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O Fim do Período de Louvor

Rev. Charles Melo de Oliveira

A hinódia da igreja evangélica brasileira possui uma identidade muito interessante, tendo
em vista que recebemos rico repertório advindo das incursões missionárias em nosso país.

Os pioneiros missionários estrangeiros trouxeram consigo suas músicas, com destaque


para o mavioso trabalho de Sarah Pouton Kalley, esposa do pioneiro da Igreja Evangélica
Congregacional, Robert Reid Kalley. O trabalho destes pioneiros começou em 1855, com
sua chegada ao Brasil, mas foi somente seis anos mais tarde que Sarah Kalley compilou
50 hinos e salmos na primeira edição do "Salmos e Hinos", o qual foi utilizado pela
primeira vez em 17 de novembro de 1861. Também não pode ser deixado de mencionar o
trabalho de Henry Maxwell Wright, português, mas filho de ingleses, o qual auxiliou Moody
em uma campanha de evangelização na Inglaterra em 1874 e 1875, com intensa
contribuição musical. Wright conheceu o trabalho de Ira Sankey, o qual acompanhava
Moody nos Estados Unidos, e traduziu diversos hinos para o português (por exemplo,
"Louvores sem Fim" - 38 do Hinário Novo Cântico), introduzindo também em nossos
rincões um repertório mais popular, os chamados "corinhos".

Uma intensa transformação foi iniciada pelo surgimento de Vencedores Por Cristo e outros
grupos missionários que atuavam principalmente entre jovens, como Jovens da Verdade,
Novo Alvorecer e Som Maior. A transformação se deu por meio da divulgação de cânticos
populares traduzidos do inglês, como as composições de Ralph Carmichael ("Nas
Estrelas", por exemplo). Porém, o divisor de águas foi mesmo o lançamento do LP (long
play - o disco de vinil) "De Vento em Popa", em 1972. Este disco popularizou composições
dos próprios brasileiros, como Sérgio Pimenta, Guilherme Kerr, Artur Mendes e Aristeu Jr..
Até aí, tudo normal, pois vários compositores, como o Rev. Oscar Chaves, autor de "Só o
Poder de Deus" e "Eu Só Confio no Senhor", já deixavam sua contribuição. No entanto, as
composições gravadas no disco de Vencedores Por Cristo utilizavam estilos musicais que
não haviam nascido nos arraiais do evangelicalismo brasileiro. A bossa nova e o samba-
canção escandalizaram muitos crentes de diversas partes do país, os quais se
manifestaram através de cartas de protesto e acusações de mundanização através da
música. Mais tarde, o disco caiu no uso popular cristão e até hoje é lembrado e cantado
não somente pelos que eram jovens na década de 1970, mas também pelos que
receberam essas músicas como herança dos pais.
A partir de então, novos compositores surgiram por todo cenário nacional: Nelson
Bomilcar, João Alexandre, Jorge Rehder, Jorge Camargo, Lamartine Posella, Asaph
Borba, Edilson Botelho, Stênio Marcius, Adhemar de Campos, Jairinho, Paulo César,
Carlos Sider e muitos outros. Com o aumento do número de produções musicais
fonográficas provenientes de igrejas, comunidades evangélicas e novos grupos musicais
(Comunidade da Graça, Igreja Batista do Morumbi, Comunidade de Nilópolis, Goiânia,
Ministério Life, Grupo Logos, Igreja Bíblica da Paz, Ministério Diante do Trono e,
recentemente, Igrejas Vineyard, por exemplo), um crescente número de músicas
populares cristãs tem sido oferecido para uso da igreja brasileira. Muitas dessas músicas
são traduções do inglês provenientes de grupos como Maranatha Music, Hosana Music, e
de vários cantores e compositores estrangeiros, como David Quinlan, Bob Fitts, Michael
W. Smith, Steve Curtis Chapman e Ron Kenoly. Fato é que centenas, senão milhares de
músicas são disponibilizadas a cada ano. A tendência é que esta abundância de repertório
moderno devore as antigas opções, geralmente mais ricas poeticamente e mais profundas
teologicamente. A popularização das cifras musicais ainda influencia no crescente
abandono do repertório mais antigo, também mais erudito e que requer conhecimento
teórico musical para ser executado corretamente.

À medida que os cânticos mais populares se espalharam pelo país e passaram a com-por
o culto, a liturgia evangélica brasileira passou a carecer de uma definição: qual o lugar dos
hinos mais eruditos e dos cânticos mais populares?

Não cabe, obviamente julgar entre um e outro qual o melhor e mais apropriado, ape-nas
partindo da designação “hino” e “cântico”. Essa designação não qualifica a música como
boa ou ruim. Talvez seja interessante antes de continuar, definir melhor qual a diferença
entre hino e cântico. A diferença não está no nível de complexidade, na polifonia ou no
estilo, mas na permanência na hinódia. Os hinos de hoje eram os cânticos de antigamente.
Meu professor de Teologia do Culto, Rev. Fôlton Nogueira da Silva, certa vez sugeriu a
criação de um “semi-hinário”, uma pasta com canções populares que seria manipulada
mediante a retirada ou inclusão de músicas conforme a relevância e uso. As que
permanecessem por mais de 20 anos receberiam o status de “hino”. Então o melhor
critério para se exercer discernimento apropriado entre música boa e música ruim não é a
classificação como hino ou cântico, mas a boa relação entre impressão e expressão. A
impressão é o sentimento que a música transmite, a idéia que ela passa e como ela
prepara o ambiente. Isso só o instrumental já faz. A expressão tem a ver com a mensagem
que a letra da música transmite ou o texto que ela subsidia. A música boa é aquela que
tem estilo apropriado a cada ambiente ou ocasião (boa impressão) e que comunica a
verdade da Palavra de Deus (boa expressão). Note que esta regra se aplica a todas as
músicas em geral, mesmo as que não foram compostas por cristãos. Como não podemos
julgar se a música é boa ou ruim pela índole do compositor, mesmo porque não podemos
acessar seu coração, o critério justo e seguro é usar o crivo da Palavra de Deus. Assim, o
cristão deveria se ocupar em ouvir, não necessariamente apenas músicas compostas por
crentes, mas a música boa, independentemente de ser cantada ou executada por um
cristão (Fp 4.8; Tt 1.12). Afinal, toda verdade é de Deus, como disse João Calvino, o
reformador de Genebra.

Se não há necessidade de preferência de um em detrimento do outro, então o melhor a


fazer é simplesmente distribuir um e outro na liturgia pelo critério da função no momento
litúrgico. Mais especificamente, seria assim: como o cântico “Enquanto eu Calei” (Salmo
32) é apropriado para o momento de contrição, então deve ser usado assim como o hino
“Necessidade” (68 do HNC), por exemplo, indistintamente. Assim, o culto se torna mais
uniforme tematicamente e subserviente à pregação da Palavra de Deus. Mas, e o “período
de louvor”? Este momento, quando distinto no culto, é estranho, pois sugere uma liturgia
dentro da outra. Ainda mais quando o líder inicia o momento com o tradicional “boa noite”
ou “bom dia, irmãos”. Ali começou uma nova celebração. A ordem do culto perde o sentido
porque num único momento do culto, músicas de louvor, contrição, dedicação pessoal e
declaração de fé se entrelaçam sem qualquer lógica. Além disso, quando se pratica o
“período de louvor”, o critério para a escolha das músicas geralmente é o longo tempo sem
a música ser cantada ou então, a variedade estilística. “Vamos começar com uma
animada, depois passamos para essa mais lenta”. Percebeu como esse critério
empobrece o culto e o torna menos compreensível?

A adoção deste princípio de indistinção entre hinos e cânticos oferece muitas vantagens:
força os ministros a pensarem mais sobre o conteúdo das músicas do culto; torna o culto
mais inteligível; cessa a contenda sobre a preferência por um por outro; torna o culto mais
racional, porém vibrante e fervoroso; favorece a submissão dos musicistas; prepara os
ouvintes para a mensagem. No entanto, para que esta medida seja adotada, alguns
cuidados devem ser observados. Os músicos não podem ficar muito distantes do local
onde tocam seus instrumentos. A lacuna de tempo entre o anúncio do cântico e a
execução deste, até que todos empunhem seus instrumentos, é indesejável. É positivo
que os músicos tenham lugar fixo, como o coral da igreja. Também o pequeno sermão
antes de cada cântico ou hino se torna dispensável. Se houver necessidade de algum
comentário, o próprio pastor da igreja ou auxiliar litúrgico o poderá fazer de modo
apropriado. Também esta medida exige melhor comunicação entre o pastor e os músicos.
Os cânticos e hinos devem ser previamente escolhidos conforme o tema do culto, a
mensagem e o momento litúrgico.

Para encerrar, posto aqui uma sugestão de ordem litúrgica conforme foi praticada em
minha igreja recentemente.

• Cântico: “Majestade, Poderoso Tu És”

• Leitura Bíblica: Romanos 1.16,17

• Cântico: Hino 304 – “A Voz do Evangelho”

• Oração

• Leitura Bíblica: 2 Coríntios 5.18 – 6.3

• Cântico: Hino 71 – “Perdão, Senhor”

• Oração de Contrição

• Cântico: “Louvemos”

• Leitura Bíblica: Salmo 24.1

• Cântico: Hino 225 (Devolução dos Dízimos e Ofertas)

• Oração Diaconal

• Mensagem: Efésios 6.15

• Ceia do Senhor

• Cântico: “Jesus Riscou a Cédula”

• Oração Final

• Bênção Apostólica

Fonte: http://arteejubilo.blogspot.com.br/2010/06/o-fim-do-periodo-de-louvor.html