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222 Ecossistemas digitais de aprendizagem em rede

Ao nível educativo irão divulgar-se cientistas que anteriormente represen-


conhecimentos relativos às caracterís- tavam o mundo como máquinas, como
ticas de cada local – nomeadamente o mecanismos de regras lineares de cau-
valor do património natural, paisagís- sa e efeito, estão a mudar de metáfora,
tico, geodiversidade, biodiversidade e vendo agora os seus objetos de estudo
histórico-cultural – através de ações de como Ecossistemas Digitais que são, na
formação para professores e ações de sua essência, análogos às comunidades
sensibilização para alunos. Incentivar ecológicas naturais, pois apresentam-se
à realização de saídas de campo às in- como sistemas complexos, dinâmicos
fraestruturas verdes do concelho é o e adaptativos e interagem como uni-
principal objetivo deste conjunto de dades funcionais e interligadas através
ações, que certamente contribuirá para de ações, de fluxos de informação e de
aumentar o conhecimento sobre o local transação, onde habitam as espécies di-
onde reside o aluno. gitais (DigitalEcosystem, 2007). Assim,
A implementação deste projeto dire- muitos investigadores têm procurado
cionado para ecoturismo e turismo de analisar as características dos sistemas
natureza contribuirá para fixar a sua biológicos para compreender e criar
população, gerar mais postos de traba- Ecossistemas Digitais. Esta tendência
lho e incrementar uma maior dinâmica é relativamente recente e não há ainda
ao nível económico, cultural e turístico. uma definição consolidada; tão pouco
Rafael Fonseca existe um consenso relativamente à sua
câMara Munici Pal d E Machico finalidade.
A criação destes Ecossistemas depen-
de exclusivamente das interações entre
as espécies, as comunidades e o meio
ecossistemas digitais ambiente, através de fatores bióticos e
de aprendizagem em rede abióticos.
Os fatores bióticos de um Ecossiste-
ma Digital de Aprendizagem em Rede
Um Ecossistema Digital assume-se, em
contexto educacional, como um sistema de pertencem a duas espécies: a espécie
aprendizagem em rede que apoia a coopera- humana (professores e estudantes) e a
ção, a partilha do conhecimento, o desen-
volvimento de tecnologias abertas e a evo- espécie digital (os conteúdos educacio-
lução de ambientes ricos em conhecimento. nais), sendo que a espécie digital pode
evoluir, reproduzir-se, sofrer mutações
ou até mesmo desaparecer. Apesar de

A disseminação das tecnologias digi-


tais e o crescente aumento de acesso
às mesmas, assim como a ampla dispo-
não se parecerem com seres biológicos,
os conteúdos digitais sofrem um proces-
so similar de seleção natural e evolução.
nibilidade de informações encontradas Alguns conteúdos são mais úteis e ajus-
na web e o aparecimento do software li-
tados que outros e sobrevivem (seleção
vre, têm incentivado a partilha entre in-
natural), enquanto outros, os menos
divíduos e a emergência espontânea de ajustados, desaparecem. Neste sentido,
comunidades virtuais. Em função disso, considera-se que um indivíduo da espé-
cie humana nasce no Ecossistema ao co-
meçar a interagir com os seus pares ou
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com a espécie digital, e morre quando tamanho, desde que comporte indiví-
deixa de interagir com os mesmos. duos da espécie humana (professores e
Como fatores abióticos consideram-se estudantes), organismos da espécie di-
as tecnologias que permitem as intera- gital (conteúdos), um ambiente digital
ções entre as espécies. Existem diferen- (as tecnologias) e as interações entre os
tes formas de interações interespécies, mesmos. Segundo Wilkinson (2002), a
sendo que estas ocorrem quando a es- arquitetura fundamental de um Ecossis-
pécie humana interage com a espécie tema Digital de Aprendizagem em Re-
digital, quando indivíduos da espécie de assenta nos seguintes elementos: a)
humana criam indivíduos da espécie uma taxonomia de conteúdos partilha-
digital e quando a espécie digital é exi- da; b) sistemas de gestão de aprendiza-
bida à espécie humana. Por sua vez, as gem (Learning Management Systems);
interações intraespécie ocorrem quando c) sistemas de gestão de conteúdos de
indivíduos da espécie humana colabo- aprendizagem (Learning Content Ma-
ram entre si (interagem com um objeti- nagement Systems); d) repositórios de
vo comum) e quando os indivíduos da objetos de aprendizagem; e) sistemas
espécie digital cooperam entre si (ope- de integração e gestão de fluxo de tra-
ram em conjunto). balho (workflow); f) motores de avalia-
Como num sistema ecológico, num ção (Assessment Engine); g) motores
Ecossistema Digital de Aprendizagem de simulação e jogos (Game Engine); h)
em Rede existem relações de dependên- ferramentas de colaboração e discussão;
cias entre espécies e o ambiente, assim e i) elementos de suporte e orientação.
como relações de dependência interes- As fronteiras do sistema em rede, em
pécies. Neste contexto, as interações são analogia às fronteiras de um sistema
fundamentais, pois as tecnologias digi- biológico, definem os limites do Ecossis-
tais que formam o ambiente apoiam a tema Digital, sendo que estes são deter-
ocorrência das mesmas. Isto cria uma minados por influências internas (como
relação de dependência das espécies a construção do conhecimento, os objeti-
com o ambiente, pois sem interações vos educacionais, as atividades de apren-
não há Ecossistema, e sem tecnologias dizagem) e por influências externas (tais
digitais no ambiente não há interações. como aspetos sociais e culturais). Como
Quanto à relação interespécies, a hu- num sistema biológico, os elementos da
mana assume quer uma relação de con- comunidade podem formar grupos es-
sumidor quanto de produtor com a es- pontaneamente, podendo interagir uns
pécie digital. O consumo ocorre quando com os outros, sendo que, para garantir
os indivíduos da espécie humana inte- o seu sucesso, cada indivíduo e cada gru-
ragem com a espécie digital e alteram o po deve adaptar-se às condições ambien-
estado do conteúdo, ou quando o con- tais e encontrar o seu “nicho”.
teúdo digital é exibido ao indivíduo da O desenvolvimento de Ecossistemas
espécie humana. Já a produção ocorre constituídos por ambientes de aprendi-
quando a espécie humana cria indiví- zagem digitais em rede, baseados neste
duos da espécie digital. conceito de ecologia, requer, na realida-
Relativamente à sua estrutura, um de, uma mudança significativa na for-
Ecossistema Digital de Aprendiza- ma de pensar o ato educativo. O desafio
gem em Rede pode assumir qualquer passa pela criação de ambientes férteis,
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dinâmicos, vivos e diversificados onde ensino: aprender a conhecer e aprender


o conhecimento, as ideias e o espírito a fazer, que investem no conhecimento
empreendedor possam nascer, crescer e nas habilidades executórias; aprender
e evoluir. E para isso é necessária uma a ser, que foca não só o desenvolvimen-
abordagem que não se limite a conside- to da personalidade e da autonomia,
rar apenas os aspetos digitais, mas que mas também a responsabilidade pes-
privilegie uma abordagem humanista, soal para explorar os talentos interiores
ecológica, integrada e holística – em su- ao sujeito (algo inovador ao tempo); e
ma, uma abordagem que privilegie uma por último, aprender a conviver, assu-
visão blended do fenómeno educativo. mido pela Comissão Internacional para
a Educação do Século xxI como o pilar
mais relevante para obrigar a “com-
Para aprofundar
preender melhor o outro e o mundo:
DigitalEcosystem (2007). The information resource about the
european approach on digital business ecosystems. Acedido em a exigência de compreensão mútua,
17 de julho de 2018 em http://www.digital-ecosystems.org/ de ajuda pacífica e de harmonia, valo-
Wilkinson, D. L. (2002). The intersection of learning architecture
and instructional design in e-learning. In Proceedings of the 2002 res de que nosso mundo é tão carente”
eTEE e-Technologies in Engineering Education, Davos, 11-16 de
agosto de 2001 (pp. 213-220).
(UNESCO, 1996).
Por outro lado, temos os conceitos
Domingos Caeiro, José António Moreira recentes de salutogénese e sentido de
univ Ersidad E ab Erta
coerência, defendidos por Antonovsky
(1994), bem como o de capacitação ou
empoderamento (empowerment) e pró-a-
educação emocional tividade no desenvolvimento pessoal e
comunitário – que Christoph Djours vi-
ria a conceptualizar como noção de saú-
O conceito de Educação Emocional emerge
como proposta alternativa ao paradigma de (veiga-Branco, 2004: 70). Assim, esta-
clássico de educação e formação, que inci- vam “criadas as escolas promotoras de
de mais no que se conhece como o primado
da razão – através das metodologias e cur- saúde e com elas implantada a filosofia
ricula dos programas académicos – e não conceptual do Processo Educativo Salu-
traz à consciência de professores e alunos
as competências sociais, nomeadamente a togénico…” (veiga-Branco, 1999, 2000a,
autoconsciência e gestão emocionais a nível 2000b; 2004: 71).
intra e interpessoal. Após a emergência de conceitos co-
mo “inteligência emocional” e “com-
petência emocional”, os pensadores
A exploração e aplicação do cons-
tructo de Educação Emocional é
influenciada por conceitos emergentes
em educação, refletindo, por um lado,
sobre os ambientes sociais perturbado-
nos anos 90 do século xx. Por um lado, res que trouxeram para as escolas com-
temos as propostas de educação presen- portamentos disruptivos dos alunos e,
tes no relatório para a UNESCO, coor- por outro lado, sobre as competências e
denado por Jacques Delors, que defen- habilidades que preenchiam esses cons-
deu quatro pilares fundamentais para o tructos, foram constatando a pertinên-
cia de desenvolver essas habilidades
em contexto educativo e potencializar
este processo através dos conteúdos da
Educação Emocional.