dd dO)

D = D(x, d) obtém-se: oF ==- J)E


0= O(x,0) õd (0)

121
120 o amor pela arle fé/s da difusão cuRural
Apliquemos o modelo a um caso particular; admitamos que a Admitindo que a demanda d pode ser identificada por meio de
função de demanda de uma categoria de pessoas que completaram quatro níveis equidistantes, dá-se o valor 4 ao nível da lícence, 3
d anos de estudos é uma lei de Laplace-Gauss correspondente à ao do vestibular, 2 ao do B. E. P. C. e 1 ao do C. E. P. Pode-se
fórmula:
observar que a diferença entre dois níveis consecutivos é constante,
D kd e - l ix:.dl2 assim como a duração média dos estudos exigidos para passar de
(J
d
-f2n 2 (J2 um nível para o outro, ou seja, em geral, da ordem de três a quatro
d
anos, salvo, talvez, entre os dois níveis superiores; neste caso, o
X é o nível de demanda, avaliado em anos; o desvio padrão ód
ensino entra, necessariamente, em uma fase de rendimento
desta distribuição é, em si mesmo, independente de x; d é, então,
o nível modal ou médio. decrescente (no que diz respeito ao aspecto examinado aqui). Se
conviermos em atribuir aos analfabetos um nível zero, é necessário
A função de oferta obtém-se da fórmula: atribuir aos visitantes desprovidos de diplomas uma nota situada
entre zero e um, mas difícil fixá-Ia sem arbitrariedade;
suponhamos, agora, que o nível de informação oferecida (a oferta)
seja rigorosamente igual a 4, ou, de forma mais geral, que coincida
k designando o capital oferecido pelo museu, cujo tamanho é um
com um dos níveis inteiros precedentemente definidos. Basta,
indicador, e (JO) o desvio padrão suposto, também, independente
de x. então, para cada museu, calcular as relações:

A taxa de freqüência assume a fórmula


u±.-dl = f (d)
t (4,4)
t = f D.Qdx =_1~ ~ e
an -V (J2 d + (J2 Ol
ÚQ~2
em seguida, por meio de uma tabela da lei de Laplace-Gauss,
determinar os números y tais que
Verifica-se que ela é função decrescente de (O) - d)2.
~1~ e -ly2 = f(d)
Além disso, ela depende do parâmetro (J2 = (J2d + a2(0l) que pode -v--zrr- 2
ser interpretado como a variância do conjunto museu e público. Se a hipótese é válida, d e y estão linearmente associadas pela
Por último: relação
(7) t = ----K e - l _id2 admitindo: tl = O) - d (8) ~ y
-V 2 TC(J 2 (J2

As taxas experimentais correspondem a expressões desse tipo, em que (J é o padrão desvio precedentemente definido.
como é demonstrado pelos Gráficos (d. p. 124-128). Como a forma Este caso é, com toda a evidência, relativamente raro e só diz
analítica proposta justifica as taxas de freqüência, estabelecidas respeito, de fato, a alguns museus da amostra (Autun, Colmar,
experimentalmente, é, portanto, legítimo utilizá-Ia para apreender Dijon). Em geral, conhece-se apenas o intervalo em que se situa
as conseqüências decifráveis de determinada ação política, sem esse nível e, quase sempre, sabe-se que 3 < O) < 4. Segue-se que
tomar ao pé da' letra, todavia, os resultados dessa verificação, o somos obrigados a proceder um pouco diferentemente admitindo:
que equivaleria a superar os limites da técnica de cálculo. f (4) = fo; daí, deduzimos: f0<3), fo(2), fo(I).

122
o amorpela arle 123
leis da rhfusão cuRural
200
oL
OL
cL
IB
AGEN
IobI DIEPPE c L
1111.

• "••\'\
-l:t~
2100
00
200

~

ICOLMAR
PAU
LAON
AUTUN
ARLES
DOUAI
ARRAS
LYON
.•..•...
DIJON
50 -- NÍVEL
MARSEILLE
DREUX
ARTSDÉCO
CULTURAL
~PAUME
MOULINS
JEUDE
LOUVIERS .......•.......

~I/\
DO PÚBLICO
O I

~
I -
I
- I
50
o

~
B

lWf\

200 TOURS TOTAL (CONJUNTO) Na abscissa: L Licence


150
B Vestibular
b B. E. P.C.
100
c C. E. P.
50
Na coordenada: Relação da proporção de indivíduos desse nível na
o ~
I I I I amostra com a proporção na população francesa total. No ponto 100, as
o L B b c o duas relações são iguais.

124
o amor pela arle 125
leis da chfusão cuilural
NÍVEL MODAL DA OFERTA
g f
ARTS DÉCO 1,35
3
4,4
Dispersão da oferta e taxa de freqüência (com exceção de um fator) de 13
2
cada museu em cada nível de instrução 42 JIII

60
_ 88
g
AGEN 1 = 0,85 ARLES
f o A/UTUN 1,0 C/OLMAR 1,0 _o/~,4
100
_ 88
1,25 ARRAS 1,3 % 60
3
(j"
1,4
2 -.4,4
13
- 42 DREUX 0,45 JEU DE PAUME 1,5 LAON 0,8
- 60 3 1,4
- 88 4,4
o
13

/
- 100 2
- 88 -.42
- 60 60
88
DIEPPE 0,7 DIJON 100
1,0 DOUAI 1,3 o
3 88
-. 1,4 60
2
4,4

- 42
--113
60 PAU
MARSEILLE 1,2 MOULlNS 0,9 1,0
88 1,4
o 3
-.100 -.4,4
88 13
2
-. 60 42
60
LlLLE 1,1 LOUVIERS LYON _I 88
3 100
- 1,4 o
88
2 - 4,4
Bimodal 60
-13
(representação
impossfvel) - 42 L B b o L B b o L B b o
- 60
o - 88
100

- -,88
60
(1) O nível modal co é indicado por uma flecha vertical (em relação a
ROUEN 1,2 TOURS 1,25 Agen, lê-se co = 3,7).
CONJUNTO 1,0
DOS MUSEUS -I 2,5
As taxas de freqüência são fornecidas:

- em porcentagem e colocando o nível de licence arbitrariamente igual a


100 100% (Escala f).

77
- em transformada gaussiana (Escala g).
- A vertente da direita de freqüência é indicada no canto direito.

126 127
o amor pela arle kis da rhfusão cuJiural
NÍVELMODALDA OFERTA
Constata-se, então, que existe sempre um valor que é determinado
E DISPERSÃODA OFERTADE CADAMUSEU por abordagens sucessivas, tal que a equação (8) seja verificada e,
daí, deduz-se o nível de oferta e o desvio padrão inerentes a cada
museu. Serápossível objetar que há possibilidade de fazer aparecer
3
tal forma analítica proposta, antecipadamente, por transformação
4
0,5 T
das variáveisem questão; que o número dos pontos experimentais
Modo é reduzido e que a demonstração (mas, não será isso o caráter
próprio de toda verificação experimental?) continua sendo mais
negativa do que positiva.68
Em conformidade com o princípio da equivalência entre a
+ leu de Paume informação oferecida e o grau de competência do receptor, as
diferenças que separam o nível de oferta dos diferentes museus,
avaliado pelo nível modal dos visitantes, correspondem às diferenças
+ Arts Déco
+ Douai na qualidade e no tipo das obras expostas. Assim, tanto o Museu de
Tours +Arras
Colmar, que apresenta um dos quadros mais célebres da França depois
+ + Arles
da Mona Lisa, quanto os Museus de Dijon e de Autun, possuidores
+Marseille + Rouen
de um grande número de obras farposas - o primeiro situado em
+Lille uma região turística, enquant9XYs~gundo se destaca pela qualidade
excepcional da apresentação -, têm os níveis de informação mais
elevados e o público mais aristocrático, assim como o Museu de
Laon (bastante diferente dos precedentes, tanto pelo volume de seu
1 + Pau •
Conjunto Dijon 'Colmar
+ + + público, quanto pela qualidade da apresentação) que atrai um público
culto, interessado por sua coleção de cerâmicas gregas. Pelo
contrário, o nível é baixo no Museu de Dreux, sobretudo, de caráter
1,1 +Moulins histórico; no Museu de Douai, recentemente criado, cujo
conservador esforça-se por atrair um público de jovens; no Museu
de Belas Artes de Marselha, * cujo número de visitantes corresponde
+ Agen
ao reduzido público de um museu de província (as exposições
I acontecem no Museu CantinÍ, sede da Diretoria dos Conservadores,
1,25
+ Laon situado no próprio centro da cidade); no Museu de Moulins que
Dispersão
(j •. Dieppe
(j = 1,4 apresenta, sobretudo, objetos arqueológicos; por último, no Museu
de Louviers, particularmente interessante já que é o único a ter um

* Trata-se da segunda maior cidade francesa, superada apenas pela capital, Paris. (N.T.)

128
o amor pelcz arle kis cb dtfusão cuf}uraf 129
público bimodal, com um segundo modo compreendido entre o nível âmbito desses museus e, a fortiori, no conjunto dos museus e
do B. E. P.C. e o nível de vestibular. As condições de experimentação monumentos, já que se sabe que um museu ou um monumento
não permitem identificar as diferenças - sempre bastante reduzidas tendem a exercer maior atração sobre as classes médias quando,
- entre os bons museus de pintura, do tipo tradicional, tais como o além da pintura, oferecem objetos de folclore ou lembranças
Musée du jeu de Paume em Paris, além dos Museus de Tours, de históricas. Por conseguinte, pode-se também considerar ponto
Arras, de Arles, de Rouen ou de Ulle.
pacífico que um museu tem um público tanto mais diversificado,
No entanto, como o valor do nível de emissão (ou de oferta) quanto mais diversas são as obras expostas e quando, ao lado da
torna-se impreciso (como é demonstrado pelo exemplo de Louviers) pintura, propõe objetos capazes de atrair os visitantes oriundos das
quando a gama das coleções se diversifica - às vezes, vários museus classes médias. Pode-se ver uma última confirmação da validade do
coexistem, de fato, no mesmo edifício -, pode-se também levar em modelo proposto no fato de que as classes populares escapam quase
consideração a dispersão do público de museus, distribuído segundo completamente à atração diferencial dos museus; assim, suas visitas
o nível de instrução, e verificar se a reduzida dispersão do público a um museu ficam devendo mais ao acaso do que a uma informação
corresponde a uma forte homogeneidade das obras apresentadas, e prévia em relação às obras expostas.
inversamente. De fato, o Musée du jeu de Paume ou o Musée des A ação empreendida, em seu museu, pelo conservador só pode
Arts décoratifs, situados ambos em Paris, que expõem obras exercer-se, por definição, sobre a informação oferecida e, mesmo
particularmente homogêneas, compreendem uma dispersão bastante que seja extremamente limitada, ela não deixa de ser privilegiada: se
reduzida, assim como, em menor grau, todos os museus que expõem, o encontro por acaso com as obras não pode bastar, por si só, a
sobretudo, pintura (Arras, Tours, Douai, Arles, Rouen, Marselha, formar um visitante regular de museus, compete, no mínimo, ao
Ulle). Em compensação, a dispersão é máxima no Museu de Dieppe, museu evitar desestimular e, pelo contrário,pair a atenção da pessoa
cujo público é composto por visitantes habituais dos palácios que pela primeira vez é impelida a visitá-Io pela ação publicitária,
históricos e, ao mesmo tempo, por amadores de pintura que vêm ver pelo turismo ou por acaso. Um esforço para aumentar a freqüência
as obras expostas em uma dependência do palácio; no Museu de dos museus pode ser organizado por referência a duas finalidades
Laon, cujo público compreende, além de visitantes mais cultos _ bastante diferentes: pela "escolha" em aumentar a parcela dos
sobretudo, membros do ensino, atraídos pela coleção de cerâmicas praticantes entre as categorias sociais mais representadas entre o
gregas -, os visitantes tradicionais de um pequeno museu local de público ou intensificar o ritmo da prática dos visitantes atuais; ou
arqueologia e de história; no Museu de Moulins que apresenta, pela tentativa de atrair para os museus aqueles visitantes que fazem
sobretudo, objetos arqueológicos, mas também alguns quadros parte das classes sociais que, atualmente, não os freqüentam, ou
conhecidos por amadores e especialistas; ou, ainda, no Museu de raramente. Em decorrência da finalidade que for visada, deverão ser
Agen que conserva objetos pré-históricos e pinturas da Escola utilizados meios diferentes - alguns dos quais são mesmo exclusivos;
Espanhola.
além disso, o crescimento global do público será mais ou menos
Assim, embora as condições de experimentação impeçam a importante, mais ou menos rápido e mais ou menos dispendioso.
hierarquização, com precisão, dos museus de arte segundo o nível Para alavancar a prática dos sujeitos das classes cultas que já
da informação proposta por cada um deles, parece comprovado que freqüentam os museus, conviria principalmente reavivar o interesse,
se pode distinguir algumas grandes categorias de nível no próprio muitas vezes enfraquecido e esfriado, que eles manifestam pela
130
o amor pekzarle Jéis da d;fusão cufiural 13 1
Ili

pintura, procurando reinserir a visita do museu no calendário social que a relação mantida pelo intelectual com a cultura contém a
que, habitualmente, a ignora. Essa é, segundo parece, a significação verdadeira questão da relação do intelectual com a condição
da atividade tradicional do conservador, tal como é definida pela intelectual que nunca é tão dramaticamente formulada a não ser na
"museologia" que, apesar do nome, não é uma ciência, mas um questão da relação das classes populares com a cultura; ora, trata-se
conjunto de receitas e preceitos empíricos, transmitidos de maneira exatamente da questão que o intelectual formula relativamente às
difusa e oficiosa. Publicar catálogos, modernizar a apresentação das classes populares, ou seja, em seu lugar, dissimulando a questão da
obras, animar uma associação de amigos do museu e, sobretudo, relação do intelectual com essas classes como classes desapossadas
promover exposições - em que as mais típicas são aquelas que da cultura. E para mostrar que o interesse dos intelectuais por esse
reagrupam em um lugar inabitual e segundo uma organização nova, problema - ou por outros análogos, relativos à eficácia dos meios de
por temas ou autores, obras oferecidas com caráter permanente em comunicação modernos, da "cultura popular", das maÍsons de ia
cuiture* ou do livro de bolso - é diretamente interessado, basta
museus dispersos ou que, durante um período limitado, concentram
a atenção em uma obra, "a obra da semana", como ocorre na NatÍonal observar sua precipitação apressada no sentido de tirar partido dos
Gaiiery de Washington -, tudo isso equivale, afinal de contas, a mais insignificantes índices de uma democratização do acesso à
cultura. "Senhoras usando vÍson branco e operários de macacão
amparar e despertar o interesse dos amadores por um museu familiar
demais que só é lembrado na medida em que as atividades propostas desfilam juntos diante do quadro Les DemoÍselles d'AvÍgnon",
se inserem no ciclo das manifestações sociais ou, até mesmo, a escrevem uns, do mesmo modo que outros vêem a televisão como o
suscitar visitas especiais por meio de uma valorização excepcional, grande veículo de mensagens culturais ao alcance de todos, portanto,
de modo que uma manifestação artística venha a adquirir a força de igualmente acessíveis a todos, por conseguinte;idênticas para todos,
atração de uma cerimônia mundana ou de um "acontecimento" logo, apropriadas para tornar idênticos todos iqueles que as recebem.
A tais encantamentos, convém opor o realismo desencantador dos
social. Como uma igreja em que alguns eleitos vêm alimentar a fé
números.**
de virtuoses - enquanto conformistas ou falsos devotos limitam-se
a cumprir, apressadamente, um ritual de classe -, o museu pode A análise das estatísticas das entradas registradas nas exposições
tornar-se, durante um instante, o lugar de peregrinação diante do organizadas na Holanda, entre 1950 e 1962, permite estabelecer
qual se empurram as multidões maciças de fiéis que, em Nova York, os limites da eficácia desse tipo de atividade: durante esse período,
Washington, Tóquio ou Paris, esperam em longas filas para lançar o número global dos visitantes dos museus e das exposições
uma rápida piscadela - à semelhança do que ocorria outrora quando aumentou de maneira bastante regular (passando de 2.500.000,
se beijava um crucifixo ou um relicário - a uma obra-prima exposta em 1952, para mais de 5.000.000, em 1962), se excetuarmos dois
ao fervor coletivo; no entanto, esses encantamentos não podem períodos de pico correspondentes à exposição de Van Gogh (1953)
suscitar o maravilhamento a não ser entre aqueles que, nos arroubos e à exposição de Rembrandt (1956). Diferentemente do fluxo
fugazes da exaltação popular, pretendem ver uma forma - sem dúvida,
dessacralizada - de reconhecimento do sagrado.
* Também conhecidas pela sigla Mje., ou seja, maÍSon des jeunes et de Ia culture.
Seria impossível compreender o interesse apaixonado que os instituição pública destinada a favorecer a difusão e a prática das mais diversas
intelectuais manifestam por fenômenos, tais como o sucesso da atividades culturais, em particular, para os jovens. (N.T.)
exposição sobre Picasso ou Tutancâmon, se não fosse constatado ** No original, chjffj-es. (N.T.)

133
132 o amorpela arle leis da difusão cu/iural
global, o número das entradas, unicamente nas exposlçoes, das classes médias e populares tenha diminuído [d. Apêndke 2,
permanece praticamente constante (com exceção dos anos de 1953 Tabela 12]. Por ocasião da exposição do M usée des Arts décoratÍ/S,
e de 1956) e oscila entre 700.000 e 800.000 visitas, embora o intitulada "Antagonismes" e consagrada às mais audaciosas formas
número das exposições não tenha cessado de crescer, passando de da arte moderna, a parcela dos visitantes pertencentes às classes
275, em 1952, para 360, em 1961, e 460, em 1962. Esta observação, superiores atingiu 90% (ou seja, 18% de quadros superiores,
por si só, levaria a colocar em dúvida a eficácia de uma política 33,4% de estudantes, 21,6% de professores e especialistas de arte,
tendente a intensificar o ritmo das exposições Vá que tal ação além de 17% de mulheres sem profissão, casadas com quadros
parece obedecer a uma lei dos rendimentos fortemente superiores; contra 8,5% de empregados e quadros médios, 1,5%
decrescentes) se, além disso, não fosse registrado o seguinte: de artesãos e comerciantes, 0,5% de operários, e nenhum
quando algumas exposições se beneficiam de um sucesso particular, agricultor) .
o fluxo total dos visitantes dos museus e das exposições não Em Ulle, uma situação experimental foi criada,
aumenta na mesma proporção já que, nas duas exposições citadas ocasionalmente, pela apresentação simultânea de três exposições
mais acima, os "picos" do registro das exposições não de "níveis" bastante diferentes, alavancadas por uma fortíssima
correspondem a "picos" do cômputo do público acumulado dos ação publicitária (programas de rádio e de televisão, artigos nos
museus e das exposições; de fato, como que por um efeito de
compensação, eles coincidem com "vazios" do registro das visitas jornais
podiam locais,
ver umacartazes,
exposiçãoetc.): aléni do
de pint~ra do museu, os visitantes
século XVIII, clássica
unicamente aos museus. Temos, portanto, o direito de concluir
pelas obràs expostas e pela apresentação (paredes despojadas,
que, por um lado, somente as exposições excepcionais atraem um
simples tabuletas ao lado dos quadros); uma exposição de arte
público novo, embora ocasional; e, por outro, sendo um fenômeno
egípcia, patrocinada pela Universidade de Lille; e, finalmente, uma
independente da política de exposições, o aumento regular do
exposição consagrada à 'TArt intérieur au Danemark" que
público global dos museus explica-se somente pela elevação
apresentava objetos cotidianos, vidraria e cristais, cerâmicas e
geral do nível de instrução e o crescimento do turismo cultural69
móveis.
[d. Apêndice 5, Gráfico 12].
Era possível prever que a simultaneidade de exposições, com
A exposição atrai, pontualmente, um número acentuado estilos e "níveis" bastante diferentes, permitiria acumular públicos
de visitantes; no entanto, tende a fortalecer, mais ou menos socialmente diferentes; neste caso, a exposição dinamarquesa atrairia
nitidamente, o caráter aristocrático do público (a taxa dos sujeitos ao museu e, talvez, às outras exposições, visitantes oriundos das
que visitaram exposições temporárias e podem citar o nome das
classes médias e populares. De fato, embora o número das entradas
mesmas passa de 17,5% nas classes populares para 30% nas classes cotidianas tenha quase duplicado, a estrutura social do público das
médias e para 70% nas classes superiores) [d. Apêndke4, Tabela 5]. três exposições permaneceu semelhante à estrutura do público
É assim que uma exposição histórica - por conseguinte, habitual desse museu; inclusive, registrou-se uma queda do número
relativamente acessível- consagrada à "La Vie à Pau sous le Second
dos representantes das classes populares (de 5,5% para 1,2% e de
Empire", atraiu ao museu um numeroso público, embora a parcela 1,36% visitante em média para 1,20%).70
relativa e até mesmo o número absoluto dos visitantes oriundos

134 135
o amor pela arle kis ela cltfusão cuBural
Museu no período normal profundamente a significação(e, de forma mais precisa, o nível de
de funcionamento Exposição
oferta) de obras que, apresentadas em um lugar familiar, seriam
mais acessíveis. Não seria isso precisamente o que foi declarado
°°
7,2
1,2417
12
14
27
31,6
21,2
5,5
5,2
3,5
21,5
18,8
1,51 Média
8732
19
cotidianas
total%
Parcela
entradas
Média
público 1,9 das
do
das
4,0
6,4
1,0
0,4
0,8
2,9 pelo guarda da Casa de J acques Coeur, * em Bourges, quando deu a
arte
Estudantes
Professores
Empregados e e seguinte resposta ao conservador: "Mas, se o senhor pretender
transformá-Ia em museu, ninguém virá visitá-Ia"??! A precária
representação das classes médias e populares é tanto mais notável
que cerca de um terço (27%) dos visitantes vinham pela primeira
vez ao museu (dos quais 68,5% com a intenção precisa de ver esta
exposição) e que 80% eram originários de Lille e de sua região
metropolitana. Sem dúvida, a exemplo dos monumentos e dos lugares
recomendados pelos programas turísticos, as obras expostas adquirem
uma significação social que transforma a visita em uma verdadeira
obrigação. No entanto, o acúmulo de valor, conferido às obras por
sua exibição "extra-cotidiana" e pelas manifestações
I públicas de
solenização, não pode ser percebido e apre{iado a não ser por aqueles
que pertencem à sociedade para quem e~S(lsobras existem como
valor, de modo que - neste domínio mais do que alhures - as
incitações fornecidas pelos contatos sociais e pela conversa ao pé do
A distribuição do público segundo o nível de instrução
ouvido, como técnica social de influência, têm mais efeito do que as
confirma o seguinte: o maior proveito dessa tentativa de vulgarização
técnicas modernas de publicidade. Além disso, a visita da exposição,
foi tirado pelas classes privilegiadas, já que a taxa de visitantes de
como operação obrigatória, não se impõe no mesmo grau aos
nível inferior ao vestibular no público das exposições é nitidamente
visitantes dos diferentes meios porque os representantes das classes
mais reduzido do que no público do museu em período normal de
mais favoreci das são mais numerosos a ter visitado uma outra
funcionamento, enquanto a parcela de titulares de licencepassa de
exposição e não apenas a que constituía o objeto inicial de sua
18,5% para 34,5% relativamente ao conjunto das exposições, e para
vinda; ou dito por outras palavras, a força do programa cultural
36,5% na exposição dinamarquesa; por sua vez, a parcela dos
proposto é tanto mais vivamente sentida quanto maior for a adesão
visitantes dotados do vestibular permanece praticamente semelhante.
aos valores de cultura e mais forte a pressão do grupo de referência.
Apesar de ter apresentado objetos que poderiam ter sido
À semelhança da pregação religiosa, a pregação cultural só
oferecidos ao público por uma loja de departamentos, a exposição
consegue reunir as condições de êxito quando se dirige a convertidos.
dinamarquesa foi transformada, pela localização e pela própria
publicidade que precedeu sua inauguração, em um acontecimento
cultural e, nessa qualidade, dirigia-se mais diretamente ao público
* Jacques Coeur (1395-1456), rico comerciante francês de pedras preciosas, foi
culto. O simples fato de serem consagradas por sua exposição em financista do rei Carlos VII, tendo fortalecido a moeda; sua mansão em Bourges, cidade
onde nasceu, é um monumento característico da arquitetura civil do século xv. (N.T.)
um lugar consagrado é suficiente, por si só, para modificar

136 137
o amor pela arle iéis da difusão cuRural
E é natural que - por lhe faltar o espírito de missão e por estar hábito foi adquirido desde a infância ou no decorrer da
preocupado, antes de tudo, em comemorar imediatamente o sucesso adolescência, no círculo familiar, e desenvolvido por uma
de seus esforços, avaliado pelo número de fiéis recenseados -, o escolaridade prolongada. Contrariamente ao desejo manifestado
conservador se dirija, por privilégio, às categorias que garantam um por seu presidente, a AssoâatÍon não é nada menos do que um
maior número de devotos. Compreende-se que, ao lado da exposição, meio de atrair para a visita de museus aqueles que se mantinham
a Assodação dos Amigos do Museu seja o segundo foco da operação afastados de tal atividade em decorrência de seu meio ou de sua
"museológica" . falta de cultura: 2.500 novos membros se inscrevem, anualmente

Quem se inscreve na Assoâação dos AmÍgos do Museu pretende (enquanto um número quase igual não renova sua cotização);

garantir as vantagens proporcionadas por essa organização, assim apesar disso, as características sociais dos recém-chegados são
como - sobretudo, talvez, nas pequenas cidades - afirmar-se como rigorosamente as mesmas dos membros antigos. Sem dúvida,
trata-se de uma associação parisiense, cuja composição social é
praticante fervoroso das manifestações culturais propostas por tal
agrupamento: 23% dos membros da AssoâatÍon des AmÍs du particularmente aristocrática; no entanto, tudo parece indicar que
as associações de província reúnem notáveis e intelectuais (ou
Louvredeclaram participar em todas as visitas propostas (ou seja,
mais de vinte, por ano),72 Torna-se compreensível a intensidade, seja, relativamente à AssoâatÍon de Lille, 19% dos membros são
oriundos das classes médias e 81% das classes superiores, enquanto
realmente excepcional, dessa prática se soubermos que os
membros da AssoâatÍon são quase todos oriundos das classes em relação à AssoâatÍon de Douai, 2% dos membros pertencem

cultas (ou seja, 77,5% de quadros superiores e de mulheres de às classes populares, 11% às clare~ médias e 87% às classes
quadros superiores, contra 3% somente de artesãos ou superiores), cuja ambição explícita consiste em agrupar a elite do'

comerciantes e 0,5% de agricultores e operários). A distribuição público em torno do museu. Mesmo que seu objetivo fosse atrair

dos sócios segundo o nível de instrução é também significativa: um novo público, elas não constituiriam o meio adequado para
alcançá-Ia.
enquanto o visitante modal do público dos museus passou o
vestibular, 47% dos membros da AssoâatÍon des AmÍs du Louvre Se a única finalidade consistisse em levar ao museu o maior
são titulares de lÍcence (os quais representam 1,8% da população número possível de visitantes, sem qualquer outro tipo de preocupação,
total da França), 30% possuem o vestibular e 19% somente têm os meios atualmente utilizados na maioria dos casos são, sem dúvida,
um certificado de estudos inferior ao vestibular. os mais bem adaptados e os mais conformes à "vocação" dos
A prova de que a Assoâation reúne os devotos e não atrai tanto os freqüentadores atuais de museus. No lado completamente oposto,
neófitos, encontra-se no fato de que, independentemente de sua uma política inspirada pela vontade de fazer vir ao museu aqueles que
categoria social, seus membros já eram familiares do museu antes não sentem a necessidade de freqüentá-l o só poderia ter, a curto prazo,
de sua adesão. Em 90% dos casos, o primeiro contato com o museu
uma eficáciaextremamente limitada e, sem dúvida, exigiria a utilização
havia ocorrido antes da idade de dezoito anos; aliás, 55% dos de outros meios e, segundo parece, de um público dotado de uma
membros declaram que sua inscrição na AssocÍatÍon foi formação e de um espírito totalmente diferentes.
influenciada por um amigo ou limitou-se a seguir uma tradição Entre os elementos que contribuem para definir o nível de
familiar. Assim, a AssociatÍon oferece os meios para que seus oferta dos museus - o menor dos quais não é sua significação social-, o
membros continuem a se dedicar a uma atividade cultural, cujo tipo de obras apresentadas e o tipo de apresentação que lhes é

138 139
o amorpela arle leis da dfusão cuRural
prodigalizado dependem (pelo menos, parcialmente) da ação exclusiva representação dos visitantes menos cultos, atraídos por obras mais
dos dirigentes de museus. Se é conhecido que a parcela dos visitantes próximas de sua experiência e mais apropriadas a seus interesses.
que, primordialmente, são atraídos por objetos históricos, Os membros das classes médias, cujas atitudes organizam-se em
etnográficos ou de folclore, por cerâmicas ou móveis, aumenta de torno da oposição entre o "interessante" e o "instrutivo" - oposição
maneira regular e rápida à medida que se desce na escala social que, por exemplo, eles estabelecem entre os objetos familiares da
[d. Apêndke 2, Tabelas 14 e 15], pode-se concluir que museus, exposição dinamarquesa, plenamente apropriados a seus
exclusivamente consagrados às obras mais nobres e mais difíceis, interesses, e os objetos propostos pelo museu que, pelo contrário,
poderiam chamar a atenção dos visitantes oriundos das classes médias exigem um interesse decisório e forçado, tão diferente do
reservando espaço para objetos que fazem parte da experiência "interesse" quanto do prazer estético -, poderiam ter acesso, na
estética cotidiana - tais como móveis, faianças ou porcelanas, ou mesma oportunidade, a obras que não eram o objeto primeiro de
ainda objetos históricos, de folclore e, até mesmo, etnológicos - e sua visita e, assim, encontrar uma ocasião de exprimir sua boa
respondendo, assim, aos interesses estéticos desenvolvidos pelo gosto vontade cultural.
voltado para a decoração das moradias ou satisfazendo a curiosidade A única maneira de baixar o nível de apresentação de uma
a respeito de tudo o que se relaciona com a história, confirmada obra consiste em fornecer, SÍmultaneamente, o código segundo o
tanto pelo sucesso de vendagem das revistas históricas, quanto pelo
qual está codificada, por meio de um discurso (verbal ou gráfico),
tamanho (muito mais importante) e pela estrutura (muito mais
cujo código já seja controlado (parcial ou totalmente) pelo receptor,
democrática) do público que freqüenta os museus instalados nos
ou que revele continuamente o código de sua própria decifração, em
palácios e monumentos históricos. conformidade com o modelo da comunicação pedagógica
Se parece impossível abaixar o nível de oferta modal dos museus, perfeitamente racional. Sabendo que os visitantes oriundos das classes
presume-se que se possa modificar sua variância (a2 no modelo), populares que se arriscam a visitar os museus sentem-se aí, muitas
diversificando o tipo e a qualidade das obras apresentadas. A forma vezes, como que deslocados e sempre desambientados, por não
analítica da taxa t de freqüência de museus mostra que, estarem preparados para enfrentar as obras expostas e por não
dependendo do valor da variância ser inferior, igualou superior encontrarem, no próprio museu, os subsídios adequados a facilitar
ao quadrado da diferença L'12 entre a oferta e a demanda, a taxa é sua visita, pode-se pressupor que, diante de uma dificuldade igual
uma função crescente, estacionária ou decrescente de a2• Um das obras apresentadas, seria possível reduzir a confusão dos sujeitos
aumento da dispersão do nível das obras poderia determinar uma menos cultos, oferecendo-Ihes a ajuda que esperam. O receio de
queda da taxa de freqüência das categorias mais cultas (cujo nível que as informações escritas ou faladas a respeito das obras expostas
de demanda é o mais elevado), se esse crescimento da dispersão desviem os visitantes da contemplação das próprias obras,
não se acompanhasse, de fato, de um aumento da intensidade da associando-as a conteúdos extrínsecos e acessórios, é uma forma de
oferta ou do tamanho do museu, e se a consagração que lhes confere ignorar que o ideal da contemplação sem palavras, nem gestos, é
o museu não elevasse automaticamente o nível das obras ofertadas, próprio daqueles mesmos que só conseguem realizá-Io pela
como foi possível ver no caso da exposição dinamarquesa, familiaridade imediata porprocionada pelas aprendizagens
apresentada no Museu de Lille. Em todo caso, este crescimento da imperceptíveis de visitas assíduas a museus; é também uma forma
dispersão tenderia a determinar um ligeiro aumento da de ignorar que o interesse pela obra em si mesma e por ela mesma,

140 141
o amor pela arfe leis ela cltfusão cuÚural
confiar sua redação a especialistas e sua apresentação a artistas. E
assim como a indiferença ao conteúdo informativo que ela pode,
como que por acréscimo, propor, definem uma atitude estética que, sem chegar ao ponto de pretender que seja oferecida ao visitante,
no mesmo plano da experiência popular do belo, está socialmente no próprio museu, uma documentação científica sobre as obras
condicionada e que, em todos os casos, nunca é independente de expostas, como faz a National Galleryde Washington ou que sejam
condições sociais, ou seja, aquelas que tornam possíveis as "pessoas utilizados aparelhos de projeção fixa ou os meios audiovisuais
com gosto". A significação e a função dessa definição social da atitude individuais que se vê, por exemplo, no Bristish Museum, não seria
estética nunca aparecem tão bem a não ser em domínios em que a possível esperar que cada museu tivesse à disposição do visitante
"concorrência" das classes médias e populares ameaça o "monopólio" um catálogo, por mais sumário que fosse, ou mesmo algumas
cultural e as certezas estéticas ou éticas das classes superiores. folhas mimeografadas, indicando a planta das instalações, que o
Assim, através da sátira dos fotógrafos apaixonados e da mania visitante pudesse comprar por um preço módico ou consultar ou,
fotográfica que se tornou um dos lugares comuns da conversação ainda, tomar emprestado, gratuitamente, para utilizá-Io durante
distinta, exprimem-se, na realidade, as regras que devem definir, a visita? Eis a melhor ilustração do mal-entendido que estabelece
para a elite, a contemplação estética: à semelhança dos fanáticos do uma separação entre o conservador e os visitantes oriundos das
pequeno formato que se conformam à ascese laboriosa do acúmulo classes desfavorecidas: se o conservador, ocupado com outras
~-~
das lembranças, ou à semelhança dos cinéfilos capazes de recitar os obrigações e desejoso ele' apresentar um objeto de ciência
créditos de filmes que não chegaram a ver, esses visitantes de museu indiscutível, atrasa, às vezes, durante muito tempo, a publicação
que, inteiramente ocupados em entesourar saberes acessórios, ficam de um catálogo, o público se contentaria, habitualmente, com
menos atentos às próprias obras do que à análise proposta a seu algumas folhas, até mesmo desatuaUzadas em determinados
respeito pelo catálogo, ignoram a arte de se abandonar à emoção aspectos científicos, mas que o ajudassem a conjurar a angústia
imediata e fugaz que define o distanciamento distinto do esteta. que tem ao se sentir só diante de uma obra de arte indecifrável.
Mesmo que incentivassem uma forma de contemplação que Em vários países, são utilizadas numerDsas técnicas capazes de
tornar os museus mais acessíveis: os visitantes do Rijksmuseum,
pode ser considerada inferior, as informações históricas ou técnicas
em Amsterdã, são ajudados em sua visita por meio de tabuletas
viriam preencher, pelo menos, as expectativas dos membros das
classes médias para quem há confusão entre ver e saber, compreender explicativas; no Pítzwíllíam Museum de cambridge, senhoras
e aprender, acabando por atribuir mais importância ao interesse idosas que fazem tricô em pequenos teares tomaram o lugar dos
educativo do que ao simples deleite; ao mesmo tempo, elas guardas sonolentos ou severos que seguem, passo a passo, o
contribuiriam para atenuar o desnorteamento daqueles que, tendo visitante solitário dos museus de província; os prospectos

se aventurado a entrar em um museu sem qualquer preparação prévia, desdobráveis fornecidos aos visitantes da National Gallery têm

haveriam de considerar o esforço para adotar os meios de aprender e também como efeito transformar a atmosfera da visita porque,
compreender como um reconhecimento implícito do direito de não em vez do recolhimento da igreja, evocam o passeio no jardim.
compreender e de pedir para compreender. Por que não prever um fundo musical que desse aos visitantes o
sentimento de que podem pronunciar algumas palavras sem
Para evitar que as tabuletas com esclarecimentos relativos às obras
perturbar um silêncio religioso? Por que não contratar
não deformem o julgamento dos visitantes, nem prejudiquem a
recepcionistas que, eventualmente, pudessem aconselhar ou
estética do museu - receio freqüentemente manifestado -, bastaria

143
142 o amor pela arle leis ela rhfusão GuBural
fornecer informações aos visitantes pouco cultos ou àqueles que número de cidades), desempenhavam, além disso, a função de
desejassem aprofundar seus conhecimentos? Por que não reforçar conservadores para a qual, salvo exceção, não tinham vocação, nem
os serviços educativos (nos museus dos Estados Unidos, quase qualificação. Em Paris, na falta de qualquer definição racional das
sempre mais importantes do que o serviço de conservação) e não condições de recrutamento e de qualquer explicitação dos critérios
dotar os museus com bibliotecas, salas de concerto, livrarias e de seleção, os conservadores escolhidos por cooptação, segundo o
butiques que façam o comércio de reproduções, jóias e objetos de jogo das relações pessoais e das tradições familiares, eram, quase
folclore? Por que não tornar o espaço mais acolhedor, dotando-o sempre, amadores de arte afortunados aos quais o museu não garantia
de bares, salões de recepção ou restaurantes, permitindo que os carreira, nem retribuição (ou, então, somente no plano simbólico),
visitantes passem o dia no museu? Por que não proporcionar aos pelo menos, até o grau de conservador; no entanto, o encargo de
professores de desenho o meio de ministrar seus cursos, como conservar e aumentar, com uma "rapacidade desinteressada", as
ocorre freqüentemente nos Estados Unidos, nas salas do museu? coleções públicas representava a consagração de uma vocação de
Se, entre as duas políticas objetivamente possíveis, os colecionador.73 Muito pouco inclinados a desempenhar o papel de
conservadores escolhem quase sempre aquela que tende administradores e, ainda menos, de pedagogos, muito mal preparados
objetivamente a aumentar o caráter aristocrático do museu e de seu para as tarefas propriamente científicas, eles satisfaziam-se com um
público, não é porque, com toda a certeza, tenham consciência de status global, ambíguoe-,-por conseguinte, prestigioso, que lhes
que por si só a ação direta do conservador não pode contribuir, de permitia aparecer, diante dàs\criadores, como guardiães da Arte e
maneira decisiva, para a democratização da cultura da qual são os depositários da Tradição; diante dos universitários, como homens
guardiães; pelo contrário, é muitas vezes em nome de uma de ação e técnicos da Arte; e diante dos marchands, como estetas
representação carismática da relação com a obra de arte que os desinteressados. Assim, em vez de uma corporação profissional no
conhecedores, paradoxalmente associados ao mito do "olho novo", verdadeiro sentido, os conservadores parisienses e outros de grandes
denunciam e recusam, como pura profanação, todos os esforços para cidades de província constituíam uma "sociedade" (no sentido
reduzir, através da eficácia de uma pedagogia racional, a distância restrito do termo), um conjunto de personalidades unidas (e
reverencial ao sagrado. De fato, as escolhas dos conservadores, assim divididas) por relações de interconhecimento bastante estreitas e
como as ideologias que lhes servem de justificação, devem menos à intensas.
lógica da deliberação racional do que às condições objetivas que o princípio de todas as características sociológicas desse grupo
definem a profissão e, ainda mais, às características sociais que a não deve ser procurado em sua reduzida importância numérica, nem
transformam em um reduto do tradicionalismo.
no sistema de recrutamento que se limita a manifestar sua lógica e
A corporação dos conservadores apresenta, de fato, todos os a garantir, logicamente, sua perpetuação; de fato, ele reside na
traços considerados característicos de um grupo tradicional. Na sucessão de acasos, iniciativas individuais e decisões administrativas
França, nas cidades de província, eles eram arquivistas, bibliotecários que, em vez de organizar o estado de fato, tendem a legalizá-Io. Daí,
ou pintores locais que, até 1945 (e, ainda hoje, * em um grande surgiu uma instituição com funções diversas e mal definidas e,
sobretudo, com a imagem subjetiva e objetiva de uma "tarefa" que,
participando da arte e dos valores sagrados e inefáveis da salvação
* A edição deste livro data de 1969. (N.T.)
cultural, sente repugnância em se deixar confinar em quadros

144
o amor pela arle leis da difusão cufiural 145
burocráticos de um simples ofício. Eis a razão pela qual a verdadeira das relações pessoais; além disso, acumulando sempre as funções
natureza dessa" sociedade" tradicional nunca apareceu tão claramente administrativas e científicas, os conservadores ofereciam o máximo
a não ser em face da provação suscitada pelo estatuto de 1945, de resistência possível a qualquer tentativa de racionalização e, por
tentativa tímida de racionalização. Com efeito, o estatuto dos exemplo, recorriam aos serviços benévolos de colaboradores, oriundos
museus, contemporâneo da criação da Éco/e nationa/e de seu mundo, e não aos serviços de subordinados tecnicamente
d'administration, * esforçava-se por impor, à corporação dos preparados para tarefas de execução. De fato, neste universo fechado
conservadores, as regras que regem os serviços públicos, tanto em e restrito, em que a maior parte dos encargos são estabelecidos e,
matéria de formação e de recrutamento - pela criação de um concurso muitas vezes, criados por e para determinada pessoa, qualquer
seguido por vários anos de estudos especializados -, quanto em tentativa destinada a introduzir uma regulamentação impessoal
matéria de carreira ou de definição das funções, estabelecendo uma parece, quase necessariamente, dissimular o arbitrário do desfavor
dissociação, por exemplo, entre a função administrativa e a ou dos favores pessoais, o que contribui bastante para suscitar
qualificação científica, ou criando um grupo de executivos. Nesta resistências profundas de ligas unidas por relações pessoais ou
sociedade tradicional, segundo um processo conhecido por interesses comuns.75
especialistas da aculturação, a prova da racionalidade desencadeou- Homem de ciência, comerciante (de fato, digam o que disserem
entre outras coisas - um conflito agudo entre as gerações que é os textos administrativos, o responsável por um museu está
vivenciado pelos mais antigos como a oposição de amadores encarregado de procedeLª, aquisição de obras, portanto, entrar em
desinteressados contra "cientistas" ambiciosos. E, concretamente, concorrência com os marchinps junto aos colecionadores e eventuais
até o estatuto de 1964 (que está justamente começando a ser aplicado, doadores, além de impedir, nas alfândegas, a saída de obras para o
e cujas conseqüências ainda não são perceptíveis), o de 1945 havia exterior, etc.), diretor administrativo, educador, o conservador dos
permanecido letra morta. De fato, o concurso e os estudos posteriores museus franceses pode invocar a multiplicidade de suas funções -
não davam acesso ao exercício da função de conservador: em 1961, em outros países (Polônia ou Estados Unidos), confiadas a diferentes
37% somente dos diplomados da seção superior da Éco/e du Louvre funcionários e a diferentes serviços especializados - para justificar
foram efetivados nos museus que, para assistentes dos Museus o privilégio reconhecido àquelas que se adaptam melhor com a
Nacionais, continuavam a recrutar candidatos sem o diploma da imagem que ele tem de sua vocação. De forma mais precisa, em cada
Éco/e du Louvre; além disso, o Consei/ d'État rejeitou o recurso conservador, a preocupação com as obras entra, incessantemente,
apresentado pela Association des é/eves-agréés de /'Éco/e du Louvre* em conflito com a preocupação manifestada em relação ao público.
contra uma dessas nomeações. 74 A despeito de algumas concessões No entanto, a despeito de concessões, sobretudo, verbais, ao
aos novos princípios, a promoção continuava a obedecer à lógica empenho demonstrado em democratizar o acesso ao museu, um
grande número desses colecionadores, ciumentos de sua coleção,
acomodam-se, de fato, com o estado atual de seu museu e de seu
* Escola Nadonal de Administração: estabelecimento público - conhecido também
pela sigla E.NA. - criado com o objetivo de recrutar, por meio de concurso, e
público:76 a incompreensão de visitantes - pouco aptos a apreciar os
formar os quadros superiores da administração francesa. (N.T.) esforços despendidos por ocasião das exposições ou as façanhas
** Literalmente, A,ssodação dos alunos-diplomados da Escola do Louvre; por sua cometidas para conseguir certas aquisições - poderia estimulá-Ios
vez, o Conseil d'Etat (constituído por 5 seções e formado por 200 membros) é a
suprema instância, consultiva e jurisdicional, da administração pública. (N.T.) bastante ao pessimismo aristocrático se não conhecessem, por

147
146 o amor pela arle leis da difusão cu/iural
de uma sociedade e de uma época que lhes contestam seus apegos
experiência direta ou mediata, a presunção dos esforços para atrair
exclusivos.78
um novo público. E, do mesmo modo que alguns conservadores dos
museus poloneses, ainda oriundos, quase sempre, das camadas Mas, de fato, os limites impostos à ação do conservador
privilegiadas, reduzidos pelo regulamento a um papel de pedagogos, impõem-se a qualquer tipo possível de incitação direta à prática
constatam com amarga alegria a eficácia limitada de uma ação pela cultural. Quem acredita na eficácia milagrosa de uma política de
qual sentem repugnância, assim também um grande número de incitação para visitar museus e, em particular, de uma ação
conservadores franceses encontrarão, sem dúvida, na descrição publicitária pela imprensa, rádio ou televisão - sem se dar conta de
científica dos limites de seu poder, um estímulo para se dedicarem que ela se limitaria a acrescentar, de forma redundante, informações
unicamente à ação sobre o público que lhe parece digna de sua já fornecidas em abundância pelos guias, postos de turismo ou
vocação, ou seja, a de guias artísticos de uma elite de amadores ou, cartazes afixados à entrada das cidades turísticas - assemelha-se às
se quisermos, de "taste makers'. 77 E não será verdade que eles pessoas que imaginam que, para serem mais bem compreendidas
desempenham sua função própria, a saber, consagrar os valores por um estrangeiro, basta falar mais alto.
estabelecidos, quando organizam uma exposição sobre Chagall em
Sem dúvida, os esforços de incitação direta podem derrubar
1947, Klee em 1948, Villon em 1951, Dufy em 1953, Max Ernst em
as resistências sociais e, à maneira do turismo, facilitar a primeira
1959 ou, ainda, Miró e Le Corbusier em 1963 (MuséenatÍonal d'art
visita; no entanto em razão de sua incapacidade para criar a
moderne), ou quando criam ou recriam determinado pintor
desconhecido ou não reconhecido das épocas passadas? disposição à práti~ regular, estão condenados ao fracasso. Assim,
tratando-se da açãu de informação ou de incitação exerci da pelos
Por conseguinte, são compreensíveis as contradições da meios modernos de comunicação, ou tratando-se de operações de
representação vivenciadas pelos conservadores em suas relações com difusão cultural empreendidas por organismos de "cultura popular",
o público. Um pequeno lote de temas tradicionais, ritualmente
a ação direta só pode ser eficaz se vier a se exercer sobre sujeitos
evocados nas assembléias nacionais e internacionais - gratuidade
preparados, pela ação sistemática e prolongada da Escola, para acolher
da entrada, período de abertura mais prolongado, publicidade - seu efeito. Assim, explica-se, segundo parece, o fracasso parcial,
fornece o álibi mais seguro à inquietação "democrática" já que, ao
freqüentemente constatado, dos esforços de formação artística
permitir lembrar os princípios sagrados (por exemplo, a propósito
direcionados para crianças. Se, tendo acabado de deixar a Escola,
da publicidade) e reafirmar os valores comuns, ele exime de formular
um grande número de crianças renunciam a uma prática, para cuja
interrogações capazes de ameaçar tais valores e princípios,
inculcação ela havia despendido esforços, não é, como se acredita
autorizando o debate sem fim sobre a eficácia das receitas (tanto
habitualmente, porque o único efeito dessa formação precoce limitou-
mágicas, quanto técnicas), cuja aplicação nunca será permitida pela
se a associar a Escola ao museu, de modo que a ruptura com a
situação de grande miséria dos museus. E a dualidade que se encontra
primeira implicaria a ruptura com o segundo, mas é porque a
no âmago do museu, com as salas abertas para o grande público e a
escolarização não foi suficientemente longa, nem a educação
reserva acessível unicamente aos especialistas, exprime, sem dúvida,
suficientemente profunda para constituir - entre aqueles que não
a consciência profundamente dividida e contraditória da maior parte
recebem de seu meio a incitação difusa a uma prática regular - a
dos conservadores, dilacerados entre as inclinações pelo esoterismo
atitude culta, da qual a freqüência dos museus é uma manifestação.
aristocrático, tributário de seu meio ou de seu ofício, e as solicitações

149
148 o amorpela arle leis da cltfusão cullural
Do mesmo modo, todas as tentativas empreendidas, até hoje, no Público do Museu de Público dos museus
sentido de incentivar as visitas a museus mostram que as Limoges franceses
% %
características sociais e culturais do público permanecem
praticamente constantes, sejam quais forem os meios diretos 2
Agricultores
utilizados para atraí-Io. Assim, por exemplo, a experiência que a
UNESCO realizou, em 1956, em Limoges, comportava, em Operários 4 5
primeiro lugar, uma exposição de quadros no museu, com visitas
Artesãos e
comentadas e distribuição de 3.000 catálogos; em segundo lugar, 5 6
comerciantes
uma exposição em painéis portáteis com reproduções,
apresentadas por dois funcionários dos Museus Nacionais na sala Empregados e 15,5 23
quadros médios
de espetáculos das prefeituras do departamento de Haute-Vienne,
Estudantes 11 18
assim como em várias fábricas e escolas de Limoges; em terceiro Profissões liberais 38 = 56
43,5 = 54,5
lugar, duas exposições em painéis portáteis na estação ferroviária, e professores
na agência de correios e na biblioteca municipal da mesma cidade;
Outros 21 9
em quarto lugar, a projeção de filmes "destinados a sensibilizar o
público popular à pintura moderna" e apresentados
equipe da Direção Regional da Juventude e dos Esportes; por
por uma
TOTAL f 100 100

último, a distribuição pela biblioteca municipal de livros


consagrados à arte.79 Todas essas manifestações eram alavancadas Além de que a posse de aparelhos receptores de televisão permanece
por uma considerável publicidade, cartazes, painéis expostos no distribuída, de forma bastante desigual, entre as diferentes categorias
liceu masculino e na estação ferroviária de Limoges, artigos nos sociais - passando de 3,8% dos assalariados agrícolas para 5,9%
jornais cotidianos, além de programas em Rádio-Limoges. dos agricultores, 20,8% dos operários, 31% dos quadros médios e
35,5% dos quadros superiores -, a receptÍvÍdade à informação varia
Esta experiência permite, portanto, avaliar a eficácia da ação direta
no caso mais favorável já que os mais modernos meios de consideravelmente segundo o tipo de informação recebida e segundo
as características sociais e culturais dos receptores. Sabendo que a
informação - imprensa, rádio e publicidade - reduplicaram a ação
escuta dos programas "culturais" de rádio e televisão (peças de
dos meios considerados como mais tradicionais, ou seja,
teatro, concertos, etc.) depende do nível de instrução e da posição
conferências ou livros. Ora, a estrutura do público do museu em
na hierarquia social, 81 não é necessário recorrer à experiência para
que estavam expostas as obras de arte, durante o período da
ter a certeza de que as informações sobre os museus ou as exposições
experiência, não sofreu qualquer tipo de mudança, o que se
apresentam todas as condições de atingir e, a fortiori, influenciar
compreende se soubermos que a influência dos meios diretos e,
apenas a fração mais culta dos espectadores da televisão, ou de
em particular, da ação de informação pela imprensa, rádio ou
forma mais precisa, de atingir e influenciar unicamente os
televisão, exerce-se sempre de maneira diferencial. 80
espectadores em razão direta de seu nível de instrução. Sem dúvida,
Eis o momento de lembrar que a ação decorrente dos programas de os ouvintes mais bem preparados por sua cultura é que recebem,
rádio e televisão não é exercida de maneira sistemática e homogênea. em melhores condições e com maior freqüência, os programas

150
o amor pela arle /éis da difusão cuRural 151

-
dedicados à arte e, sejam quais forem os meios que ela possa utilizar, apoiada em um museu, como na cidade de Havre, ou em um
a ação de incitação cultural é tanto mais bem-sucedida quanto mais teatro, como em Caen, a MIC atraiu e reagrupou aqueles que,
cultos são aqueles que ela atinge.82 por sua formação escolar ou seu meio social, haviam sido
Constrangidos, pelos imperativos da maior difusão possível dos preparados para a prática cultural. Na MIC de Havre, entre os
órgãos onde trabalham, a elaborar uma sociologia espontânea, anos de 1961 e 1964, o número dos sócios conheceu uma ampla
baseada no método dos acertos e dos erros, os jornalistas abstêm- oscilação de 138 a 3.500, mas a estrutura do público, sempre
se de utilizar os poderes milagrosos que, às vezes, são atribuídos bastante próxima da estrutura do público dos museus, manteve-
aos meios modernos de comunicação. No decorrer dos anos de se notavelmente constante: a parcela dos quadros superiores,
1963 e 1964, a revista hebdomadária Elle - cuja ambição representantes das profissões liberais e estudantes passou por
pedagógica é, no entanto, patente - nunca chegou a recomendar a variações no mesmo sentido do número total dos sócios (segundo
visita a museus. Se excetuarmos um artigo dedicado à maneira de uma lógica que pôde ser observada também a propósito das
levar as crianças a visitar um museu - e, sobretudo, dirigido às exposições), oscilando entre 57,2% e 67,2% do conjunto dos
mães que, de fato, encontram uma incitação à essa visita, muitas membros. Se a MIC de Havre atraiu um público que, por sua
vezes, ao terem o desejo de acompanhar os filhos - essa revista, estrutura, se aproxima dos públicos de museus que oferecem obras
que não deixa de dedicar rubricas permanentes ao teatro, à de um nível particularmente elevado, tais como o Musée des Arts
literatura e ao cinema, sem falar das crônicas propriamente
femininas, contentou-se, nesse período de dois anos, em fornecer se em um museu de ar uitetura audaciosa* e dedicado a obras
a lista dos museus da França, assinalar as exposições temporárias, modernas, Museut
déeoratifsou elao atraiu d\aturalmente
utun, é, semos dúvida, porque,
visitantes apoiando-
habituais dos
aconselhar uma espécie de excursão turística à exposição dos museus deste tipo.
artesãos do departamento de Haute-Provence e, finalmente, na Por sua vez, a M.j C de Caen que deu prioridade às atividades
edição de Natal, oferecer uma reprodução em cores. Sem negar teatrais havia recebido (em 30 de maio de 1964, ou seja, um
que uma revista, tal como esta, possa determinar em um público, ano depois de sua inauguração) um público composto por 75%
recrutado em sua maioria nas classes populares e médias (ou seja, de escolares e estudantes, aos quais se acrescentam 7,8% de
4% de agricultores, 22% de operários, 10% de artesãos e
quadros superiores e professores, 8,5% de empregados e
comerciantes, 25% de quadros médios, 18% somente de quadros comerciantes, e somente 0,7% de operários e agricultores.83 Do
superiores e 21 % de diversos e inativos), o aumento momentâneo
mesmo modo, o público da M.jC de Bourges comportava (em
de interesse ou, até mesmo, uma expedição cultural, ela não
30 de junho de 1964, ou seja, nove meses depois de sua criação)
poderia provocar conversões duradouras e uma prática 26,8% de escolares e estudantes, 52,2% de quadros superiores
permanente.
e professores, 22,6% de quadros médios e empregados, 9,6%
As limitações impostas a qualquer ação direta de incitação à prática de operários e 1,2% de agricultores.84 Se a ação de organizações
cultural pesam também sobre as MaÚons de ia euiture. * Seja profissionais preexistentes, esportivas ou familiares, pôde

* Daqui em diante, MJC (N.T.)


* Projeto concebido por Oscar Niemeyer. (N.T.)

152
o amorpela arle /eis da dfusão cuflural 153
incitar uma parcela das classes médias e uma minoria das classes
de Villeurbanne* são experiências que nada podem comprovar, já que
populares a uma prática cultural que não lhes era familiar, a
fazem desaparecer o próprio objeto da experiência, admitindo como
Mj C. acabou sendo investida das características das instituições,
resolvido o problema para o qual pretendem encontrar uma solução,
teatros ou museus, que ela deveria ter ultrapassado ou
ou seja, o das condições da prática cultural como operação deliberada
substituído: os representantes da classe culta sentem-se no
e regular; no entanto, em todo caso, seu efeito consiste em levar
direito e dever de freqüentar esses santuários da cultura, dos
aqueles que as empreendem a se convencer da legitimidade de sua
quais as outras pessoas, por falta de uma cultura suficiente,
iniciativa. Mais realistas, na aparência, já que contam com a ação de
sentem-se excluídos. Longe de desempenhar a função que lhe
animadores para preparar e incitar os representantes das classes
havia sido atribuída por uma certa mística da cultura popular,
culturalmente desfavorecidas às práticas culturais, as operações de
a Méson de ia cuiture continua sendo a casa dos homens cultos.
educação popular nunca estão completamente isentas da ideologia
Se sabemos que o interesse do ouvinte por uma mensagem, segundo a qual o confronto com a obra basta, por si só, para determinar
seja ela qual for, e, ainda mais, a compreensão que venha a conseguir uma disposição duradoura à prática cultural. Assim, convencidos de
de seu conteúdo, depende direta e estreitamente de sua "cultura", que as classes menos cultas, portanto, as menos corrompidas pela
só nos resta duvidar da eficácia de todas as técnicas de ação cultural influência rotinizante do ensino universitário, estão predispostas -
direta, a começar pelas MJ. C até as operações de educação popular; em razão do estado de inocência cultural em que se encontram - a
com efeito, enquanto se perpetuarem as desigualdades diante da acolher sem preconceito as formás mais autênticas e mais audaciosas
Escola, única capaz de criar a atitude culta, todas essas técnicas da arte, os animadores das AdIC acreditam poder conciliar, sem
limitam-se a atenuar (no sentido preciso de dissimular) as contradição, as buscas de uma vanguarda estética com a busca de um
desigualdades culturais que elas não conseguem reduzir realmente público popular. Eis o que contribui bastante para explicar que, de
e, menos ainda, de forma duradoura. Não existe atalho para o fato, eles se limitam a encontrar os destinatários reais de sua mensagem,
caminho que leva às obras de cultura; além disso, os encontros a saber, os intelectuais que ficam devendo à Escola não só uma cultura
artificialmente programados e diretamente provocados estão votados clássica, ou seja, uma cultura escolar, mas também a capacidade e o
ao fracasso.
desejo de superá-Ia.
A maior parte das iniciativas de educação popular e, A despeito de não lhes faltarem animadores, tais operações
particularmente, as MJ. C, inspiram-se em uma ideologia que, além de recuperação cultural situam-se objetivamente à margem da
das variantes e das variações, organiza-se em torno de um núcleo instituição escolar que, em vez de ser objeto de concorrência, é
comum de preconceitos e que, freqüentemente, aparece como a ultrapassada por elas; ora, essa situação de repetição inútil e de
expressão sistemática de um certo tipo de situação social. Ao darem marginalidade encontra, naturalmente, sua justificação em uma
a impressão de acreditar que a inacessibilidade física das obras fosse ideologia que, partindo da crítica contra as insuficiências da
o único empecilho para que a maioria das pessoas pudesse abordá- instituição escolar, culmina na contestação genérica da legitimidade
Ias, contemplá-Ias e saboreá-Ias, parece que certos dirigentes e e eficácia da ação específica da instituição, a saber, a inculcação,
animadores pensam que basta levar as obras até o povo por não
poderem trazer o povo até as obras. As exposições de quadros nas
* Cidade industrial na região metropolitana de Lyon, um dos mais importantes
fábricas Renaultou as representações teatrais destinadas aos operários pólos de desenvolvimento, situada no centro da França. (N.T.)

154
o amor pela arle /eis ela c1tfusãocuJiural 155
pelo ensino e pelo exercício, do sistema de hábitos e aptidões que prazos que não sejam inferiores àqueles ado~ados pela Escola
define a atitude culta. Se já se sabe que estas organizações, ameaçadas para fazer homens "cultos".
continuamente de serem consideradas como uma Escola de segunda Em sua forma atual, as experiências de estabelecimento de
ordem, oferecem - a um grande número daqueles que estão contato direto com as obras culturais obedecem a uma lei
envolvidos em suas atividades - determinadas carreiras e tarefas
sobejamente conhecida pelos especialistas dos fenômenos de
que lhes seriam recusadas pela instituição universitária, compreende- aculturação: uma técnica pode ser perfeitamente aprendida ou
se que muitos dos que pretendem se ocupar da difusão ou da ação compreendida, e depois como que esquecida, porque as condições
cultural transformem a contestação do papel da Escola no primeiro de sua atualização não são fornecidas e porque ela não se integra
artigo de seu credo.85 Se estas convicções ideológicas podem ajudar no sistema total de atitudes e hábitos que, de forma exclusiva,
seus defensores a segurar-se e manter-se em tal situação instável, poderiam conferir-lhe um fundamento e uma significação. É assim
elas acabam por impedi-Ios, com toda a certeza, de encontrar uma que, entre as jovens esteticistas - cujo programa de ensino previa,
das maneiras, aparentemente razoável, de livrar-se dela. Algumas com a ajuda do serviço educativo do Museu do Louvre, a visita de
constatações do fracasso contêm, no entanto, implicitamente, as diversos museus -, 19% somente haviam voltado a um museu no
condições de sua superação. decorrer dos quatro meses, após o final das visitas obrigatórias,
Assim, depois de ter descrito a ação empreendida nas Maisons apesar da maior parte dessas jovens serem oriundas do ensino
des jeunes de Porte Brancion, de Rue Mercoeur, de Paris-Centre e secundário;87 da mesma forma, os primeiros professores primários
de Paris-Charonne - todas em Paris - nas quais "o resultado é que exerceram seu ofílio na Cabília, * no final do século XIX, não
decepcionante porque os jovens freqüentadores da Maison têm cessavam de deplorq.! que os alunos dessem a impressão de ter
um nível cultural apenas sofrível", M. Eyraut, Diretor da Seção esquecido, mal saíam da escola, tudo o que haviam aprendido, não
das Belas-Artes,Juventude e Esportes da Região da Seine,* tira a só o tamanho das árvores, mas também a matemática, ou seja,
conclusão de que: "em primeiro lugar, o público popular não técnicas solidárias de uma verdadeira atitude em relação ao mundo
sente necessidade de visitar museus e, tampouco, se sente à que, neste caso, a Escola não sabia ou não podia, por si só,
vontade nesses espaços; em segundo lugar, para despertar-lhe o transmitir.
interesse, é indispensável que um animador se ocupe Será que isso significa que tais iniciativas não podem esperar
particularmente dessa atividade; em terceiro lugar, a colheita nenhuma eficácia a não ser que se dotem dos meios à disposição da
dos frutos dessa ação se faz somente depois de um certo número Escola? De fato, além de que qualquer tentativa para impor tarefas e
de meses e, até mesmo, de anos". 86 Isso significa que a ação disciplinas escolares aos organismos marginais de difusão cultural
cultural direta - exerci da, como é sabido, sobre voluntários esbarraria contra as resistências ideológicas dos responsáveis que,
(verossimilmente, mais instruídos do que a média dos freqüentemente, ficam indecisos entre as vantagens da integração à
representantes de sua categoria) - só obtém resultados instituição legítima de educação e as vantagens da marginalidade,
perceptíveis com a condição de utilizar métodos escolares e prever podemos nos interrogar não só sobre o custo da operação quando

* Depois da reforma administrativa de 1964, inclui Paris e os departamentos


limÍtrofes (Hauts-de-Seine, Seine-Saint-Denis e Val-de-Marne). (N.T.) * Uma das regiões montanhosas da Argélia, habitada por berberes. (N.T.)

157
156 o amor pela arfe leis da r!tfusão cuRural
sabemos que, no estado atual, o rendimento de tais organizações é da Escola é, neste nível, pelo menos, três vezes mais importante
praticamente insignificante, mas também sobre a verdadeira função do que o de qualquer ação direta sobre a oferta e, inclusive, na
da política que consiste em estimular e amparar organismos hipótese menos favorável, já que para o visitante do nível do B. E.
marginais e pouco eficazes, enquanto não tiver sido acionado tudo P. C. o efeito dessa ação direta, avaliado da mesma forma, seria
o que for necessário para constranger e autorizar a instituição escolar nulo (E = (3 - 1)2 - 1 = O).
a desempenhar a função que lhe incumbe de fato ede direito, a
Assim, a elevação geral do nível da instrução, tal como é
saber, desenvolver em todos os integrantes da sociedade, sem
demonstrada na comparação dos censos de 1954 e de 1962, dá
qualquer distinção, a aptidão para as práticas culturais comumente
conta, por si só, de um aumento do número anual de visitantes em
consideradas mais nobres. Não teremos o direito de formular esta
1,6%, assim como da expansão demográfica de um aumento anual
questão quando, do ponto de vista científico, podemos estabelecer
de 1,1%; deste modo, a diferença (0,3%) entre essa taxa obtida
que o prolongamento da escolaridade e a ampliação do tempo pelo cálculo e a taxa anual de crescimento de 3% - empiricamente
reservado, nos programas, para o ensino artístico permitiriam, por constatada em relação aos Museus Nacionais88 - deve, sem dúvida,
si sós, quebrar o círculo em que se encontram confinadas todas as
ser imputada ao aumento do turismo cultural.
técnicas da ação direta, seja em relação à animação cultural ou à
publicidade através da imprensa, rádio ou televisão? Se imaginarmos que, ao elevar em três anos (ou seja, em um
nível) o nível cultural dos franceses que atualmente se encontram
Assim, para voltar ao caso preciso dos museus, o aumento relativo
no nível do C. E. P., estes subiriam para o nível do B. E. P. C.,
da taxa de freqüência (ou uma "elasticidade" E) igual, segundo o
que precede, a enquanto (elevaríamos os detentores do B. E. P. C. para o nível de
E = L'l2 - 1 vestibulai)\ vemos por um cálculo elementar que, em um prazo
bastante longo, ou seja, no espaço de três gerações, a taxa de
freqüência global dos franceses registraria um aumento de 150%.
corresponderia ao aumento reJatÍvo da dispersão da informação Como este modelo é válido, com ligeiras diferenças, para todas as
oferecida.
formas de prática cultural, fica comprovado, portanto, que a
Em relação a um museu em que o nível modal dessa informação intensificação da ação da Escola é o meio mais eficaz para fazer crescer
é o do vestibular (co = 3 níveis), com uma dispersão de um nível tal prática - ou seja, a freqüência dos museus, teatros ou concertos,
(o que é o caso mais freqüentemente observado), uma ação sobre assim como a leitura e a escuta dos programas culturais de rádio e
a informação oferecida tendente a aumentar a dispersão de um televisão -, ao mesmo tempo que ela é a condição necessária da
nível determinaria a triplicação do número dos visitantes do nível eficácia de qualquer outro meio; ou, por outras palavras, os
do C. E. P. Gáque E = (3 -1)2 ~ 1 = 3), resultado que, evidentemente, investimentos alocados aos equipamentos culturais são pouco
só poderia ser obtido mediante uma conversão profunda da política rentáveis na falta de investimentos destinados à instituição escolar,
atual dos museus, assim como mediante um fortalecimento única capaz de "produzir" os utilizadores desses equipamentos.
considerável dos meios colocados à sua disposição. Sabendo que Mas se é verdade, como já ficou comprovado alhures, que a
as taxas de freqüência empiricamente constatadas aumentam de Escola, em sua forma tradicional, consegue transformar aqueles que
um a dez entre os níveis do C. E. P.e do B. E. P. c., vê-se que o efeito lhe são confiados, inculcando-lhes uma disposição duradoura à

158
o amor pela arle 159
/éis da cltfusão cuRural
tenha recebido, de seu círculo familiar e da Escola, os meios de se
prática culta, o grau de tal mudança depende, no estado atual, da
quantidade e da qualidade dos conhecimentos prévios que apropriar deles, não pode se manifestar senão entre aqueles que
implicitamente lhes tenham sido exigidos por ela, pode-se prever podem satisfazê-Ia e pode satisfazer-se desde que ela se manifeste.
que a extensão considerável do público escolar, resultante de uma Segue-se, por um lado, que a "necessidad'e cultural" como necessidade
culta, diferentemente das necessidades "primárias", aumenta à
verdadeira democratização do ensino, seria acompanhada
necessariamente pela diminuição progressiva da eficácia de uma ação medida que é plenamente satisfeita, já que cada nova apropriação
tende a fortalecer o controle dos instrumentos de apropriação e, por
escolar estritamente adaptada a indivíduos dotados, como que por
uma harmonia preestabelecida, das predisposições que conseguinte, as satisfações inerentes a uma nova apropriação; e,
implicitamente ela pressupõe, a menos que seja realizada uma por outro, que a consciência da privação decresce à medida que cresce
transformação radical da pedagogia, ou ainda melhor, dos postulados a privação, de modo que os mais completamente desapossados dos
implícitos que servem de fundamento a todas as escolhas meios de apropriação das obras de arte são os mais completamente
pedagógicas. desapossados da consciência desse desapossamento.

A definição científica das condições sociais e culturais da


freqüência de museus e, de forma mais geral, de qualquer tipo de
lazer culto, implica a ruptura radical com a ideologia das
"necessidades culturais", que leva alguns a considerar as opiniões
ou preferências efetivamente expressas e efetivamente coletadas pelas
pesquisas de opinião ou de consumo cultural como se fossem
aspirações autênticas, esquecendo não só os condicionamentos
econômicos e sociais que determinam tais opiniões ou consumos,
mas também as condições econômicas e sociais que podem tornar
possível um outro tipo de opinião ou consumo, em suma,
sancionando, por não ter enunciado ou denunciado sua causa, a
divisão da sociedade entre aqueles que sentem "necessidades
culturais" e aqueles que estão privados dessa privação. Pelo fato de
que a obra de arte só existe, como tal, na medida em que é percebida,
ou seja, decifrada, conclui-se que as satisfações inerentes a essa
percepção - seja do deleite propriamente estético ou de gratificações
mais indiretas, como o eleito de distinção - são acessíveis apenas
àqueles que estão dispostos a se apropriar de tais satisfações por
lhes atribuírem valor, no pressuposto de que este só pode ser atribuído
se eles dispuserem dos meios de conseguir tal apropriação. Por
conseqüência, a necessidade de se apropriar dos bens que, à
semelhança dos bens culturais, só existem como tais para quem

161
160 o amor pela arle leis da chfusão cuJiural
conclusão

As pessoas que ficaram surpreendidas pelo enorme esforço


despendido, neste livro, para a enunciação de algumas verdades
evidentes, ficarão sem dúvida indignadas porque, nesses truísmos,
não reconhecem o sabor, ao mesmo tempo, evidente e indizível, de
sua experiência relativa à obra de arte. O que importa, poderá se
dizer, ficar sabendo onde e quando nasceu Van Gogh; o que importam
as peripécias de sua vida e os períodos de sua obra? Para os
verdadeiros amadores, afinal, o que conta é o prazer que sentem

diante de
ponto, um ~~uadro
o que de Van
sociologia se Gogh.
obstina,E precisamente,
não é que se encontra,
a ignorar,neste
por
uma espécie de'agnosticismo reducionista e desencantador? De fato,
o sociólogo é sempre suspeito (em nome de uma lógica que não é a
sua, mas a do amador) de contestar a autenticidade e a sinceridade
do prazer estético pelo simples fato de que descreve suas condições
de existência. É que, à semelhança de qualquer amor, o amor pela
arte sente repugnância em reconhecer suas origens e, relativamente
às condições e condicionamentos comuns, prefere, feitas as contas,
"The laws formulated above, if they be true (...), may be truisms."
os acasos singulares que se deixam sempre interpretar como
A. R. RADCLIFFE-BROWN, Structure
and FunctÍon Ín PrÍmÍtÍve SOCÍety.
predestinação.
A cónsciência obscura do arbitrário dos encantamentos
"Para quem usa óculos - objeto que, segundo a distância, está tão próximo dele assombra a experiência do prazer estético: a história do gosto,
a ponto de 'apoiar-se em seu nariz' -, esse instrumento está, no cerne do mundo
ambiente, mais afastado do portador do que o quadro dependurado na parede individual ou coletivo, basta para desmentir a convicção de que
oposta. A proximidade desse instrumento é tão reduzida que, habitualmente, ele determinados objetos tão complexos quanto as obras de cultura
passa desapercebido."
~rudita, produzidas segundo leis de construção que foram elaboradas
HEIDEGGER, O Ser e o Tempo.
no decorrer de uma história relativamente autônoma, sejam capazes

conclusão 163
de suscitar, por sua virtude própria, preferências naturais. Somente experimental, o sociólogo estabelece que agrada aquilo de que se
uma autoridade pedagógica consegue quebrar o círculo da tem o conceito ou, de modo mais exato, somente aquilo de que se
"necessidade cultural" segundo a qual uma disposição duradoura e tem o conceito pode agradar; por conseguinte, o prazer estético, em
assídua à prática cultural não pode se constituir senão por uma sua forma erudita, pressupõe a aprendizagem e, neste caso particular,
prática assídua e prolongada: as crianças oriundas de famílias cultas a aprendizagem pela familiaridade e pelo exercício, de modo que,
que acompanham os pais nas visitas de museus ou exposições produto artificial da arte e do artifício, este prazer que se vive ou
adotam, de alguma forma, essa disposição à prática, depois que tiver pretende ser vivenciado como natural é, na realidade, prazer culto.
passado o tempo necessário para adquirirem, por sua vez, a disposição
Se o que Kant designava por "gosto bárbaro", ou seja, o gosto
à tal prática que surgirá de uma prática arbitrária e, antes de tudo,
popular, parece contradizer a descrição kantiana do gosto culto em
arbitrariamente imposta. De fato, ao designarem e consagrarem certas
todos os pontos e, em particular, no sentido em que está armado
obras ou determinados lugares (tanto o museu quanto a igreja)
sempre de conceitos,89 na realidade, ele limita-se a manifestar,
como dignos de serem freqüentados, é que as instâncias investidas claramente, a verdade oculta do gosto culto. Do mesmo modo que,
do poder delegado de impor um arbitrário cultural - ou seja, no à moral da intenção pura, Hegel opunha o ethos como "moral
caso particular, uma certa delimitação entre o que é digno ou indigno
realizada", assim também é possível, à estética pura, opor a estética
de ser admirado, amado ou reverenciado - podem determinar a
realizada no gosto culto que, enquanto maneira de ser permanente,
freqüência no termo da qual essas obras aparecerão como não é outra coisa senão uma "segunda natureza" enquanto primeira
intrinsecamente ou, ainda melhor, naturalmente dignas de serem
natureza superada e sublimada. Por ser a "estética realizada" ou, de
admiradas ou saboreadas. Na medida em que ela produz uma cultura
(habjtus) - que não é senão a interiorização do arbitrário cultural-,
natur(eza,
formarais é precisa,
que o julgamento
a cultura (de
douma
gosto
classe
(e seu
e deacompanhamento
uma época) tornada
de
a educação familiar ou escolar tem como efeito, pela inculcação do
prazel.\estético) pode se tornar uma experiência subjetiva, vivenciada
arbitrário, dissimular cada vez mais completamente o arbitrário da como livre e, até mesmo, como conquistada contra a cultura comum.
inculcação. O mito de um gosto inato, que nada deveria às restrições
As contradições e as ambigüidades da relação alimentadas pelos
das aprendizagens nem aos acasos das influências, já que seria dado
sujeitos cultos com sua cultura são, ao mesmo tempo, favorecidas e
inteiramente desde o nascimento, não é senão uma das expressões
autorizadas pelo paradoxo que define a realização da cultura como
da ilusão recorrente de uma natureza culta que preexistiria à tornar-se natureza: se é verdade que a cultura só se realiza ao negar-
educação - aliás, ilusão necessariamente inscrita na educação como
se como tal, ou seja, como artificial e artificialmente adquirida,
imposição de um arbitrário capaz de impor o esquecimento do
compreende-se que os virtuoses do julgamento do gosto dêem a
arbitrário das significações impostas e da maneira de impô-Ias.
impressão de ter acesso a uma experiência da graça estética tão
Em vez de tentar refutar a fórmula de Kant, para quem "o perfeitamente libertada das restrições da cultura (nunca realizada
belo é o que agrada sem conceito", o sociólogo procura não só definir, tão perfeitamente a não ser ao superá-Ia) e tão pouco marcada pela
por um lado, as condições sociais que tornam possível esta experiência longa paciência das aprendizagens das quais ela é o produto, quanto
e, por outro, aqueles para quem ela é possível, amadores de arte ou a evocação das condições e dos condicionamentos sociais que a sua
"homens de gosto", mas também determinar, desta forma, os limites revelação tornaram possível, ao mesmo tempo, como uma evidência
em que ela pode, como tal, existir. Do ponto de vista lógico e e como um escândalo.

164 conclusão 165


o amor pela arle
Para que a cultura desempenhe sua função de encantamento, irrepreensíveis transforma as desigualdades diante da cultura,
convém e basta que passem despercebidas as condições históricas e socialmente condicionadas, em desigualdades de sucesso,
sociais que tornam possíveis não só a plena posse da cultura - interpretadas como desigualdades de dons que são, também,
segunda natureza em que a sociedade reconhece a excelência humana desigualdades de mérito.
e que é vivida como privilégio da natureza -, mas também o Ao deslocar, simbolicamente, do terreno da economia para o
desapossamento cultural, estado de "natureza" ameaçado de aparecer da cultura, o princípio do que as distingue das outras classes - ou,
como baseado na natureza dos homens que estão condenados a tal ainda melhor, ao reduplicar as diferenças propriamente econômicas,
estado.
ou seja, aquelas criadas pela pura posse de bens materiais, com as
A colocação entre parênteses das condições sociais que tornam diferenças criadas pela posse de bens simbólicos, tais como as obras
possíveis a cultura e a cultura tornada natureza - a natureza culta, de arte, ou com a busca das distinções simbólicas na maneira de
dotada de todas as aparências da graça e da dádiva e, apesar disso, usar tais bens (econômicos ou simbólicos), em suma, ao transformar
adquirida, portanto, "merecida" - é a condição de possibilidade da em dado da natureza tudo o que define seu "valor", ou seja, para
ideologia carismática que permite conferir a posição central que, na tomar a palavra no sentido dos lingüistas, sua distinção, marca de
"sociodicéia" burguesa, é reservada à cultura e, em particular, ao diferença que, como afirma o Littré, * separa do comum "por um
"amor pela arte". Sem poder invocar o direito do sangue (recusado, caráter de elegância, de nobreza e de bom tom" -, as classes
historicamente, por sua classe à aristocracia), nem os direitos da privilegiadas da sociedade burguesa colocam no lugar da diferença
Natureza, arma outrora dirigida contra a "distinção" burguesa, nem entre duas culturas, produtos da história reproduzidos pela educação,
as virtudes ascéticas que levaram os empresários da primeira geração a diferença de essência entre duas naturezas: uma natureza
a justificar o sucesso por seu mérito, o herdeiro dos privilégios
burgueses pode fazer apelo à natureza culta e à cultura tornada
natu~mente
sacyilização daculta
cultura
e uma
e da
natureza
arte, ou
naturalmente
seja, a "moeda
natural.
do absoluto"
Assim, a
natureza - ou seja, ao que se chama, às vezes, "a classe", por uma reverenciada por uma sociedade subjugada ao absoluto da moeda,
espécie de lapso revelador; à "educação", no sentido de produto da desempenha uma função vital ao contribuir para a consagração da
educação que parece nada dever à educação; e à "distinçãd', graça ordem social: para que os homens de cultura possam acreditar na
que é mérito e mérito que é graça, mérito não adquirido que justifica barbárie e levar os bárbaros a se convencerem interiormente de sua
os conhecimentos adquiridos não merecidos, ou seja, a herança. própria barbárie, convém e basta que eles cheguem a se dissimular e
Para que a cultura possa desempenhar sua função de legitimação a dissimular as condições sociais que tornam possíveis não só a
dos privilégios herdados, convém e basta que o vínculo - ao mesmo cultura como segunda natureza em que a sociedade reconhece a
tempo, patente e oculto - entre a cultura e a educação seja esquecido excelência humana e que se vive como privilégio de nascimento,
ou negado. A idéia contranatural de uma cultura de nascimento, de mas ainda a dominação legitimada (ou, se preferirmos, a legitimidade)
um dom cultural, outorgado a alguns pela Natureza, pressupõe e de uma definição particular à cultura. E para que o círculo ideológico
produz a cegueira relativamente às funções da instituição que garante fique perfeitamente fechado, basta que aceitem a representação
a rentabilidade da herança cultural, além de legitimar sua
transmissão, dissimulando que ela desempenha tal função: a Escola * Referência ao monumental DictÍonnaÍre de ia iangue françaÍse (4 vais. e 1 supl.,
é, com efeito, a instituição que por seus veredictos formalmente 1863-1873), cujo autor foi o lexicógrafo, Émile Littré (1801-1881). (N.T.)

166 conclusão 167


o amor pela arle
essencialista da bipartição de sua sociedade em bárbaros e em de despertar a graça da iluminação estética em qualquer pessoa, por
civilizados, como justificação do monopólio dos instrumentos da mais desprovida que seja do ponto de vista cultural, mas também de
apropriação dos bens culturais. produzir por si mesma as condições de sua própria difusão, em
conformidade com o princípio das místicas emanatistas, omne bonum
Se tal é a função da cultura e se o amor pela arte é exatamente
est diffusivum sui, é autorizar-se a reconhecer que, em todos os
a marca da eleição que, à semelhança de uma barreira invisível e
casos, os acasos insondáveis da graça ou o arbitrário dos "dons"
intransponível, estabelece a separação entre aqueles que são tocados
constituem a manifestação de aptidões que, afinal, são sempre o
pela graça e aqueles que não a receberam, compreende-se que, através
produto de uma educação distribuída de forma desigual, portanto, a
dos mais insignificantes detalhes de sua morfologia e de sua
tratar as aptidões herdadas como se fossem virtudes próprias da
organização, os museus denunciem sua verdadeira função, que
consiste em fortalecer o sentimento, em uns, da filiação, e, nos pessoa, ao mesmo tempo, naturais e meritórias.
outros, da exclusão. Nesses lugares santos da arte em que a O museu fornece a todos, como se tratasse de uma herança
sociedade burguesa deposita as relíquias herdadas de um passado pública, os monumentos de um esplendor passado, instrumentos
que não é o seu, palácios antigos ou grandes mansões históricas da glorificação suntuária dos grandes de outrora: liberalidade factícia,
aos quais o século XIX acrescentou edifícios imponentes, construídos já que a entrada franca é também entrada facultativa, reservada àqueles
quase sempre no estilo greco-romano dos santuários cívicos, tudo que, dotados da faculdade de se apropriarem das obras, têm o
contribui para indicar que, à semelhança da oposição entre sagrado privilégio de usar dessa liberdade e que, por conseguinte, se
e profano, o mundo da arte se opõe ao mundo da vida cotidiana: a encontram legitimados em seu privilégio, ou seja, na propriedade
intocabilidade dos objetos, o silêncio religioso imposto aos visitantes, dos meios de se apropriarem dos bens culturais ou, para falar como
o ascetismo puritano dos equipamentos, sempre raros e pouco Max Weber, no monopólio da manipulação dos bens de cultura e
confortáveis, a recusa quase sistemática de toda didática, a solenidade
grandiosa da decoração e do decorei, colunatas, amplas galerias, tetos dostnos institucionais da salvação cultural.
pintados, escadarias monumentais, tudo parece feito para lembrar
que a passagem do mundo profano para o mundo sagrado pressupõe,
como afirma Durkheim, "uma verdadeira metamorfose", uma
conversão radical das mentes; e que o estabelecimento de relações
entre os dois universos "é sempre, por si só, uma operação delicada
que exige precauções, assim como uma iniciação mais ou menos
complicada", além de ser "impossível sem que o profano perca seus
caracteres específicos, sem que ele próprio se torne, de alguma forma
e em certo grau, sagrado". 90 Se por seu caráter sagrado a obra de arte
exige disposições ou predisposições particulares, ela confere, em
retorno, sua consagração àqueles que satisfazem suas exigências, a
esses eleitos que, invocando a própria aptidão, se auto-elegeram
para responder ao seu apelo. Outorgar o poder à obra de arte, não só

169
168 o amor pela arle conclusão
"Problems in Installation in Museums of Art", in American

eJemenlos rk &(;Iioyrafia AssociatÍon of Museums, n° 14, 1935; e "Experimental Studies of


the Education of Children in a Museum of Science", in American
AssoCÍatÍon ofMuseums, n° 15, 1936.
_Porter, M. C. B., "Behaviour of the Average Visitor in the Peabody
Museum of the Natural History Yale University", in American
Association ofMuseums, n° 16, 1938.
_Kearns, W E., "Studies ofVisitor Behaviour of the Peabody Museum
of Natural History", in Museum News, voI. XVII, n° 14, 1940.
Não existe uma história geral dos museus. H. Landais chegou _UNESCO, "Records of the General Conference 9 th. Session New
a enviar-nos um de seus cursos inéditos, ministrados na Feole du Delhi", 1956, Anexo A, Paris, UNESCO, 1957.
Louvre, do qual tiramos algumas informações. Além disso, poderíamos _Monzon, A., "Bases para incrementar el publico que visita el Museo
consultar com proveito os resumos históricos que, habitualmente, Nacional de Antropologia", in Annales deI Instituto NaCÍonal de
figuram como introdução dos catálogos dos museus de província. Antropologia y Historia, tomo VI, n° 35, 1952.
Para fazermos uma idéia geral sobre os museus, poderíamos _ Van Der Hoek, G. J., "Bezoekers bekeken, Mededilingen", in
consultar as obras de LucBenoist, Musée et muséologie (col. Que sais-je? Gemeentemuseum Um Der Haag, voI. 2, n° 2,1956.
n° 204) e de Georges Poisson, Les Musées de Franee (col. Que sais-je?n° _ Pesquisa do I. C. O. M. (International Council of Museum),
447), assim como o Répertoiredesmusées deFraneeetdela CommW1auté, UNESCO, C. U. A., 87, abril de 1953.
por G. Barnaud (Institut pédagogique national, ed. Paris, 1959). Poderemos ler também:
Não existe estudo científico de conjunto sobre o público de _ Svenska Museer, n° 3, 1952; n° 3, 1953; n° 3-4, 1954; n° 1, 1955;
museus; trabalhos particulares foram realizados, na maior parte das
n° 2, 1956.
vezes, por conservadores de museus.
_ Bigman, S. K., "Art Exhibit Audiences", in The Museologist, 1°
O Centro de Documentação da UNESCO possui uma 59-60,1956.
Bibliographie chronologique des enquêtes sur les visiteurs des musées,
_Zetterberg, H. L., Social Theory and SOCÍalPraetice,The Bedminster
organizada por F.de Borhegyi e Irene A. Hanson do Milwaukee Public
Press ed., N. Y., 1962.
Museum, em 1964, que constitui uma excelente referência. Entre
Para conhecer os problemas levantados, atualmente, pelos
todos os artigos citados, chamamos a atenção em particular para:
conservadores de museu em matéria de difusão cultural, poderemos
- Fechner, G. T., Vorsehule der /Esthetik, Leipzig, 1897.
consultar os relatórios dos Colóquios do L C. O. M. Oapão, em
- Coleman, L. V., "Public Relations Attendance", in American 1961; México, em 1962; Essen, em 1963; Paris, em 1964), assim
Association of Museums, voI. 2. como a coleção da revista Museum e, no que diz respeito à França,
- Robinson, E. S., "The Behaviour ofMuseum Visitors", in American a revista 1l1usées et eolleetÍons publiques de Franee.
Association ofMuseums, n° 5, 1928. Finalmente, encontraremos em Museum and Young People (L
- Melton, A. N., "Distribution of Attention in Galleries ofMúseums C. O. M., 1952), uma bibliografia organizada porG. Cart, M. Harmisson
ofScience and Industry", in Museums News, voI. XVII, 1° 14, 1936. e C. R. Russel sobre o problema do museu como meio de educação.

229
228 o amor pela arle elemenlos ck bibliografia
exemplo, como a vista do Museu de Bourg-en-Bresse estava acoplada com a do

no/as e reftrências claustro contíguo da igreja de Brou, as estatísticas oficiais não levam em consideração
a circunstância de que somente uma reduzida parcela dos visitantes da igreja penetra,
efetivamente, nas salas do museu.
biblio!fráficas 15 G. Barnaud, Répertoire des musées de France et de la Communauté,
lnstitut pédagogique national, ed., 1959.
Paris,

16 No Apêndice 1, encontrar-se-á uma exposição mais sistemática e detalhada da


construção da amostra.
17 Como o Castello Sforzesco e a Pinacoteca de La Brera de Milão não podem ser

considerados como representativos dos museus italianos, a análise das observações


coletadas nesses museus serviu apenas para identificar determinadas indicações
sobre as atitudes e preferências do público italiano.
] P Francastel, "Problemes de Ia sociologie de l'art" , in G. Gurvitch, Traité de ]8 Os mesmos procedimentos de amostragem no decorrer do tempo foram utilizados
sociologie, Paris, PU.E, 1960, t. 11,p. 279. Foi a preocupação com a autentificação na Grécia e na Holanda, com a diferença de que foram selecionadas as férias de
que, exclusivamente, nos levou a mencionar as referências dos textos que, entre o verão, em vez das férias de Páscoa. Em relação à Polônia, esse problema não se
grande número de estudos com a mesma inspiração, escolhemos como levantava em virtude da reduzida importância do fluxo turístico; por sua vez, na
particularmente significativos.
Espanha, como as sondagens foram efetuadas apenas durante as férias de verão, a
2 Pascal, Pensées, passim. amostra é afetada por um importante viés.

3 Avant-projet de programme pour le musée du xxe sifxle, mimeog., p. 5; d. 19 Cf. W. E de Ia Vega, Analyse Jactorielle des données d'enquête sur la fréquentation

também, P. Gazzola, in Musées et collections publiques de France, abril-junho de des musées, Centre de calcul de Ia Maison des sciences de I'homme, nota interna de
1961, p. 84-85: "É somente na 'neutralidade' que as obras expostas podem desdobrar 14 de junho de 1965/ ODD, 5 p. mimeog.
livremente sua significação expressiva. E é também essa atmosfera - a qual deve 20 Como as principais etapas e o coroamento dos diferentes raciocínios matemáticos
ser automaticamente abstrata até tornar-se impessoal, mas, ao mesmo tempo, ser são sempre retomados em linguagem comum, os leitores poderão pular esses
escrupulosamente consumada, a fim de abster-se de qualquer sugestão possível _ trechos sem perderem o fio desta exposição.
que cria as condições psicológicas ideais para o visitante." Cf. ainda M. Nicole in
2] Como todas as leis estabelecidas a propósito do público dos museus de arte
"Musées", Les Càhiers de la république des lettres, des sciences et des arts, XIII, p.
141: "Já assinalamos o inconveniente dos cursos públicos e das explicações franceses foram confirmadas pelas sondagens efetuadas nos outros países europeus,
forneci das nas salas de exposição, assim como das visitas acompanhadas, cujo qualquer proposição defendida sem outra precisão ou ilustrada unicamente pelo
ruído perturba, de forma tão desagradável, os trabalhadores pacíficos." exemplo francês poderá ser considerada válida para o conjunto dos países estudados.
Para evitar o acúmulo fastidioso de números, só foram consignadas, em relação aos
4 UNESCO, CUA/87, p. 4.
outros países europeus, as ilustrações particularmente significativas (assim, no
5 E. Panofsky, "I;abbé Suger de Saint-Denis", in Architecture gothique et pensée Apêndice 5, será possível encontrar os principais dados estatísticos que dizem
scolastique, trad. e Posfácio de P Bourdieu, Paris, Ed. de Minuit, 1967, p. 30. respeito aos museus europeus).
6 G. Salles, Le Regarei, 1939, citado por G. Wildenstein, in Supplément à la Gazette 22 ° número dos visitantes masculinos que responderam ao questionário é
des Beaux-Arts, n° 1110-1111, julho-agosto de 1965. ligeiramente superior ao dos visitantes do sexo feminino, sem dúvida porque, em
razão da masculinidade das tradições familiares, o marido é estatutariamente
7 A. Lhote, in Les Cahiers de la république des lettres, des sciences et des atts, XIII,p. 273. considerado, sobretudo, nas classes populares, como o mais digno para formular
8 G. Douassain, in Les Cahiers, loc. cit., p. 368. um julgamento em matéria de estética erudita e porque, freqüentemente, as mulheres
9 G. Swarzenski, in Les Cahiers, loc. cit., p. 153. recusaram-se a responder ao questionário quando o marido era entrevistado ("ele
sabe melhor do que eu"). A Exposição Dinamarquesa, exibida em Lille, constitui
10 R. Huyghe, Dialogue avec le visible, Paris, Flammarion, 1955, p. 8. uma exceção: se as mulheres deixam ao marido, naturalmente, o monopólio dos
11 G. Salles, in Musées et collections publiques de France, julho-setembro de 1956, julgamentos "intelectuais", é compreensível que, na qualidade de detentoras
p. 138 e 139. estatutárias do exercício cotidiano do julgamento de gosto, elas forneçam de forma
mais natural sua opinião sobre as obras que pertencem à ordem dos objetos familiares
12 G. Pascal, in Les Cahiers, loc. cit., p. 117.
e da decoração doméstica, tais como móveis e cerâmicas.
13 UNESCO, CUN87, p. 16.
23 Entre eles, 41 % afirmam ter estudado latim, contra 20,5% somente dos quadros

14 Os próprios dados da sondagem permitiram justificar aparentes exceções: por médios e 22% dos professores primários.

230 231
o amor pela arle no/as e rejéri?ncias biblIográficas
24 Com efeito, afirmar que a taxa anual de visitas é, para determinada categoria 31 A Polônia apresenta algumas exceções às leis gerais que associam a freqüentação
estatística, igual a 10%, eqüivale a afirmar que será necessário dez anos, em média, do museu a uma familiarização precoce, aliás, garantida pela família com uma
para que um indivíduo dessa categoria venha a visitar um museu.
freqüência tanto maior, quanto mais se sobe na hierarquia social: a parcela dos
25 Para evítarmos comprometer o sucesso da sondagem principal, propondo questões
visitantes que devem à Escola sua primeira visita é, nesse país, praticamente igual
diretas demais sobre o número de visitas anteriores a um museu, decidimos, por à parcela daqueles que a ficam devendo à família [cf. Apêndice 5, Tabela 5].
um lado, entrevistar os visitantes em relação ao número de visitas anteriores ao 32 Por insuficiência de dados estatisticos, o estudo do público espanhol deve basear-
museu em que se encontravam nesse instante, e, por outro, pedir-lhes para citar o se somente na análise da composição do público de um certo número de museus,
nome dos três últimos museus que tinham visitado (d. questionários I e II, questões de modo que as proposições extraídas dessas observações não podem ser
I e IX). Além disso, a sondagem de verificação formulava, sob três formas diferentes, consideradas válidas para o público do conjunto dos museus espanhóis. É claro que
a questão direta sobre o número de visitas anteriores a um museu, seja ele qual for. a proporção de mulheres é mais reduzida no público nacional espanhol do que no
No entanto, a imprecisão da lembrança, particularmente forte no caso de uma público nacional francês ou do que no público dos turistas (35% de mulheres
atividade libertada dos ritmos sociais, e a tendência para sobreavaliar a prática real contra 50% na França). Se já é conhecido que, na Espanha, a população feminina é
que se observa, comumente, em toda sondagem sobre as práticas culturais, tendem menos escolarizada do que a população masculina e que as taxas de escolarização
a comprometer a qualidade da informação coletada. O número declarado de museus da Espanha são, em todos os níveis, inferiores às da França, pode-se determinar que
precedentemente visitados apareceu, no decorrer da análise, como o melhor indicador o nível de oferta dos museus espanhóis é, na maior parte do tempo, menos elevado
do ritmo da prática [cf. Apêndic(! 2, Tabelas 7 e 8].
e mais disperso do que o dos museus franceses. Assím, o público com nível
26 É evidente, por último, que tal cálculo não permite excluir a hipótese de que superior ou igual ao vestíbular corresponde a 57% no Museu de Arte Moderna, 56%
possam existir várias subpopulações para as quais a!, a2, a3, etc., fossem distintos, no Museu de Picasso e do Prado, 46% no Museu do Povo Espanhol e 43% no Museu
embora de uma ordem de grandeza comparável, o que eqüivaleria a afirmar que _ de Arte Catalã, museu de folclore, enquanto a média desse público nos museus
franceses está acima de 60%.
pela atuação diferenciada de diversos fatores secundários (conjuntamente com o
fator principal) sobre as diferentes subpopulações - os fenômenos observados 33 Em relação a este país, o modo de atribuição dos diplomas faz com que o número de
seriam, em estrita lógica, aleatórios.
indivíduos desprovidos de certificado escolar é muito mais elevado do que alhures, o
27 "Premiers résultats de l'enquête sur les vacances des Français en 1964", in Études que deve implicar uma superavaliação dos radosdo nível secundário; a taxa reduzidíssima
et conjonctures, suplemento n° 4, 1965. do nível secundário, na Polônia, tem a ver com uma diferença de definição.
34 O número mais elevado de visitantes gregos e poloneses que, em nível de instrução
28 Em todos os países, a estrutura social do público dos visitantes estrangeiros é
mais elevada do que a dos visitantes nacionais. Assim, entre os visitantes franceses equivalente, citam três museus precedentemente visitados deve-se ao fato de que,
entrevistados, em agosto, no Museu Picasso de Barcelona (cujo nível de oferta é, segundo parece, eles são mais cuidadosos em responder com precisão a uma
mais ou menos, elevado), conta-se 1% de visitantes das classes populares, 3,5% de pergunta que pode parecer ingênua ou desprovida de interesse aos visitantes dos
artesãos e comerciantes, 18% de quadros médios, 7% de escolares, 31 % de países de velha cultura, e também ao fato de que, talvez, sintam o dever de afirmar,
estudantes, 23% de quadros superiores e 16,5% de professores e de especialistas com uma prática mais assídua, um fervor que não é amparado e transmitido por
de arte. Basta comparar essa distribuição com a do conjunto dos museus franceses uma verdadeira tradição cultural.
para verificar que, por si só, o turismo não afeta as regularidades habitualmente 35 Para determinar aproximadamente os níveis relativos do capital cultural nacional
constatadas entre a classe social e a prática cultural.
dos diferentes países estudados, poderíamos considerar, por um lado, o número, a
29 Em relação ao nível de informação (ou nível de oferta) e o nível de recepção (ou
qualidade e a diversidade das obras expostas nos museus, a antigüidade de sua
nível de demanda), ver iniTa, Terceira Parte. aquisição, a importância do capital artístico acumulado pelas classes privilegiadas
sob a forma de coleções privadas, a importância relativa das doações nas coleções
30 Tudo parece indicar que as leis que regem a freqüentação dos museus são válidas
públicas, etc., e, por outro lado, indicadores da intensidade do esforço educativo (e
também para as outras práticas culturais, embora a ação dos fatores secundários
de sua evolução no decorrer do tempo), tais como a taxa de escolarização no ensino
(por exemplo, a residência ou a renda) possa afetar a relação fundamental entre o
secundário e superior (e sua taxa de crescimento). Aqui, bastará indicar que, avaliada
nível de instrução e cada uma das práticas consideradas. Assim, uma sondagem pela taxa de escolarização da faixa etária de quinze a vinte e quatro anos, a hierarquia
realizada pelo IFOp,* em 1966-1967 (La ClienteJ(! du livre, Syndicat national des dos países estudados coincide com a que é obtida dos indicadores de atitude; neste
éditeurs, 1967) mostra que a compra de livros e a leitura dependem estreitamente
caso, a exceção da Polônia é mais aparente do que real já que sua taxa de escolarização,
do nível de instrução e decrescem consideravelmente com a idade. Além disso, pela praticamente equivalente à da Holanda, só foi atingida ao termo de um crescimento
sondagem, sabe-se que a freqüentação do teatro e dos concertos está bastante
rápido e recente. Além disso, sabe-se que a Holanda é, de todos os países europeus,
fortemente associada à freqüentação do museu (d. iniTa, p. 101-102).
o que parece reservar um espaço mais importante para o ensino artístico. Ainda
outro aspecto: por estudo comparativo, seria necessário estabelecer as relações
* Sigla de Institut iTançais d'opinion publique, organismo de sondagens criado, em
entre o capital artístico e o capital educativo nos diferentes países, o que permitiria
1938, pelo psicossociólogo francês, Jean Stoetzel (1910-1987). (N.T.)
dar uma forma operatória a noções da sociologia espontânea, tais como as de

232
o amor pela arle nolas e referências bibliográficas 233
"países de velha cultura" ou de "país novo". Seria também adotar o meio de determinar 44 Encontrar-se-á uma exposição sistemática desses princípios in P. Bourdieu,
as relações que, em cada pais, estabelecem-se entre a oferta e a demanda culturais "Eléments pour une théorie sociologique de Ia perception artistique", in Revue
e, talvez, os mecanismo de transmissão cultural (entre os quais convém contar internationale des sciences sociales, vaI. XX (1968), n° 4.
com as tomadas de empréstimo a outras tradições culturais) que tendem a garantir, 45 E. Panofsky,"Uber das Verhiiltnis der Kunstgeschichte zur Kunsttheorie", in Zeitschrift
no decorrer da história, determinado nível de equilíbrio entre oferta e demanda: do iiir /Esthetik und allgemeine Kunstwissenschaft, XVIII, 1925, p. 129 ss.
mesmo modo que a constituição de um patrimônio artístico pressupõe um certo
grau de competência artística, assim também a aquisição de uin certo grau de 46 E. Panofsky, "Zum Problem der Beschreibung und Inhaltsdeutung von Werken
competência artística pressupõe um patrimônio prévio, de maneira que o capital der bildenden Kunst", in Logos, XXI, 1932, p. 103 ss. É evidente que, segundo o
cultural nacional designa o resultado, acumulado pelas gerações sucessivas, da tipo de objeto e a situação social e cultural do sujeito perceptor, o saber cultural que
interação de uma oferta com uma demanda. condiciona a familiaridade é mais ou menos controlado.

36 Vimos que, no essencial, há coincidência entre as diferentes hierarquias dos 47 E. Panofsky, "Zum Problem der Beschreibung und Inhaltsdeutung von Werken
museus: a que é sugerida pelos guias turísticos, a que é avaliada pelo número anual der bildenden Kunst", loco cito
de visitas e a que é estabeleci da pelos Conservadores (d. p. 25-26). 48 E. Panofsky, "Uber das Verhâltnis der Kunstgeschichte zur Kunsttheorie", loCocito
37 Segue-se que a melhor avaliaçãodas preferências reais - que podem deixar de coincidir 49 E. Panofsky, "Zum Problem der Beschreibung und Inhaltsdeutung von Werken
com os "gostos" declarados - seria fornecida pelo cálculo (longo e difícil, portanto, der bildenden Kunst", loco cito
dispendioso) do tempo dedicado pelos visitantes a diferentes obras de um museu.
50 N. S. Troubetzkoy, Principes de phonologie, Paris, Klincksieck, 1957, p. 56; ver,
38 Melhor do que nas opiniões diante das obras de cultura erudita - por exemplo, também, p. 66-67.
pinturas e esculturas - que, por seu elevado grau de legitimidade, são capazes de
51 Por uma série de experiências, Colin Thompson mostrou que, apesar de ser
impor julgamentos inspirados pela busca da conformidade, é na produção fotográfica
e nos julgamentos a respeito das imagens fotográficas que se revelam os princípios enquadrada por uma instrução expressa, a apreensão das cores em si e por elas
mesmas é extremamente rara (mesmo entre os adolescentes no final dos estudos
do "gosto popular" (d. P. Bourdieu, Vn Art moyen, Essa! sur les usages sociaux de
la photographie, Paris, Ed. de Minuit, 1965, p. 113-134). secumjários); com efeito, a atenção dos espectadores fixa-se, sobretudo, nos aspectos
narrativos ou acessórios da imagem (C. Thompson, Response to Coloar, Corsham,
39 Nesta relação, pelo menos, a decifração de uma obra pictural obedece a uma Research Center in Art Education, 1965).
lógica semelhante à da decifração de uma mensagem qualquer. Ao comentar a
52 Cf. E. Kant, Anthropologie du point de vue pragmatique, trad. M. Foucault,
fórmula de Saussure segundo a qual "na língua, existem apenas diferenças" (Cours
Paris, Vrin, 1964, p. 100.
de linguistique générale, Paris, Payot, 1960, p. 166), Buyssens estabelece que, tanto
no plano semântico quanto no plano fonológico, a identificação das diferenças 53 Na Polônia, a parcela daqueles que escolhem o conferencista corresponde a
pressupõe a referência implícita às semelhanças de som ou de sentido (Cahiers 31 % para as classes populares, 26% para as classes médias e 14% para as classes
Ferdinand de Saussure, VIII, 1949, p. 37-60). superiores, enquanto 23%, 29% e 35,5% das mesmas classes desejam,
40 R. Longhi, citado por A. Berne-Joffroy, Le Dossier Caravage, Paris, Ed. de Minuit,
preferencialmente, fazer a visita em companhia de um amigo competente. Na
Grécia, 33% dos visitantes oriundos das classes populares, 27% das classes
1959, p. 100-1Ol.
médias e 31 % das classes superiores preferem uma visita guiada por um
41 A. Berne-Joffroy, Le Dossier Caravage, op. cit., p. 9. Conviria examinar conferencista, contra 17%, 40% e 46% que preferem recorrer a um amigo.
sistematicamente a relação que se estabelece entre a transformação dos instrumentos Finalmente, na Holanda, em que o capital cultural é mais elevado, todas as classes
de percepção e a transformação dos instrumentos de produção artística, sabendo-se escolhem o amigo, preferencialmente, ao conferencista; essa diferença é tanto
que a evolução da imagem pública das obras passadas está indissociavelmente associada mais marcante quanto mais elevado for o nível de instrução (ou seja, de 1 a 1,3
à evolução da arte. Como observa Lionello Venturi, Vasari descobre Giotto a partir de para as classes populares, 1 a 6 para as classes médias e de 1 a 5 para as classes
Michelangelo; por sua vez, Belloni repensa Rafael a partir de Carracci e de Poussin. superiores) [d. Apêndice 5, Tabela 5].
42 É evidente que o nível de emissão não pode ser definido de maneira absoluta pelo
54 "O público médio, escrevem Charpentreau e Kaes, não tem nenhum desejo de
fato de que a mesma obra pode fornecer significações de níveis diferentes segundo receber uma 'educação'. Com ou sem razão, desconfia de tudo o que lhe faz lembrar
a grade de interpretação que lhe é aplicada, além de poder satisfazer, por exemplo, a escola porque pretende ser tratado como adulto" (La Culture popula!re en France,
o interesse por um detalhe secundário ou pelo conteúdo informativo (em particular, Paris; Les Éditions ouvrieres, 1962, p. 122).
histórico) ou chamar a atenção unicamente por suas propriedades formais.
55 Em um artigo intitulado "Das Problem des Stils in der bildenden Kunst" (in
43Eis o que é válido para qualquer formação cultural, forma artística, teoria científica ZeÍtschrift für /Esthetik und allgemeine Kunstwissenschaft, X, 1915) e dedicado às
ou teoria política, na medida em que os habitus antigos podem sobreviver, durante teorias gerais de Heinrich W61fflin sobre o estilo nas artes figurativas, Erwin Panofsky
muito tempo, a uma revolução dos códigos sociais e, até mesmo, das condições coloca em evidência a ambigüidade fundamental dos conceitos w61fflinianos de
sociais de produção desses códigos. "ver", "olho" e "óptica", utilizados comumente em dois sentidos diferentes que, "na

234 235
o amor pela ar/e no/as e rejérências bibliográficas
lógica de uma pesquisa de ordem metodológica, devem naturalmente ser 61 Verificadas por diferentes observações anteriores (ver, em particular, P.Bourdieu
rigorosamente distinguidos". No sentido estrito do termo, o olho é o órgão da visão e J.-c. Passeron, Les Étudiants et leurs études, Paris, Mouton, 1964 e P.Bourdieu et
e, nesta qualidade, "não desempenha nenhum papel na constituição de um estilo". al., Un Art moyen, op. cit.), estas proposições são confirmadas e bem delimitadas
No sentido figurado, o "olho" (ou a "atitude óptica") só poderia ser, com todo o rigor, pelos resultados de uma pesquisa, cuja análise se encontra atualmente em curso,
"uma atitude psíquica em relação a dados ópticos"; assim, "a relação do olho com o sobre as variações sociais do julgamento de gosto.
mundo" é, na realidade, "uma relação da mente com o mundo do olho". 62 Embora os ritmos declarados sejam, evidentemente, subjetivos e superavaliados,
56 Em todos os países, a parcela daqueles que declaram ter vindo ao museu para ver existem condições para proceder ao cálculo dos coeficientes de correlação
as obras de arte mais prestigiosas - pintura e escultura - aumenta na mesma (fornecidos, aqui, a título indicativo),
proporção em que se eleva o nível de instrução; por sua vez, a parcela daqueles que
63 O exemplo da Polônia mostra perfeitamente que o grau de sucesso de uma
vieram ver os objetos históricos e de folclore varia em sentido oposto. Na Holanda,
política de ação cultural não depende somente da eficácia da ação escolar, mas
a parcela dos amadores de pintura e escultura passa de 59% relativamente às
também da importância do capital cultural transmitido por outras vias.
classes populares para 7l % das classes médias e para 76% das classes superiores,
enquanto a parcela dos visitantes que se interessam pelos objetos históricos e de 64 As mesmas observações são válidas para o conhecimento da música, do
folclore passa de 19% para 12% e 9%. Do mesmo modo, na Polônia, 36%, 57%, cinema e do jazz (cf. P. Bourdieu e J.-c. Passeron, Les Héritiers, Paris, Ed. de
71% dos visitantes de cada uma dessas classes mencionam pintura e escultura. Na Minuit, p. 164-170).
Grécia, a parcela dos visitantes que vieram ver escultura passa de 12% relativamente 65 Assim, David Riesmann afirma que obras populares idênticas são utilizadas
às classes médias para 19% das classes superiores, enquanto aqueles que se interessam
por públicos diferentes de maneira bastante diferente e com finalidades diferentes
pelo folclore constituem 48% e 39% dessas classes. Portanto, ainda aqui, observa- (D. Riesmann, "Listening to Popular Music" , in IndivÍdualism Reconsidered,
se uma relação entre o capital cultural dos diferentes paises e as atitudes de seu Glencoe, 1954).
público [Cf. Apêndice 5, TaSela 8].
66 J. Schumpeter, The Sociology of Imperialism, traduzido do alemão por Heint
57 R Boas, Anthropologyand Modern Ük, Nova York,W W Norton and co, 1962, p. 196. Norden, Nova York, Meridian Books, 1951, p. 39-40.
58 Na França, pelo menos, a realidade está, geralmente, muito afastada das definições
67 Os estudos de sociologia eleitoral mostraram que as "influências" pessoais
forneci das pelos textos oficiais. Os programas prevêem, no ensino primário, a desempenham um papel bastante importante nas escolhas eleitorais e que elas
obrigatoriedade de uma hora e meia de desenho e trabalhos manuais, garantida nas mediatizam e intermedeiam a influência dos meios modernos de comunicação (cf.
grandes cidades por professores com formação especializada e, nas outras cidades, Bernard Berelson, Paul F. Lazarsfeld and William Me Phee, Voting, Chicago, 1954;
por professores sem qualificação específica. Os programas oficiais não indicam o Paul F. Lazarsfeld, Bernard Berelson and Hazel Gaudet, The People's Choice, Nova
espaço preciso a ser reservado à história da arte que está incluída no ensino da York, 1944; Elihu Katz and Paul F. Lazarsfeld, Personal Influence, Glencoe, 1955).
história. O desenho é ensinado à razão de uma hora por semana, durante os primeiros O papel dos "styles leaders' é indicado no estudo de Bernard Berelson e Lyle S.
cinco anos do ensino secundário e, em seguida, é facultativo. Em relação aos -tODel, "Fashion in Women's Clothes and the American Social System", in Social
programas em outros países, podemos consultar: I:Enseignement des arts plastiques Forces, vaI. 31, dez. de 1952, p. 124-131. A analogia - sugerida, aqui - entre os
dans les écoles primaires et secondaires, publicação do Departamento Internacional "opinion leaders" e os "style leaders' não deve induzir a esperar que estes últimos
de Educação, n° 164, UNESCO. desempenhem um papel de incitação semelhante àquele que se atribui comumente
59 A transmissão escolar desempenha sempre uma função de legitimação, nem que aos primeiros: de fato, sua influência - mais identificada com controle, em vez de
fosse pela consagração que confere às obras constituídas por ela, ao transmiti-Ias, incitação _ depende, como toda informação, da receptividade de quem é atingido
como dignas de ser admiradas; por conseguinte, contribui para definir a hierarquia por ela e, em razão da homogeneidade social das redes de relações interpessoais,
dos bens culturais válida em determinada sociedade, em determinado momento do tende a fortalecer as atitudes, confirmando as opiniões individuais.
tempo (sobre a hierarquia dos bens culturais e os graus de legitimidade, ver P. 68 Mais adiante (p. 159), serão apresentadas outras implicações relativas a este modelo.
Bourdieu et aL, Un Art moyen, op. cit., p. 134-138).
69 À semelhança do que se passa com o turismo, a exposição não pode fazer
60 Sem dúvida, as diferenças seriam mais marcantes se, nos países cujo capital visitantes assíduos. Assim, a pesquisa realizada em 1953 e 1954 no
cultural é mais elevado, os quadros superiores (mais do que os especialistas de arte Gemeentemuseum de Haia tinha mostrado que uma exposição consagrada ao
que se servem do guia ou catálogo como instrumentos de trabalho) não estivessem Vaticano havia atraído uma multidão de visitantes católicos que, posteriormente,
inclinados a recusar a utilização do guia ou declarar que o utilizavam com receio de nunca mais voltaram ao museu (G. J. Van Der Hoek, "Bezoekers Bekeken", in
manifestar atitudes "escolares" ou, pior ainda, "turísticas". As condutas que, tais Medelelingen Gemeentemuseum van der Haag, vol. 2, n° 2).
como estas, pressupõem a consideração, mais inconsciente do que consciente, do
70 Chegou-se mesmo a constatar, no Museu de Toronto, o seguinte: durante as
rendimento simbólico da prática e, precisamente, das distinções entre tipos ou
modalidades diferentes da prática, são, se é que se pode falar assim, reservadas às exposições, a composição do público permaneceu semelhante à afluência registrada
classes privilegiadas dos países dotados de um imenso capital cultural. no período normal de funcionamento, até mesmo por ocasião de uma exposição

237
236 o amor pela arfe nofas e rejérências bibliográficas
que foi "an important part of the program to build a new audience to the Metropolitan sem dúvida também porque, aos simples amadores, ela deu o sentimento de que
Totonto Area" (The Museoiogist, n° 80, set. de 61, p. 11-16). iam penetrar nos arcanos da arte.
79 Agradecemos ajo Dumazedier por nos ter comunicado a descrição da experiência
71 Depoimento relatado pelo Conservador de Bourges, no decorrer da jornada de
estudos (21 de maio de 1965) da "Association générale des conservateurs des e os resultados da pesquisa.
collections publiques de France". 80 Do mesmo modo, menos de 1% dos visitantes da exposição do museu de
72 A "Société des Amis du Louvre" foi fundada em 1897; a proposta de seus Toronto afirmaram ter visto, previamente, os cartazes afixados na cidade (The
fundadores consistia em "convocar o público para contribuir em prol do Museoiogist, Rochester, n° 80, setem))[o de 1961, p. 11-16).
enriquecimento do Louvre". Em 1922, a Sociedade já contava com 3.000 membros; 81 Cf. "Une enquête par sondage sur l'écoute radiophonique en France", in Etudes
até essa data, havia contribuído com mais de um milhão de francos, além de um et conjoncture, outubro de 1963.
grande número de doações de quadros.
82 A pesquisa de lFOP, já citada, mostra que, em cem compras de livros, três foram
73 Vamos limitar-nos a citar um só exemplo, tomado de empréstimo a um passado inspiradas por programas de televisão e uma por programas de rádio.
antigo: no dia 15 de janeiro de 1856, Sauvageot (que teria servido de modelo a
83 M. e R. Fichelet, Maisons de ia cuiture et déveioppement économique: Caen,
Balzac para o romance OprÍmo Pons) doou sua coleção ao Museu do Louvre; no dia
mimeografado, 1965, capo I, p. 12.
4 de março, do mesmo ano, ele foi nomeado Conservador com o privilégio de
residir nas dependências do museu. 84 S. de Schonen e E. Matalon, Une Enquête par sondage sur ia Iréquentation de ia
Maison de ia culture de Bourges, mimeografado (Comité national pour un
74 Rapport sur ies dipiômés d'Études supéâeures de l'Écoie du Louvre,
mimeografado, 1961. aménagement des temps de travail et des temps de loisir), 1965. Um estudo
estatístico a partir de 23.715 cotistas da MJC de Grenoble mostra que, em julho
75 E do mesmo modo, a mais impessoal análise sociológica expõe-se a aparecer de 1968 (três meses depois de sua abertura), o público incluía 38,7% de estudantes
como distribuição parcial de repreensões e de elogios. e aprendizes, 10,8% de professores, 31 % de empregados, quadros médios e artesãos,
76 Ao opor a idéia do museu moderno à coleção, Penguilly-I'Haridon sugere o que 3,8% de representantes das profissões liberais e de quadros superiores, contra
deveria estabelecer a separação entre o conservador de museu e o colecionador: '1\ 9,7% de operários e contramestres, e 0,1 % de agricultores (cf. "Nos adhérents, qui
idéia de um museu, tal como o 'Musée d'Artillerie', é uma idéia moderna. A sont-ils?", in Rouge et Noir, n° 1, julho de 1968, p. 1).
finalidade perseguida na organização de um estabelecimento desta natureza consiste 85 Vamos encontrar um exemplo típico de tal ideologia no livro de Jacques Charpentreau

em fazer sobressair um ensino de uma seqüência de objetos reunidos e agrupados e René Kaes, La Cuiture popuiaire em France (Paris, Éditions Ouvrieres, 1962).
segundo uma classificação refletida e metódica, além de colocar à disposição do Assim, a propósito do projeto Billieres, estes autores escrevem: "O projeto Billieres
público um meio fácil e sério de instrução. O ensino colocado, assim, ao alcance de
.. ~forma a escola no eixo central da obra de educação permanente; essa é uma de
todo o mundo encaixa-se nas idéias de nosso tempo. Convém evitar a confusão ···suas fraquezas. Por razões psicológicas, é difícil conceber que, por um retorno à
entre uma coleção e um museu. A coleção é a reunião de um certo número de peças Escola, a França inteira venha a reencontrar uma vida cultural. A cultura vive-se,
interessantes por um motivo qualquer, agrupadas, quase sempre, sem grande ordem experimenta-se, cria-se; ela não 'se aprende nos bancos de uma escola'" (p. 145).
e impressionando a vista, seja por uma especialidade curiosa, seja pelas riquezas da
86 Relatório datilografado, fevereiro de 1965.
arte e do material utilizado. Em cada uma das séries que o compõem, um museu
como aquele que é objeto de nossa abordagem deve procurar as origens mais 87 Ainda conviria pressupor que uma parcela dessas moças tenha obedecido à
longínquas; estabelecer a ordem cronológica nos objetos que formam tais séries, preocupação de fornecer a "resposta correta" a uma pesquisa que, realizada na
colocando em destaque as peças interessantes pela nitidez de seu caráter e de seu escola responsável pelo programa de visitas, foi percebida, por isso mesmo, como
valor histórico, pela beleza de seu trabalho; e apresentar uma organização do conjunto um controle dos resultados de tal operação.
que possa impressionar o espírito sem grande esforço, transmitindo-lhe alguns 88 Cf. H. Landais, Musées et collections publiques de France, 1965, n° l.
conhecimentos novos, daí em diante, adquiridos em seu proveito." (Penguilly-
I'Haridon, "Le Musée d'Artillerie", in Paris GuMe, par ies prÍnâpaux écrÍvaÍns et 89 Cf. P. Bourdieu et aI, Un Art moyen, primeira parte, capo II, p. 113-134.
artistes de ia France, 1e" partie, Paris, 1867, p. 478). 90E. Durkheim, Les Formes éiémentaires de ia vie reiigieuse, Paris P.U.E, 1960, 6"
77 Vamos encontrar um estudo sistemático do papel dos conservadores como ed., p. 55-56.
" taste makers' na obra de Raymonde Moulin, Le Marché de ia peÍnture en France, 91 Seja um diploma de ensino geral ou de ensino técnico: por exemplo, 1" parte do
essai de soâoiogie économique, Paris, Éditions de Minuit, 1967. vestibular, engenheiro de artes e ofícios, mestre em letras (filosofia).
78 É significativo que a divisão interior dos museus seja o tema predominante dos
Cahiers de ia répubJique des iettres, des sâences et des arts (XIII, "Musées", Paris,
s. d.). Se a decisão de expor uma parte das obras confinadas na reserva teve uma
grande repercussão no público (ela é citada, freqüentemente, nas entrevistas), é

239
238 o amor pela ar/e no/as e referências j;bj;oc;ráficas
elo fato de que a categoria mais representada, de informação que ela contém. Em seguida, porqu!
'blico de museus seja a dos detentores de um independentemente das aspirações que lhe fo
e estudos secundários; pelo fato também de que significação; neste caso, a boa vontade cultural
ão atingiram esse nível manifestem sua confusão instrutiva a contemplação de obras superior
nde número de índices, pode-se concluir que a Por falta de condições para criar a situ':
ecida pelos museus franceses corresponde _ permitiria comparar a estrutura do públiq
expressão - "ao nível do vestibular".
informações de níveis diferentes, embora estril
esar de possuir um grande valor operatório no pode-se tentar verificar, através da análise di!
rmite justificar a estrutura do público de museus, de museus que oferecem informações de
almente oferecida pelos museus permanece uma variações do nível da informação oferecida Si
I

mitantemente, o nível dessa informação. Além de variações na estrutura do público, distribuída ,I

useus oferece necessariamente uma informação escolar, e se o grau de homogeneidade do li


particular é definido, grosseiramente, pelo tipo, aspecto, corresponde ao grau de homogeneidal'
idade das obras apresentadas -, esse nível em si
Considerando que os níveis de informaç
ser definido pontualmente porque, salvo raras ser definidos pontualmente e que não s!
I
eúdo de um museu ou, até mesmo, de uma
linearmente, os museus sem ignorar as se!
é perfeitamente homogêneo: a maior parte dos
do fato de que cada um deles oferece um
'rios tipos de obras, desde objetos de folclore,
diferentes, pode-se, em um primeiro ri
ricas, mobiliário ou cerâmica, até pintura e
emissores - ou seja, os museus - e os
o, no âmbito de determinado tipo, justapõe obras
yisitantes - em dois níveis e admitir!
veis - por exemplo, impressionistas e abstratas _
mensagem será tanto maior quanto ma'
cultos" de nossas sociedades. A esse aspecto,
dos receptores, ou dito por outras
r que a mesma obra pode ser decifrada a partir de
adequadamente for efetuada a recepção ri
, à semelhança dos filmes de faroeste que podem
de emissão e de recepção forem idêntico
aceitação ingênua ou de uma leitura erudita, a
hierarquia, assim estabelecida, é con
pode ser recebida diferentemente por receptores
(aproximadamente) quando se adota
e, por exemplo, satisfazer o interesse em relação
instrução -, vemos que cada populaçãc!
lhe ou chamar a atenção exclusivamente por suas
curva de "demanda" (D) que represe
is. Vê-se assim, com toda a evidência, que o nível
população, segundo o nível de instru
pode ser definido pontualmente: em primeiro
distribuição dos indivíduos que a comp
empre em devir e porque cada percepção nova da
recepção; do mesmo modo, cada obr
ando as percepções ulteriores; assim, a percepção
caracterizada por um certo nível de info
a de reduzir a "originalidade" da obra (no sentido
graficamentepor uma vertical (O), cuja
ção) , ao assimilar uma parcela cada vez maior da

o amorpela arle Jéis ela chfusão cuRural