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A obra Mayombe recebe seu nome de uma floresta na região central

do continente africano, no nordeste da Angola. O livro retrata a vida e o


cotidiano de guerrilheiros do Movimento Popular de Libertação da Angola
(MPLA). A obra pode ser comparada, principalmente, a Capitães da Areia,
Macunaíma e Iracema.

Capitães da Areia
Assim como Capitães da Areia, apresenta as personagens de forma
metonímica, ou seja, toma uma característica notável (positiva ou negativa)
como retrato do todo. Assim, como existe o Sem-Pernas, em Mayombe, há
Sem Medo (comandante do grupo, como Pedro Bala); do mesmo modo que
há o Professor, há Teoria (professor); como há João Grande e Volta Seca,
há Verdade e Lutamos (destribalizados); como há Gato e Pirulito, há
Mundo Novo (representante da elite africana que estudou no exterior); e
assim como há Dora, há Ondina (a personagem feminina, é a mulher que
instaura as transformações em alguns guerrilheiros do Mayombe. Por
exemplo, o Comissário Político, seu noivo, é obrigado a amadurecer diante
da traição e do rompimento da relação com ela. Sem Medo é impelido a
refletir sobre o amor e a sacrificar seu desejo por ela). Uma diferença entre
as duas mulheres, entretanto, é que Ondina não tem voz no livro, uma
crítica à desigualdade de gênero na luta por libertação e justiça.
Os dois livros abordam as diferenças culturais do povo
protagonizado. Enquanto Jorge Amado trabalha o sincretismo entre as
diferenças religiosas da população pobre em função de uma causa comum
(e um inimigo comum, a classe dominante), Pepetela abrange as
divergências culturais e sociais dos diversos povos habitantes da Angola,
criticando a fragmentação e os conflitos internos entre grupos de visões
semelhantes, sugerindo uma unificação da resistência (intenção explicitada
pela adoção de uma linguagem comum, a despeito dos abismos sociais
entre as personagens) contra o inimigo comum (o colonizador).
Assim como os meninos do trapiche, os guerrilheiros do Maiombe
tinham divergências em suas origens e objetivos. Alguns eram
profundamente tribalistas, outros acreditavam em uma igualdade, alguns
acreditavam na revolução por idealismo, outros por praticidade.
Essencialmente os dois livros tem um caráter socialista intrínseco, embora
Mayombe não propagandeie a ideologia, apenas a exponha, inclusive com
referências explícitas ao marxismo e por meio de debates filosóficos entre
as personagens, desde a função das religiões até a importância da educação.

Macunaíma
Assim como Mario de Andrade buscou as raízes do povo brasileiro,
atravessando o país em busca de seu folclore e através de um retorno à
essência da formação nacional, com índios, portugueses e africanos, através
de um olhar realista acerca desses povos, também o fez Pepetela. Mayombe
apresenta um traço expressivo da participação das religiões africanas, como
pode ser observado no prefácio:
“Aos guerrilheiros do Mayombe,
que ousaram desafiar os deuses*
abrindo um caminho na floresta obscura,
vou contar a história de Ogun,
o Prometeu africano.”

*Colonizadores, historicamente, são geralmente


recebidos como deuses pelos povos colonizados.

E no encerramento
“Tal é o destino de Ogun, o Prometeu africano.”

A fixação na percepção de Ogun como “Prometeu africano” é


interessante. Prometeu foi o deus encarregado por Zeus da criação dos
seres vivos. Sua tarefa foi adotada por Epitemeu, que após exaurir os
demais recursos na confecção dos demais animais, pediu ajuda a Prometeu,
que adicionou o Fogo (até então exclusivo dos deuses) ao barro que
moldou o homem, garantindo sua supremacia. Esse ato é uma metáfora
para a origem da alma, da liberdade, da inteligência, da luz no homem e sua
proximidade com os deuses. Da mesma forma, Ogum é descrito como o
primeiro Orixá a descender da dimensão espiritual (Orun) à Terra
(dimensão física, Aiyé), trazendo grandes conquistas bélicas,
conhecimentos (sobretudo de metalurgia) e estratégias, expandindo a
cultura e o povo africano negro. Ogum também é dito sempre tomar as
dores dos injustiçados, assim como o fez Prometeu, trazendo o
conhecimento e a vida para quem não os possuíam.
O debate sobre a dificuldade de se formar (ou reformar) uma
identidade legitimamente africana é muito discutida por outros autores
africanos, principalmente pelo obstáculo formal: como se desprender da
cultura do colonizador utilizando o livro, o texto em prosa ou poesia,
métodos europeus de comunicação?
Embora Pepetela não adentre nesse conflito literário em Mayombe,
pode-se questionar como se dá a defesa de uma identidade autenticamente
africana em um espaço geográfico definido pelo colonizador, já que o autor
procura uma autenticidade e uma libertação africanas, ou, mais
especificamente, Angolana. Mesmo quando tenta definir a cultura africana,
Pepetela recorre à metáfora de Prometeu, ou seja, se utiliza de recursos de
outras culturas para se definir. Mas não seria, talvez, natural que a
formação de qualquer tipo de identidade se dê de forma negativa, isto é,
pela observação do que se não é, em vez do que se é?
Um dos pontos em que esse debate é levantado é a personagem
Teoria. O professor é filho de uma mulher africana e um pai luso. Sua
mestiçagem o leva a um grande impasse: se não é negro africano nem
branco europeu, afinal, o que ele é? Essa pergunta o leva a tentar se provar
para os guerrilheiros, aderindo a todas as missões.
Extrapolando o texto, o verdadeiro enigma se trata de grande parte da
população africana. Muitos possuem descendência negra e europeia, como
definir o que seria SUA cultura, SUA identidade? Apenas uma mistura das
outras duas? Talvez uma outra coisa totalmente diferente?
Assim como Mario de Andrade, Pepetela aponta para a natureza
enquanto resposta. A natureza, a essência, a origem, a verdade do ser
(como propõem, por exemplos, as análises etimológicas das palavras). E a
floresta de Maiombe é, de fato, uma personagem do livro. Uma
personagem diferente dos demais, com certeza, mas uma personagem ainda
assim. E é lá, em meio a esse conflito, que a floresta gesta um novo
homem, para um novo momento histórico da Angola.

Iracema
Iracema traz elementos em comum com Mayombe, especialmente o
trato da diversidade tribal e os conflitos entre esses grupos, em
simultaneidade com a luta pela emancipação em relação ao colonizador.

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