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EAD

Perseguições Romanas,
Oficialização do Cristianismo
e Aliança com o
Estado Romano
3
1. OBJETIVOS
• Analisar as causas, o fundamento jurídico, a cronologia, o
significado e os escritos anticristãos relacionados às per-
seguições do Império Romano aos cristãos.
• Identificar as características da Igreja no Império Romano
Cristão: a expansão do Cristianismo nos primeiros sécu-
los, a conversão de Constantino, sua política religiosa e
seus sucessores até Teodósio.
• Interpretar a Igreja no Império Romano Cristão: expansão do
Cristianismo nos três primeiros séculos, conversão de Cons-
tantino, sua política religiosa e seus sucessores até Teodósio
e a oficialização do Cristianismo no Império Romano.

2. CONTEÚDOS
• Perseguições do Império Romano aos cristãos.
• Igreja no Império Romano Cristão.
140 © História da Igreja Antiga e Medieval

3. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE


Antes de iniciar o estudo desta unidade, é importante que
você leia as orientações a seguir:
1) O conteúdo que expomos neste material é a "porta de
entrada" para novos conhecimentos. Durante o estudo
desta disciplina, você terá todos os subsídios necessários
para realizar pesquisas e aprofundar seu conhecimento
sobre o assunto. Por isso, contamos com sua participa-
ção e dedicação para alcançarmos mais esse objetivo.
2) Para a maior compreensão desta unidade, sugerimos
que você leia as seguintes obras:
• PIERRARD, P. História da Igreja. São Paulo: Paulinas,
1982. Tradução de Álvaro Cunha.
• COMBY, J. Para ler a História da Igreja. Tradução de
Maria Stela Gonçalves-Adail V. Sobral. São Paulo:
Loyola, 1994. v. 2.
• GIBBON, E. Declínio e queda do Império Romano. São
Paulo: Companhia das Letras, 1980.
• MARKUS, R. A. O fim do cristianismo antigo. São Paulo:
Paulus, 1997.
3) Observe a atitude dos primeiros cristãos: sua coerência
e firmeza de fé os levavam a afrontar o império. O que
você pensa sobre os cristãos do mundo de hoje? Quais
são os obstáculos que enfrentam? Têm eles menos fé
que os homens da Antiguidade?
4) Os cristãos eram acusados de ateus por não participa-
rem dos cultos romanos.
5) Reflita sobre as acusações enfrentadas pelos cristãos da
época, relacionando-as àquelas de outras épocas.
6) Para conhecer melhor o contexto dessa perseguição,
sugerimos que você assista aos filmes: QUO VADIS. Di-
reção Leroy. Intérpretes: Robert Laylor; Deborah Kerr;
Leo Genn; Peter Ustinov e outros. Roteiro: S.N Behr-
man. Estados Unidos da América, 1951. DVD (171 min.),
Wides Creen, color.; CONSTANTINO E A CRUZ. Direção:
Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO
© Perseguições Romanas, Oficialização do Cristianismo e Aliança com o Estado Romano 141

Lionello de Felice. Produção: Beaver Champion Attrac-


tions, Jardran Film. Intérpretes: Cornel Wilde, Belinda
Lee, Massino Serato, Christine Kaufmann, Fausto Tozzi,
Tino Carraro, Carlo Ninchi, Vittorio Sanipoli e outros. Ro-
teristas: Michel Audley, Fulvio Palmieri, Franco Rossetti,
Guglielmo Santangelo. Longa Metragem. [S.l.]. Classic
Line, colorido.
7) Releia pontos considerados mais difíceis para poder es-
clarecê-los. Caso permaneçam dúvidas, utilize a SAV e,
em contato com o tutor e os colegas, solucione-as.

4. INTRODUÇÃO À UNIDADE
Na Unidade 2, você pôde compreender a organização e a
constituição da Igreja. Nesta unidade, focalizaremos a relação de
poder estabelecida pelo Império Romano contra os cristãos. Fo-
ram diversas as frentes de hostilidades levantadas contra os cris-
tãos: as judaicas, as dos pagãos, as calúnias populares e as dos
intelectuais.
Veremos, também, a expansão do Cristianismo nos três pri-
meiros séculos, a conversão de Constantino, sua política religiosa
e seus sucessores até Teodósio.
Vamos, então, aos acontecimentos no mundo cristão daque-
la época!

Informação ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Quando se trata o tema das perseguições sofridas pelos cristãos, é preciso es-
clarecer alguns pontos importantes:
• Nesta unidade, ponderaremos as perseguições sofridas pelos cristãos no perí-
odo que vai do século 1º ao 4º. No decorrer da História do Cristianismo, houve
muitas perseguições contra os seguidores de Cristo e, ainda hoje, ocorrem
perseguições contra cristãos.
• Outras religiões também sofreram perseguições em outros momentos da his-
tória humana.
• Os primeiros séculos da história cristã são chamados da época das perseguições.
Também se fala da época da Igreja das catacumbas, ou ainda, da Igreja das per-
seguições, ou Igreja dos mártires. Estas expressões são oportunas, mas histo-
ricamente apresentam limitações. Nem todos os cristãos dos primeiros séculos
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foram martirizados, ou seja, morreram em nome da fé. Nem todos os cristãos


deste período viveram escondidos nas catacumbas ou cemitérios subterrâneos
(só no início do século 3º é que os cristãos adquiriram cemitérios).
• As perseguições foram iniciadas pelos judeus e, depois, mais organizadas e
sistematizadas pelos romanos, a partir do ano 64 com Nero.
• Asssim, as perseguições que mencionamos aqui são aquelas promovidas pelo
Império Romano, de Nero (64 d.C) a Constantino e Licínio (311) d.C.
• Muitas perseguições foram locais (a de Nero só ficou em Roma), outras regio-
nais e outras, em todo o Império (como foi a de Diocleciano).
• Sabendo que as perseguições não duraram anos ininterruptos; muitos imperadores
deste período protegeram ou não perseguiram os cristãos: entre a paz de Galieno
(260-268) e a perseguição de Diocleciano (303) tivemos uns quarenta anos de paz.
• Número dos mártires: é impossível estabelecer um consenso. Há autores que
falam de 100 mil e aqueles que falam de mais de 1 milhão.
• Espiritualidade martirial: modelo para os cristãos dos primeiros séculos que acre-
ditavam que o melhor caminho para se chegar à santidade seria pelo martírio.
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5. PERSEGUIÇÕES DO IMPÉRIO ROMANO AOS CRIS-


TÃOS
O Cristianismo, desde suas origens, precisou fortalecer sua
identidade e conquistar seu espaço religioso e social num ambien-
te marcado pela forte presença da cultura judaica onde nasceu e,
também, pela influência política, social e religiosa das culturas ro-
mana e grega.

Hostilidades judaicas
Desde as primeiras décadas do Cristianismo, os judeus hosti-
lizaram os cristãos (morte de Jesus, de Estevão, prisão de Pedro e
dos apóstolos etc.), e muitos escritores cristãos falam que as sina-
gogas judaicas eram "mananciais das perseguições".
Assim, o primeiro desafio do Cristianismo foi libertar-se das
influências judaicas, pois tanto Jesus como seus discípulos eram
todos judeus. Tanto que, inicialmente, os cristãos conviviam har-
monicamente com os costumes sociais e religiosos judaicos, e só
com o decorrer de algumas décadas, é que foram se separando da
tradição judaica.
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A diferença estava, inicialmente, no fato de que os cristãos


acreditavam em Jesus como o Messias, e os judeus ainda aguar-
davam o seu advento. Quando ficou nítida essa diferença e os
cristãos insistiam na messianidade, ressurreição e novos ensina-
mentos trazidos por Jesus Cristo, foi difícil manter a unidade. Não
podemos esquecer que naquela época o Judaísmo estava dividido
em vários grupos ou seitas; assim, muitos consideravam o Cristia-
nismo uma seita entre tantas outras.
A cisão aumentou a conversão de judeus ao Cristianismo e,
principalmente, de pagãos ou gentios. Também, com a destruição
de Jerusalém no ano 70 d.C, e com a consequente dispersão judai-
ca a separação entre Judaismo e Cristianismo teve seu golpe final.
É claro que essa ruptura foi no plano mais disciplinar e institucio-
nal, pois a liturgia, os escritos e os hábitos judaicos permaneceram
presentes na vida dos cristãos.
Após escrever a expansão da comunidade cristã jerosomili-
tana e o início de um grande ciúme por parte dos judeus, González
assim descreve a primeira perseguição sofrida pelos primeiros cris-
tãos, quando fala do ocaso da Igreja judaica:
Logo, entretanto, aumentou a perseguição contra todos os cristãos
em Jerusalém. O imperador Calígula havia dado o título de rei a
Herodes Agripa, neto de Herodes o Grande. Segundo At. 12,1-3,
Herodes fez matar Tiago, o irmão de João – que não deve ser con-
fundido com Tiago, irmão de Jesus – e a o ver que Ito agradou a
seus súditos fez encarcerar também Pedro, que escapou milagrosa-
mente. No ano 62, Tiago, chefe da igreja, foi morto por iniciativa do
sumo sacerote e ainda contra a oposição de alguns fariseus.
Ante tais circunstâncias, os chefes da igreja de Jerusalém decidi-
ram transladar-se a Pela, uma cidade em sua maioria gentia ao ou-
tro lado do Jordão. Ao que parece, parte de seu propósito nessa
mudança, era não só fugir da perseguição por judeus, mas tam-
bém evitar as suspeitas por parte dos romanos. Com efeito, nessa
época o nacionalismo judeu estava em ebulição, e logo eclodiria a
rebelião que culminaria a destruição de Jerusalém pelos romanos
no ano 70. Os cristãos confessavam-se seguidores de alguém que
havia sido morto e curcificado pelos romanos, e que pertencia à
linhagem de Davi. Ainda mais, depois da morte de Tiago, o irmão
do Senhor, aquela antiga igreja continuou sendo dirigida pelos pa-
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rentes de Jesus, e a chefia passou a Simeão, que pertencia à mes-


ma linhagem. Diante do nacionalismo que florescia na Palestina,
os romanos suspeitavam de qualquer judeu que pretendesse ser
descendente de Davi. Portanto, este movimento judeu, que seguia
a um homem condenado como malfeitor, e dirigido por pessoas
da linhagem de Davi, tinha de parecer suspeito diante dos olhos
romanos. Pouco tempo depois alguém acusou Simeão como des-
cendente de Davi e como cristão, e este novo dirigente da igreja
judaica sofreu martírio. Diante dos escassos dados que sobrevive-
ram à passagem dos séculos, nos é impossível saber até que ponto
os romanos condenaram Simeão por ser cristão, e até que ponto
condenaram por pretender pertencer à casa de Davi. Mas, em todo
caso, o resultado de tudo isto foi que a velha igreja de origem ju-
daica, rejeitada tanto por judeus como por gentios, viu-se relegada
cada vez mais às regiões recônditas e desoladas.
Naquelas paragens distantes, o cristianismo judeu entrou em con-
tato com vários grupos que, em datas anteriores, haviam abando-
nado o judaísmo ortodoxo e se haviam refugiado além do Jordão.
Carente de relações como resto do cristianismo, aquela igreja de
origem judaica seguiu seu próprio curso, e em muitos casos sofreu
o influxo de diversas seitas entre as quais ela existia. Quando, em
ocasiões posteriores, os cristãos de origem gentia nos oferecem al-
gum traço daquela comunidade esquecida, nos falam de seus he-
reges e de seus estranhos costumes, mas raramente nos oferecem
dados de valor positivo sobre a fé e a vida daquela igreja que per-
durou pelo menos até o século V (GONZÁLEZ, 1995, p.35-36).

Império Romano e Cristianismo


Os romanos, que dominavam a Palestina no tempo de Jesus,
evitavam se intrometer nas questões religiosas dos povos por eles
conquistados e eram tolerantes em matéria religiosa.
Inicialmente, os romanos consideravam os cristãos um gru-
po judaico com suas características próprias como tantos outros
grupos da Palestina e eles preferiam que os judeus resolvessem
internamente suas questões religiosas. Eles só interviam em ques-
tões delicadas, e isto se percebe quando o Imperador Cláudio de-
cide expulsar os judeus de Roma. Como afirma González:
Um caso que ilustra esta situação é a expulsão dos judeus de Roma
pelo imperador Cláudio, por volta do ano 51. At 18:2 menciona ETA
expulsão, ainda que sem explicar suas razões. Mas o historiador ro-

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mano Suetônio nos oferece um dado intrigante, ao nos dizer que os


judeus foram expulsos de Roma porque estavam causando distúr-
bios constantes "por causa de Cresto". A maioria dos historiadores
concorda em que "Cresto" é o próprio Cristo, cujo nome teria sido
mal escrito. Portanto, o que sucedeu em Roma parece ter sido que,
como em tantos outros lugares, a pregação cristã causou tantas de-
sordens entre os judeus, que o imperador decidiu expulsar todos
eles. Em Roma, nestes tempos, a disputa entre judeus e cristãos
parecia ser uma questão interna dentro do judaísmo (1995, p. 51).

Na relação com o Império Romano, a dificuldade em rela-


ção aos cristãos surgiu quando estes propuseram um estilo de vida
distinto do dos romanos e quando evitaram adorar os deuses do
império, pois, no contexto daquele tempo, adorar os deuses do
império era um gesto de fidelidade política ao imperador, que, em
alguns momentos, também era visto como divindade. Assim, ao
não adorar os deuses do império, os cristãos atraiam a ira destes
que mandavam muitas desgraças para o povo.
É nesse contexto que, já no século 1º, surgiram as persegui-
ções. As primeiras foram motivadas pelos próprios judeus, e com
o imperador romano Nero, no ano 64, inicia as perseguições ro-
manas propriamente ditas. De Nero (ano 64) até Constantino (ano
313), o Cristianismo foi uma religião ilícita, por isso foram crescen-
do as hostilidades e calúnias dos romanos contra os cristãos.

Hostilidades dos pagãos


As chamadas "hostilidades pagãs" eram despertadas pelo
modo de viver dos cristãos (as acusações iam desde as calúnias
mais grosseiras até as objeções mais intelectuais) e também pela
fé monoteísta. Estas calúnias provocaram o surgimento das apolo-
gias cristãs, escritos que visavam justificar e explicar o Cristianis-
mo. Entre os apologistas, podemos destacar:
1) Aristides de Atenas (um dos primeiros a defender a fé
cristã com a sua Apologia).
2) Pápias (bispo de Hierápolis que escreveu uma Exposição
das Palavras do Senhor).
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3) Justino (convertido do paganismo, escreveu duas Apolo-


gias e o Diálogo de Trifão).
4) Teófilo (bispo de Antioquia que escreveu Ad Autolico).
5) Melitão de Sardes (bispo que escreveu uma Apologia).
6) Atenágoras de Atenas (escreveu Súplica pelos cristãos).
7) Irineu de Lyon (grande intelectual, escreveu Contra as
heresias), e temos muitos outros apologistas que defen-
deram a religião cristã dos ataques do Império Romano,
dos intelectuais e do povo.

Calúnias populares
O povo das várias cidades onde os cristãos fundavam suas
comunidades não tinha acesso ao culto cristão e isso deixava vá-
rias interrogantes ou dívidas sobre o que era e como se desenvol-
viam os ritos cristãos. Por outro lado, os cristãos não participavam
dos cultos públicos. Assim, os cristãos foram acusados de ateísmo
(negavam-se a participar dos cultos tradicionais, do culto imperial
e das religiões orientais) – o povo supunha que os cristãos não ti-
nham religião. Para a mentalidade antiga, isso era uma aberração
que ameaçava o equilíbrio social, com ofensas aos deuses que, por
isso, enviavam calamidades (inundações, terremotos, epidemias,
povos bárbaros) ao império, atingindo toda a população.
Muitos romanos acreditavam que os cristãos tinham um culto
abominável, o culto ao asno crucificado ou a um bandido condenado
à cruz. Deturpando a celebração da ceia eucarística, o povo acusava
os cristãos de prática do incesto, já que se amavam com os irmãos e
isto levava a crer que o culto tinha muitas orgias; também afirmavam
que a eucaristia tinha como momento mais importante um "banque-
te infanticida", em que se comia o corpo de Cristo e se bebia o seu
sangue (isso podia ocorrer com o sacrifício de uma criança).
Aprofundando esta questão, Jedin (1980, p. 204-205) afirma:
As comunidades cristãs que, como fruto do trabalho missionário,
surgiram por várias cidades do império, dado sua separação de tudo
o que tinha relação com o culto pagão, tinham que atrair sobre si,

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tarde ou cedo, a atenção do paganismo circunstante. Mas o interes-


se pagão pelo Cristianismo teve desde o princípio uma tendência
negativa e até hostil, que é tanto mais surpreendente, quanto que,
se prescinde de estalidos isolados de hostilidade contra o judaísmo,
não era comum semelhante reação das massas gentias contra os
novos cultos religiosos vindos do oriente. Estes cultos orientais não
cristãos desenvolviam, além do mais, uma viva propaganda que,
em casos isolados, conseguiu êxitos consideráveis. As causas, pois,
da atitude de repulsa por parte pagã frente aos seguidores da nova
religião devem ser buscadas nela mesma. A causa radicava na pre-
tensão de absolutez com que aparecia a fé cristã; tal e como essa Fé
se entendia a si mesma, não podia ser tolerante com respeito a ne-
nhum outro culto religioso, e veio assim a se enfrentar, por princí-
pio com a religião estatal romana. Com isso, aparecia pela primeira
vez no império romano um movimento que não considerava a seu
Deus com o um deus particular; e sim como único verdadeiro Deus
e o só salvador do mundo, cujo culto não podia se compadecer com
a existência de qualquer outro culto. Os cristãos em sua vida diá-
ria eram conseqüentes com suas convicções e se fechavam numa
separação absoluta: por isso tinham que parecer pouco a pouco
ao paganismo circundante, inimigos declarados da antiga civiliza-
ção, muito marcada de manifestações religiosas. A atmosfera hostil
que assim se criava, foi além do mais, como se pode demonstrar,
alimentada pelo judaísmo da diáspora, que não podia perdoar aos
judeu-cristãos sua apostasia da fé de seus pais. Esse isolamento dos
cristãos fomentava além do mais, e até podiam ser semelhantes
aos obscuros rumores que lhes atribuíam atos dissolutos em seus
encontros noturnos com suspeitas de degeneração no culto religio-
so. Tudo isto constituía terra fértil da qual brotaria pouca estima pe-
los cristãos; estes eram para o pagão vulgar um grupo de canalhas,
que tinham bons motivos para temer a luz da publicidade. Bastava
qualquer fútil pretexto para que o povo pagão descarregasse sua
desconfiança e rancor represado e fizesse justiça com suas próprias
mãos sobre os partidários da nova fé, ou os arrastasse ante as auto-
ridades civis pedindo tumultuosamente seu castigo.

Calúnias dos intelectuais


Celso, no século 2º, e Porfírio, no século 3º, foram filósofos
pagãos que estudaram o Cristianismo para melhor orientar suas
acusações contra esta nova religião que crescia. As acusações eram
feitas em três direções:
1) Os cristãos são pobres homens ignorantes e pretensio-
sos: ambos afirmavam que os cristãos saíam entre as
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classes sociais inferiores, entre os escravos e trabalha-


dores braçais explorados e excluídos do sistema. Diri-
giam-se às mulheres, às crianças e aos escravos, apro-
veitando-se de sua credulidade e minavam as tradições
patriarcais e a família. Para eles, o Cristianismo, com sua
doutrina fechada e ambiciosa, contradizia os valores da
civilização romana.
2) Os cristãos eram maus cidadãos: pois não participavam
dos cultos da cidade e nem do culto imperial; não aceita-
vam os "costumes dos antepassados"; rejeitavam o servi-
ço militar e não queriam fazer parte do exército romano
e de suas conquistas e, finalmente, não tinham interesse
nos assuntos políticos nem na salvação do império.
3) A doutrina cristã era opositora da razão: vários pontos
da doutrina cristã eram vistos com desdém e contrários
aos sistemas religiosas da época. A encarnação era en-
tendida como um grande absurdo e loucura. Deus, per-
feito e imutável, não podia, como aconteceu na encar-
nação de Jesus, se rebaixar a ponto de se tornar uma
criança pequena; Jesus, para eles, não foi mais que um
pobre homem, incapaz de ter uma morte de sábio como
Sócrates. A doutrina de Jesus não é mais que uma cópia
imperfeita das doutrinas egípcias mais antigas. A ressur-
reição dos corpos é outra grande mentira. Os ritos dos
cristãos são imorais, pois incentivam a pessoa na perma-
nência dos vícios e erros.

Informação Complementar––––––––––––––––––––––––––––––
Celso foi um filósofo platônico do século 2º que escreveu um tratado contra os
cristãos chamado "Discurso Verdadeiro". O tratado não chegou até nós, mas
conhecemos partes de seu conteúdo porque ele foi objeto de uma refutação por
Orígenes, um dos padres da Igreja, em seu tratado "Contra Celso", escrito 70 ou
80 anos depois de Celso (SUBSOLO, 2007).
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Faz-se, então, necessário conhecer um pouco mais esses
escritores anticristãos. Como temos mais informações de Porfírio
(nascido em 233, na cidade de Tiro, na Fenícia), vamos nos deter
em sua vida. Ele viveu numa época em que alguns imperadores
perseguiam os cristãos e outros lhes ofereciam privilégios e tem-

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pos de paz. Um dos imperadores que mais protegeu os cristãos foi


Galieno (260-268), filho de Aureliano, imperador que perseguiu
os cristãos. Galieno emanou um rescrito, documento imperial, que
protegia os cristãos, oferecendo a eles liberdade de confissão, de
culto e de pregação; isso não quer dizer que a situação dos cristãos
era segura, mas eles tiveram uns 40 anos de paz e tranquilidade,
bem como relativas expansões . É neste contexto que viveu Porfí-
rio. Alguns afirmam que por conhecer tão bem a doutrina cristã,
ele teria sido cristão e depois apostatou. Foi discípulo do filósofo
Plotino, que não era cristão, mas também não combateu a nova
religião.
Segundo Jedin (1980, p. 552-554):
Em Porfírio se percebe uma atitude hostil ao Cristianismo já nos
seus primeiros escritos. Em sua Filosofia dos oráculos faz que um
oráculo de Apolo qualifique a uma cristã de inconvertível e incor-
rigível; a infeliz chorava a um deus morto, a quem, não obstante,
juízes retos condenaram à pior morte; os judeus são colocados aci-
ma dos cristãos. Os quinze livros Contra os Cristãos, em que Por-
fírio trabalhava desde 168, representam indubitavelmente a mais
importante contribuição ao grandioso ensaio do neoplatonismo
de renovar a sabedoria e religiosidade grega, e conservar para ela,
frente ao avanço vitorioso do cristianismo, sobretudo, a classe culta
do paganismo. Realizar com êxito a tarefa que se impunha Porfírio,
supunha neste tempo, muito mais que o propósito de Celso cem
anos antes. O cristianismo produzira obras literárias que impunham
respeito aos próprios pagãos instruídos Agora era, sobretudo, ne-
cessária uma ampla discussão da Bíblia que, a mercê do trabalho
de Orígenes, alcançara um amplo influxo. Para conseguir realizar
seu plano de impugnação geral do Cristianismo, Porfírio dispunha,
como o provam os fragmentos conservados, de um conhecimento
cabal das escrituras dos cristãos, de uma inteligência crítica, com
formação filológica completa e de uma notável arte de exposição.
Ao contrário do ´Alethes logos´ de Celso, a obra de Porfírio provo-
cou imediatamente a refutação do lado cristão [...]
Ainda quando Porfírio não condena a figura de Cristo tão acremente
como, por exemplo, aos evangelistas, apóstolos e cristãos em geral,
no entanto, se dão nela muitos traços que, a seu juízo, são incompa-
tíveis com uma personalidade realmente religiosa e heróica.
Cristo, sobretudo, não demonstra possuir o poder divino que pre-
tende; se nega, por medo, a se atirar do pináculo do tempo abaixo,
não é senhor dos demônios, desfalece lamentavelmente ante os su-
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mos sacerdotes e Pilatos; toda sua paixão é indigna de um ser divino.


Comparado com ele, o taumaturgo Apolônio de Tiana, do século I,
oferece uma figura mais impressionante. Depois de sua ressurreição,
em vez de aparecer a mulheres simples e desconhecidas, Cristo de-
via ter ido se apresentar vivo a Pilatos e Herodes, e até ao senado
romano, e deveria ter dado à sua ascensão aos céus um marco muito
mais grandioso; com isto teria economizado a seus seguidores duras
perseguições, pois ante tais demonstrações de poder teria emude-
cido qualquer dúvida sobre sua missão divina. Os evangelistas, com
sua exposição dos fatos e ditos de Jesus, são objeto de viva repulsa,
porque os inventam eles mesmos e, por fim, não os presenciaram.
Seus relatos estão cheios de contradições, inexatidões e absurdos
que não merecem fé alguma. As figuras principais da Igreja primitiva,
Pedro e Paulo, merecem de Porfírio uma grande antipatia. Pedro não
esteve, de modo algum, à altura do alto ofício a que foi chamado
e sua eleição foi um dos mais graves erros de Cristo. Paulo é apre-
sentado por ele como um caráter repelente: é duplo, trambiqueiro,
em perpétua contradição consigo mesmo; se corrige uma e outra
vez, prega em sua escatologia a doutrina do fim do mundo, do juízo
final e da ressurreição dos mortos, que provoca ao neoplatônico a
mais áspera contradição. O contraste entre Pedro e Paulo a respeito
da obrigatoriedade da lei mosaica para judeu-cristãos e cristãos da
gentilidade, tão pouco escapou a Porfírio; segundo ele, um e outro
aparecem nesta questão como tristes figuras. Também as doutrinas
centrais da fé cristã e os traços essenciais do culto são fortemente
rejeitados. A doutrina de Cristo exigiria uma fé irracional o que é um
atentado contra todo pensamento e toda formação filosófica. O mo-
noteísmo cristão é, no fundo, um politeísmo mal dissimulado, pois
os anjos aparecem igualmente como seres divinos. A doutrina da en-
carnação enche de espanto a todo grego, e mais ainda, a eucaristia
cristã, na qual Porfírio vê um rito que não tem igual nem entre as
tribos mais selvagens.

Em suma, podemos sintetizar os motivos que promoveram


as perseguições contra os cristãos.
a) Motivos pelos quais os judeus perseguiram a Jesus e
seus discípulos:
1) dificuldade em aceitar a divindade e messianidade
de Jesus Cristo;
2) rejeitar o caráter de renovação da Lei e das tradições
que Jesus Cristo tanto pregou;
3) rejeitar o caráter universa­lista do Cristianismo;
4) tratar os cristãos traidores da pátria e da religião judaica.

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b) Motivos pelos quais os romanos perseguiram os cristãos:


1) desprezo dos romanos pela Palestina e tudo o que
viesse de lá;
2) cristãos valorizavam a mulher, a criança, o doente,
o pobre, o escravo, os excluídos. Na cultura gre-
co‑romana, estes segmentos eram menosprezados
e marginalizados;
3) cristãos tinham discurso evangélico marcado pelo paci-
fismo, humildade, solidariedade e fraternidade, virtudes
estas pouco cultivadas pelos romanos, que acreditavam
na força, no poder, na prepotência e no orgulho;
4) o pacifismo fazia com que os cristãos não se inte-
grassem ao exército, o que era visto como traição e
sinal de pouco amor ao império;
5) cristãos não praticavam o "culto do Imperador", que
ajudava a reforçar a integração imperial por meio da
veneração a o mesmo;
6) os cristãos, ao não praticar o culto ao Imperador,
eram considerados traidores da pátria e opositores
do regime: deveriam ser punidos;
7) atitude monoteístas dos cristãos que só adoravam
ao Deus de Jesus Cristo. Segundo a crença romana,
os deuses do Império ficavam descontentes, irados e
mandavam desgraças (secas, inundações, perda das
safras, invasão dos bárbaros, derrotas militares) sobre
o Império;
8) cristãos eram considerados ateus e maus cida­dãos
por não adorar os deuses e, por isso, deveriam se
retificar ou ser condenados.
Vejamos, a seguir, a cronologia das perseguições movidas
pelos imperadores romanos.

Cronologia das perseguições movidas pelos imperadores


romanos
As perseguições contra o Cristianismo foram muitas, porém as da
época antiga ocorreram nos três primeiros séculos e levaram o nome
152 © História da Igreja Antiga e Medieval

dos imperadores romanos da época. Houve imperadores que não per-


seguiram os cristãos, e alguns até simpatizaram com o Cristianismo.
Outros promoveram perseguições que levam seus nomes e
nem sempre as perseguições duravam todo o período de reinado
dos imperadores, pois havia tempos de paz, seguidos de tempos
de perseguição.
Vamos conhecer, agora, alguns imperadores:
Nero (54-68): foi o primeiro imperador a perseguir os cris-
tãos, provavelmente por instigação de judeus que tinham acesso à
corte imperial. A perseguição ocorreu nos anos 54-55 e foi gerada
em torno de um incêndio que durou sete dias e teria sido provoca-
do pelo próprio Nero, que desejava reformar uns bairros antigos e
pobres do centro de Roma. Diante da insatisfação do povo que se
revoltou contra Nero, ele acusou os cristãos e muitos foram cruel-
mente torturados e martirizados, entre eles, Pedro e Paulo. Esta
perseguição, ao que tudo indica, ocorreu só na cidade de Roma e
não teve incidência em outras regiões do império, o que poderia
ter ocorrido posteriormente, pois suspeita-se que Nero queria es-
tender a perseguição antes de sua morte (suicídio), no ano 68 d.C.
A partir desse momento, o ódio popular cresceu contra os cris-
tãos e ocorreram muitas outras perseguições contra aquela que
foi chamada de uma "nova e maléfica superstição". O historiador
romano Tácito na obra Anais, 15:44, refere-se a este fato e deixa
entrever que os cristãos eram inocentes e que foram acusados,
principalmente, pelo estilo de vida que levavam, que era distinto
da maioria das pessoas do império. Em contrapartida, percebe-se
também o que se pensava e falava dos cristãos, que já não eram
mais identificados como judeus, mas sim como membros de uma
outra seita palestinense, fundada por Cristo. Assim escreve ele:
Apesar de todos os esforços humanos, da liberalidade do impera-
dor e dos sacrifícios oferecidos aos deuses, nada bastava para apar-
tar as suspeitas nem para destruir a crença de que o fogo havia sido
ordenado. Portanto, para destruir esse rumor, Nero fez aparecer
como culpados os cristãos, uma gente odiada por todos por suas

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© Perseguições Romanas, Oficialização do Cristianismo e Aliança com o Estado Romano 153

abominações, e os castigou com mui refinada crueldade. Cristo, de


quem tomam o nome, foi executado por Pôncio Pilatos durante o
reinado de Tibério. Detida por um instante, esta superstição dani-
nha apareceu de novo, não somente na Judéia, onde estava a raiz
do mal, mas também em Roma, esse lugar onde se narra e encon-
tram seguidores de todas as coisas atrozes e abomináveis que che-
gam desde todos os rincões do mundo. Portanto, primeiro foram
presos os que confessaram (ser cristãos), e baseadas nas provas
que eles deram foi condenada grande multidão, ainda que não os
condenaram tanto pelo incêndio mas sim pelo seu ódio à raça hu-
mana ( GONZÁLES, 1994, p. 55).

Domiciano (81-96): após a morte Galba, houve um tempo


de paz para os cristãos nos reinados de Vespasiano e Tito, entre
os anos 65 a 94. Nessa época, no ano 70 a cidade de Jerusalém
foi destruída pelo general romano Tito e a cisão entre cristãos e
judeus foi definitiva. Por outro lado, muitos romanos ainda iden-
tificavam os cristãos como nacionalistas judeus. Também foi um
período no qual houve uma grande produção de escritos cristãos:
evangelhos de Marcos, Lucas e João, várias cartas paulinas, as car-
tas de Tiago, Pedro e Judas e a carta aos Hebreus; isso demonstra
um clima de segurança e estabilidade, que só foi rompido com a
perseguição de Domiciano:
No ano 81 Domiciano sucedeu ao imperador Tito. A princípio, seu reino
foi tão benigno à nova fé como o haviam sido os de seus antecessores.
Mas, no final de seu domínio desatou-se novamente a perseguição.
Não sabemos com certeza por que Domiciano perseguiu os cristãos.
Sabemos sim que Domiciano amava e respeitava as velhas tradições
romanas, e que boa parte de sua política imperial consistiu em res-
taurar essas tradições. Portanto, era de se esperar que se opusesse
ao cristianismo, que em algumas regiões do Império havia ganho
muitíssimos adeptos, e que em todo caso se opunha tenazmente à
antiga religião romana. Além disso, agora que já não existia o Templo
de Jerusalém, Domiciano decidiu que todos os judeus deviam enviar
às arcas imperiais a oferta anual que antes mandavam a Jerusalém.
Quando alguns judeus negaram a fazê-lo ou mandavam o dinheiro
ao mesmo tempo que deixavam claro que Roma não havia ocupado
o lugar de Jerusalém, Domiciano começou persegui-los e a exigir o
pagamento da oferta. Já que ainda não estava totalmente delimitada
a relação do judaísmo com o cristianismo, os funcionários imperiais
começaram a pressionar todos os que praticavam "costumes judai-
cos". Assim se desatou uma nova perseguição que parece haver sido
154 © História da Igreja Antiga e Medieval

dirigida, não somente contra os cristãos, mas também contra os ju-


deus. Como no caso de Nero, parece que a perseguição não foi igual-
mente severa em todo o Império. De fato, é só de Roma e da Ásia
Menor que temos notícias fidedignas acerca da perseguição.
Em Roma, o imperador fez executar ao seu parente Flavio Clemt-
ne e a sua esposa Flávia Domitila. Foram acusados de "ateísmo" e
de "costumes judaicos". Já que os cristãos adoravam um Deus in-
visível, em geral os pagãos os acusavam de serem ateus. Portanto,
é muito provável que Flávio Clemente e sua esposa tenham sido
mortos por serem cristãos. Estes são os únicos dois mártires ro-
manos no tempo de Domiciano que conhecemos pelo nome. Mas
vários escritores antigos afirmam que foram muitos, e uma carta
escrita pela igreja de Roma à de Corinto pouco depois da perse-
guição se refere a "os males e provas inesperadas e seguidas que
sobrevieram a nós" (I Clemente 1).
Da perseguição na Ásia Menor sabemos mais, graças ao Apocalipse,
que foi escrito em meio a essa dura prova. João, o autor do Apocalipse
havia sido deportado à ilha de Patmos e, portanto, sabemos que nem
todos os cristãos eram condenados à morte. Mas há muitas outras pro-
vas de que foram muitos os que sofreram e morreram em tal ocasião...
Felizmente, quando se desatou a perseguição o reino de Domiciano
chegava ao fim. Com Nero, Domiciano havia recebido fama de tirano e
por fim foi assassinado em seu próprio palácio e o senado romano fez
com que se apagasse o seu nome de todas as inscrições e monumen-
tos em sua honra. Uma vez mais, o Império parece ter esquecido os
cristãos. Assim, a nova fé pode continuar se espalhando pelo Império,
gozando de um período de relativa paz (GONZÁLEZ, 1995, p. 58-60).

Trajano (97-117): com este imperador houve uma retomada


do expansionismo político e comercial romano e o imperador não
se ocupou tanto com as questões religiosas. O problema cristão
vem à tona quando surge uma questão de jurisprudência levanta-
da pelo governador da Bitínia, Plínio o Jovem, que tinha dúvidas
sobre o perseguir ou não os cristãos e busca o conselho do impe-
rador. Pierini (1998, p.64-66) assim relata este assunto, após falar
dos conflitos entre romanos e judeus:
A novidade da época é, porém, o início da polêmica entre pagãos e
cristãos. Sob o reinado de Trajano, o primeiro a levantar a questão é
Plínio, o Jovem. Exercendo o cargo de procônsul na Bitínia, vê-se dian-
te da necessidade de julgar indivíduos acusados simplesmente de ser
cristãos. Ele sabe que os cristãos devem ser perseguidos (é o rastro
deixado pelas perseguições de Nero e Domiciano), mas não sabe como

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© Perseguições Romanas, Oficialização do Cristianismo e Aliança com o Estado Romano 155

comportar-se em relação ao processo e ao mérito das acusações; toda-


via, procede da maneira costumeira, interrogando-os e condenando-
os, quando obstinados. Ocorrendo dúvidas, escreve ao imperador em
112 confessando a própria ignorância ("não sei o que se deve fazer ou
até que ponto se deve punir ou persegui-los") a respeito da substância
mesma da questão ("se se deve unir o próprio nome de cristão, ainda
que isento de crimes, ou os crimes independentemente do nome").
A resposta de Trajano exprime não só as anomalias típicas do direito
penal romano, mas também a incerteza frente a um fenômeno (o
delito de opinião) totalmente fora das categorias ordinárias: "Não
se pode estabelecer - escreve o imperador- uma regra geral, que
possa funcionar com o uma fórmula fixa. Não é o caso de persegui-
los. Se forem denunciados e houver culpa, devem ser punidos, mas
com esta restrição: quem negar ser cristão e o provar com fatos,
adorando os nossos deuses, poderá com seu arrependimento obter
o perdão, ainda que seu passado seja suspeito. As denúncias anô-
nimas não devem ter nenhum valor, e, nenhum tipo de denúncia,
porque são um exemplo deplorável e indigno do nosso tempo".
Os mesmos conceitos, substancialmente, são reafirmados por
Adriano, por volta do ano 128, num rescrito ao procônsul da Ásia
Minúcio Fundano, acrescentando, porém, que a condenação deve
decorrer de uma culpa específica: Se o acusador demonstrar que
(os cristãos) infringiram as leis, então determina a pena segundo a
gravidade da culpa". Também aqui, na falta de conceitos jurídicos
precisos, apela-se para o critério do "caso a caso!".
Uma outra carta, esta bem mais favorável aos cristãos atribuída a An-
tonino Pio e endereçada a uma assembléia federal na Ásia, não espe-
lha a situação real e é considerada totalmente apócrifa. As atitudes
das autoridades imperiais em relação aos cristãos tornam-se mais
precisas com o crescimento da polêmcia, que deixa cada vez mais
claros os termos da questão. Por volta da metade do século II acumu-
lam-se as censuras de Epíteto, Frontão de Cirta, Hélio Aristides, do
filósofo cínico Crescente, até que se chaga ao juízo pessoal de Marco
Aurélio a respeito dos cristãos, que neles destaca depreciativamente
a "obstinação da vontade", e à sátira que lhes reserva Luciano de
Samosata, zombando dos dois elementos que mais impressionavam
os pagãos: o amor fraterno e o desprezo pela morte.
Informação–––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Mas houve momentos de perseguição contra os cristãos e aqui se destaca o
mártir Santo Inácio de Antioquia, que foi levado a Roma para ser morto e neste
contexto, escreveu sete belas cartas nas quais não renuncia à sua fé cristã e faz
uma grande apologia do Cristianismo e da santificação por meio do martírio. Es-
creveu carta aos cristãos de Roma, Éfeso, Magnésia, Filadélfia, Esmirna, Trales,
e uma pessoal a São Policarpo de Esmirna, também martirizado no ano 154.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
156 © História da Igreja Antiga e Medieval

Adriano (117-138): em seu reinado e após as conquistas de


Trajano, o Império Romano chegou à sua maior extensão, mas já
se iniciavam várias revoltas e problemas em muitas regiões, o que
fez com que tivesse que reforçar as fronteiras e centralizar o poder.
De 132 a 135 ocorreu a rebelião dos judeus e Jerusalém foi destru-
ída e chamada de Aélia Capitolina. Adriano exigiu julgamento mais
correto para inibir a ação de alguns fanáticos que perseguiam os
cristãos sem motivos sérios. Mas, em seu reinado, houve também
perseguição contra os cristãos e muitos foram martirizados, com
destaque para: o Papa Telésforo, Sinforosa, Eustóquio.
Antonino Pio (138-161): com ele o Império Romano vive um
período de equilíbrio e paz dentro e fora de seus domínios. Contu-
do, aumentam alguns problemas, especialmente com a crise agrí-
cola e com a pressão em várias fronteiras do grande império. Ele
também evita perseguir os cristãos que ainda sofriam acusações
sem fundamentos. Nessa época, São Justino escreve sua Apolo-
gia ao imperador, intercedendo em favor dos cristãos e expondo
várias provas sobre a divindade de Cristo. Mesmo assim, tivemos
vários martírios: Lúcio e Ptolomeu em Roma e São Policarpo de
Esmirna e 11 companheiros.
Marco Aurélio (161-180): no tempo do imperador filósofo,
adepto do estoicismo, foram estourando vários problemas que
afetaram o equilíbrio do grande Império Romano: revoltas em vá-
rias fronteiras imperiais, pestes, fome e carestias em várias partes.
Para resolver os problemas e aplacar a ira dos deuses, ordenou-se
a todos os cidadãos do império que prestassem sacrifícios e ritos
expiatórios. A ausência dos cristãos fez com que surgissem muitos
mártires: os mártires de Lyon na França (Fotino, Blandina e outros
mártires), São Justino e Santa Cecília em Roma, a Legião Fulmínea
composta por soldados cristãos, seis mártires de Cílio na África
do Norte, o bispo Públio de Atenas etc. Nesta época, destacam-
se dois apologistas: Melitão de Sardes, que defendia uma união
entre império e Cristianismo e Atenágoras de Atenas, que suplica
o favor imperial em prol dos cristãos. Neste período surgiu o pla-
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© Perseguições Romanas, Oficialização do Cristianismo e Aliança com o Estado Romano 157

tônico Celso, um dos principais críticos do Cristianismo, com sua


obra Verdadeiro Logos ou Discurso verdadeiro: ele aproveita as
críticas judaicas ao cristianismo e também, aprofunda vários te-
mas da doutrina cristã para combatê-los: a encarnação, divindade
e ressurreição de Jesus e várias questões bíblicas.
Cômodo (180-192): contrariando o estilo de seu pai Marco
Aurélio, Cômodo fez um governo desastroso. Porém, por influência
de Márcia, sua concubina que era cristã, protegeu os cristãos. Mas,
mesmo assim, tivemos muitos mártires: seis mártires de Cartago,
Apolônio em Roma, Esperâncio, Nazário e companheiros etc.
Sétimo Severo (192-211): o período desastroso de Cômodo
faz com que seja escolhido um membro do exército. Assim, é re-
forçada a militarização do grande Império Romano, com forte cen-
tralização do poder e autoritarismo do imperador. Em relação aos
cristãos, ele tem atitude inicial de benevolência, mas posterior-
mente também autoriza a perseguição em função de alguns mo-
tins judaicos, também preocupado com o crescimento do número
dos cristãos; assim, proíbe a conversão ao Cristianismo, atingindo
especialmente os catecúmenos e neófitos. Entre os mártires des-
te período, citamos Leônidas de Alexandria, Perpétua e Felicidade
em Cartago.
Nesta época, surge um dos grandes apologistas cristãos, Ter-
tuliano:
Jurista e retórico de Cartago, depois de sua conversão, escreve uma
defesa do cristianismo (o "Apologeticum"), destinada aos gover-
nantes do Império. Ataca as violações do direito dos processos con-
tra os cristãos: ausência de advogado, uso da tortura não para ob-
ter confissões, mas para fazer abjurar; condenação não por causa
de crime, mas por causa de nome ("nomen christianum"); de outro
lado, os filósofos pagãos podem impunemente negar a existência
dos deuses. E contudo: as execuções não aniquilam a fé, mas a es-
palham ("semen est sanguis christianorum' – o sangue dos cristãos
é semente) (FRÖHLICH, 1987, p. 17).

Maximino Trácio (235-238): após a morte de Sétimo Severo,


tivemos vários imperadores que foram benevolentes com os cris-
158 © História da Igreja Antiga e Medieval

tãos (Caracala, Heliogábulo e Alexandre Severo). Maximimo foi o


"primeiro bárbaro" a ser imperador e mandou assassinar Alexan-
dre Severo e, com isso, perseguiu seus protegidos e decretou per-
seguição especial contra os membros da hierarquia cristã e mor-
reram alguns bispos: Papas Antero e Ponciano, antipapa Hipólito.
Mas a perseguição não atingiu muitas regiões do império e Maxi-
mino mesmo pôs fim à perseguição. Após sua morte, volta a reinar
uma paz relativa para os cristãos com Gordiano II e Filipe o Árabe,
que para muitos era cristão, mas não o assumiu publicamente por
causa da relação com o exército e com os setores imperiais que
eram anticristãos. Neste período, a Igreja vai crescendo e se orga-
nizando, inclusive, internamente já se fala de certo relaxamento
dos cristãos. É neste contexto que teremos uma das piores perse-
guições com o Imperador Décio.
Décio (249-251): com vários problemas internos e ameaças
externas nas fronteiras, Décio quis unificar o império e centralizar
o poder com a lealdade dos súditos. Para isso, decretou que todos
os cidadãos deveriam sacrificar aos deuses imperiais, mediante as-
sinatura de um documento chamado libelo. Muitos testemunha-
ram sua fé com os martírios, mas muitos sacrificaram aos deuses e
renegaram a fé cristã. Bihlmeyer assim relata esta perseguição:
Como observa São Cipriano, "para provar a sua família" Deus man-
dou outra perseguição. Foi de breve duração, mas violentíssima e
perigosa. É devida a Décio (249-51), um dos imperadores militares
pouco cultos, mas cheios de energia, de origem panônico-ilírica,
que realizaram uma política de restauração em grande estilo. Ele
queria dar ao império, quase em ruínas pela corrupção e a invasão
sufocante do costume oriental, maior força de resistência contra
os inimigos externos e internos e recolocá-lo no esplendor de ou-
tros tempos; julgava portanto, seu dever submeter à antiga religião
nacional unitária, em primeiro lugar, os cristãos, a seu ver os inimi-
gos mais perigosos do Estado Romano. Procedeu om tal decisão e
tão sistematicamente que a sua perseguição tem uma importância
superior a todas as precedentes e inaugura um novo período na
história das mesmas. Um edito do fim de 249 ou do início de 250
ordenava a todos os súditos oferecerem aos deuses, juntamente
com mulheres e devia-se proceder recorrendo a todos os meios
próprios de uma justiça cruel: cárcere, confiscação dos bens, exílio,

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© Perseguições Romanas, Oficialização do Cristianismo e Aliança com o Estado Romano 159

trabalhos forçados; depois, aumentando a aspereza, a tortura e,


finalmente, em certas circunstâncias – não em muitos casos - tam-
bém a pena de morte. Os bispos eram visados de modo especial
(tyrannus infestus sacerdotibus, Cipr. Ep. 55,9). Décio dizia tolerar
mais facilmente um rival no império do que um bispo cristão em
Roma. Visto que o golpe desabou como um raio em céu sereno,
grande foi o espanto dos cristãos. Infelizmente, em muitos casos,
eles deram prova de pouca força de resistência: nas grandes cida-
des como Alexandria, Cartago, Esmirna e Roma, verificou-se uma
defecção em massa; até alguns bispos traíram a fé. Uma parte dos
cristãos apóstatas (lapsi) ofereceu sacrifícios de animais ou de in-
censo aos deuses (sacrificati, turificati), outros, ao invés, sem ofe-
recer sacrifícios, souberam proceder de tal modo, seja com astúcia,
seja com corrupção, que conseguiram da autoridade o certificado
prescrito de sacrifício realizado (libellus) e o registro nas listas ofi-
ciais (libellatici, acta ou accepta facientes).
Mas houve também "uma multidão" (Cipr. De lapsis 2) de confes-
sores de mártires de todas as idades e sexo, firmes na sua fé; entre
outros o Papa Fabiano, uma das primeiras vítimas da perseguição
(a sua sede permaneceu vacante mais de um ano), o presbítero
Piônio de Esmirna, que foi queimado, os bispos Babila de Antioquia
e Alexandre de Jerusalém, os quais morreram no cárcere, o velho
Orígenes, que sofreu graves torturas, mas depois foi libertado. Mui-
tos, como os bispos Cipriano de Cartago, Dionísio de Alexandria e
Gregório, o Taumaturgo, de Neocesaréia, se salvaram a custos de
graves fadigas com a fuga (BIHLMEYER-TUECHLE, 1964, p. 92-93).

A perseguição terminou no ano 251, com a morte de Décio na


batalha contra os godos. Fruto desta perseguição foi a frustração com
tantos que abandonaram a fé. Por outro lado, muitos que sacrifica-
ram aos deuses ou compraram o libelo quiseram voltar para o seio
da comunidade cristã e isto gerou sérias discussões no seio da comu-
nidade. Surgiram as chamadas "controvérsias penitenciais", com um
grupo dos chamados "laxistas" que queriam a volta de todos ao seio
da comunidade e os "rigoristas", que ou não aceitavam o retorno dos
lapsos, ou que negaram a fé, ou que aceitavam o retorno mediante
grandes e pesadas penitências. Surgiram, inclusive, vários cismas que
provocaram grandes divisões em várias cidades do império.
Com o Imperador Galo (251-253), houve um tempo de paz,
mas depois um momento breve de perseguição; foram exilados os
papas Cornélio e Lúcio.
160 © História da Igreja Antiga e Medieval

Valeriano (253-260): no início de seu governo protegeu os


cristãos, mas a partir de 257 os perseguiu, de modo especial, a
hierarquia, minando a organização eclesial; proibiu também as vi-
sitas e culto nos cemitérios. Entre os mártires, destacamos o Papa
Sisto II, São Lourenço, São Cipriano, São Frutuoso de Tarragona,
Augúrio, Eulógio e muitos outros.
O Imperador Galieno (260-268) deixou os cristãos em paz e
restituiu os cemitérios e lugares de culto. Aureliano (270-275) ten-
tou fortalecer o culto do sol, mas não perseguiu os cristãos.
Diocleciano (284-305): inicialmente ele manteve a política im-
perial anterior E não incomodou os cristãos. Ele promoveu a tetrar-
quia, dividindo o grande Império Romano em quatro regiões admi-
nistrativas, com forte acento militar; esse projeto fez com que anos
mais tarde Constantino chegasse ao poder imperial e, entre tantas
ações, promovesse a liberdade aos cristãos. Houve um grande cres-
cimento do número de cristãos com muitas conversões, inclusive a
própria esposa de Diocleciano e sua filha eram cristãs. Ocorreram
muitas construções de igrejas em várias regiões. Galério, um dos im-
peradores, era adepto do culto ao imperador e induziu Diocleciano
à perseguição que teve seu início no ano 303 e foi muito forte e in-
tensa, exigindo destruição das igrejas e entrega dos livros sagrados.
Houve muitos mártires: Papa Marcelino, o bispo Antimo, Vítor, Mau-
ricio, Cândido, Legião de Tebas, Santa Úrsula, Pânfilo de Cesareia,
Luciano de Antioquia, Pedro de Alexandria etc. A situação começou
a mudar quando Diocleciano abdicou, no ano 305, e, depois, quan-
do as resistências foram sendo amainadas.
As perseguições cessaram com o Edito de Tolerância, dos Im­
pe­radores Constantino, Galério e Licínio, no ano de 311. Neste edito,
os imperadores recriminam os cristãos pela desobediência diante
das lideranças romanas; permitem a prática da religião e pedem as
orações cristãs para os imperadores e prosperidade imperial.
Nem todos os imperadores perseguiram os cristãos, havia
relativa paz nas comunidades cristãs. Segundo alguns cálculos, so-

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© Perseguições Romanas, Oficialização do Cristianismo e Aliança com o Estado Romano 161

mados os anos de perseguições aos cristãos, chega-se a um total


de 129 anos.
É impossível calcular o número de vítimas, alguns afirmam
que foi em torno de 100 mil e outros 10 milhões, o que é impensá-
vel. É claro que não devemos falar só dos mártires (testemunhas)
que morreram pela fé, mas também dos que foram torturados,
desterrados, dos que tiveram seus bens confiscados etc. Entre as
vítimas das perseguições, citamos grandes santos e santas da Igre-
ja: Pedro, Paulo, Flávia Domitila, Inácio de Antioquia, Simeão de
Jerusalém, Policarpo de Esmirna, Justino, Blandina, Cecília, Inês,
Perpétua e Felicidade, Ponciano, Antero, Fabiano, Lourenço, Eulá-
lia, Sebastião etc.
As perseguições tiveram consequências negativas para a
Igreja: dificultou a organização e expansão eclesial; os apóstatas e
lapsos deram maus exemplos; os cristãos foram menosprezados e
marginalizados.
O lado positivo: os mártires são considerados uma riqueza
eclesial; as perseguições fizeram com que aumentasse o fervor e
a piedade cristã; o mar­tírio tornou-se ideal de santidade para os
cristãos; os mártires eram admirados pelos pagãos, gerando mui-
tas conversões para a Igreja.
A Igreja sempre se orgulhou e valorizou seus mártires, pois
eles testemunham a fé cristã e o compromisso da construção do
Reino. São sinais de que o Evan­gelho do Reino ainda não é uma
realidade palpável no mundo e que a justiça, a solidariedade, a
fraternidade, a verdade e o amor ainda estão longe da vida huma-
na. Os mártires acenam para o valor da verdadeira vida e incomo-
dam todos aqueles e todas as estruturas que não valorizam nem
respeitam a dignidade do ser humano, imagem de Deus. Eles nos
recordam que a vida celestial futura deve ser o ideal a ser buscado
no "aqui e agora" da história humana.
O Cristianismo teve Mártires da fé, do amor e da justiça na
história antiga, medieval, moderna e contem­porânea. O mundo
162 © História da Igreja Antiga e Medieval

precisa desses profetas, ainda mais agora em que os ideais neo-


liberais e pós‑moder­nos geram tanta exclusão, margi­nalização,
violência, sofrimento e morte. Cito aqui alguns mártires da atuali-
dade, muitos dos quais ainda não estão nos altares da Igreja, mas
que, em pleno século 20, foram capazes de dar a vida pelo Reino
e pelo pró­ximo, testemunhando a virtude do amor e da justiça:
Maximiliano Kolbe; Edith Stein; Rutílio Grande; Oscar Arnulto e
Romero. No Brasil, podemos citar: João Bosco Penido Burnier; Eze­
quiel Ramin; Pe. Josimo Santo Dias da Silva; Ir. Adelaide Molinari;
Ir. Cleusa Carolina Rody Coelho, Ir. Doroty Stang e tantos outros.
As perseguições terminaram com o Édito de Tolerância, as-
sinado pelos Imperadores Constantino, Galério e Licínio, no dia 30
de abril de 311.
Com o Édito de Milão, no ano 313, os cristãos ganharam a li-
berdade de culto e, no final do século 4º, com o Imperador Teodó-
sio, o Cristianismo tornou-se a religião oficial do Império Romano.
Vejamos, agora, como foi a aproximação entre a Igreja e o
Império Romano.

6. IGREJA NO IMPÉRIO ROMANO CRISTÃO


O século 4º provocou grandes reviravoltas no Cristianismo:
de religião perseguida até o ano 311, passou a ser religião livre
no ano 313 e, já no final do século, com vários éditos imperiais de
Teodósio, entre 390 e 395, ano de sua morte, tornou-se a religião
oficial do Império Romano.
A atitude favorável do Imperador Constantino para os cristãos
trouxe como consequência uma mudança profunda no curso dos acon-
tecimentos da Igreja. O "Édito de Milão" do ano 313 admitia a liberda-
de dos cidadãos adorarem ao Deus em quem acreditavam: inúmeros
historiadores admitem que a mudança introduzida por Constantino nas
relações entre a Igreja e o Império Romano foi um acontecimento de
consequências incalculáveis na relação entre Estado e Religião.

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© Perseguições Romanas, Oficialização do Cristianismo e Aliança com o Estado Romano 163

Informação Complementar––––––––––––––––––––––––––––––
Há várias posições sobre a relação entre Cristianismo e Estado. Existem os que
consideram que a aliança entre a Igreja e o Estado, até chegar a converter-se o
Cristianismo em religião oficial do império (390), colocou os cristãos e a hierar-
quia eclesiástica numa dependência diante do Estado (cesaropapismo). Outros a
veem como uma situação de privilégio, porque a "liberdade religiosa" decretada
em Milão foi substituída a favor da Igreja e contra o paganismo, o que provocou
muitos equívocos até nossos dias. Inclusive, houve momentos, especialmente na
Idade Média, em que o Cristianismo assumiu o poder político e temporal, muitas
vezes afastando-se do Evangelho e da justiça social, e praticando atos de nepo-
tismo, corrupção e abuso de poder. Mas, isto veremos em outra unidade.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
A situação criada com a conversão de Constantino favoreceu
muito a expansão do Cristianismo, que penetrou nas classes supe-
riores do império e chegou até as regiões mais distantes e isoladas.
Mas também deu lugar a conversões menos sinceras e por moti-
vos menos nobres. Podemos afirmar que houve luzes e sombras,
pontos positivos e negativos para ambos.
Assinalo aqui elementos positivos da aproximação entre
Igreja e Estado:
• a liberdade da Igreja, com a qual esta conseguiu expandir
todas as suas forças internas;
• a organização eclesial alcançou um grande desenvolvi-
mento: hierarquia, liturgia, concílios, catequese, ações
beneficentes etc.;
• a expansão missionária teve, também, um extraordinário
incremento e foi possível evangelizar as regiões monta-
nhosas e os lugares mais afastados das cidades.
Enquanto, no início do século 4º, apenas a décima parte do
Império Romano era cristã, um século depois pode-se dizer que
quase todo o império fora batizado; mérito não pequeno da Igreja
desse tempo é a sistematização teológica da mensagem evangélica
por obra dos grandes padres e doutores da Igreja, como Atanásio,
Basílio, Gregório, Agostinho e Jerônimo.
Existem também espessas trevas na Igreja desse segundo
período da Idade Antiga:
164 © História da Igreja Antiga e Medieval

• a excessiva dependência do poder político, que chegou a


se degenerar em autêntico cesaropapismo;
• a decadência alarmante do altíssimo nível de moralidade
e de exigências da vida cristã, que havia caracterizado os
cristãos dos primeiros três séculos.
Pode-se afirmar, desse modo, que o mundo romano estava
batizado, mas não convertido.

Império Romano cristão: expansão do Cristianismo durante os


três primeiros séculos
Os primeiros cristãos exerceram grande atividade missioná-
ria (Mt 24, 10): as viagens dos apóstolos e de São Paulo por di-
versas regiões do Império Romano, a fundação de comunidades
cristãs nas principais cidades do império, embora houvesse pouca
penetração cristã nas regiões rurais.

Informação Complementar––––––––––––––––––––––––––––––
Segundo cálculos aproximativos, sobre uma população de 50 milhões de habi-
tantes no Império Romano, eram cristãos uns 6 ou 7 milhões no início do século
4º. Os cristãos eram, em sua maioria, procedentes das classes inferiores; mas
também existiam cristãos vindos das classes altas (nobres e intelectuais).
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––

Existiam, no século 4º, em torno de 1500 sedes episcopais, sendo


umas 800 na parte oriental do império e 700 no ocidente.

Estudiosos apontam vários motivos que favoreceram a ex-


pansão cristã e elencamos aqui alguns deles: o desejo da verdade
explícita nos Evangelhos; respostas para vários temas (desejo da
libertação da fatalidade e do pecado, imortalidade da alma, esco-
po da vida terrena, justiça distributiva etc.); desejo da santidade
interior; milagres e carismas; curas e expulsão de demônios; amor
fraterno e ação caritativa; firmeza dos mártires e fervor dos cris-
tãos. Temos, também, os motivos que impediam a conversão ao

Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO


© Perseguições Romanas, Oficialização do Cristianismo e Aliança com o Estado Romano 165

Cristianismo: preconceitos contra os cristãos; renúncia ao passado


(família, sociedade, profissões pagãs, religião dos grandes); mo-
noteísmo cristão em face ao politeísmo romano e ateísmo cristão;
adesão a dogmas misteriosos; culto esotérico e misterioso; rigoris-
mo moral; rejeição dos cristãos ao serviço militar e à guerra; perigo
constante de morte na época das perseguições. Sobre este tema,
BIHLMEYER-TUECHLE o aprofunda quando fala dos motivos que
favoreceram a rápida difusão do Cristianismo e dos obstáculos à
propagação e causas da perseguição do Cristianismo. O processo
contra os cristãos (1964, I, p. 76-84).

Conversão e política religiosa de Constantino


O tema da conversão de Constantino foi e continua sen-
do discutido por muitos estudiosos, pois há os que afirmam que
Constantino se converteu ao Cristianismo por interesses políticos
e há os que dizem que foi em razão de um processo gradativo de
simpatia pela doutrina e pelo testemunho dos cristãos que o levou
a privilegiar o Cristianismo e a se batizar antes de sua morte, no
ano 337.
Além disso, pode-se acrescentar que seu pai, Constâncio
Cloro, evitou perseguir os cristãos; que ele teria parentes cristãos,
que se admirou muito com a convicção dos mártires cristãos etc.
Além de tudo isso, há o fato de ele ter assinado o Édito de
Tolerância (311) e o Édito de Milão (313) e, depois disso, ter ajuda-
do muito o Cristianismo na construção de igrejas, no apoio ao cle-
ro e na eliminação da legislação pagã e adaptação das leis romanas
de acordo com a moral cristã.

O Édito de Milão (313 d.C.) declarava que o Império Romano se-


ria neutro em relação ao credo religioso, acabando, oficialmente,
com toda perseguição sancionada, especialmente contra o Cris-
tianismo.
166 © História da Igreja Antiga e Medieval

Acrescente-se o episódio da batalha contra Maxêncio, na


ponte Milvia, quando, com estandartes e com a cruz cristã, Cons-
tantino venceu a batalha, segundo afirmam vários historiadores,
com destaque para Eusébio de Cesareia, com a ajuda do Deus dos
cristãos, e o fato de ele se colocar contra os imperadores que se
posicionaram contra os cristãos (Galério, Maxêncio, Licínio).
Constantino não se contentou em deixar em liberdade a
Igreja, mas passou a fazer inúmeros favores a ela e foi adequando
a vida do Império Romano aos hábitos e à moral cristã:
1) exonerou o clero dos encargos municipais (313);
2) concedeu aos bispos jurisdição, inclusive em causas civis
(318);
3) reconheceu a Igreja como sociedade civil, com capacida-
de para receber legados (321);
4) elevou o domingo a dia de repouso obrigatório (321);
5) confiou a cristãos os postos mais elevados do Estado;
6) construiu, por sua conta, várias basílicas: São Pedro no
Vaticano, São Paulo na Via Ostiense, Santo Sepulcro, Be-
lém etc.;
7) transladou a residência imperial para Constantinopla,
fundando uma cidade inteiramente cristã (330);
8) publicou um Édito no qual manifestava seu desejo de
que todos os súditos do império abraçassem o Cristia-
nismo (324);
9) proibiu que alguém fosse incomodado por suas crenças
religiosas.
Informação Complementar––––––––––––––––––––––––––––––
Constantino morreu no dia de Pentecostes de 337, dois meses depois de receber
o batismo. A Igreja grega o venera como santo, juntamente com sua mãe, Santa
Helena. A Igreja Ocidental não rendeu culto a Constantino, mas atribuiu-o à sua
mãe.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Pierini, sintetizando a obra de Constantino, assim escreve:
[...] como bom militar e astuto político herda as reformas da te-
trarquia, mas as corrige, livrando avante só as mais seguras: assim,
acentua a autocracia do poder imperial, mantendo contemporane-

Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO


© Perseguições Romanas, Oficialização do Cristianismo e Aliança com o Estado Romano 167

amente a divisão administrativa do Império introduzida por Dio-


cleciano; concentra em suas mãos o poder militar, mas ao mesmo
tempo aperfeiçoa a já iniciada distinção entre tropas de fronteira e
tropas de manobra interna, incrementando e privilegiando parti-
cularmente as últimas; aperfeiçoa a burocracia palaciana, mas ao
mesmo tempo procura tornar cada vez mais articulada e estável
a burocracia subalterna; mostra-se respeitoso em relação à an-
tiga Roma, mas ao mesmo tempo funda uma nova, em Bizâncio,
dando-lhe seu próprio nome (Constantinopla, 11 de maio de 330);
renuncia à defesa do poder de compra das classes inferiores, mas
ao mesmo tempo procura garantir a solidariedade dos segmentos
mais abastados, favorecendo-os com a monetização áurea (o "soli-
dus"); respeita o velho paganismo, mas ao mesmo tempo favorece
os cristãos, até fazer-se batizar, no leito de morte.
Esse tipo de política mostra-se "revolucionário" apenas o suficiente
para manter o 'status quo': com esse critério, que se deduz de todo o
comportamento de Constantino, deve ser julgada também a atitude
religiosa do imperador. Constantino, como bom militar, tinha sido,
na juventude (até por volta de 306), seguidor da religião de Mitra e
do "Sol invictus", ou seja, do enoteísmo solar introduzido no Império
por Aureliano, de 306 a 310, casando-se com Fausta, filha de Maxi-
miano Augusto, passou a participar da família imperial "hercúlea" e,
portanto, da concepção religiosa que estava na raiz da tetrarquia; de
310 a 312, depois da ruptura com o sogro Maximiano, voltou ao eno-
teísmo solar, a partir de 312, quando começa a luta contra Maxêncio,
interessa-se cada vez mais pelo cristianismo, não tanto por influência
da mãe, a cristã Helena, e mais por uma visão política e religiosa dos
acontecimentos, algo que lhe era congenial.
Nessas circunstâncias, em 312, antes do confronto decisivo com
Maxêncio, acontece a famosa "visão" da cruz e das palavras "Com
este sinal vencerás", ou um mero sonho, ou uma simples prece de
Constantino ao Deus dos cristãos. Seja como for, trata-se de um
começo de conversão. De fato, Constatino, ao entrar em Roma em
outubro de 312, logo depois da vitória contra Maxêncio, não vai
ao Capitólio para oferecer o sacrifício a Júpiter; recebe a homena-
gem de uma estátua erigida na Basílica de Maxêncio, que trazia um
"salutare sgnum", provavelmente igual àquele que mandou colo-
car nos estandartes e nos escudos dos soldados (monograma de
Cristo?); cruz monogramática?, sinal-da-cruz propriamente dito?);
em 315, recebe homenagem do arco do triunfo, perto do Coliseu
(atual arco de Constantino), com uma inscrição que atribui a vitó-
ria constantiniana à " inspiração da divindade", sem precisar qual
(enoteísmo solar, monoteísmo cristão?).
É só o começo da conversão ao Cristianismo, além do mais por
razões políticas, que se manifestará de maneira bastante ambígua
168 © História da Igreja Antiga e Medieval

(mas sempre levando em conta o interesse político) nos anos se-


guintes, concluindo-se enfim, como já acenamos, com o batismo
cristão, recebido no leito de morte das mãos de Eusébio de Nico-
média, bispo da corte e semi-ariano. (PIERINI, 1986, p. 127-129)

Após a morte de Constantino, com seus filhos (Constâncio


que ficou com a Ásia e Egito; Constante, que ficou com Ilíria, Itália
e África e Constantino, que II ficou com a Gália, Península Ibérica
e Britânia) e com seus sucessores, o Cristianismo continuou tendo
privilégios, mas foram surgindo e se fortalecendo algumas heresias
(arianismo com suas várias facções e o donatismo) que provocaram
cismas e divisões, assim como várias intervenções imperiais, muitas
delas motivadas mais por interesses políticos que religiosos. Neste
mesmo período, o paganismo não estava exterminado e conseguiu
importante reabilitação com o poder imperial, quando Juliano, o
Apóstata (361-363), sobrinho de Constantino, chegou ao trono im-
perial e com sua morte chegou ao fim a dinastia constantiniana
Após um período de grande instabilidade política, chegou ao
trono o Imperador Teodósio (378-395). Com ele as restrições ao
paganismo aumentaram e o Cristianismo foi elevado à religião ofi-
cial do Império Romano. Teodósio, na parte ocidental, mostrou-se
ainda mais severo com os pagãos e apóstatas:
1) declarou que "é sua vontade que todos os povos sub-
metidos a seu império abracem a fé que a Igreja romana
recebera de Pedro" (380);
2) por diferentes leis, tirou dos apóstatas da religião cristã
o direito de chefia;
3) proibiu os sacrifícios pagãos (381-383);
4) instituiu lei pela qual se ordenava o fechamento de to-
dos os templos pagãos, que deveriam ser convertidos
em templos cristãos (386);
5) o auge de sua legislação antipagã foi alcançado com uma
lei pela qual se considera como "crime de lesa-majesta-
de" os cultos pagãos. O Édito de liberdade religiosa de
Milão de 313 ficava, assim, anulado, indo contra o pa-
ganismo. O Cristianismo permaneceria como "religião
oficial do Império Romano" (392).

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© Perseguições Romanas, Oficialização do Cristianismo e Aliança com o Estado Romano 169

Pierini assim descreve a chegada de Teodósio ao poder e


seus primeiros atos:
[...] morto Valente, no dia 9 de agosto de 378, em Adrianópolis,
quando tentava conter a invasão gótica, e tendo-lhe sucedido no
Império do Oriente Teodósio, este e Graciano publicaram em Tes-
salônica, no dia 27 de fevereiro de 380, o edito Cunctos populos,
com o pqual prescrevem a todos os súditos do Império romano a
religião "transmitida pelo apóstolo Pedro aos romanos" e agora en-
sinada pelo bispo de Roma, Damaso, e pelo de Alexandria, Pedro.
Em 391, enfim, é proibido completamente o culto pagão, sob todas
as formas.
A união da causa imperial com a cristã caminha, pois, para se tornar
integral: isso, no entanto, não consegue afasar a ameaça que pesa
sobre o Império, inclusive porque, dado que os seculares inimigos
persas, no Oriente, ressuscitaram o zoroatrismo para opor-se me-
lhor às religiões do Império romano, assim os bárbaros ou são pa-
gãos ou são cristãos de confissão ariana, pregada a eles pelo bispo
godo Ulfila, entre os anos 341 e 383.
A divisão religiosa, porém, não é a única nem a mais importante: a
causa imperial, pelo menos no Ocidente, está definitivamente arrui-
nada, porque as inflitrações e as invasões bárbaras, cada vez mais
freqüentes, recebem apoio dos escravos fugitivos, dos colonos que
não suportavam os laços com a terra, dos artesãos proletarizados e
de todos os outros segmentos que haviam encontrado um momen-
to de fusão logo após a batalha de Adrianópolis, quando os godos
vitoriosos saqueiam a Trácia, e se reencontram quando os godos de
Alarico, subindo a Ilíria e descendo pela Itália, chegam às portas de
Roma. (1986, p. 131-132).

Teodósio morreu em 395. O império dividiu-se definitiva-


mente em duas partes entre os filhos de Teodósio, o Grande: Arcá-
dio (395-408), no Oriente; Honório (395-423), no Ocidente, que le-
vou a capital para a cidade de Ravenna, deixando Roma nas mãos
dos bárbaros em 410, o que fez com que crescesse a desagregação
do Império Romano no Ocidente até sua queda em mãos dos bár-
baros, em 476.
No fim do século 4º, com o Imperador Teodósio, a aliança
com o Império Romano aumentou, e o Cristianismo passou a ser
a religião oficial do Estado. Dessa maneira, ele passou a ter mais
privilégios e a correr o risco do cesaropapismo, ou seja, a influ-
170 © História da Igreja Antiga e Medieval

ência do poder temporal nos assuntos eclesiásticos. Cessando as


perseguições e com os privilégios conseguidos, para muitos o Cris-
tianismo tornou-se uma religião fácil e de busca de interesses com
um consequente descuido. As grandes massas chegaram à Igreja e
à obra missionária intensamente, mas muitos neoconvertidos es-
tavam marcados pela superstição e pelos cultos pagãos, interessa-
dos, apenas, em pertencer à religião oficial do Estado.
Assim, concomitante ao crescimento do Cristianismo, conso-
lidaram-se as heresias Trinitárias (Arianismo e Subordinacionismo),
Cristológicas (Apolinarismo, Nestorianismo, Docetismo, Monofisis-
mo e Monotelismo) e Soteriológicas (Donatismo e Pelagianismo),
que provocaram grandes cismas. Nesse contexto de expansão do
Cristianismo, a necessidade de uma maior organização pastoral e
o combate às heresias geraram a necessidade de se convocar os
primeiros concílios ecumênicos:
1) Concílio de Niceia (325).
2) três em Constantinopla (381, 553 e 681).
3) Éfeso (431).
4) Calcedônia (451).
Desse modo, este período foi marcado pela organização das ati-
vidades missionárias, pelo surgimento do monacato e o trabalho mis-
sionário ingente de centenas de monges em várias partes do império;
pelas invasões bárbaras, pela queda do Império Romano do Ocidente
no ano 476 e a consequente ascensão do Cristianismo como liderança
da Europa continental. Outro acontecimento marcante deste período
foi o surgimento do Islamismo, com Maomé, em 622, o que provocou
grande instabilidade na parte oriental do Império em áreas que eram
predominantemente dominadas pelo Cristianismo.
Nesse contexto de tantas mudanças, a obra de organização
eclesial e de sistematização da ortodoxia cristã foi grande a tarefa
exigida às lideranças cristãs, especialmente, aos Padres da Igreja,
que fomentaram a ciência eclesiástica a partir do século 4º. As di-
ferentes ciências teológicas adquiriram sua expressão própria. As

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© Perseguições Romanas, Oficialização do Cristianismo e Aliança com o Estado Romano 171

escolas teológico-catequéticas de Alexandria, de Antioquia, de Ce-


sareia, de Roma e de Constantinopla se consolidaram.
Na segunda metade do século 5º, começou a decadência
da ciência eclesiástica. Não por que faltassem escritores, mas por
não haver entre eles, com exceção de Gregório Magno (+604) no
Ocidente e de São João Damasceno (+749) no Oriente, nenhuma
estrela de grande magnitude. Na verdade, as circunstâncias exte-
riores não permitiam entrega absoluta às ciências eclesiásticas;
os transtornos econômicos e sociais, produzidos pelas invasões
bárbaras, paralisaram o florescimento teológico e literário da épo-
ca anterior. Nesse contexto, a antiguidade foi cedendo espaço ao
mundo medieval, com todas as suas novas características.
O estudioso de Patrologia, Hamman, contextualiza as mu-
danças ocorridas no século 4º e o contexto eclesial e social dos
Santos Padres dos séculos 4º e 5º, deste modo:
As coisas mudaram com a ascensão progressiva de Constantino,
que se tornou finalmente o único senhor do Império. Depois de
dois séculos de perseguição, a Igreja foi legalizada, passando logo
depois a ser religião do Estado. O imperador, preocupado em res-
tabelecer a unidade e a força sobre bases novas, percebeu o bom
aliado que o cristianismo poderia tornar-se para ele. A mudança
era inaudita, a ponto de os contemporâneos acreditarem estar as-
sistindo à realização do reino de Deus na terra.
A realidade, porém, ia ser bem outra. A Igreja, libertada da opres-
são, conheceria uma provação mais terrível talvez do que a hostili-
dade: a proteção facilmente onerosa do Estado. As grandes perso-
nalidades da Igreja não tardarão a perceber a ameaça e a opor-se
aos sucessores de Constantino. Para avaliar isto, basta lembrar-se
de que o imperador, - e não o Papa - foi quem tomou a iniciativa de
convocar o concílio ecumênico de Nicéia, o qual se realizou no seu
palácio. O príncipe em pessoa fez o discurso de abertura (mais ou
menos como se John Kennedy ou Charles de Gaulle tivesse aberto
o concílio Vaticano II). O imperador nem era batizado.
A intromissão política do governo da Igreja ameaçará gravemente
a ortodoxia. Os imperadores estão à mercê dos bispos cortesãos.
Metem-se a legislar em teologia como legislam em política. Os
bispos, como Atanásio e Hilário, acham-se à altura dos aconteci-
mentos. Nem a intriga nem o exílio porão fim à sua resistência. O
Império é que é obrigado a ceder.
172 © História da Igreja Antiga e Medieval

Ao longo deste quarto século, os grandes doutores terão de lutar


contra as seqüelas da heresia e consertar as brechas que ela pro-
vocou na Igreja. Os três capadócios ocupam a maior parte do seu
tempo e de seus estudos para refutar o erro. Quando Gregório de
Nazianzo foi feito bispo de Constantinopla, a Igreja ortodoxa com-
preendia apenas um punhado de homens. Graças a o esforço dos
Padres, a ortodoxia e a unidade hão de ter a última palavra.
A segunda metade do século vê florescer o que os historiadores
chamaram de idade e ouro dos Padres da Igreja. Os maiores nomes
da antiguidade cristã, pastores e teólogos, tanto do Oriente como
do Ocidente, situam-se nesta época de intensa fermentação inte-
lectual. Formaram-se nas escolas da cultura pagã. Esta é colocada
por eles a serviço do Evangelho.
´Os Padres do século IV e o início do século V representam um mo-
mento de equilíbrio particularmente precioso entre uma herança
antiga, ainda bem pouco atingida pela decadência e perfeitamente
assimilada, e, por outro lado, uma inspiração cristã que já chegou à
maturidade´, escreve H. Marrou.
A maioria deles só recebeu o batismo na idade adulta, embora
oriundos de famílias profundamente cristãs. Depois dos estudos,
exerceram uma profissão profana. Todos os padres gregos fizeram
uma espécie de noviciado com os Padres do deserto, e depois in-
gressaram no grupo deles. Eram eles os candidatos designados
para os cargos; primeiro padres, em seguida bispos. É uma era de
grandes bispos para a Igreja.
O ensino cristão é ministrado através da catequese e da pregação.
Trata-se de esclarecer o espírito e de formar os costumes. Os Padres,
intelectualmente formados pelas escolas de seu tempo, tomam po-
sição nas controvérsias teológicas. Servem à fé com os recursos da
cultura filosófica. Longe de limitar sua ação à elite, permanecem jun-
to de seu povo, da multidão dos pobres e humildes. Jamais pactuam
com os poderosos e ricos, mas recordam-lhes os grandes temas da
justiça e do respeito ao homem, e estabelecem os fundamentos de
uma ordem social cristã. Os Padres enriquecem a Igreja com todos os
recursos do patrimônio grego. Sua atuação e suas obras abrem uma
nova era e lançam as bases da civilização cristã (1980, p.105-106).

Assim, concluindo este período, podemos salientar alguns


aspectos principais:
O Cristianismo nasceu e desenvolveu-se dentro da estrutura
do antigo Império Romano. Já vimos o tema das perseguições nos
primeiros séculos, época muito difícil para os cristãos, mas que, ao

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© Perseguições Romanas, Oficialização do Cristianismo e Aliança com o Estado Romano 173

mesmo tempo, provocou um amor radical a Cristo e uma adesão e


fidelidade inquebrantáveis à Igreja.
Com o Edito de Tolerância, em 311, os cristãos passaram a ser
aceitos, mas a emancipação completa ocorreu com a assinatura do Edi-
to de Milão, em 313. Desse documento imperial, assinado pelos Impe-
radores Constantino e Licí­nio, o Cristianismo passou a ser uma "religião
lícita". Mais tarde, com o Imperador Teodósio, no final do século 4º,
tornou-se a religião oficial do Império Romano, e os cultos e as religiões
pagãs deixaram de ser reconhecidos e tolerados em todo o Império Ro-
mano. Esse fato provocou grande mudança na estrutura eclesial cristã.
No século 4º, os cristãos representavam uns 12% da popu-
lação imperial, ou seja, em torno de 5 a 7 milhões. No final do sé-
culo, quase toda a população imperial estava batizada, quase que
obrigatoriamente, pois muitos se convertiam ao Cristianismo por
interesse ou em busca de status e poder social.
Como afirmam muitos Santos Padres deste período, a Igreja
"cresceu em número, mas diminuiu em santidade".
Com essa mudança, a Igreja teve de se organizar:
1) grandes igrejas foram cons­truí­das;
2) liturgia tornou-se muito mais rica, surgiram novos ritos e
a espiritualidade cristã foi cada vez mais conhecida;
3) iniciaram-se os grandes concílios ecumênicos (Nice­ia,
Cons­tantinopla, Éfeso, Calcedônia), convocados para re-
solver problemas ligados à organização e vida eclesial e,
principalmente, para solucionar o grave problema das
heresias que dividiram a Igreja e a vida imperial;
4) a reflexão teológica desenvolveu-se, fortalecendo o dog-
ma e sua sistematização;
5) cresceu a atividade missio­nária, principalmente diante
da possibilidade de se evangelizar os povos bárbaros;
6) a estrutura social e a política romana foram absorvendo os
valores da ética cristã, fazendo com que os valores do Evan-
gelho fossem assumidos por toda a população imperial.
174 © História da Igreja Antiga e Medieval

O grande defensor e interces­sor do povo, principalmente na


época das invasões, foi o bispo de Roma, sucessor de São Pedro.
Ao Papa dirigiam-se os pedidos de proteção da parte do povo ro-
mano. Assim, pouco a pouco, o Papa que já tinha uma liderança
eclesial muito grande, tornou-se um "senhor temporal", pois era
tratado com respeito pelos chefes políticos da época, passando a
administrar um território cada vez maior.
Na Idade Média, com a criação do Sagrado Império Romano-
Germânico, o poder papal cresceu muito, e a partir do século 11,
chegou-se àquela situação em que o poder temporal dos papas
era muito grande e ficou conhecido como o período do "apogeu
do papado". Esse período foi de muitas luzes, mas, também, de
muitas trevas, pois muitos papas estavam mais preocupados com
a manutenção do poder e das riquezas da Igreja que com o bem
espiritual dos cristãos. Muitas vezes, infelizmente, usaram até da
força para conseguir seus objetivos, relegando para o segundo pla-
no os mandamentos do amor e da caridade.

Os povos bárbaros
A partir do Edito de Milão, os cristãos tiveram mais liberdade
de ação. É claro que, mesmo no primeiro século, os cristãos já che-
gavam a várias regiões que não eram dominadas pelos romanos.
O Império Romano era o grande fascínio dos povos germâ­
nicos e eslavos, conhecidos como bárbaros, por serem rudes e não
terem alcançado o progresso dos romanos. Por isso, vários povos
do norte e leste europeu ameaçam as fronteiras do império, que
vai se debilitando, até a queda em 476.
Vários destes povos eram pagãos, alguns já conheciam ru-
dimentos da fé cristã e outros já conheciam várias heresias. Tan-
to os que já estavam dentro das fronteiras do império como os
que estavam fora precisavam ser evan­ge­lizados. Foi necessário um
trabalho intenso e árduo, que durou vários séculos. Os missioná-
rios, em sua grande maioria, monges, percorreram toda a Europa,

Claretiano - REDE DE EDUCAÇÃO


© Perseguições Romanas, Oficialização do Cristianismo e Aliança com o Estado Romano 175

evangeli­zando godos, visi­godos, lombar­dos, os­trogados, frí­sios,


francos etc.
Um destaque especial ao povo franco, que se converteu di-
retamente do paganismo ao Cristianismo, quando o rei Clóvis foi
batizado em 496. Na Idade Média, foi este povo que dominou to-
dos os outros povos e, pelo fato de ser cristão, levou e, em alguns
momentos, impôs a religião cristã aos povos submetidos militar e
politicamente ao Império Franco.
Esse povo se tornou uma potência e a aliança entre eles e a
Igreja fez com que nascesse o Sagrado Império Romano-Ger­­mâ­nico,
no ano 800, quando Carlos Magno foi coroado pelo Papa Leão III.

O Papado fortalecido
Quando os povos bárbaros começaram a invadir as frontei-
ras do Império Romano, este começou a entrar em crise, a qual
teve seu ponto alto na deposição do Imperador Rômulo Augústu-
lo, no ano de 476.
A queda do Império Romano não se deu só por causa dessas
invasões, outros mo­tivos contribuíram para isso: a depravação dos
costumes, as imoralidades, a falta de seriedade e espírito de sa-
crifício e de trabalho dos cidadãos do império, as lutas pelo poder
que geravam muitas mortes, golpes militares e deses­tabilização
política, a crise econômica, a manutenção de um grande exército
etc. Era, pois, inevitável a queda.
Estejamos atentos, porque esta queda do Império Romano só
se deu na parte Ocidental do império. A parte Oriental só caiu no ano
de 1453, quando os turcos otomanos do­­minaram Cons­tantinopla.

O MONACATO CRISTÃO
No primeiro século, já existiam no seio da Igreja primitiva
os ascetas, ermitães ou anacoretas (homens que deixam tudo e
retiravam-se à solidão dos desertos, das florestas e dos lugares
176 © História da Igreja Antiga e Medieval

mais distantes para se dedicar à vida espiritual) e as virgens (mu-


lheres que, embora vivendo com suas famílias, consagravam-se
totalmente a Deus e viviam em oração e pres­tando serviços cari-
tativos em suas comunidades). Esses homens e mulheres viviam
sozinhos e com poucos vínculos com a comunidade eclesial e não
muito preocupados em organizar mosteiros ou casas de vida co-
mum. Muitos deles ajudavam os iniciantes na introdução da vida
anacorética e ascética como Santo Hilarião, Santo Antão etc.
Com as perseguições, muitos fugiam e retiravam-se para o
deserto, consagrando-see a Deus. A partir do século 4º, foi se de-
senvolvendo o cenobitismo, ou seja, a vida comum. Era muito di-
fícil, para os que queriam se retirar para servir a Cristo, viver nos
desertos e florestas sem uma estrutura capaz de dar estabilida-
de. São Pacômio deu os primeiros passos para essa organização
da vida em comum seguido por vários outros grandes expoentes
e incen­tivadores como São Basílio, Santo Agostinho, São Bento (o
pai do monacato ocidental) etc.
O mona­cato gerou grande número de santos e santas, mis-
sionários, teólogos, filósofos e bispos. Em torno dos mosteiros,
surgiram cidades, bibliotecas, escolas e técnicas agrícolas. Foi um
período fecundo em que a Igreja se desenvolveu em to­dos os seto-
res e adquiriu uma consistência inques­tionável, dando-lhe forças
para cumprir com di­gnidade, apesar dos seus erros históricos, a
missão evangelizadora, que lhe fora confiada por Cristo.

7. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS
Confira, na sequência, as questões propostas para verificar
seu desempenho no estudo desta unidade:
1) Como era a relação dos cristãos com o mundo romano e quais as principais
causas das perseguições?

2) Quais os principais aspectos da doutrina cristã foram questionados pelos


intelectuais e imperadores romanos?

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© Perseguições Romanas, Oficialização do Cristianismo e Aliança com o Estado Romano 177

3) Quais foram os benefícios e malefícios das perseguições contra os cristãos?

4) Quais as razões pelas quais se fortaleceu a relação entre o Império Romano


e o Cristianismo?

5) Como você vê a atuação dos Imperadores Constantino e Teodósio com o


Cristianismo?

6) Qual a importância deste estudo para sua vida acadêmica e profissional?

8. CONSIDERAÇÕES
Nesta unidade, você foi convidado a compreender o proces-
so histórico de perseguição sofrido pelos cristãos na antiguidade,
bem como as diversas frentes de hostilidades judaicas e pagãs
contra a fé cristã, por meio das calúnias populares e intelectuais
articuladas contra os seguidores de Cristo. Mas o Cristianismo re-
sistiu a tudo isso e foi se estruturando internamente e conquistan-
do espaços externamente. Precisamos, contudo, refletir sobre isto:
a religião cristã, vítima de tamanha perseguição, tornou-se livre e,
posteriormente, veio a ser a religião oficial do Império Romano.
Na proxima unidade, veremos as características do mundo
medieval, queda de Roma e ascensão do Cristianismo.
Até lá!

9. E-REFERÊNCIA
Celso – Texto: SUBSOLO. Celso. Disponível em: <http://www.subsolo.org/hermenauta/
archives/2007/01/eterno_retorno.html>. Acesso em: 13 maio 2011.

10. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


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GONZÁLEZ, J. L. A era dos mártires. São Paulo: Vida Nova, 1995. v. 1.
PIERRARD, P. História da igreja. Tradução de Álvaro Cunha. São Paulo: Paulinas, 1982.
COMBY, J. Para ler a história da igreja. Tradução de Maria Stela Gonçalves-Adail V. Sobral.
São Paulo: Loyola, 1994. v. 2.
178 © História da Igreja Antiga e Medieval

JEDIN, H. Manual de historia de la iglesia. Barcelona: Herder, 1980. v. 1.


BIHLMEYER, K.-TUECHLE, H. História da igreja. Tradução de Ebion de Lima. São Paulo:
Paulinas, 1964. v. 1.
GÓMEZ, J. A. Manual de historia de la iglesia. Madrid: Publicaciones Claretianas, 1987.
PIERINI, F. A idade antiga I. Tradução de José M. Almeida. São Paulo: Paulus, 1998. MEEKS,
W. A. O mundo moral dos primeiros cristãos. São Paulo: Paulus, 1996.
GIBBON, E. Declínio e queda do império romano. São Paulo: Companhia das Letras,
1980.
MARKUS, R. A. O fim do cristianismo antigo. São Paulo: Paulus, 1997.
SORDI, M. I Cristiani e l´Impero Romano. Milano: Jaka Book, 1980.

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