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ATIVIDADE SOBRE O FILME: VERMELHO COMO O CÉU

1. Em nossa vida, observamos os fenômenos e buscamos capturar o que "vemos". Existem várias
implicações nesta visão. Sabemos da Realidade, existente e independente de nós, mas não
podemos visualizá-la, pois a realidade que vemos é construída da combinação de
elementos/modelos preexistentes em nosso acervo de conhecimentos, fruto de nossas
vivências.

O garoto, personagem do filme, é dotado de uma percepção aguçada; por ser assim, tem
destaque na escola e em suas atividades na comunidade; como toda criança normal, gosta das
atividades que preencham sua sede natural de descobertas, como o cinema. A escola sempre foi
colocada como a principal estimuladora da percepção, ficamos em alguns momentos,
negligenciando a infinidade de alternativas pedagógicas que podemos lançar mão para aprimorar
o aprendizado. Assim como nos fixamos na visão como a maior "porta de entrada" de
informações.

Como podemos explicar a aguçada percepção dos sentidos do garoto Mirco a partir dos princípios
da Psicologia da Gestalt?

2. A realidade que temos em mente é uma construção feita por nós mesmos, acostumamos o
cérebro com um processo seletivo pelo qual só apreendemos os elementos capazes, de serem
organizados e compreendidos mais facilmente. Um sistema de padronização para tornar
reconhecíveis os elementos atrapalha por uma característica biológica, a percepção mais
especializada, em que todos os sentidos têm "captação" limitada e são condicionados ao
processamento mental mais utilizado.

Os recortes que fazemos do mundo não são a realidade, são um tipo de desenho, uma
fotografia, uma cena de filme. Não é a própria coisa que está lá, mas algo que interpretamos
enquanto sujeitos. Podemos melhorar esta inferência, ainda imaginando o que está fora do
enquadramento... Aliás, a própria idéia de quadro, nos sugere isso, uma escolha, um olhar de
recorte.

Uma chuva em um filme, pode nos dizer muito mais do que apenas um fenômeno meteorológico,
do que o ato de chover em si; então, os recortes da realidade, muitas vezes estão mais próximos
do nosso estado de espírito. As cenas em Vermelho como o Céu, estão carregadas de
significantes, que brincam com a nossa capacidade cognitiva. Sem dúvida, nas vezes seguintes
em que voltemos a ver esse filme, vamos nos deparar com um novo conjunto subjetivo, tanto das
personagens, do diretor do filme, quando de nós mesmos.
O espaço percebido pela imaginação não pode ser o espaço indiferente entregue à mensuração
e à reflexão do geômetra. É um espaço vivido. E vivido não em sua positividade, mas com todas
as parcialidades da imaginação. (BACHELARD, 1989, p. 19)

Qual o princípio gestáltico que está contido na argumentação acima?

3. A personagem revolta-se por sua condição, ao perder a visão. Envolto em dificuldades de


adaptação, precisa desenvolver formas novas de captar o mundo a sua volta, há uma
necessidade de perceber. De refazer-se enquanto sujeito. As novas descobertas lhe revelavam
que não perdera tudo junto com a visão: os registros ficaram, as lembranças e a possibilidade de
reproduzi-las no gravador "roubado" da sala dos professores lhe davam novas vivências para
construir essa nova subjetividade. Utilizava para isso, os outros sentidos , agora mais aguçados ,
percebidos como vivos, assim como ele.

Quando somos permanentemente privados de alguma capacidade, nos vemos desesperados de


conseguir viver normalmente no mundo, quando Mirco se sentiu privado do gravador que
"roubara", adoeceu, se retraiu, se isolou. Uma nova "revolta", perder mais uma capacidade de
vivenciar..., Don Giulio foi procurá-lo e, ao perceber que ele se escondia ali perto, iniciou uma
"conversa" consigo mesmo, fingindo acreditar que o menino não estivesse por lá. Demonstrando
um entendimento da realidade e da subjetividade do garoto importantes para conduzir e
restabelecê-lo.

A partir da teoria de campo aponte os argumentos que sustentam os comentários acima.

4. Sem restabelecer o que perdemos, nossa capacidade de adaptação desenvolve a compensação


à privação, a necessidade de ampliar as outras capacidades que restam.A mente terá que reagir
como instância padronizadora, recapturando, re-interferindo na realidade de novas maneiras. O
que será percebido com as novas formas de captar será apreendido e adaptado com o novo
sentido, re-selecionando para absorver, em meio à diversidade de informações, o que é
organizável e passível de conexão com as características e conceitos preexistentes na
composição de uma nova subjetividade.

Em uma passagem do filme, a personagem tenta explicar ao interlocutor, também cego, como
são as cores, associando-as a texturas: agrega-se um elemento percebido com um outro
sentido, para auxiliar na composição da percepção, antes feita apenas com o capacidade
inutilizada - a visão.

Vem à tona nesse momento um elemento essencial para o entendimento do processamento


cerebral dos dados que captamos - a memória[2], que virá proporcionar a renovação dos
sentidos a cada percepção. Pois a cada experiência, ampliamos nosso acervo de informações e
estamos mais hábeis para perceber e modificar a subjetividade num ciclo contínuo. É importante
para esta adaptação, a vontade de "abrir-se" para novos estímulos e concepções.

Para entender melhor a percepção do mundo com outros captadores, ou sentidos, devemos a
título de experiência exercitar essa percepção diferenciada: Num ambiente familiar, com olhos
vendados, ao tatear os objetos próximos, uma vez que temos reconhecido algo da nossa
"percepção pessoal", podemos observar na atenção dada para distinguir os objetos, as reações
instantâneas que surgem quando os examinamos. Começamos a identificar sentimentos que
fornecem sinalizações significantes para qualquer pessoa ao "redescobrir" o que a cerca.
Chegamos a perceber o limiar interno e externo do mundo pelos sentidos. Cada pessoa terá uma
percepção diferente de acordo com a sua subjetividade.

A dualidade de percepções que definem as vivências pode ser percebida na cena em que Mirco
guia sua namoradinha pelos corredores escuros, somente quando alcançam a saída, a menina
reassume a missão de conduzir. É com o experimento da privação da visão, que observamos
subjetivamente a necessidade de associar toda forma, textura às imagens. Alguns
pesquisadores têm estudado a associação de cheiros e sons a imagens ou cores em estados
semi-alterados de consciência. Como se estivéssemos presos à percepção do mundo pela visão.

A partir dos comentários acima, desenvolva uma reflexão calcada no que aprendemos sobre a
Psicologia da Gestalt que responda a pergunta: Como conhecemos?

5. Em algumas passagens do filme, percebemos que mesmo as personagens que nunca


enxergaram, tem a necessidade de associar a percepção de mundo à descrição visual. Estaria a
subjetividade ligada à percepções imagéticas? O som vem como segundo marco perceptivo para
apreender o mundo. Mas não podemos negar que também as sons musicais ou não, nos trazem
sentimentos, associam-se a outrascognições. A personagem tem na percepção sensorial o
fundamento de todo o conhecimento, é o desenvolvimento da subjetividade, a chave para
reformular a vivência no novo mundo os sentidos parecem distribuir-se numa escala de
importância, sem relegar ao esquecimento o princípio da intuitividade que leva a apreensão do
concreto ao abstrato e vice e versa.

Vale mencionar que a dimensão da subjetividade é um dos núcleos de exploração da escola


para cegos, é com o intuito de anulá-la ou domesticá-la, por meio dos processos de alterações
no ritmo, espaço, novos formatos e novas exigências, que a pedagogia da escola redefine a vida
para Mirco. Em cada nova vivência e relação, tentava-se fragmentar e enfraquecer sua
subjetividade, e numa perspectiva de mobilização o professor o ajuda a fortalecer, e ele próprio
começa, por uma necessidade a construir uma nova "visão".
A estória culmina com a apresentação de final de ano para os pais. Estes deveriam ter seus
olhos vendados para ouvirem e viverem a dramatização de uma história criada pelos alunos; os
pais partiriam de uma outra percepção - ser o outro alguém comdeficiência visual. Ocorre uma
reformulação na própria subjetividade, a forma de cada um perceber a apresentação é
evidentemente diferenciada.

Nosso procedimento de seleção muitas vezes é determinado por pré-julgamentos, experiências


pessoais de vida e idéias fixas sobre coisas que nos impedem de perceber uma visão diferente,
na qual uma melhor abordagem na interpretação poderia oferecer resultados significativos na
elaboração do conhecimento. Na vida, a cada contato e percepção dos elementos no mundo
novo, um novo sentido se constrói para o ser humano. Entendemos que a subjetividade, trafega
por caminhos de múltiplas padronizações e interpretações da realidade. A subjetividade se
fragmenta e se reconstrói a cada experiência significante.

Apresente, a partir de uma análise pessoal, as conclusões das relações que você pôde estabelecer
entre o filme e o aprendizado da disciplina Psicologia da Gestalt.

[1] História de Mirco Mencacci, um dos mais talentosos editores de som do cinema italiano.

[2] A capacidade de registrar e evocar informações (Damasceno, 1994).