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Campos dos Goytacazes nos anos 1870-1880:

a modernização brasileira e o “mundo citadino”

Campos dos Goytacazes between 1870-1880:


the Brazilian modernization and the city world

Teresa Peixoto Faria


Doutora em Estudos Urbanos
Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales
Professora do Pgps/CCH/Uenf
Diretora do CCH/UENF
teresapf@uenf.br

RESUMO: O artigo mostra que as novas formas de investimento do capital público ou privado no espaço
urbano em fins do século 19 na cidade de Campos foram marcadas por uma nova racionalidade urbana que
buscava inserir a cidade no projeto de modernização da nação. As mudanças reforçaram o caráter urbano de
Campos evidenciando o contraste cidade/campo, mudaram a composição social e morfológica da cidade.
Mediante a pesquisa histórico-documental, a autora apresenta a célere urbanização vivida pelos campistas em
poucos anos perceptível na expansão das atividades comerciais e financeiras, industriais e de serviços com
reflexos nos hábitos profissionais e citadinos na cidade.

Palavras-chave: Campos dos Goytacazes, cidade, urbanização, modernização, racionalidade urbana

ABSTRACT: This article seeks to demonstrate that the new forms of investments by both public and public
capital in the urban space of Campos dos Goytacazes were characterized by a new form of rationality that
sought to insert the city into the project of modernization being pursued at the national level. These changes
that reinforced the urban character of Campos stressed the urban/rural contrast and changed the social and
morphologic composition of the city. Using a historical-documental approach, the author of this paper
presents the rapid urbanization experienced by the city dwellers through the expansion of commercial and
financial activities, industry and service sectors, and their reflections on the professional habits and citizenry
behavior in the city.

Keywords: Campos dos Goytacazes, city, urbanization, modernization, urban rationality.

Introdução

A partir da segunda metade do século XIX instauraram-se mudanças importantes no Brasil

- a introdução de novos valores (os da sociedade européia) e de novas configurações sócio-

econômicas que tiveram como conseqüências mais marcantes a abolição da escravidão e a

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instituição da República. Assistia-se, então, um movimento de crítica e de modernização

social e espacial acompanhado de mudanças sensíveis na composição social e nos

fundamentos do sistema produtivo brasileiro; não menos no comportamento das pessoas.

O movimento de progresso e desenvolvimento não foi linear. O projeto modernizador,

embora pretendendo a integração do território e a construção de uma identidade nacional,

não resolveu as contradições e nem apagou os contrastes entre as cidades do litoral, prontas

para receber o capitalismo e aquelas situadas no interior do país, ainda ligadas à tradição

agrícola. Campos dos Goytacazes situava-se entre estas duas realidades: a adequação a esta

nova ordem - representada pela cidade - e a manutenção dos antigos modos de vida -

representados pelo campo. É na relação entre estes dois mundos que se constituiu a

realidade urbana da cidade. Sua indústria açucareira modernizou-se acompanhando as

exigências do capitalismo, ao mesmo tempo em que a cidade ganhava equipamentos

modernos, infra-estrutura e novos serviços. Criaram-se bancos, companhias de seguro,

companhias de navegação; construíram-se vias férreas; instalaram-se esgotos, água

corrente e iluminação elétrica.

A introdução de novas tecnologias e de produtos industrializados não transformou apenas o

espaço urbano, mas também, a vida urbana. Transformações de ordem material se viram

imediatamente na paisagem da cidade através da arquitetura das construções, da

organização dos espaços e dos novos equipamentos urbanos, ao mesmo tempo em que

mudava a sua estrutura social. Na cidade foram empreendidas obras de infra-estrutura de

grande porte, a maioria utilizando a tecnologia com participação do capital inglês.

Pântanos eram saneados, praças foram niveladas, abriram-se novas ruas e, doravante,

surgiram as primeiras pavimentações em pedra de granito.

Em 1872, a população urbana em Campos era de 19.520 habitantes; a população rural, por

sua vez, de 69.305, totalizando 88.825 habitantes. Da população total, 56.232 eram homens

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livres contra 35.593 escravos. Num rápido panorama da cidade, em 1873: a zona urbana

possuía 3116 casas térreas e 316 sobrados, 15 igrejas, dois hospitais, um orfanato, um

teatro, um gasômetro, dois Bancos, uma Caixa Econômica, cinco hotéis, quatro armazéns,

três jornais diários, 15 estabelecimentos de ensino privado e público, uma biblioteca,

quatro fundições, seis cemitérios, uma serraria a vapor, dois curtumes e um estúdio

fotográfico, além da ponte metálica sobre o rio Paraíba (Teixeira de Mello, 1886, p.101-

104). As ruas principais do “centro da cidade” já eram iluminadas com gás hidrogênio

pela sociedade de Dutton & Chandler sob da direção da Companhia Campos Gás. Neste

cenário, as mudanças, não poucas, se proliferaram, revelando inéditos personagens cada

vez mais identificados com a urbes a ocupar progressivamente o primeiro plano mediante

novos papéis sociais.

A explosão do mundo urbano provocou significativamente a identificação de seus

habitantes com a cidade. Um projeto nomeado “Uma consciência citadina”, elaborado por

uma comissão especial formada por "notáveis" 1, como o médico Manhães Barreto, o

jornalista João de Alvarenga, o comerciante Cesário de Gusmão e o jornalista e escritor

Silva Ultra foi apresentado à municipalidade. O Conselho aprovou-o justificando que tudo

o que pode contribuir para o desenvolvimento e a modernização da cidade seria adotado:

Estas transformações apresentam um grande interesse visto o estado presente de nosso


comércio e de nossa indústria nascente, e ao mesmo tempo elas evitarão a depreciação
dos imóveis urbanos. Ninguém pode contestar o imenso benefício que a distribuição
obrigatória de água trará para a cidade (Câmara Municipal de Campos de 1890).

Este artigo busca mostrar que estas formas de investimento do capital público ou privado

no espaço urbano foram marcadas por uma nova racionalidade urbana e pelo desejo de

inserir a cidade neste novo projeto de modernização e desenvolvimento nacional que, além

1
Para melhor compreensão do que define a qualidade de um notável na sociedade campista no século XIX,
ver Peixoto Faria (1998, p.226-238), onde discuto a instauração dos grupos sociais urbanos em Campos dos
Goytacazes.

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de reforçarem o caráter urbano de Campos evidenciando o contraste cidade/campo,

mudaram a composição social e morfológica da cidade.

1) Os transportes: a dilatação dos espaços

A introdução das máquinas a vapor contribuiu tanto para o aumento da produção de açúcar

quanto para otimizar os transportes, em conseqüência, o movimento do comércio e o

número de negócios na cidade também aumentaram exigindo embarcações maiores que

suportassem um grande volume de mercadorias. A velocidade e a regularidade relativa dos

deslocamentos modificaram o sentido e a percepção da distância, as trocas foram

dinamizadas graças à conjugação de dois tipos de transporte: a navegação e o ferroviário.

A navegação, a primeira a ter sido dinamizada, graças às primeiras companhias instaladas

na cidade, ganhou novo impulso com a inauguração, em 1872, de linhas regulares no canal

Campos-Macaé. Entre 1870 e 1890 o movimento do porto de São João da Barra se

intensificou. Em 1876 foram criadas a Cia de navegação São João da Barra-Campos e uma

linha marítima a vapor entre o porto de Imbetiba, em Macaé, e Rio de Janeiro era

concluída. Graças a esta nova via de acesso, o tráfico de mercadorias, a circulação de

indivíduos e de informação e, conseqüentemente, a entrada das últimas novidades do

mundo europeu foi facilitada. O comércio era, então, favorecido: nos jornais locais,

aumentaram os anúncios de chegada de novas mercadorias assim como o número de lojas

de artigos importados.

Todo esse movimento de entrada e saída de mercadorias fez com que a Rua Beira Rio

(depois da República nomeada Avenida XV de Novembro) se transformasse no lugar mais

animado da cidade. Aliás, ela era a porta de entrada da cidade de modo que não era

surpreendente ver projetos de urbanização visando embelezá-la e alargá-la para permitir

uma circulação mais fácil.

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Legenda: Avenida 15 de Novembro (Rua Beira Rio)

Em 1873, foi construída a ponte sobre o rio Paraíba reclamada há muito tempo para

facilitar as comunicações com a sua margem esquerda. Depois de vários projetos recusados

como o do engenheiro Bellegarde - considerado muito caro - e de várias discussões sobre a

melhor maneira de construí-la, a companhia inglesa Dutton & Chandler construiu uma

ponte metálica. Esta veio substituir a antiga barca pêndula construída em 1846 pelo vice-

cônsul francês em Campos, Jules Lambert. Esta ponte abriu novas perspectivas em direção

ao norte do município, estimulando o crescimento da cidade em direção à margem

esquerda, uma vez que esta até então era considerada uma zona rural e ainda não havia

recebido nenhum equipamento urbano. Tornava-se evidente aqui um sinal importante do

desenvolvimento da cidade que continua a se expandir pela adição de novos bairros. Além

disso, a ponte atuou na redução da distância física entre esta "periferia rural" e o centro

urbano, impulsionando a sua integração ulterior à cidade que veria seu espaço urbano se

expandir.

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A concepção de cidade foi também modificada pela instalação de uma rede moderna de

comunicação, especialmente as vias férreas. O advento do transporte ferroviário foi um

fator de transformação do espaço da cidade e ainda de diversificação e de heterogeneidade

social. As estradas de ferro eram uma dos principais símbolos da modernização, dando

impulso à industrialização.

Em Campos, os transportes ferroviários foram dinamizados por iniciativa da

municipalidade, de empresários campistas (através da venda de ações à comunidade) e das

companhias inglesas. Na Câmara Municipal (entre 1870 e 1890), homens de espírito

empreendedor que contribuíram para o avanço do projeto modernizador, hoje, aparecem

como personagens importantes na história de Campos, citados em diversos trabalhos e

dando seus nomes a ruas: Barão da Lagoa Dourada (senhor de terras), Francisco Portela

(médico), Thomas Coelho (advogado), Miranda Pinto (engenheiro), Gesteira Passos

(médico), Tenente-Coronel Antônio Rodrigues da Costa (engenheiro).

A primeira empresa inaugurada foi a Companhia Estrada de Ferro São Sebastião-Campos

com a instalação da Estação no Largo do Rocio, espaço reservado, desde a fundação da

cidade, para a sua futura expansão. Foi o traçado regular das ruas que facilitou a

penetração de vias férreas e, posteriormente, do bonde. A via férrea seguia a antiga

“estrada geral” ou “estrada do Beco” e entrava diretamente na cidade pelas Ruas do

Ipiranga e do Príncipe, descendo até o porto pela Rua do Ouvidor.

A via férrea resolvia em grande parte do problema de escoamento da produção da região

de Campos. Permitiu o transporte rápido de um volume maior de açúcar e de outros

produtos agrícolas até os portos no centro da cidade, de onde eram levados a bordo de

vapores, passando por São João da Barra ou seguindo diretamente pelo canal Macaé-

Campos até o Rio de Janeiro, grande centro consumidor e exportador. As comunicações

com o Rio foram mais uma vez dinamizadas com a inauguração, em 1875, da Companhia

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Estrada de Ferro Macaé-Campos, que entrou a oeste da cidade por uma via diagonal até a

Rua Beira Rio Paraíba onde se construiu a estação que passou a ser a principal entrada na

cidade.

Em 1875, a sociedade Ferro Carril de Campos inaugurou o primeiro bonde à tração animal

que começou a circular nas principais ruas da cidade. Primeiramente da Coroa até a Praça

São Salvador, centro da cidade, e posteriormente seguindo o importante eixo que é a Rua

Beira Rio, ligando os dois pontos extremos da cidade, onde se desenvolviam as atividades

industriais, a Coroa e a Lapa, e indo finalmente encontrar as ruas Direita, Rosário,

Quitanda e Formosa até o Largo do Rocio. Em 1883, com a presença do imperador, em sua

quarta visita a Campos, inaugurou-se a primeira central elétrica municipal da América do

Sul, pela empresa Brush Eletric Company. Em 1910, os bondes elétricos foram

inaugurados.

Legenda: O Bonde em Campos dos Goytacazes.

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Em 1877, a linha Campos-Carangola foi inaugurada na margem esquerda do rio atendendo

o norte do Município. A estação foi construída, em 1881, no distrito de Guarus, em frente à

ponte metálica, recém-construída. Seus investidores eram campistas: Francisco Portela,

Rodrigues Peixoto, o Barão da Lagoa Dourada e Crisanto de Sá Miranda. Em 1885, a

Companhia Estrada de Ferro Macaé-Campos constrói uma linha que une Campos a São

Fidélis, um vilarejo localizado a noroeste do Município de Campos. As vias férreas

penetravam assim na periferia rural favorecendo a expansão em direção ao interior do

Município e a concentração de povoados junto às estações de trem, em torno das quais se

consolidavam novas freguesias: São Sebastião, São Gonçalo, Santo Amaro (linha São

Sebastião-Campos), Morundu, Travessão, Santo Eduardo (Campos-Carangola). Estes

lugarejos eram dotados de certa infra-estrutura, contribuindo para fixar os habitantes na

zona rural.

Em 1888, um sindicato inglês comprou a Companhia Estrada de Ferro Leopoldina que se

tornou, então, Leopoldina Railways, adquirindo as companhias ferroviárias da região e

concluindo a conexão com Niterói. Resolve-se assim o problema de transportes e

comunicações, intensificando-se as trocas com o Rio de Janeiro. Aliás, os ingleses

exerceram uma grande influência no desenvolvimento do sistema de transportes no Brasil

(Grahan, 1973).

Com a criação da Leopoldina Railways, foram feitas outras extensões dos ramais e

Campos tornou-se um importante centro ferroviário: em 1888 conectava-se a estrada de

ferro Macaé-Campos com a Estrada de Ferro São Sebastião. Isto permitiu que, finalmente,

o boulevard periférico projetado desde 1842 por Pralon - o Passeio Público- fosse

executado; em 1895, a linha de São João da Barra-Campos foi construída beirando o Rio

Paraíba, com a estação construída na Rua do Gás; em 1906, é a vez da Estação Central

Leopoldina, no bairro do Saco (em frente à igreja do mesmo nome) e ergueu-se uma ponte

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ferroviária sobre o Paraíba possibilitando a extensão da linha até Vitória, capital do Estado

do Espírito Santo e importante cidade-portuária.

A construção da Estação Leopoldina centralizou as diferentes redes num bairro periférico,

criando um novo pólo de atração e favorecendo a extensão em direção ao oeste da cidade.

A estação localizada distante do centro tinha seu acesso facilitado pelo alinhamento da Rua

da Constituição (atual Alberto Torres), graças à instalação de uma linha de bonde. Em

1913, a Leopoldina Railways construiu a Estação Avenida, no Passeio Público,

extinguindo a antiga Estação da Rua do Gás.

A dinamização das vias férreas provocou a redução gradativa do transporte fluvial, até que

este fosse eliminado totalmente com a venda e a transferência, para o Rio de Janeiro, da

Companhia de Navegação São João da Barra em 1919. Mas as antigas pranchas circularam

pelos canais e rios até 1920-1930.

Para administrar os trabalhos públicos e melhorar os serviços de infra-estrutura, criou-se a

Companhia de Melhoramentos Urbanos de Campos. Seu relatório de 1894 2 apresentava o

balanço do ano anterior: instalação de uma linha de telefone, extensão da iluminação

pública e da rede de gás. Em prosseguimento aos programas de melhoria das condições de

higiene e saneamento, a Câmara Municipal confiou à empresa inglesa Dutton & Chandler

a instalação do sistema de esgotos e aprovisionamento de água (em mais de 500

habitações). Em 1887, a empresa Campos Sindicat Limit Co. inaugurou estes serviços em

mais de 2000 edifícios.

Paralelamente à transformação do tecido urbano, as funções urbanas se diversificavam.

Após a instalação desta rede de comunicação, ao contrário de se constatar uma evasão da

população local, assistiu-se à instalação de vários profissionais liberais, como também, de


2
Cia de Melhoramentos Urbanos de Campos: relatório que será apresentado na Assembléia Geral dos
Acionistas em 18/02/1994 por seu presidente Dr. Manoel Coelho Barroso. Campos, Typographia Silva,
Carneiro e Cia, 1894. BNRJ, Loc. 1.459.01.11, inv. 0001645447.

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empresas, de comércios, de bancos vindos de outras regiões, ou até mesmo do exterior. As

mudanças técnicas e as novas instalações criaram novas oportunidades nos vários setores

da indústria, abrindo novas possibilidades para a vida individual e social modificando o

cotidiano dos moradores.

3- A expansão das atividades comerciais e financeiras, industriais e de serviços.

A indústria açucareira

O desenvolvimento da indústria, neste último quartel do século 19, anunciava o

aparecimento de uma nova realidade sócio-econômica e política no Brasil: a entrada do

modo de produção capitalista e o fim do poder individual dos “senhores”. O advento das

usinas provoca a perda definitiva do prestígio individual do senhor de engenho, já

ameaçado pelo movimento abolicionista, intensificado depois da suspensão do tráfico de

escravos, em 1855. Assiste-se, então, em Campos, ao início do capitalismo. Este fenômeno

é tão importante que os habitantes da zona rural próxima emigram para a cidade, trazendo

conseqüências para o espaço urbano. A competição fica cada vez mais forte entre a

produção industrial de açúcar em grande escala e a pequena produção, pois as usinas logo

dominam a produção, até a eliminação completa dos engenhos sob a pressão do capital.

Lamego Filho (1978) descreve as conseqüências da concentração da produção de açúcar

pelas usinas e a perda do poder de influência dos senhores de engenho em Campos:

(...) uma vez extinta a rígida estrutura patriarcal das fazendas e uma vez substituído o
prestígio individual do senhor de engenho - que exercia uma influência considerável na
vida rural pelo poder exclusivo que o capital lhes conferia - o "feudalismo" que, durante
décadas, dominou a região deixa também de existir. A influência das usinas e das
indústrias provoca o desmantelando dos núcleos culturais organizados pelos senhores de
engenho (1978, p. 153).

De uma maneira geral, o açúcar brasileiro estava em crise por causa da concorrência

estrangeira que oferecia muito mais vantagens em qualidade e preço. Para melhorar a

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qualidade do açúcar brasileiro, em queda nos mercados internacionais, produtores de

açúcar reformam os seus engenhos a vapor. Sob os modelos da indústria moderna, as

instalações dos engenhos recebem as novas instalações. A renovação dos velhos engenhos,

porém, não era fácil por causa da crise que os produtores sofriam. Estes recorreram, então,

para as usinas e os engenhos centrais, grandes unidades destinadas a moer a cana de açúcar

de um grupo de propriedades.

Paralelamente, observa-se no Brasil, a intensificação do processo de associação ao capital

estrangeiro e a concentração industrial pelas usinas o que dá um impulso maior a este tipo

de estabelecimento industrial. Assim, os senhores de engenho se tornam progressivamente

simples produtores de cana abastecendo os engenhos centrais e as usinas. Mas, os

engenhos centrais não eram capazes de competir com as usinas e, também, passam a lhes

vender a cana que produziam. Os usineiros adquirem o controle da situação e começam a

comprar propriedades dos engenhos 3.

Em Campos, os engenhos em pleno apogeu experimentam o declínio com a construção dos

engenhos centrais e das usinas (Lamego Filho, 1973, p.151). Com o uso de novas técnicas,

os engenhos centrais quase que paralisam os engenhos mais modestos em uma competição

desigual 4. Este fenômeno pode ser percebido através da análise de Almanaques e Anuários

publicados em Campos. Constata-se, por exemplo, que o antigo engenho situado na

Fazenda Grande do Beco, propriedade do Coronel Joaquim Pinto Neto da Cruz - Visconde

de Carapebus- torna -se uma simples fazenda da Usina Santo Antônio, fundada em 1895

pelo comendador Antônio Manoel Rodrigues da Costa. Da mesma maneira, o engenho

3
É necessário notar que as usinas, a exemplo dos engenhos, se localizavam fora dos limites da cidade, exceto
três delas que, em conseqüência do crescimento da cidade, foram inseridas no “perímetro urbano”. Os
usineiros como os senhores de engenho, vivem nas suas propriedades, os empregados especializados são
hospedados em casas construídas pelas usinas ou engenhos.
4
Neves (1979) observa que os pequenos engenhos não desaparecem completamente e que em 1881 foi
registrada a presença de 120 pequenos engenhos que forneciam aguardente, açúcar e rapadura para consumo
local.

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fundado, em 1845, por Gregório Francisco de Miranda, Barão da Abbadia, transforma-se

em Usina da Abbadia, ainda existente em 1921 5.

Um exemplo de bancarrota e de perda de prestígio da nobreza agrária é o de José Martins

Pinheiro, Barão da Lagoa Dourada, um dos homens mais ricos e mais influentes da cidade.

Ele foi conselheiro municipal, em 1869, e participou de importantes empreendimentos

industriais em Campos, como a construção da primeira linha de bonde à tração animal e a

criação da sociedade Estrada de Ferro Campos-Carangola. Ele era o proprietário de um dos

mais bonitos solares urbanos, construído em 1864, que mais tarde tornou-se a escola

secundária Liceu de Humanidades de Campos. Porém, endividado, acabou cometendo

suicídio em 1876.

A leitura de um relatório submetido à aprovação do Conselho da Intendência Municipal de

Campos, em 27/12/1890, a fim de ser enviado ao governo do Estado em resposta às

perguntas que este fez a respeito da situação da agricultura no município, explicita a tensão

em torno da decadência e as reivindicações de intervenções mais urgentes para restabelecer

a prosperidade mediante a modernização da atividade açucareira.

• Sobre as principais culturas:

Graças à qualidade e à prosperidade das terras a atividade à qual se dedica a grande maioria
dos agricultores e, portanto, a mais produtiva, é a cultura da cana de açúcar que provê o
mercado da cidade e está na origem da grande exportação. Esta é seguida da cultura de
mandioca e de outros gêneros alimentícios. O café é cultivado em pequena escala e sua
exportação é pouco significativa (Relatório, 1890)

• Sobre as dificuldades depois da abolição da escravidão:

Ainda é certo que depois da lei de 13 de maio de 1888, a produção da cana de açúcar
diminui progressivamente por causa da falta de força de trabalho e de dinheiro para pagar

5
Ver por exemplo o Almanak Mercantil, Administrativo e agrícola da cidade de Campos e dos Municípios
de São Fidélis, São João da Barra e Macaé, publicado por João Alvarenga, para o ano de 1885, Typographia
do Monitor Campista e o Anuário Campista de 1921, publicado por João Barreto.

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aos trabalhadores. Os trabalhadores abandonam as fazendas de produção de açúcar e


partem para regiões de produção de café, pois este é mais bem remunerado. Este problema
é ainda agravado porque os fazendeiros de café enviam agentes (pagando-os por cada
trabalhador recrutado) às regiões do açúcar para recrutar trabalhadores (Ibid.)

• Sobre as vantagens dos engenhos centrais: “se a cultura da cana de açúcar e a

produção açucareira continuam prosperando, é graças aos engenhos centrais

estabelecidos no auspicioso Município e também à fertilidade das terras (...).”

(Ibid.)

• Em relação a algumas proposições:

(...) a possibilidade de hipotecar a terra, de forma que os agricultores possam investir nas
suas propriedades; diversificar a agricultura que não deve se limitar aos gêneros ditos
coloniais; construir boas estradas indispensáveis para o transporte de mercadorias que não
se beneficiam de preço elevado no mercado; reduzir as tarifas das estradas de ferro que
absorvem uma boa parte do valor das mercadorias, por exemplo, do açúcar que não pode
suportar tais tarifas; promover a imigração de trabalhadores europeus para agricultura e
cuidar para que através de medidas legislativas, os vagabundos e os desocupados adotem
meios honrados de vida; incitar o Estado para verter subsídios para ajudar à realização
destes projetos (Ibid.)

Fato é que, diante da crise, os habitantes da zona rural circunvizinha passam a depender

cada vez mais dos serviços que são instalados na cidade.

As novas indústrias

Com o processo de modernização brasileira e seu desenvolvimento industrial relativo, o

espaço urbano é cada vez mais valorizado e Campos passa a ocupar uma posição

predominante no cenário nacional. Paralelamente às mudanças técnicas introduzidas na

indústria açucareira, as primeiras indústrias modernas aparecem: a Tecidos Industrial

Campista e outras pequenas indústrias se instalam na cidade: duas fábricas de goiabada,

uma de cerveja, de fogos de artifícios, de torrefação de café, de tabaco.

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Serralharias e fundições desenvolvem-se muito com a industrialização e a mecanização

crescente que obrigam os engenhos e usinas a se equipar para enfrentar a concorrência.

Constata-se que vários grupos estrangeiros, franceses e ingleses se instalam na cidade. Eles

são responsáveis pelos equipamentos das usinas e engenhos. Por exemplo, a Sociedade

Fives Lille e Mariolles e Frères (instalações francesas) responsáveis, respectivamente, pela

instalação dos engenhos centrais de Quissamã e Barcellos e da Usina Cupim; Thomson

Black&Cia (equipamentos ingleses) responsável pela instalação das usinas São José e

Santo Antônio.

Uma das noções das teorias de Spencer, cara aos intelectuais brasileiros neste momento,

segundo a qual o progresso econômico e social passa pela industrialização, induziu,

provavelmente, o francês Clóvis Arrault, um pintor estabelecido na cidade, a criar, em

1885, o Liceu de Artes e Ofícios. Vê-se o surgimento do ensino aplicado à indústria, com

cursos de matemática, de desenho, e de escultura, não só abertos aos alunos regularmente

inscritos, mas também aos artesãos, trabalhadores e aprendizes.

Este movimento de modernização pregava mudanças na estrutura social brasileira antes

baseada no regime escravista e ligada ao mundo rural e faz aumentar a pressão contra este

regime. As indústrias e o estabelecimento de ensino técnico permitem a valorização do

trabalho remunerado com a conseguinte busca do aperfeiçoamento da mão de obra. Com a

instalação de grandes estabelecimentos comerciais, o número de trabalhadores urbanos

aumenta.

Dentre as diferentes indústrias, destacava-se a fábrica de tecidos que contribuiu

amplamente para a mudança da morfologia social e urbana da cidade. A Fábrica de

Tecidos Fiação Industrial Campista, instalada em 1885, na Avenida Beira Rio no bairro da

Lapa pelo empresário Francisco Saturnino Braga. Sua inauguração é anunciada da seguinte

maneira: “A fábrica de tecidos inaugurada por Francisco Ferreira Saturnino Braga vem

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constituir um elemento de progresso a mais para o nosso importante Município (Almanach

de 1885, p. 95)".

Junto à fábrica, nasce o primeiro bairro operário, favorecendo a expansão da cidade e

transformando sua paisagem, conforme o trecho a seguir:

(...) ao mesmo tempo em que ela faz aparecer divisão funcional e social do espaço: esta
parte da cidade será, a partir de então, caracterizada como industrial e operário. A fábrica
ocupa uma superfície de 1.568 m², em 1902 ela empregava 110 operários homens e
mulheres e crianças (O Monitor Campista de 08/03/1902) e em 1910 ela empregava 210
(Folha do Commércio de 24/02/1910).

As atividades estritamente urbanas influenciam diretamente as transformações do espaço e

da paisagem da cidade e confirmam Campos como “mundo citadino”

As atividades financeiras e os Serviços

As atividades financeiras, que tinham começado de maneira informal com empréstimos de

dinheiro feito por comerciantes e pela Santa Casa de Misericórdia, são institucionalizadas a

partir do grande movimento imposto pelo desenvolvimento da economia urbana. O que

estimulou a instalação de bancos, como por exemplo, o Banco Comercial e Hipotecário

(1873) que funcionou durante mais de oitenta anos. Ao Banco de Campos e ao Banco do

Brasil somou-se a Caixa Econômica de Campos, fundada em 1834, permanecendo em

serviço até 1897.

Também o setor de serviços era ampliado. Serviços novos apareceram para atender as

necessidades das atividades industriais, comerciais e financeiras de uma sociedade em

pleno desenvolvimento. No setor público, foram construídos novos edifícios, não só para

melhorar a qualidade de serviços oferecidos, mas para acompanhar as exigências dos

projetos que modernizavam a cidade, introduzindo uma nova racionalidade nos usos e na

organização do espaço urbano. Assim, em 1872, um matadouro é construído afastado da

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cidade, na Rua Beira Rio perto da estrada do Rumo, atualmente Rua Riachuelo, conforme

as exigências de higiene. O edifício dos Correios foi instalado em 1876, no térreo do

edifício dos Telégrafos, na Praça São Salvador, e uma nova prisão foi construída, também

afastada da cidade, na Rua Beira Rio, perto da Coroa vindo a substituir o velho edifício

colonial que impedia a visão da Praça São Salvador. O matadouro e a prisão,

respectivamente, cujas funções requeriam que fossem construídos afastados da cidade,

terminavam por definir os limites da zona urbana.

Legenda: Lado direito da Praça São Salvador, em destaque o edifício dos Telégrafos e Correios.

São estes novos usos e novas práticas que dão um novo sentido à cidade, cria uma nova

ordem, evidenciando as contradições entre o espaço urbano e espaço rural, transformando

lentamente a composição social e a morfologia urbana, a partir de novos dados econômicos

e da introdução de novos valores, os da burguesia nascente.

4- A nova burguesia: comerciantes, profissionais liberais e os intelectuais

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Novos grupos constituídos por comerciantes, investidores, industriais, profissionais

liberais, intelectuais e altos funcionários públicos se distinguem na paisagem da cidade.

Esta diversificação e heterogeneidade social foi possível graças ao movimento de

modernização que trouxe as indústrias, companhias de navegação e de transporte

ferroviário, um comércio variado e, também, novos serviços públicos. Conformaram, pois,

neste fim do século 19, uma nova elite, participando da produção de uma nova forma

urbana, através de seus valores, escolhas estéticas, necessidades e de desejos. Podemos

afirmar que a sociedade de Campos, nestes anos 1870-90, é verdadeiramente uma

sociedade em transição onde se assiste à instituição de uma ordem burguesa em seguida da

abolição da escravidão.

As transformações dos meios de produção e de transportes e o aparecimento de novas

funções urbanas contribuíram para a explosão da cidade. A antiga aristocracia é

substituída, pouco a pouco, por uma elite urbana emergente. Esta explosão do mundo

urbano mudou o quadro demográfico também pela chegada de novos investidores. H. de

Souza (1935) dedica um capítulo de seu livro, com o título "As colônias amigas”, aos

diferentes imigrantes vindos de vários países que se instalaram na cidade a partir da

segunda metade do século 19 e ressaltou que o seu número aumentou no final do século.

Ele menciona quase quinhentos nomes cuja maioria é de franceses, ingleses, sírios, belgas

e portugueses que se dedicaram ao comércio, à indústria e a diversos ofícios: os franceses

Jean Vigné e Jean Arthés, com as lojas de tecidos e moda francesa, Ressignier com a

padaria “A Francesa”, Benoît, tintureiro e o pintor Clóvis Arrault que fundou a escola

secundária de Artes e Ofícios; o alemão Guilherme Bolkal, fotógrafo; os italianos Vicente

Renner, relojoeiro e Carlos Rinaldi, pianista e o arquiteto, José Benevento, entre muitos

outros.

Os comerciantes: a elite urbana

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Em Campos, os usineiros passaram a constituir a elite socialmente e economicamente

dominante que pretendia se distinguir dos outros grupos sociais, isto é, das camadas

urbanas em ascensão, mantendo práticas idênticas às dos barões do açúcar. Mas, de acordo

com Lamego Filho (1978), embora a indústria açucareira representasse a riqueza da

planície, o comércio monopolizava os lucros de modo que os comerciantes sempre

tentaram alcançar o poder político e o prestígio social, utilizando para tal o dinheiro, o

acesso a terra e a produção de açúcar.

As suas relações com os proprietários de terras ou com os produtores de açúcar passavam

pela via do matrimônio ou pelo empréstimo de dinheiro. A liberação do capital e a lei

sobre as sociedades anônimas, promulgada em 1875, permitiram aos comerciantes

enriquecidos com os negócios do açúcar associar-se aos usineiros, concretizando a união

do capital comercial com o setor agrícola. Deste modo, os negociantes e refinadores unem-

se aos produtores de açúcar: são criadas várias firmas distribuidoras deste produto,

algumas de empresas familiares com o objetivo de unificar os esforços e investir mais

amplamente, já que tais empreendimentos se revelavam impossíveis, isoladamente

(Manhães Alves, 1995, p.57).

O empresário Francisco Saturnino Braga é o exemplo mais concreto do poder de influência

social dos comerciantes na cidade, conquistado graças às suas ligações com os vários

setores sociais e econômicos da vida rural e urbana. Além de ser o dono da Tecidos

Industrial Campista, ele era um fazendeiro, sócio de usinas, presidente da Companhia

Estrada de Ferro Campos-Carangola, membro do Conselho Administrativo do Banco

Caixa Econômica de Campos e acionista da Companhia Estrada de Ferro Campos-São

Sebastião. Outro exemplo é o do Comendador José Gomes da Fonseca Paraíba que se

dedicou, quase exclusivamente, às atividades comerciais de importação e exportação e foi,

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também, diretor das Companhias Estrada de Ferro Campos-São Sebastião e Campos-

Carangola.

Nos anos 1880, havia um grande número de comércios instalados na cidade. O almanaque

de 1884 demonstra que, em 1881, Campos possuía 267 comércios e 143 oficinas. Os

comerciantes constituíram a Associação Comercial que, antes de ter sua sede própria -

construída em 1893, na Praça São Salvador - tinha suas reuniões na sede do Poder

Municipal, o que demonstra o prestígio da Associação no meio político. Foi através da

Associação Comercial de Campos que os comerciantes e empresários legitimaram sua

representação política. Ela veio a estar presente em todos os grandes empreendimentos no

espaço urbano, incitando diferentes ações na construção de novas concepções da cidade e

do mundo urbano 6

Profissionais liberais

Entre as atividades que podemos definir como urbanas, as profissões liberais são umas das

mais características. Pode-se distinguir alguns nomes no meio político, especialmente entre

médicos e engenheiros.

Os médicos exerceram uma influência no espaço urbano pelo viés das questões ligadas ao

higienismo, conduzindo as reformas urbanas e lançando as bases do urbanismo moderno.

A partir da criação de setores especializados em saúde e higiene públicas, ocuparam um

lugar seguro na administração municipal. Além disso, os médicos foram responsáveis pela

publicação de várias revistas relativas à higiene que se tornaram na virada do século uma

questão de ordem social e moral.

6
As informações relativas às suas realizações, projetos e ideologia são veiculadas principalmente no jornal
Folha do Comércio (1907). Publicação mensal, a revista Gênesis. Esta também tem um papel muito
importante. Ver Peixoto Faria, 1998, p. 377-393.

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Os engenheiros, neste período de reformas urbanas obtiveram uma posição importante no

meio social e político. Tornaram-se funcionários municipais nos serviços relativos às obras

públicas, empregados nas várias companhias ferroviárias ou construtoras de edifícios

públicos ou privados.

Os advogados também adquiriram cada vez mais reconhecimento no meio social e político,

ocupando postos na administração pública local e nos organismos estaduais ou federais

representados na cidade. Neste estágio de transformação do espaço urbano, desenvolveram

um papel considerável, pois estas reformas foram acompanhadas do desenvolvimento de

um código rígido de comportamento e de leis que regulavam o uso da terra e as

construções.

Os intelectuais e a construção de novas representações da cidade e do mundo citadino

É necessário sublinhar o impacto dos intelectuais - produtos e agentes da nova

configuração social e política - no movimento de abolição da escravidão, na instituição da

República, na expansão da produção industrial e agrícola e nas reformas urbanas. Eles

eram os agentes responsáveis pela instituição de novas formas e espaços de sociabilidade.

Sobretudo, através de seus escritos, eles participavam ativamente na concepção e na

divulgação da cidade moderna que se buscava criar. O meio intelectual se distinguia por

suas práticas literárias, especialmente, através do jornalismo. Através da imprensa,

dinamizada graças às instalações modernas, os intelectuais expressavam as suas idéias no

grande número de jornais publicados em Campos notado por Lamego Filho (1978, p. 178).

O movimento intelectual em Campos adquiriu uma nova importância na cidade com a

criação da Academia Campista de Letras e da Associação de Imprensa Campista no

princípio do século 20, com sede na Rua Formosa. Responsáveis pela publicação de jornais

de oposição como O Corsário, O Rebate, O Independente, embora sem repercussão junto

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ao grande público, incomodavam a imprensa oficial. Críticos ávidos de mudanças na

estrutura social rural e escravista campista integraram-se ao movimento nacional dos

intelectuais brasileiros que pregavam a modernização, a partir das teorias evolucionistas de

Spencer e as concepções organicistas do funcionamento social, herdadas do positivismo de

Comte. Isso permite-nos sublinhar a variedade de posições políticas e a multiplicidade de

opiniões relativas às mudanças do espaço urbano que a coletividade começava a expressar.

A imprensa indicava, portanto, a ampliação progressiva de atividades e a evolução dos

comportamentos, estimulando e enriquecendo as discussões intelectuais e políticas na

cidade 7.

Os teatros contribuíram amplamente para o desenvolvimento das letras e da cultura

campista, especialmente depois da criação do Teatro São Salvador, acolhendo

manifestações literárias, musicais e representações de grupos locais de teatro amador como

também trupes vindas de outros estados. Podemos mencionar dois nomes importantes para

a memória cultural de Campos: Silva Ultra (participante destas atividades teatrais desde

1834, ele era editor do Monitor Campista) e Múcio da Paixão (ele começa em 1890 e

escreve entre outros trabalhos, O movimento literário de Campos, em 1924). Uma

passagem de um de seus textos pode mostrar quanto os intelectuais abriram a opinião

pública para as novas concepções do mundo citadino:

(...) Ninguém se preocupa com a monarquia,


e nós não temos medo do cometa!
No Bulevard nós temos a imprensa,
Café e pão de manhã cedo.
Nós temos bilhares, de restaurantes,
e bancas de jornais,
e até mesmo cafés dançantes,
Todas estas coisas diferentes.
(...) Ruídos na via pública...
Mas nós desfrutamos a vida.

7
Destacam-se os 25 de Março (1884 a 1887) publicado pelo abolicionista Carlos de Lacerda ou o A
República, cujo editor era o médico Miguel Herédia de Sá. O movimento republicano também era
representado por um partido e um clube republicano fundado em 1888 (Feydit, 1979, p 374).

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Viva o Café! Viva a República!


Viva o nosso famoso Bulevard!

Os intelectuais indubitavelmente eram o grupo mais marcante nesta paisagem urbana em

mutação, renovada pelas intervenções inéditas que conduziam a novos modos de

funcionamento do espaço social, fazendo emergir novos valores e de comportamento que

levaram, finalmente, à constituição de novas práticas e relações sociais.

Considerações Finais

As estradas de ferro modelavam a cidade. Obedecendo a imperativos técnicos - como

evitar a entrada de trens na cidade e construção de uma única estação para centralizar o

movimento e organizar a circulação - as obras ligadas à instalação das estradas de ferro

recriavam o espaço urbano. A cidade organizada de acordo com as Estações ganhava

novos espaços, as distâncias eram reduzidas graças ao transporte público: trens, bondes e,

após, pelos trolley-bus e ônibus.

Em Campos, em função da crise econômica acirrada com a abolição da escravidão os

proprietários de terra também mudavam da zona rural para o centro urbano. Seus sobrados

rurais desabavam progressivamente em ruínas, enquanto seus solares urbanos, que por suas

grandes dimensões e organização baseada na utilização do trabalho escravo, não eram mais

compatíveis com o novo modo de vida, adquirindo novas funções. Como exemplo, o solar

do Barão da Lagoa torna-se o Liceu de Humanidades de Campos, o solar do Visconde de

Araruama torna-se Câmara Municipal, o solar Comendador Paraíba, Hotel Gaspar.

Conforme já dito, paralelamente às mudanças técnicas introduzidas na indústria açucareira,

as primeiras indústrias modernas apareceram, engendrando mudanças na paisagem da

cidade, desde a sua composição social até a morfologia urbana. Com a impulsão do

comércio, o aumento da produção e a instalação de indústrias, Campos entrou, num curto

espaço de tempo, entre 1870 e 1900, num processo de modernização aparentemente

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irreversível, marcado pela penetração de estradas de ferro, o que levou, forçosamente, a

implementação de uma nova racionalidade urbana implicando uma distribuição das

funções e um planejamento dos espaços.

Comerciantes enriquecidos com os negócios do açúcar associaram-se aos usineiros,

concretizando a união do capital comercial com o setor agrícola. As atividades financeiras,

que tinham começado de maneira informal com empréstimos de dinheiro foram

institucionalizadas no movimento imposto pela economia urbana. Novos grupos

constituídos por comerciantes, investidores, industriais, profissionais liberais, intelectuais e

altos funcionários públicos se destacavam na paisagem da cidade.

É o mundo citadino que revela Campos nos fins do século 19, não só pela adição de signos

de transformação de seu espaço construído, mas também, pela diversificação do seu quadro

social, permitindo a construção de novas representações da cidade e de sua sociedade

reforçando a sua identidade e caráter urbanos.

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São Fidélis, São João da Barra e Macaé, publicado por João Alvarenga, para o ano de
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São Fidélis, São João da Barra e Macaé, publicado por João Alvarenga, para o ano de
1884, Typographia do Monitor Campista.

Anuário Campista de 1921, publicado por João Barreto.

Relatório da Cia de Melhoramentos Urbanos de Campos: relatório que será apresentado


na Assembléia Geral dos Acionistas em 18/02/1994 por seu presidente Dr. Manoel Coelho
Barroso. Campos, Typographia Silva, Carneiro e Cia, 1894. BNRJ, Loc. 1.459.01.11, inv.
0001645447.

O Monitor Campista encontra-se arquivado na Biblioteca Municipal de Campos dos


Goytacazes e microfilmados na BN;

Jornal do Commércio e Gazeta do Povo encontram-se arquivados na Biblioteca Municipal


de Campos dos Goytacazes.

Ata da Câmara Municipal de Campos de 1890, arquivo da Câmara Municipal de Campos


dos Goytacazes.

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