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BLOS, Peter. Adolescência: uma interpretação psicanalítica.

São Paulo:
Martins Fontes, 1985. 160 p.

Psicologia e Pedagogia

ADOLESCÊNCIA

PETER BLOS

UMA INTERPRETACÃO PSICANALÍTICA

Tradução: Valtensir Dutra

Revisão: Monica S, M. da Silva

Martins Fontes

Título Original:

On Adolescence

© Copyright The Free Press of Glencoe, Inc. 1962


A Edição Brasileira: Janeiro, 1985

Tradução: Valtensir Dutra


Revisão: Monica S. M. da Silva

Produção Gráfica: Everthon P. Consales


Composição: Gabarito Arte &
Capa: Alexandre Martins Fontes

Todos os direitos para a língua portuguesa reservados à Livraria Martins


Fontes Editora Ltda.
Rua Conselheiro Ramalho, 330/340
01325 São Paulo — SP — Brasil

Página de sumário

Índice

Prefácio – 1

1 — Introdução: puberdade e adolescência – 5

2 — Considerações quanto à genética – 19

Primeira infância e adolescência – 21

Adolescência e primeira infância: Judy – 38

3 — Fases da adolescência – 55

Período de latência – 55

Pré-adolescência – 60

A escolha objetal adolescente – 74

Adolescência inicial – 78

Adolescência propriamente dita – 91

Final da adolescência – 131

Pós adolescência – 150

4 — Masturbação – 161
5 — O ego na adolescência – 171

Observações introdutórias – 171

O ego no começo da adolescência – 174

Hierarquia dos interesses e funções do ego – 175

Mecanismos e estabilização – 178

O ideal do ego – 184

Transferências catéticas – 187

A fase de consolidação – 189

O ego e eu – 191

6 — Determinantes ambientais – 199

7 — Duas ilustrações do desenvolvimento adolescente anormal – 217

Adolescência prolongada no homem – 219

Pseudo-heterossexualidade na menina delinquente – 229

Apêndice: Bibliografia cronológica da literatura psicanalítica sobre a


adolescência – 245

Referências – 253

Página de apresentação
Eu? O que sou eu? Eu estou só com o bater do meu coração. Eu, olá eu! O
que é eu? Eu é o solitário e o perdido, sempre buscando. . . o quê? Outro eu?
Uma resposta, será? Não? Mas então o quê? E há mais: o eu é o caminho do
íntimo para o tudo, da menor parte do eu para a maior parte de toda a gente.

Ora, olho para mim mesmo e vejo o eu meu, a coisa fraca e sem rumo que me
faz. O eu não é forte e precisa ser, o eu precisa saber a direção, mas não tem
nenhuma. Meu eu não é seguro, há no íntimo erros e meias verdades demais
para que possa saber. O eu se modifica e não sabe. O eu conhece pouco a
realidade e muito os sonhos. O que sou agora é o que será usado para criar o
meu eu, mais tarde. O que sou não é o que quero ser, embora eu não tenha
certeza do que é isso que eu não quero.

Mas então, o que é eu? Meu eu é minha resposta a todo o tudo de todos. Ë
isso que tenho de dar ao mundo que espera e de onde sai tudo o que é
diferente.

Eu é criar.

De um poema dramático de John D., de 17 anos

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Página 1

PREFÁCIO

Há um momento, durante o estudo de um problema, em que as muitas


observações e especulações que se acumularam ante a mente do investigador
criam a tarefa urgente de se estabelecerem princípios organizadores e uma
ordem classificatória de ideias. Só pela sistematização de nossas constatações
podemos colocar em uso as nossas observações e experiência, e abrir a porta
à investigação. Essas palavras expressam o clima mental no qual este livro
nasceu, depois de várias décadas de estudo de adolescentes. Lembrei-me
sempre, durante todos esses anos, das palavras com as quais Freud terminou
As Transformações na Puberdade: O ponto de partida e o objetivo final do
processo... são claramente visíveis. As fases intermediárias ainda são, sob
muitos aspectos, obscuras para nós. Teremos de deixar muitas delas como um
enigma não resolvido. Concentrei-me nas fases intermediárias, descritas aqui
com as fases da adolescência.

Ao fazê-lo, cheguei à formulação das cinco fases do processo de adolescência.


Estou de acordo com a tendência geral da teoria psicanalítica quando atribuo
uma significação cada vez maior às fases pré-genital e pré-edípica da pulsão e
desenvolvimento do ego. Como o tempo, tornou-se quase um lugar comum
comentar a insuficiência de uma teoria do desenvolvimento •da personalidade
baseada exclusivamente na progressão libidinal. Uma concepção muito mais
ampla, que leva em conta todo o desenvolvimento psicológico, tornou-se parte
importante do pensamento psicanalítico. A recente expansão da psicologia do
ego também nos levou a examinar com novos olhos o período de latência;
passamos a reconhecer que ele constitui uma transformação preparatória

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essencial, sem a qual não se pode considerar a adolescência como uma fase
de desenvolvimento. Esse período antecedente, portanto, recebe uma atenção
explícita.

Devemos dizer, logo de início, que este livro se ocupa da teoria psicanalítica da
adolescência em sua forma típica — ou talvez devêssemos dizer, em sua
forma normal. Nem a psicopatologia, nem o tratamento de adolescentes são
examinados aqui, pois uma apresentação desses assuntos depende do
estabelecimento prévio de uma teoria unificada da adolescência, que é
precisamente o objeto deste estudo. As edificações que se possam levantar
sobre a teoria aqui proposta devem ficar ao trabalho futuro.

Também devemos deixar claro que nos limitamos, neste livro, ao tipo de
adolescente e ao tipo de pesquisa de que temos conhecimento direto, ou seja,
que nossas observações, nossas descrições e nossas conclusões se baseiam
nos adolescentes do mundo ocidental, conhecidos dos psicanalistas.
Recorremos com liberalidade e apreciação, é claro, às reservas de
conhecimento sobre a adolescência que resultaram de contribuições
psicanalíticas. E ao integrar tais contribuições ao nosso próprio trabalho,
demos o devido crédito aos respectivos autores. Por outro lado, abstivemo-nos
de mergulhar nos dados antropológicos e sociológicos porque não
pretendemos estabelecer conexões relevantes entre a psicanálise e as outras
disciplinas. Não obstante, o ambiente e a cultura, como fatores intrínsecos na
formação da personalidade, receberam especial atenção, num capítulo
dedicado exclusivamente ao assunto.

Ao escrever este livro e ao aproveitar nossa experiência com adolescentes,


tentamos conscientemente evitar dois problemas que envolveram muitos
autores, nesse campo. De um lado, acatamos a advertência de William James
sobre a falácia do psicólogo — ou seja, a confusão do seu ponto de vista com o
ponto de vista do fato mental que relata. A outra precaução pode ser melhor
descrita com um pouco de humor e a citação de um diálogo de Shakespeare,
extraído de Antônio e Cleópatra:

Lépido: Como é o seu crocodilo?

Antônio: Ele tem, meu senhor, a forma dele mesmo; sendo tão largo quanto
amplo; tem a devida altura e move-se com os seus próprios membros; vive
daquilo que o alimenta, e uma vez extraídos os seus elementos, ele transmigra.

Lépido: De que cor é ele?

Antônio: De sua própria cor, também.

Lépido: Ë uma estranha serpente.

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Queremos manifestar nossos agradecimentos as dras. Mary ONeil Hawkins e
Marjorie Harley, pela leitura dos originais. Nossa dívida especial, porém, é para
com a dra. Andrée Royon, que nos estimulou com seu entusiasmo quando
nossas ideias tomaram forma e exerceu sobre elas a acuidade de seu espírito,
bem como a riqueza de seu conhecimento psicanalítico. E, finalmente, mas não
menos importante, ela nos ofereceu a crítica rigorosa de um verdadeiro amigo
e colega, desde o início até a conclusão deste livro. Nossa dívida irremissível é
para com os muitos adolescentes que, no decorrer dos anos, nos ajudaram em
nossos esforços para compreendê-los.

Peter Blos

Verão de 1961

Holderness, N.H.

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Capítulo 1

Introdução: puberdade e adolescência

Em momento algum os observadores do desenvolvimento humano deixaram


de reconhecer a importante significação das dimensões físicas e psicológicas
da puberdade. A maturação sexual deu sempre a essa fase de crescimento
uma importância notável, relacionando-a, de forma direta e causal, com as
transformações da personalidade. Mas só quando a psicologia da primeira
infância foi explorada e sistematizada pela psicanálise foi possível
compreender a puberdade em seus aspectos psicológicos: •e é a tais aspectos
que nos referimos quando falamos de adolescência. As descobertas relativas à
primeira infância ligaram a adolescência, geneticamente, aos períodos iniciais
de vida, situando dessa maneira a puberdade num contínuo de evolução
psicológica. Passamos a reconhecer a adolescência como a etapa final da
quarta fase de desenvolvimento psicossexual, a fase genital, que fora
interrompida pelo período de latência.

O conhecimento psicanalítico da infância foi obtido, a princípio, pela


reconstrução feita a partir da análise de adultos, confirmada e desenvolvida
posteriormente pela análise de crianças e pela observação direta. O que
aprendemos sobre a adolescência foi, quase que total- mente, resultado de
estudos clínicos dos próprios adolescentes. Essa fonte de observação será,
sem dúvida, enriquecida e desenvolvida pelas lembranças e pela reconstrução
da adolescência na análise de adultos. Ao que parece, certas esferas e
processos psíquicos inacessíveis à aná-

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lise durante a adolescência podem ser investigados de forma mais fácil e mais
sucinta, em retrospecto, pelos derivados do período adolescente, analisados
numa idade posterior. A reconstrução da adolescência na análise de adultos
recebe, recentemente, uma atenção explícita, sendo na verdade, e cada vez
mais, considerada como componente necessário de uma reconstrução
genética total.

O fato biológico da puberdade dá origem a uma nova organização das pulsões


e do ego. Reconhecemos, nesse processo, o modelo de desenvolvimento da
primeira infância, no qual as organizações mentais se formaram em associação
com as funções fisiológicas, estabelecendo dessa forma as zonas erógenas do
corpo. A palavra puberdade é usada aqui para indicar as manifestações físicas
da maturação sexual: a pré-puberdade refere-se, por exemplo, ao período que
precede imediatamente o desenvolvimento dos caracteres sexuais primários e
secundários. A palavra adolescência é usada para indicar os processos
psicológicos de adaptação à condição de pubescência. Então, a fase de pré-
adolescência, que surge num determinado estado de maturação física,
continua a ter um curso independente. Assim, por exemplo, a fase da pré-
adolescência pode prolongar-se excessivamente, sem ser afetada pela
progressão da maturação física.

A verdade é que a mudança da pubescência, ou o estado de maturação


sexual, influencia a ascensão e queda de certos interesses e atitudes, o que se
comprova pelos estudos estatísticos (Stone et al. 1939). Esses estudos
mostraram que “uma maior proporção de meninas pós-menarcas, em
comparação com as meninas pré-menarcas, deram respostas indicativas de
interesses heterossexuais e interesses no adorno e exibição da pessoa; por
outro lado, revelaram um desinteresse pela participação em jogos e atividades
que exigem força; dedicavam-se, ou interessavam-se, pelas atividades
imaginativas e de devaneios”. Ë claro que essas descobertas não revelam as
características intrínsecas da condição pubertária, mas demonstram como a
maturação sexual provoca modificações e transformações na vida mental da
criança pubescente. A qualidade e o conteúdo dessas mudanças são muito
flexíveis, cabendo ao sociólogo registrar e estudar suas manifestações. Este
livro faz abstração do conteúdo mental manifesto desses processos
psicológicos que podem ser considerados específicos das várias fases da
adolescência.

Na psicologia pré-psicanalítica, a puberdade era considerada o momento do


início, físico e emocional, do desenvolvimento sexual. O estudo analítico da
primeira infância corrigiu essa interpretação e o início da sexualidade nessa
fase passou a ser um fato geralmente aceito. Freud (1905, b) descreveu em
linhas gerais as fases do desenvolvimento psicossexual em Três ensaios sobre
a Teoria da Sexualidade, e

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apresentou o primeiro conceito psicanalítico de puberdade: aplicou o princípio


genético ao período da puberdade. Já em 1898 Freud dizia ser um erro supor
que a vida sexual da criança começa com a puberdade.
A psicanálise falou sempre de dois períodos importantes no desenvolvimento
da sexualidade, ou seja, a primeira infância e a puberdade. Ambas essas fases
surgem sob a tutela das funções fisiológicas, como a lactância na criança
pequena e a maturação genital na puberdade. As moções pulsionais, no
alvorecer da vida, recorrem ao mecanismo perceptomotor para a redução da
tensão. • Assim, a criança torna-se inextricavelmente ligada ao seu ambiente,
do qual depende a satisfação das necessidades. A longa duração da
dependência da criança é que torna humano o homem. Nesse processo, o
desenvolvimento da memória, causalidade, consciência e fantasia torna
possível o pensamento e o conflito. Assim, surgem numerosas soluções
alternativas para as pressões das moções pulsionais. A variabilidade do objeto
das moções pulsionais foi sempre considerada pelos psicanalistas como quase
infinita, enquanto que o alvo tem uma constância muito maior. Não é de
admirar que a representação psicológica do ambiente, inclusive a ansiedade
conflitual, coloque-se logo no caminho de qualquer solução simples à
satisfação da pulsão; em outras palavras, a personalidade total torna-se aos
poucos envolvida na manutenção de uma homeostase psicossomática.

Durante o período de crescimento — que compreende aproximadamente as


duas primeiras décadas de vida — há uma diferenciação e uma integração
progressivas da personalidade. Os processos de diferenciação realizam-se por
estimulantes da maturação, agindo ao mesmo tempo interior e exteriormente,
de maneira suplementar e complementar, e integrados de acordo com o
esquema de maturação dos mecanismos físicos e psíquicos. A capacidade de
avaliar, conciliar e acomodar estímulos internos e externos, benignos e
perigosos, permite ao ego viver em relativa harmonia com a pulsão, o superego
e o ambiente.

Voltemos ao panorama dos picos de desenvolvimento. Alguns deles merecem


nossa observação especial porque mais tarde nos ajudarão a encontrar nosso
caminho num terreno mais complicado. Devemos ter presente que os
fenômenos complexos da adolescência são edificados sobre antecedentes
específicos que se situam na primeira infância. Se pudermos reconhecer a
sobrevivência dessas organizações básicas em suas formas derivadas,
seremos capazes de discernir as origens psíquicas e estudar a formação das
estruturas psíquicas:

A lactância é governada pelo princípio de prazer-e-dor, que perde sua


supremacia na medida em que cresce a confiança da criança na mãe como a
confortadora de suás aflições físicas ou emocionais. Essa situação básica de
vida é de influência duradoura, podendo ser revivida

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em situações críticas em anos posteriores. A função de regular a ansiedade é


desempenhada pelos pais — sobretudo a mãe — os primeiros anos, sendo em
parte assumida pela criança à medida que se desenvolve uma vida de fantasia,
e atividades calmantes — sucção, carícias, mas- turbação, brincadeiras,
movimento corporal — tornam-se aos poucos sujeitas •a volição da criança.
Assim, a criança procura, sem cessar, novas maneiras de dominar a
ansiedade, maneiras nas quais as atividades lúdicas com um conteúdo de
fantasia e um significado psicológico passam ao primeiro plano de importância.
A distinção entre realidade interior e exterior, entre o eu e o não-eu, indicam a
crescente separação entre a criança e a mãe, e uma redução da dependência.
A diferenciação assume um papel decisivo quando a criança tem cerca de dois
anos, iniciando o processo de individuação, e chega geralmente a um certo
grau de estabilidade aos três anos, mais ou menos. A mobilidade, a linguagem
e as experiências sociais ampliam o espaço vital da criança e lhe dão
consciência da conveniência de ser como os outros e, o que é mais importante,
como os pais ou irmãos. Esse empurrão para a vida enche a criança de quatro
ou cinco anos do desejo de tomar o lugar do pai ou da mãe, ou de cada um
deles alternadamente, na verdade simultaneamente. Uma conseqüência lógica
da dependência em que a criança se encontra em relação ao adulto leva-a a
acreditar que, assumindo o papel do genitor do mesmo sexo, conseguirá os
atributos desejados do progenitor substituído, atributos que são tão admirados
e invejados pela criança. No entanto, a realidade torna inútil a realização
desses desejos, e a criança deve aceitar com relutância a promessa de que o
futuro lhe proporcionará a realização que tem de deixar de lado nessa fase. A
criança preserva, de maneira permanente, suas aspirações e suas derrotas,
fazendo dos pais uma parte de si mesma; por isso, o superego foi definido
como “o herdeiro do complexo de Édipo” (Freud, 1923, a).

O período intermediário entre o primeiro florescimento da sexualidade infantil e


a sexualidade genital pubescente é denominado período de latência. “Cessa a
dependência total com relação aos pais e a identificação começa a tomar o
lugar do amor objetal” (A. Freud, 1936). Assim, o aprendizado formal e a vida
em grupo passam a chamar mais a atenção da criança; a consciência social a
leva para além dos limites da família, enquanto a posição central da família
continua a exercer sua influência. Nenhum alvo sexual novo surge entre os
cinco e dez anos, ou seja, desde o fim da primeira infância até o início da
puberdade. Esses anos constituem o período de latência, que se caracteriza
antes pela falta de novos objetos sexuais do que pela completa falta de
atividade sexual. Há evidências abundantes de que durante todo

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o período médio da infância a atividade ou fantasia sexual continuam a existir


de uma forma ou outra. A criança na latência adquire vigor e competência para
dominar tanto a realidade como o instinto (sublimação), com o apoio de
influências educacionais. Essas realizações são fruto do período de latência;
sem a sua existência — ou, em outras palavras, sem ter passado pelo período
de latência — a criança será derrotada pela puberdade. A precondição da
evolução do processo de adolescência é uma passagem bem-sucedida pelo
período de latência.

O desenvolvimento bifásico da sexualidade prolonga a infância e representa


uma condição singularmente humana, em grande parte responsável pelas
realizações culturais do homem. Existe, no momento, uma tendência a
prolongar a adolescência, devido às complexidades da vida moderna. Isso, é
claro, não pode deixar de ter efeitos sobre o indivíduo jovem, e com frequência
sobrecarrega o seu potencial adaptativo.
A adolescência caracteriza-se sobretudo pelas mudanças físicas, mudanças
que se refletem em todas as facetas do comportamento. Não só é certo que os
adolescentes de ambos os sexos são profundamente afetados pelas mudanças
físicas que ocorrem em seus corpos como também, num plano mais sutil e
inconsciente, o processo de pubescência afeta o desenvolvimento de seus
interesses, seu comportamento social e a qualidade de sua vida afetiva) Esses
padrões não devem, é claro, ser considerados como resultados diretos de
fatores fisiológicos, pois não se pode estabelecer nenhum paralelo direto entre
as modificações da adolescência que ocorrem simultaneamente no
desenvolvimento anatômico, fisiológico, mental e. emocional. As disposições já
existentes antes da puberdade afetarão sempre o resultado.

Há, porém, certos aspectos intrínsecos do processo de crescimento


pubescente que são relevantes para o entendimento do comportamento
adolescente e que, portanto, merecem a nossa atenção. Os observadores dos
adolescentes se surpreenderam sempre pela ampla variação quanto ao início,
duração e término da pubescência. Existe um ritmo diferente de modificações
fisiológicas nos diferentes adolescentes, que faz parte do padrão geral de
crescimento do indivíduo. A idade cronológica não constitui um critério válido
de maturação física. Entre centenas de meninos estudados por Stolz (1951), há
“dez que estavam um ou mais anos atrasados, e um número igual que estava
dois ou mais — anos adiantado quanto a características masculinas estruturais
e fundamentais adequadas, descritas em termos de normas de idade
cronológica”. Entre as meninas, um período de cinco anos, dos 11 aos 16 anos
— com a idade menarca média de 13,5 nos Estados Unidos — constitui a faixa
etária na qual ocorre a menarca (Gallagher, 1960). Os estudos estatís-

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ticos mostram que a idade da menarca reduziu-se ligeiramente durante a última


geração (Shuttleworth, 1938) e que a altura média da atual geração de rapazes
adolescentes que atingiram a estatura final é superior à de seus pais. Não só a
variabilidade individual de crescimento é notável, como também as mudanças
de uma geração para outra devem ser levadas em conta, já que nos
adolescentes há sempre duas gerações interligadas de, maneira significativa e
crucial.

E claro que uma certa fase de desenvolvimento prevalece em cada grupo


etário, e essa maioria, apoiada por influências externas, tende a fixar o padrão
de adequação física para o grupo. Em relação à precocidade e retardamento,
Stolz (1951) observou que apenas em um ou dois casos dos cem meninos por
ele estudados houve evidências de que a precocidade contribuiu para o
desajustamento, mas oito dos dez meninos retardados deram mostras de
insegurança emocional. Em geral, pode-se dizer que os adolescentes que
entraram cedo na pubescência atravesam-na rapidamente, enquanto a criança
de maturação tardia progride em ritmo mais lento.

Ë bem conhecido o fato de que as meninas começam a sua evolução


pubertária e atingem o crescimento pleno antes dos meninos. “As meninas
crescem em altura num ritmo acelerado desde os nove até os 12 anos, ao
passo que os meninos o fazem entre 11 e 14 anos. Disso resulta o fato de as
meninas serem mais altas do que os meninos entre os 11 e 13 anos” (Stuart
1946). Essa diferença de desenvolvimento físico entre os sexos tem
significação óbvia para o agrupamento das crianças. Geralmente, elas são
agrupadas de acordo com sua faixa de idade cronológica; assim, crianças da
mesma idade que estão em fases diferentes de desenvolvimento físico são
colocadas juntas em situações que exigem cooperação social e mental, bem
como competição. O indivíduo adolescente vive sempre dentro de um grupo de
companheiros de idade que variam muito quanto ao desenvolvimento físico e
aos interesses. Essa condição é responsável pelas muitas formas de
comportamento imitativo e como se, a que os adolescentes recorrem a fim de
se manterem dentro do padrão esperado de conduta e protegerem a
compatibilidade social com o grupo a que pertencem.

Além das discrepâncias quanto ao início e à duração da pubescência num


grupo de adolescentes, o padrão individual próprio de crescimento de cada
pessoa não é uniforme por todo o corpo. Cada sistema de órgãos é afetado
pelo crescimento de uma maneira característica em termos do período total de
vida do indivíduo; cada sistema desempenha sua função de maneira ótima,
sempre. Mas durante a puberdade, as acelerações e os retardamentos
extremos no crescimento de determinados sistemas de órgãos provocam uma
distribuição desigual do crescimento

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dentro do organismo total. O aumento no volume do corpo pode não ser


paralelo a um aumento proporcional na largura ou na altura; e as
características sexuais primárias e secundárias não se desenvolvem no mesmo
ritmo. Essa falta de uniformidade no desenvolvimento físico, chamada de
crescimento assimétrico, com frequência exige muito da adaptatividade física e
mental do indivíduo. Quanto a isso, é preciso compreender que o crescimento
muitas vezes ocorre como uma sequência de mudanças súbitas, e não como
uma progressão suave e paulatina. “O rápido crescimento, na adolescência,
ocorre durante o décimo ano nas meninas, e durante o 13° ano, nos meninos.
A mudança de um ritmo acelerado para outro, desacelerado, ocorre aos 13
anos nas meninas, e aos quinze anos nos meninos” (Stuart 1946). O
crescimento intenso em altura, peso, musculatura, e o desenvolvimento de
características sexuais primarias e secundárias podem ser acompanhados de
estados nacionais relevantes. Uma modificação na imagem do próprio corpo e
uma reavaliação do eu à luz de novos poderes físicos e novas sensações são
duas das consequências psicológicas da mudança de condição física. (Essas
conseqüência são descritas adiante, em relação às fases de adolescência.) E,
como as mudanças físicas que ocorrem durante a puberdade são tão
marcadas e visíveis, o adolescente tende, inevitavelmente, a comparar seu
desenvolvimento corporal com o de seus contemporâneos.

A maioria dos adolescentes preocupa-se, num momento ou em outro, com a


normalidade de sua condição física; e a ausência de normas etárias bem
definidas, quanto à fisiologia do adolescente apenas contribui para a sua
insegurança. As diferenças físicas entre indivíduos de um nível de maturidade
comparável — e essas diferenças são ainda maiores num grupo da mesma fixa
etária — manifestam-se entre as meninas em variações do ciclo menstrual e no
desenvolvimento dos seios, e entre os meninos em variações do
desivo1vimento genital, mudança de voz, surgimento de pelos faciais. Essas
indicações notáveis de maturação sexual dão ao crescimento físico significados
altamente pessoais.

Além disso, o desenvolvimento físico nem sempre progride de maneira


adequada — às vezes, assume aspectos característicos do sexo oposto. Isso
parece ser menos perturbador para as meninas do que para os meninos, talvez
devido à tendência entre certos grupos de meninas a preferir um corpo mais
masculino, aparência essa também apreciada pelos meninos. Estes
preocupam-se muito mais (e também os seus pais) quando manifestam
características inadequadas ao seu sexo. O desenvolvimento de seios nos
meninos (Grenlich et al., 1942; Gallagher, 1960) tende a estimular e acentuar
fantasias e pulsões bissexuais. O desenvolvimento de seios é descrito por
Stuart (1946) como “uma elevação

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dos mamilos numa aréola levemente plena. Ocasionalmente, uma massa de


tecido firme, nitidamente demarcada, de vários centímetros de diâmetro surge
sob essa aréola e lhe dá a aparência de um verdadeiro desenvolvimento de
seio. Isso ocorre - na época em que já há pêlos púbicos escuros e densos na
base do pênis e quando os pêlos axilares começam a aparecer. Esse tecido
desaparece depois de um número variável de meses, dependendo do seu grau
e desenvolvimento. Quanto a isso, devemos mencionar também que o menino
pré-adolescente tende à adiposidade do torso inferior, que ressalta os
contornos femininos do corpo. Essa condição desaparece normalmente com i
aceleração do crescimento em altura.

A menarca é geralmente considerada como o sinal de que a menina chegou à


maturidade sexual. Na verdade, esse acontecimento indica que a maturação
dos órgãos reprodutores está em processo, mas não que está concluída.
“Acredita-se agora que a menstruação começa na maioria das meninas antes
que seus ovários sejam capazes de produzir óvulos maturos, e a ovulação
pode ocorrer antes que o útero esteja pronto a receber a gestação normal. Isso
provoca um período de esterilidade adolescente” (Benedek, 1959 a). Esse
período de esteri1id.de pós-menarca pode durar um ano, ou mais (Josselyn,
1954).

A pubescência é, muitas vezes, marcada por sintomas físicos que dão ao


adolescente aflito uma consciência acentuada das transformações em seu
corpo. A acne, que desfigura a pele, e várias formas de dismenorreia, podem
interferir no desejo que o adolescente tem de cresce. A obesidade de
diferentes graus e tipos, existente especialmente entre as meninas, leva às
experiências com dietas.

Com frequência, o adolescente reage ao exame clínico com uma relutância


mais ou menos consciente, o que é provocado pelo temor de que o médico
possa descobrir características de desenvolvimento inadequadas ou anormais.
Também, a perspectiva de ser examinado pode intensificar seus conflitos
relacionados à masturbação, às fantasias sexuais e aos consequentes
sentimentos de culpa. Uma dificuldade que surge em qualquer discussão sobre
adolescência provém do fato de haver muitas maneiras de completar com
sucesso o progresso adolescente, alcançando a estabilidade do ego e da
organização das pulsões. Além disso, o período de tempo desse
desenvolvimento é tão relativo quanto são complexos os processos adaptativos
envolvidos na realização da maturidade. Quando a ritualização e a
formalização liberam o indivíduo da necessidade de realizar a sua própria
resolução das exigências do crescimento, nenhum ajuste idiossincrático e
pessoal tem de ser buscado; a possibilidade de opção é pequena, e o conflito,
mínimo. Mas em culturas onde a tradição e os costumes não

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exercem uma influência incontestável sobre o indivíduo, o adolescente tem de


realizar com seus recursos pessoais a adaptação que a institucionalização não
lhe oferece. Por outro lado, essa falta de padronização institucionalizada cria a
oportunidade para o desenvolvimento individual, para a criação de uma
variação única, altamente original e pessoal, em relação à tradição. O aumento
da diferenciação psicológica durante a adolescência é necessariamente
acompanhado de um aumento da instabilidade psíquica; essa condição reflete-
se nos distúrbios emocionais adolescentes, cuja gravidade e efeitos mutilantes,
transitórios ou permanentes, são variáveis.

Foi possível — com a devida ressalva para uma certa variabilidade —


estabelecer normas etárias de desenvolvimento infantil na primeira infância.
(De fato, quanto mais nova a criança, menor a variabilidade.) Uma avaliação
normativa dos adolescentes, porém, será necessariamente vaga e
incongruente. O alto grau de plasticidade, tão característico da adolescência,
dificulta tal abordagem. Ë certo que há padrões sequenciais de maturação na
adolescência, mas sua relação com a idade é imprecisa. O comportamento
nessa idade é um fenômeno complexo, que depende muito tanto dos
acontecimentos que marcaram a vida do indivíduo como do ambiente no qual o
adolescente cresce. Se, no entanto, considerarmos a adolescência como um
período de maturação no qual cada indivíduo tem de lidar com as dificuldades
das experiências relacionadas à totalidade de sua vida para chegar a uma
estabilidade do ego e da organização das pulsões, então qualquer estudo da
adolescência deve tentar esclarecer os processos que levam a novas
formações psíquicas ou à reestruturação psíquica.

Em muitas sociedades essas formações são convencionalizadas pelas


sanções e tabus tradicionais. Os ritos de iniciação, tão abundantemente
registrados pelos antropólogos, são prova eloquente do fato de que ocorre a
puberdade uma profunda reorganização do ego e das posições da libido; e
algumas sociedades realmente oferecem modelos pelos quais o adolescente
pode pautar sua solução pessoal. Com isso, a sociedade absorve o empuxo de
amadurecimento da puberdade, utilizando-o para seus propósitos. A
designação de um papel e um status novos oferece ao adolescente uma
autoimagem que é definida, recíproca, e vinculada ao grupo; e ao mesmo
tempo é promovida a assimilação social da criança em maturação. Sem esse
tipo de complementação ou reforço ambiental, a autoimagem do adolescente
perde clareza e coesão; assim, para mantê-la, ele exige constantes operações
de restituição e defesa.

As formas de status institucionalizado modificaram-se através dos tempos e em


diferentes sociedades; elas não nos interessam, aqui. Na verdade, limitaremos
a nossa investigação à cultura ocidental, porque

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só nessa sociedade os adolescentes foram estudados com métodos


psicanalíticos. Em contraste com muitas outras culturas, a moderna sociedade
ocidental eliminou progressivamente a assimilação ritualizada. Ou
institucionalizada do adolescente. Os remanescentes religiosos dessas práticas
ainda existem; mas reduziram-se agora a relíquias históricas, isoladas, sem
correspondência nos esquemas de mudança de status em todas as outras
áreas da vida moderna.

Ainda não há um acordo social na cultura ocidental quanto à idade na qual o


indivíduo deixa de ser criança, ou deixa de ser adolescente e se transforma em
adulto. A definição etária da maturidade variou em diferentes épocas, e, hoje,
varia totalmente em diferentes locais. As leis estaduais diferem
consideravelmente quanto à definição da idade da suficiência econômica, bem
como da idade adequada para tirar carteira de motorista, para se casar e para
ter responsabilidade criminal. Não é de espantar que, nessas condições sociais
flexíveis e contraditórias, a própria juventude tenha criado formas sociais
peculiares e padrões de experiência próprios. “Cultura da juventude” ou “cultura
dos pares” são expressões idiomáticas das necessidades adolescentes. O
adolescente foi forçado, por assim dizer, a um modo de vida escolhido e feito
por ele mesmo. Todos esses esforços da juventude são tentativas de
transformar um acontecimento biológico em experiência psicossocial.

Pouca atenção tem sido dada ao fato de que a adolescência, não só apesar de,
mas também devido a, seu turbilhão emocional, com frequência propicia a cura
espontânea das influências debilitantes da infância e oferece ao indivíduo a
oportunidade de modificar ou retificar as exigências infantis que ameaçavam
impedir seu desenvolvimento progressivo. Os processos regressivos da
adolescência permitem remodelar desenvolvimentos defeituosos ou
incompletos, ocorridos anteriormente; novas identificações e contra
identificações desempenham nisso um papel importante. A profunda agitação,
associada à reorganização emocional da adolescência, encerra, dessa forma,
um potencial benéfico: “As potencialidades para a formação da personalidade
durante a latência e adolescência foram subestimadas dos trabalhos
psicanalíticos” (Hartman et al., 1946). Fenichel (1945) apresentou um conceito
semelhante: “A experiência na puberdade pode resolver conflitos ou desviá-los
para uma direção final; além do mais, pode dar a constelações mais velhas e
oscilantes uma forma final e definitiva”. Erikson (1956) sugeriu que
consideremos a adolescência não como um período de aflição, mas como uma
“crise normativa, isto é, uma fase normal de maior conflito, caracterizada por
uma aparente flutuação no vigor do ego, e também por um alto potencial de
crescimento... Aquilo que, num exame preconceituoso, pode parecer o início de
uma neurose, é, com frequência,

Página 15

apenas uma crise agravada que poderia ser autoliquidada e, de fato, contribuir
para o processo de formação de identidade”. Poderíamos acrescentar que a
solução definitiva dos conflitos no final da adolescência significa que eles
perdem sua qualidade perturbadora porque foram estabilizados
caracterologicamente, ou porque se solidificam em sintomas de debilitação
permanente, ou distúrbios de caráter. Voltaremos a esse processo complexo
na análise da fase terminal da adolescência.

A adolescência é vista aqui como a soma de todas as tentativas de ajuste ao


estágio da puberdade, à nova série de condições interiores e exteriores —
endógenas e exógenas — enfrentadas pelo indivíduo. A necessidade premente
de enfrentar essa nova condição de puberdade provoca todos os modos de
excitação, tensão, satisfação e defesa que alguma vez já desempenharam um
papel nos anos anteriores — isto é, durante o desenvolvimento psicossexual da
lactância e da primeira infância. Essa mistura do infantil é responsável pelo
caráter bizarro e regressivo do comportamento adolescente; é a expressão
típica da luta adolescente para reconquistar ou conservar um equilíbrio
psíquico que foi prejudicado pela crise da puberdade. As necessidades
emocionais significativas e os conflitos da primeira infância devem ser
recapitulas formar dos antes que sejam encontradas novas soluções, com
objetos instintuais qualitativamente diferentes, e com diferentes interesses do
ego. Por isso que a adolescência foi chamada de uma segunda edição da
infância: os dois períodos têm em comum o fato de que um id relativamente
forte enfrenta um ego relativamente fraco (A. Freud, 1936). Devemos lembrar
que as fases pré-genitais da organização sexual ainda estão em
funcionamento, tentando afirmar-se; elas interferem, de maneira intermitente,
no progresso em direção à maturidade. O avanço gradual, durante a
adolescência, em direção à afirmação genital e à orientação heterossexual é
apenas a continuação de um desenvolvimento que foi temporariamente
sustado no declínio da fase edípica, paralisação essa que acentua o
desenvolvimento sexual bifásico do homem.

Testemunhamos na adolescência um segundo passo para a individuação,


tendo o primeiro sido dado por volta do final do segundo ano, quando a criança
experimenta uma distinção fatídica entre o “eu” e o “não-eu”. Uma individuação
semelhante, e muito mais complexa, ocorre durante a adolescência, que leva
em seu passo final a um senso de identidade. Antes que o adolescente possa
consolidar essa formação, ele tem de passar pelas etapas da autoconsciência
e da existência fragmentada Os impulsos de oposição, de rebelião e de
resistência, as etapas de experimentação, as provas a que o eu é submetido
pela prática de excessos — tudo isso tem uma utilidade positiva no processo
de auto-

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definição. “Isso não sou eu” representa um passo importante na realização da


individuação e no estabelecimento da autonomia; numa idade anterior,
condensa-se numa única palavra: “Não”!
A individuação adolescente é acompanhada de sentimentos de isolamento,
solidão e confusão. A individuação representa o fim irrevogável de alguns dos
mais caros sonhos megalômanos da infância. Esses sonhos devem agora ser
relegados inteiramente à fantasia; sua realização nunca mais poderá ser
esperada a sério. A compreensão do que há de definitivo no final da infância,
da natureza inescapável dos compromissos assumidos, da limitação definida
da própria existência individual — essa compreensão cria um sentimento de
premência, de medo e de pânico. Assim, muitos adolescentes tentam
permanecer indefinidamente numa fase transitória de desenvolvimento,
condição essa que recebeu o nome de adolescência prolongada.

O lento rompimento dos laços emocionais que o adolescente tem com sua
família, a entrada, em meio a receios ou excitações, numa nova vida que lhe
acena, tais experiências estão entre as mais profundas da existência humana.
Só os poetas foram capazes de expressar adequadamente a qualidade desses
sentimentos, sua profundidade e alcance. Sherwood Anderson dá uma
comovente descrição do estado de espírito de um adolescente que está em
vias de deixar sua cidade natal, Winesburg, Ohio. Sua mãe morreu há pouco;
ele está a caminho da cidade grande, onde terá de construir sua vida sozinho.
Na véspera da partida ele percorre as ruas familiares de sua cidade.
Pensamentos e sentimentos se acumulam nele, provocando um desejo de
esclarecimento, de consciência, de uma ligação com o passado e o futuro —
em suma, ele sente a autoconsciência da existência que marca a entrada na
condição de adulto.

Início de citação

George Willard, o menino da cidade pequena de Ohio, estava se


transformando rapidamente num homem, e novos pensamentos lhe ocorriam.
Durante todo o dia, em meio à confusão de gente na Feira, ele se sentira
solitário. Ia deixar Winesburg, ia embora para alguma cidade onde esperava
conseguir trabalhonum jornal, e sentia que tinha crescido. O estado de espírito
que dele se apossara é conhecido de todos os homens, e desconhecido dos
meninos. Ele se sentia velho e um pouco cansado. Lembranças despertavam
nele. Esse novo sentimento de maturidade o colocava de parte, fazia dele uma
figura meio trágica. Queria que alguém compreendesse o sentimento que se
apossara dele depois da morte da mãe.

Página 17

Há um momento na vida de todo menino em que ele, pela primeira vez, olha
para trás. Talvez seja esse o momento em que atravessa a fronteira para a
condição de adulto, O me- nino caminha pela rua de sua cidade. Pensa no
futuro e no que fará no mundo. Ambições e arrependimentos nascem nele. De
súbito acontece alguma coisa, ele para sob uma árvore e espera, como se
esperasse uma voz que chamasse seu nome. Fantasmas de velhas coisas
infiltram-se na sua consciência; as vozes fora dele murmuram uma mensagem
sobre as limitações da vida. Ele deixa de sentir-se seguro de si e de seu futuro,
e passa a não ter certeza. Se for um menino imaginativo, abre-se uma porta e
pela primeira vez ele olha o mundo, vendo — como se marchasse em
procissão à sua frente — as incontáveis figuras de homens que antes de sua
época entraram no mundo provenientes do nada, viveram suas vidas e
novamente desapareceram no nada. A tristeza da complexidade chegou para o
menino. Com pequeno sobressalto, ele se vê como apenas uma folha soprada
pelo vento pelas ruas de sua cidadezinha. Sabe que a despeito de toda a
conversa sensata de seus colegas, ele tem de viver e morrer na incerteza,
coisa soprada pelo vento, coisa destinada a murchar ao sol como o trigo.
Estremece e olha ansiosamente à sua volta. Os dezoito anos que viveu
parecem apenas um momento, um respirar na longa marcha da humanidade.
Já ouve a morte chamar. Com todo o coração, ele quer aproximar-se de algum
outro ser humano, tocar alguém com suas mãos, ser tocado pela mão de outra
pessoa. Se prefere que essa outra pessoa seja uma mulher, é porque acredita
que a mulher será gentil, que compreenderá. Acima de tudo, ele quer
compreensão. *

Fim de citação
Anderson descreve o fim do processo de adolescência: a infância passou a ser
história, memória; uma nova perspectiva temporal, com um passado
circunscrito e um futuro limitado, coloca a vida entre o nascimento e a morte.
Pela primeira vez, torna-se concebível o envelhecimento, tal como
envelheceram nossos pais e, antes deles, nossos avós. A consciência de idade
torna-se de súbito diferente da que existia na infância. O luto de George é
como um símbolo das profundas perdas representadas pela adolescência.
Sozinho e cercado pelo eterno medo do abandono e pânico que persegue o
homem, desperta a necessidade, familiar e perene, da proximidade humana;
há a esperança de que o

Início de nota de rodapé

* Reproduzido de Sherwood Anderson, Winesburg, Ohio, The Viking Press, Inc.

Fim de nota de rodapé

Página 18

amor e a compreensão voltem a reacender a confiança na vida, façam


desaparecer os medos do isolamento e da morte. O futuro ilimitado da infância
se reduz a proporções realistas, de oportunidades e metas limitadas. Mas, da
mesma forma, o domínio do tempo e espaço e a conquista do desamparo
oferecem uma promessa, até então desconhecida, de auto- realização. Ë essa
a condição humana da adolescência, que o poeta mostrou.

Página 19

Capítulo 2

Considerações quanto à genética

O fato de a adolescência constituir uma fase no contínuo de desenvolvimento


psicossexual esteve sempre implícito na teoria psicanalítica. O conceito
psicanalítico de evolução abriu caminho para um entendi- mento dos processos
complexos que, durante a adolescência, colocam as vicissitudes instintuais da
primeira infância em harmonia com as tarefas biológicas e sociais impostas ao
indivíduo durante a segunda década de sua vida. Os anos entre a primeira
infância e a adolescência, o período de lactância, são da maior importância na
preparação para a adolescência, porque esse período estabelece novos
caminhos para a satisfação e para o domínio do ambiente, por meio do
desenvolvimento da competência social e de novas capacidades físicas e
mentais. Além disso, o desenvolvimento da latência aumenta a tolerância à
tensão e torna possível a busca organizada do aprendizado, bem como amplia
a esfera do ego livre de conflito, provoca relações objetais mais estáveis e
menos ambivalentes, e desenvolve métodos funcionais e seguros para a
manutenção da autoestima. As características mais evidentes desses métodos
encontram-se nas áreas da prova da realidade, das operações defensivas e
das identificações. Uma crescente independência das funções psíquicas
regulatórias em relação ao ambiente, típica desse período, é em geral
considerada como indicação de força do ego.

Sob muitos aspectos, portanto, a criança que entra na puberdade não é a


mesma que entrou no período de lactência. As premências

Página 20

instintuais da primeira infância, que declinam durante a lactência, voltam a se


fazer sentir na puberdade. Mas a criança cujo desenvolvimento do ego
progrediú incansavelmente durante os anos intermediários da média infância,
dispõe de recursos suficientes para navegar com êxito entre o Cila da
repressão do instinto e o Caribde da sua satisfação — ou, em palavras mais
simples, entre o desenvolvimento progressivo e o regressivo (Bornstein 1951;
Buxbaum 1951). A agitada passagem por esse estreito é a história da
adolescência.

A maturação sexual é o fato biológico que introduz a puberdade: as pulsões se


intensificam; novos alvos instintuais só emergem lenta e gradualmente,
enquanto os alvos e os objetos infantis de satisfação instintual são levados
temporariamente para o primeiro plano. Esse processo é concluído quando se
estabelece uma identidade sexual adequada e egossintônica. O processo
adolescente que modela a personalidade de maneiras decisivas e finais só
pode ser compreendido em termos de sua história antecedente, da pressão
inata para a maturação, e de anseios orientados para determinadas metas,
porque esses fatores, em interação mútua, realizam a formação final da
personalidade. Mas a singularidade e a especificidade do desenvolvimento
adolescente são determinadas pelas organizações psicológicas precedentes e
pelas experiências individuais durante os anos de pré-lactência.

O ponto de vista genético a partir do qual a adolescência é abordada aqui torna


necessário voltarmos nossa atenção, primeiro, para a primeira infância. Isso
não significa termos de repetir toda a história do desenvolvimento psicológico
da criança, mas acarreta uma concentração seletiva em alguns aspectos do
desenvolvimento da pulsão e do ego, especialmente na medida em que
influenciam a formação da masculinidade e da feminilidade. A estabilidade
dessas formações, sua irreversível fixidez egossintônica, acabam por constituir
o terreno sobre o qual se baseia o senso de identidade. A análise da primeira
infância que fazemos a seguir é empreendida com a consciência de que
aspectos específicos desse período têm influências geneticamente únicas
sobre o processo adolescente. Essa abordagem faz com que os fenômenos de
comportamento adolescente revelem alguma coisa sobre sua natureza, ao
revelarem algo de sua história. Qualquer abordagem organismica do
comportamento tende a estabelecer uma relevância causal em três dimensões:
a primeira é relativa ao passado histórico do organismo, como uma maneira de
estabelecer os padrões sequenciais da diferenciação e integração; a segunda é
relativa aos processos adaptativos na presente situação de vida do indivíduo; e
a terceira concerne ao futuro, com

Página 21

as direções, as metas e as previsões de que o presente está prenhe. “Le


présent est chargé du passé, et gros de l’avenir” (Leibinz).*
Não será necessário dizer que os fatos biológicos da puberdade levam o
problema da masculinidade e feminilidade a uma posição final, ou a uma
formação fi.nal de meio termo. De fato, o desenvolvimento do ego durante
esses anos se faz em função da organização das pulsões que ganha
ascendência ou domínio durante as fases sucessivas da adolescência. Assim,
a fim de compreender as transferências da libido e da agressão, bem como os
movimentos do ego durante a adolescência, é necessário acompanhar o
desenvolvimento da masculinidade e feminilidade através das diferentes etapas
desse desenvolvimento do ego, que faremos, com particular ênfase sobre os
diferentes caminhos que o menino e a menina seguem na formação de suas
respectivas identidades, masculina ou feminina. Tentaremos evitar
generalizações enganosas, tendo presente a observação de Freud (1931): Há
muito abrimos mão da esperança de estabelecer qualquer paralelismo claro
entre o desenvolvimento sexual masculino e o feminino.

Os aspectos especiais do desenvolvimento que examinamos foram escolhidos


por representarem antecedentes genéticos essenciais que definem as várias
fases da adolescência e as colocam num contínuo de desenvolvimento
psicológico. Os aspectos seletivos do início do desenvolvimento são vistos,
subsequentemente, em termos de suas correlações dinâmicas e genéticas com
o processo adolescente. O histórico individual de um adolescente — o de Judy
— será usado para mostrar a clara inter-relação entre a primeira infância e o
desenvolvimento adolescente.

1. Primeira Infância e Adolescência

O bebê é um organismo totalmente dependente, que necessita ser cuidado e


alimentado para sobreviver. Uma mutualidade de necessidade - satisfação que
funciona como reação circular entre mãe e filho cria uma interdependência, e
esta forma a base do crescimento físico e emocional sadio da criança. Como o
primeiro contato entre mãe e filho se concentra em torno da alimentação, essa
experiência torna-se o protótipo da atividade incorporativa posterior, física ou
mental; a esses processos estão ligadas qualidades emocionais que têm uma
permanência notável na vida consciente e inconsciente do ser humano.

Início de nota de rodapé

* O presente está carregado do pasado, e prenhe do futuro (N. do T.).

Fim de nota de rodapé

Página 22

A mola-mestra da atividade do bebê está nas suas necessidades físicas,


organizando-se em termos do princípio de prazer-e-dor. A mãe alimentadora, o
seio,* constitui parte da criança; só lentamente passa a ser considerada por
esta um objeto, ou antes, como um objeto parcial. Nessa fase, a mãe — essa
expressão sumária do ambiente que se impõe — é vista como um objeto bom
ou mau e, portanto, não é sempre o mesmo. Falamos, então, de uma fase pré-
ambivalente da relação objetal. Esse delineamento justifica-se pelo fato de que
as emoções positivas e negativas da criança, expressas pelo sorriso ou pelo
choro, são dirigidas para a mesma pessoa, que no entanto, nessa fase inicial
não é representada, na mente da criança, por uma imagem mental coerente e
diferenciada. Essa situação está de acordo com a auto experiência exclusiva
da criança, ou seja, sua disposição de considerar esses estados físicos e
emocionais que são bons (satisfação, prazer, tranqüilidade) como
representativos do eu, ao passo que os estados maus (dor, provocadores de
tensão) como parte do não-eu, do mundo exterior. São levantadas barreiras
protetoras contra os estímulos desorganizadores; e esses processos
adaptativos são precursores de certos mecanismos de defesa. Esses primeiros
e pálidos reflexos de uma estrutura psíquica situam-se nos limites do
narcisismo primário e são modelados no esquema oral, segundo o qual o que é
bom (reduz a tensão e proporciona prazer e saciedade) é aceito, enquanto o
que é mau (aumenta a tensão, provoca dor e frustração) é rejeitado. As
defesas arcaicas que se formam em função dessa dicotomia oral simples são a
introjeção e a projeção. Esses mecanismos são sempre invocados quando a
modalidade oral é empregada no trato com o ambiente ou com os conflitos em
geral.

Com a maior consciência do mundo exterior, a criança desenvolve uma


imagem mental da mãe confortadora. Essa faculdade permite-lhe evitar a
tensão — por breves períodos — por um processo de alucinação do retorno da
mãe, ou, geralmente, do objeto que satisfaz a necessidade. Dessa maneira,
parte da moção pulsional é distinguida e acaba por tornar-se o mediador entre
a pulsão e o ambiente, entre o mundo interior e o mundo exterior. Os limites
entre esses mundos são estabelecidos primeiro em termos de experiências
sensoriais, afetivas e motoras. Portanto, o primeiro ego é um ego corporal. Ele
é reforçado por uma outra fonte. A perda gradual da “teta”, conjugada com a
redução da satisfação que a mãe experimenta no “aleitamento”, leva a criança
a descobrir a satisfação que pode obter de seu próprio corpo,

Início de nota de rodapé

* Segundo Winnicott (1953), a palavra “seio” (Desenvolve-se na criança um


fenômeno subjetivo, que chamamos de seio materno) é usada aqui como uma
expressão sumária para toda a técnica da maternagem.

Fim de nota de rodapé

Página 23

independente do ambiente — pela sucção, pelo atrito, pelas carícias, e assim


por diante. O autoerotismo, que é uma satisfação sucedânea, introduz dessa
forma uma abordagem auto reguladora da redução de tensões. Não obstante,
o influxo da satisfação derivada do objeto continua necessário para o
desenvolvimento emocional normal. Parece existir um equilíbrio crítico entre a
satisfação auto erótica e a satisfação derivada do objeto; um extremo leva ao
vício e o outro, à dependência infantil. Alice Balint (1939) expôs lucidamente
esse problema do autoerotismo infantil, que na puberdade chega a um impasse
crucial: “A sobrecarga da função auto erótica, porém, leva logo a fenômenos
patológicos: a atividade auto erótica degenera em vício. Mas, inversamente,
podemos observar que uma supressão pedagógica completa do autoerotismo é
seguida por uma dependência anormal e um apego patológico à mãe (ou seus
representantes). Por outro lado, uma inibição não muito exagerada do
autoerotismo reforça os apegos objetais na medida desejável à educabilidade
da criança”.

O treinamento higiênico marca um passo à frente no desenvolvi- mento do ego.


A obtenção do controle do esfíncter produz um senti- mento de domínio e um
delineamento dos limites corporais — marcados pelos orifícios excretórios —
que estabelecem, de uma vez por todas, uma separação entre o eu e o mundo
exterior. Essa separação é muito ajuda- da pelo fato de, nesse ínterim, ter-se
desenvolvido a mobilidade, progredindo até os movimentos coordenados e
dirigidos a uma meta; além disso, a locomoção permitiu à criança sentir o
espaço e perceber objetos distantes. Os receptores à distância (olhos, ouvidos,
nariz) encontram uma nova dimensão por meio do receptor proximal (tato); o
mundo dos objetos torna-se, dessa maneira, palpável para a criança. Embora
ainda haja a tendência a levar todos os objetos à boca, aos poucos estes são
usados para brincadeiras, adquirindo no processo qualidades táteis. Essas
realizações tornam a criança mais independente dos cuidados maternos mas,
ao mesmo tempo, colocam em primeiro plano novos aspectos da dependência.
A mãe já não é necessária apenas para a satisfação dos instintos (alimentação,
conforto corporal), mas sua presença torna-se cada vez mais necessária para o
novo objetivo de controle do instinto. O medo da perda de amor torna-se o
veículo da educabilidade da criança.

O controle anal (treinamento higiênico) exige o abandono total de uma


satisfação primitiva dos instintos, que passa a depender de regulamentos
externos relativos a lugar, tempo e maneira. Novas defesas são levantadas,
como a formação de reação e repressão; estas, porém, só podem ter êxito se
receberem apoio e reforço do ambiente. O elogio e o medo de punição
desempenham um papel vigoroso na domesticação do esfínc-

Página 24
ter excretório. Uma oposição inata entre a descarga da pulsão e o controle
da pulsão — e na verdade o vigor singular da autonomia anal — reflete-se nas
numerosas dificuldades, atrasos, reincidências e fracassos no curso de
treinamento higiênico. A Iuta interior da criança pode ser facilmente percebida
na sua relação com os pais, que nessa fase tem um caráter altamente
ambivalente. As manifestações agressivas surgem com vigor e em geral
encontram um ambiente igualmente disposto a controlá-las. O comportamento
impulsivo e agressivo da criança (morder, bater, empurrar) passa a ser sujeito
à repressão ou modificação pelo desloeamento e formação reativa. A deflexão
da energia da pulsão é facilitada pelos interesses cada vez mais diversificados
da criança e pela sua independência locomotora. Perdura porém o fato de que
a criança passa a ter consciência de que o amor e a aprovação dos pais só
podem ser conquistados pela renúncia às suas pulsões agressivas e
destrutivas, e pela sujeição do esfíncter à vontade dos pais. O processo de
treinamento não se faz sem uma orientação bipolar específica, sendo na fase
anal que os instintos componentes do sadismo e do masoquismo fazem a sua
primeira e inequívoca aparição. Na raiva impotente, característica dos acessos
de irritação, esses dois componentes são desviados; encontram logo, porém,
numerosos deslocamentos de objeto e alvo. Não só o equilíbrio
sadomasoquista torna-se fatídico para a vida total do indivíduo, como, mais
especificamente, afeta também o desenvolvimento da masculinidade e
feminilidade.

Durante os primeiros anos, a polaridade masculino-feminino não desempenha


nenhum papel psicológico na vida mental da criança. A mãe, o pai e outros
adultos são sentidos principalmente em termos das diferenças individuais, em
termos do conforto ou desconforto que proporcionam em suas respectivas
relações com a criança, da maior importância o fato de que as crianças de
ambos os sexos sentem a mãe, na primeira infância, não como uma mulher,
mas como a figura ativa que proporciona conforto ou frustração. “O papel da
mãe antes da diferenciação sexual não é feminino, mas ativo” (Mack
Brunswick, 1940). Em relação com a mãe, a criança pequena é essencialmente
passiva; ela apenas recebe, é objeto de todos os cuidados. O prazer que a
mãe encontra no filho contribui para o sentimento de bem-estar da criança e
constitui uma fonte de prazer que no princípio da vida ela se esforça por
controlar — e aprende a controlar. A criança não tem nenhum motivo altruísta
quando dá alguma coisa em troca: está simplesmente tentando provocar, para
seu próprio bem-estar, a reação agradável no adulto, sobretudo na mãe. Há um
longo caminho a percorrer da dependência objetal para o amor objetal. A
primeira tem a ver com a autopreservação, sendo governada pelo princípio do
prazer-e-dor, e os

Página 25

interesses da mãe são, na percepção da criança, idênticos aos seus próprios


interesses (A. Balint, 1939). No amor objetal, o interesse próprio do parceiro é
reconhecido.

No início da vida a criança é essencialmente passiva em seus anseios


libidinais; mas não devemos esquecer que ela provoca ativa- mente reações do
ambiente, embora o objetivo dessa pulsão seja passivo. Na verdade, uma linha
essencial de demarcação se coloca entre a passividade inicial da criança em
relação a uma mãe essencialmente ativa (ambiente), e o período subsequente,
quando ela começa a imitar a mãe, identificando-se com ela. A criança entra
numa fase de anseios mais ativos em relação à mãe, a fase do “Deixe-me fazê-
Io”, e “Deixe-me fazê-Io para você”. Além disso, identificando-se com a mãe, a
criança adquire uma independência cada vez maior em relação a ela; na
verdade, a ajuda e os cuidados da mãe vão sendo aos poucos ressentidos
como interferências. A criança tende então a fazer ativamente aquilo que
experienciava passivamente no passado. Esse passo fatídico da passividade
para a atividade é mencionado por Mack Brunswick (1940): “Poderíamos dizer
que a incapacidade da criança pequena de produzir uma atividade adequada é
uma das primeiras anormalidades”. A importância clínica dessa afirmação está
hoje perfeitamente confirmada. A bipolaridade ativo-passivo é pré-fálica (Mack
Brunswick, 1940). A tentativa de superar a posição passiva básica ocupa a
criança por muitos anos; e a reconciliação das duas tendências determina, de
maneira significativa, o desenvolvimento da masculinida.de e da feminilidade. A
ambiguidade e flutuação entre os anseios antitéticos de passividade e atividade
não chegam a um estado final de reconciliação e acordo, até a fase terminal da
adolescência, a fase de consolidação.

A maioria das pessoas, tanto crianças como adultos, reage de maneira


diferente às crianças femininas e masculinas. Pela aprovação seletiva —
aberta ou disfaraçada — que o comportamento aleatório inicial da criança
provoca no ambiente, especialmente na mãe, certos aspectos do
comportamento tornam-se qualitativamente diferenciados e têm um
desenvolvimento preferencial. O papel desempenhado pelo chamado fator IRM
(inner release mechanism — mecanismo liberador interno) em relação às
reações diferenciadas de crianças masculinas e femininas e crianças pequenas
ainda é muito incerto para ser usado como uma modulação gradual de ênfase
relativa ao comportamento e à atividade mental femininos e masculinos ocorre
muito cedo. Essa modulação é provocada pelas reações seletivas do ambiente
que dão origem a atividade preferidas em todos os níveis de vida mental e
física. A diferenciação não tem nenhuma conotação psicossexual nova
enquanto a criança não reconhece as diferenças anatômicas entre os sexos.
Essa

Página 26

descoberta e sua integração psicológica ocorrem durante a fase fálica,


dominada pela conflitante relação triangular entre a criança e seus pais, a
constelação edípica.

Com o advento da fase fálica, os caminhos do desenvolvimento psicossexual


seguidos pelo menino e pela menina tornam-se rápida e essencialmente
divergentes, a tal ponto que parece aconselhável acompanharmos cada um
deles separadamente. Essa abordagem ressalta as diferenças entre
desenvolvimento masculino e feminino que surgem cedo na vida;
acompanhando-lhes as origens, esclareceremos as divergências posteriores do
desenvolvimento da personalidade adolescente no menino e na menina.
Todas as crianças têm o mesmo objeto de amor inicial, ou seja, a mãe.
Qualquer coisa e qualquer pessoa que interfira na disponibilidade imediata da
mãe no momento de necessidade é considerada pela criança como um intruso,
e torna-se gradualmente alvo dos seus impulsos agressivos e hostis; os
rudimentos da possessividade e do ciúme são identificáveis desde cedo. Para
o menino, a mãe continua, durante toda a infância, a ser o objeto de sua
afeição; com o passar dos primeiros anos, é apenas o alvo de sua pulsão que
se modifica, na medida em que o componente ativo em seus anseios, agora
masculinos (fálicos), passa a exercer ascendência. Esses anseios expressam-
se em comportamentos, atitudes, interesses, desejos e fantasias bem
conhecidos. Na fase genital, a relação entre os sexos, os pais edípicos, torna-
se uma questão de curiosidade para todas as crianças, e a origem dos bebês é
uma questão de especulação. Essa curiosidade tem sempre um fim
insatisfatório e incompleto, pelo recurso a conceitos e experiências pré-
genitais. Veremos, em nosso exame da pré-adolescência, que o
esclarecimento sexual apenas obscurece a persistência das teorias sexuais
infantis.

Quando a criança — menino ou menina — toma conhecimento do órgão genital


não tem, de início, consciência de qualquer diferença sexual. A atitude
egomórfica da criança a leva a pensar que as outras pessoas são iguais a ela
— têm boca, olhos, mãos, ânus, como os seus e, por- tanto, devem ter os
mesmos órgãos genitais. Esse fenômeno é uma manifestação do narcisismo
primário. O reconhecimento das diferenças sexuais é estimulado durante o
treinamento higiênico assim que as diferentes posições usadas para urinar,
pelo menino e pela menina, são observadas. Essa observação, porém, não é
levada a nenhuma conclusão até o período edípico; funde-se, então, com
fantasias, adquire significado e leva a ansiedade conflitual e de dano corporal,
indicações de que a criança tornou-se consciente da diferença genital entre os
sexos e sua organização psicossexual avançou para a fase fálica. Essa fase é

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dominada por uma antítese que já não é ativo-passivo, mas sim fálico-
castrado. (Mack Bruns,vick, 1940; Freu, 1923 b).

O órgão que serve para descarregar a tensão erotogênica (sexual) para o


menino na fase fálica é o pênis. Mas, acima e além desse fato, esse órgão
também serve como regulador de tensão para a ansiedade. Assim, ele encerra
a função auto erótica, calmante e confortadora das zonas erógenas
precedentes, ou seja, a função de descarga do excesso de excitação. Esse
mecanismo regulador de tensão da atividade genital auto erótica tem, no
entanto, uma qualidade nova — pois com o advento da constelação edípica,
um alvo genital (fálico) existente na fantasia provoca a ansiedade conflitual e
inibitória. Devemos lembrar que quando atividade genital masturbatória no
menino na fase fálica assume um grau de compulsividade e resiste a todos os
esforços de controle (“perturbação do hábito”), segue frequentemente esse
curso como a única contramedida possível para com a regressão à passividade
infantil. Na puberdade, a masturbação é reativada, e retoma sua função
primitiva de reguladora da tensão, bem como uma função defensiva contra a
regressão. Sua função progressiva na adolescência é examinada mais adiante.

A masturbação genital da criança encontra uma tolerância ambiental muito


menor do que as práticas orais auto eróticas anteriores, ou os contatos de mão
e corpo não diferenciados que surgem como hábitos táteis transitórios. A
intolerância pode ser conseqüência dos conflitos relacionados à masturbação
não resolvidos do adulto; permanece o fato de que o comportamento fálico do
menino parece aos adultos estar mais próximo da sexualidade do que o
comportamento oral auto erótico dos anos anteriores. Quer sejam os pais
tolerantes ou não em relação masturbação genital, o menino a ela renuncia,
com o tempo. Essa renúncia é provocada pelos seus sentimentos de culpa,
resultantes de fantasias incestuosas, pelo seu medo de retaliação e danos e, o
que não é menos importante, pelo desencanto narcisista derivado de um
reconhecimento de sua imaturidade física. Esse último fato por si só levaria,
necessariamente, todos os seus desejos a nada.
Nenhuma criança jamais adquire um conceito exato das relações sexuais
adultas — ou seja, das relações entre seus pais, que servem como modelos de
sua identificação nos respectivos papéis. Todas as fases da organização
psicossexual contribuem, com suas experiências, para a formação das teorias
sexuais infantis desse período. A criança se vale de suas próprias experiências
físicas; assim, seu conceito das relações sexuais entre os pais é determinado
pelo predomínio de certas fases de sua própria vida libidinal; chamamos esse
predomínio persistente de pulsões de pontos de fixação. Em conseqüência,
cada criança forma

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uma teoria peculiar da relação sexual na qual todos os elementos da pré-


genitalidade ocupam papel de destaque: os atos de sugar, morder, comer,
urinar, defecar, bater, olhar, tocar, acariciar, etc. Olhar e tocar os órgãos
genitais parecem atos específicos da fase fálica; a penetração, como conceito
focal parece adiar-se até a puberdade (Mack Brunswick, 1 940). Devemos ter
presente que todas as fases do desenvolvimento psicossexual têm uma certa
margem de sobreposição, se quisermos evitar a simplicidade artificial e rígida
de um itinerário e, em lugar dela, reconhecer o desenvolvimento complexo e.
— dentro de certos limites — facilmente reversível da criança pequena.

Passemos agora ao exame da relação triangular do menino, o complexo de


Ëdipo, que se desenvolve entre ele e seus pais, e que tem significação tão
profunda para sua vida posterior. Os primeiros anseios ativos de identificação
com a mãe transformam-se de maneira gradual, mas inequívoca, em apego
emocional que, numa idade ainda muito precoce, adquire conotações edípicas.
O pai é considerado um intruso; o menino se ressente do pai, porque a sua
dependência em relação à mãe torna a possibilidade de perdê-la uma
calamidade sempre ameaçadora. Os sinais de ciúme possessivo surgem muito
antes de qualquer coisa semelhante na vida da menina. A causa dessa
divergência e as diferenças de desenvolvimento emocional — e, portanto,
desenvolvimento do ego e do superego — entre meninos e meninas deve-se
ao fato de que o objeto do amor (a mãe) para o menino continua o mesmo
durante todas as fases de seu desenvolvimento psicossexual, ao passo que a
menina tem de abandonar seu primeiro objeto de amor, para que sua
feminilidade se desenvolva normalmente.

O pai desempenha, desde o início, um papel diferente do papel da mãe. Em


primeiro lugar, sua própria dedicação ao filho nunca é tão total quanto a da
mãe. Ele nunca existe, tão distintamente como a mãe, como um objeto parcial,
durante a relação mãe-filho inicial. “A criança comporta-se com relação ao pai
mais de acordo com a realidade, porque as bases arcaicas de uma identidade
original, natural, de interesses, nunca existiu em sua relação com o pai
Portanto, o amor pela mãe é originalmente um amor sem senso da realidade,
enquanto o amor e ódio pelo pai — inclusive a situação edipiana — está sob o
influxo da realidade” (A. Balint, 1939). As relações entre a criança e a mãe, e
entre a criança e o pai, não dependem simplesmente do comportamento
materno ou paterno, que é alterável; essas relações são qualitativamente
diferentes porque suas bases não são as mesmas. O menino pequeno
desenvolve um amor possessivo pela mãe; admiração e orgulho, pelo pai. Essa
admiração é muito reforçada pelo seu narcisismo. Na verdade, o apego do
menino ao pai baseia-se numa

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escolha objetal narcisista: “O papai e eu somos iguais”. Evidentemente, esse


apego é também uma fonte de ambivalência, de competição, de comparação e
hostilidade; essas emoções são particularmente fortes na rivalidade pela mãe.
A identificação com o pai — passo essencial no desenvolvimento da
masculinidade — é inevitavelmente acompanhada pelo amor e pela rivalidade
com ele. E essa a situação de conflito triangular resumida na expressão
complexo de Édipo. Devemos lembrar a natureza composta da situação
edípica, e perceber como é fictícia a ideia de um complexo de Édipo puro. O
esquema teórico é uma abstração: na vida, as posições ativa e passiva,
positiva e negativa, se misturam. A diferença significativa é que uma das
tendências é dominante ou sufocada, evidente ou latente, consciente ou
reprimida, egossintônica ou ego-alheia. As várias posições edípicas e as
soluções que o menino lhes dá são de significação especial porque esses
mesmos fenômenos voltam a surgir na adolescência.

A primeira identificação do menino com a mãe ativa não é total ia mente


abandonada até que reconheça o fato de que a mulher não tem pênis, de que a
mulher é castrada. Com essa descoberta — obscura, gradual, e muitas vezes
apenas parcialmente aceita — a mãe é desvalorizada, uma sombra de
desapontamento cai sobre sua imagem e o desejo do menino mistura-se ao
medo, ao pensar na misteriosa diferença física em relação à norma — que para
ele é, de certo, o órgão genital masculino. Essa atitude de desvalorização e de
menosprezo defensivo para com a fêmea, concebida durante a fase fálica,
reaparece na pré-adolescência, e muitas vezes persiste por toda a vida, como
uma atitude de desprezo para com o sexo feminino.

Quando o menino volta seus impulsos sexuais para a mãe, no alvorecer da


fase edípica, seu alvo libidinal é passivo, seguindo o modo arcaico de
receptividade. A identificação com a mãe estimula a transferência da libido para
o pai, novamente com um objetivo passivo, o que tem o nome de posição
edípica passiva (negativa) do menino. As fantasias de natureza passiva —
como o desejo de um filho do pai — desempenham um papel importante na
vida mental do menino durante o primeiro período edípico. A identificação com
a mãe, como dissemos, é destruída pela compreensão, por parte do menino,
de que a condição feminina é idêntica à perda do pênis. A catexia narcisista
que esse órgão tem força o menino a abandonar sua identificação com a mãe e
voltar-se para uma identificação com o pai. Esse passo finalmente abre
caminho para sua inclinação ativa, libidinal é agressiva (masculina) para com a
mãe — que leva à formação de sua posição edípica ativa (positiva). Esse
passo tem uma significação básica para o desenvolvimento da masculinidade
do menino. E também, na medida em que

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ele dirige seus impulsos libidinais ativos para a mãe com crescente
intensidade, é de esperar que desejos hostis e destrutivos, bem como
fantasias, sejam voltados para o pai. O ciúme e a competição, amor e ódio, são
sentidos pelo menino na busca apaixonada de seus desejos.

A identificação com o pai indica que foi dado um passo no desenvolvimento


psicossexual do menino, que o coloca frente a frente com uma alternativa
fatídica na solução de seu dilema emocional. Três fatores levam o menino a
abandonar a posição edípica ativa: o medo da castração pelo pai, o amor por
ele e a compreensão de sua própria imaturidade física. Durante essa
prolongada luta as relações entre o menino e os pais são altamente
ambivalentes, espelhando as forças relativas de seus anseios passivos e
ativos. Dois modos de solução do complexo de Édipo são possíveis ao menino:
1) identificação com o pai, tornar-se como ele no futuro em lugar de substituí-lo
ou ser como ele no presente; ou 2) abandonar seus anseios ativos,
competitivos e de rivalidade e voltar — pelo menos parcialmente — à sujeição
à mãe ativa (fálica). A primeira fortalece o princípio da realidade; a segunda
restabelece o reino do princípio do prazer. A submissão à mãe fálica constitui
uma regressão que se torna um desafio crítico na puberdade, quando a
masculinidade do menino chega à maturidade física.
Devemos ressaltar novamente que os processos, aqui descritos
separadamente, na realidade não são tão distintos. Os complexos de Édipo
ativo e passivo não se excluem mutuamente de maneira total, como óleo e
água; podem apresentar vários graus de fusão. Além disso, a repressão
permite a sobrevivência de um componente no inconsciente, quando seu alvo e
objeto não podem ser abandonados. E na média infância, especialmente na
adolescência, esse componente pode ser reconhecido em suas manifestações
derivadas.

A solução normal do complexo de Édipo do menino leva à identificação


masculina (formação do superego e do ideal do ego), e com o estabelecimento
de uma repressão maciça dos desejos edípicos consegue-se uma solução
temporária da pulsão fálica. A consolidação do período de lactência pode
ocorrer, portanto: porque agora a energia da pulsão alvo-inibida pode ser
sublimada, e um grande número de interesses organizados permite um
progresso vigoroso do desenvolvi- mento do ego e uma consolidação firme do
princípio da realidade. Examinarei, no Capítulo 3, os aspectos da lactência que
são precondições do desdobramento do processo adolescente.

A situação edípica da menina deixa claro que o desenvolvimento feminino, em


virtude de suas condições iniciais, compreende tarefas e soluções diferentes
daquelas do desenvolvimento do menino. Não obstante, não devemos
esquecer que todas as crianças têm experiências de

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vida fundamentais idênticas, sobre as quais se constrói tudo o que se lhes


segue. Assim, os problemas inerentes de polaridade e inveja mútua que
existem entre os sexos dão origem a um sentimento de relativa imperfeição ou
incompleteza. Nessa condição humana podemos reconhecer as forças que por
vezes atraem os sexos apaixonadamente um para o outro, e por vezes os
separa inexoravelmente. Vamos examinar as vicissitudes pertinentes ao
desenvolvimento emocional da menina.

Como dissemos acima, as divergências entre o desenvolvimento psicossexual


do menino e o da menina surgem cedo, na fase fálica. Antes disso, a menina
tem mais ou menos a mesma posição passiva que o menino em relação à mãe,
ou seus representantes; e com o desenvolvimento da mobilidade e locomoção,
ambos entram numa fase cada vez mais ativa, com ênfase na autonomia e
domínio do mundo objetal. A tendência ativa é mais acentuada no menino do
que na menina, mas, quanto a isso, a posição em relação a irmãos e o
estímulo e a aprovação ambiental parecem exercer uma forte influência
modificadora. A soma total dessas influências tem conseqüências para a tarefa
futura da menina, ou seja, a sua necessidade de renunciar tanto à posição
ativa, como mais tarde à posição fálica, uma longa tarefa só concluída na
adolescência.

O fato de o primeiro amor da menina pertencer à mãe predestina esta última a


ser sempre considerada como um refúgio em momentos de crise. Isso se
evidencia particularmente quando há o sentimento de falta de amor materno,
ou este é sentido como perigoso ou antagônico, e é desesperadamente
buscado pela menina durante o resto da vida. Aliás, a busca da mãe pré-
edípica é uma constelação típica na etiologia da delinquência feminina (ver
Capítulo 7, p. 234). O primeiro amor que a menina tem pela mãe é muito
ambivalente, qualidade característica que nunca perde; na verdade, sempre
que a repressão faz renascer essa relação inicial, vemos que um excesso de
ambivalência primitiva é sempre uma característica sua. A identificação inicial
com a mãe ativa leva a menina a uma posição edípica ativa (negativa) inicial,
típica do desenvolvimento feminino. Quando a menina transfere suas
necessidades amorosas para o pai, há sempre o perigo de que seus impulsos
passivos em relação a ele redespertem a modalidade oral inicial, e que uma
volta à passividade primitiva venha a perturbar o progresso bem-sucedido na
direção da feminilidade. Esse impasse é evidenciado, por vezes de maneira
dramática, durante o período da adolescência. Sempre que um apego
indevidamente forte ao pai marca a situação edípica da menina,
inquestionavelmente o precursor dessa emoção é sempre um apego,
indevidamente profundo e persistente, à mãe dos anos pré-edípicos. Ou seja,
um forte apego ao pai segue-se a um forte apego à mãe: “A grande

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dependência em relação ao pai, nas mulheres, apenas recolhe a herança de


um apego igualmente grande à mãe (Freud, 1931).

O desenvolvimento bifásico, ativo-passivo, que marca o desenvolvimento


edípico da menina, implica não só uma transferência do alvo instintual, mas
também uma mudança no objeto do amor, que passa da mãe para o pai. Não
há nada semelhante no desenvolvimento do menino. Poderia esse aspecto
essencialmente feminino do desenvolvi- mento ser responsável pelo fato de
que as mulheres — na verdade, até mesmo as adolescentes — têm uma
compreensão intuitiva da emocionalidade masculina muito mais profunda do
que aquela que os homens geralmente revelam para com a emocionalidade
feminina? De qualquer modo, devemos notar que a menina não renuncia à sua
posição ativa (fálica) por muito tempo. A inveja do pênis pela menina,
concebida em termos amplos como um “complexo de masculinidade” da
mulher, deve ser vista como uma formação secundária (Deutsch 1944). Na
verdade, esse complexo opera como uma defesa ou resistência contra a
passividade primitiva; ele não pode ser abandonado até que, pela identificação
com a mãe edípica, seja aberto o caminho da passividade feminina.

A transferência, feita pela menina, de um alvo passivo para o objeto edípico do


amor, o pai — a posição edípica passiva ou positiva — ocorre bem mais tarde,
em comparação com a posição edípica ativa ou positiva do menino. A
tendência ativa do desenvolvimento feminino não sofre nunca uma repressão
tão profunda quanto a correspondente tendência antitética de passividade do
menino. Sua repressão se estabelece com maior vigor durante a sua posição
edípica ativa. Devemos compreender que os escoadouros legítimos da mulher
— biológicos e sociais — para seus impulsos ativos são numerosos, e
essenciais para sua vida de mulher e mãe, ao passo que a passividade é
anátema para o menino e representa a negação de sua identidade masculina.
Seu “desejo de um filho” sofre uma repressão muito mais profunda do que o
“desejo de um pênis” da menina, fato bem conhecido do trabalho analítico com
crianças, adolescentes e adultos. Há um corolário, no desenvolvimento da
personalidade, ao fato de que a mulher possui um órgão sexual tanto ativo
(clitóris) como receptivo-passivo (vagina), ao passo que o homem não dispõe
de estrutura anatômica e erógena equivalentemente bipolares.

No período de organização genital da libido, a fase fálica, a menina ainda não


reconhece plenamente a diferença anatômica entre ela e o menino. A menina
comporta-se como se tivesse um pênis; sua imitação do comportamento
masculino, por exemplo, caracteriza o componente fálico desse período de sua
vida, no qual estão as origens da menina

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masculinizada que, anos mais tarde, é a defensora incansável da posição


fálica, muitas vezes, na verdade, o único modo de vida aceitável para a jovem
adolescente. Normalmente, o senso de realidade da menina leva-a a
reconhecer o fato de que não tem um pênis; mas durante algum tempo
continua agindo como se isso não fosse verdade. O que o menino (talvez um
irmão) faz por exuberância e orgulho, a menina pode imitar devido a obstinação
e despeito — mas apenas acaba se sentindo ridícula e constrangida. O inverso
também acontece, mas com uma diferença: a imitação de menina, pelo
menino, é desestimulada desde cedo por rigorosos tabus sociais. Um menino
agressivo continua sendo respeitável por muito tempo; o menino afeminado
nunca deixa de ser desprezível.

As posições antitéticas fálica e castrada estabelecem-se de maneira gradual na


mente da menina e provocam várias reações. O primeiro alvo óbvio para a
expressão de seu desapontamento é a mãe, que não lhe deu o que deu ao
menino. O trauma do desmame, a perda do seio, e o sentimento de perda de
parte do corpo associada ao controle do esfíncter, tudo isso reaparece — são
os precursores da subsequente ansiedade de castração. As investigações das
diferenças corporais, a curiosidade sexual sobre os pais, a chegada de um
irmão, a observação da menstruação e da gravidez, e assim por diante,
finalmente levam a menina a compreender que a mãe compartilha suas
deficiências. Esse conhecimento permite à menina comparar-se com a mãe e,
então, ela desvaloriza a mãe e se volta para o pai. Também nesse caso a libido
narcísica contribui para a escolha do objeto do amor. Assim, a posse de falo
acaba sendo concedida ao objeto do amor: essa renúncia dá origem a desejos
passivos e ao desejo de ser possuída.

Vemos, então, que o fato mesmo — ou seja, o reconhecimento da castração —


que no menino provoca a destruição do complexo de Édipo, na menina provoca
tal complexo (Freud, 1924 b; Mack Brunswick, 1940). Nenhuma força ou
circunstância semelhante à que faz o menino renunciar aos seus desejos
edípicos existe na situação da menina: apenas, as limitações da imaturidade
física, os sentimentos de culpa incestuosos e o persistente dano narcísico
sofrido na atividade masturbatória combinam-se para provocar o declínio das
fantasias edípicas e facilitar a entrada no período de latência, pela menina. A
solução do complexo de Édipo da menina não surge senão na adolescência
(Mack Brunswick, 1940) ou talvez mais tarde ainda, com o nascimento de um
filho — ou não se realiza nunca de maneira completa.

Como podemos ver facilmente, os calendários desses conflitos cruciais e sua


solução diferem a tal ponto entre os dois sexos, que as generalizações
referentes a ambos deformam fatos intrínsecos. Devemos ressaltar novamente,
portanto, que a descrição esquemática não pode

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ser aplicada à vida de maneira literal e rígida. Por exemplo, a situação edípica
passiva (positiva) da menina não anula o fato de que ela continua a considerar
a mãe como provedora de conforto e proteção, em sua vida: a mãe continua —
nas palavras de Greenacre (1948) — a ser ”a alimentadora e a aquecedora do
corpo”. O complexo de Édipo, passivo e ativo, da menina, mistura-se e
persiste, com ênfase variável.

A renúncia aos desejos edípicos, junto com o declínio ou a repressão da


masturbação, ambos ocorridos normalmente entre as idades de cinco e sete
anos, levam a menina a uma dependência crescente da mãe e à identificação
com ela. Essa identificação é diferente da identificação anterior com a mãe
ativa, e inclui os papéis maternos de mãe e esposa e sua relação com a atitude
para com o pai-marido. Também leva em conta o papel social da mãe no lar e
na comunidade. O curso normal é, então, a renúncia ao pai edípico ao mesmo
tempo que há uma identificação com a mãe edípica. Mas a menina pode
chegar a um resultado anormal nessa fase, por uma cisão no seu ego. Nesse
caso, ela recorre a uma solução regressiva; de acordo com o modo oral,
incorpora o pai (Sachs, 1929) e faz dele parte de si mesma, ao mesmo tempo
que continua a viver numa dependência ansiosa e teimosa da mãe pré-edípica.
Incorporando o pai, ela abre mão do objeto do amor no mundo exterior, mas
preserva sua existência, permanentemente, fundindo-se com ele,
estabelecendo uma identidade que apaga a dicotomia entre sujeito e objetos
edípicos. Investigaremos mais adiante as consequências dessa solução
regressiva do complexo de Édipo na imagem corporal da menina púbere e seu
senso da realidade. De qualquer modo, essa constelação chega a um impasse
no princípio da adolescência, quando a menina tem de enfrentar a sua
bissexualidade. Grande parte do que parece ser um problema conflitual
adolescente é, a melhor exame, resultado de defeitos e malformações
estruturais do ego.

A progressão pela qual a menina passa de sua dependência oral passiva


primitiva para a receptividade genital passiva exige uma repressão maciça da
sexualidade infantil, pré-genital, historicamente ligada à relação primária mãe-
filho. O fato de o menino continuar a elaborar sua progressão psicossexual em
relação à mesma pessoa, ou seja, à mãe, libera-o dessa repressão maciça da
pré-genitalidade. “Uma das maiores diferenças entre os sexos é a enorme
medida em que a sexualidade infantil é reprimida na menina. Exceto nos
estados neuróticos profundos; nenhum homem recorre a qualquer repressão
semelhante de sua sexualidade infantil” (Mack Brunswick, 1940). Essa
diferença quantitativa na repressão esclarece as notáveis diferenças entre o
comportamento do menino e da menina pré-adolescentes.

Como o complexo de Édipo é, para a menina, uma “formação secundária”


(Freud, 1924 b), ela deve desenvolver meios psíquicos para

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eliminar o primeiro objeto de amor (arcaico) e defender-se contra a pressão


regressiva; esses meios são totalmente diferentes dos meios empregados pelo
menino para enfrentar o mesmo problema. A principal tarefa para o menino é
renunciar à sua passividade inicial; para a menina, é abandonar seu primeiro
objeto de amor. Uma luta paralela, idêntica para ambos, é a realização da
constância objetal, a superação da ambivalência e, com isso, a possibilidade
da progressão para relações estáveis (pós-ambivalentes). Essas tarefas
importantes envolvem focos cruciais na integração e diferenciação psíquicas,
focos que geram falhas potenciais no desenvolvimento provocadas pela
natureza traumática, ou pela natureza excessivamente satisfatória, das
experiências da infância. Esses dois extremos criam pontos de fixação que
surgem com toda a força na adolescência. Na verdade, tais pontos de fixação
são responsáveis pela estruturação da crise adolescente. Os pontos de fixação
e suas relações específicas com as diferentes fases da adolescência serão
examinados mais adiante, no contexto do processo adolescente e na relação
com os significados idiossincráticos e altamente pessoais por trás da fachada
de igualdade ou similaridade que os adolescentes mostram ao observador.

Além de examinar o desenvolvimento instintual da criança pequena, devemos


também examinar a faculdade que mantém o equilíbrio homeostático do
mecanismo psíquico. Essa faculdade, localizada no ego, modela-se pela
maturação progressiva do corpo, suas funções e estrutura. Nesse sentido,
pode ser vista como um sistema regulador que adquire uma influência
controladora (tempo e canal) sobre moções pulsionais cada vez mais
complexas, sobre a consciência, sobre a percepção, sobre a cognição e sobre
a ação. Assim, o ego protege a integridade da personalidade no respectivo
nível para o qual avançou. O ego medeia entre a pulsão e o mundo exterior,
proporcionando idealmente ao indivíduo um máximo de satisfação com um
mínimo de ansiedade. A censura e inibição das influências do ego, que acabam
por se consolidar numa instituição diferente, o superego, surgem logo no início
na vida mental da criança.

A essa altura, são oportunas algumas observações sobre o desenvolvimento


da infância; ressaltarei os aspectos relevantes para a adolescência. O ego
surge do id e é dele separado quando a criança reconhece que a saciedade
oral depende da presença de um objeto dela separado, o “seio”. A primeira
fronteira do ego é, dessa forma, uma fronteira corporal; essa fronteira é
reforçada pela percepção e pela memória, que dão origem a uma
representação psíquica do ambiente e da interação (experiência) com ele. “Os
rudimentos do ego tomam seus padrões das condições ambientais que
deixaram marca na mente da criança, por

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meio de experiências iniciais de prazer-e-dor, as próprias condições
internalizando-se na estrutura do ego” (A. Freud, 1954). Já dissemos que o
mais antigo mecanismo que lida com o mundo exterior o faz em termos do
princípio de prazer-e-dor e segue o modo oral; ele consiste seja de “aceitação”
(introjeção), ou “rejeição” (projeção). O primeiro é precursor da identificação
(secundária), ao passo que o segundo prenuncia a repressão. Tanto
identificação como repressão só passam a operar depois de estabelecido o
princípio da realidade e de superada, pelo menos parcialmente, a
ambivalência. A ocasião dessa operação depende da maturação do
desenvolvimento da percepção, locomoção e linguagem, em particular. Uma
falha nos processos identificatório iniciais, e uma dependência indevidamente
longa e intensa em relação à mãe — ou, de modo geral, ao ambiente — para a
manutenção da identidade e de um senso da identidade torna a criança
extremamente vulnerável no estabelecimento da autonomia do ego. Essa
criança tem de ser eternamente “alimentada” e tranquilizada para que sua
ansiedade se mantenha dentro de limites toleráveis.

Com o advento do treinamento higiênico, o medo da perda de amor acentua-se


e a ansiedade é controlada pelo pensamento mágico; desse modo de controle
surge o mecanismo de anulação, que tem íntima relação com o comportamento
compulsivo. A tentativa mais radical de enfrentar a pulsão coprofílica e os
instintos componentes correlatos manifesta-se na “transformação no oposto”,
ou no mecanismo de formação reativa. Esse esforço dá origem aos
sentimentos de simpatia e aversão, e estabelece um controle firme da
realidade e das normas sociais. Além disso, serve como elemento assegurador
do amor dos pais, por meio da identificação com os seus desejos. Descobre-se
uma fonte para o sentimento de bem-estar e satisfação, semelhante ao de ser
amado — agradar aos pais internalizados fazendo o que mandam. Um
interesse agudo pelo mundo dos objetos aumenta durante esses anos; a
indagação e curiosidade intelectuais chegam ao auge infantil, e o poder de
observação aguça a inteligência da criança. As brincadeiras florescem com
riqueza imaginativa e são praticadas com a seriedade do trabalho. Na
brincadeira a criança circunscreve a ansiedade por meio da repetição, e
domina pela assimilação gradual do impacto das experiências traumáticas ou
conflituais que enchem os dias e as noites de sua vida.

Quando a criança tem firme controle do esfíncter, da mobilidade coordenada,


da linguagem, da percepção, e é capaz de funções cognitivas, emergem nela
um senso de orgulho e uma exuberância que marcam o seu estado de espírito.
Este, porém, será perturbado pelos seus anseios edípicos e pela consciência
de sua imaturidade. A criança, sob a influência do princípio da realidade, só
consegue um alívio passa-

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geiro no apego edípico; reconhecendo as alternativas que tem pela frente, ela
salva sua integridade pela identificação e pela consolidação firme de uma
instituição •psíquica, o superego, que contribui com uma terceira fonte de
ansiedade — sendo as outras o id e o mundo exterior — que a partir de então
terá de enfrentar.

O superego do menino e o da menina desenvolvem-se de maneira diferente. O


fato de o complexo de Édipo da menina só se resolver na adolescência
distingue nitidamente seu desenvolvimento daquele do menino, cujos desejos
edípicos estão sujeitos a uma repressão mais maciça no início do período de
latência. O superego, “o herdeiro do complexo de Édipo”, é, assim, mais rígido
e exigente no menino do que na menina. Devido à repressão maciça da libido
edípica, o menino tem um espírito mais voltado para a realidade, uma imagem
corporal mais clara e mais independente. Em contraste, a menina nunca realiza
a repressão dessa forma simples e direta. A imagem corporal mais clara do
menino é, evidentemente, também um reflexo do fato físico de que seu órgão
genital está exposto e aberto ao acesso sensorial, tanto visual como tátil; como
o órgão genital feminino é invaginado, a menina tem dele uma observação
menos concreta e direta (Freud, 1925; Greenacre, 1948). As sensações do
clitóris, em conjunto com as sensações do tato, devem servir como indicadores
a partir dos quais a menina forma a imagem mental de seus órgãos genitais.
Essas condições, e suas conseqüências psicológicas em termos do
desenvolvimento de interesses, talentos, habilidades corporais, e propensões
ao aprendizado, serão examinadas em termos dos fenômenos da
adolescência.

Mais uma vez, focalizarei a diferença básica quanto ao desenvolvimento


emocional inicial do menino e da menina. O menino reprime de maneira muito
radical seus anseios edípicos, e em conseqüência adquire um superego
severo. A menina, por outro lado, reprime com maior vigor seus anseios pré-
genitais, resultando disso uma afirmação rápida e inequívoca da genitalidade,
tão logo as tensões instintuais começam a despontar, no início da puberdade.
Uma razão da repressão mais maciça pelo menino, ao entrar na latência, é
certamente sua renúncia radical à passividade; não há nada, na renúncia da
menina à posição ativa, que tenha a mesma premência.

O desenvolvimento psicossexual perturbado pelo impasse edípico é retomado


e continuado na puberdade. “Nas fases anteriores”, como disse Freud (1938 b),
os “instintos componenciais separados empreenderam sua busca do prazer
independentemente uns dos outros; na fase fálica, há os primeiros sinais de
uma organização que subordina as outras tendências ao primado dos órgãos
genitais e significa o início de uma coordenação da busca geral do prazer na
função sexual. A organi-

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zação completa só é alcançada na puberdade, numa quarta fase, a fase


genital”.

Como esses acontecimentos importantes, representativos de todos os


aspectos do desenvolvimento da vida dos instintos e do ego durante a infância
exercem suas influências diferentes sobre o processo de adolescência, é o
tópico ao qual dedicamos agora a nossa atenção.

2. Adolescência e Primeira Infância: Judy


É bastante fácil descrever as fases de desenvolvimento significativas da
infância que têm influência particular no processo de adolescência. Mas tentar
sistematizar as conexões e congruências típicas e generalizadas que existem
entre a adolescência e a infância é uma tarefa pesada e extremamente
complexa. A tentativa de delinear as fases de desenvolvimento do período de
adolescência — isto é, o delineamento da teoria da adolescência — será feita
mais tarde. A esta altura, usaremos a abordagem indutiva do problema e
demonstraremos, pelo histórico de uma única pessoa, como as transformações
da puberdade são determinadas de maneira significativa pelas experiências
infantis como se desenrolam, de maneira idiossincrática, dentro da
fenomenologia típica de um ambiente adolescente.

A inter-relação da adolescência com a primeira infância será ilustrada pelo


caso de uma adolescente, de nome Judy. Sua passagem pela adolescência
será vista aqui no contínuo de seu desenvolvimento psicológico, isto é, a crise
particular da adolescência propriamente dita, tal como tomou forma na vida de
Judy, será relacionada com as experiências cruciais que lhe modelaram o
desenvolvimento da personalidade. Mais especificamente, haverá uma
tentativa de rastrear, na sua infância, os seus conflitos adolescentes bem como
as suas realizações e fracassos de adaptação.

Com a entrada na puberdade, ocorreu em Judy uma transformação. Sua


família e professores notaram que estava perturbada e preocupada. Na medida
em que a situação não melhorou, depois de vários anos, aos 14 anos de idade,
ela foi finalmente levada a uma clínica de orientação infantil.

Devemos deixar claro, de início, que o curso do tratamento não nos interessa,
como tal, na apresentação desse caso. Mas os subprodutos da terapia — o
esclarecimento dos aspectos dinâmico e genético da formação da
personalidade de Judy — representam dados valiosos que podem ser usados
para a reconstrução de seu desenvolvimento total.

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Não há dúvida de que o histórico dessa menina encerra aspectos pouco
comuns, mas isso ocorre com qualquer histórico no setor das experiências
pessoais. No caso de Judy, as circunstâncias da sua constelação de irmãos
ofereceram dados situacionais concretos, embora raros, que permitiram uma
visão clara dos padrões emocionais emergentes, cujo estudo é o nosso
principal objetivo. Nesse sentido, portanto, seu caso ofereceu vantagens devido
à possibilidade de clareza da reconstrução. Portanto, foi escolhido, apesar de
ser aparentemente excepcional. As facetas essenciais do desenvolvimento
adolescente de Judy serão descritas tal como se apresentaram durante os três
anos de seu contato com a clínica. Depois dessa descrição, examinaremos as
condições específicas de vida na infância de Judy, localizando e isolando os
traumas específicos que prenunciaram a crise específica na sua adolescência.

A. ADOLESCËNCIA DE JUDY

Judy mostrava-se infeliz e irritada. Um problema de pele (acne) lhe desfigurava


o rosto, e ela o agravava, beliscando-se e se arranhando. Sentia-se feia e não
saía de casa, onde passava horas intermináveis do dia e da noite lendo.
Brigava com a mãe pelos menores motivos, acusando-a de não ter
compreensão, e de nem mesmo tentar compreender a filha.

Judy era trigêmea, tendo dois irmãos aos quais, no seu entender, a mãe
proporcionava, generosamente, interesse e afeição; Judy sempre se sentira
mais próxima de um irmão seis anos mais velho, que nunca reconheceu as
simpatias da irmã, mas continuou sendo o membro da família mais importante
em termos do desenvolvimento emocional da menina. Judy não gostava de ser
trigêmea — desde o início de sua existência, teve de compartilhar sua vida. No
início da puberdade foi dominada por sentimentos de raiva e desespero que se
alternavam com remorso e depressões. Dores de cabeça provocavam-lhe o
receio de ter alguma doença no cérebro. Pensamentos suicidas e de morte
enchiam-lhe as fantasias; imaginava cenas eloquentes de remorso e
sofrimentos para os que ficavam, principalmente os seus pais.
Judy sofreu ao compreender que não amava os pais; por vezes tinha-lhes até
mesmo aversão, e sabia que isso não estava certo. Tais sentimentos eram
contrários aos Dez Mandamentos, raciocinava ela, e era pecado tê-los. Suas
primeiras palavras no primeiro encontro com o terapeuta foram: “Sabe qual é o
meu problema? Não gosto de minha mãe”. A partir do início da puberdade, aos
dez anos, esses sentimentos perseguiram e torturaram Judy, ganharam força
até que ela começou

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a ter medo de ser dominada pela sua raiva e sentimento de desespero


interiores. Qualquer amizade com pessoas de sua idade, ou qualquer gentileza
que lhe fosse demonstrada por um adulto, transformava-se rapidamente numa
decepção para ela, devido à magnitude de suas necessidades emocionais.
Judy mostrava aos outros, primeiro, o seu lado mais feio; raramente, e apenas
por rápidos momentos, ela deixava que vissem como podia ser cordial, terna e
generosa — e é como realmente desejava ser.

Sua agitação interior nunca a impediu de ser estudiosa; na verdade, ela


sempre se saiu muito bem na escola. Mas só no início da adolescência esses
estudos se tornaram tão importantes para ela a ponto de causarem
preocupações intensas. Não dormia bem antes de um exame, sempre
receando falhar no campo de batalha acadêmico. Nunca, ou raramente, deixou
de passar com notas altas. Judy comportava-se como se sua vida dependesse
do êxito na escola, e estava decidida a ir para a faculdade, apesar do
desinteresse e falta de estímulo da família. Rejeitava, com indignação, o
argumento de que as irmãs devem abrir mão de um curso superior em favor
dos irmãos. Acusava os pais de egoístas quando argumentavam que uma boa
filha começa a ganhar dinheiro o mais cedo possível, e continua a trabalhar até
se casar. Judy sabia que a renda da família era pequena e que em épocas de
crise a previdência social era a alternativa degradante para a miséria
irremediável. E certo que a família enfrentava dificuldades econômicas, mas
além disso havia o medo de perder a filha, e que a levava a opor-se à ideia de
uma educação superior para Judy. Disse à filha, francamente, que se fosse
formada ela sem dúvida se casaria com alguém de classe mais elevada, e
passaria a olhar os pais com desprezo, ou até mesmo a desconhecê-los. Em
outras ocasiões, a mãe, ao seu jeito irracional, argumentava, falando sozinha
em voz alta (era hábito na família), e dizendo: “Deixa essa história de faculdade
para teu irmão Charlie, por favor; ele nunca foi bom para nada, e isso será uma
compensação para ele”. Não é de surpreender que Judy tivesse a impressão
de que a mãe estava ressentida com ela e aborrecida por ela se ter saído
melhor do que os irmãos na escola. Judy estava convencida de que a mãe
procurava sufocar-lhe as ambições e fazia pouco de suas realizações a fim de
ter parte da glória do reconhecimento público obtido pelos seus irmãos menos
bem- sucedidos.

Judy achava que o curso superior era um direito seu; era a mais inteligente da
família e era frequentemente chamada de “talentosa” e “gênio” pelos
professores — o que a mãe não levava a sério, ridicularizando abertamente
esses elogios. Judy tinha orgulho de sua inteligência e a atirava à cara dos
irmãos, quando a mãe estava presente. Na família,

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era chamada de “sabe-tudo” e “metida-a-besta”. Mas ninguém podia negar seu


sucesso na escola. Embora esse sucesso fosse útil para suas reivindicações,
era inútil como fonte de prazer ou satisfação; muito pelo contrário, tornou-se
fonte constante de preocupação. Era notável a disposição inabalável de Judy,
durante todos aqueles anos, de ser enfermeira e mesmo chegar a ser
professora de enfermeiras. Nunca se desviou da profissão escolhida e em
nenhum momento duvidou do acerto da escolha.

O sofrimento de Judy por não ter amigas íntimas era intenso. O que ela mais
desejava era uma amiga, boa e íntima. Qualquer demonstração de amizade
por uma colega enchia-a de sentimentos tão intensos, que ela se tornava
terrivelmente exigente e possessiva. Provocava logo um turbilhão tão grande
de emoções, que a amiga potencial tinha de afastar-se. Judy sentia-se então
abandonada, sozinha, cheia de inveja e ciúme. Começou a ter consciência de
ser uma “estranha”. As meninas andavam aos pares e ela andava sozinha,
atrás delas. “Gosto de caminhar no meio”, era a maneira pela qual Judy
expressava seu sentimento de exclusão. A mesma coisa aconteceu num
acampamento onde onze meninas ocupavam uma barraca: ela passou a
considerar-se a décima primeira, a que ficava sobrando, o membro extra.
Sempre que via pessoas juntas, a ideia de que era “estranha” repetia-se
exatamente da mesma maneira. Por vezes, parecia-lhe melhor evitar as
pessoas, pois então não as invejaria, nem seria má para com elas. Os livros a
protegiam da raiva esmagadora que sentia crescer em si em situações sociais;
seu mau humor lhe fazia medo e ela se refugiava no isolamento social.

Durante esses períodos de isolamento Judy ficava deprimida e calada. Um


sentimento doloroso de afastamento dominava-a em casa, e ela desejava
desesperadamente que a mãe fosse sua amiga. Chorando, contou certa vez ao
terapeuta que a mãe não a soubera compreender, quando havia tentado
confiar nela. Dissera à mãe que uma menina conhecida sua tinha uma mãe a
quem ela confidenciava tudo, como se fosse uma irmã. Judy também queria ter
alguém assim. A mãe respondeu: “Você pode me dizer tudo”. Judy respondeu:
“Não confio em você”, e como reação da mãe recebeu um tapa no rosto. “Foi
mesmo muita compreensão!’ observou, amargamente. Esses incidentes,
porém, não diminuíram o forte elo entre elas. Judy voltava-se frequentemente
para a mãe, em busca de ajuda, e ansiava excessivamente pelo seu amor e
compreensão. Em outras ocasiões, voltava-se contra ela, culpando-a de todas
as suas misérias. Pediu ao terapeuta que também tratasse de sua mãe, o que
é uma solicitação estranha para uma adolescente. Mas Judy sentia que
qualquer situação que tendesse a fortalecer a sua proximidade com a mãe era
desejável. Não será necessário dizer que as esperanças depositadas nessas
situações desmoronavam sempre.

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Os desejos contraditórios que Judy sentia em relação à mãe resultavam em


brigas intermináveis entre elas. Judy queixava-se de que a mãe a tratava como
uma criança; não obstante, cedia às exigências maternas. Certa ocasião, Judy
acusou a mãe de dizer-lhe como devia gastar seu dinheiro (“Ela me diz como
devo pensar e o que devo ser!”), ao mesmo tempo que a censurava por não se
interessar por nada do que ela fazia, sentia ou desejava. Nada lhe era dado,
queixava-se Judy; tudo o que aprendia, era nos livros.

Os preparativos de Judy para a menstruação foram particularmente


reveladores. A mãe lhe falara do assunto quando ela tinha cerca de dez anos.
Segundo Judy se lembrava, a mãe lhe dissera: “Logo alguma coisa vai
acontecer todos os meses”. Judy perguntara, ansiosamente, o que iria
acontecer, mas a única resposta que recebera fora uma vaga insinuação:
“Você vai ver, alguma coisa acontecerá, alguma coisa física”. Essa imprecisão
deu-lhe medo e ela ficava em frente do espelho, olhando-se, e perguntando o
que lhe iria acontecer. Esperava alguma coisa terrível. “Aparecerão sardas no
meu nariz ou um ovo nas minhas costas, todos os meses?” Quando tinha onze
anos acordou uma manhã e viu que os lençóis estavam sujos de sangue. Teve
medo, mas tentou não dar importância ao fato — e voltou da escola com
sangue nas pernas, nas calcinhas, na saia. Correu para a mãe, gritando:
“Mamãe, estou morrendo. Estou morrendo. Estou com uma hemorragia
terrível”. A única resposta da mãe foi: “Agora você é mulher”. Judy pediu-lhe
que explicasse, mas a mãe apenas repetiu que um dia, quando fosse mais
velha, compreenderia. Cerca de um ano depois Judy pediu informações a uma
prima e teve, finalmente, a explicação. Mas ainda se sentia confusa quando
pensava em casamento, masturbação ou homossexualidade. “A única coisa
que me ajuda a sair da confusão são os livros”. No início da puberdade, Judy
ficou atemorizada com o sexo; contou um incidente ocorrido na casa de seu tio,
quando estava tomando conta do primo; o tio mandou que se despisse na
frente dele. Judy acrescentou: “Ë claro que não o fiz”, e continuou a narrativa,
dizendo que o tio a apalpara toda. Não podia imaginar quais eram as suas
intenções, sabia apenas que não suportava mais ser tocada por ele. “Quase
fiquei louca”, disse, e concluiu a descrição do episódio com esta observação
enigmática: “Meu pai nunca me toca”.

A sensibilidade emocional de Judy tinha um corolário físico uma reação intensa


ao contato corporal. Ela sentia repugnância pelas demonstrações de afeto da
mãe, e evitava qualquer proximidade física com outra pessoa. Por outro lado,
durante anos ela teve medo de ficar sozinha e ainda partilhava da cama com a
mãe; estranhamente, nunca fez qualquer tentativa para ter uma cama só para
si. O fato

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de dormir com a mãe só remotamente era por necessidade, porque nos fins de
semana, quando o pai — que trabalhava à noite — estava em casa, ela tinha
de dormir na sala. Era com relutância que abria mão de seu lugar na cama com
a mãe. Quando a família finalmente mudou-se para um apartamento maior,
onde Judy tinha um quarto seu, esse seu hábito de dormir permaneceu
inalterado, e durante muito tempo não foi mencionado ao terapeuta, nem pela
filha e nem pela mãe. Quando Judy finalmente admitiu o “segredo”, ficou
embaraçada e corou muito. Finalmente, começou a se queixar de que o hábito
de dormir com a mãe não era satisfatório, mas nenhuma intenção expressa de
modificar esse hábito provocou qualquer transformação. Tendo sono agitado,
Judy com frequência perturbava o sono da mãe, estendendo os braços e
batendo nela, ou murmurando palavras raivosas que esta não compreendia.
Judy não se recordava nunca dessas cenas noturnas, que lhe eram contadas
pela mãe.

Finalmente, com a compra de sua própria cama, Judy estabeleceu uma


separação física da mãe; esse passo também assinalou a aceitação de seus
conflitos como sendo coisa sua e impossível de serem resolvidos pela proteção
e satisfação maternas. Só então pôde resistir aos desejos, de sua mãe e dela
mesma, de proximidade, e que encontraram uma realização perfeita quando
elas tiveram uma conversa franca depois de se terem deitado. Depois que
passou a dormir sozinha, seu sono continuou agitado: contava pesadelos que
lhe haviam dado medo, sonhos sobre a morte, sempre em conseqüência de
assassinato. Judy tinha muito medo de ficar sozinha — sozinha agora e no
futuro. Os pensamentos que lhe davam medo podem ser resumidos numa
frase. “Talvez ninguém me ame e talvez eu não ame ninguém”. Perseguida por
essas dúvidas, ela se sentia mesquinha e egoísta; não seria melhor que uma
pessoa como ela não estivesse viva? Não podia livrar-se nunca da ideia de que
a sua infelicidade era provocada por ela mesma. Uma sensação de culpa
pesava sobre ela. Nos devaneios de suicídio, ela se via boiando no rio; durante
alguns dias, as pessoas escreveriam cartas e em seguida todas se
esqueceriam de que ela vivera.

Esses estados de espírito sombrios contrastavam com momentos positivos,


que ela experimentava especialmente na companhia de amigos. Nessas
ocasiões, realmente raras, ela chegava a ser despreocupada, alegre e
brincalhona. Uma noite passada com uma amiga foi muito divertida. As duas,
então com 13 anos, deixaram-se levar pelas suas fantasias e imaginaram-se
vivendo no Palácio de Buckingham; vestidas com roupas bonitas, ocupavam-se
em reformar e mobiliar o palácio, e andavam pela sala dando ordens aos
criados, rindo de sua própria tolice. Nos seus devaneios prediletos, Judy
recriava sua vida familiar, numa mistura de

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presente e futuro, na qual a mãe e os irmãos gêmeos estavam presentes,


enquanto o pai jamais era incluído, fato que lhe parecia estranho. Os períodos
de alegria de Judy eram curtos; a tristeza a dominava facilmente. Se ouvia falar
de pessoas doentes ou agonizantes, ou se via um cão morto na rua, as
lágrimas lhe vinham aos olhos e ela chorava silenciosamente.

Numa tentativa de se tornar uma pessoa melhor, Judy afastou-se da


superficialidade da vida moderna, buscando um significado mais profundo na
existência. Não sabia se esse significado estava na religião ou na fidelidade às
convicções e ideias próprias; e tentou as duas, sem nunca se sentir satisfeita
por sua dedicação. Quando se transferiu para uma nova escola secundária, a
mãe queixou-se das más condições do prédio, mas Judy elogiou
entusiasticamente a escola, dizendo que paredes limpas e corredores de
cerâmica não eram importantes. Que tolice da mãe, disse ela, observar apenas
a aparência das coisas e ignorar o que era realmente importante, ou seja, a
substância, o pensamento, a atmosfera, as pessoas. Essa sofisticação a levou
a muitas discussões e granjeou- lhe a reputação de ser esnobe.

Judy nunca se sentiu à vontade com os rapazes, fora da família. Sentia que
não era amada, e não podia ser amada. Estava convencida de que os rapazes
não gostavam dela porque não era bonita. Suas amigas eram bonitas e as
conquistas que faziam a enchiam de inveja. Judy era sempre a observadora, a
estranha. O jogo do amor, no qual as adolescentes em torno dela pareciam ser
tão hábeis, continuavam a ser um enigma intrigante para Judy. Durante algum
tempo, tratou rapazes e moças da mesma maneira e esqueceu as
desigualdades que davam origem à sua ansiedade. Muitos fatos indicavam
claramente que ela estava com medo dos próprios desejos e da força de suas
emoções. No acampamento, desmaiou depois de um baile no qual se sentiu
feliz e alegre. Um ano depois, novamente no acampamento, foi tomada de um
estranho sentimento quando caminhava com um rapaz à margem de um lago;
teve súbito medo de que ele a empurrasse para a água. As fantasias sobre
estupro e violência física contrastavam com o seu desejo de amor terno.
Falando da cena do lago com o terapeuta, Judy admitiu que desejava ser
beijada pelo rapaz, pois nunca havia sido beijada em sua vida. Mas,
acrescentou, a “outra parte do sexo” ainda lhe dava medo. “Como se pode
saber que estamos apaixonadas?”, perguntou, exasperada. Para ela, havia
sempre o perigo de ser levada pelos seus desejos sexuais sem estar
enamorada. Se pelo menos sua mãe lhe houvesse apresentado o sexo de uma
maneira mais suave e menos cruel, pensava ela, tudo teria sido diferente.

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A vida social de Judy era um lembrete constante, para ela, de que não era tão
boa quanto as outras; por isso, na sua opinião, não conseguia atrair os
rapazes. Frequentava escolas de dança, festas, reuniões do clube, reuniões
políticas, e continuava a sofrer a ansiedade de amizade e amor. Sua própria
inadequação, uma certa mesquinhez e sentimentos maldosos — eis como
raciocinava Judy — eram responsáveis pelas suas derrotas sociais. Nessas
ocasiões, Judy voltava sempre à ideia de que talvez houvesse algo de errado
com ela fisicamente; talvez um tumor no cérebro que poderia ser removido com
uma operação. Nunca estava convencida da validade desse temor, mas uma
vaga incerteza sobre a incolumidade de seu corpo continuou a persegui-la
durante vários anos da sua adolescência.

Judy passava grande parte do seu tempo em casa, em intermináveis


discussões com a família. Demonstrava seu tédio a todos e culpava a ela e à
mãe, alternadamente, pelo fato de estar condenada a ficar olhando as quatro
paredes do seu quarto. Durante todo esse tempo, ela raramente falava do pai;
sentia que pouco o conhecia e pouco se lembrava dele. Certa vez, ao pensar
nele durante uma entrevista, ficou calada durante alguns minutos. Seu lábio
inferior começou a tremer, chegaram-lhe lágrimas aos olhos e ela disse: “Eu
devo ter tido um pai quando era pequena, porque tenho um pai agora. Ele deve
ter existido, mas não posso lembrar-me dele. Onde estava? Por que não
estava ali? Por que não se preocupava?” Seu pai, acrescentou
sarcasticamente, amava apenas a barriga. Em lagrimas, revelou seu mais
profundo medo — o de não ser amada.

Os estados de depressão que Judy experimentava com frequência durante a


adolescência desapareceram espontaneamente e deram lugar a um período de
humor melhor e mais brincalhão. Um desses momentos ocorreu quando ela se
apaixonou. Conheceu Bill por acaso e continuou secretamente, e a distância,
uma relação com ele. De sua janela, via-o passar indo ou voltando do trabalho,
andando de bicicleta ou caminhando até o armazém. Sentia-se como se
estivesse fazendo algo de pecaminoso e como voyeuse. Finalmente,
encontrou-se com ele outra vez e saíram juntos, mas tudo terminou quando o
rapaz mudou-se da cidade, pouco depois. Judy não hesitou em dizer ao
terapeuta que sonhava com o rapaz durante a noite e pensava nele durante o
dia. Uma moda entre as meninas da escola, na época, favorecia a necessidade
de devaneio experimentada por Judy e ao mesmo tempo fez com que
participasse de um grupo de colegas que se dedicavam a esse passatempo. A
moda consistia em inventar histórias sobre um “namorado de papel” — ou seja,
um namorado inexistente, mas criado pela menina para falar dele com outras
pessoas. Isso permitia que uma menina falasse de um namorado sem
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ter namorado, e ao mesmo tempo sem mentir, já que as outras sabiam que era
“faz-de-conta”. Por vezes, realidade e ficção se misturavam — como, por
exemplo, quando todo o grupo, inclusive Judy, ficou extremamente excitado
com noivado de uma das meninas, até compreenderem finalmente que tudo
não passava de um “noivado de papel”. Judy tinha, na época, 16 anos, e
considerava-se muito infantil, mas apesar disso gostava dessa brincadeira tola
de faz-de-conta, durante as poucas semanas em que esteve em voga. Pouco
depois desse episódio de devaneios comuns, Judy apegou-se a um professor
cujas críticas e elogios lhe tornavam o dia sombrio ou luminoso. Falava dele
com verdadeira afeição e confiança e resumiu essa nova experiência dizendo:
“Tudo o que sei é que gosto dele”. Acrescentava: “Meu pai nunca sorriu como
ele; eu não poderia chegar até meu pai, mas posso chegar até o professor X;
ele está interessado; ele presta atenção”.

Quando Judy tinha 15 anos, seu irmão mais velho, de 21 anos, casou-se, e ela
foi uma das damas de honra do casamento. Empolgou-se tanto com o fato,
como se fosse a noiva. Ficou extasiada e feliz com seu vestido e entregou-se a
fantasias sobre o amor e a felicidade. Seu estado emocional foi do êxtase para
a excitação erótica; ela não podia conter os risos e o rubor, e não podia deixar
de pensar nas roupas do casamento e tudo o mais. Ao mesmo tempo, tornou-
se particularmente avessa à solidão. Ao falar disso, revelou que na verdade
havia sofrido de uma ansiedade claustrofóbica passageira; precisava
desesperadamente da presença de outros — para protegê-la da tentação de
masturbar-se. Quando em estado de excitação sexual, tinha um medo pânico
de que seus impulsos rompessem a barreira do controle rígido. Judy sempre
amara seu irmão mais velho, como se fosse uma mistura de irmão e pai. Não é
de espantar, portanto, que seu casamento provocasse desejos incestuosos que
eram satisfeitos pela sua entrega altruística — isto é, pelo seu amor dedicado à
futura cunhada. Seu desejo de um filho era mal disfarçado, e tornou-se
consciente tão logo foi anunciada a gravidez da cunhada, no primeiro ano de
casamento. Quando a criança nasceu, Judy declarou que a única pessoa com
quem se entendia era o filho do irmão. Amava a criança e disse que algum dia
gostaria de ter um filho assim. Na época, Judy estava com 16 anos.

Só gradualmente Judy voltou seus sentimentos heterossexuais para fora da


família. Durante algum tempo saía com seu irmão gêmeo Charlie, que na
época não tinha namorada. Sempre que Judy demonstrava sentimentos de
afeição para com um rapaz e parecia na iminência de iniciar um namoro, a mãe
fazia objeções, menosprezando a escolha da filha. Judy teve consciência do
ciúme e possessividade da mãe, mas para libertar-se dele teve de renunciar às
suas próprias necessidades de depen-

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dência e reconhecer os seus desejos sexuais. Durante algum tempo, o amor


temo e o amor sexual foram distinguidos um do outro. Quando se sentia
sexualmente atraída por um rapaz, evitava-o, mas o espionava à distância. Via-
se então, muito conscientemente, na imagem de uma prostituta, “furtivamente
junto de um poste, com uma boina sobre um dos olhos, na penumbra da noite”.
E acrescentava, com um cinismo fingido: “Afinal de contas, esta geração
cresceu na era de Pat X” — referência a uma prostituta que participou de um
julgamento sensacional sobre a prostituição na sociedade de Nova York. Essas
poses de prostituta típica, que compreendiam todas as fantasias sexuais de
Judy, deram
lugar sem transição ao amor romântico na sala de aula, na praia, no baile. A
saudade e os sentimentos de afeto por vários rapazes chegavam a um súbito
apogeu e desapareciam tão subitamente quanto haviam surgido; a ansiedade
intervinha sempre.

A despeito das derrotas e decepções, o desejo de amor de Judy impelia-a


incessantemente a novos episódios com os rapazes. As várias fases dessa
evolução foram atravessadas lentamente, alternando-se os avanços com as
paralisações e regressões. Só aos 17 anos Judy chegou ao ponto, em sua
evolução emocional, de reconhecer os rudimentos de uma orientação
heterossexual extrafamiliar. Aceitou gradualmente os impulsos sexuais de
maneira mais direta, na medida em que crescia a sua confiança na capacidade
de controlar as moções pulsionais. Os dois receios básicos que Judy
reconhecera claramente na adolescência — o medo de perder o controle e o
medo de não ser capaz de amar — revelaram-se como os dois lados da
mesma moeda.

B. RECONSTRUÇÃO DE UM CONTINUO DESENVOLVIMENTO

Vamos passar agora ao exame da vida anterior de Judy, para ver como uma
avaliação genética nos pode ajudar na apreciação de alguns dos fatores de sua
vida inicial que determinaram, em grande parte, seu desenvolvimento
adolescente. Ao estabelecer um contínuo em seu desenvolvimento,
acompanharemos as modificações dos padrões emocionais significativos da
primeira infância — modificações influenciadas por fatores externos, como
configuração da família e protótipos transacionais estabelecidos entre os
membros da família. Ao mesmo tempo, teremos de examinar os efeitos
formativos de fatores intrínsecos, como os dons constitucionais e a maturação.
A influência mútua desses vários componentes produz, bem cedo na vida, uma
abordagem regulatória básica da manutenção do bem-estar ótimo. Essa
abordagem regulatória sofre mais tarde muitas modificações que são
provocadas pelos avanços do ego

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e também pelas maneiras particulares de liquidação das fases pré-genitais do


desenvolvimento psicossexual. Nossa atenção voltar-se-á não só para os
precursores do conflito adolescente, mas também para os processos
adaptativos e seus antecedentes germinais na vida anterior.

Já dissemos que Judy era trigêmea, e que tinha um irmão seis anos mais
velho. Os pais não haviam planejado a segunda gravidez; na verdade, não
queriam ter mais filhos: mal podiam dar contas das despesas com o primeiro,
pois o pai nunca conseguiu um emprego estável e adequado. A nova gravidez
foi tolerada pela mãe, que a ela se resignou. O pai, pelo contrário e apesar de
todos os argumentos práticos, sentiu-se feliz em ver crescer a família. No
sétimo mês de gravidez a mãe foi informada de que teria trigêmeos. Ficou
chocada e irritada, mas o pai sentiu-se orgulhoso e feliz com a notícia. Essa
diferença nas atitudes dos pais continuou: a mãe sentia-se acorrentada pelos
filhos, derrotada e exaurida. O pai mantinha uma atitude positiva e entusiasta
em relação a eles e sentia-se interessado e otimista quanto ao seu
desenvolvimento — sem, porém, contribuir com seu esforço e
responsabilidade, de acordo com as necessidades de uma família grande.
Gostava de ter a família, mas mantinha esse bem valioso à distância, a fim de
viver sua vida ao seu jeito, resistindo teimosamente às exigências emocionais e
materiais que lhe eram feitas pela mulher e pelos filhos.

O parto foi normal e correu na época certa. Judy foi a primeira a nascer. Desde
o início ela demonstrou a maior vitalidade dos três e era quem menos solicitava
a mãe. Esse fato é de particular importância, já que os dois meninos foram uma
causa constante de preocupações para a mãe. Judy e seu irmão Ben
nasceram cada um com dois quilos, mas os dois meninos não ganharam peso
com a mesma rapidez que a menina. Também nunca tiveram a mesma
regularidade da irmã quanto aos hábitos de sono e alimentação; Judy logo se
tornava mais competente, mais independente e, de modo geral, mais madura
do que os irmãos. A mãe descreveu Judy como uma criança “viva, esperta e
dócil”, mas para os meninos só tinha palavras de lamentação e pena. Judy
andou aos nove meses, Ben aos 15 e Charlie aos dois anos. Judy começou a
falar com cerca de um ano; seus irmãos o fizeram depois, sendo Charlie
sempre o último. O treinamento higiênico de Judy completou-se logo, e com tal
facilidade, que sua mãe não se lembrava das datas e dos detalhes de seu
comportamento. Por outro lado, tinha muitas recordações precisas ao falar dos
meninos. O mesmo ocorreu com a saúde dos trigêmeos: enquanto os meninos
exigiam atenção constante, Judy nunca apresentou problemas de saúde em
sua primeira infância. Só na pré-puberdade a sua saúde deu motivo de
preocupações, primeiro em relação à pele (acne) e pouco depois em relação às
suas dores de cabeça.

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Durante toda a primeira infância Judy sempre foi — pelo menos aos olhos da
mãe — a norma ou o “padrão” pelo qual o progresso das crianças era medido.
Sem dúvida, o seu desenvolvimento foi o mais satisfatório dos três. Mas para a
mãe era uma injustiça os meninos serem doentes e fracos, enquanto a menina
era saudável e forte.

Judy foi a primeira a nascer; quanto ao aprendizado também era a primeira.


Essa característica acentuou-se ao passar a fase de bebê. Como Judy
progredia bem, recebia menos atenção da mãe e, assim, foi privada de
cuidados maternos no início da vida. Parecia satisfeita com a atenção recebida,
enquanto os meninos sempre exigiam mais. Enquanto os bebês se satisfaziam
com mamadeiras e atenção física, eram tratados da mesma maneira; mas os
meninos exigiam uma alimentação e uma atenção mais especiais do que Judy.
A mãe lembrava que ela jamais vira os filhos como indivíduos, mas apenas
como três bebês que precisavam de mamadeiras. Surgiram dificuldades
quando eles não puderam mais ser tranquilizados pela alimentação, mas
passaram a exigir tratamento diferente, de acordo com suas necessidades
individuais.

Ao tentar garantir o amor da mãe, Judy logo passou a se pautar pelo meio
ambiente, isto é, pelas respostas suscitadas pelo seu maior desenvolvimento.
Assim, passou a valer-se de suas realizações para a manutenção de suas
necessidades de dependência, tendo começado desde cedo a agradar a mãe
com essas realizações e a mostrar uma aparente independência. Assim, a fim
de obter o amor da mãe, Judy teve de abrir mão, prematuramente, de
satisfações das quais via os irmãos desfrutarem por um tempo
excepcionalmente longo. As circunstâncias, o ritmo de maturação e os dotes
especiais contribuíram com suas respectivas parcelas para o início da
organização da personalidade dessa criança na qual a notável tolerância à
frustração e a tendência à aceitação, como esforço para dominar a ansiedade,
são perceptíveis. O desenvolvimento satisfatório de Judy como bebê
estabeleceu o nível de expectativas desde o início, e aparentemente ela achou
fácil enquadrar-se na imagem que o ambiente havia formado. Tornou-se aquilo
que os outros queriam que fosse; em troca, recebeu aceitação e louvor, mas
perdeu um senso de valor e totalidade, cuja falta se tornaria tão evidente em
sua adolescência.

Judy tornou-se, assim, uma criança-modelo. Tinha de manter seu progresso a


fim de agradar aos pais, particularmente à mãe. Desnecessário dizer que sua
pulsão de realização recebeu um reforço poderoso dos seus impulsos
agressivos e retaliatórios. Judy podia fazer mais e melhor do que seus irmãos
e, portanto, p6de tornar-se logo a pequena ajudante da mãe. Seu
desenvolvimento a transformou numa espécie de irmã mais velha que tinha de
tomar conta dos irmãos e ajudá-los. Durante anos ela foi a líder, a protetora e,
na verdade, a pequena

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ama-seca de seus irmãos. “Eu ajudava a todos [isto é, aos irmãos] e ninguém
me ajudava”, foram as palavras de irritação e ressentimento de Judy, ao
recordar-se mais tarde de seus anos de infância. Seu anseio de amor, seu
sentimento de solidão, seu ciúme sem limites e sua ambição emocional tinham
raízes nesses anos iniciais.

Durante o período pré-edípico Judy identificou-se com a mãe ativa; ajudou-a na


criação dos filhos. Com essa identificação, Judy escapou da dependência oral,
mas adquiriu cedo um profundo sentimento de culpa: sua maternagem mal
escondia o impulso hostil para com os irmãos, e suas insaciáveis necessidades
orais em relação à mãe. Para manter a separação em relação à mãe e ao
mesmo tempo estar próxima dela, a criança tornou-se como a mãe. Incorporou
as exigências e as expectativas maternas, que em seguida realizou
profusamente. Em torno dessa identificação hostil, a vida emocional da criança
surgiu num padrão mais integrado e duradouro: as expectativas elevadas iam
lado a lado com a baixa autoestima. A criança lutou para ser boa, mas sentiu-
se sempre aquém do ideal; e nisso era igual à mãe, que tinha toda a bondade
mas nunca se tornou a mãe generosa e abnegada que Judy desejava. A
autoacusação de Judy é um eco de sua acusação à mãe, que a abandonou
pelos irmãos e pelos seus interesses pessoais.

Judy foi descrita pela mãe como um “bebê maravilhoso, muito bom”, até os
cinco anos de idade. Nessa época ficou decepcionada com o pai, que se
relacionava cordialmente com os filhos sempre que ele próprio precisava de
companhia, sem perceber o desejo que estes tinham de serem amados por ele.
Judy transferiu sua afeição do pai para o irmão mais velho, que se tornou,
naqueles anos, um pai-substituto. Essa transferência dos anseios edípicos do
pai para o irmão mais velho foi prenunciada pela íntima relação entre a mãe e o
filho mais velho, relação que fazia dele o homem inquestionavelmente preferido
na família. O irmão mais velho, na verdade, assumiu de várias formas um papel
paternal em relação a Judy. O rapaz, então pré-adolescente, revelava uma
clara afeição pela irmãzinha, mas expressava seu interesse por ela dizendo-lhe
como se devia comportar e ralhando com ela sempre que cometia erros. A
extensão em que o irmão se transformara no representante do pai edípico ficou
evidente na participação emocional de Judy no casamento dele, quando ela
tinha 15 anos. A magnitude da decepção de Judy com o pai edípico pode ser
calculada pela sua explosão emocional adolescente ao se recordar como o pai
a havia abandonado na infância, numa época em que mais precisava dele.

Com o fim da fase edípica, em torno dos cinco anos, houve em Judy uma
modificação: mais uma vez ela repetiu o padrão anterior de compensar uma
decepção tornando-se autossuficiente e competente.

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Mas supercompensou, e tornou-se pretensiosa e rabugenta, traços que se


acentuaram com o estabelecimento mais definitivo do período de latência. Judy
sentia-se superior ao resto da família e achava que merecia uma vida especial,
própria. O esboço do romance familiar é perceptível na atitude de superioridade
de Judy, e volta a aparecer na adolescência, quando, com a amiga, brincou de
morar no Palácio de Buckingham.
Uma fantasia anterior deve ser mencionada aqui, por ter persistido até a
adolescência, ou seja, a fantasia de que “somos realmente quadrigêmeos, dois
meninos e duas meninas; uma menina morreu ao nascer e eu fiquei sozinha”.
A tentativa de completar-se continuou sendo feita na forma de uma busca da
irmã gêmea perdida. Nessa fantasia está encerrada a perda da maternagem
pela criança, logo no começo da vida, bem como uma compensação pela falta
de sentimento de completeza que experimentou em relação aos irmãos. Judy
precisou sempre de uma amiga a quem pudesse admirar e possuir, mas
exatamente essa necessidade provocava a perda da amiga tão
desesperadamente desejada.

As consequências do desapontamento edípico, no caso de Judy, foram


facilmente perceptíveis: entregou-se aos estudos, nos quais se saía muito bem.
Seus irmãos ficavam muito para trás enquanto ela fazia progressos com uma
ambição e uma competitividade intelectual inquebrantáveis. Em segundo lugar,
os sentimentos sexuais de Judy sofreram uma repressão maciça e criaram um
empobrecimento emocional que não atingiu uma fase crítica senão na
puberdade. A cena de sedução com o tio parece ter sido um trauma de
puberdade, de acordo com o modelo descrito por Greenacre (1950). Esses
traumas foram provocados pelas vítimas, e eram repetições compulsivas dos
conflitos pré-edípicos que influenciaram a intensidade da fase edípica e a
subsequente seriedade e deformação do superego. Outra conclusão do
trabalho de Greenacre é evidenciada pelo caso de Judy, ou seja, a utilização
do trauma como uma justificação masoquista para uma defesa contra a
sexualidade. A sensibilidade da pele, que teve um papel destacado na
experiência de sedução de Judy, indica uma perturbação do contato corporal já
na infância. O pedido do tio para que se despisse reflete tanto o seu próprio
desejo de estímulo sexual pelas carícias como, simultaneamente, uma
afirmação do perigo sexual que o macho representa. A esse incidente seguiu-
se a fuga a qualquer situação que pudesse despertar sentimentos sexuais.
Quando Judy finalmente ficou a sós com um rapaz teve medo de ser atacada
por ele. Obviamente, temia sua própria perda de controle. A esse impasse
reagiu com náuseas e vômitos. Reconhecemos nesses sintomas passageiros
uma instabilidade ingestiva que parece remontar ao período da ambivalência
oral. Quando Judy estava no acampamento, no princípio da adolescência,
experimentava sensações de fome ou per-

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turbações estomacais. Telefonava para casa e pedia comida, mas rejeitava


sempre a sugestão preocupada da mãe, para que voltasse para casa.

A organização da personalidade de Judy fez-se em torno de uma tríade de


constelações: 1) uma insaciabilidade oral que a predispunha para estados
depressivos; 2) uma dependência e uma relação objetal ambivalente, que abriu
caminho para uma identificação hostil que lhe permitiu manter contato com o
objeto amado e odiado; 3) impulsos agressivos, de rivalidade, que foram
inibidos e voltados contra o eu; um sentimento permanente de culpa
predominou. Esse padrão característico de lidar com as pulsões, superego e
ambiente estava mais ou menos completo na época em que a criança entrou
no período de latência. Continuou intato até que a puberdade perturbou o
equilíbrio existente, e a calma precária dos anos anteriores. Mas o esforço que
levou Judy através do período de latência não deve ser subestimado: ela
resistia com uma determinação obstinada à volta à dependência materna e
deixou aos irmãos o mundo de prazeres infantis, ao mesmo tempo que se
empenhava em trilhar os caminhos da satisfação (êxito escolar) que lhe
estavam abertos fora dos limites estreitos da família. Judy dirigiu toda a sua
energia para o estudo, e reconhecemos em seu ideal do ego o resultado de
suas tendências conflitantes. Ela queria ser enfermeira e professora de
enfermeiras. Essa aspiração profissional, que reservou com uma pertinácia
excepcional, representa uma sublimação de sua própria necessidade de ser
cuidada pela mãe, bem como a identificação inicial da criança com a mãe ativa;
além disso, reconhecemos a maneira que tinha Judy de dominar a frustração e
contrabalançar a pressão regressiva transformando o que ela desejava
passivamente em algo que realizava ativamente. Sua escolha profissional
baseou-se, dessa forma, num trauma infantil focal; oferecia, dentro da matriz
da conformidade e do prestígio social, uma atividade organizada, pela qual era
possível articular o domínio do trauma, como uma tarefa para toda a vida.
Seu uso demasiado extenso do mecanismo de defesa da inversão interferiu
com o desenvolvimento da feminilidade de Judy. A posição passiva continuou
ligada à dependência infantil da mãe, e só tentativamente foi abandonada
durante a fase edípica. Quando na puberdade as moções pulsionais se
intensificaram, a menina voltou literalmente à mãe e partilhou a cama com ela.
O segredo em torno disso, e os detalhes sobre tais hábitos descritos acima não
deixam dúvidas de que esse apego à mãe foi apenas uma continuação dos
desejos pré-edípicos que nunca tinham sido abandonados. Ë interessante notar
que a capacidade que Judy teve de separar-se de sua mãe — de início,
apenas fisicamente — foi conseguida pela sua relação positiva com a
terapeuta,

Página 53

uma mulher jovem, compreensiva e atraente. A menina encontrou nela um


ideal do ego, uma irmã, e não uma mãe. A terapeuta, sendo menos exigente e
mais tolerante do que o superego de Judy, permitiu-lhe sentir-se não-egoísta,
sem motivos exploradores. Por vezes, Judy até mesmo usava um suéter da
mesma cor do usado pela terapeuta: ela havia, de fato, encontrado a sua irmã
gêmea. Também suas roupas foram fortemente influenciadas pela relação com
a terapeuta. Começou a apreciar as roupas femininas, o que foi uma mudança
óbvia, pois nela a aparência descuidada de quem está em casa era a regra.
Essa transferência ajudou-a a passar de uma dependência exigente para uma
outra, tolerante. Assim, ela assimilou um alter ego idealizado numa relação que
estava distanciada do reino da fantasia, e transferida para uma experiência da
realidade. Durante o processo, surgiram em Judy o sentimento de completeza
e de dignidade; ao mesmo tempo, sua competitividade agressiva diminuiu, sua
identificação agressiva, também. As fantasias sexuais passaram ao primeiro
plano e ela desenvolveu atração pelos professores que idealizava.

O desapego progressivo da mãe pré-edípica levou a um renascimento dos


desejos edípicos abandonados. O encontro do objeto heterossexual tornou-se
proporcional ao êxito acadêmico, deixando de lhe ser antagônico. As fantasias
e sensações sexuais foram reconhecidas como egossintônicas, sem
superarem a barreira auto protetora de seu eu físico e emocional. Um medo do
poder de suas emoções ainda era evidente no comportamento de Judy, mas
seus interesses, atividades e experiências indicavam claramente que havia
ocorrido uma inclinação decisiva para a feminilidade, e, com ela, Judy entrou
na fase da adolescência final.

Página 54- Em branco

Página 55

Capítulo 3

Fases da adolescência

A passagem pelo período da adolescência não se faz num ritmo constante nem
em linha reta. Na verdade, as metas e realizações da vida mental que
caracterizam as várias fases do período adolescente têm, com frequência, uma
direção contraditória e são qualitativamente heterogêneas. Ou seja, a
progressão, digressão e regressão evidenciam-se alternadamente, como
sempre ocorre nas fases que envolvem transitoriamente alvos antagônicos. Os
mecanismos defensivo e adaptativo se interligam, e a duração de qualquer das
fases não pode ser fixada por nenhum esquema temporal ou referência etária.
Essa extraordinária elasticidade do movimento psicológico, que sublinha a
diversidade imensa do período adolescente, deve ser bem ressaltada. Mas
perdura o fato de que uma sequência ordenada de desenvolvimento
psicológico real- mente existe, e pode ser descrita em termos de fases mais ou
menos distintas.
O adolescente pode passar rapidamente por todas essas várias fases, ou pode
desenvolver intermináveis variações em qualquer uma delas; mas não pode
deixar totalmente de lado as transformações psíquicas essenciais das várias
fases. Sua elaboração por processos de diferenciação num período longo de
tempo resulta numa estrutura de personalidade complexa. Uma passagem
apressada pela adolescência geralmente produz uma marca no adulto, que
pode ser melhor descrita como primitivização. Nenhuma dessas duas
evoluções deve ser confundida com níveis de maturidade, pois são antes graus
de complexidade

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e diferenciação. Tanto o empuxo inato para a frente, como o potencial de


crescimento do desenvolvimento da personalidade adolescente visam
inexoravelmente à integração da realização recente da maturação da
puberdade com a manutenção dos modos de equilíbrio mais antigos e
habituais. Por esse processo de integração, preserva-se uma continuidade na
experiência do ego que facilita a emergência de um senso estável do eu — ou
um senso de identidade.

1. O Período de Latência, uma Introdução

A importância específica do período de latência para a abordagem, entrada e


passagem bem-sucedidas na adolescência já foi mencionada. O período de
latência proporciona à criança o equipamento, em termos de desenvolvimento
do ego, que a prepara para o encontro com incremento das pulsões da
puberdade. A criança, em outras palavras, preparada para a tarefa de dispersar
o influxo de energia por todos os níveis do funcionamento da personalidade
desenvolvidos durante o período de latência. Assim, é capaz de dirigir a
energia instintual para estruturas psíquicas diferentes e para múltiplas
atividades de dimensões psicossociais, em lugar de ter de experimentá-la
apenas como um aumento da tensão sexual e agressiva. Freud (1905, b)
referiu-se à latência abortada como uma precocidade sexual espontânea que
se deve ao fato de não se estabelecer com êxito o período de latência;
portanto, Pensava ele, as “inibições sexuais” que constituem um componente
essencial do período de latência não foram adquiridas adequadamente, e
assim “ocasionam manifestações sexuais que, devido de um lado ao fato de
serem incompletas as inibições sexuais e, de outro, ao fato de não estar
desenvolvido o sistema genital, podem ter a natureza de perversões”.
A interpretação literal da expressão período de latência, significando que esses
anos são destituídos de necessidades sexuais — isto que a sexualidade está
latente — foi há muito substituída pelo reconhecimento das evidências clínicas
de que os sentimentos sexuais expressos nas atividades masturbatória,
voyeurista, exibicionista, e sadomasoquista não deixam de existir durante o
período •de latência (Alpert, 1941; Bornstein, 1951). Mas nenhum alvo instintual
novo surge nesse estágio. O que se modifica no período de latência é o
controle crescente do ego e superego sobre a vida dos instintos. Fenichel
(1945, b) assim se referiu a isso: Durante o período de latência as exigências
instintuais não se modificaram muito, mas o ego, sim. A atividade sexual

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durante o período de latência é relegada ao papel de um regulador transitório


da tensão. Essa função é substituída pelo aparecimento de uma variedade de
atividades do ego, de natureza sublimatória, adaptativa e defensiva. Essa
modificação é promovida, substancialmente, pelo fato de que as “relações
objetais são abandonadas e substituídas por identificações” (Freud, 1924, b). A
passagem, na catexia, de um objeto exterior para um objeto interior, bem pode
ser chamada de critério essencial do período de latência. Freud (1905, b) fez
referência especial a esse fato que, no entanto, foi obscurecido pelo conceito
mais geral de que a “inibição sexual” é o indicador predominante do período de
latência. Disse ele: “De tempos em tempos [durante o período de latência] uma
manifestação fragmentária da sexualidade que escapou da sublimação pode
irromper; ou uma certa atividade sexual pode persistir durante todo o período
de latência, até que o instinto sexual apareça com maior intensidade, na
puberdade. Devido ao desenvolvimento da latência, a expressão direta, por
exemplo, de necessidades sexuais e de dependência diminui, já que estas se
fundem com esforços aloplásticos mais complexos, ou são mantidas à
distância por defesas das quais as compulsivo-obsessivas são típicas nesse
período”.

A dependência em que os sentimentos de valor e significação estão da


garantia dos pais é substituída progressivamente no período de latência por um
senso de autoestima derivado das realizações e habilidades que conquistam a
aprovação objetiva e social. Os próprios recursos interiores da criança se
unem, assim, aos pais como reguladores de sua autoestima. Com a
ascendência do superego, a criança torna-se mais capaz de manter seu
equilíbrio narcísico de maneira mais ou menos independente. O âmbito cada
vez mais amplo de sua competência social, intelectual e motora, por sua vez,
permite-lhe um vasto arsenal de recursos, que a ajudam a manter seu
equilíbrio narcísico dentro de limites mais estreitos do que era possível na
infância. Uma maior estabilidade de afetos e estados de espírito é evidente.

Concomitantemente a esses eventos, as funções do ego adquirem cada vez


mais capacidade de resistência à regressão; e atividades significativas do ego,
como percepção, aprendizado, memória e pensamento consolidam-se melhor
na esfera livre de conflitos do ego. Segue-se que as flutuações de tensão
instintual não ameaçam a integridade das funções do ego, como o faziam nos
anos de pré-latência. O estabelecimento de identificações estáveis torna a
criança mais independente das relações objetais e sua intensidade e qualidade
variáveis. A ambivalência declina acentuadamente, em especial durante a
última parte do período de latência (Bornstein, 1 95 1). O consequente controle
interior mais rigoroso torna-se evidente no aparecimento de comportamentos e
atitudes moti-

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vados pela lógica e orientados para valores. Esse desenvolvimento geral


coloca em funcionamento autônomo funções mentais superiores e reduz,
decisivamente, o uso do corpo como instrumento de expressão da vida interior.
Desse ponto de vista, a latência pode ser descrita em termos “da redução do
uso expressivo de todo o corpo, aumento na capacidade de expressão verbal
isoladamente da atividade motora” (Kris, 1939). A própria linguagem sofre uma
mudança; a expressão “porque” é usada com maior desenvoltura (Werner,
1940). Além disso, a linguagem é cada vez mais usada para disfarçar, como
mostra o uso da alegoria, da comparação e da analogia, em contraste com o
uso da linguagem pela criança menor, que expressa sem circunlóquios suas
emoções e desejos. Ella Sharpe (Sharpe, 1940) mostrou que o uso da
metáfora se destaca no período de lactência e na adolescência. Essa figura de
linguagem “evolui ao lado do controle dos orifícios corporais. As emoções que
acompanhavam originalmente a descarga corporal encontram canais e
materiais substitutos”. Um ganho na auto expressão artística compensa a
perda de espontaneidade corporal não autoconsciente.

Um avanço da consciência social da criança em latência se faz lado a lado com


a separação entre o pensamento racional e a fantasia, com a separação entre
o comportamento do mundo público e o do mundo privado — em suma, com
uma diferenciação nova, intensamente sentida. Nessa diferenciação a criança
apreende facilmente as instituições sociais normativas, como educação, escola
e playground, como um modelo de valor que promoverá seu comportamento
integrativo.

Meninos e meninas mostram diferenças significativas quanto ao seu


desenvolvimento, na latência. A regressão ao nível pré-genital como defesa no
início da latência parece mais típica para o menino do que para a menina. A
inclinação regressiva do menino obscurece o seu desenvolvimento pré-
adolescente. O fato de o menino abandonar a fase edípica de maneira mais
rigorosa e nítida do que a menina torna a primeira parte de seu período de
latência extremamente difícil. A menina, por outro lado, entra nesse período
com menos conflito. Na verdade, ela preserva, com um senso de liberdade,
algumas das características fálicas de seu passado pré-edípico. Greenacre
(1950, a) expressou a opinião de que algum grau de identificação bissexual
ocorre provavelmente na maioria das meninas em algum momento, durante o
período de latência, a menos que elas permaneçam quase que exclusivamente
sob o domínio de prolongados anseios edípicos. A menina entra numa época
de maior conflito durante os últimos anos de seu período de latência, quando
uma irrupção das suas moções pulsionais é iminente e seu superego se mostra
inadequado para conter a onda avassaladora da pré-puberdade.

Página 59
As características gerais da latência, que resumimos, foram descritas
detalhadamente por vários estudos psicanalíticos a respeito desse período
(Fries, 1958), alguns dos quais com referência especial à escolha de livros
(Peller, 1 958; Friedlander, 1 942), à inteligência (Wolfenstein, 1955) e ao
brinquedo (Peller, 1954).

Um pré-requisito para o ingresso na fase adolescente da organização das


pulsões é a consolidação do período de latência; sem isso, a criança
pubescente experimenta uma intensificação simples dos anseios da pré-
latência e evidencia um comportamento infantil mais de natureza contida do
que agressiva. No trabalho analítico com adolescentes — sobretudo
adolescentes jovens — cuio período de latência não foi nunca estabelecido
satisfatoriamente, geralmente prefaciamos ou intercalamos o trabalho analítico
com intervenções educacionais a fim de provocar algumas das realizações
essenciais da latência.

Início de citação

Num determinado caso, um menino de dez anos, bem desenvolvido, que


apresentava dificuldades de aprender, inadequação social e pensamento
bizarro, subitamente, aos dez anos, expressou o desejo de dormir na cama da
mãe e afastar dela o pai. As exigências de abraços e beijos alternavam-se com
desejos de ser pego ao colo pela mãe, como uma criança pequena, ou sentar
no seu colo. A mãe tinha a tendência de ceder aos desejos do filho. Pareceu
essencial, no início mesmo da análise da criança, ajudar a mãe a desenvolver
uma resistência às insinuações sexuais do filho e ensinar-lhe como não ceder,
e ao mesmo tempo lhe oferecer satisfações sucedâneas. O fato de ser
ativamente contida pela mãe na realização dos seus desejos edípicos
influenciou de maneira decisiva a reação da criança: reagiu às proibições
maternas com a repressão de seus desejos edípicos e mostrando resignação.
O menino tornou-se compulsivamente preocupado com seu trabalho escolar,
enchendo cadernos e cadernos, conferindo sem cessar as suas respostas.
Esse comportamento compulsivo serviu como defesa contra as premências
retaliatórias anais dirigidas para a mãe frustrante; esses impulsos eram
atuados em relação às mães de seus colegas de escola. Depois de resolvido o
seu comportamento regressivo, o material edípico surgiu na análise e a
ansie4ade de castração destacou-se por meio da negação, projeção, e
pensamento confuso. O interesse do menino passou para os temas de
castração derivados principalmente da Bíblia: o sacrifício do cordeiro macho na
Páscoa; o Senhor que abaterá todos os primogênitos na terra do Egito. O
massacre das crianças de Belém por Herodes. Acredita-se que sem o uso de
métodos educacionais preparatórios ao início da análise, o tratamento desse
menino teria sido seriamente com prometido.

Fim de nota de rodapé

Página 60

As realizações do período de latência que bem poderiam representar a


precondição essencial de um avanço para adolescência, podem ser resumidas
como segue: a inteligência deve ter se desenvolvido por meio de uma
delineação nítida entre processo de pensamento primário e secundário, e pelo
emprego do julgamento, generalização e lógica; o entendimento social, a
empatia e os sentimentos altruístas devem ter adquirido considerável
estabilidade; a estatura física deve permitir independência e domínio do
ambiente; as funções do ego devem ter adquirido uma capacidade de
resistência cada vez maior à regressão e desintegração sob o impacto de
situações críticas menores, isto é, cotidianas; a capacidade de sintetização do
ego deve ter-se tornado efetiva e complexa e, finalmente, o ego deve ser capaz
de defender sua integrida.de com uma ajuda cada vez menor do mundo
exterior. Essas realizações da latência têm de ceder ao aumento pubertário da
energia de pulsão. Se a nova condição da puberdade apenas reforçar as
realizações da latência, conseguidas sob a influência da repressão sexual,
então, como observou Anna Freud (1936), “o caráter do indivíduo durante o
período de latência se evidenciará de uma vez por todas”. A imaturidade
emocional será o resultado duradouro, como sempre ocorre quando uma tarefa
específica de uma fase é contornada pelo retorno ou pelo apego às realizações
da fase de desenvolvimento precedente.
2. Pré-adolescência

Durante a pré-adolescência um aumento quantitativo da pressão instintual leva


a uma catexia indiscriminada de todos os modos de satis- fação libidinais e
agressivos que serviram bem à criança durante os primeiros anos de sua vida.
Nem um novo objeto de amor, nem um novo alvo instintual podem ser
percebidos nessa fase. Qualquer experiência pode tornar-se sexualmente
estimulante — mesmo os pensamentos, fantasias e atividades destituídos de
qualquer conotação erótica óbvia. Por exemplo, os estímulos a que o menino
pré-adolescente reage com uma ereção são não-específicos; não é
necessariamente um estímulo erótico que provoca a excitação genital, pois
esta pode ser provocada pela raiva, medo, choque e excitação geral. As
primeiras ejaculações em estado de vigília são, muitas vezes, consequências
de estados afetivos como os mencionados, e não de estímulos especificamente
eróticos. Entre os meninos fisicamente mais maduros, situações competitivas,
como a luta, podem provocar ejaculações espontâneas. Esse estado de coisas
no menino que entra na pubescência testemunha a função do órgão genital
como um órgão de descarga de tensão, não específica. Essa característica

Página 60

da infância dura até a época da adolescência propriamente dita, quando o


órgão gradualmente adquire uma sensibilidade exclusiva aos estímulos
heterossexuais.

O reaparecimento dos impulsos pré-genitais não se manifesta de maneira


uniforme em meninos e meninas, porque os indivíduos de cada sexo enfrentam
de maneira diferente o aumento da pulsão na puberdade. Erikson (1951)
descreveu as notáveis diferenças em construções de jogos de pré-
adolescentes. Torna-se evidente, por esse material, que o tema da
masculinidade e da feminilidade leva a diferentes configurações de jogos, no
menino e na menina. Ë a preocupação (inconsciente e pré-consciente) com os
órgãos sexuais, sua função, integridade e proteção, e não o tema de relação do
amor e sua realização, que se destaca na construção de jogos do pré-
adolescente. Erikson comenta: As diferenças mais significativas no uso do
espaço de jogo por meninos e meninas, portanto, resumem-se no quadro
seguinte: nos meninos, as variáveis importantes são salto, queda, movimento e
sua canalização ou detenção (polícia); nas meninas, interiores estáticos que
são abertos, simplesmente circunscritos ou bloqueados, e penetrados.

Em termos gerais, pode-se dizer que um aumento quantitativo na pulsão


caracteriza a pré-adolescência, e que essa condição leva a um reaparecimento
mais ou menos amplo da pré-genitalidade (A. Freud, 1936). Essa inovação leva
ao fim o período de latência; torna-se difícil alcançar, ensinar e controlar a
criança. O que a educação tiver realizado nos anos anteriores em termos de
controle dos instintos e conformidade social parece agora destinado à
desintegração.

Gesell (1956) relata que as meninas na idade de dez anos são dadas a piadas
indecentes, geralmente relativas às nádegas que ao sexo, enquanto os
meninos preferem piadas sujas, especialmente sobre a eliminação. Segundo
ele, as meninas percebem com maior clareza a separação entre os sistemas
eliminativa e reprodutor, mas ainda mostram a tendência de confundir os dois.
A curiosidade sexual nos meninos e meninas passa da anatomia e conteúdo
para a função e processo. Eles sabem de onde vêm os bebês, mas estão
confusos e não sabem relacionar isso com seus próprios corpos. Entre as
meninas, a curiosidade franca é substituída pelos cochichos e segredos; e
partilhar um segredo cujo conteúdo geralmente é de natureza sexual
indisfarçada continua a ser uma forma de intimidade e de conspiração durante
essa fase. Tal situação difere do período de latência, quando simplesmente ter
um segredo, em si — em relação a qualquer coisa —, é a fonte de prazer e
excitação.

A história que se segue — extraída da análise de um menino pré-adolescente


com incapacidade de aprender devida a uma deficiência do controle do instinto
— ilustra como a revivescência dos impulsos
Página 62

pré-genitais sofre uma repressão e uma transformação graduais, antes de ser


restabelecida a sublimação.

Início de nota de rodapé

Um menino de 12 anos, que enfrentava uma onda de pré-genitalidade e que


repetidamente havia provocado brigas penosas com as autoridades, tanto de
casa como da escola, finalmente conseguiu usar as salvaguardas institucionais
(escola e igreja) para ajudá-lo no controle do instinto e protegê-lo contra a
ansiedade e a culpa. Passou a considerar as piadas anais e as palavras que
lhe haviam criado problemas como pecaminosas, e lembrava-se da punição
que poderia seguir-se ao pecado, ou seja, a expulsão da escola e a
condenação por Deus. Referia-se a um menino imaginário que foi expulso da
escola (é claro que estava falando de si mesmo) por ter repetido a seguinte
frase de duplo sentido: “Mrs. Hershey put her nuts into her chocolate”. [“A Sra.
Hershey colocou suas castanhas no seu chocolate.”] De acordo com a
explicação do menino, “nuts” tem três significados: comer, estar maluco e
pênis; “chocolate” refere-se à cloaca. Mas agora, assegurou ao analista, já não
pensava nessas piadas sujas nem ria com elas. Agora, divertia-se com
palavras ou frases sem sentido, com trocadilhos. Pensar neles lhe dava
acessos de riso. Deu um exemplo: “George Washington went on a bicycle
down the Missislappy and signed the declaration of indigestion”. Um disfarce,
mas bastante tênue, pois a diversão excitada proporcionada pelo absurdo,
expressa no riso alegre, trai o significado inconsciente. O menino podia agora
recrutar livremente ouvintes para suas “piadas” e isso lhe proporcionava alívio
do sentimento de culpa consequente dos impulsos criticáveis (Blos, 1941).
Depois de certo período de invenção ou recitação quase compulsiva das
piadas “purificadas”, esse menino abandonou progressivamente sua coragem
contra fóbica e concentrou-se nas matérias escolares, com grande energia.

Fim de nota de rodapé


A satisfação direta dos instintos em geral se defronta com um superego
desaprovador. Nesse conflito, o ego recorre a muitas soluções conhecidas:
defesas como repressão, formação reativa, deslocamento e outras são
restabelecidas ou reforçadas. Isso permite à criança desenvolver habilidades e
interesses que contam com a aprovação dos pares e lhes trazem prestígio, e a
praticar as muitas ações supercompensadoras, o comportamento compulsivo e
os pensamentos obsessivos, a fim de conter a ansiedade típico dessa idade o
interesse exclusivo do colecionador que se concentra em selos, moedas,
caixas de fósforos ou outros objetos que se prestem a essa atividade. Uma
nova solução a serviço da satisfação dos instintos surge durante a pré-
adolescência: a socialização da culpa. Esse novo recurso para contornar o
conflito do ego nasce da

Página 63

maturação social alcançada durante o desenvolvimento da latência: a criança


dele se utiliza para lançar sobre o grupo em geral a sua culpa, ou, mais
especificamente, sobre o líder, enquanto instigador dos atos de transgressão. A
socialização da culpa torna dispensáveis, pelo menos até certo ponto e
temporariamente, as defesas autoplásticas. O fenômeno dos sentimentos de
culpa comuns ou projetados é uma das razões para a crescente significação da
filiação ao grupo durante essa fase.

Naturalmente, todas essas defesas nem sempre são proporcionais à investida


das exigências instintuais; medos, fobias e hábitos nervosos podem surgir
como sintomas transitórios. A psicologia desenvolvimentista e descritiva refere-
se às saídas tensionais para essa fase: frequentes dores de estomago e de
cabeça, roer unhas, sugar os lábios, gagueira, resmungos, habito de levar as
coisas a boca, de torcer o cabelo, de brincar com coisas. E algumas crianças
ainda chupam o dedo (Gesell, 1956).

Dois modos típicos de comportamento pré-adolescente em meninos e meninas


esclarecem o conflito central dos dois sexos, nessa fase. Os meninos
comportam-se com hostilidade para com as meninas, menosprezam-nas e
tentam evitá-las; em sua companhia, eles são fanfarrões, jactanciosos e
provocadores, exibicionistas e exagerados. Em essência, o menino nega sua
ansiedade, em lugar de procurar estabelecer uma relação. A ansiedade de
castração que provocou o declínio da fase edípica reaparece e força o menino
a companhia exclusiva de seu próprio sexo. Na menina, essa fase caracteriza-
se por uma “onda de atividade”, durante a qual as representações e as atitudes
masculinas chegam ao auge (Deutsch, 1944). Nessa negação demonstrativa
da feminilidade podemos perceber o conflito infantil não solucionado da inveja
do pênis, o conflito central da menina pré-adolescente, e que encontra uma
suspensão temporária notável enquanto as fantasias fálicas têm a sua última
manifestação, antes que a feminilidade se afirme.

Uma jovem de 17 anos descreveu assim a sua pré-adolescência: “A transição


pela qual passei aos 1 1 anos, quando eu era tão social quanto a menina de
cinco e queria ser tão social quanto uma de 14 anos, foi acompanhada de uma
série de fatores. Destes, provavelmente o mais importante, e mais difícil de
explicar foi, para mim, a minha própria maturação. Rompi gradualmente com o
código de meu irmão, por ele conservado até os 16 anos, da inferioridade das
meninas. Deixei de seguir os grupos de meninos que não me aceitavam, e
passei a participar dos grupos de meninas, que me aceitavam. Foi então que a
organização das escoteiras passou a ser uma força orientadora na minha vida.
Eu praticava orgulhosamente a minha boa ação todos os dias. A líder das
escoteiras era uma mulher jovial, que eu admirava e que contrastava
frontalmente com a implicância das professoras e dos meus pais”.

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Outro estudo (More, 1953) registra o desejo de uma menina em diferentes


níveis etários, referentes à pessoa que eu gostaria de ser quando crescer.
Essas autoimagens projetadas no futuro esclarecem a convergência dos
interesses do ego e os desenvolvimentos psicossexuais. Aos 11 anos a menina
queria pertencer ao corpo feminino da Marinha— “usar um uniforme e ser como
minha mãe”. Além disso, ela “gostaria de pilotar aviões e aprender a voar”. Aos
12 anos, queria ser enfermeira, porque a enfermeira “ajuda as pessoas e se
veste bem”. Aos 16, desejava ser modelo ou estenógrafa, “ter 1,70 m e pesar
65 kg”. Nostalgicamente, ela acrescentou: “Queria ser do corpo feminino da
Marinha mas não posso, portanto acho que terei de contentar-me com as
outras carreira. Era a minha ambição secreta”.

É bem conhecido o fato de que a pré-adolescência compreende


desenvolvimentos psicológicos totalmente diferentes no menino e na menina.
As diferenças entre os sexos é notável; a psicologia descritiva dedicou-se
minuciosamente a esse período e acumulou uma grande quantidade de dados
de observação. O menino segue um caminho indireto para a orientação genital,
por intermédio da catexia do instinto pré-genital; por Outro lado, a menina volta-
se mais facilmente e mais vigorosamente para o outro sexo.

Só em relação ao menino é correto dizer que o aumento quantitativo da moção


pulsional durante a pré-adolescência leva a uma catexia indiscriminada da pré-
genitalidade. De fato, o reaparecimento da pré-genitalidade marca o fim da
latência para o homem. Nessa época, Os meninos evidenciam um aumento da
mobilidade difusa (inquietação, agitação) e da voracidade oral, atividades
sádicas, atividades anais (expressa em prazeres coprofílicos, linguagem “suja”,
indiferença pela limpeza, fascinação pelos cheiros, habilidade na produção de
ruídos onomatopeicos), e também dos jogos fálicos, exibicionistas. Um menino
de 11 anos que começou a ser analisado aos dez ilustra esses aspectos, ao
dizer: “Minha palavra favorita agora é merda. Quanto mais velho, mais sujo eu
fico”. Aos 14 anos o mesmo menino fez a seguinte comparação retrospectiva:
“Aos 11 anos minha mente era apenas sujeira, agora é sexo. Há uma grande
diferença”.

Lembramos aqui as observações de Dostoievski sobre os meninos dessa


idade; não podemos deixar de notar a constância das características pré-
adolescentes, em qualquer lugar e época. Em Os Irmãos Karamazov
encontramos esse trecho: “Há certas palavras e conversas que infelizmente é
impossível erradicar das escolas. Meninos de mente e coração puros, crianças
quase, gostam de falar, na escola e entre eles, de coisas, quadros e imagens
dos quais, às vezes, até mesmo os soldados hesitariam em falar. E mais ainda,
muitas coisas de que os soldados não

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tem conhecimento nem concebem são conhecidas de crianças bastante novas


de nossas classes intelectuais e superiores. Não há depravação moral,
nenhum verdadeiro cinismo íntimo corrupto nisso, mas apenas uma aparência
disso, considerada por eles como algo refinado, sutil, ousado e digno de
imitação”.

As fantasias dos meninos pré-adolescentes estão, em geral, bem protegidas.


Os pensamentos egossintônicos de imponência e obscenidade são
comunicados mais livremente. Uma fantasia bem protegida, preservada desde
a idade de cerca de cinco anos e usada novamente aos onze para provocar o
estímulo genital, foi revelada aos poucos por um menino que estava sendo
analisado. Ele só revelou a sensação sexual que resultava desse estímulo dois
anos depois, quando corrigiu espontaneamente a sua negação anterior. A
fantasia era a seguinte: “Eu sempre pensei que se dava corda nas meninas
com uma chave localizada na parte interna de suas coxas. Quando se dava
corda nelas, ficavam muito altas; os meninos, proporcionalmente, tinham só
uma polegada. Subiam pelas pernas dessas meninas altas, entravam por baixo
de sua saia e de suas calcinhas. Ali havia redes, penduradas não se sabe
onde. Os meninos subiam nas redes. Eu sempre chamei isso de montar na
menina”. Assim, a palavra montar adquiria uma conotação muito especial, de
colorido erótico e levemente constrangedora.

Esse devaneio, como geralmente ocorre, foi elaborado na pré-adolescência e


combinado com fatos correntes. No caso desse menino, tomou a forma de uma
fantasia na qual as meninas da escola prendiam o seu melhor amigo e o
desnudavam. O tema do assassinato, domínio, humilhação e exploração do
gigante, isto é, da mulher fálica (a imagem arcaica da mãe) voltava em
variações intermináveis. A desigualdade nas batalhas imaginadas entre
meninos e meninas mostra, nesse caso, o medo da menina, bem como o
impulso agressivo do menino contra o corpo da mãe, em especial os seios, aos
quais se referia como “as massas salientes” ou, pejorativamente, como “as
tetas” ou “seus órgãos sexuais superiores”. Ele achava que estava sendo
impedido de lutar ou de ser duro com as meninas como uma maneira de conter
seus impulsos destrutivos dirigidos contra os seios delas. As meninas,
raciocinava ele, estavam protegidas porque “precisam dessas coisas”. Uma de
suas tiradas contra as meninas era a seguinte: “Acredita-se que as meninas
são fracas. É uma farsa. Por que abrir a porta para elas? Elas podem fazê-lo.
Na verdade, frequentemente são mais fortes do que os meninos. E só devido
aos bebês que elas são protegidas. Um bebê de cada vez. Um homem pode
fazer um milhão deles de uma só vez. Mas não, os homens podem ser
sacrificados na guerra, e mortos.” Ele tinha vontade de bater nos seios de uma
menina, quando achava que ela não permitiria que

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ele os tocasse. Sabia a fase de desenvolvimento do seio de cada menina de


sua classe. Tipicamente, essas fantasias e anseios eram contra atuado pela
afirmação: “Ainda bem que sou menino”. E num processo de defesa coletiva,
ele se associava aos seus companheiros.

O material acima é citado como suporte clínico suplementar do modelo teórico


da pré-adolescência. A sua interpretação permite o delineamento do conflito
pré-adolescente típico do menino como sendo de medo e inveja da mulher. A
tendência identificatória com a mãe fálica tende a aliviar a ansiedade de
castração em relação a ela; normalmente, constrói-se uma organização
defensiva contra essa tendência. Lembramos aqui a tese de Bettelheim (1954)
de que os ritos de iniciação à puberdade servem, para os meninos, ao
propósito de resolver sua inveja da mulher. Em essência, portanto, uma
identificação bissexual tem de ser resolvida (Mead, 1958). Bettelheim (1954)
oferece material clínico que demonstra “que certos ritos de iniciação têm
origem nas tentativas do adolescente de integrar a sua inveja do outro sexo, ou
ajustar-se ao papel determinado para seu sexo e abandonar as satisfações
infantis pré-genitais”.
Na fase da pré-adolescência o menino tem de renunciar novamente, e agora
de maneira definitiva, ao seu desejo de ter um bebê (seio, passividade) e mais
ou menos completar a tarefa do período edípico (Mack Brunswick, 1 940). Num
homem de talento, esse desejo pode ser realizado por meio do trabalho
criativo; e sempre que esses homens buscam tratamento devido ao
desaparecimento de sua atividade criativa, revelam uma organização de
pulsões típica, que Jacobson (1950) descreveu em seu trabalho “The Wish for
a Child in Boys”. Com relação a esses pacientes, Jacobson diz que “sua
atividade criativa mostra, com regularidade, fantasias reprodutivas femininas
inconscientes, intensamente catexiadas”. Van der Leeuw (1958) ressaltou a
inveja normal que o menino tem da mãe pré-edípica e a importância que tem
para o desenvolvimento progressivo a sua resolução, ou seja, o abandono do
desejo pré-edípico de ficar grávido e ter filhos como a mãe. Van der Leeuw
continua: “Os obstáculos a serem superados são os sentimentos de raiva,
ciúme, rivalidade e, acima de tudo, de impotência e desamparo, e a agressão
destrutiva que acompanha essas experiências. Na infância, o parto é visto
como uma realização, como poder e competição com a mãe. Ele representa
ser ativo como a mãe. Ë uma identificação com a mãe produtora e ativa”. A
fixação no nível pré-adolescente torna essa fase uma organização de pulsões
prolongada; em casos dessa fixação, a fase da pré-adolescência fracassou,
devido a um medo insuperável da castração em relação à mãe arcaica,
resolvido por uma identificação com a mulher fálica.

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Como o menino pré-adolescente vê a menina dessa idade? Certamente, a


menina pré-adolescente não apresenta as mesmas características do menino;
ela é masculinizada, ou é uma jovem mulher agressiva. Para o menino pré-
adolescente ela surge como Diana, a jovem deusa da caça, que demonstra
seus encantos ao mesmo tempo que corre pelos campos com uma matilha de
cães. Uso aqui essa referência mitológica para ressaltar o aspecto defensivo
da catexia pré-genital das pulsões do menino, ou seja, o ato de evitar a mulher
castrante, a mãe arcaic. O conhecimento que tenho das fantasias, atividades
lúdicas, sonhos e comportamento sintomático de meninos pré-adolescentes
leva-me a concluir que a ansiedade da castração relativa à mãe fálica não é
uma ocorrência universal na pré-adolescência masculina, mas pode ser
considerada seu tema central. Essa observação recorrente deve-se,
possivelmente, ao fato de eu ver, em análise, tantos adolescentes com anseios
passivos, vindos de famílias de mães fortes e dominadoras, e essa
consideração sem dúvida merece um exame sério. A conclusão mencionada
acima será agora ilustrada com alguns exemplos de análises de meninos pré-
adolescentes.

Um menino de 11 anos, que era obeso, submisso, inibido e com ente, pulsivo,
tinha vários sonhos em que uma mulher nua, de cuja parte inferior do corpo ele
não se lembrava bem, vendo-a apenas vagamente, e cujos seios, observados
no devido lugar, tinham qualidades semelhantes ao pênis, como órgão eretivo
ou urinário. Os sonhos desse menino foram sempre estimulados pelas suas
experiências numa escola mista, onde a competição entre meninos e meninas
lhe oferecia provas constantes da malícia, desonestidade e maldade predatória
das meninas. Quando a reafirmação proporcionada pela masturbação
compulsiva foi interpretada em termos do impasse de pré-adolescência acima
descrito, surgiram perturbações do sono, com medo de que sua mãe pudesse
matá-lo durante a noite.

Um menino de 14 anos, que ainda estava na fase pré-adolescente e


apresentava sérios problemas psicogênicos de aprendizado, relatou frequentes
sonhos nos quais era perseguido por um macaco na selva, ou nos quais um
monstro entrava em seu quarto à noite, pela porta entreaberta. Embora
petrificado, o menino decidia, no sonho, matar o monstro. Esses Sonhos
aproximaram-se cada vez mais da realidade da vida do menino quando sua
agressão contra a mãe, e o medo desta, chegaram a um novo clímax. Esse
fato coincidiu com seu pedido, ao terapeuta, de informações sobre sexo,
assunto sobre o qual ele alegava ser totalmente ignorante. Durante essas
conversas, o menino exclamou de súbito: “Mas claro! O gorila é minha mãe”. O
macaco-monstro
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representava a mãe fálica, castradora, pré-edípica. O pai era considerado


como bondoso e submisso; ele não representava uma ameaça.

Um terceiro menino, ainda numa pré-adolescência prolongada, aos 14 anos,


cujo desinteresse enfático por meninos tornou-se o tema de investigação
analítica, reconheceu sua curiosidade e sua atração reprimidas, mas também
seu medo mortal do sexo oposto. Justificou a ocultação de seus sentimentos e
a manifestação de indiferença e hostilidade, dizendo: “As meninas querem
matar-nos, mas não podemos encostar a mão nelas, são tão delicadas”. Ele
sentia que nenhuma autoafirmação era permissível e que a sujeição final ao
ataque era o único resultado possível do encontro.

Grete Bibring (1953) descreveu o curso de um desenvolvimento no qual o


menino chega à fase edípica positiva sem a ajuda de um pai proibitivo, por
meio de uma regressão à mãe pré-edípica. Mas em seu apego à mãe ele sente
ansiedades edípicas; essa mãe, a sedutora, torna-se a bruxa no ambiente da
família matriarcal: as frustrações pré-edípicas e as ameaças edípicas
concentram-se todas numa única e mesma figura. A ansiedade de castração
que levou ao declínio a fase edípica do menino reaparece com o início da
puberdade.

A angústia de castração pubertária do homem está, em sua fase inicial,


relacionada com a mãe ativa, poderosa, procriadora. Uma segunda fase típica
da adolescência propriamente dita, será descrita mais tarde. Na pré-
adolescência, observamos que os anseios passivos são supercompensados e
a defesa contra eles é poderosamente reforçada pela maturação sexual (A.
Freud, 1936). A fase típica da pré-adolescência masculina, antes de uma
passagem bem-sucedida para a masculinidade, recebe sua qualidade
característica do emprego da defesa homossexual contra a angústia da
castração. Ë precisamente essa solução defensiva do menino, subjacente ao
seu comportamento grupal típico que foi classificada pela psicologia descritiva
como “fase da gangue”*. A psicologia psicanalítica a ela se refere como a “fase
homossexual” da pré-adolescência.

Deve-se distinguir essa fase de uma outra, posterior, transitória, no início da


adolescência — numa fase homossexual mais ou menos elaborada, quando
um membro do mesmo sexo é tomado como objeto de amor sob a influência do
ideal do ego. Na fase homossexual pré-adolescente do menino, a inclinação
pelo mesmo sexo é uma manobra para evitar o sexo oposto; na segunda fase
homossexual — que merece mais esse nome —, declara-se uma escolha
objetal narcísica. Amizades intensas, de conotação erótica, são manifestações
bem conhecidas dessa segunda fase.

Início de nota de rodapé

* Não confundir com a gangue de rapazes adolescentes mais velhos.

Fim de nota de rodapé

Página 69

As diferenças quanto ao comportamento pré-adolescente masculino e feminino


são prefiguradas por uma repressão maciça da pré-genitalidade que a menina
teve de estabelecer antes que pudesse passar à fase edípica. Na verdade,
essa repressão é uma pré-condição para o desenvolvimento normal da
feminilidade. Quando a menina se afasta de sua mãe devido à sua decepção
narcísica com ela enquanto mulher castrada, reprime também as moções
pulsionais que se relacionam intimamente com o cuidado materno, com os
cuidados corporais prestados pela mãe, ou seja, com o âmbito total da pré-
genitalidade. Mack Brunswick (1940), em seu trabalho clássico “The Preoedipal
Phase of the Libido Development”, afirma: “Uma das maiores diferenças entre
os sexos é a extensão enorme em que a sexualidade infantil é reprimida na
menina. Exceto em estados neuróticos profundos, nenhum homem recorre a
qualquer repressão semelhante de sua sexualidade infantil”.
A menina que não pode manter a repressão de sua pré-genitalidade encontra
dificuldades em seu desenvolvimento. Assim, a jovem adolescente
normalmente exagera seus desejos heterossexuais e estabelece ligações com
rapazes numa sucessão frenética. “Paradoxalmente”, observa Helene Deutsch
(1944), “a relação da mãe da menina é mais persistente, e com frequência
mais intensa e perigosa, do que a da mãe do menino. A inibição que ela
encontra ao se voltar para a realidade (na puberdade) a leva de volta à mãe
por um período marcado pela intensificação de exigências amorosas mais
infantis”.

Ao examinar as diferenças entre meninos e meninas na pré-adolescência, é


necessário lembrar que o conflito edípico na menina não tem um fim tão súbito
e fatídico como no menino. Freud (1931) disse: “A menina continua na situação
edípica por um período indefinido; ela só a abandona mais tarde, e de maneira
incompleta. Em consequência, a menina luta com as relações objetais de
maneira mais intensa durante sua adolescência; na verdade, a separação
prolongada e dolorosa da mãe constitui a principal tarefa desse período. A
falha ou fraqueza de uma tentativa pré-pubertária de libertação da mãe, pode
-inibir o crescimento psicológico futuro e deixar uma marca claramente infantil
em toda a personalidade da mulher” (Deutsch, 1944).

O menino pré-adolescente enfrenta a ansiedade de castração (medo e desejo)


com relação à mãe arcaica e, assim sendo, afasta-se do sexo oposto; a
menina, por outro lado, defende-se contra a pressão regressiva da mãe pré-
edípica voltando-se, de maneira vigorosa e decidida, para a
heterossexualidade. Nesse papel, a menina pré-adolescente não pode ser
chamada de “feminina”, já que é, obviamente, o agressor e o sedutor no jogo
do pseudo-amor; na verdade, a qualidade fálica de sua sexualidade é
destacada nessa fase e lhe proporciona, por um breve período,

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um sentimento excepcional de adequação e plenitude. O fato de a menina


entre os 11 e 13 anos ser mais alta, em média, do que o menino da mesma
idade apenas acentua essa situação. Benedek (1956, a) assim se refere às
descobertas endócrinas: “Antes da maturação da função procriadora, antes que
a ovulação se inicie com relativa regularidade, a fase estrógeno é
predominante, como que para facilitar as tarefas de desenvolvimento da
adolescência, ou seja, o estabelecimento de relações emocionas com o sexo
masculino”. Helene Deutsch (1944) referiu-se à “pré-puberdade” da menina
como o período de maior liberdade em relação à sexualidade infantil. Essa
condição é normalmente acompanhada de uma vigorosa “inclinação para a
realidade” (Deutsch) que, na minha opinião, serve para contra atuar o
reaparecimento de anseios infantis, isto é, da pré-genitalidade.

O conflito específico da fase da pré-adolescência feminina revela


particularmente bem sua natureza defensiva nos casos em que um
desenvolvimento progressivo não foi mantido. A delinqüência feminina, por
exemplo, oferece a oportunidade por excelência para o estudo da organização
pré-adolescente das pulsões na menina. Conhecemos o fato de que na “pré-
puberdade das meninas o apego à mãe representa um perigo maior do que o
apego ao pai” (Deutsch, 1944). Na delinqüência masculina, que de modo geral
representa o comportamento sexual de atuação, a fixação na mãe pré-edípica
representa um papel muito decisivo. De fato, a delinqüência feminina é, muitas
vezes, precipitada por uma forte pressão regressiva na direção da mãe pré-
edípica, e o pânico que essa rendição provoca. O exame cuidadoso revela que
a inclinação da menina para a atuação heterossexual, que parece representar
o recrudescimento dos desejos edípicos, na realidade está relacionada com
pontos de fixação anteriores, localizados nas fases pré-genitais do desenvolvi-
mento psicossexual. A pseudo-heterossexualidade da jovem delinquente serve
como uma pressão regressiva na direção da mãe pré-edípica, pressão que
encontra uma resistência acentuada, porque significaria continuação no apego
a um objeto homossexual, e romperia dessa maneira, fatalmente, o
desenvolvimento da feminilidade. Uma menina de 14 anos, esclarecendo
porque precisava de dez namorados aos mesmo tempo, disse com indignação:
“Tenho de fazer isso. Se eu não tiver muitos namorados, eles vão dizer que
sou lésbica”. O “eles” dessa frase é a projeção das pressões instintuais que a
menina procura contradizer de maneira tão veemente com seu comportamento
exibicionista.

Uma ruptura do desenvolvimento emocional progressivo da menina, provocado


pelo advento da puberdade, Constitui uma ameaça mais séria à integração de
sua personalidade do que qualquer ruptura semelhante para o menino. O caso
seguinte ilustra um típico colapso delin-

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qüente da organização pré-adolescente de pulsões da menina, e revela a


natureza crucial da tarefa emocional que ela tem de realizar antes que possa
entrar nas fases mais avançadas da adolescência. Nancy, cujo caso é descrito
com mais detalhes no Capítulo 7, é uma boa ilustração da pré-adolescência
feminina e suas vicissitudes.

Início de citação

Nancy, de 13 anos, era uma delinquente sexual. Tinha relações sexuais


indiscriminadas com rapazes, atormentando a mãe com as histórias de suas
explorações. Experimentara sentimentos de solidão desde a infância, e culpava
a mãe pela sua infelicidade. Nancy achava que a mãe nunca a desejara, e
fazia exigências incessantes e pouco razoável a ela. Nancy estava obcecada
pelo desejo de ter um filho; todas as suas fantasias sexuais voltavam- se para
o tema “mãe e filho” e, basicamente, para uma esmagadora avidez oral. Ela
teve um sonho no qual mantinha relações sexuais com meninos adolescentes;
nesse sonho, Nancy teve 365 filhos, um por dia, durante um ano, de um
menino a quem matou com um tiro.

A atuação sexual desapareceu gradualmente depois que Nancy fez amizade


com uma jovem de 20 anos, promíscua, casada e grávida, que já tinha três
filhos. Na amizade com essa mãe-namorada, Nancy encontrou tanto a
satisfação de suas necessidades orais e maternais, como foi protegida contra a
rendição homossexual. Ela se fazia de mãe para as crianças e tomava conta
delas, enquanto a verdadeira mãe fazia o “trottoir”. Essa amizade transformou
Nancy, aos 15 anos, numa pessoa narcisista e de um falso recato. Interessou-
se pelo teatro e começou a treinar para atriz, mas no conseguiu chegar à
descoberta do objeto heterossexual.

Fim de citação

Em suma, podemos dizer que no desenvolvimento feminino normal a


organização de pulsões pré-adolescente é dominada pela defesa contra o
emprego regressivo em direção à mãe pré-edípica. Essa luta reflete-se nos
muitos conflitos que surgem entre mãe e filha durante esse período. A
progressão para a adolescência propriamente dita na menina é marcada pela
emergência de sentimentos edípicos que são inicialmente deslocados, e
finalmente eliminados, por um “processo irreversível de deslocamento”,
convenientemente denominado por Any Katan (1937) de “eliminação do
objeto”.

Tendo definido a organização de pulsões pré-adolescentes em termos das


posições pré-edípicas, vamos examinar agora a primeira análise de uma
adolescente, ou seja, Dora (Freud, 1905). Dora tinha 16 anos quando esteve
com Freud pela primeira vez e 18 quando iniciou o

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tratamento. O material de seu caso, que será examinado aqui, refere-se à


organização de pulsões pré-adolescente da menina. Sua fixação materna pré-
edípica tinha uma intensidade patogênica e representou um obstáculo
insuperável no caminho do desenvolvimento adolescente progressivo.

Ao final do capítulo “O Quadro Clínico”, Freud introduz um elemento que, como


confessa, “só pode servir para obscurecer e apagar o contorno do belo conflito
poético que pudemos atribuir a Dora. Por trás das ideias prevalecentes acerca
do relacionamento do pai com Frau K., dissimulava-se um sentimento de ciúme
que tinha aquela senhora como objeto — ou seja, um sentimento que só se
poderia basear numa afeição, da parte de Dora, por alguém de seu próprio
sexo”. Poderíamos parafrasear o final dessa passagem, dizendo: “que só se
poderia basear numa afeição, da parte da menina, por sua mãe”. Freud
descreve as relações de Dora com sua governanta, com sua prima e com Frau
K., que tinham um “efeito patogênico maior” do que a situação edípica na qual
ela tentou usar como cortina para o trauma mais profundo de ter sido
sacrificada pela sua amiga íntima, Frau K., que se afastou dela sem um
momento de hesitação, de modo que suas relações com o pai de Dora não
fossem perturbadas. Freud conclui “que os pensamentos de Dora, que
prevalecem referentes às relações de seu pai com Frau K., destinavam-se não
só a suprimir seu amor por Herr K., amor que outrora fora consciente, mas
também a disfarçar seu amor por Frau K., o qual, num sentido mais profundo,
era inconsciente”. Conhecemos todos o fato de que os anseios edípicos são
mais fortes e mais evidentes na adolescência do que as fixações pré-edípicas
que, porém, geralmente são de importância patogênica mais profunda. No caso
de Dora, a análise chegou ao fim “antes de lançar qualquer luz sobre esse
aspecto de sua vida mental”.

Os adolescentes nos fazem sentir constantemente que estão


desesperadamente necessitados de manter um pé no nível edípico — uma
posição apropriada para o sexo — antes que as fixações anteriores se tornem
acessíveis à investigação analítica. Quanto a isso, uma referência a um
adolescente passivo parece interessante. Durante três anos de análise, dos 11
aos 13 anos, ele manteve obstinadamente uma imagem de seu pai, que era um
fraco, como o homem forte e importante da família. O pai poderoso servia a
esse menino como uma defesa contra sua própria angústia pré-edípica de
castração. O menino nunca se permitiu criticar, pôr em dúvida ou questionar o
analista: aos seus olhos, o analista estava sempre certo. Ele não se permitia
olhar para o relógio, com medo de insultar o analista. A análise da transferência
trouxe à luz o medo que o menino tinha do analista: medo de retaliação e de

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sofrer danos. A análise de sua angústia edípica de castração abriu caminho
para as angústias muito mais perturbadoras, experimentadas em relação à
mãe pré-edípica; a revelação das fixações anteriores resultou numa
reavaliação realista, embora decepcionante, do pai. Esse caso mostra que a
manutenção de uma situação “edípica ilusória” disfarça uma forte fixação pré-
edípica.

A definição de pré-adolescência que sugeri com base na organização instintual


não parece, a princípio, coincidir com as subdivisões elaboradas por Helene
Deutsch (1944) com referência à menina. Ela fala da fase inicial da
adolescência como uma pré-puberdade (dos 10 aos 12 anos) que é a era “pré-
revolucionária”, quando a menina sente a “maior liberdade em relação à
sexualidade infantil”. Nessa etapa, a menina mostra uma decisiva “inclinação
para a realidade” e um “processo intensivo de adaptação à realidade”
caracterizado por um “acesso de atividade”. A “encenação” e a “atitude
masculina” testemunham sua “renúncia à fantasia infantil”; seus “interesses
passam das diferenças anatômicas para os processos fisiológicos”. A égide
sob a qual esse desenvolvimento ocorre é, em suma, a “libertação com relação
a mãe”.

Essa formulação enquadra-se bem no modelo que descrevemos; suspeitamos,


porém, que o “acesso de atividade” da menina, que antecede o aumento da
passividade, constitui uma tentativa de dominar ativamente o que ela sentiu
passivamente, quando estava aos cuidados da mãe amamentadora. Em lugar
de tomar a mãe pré-edípica como objeto de amor, a menina se identifica
temporariamente com sua imagem fálica ativa. A ilusão fálica passageira da
menina dá a esse período um teor vital intensivo, ao qual não falta um perigo
de fixação.

Essa fase surge com grande clareza na análise das meninas que são “loucas
por cavalos” nos anos da pré-adolescência. A análise de seus sonhos mostra
que o cavalo é usado pela menina como um equivalente fálico e tratado com
um cuidado amoroso; como pars pro toto, substitui o pai edípico. O amor pelo
cavalo é narcisista, distinguindo-se, por exemplo, do amor que a menina tem
pelo seu cão, que é maternal e de companheirismo. Essa dedicação transitória
aos cavalos na pré-adolescência pode continuar numa fase informal no
desenvolvimento da mulher, mas, quando prejudica a progressão libidinal,
representa uma fixação nesse nível.

A força com que a menina se afasta da fantasia e da sexualidade infantis é


proporcional à força regressiva na direção do objeto de amor primal, a mãe. Se
ela se render, atuar a regressão pelo deslocamento, ou retornar ao ponto de
fixação pré-edípico anterior, ocorrerá um desenvolvimento adolescente
anormal.

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3. A Escolha Objetal Adolescente

A condição mental e física que geralmente se associa à adolescência (tanto à


adolescência inicial como à adolescência propriamente dita) tem uma
qualidade marcadamente diferente da fase pré-adolescente. Essa diferença
evidencia-se numa vida emocional muito mais ampla e mais rica, numa
tendência para orientação mais dirigida para a meta e visando ao crescimento,
e numa tentativa implacável de auto definição, na resposta à pergunta “Quem
sou eu”? O problema das relações objetai€ passa ao primeiro plano, como
tema central, e suas variações tingem todo o desenvolvimento psicológico das
duas fases subsequentes. o que distingue esse período da fase de pré-
adolescência é, portanto, a passagem de um aumento de pulsão meramente
quantitativo para o aparecimento de uma qualidade de pulsão nitidamente nova
perceptível o abandono da .posição regressiva pré-adolescente. A pré-
genitalidade perde cada vez mais o papel de uma função saciadora, passando
a ser relegada a uma atividade iniciadora — mental e fisicamente — que dá
origem a um novo componente pulsional, ou seja, o prazer preliminar. Essa
mudança na organização das pulsões acaba por dar à genitalidade um lugar de
primeira ordem. Essa organização hierárquica das pulsões e seu caráter
definitivo e irreversível representam uma inovação que influiu decisivamente no
desenvolvimento do ego. O ego, por assim dizer, pauta-se pelas mudanças na
organização instintual e elabora, sua própria estrutura, uma organização
hierárquica das funções do ego h e dos padrões defensivos. Ambos assumem,
ao final da adolescência, uma fixidez irreversível, chamada caráter. Essa
estrutura mais firme, que surge dessas fases — sendo na verdade edificada
sobre as realizações do período de latência — só se completará na fase da
pós-adolescência.

Embora a diferenciação entre a pré-adolescência e as duas fases que a ela se


seguem seja bastante clara, é necessária uma justificativa para a apresentação
da “adolescência inicial” e da “adolescência propriamente dita” como duas
entidades separadas. Com base estritamente na observação, essa divisão
justifica-se porque, depois da pré-adolescência, torna-se perceptível um
período de repetidas tentativas de separação dos objetos primários de amor.
Na adolescência inicial ocorre uma onda de amizades íntimas e idealizadoras,
com membros do mesmo sexo; torna-se evidente uma baixa da persistência
em interesses e da criatividade, surgindo ao mesmo tempo uma busca
desajeitada de valores novos — não simplesmente por oposição. Em suma, há
uma fase de transição, com características próprias, antes que a adolescência
se afirme plenamente.

Página 75

Durante a adolescência propriamente dita, ocorrem uma inclinação decisiva


para a heterossexualidade e a renúncia final e irreversível ao objeto incestuoso.
A. Katan (1937) sugeriu que se chamasse esse processo de “eliminação
objetal”. Certos tipos de defesas, como a intelectualização e o ascetismo,
pertencem à fase da adolescência propriamente dita. Em geral, a tendência
para a experiência interior e para a autodescoberta torna-se perceptível — daí
a experiência religiosa e descoberta da beleza em todas as suas
manifestações possíveis. Reconhecemos que esse desenvolvimento é uma
forma de sublimação do amor da criança pelos pais idealizados e uma
consequência da renúncia final aos objetos iniciais de amor. O sentimento de
“estar apaixonado”, e uma preocupação com os problemas filosóficos, políticos
e sociais são típicos da adolescência propriamente dita. O rompimento decisivo
com o modo de vida infantil ocorre nessa fase; aos anos finais da adolescência
cabe a tarefa de testar essas realizações novas e importantes e incorporá-las
ao prosseguimento de uma experiência de vida total.

Ao delimitarmos as fases da adolescência inicial e da adolescência


propriamente dita, estamos de acordo com Helene Deutsch (1944), que divide
a adolescência da menina em “puberdade inicial” e “puberdade e
adolescência”. Na segunda fase, que ela também chama de “puberdade
avançada”, as tendências heterossexuais são características. Ressaltamos a
característica que une as duas, ou seja, o abandono do objeto e o encontro
objetal, isto é, a tendência definitiva para a separação da família e a gradual
disposição hierárquica dos componentes da pulsão e das funções do ego. Uma
crescente autoconsciência social com a angústia e a culpa concomitantes é um
ingrediente essencial dessas duas fases.

Naturalmente, qualquer divisão em fases é uma abstração; não existe uma


compartimentalização tão nítida no desenvolvimento real. O valor desse tipo de
formulação de fases está no fato de focalizar nossa atenção nas sequências
ordenadas de desenvolvimento. As fases também tornam mais fácil enxergar
as modificações psicológicas essenciais e as tarefas que caracterizam cada
uma delas, pois seguem mais ou menos o princípio epigenético de
desenvolvimento. As transições são vagas e lentas e maradas por movimentos
de oscilação. Não obstante persistem por maior ou menor tempo, nas fases
subsequentes, remanescentes maio separação res ou menores de uma fase de
desenvolvimento adolescente aparentemente completa. Essas irregularidades
podem prejudicar o esquema de desenvolvimento, se este for aplicado com
demasiada rigidez e demasiado literalmente.

Uma reorganização profunda da vida emocional ocorre durante a adolescência


inicial e a adolescência propriamente dita, com o bem conhecido estado caótico
concomitante. A elaboração de defesas carac-

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terísticas, muitas vezes tão extrema quanto transitória, salvaguarda a
integridade do ego. Certas manobras defensivas da adolescência acabam
sendo de valor adaptativo e, assim, facilitam a integração das inclinações
realistas, talentos, faculdades e ambições. Não há dúvida de que a
estruturação estável de tantas tendências múltiplas constitui um pré-requisito
para a participação adulta na sociedade.

O problema essencial da adolescência inicial e da adolescência propriamente


dita está numa série de dificuldades com as relações objetais. A solução do
problema depende das muitas variações que esse tema sofre com o tempo;
estas determinam, em última análise, a realização genuína ou espúria da
condição de adulto. Algumas das variações ligam-se à infância. Temos apenas
de lembrar que a necessidade que a criança tem de ser amada só
gradualmente se funde com a necessidade de amar; a necessidade de receber
só lentamente desperta a sua contra- partida, a necessidade de dar; e a
necessidade de ser “recebedor” é mais ou menos forçosamente transformada
na necessidade de “fazer para os outros”. O papel passivo de ser controlado é
aos poucos, e parcialmente, substituído pela necessidade infantil de controle
ativo do mundo exterior. Essa polaridade de alvos ativos e passivos reaparece
como uma questão crucial durante a adolescência. A ambivalência, tão
característica da adolescência, compreende não só a alternativa amor-ódio,
como também se manifesta com pungência ainda maior na polaridade das
metas instintuais ativa e passiva. Isso é igualmente certo tanto para o menino
como para a menina. A rebelião contra o superego na adolescência masculina
muitas vezes representa uma oposição ativa às tendências passivas femininas
que, antes, foram parte essencial da relação edípica do menino com seu pai.
Freud (1915) formulou esse problema em relação à adolescência da maneira
seguinte: “Só quando o desenvolvimento se completa na época da puberdade,
a polaridade masculino-feminino se estabelece na sexualidade. Na
masculinidade, é o sujeito concentrado, a atividade e a posse do pênis; a
feminilidade encerra o objeto e a passividade. A vagina é valorizada, a partir de
então, como um asilo para o pênis; é parte da herança do ventre materno”.
Antes de ser alcançada uma conciliação e um equilíbrio maduro, as posições
extremas totalmente passiva ou totalmente ativa, ou mais frequentemente uma
oscilação entre ambas, geralmente marcam o comportamento adolescente,
durante algum tempo. A primeira dependência passiva da mãe tem uma
atração inegável para o adolescente de ambos os sexos. Devemos notar que
os meninos transferem, com mais frequência, a necessidade de dependência
passiva para o pai; nesse caso, o menino ingressa numa constelação de
pulsões homossexuais que pode ser transitória ou duradoura. Quanto mais
forte essa necessidade passiva

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— por exemplo, numa criança cheia de vontade ou que sofra privação severa
— mais forte será também a defesa contra elas pelas ações e fantasias
rebeldes e hostis. As ideias paranoides não são raras. Esse conflito,
evidentemente, pode levar a uma rendição aos anseios passivos, a uma atitude
de solicitação, de agarramento, ou à rendição às pulsões instintuais. Essa
última condição assemelha-se muito à posição do período de latência. Com
mais frequência, uma fusão de todas essas tentativas de estabilização da
polaridade ativo-passivo é a regra.

Esse tema do conflito reflete a modificação das pulsões e a tentativa de colocá-


los em harmonia com o ego, o ideal do ego, o superego e a condição somática
da puberdade. A satisfação auto erótica deve acabar por levar à satisfação
relativa ao objeto. A polaridade passivo-ativo de pulsões é exercida em relação
ao ego, ao objeto e ao mundo exterior. Esse estado de coisas explica, em
grande parte, a escolha objetal adolescente, bem como os padrões flutuantes
das oscilações do estado de espírito adolescente, as mudanças de
comportamento e da capacidade de testar a realidade. Essas instabilidades e
incongruências foram frequentemente descritas, e até mesmo ressaltadas,
como a característica geral significativa da adolescência, sendo tal
classificação realmente correta para as fases da adolescência inicial e da
adolescência propriamente dita. Polaridades como as seguintes, como se sabe,
surgem no mesmo indivíduo: sujeição-rebelião, sensibilidade delicada-
grosseria emocional, espírito gregário-retraimento para a solidão, altruísmo-
egoísmo, otimismo sem limites-desesperança total, apegos intensos-súbitas
infidelidades, grandes ideais-mesquinharia, idealismo-materialismo, dedicação-
indiferença, aceitação de impulso-rejeição de impulso, apetite voraz,
indulgência excessiva-autonegação cruel, (ascetismo), exuberância física-
inércia. Esses padrões de comportamento oscilantes refletem modificações
psicológicas que não se processam nem em linha reta, nem em ritmo
constante. Os problemas de ambivalência, narcisismo e fixação desempenham
papéis significativos e suas implicações serão examinadas adiante.

A adolescência inicial e a adolescência propriamente dita devem realizar a


renúncia aos objetos amorosos primários, como objetivos sexuais; irmãos e
pais substitutos devem ser incluídos nesse processo de renúncia. Essas fases,
portanto, relacionam-se essencialmente com o abandono e o encontro do
objeto, e tais processos encontram eco no ego, produzindo mudanças catéticas
que influenciam tanto as representações objetais existentes como a auto
representação. Assim, o sentimento do eu, ou sentimento de identidade,
adquire uma instabilidade até então desconhecida.

Na adolescência inicial e na adolescência propriamente dita a pulsão volta-se


para a genialidade, os objetos libidinais passam do objeto

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pré-edípico e edípico para o objeto não-incestuoso, heterossexual. O ego


protege sua integridade pelas operações defensivas, algumas das quais
restringem o ego e exigem energia contracatética para a manutenção,
enquanto outras são adaptativas, e permitem a descarga da pulsão alvo-
inibida; estas tornam-se os reguladores permanentes da autoestima.

4. Adolescência Inicial

A maturação da puberdade normalmente força o menino a deixar a sua


autossuficiência defensiva pré-adolescente e sua catexia de pulsão pré-genital.
A menina também é levada ao desenvolvimento de sua feminilidade. Antes de
dar esse passo, ela tem de abandonar a sua identidade pré-adolescente
recém-conquistada de amazona, por vezes mascarada de mulher fatal, que
durante algum tempo a protegeu contra a regressão à mãe pré-edípica. Tanto o
menino como a menina voltam-se agora, com maior vigor, para o objeto
extrafamiliar libidinoso; isto é, o processo genuíno de separação dos laços
objetais antigos tem início. Esse processo atravessa várias fases até chegar,
por fim e idealmente, ao estabelecimento de relações objetais maduras. O
caráter marcante da adolescência inicial está na decatexia dos objetos
amorosos incestuosos; assim, a libido objetal que está solta, livre, clama por
novas acomodações.

Antes de continuarmos essas reflexões, devemos examinar algumas das


consequências da decatexia típicas desta fase. O processo como um todo
pode ser descrito em termos de dinâmica intersistêmica e intra-sistêmica. Em
primeiro lugar, o superego, entidade controladora cujas funções são inibir e
regular a autoestima, diminui de eficiência, deixando o ego sem as orientações
simples e prementes da consciência. O ego já não depende da autoridade do
superego, e seus esforços próprios para mediar entre as pulsões e o mundo
exterior são inábeis e ineficientes. De fato, o superego torna-se um adversário
mais claro, de modo que essencialmente o ego fica enfraquecido, isolado e
inadequado ante uma tríplice emergência (A. Freud, 1936). O enfraquecimento
do superego é função de sua origem constituinte, ou seja, a internalização dos
pais na solução do conflito de Édipo, pois no momento em que o adolescente
se afasta dos pais, pari passu a decatexia abrange também suas
representações objetais e seus equivalentes morais internalizados, que
residem no superego.

Nessa idade, os valores, padrões e leis morais adquiriram apreciável


independência com relação à autoridade dos pais, tornaram-se egossintônicos
e operam em parte dentro do ego. Não obstante, na adoles-

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cência inicial o autocontrole ameaça entrar em colapso e, em casos extremos,
ocorre a delinqüência. Ações desse tipo cujo grau de intensidade varia,
geralmente estão relacionadas com a busca do objeto de amor, também
oferecem uma fuga da solidão, do isolamento e das depressões que
acompanham as mudanças catéticas. O caso de Nancy (ver Capítulo 7) ilustra
bem esse curso do desenvolvimento da adolescência inicial, que é subjacente
ao comportamento delinquente. Normalmente, a atuação é estimulada pelo
recurso à fantasia, ao autoerotismo, às alterações do ego — por exemplo, um
desvio da libido objetal para o eu, o que vale dizer, por um recurso ao
narcisismo.

A retirada da catexia objetal e a ampliação da distância entre o ego e o


superego resultam num empobrecimento do ego, sentido pelo adolescente
como um sentimento de vazio, uma agitação interior que pode ser dirigida, na
busca de alívio, para qualquer oportunidade mitigadora que o ambiente
ofereça. A intensidade da retirada dos laços objetais antigos é determinada não
só pelos ritmos crescente e decrescente da tensão instintual, como também
pela capacidade que tem o ego de afastar a angústia conflitual. Algumas
crianças não sentem nenhum conflito em relação aos pais; reprimiram a pulsão
sexual, ou essa pulsão é baixa e, portanto, o ego tem a capacidade cie dominá-
la. Essa última ideia ainda não foi posta à prova, para que possa servir como
conceito explicativo fidedigno; por outro lado, é impressionante o reduzido grau
em que a maturação da puberdade, em si e por si mesma, afeta a agitação
emocional da adolescência. Sempre que as reações diretas e paralelas são
observadas, o exame detalhado revelará que existe uma condição psicológica
que partilha da responsabilidade pela agitação intensa. O mesmo se aplica às
condições ambientais, quando dentro dos limites normais. Tanto as
modificações da puberdade como as condições ambientais podem provocar ou
intensificar as reações adolescentes, mas não podem criá-las com
exclusividade. Tais ideias são melhor desenvolvidas no Capítulo 6.

Voltemos à primeira ideia de que na adolescência inicial ocorre • uma decatexia


dos objetos amorosos familiares, com uma consequente busca de novos
objetos. O jovem adolescente volta-se para o amigo. Na verdade, o amigo
adquire uma importância até então desconhecida, e uma significação tanto
para o menino quanto para a menina. A escolha objetal da adolescência inicial
segue o modelo narcisista. Nessa idade, o amigo é diferente do companheiro
de aventuras da pré-adolescência, entre os meninos, ou da companheira de
segredos cochichados, entre as meninas. Ë claro que ambos não deixam de
existir de repente.

Página 80

O menino forma, agora, amizades que exigem uma idealização do amigo; há


neste alguma característica admirada e amada por constituir uma qualidade
que o menino admira e gostaria de possuir, e na amizade consegue,
indiretamente possuir tal qualidade. Essa escolha segue o modelo de Freud
(1914): “Quem possui as qualidades sem as quais o ego não pode realizar seu
ideal, é que será amado”. Freud explicou que essa fase da vida amorosa em
expansão leva à formalização do ideal do ego e, com isso, internaliza a relação
objetal que, de outro modo, teria levado à homossexualidade, latente ou
manifesta. A fixação na fase da adolescência inicial segue esse curso.

O ideal do ego, como a formação psíquica dentro do ego, não só afasta o


superego de sua posição inquestionada que até então mantinha, como também
absorve a libido narcísica e homossexual. As observações de Freud (1914)
relevantes para esta discussão são as seguintes: “Dessa maneira, grandes
parcelas de um tipo [de libido] essencialmente homossexual são incluídas na
formação do ideal narcísico do ego e encontram escoadouro e satisfação na
sua manutenção”. E continua: “O ideal do ego impôs condições severas à
satisfação da libido pelos objetos; ele faz com que alguns desses objetos sejam
rejeitados por meio de seu censor, como incompatíveis. Quando não se formou
esse ideal a tendência sexual em questão surge inalterada na personalidade,
sob a forma de perversão. Ser novamente o seu próprio ideal, em relação tanto
às tendências sexuais como a outras — é o que as pessoas buscam alcançar,
como a sua felicidade”. A nova distribuição da libido estimula dessa forma a
progressão para o encontro do objeto heterossexual, e serve para manter
relações estáveis.
O ideal do ego representado pelo amigo pode ceder ante a pressão sexual e
levar a uma fase de homossexualismo com voyeurismo, exibicionismo e
masturbação mútua (latente ou manifesta). Essencia1mnte, as fantasias
masturbatórias contra atuam a angústia de castração. Os temas
heterossexuais sadomasoquistas dessas fantasias tornam-se facilmente
perturbadores, havendo alívio na passagem para uma escolha objetal
homossexual. Nessas fantasias, o amigo, como camarada de armas, participa
com frequência de orgias e lutas heterossexuais. Os sentimentos eróticos que
acompanham frequentemente as amizades na adolescência inicial constituem
uma explicação parcial da súbita interrupção de tais relações. Outros fatores
que para isso contribuem estão na frustração inevitável que a amizade
contínua e exclusiva pode provocar: o amigo idealizado reduz-se às suas
proporções comuns, sempre que o ideal do ego estabeleceu-se de maneira
independente do objeto, no mundo exterior.

Página 81

Ao que parece, na formação do ideal do ego do menino repete-se o processo


que, anteriormente, no declínio do período edípico, consolidou o superego pela
identificação com o pai. Em ambos os casos estabeleceu-se uma entidade
controladora, dando à vida uma nova direção e um novo significado. Ao mesmo
tempo, essa entidade também pode regular a manutenção da autoestima
(equilíbrio narcísico). A megalomania da criança é destruída pela posição
inegavelmente privilegiada e pelo poder do pai; seus remanescentes são
assumidos pelo superego, que dessa forma partilha da magnificência dos pais.
Na adolescência inicial, a megalomania da infância, que permitia à criança um
sentimento de perfeição enquanto era parte dos pais, passa a ser assumida
pelo ideal do ego. “Como sempre, no que se relaciona com a libido, o homem
volta a mostrar-se, aqui, incapaz de abrir mão de uma satisfação outrora
desfrutada. Não se dispõe a esquecer a perfeição narcísica de sua infância, e
quando, ao crescer, é perturbado pelas censuras dos outros e pelo despertar
de seu próprio julgamento crítico, de modo que já não pode conservar a
perfeição, busca recuperá-la na forma nova do ideal do ego. O que ele projeta
à sua frente como seu ideal é o substituto do narcisismo perdido de sua
infância, no qual era seu próprio ideal” (Freud, 1914).

A amizade típica da adolescência inicial do menino, na qual a idealização e o


erotismo se fundem num sentimento singular, foi descrita classicamente em
Tonio Kröger, uma novela de Thomas Mann (1914). A história começa com
Tonio esperando, depois da aula, pelo seu amigo Hans Hansen; haviam
planejado dar juntos um passeio. Tonio ressente-se muito ao observar que
Hans praticamente esquecera o compromisso, mas facilmente o perdoa, tão
logo nota seu remorso. Ë nesse estado de espírito que iniciam o passeio.*

Início de citação

Tonio ficou em silêncio. Sofria. Suas sobrancelhas, bastante inclinadas,


juntam-se, enrugadas; seus lábios se haviam arredondado para assobiar e ele
olhava para o espaço com a cabeça pendida para o lado. Essa posição e essa
maneira lhe eram habituais.

De repente Hans deu o braço a Tonio, com um olhar oblíquo — sabia muito
bem qual era o problema. E Tonio, embora continuasse calado durante os
passos seguintes, sentiu o coração abrandar-se.

— Eu não tinha esquecido, Tonio — disse Hans, olhando para o chão. —


Apenas que não ia dar certo hoje, porque está

Início de nota de rodapé

* Reproduzido de “Tonio Kröger”, em Stories of Three Decades, de Thomas


Mann, por autorização de Alfred A. Knopf, Inc. Copyright 1936 por Alfred A.
Knopf, Inc.

Fim de nota de rodapé

Página 82
chovendo e ventando. Mas isso não tem importância, foi bom você ter
esperado. Achei que tinha ido para casa e fiquei aborrecido...

...A verdade era que Tonio amava Hans e já sofrera muito por isso. Aquele que
ama mais é o inferior, e deve sofrer; sua alma de 14 anos já havia aprendido
esse fato puro e simples da vida, e ele estava de tal modo preparado, que
recebeu tais experiências conscientemente, anotou-se no íntimo, por assim
dizer, e até mesmo de certa maneira sentiu prazer com elas, embora sem
deixar nunca que lhe moldassem a conduta, ou obtivessem dele qualquer
vantagem prática. Sendo como era, achava esse conhecimento muito mais
importante e muito mais interessante do que o conhecimento que o faziam
aprender na escola, Sim, durante suas aulas nas salas de arcos góticos, ele se
ocupava principalmente em situar-se em meio a essas intuições, e penetrá-las.
O processo dava-lhe a mesma satisfação que experimentava quando se
movimentava pelo seu quarto com o violino — pois tocava violino — e fazia
com que as músicas, tocadas de leve como sabia fazer, se misturassem com o
som do chafariz que saltava e dançava no jardim, sob os ramos do velho
castanheiro...

...Como desperdiçasse o tempo em casa, tivesse compreensão lenta e fosse


distraído na escola. e sempre recebesse más notas dos professores, levava
habitualmente para casa lamentáveis relatórios escolares, o que aborrecia e
irritava seu pai, um homem alto, meticulosamente vestido, com olhos azuis
pen- sativos e que trazia sempre uma flor silvestre na botoeira. Mas sua mãe
em nada se importava com esses relatórios — a bela mãe de Tonio, de cabelos
negros, cujo nome era Consuelo e que era tão diferente das outras senhoras
da cidade, porque o pai a havia trazido, há muito tempo, de algum lugar bem
ao sul no mapa.

Tonio amava sua mãe, morena, viva, que tocava piano e bandolim tão
maravilhosamente, e sentia-se feliz por ela não se perturbar com o prestígio
duvidoso dele. No entanto, ao mesmo tempo o aborrecimento de seu pai lhe
parecia uma atitude mais digna e respeitável, e, apesar de suas reprimendas,
compreendia-o muito bem, ao passo que a indiferença jovial de sua mãe
parecia-lhe sempre um pouco irresponsável. Por vezes seus pensamentos
seguiam um curso mais ou menos assim: “É certo que sou o que sou e não
quero nem posso modificar-me: descuidado, teimoso, interessado em coisas
nas quais ninguém pensa. Portanto é certo que me censurem e castiguem em
lugar de amenizar as coisas com beijos e música. Afinal de contas, não somos
ciganos que moram numa carroça verde; somos pessoas respeitáveis, a família
do Cônsul Kriger”. E não era raro que pensasse: “Por que sou diferente, por
que resisto

Página 83

a tudo, por que estou em desacordo com os professores e sou como um


estranho entre os outros meninos? Os bons alunos, a grande maioria — eles
não acham os professores engraçados, eles não escrevem versos, seus
pensamentos são sobre coisas que todos pensam e das quais podem falar em
voz alta. Como devem sentir-se normais e tranquilos, sabendo que todos
sabem exatamente qual a sua posição! Deve ser bom. Mas o que acontece
comigo, e qual será o fim de tudo isso?

Esses pensamentos a seu próprio respeito e sobre sua relação com a vida
desempenhavam papel importante no amor de Tonio por Hans Hansen.
Amava-o em primeiro lugar porque era bonito; e depois porque era, sob todos
os aspectos, o contrário dele. Hans Hansen era um excelente aluno, um ótimo
companheiro, que se destacava na ginástica, montava e nadava com perfeição,
e tinha grande popularidade. Os professores eram quase carinhosos com ele,
chamavam-no de Hans e o protegiam de todas as maneiras; os outros alunos
procuravam conquistar-lhe as boas graças, e até mesmo os adultos o paravam
na rua: “Ora, é o Hans Hansen, com seu belo cabelo louro! Ainda o primeiro da
escola? Lembranças a seu pai e a sua mãe! Ë um ótimo menino!”

Assim era Hans Hansen, e desde que Tonio Krdger o conhecera, desde o
minuto em que o vira pela primeira vez, sentira arder em si um desejo pesado e
cheio de inveja: “Quem tem olhos azuis como os seus, ou vive em tal
cordialidade e harmonia com todo o mundo? Você está sempre passando o
tempo numa ocupação certa, como deve ser. Depois das aulas, você toma sua
aula de equitação, ou faz coisas com a serra. Até mesmo nas férias, na praia,
rema e veleja e nada todo o tempo, enquanto eu ando ao acaso e me deito na
areia e contemplo as estranhas e misteriosas mudanças que ocorrem na
superfície do mar. E é por tudo isso que seus olhos são tão claros. Ser como
você...”

Não procurava ser como Hans Hansen e talvez até mesmo nem desejasse ser,
seriamente. O que desejava, de maneira ardente e dolorosa, era que, sendo
como era, Hans Hansen o amasse; e cortejava Hans Hansen ao seu modo, de
maneira profunda, constante, dedicada, e com uma melancolia que queimava
mais terrivelmente do que qualquer paixão súbita que, pela sua aparência, se
poderia ter esperado dele.

E não cortejava em vão. Hans respeitava o poder que tinha Tonio de colocar
em palavras certos assuntos difíceis; além disso, sentia a presença viva de um
sentimento tão excepcionalmente forte e terno para com ele, era grato por esse
sentimento e sua reação proporcionava grande felicidade a Tonio — embora
também muitas dores de ciúme e desilusão pelos seus esforços inúteis de
estabelecer uma comunhão de espírito entre eles. Pois

Página 84

o estranho era que Tonio, que afinal de contas invejava Hans Hansen por ser
como era, ainda assim continuava tentando arrastá-lo para o seu lado, embora
só o conseguisse no máximo por momentos, e superficialmente...

O passeio termina: Tonio tentara em vão estabelecer com Hans uma


comunhão íntima quanto às ideias poéticas que despertavam nele sentimentos
tão fortes. Separaram-se e Tonio voltou para casa sozinho...

...Tonio passou sob as velhas portas da cidade, seguindo pelo porto e pela tua
íngreme, úmida, cheia de vento, até a casa de seus pais. Seu coração pulsava
forte: um anseio despertara nele e uma leve inveja, um certo desprezo e uma
grande felicidade inocente...

Fim de citação

A amizade entre Tonio e Hans mostra claramente como o amigo representa as


perfeições que falta ao eu. No caso de Tonio, a amizade reflete o conflito na
identificação com a mãe e o pai, ou melhor, a incapacidade de integrar-se com
qualquer dos dois. Hans é o menino que o pai de Tonio gostaria de ter como
filho; mas renunciar ao seu eu sonhador seria renunciar à sua mãe amada. Seu
ideal do ego, que perpetua sua inveja do pai e das coisas que representa,
expressa-se agora numa proclamação positiva, e entra na vida de Tonio de
maneira decisiva. Tenta-se uma solução de compromisso: “Amo em Hans o
que papai representa na vida”.

Só a adolescência propriamente dita pode mostrar como esse recém-criado


ideal do ego influenciará a escolha objetal heterossexual, e só o final da
adolescência pode mostrar como o estado de desunião interior será
solucionado. Voltaremos a falar de Tonio, já que Mann apresenta a sequência
psicológica dos acontecimentos principais de sua vida, como adolescente e
como homem jovem.

Os sentimentos de ternura do menino pelo pai e, na verdade, sua tendência a


aceitar os desejos, valores e prescrições paternas, representam uma
constelação conflitual do jovem adolescente; sua resolução se faz numa
oposição sumária ao pai, ou se pode expressar na satisfação alvo-inibida de
interesses comuns e de camaradagem. Se o pai tivesse desempenhado um
importante papel materno, atendendo às necessidades físicas do menino
pequeno, as tendências carinhosas e passivas que o adolescente tem por ele
seriam consideravelmente fortalecidas. Sob esse aspecto, descreveremos o
sonho de um menino em princípio da adolescência.

George estava sendo analisado porque era afeminado, angustiado, sofria de


insônia e tinha dificuldades de aprendizagem e concentração. No ano anterior,
tivera várias vezes o mesmo sonho, acompanhado de angústia. “É como uma
imagem numa tela de cinema. Há formas que

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têm ao mesmo tempo formas e qualidades diferentes. Como se um objeto


fosse ao mesmo tempo enorme, interminável, imenso, e também fino como um
arame; ou suave e macio e também áspero e duro. Tudo se modifica numa
transição rápida e há uma trilha sonora. Descobri isso a noite passada: é a voz
do Papai suave e melodiosa e ao mesmo tempo áspera, aguda e alta”. As
associações levaram à lembrança de seu pai, que o fazia adormecer cantando,
desde os três anos de idade, então George tinha dificuldade em adormecer.
“Quando Papai cantava, isso sempre me ajudava e me fazia adormecer”. As
sombras em movimento, reminiscentes da tela de sonho de Lewin (seio),
fundiram-se no sonho de George com a voz calmante do pai. O fluxo melodioso
da canção provocava o sono, tal como, anteriormente, ser amamentado. Na
verdade, a situação de amamentação é o modelo da experiência de sono
provocado; o amor terno pelo pai ofereceu ao seu anseio oral um objeto que
inevitavelmente levou a tendências homossexuais na adolescência inicial e, de
fato, retardou indevidamente a progressão para a adolescência propriamente
dita.

Passemos agora à menina na adolescência inicial. Ela não mostra nenhum


paralelo ao desenvolvimento do menino. Sem dúvida a amizade tem um papel
igualmente importante na sua vida. A falta de uma amiga pode levá-la ao
desespero, a perda de uma amiga pode provocar uma depressão e a perda
total de interesse pela vida. Helene Deutsch (1944) refere-se a várias ocasiões
em que “observou inícios de psicose em meninas que haviam perdido amigas e
não encontravam compensação em suas mães”.

Uma forma típica de idealização entre meninas é a “paixão”. Essa forma


idealizada e erotizada de amizade estende-se tanto a homens como a
mulheres, e só em relação às últimas surge em sua forma pura. Os objetos
escolhidos possuem alguma semelhança parcial, ou diferença notável, com
relação a um dos pais. O Diary of a Yaung Girl (Hug-Hellmuth, 1919) faz a
descrição de uma paixão que é um lugar comum hoje, tal como na época em
que foi registrada pela autora do diário. Aos 11 anos, a menina sentiu-se
esmagada pelas implicações da menstruação (“correntes de sangue”), das
relações sexuais e pelas especulações fascinantes sobre os corpos masculino
e feminino em maturação, inclusive sobre o equivalente da menstruação no
menino. Salvou-se da angustia e da excitação pela paixão por uma “mulher
bonita” a quem secretamente chamava de “Fada Dourada”. Pensar nessa
mulher proporcionava à menina a felicidade da infância inocente. Quando ela
finalmente descobriu a idade de sua amada, escreveu em seu diário: “36 — um
número adorável. Gosto tanto dele. Eu não sei realmente porque,

Página 86

mas quando ouço alguém dizer esse número, parece-me um esquilo saltando
no bosque”.

O objeto da paixão é amado passivamente, com a finalidade de receber um


pouco de atenção ou de afeição, ou de ser dominada por todos os tipos de
abordagens erotizadas ou sexualizadas. Essa condição perdura até a
adolescência propriamente dita. A qualidade masoquista e passiva da paixão é
uma fase intermediária entre a posição fálica da pré-adolescência e a
progressão para a feminilidade, de fato, a fase bissexual intermediária da
adolescência inicial feminina, que Helene Deutsch (1944) descreveu, em sua
forma típica, para a menina dessa idade. “A presença de uma tendência
acentuadamente bissexual pouco depois dos conflitos da adolescência. . . é
menos reprimida nas meninas do que nos meninos. Nesse período de sua vida
as meninas se inclinam a ressaltar sua masculinidade, enquanto o menino se
envergonha de sua feminilidade, e a nega”. (Tonio Kröger ilustra esse último
ponto.)

A menina, portanto, ocupa-se de maneira muito mais consciente da indagação:


“Sou menino ou menina”? Muitas vezes, as meninas mantêm a crença de que
podem decidir o que são, e o resultado é que reservam certos sentimentos e
estados do ego para determinadas ocasiões, e em outros momentos passam a
uma ênfase bissexual. As meninas nessa fase sentem uma estranha
imprecisão no senso de tempo e espaço, e imaginam lembranças de
acontecimentos que sua família lhes diz não terem ocorrido nunca, ou não
terem ocorrido de determinada maneira. Essa imprecisão da realidade e da
percepção do ego é um aspecto concomitante da ambiguidade bissexual. O
tema da bissexualidade na menina é mostrado da maneira mais intrigante por
Virginia Woolf, em Orlando, no qual a personagem principal passa de homem a
mulher.

Como ilustração da fase bissexual da menina, citaremos um trecho de toda


uma gravação de uma entrevista com uma adolescente de 15 anos. Na
conversa com o entrevistador, Betty fala de suas fantasias, nas quais a posição
bissexual encontra expressão eloqüente (Blos, 1941).

Início de citação

Entrevistador: Você sonha muito?

Betty: A noite passada fui dormir às 9:15 e estava usando bobs no cabelo.
Devo ter ficado acordada uma meia hora, mas sempre sonho... em conjunto,
sonho de peixes e fantasmas... e carros, e tudo mais. Fico acordada até cerca
de 10 horas e não consigo dormir.

E. Você quer dizer que são como quadros na sua cabeça.

B. Sim. Quadros de mim mesma e de pessoas diferentes, de tudo em geral.

E. Que tipo de quadros?

Página 87

B. Bem, a princípio de uma menina como Jane e depois de um homem


parecido com uma menina e depois de uma menina transformada em outra,
que também é outra menina. Está tudo misturado, mas sobretudo eu sou uma
menina vestida
como um menino. Não sei por quê.

E. Você vê esse quadro há muito tempo, há muitos anos?

B. Sim. A princípio, quando eu era mais nova, eu aparecia como uma menina
vestida de menino e ninguém sabia que eu era menina. Depois, eu era uma
menina vestida de menino, mas só algumas pessoas sabiam disso. Por fim, eu
era uma menina vestida de menino e metade do tempo era menino. Lembro-
me quando já estava quase transformada num menino e devia ser uma
menina, e passei a noite inteira decidindo.

E. E o que decidiu?

B. Decidi ser uma menina vestida de menino e que devia deixar que todos
soubessem que eu era menina e só em certas ocasiões. .

E. Quando foi isso?

B. Deve ter sido no ano passado ou no ano anterior este ano, uma vez fui uma
menina vestida de menino e, veja, achava que devia ser fiel ao meu sexo e
vestir como menino, e acabei fazendo tudo de tal maneira que eu devia ser
uma menina que se vestia de menino. Não sei por quê.

E. E isso acontece desde pequena?

B. Sim, desde que eu tinha cerca de quatro anos.

E. Uma espécie de coisa imaginária que se transforma num enredo.

B. Todas as pessoas de quem gosto entram na história e têm um lugar nela.

E. E isso provoca o seu sono, às vezes?


B. Eu adormeço no meio da história, acho.

E. E o que era você no sonho, depois que tomou essa decisão?

B. Era menina.

E. Era menina?

B. Sim...

E. Para não se transformar em menino durante algum tempo, você decidiu ser
menina?

B. Ah, você se refere a isso? Pensei que falava da outra decisão.

E. Que outra decisão?

B. A parte que eu mudei de menina para menino.

E. Você resolveu nesse quadro que ia ser uma menina, não usava roupas de
menino, mas você, você mesma, era uma menina, isso foi há um ano e meio?

B. Sim.

Página 88

E. Bem, e o que decidiu na outra noite? Depois que você e Jane tomaram a
resolução? [Referência à resolução de não sair com meninos durante dois
anos.]

B. Oh...

E. Você ainda era menina?


B. Eu ainda era menina.

E. Mas você termina sempre sendo menina?

B. Bem, às vezes eu saio e eles ainda pensam que sou menino; e às vezes
acabo assim

E. Bem, e na maioria das vezes, como você acaba?

B. Como menina.

E. Você mudou alguma coisa no enredo desde que tomou essa resolução com
Jane?

B. Bem, eu não terminei ainda.

E. Percebo. Você vai deixar as coisas continuarem para ver qual o resultado?

B. Bem, naquele momento eu havia crescido como um menino, e então alguém


descobria que eu era menina e então eu me vestia de menina, mas eu estava
com todos aqueles meninos, e agora eu ainda sou uma menina com os
meninos.

E. Compreendo, é nesse ponto que você está. Você vai continuar a história e
ver como termina?

B. Não sei o que vai acontecer agora.

E. Parece muito interessante.

B. Todas as vezes que vejo um filme, fica estranho. .

E. Por quê?
B. Não sei, o filme me dá ideias estranhas.

E. De que tipo?

B. Quer dizer, se eu vejo. . . se alguém diz alguma coisa carinhosa, penso nas
palavras e tenho de usá-las.

E. E então você tem de ser a menina, é isso?

B. Não, não a menina do filme. Então tenho de dizer alguma coisa que seja
adorável, ou alguém tem de dizer para

E. Sim, na sua história.

B. Sim, se vejo um enredo interessante, utilizo-o, dou um jeito nele.

E. E você coloca uma pessoa no enredo?

B. Sim, algumas outras pessoas, mas, quer dizer, o rosto das pessoas e as
situações são um pouco diferentes.

Página 89

E. Bem, e que tipo de enredo, por exemplo?

B. Não sei explicar, mas. . . vejamos. . Você viu Vidas de urn Lanceiro Bengali?

E. Sim.

B. Bem, lembra-se quando ele diz. . . Esqueci, mas eu fiquei doida por isso e
coloquei na minha história, misturei
todo o filme, em certos Iugares.
E. E você era o menino, do filme?

B. Sim, eu era o bonito (não o que é morto, porque eu não gosto dele), assim,
eu era ele, e Jane era alguma outra pessoa — não era nenhum deles, mas
alguma outra pessoa. Uma outra pessoa que não estava no filme. Não me
lembro quem era...quem era ele? A pessoa que é morta era alguém, talvez
fosse Mabel de quem eu não gosto nada.

E. Quando você era pequena, preferia ser menino a ser menina?

B. Sim. Quando eu era pequena, queria ser menino.

E. Por quê? Você se lembra?

B. Eu queria ser menino... Eu não sei... Agora gosto de ser menina porque eu
gosto... Porque eu odeio a maneira de vestir dos meninos. Acho horrível, mas
não sei por que eu queria ser menino, acho que é porque estou muito mais
acostumada com meninos, porque quero dizer, se gosto de um menino, fico
doidinha. Acontece que isso não aconteceu ainda mas tenho algumas amigas
que são doidas por meninos mas isso não lhes traz nenhum proveito, porque
não podem chamar o menino para sair, ou nada disso. Se fossem meninos,
seria sinais simples.

Fim de citação

A posição bissexual da menina na primeira adolescência está intimamente


relacionada com o problema do narcisismo. Nessa fase, a escolha objetal
narcísica predomina, enquanto que na adolescência propriamente dita as
defesas narcísicas ganham amplitude. O pênis ilusório é mantido como uma
realidade psíquica a fim de proteger a menina contra a depleção narcísica.
Com os meninos é também uma questão de vida ou de morte. A representação
bissexual, com a percepção mais ou menos vaga do corpo, encontra expressão
em todos os tipos de atividades, interesses, preocupações e devaneios. Essa
condição continua existindo até que a menina desvia para todo o seu corpo
aquela parte da libido narcísica que estava relacionada com a imagem corporal
bissexual, e busca completar-se, não dentro de si mesma, mas no amor
heterossexual. Como se processa a modificação que leva da posição

Página 90

bissexual da primeira adolescência para a fase seguinte de orientação


heterossexual é assunto que examinaremos mais tarde. As modificações na
menina, que está passando da pré-adolescência para a adolescência
propriamente dita foram descritas num estudo clínico longitudinal (Blos, 1941)
do qual citarei algumas observações pertinentes.

Início de citação

Apesar de Lois ter total conhecimento de tudo o que se relacionava com o


sexo, sua transição da atitude masculinizada dos 12 e 13 anos para o seu
sentimentalismo doentio dos 13 e 16 anos foi extremamente difícil, dolorosa e
desagradável. Ela sempre se havia orgulhado de sua imunidade a essas
emoções estúpidas — de sua autossuficiência superior — e passou a
desprezar-se quando, pela primeira vez, emocionou-se ao ver ou ao estar perto
de um rapaz. Ficou com nojo de seu estranho interesse pelo seu corpo e
aparência, até então sem importância, depois de ter experimentado tal
sensação. E quando se viu ansiando por atenção, invejando outras moças, a
beleza e o encanto delas, sentiu ao mesmo tempo repulsa por isso, e seu
desprezo por si mesma não conheceu limites. Tornou-se mórbida,
desesperada, perdeu toda a confiança em si mesma, sofreu uma aguda
desintegração que continuou em proporções quase drásticas — e então,
felizmente, modificou sua atitude para com a vida, enfrentou os fatos com
inteligência e coragem e construiu toda uma perspectiva nova, mas não sem
passar por uma fase de desafio, de vulgaridade. Durante essa última fase,
parecia ter prazer em jogar com palavras como fornicação, adultério,
ilegitimidade, paixão, etc. A fase vulgar e desafiadora parece ter passado e
Lois está agora satisfeita em ser a mulher que é e que pode ser. Durante a fase
vulgar Lois se gabava junto s amigas de ter muitos casos
Fim de citação

O declínio da tendência bissexual marca a entrada na adolescência


propriamente dita. Na fase da adolescência inicial a menina demonstra notável
facilidade de viver indiretamente, isto é, de identificações temporárias como
atos experimentais. Há, porém, o perigo de que essa propensão leve à
atuação, à relação sexual prematura para a qual ela ainda não está de modo
algum preparada. Essas experiências têm geral- mente um efeito traumático,
favorecem o desenvolvimento regressivo e levam a uma forma anormal de
adolescência. Amizades, paixões, fantasias, interesses intelectuais, atividades
atléticas e preocupação com a aparência em geral, tudo isso protege a menina
contra a atividade precoce — isto é, a atividade heterossexual defensiva. Mas a
proteção final da menina na sua passagem normal por essa fase é a
disponibilidade emocional dos pais, particularmente da mãe ou substituta da
mãe.

Página 91

5. Adolescência Propriamente Dita

A puberdade impeliu inexoravelmente o jovem adolescente a avançar. Sua


busca de relações objetais ou, inversamente, o ato de empenhar-se em evitá-
las, esclarece a evolução psicológica que está ocorrendo durante essa fase.
Na adolescência propriamente dita essa busca de relações objetais assume
novos aspectos, diferentes dos que predominaram nas fases da pré-
adolescência e adolescência inicial. O encontro de objeto heterossexual,
possibilitado pelo abandono das posições narcísica e bissexual, caracteriza o
desenvolvimento psicológico da adolescência propriamente dita. Mais
precisamente, devemos falar de uma afirmação gradual da pulsão sexual
adequada, que entra em ascendência e faz com que a ansiedade conflitual
cada vez mais pressione o ego. Os mecanismos de defesa e adaptação, em
toda a sua variedade complexa, passam ao primeiro plano da vida mental. A
complexidade dos processos mentais durante essas fases torna impossível
uma apresentação abrangente pela qual todas as principais facetas possam
ser percebidas de relance. Torna- se cada vez mais necessário decompor a
complexidade crescente do desenvolvimento mental em aspectos
componentes e dedicar maior atenção à enorme variedade de
desenvolvimento.

O teor da adolescência propriamente dita, frequentemente mencionada como


adolescência média, é de finalidade iminente e de modificações decisivas.
Comparada com as fases anteriores da vida emocional, é mais intensa,
profunda e tem maior âmbito. O adolescente se afasta definitivamente dos
objetos de amor infantis — depois de ter tocado prelúdios anteriores desse
tema muitas vezes e em muitos tons. Os desejos edípicos e seus conflitos
concomitantes voltam a surgir. A finalidade desse rompimento interior com o
passado abala a vida emocional do adolescente até o âmago; pela mesma
razão, esse rompimento lhe abre horizontes desconhecidos, cria esperanças e
medos.

A fase da adolescência que vamos examinar corresponde ao segundo ato do


drama clássico: as dramatis personae estão todas misturadas de maneira
irreparável; o espectador compreendeu que não pode haver retorno às
expectativas e fatos agradáveis da cena inicial, e reconhece que os conflitos
levarão, inexoravelmente, a uma solução final de clímax. Depois do segundo
ato, os acontecimentos seguiram um rumo decisivo, mas o resultado específico
ainda é desconhecido e só o último ato do drama nos pode esclarecê-lo. Da
mesma forma, na adolescência propriamente dita os conflitos interiores
chegaram a um ponto de confusão insuperável, mas o resultado dessa
agitação não é previsível. Po-

Página 92

demos apenas fazer suposições, e nossos prognósticos podem ser corretos ou


não, mas só a adolescência final nos dirá se o resultado foi previsto com
acerto. Helene Deutsch (1944) resume sua opinião sobre esse problema
dizendo: “Só a evolução subsequente pode mostrar se os fenômenos
patológicos estão presentes nesses casos, ou se se trata apenas de um
aumento de dificuldades da adolescência”. Os estudos de previsão nos
ajudariam a compreender e a avaliar os aspectos não-patológicos dessa fase
de desenvolvimento durante a qual a personalidade mostra normalmente
muitos aspectos que na aparência são patognomônicos. A pesquisa sobre a
adolescência poderia ser estimulada pelos estudos de previsão realizados
sobre a infância e a primeira adolescência (M. Kris, 1957), bem como pela
crítica de Anna Freud (A. Freud, 1958) sobre tal pesquisa.

Na adolescência propriamente dita o adolescente volta-se gradual- mente para


o amor heterossexual, e vamos agora examinar as modificações interiores que
são essenciais para, e na verdade constituem uma condição prévia do, avanço
para a heterossexualidade. Esse desenvolvi- mento encerra muitos processos
díspares, e sua integração é que faz avançar, essencialmente, a maturação
emocional. Os adolescentes dessa fase que se precipitam na atividade
heterossexual não adquirem, com essa experiência, as condições preliminares
para o amor heterossexual, e ao analisarmos o casamento adolescente vemos
como se desenvolve lentamente a capacidade de um amor heterossexual
maduro. De um ponto de vista psicanalítico, as principais questões estão na
natureza das transformações catéticas relacionadas com os objetos interiores e
com o eu, e não meramente nos fenômenos de comportamento (como, por
exemplo, ter um emprego, ou manter relações sexuais) como índices
relevantes de mudança ou progressão psicológica.

A retirada da catexia dos pais, ou antes, de sua representação objetal no ego


resulta num desvio da energia catética para o eu. No menino, como já vimos,
essa mudança leva a uma escolha objetal narcísica baseada no ideal do ego.
Podemos discernir nessa constelação libidinal a solução recém-tentada de
remanescentes reativados do complexo de Édipo positivo e negativo. Na
menina, observamos uma perseverança da posição bissexual, com uma
consequente supervalorização do componente fálico. Surge uma detenção
séria no desenvolvimento da pulsão se esse componente não é outorgado, no
devido tempo, ao objeto de amor heterossexual. Isso equivale a dizer que a
formação da identidade sexual é a realização última da diferenciação de
pulsões da adolescência, durante essa fase.

Página 93

O aumento do narcisismo pode ser observado em ambos os sexos. Esse fato


deve ser ressaltado porque resulta numa variedade de estados do ego,
característica da adolescência propriamente dita. O aumento precede a
consolidarão do amor heterossexual; ou, para sermos exatos, está intimamente
ligado com o processo de encontro do objeto não incestuoso, em evolução.
Podemos observar facilmente como os adolescentes abandonam sua
autossuficiência e suas atividades auto eróticas tão logo, por exemplo, o
menino sente emoções de ternura por uma menina. A passagem da catexia do
eu para o novo objeto modifica a economia libidinal, de modo que a satisfação
passa a ser buscada antes no objeto do que no eu. Como disse um menino de
15 anos: “Logo que passo a pensar numa menina, não preciso comer como um
porco ou masturbar-me o tempo todo”. A proteção contra a decepção, a
rejeição e o fracasso no jogo do amor é, desnecessário dizer, assegurada por
todas as formas de engrandecimento narcísico. Além disso, esse estado
permite a preocupação mental com ideias que levam a soluções inventivas ou
construtos mentais úteis, que, porém, •derivam seu fascínio do deslocamento
de pulsões alvo-inibidas — isto é, intelectualização. Sandy, um adolescente de
14 anos, extremamente tímido e temeroso de rejeição, resolveu chamar uma
menina para sair com ele. Sandy contou, na análise, que passava várias horas
por dia pensando no seu controle da terra. Duas invenções, disse ele, são
necessárias: um produtor de energia e um duplicador de matéria (ou seja, o
controle do princípio masculino e feminino). Com essas invenções, diz ele,
poderia controlar a terra. O analista observou: “inclusive Jane”. Sandy
respondeu: “Quando disquei o número do telefone de Jane na noite passada
eu fiquei pensando no controle monetário de um sistema mundial. Gaguejei
quando ela atendeu, mas dei a impressão de estar fingindo”.

Ê bem conhecida a qualidade narcísica da personalidade do adolescente. A


retirada da catexia objetal leva a uma supervalorização do eu, a um aumento
da auto percepção às custas da prova de realidade, a uma extrema
sensibilidade e auto absorção e, geralmente, à centralização em si mesmo e ao
auto engrandecimento. O desinvestimento do mundo objetal, pelo adolescente,
pode levar à retirada narcísica e à perda da prova de realidade; esses aspectos
foram descritos inicialmente por Bernfeld (1923), que também observou a
semelhança desse estado com o de uma psicose incipiente. O
empobrecimento do ego é provocado por duas fontes: 1) a repressão das
moções pulsionais; e 2) a incapacidade cidade de estender a libido objetal aos
objetos de amor infantis, bem como de aceitar as emoções que eles ampliam.
Essa última fonte também pode ser considerada como uma resistência à
regressão.

Página 94

As defesas narcísicas, tão características da adolescência, são provocadas


pela incapacidade de abrir mão do pai ou mãe gratificantes, de cuja onipotência
a criança passou a depender, em lugar de desenvolver suas próprias
faculdades. Ao entrar na adolescência, essa criança se vê totalmente incapaz
de enfrentar sua desilusão consigo mesma, provocada pela sua realização
concreta e limitada, na realidade. Essa condição, em sua forma típica, será
descrita no Capítulo 7; é o problema central do impasse patológico da
adolescência prolongada. Pode-se estbe1ecer uma distinção entre a escolha
objetal narcísica, as defesas narcísicas e a fase transitória narcísica, que
normalmente precede o encontro objetal heterossexual. Essa fase transitória,
que examina- remos agora com alguns detalhes, é a consequência da
decatexia do pai ou da mãe internalizados ou, para sermos mais exatos, de
suas representações objetais. Isso resulta em processos transitórios primitivos,
identificadores, que servem tanto às necessidades narcísicas quanto às
relativas a objetos.

O alheamento que o adolescente sente em relação aos objetos familiares de


sua infância é outra consequência da “deslibidinização do mundo exterior” (A.
Freud, 1936). A defusão dos instintos em relação com as representações
objetais influencia o comportamento manifesto do adolescente para com seus
pais, ou substitutos, por meio de mecanismos projetivos-introjetivos. As
introjeções “boas” e “más” confundem- se com os pais presentes e sua conduta
concreta. A decatexia das representações objetais os elimina como fonte de
gratificação libidinal; em consequência, pode-se observar uma fome objetal no
adolescente, um desejo avaro, levando a apegos e identificações superficiais
que se modificam constantemente. Nessa fase, as relações objetais levam
automaticamente a identificações transitórias, e isso impede que a libido objetal
seja totalmente esgotada pelo seu desvio para o eu. A fome objetal dessa fase
pode assumir proporções esmagadoras; qualquer objeto, real ou imaginário,
pode servir como apego ao mundo objetal. A identidade do objeto real dessa
fome, porém, é negada; é o genitor que tem o mesmo sexo. A identificação,
positiva ou negativa, com o pai ou a mãe (genitor do mesmo sexo) tem de ser
feita antes que possa existir o amor heterossexual. Os novos objetos não são
apenas proteções contra as introjeções antigas, mas também tentativas de
neutralizar as introjeções más, com novas introjeções “boas” (Greenson, 1954).
Esse conceito lança luz sobre a função econômica da “paixão”. As sensações
de fome e a tendência a comer muito são apenas em parte condicionadas
pelas necessidades do crescimento físico do adolescente. Sua significativa
flutuação pode ser observada com o aumento e declínio da fome objetal
primitiva, isto é, a função incorporativa. Observei, em vários adoles-

Página 95

centes dessa fase, que as sensações de fome, ou a necessidade de ali antes,


mento, diminuíram notavelmente no momento em que um objeto
heterossexual, significativo e satisfatório, penetrou em suas vidas. O papel
significativo desempenhado pela oralidade no processo de separação, que
envolve o aumento dos anseios orais, também explica a frequência dos
estados depressivos na adolescência como uma regressão passageira à fase
incorporativa-oral de desenvolvimento (Benedek, 1956, a).

A fase narcísica não é apenas uma ação de retenção ou adiamento provocada


pela relutância em renunciar definitivamente aos primeiros objetos amorosos;
muito pelo contrário, ela também representa uma fase positiva no processo de
desligamento. Enquanto anteriormente os pais eram supervalorizados,
considerados com medo e não avaliados realisticamente, passam agora a ser
subvalorizados e vistos dentro das reduzidas proporções de um ídolo caído. A
auto inflação narcísica mostra-se na arrogância e rebeldia do adolescente, em
seu desafio às regras e seu questionamento da autoridade dos pais. Quando a
gratificação narcísica proporcionada pelo amor paternal deixa de fluir, o ego é
investido da libido narcísica, retirada dos pais internalizados. O resultado final
dessa transferência catética deve ser o desenvolvimento, pelo ego, da
capacidade de assegurar, à base da realização realista, o narcisismo essencial
à manutenção da autoestima. Vemos, assim, que a fase narcísica opera a
serviço do desenvolvimento progressivo, estando geralmente fundida com a
ascendência lenta do encontro objetal heterossexual. Quando está em causa a
formação do ego, o narcisismo é um traço progressivo na medida em que o
desenvolvimento da libido está em questão, esse narcisismo é, pelo contrário,
obstrutivo e regressivo (Deutsch, 1944). Essa etapa de narcisismo transitório
transforma-se numa ruptura pressaga do desenvolvimento progressivo quando
o narcisismo se estrutura numa operação defensiva de preservação e com isso
inibe, em lugar de promover, o processo de desligamento. O processo de
separação e seu fascínio é que dão à fase narcísica sua qualidade positiva e
progressiva. Quanto à regressão realizada sob esses auspícios, o aforisma de
Nietszche pode ser lembrado: Dizem que ele está regredindo, e na verdade
está, pois tenta dar um grande salto. Também poderíamos falar de uma
regressão a serviço do ego, que ocorre normalmente nessa conjuntura
particular do desenvolvimento adolescente.

O isolamento narcisista do adolescente é contra atuado de muitas maneiras,


todas elas visando à manutenção de seu apego a relações objetais e a limites
firmes do ego. Esses dois aspectos correm constante perigo, e a ameaça de tal
perda provoca angústia e pânico, bem como dá início a processos restitutivo
regressivos que vão desde leves sentimentos de despersonalização até
estados psicóticos. Há na fantasia e nos devaneios extraordinariamente ricos
do adolescente um território

Página 96
intermediário no qual a pressão da repressão narcísica é contra atuada peia
ideação relacionada com o objeto e pela percepção arguta das moções
pulsionais. Essas fantasias implementam as transferências catéticas pela ação
de tentativa por assim dizer, e ajudam o adolescente a assimilar, em pequenas
doses, as experiências afetivas em cuja direção se move o seu
desenvolvimento progressivo. A vida de fantasia e a criatividade, nessa fase,
estão em seu auge; a expressão artística e ideacional possibilita a
comunicação de experiências altamente pessoais que, como tal, transformam-
se em veículo de participação social. O componente narcísico continua sendo
óbvio; e, na verdade, a gratificação narcísica proporcionada por essas criações
é legítima. As fantasias particulares podem ser comparadas à ação de tentativa
porque na maioria dos casos elas são funções predatórias para a iniciação de
transações interpessoais.

O trecho seguinte de um conto de George Baker (1951) expressa bem o


sentimento excepcional do adolescente em trânsito por esse território
intermediário.

Início de citação

Aquelas tardes deliciosamente melancólicas de minha adolescência, quando


eu costumava caminhar, com a abstração de um sonâmbulo, pelas ruas
úmidas de Richmond Park, pensando que a vida não me aconteceria nunca,
indagando surpreso por que o fogo de minhas expectativas, que me queimava
na barriga mais que álcool puro, parecia não se mostrar aos outros, enquanto
eu vagava pelos jardins. E muitas vezes parecia-me que a frustração,
disfarçada de alucinação, olhava-me entre as árvores que escorriam com a
névoa, e onde por vezes eu via estátuas clássicas que viviam por um instante,
voltando para mim a sua beleza nua; ou ouvia vozes falarem de um arbusto:
Tudo lhe será respondido se você não olhar para trás. E eu ficava esperando,
sem ousar olhar para trás, esperando que uma mão me pousasse no ombro
para me oferecer uma apoteose ou uma missão — mas havia apenas o vento e
as folhas de um jornal que ele soprava e por mim passavam como uma
interjeição suja. Ou então um ciclista aparecia de repente, oferecendo-me uma
possibilidade até o momento em que me alcançava, e desaparecendo com ela
ao passar. Eu sofria de uma inclinação simples, mas devastadora: eu tinha
esperança de viver.

Fim de citação

Ë interessante notar como essa descrição, claramente autobiográfica, ressalta


a intensa argúcia dos órgãos sensoriais, especialmente os olhos e ouvidos.
Uma transferência catética dá a esses órgãos uma hiperacuidade perceptiva
que obtém da projeção o seu conteúdo e a sua qualidade especiais: os
acontecimentos interiores são sentidos como percepções exteriores, e sua
qualidade aproxima-se com frequência das

Página 97

alucinações. Devemos lembrar que os olhos, os ouvidos e o tato têm papel


destacado no estabelecimento de relações objetais iniciais, num momento em
que a diferenciação entre o eu e o não-eu não existe, mas está introduzida
pelos processos introjetivos e projetivos. Será que essa hipercatexia sensorial
do adolescente ajuda o ego a conservar o mundo objetal que ele está
constantemente em perigo de perder? Na verdade, não será essa propensão
mesma de projetar os processos internos e senti-los como realidade externa
que dá à adolescência sua característica de funcionamento pseudopsicótico?
Os sentimentos de alheamento, de irrealidade e de despersonalização
ameaçam perturbar a continuidade do sentimento do ego; e embora tais
condições sejam extremas, o fato é que o adolescente sente realmente o
mundo exterior com uma qualidade sensorial única, que na sua opinião não é
partilhada por outros. “Ninguém nunca sentiu como eu sinto. Ninguém vê o
mundo como eu vejo”. O adolescente estabelece um diálogo pessoal com a
Mãe Natureza; a beleza da natureza é descoberta e são experimentados esta-
dos emocionais de exaltação.
Essa hipersensibilidade está particularmente presente em relação ao desejo
esmagador de amar. Um menino de 16 anos descreve sua primeira experiência
de amor terno com uma referência particular a sensações táteis: “É uma
emoção amorfa — pode assumir qualquer forma — caminhar descalço na
grama, andar ao vento com os olhos fechados dizendo Eileen. É simplesmente
adorável amar alguém. Quando chove, deixo aberta a janela e me deixo
impregnar de ar. Se há um aroma de primavera no ar, sinto-me exuberante —
vivo totalmente com as variações climáticas, agora”.

O papel normal das fantasias e experiências alucinatórias durante a


adolescência foi descrito por Landauer (1935). “As percepções constituem a
aceitação da realidade exterior que normalmente é preservada como objeto de
amor e ódio; o adolescente, levado pela necessidade de amor, volta ao modo
infantil de incorporar objetos pela destruição, a fim de reproduzi-los em
alucinações ou (de forma menos evidente) em fantasias, como uma realidade
exterior que passa a ser idêntica ao ego. Esse fen6meno é parte do solipsismo
adolescente”.

Devemos dizer que a descoberta da natureza e da beleza é representativa de


um grupo social e educacional especial, que coincide aproximadamente com as
classes média e superior. Embora o conteúdo das fantasias varie muito, o
princípio descrito pode ser observado durante toda essa fase. O aspecto mais
variável de uma pulsão é seu objeto e o componente mais variável de uma
fantasia é seu conteúdo manifesto. Essa variabilidade, que depende de classe,
região e época histórica, não •deve obscurecer o papel da fantasia na
adolescência como um

Página 98

fenômeno transitório interposto entre fases de narcisismo e de procura objetal


heterossexual.

Manter um diário é típico dessa fase intermediária. Nos Estados Unidos, hoje, o
diário é mais comum entre as meninas do que entre os meninos, e talvez tenha
sido sempre assim. A auto absorção emocional implícita na manutenção de um
diário adquire facilmente para o menino uma conotação de passividade; sua
necessidade de afirmação física extroversiva, com frequência defensiva, muitas
vezes afasta a sua atenção da introspecção. Isso nem sempre foi assim: ao
que parece, com o aparecimento de um padrão único, estabeleceram-se novos
tabus, muitas vezes mais rigorosos, contra o chamado comportamento sexual
inadequado. Seja como for, a menina que mantém um diário partilha com ele
os seus segredos, como se fosse um confidente íntimo. A necessidade de
manter um diário é inversamente proporcional à oportunidade que o
adolescente tem de partilhar livremente suas premências emocionais com o
ambiente. Devaneios, acontecimentos e emoções que não podem ser
partilhados com pessoas reais são confessados com alívio ao diário. Este
assume, assim, uma qualidade semelhante à do objeto. Isso fica evidente em
registros dirigidos ao Querido diário ou, como no diário de Anne Frank (1947), à
Querida Kitty. O diário de uma moça é sempre um confidente feminino. O diário
ocupa uma posição intermediária entre o devaneio e o mundo objetal, entre o
faz-de-conta e a realidade, e seu conteúdo e forma modificam-se com o tempo,
pois coisas que antes eram ansiosamente guardadas como segredo são hoje
ditas abertamente.

O adolescente mais velho e sofisticado de hoje já não mantém um diário


íntimo, mas sim uma forma de diário mais semelhante às memórias. A
posteridade olha sobre seu ombro enquanto ele escreve, e aquilo que esses
documentos ganham em qualidade literária geralmente perdem em
espontaneidade e falta de autoconsciência. Os diários de hoje são mantidos
com mais frequência por adolescentes de famílias de classe média, onde as
tentativas literárias são valorizadas e não é rara a facilidade do uso da palavra
escrita. Temas que outrora predominavam nos diários — os conflitos de
instintos e seus estados depressivos consequentes, coloquialmente conhecidos
como Weltschmerz, um sofrimento cósmico melancólico — deram lugar a
temas diferentes, que poderiam ser melhor classificados como uma angústia
difusa em relação à vida: Lebensangst (Abegg, 1954). E também a ingenuidade
e o provincialismo políticos de outras épocas foram nitidamente substituídos,
na maioria dos adolescentes, por uma consciência dos conflitos sócio-políticos
mundiais. Essa sofisticação não nega o fato de que o diário ainda tem a
mesma função psicológica de preencher o vazio emocional expe-

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rimentado quando as novas moções pulsionais da puberdade já não podem ser


articuladas com velhos objetos e ainda não podem ser articulados com novos
objetos, de modo que a fantasia assume uma função muito importante e
essencial. O recurso ao diário mantém a vida de fantasia pelo menos
parcialmente relacionada com o objeto, e a anotação dos pensamentos
mantém as atividades mentais do adolescente mais próximas da realidade,
quer essas atividades envolvam afetos ou desejos, fantasias, aspirações e
esperanças, ou excessos de arrogância ou desespero. Uma moça disse que ao
anotar suas fantasias sadomasoquistas, estas se tornavam mais excitantes e
mais reais. As fantasias, ao serem escritas, tornaram-se mais efetivas do que
ao serem meramente imaginadas. A verbalização sempre coloca o conteúdo
mental mais próximo da qualidade do que é real. Viver as experiências e
emoções anotando-as por escrito fecha a porta — pelo menos parcialmente e
temporariamente — à atuação.

Como normalmente a menina esta mais pronta a passar à heterossexualidade,


seu diário tem a função de impedir, pela experimentação e pelo desempenho
de papel na fantasia, a atuação heterossexual prematura. Assim, o diário tem
mais de uma função: proporciona o dessempenho de papel sem exigir ação na
realidade. De acordo com Bernfeld (1931), o diário coloca-se sobretudo a
serviço dos processos identificadores e, finalmente, proporciona maior
consciência da vida interior, processo que em si mesmo torna o ego mais
eficaz nas suas funções de domínio e síntese.

O uso de diários de adolescentes para o estudo sistemático da psicologia do


adolescente foi apresentado pela primeira vez na literatura psicanalítica por
Bernfeld (1927, 1931), que criou uma metodologia para seu uso científico.
Infelizmente, seus estudos de diários de adolescentes não tiveram
continuidade; não obstante, algumas de suas observações merecem ser
lembradas: “Os diários de adolescentes não oferecem material no sentido de
dados históricos, isto é, a credibilidade dos autores continua irrelevante. Não
podemos usá-los para provar fatos, ou pelo menos temos de usá-los com
cautela crítica e metódica Os diários são representações deformadas por
tendências conscientes ou no, exatamente como sonhos, fantasias e
produções poéticas de adolescentes. São úteis para 1) proporcionar
conhecimentos a respeito de sentimentos manifestos (deformados por várias
tendências), de desejos e experiências da adolescência; 2) são fontes para a
interpretação dessas tendências e do material psíquico por elas deformado.
Esse tipo de interpretação exige pontos de referência, por isso que um diário,
como tal, sem outros dados sobre o autor, terá valor limitado, no que se refere
ao

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esclarecimento psicológico desse autor. Geralmente, temos de contentar-nos


com o enriquecimento fenomenológico que se pode conseguir”.

Depois que Bernfeld realizou seus estudos, a experiência psicanalítica com


adolescentes cresceu, estabelecendo certas linhas de desenvolvimento que
podem ser consideradas típicas dessa idade. Com uma segurança cada vez
maior, e usando a cautela crítica e metodológica recomendada por Bernfeld,
podemos inserir as produções verbais dos adolescentes num esquema de
desenvolvimento do processo adolescente como um todo. Em comparação
com a observação direta de crianças, não parece ser pouco científico
reconhecer, na intolerância de um rapaz de 14 anos ao contato com seus
dedos dos pés uma manifestação da angústia de castração. 1 claro que o
papel dessa angústia no funcionamento total da criança dificilmente poderá ser
deduzido a partir dessa observação. Os vários temas que surgem num diário, e
correm paralelos às linhas de desenvolvimentos, verificadas clinicamente, do
funciona mento psíquico, oferecem dados fenomenológicos significativos. Mas
além disso, e com maior significação, o material do diário pode ser usado para
verificar sequências típicas que permitem o entendimento mais detalhado da
adolescência. Por isso, o estudo de diários de adolescentes é de grande
interesse, mesmo que sobre o autor do diário só tenhamos conhecimento do
sexo, idade, ambiente e momento histórico. A maioria desses dados
geralmente aparecem a partir do próprio diário.

O primeiro diário não expurgado de um adolescente publicado por um analista


foi, na época dessa publicação, considerado chocante e tachado de fraude.
Hoje, à luz do nosso maior conhecimento a respeito da vida mental do
adolescente, a autenticidade do Diary of a Young Girl (Hug-Hellmuth, 1919)
está fora de dúvida. Na verdade, os mesrnos argumentos usados por Cyrill Burt
contra a verossimilhança do diário poderiam, com a mesma coerência, ser
levantados contra o Diário de Anne Frank (1947), cuja autenticidade não
precisa ser defendida. Ambos os documentos, e outros (por exemplo, Golan,
1954), ilustram de maneira notável a sequência de fases descritas neste livro.
Os diários também conseguem transmitir o tom do sentimento que acompanha
as transformações físicas e emocionais de uma maneira que nenhum discurso
teórico poderá igualar.

Intimamente relacionada com a fantasia é a propensão do adolescente a usar


pessoas em relações faz-de-conta, ou seja, de dotá-las de qualidades em
relação às quais o adolescente tenta exercer as suas próprias necessidades,
tanto libidinais como agressivas. Falta a essas relações uma qualidade
genuína: constituem experiências criadas com o propósito de desligamento de
objetos de amor anteriores. O egoísmo complementar nessas relações entre
dois adolescentes, especialmente de

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sexo diferente, lembra uma folie à deux transitóra. O fato de, frequentemente,
essas relações se dissolverem sem sofrimento e sem problemas subsequentes
ou sequelas identificatória atesta o seu caráter. A necessidade de garantias
contra as angústias relacionadas com as novas pulsões pode dar a todas as
relações objetais um caráter inautêntico; elas estão misturadas com
identificações e as pessoas são consideradas mais como representações de
imagens do que como pessoas. Os caracteres neuróticos que continuam a ter
medo de suas pulsões durante toda a vida dão com frequência, portanto, uma
impressão adolescente (Fenichel, 1945, b)

Anna Freud (1936) descreveu o papel que a identificação desempenha na vida


amorosa do adolescente: ela é usada para manter uma participação •nas
relações objetais à época de recuo para o narcisismo. Essas fixações
amorosas apaixonadas e evanescentes não são relações objetais, no sentido
em que usamos a expressão para falar de adultos. São identificações do tipo
mais primitivo, como as encontradas em nossos estudos do desenvolvimento
infantil inicial, antes da existência de qualquer amor objetal. Os apegos e
paixões, as amizades dedicadas e amorosas, sempre variáveis, defendidos
pelo adolescente contra qualquer interferência, como se a própria vida
dependesse deles, podem ser compreendidos como fenômenos de restituição.
Impedem uma regressão libidinal total ao narcisismo; assimilando o objeto em
termos do modelo descrito por Helene Deutsch como um tipo de relação como
se, o adolescente enriquece seu próprio ego empobrecido. Todas essas
relações podem implicar uma supervalorização do amigo, a fim de satisfazer
necessidades narcísicas, mas além desse aspecto podemos reconhecer um
papel experimental, que joga com pequenas quantidades de libido objetal,
estado esse que continua, é certo, a se misturar durante certo tempo com o
uso essencialmente narcísico do objeto. O componente experimental fortalece
o ego; ele representa o aspecto do processo total que poderia ser chamado de
adaptativo, já que opera em consonância com o desenvolvimento progressivo.

Antes que novos objetos de amor possam tomar o lugar dos que são
abandonados, há um período durante o qual o ego é empobrecido devido à
retirada dos pais reais e alheamento do superego ou, nas palavras de Anna
Freud (1936): O ego aliena-se do superego. O aliado do ego no controle do
instinto deixou de funcionar da maneira segura que lhe era habitual; além
disso, a decatexia das representações objetais dos pais contribuiu para o
empobrecimento do ego. Esse estado de coisas não só é contra-atuado pelos
processos de identificação transitórios, mas também pela criação consciente de
estados do ego de uma percepção interna pungente do eu. Landauer (1935)
refere-se a esse fenômeno adolescente como a experiência intensificada do
ego (erhöh-

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tes Ich-Erlebnis), Esse fenômeno de restituição pode ser visto em relação ao


ego corporal, ao ego sensível e ao ego auto-observador. Na esfera corporal é o
esforço, a dor e a mobilidade excessiva; no ego sensível, é a esmagadora
modificação afetiva e sua liberação explosiva; no ego auto-observador é a
percepção aguda da vida interior que caracteriza a condição adolescente não
totalmente relegável aos mecanismos de defesa. Na verdade, esses estados
do ego são importantes para modelar a variante individual egossintônica
específica da organização de pulsões adulta.

Essa questão nos ocupará mais longamente ao examinarmos final da


adolescência. Aqui, vamos ilustrá-Ia com alguns excertos da análise de dois
meninos de 14 anos.

John entrou numa nova fase de sua análise depois de ter finalmente superado
a fixação na mãe fálica. Teve de encarar a fraqueza submissa do pai enquanto
ainda não estava capaz de transferir suas necessidades de libido para novos
objetos. Nesse estado de isolamento e real empobrecimento, ele teve
subitamente a idéia de fazer coisas que não eram comuns e que lhe dariam
uma sensação desconhecida e excepcional de ousadia, liberdade e
descoberta. Assim, levantava-se às duas da manhã quando todos estavam
dormindo, ia para a sala de estar, sentava-se na cadeira do papai, e ficava
lendo; na escola, especializou-se em pilhérias práticas, para surpresa de seus
colegas e professores; começou a usar um gorro engraçado e a observar seus
próprios sentimentos quando os outros o observavam. Alan, outro menino da
mesma idade, usou mecanismos semelhantes. Estava sempre exausto e
agitado, com pressa, atrasado e sem tempo. Chegou a compreender que as
sensações concomitantes de sua correria de um lado para outro eram estados
de tensão auto-induzidos — estimulantes tomados por conta propria, por assim
dizer, para manter o sentimento de estar vivo. Disse: Descobri que o
nervosismo que sentia ao tentar fazer os deveres escolares é criado por mim
mesmo. Eu realmente me torno angustiado e tenso. Ë a mesma coisa quando
subitamente afirmo estar muito interessado em baseball, quando na verdade
não tenho o menor interesse.

Esses dois meninos só durante a análise reconhecerem que os estados do ego


eram induzidos por eles mesmos e tinham uma finalidade em parte defensiva,
em parte libidinal e agressiva, em parte adaptativa e experimental. Eram
sentidos como egossintônicos. Se os estados adolescentes do ego tenderem
para satisfação masoquista, ou para o desespero pela busca, que se expressa
nas lágrimas, no sofrimento, na autopunição, então, segundo Helene Deutsch
(1944), essas satisfações narcísicas pelo sofrimento geralmente dão lugar a
estados de depressão relacionados

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com sentimentos de inferioridade e podem cristaiizar.se numa depressão


verdadeira capaz de levar a uma séria neurose adolescente.

A essa categoria geral de sentimento intensificado do ego pertencem os


estados de dor e esgotamento autoprovocados, típicos da adolescência. Além
dos aspectos defensivos, a importância do sentimento intensificado do ego
corporal não deve ser minimizada. Uma ilustração apenas basta para esse
fenômeno bem conhecido, extraído da biografia de Gerard Manley Hopkins
(Warren, 1945): No internato, ele recusou o sal durante uma semana; em outra
ocasião, passou uma semana sem beber água ou qualquer outro líquido,
vencendo uma aposta feita, em- bora desmaiasse ao final dela.
Os estados do ego auto-induzidos de afetividade e intensidade sensorial
permitem ao ego experimentar um sentimento do eu e dessa forma proteger a
integridade de seus limites e sua coesão; além disso promovem a vigilância do
ego sobre a tensão instintual. As tensões instintuais são aliviadas em parte nos
processos de descarga para fora por meio da expressão motora, e em parte
descarregadas para dentro, e explicam muitos dos distúrbios psicológicos
(funcionais) desse período; e são em parte mantidas sob controle pelos
mecanismos de defesa. De fato, uma oscilação entre os modos pelos quais o
ego e a moção pulsional realizam um compromisso ou modus vivendi é antes a
regra do que a exceção, durante essa fase da adolescência. Sempre que esse
modus vivendi enfatiza a moderação, o idealismo ou o repúdio instintual,
recebe a aprovação conspícua do ambiente; se as moções pulsionais
predominam, então o adolescente provavelmente entrará em conflito aberto
com a sociedade. Normalmente, porém, ele oscila entre as duas posições; sua
agitação diminui com o fortalecimento gradativo dos princípios de controle,
inibição, orientação e avaliação, que tornam os desejos, ações, pensamentos e
valores egossintônicos e orientados para a realidade. Isso, porém, só pode ser
conseguido depois que esses princípios se desligam dos desejos de amor e
ódio — as imagens dos pais, irmãos e outros — que os provocaram
originalmente. Como passo intermediário, o ego torna-se o recipiente da libido
afastada das representações objetais; todas as funções do ego — mas só o eu
— podem entrar em catexia nesse processo. Essa circunstância dá ao
indivíduo uma falsa sensação de poder que por sua vez lhe vicia o julgamento
em situações críticas, muitas vezes com consequências catastróficas. Um bom
exemplo são os frequentes acidentes automobilísticos com adolescentes.

A fraqueza relativa do ego em face das exigências• dos instintos melhora


durante essa fase adolescente quando o ego abranda a sua aceitação das
pulsões. Essa progressão segue paralelamente ao aumento

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dos recursos do ego para a canalização da descarga das pulsões dentro de um
padrão altamente diferenciado e organizado. Esse passo, porém, não pode ser
dado enquanto os objetos de amor da infância continuarem a lutar pela sua
sobrevivência, ou enquanto o complexo de Édipo continuar a se afirmar.

A fase da adolescência propriamente dita tem, assim, dois temas dominantes:


o renascimento do complexo de Édipo e o desligamento dos objetos de amor
iniciais. Esse processo constitui uma sequência de abandono-do-objeto e
procura-do-objeto, que promovem, ambos, o estabelecimento da organização
de pulsões adulta. Podemos descrever essa fase da adolescência em termos
de dois amplos estados afetivos: luto e estar apaixonado. O adolescente sofre
uma perda real na renúncia a seus pais edípicos, e experimenta um vazio
interior, sofrimento e tristeza, que são parte de todo luto. O trabalho de luto é
uma tarefa psicológica importante no período da adolescência (Root, 1957). A
solução do processo de luto é essencial para a realização gradativa da
libertação do objeto perdido; ela exige tempo e repetição. Da mesma maneira,
na adolescência a separação dos pais edípicos é um processo doloroso, que
só pode ser realizado gradualmente.

O aspecto de estar apaixonado é um componente mais conhecido da vida


adolescente. Ele indica o avanço da libido para novos objetos; esse estado é
marcado por uma sensação de completeza, junta- mente com um autabandono
singular. O amor objetal heterossexual põe fim à posição bissexual das fases
anteriores, nas quais as tendências estranhas ao sexo exigiam uma constante
carga contracatética, ao ameaçarem constantemente com a sua própria
afirmação, perturbando com isso a unidade do ego (auto-imagem). Essas
tendências só podem ser realizadas sem restrições no amor heterossexual,
concedendo ao parceiro o componente da pulsão estranho ao sexo. Esse
modelo foi descrito por Weiss (1950), que lhe deu o nome de fenômeno da
ressonância. Ele surge primeiro na adolescência e desempenha importante
papel na solução das tendências bissexuais. Podemos observar com
frequência e facilidade, na adolescência propriamente dita, como o fato de
apaixonar-se ou de conseguir um namorado ou namorada traz à tona uma
notável ascendência dos traços masculinos ou femininos. Essa modificação
significa que as tendências estranhas ao sexo foram concedidas ao outro sexo,
e podem dessa forma ser partilhadas na posse mútua dos parceiros. Em outras
palavras, o componente sexualmente inadequado adquiriu uma
egossintonicidade tornando-se propriedade do objeto de amor, que por sua vez
é catexiado com a libido objetal.

À adolescência propriamente dita pertence a experiência excepcional do amor


terno. Este precede, com frequência, a experimentação

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heterossexual, que se deve distinguir dos jogos sexuais das fases anteriores —
embora estes muitas vezes se estendam pela adolescência propriamente dita,
no espírito competitivo dos meninos na conquista de meninas e da desejada
forma de intimidade física (que é em grande parte determinada pela formação e
pelo grupo a que pertence o adolescente). As atitudes barulhentas e
predatórias do menino chegam ao auge nessa fase, mas cedo ou tarde essas
atitudes grosseiras são subitamente modificadas por um sentimento erótico que
ao mesmo tempo entusiasma e inibe o jovem homem. Ele compreende que
entrou na sua vida um senti- mento novo sob um aspecto, ou seja, que sua
atitude para com a menina envolve um sentimento de ternura e dedicação.
Predominam a preocupação de preservar o objeto de amor e o desejo da
posse exclusiva — embora apenas espiritual — e mútua. A parceira não
representa apenas uma fonte de prazer sexual (jogo sexual); ela significa, pelo
contrário, uma mistura de atributos sagrados e preciosos que enchem o rapaz
de temor. Não devemos esquecer que esse novo sentimento é experimentado
inicialmente pelo rapaz como uma ameaça de nova dependência, de modo que
o apego em si provoca medo de rendição emocional e de submissão. Essa
reação só surgiu claramente na análise de um menino de 15 anos quando o
amor-ternura fez sua primeira aparição. O medo da dependência da mãe fálica
ocupara, até então, grande parte do trabalho analítico. O menino descreveu
sua agitação emocional da seguinte maneira: Há alguma coisa estranha na
minha vida sexual com as meninas. Várias meninas estão atrás de mim. Há
uma de quem gosto mais, mas na festa da semana passada quase não lhe dei
atenção. Não faz sentido a maneira pela qual me comporto. Só no final é que
resolvi dar-lhe atenção. Àquela altura eu achava que tinha o controle da
situação, que estava dominando, que não corria nenhum risco. Tudo isso é
idiota ou anormal. Tenho medo de que ela tome conhecimento de meus senti-
mentos, ou de que ela me ame realmente, ou de que eu seja um pião nas suas
mãos. Aí então eu não poderia dominar mais a situação.

A idealização do objeto de amor dá início a um refinamento e enriquecimento


da vida sentimental que nos meninos deriva a sua intensidade e qualidade de
um grau normal de fixação materna. O sentimento de amor-ternura nas
relações heterossexuais provavelmente só pode ser atingido quando as
posições narcísica e bissexual são desviadas para a rendição final a um
componente estranho ao sexo, para um membro do sexo oposto. A catexia do
objeto de amor com a libido narcísica explica a sua idealização. Em casos de
paixão extremada, a catexia deixa o ego esgotado; o resultado é que a
proteção essencial da saúde, tanto física quanto mental, é ignorada com uma
despreocupação perigosa. De qualquer modo, o aparecimento desse
sentimento terno marca, para

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o menino, um ponto crucial: manifestam-se os primeiros sinais de hete-


rossexualidade e da elaboração adolescente da masculinidade. Mas só à
medida que passa dessa primeira fase de paixão para a fusão de um amor-
ternura e um amor sexual é que se torna evidente a autenticidade dessa
evolução inicial. Não devemos esquecer que a masculinidade do menino,
inclusive a do menino passivo, é vigorosamente reforçada pela maturação da
puberdade. Esse ganho evidente muitas vezes mascarå a continuação da
passividade, que surge mais uma vez com força sempre que a irrupção da
sexualidade masculina da puberdade diminui de intensidade.

Tipicamente, o desenvolvimento segue o esquema segundo o qual o


componente masculino passivo-feminino é entregue ao parceiro heterossexual;
essa polarização proporciona um sentimento de completeza. Em sua fase
inicial, a união com o amado é experimentada em parte na fantasia; isto é,.
apenas um leve estímulo — a lembrança de uma menina antes conhecida, ou
de uma menina desconhecida vista de passagem, ou apenas à distância —
pode dar origem a fortes manifestações afetivas.

A essa última categoria pertence a experiência do primeiro amor, descrita por


Thomas Mann (1914) em Tonio Kröger.

Ingeborg Holm, loura e pequena Inge, filha do dr. Holm, que morava na Praça
do Mercado, em frente ao velho chafariz gótico com suas múltiplas espirais —
era ela que Tonio Kröger amava aos 16 anos.

Estranho como as coisas aconteceram! Ele a vira mil vezes; e, então, certa
noite voltou a ela, sob uma certa 1uz, falando com uma amiga de um certo jeito
faceiro, rindo e balançando a cabeça. Viu como erguia o braço e alisava os
cabelos com suas mãos de estudante, que não eram excepcionalmente belas
ou finas, e de tal modo que a leve manga branca lhe escorregava ao cotovelo;
ouviu-a dizer uma ou duas palavras, uma frase indiferente, mas com uma certa
entonação, com um tom cálido na voz, e seu coração bateu em êxtase, muito
mais fortemente do que quando olhava para Hans Hansen, muito tempo atrás,
quando ainda era um menininho estúpido.
Naquela noite, levou consigo a imagem dela, nos seus olhos; a pesada trança
loura, os olhos grandes e azuis, sorridentes, as leves sardas no nariz. Não
podia dormir, ouvido o som daquela voz; tentou, num sussurro, imitar o tom no
qual ela havia murmurado a frase banal, e sentiu um arrepio pelo corpo. Sabia
por experiência que isso era amor. E tinha perfeita consciência de que o amor
sem dúvida lhe traria muita dor, aflição e tristeza, e que certamente lhe
destruiria a paz, enchendo o coração com melodias que não lhe seriam boas
porque ele não

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teria nunca o tempo nem a tranquilidade para lhes dar forma permanente.
Ainda assim, recebeu esse amor com alegria, entregou-se a ele, e o acolheu
com toda força de seu ser, pois sabia que o amor torna o homem vivo e rico, e
ele queria estar vivo e ser rico, muito mais do que trabalhar tranquilamente em
alguma coisa ou dar-lhe forma permanente.*

A primeira escolha do objeto do amor heterossexual é geralmente determinada


seja por alguma semelhança física ou mental com o pai ou a mãe, seja por
alguma diferença notável. No caso de Tonio, o contraste da menina loura,
gorda, prosaica e teutônica, com sua mãe morena, delicada, poética e exótica
não pode deixar de impressionar o leitor. Esses primeiros amores não são, é
claro, relações maduras, mas apenas rudimentos quando do deslocamento,
que só se transformarão no amor maduro com a resolução progressiva do
complexo de Ëdipo renascido.

A incapacidade de Tonio em chegar a qualquer relação amorosa estável pode


ser descrita aqui, embora ultrapassasse a fase que estamos examinando. No
princípio de sua maturidade, ele escolhe como parceira amorosa uma mulher
que é, sob todos os aspectos, o contrário da jovem Inge: Seu cabelo castanho,
compacto, já um pouco grisalho nas têmporas, era repartido ao meio e
ondulava sobre as têmporas enquadrando um rosto sensível, simpático,
moreno, que era eslavo nas maçãs salientes e nos pequenos olhos brilhantes.
Evidentemente, a mãe que havia sido evitada na primeira escolha amorosa
adolescente havia-se tornado o conflito central de sua vida amorosa posterior.
Tonio distancia-se das origens paternas e se torna um artista; mas nunca
encontra, na sua vida de adulto jovem, a mulher com quem se possa casar.
Finalmente ele encontra por acaso Hans e Inge, que se haviam casado. As
duas primeiras escolhas amorosas de Tonio estavam destinadas uma à outra;
ambas haviam sido determinadas pela tentativa de agradar ao pai. Um menino
como Hans teria sido amado pelo pai de Tonio, como filho; e a escolha de uma
menina como Inge eliminava o desejo conflitante de possuir a mãe ou alguém
que se parecesse com ela. Sentimentos positivos e negativos para com seus
pais estavam, portanto, evidentes nas escolhas que o menino fez, com relação
aos seus primeiros objetos de amor homossexual e heterossexual.

Um menino de 1 5 anos descreve sua primeira experiência de amor-ternura


nas seguintes palavras: Foi o sentimento mais estranho que já tive para com
uma menina; íamos juntos de trem para um acampamento. Eu me apaixonei
por ela, mas não fui capaz de tocá-la

Início da nota de rodapé

* Reproduzido de Tonio Kröger, em Stories of Three Decades, Thomas

Mann, por autorização de Alfred Knopf, Inc.

Fim da nota de rodapé


Página 108

ou beijá-la. Isso durou a maior parte do verão. Eu pensava sempre: Talvez seja
demais para ela. Se eu a tocar, destruirei nossa relação. Acontecer-me isso,
logo a mim! Eu, que sempre fui ousado com qualquer menina, em qualquer
circunstância; bastavam-me vinte minutos para o primeiro beijo. Dessa vez, era
diferente. E sobre as conquistas rápidas, eu pensava: Ora! O que vale um beijo
desses? Esse menino altamente egocêntrico e oralmente fixado pôde, por meio
cia terapia, superar sua dependência passiva por uma identificação com a mãe
ativa; em lugar de ser objeto da amamentação da mãe e de seu amor protetor,
ele estendeu essas ministrações à menina que amava. Com isso, pôde tolerar
as crescentes tensões do trabalho e abstinência. Alcançou um grau de
masculinidade admitindo a modalidade de pulsão receptiva feminina na
parceira heterossexual. Dessa maneira ele pôde, por reflexo, participar do
componente de pulsão negado.

O avanço do menino para a heterossexualidade é muito ajudado pela


existência de um profundo apego emocional a uma parceira amorosa que
carrega, por assim dizer, metade do peso do processo de polarização. Sempre
que a organização das pulsões da primeira adolescência não pode ser
abandonada, pode ocorrer um casamento prematuro ou relações sexuais
passageiras, numa tentativa de contornar o desenvolvimento específico da fase
da adolescência propriamente dita. Sempre que isso ocorre no menino,
podemos discernir um apego insuperável à mãe amamentadora, isto é, ativa.
Essa fixação durante a adolescência toma a forma de anseios homossexuais
passivos, frequentemente contidos pela atuação heterossexual.

Os episódios homossexuais, tanto para meninos como para meninas, ocorrem


frequentemente durante essa fase. Não há como prever seus efeitos
duradouros sobre a formação da masculinidade ou feminilidade, sem saber
qual a organização específica das pulsões é reforçado por essas experiências,
que dessa forma se alinham patologicamente com a maturação da puberdade.
Na menina, duas precondições favorecem a escolha objetal homossexual. Uma
é a inveja do pênis, que é sobre compensada pelo desprezo pelo homem;
nesses casos, a própria menina age como um menino em relação a outras
meninas. A segunda precondição é uma fixação precoce na mãe; nesses
casos, a menina age como uma criança dependente, obedecendo e confiando
como uma escrava, dominada por um sentimento de felicidade e
contentamento na presença do amado. Problemas de alimentação (comer
demais) com frequência acompanham essa última síndrome clínica.

No menino, três precondições favorecem a canalização da sexualidade genital


para uma escolha objetal homossexual durante a puberdade. Uma delas é o
medo da vagina, como órgão devorador castrante; reconhecemos nesse
conceito inconsciente um derivado do sadismo oral

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projetado. A segunda precondição está na identificação do menino com a mãe,


condição que tem maior probabilidade de ocorrer quando a mãe era incoerente
e frustrante, enquanto o pai era maternal ou rejeitava o filho. Uma terceira
precondição provém do complexo de Ëdipo, que assume a forma de uma
inibição ou restrição, igualando sumariamente todas as mulheres com a mãe e
declarando ser o introitus uma prerrogativa paterna. Todas essas fases podem
ser observadas, latentes ou manifestas, durante a adolescência propriamente
dita, na medida em que o renascimento de relações objetais anteriores passa
ostensivamente para o primeiro plano. As manifestações edípicas do
adolescente demonstram as vicissitudes particulares que o complexo de Ëdipo
sofreu durante a vida do indivíduo.

A luta dos instintos, que ocorre ao término da infância, encontra uma trégua na
realização de relações objetais relativamente estáveis dentro da família, pelo
estabelecimento do superego e pela elaboração (embora preliminar) da
identidade sexual. Essa trégua abre a porta à experiência exclusivamente
humana do período de latência. Cabe à adolescência propriamente dita realizar
tarefas semelhantes dentro de um corpo que atingiu a maturidade sexual física.
Em conseqüência, o desenvolvimento emocional deve mover-se no sentido das
relações objetais estáveis, para ambos os sexos, fora da família, e na direção
de uma formação de identidade sexual irreversível. Na esteira dessas
realizações, o homem não pode deixar de enquadrar-se ativamente nas
organizações sociais e instituições que são parte de seu mundo imediato. Só
por meio da adaptação aloplástica buscará ele a realização de suas
necessidades instintuais e, além disso, dar expressão àquelas energias,
libidinais e agressivas, que transcendem a realização instintual e tomam uma
forma altamente complexa, alvo-inibida — isto é, sublimada. A elaboração do
papel social e privado é um processo que começa a tomar forma na
adolescência propriamente dita, mas não é, de maneira nenhuma, levada ao
fim durante essa fase.

Voltemos ao pai (ou mãe) edípico. Os registros clínicos relativos a essa fase
deixam bastante claro que um desligamento decisivo do pai (ou mãe) é
essencial antes que uma escolha objetal não incestuosa possa ser feita.
Durante as pré-fases desse desapego, ocorrem apegos de despeito e vingança
que se destinam a ferir o pai (ou mãe) que já não pode satisfazer as
necessidades de amor da criança; esses atos significam que a condição infantil
ainda predomina. Podemos ver em meninos e meninas um reaparecimento da
consciência da vida íntima dos pais, e vergonha e culpa associam-se a essa
curiosidade e a essas imagens. O envolvimento edípico surge na atitude crítica
do adolescente para com um dos pais; na menina, é mais frequente que seja a
mãe o

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alvo das censuras e acusaçães. Muitas meninas • estão convencidas de que
compreendem o pai melhor do que a mãe pode compreendê..lo; de acordo com
seu raciocínio típico, ela, a menina, não o perturbaria com as trivialidades com
que é recebido pela mãe, depois de um dia de muito trabalho. A menina
geralmente só tem consciência dos aspectos negativos de seus sentimentos
para com a mãe; o lado positivo é disfarçado em fantasias, devaneios, ou
sentido de forma deslocada, com uma grande dose de dramatização e faz-de-
conta. Lembramos a menina que se apaixona pelo menino cuja principal
qualidade é ser incompreendido pelos outros. Dependendo da classe e casta
da menina, o objeto de seu amor pode ser um menino de raça, cor ou religião
pouco comuns, ou simplesmente um joão-ninguém, um pária da sociedade.
Essa escolha objetal segue o modelo edípico de competição e vingança. Os
sentimentos de culpa que se seguem são minorados pela autopunição,
ascetismo e estados de depressão.

Um episódio da psicoterapia de uma menina de 17 anos ilustra as observações


anteriores. Mary havia começado um caso com um jovem psicótico que, na sua
opinião, não era compreendido pela família, pelo médico e pelo mundo em
geral. Em casa, ela discutiu com sua família sobre o direito que tinha de sair
com Fred, o namorado. Esse namoro tinha todas as características do
comportamento de atuação — isto é, de descarregar a tensão conflitual ou das
pulsões na interação com o mundo exterior, em lugar de senti-la como uma
crise interna, ego-distônica. Mary insistiu no caso, que não lhe proporcionava
nenhuma felicidade evidente, mas causava grande angústia aos seus pais.
Certo dia, mãe e filha tiveram uma violenta discussão sobre as
responsabilidades domésticas, que na opinião da mãe não estavam sendo
cumpridas pela filha. Mary sentiu-se maltratada, rejeitada e incompreendida
pela mãe, e no auge da discussão deixou a sala num acesso de raiva, batendo
a porta. A essa altura da descrição que Mary fez da briga, observei: Sei o que
você estava pensando quando deixou a sala. O quê? Que vai dormir com Fred
este fim de semana. A resposta foi: Como sabe?
A surpresa fez com que Mary compreendesse que o fato de procurar amor em
Fred era motivado pelo profundo desapontamento com a mãe. Sua relação
com Fred era retaliatória, competitiva e vingativa, e podia ser resumida na
frase: Então você não gosta de mim? Outras pessoas gostam. A partir desse
momento, a menina perdeu interesse por Fred, e surgiu no tratamento material
de conteúdo edípico, que pela primeira vez era acessível através das
recordações, e comunicável através das palavras, e não pela ação. A atuação,
essa forma especial de recordação na qual uma velha lembrança é reencenada

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(Fenichel, 1945), exclui a memória da consciência e com isso a torna


inacessível às intervenções transformatórias que emanam de dentro ou de fora.
A fim de fazer justiça à complexidade do caso de Mary, devemos acrescentar
que o desafio que a menina fazia à mãe também servia a outra finalidade, a de
resistir à regressão. Anna Freud referiu-se ao negativismo afetivo como um
meio de resistir à regressão; o problema do negativismo como uma forma de
contra-atuar a pressão regressiva tem especial relevância para a adolescência.
Parece ser teoricamente convincente e clinicamente demonstrável que o
negativismo total do adolescente diminui em proporção direta ao domínio da
pressão regressiva pelo ego, seja pelas medidas defensivas ou adaptativas,
mas principalmente por um movimento da libido na direção de relações objetais
não-ambivalentes, heterossexuais e extrafamiliares.

Como já dissemos, os caminhos que o •menino e a menina seguem na solução


do conflito edípico são diferentes. Aquilo que leva a fase edípica ao fim para o
menino, ou seja, a angústia de castração, é instrumental para o início da
mesma fase para a menina. A solução da fase edípica jamais é realizada pela
menina com a mesma rigidez e severidade com que o é para o menino. Sua
volta para a heterossexualidade na adolescência propriamente dita e seu uso
defensivo na pré-adolescência estão de acordo com seus anseios edípicos mal
reprimidos. Como a repressão dos anseios edípicos do menino é muito mais
rigorosa, sua ressurreição é lenta e resiste ao estímulo da puberdade. A
resolução do complexo de Édipo masculino fica necessariamente incompleta
quando a imaturidade da criança exige o abandono dos anseios edípicos. A
renúncia a eles toma a forma de repressão.

Em contrapartida, a menina, durante todo o seu período de latência, continua a


tecer o fio da tapeçaria edípica. De um lado esse fato aguça o conflito edípico e
a leva ao âmbito maior das experiências de latência; do outro, contribui para o
enriquecimento e aprofundamento da vida interior da menina. Esta, em
consequência, chega à adolescência propriamente dita com uma ampla
experiência emocional expressa na fantasia, intuição e empatia — muito bem
descrita por Helene Deutsch (1944). Essas ricas fontes de vida interior
permitem à menina tolerar o adiamento da satisfação genital. Já se disse,
muitas vezes, que a menina pode dissociar facilmente o desejo sexual e sua
satisfação masturbatória da ação e pensamento conscientes, devido à
localização anatômica do órgão excitável, predominantemente o clitóris e mais
raramente a vagina. A anatomia feminina permite o estímulo e a excitação pela
pressão muscular e pelas posições posturais, resultando numa liberação de
tensão numa escala que vai das sensações orgásticas às menos intensas. No
menino, porém, o órgão sexual é externo, visível

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e palpável, e qualquer excitação sexual é confirmada pela percepção; além


disso, a masturbação masculina é fisiologicamente ejaculatória (orgástica) e
sua natureza sexual não pode deixar de ser percebida.

No que se relaciona com a resolução do complexo de Ëdipo, mais uma vez


devemos lembrar que não encontramos, no menino ou na menina, resoluções
que correspondam aos modelos ideais. Em ambos os sexos ficam resíduos de
anseios edípicos positivos e negativos, isto , resquícios de anseios femininos
perduram no menino, e a menina mantém por longo tempo fantasias de
natureza fálica. A análise de meninas adolescentes mostrou que a resolução
dos conflitos edípicos a prepara para o amor heterossexual, e a entrega do
componente masculino libera sentimentos maternais, como por exemplo o
desejo de um filho. Helene Deutsch (1944) descreveu essa evolução da
menina. De qualquer modo, diz ela, a menina reprime a compreensão
consciente da exigência instintual direta por muito mais tempo e de maneira
mais bem-sucedida do que o menino. Essa exigência manifesta-se
indiretamente nos seus maiores anseios amorosos e na orientação erótica de
suas fantasias — em suma, dotando sua vida interior das qualidades
emocionais que reconhecemos como especificamente femininas. A polaridade
masculino-feminino recebe sua fixação final e irreversível nessa fase da
adolescência propriamente dita. A menarca inicia e ressalta essa polaridade. A
reação emocional da menina normal a esse acontecimento compreende dois
processos psíquicos essenciais: a renúncia à dependência materna e a
identificação com a mãe como o protótipo reprodutivo. Benedek (1959)
observou que a maturação no sentido de meta reprodutiva feminina depende
do desenvolvimento prévio de identificações com a mãe. Se tais identificações
não estiverem carregadas de hostilidade, a menina pode aceitar seus desejos
heterossexuais sem angústia, e aceitar a maternidade como a meta desejada.
Isso, por sua vez, determina a sua reação à menstruação.

Ao superar os remanescentes femininos de sua posição edípica negativa, o


menino se volta para recursos supercompensatórjos que lhe dão uma
aparência beligerantemente afirmativa de seus poderes e prerrogativas
masculinas. Além disso, ele se volta para o grupo masculino ou para filiações a
grupos (o grupo da rua, da escola, dos estudiosos ou dos vadios) que permite
às tendências femininas alvo-inibidas encontrar uma saída e, ao mesmo tempo,
iniciam o adolescente num código coletivo de masculinidade.
Essas soluções podem ser consideradas como intermediárias no caminho do
desenvolvimento progressivo. Em si, e por si mesmas, não indicam nenhuma
realização das transformações internas catéticas e identificatória que podem
ser consideradas, em sua totalidade, como

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identidade sexual. De fato, a sujeição sem reservas às pressões sociais, que


forçam o indivíduo a agir de determinada maneira, a despeito de sua
correspondente capacidade interna de integrar a experiência à continuidade do
ego, geralmente produz um estado de confusão interior. Assim, a perturbação
das funções do ego torna-se evidente; clinicamente, isso se demonstra pelas
falhas, típicas do adolescente, em enfrentar as exigências normativas de sua
vida, como o estudo, os horários, a orientação quanto ao futuro, os juízos sobre
as conseqüências dos atos, e assim por diante. Esses estados de
desorientação e colapso indicam um esforço, em muitos casos patogênico, de
contornar os processos de transformação interior da adolescência
propriamente dita por um comportamento que simula as suas realizações. Essa
tentativa é universal e, geralmente, passageira. A tendência a preservar os
privilégios da infância e ao mesmo tempo arrogar-se prerrogativas da díade
adulta é quase sinônimo da adolescência. Todo adolescente passa por esse
paradoxo, e os que ne1 se fixam terão um desenvolvimento anormal.

O declínio do complexo de Ëdipo na adolescência é um processo lento e que


chega até a fase do final da adolescência. Provavelmente só é concluído
quando, no curso natural dos acontecimentos, o indivíduo se re-estabelece
numa nova família. Então, as fantasias edípicas podem ser abandonadas de
uma vez por todas. Mais cautelosamente — e talvez mais corretamente —
pode-se dizer que pela formação de uma nova família o jovem adulto cria uma
constelação emocional com a ajuda da qual pode ter esperanças de dominar
qualquer nova manifestação dos remanescentes edípicos.
Há duas fontes de perigo interior, durante a adolescência propriamente dita,
que pedem medidas tanto autoplásticas como aloplásticas para evitar um
estado de pânico. Uma delas é o empobrecimento do ego, que leva aos
estados anormais do ego já descritos quando falamos dos esforços psíquicos
para manter contato com a realidade e a continuidade do sentimento do ego. A
outra fonte é a angústia instintual surgida durante o movimento de avanço da
libido no sentido da heterossexualidade. Essa angústia põe em funcionamento
os mecanismos defensivos típicos dessa fase. Durante todos os anos da
adolescência, é claro, as reações defensivas desempenham papel significativo;
e na verdade certas fases foram definidas pelo emprego que fazem de defesas
específicas (por exemplo, regressão é fase-específica para o menino na pré-
adolescência). Parece, porém, que na adolescência propriamente dita as
defesas são escolhidas com uma discrição muito mais idiossincrática.
Poderíamos dizer que a escolha das defesas está mais de acordo com o
aparecimento progressivo do caráter. A formação do caráter — em seus

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aspectos positivo e negativo, em sua liberação do ego e restrição do ego — em


circunstâncias normais obtém qualidade e estrutura das atividades do ego que
começam quase sempre como medida defensiva e gradualmente assumem
uma fixidez adaptativa.

Os mecanismos de defesa, que parecem ser entidades dinâmicas nessa fase


da adolescência, mostram-se, se melhor examinados, um composto de
processos componentes divergentes. Melhor exame, no caso, refere-se a
observações longitudinais que se estendem para além da fase em questão, a
fim de estudar o destino final da defesa — isto é, ver como se separa em
componentes distintos que servem a funções diferentes, como por exemplo
funções defensivas, adaptativa e restitutiva. A retirada da libido dos objetos de
amor infantis que é uma condição indispensável para a progressão fase-
adequada, no sentido de uma escolha objetal não incestuosa, não é,
consequentemente, uma defesa no sentido exato do termo. Só se torna uma
defesa se a posição inalterada da libido for reprimida e com isso retirada do
movimento progressivo e da transformação.

Certos esforços característicos feitos pelo ego para Contra-atuar seu


empobrecimento e seu contato cada vez menor com a realidade carregam
sinais de fenômenos de restituição. A integridade do ego — sua coesão e
continuidade — é ameaçada pela decatexia dos objetos de amor infantis; para
compensar esse dano intra-sistêmico, são iniciados processos restitutivo. A
decatexia dos objetos infantis leva a um aumento do narcisismo que não
implica uma regressão à fase narcísica ou indiferenciada; em lugar disso, pode
ser compreendido como conseqüência de uma transferência catética dentro do
ego a serviço do desenvolvimento progressivo. Secundarjamente, podemos
então isolar, de acordo com Anna Freud (1958), defesas contra os laços
objetais infantis dos quais o deslocamento e a inversão do afeto são os mais
destacados. Essas defesas acabam por abrir caminho aos processos
adaptativos (Hartmann, 1939, a). Sabemos, pela observação, que a transição
dos processos restitutivos para defensivos e adaptativos é complicada, e
merece estudo. Esse problema vai, na realidade, ao núcleo do próprio
processo adolescente, em termos de diferenciação e maturação. O conceito de
defesa é, de certo, demasiado estreito para fazer justiça à complexidade da
adolescência. A ênfase excessiva que lhe foi dada obscureceu outras questões
igualmente significativas desse período.

Os mecanismos de defesa da adolescência foram descritos por Anna Freud (1


936). O ascetismo e a intelectualização foram particularmente bem estudados.
Ambos estão presentes, de maneira predominante, na classe social na qual o
estado prolongado de adolescência é favorecido pelas exigências educacionais
especiais. O ascetismo proíbe a ex-
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pressão do instinto, e facilmente explora as tendências masoquistas. O objetivo


da intelectualização é ligar estreitamente os processos instintuais com os
conteúdos ideacionais, tornando-os com isso acessíveis à consciência e
passíveis de controle (A. Freud, 1936). A intelectualização favorece o domínio
ativo e permite a descarga da agressão de forma deslocada. Um juízo
negativo, de acordo com Spitz (1957), é o substituto intelectual da repressão.
Essas duas defesas, ascetismo e intelectualização, que são tão características
da crise da adolescência propriamente dita, demonstram bem o papel dos
mecanismos defensivos na luta do ego contra os instintos. Além disso,
prenunciam até certo ponto o aparecimento do caráter e de interesses
preferenciais especiais, talentos e escolhas profissionais definitivas. A
intelectualização encerra, evidentemente, um potencial mais positivo, enquanto
o ascetismo é essencialmente ego-restritivo. Serve como uma ação de
retenção e encerra pouco esforço afetivo de comunicação e relacionamento
com o mundo exterior.

Em The Portrait of the Artist as a Young Man (Retrato do Artista Quando


Jovem) (1916) James Joyce descreve, de maneira detalhada e comovente, sua
luta de juventude contra o desejo carnal. Nas medidas que Stephen Dedalus
emprega para conter seus impulsos, depois de sua primeira experiência sexual
com uma prostituta, podemos reconhecer duas defesas clássicas, a
intelectualização e o ascetismo.

A descrição que Joyce faz dessas defesas indica a enormidade da luta travada
por esse jovem. Stephen tentou, primeiro, dominar seus impulsos sexuais pela
simples repressão, pela negação fervorosa de sua rebeldia e de suas
necessidades, na esperança de encontrar a paz interior. Sentimentos edípicos
inconscientes são perceptíveis no estranhamento culpado em relação à família:
Que louco que fora o seu intento! Tentara construir uma comporta de ordem e
de conforto contra a sórdida maré da vida que o rodeava e tentara represar, por
meio de regras de conduta, ativos interesses e novas relações filiais, a
poderosa recorrência da maré dentro dele. Tudo em vão. Por fora e por dentro
a água irrompera sobre as suas barreiras aquela enchente começou, outra vez
mais, a empurrar indomavelmente para cima a mole fendida.

Viu claramente, além do mais, o seu próprio fútil isola particularmente. Não se
aproximara um passo sequer mais para perto das vidas que tinha determinado
aproximar e nem transpôs a vergonha inquieta e o rancor que o separava da
mãe, do irmão e da irmã. Dificilmente acreditaria ter o mesmo sangue que eles,

Página 116

permanecendo perante eles apenas com o parentesco místico de adoção,


como filho e irmão adotivo.*

A muralha provisória de Stephen contra seus impulsos sexuais falhou. Sua


tentativa de estabelecer novas relações filiais destituídas do componente da
pulsão pubertária representou uma solução regressiva do conflito edípico
revivido, e nada realizou. Ele tinha, primeiro, de promover o desapego de seus
objetos de ódio e amor antigos na família, antes de poder livrar-se da culpa
edípica, o pecado mortal de seus ensinamentos religiosos e encontrar a
liberdade da alma, pela qual ansiava tão fervorosamente. A resolução das
fixações edípicas produz fantasias e atos sexuais grosseiros que são
compulsivos e desafiadores, bem como sentimentos sublimes de amor-ternura.

Há geralmente, durante a fase de experimentação sexual, uma dissociação


entre a atividade e a sensação físicas, de um lado, e o conteúdo ideacional —
a re-experiência dos laços objetais infantis — de outro. A experimentação
sexual, se não for indevidamente prolongada de modo que aspectos do jogo
preliminar se tornem dotados de qualidades satisfatórias permanentes, serve
como introdução para as sensações sexuais da puberdade; o ato de
dissociação lhes permite carregarem menos culpa edípica. Esses pré-estágios
no avanço para a heterossexualidade exigem seu tributo antes que o estágio
da consolidação e unificação de emoções irreconciliáveis seja alcançado na
pós-adolescência.

Quando Stephen Dedalus finalmente sabe quem é e o que quer, pode


exclamar: Bem-vinda, oh Vida, vou encontrar, pela milionésima vez, a realidade
da experiência e forjar na forja de minha alma a consciência incriada de minha
raça. Mas antes de chegar a esse marco de liberação, ele tem de superar os
conflitos e agitações emocionais da adolescência propriamente dita. O trecho
seguinte descreve a luta masturbatória de Stephen e os consequentes conflitos
emocionais que finalmente levam-no a aceitar o convite de uma prostituta.

Voltou a querer aplacar o altivo tédio do seu coração, diante do qual todas as
coisas eram vãs e alheias. Pouco se lhe dava estar em pecado mortal e que a
sua vida crescesse como um tecido de subterfúgio e falsidade. Além do
indômito desejo dentro dele de realizar as enormidades que o tentavam, nada
mais era sagrado. Continuou, cinicamente, cada vez mais enleado em
vergonhosa exaltação, a profanar metodicamente qualquer

Início da nota de rodapé

* Retrato do Artista quando Jovem; tradução de José Geraldo Vieira; editora


Civilização Brasileira, 1984; pp. 96-97.

Fim da nota de rodapé


imagem que tivesse atraído os seus olhos. Dia e noite se movia por entre
imagens deformadas do mundo exterior. Uma figura que lhe houvesse parecido
de dia modesta e inocente vinha-lhe, de noite, através da treva sinuosa do
sono, com a face transfigurada por astócia impudica, os olhos brilhantes de
brutal prazer. Só a manhã o atormentava com a sua sombria memória de
tumulto orgíaco, notificando-lhe a aguda e humilhante sensação de
transgressão.

Voltou às suas caminhadas errantes. As noites outonais opacas levavam-no de


rua em rua, como o tinham levado outrora ao longo das quietas avenidas de
Blackrock. Mas nenhuma visão de jardins fronteiriços engalanados ou de
benfazejas luzes das janelas derramava terna influência sobre ele, agora. Só
de tempos a tempos, nos intervalos dos seus delírios, quando a luxúria que o
destruía dava lugar a um langor mais brando, a imagem de Mercedes
atravessava o fundo de sua memória. Via de novo a casa pequenina, toda
branca, e o jardim com roseiras sobre a estrada que levava para a montanha; e
então recordava o gesto de triste orgulho que teria que fazer lá, ao permanecer
com ela no jardim enluarado depois de anos de exílio e de aventura. Em tais
momentos as palavras suaves de Claude Melnotte subiam aos seus lábios e
acalmavam seu desassossego. Uma terna advertência tocava-o, então, sobre a
entrevista que tinha preparado e, apesar da horrível realidade que permanecia
entre a sua esperança de então e a de agora, sobre o santo encontro que tinha
imaginado, toda fraqueza, timidez e inexperiência o abandonavam.

Tais momentos passavam e os devastadores fogos da cobiça pulavam


novamente. Versos lhe saíam dos lábios; gritos inarticulados e palavras brutais
não proferidas investiam do seu cérebro para forçarem passagem. O seu
sangue revoltava-se. Errava para cima e para baixo, através das ruas sombrias
e visguentas, espiando os revérberos das vielas e dos portais, escutando
avida- mente todos os sons. Lamentava-se consigo mesmo feito um animal
enganado, erradio. Queria pecar com alguém da sua espécie, forçar um outro
ser a pecar com ele e exultar juntos no pecado. Sentia qualquer presença
mover-se irresistivelmente para ele das trevas, uma presença sutil e
murmurosa como uma torrente enchendo-o todo. O seu murmúrio alcançava os
seus ouvidos como o murmúrio de qualquer multidão em sono. Essa torrente
difusa penetrava-lhe o ser. Suas mãos torciam-se convulsivamente e os seus
dentes cerravam-se como se sofresse a agonia da penetração. Estirava as
mãos na rua para segurar firme a frágil forma que desmaiava, evitando-o e
incitando-o; e o grito que detivera na garganta tanto tempo saía dos seus
Iábios. Esse grito rompia dele como um lamento de desespero num inferno de
sofredores e morria num lamento de furiosa

Página 118

súplica; um grito por um iníquo abandono, um grito que não era mais do que
uma obscena garatuja que houvesse lido no visguento muro dum mictório.

Tinha vagado por um labirinto de ruas estreitas e imundas. Das sórdidas vielas
ouvira explosões de grosseiros tumultos e disputas de vacilantes cantores
bêbedos.

Permaneceu ainda, no meio da rua, o coração clamando contra o seu peito


num tumulto. Uma mulher nova vestida com um longo roupão cor-de-rosa pôs
a sua mão no braço para detê-lo e ficou a encará-lo.*

O encontro com a Prostituta não é, para o jovem Stephen, como para a maioria
dos rapazes, uma solução para o conflito emocional; é um ato de afirmação da
sexualidade masculina, mas não rompe, por si mesmo, os laços objetais
infantis. A progressão para novos objetos de amor não se segue naturalmente
à experiência sexual. Muito pelo contrário: a luta interior intensifica-se e a
rebeldia agressiva contra a autoridade masculina (paterna) passa ao primeiro
plano. Stephen recorreu a medidas defensivas para impedir o aparecimento do
impulso agressivo no pensamento consciente; ou seja, empregou a defesa da
intelectualização. Com esse objetivo usou — como sempre acontece o sistema
de ideias que tem raízes no ambiente do adolescente e com isso adquiriu o
destaque de uma valência positiva ou negativa. Podemos reconhecer
claramente a transferência do afeto dos objetos de amor e ódio para a
controvérsia ideal e o domínio do conflito psíquico por meios dialéticos. Joyce,
aluno vitalício da escola jesuíta, articula necessariamente o mecanismo de
defesa da intelectualização em termos das ambiguidades no dogma religioso.

Quando se sentava no seu banco, contemplando a face sagaz e austera do


reitor, o seu espírito se aguçava por dentro e por fora com as curiosas
questões que aquela face lhe pro- punha. Se um homem tivesse roubado uma
libra na sua mocidade e tivesse se servido dessa libra para acumular uma
enorme fortuna, quanto era ele obrigado a devolver: a libra que havia roubado
ou a libra e mais os juros compostos contados sobre isso, ou toda a sua
enorme fortuna? Se um clérigo, ao batizar, derrama a água antes de pronunciar
as palavras, está a criança batizada? Ê válido o batismo com água mineral?
Como é que, ao passo que a primeira bem-aventurança promete o reino do céu
aos pobres de espírito, a segunda bem-aventurança também promete ao
humilde que ele possuirá a terra? Por que era o sacramento da eucaristia
instituído sob duas espécies de pão e de vinho, se Jesus estava presente
corpo e sangue, alma e

Início da nota de rodapé

* James Joyce, op. cit., p. 97.

Fim da nota de rodapé


Página 119

divindade no pão somente e no vinho somente? Contém uma partícula mínima


de pão consagrado todo o corpo e sangue de Jesus Cristo, ou uma parte
apenas do corpo e do sangue? Se o vinho se torna em vinagre e a hóstia se
desfaz em corrupção, depois de terem sido consagrados, está Jesus Cristo
ainda presente sob as suas espécies, como Deus e como homem?*

Uma possível irrupção do impulso sexual não é contida com segurança peia
defesa da intelectualização. Os sentidos e a sensualidade em geral devem ser
mantidos sob o mais rigoroso escrutínio. A defesa do ascetismo, que Joyce
descreve no trecho seguinte, opera sem dúvida numa maior proximidade com o
corpo e suas necessidades; permite a satisfação de instintos componentes, ou
seja, do sadomasoquismo. O ascetismo como defesa adolescente proporciona
uma descarga de impulsos libidinais e agressivos em relação ao eu e ao corpo.
Essa condição favorece uma fixação nessa modalidade de impulso sempre que
predomina uma forte tendência masoquista; além disso, dá à ambivalência nas
relações objetais um novo vigor por intermédio do reforço sado- masoquista. O
ascetismo de Stephen Dedalus não apaga totalmente as manifestações
impulsivas com a raiva e a irritação, mas apenas afasta o impulso sexual, a
tentação de pecar mortalmente. A defesa o protege contra sentimentos
edípicos positivos, mas não contra sua raiva ao ouvir a mãe espirrar contra a
mãe, como objeto de amor, que a defesa opera no caso de Stephen. O contato
com ela só pode ser continuado com segurança enquanto tiver um sinal
negativo. Joyce descreve o elaborado regime ascético de Stephen da seguinte
maneira:

Mas tinha sido advertido dos perigos da exaltação espiritual; e não consentia a
si mesmo desistir da menor devoção que fosse, esforçando-se, outrossim,
mediante uma constante mortificação, por desfazer o passado pecaminoso
mais do que a alcançar uma santidade obtida em perigo. Cada um dos seus
sentidos foi sujeito a uma rigorosa disciplina. De maneira a mortificar o sentido
da visão, tomou como regra andar pelas ruas com os olhos abaixados, não
espiando sequer para a direita ou para a esquerda e jamais para trás. Os seus
olhos evitavam qualquer encontro com os olhos das mulheres. De tempos a
tempos ele os sofreava com um súbito esforço da vontade, erguendo-os de
repente no meio duma sentença ainda por terminar e fechando o livro. Para
mortificar sua audição, não exercia fiscalização alguma sobre a sua voz
quando esta estava para romper, não cantava nem assobiava e não fazia
esforço algum para se livrar dos ruídos que lhe causassem uma dolorosa
irritação nervosa, como, por exemplo, o amolar facas sobre um gume, o chiar
das cinzas na lareira e o arranhar do tapete.

Início da nota de rodapé

* J. Joyce, op. cit.

Fim da nota de rodapé

Página 120

Mortificar seu olfato lhe foi mais difícil, visto não sentir nenhuma repugnância
instintiva para os maus cheiros, mesmo que fossem os odores do mundo
exterior, tais como os de estrume ou de alcatrão, ou os odores da sua própria
pessoa, entre os quais fazia curiosas comparações e experiências Acabou, por
fim, descobrindo que o único cheiro contra o qual o seu sentido do olfato se
revoltava era um certo fedor de peixe podre que semelhava o da urina
depositada durante muito tempo; e onde quer que isso lhe fosse possível,
sujeitava-se a suportar tão desagradável cheiro. A fim de mortificar o paladar,
praticava hábitos estritos à mesa observando fielmente todas as abstinências
da Igreja e habituando-se, como uma distração, a afastar o seu espírito de
todos os sabores de diferentes alimentos. Mas foi para com o sentido do tato
que ele empregou com mais assiduidade ingênuos processos preventivos.
Jamais, conscientemente, mudou de posição na cama; ficava sentado nas
posições mais incômodas possíveis; sofria com paciência qualquer comi- chão
ou dor; conservava-se longe do fogo; permanecia de joelhos durante toda a
missa, exceto aos evangelhos; deixava parte do pescoço e do rosto sem
enxugar, de modo a que o ar lhe doesse e, onde quer que estivesse, se não
fosse o terço, deixava os braços caídos ao longo do corpo como um corredor e
jamais com as mãos nos bolsos; ou então cruzava-os atrás de si.

Tentações de pecado mortal não lhe vinham. Surpreendia-o, entretanto,


descobrir que, ao fim do seu curso de intrincada piedade e autodomínio,
estivesse tão facilmente à mercê de pueris e indignas zmper/eições. Suas
orações e abstinências pouco lhe valiam para o pouparem da birra ao ouvir sua
mãe espirrar ou ao ser perturbado em suas devoções. Precisava dum grande
esforço de vontade para dominar o impulso que o impelia, antes de se livrar de
tal irritação. [Grifos nossos] *

Aquilo que o artista descreve tão lucidamente é lembrado apenas vagamente


pelo adulto médio; com mais frequência, as extravagâncias emocionais da
mente e do corpo jovens ficam perdidas para a consciência. Só o artista
mantém abertos à pré-consciência o alcance e a profundidade das
experiências afetivas e factuais de sua existência total. Geralmente, as
lembranças do período de adolescência tornam-se vagas ao final dessa
mesma adolescência, escondidas por um véu de amnésia. Os fatos são bem
lembrados, mas o lado afetivo da experiência não pode ser claramente
lembrado. A repressão assume o controle no declínio do complexo de Édipo
ressuscitado, tal como o fizera antes, ao término da fase edípica. Mas, ao final
dessa fase, a lembrança dos fatos — os aspectos concretos do onde, quando,
como e quem — é preferencialmente obliterada, ou recebe uma fachada falsa,
por assim dizer, na
Início da nota de rodapé

* j. Joyce, op. cit.

Fim da nota de rodapé

Página 121

forma de uma cortina de memórias, enquanto os estados emocionais são mais


fáceis de serem lembrados. Ao final da adolescência, ocorre o inverso: a
lembrança dos afetos é obstruída, eles caem no limbo amnésico, enquanto os
fatos continuam acessíveis à consciência. Voltaremos a esse tópico ao
examinarmos o ego na adolescência.

As defesas do ascetismo e intelectualização parecem ser típicas dos jovens


europeus, nos lugares onde foram estudados originalmente. Tal fato é um
exemplo da maneira pela qual a cultura influi na formação de defesas,
especialmente durante a adolescência, quando o indivíduo se afasta da família,
para encontrar seu lugar na sociedade em geral. A classe média europeia
culta, por exemplo, valorizou sempre o esforço intelectual de natureza
filosófica, especulativa, analítica e teórica; o mundo dos adultos vê
favoravelmente essas tentativas, atribuindo-lhes um valor preferencial, por
assim dizer. O mesmo se pode dizer do ascetismo. Essas duas defesas são
determinadas pelas experiências educacionais da criança e as influências
sugestivas do ambiente. Como ambas representam uma composição de
mecanismos de defesa, não nos deve surpreender o fato de que as formas
tomadas por essa composição sejam flexíveis e sensíveis às influências do
ambiente. O psicanalista americano não vê um predomínio igual de tais
defesas, em suas formas clássicas, no adolescente dos Estados Unidos.
Minha experiência pessoal com adolescentes americanos levou-me a
reconhecer outra defesa, bastante generalizada, que sem dúvida tem suas
raízes na estrutura familiar daquele país — e, em particular, nas atitudes
sociais preferidas pela sua sociedade. Refiro-me à tendência do adolescente a
recorrer à aceitação de um código de comportamento de uma maneira que lhe
permita separar o sentimento da ação, na luta do ego contra as pulsões e
contra os laços objetais infantis. A pulsão sexual não é negada, nessa manobra
defensiva. Pelo contrário, é afirmada, mas codificada por meio de ações que
trazem a marca de um padrão de comportamento adotado por todos esses
adolescentes. Sob pressão do grupo para a conformidade, o hiato entre a
emoção autêntica e a padronizada, o comportamento aceito pelo grupo se
amplia o resultado é que a percepção interior daquilo que constitui um estímulo
controlado diminui. A motivação reside em se igualar aos outros quanto ao
comportamento exterior, ou em viver segundo a norma do grupo. Isso é mais
do que uma imitação; seu resultado final é uma superficialidade emocional, ou
sentimentalismo, provocada pela ênfase excessiva do componente ação na
influência mútua entre o eu e o ambiente. A pulsão parece perder seu perigo ao
ser forçada a um desempenho competitivo e uniforme, que por sua vez
favorece o narcisismo, em consequência da inibição do fluxo da libido objetal. A
formação grupal é fortalecida pelo fato de a maior fonte de segurança estar
num código

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comum daquilo que Constitui um comportamento adequado, e na dependência


do reconhecimento mútuo de similaridade de procedimento. A essa defesa, tão
predominante na juventude americana, dou o nome de uniformismo. Ë um
fenômeno de grupo que protege o indivíduo pertencente ao grupo contra a
angústia, venha de onde vier. O menino ou menina que não se enquadra em
determinado uniformismo, estabelecido por determinado grupo, é geralmente
considerado uma ameaça e, como tal, é evitado, ridicularizado, esquecido, ou
tolerado com condescendência

Reconhecem-se facilmente no uniformismo vários mecanismos de defesa,


como identificação, negação e isolamento; ele tem também uma qualidade
contrafóbica, que se apresenta como uma precipitação no perigo, com a
previsão triunfal de que Não era nada!. Essa defesa parece responsável pela
reação de jovens europeus ao visitarem os Estados Unidos, que ficam com a
impressão de que o adolescente americano tem suas formas sociais reguladas
por um comportamento obrigatório e segue o código grupal adolescente por um
período extremamente longo. O uniformismo é condicionado por uma ordem de
valores modelada dentro das seguintes linhas: Quanto mais cedo melhor,
quanto maior melhor, quanto mais depressa melhor. As diferenças individuais e
a prontidão emocional são em grande parte ignoradas, numa corrida para a
auto-afirmação e a igualização, que dá uma falsa impressão de maturidade
precoce. A corrida para o comportamento padronizado precoce reduz a
diferenciação e a individualidade, Preparando assim o terreno para os
problemas de identidade. Essa condição é adversa ao idealismo da juventude,
à sua dedicação ao conhecimento e investigação, ao seu espírito
revolucionário que deseja melhorar e reformar o mundo. Em lugar disso, o
formalismo é visto com a salvaguarda da segurança. Em parte, isso é uma
resposta a uma questão formulada por Spiegel (1958): se há forças culturais
em nosso país que tendem a interferir com o processo adolescente, com o
estabelecimento do primado genital, o amor objetal e um firme sentimento do
eu (ver Capítulo 6, Determinantes Ambientais).

Vamos ilustrar agora a transformação de um processo defensivo num processo


adaptativo durante a análise de um menino de 14 anos.

O histórico do caso mostra o uso simultâneo de vários mecanismos defensivos,


amalgamados de forma precária ou coesa, mas todos voltados para um
propósito, ou seja, o de conter a angústia. Nesse caso, geral- mente falando,
analisaremos a emergência de um interesse, o interesse por História, e
mostraremos como essa ocupação intelectual derivava de uma fixação infantil.
Além disso, o interesse estava relacionado com luta pubertária contra os
instintos e os laços objetais infantis, e foi

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usado também — o que não é menos importante — para controlar a ansiedade


e estabelecer a continuidade na experiência do ego. Esse fragmento de análise
serve também para ilustrar a maneira pela qual mais de um mecanismo de
defesa — no caso, tanto a negação como a regressão — se combinam no
esforço mental total e são reconhecíveis na intensidade e qualidade do
interesse intelectual, que serve às necessidades infantis . e, devido a essa
fixação duradoura, não consegue proporcionar nenhuma satisfação genuína,
isto é, egossintônicas.

Tom, um menino de 14 anos, de inteligência excepcional, era inibido, deprimido


e gordo; era dado à ruminação mental e aos interesses solitários. Passava
horas brincando sozinho com um complicado jogo de guerra, com fichas de
pôquer ou moedinhas, no qual o mais fraco dos guerreiros, depois de muitas
ameaças de aniquilação, sempre acabava vencedor. Muitas versões desse
jogo foram desenvolvidas; por exemplo, a conquista de um arquipélago por um
corajoso herói cujo povo era expulso por um impiedoso chefe guerreiro para
uma pequena ilha, da qual finalmente era lançada uma ousada invasão, que
terminava com a destruição do inimigo. Esse jogo aliviava a preocupação e a
angústia, negando que o fraco seja destruído; havia sempre esperança, ainda.
A origem desses jogos remontava à fase da pré-adolescência, quando ele
representava o tema da angústia da castração relativa à mãe pré-edípica.
A análise do interesse por História como defesa começou quando Tom leu um
livro de história grega, na escola. Queixou-se, irritado, de que as informações
nele existentes eram incompletas. O que queria saber era o que aconteceu
depois da destruição de uma civilização. O que aconteceu com ela? O que
aconteceu com o povo? Simplesmente desapareceram? Claro que não. A
história nunca nos dá uma resposta completa. O esforço de penetrar e
compreender o passado foi inútil; Tom descobriu que os livros de História
sempre deixavam de dizer alguma coisa, e sua leitura tornou-se decepcionante
e irritante. O presente, tempo das palavras cruzadas não aliviava a tensão do
menino por muito tempo. De repente, ele começou a desejar comprar alguma
coisa grande, mas acabou brincando com seu velho trem elétrico, que não
usava há anos. Essa ocupação também não teve interesse, porque ele não
conseguia deixar de pensar que estava perdendo tempo. A essa altura voltou-
se contra a humanidade, e contra os professores em particular. Todos foram
considerados como estúpidos. Tom odiava todo o mundo, e especialmente seu
amigo, que só sabe falar de meninas e de sexo. A depressão voltou a
apoderar-se dele, e Tom recomeçou seus jogos solitários de guerra. Mas esses
jogos já não lhe serviam. O arranjo simétrico das fichas, a execução metódica e
ordenada da batalha deixavam-no aborrecido consigo mesmo, e ele exclamou,
em desespero: Oh, sou tão organizado, e nojento.

Página 124

Tom voltou finalmente ao tema da História. O que aconteceu com Atenas e


Babilônia, depois da invasão? Penso nisso desde que li alguma coisa a
respeito pela primeira vez. Sei que Babilônia fica entre o Eufrates e o Tigre,
mas exatamente onde? Nunca descobri exatamente onde. Por que não dizem?
Aliás, Babilônia sempre me fez pensar em Baby. Analista: — Um baby
solitário*. Tom: — Bem, eu tinha cinco anos quando minha babá me deixou.
Quando criança, ele se havia apegado muito à babá, e depois da separação
teve uma tosse nervosa que o fazia acordar no meio da noite. Ia então para o
quarto dos pais, onde sua mãe lhe dava chocolate quente, e a tosse
melhorava. Tom acabava dormindo entre os pais. Isso nos lembra Baby-lon, o
bebê solitário entre dois rios protetores.

Tom entusiasmou-se com a descrição de sua história pessoal. Havia na sua


vida três fases, segundo sua opinião, separadas por duas quebras
cataclísmicas. Ele vivia atualmente a terceira fase, a adolescência. A primeira
quebra ocorreu quando tinha cinco anos e a babá o abandonou, o que
encerrou de maneira traumática a primeira infância. A quebra seguinte ocorreu
quando ele se mudou de Baltimore para Nova York, aos oito anos. Essa
mudança foi a maior catástrofe, foi o declínio e queda de Roma. Todas as
coisas de minha infância desapareceram. Em seguida, enumerou todos os
brinquedos e traquitanas perdidas, acusando a mãe de ter pilhado seus bens.
Teve muita raiva, e com o zelo de um arqueólogo reconstruiu o conteúdo de
seu cesto de brinquedos até um pequeno soldado ou índio que havia perdido
um braço. Reconstituiu na lembrança a estante de seu quarto e lembrava a
aparência e as condições de todas as suas coisas. Essa teimosa busca do
passado, à la recherche du temps perdu, pode ser reconhecida como uma
tentativa de reviver o passado, de reconstruir sua história pessoal a fim de
penetrar em períodos obscuros. A ascensão adolescentes dos impulsos
libidinais e agressivos dirigidos para o pai ou mãe edípicos foram, no caso de
Tom, dominadas pela sua ligação com processos de reflexão. A curiosidade
infantil foi deslocada e canalizada para as investigações históricas. A atividade
intelectual, porém, só por curtos períodos podia evitar a recorrência de estados
de irritação e depressão que haviam sido conhecidos na infância e que agora,
na puberdade, relacionavam-se com a defesa da intelectualização, tornando-a
bem-sucedida apenas em parte.

Tom teve um novo interesse pelo problema histórico. Passou a querer traçar
todo o panorama das migrações, conquistas e aniquilações de nações, e a
destruição de impérios. O que todos eles tinham em
Início da nota de rodapé

* Em inglês, Babylon (Baby + bone = Bebê solitário). (N. do T.),

Fim da nota de rodapé

Página 125

comum era o fato de que esses deslocamentos violentos haviam levado a uma
mistura entre o conquistador e o conquistado, que culminava no nascimento de
uma nova tribo. Deu início a esse ambicioso projeto com um desenho em
grande escala do berço da civilização mediterrâneo. Colocou no mapa os
vários povos, cada tribo representada por um pedaço de cartolina. Pesquisou
em seguida os períodos históricos, moven.do populações de um lado para
outro. Quando se entusiasmava e se interessava demais pelo seu projeto,
sentia-se culpado e se acusava: Eu não devia fazer isso — ou seja,
testemunhar batalhas e o nascimento denovas tribos. Mas continuou com o
projeto. Quando chegou finalmente à história contemporânea, 05 soldados
americanos na Segunda Guerra Mundial misturaram-se com mulheres
provocantes na Itália e deram início a novas tribos. As associações sexuais
tornaram-se mais freqüentes até que o hiato na história, a sua história pessoal,
foi preenchido. Isso foi possíve•1 pela reconstrução, a partir de material das
fantasias originais, dos conceitos sadomasoquistas de relação sexual, culpa
edípica, identificações ambivalentes com os pais, medo da mãe fálica,
depressão conseqüente da separação da babá. Finalmente, a história havia
contado toda a sua vida.

Os temas históricos pessoais deram à história mundial uma persistência e um


fascínio para Tom, e também explicaram o sentimento de descontentamento
que acompanhou essa realização. Disforia, descontentamento, sentimento de
inutilidade, irritação e depressão cederam na análise da luta defensiva, mas
ainda assim o interesse pela História sobreviveu, tornando-se porém livre de
conflitos e recompensador. O interesse pela História foi separado da fixação
instintual e com isso pôde chegar à condição de atividade intelectual autônoma.
Devemos lembrar que na época em que a análise tratou da intelectualização de
Tom, ele já se havia transformado num perfeito historiador, com grande
conhecimento de fatos. Tais fatos, é certo, muitas vezes representavam
exercícios mentais aparentemente sem significado, como por exemplo a
memorização pedante de toda a linhagem dos reis de França. Essa defensiva
com simples fatos deu lugar à apreciação dás questões mais amplas implícitas
no estudo da história. Um interesse que havia surgido num processo de defesa
transformou-se numa atividade adaptativa, social e pessoalmente significativa e
compensadora, que já não exigia o dispêndio de energia contracatética. Essa
transformação provocou, no caso de Tom, um progresso da libido. A economia
do ego foi afetada em termos de uma vigorosa volta à realidade, ao
pensamento racional, e à observação objetiva. Um aumento na auto-estima
seguiu-se à capacidade de dominar o conhecimento, sem culpa.

Na fase da adolescência propriamente dita, quando o conflito edípico se


aproxima de sua resolução, a retirada da libido dos pais

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a diferença? E concluiu com um comentário de auto-ironia: Ë claro que não sei


quanto tempo tudo isso vai durar. Mas eu me sinto muito bem.

As várias medidas defensivas empregadas durante a adolescência


propriamente dita são, em circunstâncias normais, medidas temporárias de
emergência. São abandonadas logo que o ego ganha força ao associar objeto,
se ao movimento progressivo da libido no sentido da heterossexualidade, logo
que a angústia e a culpa diminuem pelas transferências catéticas internas. Do
ponto de vista do comportamento, ou do ponto de vista social, essa evolução
pode ser descrita em termos de acomodações adaptativas de acordo, ou em
correspondência seletiva, com as instituições sociais existentes. Na sociedade
contemporânea esse processo exige tempo, sendo necessariamente lento.
Sabemos que ocorria uma consumação cronologicamente anterior do status
adulto, num passado não muito distante, mas há dificuldades intrínsecas na
interpretação desses fatos, já que as condições sociais que permitem ao
processo adolescente desenvolver-se pelas experiências transacionais tomam
formas diferentes em diferentes épocas históricas (Erikson, 1946). Não
podemos dizer com certeza o que acontecia na adolescência de cem anos
atrás, voltada para a tradição e estruturada em classes, e quando o casamento
precoce era habitual e o processo adolescente evoluía em parte dentro dos
limites dessa instituição. Exploraremos melhor esse aspecto ao examinar as
determinantes ambientais, nas quais os diferentes pontos de parada, por assim
dizer, são vistos em termos da interrelação do desenvolvimento individual com
a cultura. No mundo ocidental de hoje, há dois perigos na adolescência
propriamente dita: a corrida para a heterossexualidade às custas da
diferenciação de personalidade e a repressão maciça dos impulsos sexuais,
com a consequente deformação de caráter e desenvolvimento emocional
irregular.

O progresso decisivo no desenvolvimento emocional durante a adolescência


propriamente dita está no avanço para a heterossexualidade. Essa fase só pole
ser alcançada depois de os impulsos pré-genitais terem sido relegados a um
papel iniciatório e subordinado, em favor da sexualidade genital ou da potência
orgástica. O prazer preliminar é uma inovação da puberdade e compreende
uma disposição hierárquica dos instintos genitais e pré-genitais. Como ocorreu
antes no desenvolvimento psicossexual, o ego volta a se pautar pela
organização predominante das pulsões e na adolescência propriamente dita
surge uma organização hierárquica paralela das funções do ego. Uma ordem
superior de pensamento, reconhecível no desenvolvimento de teorias e
sistemas, aparece; assim, uma ordem mais seletiva é atribuída aos perceptos.
Além disso, há uma consciência progressiva da relevância de nossos atos para
o papel e lugar presente e futuro na sociedade. A escolha da profissão — quer

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seja engenharia ou maternidade — exige que alguns modelos e ideais do ego,


possíveis eus, sejam relegados a posições subordinadas. A adolescência
propriamente dita é a fase durante a qual esses processos estratificadores são
iniciados. No final da adolescência eles assumem uma estrutura definitiva.
Sempre que ocorrem atrasos ou falhas na organização hierárquica dos
impulsos sexuais, há um atraso ou falha non correspondente desenvolvimento
fase-adequado do ego. As alterações autoplásticas, como a cisão do ego ou as
deformações do ego, muitas vezes deixam de revelar, nesta fase inicial, as
proporções nas quais a organização das pulsões fase-adequada da
adolescência propriamente dita, falhou.

Inhelder e Piaget (1958) estudaram o pensamento adolescente em sua forma


típica, e suas constatações confirmam esse desenvolvimento correlato da vida
afetiva e dos processos cognitivos, ou pulsão e ego, a que me estou referindo.
Para Inhelder e Piaget é a ascensão aos papéis adultos que compreende uma
reestruturação total da personalidade, na qual as transformações intelectuais
são paralelas, ou complementares, às transformações afetivas. Algumas de
suas verificações estão estreitamente relacionadas com meu conceito de uma
disposição hierárquica das funções do ego na adolescência. O adolescente
começa a considerar-se como igual aos adultos e a julgá-los; ele começa a
pensar no futuro — isto é, em seu trabalho presente ou futuro na sociedade; e
também tem a ideia de modificar essa sociedade. O adolescente difere da
criança acima de tudo naquilo que pensa além do futuro. Ele se compromete
com possibilidades.
O adolescente é o indivíduo que começa a construir sistemas ou teorias no
sentido mais amplo do termo. A criança não constrói sistemas A criança não
tem essa capacidade de reflexão — isto é, não tem pensamentos de segunda
ordem que tratem criticamente de seu próprio pensamento. Nenhuma teoria
pode ser formulada sem reflexão. Em contraste, o adolescente é capaz de
analisar seu próprio pensamento e construir teorias. Isso corresponde à
formulação segundo a qual o pensamento como ação experimental torna-se,
na adolescência, um modo de tratar a interação do indivíduo com o ambiente,
presente e futuro. O pensamento como ação experimental sofre, na
adolescência, interferência constante da inclinação à ação e à atuação. O
âmbito do ensaio e erro é ampliado no pensamento abstrato, que acaba por se
tornar formalizado em sistemas e teorias. Esses construtos servem ao
propósito de fornecer as bases cognitivas e avaliativas para a assunção de
papéis adultos. São vitais na assimilação dos valores que delineiam
sociedades ou classes sociais como entidades em contraste com as simples
relações entre os indivíduos. Spiegel (1958) mostrou que um tipo de
pensamento conceitual, isto é, o estético, desenvolve-se a esta altura.

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Inhelder e Piaget (1958) mostram que, no desenvolvimento do pensamento, o


adolescente recapitula as diferentes fases do desenvolvimento da criança, nos
planos do pensamento e realidade novos para as operações formais. Como
sempre, passam do egocentrismo para a descentralização. O egocentrismo
observado nos processos de reflexão adolescentes foi descrito como o
narcisismo adolescente. Ele antecede a inclinação para novas relações
objetais, correspondendo ao conceito de descentralização de Piaget. A
descentralização promove a objetividade, ela é uma constante refocalização da
perspectiva. No processo de descentralização, a entrada do adolescente no
mundo ocupacional representa o ponto focal. O emprego afasta o pensamento
dos perigos do formalismo e o leva de volta à realidade. A descentralização
ocorre simultaneamente nos processos de pensamento e nas relações sociais.
O que foi mencionado como disposição hierárquica das funções do ego pode
ser descrito, em relação às funções cognitivas, como a progressão da estrutura
formal no pensamento adolescente como parte de seu egocentrismo, para a
objetividade de pensamento promovido pela descentralização, ou seja, pela
análise dos fatos. A observação mostra como essa conciliação entre
pensamento e experiências pode ser laboriosa e lenta. Em conclusão, dizem
Inhelder e Piaget, as aquisições afetivas fundamentais da adolescência são
paralelas às aquisições intelectuais.

Vimos que para compreender o papel das estruturas formais de pensamento


na vida do adolescente tínhamos, em última análise, que situá-las na sua
personalidade total.

As realizações notáveis do adolescente na esfera do pensamento e sua


criatividade artística igualmente excepcional foram documentados e estudados
há alguns anos (Bernfeld, 1924). O declínio impressionante dessa criatividade
espantosa, ao final da adolescência, mostra ser ela função do processo
adolescente. A intensificação da introspecção, ou a proximidade psicológica
dos processos interiores junto com uma distância dos objetos exteriores,
permite ao adolescente uma liberdade de experiência e um acesso aos seus
sentimentos que promovem um estado de delicada sensibilidade e
perceptividade. As produções artísticas adolescentes são muitas vezes
indisfarçadamente autobiográficas e alcançam seu auge durante fases de
retirada libidinal do mundo objetal, ou por vezes de amor alvo-inibido, seja
homossexual ou heterossexual. A produtividade criativa representa, assim, um
esforço para realizar tarefas urgentes de transformação interiores. A catexia do
pensamento e da introspecção permite uma concentração e uma dedicação ao
processo criativo de pensamento e formação de imagens, quase
desconhecidas, antes ou depois, na vida do indivíduo médio. O processo de
criatividade na adolescência aumenta o interesse pelo eu; é, com frequência,
acompanhado de excitação e encerra a convicção de ser uma pessoa especial
e eleita.
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A atividade criativa sublimada pode ser descrita nos seguintes termos


essenciais: 1) é altamente autocentrada, isto é, narcisista; 2) está subordinada
às limitações de um veículo artístico e, assim, é parcialmente orientada para a
realidade; 3) opera dentro da modalidade de dar vida a uma nova existência, o
eu; 4) constitui uma comunicação com o ambiente, sendo portanto
parcialmente relacionada com o objeto. A atividade criativa adolescente é um
processo complexo, cujas partes componentes podem trabalhar juntas em
relativa harmonia, ou ser total- mente dominadas por um componente criativo.
Assim, a criatividade pode satisfazer necessidades narcísicas, pode
proporcionar contato com a realidade, pode substituir o amor objetal ou pode
preparar a canalização de um dom inato para um modo de vida duradouro. A
observação mostrou que o florescimento da produtividade criativa está, em
geral, restrito ao adolescente das classes cultas; devemos ressaltar, porém,
que o adolescente que despreza a demora da educação e procura chegar à
condição adulta pelo caminho mais curto, ainda assim participa desse processo
criativo recolhendo as imagens já prontas e as emoções estereotipadas dos
meios de comunicação de massa, como filmes e revistas. Esses clichês
satisfazem seus propósitos num nível muito primitivo, sem dúvida; mas são
funcionalmente semelhantes aos atos de criação observados em adolescentes
mais sofisticados e diferenciados. Spiegel (1958) manifestou a opinião de que a
criatividade da adolescência pode ser indiretamente relacionada com as
oscilações catéticas, ou seja, com a fluidez dos deslocamentos catéticos do eu
— as representações objetais pela criação artística aquilo que é eu pode
tornar-se objeto e ser em seguida externalizados, ajudando com isso a
estabelecer um equilíbrio das catexias narcísica e objetal.

A descrição da adolescência propriamente dita compreende um exame


detalhado de tantos aspectos separados, que um sumário pode ser útil, a esta
altura. Ë evidente que, em termos de organização das pulsões, a adolescência
propriamente dita marca um avanço para a posição heterossexual. Ou antes,
essa organização, embora ainda incompleta, ganha em clareza e
irreversibilidade. Com esse objetivo a libido objetal volta-se novamente para
fora, desta vez para objetos não incestuosos do sexo oposto;
concomitantemente, diminui o narcisismo. A passagem para novos objetos de
amor reativa as fixações edípicas, tanto positivas como negativas. O processo
de desligamento do pai (ou mãe) edípico dá a essa fase da adolescência seu
caráter especial. A tarefa sexo-adequada desta fase está na elaboração da
feminilidade e masculinidade; e mais uma vez, esse processo não é
completado, mas aguarda consolidação final nas fases subsequentes. Mas
tanto a maneira especial pela qual a pré-genitalidade é relegada ao prazer
preliminar, como a maneira pela qual os conflitos edípicos chegam a uma
resolução

Página 131

ou acomodação, prenunciam uma organização das pulsões que operará dentro


de limites altamente idiossincráticos

Durante a adolescência propriamente dita, o ego dá início a medidas


defensivas, processos restitutivo e acomodações adaptativas. Sua escolha
mostra maior variação individual do que se pode perceber nas fases prévias,
fato que prenuncia sua influência seletiva final sobre a formação do caráter.
Além disso, surgem as disposições hierárquicas das funções do ego,
modeladas pela emergente organização das pulsões. Os processos cognitivos
tornam-se mais objetivos e analíticos; a esfera do princípio da realidade
aumenta. A inovação hierárquica em si faz destacar interesses, capacidades,
habilidades e talentos distintos, experimentalmente testados pela sua utilidade
e segurança na manutenção da autoestima. Assim, uma escolha profissional se
solidifica, ou pelo menos faz ouvir sua voz. O fim da adolescência traz uma
qualidade totalmente nova a essa esfera de procura de eus possíveis.
Em termos gerais, podemos dizer que a adolescência propriamente dita chega
ao final com a delineação de um conflito idiossincrático e uma constelação de
pulsões que, durante sua fase final, transformam-se num sistema unificado e
integrado. A adolescência propriamente dita elabora um núcleo de luta interna
que resiste às transformações do período; os conflitos e as forças
desequilibradores destacam-se nitidamente. Ë tarefa da adolescência chegar a
uma solução final que o jovem sente, subjetivamente, ser meu modo de vida. A
questão inquietante, tão frequentemente levantada pelos adolescentes, Quem
sou eu?, é lentamente esquecida. Durante o final da adolescência uma clareza
de propósitos, mais positiva e mais evidente, e uma consciência do eu surgem,
e podem ser melhor descritas pelas seguintes palavras: Isto sou eu. Essa
afirmação raramente é feita em voz alta, se é que chega a ser feita; mas é
expressa pela vida que o indivíduo leva ou tem como certa na época em que a
adolescência chega ao fim. Passaremos agora a um exame desse período, que
leva ao término do processo adolescente.

6. Final da Adolescência

A fase final da adolescência foi aceita como um postulado, e considerada como


um declínio natural no turbilhão do crescimento. A analogia que Freud (1924)
usou com referência à superação do complexo de Édipo também poderia ser
aplicada ao processo adolescente: a de que ele chega ao fim por motivos
filogenéticos, que deve chegar ao fim por ser chegado o momento de sua
dissolução, assim como os dentes de leite caem quando os dentes
permanentes começam a pressioná-

Página 132

los. Mas Freud (1924) também examinou os determinantes ontogenéticos, que


têm igual importância. As razões e as maneiras pelas quais a adolescência
chega ao fim revelam que os aspectos psicológicos são os únicos em termos
dos quais se pode definir a fase final da adolescência. Como já dissemos, a
pubescência é um ato da natureza; a adolescência é um ato do homem.

A fase final da adolescência atraiu mais atenção na última década do que a


turbulência das fases anteriores. Sabemos, pela experiência, que com o
declínio da adolescência o indivíduo registra ganhos quanto à ação intencional,
integração social, capacidade de fazer prognósticos, constância emocional e
estabilidade da autoestima. Em geral, notamos uma maior unificação dos
processos afetivo e volitivo, a sujeição à conciliação e ao adiamento. Outra
característica importante do final da adolescência é a delineação das
preocupações que realmente interessam na vida, que não toleram conciliações
e nem adiamentos. Essas preocupações nem sempre estão a serviço do
interesse próprio óbvio, já que em muitos casos resultam em frustração, luta e
sofrimento. Mas a despeito das consequências, o jovem adulto persiste em
certas escolhas que, como sente no momento, são os únicos caminhos para a
sua auto realização. Tem-se a impressão de que a vida do indivíduo, vista em
perspectiva, mostra continuidades claras que se estendem da adolescência à
idade adulta, bem como descontinuidades que, na verdade, marcam o limite do
final da adolescência. A questão, portanto, é: quais os processos que operam
na evolução desses novos atributos de personalidade e que caracterizam o
avanço para a condição adulta ou o declínio da adolescência? Outra pergunta
relaciona-se com as condições que explicam os elementos de continuidade e
identidade, tão familiares aos que estudam os históricos de casos. O clínico
acrescentará uma terceira pergunta: qual a psicopatologia específica que
representa a falha do final da adolescência e qual a etiologia dessas falhas de
desenvolvimento? Os acontecimentos que provocam o fim de uma fase de
desenvolvimento parecem mais difíceis de ser identificados do que os que
provocam o seu aparecimento. Esses problemas teóricos referentes à fase final
da adolescência serão examinados a seguir.

O final da adolescência é principalmente uma fase de consolidação. Por isso


entendo a elaboração de: 1) uma disposição altamente idiossincrática e estável
das funções e interesses do ego; 2) uma extensão da esfera livre de conflitos
do ego (autonomia secundária); 3) uma posição sexual irreversível (constância
de identidade), resumida como um primado genital; 4) uma catexia
relativamente constante das representações objetais e do ego; e 5) a
estabilidade dos mecanismos mentais que protegem automaticamente a
integridade do organismo físico. Esse processo de consolidação relaciona-se
com a estrutura e o conteúdo psíquicos, o

Página 133

primeiro estabelecendo a unificação do ego e o segundo preservando a


continuidade dentro dele. O primeiro modela o caráter, o segundo proporciona
os meios para isso, por assim dizer. Cada componente influi no outro em
termos de um sistema de feedback, até que, na pós-adolescência, se chegue a
um equilíbrio dentro de certos limites de constância intrínseca. O limiar de
vulnerabilidade mostra grandes diferenças individuais, já que a tolerância ao
conflito e à angústia variam enormemente. O volume e intensidade dos
estímulos (exteriores e interiores) necessários ao funcionamento efetivo
também revelam variabilidade individual, fato que não deixa de ter influência
sobre a organização do ego emergente, à época do final da adolescência. Há
talvez um grau ótimo de angústia (que varia de indivíduo para indivíduo) que
favorece o desenvolvimento; mais do que esse ótimo ou menos do que ele,
poderá prejudicar o desenvolvimento (Brierley, 1951). O mesmo se poderia
dizer quanto à manutenção de uma organização estável do ego, ou seja, que
um ótimo de tensão é de valor positivo, dando por assim dizer um tônus à
personalidade. Falamos de processos integrativos gerais: egossíntese,
padronização e canalização. Em termos do organismo psíquico total e seu
funcionamento, isso se refere à formação da personalidade e do caráter.
Poderíamos construir um modelo do final da adolescência, mas, se o
fizéssemos, deveríamos ter presente que as transformações descritas acima só
são alcançadas parcialmente por um indivíduo isolado. Parece, na verdade,
que o aspecto de conciliação do final da adolescência é parte integral dessa
fase; uma realização de relativa maturidade. Vale a pena lembrar as palavras
de Freud (1937) em relação a isso: Na realidade, as etapas transitórias e
intermediárias são muito mais comuns do que estados opostos nitidamente
diferenciados. Ao estudar vários desenvolvimentos e mudanças, focalizamos
nossa atenção totalmente no resultado e esquecemos facilmente o fato de que
esses processos são geralmente mais ou menos incompletos, isto é, que as
mudanças ocorridas são apenas parciais Há quase sempre vestígios daquilo
que foi e uma paralisação parcial numa fase anterior. Parece, portanto, que os
fenômenos residuais e os retardamentos parciais explicam em grande parte as
variações de individualização surgidas ao final da adolescência. Esses
aspectos, por serem mais evidentes no adulto, podem ser melhor estuda- dos
durante essa fase. O que devemos ressaltar aqui é o fato de que a tarefa de
desenvolvimento do final da adolescência está precisamente na elaboração de
um ego unificado que funde em seu exercício os retarda- mentos parciais com
as expressões estáveis, por meio do trabalho, amor e ideologia, provocando
tanto a articulação como o reconhecimento sociais. Tudo o que uma pessoa
possui ou realiza, todo remanescente

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do sentimento primitivo de onipotência que sua experiência confirmou, contribui


para aumentar a sua autoconsideração (Freud, 1914),

O final da adolescência é um momento decisivo e, portanto, um momento de


crise. Nele ocorre, na verdade, a crise adolescente final que com frequência
onera a capacidade integrativa do indivíduo e resulta em fracassos de
adaptação, deformações do ego, manobras defensivas e psicopatologia
severa. Erikson (1956) comentou extensamente esta última, em termos de uma
crise de identidade. Descrevi o síndrome da adolescência prolongada (1954)
em termos de uma relutância em dar por encerrada a última fase da infância,
ou seja, a adolescência. A incapacidade de atravessar com êxito o final da
adolescência chamou nossa atenção para as tarefas dessa fase. Muitas vezes,
na história da psicanálise, um desenvolvimento irregular Lançou luz sobre o
desenvolvimento regular; um desses casos foi o estudo dos fracassos da
adolescência final, que ajudaram a formular a tarefa fase-específica.

As fases da adolescência acima descritas enquadram-se bem na teoria


psicanalítica. Mas com relação à fase final da adolescência, conceitos como
fixação, mecanismos de defesa, síntese do ego, sublimação e adaptação,
bissexualidade, masculinidade e feminilidade — embora participem todos do
processo — não são, em si, suficientes ou adequados para tornar
compreensível o fenômeno da consolidação da personalidade ao final da
adolescência. A observação analítica isolou alguns dos obstáculos à
consolidação progressiva, como fixações de instintos, descontinuidades no
desenvolvimento do ego, problemas de identificação e bissexualidade. Mas o
caminho ao longo do qual a consolidação da personalidade se processa
continua, sob muitos aspectos, obscuro. Os processos integrativos são mais
silenciosos do que os desintegrativos.

As fases da adolescência mexem com as pulsões, em suas várias


constelações regressivas e progressivas, ou organizações fase-específicas. De
fato, poderíamos dizer que em toda a adolescência o ego tem um envolvimento
muito próximo — ainda que defensivamente — com as pulsões e, durante todo
o caminho, chega seletivamente a um acordo com a sua intensidade, seus
objetos e seus alvos. Observamos acima que nenhuma progressão de uma
fase da adolescência para a fase seguinte é realizada sem levar consigo
fenômenos residuais. Devemos acrescentar que esses resíduos persistem em
vir à tona, e só durante períodos de relativa calma na vida adulta estão sob
controle total do ego. Por exemplo, o problema da bissexualidade nunca é
resolvido em termos de seu desaparecimento: ele cede a certas acomodações
e domínios egossintônicos. A sua persistência no inconsciente ¿ atestada pela
ocorrência comum desse tema na vida onírica dos adultos.

Deveremos supor que a repressão seja o principal agente que dá início à


condição adulta, como antes, ao término da fase edípica, esse

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mesmo mecanismo de defesa e suas sequelas dão início ao período de


latência? Obviamente, seria uma solução demasiado simples, que sem dúvida
não poderia explicar a grande variabilidade das adaptações ou soluções
individuais, evidente ao final da adolescência. O que temos de encontrar é um
princípio operacional, um conceito dinâmico, que governe o processo de
consolidação do final da adolescência e torne as suas várias formas
compreensíveis: primeiro, o mecanismo psíquico que sintetiza os vários
processos adolescentes fase-específicos, que os torna estáveis, irreversíveis e
lhes dá um potencial adaptativo; segundo, a fonte dos resíduos específicos dos
períodos de desenvolvimento anteriores que sobreviveram às transformações
adolescentes e que continuam a existir sob forma derivada, contribuindo para a
formação do caráter. E, finalmente, a fonte da energia que traz para primeiro
plano certas soluções e deixa outras em suspenso, emprestando dessa forma
ao processo de consolidação uma qualidade decisiva e individual. Tais
qualidades, que com frequência provocam sacrifício e sofrimento, não podem
derivar totalmente do empuxo de maturação. Acredito que outras forças se
com- binem dentro desse processo.

O conceito de trauma deve ser introduzido a esta altura. O termo trauma é


relativo, e o efeito de qualquer trauma específico depende tanto da magnitude
e imprevisto de seu estímulo, como da vulnerabilidade do aparelho psíquico. O
trauma é um fenômeno universal da infância. Quer seja ele causado por um
excesso ou uma escassez constitucional ou ambiental, isso não terá influência
sobre o seu efeito na vida individual. Quero ressaltar apenas o fato de que o
domínio do trauma é uma tarefa interminável, por toda a vida, tão interminável
quanto a prevenção de sua recorrência. Essa autoproteção é proporcional à
força do ego e à estabilidade das defesas. Ë claro que nenhum indivíduo faz
uso de todos os mecanismos de defesa possíveis; cada pessoa escolhe
apenas alguns deles, mas estes se fixam no seu ego, estabelecendo-se como
modos regulares de reação para aquele caráter particular, e são repetidos
durante toda a vida sempre que ocorre uma situação semelhante àquela que
os evocou inicialmente (Freud, 1937).

Por outro lado, os efeitos secundários de um trauma provocam situações de


vida que de certa maneira repetem a situação original. Portanto, o trabalho de
resolução do trauma, a tentativa de dominá-lo, continuará. As experiências de
vida oriundas desse tipo de formação fazem-se de acordo com essa compulsão
de repetição. O que foi experimentado originalmente como uma ameaça do
ambiente torna-se o modelo do perigo interior. Ao adquirir a condição de
modelo, o perigo primitivo teve de ser substituído pelas representações
simbólicas e pelos substitutivos que correspondem ao desenvolvimento físico e
mental da criança em crescimento. Ao final da adolescência a ameaça original,
ou

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antes um componente seu, volta-se novamente para fora, ao ser ativada sobre
o ambiente. Sua resolução ou imobilidade é então buscada dentro de um
sistema de interação altamente específico. Então, o indivíduo sente o seu
comportamento como sendo significativo, evidente, premente e satisfatório.

O domínio progressivo dos traumas residuais determina o intercâmbio


transacional entre o indivíduo e o ambiente, bem como entre o ego e o eu.
Livrar-se da influência perniciosa do mundo exterior precipitada no trauma e
que se tornou parte do mundo interior é uma tarefa psíquica para toda a vida.
Uma parte considerável dessa tarefa é realizada durante a adolescência. Anna
Freud (1952) comentou a possibilidade, na adolescência, de uma inversão das
atitudes do superego e do ego, embora aparentemente tais atitudes tenham
sido plenamente integradas na estrutura do ego da criança em latência.
Quando a nova integração não é realizada, uma persistente distonicidade do
ego com relação, por exemplo, a certas atitudes do ego testemunha uma
transformação adolescente apenas parcial. De qualquer modo, os
remanescentes específicos não assimilados sempre chegam até a vida adulta;
de fato, reclamam expressão contínua através da própria organização da
personalidade.

A extensão em que o trauma prejudica o desenvolvimento progressivo Constitui


o seu fator negativo; a extensão em que o trauma promove e estimula o
domínio da realidade é o seu fator positivo. Essa ideia foi desenvolvida por
Freud (1939), num de seus últimos ensaios: Os efeitos do trauma são duplos,
positivos e negativos. Os primeiros são as tentativas de reviver o trauma,
lembrar a experiência esquecida ou, melhor ainda, torná-la real — viver
novamente uma repetição dela. Se foi uma relação afetiva antiga, é revivida
numa conexão análoga com outra pessoa. Essas tentativas são resumidas na
expressão fixação para o trauma e compulsão de repetição. Os efeitos podem
ser incorporados ao chamado ego normal e na forma de tendências constantes
emprestam-lhe traços imutáveis de caráter As reações negativas visam ao alvo
oposto: nada dos traumas esquecidos deve ser lembrado ou repetido. Essas
reações podem ser agrupadas como reações defensivas. Expressam-se na
tendência a evitar problemas, tendência essa que pode culminar numa inibição
ou fobia. Essas reações negativas também contribuem consideravelmente para
a formação do caráter

Dentro do problema da consolidação do caráter no final da adolescência, temos


de acomodar o problema do trauma como parte do processo total. A fixidez e
irreversibilidade do caráter tem um efeito favorável na economia psíquica;
como os traços compulsivos, elas ampliam distância entre o ego e a pulsão.
Um traço de caráter, portanto, que se forme lentamente ao fim da
adolescência, deve sua qualidade especial

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a uma fixação sobre um trauma particular, ou componente de um trauma. Por


meio das transformações emocionais que a adolescência suscita, os traumas
focais, por assim dizer, continuam resistindo à solução adolescente. Eles dão
ao processo de consolidação do fim da adolescência uma afinidade seletiva
com certas escolhas. Além disso, proporcionam uma força incansável que
impulsiona o jovem adulto na direção de um certo modo de vida que ele passa
a sentir como seu. Os remanescentes dos traumas relacionam plenamente o
presente com um passado dinamicamente ativo, e estabelecem a continuidade
histórica no ego que explica um senso de certeza, de direção e harmonia entre
o sentimento e a ação. Um jovem paciente que sofrera um colapso durante o
final da adolescência disse, ao sentir o impacto de seu passado redescoberto
sobre o seu senso em transformação do eu: Parece que só podemos ter um
futuro se tivermos também um passado.

Poderíamos indagar por que o recurso a uma fixação dos instintos e do ego
não é suficiente para tornar compreensível a especificidade das escolhas e
disposições definitivas do ego, superego e premência das pulsões no final da
adolescência. A fixação visa à manutenção de uma posição estática; ela resiste
à mudança. Mas o aspecto positivo do trauma está no fato de exercer uma
pressão incessante no sentido de chegar a um acordo com seus resíduos
nocivos, reativando-os incessantemente no ambiente. Não há dúvida de que as
fixações das pulsões e do ego entram na consolidação do caráter e contribuem
para a organização da personalidade. Mas entre os vários componentes
unificados pela integração, uma certa fixação é apenas um de seus muitos
aspectos.

Voltando às perguntas formuladas antes, é evidente que a instituição psíquica


onde ocorre a consolidação do processo adolescente é o ego (egossíntese). As
fixações proporcionam a especificidade das escolhas em termos das
necessidades libidinais, identificações predominantes e fantasias preferidas. Os
traumas residuais fornecem a força (compulsão de repetição) que leva as
experiências não integradas à vida mental a um domínio ou integração do ego.
A direção tomada por esse processo — sua ênfase preferencial na descarga de
pulsões, sublimação, defesa, deformação do ego, etc. — é em grande parte
controlada pelas influências do superego e ideal do ego. A forma tomada por
esse processo é influenciada pelo ambiente, pelas instituições sociais,
tradições, costumes e sistemas de valor. Obviamente, todo o processo opera
dentro dos limites fixados pelo fatores constitucionais, como os dotes físicos e
mentais.

Chegamos, então, à conclusão de que os conflitos infantis não são eliminados


ao término da adolescência, mas tornam-se específicos; tornam-se
egossintônicos, isto é, integram-se na esfera do ego como tarefas de vida.
Tornam-se centrados dentro das auto representações adultas. Toda tentativa
de domínio egossintônico de um trauma residual, fre-

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qüentemente experimentado como conflito, estimula a auto-estima. A


estabilização desta é uma das principais realizações da condição de adulto. A
auto-estima é a expressão emocional da auto-avaliação e a correspondente
catexia libidinosa ou agressiva das auto-representações.
A auto-estima não reflete necessariamente a tensão entre o superego e o ego.
Definida de forma ampla, a auto-estima expressa a discrepância entre ou
acordo com o conceito desejado do eu e das auto-representações (Jacoj,son,
1953). Ë um esforço do ego, por toda a vida, o restabelecimento desse acordo
e a eliminação da discrepância pela interação judiciosa com o ambiente.

Esta apresentação esquemática é estabelecida como modelo da última fase da


adolescência. Como tal, não faz justiça aos muitos problemas que a
adolescência desperta. Em termos de todo o período da adolescência,podemos
dizer que o processo assume características cada vez mais individualistas, que
na adolescência propriamente dita atingem o auge no reviver do conflito
edípico e no estabelecimento do prazer preliminar com seu efeito sobre a
organização do ego. A resolução do complexo de Édipo ressuscitado durante o
período adolescente é, na melhor das hipóteses, parcial. A parte que resistiu à
resolução adolescente torna-se o núcleo de um esforço continuado com essa
finalidade. Ele se processa dentro dos limites das escolhas pessoais, como
trabalho, valores, lealdades, amor. O que observamos ao final da adolescência
é um processo autolimitador, uma delimitação de um espaço vital que só
permite movimentação dentro de uma área psicológica restrita. Esses
elementos de identidade que abarcam a infância, a adolescência e a vida
adulta indicam o que a nova formação mental que tomou forma perpetua
tendências conhecidas, antecedentes, dentro da personalidade do adulto.

Lembramos, aqui, a fase edípica, na qual os resíduos de fases anteriores foram


operados, por assim dizer, na modalidade genital. O declínio do complexo de
Édipo leva a formações de compromisso, mas principalmente a uma
estruturação decisiva de uma instituição psíquica, o superego. Durante a
adolescência propriamente dita, as soluções de conflito e dilemas do complexo
de Édipo, inclusive as fixações pré-genitais, são novamente transpostas para a
modalidade genital, dessa vez buscando acomodações dentro da esfera da
heterossexualidade não incestuosa. As falhas nessa tarefa levam a processos
dissociativos e a resultados patológicos. Mas além da reorganização das
pulsões que é característica da adolescência propriamente dita, ficam
remanescentes edípicos que não foram levados pelo caminho do amor objetal.
O final da adolescência envolve a transformação desses remanescentes
edípicos em modalidades do ego. A importância do trabalho para a economia
da libido foi claramente demonstrada por Freud (1930): A ênfase na
importância do trabalho tem maior efeito do que qualquer outra técnica de vida,
no esta-

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belecimento de uma maior aproximação do indivíduo com a realidade; em seu


trabalho ele está pelo menos seguramente preso a uma parte da realidade, a
comunidade humana. O trabalho é tão valioso para as oportunidades que,
juntamente com as relações humanas que lhe são implícitas, proporciona para
uma descarga considerável dos impulsos libidinais componentes, narcísicos,
agressivos e mesmo eróticos, quanto indispensável para a subsistência, e
justifica a existência numa sociedade.

Interesses do ego altamente idiossincráticos e catexiais preferenciais no final


da adolescência constituem uma nova realização na vida do indivíduo. Pelas
mesmas razões, as auto representações assumem uma fixidez estável e
fidedigna. A definição fase-específica do final da adolescência bem poderia ser
formulada nesses termos. A afirmação de Freud de que o herdeiro do
complexo de Édipo é o superego poderia ser parafraseada, dizendo-se que o
herdeiro da adolescência é o eu. (Para um exame do conceito do eu, ver
Capítulo 5, O Ego na Adolescência.)

Demonstrar, pelo exemplo clínico, o processo de consolidação do fim da


adolescência exige que se conte uma história de vida. Como essa é a melhor
maneira de ilustrar os conceitos que desenvolvemos com referência à fase final
da adolescência, traçaremos, em linhas amplas, o desenvolvimento psicológico
relevante de um indivíduo. Os dados são baseados na lembrança e
reconstrução da análise de um homem de 35 anos. A análise do período
adolescente teve papel proeminente no tratamento da neurose de caráter
desse paciente.

John era o filho mais novo; seu irmão era cinco anos mais velho do que ele.
Desde o nascimento John foi o favorito da mãe, que via no menino a realização
de seus próprios sonhos artísticos. Tudo contribuiu para uma fixação ao nível
receptivo-passivo. Tanto a mãe como a babá o mimavam. O menino andou e
falou bastante tarde, era dado aos sonhos e brincadeiras solitárias. Logo que
foi capaz de andar, começou a correr e tornou-se bastante independente.
Sentia agudamente a competição com o irmão mais velho, cuja competência
invejava. Nessa luta, John aprendeu a se aproveitar de sua natureza simpática,
que o tornava o preferido das mulheres. Agradar às mulheres e evitar os
homens (pai, irmão), juntamente com uma compreensão precoce das
vantagens de sua boa aparência, eram suas técnicas típicas para evitar o
desprazer, e ele as desenvolveu durante três décadas. Com essas armas
derrotou seu irmão, de grande força de vontade, e afastou dele a afeição da
mãe. Esse estratagema de tratar com um rival masculino evitando um encontro
nunca deixou de ser adotado em circunstâncias análogas.

A primeira infância de John, portanto, mostrou uma fixação na modalidade oral


receptiva-passiva. A entrega submissa dos orifícios corporais e seu controle
seguiu-se facilmente. A passividade era dominante no equilíbrio passivo-ativo.
Ocorreu um período (aos três anos) durante

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o qual a mobilidade (descarga de impulsos agressivos) foi ascendente, mas


essa tentativa de superar a passividade inicial não teve resultado e foi seguida
de um período exibicionista, no qual a aparência e a atração foram usados
como equivalentes fálicos. Dentro dessa constelação o menino aproximou-se
da fase edípica. O ato de evitar a concorrência com o homem deu ao complexo
de Édipo uma designação negativa o pai tanto era temido quanto admirado, e
ser amado por ele tornou-se um anseio secreto mas duradouro. A relação com
o pai atingiu uma solução negativa em termos de evitar a identificação; em
relação à mãe, persistiu um apego submisso, narcísico e afeiçoado até 05 anos
de latência.

John contornou a angústia da castração pela entrega passiva à mãe fálica.


Esta tornou-se a fonte de ansiedade, mas pela mesma razão a provedora de
segurança enquanto John viveu — ou fingiu viver — a imagem de um filho
promissor e especial. A despeito de possuir ou não os meios para corresponder
a essas vagas expectativas, a representação e o fingimento tornaram-se dentro
em pouco as únicas garantias de sua segurança. A rivalidade com os homens,
já contornada antes em relação ao seu irmão, sofreu uma derrota definitiva na
luta com o pai edípico. As inclinações fálicas experimentais foram logo
revestidas de um sentimeno de incompetência (angústia da castração)
seguidas de medidas regressivas: o modo de órgãos passivo-receptivo da fase
oral manifestou-se claramente em nível edípico num modo de ego passivo-
receptivo. Sua auto-imagem foi moldada por qualidades e traços imputados; o
princípio da realidade falava com uma voz que mal se podia cuvir.

O complexo de Édipo de John foi resolvido pela repressão sexual, cujas


proporções só se tornaram evidentes na adolescência. Além das influências
restritivas e inibidoras do pai, o superego encerrava bastante da sedução
narcísica da mãe para lembrar a corruptibilidade do supere- go, de Alexander
(1929), pela sua aliança secreta com o id. O pai continuava sendo uma figura
ameaçadora; os sonhos angustiados (ladrões, gigantes) acompanharam a fase
edípica e a ela se seguiram. John entregou-se às mãos das mulheres — mãe,
babá e suas substitutas — que se tornaram as executantes do seu ego,
fazendo por ele o que ele era incapaz de fazer por si mesmo. Não hesitou em
assumir o crédito pelas realizações de suas suplentes. Sua consciência tinha
sempre um álibi ele se sentia como uma criança especial, um príncipe adotado.

Essa constelação de pulsões, ego e superego constituía um mau prenúncio


para o período de latência. Ocorrem sérios problemas de aprendizado,
acobertados durante a escola primária por uma babá dedicada, que aprendeu a
imitar a caligrafia do menino a fim de fazer-lhe os deveres escolares. Estes
eram feitos, e bem feitos, enquanto ele brincava e devaneava. De maneira
mágica, portanto, pôde competir sem ansiedade, sem risco de derrota e sem
ceder ao princípio da realidade.

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Seu irmão era estudioso e dotado de um espírito lógico, inquisitivo e prático;


mas John sentia que, sendo privilegiado, estava acima do trabalho. Um influxo
da libido narcísica salvou o ego de sentimentos de insuficiência e
incompetência que derivavam, essencialmente, da angústia de castração. Esse
componente narcisista aumentava o encanto do menino e deu origem a um
espírito imaginativo, mas sonhador. John não era bobo nem estúpido, exceto
na escola.

A puberdade trouxe uma repressão sexual total. Não se evidenciaram as


sensações genitais nem a masturbação. Uma fixação na organização pré-
adolescente das pulsões durou por toda a adolescência —— isto é, medo da
castração pela mãe fálica. As inibições sexuais foram racionalizadas como
forma de evitar doenças venéreas; na realidade, tinham raízes em conceitos
como a cloaca e a vagina dentada. O menino atravessou o período
homossexual típico das amizades idealizadas; em seguida, voltou-se para as
meninas como um pé na heterossexualidade. Suas muitas namoradas eram
tratadas com amor terno, e nenhum sentimento ou necessidade sexual jamais
toldou a pureza desses relacionamentos.
O fato de John nunca ter abandonado a posição narcisista explica sua
adolescência prolongada. Ele finalmente se tornou um intelectual para agradar
aos pais; foi capaz de atender às exigências educacionais apenas em grau
marginal, apesar de uma excelente inteligência. Com o avanço da
adolescência, chegou a mostrar um talento artístico promissor.

O processo de consolidação do final da adolescência articulou essas várias


tendências numa configuração egossintônica. John resolveu ser professor de
crianças pequenas, e um educador bastante moderno. Escolhendo essa
carreira ele, em primeiro lugar, evitou a competição com o pai e o irmão, que
eram ambos pessoas cultas com diplomas. John orgulhava-se de ser um
rebelde e rejeitava as tradições familiares denunciando seu passado
educacional. Sendo professor, argumentava ele, teria tempo de dedicar-se aos
seus interesses artísticos — que representavam o elo secreto com a mãe.
Além disso, o interesse de John pelas crianças era decididamente maternal, e
lhe ofereciam uma saída sublimada para suas necessidades femininas de
amamentar, que tinham raízes na identificação com a mãe ativa. Ao defender
métodos educacionais contrários àqueles pelos quais havia sido educado, ele
sustentava uma tendência de oposição encontrava sublimação bem-sucedida.
Essas tendências combinaram-se para fazer dele um educador notável e de
êxito.

A repressão sexual maciça na puberdade acabou levando a sinto- mas de


conversão, como perturbações digestivas. Estes desapareceram sob a
influência da masturbação genital, aos 19 anos. A escolha de um objeto de
amor heterossexual foi condicionada por uma diferença óbvia com a mãe
edípica. John só podia amar sexualmente uma moça se essa fosse submissa,
passiva, simples, não intelectual e não fizesse exigências.

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A mãe edípica reapareceu na vida de John numa constante busca de, e
entrega a, mulheres que eram poderosas, seja pela posição social, intelecto,
fama ou dinheiro. Na verdade, a dependência de mulheres como estas sufocou
tanto o seu desenvolvimento profissional como o seu casamento. Quando
esses aspectos de sua vida foram ameaçados de deterioração, ele buscou
ajuda psicanalítica.

Este histórico indica que a síntese do final da adolescência foi dominada por
tendências narcisistas, e que a fixação na modalidade passivo-receptiva havia
influenciado o desenvolvimento do seu ego e das pulsões. Pela sua escolha
profissional ele tentou resolver sua situação egodistônica por meio de uma
identificação com a mãe ativa; sua oposição à rendição foi mantida pela sua
cruzada em favor de métodos modernos de educação de crianças pequenas. A
identificação com estas proporcionou um caminho institucionalizado para a
reparação dos segmentos infantis do ego em John, o educador. O conflito
edípico adolescente foi resolvido sem êxito pela divisão da mãe edípica num
objeto degradado e numa força fálica supervalorizada. A inclinação de John à
receptividade passiva assumiu proporções traumáticas durante a fase edípica,
quando a entrega fálica destruiu a capacidade de competição masculina com o
pai, pela estabilização identificadora. O caminho para esse resultado já havia
sido pavimentado pelo seu ciúme feroz e admiração para com o irmão mais
velho. A posição homossexual passiva em relação ao pai foi reprimida mais
profundamente do que qualquer outro conflito, e uma fixação no seu apego
libidinal resultou numa identidade masculina imperfeita. A força dinâmica atrás
da padronização das pulsões e do ego, do final da adolescência, derivava de
seu trauma, e resultou em esforços inexoráveis e intermináveis de dominar a
propensão à entrega passiva ou, simplesmente, a chegar a um acordo com o
pai edípico.

Alguns comentários de natureza mais geral podem ser acrescentados aqui.


Uma característica notável do fim da adolescência não é tanto a sua resolução
de conflitos instintuais, como a falta de conclusão dessa resolução. Addato
(1958), num estudo clínico, sugeriu que, nos pacientes em final de
adolescência, a decisão de terminar o tratamento analítico coincide com a
resolução do conflito edípico e o encontro de novos objetos amorosos. Esse
ponto crucial introduz um período de homeostase, uma fase de integração do
ego, que é normal para esse período de desenvolvimento. Segue-se desse
material que uma função restauradora do ego é típica para o final da
adolescência, que se assemelha um pouco à sua função durante o período de
latência. Preferimos ressaltar o fato de que a estruturação de fixações não
resolvidas das pulsões e do ego numa totalidade organizada serve para o
melhor aproveitamento possível de uma situação má, por assim dizer, embora
isso constitua

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uma apresentação um pouco invertida do problema. O que foi uma dificuldade


e um obstáculo para o crescimento acaba sendo precisamente aquilo que dá
ao ato de crescimento o seu aspecto especial. No caso de John, a facilidade
com que ele foi capaz de identificar-se com as crianças deu-lhe a oportunidade
de reestruturar e reparar suas próprias fixações no ego infantil, que se
manifestara na sua humilhante perturbação do aprendizado. Assim, seu papel
de educador foi dotado de zelo e de criatividade imaginativa, que por sua vez
conquistou-lhe o reconhecimento tanto social quanto profissional. Essa
situação adquirida, portanto, ampliou o conflito central; ou, mais exatamente, a
situação ampliou a esfera do ego livre de conflito e com isso instigou uma
diferenciação progressiva de processos mentais adaptativos. Lembramos aqui
um comentário de Anna Freud (1952): Sabemos pela experiência que os
interesses do ego que têm origem e tendências narcisistas, exibicionistas,
agressivas, etc. podem persistir durante toda a vida como sublimações
valiosas, a despeito da sorte dos instintos parciais originais que lhes deram
origem.
A luta por toda a vida com os remanescentes não resolvidos dos conflitos
infantis e adolescentes foi estudada nas vidas de personalidades criativas. O
interesse focal nessas investigações biográficas ou patográficas concentrou-se
geralmente na vida instintual infantil, e uma atenção apenas circunstancial foi
dada — quando o foi — à contribuição da adolescência para a estruturação de
conflitos em relação às pulsões tanto progressivas como regressivas dos
componentes do ego. Um exceção é o estudo que Erikson (1958) fez do
Martinho Lutero. Outros estudos psicanalíticos de personalidades criativas
ressaltam o esforço persistente para controlar a angústia conflitual e para
integrar a fixação e o trauma infantis na organização madura do ego.

A persistência com que os remanescentes conflituais adolescentes estendem


sua influência até a condição adulta é descrita numa carta escrita por Freud a
Romain Rolland. Essa carta contém uma autoanálise de uma perturbação de
memória na Acrópole. As oscilações de humor que acompanharam a
realização de um dos desejos fervorosos da adolescência de Freud, ou seja,
estar um dia na Acrópole, foram provocadas pelo sentimento triunfante, mas
egodistônico e depressivo, que Freud (1936) resumiu nestas palavras: Um
sentimento de culpa deve ter-se ligado à satisfação de ter chegado tão longe:
havia naquilo alguma coisa errada, que era proibida desde os primeiros
tempos. Era alguma coisa relacionada com a crítica que uma criança faz ao
pai, com a subvalorização que tomou o lugar da supervalorização da primeira
infância. Ë como se a essência do sucesso fosse ir além do ponto onde
chegara o próprio pai, como se superar o pai fosse alguma coisa proibida.

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Poder-se-ia levantar a objeção de que experiências como essa pertencem


apenas a personalidades excepcionais, a homens de talento extraordinário.
Mas como explicar o interesse receptivo experimentado pela maioria das
pessoas para com as criações do artista? Não é essa paixão comum uma
prova suficiente da existência de auto interesses vitais envolvidos e que
existem realmente desejos e conflitos correspondentes ou equivalentes na
maioria dos adultos, aos quais o artista dá expressão em termos de essências
universais? O papel do artista criativo, em todas as suas várias formas, tanto
nos tempos modernos como em todas as eras, atesta os resíduos das
necessidades infantis inconscientes que não se podem expressar na vida
adulta senão pelas regressões comunais institucionalizadas, a serviço do ego
(Kris, 1950).

Essas formulações são vagas; passaremos agora a outros dados para ajudar a
esclarecê-las. No final da adolescência surgem preferências recreativas,
profissionais, religiosas e temáticas, cuja busca é igual, na economia psíquica,
à busca de trabalho e amor. Em lugar do conceito de Kris de regressão a
serviço do ego, esses devaneios dos homens sem musas podem ser
atribuídos, mais corretamente, a uma modalidade de experiência derivada do
jogo da criança. Winnicott (1953), em seu estudo do objeto transicional na
infância, descreve o antecedente genético de uma atividade mental na vida
adulta, o qual anteriormente não havia sido compreendido satisfatoriamente.
Ele fala de uma área mental intermediária de experiência na qual se combinam
a realidade interior e exterior, numa área que não é questionada — um lugar de
repouso para o indivíduo empenhado na perpétua tarefa humana de manter
separadas, e não obstante inter-relacionadas, as realidades interior e exterior
Supomos aqui que a tarefa da aceitação da realidade jamais é completada
[grifos nossos], que nenhum ser humano está livre da tensão de relacionar a
realidade interior e a realidade exterior e que o alívio dessa tensão é
proporcionado por uma área intermediária de experiência que não é
questionada (artes, religião, etc.). Essa área intermediária está em
continuidade direta com a área de jogos da criança pequena que se perde no
jogo.
A resolução do processo adolescente na fase final da adolescência está
impregnada de complicações que podem sobrecarregar facilmente a
capacidade integrativa do indivíduo e que podem levar a manobras de
adiamento (adolescência prolongada) ou a fracassos totais (falência da
adolescência), ou a adaptações neuróticas (adolescência incompleta). O
resultado não pode ser previsto enquanto o final da adolescência não encontra
alguma solução. A fase final da adolescência é a época em que os fracassos
na adaptação tomam forma final, quando ocorre o colapso. Erikson (1956)
refere-se ao período de consolidação do final da

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adolescência como o período de crise de identidade. EIe conceituou o colapso


da adolescência em termos da incapacidade de desempenhar a tarefa de
maturação dessa fase, o estabelecimento da identidade do ego.

Sempre que a deformação inicial do ego, com diferenciação incompleta entre o


ego e a realidade, sublinha o fracasso da adolescência (síntese imperfeita do
ego), o colapso surge como uma doença psicótica, ou um caso Limítrofe. No
tratamento desses casos é necessário remontar às fases pré-genitais: à
dependência oral e à agressão oral, e às vicissitudes da confiança básica
(Erikson, 1950). Clinicamente, reconhecemos a imperfeição da função sintética
do ego e a agressão pré-ambivalente dirigida para as representações do objeto
e do eu, na persistente deficiência da constância objetal, com os consequentes
distúrbios afetivo e cognitivo. O colapso, para usarmos a expressão de Brierly
(1951), está relacionado com objetos internalizados deformados, e se deve ao
sadismo infantil projetado. O processo de consolidação é ainda mais
complicado pela necessidade, ao término da adolescência, de atribuir catexias
agressivas e libidinais, que originalmente estavam fundidas em representações
objetais, a objetos de amor e ódio no mundo exterior. As disposições
egossintônicas produzem estabilidade de atitudes, sentimentos e preconceitos.
Em circunstâncias normais e favoráveis, elas explicam as peque antecedente
nas irritações, as pequenas reclamações, os pequenos ódios, e assim por
diante; são de grande importância para a economia psíquica.

O desenvolvimento do caráter neurótico ou formação de sintomas no final da


adolescência representa uma tentativa de auto cura depois do fracasso na
solução das fixações infantis articuladas a nível do complexo de Édipo. A vida
amorosa do final da adolescência demonstra clinicamente as várias condições
de amor que se baseiam na persistência daquele complexo. Elas foram
descritas por Freud (1910): 1) necessidade de um terceiro ofendido; 2) amor
pela prostituta; 3) uma longa sequência de objetos; 4) salvação da amada; 5)
separação entre ternura e sensualidade. A essa lista poderemos acrescentar a
exogamia neurótica, de Abraham.

Durante o final da adolescência a identidade sexual toma a sua forma final.


Entre 18 e 20 anos, observa Spiegel (1958), parece provável que se faça a
escolha sexual aberta; pelo menos, observei que vários homossexuais
masculinos começavam a ver-se como permanentemente homossexuais
naquele período. Freud (1920) fez a mesma observação, ao dizer que a
homossexualidade das meninas toma a forma final e decisiva durante os
primeiros anos que se seguem à puberdade. E acrescentou: Talvez algum dia
se descubra que esse fator é de grande importância. Na verdade, a formação
de uma identidade sexual estável e irreversível é da maior importância em
termos da organização das pulsões fase-específica do final da adolescência.

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O processo de consolidação do final da adolescência pode ser descrito em


termos de compromissos funcionais e abortivos, ou egossíntese de adaptações
positivas e negativas às condições endopsíquicas e ambientais. As
incapacidades de dominar a realidade interior e exterior podem ser situadas em
duas categorias. De um lado, essas incapacidades se devem a 1) um
mecanismo defeituoso (ego); 2) uma capacidade reduzida de aprendizado
diferencial; ou 3) uma inclinação à angústia traumática (pânico da perda do
ego). Esses casos, que compreendem condições limítrofes, esquizofrênicas e
psicóticas, podem ser chamadas de adolescência frustrada. Por outro lado, se
as incapacidades se devem a 1) perturbações intersistêmicas; 2) bloqueios do
aprendizado diferericial (todos os tipos de inibições); ou 3) o ato de evitar a
angústia conflitual (formação de sintoma), podemos falar de adolescência
incompleta ou distúrbio neurótico. Essa divisão não é apresentada como uma
tentativa de classificação, mas sim como uma delineação de duas formas
essencialmente diferentes de esforços abortivos para a superação da crise
adolescente. Elas representam os extremos ao longo de um continuum de
desvios de desenvolvimento; a observação clínica apresenta misturas e
combinações intermináveis.

A pseudomodernidade nos padrões sexuais é em grande parte responsável por


muitas complicações no desenvolvimento da feminilidade. A passagem do
padrão duplo para o único não deu à moça a liberdade expansiva que ela
esperava alcançar. Essa evolução social desconhece o fato de que a pulsão
sexual feminina está muito mais intimamente ligada aos seus interesses do ego
e atributos de personalidade do que a pulsão masculina. No menino, ao
contrário do que ocorre na menina, ao final do conflito entre o instinto e o
mecanismo de defesa, o instinto sexual surge em grande parte independente
de suas sublimações (Deutsch, 1944). A menina reage à diferenciação entre os
sexos com um ressentimento bem conhecido, que é expressão do complexo de
masculinidade. Numa tentativa de formular as qualidades essenciais da
feminilidade, Helene Deutsch (1944) observou: A sequência constituída por 1)
maior inclinação à identificação; 2) fantasia mais forte; 3) subjetividade; 4)
percepção interior, e 5) intuição, leva-nos de volta à origem comum de todos
esses traços, a passividade feminina. No esforço para assimilar as
características masculinas que têm raízes na fisiologia e anatomia masculinas,
a menina adquiriu uma superficialidade de sentimentos e primitivizou a sua
condição de mulher. Benedek (1956, b) investigou essa condição; diz ela: ... a
organização da personalidade da mulher moderna, embora integrando as
aspirações masculinas e os sistemas de valores, adquire um superego rígido.
Assim, as mulheres poderiam reagir com sentimento de culpa à regressão
biológica da maternidade. Muitas mulheres não se podem permitir a
passividade;

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elas reprimem suas necessidades de dependência... Se essas necessidades


de dependência não se tornam parte integral da passividade feminina, a
necessidade de dependência pode não se desligar nunca da mãe. Nesse caso,
a mulher pode transferir para os homens sua hostilidade defensiva relacionada
com a mãe. Essa evolução foi evidente no caso de Judy.

No final da adolescência, a predisposição para tipos específicos de relações


amorosas é consolidada. Na maioria dos casos esses tipos contêm misturas e
conciliações entre fixações edípicas positivas e negativas. Observei certa vez,
na análise de um jovem pós-adolescente, que seu amor por uma moça era
determinado pela identificação com a mãe, que foi rejeitada pelo pai, tal como o
jovem. Ao implorar a aceitação e o amor dessa moça indiferente, sexualmente
fria e egoísta, o paciente era levado pelo incessante desejo edípico do amor de
seu pai distante e exigente. A relação amorosa — na verdade, o casamento —
teve o mesmo fim desastroso do conflito edípico, devido à sua designação
negativa forte e designação positiva extremamente fraca: os anseios
homossexuais dominaram a relação. Outra forma de consolidação foi
observada no caso de uma menina pós-adolescente que impregnou sua
primeira relação heterossexual com profundos anseios da mãe protetora pré-
edípica, e da felicidade da união com ela. Essa menina disse: Eu quero que
Don sinta exatamente como eu, sempre; e esteja comigo sempre que eu
precisar dele. Sem isso, sinto-me desorientada e perdida, totalmente perdida.
Não, não quero dominá-lo impondo-lhe meus sentimentos, não. O que eu
quero é apenas encolher-me no seu ventre. Sobre esse caso podemos dizer
que a consolidação do final da adolescência ocorreu prematuramente devido à
fixação na fase pré-adolescente. Outra moça descreveu a passagem da
rivalidade competitiva com os meninos para o que ela chamou de igualdade
feminina. Quando eu gostava de um rapaz, disse ela, eu competia sempre com
ele, não com qualquer outra moça, veja bem. Eu queria a igualdade masculina,
como se fôssemos dois rapazes se amando. Antes de um encontro eu afiava
as unhas e os dentes. Em meu amor por Bruce, as coisas são diferentes: não
me sinto igual a ele, não concorro com ele. Admiro-o. Nunca pensei antes em
querer igualdade feminina: essa ideia é totalmente nova para mim. Ao pensar
em casamento, eu tinha sempre duas alternativas: casar com um jovem e
competir com ele, ou casar com um homem mais velho, com o qual não
haveria competição porque eu esperaria que ele me tratasse como •um pai.
Nos três casos parece haver uma consolidação de uma conciliação, sem a
conclusão de uma passagem satisfatória pelas fases adolescentes. Condições
como essas geralmente prenunciam um desvio de desenvolvimento; elas
influenciam a escolha objetal na vida adulta e, dentro de certos limites, podem
estabilizar-se reciprocamente no casamento.

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A incapacidade de resolver a processo adolescente que provém de uma fonte


diferente deve ser mencionada agora: a sexualização das funções do ego.
Nesses casos, tratamos com uma integração, aparentemente bem-sucedida,
das opções profissionais e dos interesses do ego que são secundariamente
invadidos pelos instintos componentes — por exemplo, escotofilia e
exibicionismo. Se a sua sublimação não for mantida, eles sobrecarregarão o
ego com a excitação sexual e as fantasias que tornarão a atividade do ego
altamente instável, e que, em última análise, levarão à inibição. Essa condição
foi estudada especialmente com referência à instabilidade das opções
profissionais entre os adolescentes no final da adolescência e também em
relação às inibições e sintomas de artistas. A sexualização das funções do ego
enfraquece a objetividade, a prova da realidade e a autocrítica; parte da
atividade baseada na fantasia inconsciente correlata torna-se egodistônica.
Uma fantasia egossintônica contribuirá para o padrão da organização do ego e
sofrerá outras modificações provocadas pelo desenvolvimento juntamente com
o ego, ao passo que uma fantasia egodistônica pode formar o núcleo de um
sistema dissociado e portanto potencialmente patogênico (Brierley, 1951). O
caso de Tom (p. 123) demonstrou que a sexualização de seu interesse pela
história prejudicou a manobra defensiva (intelectualização) e despertou
repetidamente sentimento de culpa e vergonha. A sexualização das funções do
ego as torna rebeldes, pouco dignas de confiança e instáveis; tornam-se inúteis
na manutenção da harmonia interior e na padronização de hábitos de trabalho.
Essas funções sexualizadas do ego são más executoras dos interesses do ego
e se comportam — para usarmos a analogia de Freud — como a cozinheira
que tem um caso com o patrão e se recusa a fazer seu trabalho na cozinha
(Freud, 1926).

A consolidação da personalidade no final da adolescência traz maior


estabilidade e uniformidade à vida emocional e de ação do jovem adulto. Há
uma solidificação de caráter — isto é, uma certa constância predomina nas
maneiras escolhidas pelo ego para realizar suas tarefas (Fenjchel, 1945, b). A
maior estabilidade de pensamento e ação é alcançada ao preço da
sensibilidade introspectiva tão característica do adolescente; o florescimento da
imaginação criativa desaparece durante a última fase da adolescência. A
imaginação e as iniciativas aventurosas e artísticas declinam até desaparecer
totalmente. O verdadeiro artista é uma exceção, evidentemente, mas seu
desenvolvimento não nos interessa aqui. A maior capacidade de pensamento
abstrato, de criação de modelos e sistemas, a melhor fusão do pensamento
com a ação, dão à personalidade, no final da adolescência, uma qualidade
mais consistente e unificada. A aplicação da inteligência permite ao homem pôr
ordem no mundo que o cerca. Não se deve concluir, porém, que a objetividade
adulta seja superior, sob todos os aspectos, ao pensamento da criança.
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Na verdade, a criança, permitindo contradições nas operações mentais, pode


fazer observações e tirar conclusões que são escotomizadas pelo adulto lógico.
Sabemos que o primeiro passo para o domínio intelectual do mundo no qual
vivemos é a descoberta de princípios gerais, regras e leis que dão ordem ao
caos. Com essas operações mentais simplificamos o mundo dos fenômenos,
mas não podemos deixar de com isso falsificá-los... (Freud, 1937). O processo
de consolidação de final da adolescência é um processo de estreitamento, uma
delimitação e canalização. Isso foi muito bem expresso na autobiografia do
poeta inglês Richard Church (1956), que diz a seu próprio respeito, aos 17
anos: De repente, eu estava armado a poesia seria minha arma.

Ressaltei que ao final da adolescência não se havia realizado nenhuma


resolução geral dos conflitos infantis. Os resíduos de fixações e repressões
voltaram a viver sob forma de derivativos; eles desafiam o ego e forçam-no a
um trabalho incessante para dominar essas influências perturbadoras. Tais
esforços dão sentido, forma e cor à vida adulta, na medida em que ela se
desdobra. O processo de consolidação não é nunca um processo de simples
alternativas; portanto, não podemos falar de soluções de tensões
desiquilibradoras, mas sim de sua organização em termos de padrões ou
sistemas. As interferências com a sua estabilidade provêm, para sermos
simples, antes do muito pouco ou demais — isto é, dos aspectos quantitativos
— do que do isto ou aquilo — ou seja, dos aspectos qualitativos. Freud (1938)
expressou essa opinião com referência às transformações da puberdade, ao
dizer: A situação é com- plicada pelo fato de que os processos necessários a
um resultado normal não estão, em sua maior parte, completamente presentes
ou completa- mente ausentes; em geral estão parcialmente presentes, de
modo que o resultado final continua dependente de relações quantitativas.
Assim, a organização genital será alcançada, mas será enfraquecida com
relação às partes da libido que não tiveram o mesmo avanço, mas
permaneceram fixas em objetos e alvos pré-genitais. Ao término do final da
adolescência formaram-se padrões epitomizando as tensões desequilibradas
essenciais, que têm de tornar-se parte integral da organização do ego. Essa
ideia foi discutida por Freud em carta a Ferenczi: O homem não de- veria lutar
para eliminar seus complexos, mas para pôr-se de acordo com eles: eles são,
legitimamente, aquilo que dirige sua conduta no mundo (Jones, 1955).

O processo de delimitação do final da adolescência é realizado por meio da


função sintética do ego. Ë uma aceitação final e uma solução das três antíteses
da vida mental, ou seja, sujeito-objeto, ativo-passivo e prazer-dor. Uma posição
estável com referência a essa modalidade antitéticas manifesta-se
subjetivamente como um senso de identidade. A identidade do ego, de Erikson
(1956), como a realização fase-específica

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do final da adolescência, descreve uma experiência subjetiva de vários estados


do ego, de flutuações da libido provocadas por crises conflituais e de
maturação; em suma, é o resultado de processos psicológicos heterogêneos
que se combinam acumulativamente num estado do ego que é melhor descrito
como um senso de identidade, identidade do ego, ou senso do eu. A
representação do eu ao final da adolescência é uma formação qualitativamente
nova e reflete como um todo organizado as várias transformações específicas
da fase do final da adolescência (ver Capítulo 5, seção 8, O Ego e o Eu).

Depois de estabelecida uma rigidez relativa entre as três antíteses básicas,


ainda assim haverá uma variedade de combinação e ênfase nelas,
dependendo dos vários papéis assumidos pelo indivíduo, na vida. A fixidez dos
papéis, bem como a satisfação de necessidades específicas que esses papéis
proporcionam dentro de um vetor circunscrito de interação entre indivíduo e
ambiente, é uma realização essencial dos processos mentais adaptativos. Nos
papéis de mãe e de esposa, de assalariado e de irmão maçônico, para não
falarmos do lugar de descanso não questionado da área intermediária de
Winnicott (1953) — em todos esses papéis o indivíduo persegue objetivos
diferentes, que nem sempre estão em harmonia uns com os outros, não
obstante são relacionados e unificados por uma pulsão para a auto-realização.

Muitos níveis de auto-realização existem pacificamente lado a lado. Em


Orlando, seu épico sobre o tornar-se mulher, Virginia Woolf (1928) ocupou-se
dos vários papéis que o eu em amadurecimento aprende:

Orlando? mas ainda assim o Orlando de que ela precisava podia não vir; esses
eus de que somos formados, uns sobre os outros, são pratos empilhados na
mão de um garçom, têm apegos outros, simpatias, pequenas constituições e
direitos próprios, quaisquer que sejam os nomes que lhes dermos (e para
muitas dessas coisas não há nomes), de modo que um deles só vem se estiver
chovendo, outro numa sala com cortinas verdes, outro quando a sra. Jones não
está, outro ainda se lhe pudermos prometer um copo de vinho — e assim por
diante. Todos podem multiplicar, a partir de sua própria experiência, os termos
difíceis que foram estabelecidos pelos seus diferentes eus — e alguns são
demasiadamente ridículos para serem mencionados por escrito.

7. Pós-Adolescência

A transição da adolescência para a condição adulta é marcada por uma fase


intermediária, a pós-adolescência, que pode ser reivindicada

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com justiça tanto por uma como por outra dessas fases e, na verdade, pode ser
vista do ângulo de cada uma delas. No entanto, há razões para que pós-
adolescência seja examinada aqui como uma continuação do pro- cesso
adolescente, ou melhor, como seu reflexo decrescente. Essas razões ficarão
claras quando mostrarmos as etapas essenciais na formação da personalidade
pós-adolescente que representa a precondição para a realização da
maturidade psicológica. O indivíduo descrito aqui como pós- adolescente é
mencionado, em geral e corretamente, como o jovem adulto.

Mesmo depois de os conflitos da bissexualidade (início da adolescência) e da


separação dos laços objetais antigos (adolescência propriamente dita) terem
encontrado soluções estáveis, e depois de as tarefas seletivas de vida terem
adquirido forma, definição e articulação por meio da consolidação dos papéis
sociais e das identificações irreversíveis (final da adolescência), mesmo depois
de atravessadas com êxito essas fases de desenvolvimento, ainda falta
harmonia à realização total. Em termos de desenvolvimento do ego e
organização das pulsões, a estrutura psíquica adquiriu, ao final da
adolescência, uma fixidez que permite ao pós-adolescente voltar-se para o
problema da harmonização das partes componentes da personalidade. Essa
integração se faz gradualmente. Ela geralmente ocorre ou em preparação a, ou
coincidindo com a escolha profissional — desde que as circunstâncias
permitam ao indivíduo uma escolha. A integração caminha lado a lado com a
atividade do papel social, com o namoro, casamento e paternidade. O
aparecimento do papel manifesto do jovem adulto — ter um emprego, preparar-
se para uma carreira, ser casado ou ter filhos — faz perder de vista, facilmente,
o fato de não ter sido completada a formação da personalidade.

Pela experiência clínica com jovens adultos inclino-me a dizer que uma de suas
maiores preocupações é a elaboração de salvaguardas que protejam
automaticamente o equilíbrio narcísico. Essa realização só se torna segura, é
claro, se as necessidades instintuais e os interesses do ego, com sua natureza
frequentemente contraditória e suas estratificações instáveis, tiverem chegado
a um equilíbrio harmonioso dentro de si mesmos. Isso acontece se o ego
consegue êxito em sua função sintética. Os processos integrativos dominam as
fases finais da adolescência, e. a adolescência final é caracterizada pela
consolidação desses componentes constituintes essenciais da vida mental, que
precisa ser integrada num todo funcional. O processo poderia, na realidade, ser
chamado de realização do desenvolvimento na organização da personalidade,
que é específico da pós-adolescência.

Devemos ter presente que, ao final da adolescência, a organização das


pulsões normalmente chegou a um estado de permanência e fixidez; esse fato,
porém, não nos deve levar a supor que o desenvolvimento do ego o
acompanhou, pois ocorre o inverso. O que chamamos, de forma

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geral e imprecisa, de adolescência, limita-se predominantemente ao período de


reorganização instintual. Os processos ego-integrativos não deixam de
continuar ativos depois de passada a tempestade adolescente. De fato, sofrem.
suas modificações mais essenciais e duradouras nessa época. Greenacre (1
958) deu expressão a uma opinião semelhante, ao dizer que nenhum senso de
identidade funcional adulta pode ser completado senão depois de passada e
assimilada a adolescência. A experiência nos mostra que, em geral, o
desenvolvimento da personalidade de modo algum sofre uma paralisação com
o fim da adolescência. Benedek (1959, b) disse, por exemplo, que o
desenvolvimento psicossexual da mulher normalmente só se completa pela
maternidade. A parentalidade foi descrita por ela como uma fase de
desenvolvimento. A maternidade, como observou Benedek, facilita a resolução
de conflitos residuais instintuais, narcísicos e de superego implícitos no
funcionamento biológico feminino — em suma, ela facilita a resolução dos
conflitos que a adolescência não pôde solucionar definitivamente. Ë evidente
que a organização psíquica é suscetível de alterações depois do período
adolescente. Mas estendendo o interesse pelo processo adolescente
indefinidamente até a condição adulta, privamos de significado a adolescência
como fase de desenvolvimento. Prefiro, portanto, estabelecer uma linha de
demarcação entre a adolescência e a condição adulta, e direi que a primeira
realizou sua tarefa, e portanto está concluída, quando a organização da
personalidade pode permitir à parentalidade a sua contribuição específica para
o crescimento da personalidade.

Os psicólogos do desenvolvimento e os psicanalistas, como por exemplo


Pichon (Wolf, ¡ 945), observaram que o desenvolvimento emocional não
termina na puberdade. Pelo contrário, a verdadeira realização do
desenvolvimento ocorre depois da puberdade. A experiência mostra que depois
da luta cataclísmica da adolescência propriamente dita, ocorre um período de
processos integrativos, quando as soluções permanentes dos conflitos intra-
sistêmicos são provocadas, e são solucionadas as desarmonias do ego. Esses
processos não ocorrem independentemente: a organização das pulsões
predominante lança reflexos sobre o ego, com implicações de longo alcance.
Por exemplo, a polaridade masculino-feminino, que se aguça durante a
adolescência propriamente dita e que é subsequentemente estabilizada pela
formação da identidade sexual, exerce uma influência duradoura sobre o ego,
evidente na elaboração de interesses e atitudes do ego, em consonância com a
identidade sexual. Na pós-adolescência, o processo de harmonização das
organizações das pulsões e do ego como um todo, bem como as partes
componentes de cada uma delas, alcança sua maior intensidade.

Ao término da adolescência, como já dissemos, os conflitos não estão—


absolutamente resolvidos, mas tornaram-se específicos, e alguns

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deles se integram na esfera do ego como tarefas por toda a vida. Isso foi
descrito como a realização da adolescência final. E continua sendo tarefa da
pós-adolescência a criação de caminhos específicos pelos quais essas tarefas
são implementadas no mundo exterior. A satisfação de necessi- dades
instintuais díspares e de interesses do ego é característica desse período,
durante o qual o adolescente articula seus anseios heterogêneos na forma de
buscas de componentes. Muitas Iinhas de interesse são segui- das
simultaneamente e com igual premência. Esse estado de coisas repre- senta
uma condição típica — a experimentação da pós-adolescência.

Na esfera da pulsão sexual, a experimentação é evidente nas relações com


objetos de amor potenciais, que representam todas as combinações possíveis
do amor degradado e idealizado, sensual e terno. Da mesma forma, a
experimentação com os interesses do ego torna a pré-adolescência um período
durante o qual o indivíduo desenvolve seu próprio modo de vida. Poderiam
ocorrer algumas justaposições relevantes, como: ganho material versus
interesses intelectuais; insegurança econômica com independência versus
emprego seguro com a imposição de regras e regulamentos. Qualquer coisa
que seja especial no modo de vida do indivíduo é sempre velada pela
universalidade lugar-comum dos padrões e papéis sociais; seu significado
idiossincrático, porém, revela-se facilmente à indagação investigadora, como
todo clínico sabe. O esforço de integração exigido para a progressão do estado
de busca componencial para o estado de unificação da direção das metas é,
com frequência, subestimado.

Podemos fazer aqui um resumo e dizer que o período que se segue ao clímax
adolescente da adolescência propriamente dita é caracterizado por processos
integrativos. No final da adolescência, esses processos levam à delimitação de
metas definíveis como tarefas por toda a vida; na pós-adolescência a
implementação dessas metas em termos de relações permanentes, papéis e
escolhas de ambiente torna-se a principal preocupação. O ego, fortalecido pelo
declínio dos conflitos instintuais, é cada vez mais absorvido, de forma
conspícua, por esses interesses,
A natureza bifásica da estabilização da personalidade, que se torna dominante
depois dos estados caóticos do início da adolescência e da adolescência
propriamente dita terminaram, não precisa ser documentada aqui. A
observação cuidadosa a comprovará facilmente. Ë interessante, quanto a isso,
lembrar o romance de Goethe sobre o desenvolvimento, Wilhelm Meister,
apresentado em duas partes: a primeira intitulada Anos de aprendizagem
(Lehrjahre), e a segunda, Anos de viagens (Wanderjahre). Essa divisão é
tomada do esquema tradicional, pré-industrial, para alguém se tornar artesão e
membro de uma corporação. Ela reflete uma progressão bifásica semelhante à
que foi feita acima. Na primeira parte do romance de Goethe, Wilhelm leva uma
vida aparentemente

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dissipada e de uma gratuidade alarmante. Começa como aprendiz no negócio


da família, mas essa carreira comercial é logo interrompida por um amor
apaixonado pelo teatro e a idealização da vida de ator. Segue-se a isso uma
decepção moderadora da qual é salvo pela influência de um homem mais
velho, de erudição e capacidade intelectual. Todos esses

acontecimentos estão interligados com seu amor romântico por uma

moça ainda muito jovem e uma série de casos amorosos apaixonados,

tanto sexuais como platônicos. A segunda parte do romance, num agudo

contraste, é dominada pelas idéias de autolimitação e de trabalho.

o tema da renúncia deixa implícita a dedicação a uma meta limitada.

Wilhelm torna-se médico. Deixa de ser atraído pelas muitas tentações da

vida e reduz as suas muitas inclinações às que são importantes para a

sua nova existência. De uma pessoa movida por impulsos, um idealista,

transformou-se em um cidadão do mundo. Tornou-se cônscio de suas


obrigações sociais e de um senso de dingidade resultante do fato de ser

útil ao próximo.

Metaforicamente, a segunda fase de Wilhelm descreve a atividade do ego na


pós-adolescência, que prepara o jovem adulto para o passo final da instalação
definitiva na vida. Esse passo é dado na época em que as várias tarefas
existenciais — em termos das necessidades instintuais e dos interesses do ego
— chegaram a uma organização satisfatória e relativamente harmoniosa que
pode ser mantida dentro de certos limites por uma interação padronizada com
o ambiente e o eu.

Surge durante o período pré-adolescente a personalidade moral com sua


ênfase na dignidade pessoal e na auto-estima, e não na dependência do
superego e na satisfação instintual. O ideal do ego assumiu, de muitas formas,
a função reguladora do superego e tornou-se herdeiro dos pais idealizados da
infância. A confiança outrora depositada neles volta-se agora para o eu, e
sacrifícios de todos os tipos são feitos para manter o senso de dignidade e de
auto-estima. O teor moral da pós-adolescência é bem expresso no romance de
Joseph Conrad (1900), Lord Jim:

Eram solenes, e um pouco ridículas também, como o são sempre, as lutas de


um indivíduo tentando salvar do fogo a sua idéia do que seria a sua identidade
moral, essa preciosa noção de uma convenção, apenas uma das várias regras
do jogo, nada mais, mas ainda assim tão terrivelmente eficaz, pelos poderes
ilimitados que assume sobre os instintos naturais, pelos terríveis castigos
impostos às falhas.

Depois de concluída a puberdade, depois de atingida a maturidade física, resta


ainda uma tarefa psicológica cuja realização leva, com freqüência, um bom
número de anos. Erikson (1956) descreveu esse período (pós-adolescência) ao
analisar Bernard Shaw que concedeu a si mesmo.

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um prolongamento do intervalo entre juventude e idade adulta. A esse intervalo


Erikson chama de moratória psicológica. Shaw, durante esses anos de
intervalo, transformou-se num escritor. Com uma disciplina rigorosa, aprimorou-
se numa atividade através da qual melhor poderia entrar em acordo com os
traumas residuais, com resíduos conflituais, dando forma assim às suas tarefas
de vida. Depois de organizadas estas, Shaw passou a articulá-las com o
ambiente. Como ele mesmo disse: Se não nos podemos livrar do esqueleto da
família, é melhor fazê-lo dançar. A moratória psicossocial de Erikson é definida
por ele como um período durante o qual o indivíduo, pela livre experimentação
da papéis, pode encontrar um lugar em algum setor de sua sociedade, um
lugar firme- mente definido e que apesar disso parece excepcionalmente
destinado a ele. Ao encontrá-lo, o jovem adulto adquire um sentimento seguro
de continuidade interior e igualdade social que unirão o que ele era quando
criança e o que está na iminência de ser, e conciliarão sua concepção de si
mesmo e a ideia que a comunidade jaz dele.

Num estudo do período pós-adolescente no homem, Braatöy (1934) ressaltou


que é um período de alta mortalidade psíquica, em que a doença mental
frequentemente se torna manifesta. Ele concluiu que essa fase, a que chamou
de interregno, isto é, entre a puberdade e a condição adulta, faz exigências
integrativas ao ego que sobrecarregam seus recursos para muitos adultos
jovens, e o resultado é a incapacidade de realizar a organização da
personalidade pós-adolescente.

Como sempre acontece na progressão das fases de desenvolvimento, um


fracasso em qualquer uma delas resulta seja de um desenvolvimento preliminar
insuficientemente completado ou de um obstáculo insuperável que não permite
a realização da tarefa fase-específica. Tendo isso presente, podemos dizer que
o fracasso em completar o processo adolescente ocorrerá sempre que a
organização de um eu estável não for alcançada, ou sempre que o ego não
tomar qualquer conflito egossintônico. Ambas essas constelações levam a uma
conclusão anormal da tarefa pós-adolescente. O fracasso pode impossibilitar a
integração de anseios diversos e contraditórios, numa tentativa de manter por
assim dizer as portas permanentemente abertas a muitas vidas possíveis. Esse
impasse no desenvolvimento será examinado na síndrome da adolescência
prolongada. O que dissemos aqui deve ser suplementado com a afirmação de
que a realização parcial da tarefa em cada fase e a consequente formação de
compromisso são antes a regra do que a exceção.

Uma dificuldade típica encontrada na passagem da pós-adolescência é o que


chamarei de fantasia do salvamento. Em lugar de viver para dominar as tarefas
de vida, o adolescente espera que as circunstâncias venham a dominar a
tarefa de viver. Em outras palavras, ele espera que a solução do conflito seja
minorada, ou totalmente contornada, por

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um ambiente benévolo. Nesse caso, parece que a dependência original do


ambiente, ou seja, a mãe como a eliminadora de tensões e a reguladora da
autoestima, não foi nunca abandonada, A supervalorização dos pais foi
transferida para o ambiente que, de acordo com a fantasia, pode proporcionar
facilidades e fortuna ao escolhido, se assim desejar.

Evidentemente, a fantasia da salvação está intimamente relacionada com o


romance familiar e os devaneios típicos da adolescência, que na pós-
adolescência frequentemente adquirem uma grande premência, persistência e
elaboração de conteúdo. Se esses devaneios forem cuidadosamente
examinados, veremos que servem para a realização de desejos e como
correções da vida real. Eles têm dois objetivos principais, um erótico e outro
ambicioso — embora também esteja geralmente disfarçado por trás do
segundo (Freud, 1909, b). Essas fantasias são pensamentos reservados, mais
ou menos dissociados, que dão origem, frequentemente, perturbações
neuróticas. As fantasias histéricas têm, segundo Freud (1908), uma fonte
comum e um protótipo normal encontrado existência já na adolescência
propriamente dita, mas seu abandono nos chamados devaneios da juventude
claro que as fantasias dono pode tornar-se um trabalho importante da pós-
adolescência.

A formulação da fantasia adolescente de salvamento não deve ser confundida


com aquela relacionada com várias condições de amor descritas por Freud
(1910) e expressa pelo impulso de salvar a pessoa amada. A diferença está no
fato de que essa segunda fantasia é marcada pelo desejo de salvar alguém, ao
passo que a fantasia adolescente que descrevemos ocupa-se do desejo, ou
melhor, da expectativa de ser salvo por uma pessoa, pelas circunstâncias, pelo
privilégio, pela sorte. As formas da fantasia adolescente de salvamento são
muito numerosas, é claro. Aquilo que é facilmente expresso representa apenas
o aspecto regulável da fantasia; a sua maior parte permanece submersa. O que
ouvimos são versões simplificadas de um complexo processo de pensamento,
e que pode tomar as formas seguintes: Se eu tivesse um emprego diferente;
Se eu fosse casado; Se eu pudesse viver na Europa, no Ocidente, no Oriente,
no campo, na cidade; Se eu tivesse um nome diferente; Se eu fosse um pouco
mais alto, ou mais baixo, e assim por diante. O que todos esses desejos têm
em comum é uma qualidade global, uma redução dos intrincados problemas a
uma condição única, da qual tudo pode depender.

Os precursores dessa poderosa fantasia podem ser observados durante a fase


final da adolescência. Se persistirem, tornarão mais curta a pós-adolescência
pelas soluções prematuras que permitirão à fantasia de salvamento uma
sobrevivência permanente. Mesmo que essa falha no desenvolvimento não
leve a enfermidade emocional manifesta, será responsável por muitas
restrições e inibições do ego. O fato de que

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o quadro clínico desses casos mostra um alto grau de similaridade não significa
que a fantasia de salvamento apresente um conteúdo homogêneo. Em termos
das formulações anteriores, essa fantasia pode ser considerada como o
fracasso em fazer dos traumas residuais específicos uma parte integrante da
organização do ego. O fracasso não está na falta de uma tarefa instigante de
vida, mas na expectativa de que sua realização seja proporcionada pela
influência benéfica das circunstâncias. A internalização do trauma foi anulada,
e espera-se que esteja dominado, como se fosse uma reparação vinda do
mundo exterior. A sorte específica dessa constelação depende de sua fusão
com os componentes da pulsão; por exemplo, as necessidades masoquistas
produzirão o conhecido colecionador de danos (Bergler), que busca uma
satisfação a que tem direito, mas lhe é negada por um mundo hostil. O impasse
insuperável da pós-adolescência, descrito aqui como a fantasia de salvamento,
é extraído de material clínico semelhante àquele que Erikson (1956) descreveu
em termos de difusão de identidade e identidade negativa do ego. A fantasia de
salvamento é uma formulação útil porque promete lançar luz sobre o processo
integrativo da pós-adolescência. A partir da análise de adultos jovens, tenho a
impressão de que o desligamento dos pais, da primeira infância, ou melhor,
das representações objetais dos pais, só se completa depois de passada a
pós-adolescência. Oi seja, o afrouxamento dos laços objetais infantis é a tarefa
da adolescência propriamente dita, mas o acordo com os interesses e atitudes
do ego parental realiza-se de maneira mais efetiva e mais deliberada durante a
pós-adolescência. Só então toma forma uma solução duradoura dessas
preocupações. A competição com o pai, que o menino experimentou na
ressurreição do complexo de tipo durante a adolescência propriamente dita,
passa geralmente a um esquecimento relativo. Nos anos que se seguem, o
pós-adolescente passa por uma revisão de suas identificações rejeitada,
provisória e aceita. O caráter do ego, diz Freud (1923, a), é um precipitado de
catexias objetais abandonadas. Mas não devemos esquecer que há graus
variados de capacidade de resistência, como se evidencia pelas proporções
em que o caráter de qualquer pessoa aceita ou resiste à influência das
escolhas objetais eróticas pelas quais viveu. O passo final desse processo, ou
seja, a aceitação e a resistência às identificações, só é dado na pós-
adolescência.

Observamos com frequência que os jovens adultos, depois de terem


encontrado um objeto amoroso com o qual é possível se relacionar com um
mínimo de ambivalência, passam a orientar-se seletivamente — isto é, positiva
ou negativamente, por identificação ou contra identificação, mas de qualquer
modo de maneira definitiva — para as imagens dos pais. A libido objetal
dessexualizada investida nessas identificações pode agora ser transformada
na libido do ego ou libido narcísica, sem

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conflito; pode ser controlada em sublimações estáveis. Nessa época, por


exemplo, uma jovem que sempre se opusera a qualquer tarefa doméstica bem
ordenada, resistindo à identificação com a boa mãe, poderia dizer, para grande
surpresa sua: Sou realmente uma boa dona de casa, aprendi com minha mãe e
me orgulho disso. E frequente verem-se atitudes, traços e tendências dos egos
parentais tornarem-se — em variações seletivas, é certo — atributos de
personalidade duradouros de seus filhos adultos. Com frequência, nesses
períodos o ego traz à vida escolhas objetais abandonadas a nível de atitudes
do ego em combinações e inventividade fantásticas e numa inversão
surpreendente de padrões anteriores. Ou seja, a identificação e contra
identificação com o objeto procedeu-se em relação aos aspectos objetais ou
qualidades objetais, e não em relação a totalidades objeto-sujeito. Uma
observação de Grinker (1957), ao descrever etapas anteriores de identificação,
é relevante no presente contexto: A personalidade aberta ou caráter do objeto
é vista pelo sujeito como uma montagem de qualidades, com partes
necessárias, úteis, ou perigosas, e a identificação com elas pode resultar em
contraindicação, ou ser por ela evitada.

Um aspecto especial da pós-adolescência que merece atenção é o esforço


incessante de chegar a um acordo com os interesses e atitudes dos egos
parentais. Esse esforço constitui um passo decisivo na formação de caráter,
depois da crescente estabilização do instinto sexual pela sua separação dos
objetos infantis de amor e ódio. Durante a primeira adolescência o ego está
predominantemente empenhado em dominar a angústia conflitual. Em
contraste, durante o período seguinte, a função adaptativa e integrativa do ego
ganha ascendência.

James Joyce (1916), cujo romance Retrato do Artista quando Jovem foi citado
acima, em relação à adolescência propriamente dita, pode servir novamente de
ilustração. Esse romance começa e termina com o mesmo tema: o pai. A frase
inicial é dita pelo pai, que está contando uma história ao menino. A última frase
do livro é uma invocação da figura do pai: Velho pai, velho artífice, ampara-me
agora e sempre. Nada se pode fazer sem ter chegado a um acordo com o pai,
ou antes, com sua imagem ou representação objetal. A realização dessa tarefa
ocupou toda a vida de Joyce. Ao invocar as bênçãos do velho artífice, ele tinha
22 anos e já conhecia sua futura esposa, e sabia-se destinado a ser escritor.
Só pôde realizar esse objetivo exilando-se voluntariamente, revivendo e
recriando, de longe, sua família. Joyce não deixou nunca de escrever sobre um
assunto: a sua cidade e sua gente. E por fim conseguiu fazer de Dublin uma
cidade eterna da literatura. Ou, em outras palavras, um trauma residual
egossintônico nunca deixou de exercer sua influência positiva sobre o ego, o
que tomou, no caso do gênio, a forma de criação.

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Do trabalho terapêutico com adolescentes maiores, aprende-se que a luta para
integrar os interesses e atitudes do ego do pai ou da mãe é imensa. Para
chegar à maturidade, o rapaz tem de fazer as pazes com a imagem do pai e a
moça tem de fazer as pazes com a imagem da mãe. Se isso não foi
conseguido, nessa conjuntura do desenvolvimento, o resultado será soluções
regressivas, deformações do ego, ou um afastamento da realidade. O estudo
que Erikson fez de Martinho Lutero (1958) demonstra com clareza, em especial
em seu material patográfico, como a incapacidade pós-adolescente de Lutero
de separar a libido homossexual da imagem do pai intensificou a angústia
conflitual até o ponto de um rompimento psicótico.

A solução incompleta dessa tarefa fase-específica pode, com frequência, ser


tolerada durante algum tempo, até explodir novamente durante a parentalidade,
em relação a um filho do mesmo sexo. O trabalho de Jones (1913) sobre a
fantasia da inversão das gerações encerra idéias relevantes no presente
contexto: Não é exagero dizer que, em maiores ou menores proporções, ocorre
sempre uma certa transferência do pai ou da mãe para o filho do mesmo sexo
A personalidade da própria criança é, dessa forma, modelada ou deformada,
não só pelo esforço de imitar seus pais, mas •também pelo esforço de imitar os
ideais dos pais, em sua maioria tomados dos avós do mesmo sexo. Pela
substituição inconsciente, as falhas da tarefa pós-adolescente são
estabilizadas, muitas vezes patologicamente, na vida familiar da geração
seguinte.

O adolescente tipicamente rebelde da adolescência propriamente dita não só


se volta contra seus primeiros objetos amorosos, a fim de se separar deles,
como se volta simultaneamente também contra a visão da realidade e da moral
que lhes foi transmitida por eles. O laço sexual infantil tem de ser
irreversivelmente rompido antes que uma reaproximação razoável possa
ocorrer entre os interesses e atitudes do eu e do ego paternal. Juntamente com
esse processo há uma aceitação, ou antes uma afirmação, das instituições
sociais e tradições sociais nas quais os aspectos componenciais das
influências parentais são, por assim dizer, imortalizados. O aspecto negativo —
isto é, a resistência contra ou a rejeição de certas influências parentais —
aparece no repúdio e antagonismo para com certas instituições e tradições,
que segue o mesmo processo de externalização de tornar impessoal o que foi
antes parte de relações objetais. Conservantismo e reformismo podem receber
um impulso moral e emocional dessas fontes. Da mesma maneira, muitos
componentes do superego são reprojetados no mundo exterior em que primeiro
surgiram. Por esse processo, o pós-adolescente torna-se mais firmemente
ancorado na sociedade da qual é parte integrante. Nesse

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período, os conflitos instintuais passam a segundo plano e os processos


integrativos do ego ganham destaque. Como uma fase de transição, a pós-
adolescência tem uma função de ponte; a integração descrita nos parágrafos
anteriores leva à conclusão do processo adolescente inversamente, a condição
de adulto tem um pé inicial e firme nessa fase final.

Durante toda a análise do processo adolescente, tornou-se evidente que o


desenvolvimento progressivo impõe, incessantemente, ordens superiores de
diferenciação na estrutura psíquica e na organização da personalidade. Pelos
processos de integração, um estado de estabilização e irreversibilidade é
finalmente atingido. A plasticida.de e a fluidez de desenvolvimento, típica da
adolescência, diminui com o tempo, restringindo-se, na verdade, a um período
limitado. A psicologia da adolescência pode, portanto, ser vista em termos de
um sistema energético que tende a atingir níveis superiores de diferenciação
até finalmente estabilizar-se na padronização. Esse conceito geral de sistemas
energéticos sublinha todos os processos da natureza, animada e inanimada, tal
como a ciência moderna passou a vê-los.
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Capítulo 4

Masturbaçao

Em todo o nosso exame das fases do desenvolvimento adolescente foram


feitas repetidas referências à masturbação. O papel significativo da
masturbação durante a adolescência como um todo não foi, porém, exposto em
detalhe. A importância dessa forma típica de atividade sexual adolescente
exige uma investigação abrangente sobre sua modalidade fase-específica,
suas vicissitudes emocionais e sua fenomenologia ou quadro clínico.

A masturbação adolescente — ou, para sermos exatos, a satisfação genital


auto-erótica — torna-se a reguladora da tensão e a criadora de fantasias que
acompanham, em seu conteúdo e padrão mutáveis, as várias fases do
desenvolvimento adolescente. A masturbação adolescente está inserida numa
longa história de sensações e experiências auto- eróticas que remontam ao
passado impreciso da primeira infância. A masturbação compreende uma
grande variedade de sensações, estendendo-se da sensação calmante e
embaladora até o tipo orgástico, no qual há um crescimento gradual, em geral
ritmado, de uma excitação e uma tensão cada vez maiores. (Greenacre, 1954).

A masturbação é um ato psicofísico complexo, associado, no curso da


evolução, com as zonas erógenas, e levando a tendências pulsionais mais ou
menos fixas. Além disso, a masturbação deixa aos poucos de ser uma
atividade agradável simples, passando a relacionar-se estreitamente com os
objetos de amor, primários da criança em termos de desejos instintuais
específicos. A fantasia, inclusive a imagem mental
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do objeto, torna-se assim o veículo que liga os desejos instintuais aos traços de
memória, e suas elaborações e deformações, até que a fantasia, por si mesma,
passe a ser suficiente para a consecução da satisfação instintual. A natureza
dessas fantasias inconscientes é bem conhecida. Sempre que essa forma de
satisfação masturbatória sem sensação física — ou mais precisamente, sem
sensação erótica consciente — ocorre, falamos de masturbação mental.

A complexa história da masturbação implica que ela seja sempre considerada


em seus vários aspectos, frequentemente heterogêneos. Não preciso dizer que
a masturbação desempenha uma função fase-adequada, na medida em que
facilita o movimento progressivo da moção pulsional.

Por outro lado, ela afirma facilmente uma tendência conservadora, perpetuando
as posições sexuais infantis, muitas vezes de modo parcial ou de forma
disfarçada. Essa tendência conservadora constitui um detrimento ao
desenvolvimento progressivo.

Quanto a isso, pederíamos lembrar o comentário de Freud (1909, a), de que o


problema da masturbação torna-se insolúvel se a tratarmos como uma unidade
clínica, esquecendo que ela pode representar a descarga de todos os tipos de
componentes sexuais e de todos os tipos de fantasias a que esses
componentes podem dar origem.

A masturbação genital durante a adolescência é a atividade sexual fase-


especifica que despoja as pulsões pre-genitais de seus alvos independentes e
as sujeita progressivamente à genitalidade. Isso equivale a dizer que essas
pulsões são relegadas a um papel antes iniciatório do que saciador, estando o
último focalizado no alvo genital. Qualquer função da masturbação que
estimule esse desenvolvimento representa o seu aspecto positivo. A realização
final da masturbação adolescente está na elaboração dos jogos preliminares.

A masturbação, pela sua própria natureza, tende a operar contra essa meta;
não obstante, é uma atividade sexual transitória indispensável, que
normalmente coloca as experiências infantis auto-eróticas em contato com
objetos por meio das imagens mentais que constituem a fantasia. Essa maior
ligação facilita as relações objetais, a conditio sine qua non da genitalidade.
Schilder (1935) referiu-se à conotação social da masturbação genital,
considerada por ele como um ato pelo qual tentamos trazer mais para perto de
nós as imagens corporais dos outros, especialmente de sua região genital.
Quanto a isso, o comentário de Freud (1909, a) é relevante. Ele também
ressaltou o esforço típico da masturbação adolescente que visa, cada vez
mais, a ser diretamente objetal: Devemos acima de tudo ter presente que as
lembranças infantis das pessoas só são consolidadas num período posterior,
geralmente na idade da puberdade Torna-se logo evidente que em suas
fantasias sobre sua infância, o indivíduo, ao crescer, tenta apagar as
lembranças de

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suas atividades auto-eróticas, e o faz exaltando seus traços de memória ao


nível do amor-objeto, tal como o historiador real vê o passado à luz do
presente.

A masturbação geralmente promove novas transferências, ligações e


delineamentos de imagens mentais e suas catexias; em consequência,
estabiliza as representações do objeto e do eu, facilitando assim a abordagem
da genitalidade. A ausência total de masturbação durante a adolescência indica
uma incapacidade de lidar com as pulsões sexuais da puberdade. Além disso,
indica que a masturbação infantil foi reprimida a tal ponto, que o alinhamento
necessário das pulsões pré-genitais com a sexualidade genital não se pode
realizar. Assim, os casos de abstinência total representam uma paralisação no
desenvolvimento psicossexual que, em si mesmo, é patognomônico. Mas
sempre que a masturbação serve a uma função apenas regressiva, ou sempre
que torna dispensável a adaptação aloplástica, como parte da procura objetal,
então terá falhado na sua função fase-adequada.

Ao longo do caminho do desenvolvimento adolescente, tanto o conteúdo


mental como o caráter funcional da masturbação sofrem modificações típicas.
A masturbação pode ser vista de duas maneiras: como estando em
consonância com organização das pulsões e desenvolvimento do ego, ou
como uma obstrução desses processos. Esse último aspecto evidencia-se
sempre que a masturbação torna-se um regulador habitual indispensável da
tensão, ou sempre que é prematuramente padronizada e estabilizada pela
formação da personalidade; essa integração autoplástica geralmente resulta
num caráter mais ou menos compulsivo ou narcísico. Disso se segue que já há
um aspecto prejudicial na masturbação na adolescência.

Na masturbação genital geralmente distinguimos o ato físico da fantasia


correspondente. Ë a fantasia que exerce uma influência prejudicial na formação
da personalidade. Mais uma vez, temos de distinguir entre os efeitos
perniciosos provocados por duas fontes: ou são devidos a intensa angústia do
superego e sentimento de culpa, ou derivam da fusão da masturbação genital
com os alvos sexuais infantis. Essa última condição resultará na paralisação do
desenvolvimento psicossexual. Tais comentários devem ser vistos dentro da
perspectiva mais ampla que Freud (1909, a) atribuiu ao problema, ao dizer: Os
efeitos perniciosos da masturbação têm uma autonomia muito pequena — isto
é, são determinados pela sua própria natureza. Eles são, substancialmente,
apenas parte da significação patogênica da vida sexual do paciente como um
todo.
A masturbação adolescente só pode ser bem compreendida em sua relação
com o desenvolvimento psicossexual total. A masturbação

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assume aspectos patológicos sempre que consolida fixações regressivamente


infantis. Um desses resultados patológicos seriam as fantasias masturbatórias
de um menino de 15 anos, que imagina a autofelação numa luta defensiva
contra a homossexualidade. Outro exemplo seria o de um adolescente mais
velho, que combina a masturbação com a defecação, desviando assim o
estímulo anal para o genital. Mas só quando essas práticas adquirem caráter
compulsivo tornam-se prejudiciais ao desenvolvimento progressivo. Há uma
tolerância espantosa das fantasias mais estranhas e perversas, e está ligada à
masturbação genital na adolescência. Essas condições passageiras promovem
o desligamento dos modos infantis de satisfação, ou efetuam uma fusão ainda
maior dos componentes da pulsão pré-genital com descarga da pulsão genital.
O resultado dependerá de dois fatores: primeiro, a força dos pontos de fixação;
e segundo, o grau de rendição, de aquiescência ou debilidade do ego em
relação à pressão regressiva. A masturbação genital, especialmente no
menino, serve como um ponto de ancoragem em nível genital e normalmente
contra-atua a regressão (Reich, 1951).

Admite-se geralmente que o ato físico da masturbação não é prejudicial em si;


mas a fantasia nele implícita torna-se portadora de influências perniciosas.
Além disso, porém, a dependência da masturbação, em si, pode impedir a
libido objetal de fluir para fora, e nesse caso o órgão genital adquire uma
qua1idde de objeto. A concentração da libido narcísica no próprio órgão genital
é acompanhada de tendências voyeuristas e exibicionistas. A baixa tolerância à
tensão, ou um ego fraco, convida à masturbação; e, inversamente, a
masturbação mantém a tolerância em baixo nível Tausk (1912), na sua famosa
análise da masturbação, já mencionava o dano à escolha objetal e dizia que
quando a masturbação proporciona plena satisfação, perpetua e fixa o
infantilismo. O indivíduo não tem razão para competir com outros por um objeto
sexual, já que encontra todas as fontes de prazer facilmente em si mesmo.
Omnis sua secum portat.

Quando a saída da fantasia para a tensão instintual e a transformação em


sintoma são ambas bloqueadas, surge uma condição especial, descrita por
Anna Freud (1949), na qual a fantasia masturbatória é deslocada da vida
sexual para a atividade do ego, da fantasia para o mundo exterior. Dessa
maneira as fantasias masturbatórias são atuadas no mundo exterior. Minha
experiência mostra que o desajuste social que se segue é sempre
fundamentado numa substituição fluida e fácil das experiências interior e
exterior, numa falta de constância objetal essencial e, pari passu, na prova da
realidade deficiente. Glover (1956), em seu trabalho sobre delinqüência, refere-
se ao desajuste social desse tipo como um sintoma equivalente.

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Quando a masturbação e saída da fantasia são ambas bloqueadas, a formação


de sintomas transitórios na adolescência costuma surgir. Reich (1951) fala de
compulsões e fobias, Tausk, 1912) fala de sintomas obsessivos. A estes
devemos acrescentar os distúrbios psicossomáticos da adolescência. Lampl-
de-Groot (1950) discute os efeitos prejudiciais da masturbação em termos de
sintomas emocionais, como depressão, nosofobia, inferioridade, e sentimentos
de culpa, e também em termos de sintomas neurastênicos, como dores de
cabeça, perturbações gastrintestinais e fadiga. A necessidade de atividade
física e integração social do adolescente, sua incapacidade de ficar só sem se
tornar inquieto e angustiado, e seu hábito de combinar o estudo solitário com a
audição de música — todas essas formas de comportamento representam,
pelo menos parcialmente, manobras típicas na batalha contra a masturbação.
A atividade masturbatória pode aparecer de forma deslocada, sem
manipulação genital ou fantasia sexual; esses casos nos lembram a variedade
de equivalentes da masturbação abrangendo outras partes do corpo, ou a
manipulação manual compulsiva de objetos. Coçar-se, meter o dedo no nariz,
tocar os testículos, roer unhas, torcer os cabelos, mascar o lápis, brincar
interminavelmente com elásticos ou outros objetos, todas essas atividades
podem ser consideradas equivalentes da masturbação. Sempre que a
masturbação deslocada sofre uma elaboração simbólica da descarga orgástica,
provoca um estado de alta excitação cuja natureza sexual não é reconhecida
pelo paciente. Essas atividades são, porém, seguidas de auto-acusações,
sentimentos de culpa e inferioridade típicos dos efeitos secundários da própria
masturbação. Uma atividade dessa natureza está presente, por exemplo, no
jogo (Freud, 1928) ou na imprudência ao dirigir (Reich, 1951). Além disso, pode
ser reconhecida em certas formas de procrastinação, nas quais o adiamento,
em geral consciente, da ação provoca uma pequena angústia, que por sua vez
produz uma exaltação constante num crescendo lento. Uma organização
passiva das pulsões, de nuanças masoquistas, é uma precondição para o
emprego da procrastinação como um equivalente da masturbação. Uma
catástrofe provocada por essas várias atividades pode ser compreendida como
uma mistura de castigo e de orgasmo disfarçado (Reich, 1951).

Encontramos com frequência adolescentes que não experimentam nenhum


conflito consciente com a masturbação, que a praticam livremente sem
sentimentos de culpa. Esses adolescentes não foram nunca intimidados, em
criança, por questões de jogo genital. Não obstante, mostram pelos sonhos e
atos que sua despreocupação é ilusória. Filhos de famílias modernas ou
tolerantes, foram tranquilizados quanto ao fato de que a masturbação não pode
causar dano e sua prática é normal e universal. Para essas crianças, o aspecto
físico da masturbação divorciou-se totalmente das fantasias que o
acompanham e, assim, cada um

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desses aspectos sofreu separadamente a sua elaboração específica (Arlow,
1953). Isso leva com frequência à formação de sintomas, que revela a natureza
conflitante da masturbação que, especialmente na forma de manipulação
genital, não é sentida como egodistônica. Ao tratar desses casos, a tarefa da
terapia é de ligar os sentimentos de culpa e parapraxia ao ato masturbatório.
As fantasias inconscientes que a análise revela tendem a ser de natureza oral
e sadomasoquista. Isso ficou evidente num menino de 15 anos, que comia
compulsivamente, e que se masturbava sem sentimento consciente de culpa.
Ele revelou o componente sádico e oral de sua masturbação ao dizer: Ë bom ir
dormir e não mastigar — quero dizer, masturbar. Outro menino da mesma
idade dotava a masturbação de fantasias bissexuais, nas quais o órgão genital
assumia o papel de objeto: um pênis e um mamilo. A fantasia masturbatória
revelou-se no seguinte sonho: há duas garrafas de leite que parecem iguais;
mas uma contém leite e a outra, sêmen. Discuto com alguém como poderia
fazer a diferença, caso quisesse beber de uma delas. Uma adolescente mais
velha relatou as suas fantasias masturbatórias, de que se lembrava
perfeitamente e que datavam dos 13 anos. Nelas, um escravo ou prisioneiro
era minuciosamente torturado nos órgãos genitais. Durante toda a sua
adolescência essa menina jamais compreendeu que suas fantasias e sua
masturbação estavam relacionadas com o sexo; ela nunca teve sentimentos de
culpa. Não obstante, desenvolveu a compulsão de urinar depois de cada ato
masturbatório a fim de tranquilizar-se de que não houvera dano ao seu órgão
genital.

A culpa pela masturbação é frequentemente disfarçada em tendência a


acidentes. Um menino de 15 anos lembrava-se de que sua masturbação, aos
12 e 13 anos, foi seguida de uma expectativa de sofrer um acidente. Disse ele:
Você sabe, essas coisas acontecem. Descreveu como se assustava ao
atravessar uma rua, achando que um carro ia atropelá-lo; para sua surpresa,
porém, via que não havia nenhum - carro perto. Mas, certa vez, quando
atravessou correndo a rua, foi atingido por um carro. A necessidade de punição
e o desejo de castração estão, em geral, na fonte desses acidentes
autoprovocados. Foi interessante observar, nesse caso, que a passagem para
a busca objetal heterossexual diminuiu a necessidade de masturbação e de
danos corporais (propensão a acidentes).

A masturbação adolescente no menino e na menina seguem linhas diferentes,


que podem ser compreendidas como a consequência da diferença no
complexo de castração masculino e feminino. O fato de que a excitação sexual
no menino resulta numa ereção, e mais tarde na ejaculação, torna a conexão
entre o estímulo e a reação genital um fato óbvio e inegável. Leva a atenção do
menino, desde logo, direta-

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mente para o pênis como um órgão de prazer que pode ser manipulado à
vontade. Os sentimentos de culpa, redução da auto-estima e angústia de
castração interferem, de uma maneira ou outra, com a masturbação desinibida
no menino.

A menina, por outro lado, masturba-se sem qualquer modificação corporal


observável e evidente. A manipulação do clitóris praticada durante a infância é
geralmente abandonada logo depois da menarca. Nessa ocasião, segundo
Horney (1935), ocorre uma profunda modificação de personalidade na mulher.
Desenvolve-se o antagonismo em relação à mãe e aumentam as reações de
culpa à masturbação. Se esta é suprimida fisicamente, sobrevive em grosseiras
fantasias sádicas, das quais as fantasias de estupro são representantes típicas.
O medo de dano corporal leva a receios hipocondríacos; a sensação de ser
indigna de amor e de ser feia representa sentimentos subjetivos concomitantes.
A resistência à masturbação é mais comum na menina do que no menino, fato
que está de acordo com o desenvolvimento da feminilidade, ou seja, com o
repúdio gradual da sexualidade clitórica, isto é, fálica. A masturbação pode,
porém, continuar sendo praticada pela menina de forma disfarçada, em
posições que estimulam o clitóris, como por exemplo sentando-se no braço de
uma cadeira, andando a cavalo ou por atividades semelhantes. Uma jovem
adolescente descreveu a prática de dormir com um travesseiro entre as pernas;
a pressão sobre o travesseiro levava ao orgasmo, com a vaga noção
consequente de possuir um pênis. A modificação no sentimento corporal do
ego não chegou à consciência de um órgão fantasma (pênis ilusório), mas sim
estimulou a imaginação da menina e encontrou um escoadouro nesse nível. As
fantasias vivas, envolvendo atividades masculinas, os feitos heroicos ou cruéis
de natureza sádico-fálica, constituíam o repertório de seu ritual masturbatório.
A pressão das coxas resulta, com frequência, numa sensação vaginal, ou
numa aproximação dela. A masturbação do clitóris, na maioria dos casos, só é
abandonada quando é encontrado um objeto de amor heterossexual. O fato de
apaixonar-se facilita a concessão da pulsão estranha ao sexo ao parceiro
idealizado, que se torna então a fonte da satisfação tanto narcísica como libido-
objetal. Essa passagem para a feminilidade só ocorre lenta e parcialmente, até
chegar à sua conclusão no final da adolescência, ou na pós-adolescência.

Um renascimento da decepção narcísica da castração, na menina, é evitado


pelo abandono da masturbação clitoridiana e manual, e também pela catexia
de todo o seu corpo com a libido narcísica. Com o início da puberdade a
maturação dos órgãos sexuais femininos, até então em condição de latência,
parece provocar uma intensificação do narcisismo original... (Freud, 1914).
Freud continua, dizendo que esse narcisismo afeta desfavoravelmente o
desenvolvimento de uma escolha objetal com

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sua conseqüente supervalorização sexual. O auto-amor narcísico, o enfeitar o


corpo, a ênfase socialmente admitida da exibição de partes do corpo, como
seios, do encanto físico e da beleza em geral — essas formas de satisfação
narcisista e exibicionista facilitam um adiamento da rendição ao amor sexual
até o momento em que uma relação permanente, tão essencial à criação de
filhos, venha a ocorrer. Harnik (1 924), num artigo convincente, diz: Nos
homens, o 6rgão genital continua a ser o centro do narcisismo, enquanto na
mulher há um narcisismo secundário que se liga ao corpo como um todo. A
sensibilidade erótica ao toque da superfície do corpo feminino, tal como se
desenvolve na puberdade, mostra a nova distribuição de catexia que ocorre
nesse período. Harnik chama a atenção para a qualidades genitais
desenvolvidas pelo seio feminino, especialmente os mamilos. As fixações
sexuais infantis estirnulam a masturbação adolescente, que então continua a
persistir lado a lado com o uso narcísico de todo o corpo como um objeto a ser
admirado e olhado.

Ao contrário do que acontece com a menina, qualquer menino que tente


chamar a atenção para sua beleza, ou a mostre com prazer exibicionista, é
sempre considerado como afeminado. Ë prerrogativa da mulher exibir seu
encanto físico — na verdade, enfatizá-lo e ressaltá-lo pelo uso de cosméticos,
adornos e roupas. Sua necessidade é ser amada. O menino só pode exibir
aquilo que pode fazer e, portanto, focaliza seu orgulho nas proezas e
realizações. Seus feitos podem ser atléticos, intelectuais, acadêmicos, sexuais,
profissionais ou criativos. Ousadia, perseverança, rapidez e força são os
atributos considerados masculinos, que podem ser exibidos publicamente pelo
homem. A ternura, gentileza e sensibilidade masculinas só se podem
desenvolver quando sua polarização sexual se estabiliza no final da
adolescência, quando as necessidades de dependência se fundiram com a
sexualidade genital, com o amor afirmativo, protetor e íntimo.

A masturbação esta, com frequência, ligada ao medo inconsciente de causar


danos ao órgão genital e, por transferência, também a funções específicas do
ego. Isso se torna evidente na frequente associação de manifestações físicas
insignificantes, ou vacilações comuns no desempenho, com o ato
masturbatório. Parece existir uma inimizade básica entre a masturbação, de um
lado, e os interesses do ego e do superego, do outro. A tolerância dessa
inimizade difere muito entre os indivíduos. Ela deve ser, sem dúvida,
considerada como responsável pelo caráter compulsivo que a tendência
masturbatória pode assumir, isto é, o medo de um possível dano causado pela
masturbação só é aliviado pela repetição do ato masturbatório. O círculo
vicioso que se segue reforçado por fatores adicionais que tornam a
masturbação um impe-

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dimento progressivo à transferência da libido para fora, para novos objetos.

Certos adolescentes, nos quais a pulsão homossexual é esmagadoramente


forte, desconhecem totalmente a masturbação e estabelecem, ainda em tenra
idade, uma relação heterossexual. A premência compulsiva com que é
perseguida a heterossexualidade, junto com uma falta persistente de relação
objetal, revela a natureza defensiva do ato sexual. A masturbação, nesses
casos, pode ser frequentemente praticada como complemento da atuação
heterossexual.

A natureza defensiva geral da masturbação deve ser ressaltada. A


masturbação serve, para os meninos, para reafirmar-lhes a masculinidade e
diminui acentuadamente com a solução do conflito homossexual e com a busca
objetal heterossexual. O que Kinsey (1948) chama de período sexualmente
mais ativo, isto é, mais viril, do homem, ou seja a adolescência, coincide com
um período de conflito intenso durante o qual a frequência da masturbação, as
saídas de Kinsey, é determinada pela sua função defensiva e pela sua
natureza compulsiva. Kinsey equaciona a frequência da saída sexual, como
masturbação, com a virilidade; mas essa ideia é contestada pela observação
clínica de que a masturbação mais compulsiva ou frequente ocorre nos
meninos com fortes tendências homossexuais passivas.
Pela sua própria natureza, a masturbação tende a se opor ao desenvolvimento
progressivo e a afirmar as influências regressivas e fixadoras. E preciso
ressaltar que a masturbação não tem objeto e não compreende os jogos
amorosos preliminares. O objeto da atividade masturbatória está na fantasia. A
pessoa que se masturba experimenta uma representação do eu e do objeto
flutuante, já que é ao mesmo tempo sujeito e objeto, masculino e feminino,
ativo e passivo. A prática prolongada da masturbação, portanto, é contrária à
polarização sexual. Estabelece um estado de fixação bissexual que resulta, de
um lado, no empobrecimento dos interesses voltados para o objeto, e do outro,
na proliferação de uma vida de fantasia supercatexiada.

Spiegel (1959) referiu-se ao fato de que existe uma dicotomia do eu na


masturbação: a masturbação dirigida para o objeto representa a parte genital
do eu, enquanto o componente narcísico da masturbação toma o órgão genital
como objeto. A tensão imposta ao ego por essa catexia vacilante das
representações do eu e do objeto pode ser considerada, em si e por si, como
patogênica. Essa ameaça ao eu dá à progressão para a genitalidade na
adolescência um senso adicional de premência. Há uma ligação entre a
perturbação do auto-sentimento (perda de identidade pessoal) e o anseio de
chegar ao nível genital da libido (Spiegel, 1959). Deveríamos acrescentar que a
masturbação na qual o órgão genital é tomado como objeto tem, não obstante,
seu lugar

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fase-adequado na pré-adolescência. Olhar e ser olhado faz com que o objeto


se torne mais próximo. Mas a masturbação na qual o sexo oposto é tomado
como objeto na fantasia só gradualmente se estabelece na fase subseqüente e
atinge seu pleno florescimento durante a adolescência propriamente dita.
Quando a posição bissexual se torna intolerável para o ego, ocorre com
frequência que o componente pulsional egodistônico, sexo-inadequado, será
contra atuado ou neutralizado pela masturbação genital. Essa tentativa de
transcender a posição bissexual falhará; o resultado será uma supressão total
da masturbação, ou uma passagem precoce e defensiva para um objeto
heterossexual. A consequência dessas duas acomodações de pulsões para o
desenvolvimento do ego e para a formação da personalidade em geral foi
mencionada em outros capítulos; da mesma forma, as vicissitudes da busca de
objeto nos ocuparam em outras passagens e não precisam ser repetidas aqui.

Como a masturbação, pela sua própria natureza, é destituída de jogos


amorosos preliminares, ela contraria ou impede a disposição hierárquica dos
componentes das pulsões; esse aspecto adverso retarda, ou bloqueia, o
avanço para a maturidade psicossexual. Parece que abandonar totalmente a
masturbação, antes da fase heterossexual da adolescência propriamente dita,
resulta numa forma de imaturidade psicossexual. A masturbação adolescente,
portanto, dá início e promove o movimento de avanço da libido, pela quase-
ação experimental na fantasia. Esse interlúdio acaba por levar a
experimentação heterossexual e às modificações concomitantes que
encontram seu reflexo mais claro na consolidação definitiva do eu. A natureza
regressiva ou infantilizante da masturbação deve ser constantemente contra
atuada pela articulação de organização das pulsões adolescentes recém-
conquistada com o mundo objetal.

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Capítulo 5

O Ego na adolescência
O tema do ego na adolescência foi destacado para um exame especial porque
seu estudo permitirá uma visão mais detalhada do processo adolescente em
termos da reestruturação psíquica, tal como manifestada nas atividades
transitórias do ego e nas suas permanentes alterações. Tomando o ego como
foco de nosso estudo poderemos reunir num todo coerente as muitas
ramificações da observação e da teoria. Os exemplos clínicos dados acima, na
descrição das fases de desenvolvimento, são fontes de referência; assim,
neste exame vamos concentramos na teoria. Em suma, portanto, faremos aqui
uma tentativa de apresentar um tratamento sistemático dos aspectos do ego
que, nos capítulos anteriores, foram tratados como segmentos do problema
total da adolescência.

1. Observações Introdutórias

O ego — sua natureza, operação e função — pode ser melhor estudado


durante os períodos de deslocamentos de maturação, quando o equilíbrio entre
a pulsão e o ego é perturbado. Nessas condições, o mecanismo mental
enfrenta a tarefa de acomodar novas pulsões instintuais — novas em
quantidade e qualidade, envolvendo também novas

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exigências do mundo exterior. O ego é, por definição, a soma total dos


processos mentais que visam à proteção do funcionamento mental; com essa
finalidade, ele é mediador entre a pulsão e o mundo exterior. Reconhecemos
no sentimento da realidade os frutos desse processo de mediação. A essas
pressões — id e mundo exterior — devemos acrescentar uma terceira que é,
porém, derivada do ambiente, ou seja, o superego.
Os métodos pelos quais o ego faz a mediação, bem como o seu padrão de
operação, podem ser observados durante a adolescência. Examinando a
origem do ego, temos de lembrar que ele resulta de processos de diferenciação
e constitui um corolário da prolongada dependência em que o jovem organismo
humano está do mundo exterior. Durante toda a sua vida, o ego preserva as
marcas de sua origem; de fato, ele continua a ser estimulado no sentido da
diferenciação progressiva pelo duplo impacto das pulsões e do mundo exterior.
Esse fato foi mencionado antes, quando dissemos que o desenvolvimento do
ego se pauta pela organização das pulsões fase-específica.

O ego, em sua definição operacional, é um conceito relativo, determinado pelo


grau de pressões exercidas sobre ele. Em consequência, um ego que manteve
um funcionamento mental adequado em épocas de calma relativa pode ser
esmagado pelas pressões crescentes evidenciadas durante a puberdade. O
caráter de seus recursos se mostrará então suficiente ou insuficiente para a
tarefa exigente. Essa última condição é precipitada durante a adolescência
pelas maiores pressões das três fontes mencionadas. Anna Freud (1936)
referiu-se ao ego adolescente dizendo que um id relativamente forte enfrenta
um ego relativamente fraco. Além disso, o apoio que o ego obteve na infância,
da educação, deixa de operar da maneira habitual, devido à rejeição maciça
pelo adolescente dos controles exteriores, como sendo meras excrescências
da dependência infantil.

A reação padronizada segundo perigos interiores é modelada de acordo com


experiências anteriores de ameaças provenientes do ambiente. Situações
instintuais amedrontadoras podem, em última análise, ser atribuídas a
situações de perigo exteriores (Freud, 1933). Em outras palavras, todos os
processos defensivos tiveram antes uma função adaptadora ante as exigências
exteriores.
Em ambos os casos — do perigo interior e exterior — é necessário examinar o
problema da superexcitação: no bebê, um mecanismo inato proporciona uma
barreira de estímulos contra o mundo exterior, mas a barreira de estímulos
contra os instintos tem de ser desenvolvida

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(Hartmann, 1939, a). Nesse sentido, qualquer mecanismo psíquico que proteja
o organismo mental contra o superestímulo desempenha uma função positiva.
Isso ocorre também na infância e na adolescência. O mecanismo psíquico em
desenvolvimento deve alcançar constantemente, por assim dizer, as condições
de amadurecimento, que por sua vez dão ímpeto e direção à diferenciação e à
integração do ego. Esse processo reflete as influências mútuas do ego e do id
sobre seus respectivos desenvolvimentos. Quando esse processo não é fluido,
mas sim produz uma cristalização prematura do caráter ou um sintoma
neurótico, a função do ego fracassou. Aquilo que normalmente deveria
funcionar como um mecanismo adaptativo ou defensivo adquiriu uma qualidade
diferente: em lugar de iniciar a progressão e a diferenciação, o
desenvolvimento de certas funções do ego fracassou, ou foi paralisado.

Em qualquer crise, o ego recorre a medidas de emergência que visam


principalmente à proteção de sua função básica — a manutenção da coesão
psíquica e do contato com a realidade. Por exemplo, totalmente à parte de
seus aspectos defensivos arraigados na angústia conflitual e no medo da
intensidade das pulsões, a retirada da catexia do mundo exterior durante a
adolescência opera para preservar e proteger as funções básicas do ego. Isso
equiv1e a dizer que fatores tanto quantitativos como qualitativos têm de ser
examinados como variáveis separadas na avaliação das atividades do ego
dirigidas à autoproteção. Nesse caso, como em tantos fenômenos psíquicos, o
princípio da função múltipla (Waelder, 1936) tem de ser lembrado, para que se
aprecie a variabilidade e a combinação individuais pelas quais as exigências de
várias fontes se efetuam com o menor esforço. A situação adolescente exige,
sem dúvida, medidas extremas para evitar o trauma ou a desintegração. O
grande volume de energia psíquica absorvido nessa tarefa reduz ao mínimo,
ainda que de maneira apenas temporária e intermitente, o processo de
adaptação. Quando a energia psíquica está empregada nas operações
defensivas ou na contracatexia, o resultado é um esgotamento da energia
móvel dentro do ego.

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2. O Ego no Começo da Ado1escncia

O ego adolescente, fase-adaptado, só se pode desenvolver adequadamente se


a fase preparatória do período de latência é atravessada com êxito. Sem isso,
como no caso de um período de latência abortado, um ego da pré-latência terá
de se defrontar com as pulsões pubertárias. O resultado é uma mera
reintensificação da sexualidade infantil; nada surge de novo ou de
especificamente adolescente. Manifestações pseudo adolescentes são
tentativas simuladas de ser adolescente: o ego recorre ao uso de reguladores
da tensão, em continuidade direta da infância. Para poder enfrentar a
puberdade e a adolescência, o ego exige a realização do período de latência;
só então ele pode enfrentar as tarefas da maturação, que se aproxima, em
termos de novos processos de diferenciação e integração.

O início da puberdade traz um aumento quantitativo da energia pulsional


instintual. Ocorre uma recatexia das posições instintuais pré-genitais,
semelhante, sob muitos aspectos, à difusão da pulsão. Os instintos
componentes passam ostensivamente ao primeiro plano, a tentativa de
controlá-los se evidencia nas reações adolescentes típicas: a escotofilia leva à
timidez, ao constrangimento e ao ato de corar; o exibicionismo, ao recato e
autoconfiança; as tendências sadomasoquistas, à impossibilidade e
indiferença, e o olfato e tato são levados para a esfera sexual das sensações
corpóreas conflitantes. Ë claro que a expressão direta e incontrolada dessas
tendências instintuais durante a adolescência é bem conhecida de todos os
observadores.

Vale a pena lembrar que todos os impulsos pré-genitais, em seus alvos de


incorporação, parecem possuir um certo componente destrutivo. Fatores
constitucionais desconhecidos e, acima de tudo, experiências de frustração,
aumentam muito o elemento destrutivo (Freud, 1945, b). No quadro total do
controle adolescente do instinto podemos ter subestimado os esforços do ego
para dominar a pulsão agressiva, dirigindo nossa atenção quase que
exclusivamente para os conflitos libidinais e as tentativas de dominá-los.

Poderia ser útil definir as precondições que o ego precisa ter no início da
adolescência, num grau apreciável, para desenvolver as qualidades e funções
especificamente adolescentes e que provocarão aquelas transformações do
ego que resultam no ego do adulto. As realizações essenciais do ego no
período de latência são as seguintes: 1) aumento na catexia dos objetos
interiores (representações objetais e do eu) com a resultante automatização de
certas funções do ego; 2) maior capacidade de resistência das funções do ego
à regressão (autonomia secundária) -com a consequente expansão da esfera
não conflitual do ego;

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3) formação de um ego autocrítico que complementa, cada vez mais, as


funções do superego, de modo que a regulação da auto-estima chegue a um
grau de independência do ambiente; 4) redução do uso expressivo de todo o
corpo e aumento da capacidade de expressão verbal, isoladamente, da
atividade motora (Kris, 1939); 5) domínio do ambiente pelo aprendizado das
habilidades e uso de um processo de pensamento secundário como meio de
reduzir a tensão. O princípio da realidade estabiliza o uso do adiamento e
antecipação na busca do prazer.

Muitas vezes aquilo que no início da adolescência parece ser um fenômeno


regressivo acaba por revelar-se, sob exame mais minucioso, como o resultado
de um desenvolvimento retardado do ego ou, na verdade, de um período de
latência abortivo. Esquematicamente, poderíamos dizer que a realização
psíquica da infância está no domínio do corpo, e a do período de latência, no
domínio do ambiente, enquanto que a realização da adolescência consiste no
domínio das emoções. A conclusão de uma dessas tarefas e sua estabilização
pode, em geral, ser definida em termos de uma sequência ordenada das
funções do ego que têm de constituir um paralelo à maturação do corpo a fim
de salvaguardar o desenvolvimento normal.

3. Hierarquia dos Interesses e Funções do Ego

A história do ego revela que ele se modela progressivamente sobre cada fase
predominante da organização das pulsões. Uma influência mútua do ego e do
id não deixa nunca de ser evidente. Por exemplo, a projeção e introjeção são
mecanismos do ego que vêm da modalidade oral. A existência e importância
de variações do ego originais e congênitas (Freud, 1937) na sua interrelação
com fatores constitucionais de pulsões explicam em parte a pulsão preferencial
e as modalidades do ego. Mas em nosso estudo a questão a ser formulada, a
esta altura, é a seguinte: Qual a modalidade instintual específica da
adolescência, juntamente com a qual o ego desenvolve suas próprias
características corolárias? A novidade está na subordinação — realizada de
maneira apenas gradual e na maioria dos casos, apenas parcial — das zonas
erógenas ao primado genital. Em outras palavras: a nova modalidade de
sexualidade adolescente está na elaboração do prazer preliminar (Freud, 1905,
b). A pré-genitalidade, em consequência, é relegada a um papel mais de
iniciação do que de satisfação; essa ênfase diferente na economia sexual torna
a pré-genitalidade diferente de seu estado infantil anterior.

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Lembramo-nos aqui da observação de Freud (1914): possível que para cada


modificação na erotogenicidade dos órgãos exista uma modificação paralela da
catexia libidinal no ego. Possivelmente, portanto, há um sentimento do ego, ou
auto-experiência, que é essencialmente tão novo na esfera do ego adolescente
quanto o prazer preliminar na esfera da organização instintual. Federn (1929)
fala da qualidade da experiência do sentimento saudável do ego como um
agradável jogo preliminar de prazer.

De maneira análoga, os interesses e funções do ego são estratificados numa


hierarquia definida. Os componentes seletivos do ego são elevados a uma
posição dominante; outros lhe são subordinados. Essa rigidez irreversível nas
relações do ego com o mundo exterior, com o id e o superego, baseada numa
ordem hierárquica de seus interesses e atitudes, é denominada caráter. O
caráter só adquire seu aspecto definitivo ao final da adolescência. Na esfera
emocional da adolescência, falamos da destruição das instituições do ego
infantil. Ambas as destruições levam a um re-arranjo dos remanescentes que
está de acordo respectivamente com o novo alvo sexual e com o recém-criado
ideal do ego. As instituições do ego que resistiram ao ataque da puberdade
sem ceder geralmente continuam, por toda a vida, inflexíveis, inatacáveis e não
suscetíveis das retificações que uma realidade mutável exige (A. Freud, 1936).

O dano sério que as fixações do ego podem infligir ao desenvolvimento


progressivo é, com frequência, subestimado; essas fixações são facilmente
eclipsadas do observador por manifestações sexuais — que, tomadas em e por
si mesmas, são os indicadores menos fidedignos de desenvolvimento
progressivo. Existe o que poderia ser chamado de reciprocidade ótima entre o
ego e o id, que é posta à prova, até seus limites, durante a adolescência.

O período experimental da adolescência — que tem seu auge durante a


adolescência propriamente dita — é a última etapa antes da limitação final das
possibilidades abertas ao eu ser aceita relutantemente, antes que os interesses
do ego sejam limitados aos específicos e essenciais, antes que a formação da
identidade assuma seu aspecto definitivo. O aspecto mais destacado da
disposição hierárquica dos interesses do ego ocorre na área da escolha
profissional durante o final da adolescência. Esse processo de escolha opera
com igual peso no homem e na mulher, exigindo de ambos o aprimoramento
de alguns dos interesses do ego e a estratificação de outros. Sempre que as
funções do ego empregada nesse processo se tornam sexualizadas — isto é,
tornam-se fonte de excitação exibicionista, voyeurista, sadomasoquista — sua
confiabilidade, utilidade e estabilidade serão severamente reduzidas. Muitos
dis-

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túrbios do ego, por exemplo os distúrbios do aprendizado, são provocados pela


inundação das funções do ego pelas pulsões sexuais e agressivas. A
sexualização das funções do ego até então autônomas — como percepção, por
exemplo — como consequência da supressão radical da masturbação, foi
descrita em detalhe por Joyce (1916) e já foi citada à página 120. Geralmente
apenas um segmento de uma função autônoma do ego, por exemplo da
percepção, mobilidade, julgamento ou memória, fica sujeito ao envolvimento
conflitual. Essa perturbação seletiva deve-se aos elos associativos específicos
que são estimulados por situações específicas da realidade. Nessas
circunstâncias, as funções do ego podem servir como equivalentes
masturbatórios; são usadas então como reguladores saciatórios de tensão
instintual, ou são totalmente evitadas e inibidas. Em ambos os casos, essas
funções do ego são pouco eficientes em termos de sua finalidade e objetivos
desejados. As funções autônomas e defensivas do ego são muitas vezes
difíceis de distinguir. As pulsões e as funções do ego mantêm uma influência
mútua constante, cujo âmbito normalmente diminui e adquire, na fase final da
adolescência, uma interrelação fixa, harmoniosa e padronizada.

Atitudes e padrões de comportamento de autonomia secundária, como a


pontualidade e a ordem, também podem voltar a envolver-se em conflito
emocional. Aquilo que provocou originalmente uma formação de reação é
reexperimentado como imposição controladora, uma rendição submissa à
vontade de outros; a teimosia anal reaparece em cena. O mesmo
reenvolvimento no conflito ocorre com certas atitudes que se originaram nas
fases libidinais e haviam sido aparentemente absorvidas nos traços não-
conflituais. Essas reações adolescentes revelam, assim, a existência de pontos
de fixação. Essa evolução é parte da adolescência normal, e ilustra o fato de
que os atributos de personalidade já bem estabelecidos antes da adolescência
ainda podem sofrer numerosas alterações. Anna Freud (1952) observou: Ainda
na adolescência, a revolta contra os pais é seguida pela rejeição da
identificação com eles e pode levar a inversões de atitudes do superego e do
ego, embora aparentemente essas atitudes tenham sido plenamente
integradas na estrutura do ego da criança na latência.

O ego adolescente que cede aos perigos de uma reorganização radical


evidenciará indícios de comportamento e raciocínio temporariamente mal-
adaptados. Não obstante, esse ego frequentemente se mostra forte no sentido
de que a fé e a confiança na coesão de sua existência, de fato, na sua
indestrutibilidade, jamais é abalada. A fonte dessa confiança é, naturalmente, a
qualidade positiva das relações objetais iniciais.
Para o observador clínico, uma clara linha de demarcação entre a
reorganização revolucionária e a desintegração regressiva é, com fre-

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qüência, difícil de ser estabelecida. Com exceção da patologia evidente,


qualquer prognóstico durante a adolescência deve ser feito com ceticismo e
incerteza. O resultado final pode não ser conhecido até a fase final da
adolescência, ou a pós-adolescência, já que a capacidade sintética do ego só
se torna evidente durante essas fases. O período final da adolescência
apresenta problemas fascinantes e foi estudado, na última década, de maneira
muito mais exaustiva do que antes. Para muitos observadores, esse estudo
mostrou a meta final da adolescência como um todo, ou seja, dotar o indivíduo
de um arranjo estável dos interesses do ego e de diferenciação e polarização
sexual, como o núcleo do sentimento de identidade. Essas duas realizações
devem ser feitas e aprimoradas na interação com o mundo exterior.

A fase final da adolescência é caracterizada pela atividade integrativa e


adaptativa, e não defensiva, da atividade do ego. Vários autores reconheceram
as importantes alterações do ego, de natureza definitiva, como a realização
psicológica destacada dessa fase. Erikson (1956) falada forma da identidade
do ego; eu ressalto o processo total de consolidação e formação definitiva do
ego como a mais importante alteração do ego, característica da fase final da
adolescência e da pós-adolescência; Gitelson (1948), de maneira mais geral,
resumiu a mesma observação como síntese de caráter. A referência de
Hartmann (1950, a) a uma ordem classificatória de funções do ego, deve ser
mencionada. Vimos, por exemplo, diz ele, que a harmonização, a função
sintética, deve ser supra ordenada em relação à regulação pelo mundo
exterior. Isso se aplica também a muitas das funções do ego que só adquirem
estabilidade e fixidez de estrutura hierárquica ao final da adolescência. De fato,
a fase final da adolescência é marcada precisa- mente por essa realização.
4. Mecanismos de Estabilização

O ego é preparado, pelas realizações do período de latência, para enfrentar


condições cada vez mais complexas, tanto interiores como exteriores, de
maneiras diferentes e mais econômicas; não é preparado, porém, para a
magnitude da tarefa que lhe é proposta pela puberdade. As pressões às quais
o ego está sujeito na adolescência modificam-se, tanto em quantidade como
em qualidade, tal como descrevemos ao falar das fases de desenvolvimento.
Incapaz de dominar as situações críticas que tem de enfrentar, o ego recorre a
vários mecanismos de estabilização como medidas temporárias para proteger
sua integridade. A atenção focalizou-se quase que exclusivamente nas defesas
contra os instintos,

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que, na verdade, têm um papel importante no esforço adolescente de afastar a


angústia, que não pode ser dominada pelos processos integrativos. Mas a
angústia não é necessariamente conflitual, nem é sempre consequência de um
repúdio da pulsão sexual. Ë, em parte, consequência da pulsão energética
represada ou da imperfeição dos canais de descarga fase-adequados. Spiegel
(1958), que concorda com algumas das ideias de Bernfeld (1935) sobre o
assunto, comenta: Na verdade, parte da sintomatologia da adolescência pode
ser vista como uma sequela direta, como sintomas neuróticos reais, do influxo
instintual com que o mecanismo psíquico ainda imperfeito não é capaz de lidar
no início da adolescência.

Outra fonte de tensão encontra-se nas restrições retaliatórias dos pais, com o
objetivo de lidar com a maturação sexual de seus filhos. Testemunhamos
muitas vezes atitudes punitivas e proibitivas exageradas dos pais para com o
filho quando esse atinge a maturidade sexual, cresce fisicamente e adquire um
espírito mais independente. Jones (1913) e Pearson (1958) mostraram que a
chegada da puberdade na criança provoca nos pais reminiscências
assustadoras e retaliatórias que remontam à época em que a sua própria
condição de crianças frustrou suas tentativas de interferência nos privilégios
invejados e exagerados de seus próprios pais. A maior permissividade sexual
dos pais modernos cria uma situação em que eles aceitam os anseios sexuais
do adolescente e se oferecem como um igual, como um camarada ou
companheiro de seu filho púbere. Essa atitude dos pais agrava o envolvimento
edípico por meio da realidade imaginada de uma relação anterior entre pai e
filho.

Ë evidente que tensões diversas se impõem ao ego do adolescente e são


usados processos variados para mantê-las dentro de limites suportáveis. O que
devemos ressaltar é o fato de que os mecanismos estabilizadores não estão
limitados às defesas, no sentido rigoroso desse termo. Hartmann (1939, b) fala
dos dois aspectos de uma defesa, o aspecto patológico malsucedido, e o
adaptativo; Fenichel (1945, b) distingue entre defesas patogênicas e defesas
bem-sucedidas, isto é, a sublimação; Lampl-de Groot (1957) introduz a
distinção entre processos adaptativo como parte do desenvolvimento normal e
suas deformações, chamadas de defesas neuróticas; Anna Freud (1936)
discute os aspectos normais das reações defensivas como fases preliminares
da defesa — todos esses autores ressaltam o fato de que estamos lidando, no
caso, com um conceito de múltiplas funções. Distinguir entre os aspectos
heterogêneos desse conceito parece relevante numa discussão sobre o ego
adolescente.

Deve ser mencionada uma outra distinção, que foi adotada por Hartmann
(1956), ao falar das manobras defensivas e mecanismo

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defensivos. Estes últimos estão localizados no inconsciente; as manobras
defensivas operam no pré-consciente e são mantidas fora da consciência pela
censura. O que na adolescência parece ser um acesso fácil aos determinantes
inconscientes em termos de insight é, na verdade, com maior frequência, um
conteúdo pré-consciente. Assim, o medo de que no tratamento de
adolescentes o enfraquecimento das defesas mobilize sempre os processos
primários não tem, em muitos casos, fundamento. Os mecanismos de
estabilização característicos da adolescência incluem mecanismos defensivos,
adaptativos, restitutivos e compensatórios. A deformação do ego que ocorre,
por exemplo, no processo de separação acontece juntamente com esses
mecanismos estabilizadores; ela foi descrita pelo autor (1954) num estudo
clínico sobre a adolescência prolongada. Os processos dissociativos
evidenciados nesse síndrome são empregados mais frequentemente para
evitar a formação de conflito do que para controlar a angústia conflitual.

A delineação entre os vários mecanismos enumerados acima é,


evidentemente, tênue. Esse fato, porém, não nos deve impedir uma tentativa
de sistematizar as observações clínicas. Muitos mecanismos de estabilização,
ou todos eles, podem ser empregados simultaneamente; estamos lidando com
mecanismos psíquicos interligados. A fim de destacar suas naturezas
específicas, é necessário primeiro estabelecer as características dinâmicas que
permitirão, por definição, a identificação de processos unitários individuais.

Implícito na definição do mecanismo de defesa está o fato de ser ele mantido


pela contracatexia; assim, resulta num déficit permanente de energia psíquica
disponível, isto é, móvel*. A exaustão da energia disponível em consequência
de sua utilização na manutenção de uma defesa pode tornar-se crítica na
adolescência. Devemos ter presente que o emprego de cada um dos
mecanismos estabilizadores pode chegar ao ponto de se iniciar uma fase
patológica. A etiologia dos mecanismos de estabilização específicos não leva
em conta a história do indivíduo, seus dotes e, além disso, a influência
estimulante ou desestimulante das instituições sociais, como família, classe,
casta, escola e igreja, que favorecem ou desfavorecem certos tipos de controle
ou domínio.

Os mecanismos estabilizadores, como dissemos, não devem ser considerados


como nitidamente distintos uns dos outros. De fato, gradualmente um pode se
fundir ao outro em termos de uma lenta mudança de ênfase, até que o
processo tenha adquirido um caráter claramente

Início da nota de rodapé

* A questão da fonte e natureza da energia empregada na contracatexia


(defesa), ou seja, se a energia é a mesma que aquela das pulsões afastadas,
ou se a energia agressiva neutralizada deve ser postulada, não é examinada
aqui. Hartmann (1950, a) discutiu essa questão detalhadamente.

Fim da nota de rodapé

Página 181

novo. Ë o que ocorre, por exemplo, nas várias formas de identificação. Alérn da
identificação defensiva, falamos também de identificação primitiva, transitória e
adaptativa. A identificação primitiva, por exemplo, anulou, pela regressão, a
distinção entre objeto e eu; ela mais ou menos se funde com o objeto. Quanto
a isso, Gellerd (Solnit, 1959) fala de uma regressão parcial a uma fase não
diferenciada de relação objetal, considerando-a como normal durante a
adolescência. Somos da opinião de que ela tem sempre uma significação
patognomônica. A identificação defensiva e a contra-identificação deixam
marcas permanentes no caráter do ego, enquanto a identificação transitória
continua próxima das manobras psíquicas experimentais, que vão desde a
fantasia até a formação do ideal do ego e da sublimação. Finalmente, uma
identificação adaptativa deve ser vista corno uma função do ego autônomo. As
transições e combinações dessas várias formas de identificação são típicas do
desenvolvimento adolescente. O caso de Tom ofereceu uma ilustração clínica
que mostra a transição de uma função defensiva (intelectualização) do ego,
para uma função adaptativa (erudição).

A intelectualização foi descrita por Anna Freud (1936) como um mecanismo de


defesa típico da adolescência. Ela representa uma tentativa de dominar os
perigos instintuais pelo deslocamento; além disso, tem também um aspecto
adaptativo que se torna evidente sempre que o deslocamento adquire o status
de um interesse do ego, isto é, sempre que a atividade intelectual se desliga do
envolvimento instintual. Hartmann (1939) observa que um mecanismo de
defesa como a intelectualização tem também outro aspecto orientado para a
realidade, mostrando que tal mecanismo de defesa contra as pulsões
instintuais pode ser considerado, ao mesmo tempo, como um processo
adaptativo. Quanto a isso, Hartmann diz que a negação e a evitação das
defesas também têm um lado adaptativo — se forem tomadas como a evitação
do que é perigoso demais e a busca do que é o menos perigoso possível.
Outra observação do mesmo autor (1950, b) esclarece ainda melhor o
problema: Toda a formação reativa de caráter, originada nas defesas contra as
pulsões, assumirá gradualmente muitas outras funções na estrutura do ego.
Como sabemos que os resultados disso podem ser bastante estáveis, ou
mesmo irreversíveis na maioria das condições, podemos chamar tais funções
de autônomas, embora de maneira secundária.

A criatividade, especialmente a criação artística, deve ser mencionada nesse


contexto. Spiegel (1958) aludiu à sua função especial na diferenciação do ego
e sua faculdade estabilizadora. Por meio da criação artística, diz ele, o que é
eu pode tornar-se objeto e ser externalizada em seguida, podendo com isso
contribuir para estabelecer um equilíbrio entre as catexias narcísica e objetal.
Bernfeld (1924) fala dos produtos criativos dos adolescentes como também
objetos. Além dessa função,

Página 182

a criatividade serve para o domínio interno dos conflitos emocionais.


Wolfenstein (1956) mostrou as complexidades desse processo ao analisar um
poema de A. E. Housman, escrito aos 15 anos de idade. O declínio da
atividade criativa ao final da adolescência coincide com o aparecimento de uma
organização estável do ego e o estabelecimento de fronteiras firmes entre as
representações do eu e do objeto. Na organização do ego do artista, essa
delineação provavelmente nunca é estabelecida com a mesma nitidez que em
outras pessoas.

As funções adaptativas do ego operam na esfera não conflitual do ego. Assim,


a adaptação não é um conceito determinado pelo valor, mas sim definida em
termos de uma organização intrassistêmica. O comportamento pode ser
adaptativo e ainda assim estar em conflito com o ambiente. O que está em
causa é se o comportamento é a externalização de um desejo infantil, ou se
tem origem na esfera não conflitual do ego e não encerra nenhum ganho
secundário de natureza sexual. Quanto a isso, devemos mencionar um
mecanismo que é semelhante à repetição compulsiva. Simplesmente repetindo
uma ação, pensamento, emoção ou afeto, o adolescente pode estabelecer
familiaridade com eles, e tolerá-los. Esse método é especialmente eficaz se a
dosagem da descarga pulsional quantitativa e qualitativamente nova for
regulada e mantida dentro de limites toleráveis. Essa repetição é, então, outro
mecanismo estabilizador usado pelo ego no seu esforço de dominar a tensão
instintual.

O mecanismo estabilizador restitutivo pode ser observado, por exemplo, nas


identificações transitórias da adolescência propriamente dita. Como explicamos
antes, essas identificações transitórias impedem a libido objetal de ser
totalmente esgotada, pelo desvio para o eu. A necessidade que o adolescente
tem de pertencimento a um grupo como expressão da fome social tem
características de um processo de restituição. Ao ganhar acesso a uma vida
exterior plena e estimulante, o adolescente contra-atua seus sentimentos
insuportáveis de vazio, isolamento e solidão. Anna Freud (1958, a) apresentou
um exemplo impressionante do mecanismo restitutivo num estudo sobre
crianças órfãs. As crianças estudadas haviam sido privadas, em seus primeiros
anos, da relação com uma figura materna estável. Essa falta de fixação
materna, longe de tornar mais fácil a adolescência, constitui um perigo real
para toda a coerência interior da personalidade durante aquele período.
Nesses casos, a adolescência é frequentemente antecedida de uma busca
desesperada da imagem materna; a posse interna e a catexia dessa imagem
parecem ser essenciais ao consequente processo normal de desligamento da
libido dessa imagem e sua transferência para novos objetos, isto é, para
parceiros sexuais.

Página 183

Os mecanismos compensatórios são um meio de manter o equilíbrio narcísico.


As falhas mentais ou físicas experimentadas como ofensa narcísica estimulam
a proliferação — muitas vezes forçada — de dotes especiais e com isso
compensam o declínio ameaçador da auto-estima. A observação nos mostra
que o restabelecimento das relações objetais torna o equilíbrio narcísico menos
precário e reduz os mecanismos compensatórios, tanto em amplitude quanto
em intensidade. A taxa desigual de desenvolvimento pubertário que resulta nas
notáveis diferenças de maturação encontradas num mesmo grupo etário é com
frequência modificada individualmente pela representação exagerada ou
atenuada do respectivo nível de maturação. Também nesse caso o problema
narcísico está na raiz da atividade compensatória do ego. Esse recurso para a
estabilização do equilíbrio narcísico dá muitas vezes início a um acidente
experimental que traz a primeiro plano as capacidades latentes que podem
então florescei sob o reconhecimento positivo dos outros e do eu. A transição
para uma função adaptativa do ego, sob tais auspícios, é promovida da
maneira mais favorável.

As vicissitudes das moções pulsionais, em conjunto com as influências


ambientais sobre a adolescência (como a maior liberdade de movi- mento e as
responsabilidades sociais impostas) estimulam certas funções do ego, no
sentido de uma aceleração do desenvolvimento, ao mesmo tempo que
sufocam e retardam outras funções. Hartmann (1950, b) comenta: As
influências que agem sobre o desenvolvimento do ego nem sempre exercem
um efeito paralelo sobre todas as suas funções, no sentido de desenvolvê-las
ou retardá-las. Sabemos que em certos casos não só funções isoladas, como
também setores inteiros do ego podem ser retardados. Essa distinção tem
relevância particular para a adolescência, quando o desenvolvimento do ego se
faz de maneira desigual, avançando em certos momentos as funções
defensivas, e em outros a experimental (atuação, imitação e aprendizado pela
repetição) e em outros ainda as funções adaptativas — em suma, dando
prioridade, em diferentes momentos, a mecanismos do ego claramente
diferentes. Como Hartmann observou, as funções intelectuais ou as funções
defensivas do ego desenvolveram-se prematuramente, enquanto que, por
exemplo, a tolerância ao desagradável é retardada.

Não só a angústia conflitual é responsável pelo desenvolvimento anárquico do


ego na adolescência, como também ressalta a intolerância da tensão, e essa
imaturidade do ego leva, com frequência, a formações patológicas. Essa última
observação é particularmente pertinente para o entendimento da juventude
moderna, na qual os incitamentos e atividades sexuais não provocam maior
angústia conflitual. Mas o refúgio prolongado no alívio sexual pela
masturbação, sem progredir para as relações objetais significativas, serve
apenas para perpetuar o estado de
Página 184

tolerância de baixa tensão, característico do ego imaturo. A sexualidade, que


em gerações anteriores constituiu uma fonte de ansiedade baseada em
anseios sexuais mais ou menos conscientes, egodistônicos, como a tensão
conflitual típica da adolescência, foi nos últimos tempos obscurecida — pelo
menos para segmentos ponderáveis da chamada adolescência sofisticada —
pela condição egossintônica típica do retardamento da maturação de certas
funções do ego. O resultado é um desequilíbrio estrutural intersistêmico no
ego. Esse conflito dentro do ego geralmente leva a processos transitórios de
separação, como meio de impedir um estado de desorganização ou regressão
do ego.

Um traço adolescente típico, a inclinação à ação, deve ser mencionado aqui


porque se relaciona com uma antítese fundamental desse período — a antítese
entre a passividade e a atividade. O medo da passividade em termos de
receptividade e submissão infantil é igualmente forte em ambos os sexos. A
fusão da passividade com aspectos da feminilidade fazem dela, é claro, um
anátema para o menino, em que a ação e a auto-afirmação servem
frequentemente como negações da passividade. Pela projeção, a ameaça
interior é sentida como se existisse no mundo exterior; daí a predileção
adolescente pela atuação. Intimamente relacionado com esse fenômeno é o
negativismo adolescente, de Anna Freud (1951), como uma defesa contra a
entrega emocional e a perda do senso de identidade.

Encerraremos essa discussão dos mecanismos estabilizadores com uma


citação de Freud (1938, a), na qual ele vê esse problema em termos dualistas e
afasta a possibilidade de uma alternativa simples: Quaisquer que sejam os
esforços defensivos do ego para evitar perigos, quer repudie uma posição do
mundo exterior ou procure rejeitar uma exigência instintual do mundo interno,
seu êxito jamais é completo ou irrestrito; disso resultam sempre duas atitudes
opostas, das quais a derrotada, a mais fraca, tanto quanto a outra, leva a
complicações psicológicas.

5. O Ideal do Ego

O conceito do ideal do ego vem desempenhando recentemente um papel


bastante insignificante na psicologia do adolescente. Usaremos esse conceito
porque ele permite delinear uma modificação do ego típica do período
adolescente. O ideal do ego é parte distinta do ego, catexiado com a libido
narcísica e homossexual; ele assume um papel orientador semelhante ao do
superego. Difere deste, porém, por ser mais pessoal e por lhe faltar a tirania
inflexível e a crueldade primitiva.

Página 185

Tanto o superego como o ideal do ego podem ser diferenciados pelo exame de
suas respectivas origens. O superego pode ser acompanhado desde a primeira
infância por meio de muitas de suas etapas precursoras, até assumir a
estrutura definitiva de uma instituição psíquica no declínio da fase edípica. Sua
origem, ou melhor, sua formação, deve-se à solução, ou a vitória de Pirro, que
representa o fim da luta edípica. Da mesma forma, o ideal do ego só atinge a
sua organização definitivamente mais tarde, no declínio da fase homossexual
da primeira adolescência. Os precursores do ideal do ego evidenciam-se em
toda a infância. A instituição psíquica do ideal do ego continua a integrar,
durante a adolescência, um conteúdo sempre variável Sua estrutura porém
continua constante e permanente. A origem do ideal do ego encontra-se na
entrega irreversível da posição edípica negativa (homossexual) durante a
primeira adolescência. Assim, o ideal do ego promove a formação da
identidade sexual e serve para a sua estabilização. Ambas as instituições são
indicadoras de metas e determinadoras de escolhas. As infrações contra as
exigências do superego resultam em sentimentos de culpa, medos de
retaliação e uma necessidade de expiação; a indiferença pelas expectativas do
ideal do ego, por outro lado, resulta num choque para o equilíbrio narcísico e
uma contaminação do ego pela angústia social. O ideal do ego encerra, como
disse Freud (1914), não só um componente individual, mas também um
componente social.

O ideal do ego, pelo menos em sua forma típica e predominante, tem suas
raízes na identificação com o progenitor do mesmo sexo. Recebe um impulso
formativo decisivo durante a passagem do complexo de Edipo, quando a
criança deixa de clamar que é igual ao pai (ou mãe) e dedica seus esforços a
ser e a tornar-se como ele (ou ela). A identificação primitiva, que ignora a
distinção entre sujeito e objeto, é substituída pela identificação com objetos
parciais abstratos, como traços, valores, atitudes. Essas identificações ganham
ascendência, gradualmente, sobre seus precursores de emulação do corpo, ou
de parte do corpo, e idealização global dos pais. Greenacre (1958) refere-se a
esse período com as seguintes palavras: E, portanto, o período do início da
formação do ideal, tanto pelas identificações parciais, adiamento, previsão e a
maior oportunidade de experiência e teste da realidade exterior. A observação
analítica de casos jovens na fase final da adolescência, ou na pós-
adolescência, mostra o apego edípico negativo, ou seja, o componente
homossexual, que não foi transformado em formação do ideal do ego, disso
resultando o colapso do processo adolescente, sob o impacto de uma fixação
sexual infantil. Voltaremos mais adiante ao papel do ideal do ego na
adolescência e sua significação para a resolução do laço homossexual infantil.

Página 186

O ideal do ego assume gradualmente algumas das funções do superego. Essa


modificação ocorre, em sua forma mais nítida, durante a adolescência, quando
a relação entre ego e superego sofre uma revisão radical, isto é, durante as
fases nas quais ocorre o afrouxamento dos laços objetais iniciais, ou o
desligamento decisivo do progenitor edípico. Certamente, ainda na
adolescência, como observou Anna Freud (1952), as atitudes do superego e do
ego são suscetíveis de alterações. Elementos do superego tornam-se, assim,
positiva ou negativamente modificados e integrados no ideal do ego. As
identificações do período adolescente desempenham um papel importante para
proporcionar ao ideal do ego um conteúdo adicional e direção específica.
Normalmente, faltam-lhes a característica de irracionalidade do superego e
são, por definição, egossintônicos. ,

O modelo libidinal de Eu gosto do que eu queria ser estabelece a integridade


narcísica; isso foi descrito acima em termos da fase homossexual da primeira
fase da adolescência. O herdeiro dessa fase é o ideal do ego em sua
organização final. Assim, o ideal do ego passa à condição de uma instituição
do ego pela transformação da libido objetal homossexual em libido do ego, e no
estado concomitante de integridade sexual, encontrável na polaridade
heterossexual. Essa modificação crucial, de um lado fecha as portas à auto-
suficiência bissexual (auto-engrandecjmento megalomaníaco da adolescência
propriamente dita) e, do outro, à escolha objetal narcísica, isto é, homossexual.
Sobre isso Freud (1914) disse: Dessa maneira, grandes montantes de um tipo
essencialmente homossexual de libido são incluídos na formação do ideal
narcísico do ego e encontram saída e satisfação na manutenção dele. Parece
que o desenvolvimento do ideal do ego na adolescência não recebeu atenção
suficiente em termos da influência que exerce sobre a estabilização da
masculinidade e feminilidade e, pari passu, sobre o caráter do ego. Benedek
(1956, b) mencionou um conflito típico da moça moderna que tenta integrar
objetivos opostos em sua personalidade: um ideal do ego masculino (ativo),
rigidamente oposto à repressão como passo essencial no desenvolvimento da
maternalização. Benedek (1956, b) continua: Pela integração de aspirações
masculinas, a mulher moderna adquiriu um superego rigoroso.

Qualquer discrepância entre o ideal do ego e a auto-representação é vista


como uma redução da auto-estima; esse estado pode assumir proporções
intoleráveis. No adolescente, observamos com frequência uma formação de
auto-imagem com reações paranoides provocadas por uma identificação hostil
com uma imagem parental degradada. Esse estado é seguido por uma
restituição narcísica do eu depreciado; e só dessa maneira certos adolescentes
são capazes de contra-atuar a auto-

Página 187

crítica e as reações ambientais negativas que desabam incessantemente sobre


ele. Helene Deutsch (1954) analisou esse problema em relação à psicologia do
impostor.

6. Transferências Cateticas

A retirada da catexia objetal e seu desvio para o eu foi descrita por vários
autores como típica da adolescência: (Bernfeld, 1923); (Landauer, 1935); (A.
Freud, 1936); (Hartmann, 1950, b). Nesse caso, o egotoma o eu como objeto.
Há, como disse Freud (1914), uma certa reciprocidade entre a libido do ego e a
libido objetal. Quanto mais for absorvida por uma, mais empobrecida se tornará
a Outra. A transferência libidinal na direção do eu leva ao aumento do
narcisismo secundário, com prejuízo para a função da prova da realidade.

Os esforços do ego para contra-atuar a retirada da libido objetal exigida pelo


conflito emocional são incessantes. A fenomenologia desses esforços foi
descrita acima, ao examinarmos as fases de desenvolvimento; todas elas
visam a impedir o rompimento com a realidade. O alheamento do mundo
exterior, com a resultante inflação narcísica, pode precipitar estados mentais
com qualidades aparentemente psicóticas; essa condição foi mencionada pela
primeira vez por Bernfeld (1923). Esses estados normalmente passageiros
diminuem quando a libido objetal é novamente voltada para fora e investida em
novos objetos desse mundo exterior. As mudanças nessa condição seguem
paralelas à cessação gradual do auto-erotismo (masturbação) e à passagem
para a heterossexualidade. A pergunta adolescente típica, Quem sou eu?,
representa a experiência subjetiva dessa transferência catética. A perda do
senso de identidade que os adolescentes descrevem frequentemente como
sentimentos

de despersonalização — Isso não sou eu; Eu nada sinto — segue-se à retirada


da catexia objetal. Esse estado agrava-se quando o desligamento emocional
de um dos progenitores representa o abandono de uma relação fortemente
narcisista, da qual o senso de identidade depende quase que exclusivamente
para a sua regulação e manutenção. O rompimento desse laço objetal envolve
necessariamente, e de maneira mais ou menos séria, uma fragmentação ou
perda do senso de identidade. Federn (1929), em suas investigações do
fenômeno de alheamento, sequencia salta ainda que a perda de objeto leva a
uma aflição narcísica concomitante, e que as oscilações de humor que se
seguem a essa perda são um indício saudável da luta entre a auto-suficiência
narcísica (negação do mundo exterior) e a libido voltada para os objetos.
Clinicamente, podemos observar que as proverbiais oscilações de humor dos
adoles-

Página 188

centes diminuem quando a libido objetal volta a ser dirigida para o exterior,
depois de um período de aumento do narcisismo.

A perda de objeto sofrida pelo adolescente em relação ao progenitor de sua


infância, isto é, em relação à imagem parental, contém características de luto.
Essa perda adolescente é mais definitiva e irrevogável do que a ocorrida ao
final da fase edípica. Root (1957) mostrou que o trabalho de luto é uma
importante tarefa psicológica no período da adolescência. Esse trabalho de luto
envolve o ego em reações bem conhecidas. Ele explica em parte os estados
depressivos dos adolescentes, bem como sua reação de sofrimento ao
adiamento do afeto. Para ser completado, o trabalho exige repetição e tempo.
O aparecimento de estados de regressão narcísica a serviço do trabalho de
luto constituiria, portanto, uma reação positiva, e prenunciaria o
desenvolvimento de um ego forte.

Hartmann (1950, b) formulou uma distinção significativa entre as várias formas


da retirada da libido da realidade. Ele observa que devemos considerar se a
parte da autocatexia resultante e localizada no ego ainda está próxima da
sexualidade, ou sofreu um processo completo de neutralização. Um aumento
da catexia neutralizada do ego provavelmente não causará fenômenos
patológicos, mas o fato de ser sufocada por energia instintual insuficientemente
neutralizada pode ter tal efeito (sob certas condições). Tal distinção pode
explicar os diferentes resultados possíveis da retirada da libido do mundo
exterior — isto é, as consequências relativamente moderadas ou patológicas
dessa transferência catética.

As atividades do ego típicas dessa fase de retirada da libido têm o propósito de


proporcionar, pelo auto-estímulo, o sentimento do ego essencial à manutenção
de limites do ego e à preservação da sua continuidade. Esse estímulo é
geralmente proporcionado pelo mundo exterior. Com referência ao
adolescente, Landauer (1935) fala de maior sentimento do ego, entendendo
com isso o aparecimento de estados afetivos que proporcionam um senso de
experiência intensa do ego. Esse maior sentimento do ego visa a contra-atuar o
empobrecimento do ego, causado pela decatexia do mundo exterior (A. Freud,
1936), ou antes, pela decatexia das representações objetais no ego. Esse
estado de empobrecimento do ego parece estar sujeito às flutuações
(oscilações de humor) que refletem êxitos ou fracassos no afrouxamento dos
laços objetais infantis.
A rápida transferência e a instabilidade desses estados do ego são
características da fenomenologia da adolescência: nesse período de
desenvolvimento, a rapidez de variação e a instabilidade não indicam um ego
fraco ou fragmentado, mas sim representam as suas tentativas ágeis de

Página 189

salvaguardar sua continuidade, coesão e contato com a realidade. O


desenvolvimento adolescente é caracterizado geralmente pelas progressões
oscilantes, regressões e paralisações. Demos antes o nome de ações
paralisadoras a essas paralisações que consolidam ou organizam as
mudanças e ganhos interiores antes que se articulem com o ambiente. O
aspecto positivo da retirada da libido do mundo exterior está no domínio interior
pela reflexão, estados experimentais de sentimento, auto-observações e
transferências catéticas no ego, com referência às representações objetais e
do eu. Essas fases são, todas, preparatórias para uma passagem decisiva para
o mundo objetal, que ocorre antes de ser iniciado o domínio exterior. As fases
preparatórias e antecipatórias da mudança interna asseguram um sucesso
mais provável na adaptação a uma nova realidade.

7. A Fase de Consolidação

A prova decisiva do ego, pelo menos no que se refere à capacidade integrativa


e sintética, chega com a fase final da adolescência, a fase da consolidação da
personalidade em termos de interesses preferenciais e fixos do ego, bem como
as necessidades amorosas altamente persona- lizadas. Esses esforços
integrativos do ego são prolongados até a pós- adolescência, com a finalidade
específica de ativar os ganhos interiores sobre o ambiente. Vários
observadores da adolescência surpreenderam-se com o fato de que o período
de reorganização emocional é seguido por um período durante o qual os
processos de integração e adaptação do ego absorvem uma grande parte da
energia psíquica. Wittels (1948) falou de uma segunda latência; Braatoy (1934),
de um interregno; Erikson (1956), que ressaltou o período exigido pelos
processos ego- integrativos e sua ativação sobre o ambiente, deu a esse
período o nome de moratória adolescente.

Dissemos antes que os conflitos só são solucionados parcialmente ao final da


adolescência; ainda assim realiza-se uma síntese que é alta- mente
individualista e estável. Poderíamos dizer que certos complexos conflituais
atingem o grau de um leitmotiv, tornando-se egossintônicos. De qualquer
modo, nossa opinião é de que essa síntese definitiva do ego ao final da
adolescência incorpora remanescentes não resolvidos (traumáticos) da
primeira infância, e que estes remanescentes dinamicamente ativos
proporcionam, por sua vez, uma força motriz premente e decidida (repetição
compulsiva), que se torna evidente na condução da vida. Esses processos do
ego são sentidos subjetivamente como uma

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consciência de uma existência com propósito e significação. A organização


intrassistêmica do ego é afetada pelos processos diferenciadores e
estratificadores; isto é, os interesses do ego são definidos de maneira mais
limitada e disso resulta uma suspensão do escopo ilimitado das vidas
possíveis. Essa organização marca o fim de um estado infantil típico até a
adolescência propriamente dita, inclusive

A consolidação, ao final da adolescência, é acompanhada de repressões que


produzem um estado de amnésia, lembrando os inícios do período de latência.
Há, porém, uma diferença essencial entre os dois: ao final da primeira infância
as lembranças estão mais próximas das emoções experimentadas, e os fatos
são profundamente reprimidos. Por outro lado, ao final da adolescência, as
memórias encerram detalhes fatuais precisos, mas as emoções
experimentadas são reprimidas. Isso foi ilustrado por um paciente do sexo
masculino de 22 anos, que disse: Lembro-me do sentimento maravilhoso da
época em que eu tinha 5 ou 6 anos — posso experimentá-lo agora — de poder
voar para baixo e para cima da escada. Os detalhes fatuais desse período não
foram lembrados. Ele Continuou, com referência às suas memórias da
adolescência: Lembro-me Claramente de que meu amigo e eu nos
masturbávamos e tentávamos ver os espermatozóides ao microscópio. Mas o
único sentimento de que me posso lembrar foi o embaraço por ter deixado uma
mancha no tapete ao ejacular. Já se observou repetidamente que a
reconstrução da vida emocional do adolescente merece atenção maior do que
se tem dado a ela na análise dos adultos.

As alterações do ego mencionadas acima, essenciais para se chegar à


condição adulta, oneram consideravelmente a capacidade sintética e
integrativa do ego. Portanto, a maior mortalidade psíquica da adolescência
ocorre nessa fase. A psiquiatria descritiva do passado considerou a demência
precoce como a condição psicótica que tem seu início típico na adolescência.
Braatoy (1934), num estudo sobre homens entre as idades de 15 e 25 anos,
comentou a frequência da psicose (esquizofrenia) nos homens, que ocorre
exatamente nos anos em que o indivíduo deveria estar começando a colocar
em prática aquilo que até então foi treinamento, sonho e trabalho escolar.

Sempre que o ego sai vitorioso da luta dessa fase, uma satisfação narcísica
legítima — orgulho, autoconfiança e autoconsideração — em- presta
durabilidade e estabilidade a essa realização. O estudo do ego ao final da
adolescência tem apoiado, cada vez mais, a opinião de que as retificações e as
mudanças reparadoras podem ser instituídas espontaneamente numa fase de
desenvolvimento adiantada, como é o final da adolescência. Estudos (Bores e
Obers, 1950) sobre crianças que sofreram privação extrema na primeira
infância indicaram que a deformação da estrutura psíquica por elas
experimentada não era imuta-
Página 191

velmente fixa. Ainda na adolescência os processos reparadores contra-


atuaram, pelo menos parcialmente, deficiências antigas, e ocorreu um
crescimento considerável nas funções do ego. Ainda não sabemos bem quais
os fatores que permitem a crianças que, embora tenham sofrido danos
emocionais severos na primeira infância, efetuem modificações reparadoras
significativas na adolescência.

O ego tem, na adolescência, a tarefa de contra-atuar a influência


desorganizadora do trauma infantil por meio de soluções patológicas. Isso é
feito com o emprego de mecanismos estabilizadores e, finalmente, por
processos de diferenciação, estratificação e integração que são os marcos
psicológicos de uma personalidade coesa. A individualidade é determinada
pela série específica de temas conflituais (traumas) que se tornaram aspectos
permanentes, integrados, do ego. Sua resolução está destinada a ser uma
tarefa para toda a vida.

8. O Ego e o Eu

Com o conceito do ego chegamos a um fenômeno claramente novo no


desenvolvimento do ego em maturação. Não quero dizer, é claro, que o eu
toma forma na adolescência, mas nesse período ele adquire uma qualidade
que até então não possuía. Os observadores clínicos da adolescência referem-
se com frequência a uma formação qualitativamente nova na vida mental no
final da adolescência, que não pode ser explicada apenas pelo fato de o
desenvolvimento psicossexual ter avançado até o primado genital. Um novo
nível de homeostase no mecanismo mental é evidente. Essa circunstância
sugere que a estabilidade não se baseia apenas no declínio do conflito ou
sintonicidade do ego de tensões específica — como descrevemos acima —,
mas que as inovações refletem um princípio organizador de uma nova ordem,
aqui designado como o eu. Precisamos de um termo, observou Grinker (1957),
para ser aplicado a um processo supra-ordenado que funcione integrando os
subsistemas, inclusive as muitas identificações que constituem o ego, o ideal
do ego e o superego, e na organização do comportamento nos papéis sociais
existentes. O termo existente e mais adequado é eu. Parafraseando um axioma
da psicologia da Gestalt, segundo o qual o todo é mais do que a soma de suas
partes, podemos dizer que o ego, ao final da adolescência, é mais do que a
soma de suas catexiais objetais abandonadas, ou a soma de suas
identificações; em resumo, uma nova formação, ou melhor, um novo princípio
organizador, surgiu e pode ser definido em termos do eu.

Página 192

Recorrerei a Jacobson (1954) para uma definição do eu: Por um conceito


realista do eu entendemos o eu que espelha corretamente O estado e as
características, as potencialidades e capacidades, os valores e os limites de
nosso ego corporal e mental; de uma lado, de nossa aparência, nossa
anatomia e nossa fisiologia; do outro, de nossos sentimentos conscientes e
pré-conscientes e nossos pensamentos, desejos, impulsos e atitudes, de
nossas atividades físicas e mentais. Devemos ressaltar que o eu tem uma
longa história individual e não surge como uma formação psíquica na
adolescência. O que é novo na entrada na condição adulta é a qualidade do
eu, sua relativa estabilidade e o efeito que exerce tanto sobre a prova da
realidade como sobre a auto-avaliação realista como base para a reflexão e a
ação. Subjetivamente, o jovem adulto sente que é uma pessoa diferente depois
de terminada a agitação da adolescência. Ele se sente ele mesmo,
experimenta um sentimento de unidade das experiências interiores e
exteriores, em lugar dos excessos fragmentados da sua adolescência. Tudo
isso equivale a uma auto-experiência subjetiva que Erikson (1956) descreveu
como identidade do ego. Spiegel (1958) comenta o fato de que nessa época —
o final da adolescência, é feita a escolha sexual aberta.
A última fase, a fase final da adolescência, na organização do eu pode ser
comparada a um processo de individuação semelhante ao que ocorre quando a
criança de cerca de oito meses sente a separação do ambiente em termos de
eu e não-eu, que não leva em conta o objeto (Spitz, 1957). Essa fase na
diferenciação do ego antecede, de vários meses, a distinção entre o eu e o
objeto. Ambos os processos de individuação têm em comum a resistência
progressiva ao efeito desorganizador dos estímulos interiores e exteriores
(barreira de estímulo) e, portanto, uma crescente dependência da mãe, por
meio da distinção entre a imagem mental e o percepto.

O eu tem aspectos perceptivos e cognitivos igualmente centrífugos e


centrípetos. Toda a autoconsciência combina a consciência do ego da própria
pessoa, misturada com a consciência da reação do outro a ela (Spitz, 1957).
Enquanto que para o bebê as limitações físicas estabelecem o eu físico como o
núcleo da autoconsciência, para o adolescente a formação do eu é dependente
do reconhecimento de seu eu emocional, intelectual, social e sexual. Em outras
palavras, o eu como entidade efetivamente organizada depende do abandono
dos poderes mágicos e megalomania infantis. Esse processo também pode ser
visto em termos de uma objetivação progressiva.

A dificuldade de abrir mão da auto-imagem inflada da infância é, geralmente,


subestimada. Ela só pode ser avaliada corretamente se o conforto e o prazer
obtidos do estado do ego que a acompanha forem levados em conta. A fusão
do eu e do objeto representa uma identifi-

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cação primitiva que permite esquecer os aspectos penosos e indesejáveis da


realidade e do eu. Torna-se possível, assim, partilhar dos atributos e
qualidades do objeto; isso, porém, só se realiza ao preço do falseamento da
realidade interna e externa.
Segue-se, então, que limites sólidos entre a catexia dirigida para o eu e a
catexia dirigida para o objeto são essenciais para uma constância da
percepção da realidade. Uma fluidez no fluxo catético passa das
representações do eu para as do objeto, ou vice-versa, impedirá a estabilidade
do eu: ou a auto-representação é investida das propriedades do objeto, ou as
propriedades do eu são transmitidas ao mundo objetal. Em ambos os casos, a
faculdade da prova da realidade (senso da realidade) é perturbada; as
variações de humor modificarão constantemente o senso do eu, e
determinarão, concomitantemente, a atitude do ego para com o mundo exterior,
e a sua percepção desse mundo (Jacobson, 1954). A influência dos adultos
serve, para as crianças, como um regulador que mantém a fluidez catética
relativamente contida; é uma outra fonte da dependência em que a criança se
encontra com relação à autoridade normativa dos adultos.

A vida mental de muitos adolescentes — e isso é particularmente verdadeiro


nos casos de adolescência prolongada — lembra as relações objetais iniciais e
suas fantasias de ser uno com o outro, pela imitação de gestos e afeto do
objeto amoroso, sem relacioná-los com seus aspectos funcionais, isto é, o
adolescente não se preocupa com a distinção entre a realidade exteriror e o eu.
O recurso a essa manobra de salvamento é usado nos casos em que o
adolescente está ameaçado de uma derrota narcisista por causa de um ideal
inflado do ego. Esse método arcaico de enfrentar a frustração visa a adquirir,
pela identificação primitiva (fusão transitória), um mínimo de auto-estima que
permita fechar os olhos para os aspectos desagradáveis da realidade.
Qualquer coisa que o adolescente tenha realizado por esses meios
proporciona-lhe apenas uma falsa sensação de segurança. Em lugar da
formação de um eu estável baseado em fronteiras firmes entre o eu e o objeto,
ele recorreu a identificações primitivas baseadas no enfraquecimento dessas
fronteiras, e vive num estado que é sentido, subjetivamente, como uma perda
do senso de identidade. Estados transitórios como estes são fenômenos
normais da adolescência. O entusiasmo onipotente experimentado pela criança
quando as representações do eu e do objeto fundiram-se num estado de
grandeza ideal, bem como a desilusão nos pais e a formação da imagem
degradada dos pais que resulta no auto-aviltamento e num sentimento de falta
de valor — essas duas típicas vicissitudes infantis do eu têm contrapartidas
macrocósmicas na adolescência, quando o mundo em geral é levado a
partilhar de reflexos semelhantes das transferências catéticas que ocorrem no
eu. Essas transferências catéticas dentro

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do ego contribuem para o sentimento mutável do ego e para as variações de


humor do adolescente (Jacobson, 1957). No caso de o componente agressivo
e destrutivo da catexia objetal em conjunto com a representação objetal
degradada ser desviado permanentemente para o eu, então a conduta de vida
do adolescente assumirá um curso autodestrutivo, auto-aviltador e ruinoso.
Erikson (1956) referiu-se a esse fenômeno como identidade negativa do ego.

Os perigos da passagem pela adolescência parecem estar no fato de que o


desligamento dos laços objetais infantis envolver uma reversão às primeiras
relações objetais durante o esforço de desligamento. No curso dessa
reorganização, as fronteiras entre as representações objetais e as do eu
apagam-se necessariamente. As transferências catéticas provocam distúrbios
de afeto e identidade que só desaparecem quando essas fronteiras voltam a
ser restabelecidas com firmeza. A deficiência ou inconclusão de uma distinção
nítida entre as representações objetais e as do eu, no ego, impede qualquer
consolidação de personalidade bem sucedida. Vendo de outro ângulo o mesmo
dilema adolescente, podemos dizer que a dificuldade é a superação de uma
ambivalência básica oriunda de processos projetivos-introjetivos da modalidade
oral. Não será necessário repetir que as relações objetais pré-edípicas são
altamente ambivalentes; essa condição reflete-se na instabilidade emocional
típica da adolescência.
As representações objetais e do eu não adquirem fronteiras firmes, isto é, não
se tornam resistentes às oscilações catéticas, ou, em outras palavras, a
constância da auto-estima e dos controles regulatórios interiores (superego,
ideal do ego) para a sua manutenção não são plenamente eficazes, enquanto a
adolescência não chegar ao fim. De fato, o fim da adolescência é definido pelo
fato de que exatamente esse processo se completou. A conclusão é
evidenciada por um declínio das oscilações de humor adolescentes e por uma
modificação das atitudes extremas de idealismo e cinismo, para a atitude de
automaticamente levar a realidade em conta. As expectativas infladas e os
desaponta- mentos fatais no eu gradualmente substituídos pela fixação de
metas razoáveis e pela aceitação de realizações e satisfações que estão
dentro do alcance de um eu dentro do âmbito da autocompreensão, cujas
fronteiras são determinadas por fatores como talento, circunstâncias e época.
Nessa fase de maturação, o ego obtém uma vitória, pelo menos parcial, para o
princípio da realidade, não só sobre o princípio do prazer, mas também sobre o
idealismo exagerado e, com isso, sobre o superego (Jacobson, 1945). Como
dissemos antes, o ideal do ego assume algumas das funções do superego,
serve de guia e dá direção ao ego; ao mesmo tempo, contém a Iibido
homossexual e proporciona um fluxo de elementos narcísicos em termos de
valores abstratos, constru-

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tos ideacionais e metas concretas. A realização dessas metas, ou antes, sua


aproximação e inexorável afirmação e busca, são imprimidas no ego com uma
intolerância menos rigorosa do que jamais permitiu a dominação do superego.

As fronteiras nítidas entre as representações objetais e do eu (freqüentemente


mencionadas como limites do ego) separam o indivíduo do mundo exterior. A
formação do eu ao final da adolescência permite ao indivíduo uma busca
independente dos interesses do ego e uma garantia da descarga da tensão
dirigida para o objeto. Pela mesma razão, coloca-o frente a frente com suas
limitações realistas e a compreensão da condição humana. Conrad Aiken
(1952) fala desse momento fatídico em sua autobiografia: Ser capaz de
separar-se do background — não seria essa a descoberta mais emocionante
de que a consciência seria capaz? E, sem dúvida, pela razão mesma de ser
uma descoberta dos próprios limites, é portanto, implicitamente, o primeiro e o
mais nítido sabor da morte. As duas deusas gregas, Tyche e Ananke, os
princípios filosóficos da Fortuna e da Necessidade, substituem as figuras dos
pais e tornam-se as forças ante as quais o homem se inclina. O senso do
trágico só se desenvolve na fase final da adolescência. A criança sente apenas
a satisfação ou a tristeza, o que é justo ou injusto, encantador ou horrível, bom
ou mau. Mesmo uma criança genial como Mozart só pôde expressar na sua
música a dimensão do trágico, depois de completada a sua adolescência.

Há um aspecto da auto-representação que exige exame especial na


adolescência, ou seja, a imagem do corpo. A criança pequena tem sempre
conhecimento de seu corpo no que se refere a tamanho, capacidades,
diferenças de sexo, além de áreas e sensações que são tabus ou aprovadas.
Esses vários componentes, inclusive suas catexias, são unificados na imagem
corporal. Com o amadurecimento dos órgãos genitais e o aparecimento de
características sexuais secundárias na puberdade, a consciência corporal é
revolucionada e a imagem do corpo é radicalmente revista. Essa mudança é
freqüentemente acompanhada de sentimentos transitórios de
despersonalização. Anna Freud (1958) refere-se ao fato de que a canalização
das representações das partes do corpo pela libido dá origem a sensações e
sentimentos hipocondríacos. A maturação precoce, retardada ou assimétrica
pode provocar perturbações sérias da imagem corporal, levando a disfunções
do ego — vistas com freqüência nos fracassos escolares. O efeito direto do
defeito ou deformação da imagem corporal sobre o colapso das funções do ego
— com um mínimo da angústia conflitual que ocorre — foi estudado por nós em
casos pré-adolescentes de criptorquia (Blos, 1960). Os dados relativos a esses
casos demonstravam como o defeito genital da criptorquia, se agravado pelo
ambiente, resulta numa imagem corporal distorcida, vaga
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e incompleta, que por sua vez exerce uma influência patogênica no


desenvolvimento do ego. Um senso bissexual de identidade nesses casos
refletia a realidade física da inconclusão anatômica. Uma perseverança da
imagem corpórea feminina e a defesa da castração (entrega parcial do corpo)
estava diretamente relacionada com uma realidade corporal e não com uma
organização psicologicamente integrada das pulsões e do ego. Isso tornou-se
evidente quando a confusão da imagem corporal mostrou-se reversível após
uma intervenção operativa.

Uma influência direta e corretiva sobre a imagem corporal — componente da


auto-representação — e uma influência indireta sobre a função do ego é, sem
dúvida, possível na adolescência. O que frequentemente surge como um
conflito endopsíquico é, na verdade, o resultado de uma confusão da realidade
corporal, agravada pelo medo da realidade, como a anormalidade. Assim, os
ímpetos de maturação das mudanças corporais adequadas ao sexo na
puberdade têm um efeito diretamente benéfico sobre as funções do ego, como
a aprendizagem, a reflexão e a prova da realidade. As modificações corporais
adequadas ao sexo na puberdade podem retificar — pelo menos parcialmente
— uma autoimagem deformada, resultando disso que as defesas nela
envolvidas se tornam dispensáveis. Não é preciso dizer que as crises na
maturação pubertária retardada ou inadequada fortalecem a angústia infantil
quanto à incolumidade do corpo que constitui pontos duradouros de
vulnerabilidade.

A psicologia do eu foi enriquecida por um estudo empreendido por Spiegel


(1959) em relação a problemas de percepção. A novidade de sua abordagem
está na aplicação da psicologia da percepção, isto é, da Gestalt, à percepção
interior da própria pessoa (auto-representções) que pode estar sujeita a
vicissitudes análogas. O conceito de estrutura é empregado na psicologia da
Gestalt para se estudar a estabilidade ou instabilidade — em essência, a
relatividade — das avaliações perceptuais. Ao que parece, a avaliação
subjetiva é governada por uma estrutura que pode ser classificada numa
escala a partir do ponto de referência zero. Com a variação da estrutura, as
percepções do mesmo objeto são julgadas de maneira diferente. A constância
da percepção depende da constância da razão entre percepto e estrutura
referencial.

Ao aplicar tais constatações ao campo da percepção interior, Spiegel refere-se


ao eu como estrutura. E conclui que a significação operacional do conceito eu é
sua função como estrutura. Essa estrutura referencial constante (o eu) age,
assim, como um volante controlador para superar a descontinuidade
perturbadora das auto-representações intermitentes. A inter-relação entre o
auto-sentimento e a constância da percepção interior são significativas para o
entendimento das oscilações adolescentes

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no auto-sentimento e para a estabilização final desse sentimento ao final da


adolescência. Enquanto as auto-representações canalizadas com novas
quantidades de energia narcísica ou agressiva não são reunidas pelo ego para
tornarem-se parte do eu, não existe um quadro referencial estável do qual
possa depender a estabilidade do auto-sentimento. Quando é finalmente fixado
um novo nível catético, uma razão constante entre a auto-representação única
e o eu é restabelecida. Isso ocorre especialmente ao final da adolescência,
quando um auto-sentimento relativamente constante começa a aparecer. A
relação entre a hipótese de Spiegel e o conceito de Jacobson, de
transferências catéticas entre os elementos constituintes do eu é evidente.
A natureza e a função do eu foram apresentadas aqui porque o conceito do eu
parece estar se transformando num instrumento cada vez mais importante da
investigação e conceituação no estudo da adolescência. O estudo amplo das
defesas durante o período adolescente parece estar dando lugar a uma
investigação do eu em seus aspectos genético e patológico, e o estudo da
organização psíquica e da reestruturação psíquica está complementando a
concentração no conflito instintual como o aspecto mais destacado do processo
adolescente.

Página 198

(em branco)

Página 199

Capítulo 6

Determinantes ambientais

Foi sempre uma proposição básica da teoria psicanalítica que a estrutura


psíquica tem sua origem na consciência que a criança tem da separação entre
o eu e o não-eu, entre o eu e o objeto, entre o ego e a realidade exterior. Os
rudimentos do ego, tal como aparecem gradual- mente na primeira metade do
primeiro ano de vida, tomam seu padrão das condições ambientais que
deixaram sua marca na mente do bebê, por meio de suas primeiras
experiências de dor e prazer, sendo as próprias condições internalizadas na
estrutura do ego (A. Freud, 1954).
A dependência que a criança tem dos cuidados maternos, do influxo alimentar
e do estímulo do sensório para sua maturação normal, todas essas condições
tornam o mundo objetal um aspecto intrínseco da existência infantil. Segue-se
que uma situação social é a condição para o desenvolvimento psicológico. O
desenvolvimento psicossexual da criança que, é certo, segue um esquema de
maturação física, só pode sofrer essas transformações que asseguram o
crescimento emocional da criança se o ambiente proporcionar oportunidades
concomitantes para as elaborações psíquicas dos pulsões. Falar do homem
instintual é tão enganoso quanto falar do homem social, a menos que se tenha
presente que ambos são abstrações recíprocas e parciais do homem total.

O ambiente da criança é, sempre e em toda parte, representado pelas práticas


e atitudes específicas com as quais as pessoas significativas satisfazem suas
necessidades físicas e emocionais. O mundo exterior é inicialmente modelado
em congruência com o esquema corporal, cuja

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representação mental constitui o ego corporal. Essa orientação espacial e


sensorial básica está permanentemente fixada na analogia inconsciente do
esquema corporal com o mundo exterior, e não perde nunca sua semelhança
associativa arcaica. As observações de Peto (1959) são relevantes a esta
altura: O simbolismo dos sonhos e do folclore indicam que a descoberta e a
avaliação da realidade externa são, em grande parte, determinadas pelo
reencontro do próprio corpo no ambiente. Assim, a imagem corporal é de
importância decisiva para a percepção do mundo que nos cerca. As
peculiaridades da imagem corporal de uma pessoa podem, então, fazer com
que o mundo seja visto como diferente daquele visualizado pelo ser humano
médio.
A realidade reside nas representações mentais do mundo exterior — o
ambiente — que encerra objetos, valores e idéias significativas com as quais a
criança se torna familiarizada. Essas representações mentais, devido às suas
catexias variadas, tornam-se a base de julgamento, motivação e conflito. Ao
descrever os processos psicológicos no homem, uma referência social está
sempre implícita porque sem ela não pode existir nenhuma vida psíquica. O
fato de que a vida psíquica nasce da interação entre dados biológicos, inclusive
os dons instintuais, e o impacto do mundo exterior não deixa dúvida quanto à
sua função complementar. Há graus de complexidade, mas nenhuma
alternativa quanto à prioridade. A internalização do mundo exterior, a crescente
independência do ambiente, o desdobramento da dependência em relação às
instituições mentais, às funções mentais complexas como a fantasia, a
formação de símbolos (fala) e o pensamento — esses processos, em suas
vicissitudes genéticas, dinâmica e estrutural, foram sempre a preocupação
especial da investigação psicanalítica.

As primeiras reações da criança ao ambiente são apenas reflexos. Com o


desenvolvimento da memória, estabelecem-se traços ao longo da maturação
do sistema sensorial, uma distinção entre o mundo interior e o exterior, entre o
eu e o não-eu. Os processos de maturação, como o aumento da coordenação
muscular, como por exemplo ao caminhar, estimulam o reconhecimento do
mundo exterior e a Consciência seletiva dele. A realidade externa é sempre
diferente, no que concerne a sua especificidade de sinal ou significação para
diferentes pessoas, e essa distinção persiste durante toda a vida a despeito do
fato de que os indivíduos partilham de semelhanças Consensuais de
comportamento e atitudes que constituem um laço empático entre membros da
mesma cultura. As semelhanças primitivas pelas quais os indivíduos veem o
ambiente baseiam-se no duplo fato de que, de um lado, têm uma estrutura e
um funcionamento corporais semelhantes, e, do outro, exercem as mesmas
pulsões em relação ao seu ambiente básico. Esse elo genético torna-se cada
vez menos claro, na medida em que as instituições mentais
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alcançam um estado de autonomia progressiva, mas permanece identificável


nos sonhos, fala (metáfora, analogia) e fantasia. Os processos, bem como as
estruturas psíquicas, são mais ou menos os mesmos param todos os
indivíduos de uma determinada sociedade; mas as emoções associadas e o
conteúdo psíquico divergem muito, e suas variações e manifestações são, na
verdade, ilimitadas.

A esta altura, gostaria de mencionar o enquadramento do organismo humano


em seu ambiente social, processo que Hartmann (1950) chamou de ambiente
médio esperável, ao qual o organismo está pré-adaptado, um ambiente que é
uma precondição da sobrevivência. O ambiente médio esperável está de
acordo com o equipamento físico e mental da criança. De fato, a interação
entre ambos, apoiada e dirigida pela maturação e pelo desenvolvimento, efetua
processos diferenciadores de complexidade cada vez maior. Hartmann (1950,
a) refere-se a esse fenômeno como concordância social. De qualquer modo, a
interpretação do ambiente em termos da consciência seletiva e das
recordações obrigatórias constituem os rudimentos do aprendizado, sendo
ministrados pelas pessoas significativas do mundo da criança. Essas figuras
significativas proporcionam conteúdo para o ego e lhe promovem a estrutura;
elas explicam a seleção de perceptos que são catexiados e as representações
mentais do mundo exterior das quais a criança toma conhecimento especial e
ante as quais não pode deixar de reagir. O princípio da realidade recebe uma
nova dimensão depois do estabelecimento do eu rudimentar, à base da
avaliação comum e idêntica, isto é, aprendida, de acontecimentos, objetos e
sentimentos. A identificação com as figuras dos pais estabelece uma crescente
experiência da constância do mundo externo, processo que é ajudado e
estabilizado pela formação de símbolos, ou seja, o uso da linguagem. Só
depois do abandono da ambivalência primitiva a criança pode levar em conta
os sentimentos e motivos dos outros. Só então vemos aquilo que Fenichel
(1944 a) chamou de componente racional do medo social. Ele continua,
dizendo que um julgamento objetivo das reações prováveis do ambiente deve,
em pessoas normais, suplantar as reações rígidas e automatizadas do
superego, do período de latência e adolescência. O desenvolvimento pleno do
princípio de realidade inclui uma certa reprojeção razoável de partes do
superego no mundo exterior.

Toda criança sabe qual o comportamento que é esperado dela pelo ambiente,
e usa esse conhecimento para conseguir o máximo de satisfação. O
adiamento, isto é, a tolerância à tensão, e a capacidade de prever o futuro,
também desempenham um papel essencial nesse pro- cesso. Estímulos
inaceitáveis de fontes interiores e exteriores são bloqueados da descarga
direta, e realizam mudanças interiores — por exemplo, as formações reativas.
Por outro lado, contribuem também para

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o mundo privado do pensamento, fantasia e sentimento, que empresta uma


qualidade individual a toda experiência. As modificações das atitudes do ego e
superego pelas condições sociais foram amplamente demonstradas, tanto
pelos estudos clínicos como pelos antropológicos.

Podemos dizer agora que os aspectos componenciais do ambiente são


experimentados de maneira diferente por diferentes pessoas, e concluir que o
ambiente é aquilo que é percebido, enquanto a realidade é aquilo que é
catexiado. Podemos acrescentar que, em primeiro lugar, o órgão do sentido é
catexiado, e em segundo lugar, o percepto. Segue-se que a realidade no
sentido psicológico é apenas um fragmento do ambiente; este último, sendo
supra-ordenado, é teoricamente ilimitado. A dicotomia entre a percepção
interior e a exterior, porém, continua inalterada. A capacidade de pôr a
realidade à prova, bem como o senso da realidade, têm ambos raiz na fixidez
dessa separação. Cada cultura tem sua imagem do mundo exterior,
idiossincrática e padronizada, que transmite à criança. A relatividade da
realidade em termos de descrição, avaliação, cognição e aspectos emocionais
foi demonstrada pela psicanálise, psicologia, antropologia e sociologia. A
congruência consensual da realidade continua sendo uma questão estatística.
Aquilo que frequentemente parece um comportamento social racional e idêntico
— como por exemplo a conformidade à lei — tem motivações muito variadas,
se visto em relação à personalidade total. O uso uniforme da lógica e da
causalidade estabelece a realidade objetiva em seu sentido científico e
definitivo

A psicanálise estudou as maneiras pelas quais o organismo psíquico se


desenvolve para que possa enquadrar-se num determinado ambiente social, e
nele se manter. A explicação teórica que relaciona o comportamento individual
médio com as instituições sociais e que descreve os seus efeitos mútuos, é a
contribuição da sociologia. Parsons (1950) expressa claramente essa ideia: O
que se entende por estrutura social é um sistema de expectativas padronizadas
do comportamento dos indivíduos que ocupam determinadas posições no
sistema social. Esse sistema de expectativas legítimas padronizadas é
chamado pelos sociólogos de sistema de papéis. Na medida em que uma certa
quantidade desses papéis tem significação estratégica para o sistema social, o
complexo de padrões que define o comportamento neles esperado pode ser
mencionado como uma instituição. Parsons ressalta o fato de que não há
correspondência direta entre a estrutura da personalidade e a estrutura social;
mas não há dúvida de que o comportamento dos indivíduos é motivado para
conformar-se às expectativas institucionais, embora a estrutura pessoal em si
não proporcione um background adequadamente eficaz para isso. Qualquer
desenvolvimento de uma teoria que explique esses mecanismos postulados do
comportamento social pertence ao domínio da sociologia. Somos levados a
acreditar que as condições sociais, que mudam constan-

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temente, exercem influência decisiva sobre a organização psíquica, como fica
exemplificado no quadro variável das neuroses predominantes numa
determinada época. Os processos psíquicos, porém, parecem continuar os
mesmos.

As necessidades biológicas são satisfeitas ou frustradas pelo ambiente


representado consecutivamente por pessoas, objetos e instituições sociais. A
reação do ambiente às necessidades da criança é padronizada
especificamente no interesse da preservação das instituições sociais, como
sistema de parentesco (família, monogamia), hábitos alimentares, tipos de
roupas, sistema econômico, etc. A padronização cultural está ancorada nas
reações emocionais, nas atitudes coerentes e códigos de valor do ambiente.
Essas especificidades aprendidas são resultado de determinadas práticas
empregadas pela sociedade para transformar as moções pulsionais infantis em
convenções e costumes sociais. O que começou na modelação da pulsão
instintual através das experiências de prazer e dor, é logo estendido ao sistema
do ego e superego. Sob esses aspectos, podemos falar da progressão de um
nível somático para um nível de aculturação simbólica.

Erikson dedicou especial atenção aos métodos específicos de educação da


criança, que utilizam a plasticidade do organismo infantil no interesse da
sociedade. Demonstrou esse processo com material clínico e antropológico,
descrevendo o desenvolvimento psicossocial da criança em termos de uma
mutualidade intrínseca entre a criança e a sociedade. A sociedade usa dados
biológicos para desenvolver atitudes, sensibilidades, interesses — tanto
positivos como negativos — que servem à sua conservação, pelo
estabelecimento de uma congruência do ego entre seus membros e
continuidade do ego no interior de cada um deles.
Tal corno a dicotomia tradicional do corpo e da alma caiu no esquecimento sob
a influência da investigação psicanalítica, pela mesma razão parece hoje
imprudente considerar como antitéticos os determinantes biológicos e sociais
do comportamento do homem. As necessidades biológicas e as condições
sociais devem ser consideradas como complementares: as primeiras
continuam estáticas e conservadoras; as segundas parecem mutáveis e
fluidas. Teoricamente, não há limite para as variações sociais pelas quais as
necessidades instintuais do homem se podem expressar. Ginker (1955)
expressou ideias semelhantes: Embora o crescimento físico seja autolimitado,
não observamos ainda limites ao crescimento psicológico, exceto os
determinados pelo envelhecimento dos órgãos somáticos, e não há limites para
a mudança social e cultural. Os indivíduos humanos e suas sociedades
coletivas buscam novas experiências, novos desafios e novos conceitos. Eles
parecem igualmente envolvidos com o crescimento, desenvolvimento e
mudança, independente da autopreservação, embora novos recursos de
regulação interna e

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de homeostase possam seguir-se uns aos outros. Essas observações são bem
ilustradas pelo fenômeno social da adolescência na cultura ocidental.

Muitas vezes já se disse que a sociedade ocidental democrática, capitalista,


não proporciona processos ou técnicas uniformes para a definição do papel do
adolescente, nem essa sociedade reconhece ritualmente a mudança da
situação do adolescente. Em muitas sociedades primitivas, e também em
sistemas políticos de estrutura nacionalista ou totalitária, o adolescente é
reconhecido e enquadrado nos privilégios e responsabilidades pertinentes à
sua posição ou condição na cultura ou sistema. Os procedimentos rituais
simbolizam, com frequência, a fase em que se atinge uma determinada idade.
A antropologia nos proporcionou amplas descrições dos ritos de passagem. As
mudanças de domicílio, o ingresso nas sociedades de jovens, ordálios, provas
de habilidade e resistência pessoal, aquisição de um espírito guardião, a
importância concedida aos sonhos e visões adolescentes, a separação do
grupo familiar, o desaparecimento do lar para embrenhar-se na floresta ou no
deserto, a iniciação na vida sexual, a liberdade em relação às restrições da
infância, o uso de decorações, mutilações, servem como símbolos do maior
status (Van Waters, 1930).

Podemos ver as instituições sociais da cultura ocidental e a maneira pela qual


influem sobre a adolescência sob um ângulo teleológico, semelhante aos
métodos empregados na criação de filhos. A forma pela qual a sociedade toma
conhecimento da criança púbere é significativa- mente relevante em termos da
estrutura de caráter que uma determinada sociedade, no caso a cultura
ocidental, requer para a sua preservação intrínseca. Não é por acaso que os
princípios educacionais sofrem modificações, e que essas modificações tomam
determinada direção. Durante a adolescência, em nítido contraste com a
primeira infância, a falta de padronização institucional é notável. A sociedade
abandona, por assim dizer, a juventude a deixa entregue a si mesma.

Em seu efeito sobre os indivíduos, as instituições sociais visam à elaboração


de atitudes e traços de caráter, à receptividade seletiva aos estímulos sociais e
sistemas de valores que restringem as reações a um âmbito circunscrito. A
angústia social é para o indivíduo o sinal de advertência de que ele está
ultrapassando os limites e pisando terreno perigoso. Parece intrínseco o fato de
que a moderna sociedade capita- lista democrática não oferece à juventude
nenhuma confirmação de status, nenhum rito de iniciação, nenhuma
consagração. Os adolescentes, entregues a si mesmos, formam
espontaneamente organizações competitivas dentro de suas próprias fileiras.
Quadrilhas, grupos e turmas para todos os propósitos e unificadas por todos os
tipos de princípios, colocam-se umas contra as outras: sua ênfase é a
dominação agressiva, a superioridade competitiva e a exclusividade hostil. Na
estrutura desses

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grupos adolescentes opera um princípio de dois valores, segundo o qual as


atitudes (ética) válidas dentro do grupo, mas não fora dele, não são vistas
como contradições morais.

O vazio da adolescência não institucionalizada na sociedade ocidental permite


dessa maneira, de um lado, um alto grau de diferenciação de personalidade e
individualização, já que não há modelos obrigatórios, mas, por outro lado, as
descontinuidades na padronização social e a sobrecarga da autodeterminação
facilitam o desenvolvimento anormal e patológico. O que superficialmente
parece ser, muitas vezes, um comportamento racional e adaptativo, mostra-se
sob melhor exame, instrumento da satisfação instintual do indivíduo em áreas
como competição, espírito de aquisição e de vingança — satisfações que a
sociedade tolera e até mesmo encoraja. Toda sociedade favorece certas
racionalizações, formações de reação e certa sexualização do comportamento;
e a hipocrisia da sociedade inerente à sua organização está exposta,
caricaturada e questionada no comportamento associal e anti-social da
juventude. O comportamento agressivo e competitivo das organizações sociais
adolescentes apenas reflete o padrão social da cultura de que são parte. A
reciprocidade entre a necessidade do indivíduo e as condições sociais pode ser
vista como o determinismo social do comportamento humano. Essa aceitação
social permite, de um lado, a satisfação das pulsões padronizadas e, do outro,
acompanha as funções defensivas do ego pela angústia limitadora ou
controladora.

O que desperta o interesse, quanto a isso, é o limite crítico das instituições


sociais além do qual as necessidades biológicas do homem já não podem
encontrar expressão adequada, isto é, adaptativa; nesse ponto crítico, a saúde
física e emocional mostra sinais de colapso. Essas considerações têm especial
significação em relação aos períodos de desenvolvimento humano, como a
adolescência, nos quais a transformação das pulsões é solidificada em padrões
permanentes de reação — em suma, quando está ocorrendo a formação do
caráter. O ambiente representado pelas instituições sociais e designação de
papéis pode ser visto como criador de estímulos, tanto benéficos como
prejudiciais. Suas influências prejudiciais são a superexcitação do organismo,
tanto somática como psíquica, que normalmente resulta em reações
adaptativas e patológicas. Existe um nível ótimo de estímulo e descarga para o
indivíduo, em relação a todas as áreas de funcionamento. Cada fase de
desenvolvimento exige uma experiência específica, quanto ao tipo e ao
alcance; além disso, cada fase de desenvolvimento exige proteção para pontos
específicos de vulnerabilidade que, de uma maneira ou de outra, são
perpetuados por toda a vida. Acompanhamos esse ressurgimento na
adolescência propriamente dita, e sua integração na personalidade na fase
inicial da adolescência. Normalmente, portanto, uma

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barreira de estímulo protege a criança contra influências perniciosas do


ambiente. De maneira análoga, o ego adolescente protege sua integridade
contra as influências desorganizadoras, prejudiciais, provenientes do id, do
superego e do mundo exterior, por processos psíquicos que foram descritos
acima. Estímulos ou experiências benéficos têm de estar de acordo com as
necessidades fase-específicas; experiências como essas na adolescência
podem ser vistas na criação de grupos, na identificação fora da família, nas
oportunidades de experimentação e na igualdade razoável com os adultos —
por exemplo, no emprego. Somos tentados a definir o ambiente médio
previsível da adolescência, mas o problema adquire Iogo uma complexidade
espantosa e, além disso, está fora do âmbito desta análise. Mas chegar a uma
definição operacional desse conceito representaria um avanço metodológico no
sentido de um programa positivo de saúde mental para a adolescência.
Hartmann (1947) resumiu o problema subjacente em termos abstratos: Não
esqueceremos que as instituições sociais e um clima psicológico desenvolvem-
se, ou são criados, de tal modo que quando a ação ocorre em concordância
com as novas atitudes para com as moções pulsionais e o superego, tenderá a
satisfazer ao mesmo tempo, os interesses do ego (de posição social, influência,
riqueza, etc.).

O registro da fenomenologia da adolescência exigiria um inventário extenso


que teria de sofrer emendas à medida que os dias passassem. Vamos
examinar apenas um item do comportamento da adolescência, o vestuário que
caracteriza e distingue certos grupos, turmas e gangues de coesão mais ou
menos definível. Muitos estilos se apresentam como sendo a roupa da
juventude. Esse vestuário dá expressão às imagens do corpo e do eu, em
processo de modificação, além de servir ao propósito social de estabelecer
uma identidade de grupo em nossa sociedade claro que a roupa do
adolescente é apenas um item, escolhido ao acaso, e que chama a atenção
para a infinita variabilidade existente em qualquer aspecto do comportamento
adolescente. Outras áreas de igual interesse são a gíria adolescente, os estilos
de dança, o comportamento ritual, a etiqueta nas festas, as prerrogativas
masculinas e femininas codificadas, e as obrigações na conduta heterossexual.

O comportamento adolescente típico poderia ser descrito indefinidamente, já


que há não só modificações e inovação constantes, como também nuanças
entre diferentes grupos de vizinhança, entre classes e castas e, na verdade,
variação geográfica — influenciada, sem dúvida, pelo clima, história local (por
exemplo, o Oeste, o Texas), pelas ocupações sedutoras ou dominantes
(cinema, vaqueiros) e pelo espírito predominante em um determinado país ou
região. Bem poderíamos imaginar uma ecologia do comportamento
adolescente, cujo estudo sistemático acrescentaria dados valiosos às ciências
do comportamento. Estamos
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habituados a ver no comportamento padronizado da infância o espírito


predominante de uma sociedade e suas instituições; é de igual interesse
investigar a influência desse mesmo espírito sobre a moda, costume, rituais
adolescentes. A juventude americana, por exemplo, reflete claramente as
características predominantes de sua sociedade: extroversão, companheirismo,
sede de popularidade, participação, boa convivência, e não interferência nos
assuntos alheios.

Os sociólogos estudaram regiões e comunidades nas quais a influência do


ambiente sobre as formas predominantes de comportamento adolescente é
bem documentada. Mas a fenomenologia da adolescência não é o objetivo
desta investigação, e devemos, em lugar disso, concentrar a atenção nas
variações unificadoras do comportamento manifesto, subordinando-as aos
princípios de desenvolvimento, isto é, reconhecendo nelas um processo
adaptativo geral iniciado pela puberdade e que toma numerosas formas. Tão
universal quanto a própria puberdade são as tarefas inerentes que devem ser
realizadas para crescer, na cultura ocidental. O processo adolescente tem
muitas facetas porque é afetado pela soma total das condições — sociais,
econômicas, políticas, religiosas, históricas, educacionais — que constituem a
matriz da vida individual e coletiva. A adolescência deve realizar suas tarefas
de maturação em termos de sua articulação com um determinado ambiente.
Assim, as características adolescentes variam muito, mas podemos supor que
os processos subjacentes refletem semelhanças teleológicas.

Bernfeld foi o primeiro a estudar extensamente esse problema e a investigar as


influências das condições sociais no processo adolescente. Ele descobriu as
semelhanças e diferenças de desenvolvimento típicas dos diferentes ambientes
sociais, como as indicadas pela casta ou classe dentro do mesmo sistema
social, e concluiu que o desenvolvimento psicológico não é perfeitamente
inteligível sem referência ao ambiente social como variável independente.
Bernfeld (1929) diz: As vicissitudes das pulsões instintuais numa determinada
época recebem — à parte a correção de todos os mecanismos e dinamismos
freudianos — sua marca singular do ambiente em que ocorrem Sugerimos que
a questão do aspecto histórico e do impacto do ambiente num determinado
processo psíquico seja delineado e resumido como o aspecto do locus social
[sozialer Ort] no senti.do de ambiente social.

Bernfeld concluiu que tanto um aspecto histórico como um aspecto ambiental


podem ser delineados em todos os processos normais e patológicos, e aplicou
esse conceito à descrição da puberdade masculina simples (1935), que é
ligada ao ambiente, pois segue o caminho mais curto possível para a
organização sexual adulta. Esse desenvolvimento típico da adolescência
abreviada resulta sempre numa certa primitivização da personalidade. Como
dissemos acima, a adolescência requer

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um prazo ótimo, na verdade ligado à cultura, pois só nessas condições as


várias organizações fase-específicas das pulsões provocarão interesse e
atitudes do ego correspondentes ou, em geral, darão à personalidade um
aspecto complexo. A influência do ambiente é portanto reconhecível na
complexidade ou primitivização relativas da personalidade provocadas pelo
objetivo e pelo prazo fixados pelo ambiente social para a conclusão do
processo adolescente.

Voltando ao fato de que as manifestações do processo adolescente permitem


variações intermináveis, vamos considerá-las aqui como epifenômenos. Por
Outro lado, o processo adolescente como reação psicológica à puberdade
produz mudanças intrapsíquicas que veremos como fenômenos nucleares.
Para descrever qualquer segmento do processo adolescente, torna-se
necessário abstrair um determinado epifenômeno ao nível do correspondente
fenômeno nuclear. Só então poderemos reconhecer as referências dinâmicas e
estruturais dentro da organização psíquica. Essas correlações são uma ajuda
essencial na descrição psicológica e no diagnóstico do comportamento
adolescente.

Uma ilustração servirá para esclarecer as observações acima. Dois


adolescentes cujo comportamento e atitude são antitéticos têm em comum o
fato de que lutam com o mesmo problema psicológico, ou seja, o desligamento
dos laços objetais iniciais. Um deles aceita o sistema de valores e os padrões
de classe de sua família; concentra sua rebeldia na usurpação, o mais
depressa possível, dos privilégios agradáveis dos adultos. Em contraste, temos
o adolescente que focaliza a sua rebeldia no sistema de valores de seus pais e
do ambiente a que pertence. Ele não deseja seus privilégios, quer apenas ser
diferente deles. Tudo que é estranho ao seu meio torna-se desejável e digno
de ser feito, pensado, sentido. Esse tipo de adolescente pode vir a ser um
artista, um reformador, um transgressor, um rebelde social, ou um
desequilibrado que quer consertar o mundo; ele tende a se casar com uma
pessoa de fora de sua classe, de sua religião e grupo étnico. -

Qual a situação quando a sociedade, ou melhor, o Estado, usa a rebeldia da


juventude em proveio próprio? Quando isso acontece, os canais de rebelião
que conhecemos numa sociedade capitalista democrática secam
necessariamente e um quadro da adolescência totalmente diferente se
apresenta. Uma descrição da posição da adolescência num Estado totalitário
ilustra isso:

Os jovens comunistas devem ser responsáveis, na República da Alemanha


Oriental, por fiscalizar o comportamento dos mais velhos no comércio e nos
negócios os membros da Federação Comunista da Juventude Alemã devem
funcionar como controladores das transações comerciais. Postos de controle
Página 209

da juventude serão instalados em todas as lojas e cooperativas estatais.


Vigiarão as debilidades e omissões nas transações comerciais. Deverão ser
impiedosos na repressão ao desperdício, à burocracia e às operações
deficitárias Brigadas juvenis funcionam na indústria, verificando se as normas
do primeiro plano quinquenal, agora em seu último ano, estão sendo postas em
prática os membros da Federação da Juventude Comunista fiscalizam o ensino
ministrado nas escolas. Qualquer afastamento do plano estabelecido pelo
regime é imediatamente informado às autoridades. Os professores que não são
comunistas de destaque tratam com deferência e respeito os seus alunos que
têm alguma importância na organização da juventude A juventude, ao que tudo
indica, está se tornando rapidamente uma casta dominante com interesses
próprios no regime, o que é considerado pela geração adulta como uma
imposição estranha. Voltou novamente ao primeiro plano, na semana passada,
o conflito entre a igreja e o regime comunista, em relação à cerimônia da
consagração da juventude, pela qual os jovens assumem solenemente suas
obrigações com a sociedade comunista. *

Ë de esperar que a juventude assim engrandecida e dotada de um status de


casta pelos líderes do governo deixe de voltar a sua rebeldia contra a ordem
social e política existente. Esses herdeiros do regime se transformarão em
conservadores e viverão perfeitamente identificados com a ordem do passado.
Mas se os poderes que consagraram essa juventude forem derrotados, então
uma decepção narcísica e uma perda de identidade (desvalorização da
identificação narcísica) mobilizarão as medidas restitutivas. Vários autores
italianos trataram desse problema e da situação trágica da juventude depois do
colapso do fascismo: Berto (1948), Pratolini (1951) e outros mostraram em
seus romances como a juventude desiludida, a giovinezza engrandecida de
Mussolini, transferiu-se para ideologias políticas novas, principalmente radicais,
para o auto-engano (negação), para a autodegradação, cinismo, transgressão
e criminalidade.

As realidades sociais nas quais o indivíduo adolescente se encontra oferecem


caminhos para a satisfação e a modificação de pulsões dentro de um conjunto
limitado de padrões de comportamento e canais de descarga. Para ser
adaptativa, a busca desses canais abertos tem de ser acompanhada de
posições adequadas do ego. A interrelação entre as pulsões, o ego e o
ambiente não é estática nem linear, mas pode ser melhor descrita como uma
reação circular. Vejamos o seguinte: antes que

Início da nota de rodapé

* Artigo de Albion Ross, de Berlim para o New York Times, 21 de fevereiro

de 1955.

Fim da nota de rodapé

Página 210

um desejo conflitado possa ser executado no mundo exterior, atravessa várias


etapas preparatóriüs, como a mentação pré-consciente, a ação experimental
no pensamento e fntasia, a experimentação (ainda não egossintônica) e
finalmente transforma-se numa ação egossintônica sem conflito ou angústia.
Cada passo na marcha para a expressão de uma pulsão conflitada, mas fase-
específica, produz menos ansiedade devido à compreensão, proporcionada
pela experiência, de que o perigo temido é exagerado e imaginário. Esse
processo de prova da realidade fortalece o domínio do meio pelo ego,
realização que o indivíduo sente como um aumento da auto-estima e da auto-
segurança, e como um senso mais sólido de identidade.

Uma das razões da propensão adolescente à experimentação social está na


oportunidade que ela lhe proporciona de separar o fato da fantasia, isto é, de
estender a soberania do princípio da realidade. Uma criança pequena atribui
frequentemente a alguns de seus atos consequências muito deformadas e
exageradas; a severidade se deve à agressão projetada da criança. Esse fator
desempenha um papel decisivo na formação do superego e é em parte
responsável pela intensidade dos sentimentos de culpa. A severidade do
superego é, portanto, parcialmente independente da realidade. A observação
mostrou que muitos adolescentes criados por pais tolerantes e permissivos
revelam sérios problemas de superego, que são na realidade problemas de
ambivalência não resolvida. A agressão adolescente que não se volta contra os
pais ou o superego, ou contra o eu, é projetada sobre as imagens dos pais no
meio social — polícia, professores, patrões.

Durante a puberdade o complexo de Ëdipo é revìvido e diminui, pelas figuras


autoritárias não incestuosas que tomam o lugar dos pais... estabelecem-se
séries pós-ambivalentes nas quais os objetos de amor e ódio são
representados por pessoas diferentes e, assim, amor e ocorrem com relativa
independência um do Outro (Landauer, 1935). A sociedade oferece objetos
para o ódio partilhado (agressão), condição que mantém a coesão do grupo.
Os objetos do amor partilhado residem, mais firmemente, nos valores e idéias
que muitas vezes são representados por uma pessoa central (Redl, 1942).
Essa dicotomia é realizada lentamente. O adolescente trava uma batalha
contra as figuras da autoridade, com o apoio colaborativo do grupo, cujas
influências mitigam a ansiedade do superego, bem como a ansiedade social.
Pela identificação passageira com a pessoa central do grupo, ou com os egos
de seus membros, o indivíduo encontra ajuda na separação do componente
projetivo do fato objetivo. Esse processo pode prolongar-se por anos; ele
mostra como é importante a vida grupal do adolescente e demonstra a
influência convencionalizadora que o grupo exerce sobre o indivíduo: o
ambiente é visto em termos idênticos por todos os membros do grupo.

Página 211

A transformação pelos processos psicológicos de grupo compreende, com


frequência, o chamado comportamento transgressor do tipo que Glover (1956)
chamou de transgressão funcional, e que é a expressão de um agudo
problema de crescimento, e não consequência de uma fixação patogênica
infantil.

A contribuição de Redl (1942) para o problema dos processos formativos de


grupo na adolescência deve ser mencionada. Ele estudou os tipos de formação
de grupo que correspondem aos respectivos níveis dedesenvolvimento da
criança. A criança latente aceita um padrão grupal patriarcal ou matriarcal do
tipo soberano, mas o pré-adolescente é intensamente atraído pela relação de
grupo do tipo gangue Mesmo as pessoas muito egoístas e mimadas podem
atravessar uma fase de intensa fidelidade a um grupo. Isso dá prestígio Esse
tipo de relação de grupo proporciona um grau considerável de segurança. Eles
[os pré adolescentes] necessitam desesperadamente de expressar as pulsões
e necessidades reprimidas. Muitos deles necessitam mais de proteção da
pulsão do que de sublimação da pulsão O adolescente revela uma preferência
cada vez maior por uma formação de grupo mais sublimada. As necessidades
da juventude buscam escoadouros no grupo que também as protege dos
sentimentos de culpa e angústias, levando a padrões de vida mais maduros O
jovem delinqüente, porém, conserva sua necessidade de proteção da pulsão
pré-adolescente contra os processos educativos. Ë por isso que as chamadas
gangues criminais estão obviamente fixadas no nível pré-adolescente de
formação de gangues.
Que experiências, ou que conteúdo ment.al, na vida de um adolescente
assumem qualidades imaginárias e deformadas, é uma questão difícil de se
responder em termos gerais, mas a maneira pela qual a deformação da
realidade é corrigida segue linhas típicas. A terapia de adolescentes mostra
que a consciência seletiva que o indivíduo tem do meio se modifica, por
exemplo, com a resolução de um conflito ou uma fixação, e também com uma
transferência de defesas. Os mesmos processos que foram explorados na
análise dos adolescentes funcionam geralmente nesse grupo etário. Mas o que
nos interessa aqui é o uso ativo que o adolescente faz ou deixa de fazer do seu
meio. Suas experiências são o aspecto subjetivo desse processo, e variam de
acordo com a sua capacidade de usar os recursos e estímulos do ambiente em
apoio de seu desenvolvimento progressivo. Em muitos casos tive ocasião de
observar, por exemplo, que o internamento de um adolescente num colégio
pode evitar o desenvolvimento anormal causado pelo super-estímulo prejudicial
contínuo, por um dos pais, ou ambos.

Redl (1942) referiu-se a um problema pouco explora.do, dizendo que muitas


crianças que têm problemas em ajustar-se ao seu grupo

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precisam de uma mudança nos seus padrões pessoais de pulsões, ante que se
possam adaptar efetivamente, embora seja igualmente certo que muitas
crianças só são assistidas nas evoluções da personalidade em certas
condições psicológicas de grupo. Normalmente, o adolescente cria para si um
ambiente que leva à sua fase de desenvolvimento. Os mecanismos
estabilizadores que emprega foram descritos acima; vamos, aqui, acrescentar
a identificação com um meio estranho à família. Tomando essa atitude o
adolescente desloca as necessidades e os laços de dependência libidinosa que
já não podem encontrar satisfação na família original. Essa tentativa de
resolver um conflito interior pela ação social, que pode ser de conformação ou
de rebeldia, representa com frequência uma atuação e não um comportamento
adaptativo. Isso ocorre especialmente nos adolescentes cuja oposição social
permanente é determinada por um conflito de ambivalência com a família. Mas
a fuga para um meio subcultural, estranho à família, também pode servir para o
desenvolvimento progressivo. A identificação transitória com um grupo
adolescente de uma cultura específica da idade, ou com grupos adultos de
uma tendência ideológica ou social específica, permite ao jovem experimentar-
se em vários papéis e com isso testar a sua conveniência. Essas fugas são
usadas com frequência como ações de resistência. A eliminação de estímulos
parentais nocivos e o contato com um ambiente, com um potencial de
identificação positiva mobiliza, com frequência, o desenvolvimento progressivo,
depois de ter quase chegado a um estacionamento. A utilidade do ambiente
como fator de estímulo deperde da receptividade seletiva do adolescente; essa
receptividade depende muito de sua autoimagem, e sem dúvida é ampliada e
modificada pelas sanções sociais que predominam em seu grupo, bem como
pelos modelos disponíveis para identificação e contra identificação.

Redl (1942) estudou o efeito particular do grupo sobre as situações de conflito


do indivíduo; referiu-se a ele como o efeito minorador da culpa e do medo do
ato iniciatório. Disse ainda: Observei que as crianças são obviamente ajudadas
em suas decisões, seja a favor das exigências das pulsões ou das exigências
do superego, pela associação com outras crianças que representam
claramente uma ou outra solução... Verifiquei, como condição para esse efeito,
[que] a primeira pessoa deve estar na iminência de ter de tomar uma ou outra
decisão. Além disso, a pessoa influente deve ter resolvido claramente seu
próprio conflito. o que queremos dizer quando falamos coloquialmente de boa
ou má companhia e sua influência sobre os jovens.

Aos dois princípios adaptativos do comportamento aloplástico e autoplástico,


Hartmann (1956) acrescentou um terceiro, no qual nem mundo exterior, nem o
indivíduo, é realmente modificado; em lugar disso, sua relação é modificada:
penso na busca e no encontro de um
Página 213

ambiente mais adequado. Quantas pessoas, na fase final da sua adolescência,


mudaram com êxito de ambiente, por não estarem satisfeitos com o tipo e o
leque de oportunidades de realização oferecida pelo ambiente original! As
fugas temporárias de relações familiares conflitadas muitas vezes ajudam a
afrouxar laços objetais infantis e permitem um retorno menos conflitado à vida
com a família.

A aspecto patognômico da transferência de um ambiente social para outro foi


descrito por Bernfeld (1929). Essa mudança de locus social merece nossa
atenção como um tipo especial de deslocamento da satisfação instintual.
Conhecemos bem esse processo não é raro entre os adolescentes de um
ambiente de classe média que evidenciam sintomas vários de delinqüência.
Encontramos entre esses adolescentes tentativas, bem-sucedidas ou não, de
mudar o locus social com a finalidade de evitar os esforços de repressão ou
sublimação. A maioria dos adolescentes, porém, não pode realizar de maneira
realista essa transferência. O laço libidinal ou social com seu meio original
Continua sendo demasiado forte.

Um caso ilustrativo desse problema é o de Frank, que aos 19 anos fracassou


no colégio e mergulhou num estado de indecisão e letargia. Era filho adotivo de
pais altamente intelectualizados. Durante a psicoterapia, Frank resolveu tornar-
se operário e começou a trabalhar numa fábrica. Sentia-se feliz e à vontade
entre seus companheiros de trabalho e logo resolveu ir morar com uma dessas
famílias. Gostava muito dos prazeres e interesses simples de seu novo meio.
Ao realizar essa mudança de ambiente, Frank seguiu a pressão inexorável do
laço objetal infantil com a primeira família: ele havia vivido com uma família de
pessoas sem cultura antes de ser adotado, aos três anos de idade. Quando
Frank conseguiu lembrar-se de sua infância, bem como do amor que tinha por
seus primeiros pais adotivos, ocorreu um processo de separação gradual. A
atuação como forma especial de lembrança foi traduzida nas lembranças
concretas do seu passado. Quando se tornou dispensável reviver esse
passado, Frank voltou à sua família adotiva. Livre da pressão regressiva de
retornar ao ambiente original, do qual se separara traumaticamente, Frank
voltou ao colégio, trabalhou com êxito para seu doutoramento e chegou ao
mesmo destaque intelectual de seus pais.

Fenichel (1945, a) observou: Certamente não só as frustrações e reações a


frustrações são determinadas socialmente: o que um ser humano deseja
também é determinado pelo seu ambiente cultural. O predomínio e o tipo de
distúrbios mentais são influenciados profundamente pelas condições sociais. A
histeria clássica da passagem do século tornou-se rara, agora que a atmosfera
educacional abriu caminho a atitudes menos proibitivas e menos rígidas na
criação dos filhos. O pré-requisito para o aparecimento da histeria — severa
repressão sexual

Página 214

devido a proibições rigorosas — desapareceu, em grande parte. Sem dúvida a


abordagem esclarecida foi iniciada pelas descobertas da psicanálise. Mas não
devemos esquecer que tais idéias beneficiaram, ao mesmo tempo, o desejo de
onipotência do homem. As esperanças ambiciosas que os pais tem para os
filhos pareceram cientificamente realizáveis, uma vez eliminadas para sempre
as limitações férreas de uma hereditariedade fora de moda. Não é de
surpreender que os distúrbios predominantes em nossa época reflitam em sua
estrutura o teor de princípios educacionais esclarecidos e seus motivos menos
evidentes, mas ainda assim irracionais. A incoerência •da moderna
personalidade neurótica corresponde à incoerência da educação de hoje. A
mudança na neurose reflete a mudança na moral. Diferentes sociedades,
ressaltando valores diferentes e aplicando diferentes medidas educacionais,
criam anomalias diferentes (Fenichel, 1945, b).

Análises de jovens adolescentes e de mulheres mais velhas evidenciaram que


a passagem do padrão duplo para o padrão único não afetou as fantasias da
menina (Deutsch, 1944). As mulheres conquistaram um lugar igual ao do
homem na sociedade, mas o duplo padrão não foi na realidade totalmente
abandonado, e certamente não o foi pelos homens. O medo que o homem
moderno tem da passividade ou da mulher ativa, é tão eterno quanto a luta da
mulher moderna para se harmonizar com sua feminilidade. O conservantismo
das fantasias infantis continua mais forte do que a influência da educação
esclarecida. Helene Deutsch (1944) observa que é inacreditável como muitas
moças modernas ainda imaginam, durante a adolescência, que os orifícios de
seus corpos servem apenas para finalidades sujas e nada têm a ver com o
amor. A ideia da cloaca continua a persistir no inconsciente. O conflito sexual
persiste, apesar da maior tolerância da expressão dos instintos e do maior
esclarecimento sexual, e a nova situação assim criada provocou um aumento
da formação neurótica do caráter.

A mente alerta da criança descobre rapidamente a discrepância entre a


permissividade dos pais e as sanções institucionais. Esse dilema da criança
moderna num lar progressista é ilustrado pelo seguinte episódio: Uma mãe
esclarecida que descobriu que seu filho de oito anos e o colega se haviam
despido em segredo, resolveu tratar o caso naturalmente. Explicou calmamente
que um pênis não é, na realidade, nada de especial — afinal de contas, é
apenas uma outra parte do seu corpo, como o braço, o nariz ou o pé. O menino
voltou-se para a mãe e disse: Há uma diferença, mamãe. A professora nos
ensinou a escrever braço, nariz e pé, mas não nos disse nunca como se
escreve pênis.
A avaliação do comportamento adolescente é sempre complicada pelo fato de
que o princípio da função múltipla (Waelder, 1936) opera em todos os tipos de
comportamento. Uma grande variedade de tendên-

Página 215

cias está presente em cada fato psíquico; a função sintética do ego permite o
aparecimento da ação proposital. O comportamento adolescente é sempre
complexo e superdeterminado; ele não fala por si mesmo, mas requer
interpretação. Os determinantes confluentes do comportamento, originados
tanto dentro como fora do organismo, adquirem uma unidade psicológica na
medida em que o ego é capaz de integrá-los a do desenvolvimento
progressivo. Sempre que a coesão do ego é enfraquecida, e sempre que as
motivações isoladas passam a predominar, como ocorre nos distúrbios
emocionais, o observador clínico adquire percepção do curso dos processos de
adaptação, em virtude dessa própria falha. Ë fato aceito que nós adquirimos
conhecimentos sobre a progressão normal do desenvolvimento através dos
distúrbios de desenvolvimento e sua influência perturbadora sobre o controle
homeostático da personalidade.

Neste exame dos determinantes sociais isolamos as áreas relevantes que


podem ser vistas sob o aspecto de um princípio unificador. O conceito que deu
origem ao determinismo psicossocial do comportamento humano teve origem
na confluência de três tributários, ou seja, o equipamento constitucional, a
sequência da organização das pulsões e do ego, e o ambiente. Nenhum dos
três tem prioridade na determinação do comportamento do homem: cada um
deles exerce uma influência sobre o outro. O equipamento constitucional não
pode ser modificado por influências ambientais; estamos acostumados a definir
as variações congênitas em termos de tipos de atividade (Fries),
temperamento, inteligência, ou barreiras de estímulos (Escalona). Freud (1937)
estava convencido de que o id e o ego possuem um Anlage constitucional que
influencia as propensões individuais a necessidades de certas zonas
específicas do corpo, a graus de bissexualidade e, em geral, a modos de
estabilização preferenciais, efetuados pelo ego. Esse fator constitucional torna
a adaptação individual a uma •determinada cultura mais difícil ou menos difícil,
dependendo das tendências dominantes de suas instituições, da sua
preferência por e aprovação de certas características da personalidade. Por
exemplo, a sociedade americana favorece a criança que é ativa, extrovertida,
segura de si e conquistadora.

O fato de a puberdade ser, em primeiro lugar, um fato biológico, foi ressaltado


com frequência, a fim de não se perder de vista a sua significação básica.
Seguindo o modelo do desenvolvimento psicossexual e do ego, ocorrido na
primeira infância, podemos concluir que a maturação sexual da puberdade
implica também uma tarefa semelhante de adaptação às condições sociais, a
continuação de um processo que funciona desde o começo da vida. A
adaptação à realidade social durante a adolescência adquire uma fixidez e uma
estabilidade que a infância nunca possui. Um certo grau de continuidade,
constância e igualdade

Página 216

no ambiente tem um significado funcional para a estabilidade da estrutura e da


função psíquicas. A criação de um ambiente idiossincrático é tarefa da fase
final da adolescência. Na realidade em que essa tarefa é bem realizada,
podemos calcular o potencial aloplástico do indivíduo. O ponto crítico do
desequilíbrio, bem como o ritmo das mudanças ambientais que podem ser
toleradas e integradas, variam de pessoa a pessoa.

As tarefas adaptativas da adolescência serão sempre realizadas em termos de


uma realidade interior que foi modelada por experiências anteriores de ter sido
uma criança numa certa família, num determinado lugar, durante uma fase
específica da história, como uma Anlage determinada. A articulação particular
do ambiente das necessidades adolescentes processa-se dentro dessas
condições fixas e determina o curso manifesto que tomará a passagem de
cada indivíduo pela adolescência,

Página 217

Capítulo 7

Duas ilustrações do desenvolvimento adolescente anormal

Ao delinearmos as fases da adolescência, fizemos repetidas referências às


tarefas psicológicas fase-específicas. Essas fases do desenvolvi- mento
progressivo foram definidas em termos da organização das pulsões e do ego;
foram vistas como ponto críticos na epigênese do desenvolvimento
adolescente, porque a incapacidade de realizar as transformações essenciais
dentro de um certo prazo crucial leva necessariamente à anormalidade na
formação da personalidade.

Não será necessário dizer que os desvios do desenvolvimento normal jamais


ocorrem sem fatos antecedentes que exercem sua influência significativa.
Aquilo que observamos clinicamente é apenas uma quebra definitiva do
desenvolvimento progressivo. Referimo-nos a essas falhas como fixações
numa das várias fases, seja da infância ou da adolescência. Essa falha pode
ocorrer em qualquer dos momentos críticos do desenvolvimento da
adolescência definidos acima. Na verdade, com frequência só a nível
adolescente, quando o desenvolvimento progressivo foi paralisado, é que se
torna evidente a persistência da fixação na primeira infância, e o grau de sua
afirmação. Embora tenha sido possível para a criança avançar até a
adolescência, muitas vezes é nesse período que fica evidente se as mudanças
transformatórias efetuam soluções de compromisso na forma de reparos
adaptativos (ver o caso de John, página 139), ou se o desenvolvimento
progressivo será paralizado. O desenvol-

Página 218

vimento patológico é geralmente disfarçado pelo fato de que o ego e a pulsão


progridem parcialmente, apesar de sua subordinação constante às fixações
anteriores. Ao examinarmos um desenvolvimento que sofreu derrota na fase
pré-adolescente, nã nos devemos deixar enganar pelo fato de se ter
manifestado um certo grau de adaptação e de orientação heterossexual.
Podemos reconhecer nos derivados das modalidades da pulsão e do ego pré-
adolescentes fase-específicos, nas disposições hierárquicas mal organizadas
dos componentes da pulsão e dos interesses do ego, e especialmente no medo
— muitas vezes desordenadamente — da mulher fálica, castradora, os sinais
indiscutíveis de uma fixação na fase pré-adolescente. Uma análise do quadro
clínico revela que as modalidades da pulsão e do ego primitivas, isto é, alheias
à fase, afirmam-se num nível mental e somático que avançou devido à função
do crescimento. O crescimento pubertário, afinal de contas, processa-se
independentemente do crescimento emocional, embora em circunstâncias
normais, na verdade, exista uma correspondência ótima entre ambos. O
conceito da fixação adolescente é ilustrado pelo material clínico que se segue.

Parece oportuno, a esta altura, repetir o fato de que nenhum curso natural da
adolescência pode ser mapeado com precisão, e com a previsibilidade que o
crescimento pubertário pode pretender. Tudo o que podemos dizer é que a
adolescência permite elaborações infinitas, de suas transformações psíquicas
progressivas dentro dos limites de um padrão sequencial e dentro de certos
limites de tolerância individual.
Há vários cursos específicos do processo adolescente. O delineamento
esquemático que se segue é proposto como uma tentativa de classificar as
observações dentro das linhas típicas das variações clínicas. 1) Adolescência
típica: modificação progressiva da personalidade de acordo com o crescimento
pubertário e com a modificação do papel social; 2) adolescência protelada: um
prolongamento culturalmente determinado da condição de adolescente; 3)
adolescência abreviada: busca do caminho mais curto possível para a condição
adulta, às expensas da diferenciação de personalidade: 4) adolescência
simulada: um período de latência abortivo faz a puberdade manifestar-se numa
simples intensificação de uma das organizações de pulsões da pré-latência; 5)
adolescência traumática: atuação regressiva, como por exemplo a delinqüência
feminina; 6) adolescência prolongada: perseveração no processo adolescente
causada pela libidinização dos estados adolescentes do ego; 7) adolescência
abortiva: rendição psicótica com perda do contato com a realidade e colapso do
aprendizado diferencial. As três primeiras dessas categorias enquadram-se no
âmbito da adolescência; as quatro últimas representam evoluções anormais.
Espera-se que a formulação das fases seja útil na medida em que oferece um
insight da dinâmica e etiologia das falhas de desenvolvimento.

Página 219

Os dois exemplos de desenvolvimento anormal apresentados a seguir ilustram


a teoria do desenvolvimento adolescente em termos de colapsos específicos
do processo adolescente. A significação de certos processos tal como são
definidos nas alterações fase-específicas do ego e das pulsões pode ser
confirmada e aperfeiçoada pelo estudo da adolescência anormal. O
desenvolvimento anormal, por sua vez, indicará a latitude que o
desenvolvimento fase-específico pode tolerar e explicitará as consequências
patogênicas de um afastamento das exigências essenciais do
desenvolvimento. Este material clínico, portanto, lançará luz principalmente,
sobre o desenvolvimento normal — cuja caracterização e descrição foi meu
objetivo principal em todo este livro. As duas ilustrações clínicas não
pretendem elucidar a psicologia do adolescente em geral. Mostram, porém, um
curso típico que o desenvolvimento adolescente pode tomar, depois de ter
chegado a um impasse crítico, e nesse sentido os casos representam, é claro,
uma psicopatologia típica do período e a ele restrita.

Como o rapaz e a moça seguem caminhos diferentes de desenvolvimento


emocional, é evidente que o desenvolvimento anormal deve ser representado
por um síndrome masculino e um feminino.

1. Adolescência Prolongada no Homem a

A expressão adolescência prolongada foi criada por Bernfeld (1923). O objeto


de sua investigação naquela época era a adolescência masculina prolongada,
como fenômeno social observado nos movimentos europeus de juventude,
depois da Primeira Guerra Mundial. Os membros desses grupos apresentavam
uma forte predileção pela intelectualização e pela repressão sexual, retardando
com isso a consolidação do conflito adolescente. A designação de
adolescência prolongada passou a ter, com o tempo, uma conotação mais
ampla, disso resultando que a especificidade do termo foi perdida. Somos
forçados a dizer que adolescência prolongada é um termo descritivo e coletivo
que compreende condições de constelações dinâmicas heterogêneas, das
quais selecionei uma para um exame mais detalhado.

Minhas observações referem-se a jovens americanos de classe média, tendo


entre 18 e 22 anos, que geralmente frequentam curso superior ou têm
aspirações profissionais; esse fato quase sempre os torna depen-

Início da nota de rodapé


* Este item baseia-se num artigo publicado originalmente, em forma um pouco

diferente, em The American Journal oj Orthopsychiafry, outubro de 1954.

Fim da nota de rodapé

Página 220

dentes de suas famílias durante esses anos. O quadro clínico que delinearei a
seguir foi observado com freqüência suficiente para assegurar a apresentação
de um sumário sinático.

A expressão adolescência prolongada, tal como usada aqui, refere-se a uma


perseveração estática na posição adolescente, que em circunstâncias normais
é de natureza transitária. Uma fa•se cle amadurecimento que deveria ficar para
trás, depois de ter realizado a sua tarefa, torna-se um modo de vida. Em lugar
do empuxo progressivo que normalmente leva o adolescente à condição
adulta, a adolescência prolongada paralisa esse movirnento de avanço, disso
resultando que a crise adolescente não é abandonada nunca, mantendo-se
indefinidamente aberta. Na verdade, há um apego persistente, desesperado e
ansioso à crise adolescente. Uma mistura de satisfação com esse estado de
agitação está sempre presente. Quem observa esses indivíduos percebe
rapidamente a tranquilidade superficial que é obtida de uma situação que
mantém aberta a crise adolescente. O apego fervoroso à inquietação
adolescente em relação a todas as questões da vida torna qualquer avanço
para a condição adulta uma tarefa que dificilmente valerá seu preço. Esse
dilema leva à elaboração de maneiras engenhosas de combinar as satisfações
infantis com as prerrogativas adultas. O adolescente luta para contornar a
finalidade das escolhas que são feitas ao final da adolescência.
Viver na penumbra de uma transição não completada torna o adolescente
retraído e tímido. Quando ele procura ficar sozinho, torna-se inquieto e
confuso. Essa incapacidade de estar só força-o a unir-se a grupos. A
companhia salva-o dos devaneios e da preocupação auto-erótica. As amizades
com rapazes são transitórias ou instáveis; o envolvimento homossexual é uma
ameaça constante. Quando ele se liga a uma moça, apega-se a ela com uma
fidelidade devotada e dependente. Aparentemente, ele é capaz de intimidade e
encontra satisfação nas relações sexuais; examinando-se melhor, porém,
essas chamadas relações sexuais parecem ser do tipo de prazeres
preliminares, como beijos, toques, proximidade corporal, prazer na nudez e
masturbação mútua. Essa relação amorosa não tem um caráter apenas sexual:
o compartilhamento de interesses, ideias e ideais desempenha papel
importante. Essa necessidade intensa de compartilhar envolve intenso
egocentrismo e exigência, que revelam a natureza infantil dessa relação. A
moça escolhida é sempre um desafio adequado ao apego incestuoso do
parceiro, porque tem traços que são notavelmente diferentes ou semelhantes
ao membro significativo da família, seja mãe ou irmã. O tipo de moça escolhido
geralmente condenado pela família do rapaz. Ë como se o adolescente, pela
escolha de seu objeto amoroso, fizesse um esforço convulsivo para se
desembaraçar de um envolvimento infantil. Essa batalha da emancipação é
travada tendo a namorada como companheira de armas, e

Página 221

freqüentemente continua por um longo período. Também vimos casos em que


se transformou num casamento harmonioso, nos casos em que a terapia
interferiu nesse impasse na luta pela separação da família.

As expectativas exageradas com relação a si mesmos são predominantes nas


vidas desses jovens. De uma maneira ou de outra, eles mostraram, quando
crianças, algum talento promissor; a maioria deles é bem dotada e inteligente.
Sob a influência da ambição e da supervalorização narcisista, começaram a
esperar grandes coisas de si mesmos. Fama e grandeza, paixão e riqueza,
aventura, figuram intensamente em suas fantasias. As primeiras decepções
numa carreira que supostamentedeveria ser perfeita ocorrem como golpes
esmagadores. Em momento algum o jovem deixa de reconhecer o fato de que
o fracasso o está olhando de frente. Fica aborrecido, irritado e ansioso, mas
não tenta manter a fantasmagoria sem vida nem regride às posições infantis.
Não perde a iniciativa de empreender a ação útil; na verdade, o perigo iminente
de entrega mobiliza todos os seus recursos interiores para afastar as fases
finais e decisivas da luta. A vida desses adolescentes nunca parece totalmente
vazia e apagada; só num exame mais detalhada compreendemos como estão
perdidos no vazio da incerteza e da dúvida. Para escapar do esgotamento
narcísico eles se apegam desesperadamente a tentativas contínuas de ter
êxito. Mas novamente o exame cuidadoso mostra que tais esforços são
displicentes e de uma falsa eficiência. Em toda essa agitação, a faculdade
crítica da auto-observação nunca é totalmente perdida sendo, com efeito,
facilmente despertada, se a deixa adequada surgir na terapia. O conhecido
estado de aparência esquizofrênica da adolescência não é parte desse quadro
clínico.

Se ignorarmos por um momento as muitas semelhanças que o esboço sinótico


acima tem com o quadro geral da adolescência, veremos mais claramente a
diferença essencial que distingue esses casos das outras formas de reação
adolescente. A diferença está na notável capacidade de resistência contra a
pressão regressiva, bem como na persistência em evitar qualquer consolidação
do processo adolescente. São esses os aspectos dominantes da condição
específica a que se dá o nome de adolescência prolongada. Inversamente,
poderíamos dizer que ela é a expressão de uma necessidade interior de
manter aberta a crise adolescente.

A sinopse clínica feita acima deve ser complementada, a esta altura, por
considerações dinâmicas. Em As Transformações da Puberdade, de Freud
(1905, b) aprendemos que com o advento da maturidade sexual na puberdade
ocorre uma nova distribuição da ênfase na experiência sexual que permite a
diferenciação entre o prazer sexual preliminar e o prazer sexual completo, e
que estimula uma estruturação dos alvos instintuais. A inovação biológica na
puberdade necessita de uma rees-

Página 222

truturação hierárquica das várias posições infantis — modos de satisfação e de


resolução de tensão, bem como identificações — que, por várias razões,
continuaram indispensáveis ao funcionamento da personalidade e exigem uma
expressão continuada. E fato bem conhecido que as pulsões pré-genitais
voltam a manifestar-se logo que surge a puberdade. Essa premência de uma
organização hierárquica definitiva das pulsões ganha importância com o
avançar da adolescência e proporciona impulso de maturação que não permite
pausa, no caminho para a maturidade. A organização hierárquica, porém, não
se restringe às pulsões sexuais, aplicando-se também às funções do ego. Isso
pode ser ilustrado pelo pensamento mágico, uma função arcaica do ego; se o
pensamento mágico predominar na adolescência, perturbará a unidade do ego
e em consequência desorganizará sua capacidade de pôr a realidade à prova.
Se, porém, o pensamento mágico for subordina.do à fantasia e encontrar uma
saída na experiência criativa, então o ego pode conservar sua unidade. Nesse
caso, dizemos que a ideação orientada para a fantasia e a ideação dirigida
para a realidade tornam-se distintas e mutuamente exclusivas. Esse processo
de diferenciação amplia a esfera livre de conflitos do ego.

O processo adolescente pode ser considerado terminado quando é alcançada


uma organização hierárquica e relativamente inflexível das pulsões genitais e
pré-genitais, e quando as funções do ego adquirem uma capacidade de
resistência significativa contra a regressão. Evidentemente, a sublimação e as
defesas desempenham seu papel nesse processo. A adolescência prolongada,
se considerada como uma pausa indefinida no caminho para a condição adulta,
resulta, como qualquer preservação excessiva de uma fase de
desenvolvimento, na deformação dos atributos da personalidade. Em nítido
contraste com os processos de diferenciação essenciais para a síntese
adolescente do ego, a adolescência prolongada parece caracterizar-se por uma
falha na organização hierárquica das pulsões e das funções do ego.

Durante a adolescência prolongada, as funções do ego — pensamento,


memória, julgamento, concentração, observação — são prejudicadas por duas
fontes, ou seja, por uma inundação de pulsões sexuais e agressivas, e por uma
ascendência de funções arcaicas do ego e defesas primitivas. O adolescente
recua para os modos anteriores de controle da tensão; isso revela que o
período de latência realizou apenas progressos reduzidos no desenvolvimento
do ego. Ilustremos essa situação com um exemplo típico: se os estudos
criarem no adolescente uma tensão que só possa ser minorada pelo recurso a
formas auto-eróticas de descarga — masturbação, sono, fome — ou se o
estudo for associado geralmente com fantasias de absorção, então a margem
de tensão indispensável à compreensão e domínio de um problema não pode
ser man-

Página 223

tida e qualquer esforço de estudar está destinado ao fracasso. Na adolescência


normal, esses modi operandi são transitórios e acabam sendo abandonados;
mas na adolescência prolongada, esse abandono não só não é pretendi.do,
como é até mesmo evitado e contra-atuado.

Surge agora a questão dos fatores econômicos que impedem os jovens na


adolescência prolongada •de recorrer a qualquer solução, mesmo abortiva, da
crise adolescente. No estudo desse grupo de adolescentes tornou-se evidente
que tinham uma constelação infantil típica em comum. Foram todos
considerados pelos pais, e mais enfaticamente pela mãe, como destinados a
grandes coisas na vida. Por motivos relacionados à sua própria formação de
personalidade, essas mães inclinavam-se a transferir para os filhos suas
fantasias de sucesso, com uma indiferença completa pelo sexo da criança, sua
capacidade e seus interesses. Essa situação é resumida pela história da
mulher grávida que responde orgulhosamente ao comentário de uma amiga
sobre a sua condição: Sim, estou esperando meu filho, o doutor. As crianças
que tende a viver de acordo com as fantasias de seus pais esperam que a vida
transcorra de acordo com as promessas da mãe ou do pai. A adolescência
prolongada evita uma crise que deve terminar com a esmagadora com-
preensão de que o mun.do fora da família não reconhece o papel que a criança
tentou •desempenhar nas duas primeiras décadas de sua vida. Sempre que as
suas fontes de identida.de são preponderantemente exteriores, o indivíduo
perde seu senso de identidade se é retirado do meio; sempre que isso
acontece, ele segue o esquema da manutenção da identidade infantil, dizendo:
Sou aquilo que os outros acham que sou. É precisamente isso que acontece
quando esses adolescentes tentam o rompimento dos seus laços emocionais.
Eles percebem subitamente que tal atitude é acompanhada de um
empobrecimento narcísico que não são capazes de tolerar. Portanto,
continuam a viver na autoimagem que as mães, pais ou irmãs criaram para
eles.

Sobre esses jovens, poderíamos dizer que seu grande futuro fica para trás,
quando chegam ao umbral da condição adulta; nada que a realidade tem a
oferecer pode competir com aquela fácil sensação de entusiasmo e
excepcionalidade que a criança sentiu ao ser objeto •da admiração e da
confiança maternas. Tanto mãe como filho, por motivos pessoais, fecham
constantemente os olhos para as primeiras falhas, inibições, hábitos nervosos
ou traços exibicionistas femininos. A sanção dos pais neutraliza a significação
da falha; a criança passa a substituir o domínio da realidade pelo
engrandecimento narcisista. A fantasia não se separa nunca .nitidamente do
pensamento voltado para a realidade. O senso de tempo do adolescente é
afetado pela sua substituição constante do futuro pelo passado e, além disso,
por sua vaga crença de que

Página 224

um momento de sorte pode realizar aquilo que geralmente leva muitos anos
para ser feito.

Não causa surpresa encontrarmos, nos primeiros anos de vida desses jovens,
desvios espantosos do processo típico de identificação. Quando eram crianças,
sempre lhes faltou afirmação e autocrítica; eles aceitavam placidamente a
posição exaltada em que eram colocados pelas mães. Em consequência,
desenvolveram uma autossuficiência submissa, feminina e narcisista que
frequentemente faz deles jovens encantadores, atraentes. Quando rapazes,
esses adolescentes sentem-se à vontade na companhia de mulheres, mas
constrangidos, receosos e inibidos em seus contatos com homens. Ao se
identificarem com a mãe, cedo abrem mão da competição com o pai e, assim,
os anseios passivos estão sempre na iminência de se revelar. Quando
adolescentes, tratam o pai com admiração afetuosa, ou com piedade e
desprezo; e nisso imitam também a atitude materna. Não é de surpreender que
a revolta adolescente, quando surge, seja dirigida exclusivamente contra a
mãe. Bernfeld (1923) ressaltou o papel da identificação feminina num tipo de
adolescência prolongada que ele chamou de adolescência genial (genialische
Pubertät). Um exemplo do síndrome descrito aqui, mas com raízes, e
articulado, num ambiente cultural diferente — o da sociedade soviética —
encontra-se em Oleg: Membro da Juventude Dourada Soviética (Beier e Bauer,
1955). A busca de uma segurança dupla por esse adolescente Soviético levou
ao impasse o seu desenvolvimento adolescente. Os fatores etiológicos
parecem semelhantes aos da adolescência prolongada.
A identificação básica com a mãe cria uma crise para o menino em
crescimento, quando a puberdade lhe cria o problema premente da identidade
sexual. Esse dilema foi expresso por um adolescente mais velho, que disse: Há
uma coisa que se deveria saber e ter certeza, se somos homem ou mulher.
Quando o conflito da bissexualidade, que faz parte da adolescência normal,
pressiona por uma solução final na adolescência propriamente dita, a
adolescência prolongada o contorna pela preservação na posição bissexual.
De fato, essa posição é libidinizada, e antes se recusa do que se busca o seu
abandono. As satisfações assim possíveis referem-se à necessidade de
possibilidades ilimitadas de vida, e ao mesmo tempo mitigam a angústia da
castração perpetuando a ambiguidade da identidade sexual. Essa ambiguidade
reflete-se significativamente no fracasso, falha ou ineficácia profissional ou
educacional do adolescente, bloqueando a progressão para o final da
adolescência final.

Para a criança narcisista há sempre uma escapatória fácil da tensão conflitual:


ela circunscreve o conflito pela negação e/ou auto-engran-

Página 225

decimento. De fato, a criança não sente a natureza do conflito, mas antes raiva
e irritação devidas a uma ofensa narcísica. Quando a criança que usou
exclusivamente as defesas narcísicas se aproxima da adolescência, não é de
surpreender que os conflitos típicos dessa idade estejam, realmente, fora da
esfera de sua experiência consciente. O adolescente desse tipo torna-se
apreensivo ao compreender que está aquém das suas auto-expectativas
exageradas; avidamente, busca estímulo, ao qual então reage com entusiasmo
em termos de hábito de evitar tensão conflitual.

A adolescência prolongada apresenta um quadro paradoxal: não há conflito


para ser tratado porque não foi experimentado nenhum conflito. Ë necessário
ajudar esses adolescentes a chegar ao conflito da adolescência propriamente
dita, antes que entrem na fase da consolidação da adolescência final. A
adolescência é, para esses meninos, um fato novo cheio de esperança. Anna
Freud (1936) observou que a maturação sexual na puberdade introduz a
ascensão da masculinidade no menino passivo feminino, que coloca
temporariamente em segundo plano os anseios passivos; cria-se dessa forma
uma condição mais favorável a um desenvolvimento potencialmente
progressivo. A pulsão para a dissociação emocional dos laços com a família
opressora predomina e o adolescente sente esperanças enquanto a crise
adolescente continua a existir. A incapacidade de abandonar as posições
infantis, juntamente com o desejo de independência e auto-afirmação máscula
fora dos limites da família, combinam-se para fazer do prolongamento da
adolescência a única solução ao seu alcance.

Compreendemos que a necessidade de manter aberta a crise adolescente é


uma medida protetora contra duas alternativas fatais: a regressão e
rompimento com a realidade (solução psicótica) ou a repressão e formação de
sintomas (solução neurótica). Nesse dilema, o ego adolescente prefere evitar
ambas as alternativas e, em lugar disso, modificar sua própria natureza; cria-se
assim um modo de vida a partir de uma fase de maturação transitória. Ë
sempre possível ao ego evitar o rompimento de qualquer de suas relações,
deformando-se, sujeitando-se a perder alguma coisa de sua unidade ou, a
longo prazo, até mesmo a ser retalhado e despedaçado (Freud, 1924, a).

A restrição e a regressão do ego colocam o adolescente em desarmonia com


as exigências da sociedade, e prejudicam as funções executivas do ego. As
frustrações resultantes são neutralizadas pelas super-compensações
narcísicas, como um otimismo inflado e uma satisfação pela fantasia. Um
recurso poderoso para a manutenção do equilíbrio narcísico é proporcionado
pelo pensamento mágico que não foi abandonado e nunca foi rigorosamente
substituí.do pelo princípio da realidade. As intenções e potencialidades tomam
facilmente o lugar da realização
Página 226

e do domínio. Uma subcorrente de angústia, sempre presente, é apenas em


parte contida pela interferência das medidas defensivas; o que transborda
serve para estimular pseudo-ações intensificadas, tentativas abortivas de
transpor as fantasias infantis para as atividades adultas. Um exemplo: um
estudante que tinha que se preparar para uma prova de biologia elementar
voltou-se apaixonadamente para o estudo dos mais eruditos artigos sobre a
matéria, mas negligenciou o estudo de seu manual ou de suas anotações.

A ansiedade conflitual, que durante a adolescência normalmente ativa, a


reorganização e a repressão libidinais, tem, na adolescência prolongada, um
insignificante poder de motivação para ativar processos de sintetização. A crise
adolescente mantém-se aberta pelas acomodações do ego descritas. Podemos
dizer que a estrutura da adolescência prolongada é semelhante à de um
distúrbio do caráter: em ambas, as atitudes restritivas do ego não são sentidas
como estranhas a ele. Mas a rigidez de um distúrbio de caráter não está nunca
presente na adolescência prolongada; de fato, o processo adolescente
mantém-se num fluxo e acessível à intervenção terapêutica. Não devemos
esquecer que a preservação da condição adolescente só é possível dentro de
certos limites de idade. A adolescência prolongada tem de acabar se
submetendo — até meados da década dos vinte anos — a um esquema mais
organizado e rígido; o distúrbio de caráter narcísico é que melhor descreve a
tendência geral do desenvolvimento patológico que a adolescência prolongada
acabará por assumir.

As condições dinâmicas e econômicas da adolescência prolongada são


oportunas para a intervenção terapêutica. O desenvolvimento da personalidade
ainda é fluido e tem um alto grau de plasticidade. Além disso, a posição de
resistência que o ego mantém em duas frentes, ou seja, contra a progressão e
contra a regressão, demonstra uma força considerável que pode ser utilizada
no trabalho terapêutico certo que quando jovens desse tipo buscam auxílio,
fazem-no na esperança de restabelecer uma existência narcísica e
relativamente livre de tensões, e de facilitar, como se por um passe de mágica,
a realização de suas pulsões contraditórias — por exemplo, a autoafirmação e
a submissão. Mas o que lhes dá o empurrão final para que busquem a terapia
é a frustração narcísica causada pela decepção ou fracasso constantes nas
suas iniciativas profissionais, educacionais ou sociais. Destacam-se nesse
quadro o desapontamento com a incompatibilidade gritante entre a
autoimagem e a realização na realidade, e uma premência angustiada de
encontrar uma saída rápida para o estado intolerável de desespero narcísico.
Mas buscamos em vão a ansiedade conflitual como índice de

Página 227

urna luta intrapsíquica. Essa constelação envolve uma busca de uma solução
essencialmente exterior; portanto, são feitas na terapia exigências constantes
de interpretações generalizantes, de uma revelação da experiência infantil
patogênica, uma sugestão ou conselho, uma fórmula ou truque. Sempre que tal
solicitação é atendida, o adolescente se sente momentaneamente melhor, mais
esperançoso- e feliz. Essa reação está de acordo com a habitual manutenção
da auto-estima, tal como estabelecida na infância.

O fato de a tensão não estar estruturada e organizada em termos de conflito


psíquico aponta para a direção em que a terapia inicial tem de se mover, ou
seja, a de provocar a experiência do conflito; em outras palavras, a terapia tem
de ajudar o jovem a chegar ao conflito da adolescência propriamente dita. Com
esse objeto, duas intenções terapêuticas predominam: 1) aumentar a tolerância
à tensão; 2) desmascarar as defesas narcísicas. Esse objetivo terapêutico
torna imperioso ao terapeuta a abstenção de qualquer das assim chamadas
interpretações profundas ou dos instintos, já que essa atividade, pelo
terapeuta, seria explorada a serviço do sistema de defesa narcísico. A reação
do adolescente poderia ser parafraseada com a frase: Ah, agora eu sei por quê
— portanto, esse problema está solucionado. Além disso, é imperativo que o
terapeuta se despoje de todas as formas da onisciência que lhe é imputada e
de todos os poderes mágicos que são tão tranquilizadores para esse tipo de
adolescente. Com isso, o terapeuta opõe-se diretamente à figura materna que
proporcionou satisfação narcísica permitindo à criança partilhar de sua
grandeza. Ë muito irritante para o adolescente quando o terapeuta responde
suas perguntas ansiosas com um eu não sei, mas por outro lado o paciente
respeita sua coragem, honestidade e incorruptibilidade. Não devemos esquecer
que o adolescente conserva a tendência a identificar-se com um adulto que
tem os atributos de personalidade por ele desejados. O objetivo do terapeuta é
substituir a participação e a fusão infantis pela identificação, ou, em outras
palavras, substituir a busca de fontes exteriores de auto- estima (salvação da
fantasia) pela descoberta dos próprios recursos. De fato, a exploração e teste,
a avaliação e diferenciação desses recursos na vida cotidiana constituem uma
grande parte do trabalho terapêutico.

Durante essa fase do trabalho torna-se evidente que o adolescente recebe bem
o fato -de o analista ser capaz de enxergar através de sua fachada de
pretensão e arrogância. Uma ilustração: um homem de 20 anos foi a uma
conferência e descreveu todas as perguntas idiotas feitas ao conferencista.
Quando o terapeuta lhe indagou que pergunta havia feito, ele respondeu com
perfeita calma: Nenhuma. O que tem isso a ver com o fato de serem idiotas as
outras perguntas? Quando o tera-

Página 228

peuta insistiu na pertinência de •sua indagação, à luz do ataque crítico aos


outros ouvintes, o paciente ficou confuso e confessou sua total ignorância do
assunto, que supostamente era do campo de seu interesse especial.
Reconheceu que suas conversas sofisticadas e cultas baseavam-se
inteiramente em ideias habilmente recolhidas de outras pessoas. Não havia um
único livro desde o primeiro ano do curso secundário, mas espertamente
conseguira a reputação de ser um aluno muito lido. Esse exemplo ilustra o
desmascaramento de uma defesa narcísica; se o abandono da leitura estava
ou não relacionado com um conflito de infância, não nos interessa nessa fase
da terapia, quando o enfoque recai sobre a desmontagem do sistema narcísico
de defesa e a sujeição do ego à tensão e ao conflito.

Sempre que são abandonadas atitudes estereotipadas do ego, são feitas novas
tentativas de domínio, resumidas sob a denominação geral de experimentação.
Esta envolve a prova da realidade, do eu e da interação deles. Nesse sentido,
a experimentação e a diferenciação progressiva da autoimagem seguem
paralelas e provocam um funciona- mento mais eficaz. O domínio cada vez
mais adequado torna-se uma nova fonte — legítima, poderíamos dizer — de
satisfação narcísica. Assim, a manutenção do equilíbrio narcísico é
progressivamente determinada pelos processos auto-reguladores e não pela
dependência total das influências externas.

Durante essa fase da terapia, a experiência de vida do adolescente geralmente


se enriquece com a experimentação consciente; o âmbito das funções
autônomas do ego se amplia, enquanto os anseios infantis adquirem
gradualmente uma qualidade egodistônica e se isolam do resto do ego. A
realização da realidade e a maior tolerância à tensão possibilitam esse
progresso. Concomitantemente, os determinantes patogênicos são melhor
focalizados e os distúrbios neuróticos organizados tomam forma: o paciente
sente conflito e angústia. A decisão sobre a suspensão do tratamento depende
do equilíbrio entre a mobilidade afetiva obtida nessa primeira fase da terapia e
a força inflexível das fixações não afetadas por ela. Se for evidente que as
forças que originalmente explicaram a condição da adolescência prolongada
continuam presentes, então, apesar de uma melhoria •muitas vezes
impressionante de funcionamento, a progressão para a maturidade continua
sendo uma expectativa ilusória, e a psicanálise deve completar o trabalho
terapêutico. Em outros casos, a primeira fase da terapia promove o abandono
das defesas narcísicas da adolescência prolongada e mobiliza, ao mesmo
tempo que canaliza, os recursos afetivos do adolescente a um ponto a partir do
qual ele pode levar à frente o processo adolescente e concluí-lo sem ajuda.

Página 229

2. Pseudo-heterossexualidade na Menina Delinquente*

O estudo da psicodinâmica da delinqüência inclinou-se sempre para as


formulações gerais. As ideias predominantes no campo do comportamento
humano e sua motivação tendem a ser usadas para solucioná-la. De fato, os
determinantes etiológicos modificam-se com a pesquisa psicanalítica
prevalecente; a teoria da satisfação dos instintos, bem como a teoria da
ausência do superego ficaram para trás, e as considerações relativas à
patologia do ego passaram ao primeiro plano.

O que mais nos intriga no delinquente é a sua incapacidade de internalizar o


conflito, ou antes, a maneira engenhosa pela qual contorna a formação 4e
sintomas sentindo a tensão endopsíquica como conflito com o mundo exterior.
O uso exclusivo das soluções aloplásticas, antisociais, é um aspecto da
delinqüência que a distingue das outras formas de falhas de adaptação. Ele
contrasta claramente com a solução neurótica ou psicótica, representando a
primeira uma adaptação autoplástica e a segunda, uma adaptação autista.

A delinqüência refere-se, por definição, a um distúrbio de personalidade que se


manifesta em conflito claro contra a socieda.de. Só esse fato basta para
colocar em primeiro plano o aspecto socia1 do problema, e estimulou a
pesquisa sociológica, que por sua vez lançou luz sobre as condições
ambientais que estão relacionadas, de maneira significativa, com o
comportamento delinquente. O estudo da delinqüência sempre foi, por
necessidade, multidisciplinar, e não deve ser reivindicado por nenhuma
disciplina como seu setor exclusivo de investigação. Limitar-me-ei aqui, porém,
ao exame de alguns fatores psicodinâmicos que predispõem à delinqüência, tal
como podem ser reconstituídos a partir do comportamento delinquente aberto e
apoiados pelos dados históricos no caso.

Fui sempre da opinião de que a delinqüência masculina e a feminina seguem


caminhos diferentes, e são na verdade essencialmente diferentes. Os casos de
delinquências masculina e feminina dão a impressão de que a segunda está
próxima da perversão, mas o mesmo não se pode dizer da delinqüência
masculina. O repertório da delinqüência feminina é muito mais limitado, em
âmbito e variedade, do que o da delinqüência masculina. Além disso, nela
nota-se a ausência significativa de atos destrutivos contra pessoas e
propriedades, como também não há o aventureirismo imposto dos rapazes. O
comportamento irregular da menina limita-se ao roubo do tipo cleptomaníaco, à
vagabundagem, ao

Início da nota de rodapé

* Material publicado, sob forma diferente, em Psychoanalytic Study of the Child,


vol. 12, 1957.

Fim da nota de rodapé

Página 230

.
comportamento provocante e impudico em publico e ao desregramento sexual
franco. Ë claro que os rapazes fazem a mesma coisa, mas tais atitudes
constituem apenas uma parte de sua delinqüência. Na menina, ao que parece,
a delinqüência é um ato sexual claro; ou, para sermos mais exatos, é uma
atuação sexual.

Essa disparidade ocorre porque nas delinquentes femininas a organização das


pulsões infantis, e que nunca foi abandonada, vem à tona com o início da
puberdade e encontra um escoadouro corporal na atividade genital. Os alvos
instintuais pré-genitais que dominam o comportamento delinquente da menina
relacionam essa delinqüência com as perversões. Um menino adolescente
colhido num conflito ambivalente com o pai pode defender-se contra o medo e
o desejo da castração embebedando-se, destruindo bens ou roubando e
danificando um carro. Com frequência, seus atos são urna tentativa de
desenvolvimento progressivo, embora abortivo (Neauks e Winokur, 1 975). As
atividades delinquentes típicas do rapaz encerram elementos de um agudo
interesse pela realidade; além disso, o rapaz é fascinado pela luta travada
entre ele mesmo e as pessoas, as instituições sociais e o mundo da natureza.
Em contraste, a menina adolescente que tem igual propensão à atuação,
vingar-se-á da mãe, por quem se sente rejeitada, procurando relações sexuais.
Jovens desse tipo contaram-me as suas fantasias persistentes durante o jogo
sexual ou o coito, como: Se mamãe soubesse, morreria; ou Você vê (mamãe),
também tenho alguém. Aichhorn (1949), num trabalho sobre meninas
delinquentes sexuais, acha que a predisposição supera qualquer fator
ambiental. Com referência à prostituição juvenil generalizada em Viena, depois
da Segunda Guerra Mundial, ele diz que suas observações levaram-no a
acreditar que uma das causas de seu {das jovens prostitutas] comportamento
era uma certa constelação emocional. O meio e as privações eram apenas
fatores secundários. Talvez as meninas delinquentes classificadas como
psicopatas pudessem ser consideradas como casos de perversão.
Schmideberg (1956) segue tendências semelhantes de reflexão. Ela contrapõe
a reação neurótica à reação ou sintomas perversos e ressalta o fato de que as
primeiras representam uma adaptação autoplástica, e as últimas, aloplástica. E
continua: Num certo sentido, o sintoma neurótico é de um tipo mais social, ao
passo que o perverso é mais antissocial. Há, assim, uma conexão bastante
estreita entre as perversões sexuais e o comportamento delinquente, que é por
definição antissocial. A impulsividade que é igualmente forte no comportamento
da atuação e nas perversões, é bem conhecida. Sem generalizar sobre a
delinqüência em si, eu diria que a identidade entre a delinqüência e a
perversão corresponde extremamente bem ao quadro clínico da delinqüência
feminina, embora constitua apenas uma variante

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especial na etiologia, diversa e muito mais heterogênea, da delinqüência


masculina.

Por que são estruturadas de maneira diferente a delinqüência masculina e a


feminina? A melhor resposta a essa pergunta é dada pelo exame de certos
aspectos do esquema de desenvolvimento da primeira infância. Os focos de
desenvolvimento selecionados representam também pontos potenciais de
fixação que podem levar o adolescente, menino ou menina, a situações de
crise totalmente diferentes.

1. Todas as crianças pequenas veem a mãe, no princípio da vida, como a mãe


ativa. A antítese característica desse período de vida é ativo-passivo (Mack-
Brunswick, 1940). A mãe arcaica é sempre ativa, a criança é passiva e
receptiva em relação a ela. Normalmente, uma identificação com a mãe ativa
representa o fim da fase inicial de passividade primitiva. A bifurcação do
desenvolvimento psicossexual do menino e da menina já se esboça nessa
ocasião. A menina volta-se gradualmente para a passividade, enquanto a
primeira inclinação do menino para a ativi.da.de é mais tarde absorvida na
identificação que ele normalmente estabelece com o pai.
A identificação inicial com a mãe ativa leva a menina, por meio da fase fálica, a
uma posição edípiea ativa (negativa) inicial, como um passo típico do seu
desenvolvimento. Quando a menina volta as suas necessidades amorosas
para o pai, há sempre o perigo de que seus anseios passivos para com ele
voltem a despertar a dependência oral anterior; um retorno a essa passividade
original impedirá o avanço bem- sucedido para a feminilidade. Sempre que um
apego indevidamente forte ao pai marca a situação edípi.ca da menina,
podemos suspeitar que há, por trás dele, o precursor de um apego
indevidamente profundo e dura- douro para com a mãe pré-edípica. Só quando
é possível à menina abandonar seu laço passivo com a mãe e passar a uma
posição edípica passiva (positiva) pode ela ser poupada da regressão fatal à
mãe pré- edípica.

2. O primeiro objeto amoroso de toda criança é a mãe. A menina finalmente


abandona esse primeiro objeto e busca seu senso de integração, bem como de
realização, na sua feminilidade, voltando-se para o pai; isso sempre se segue a
uma decepção •com a mãe. O sexo do objeto amoroso do menino não muda
nunca, e por essa razão seu desenvolvimento é mais direto e menos
complicado que o da menina.

Em contraposição ao menino, a situação edípica da menina não sofre nunca


um declínio abrupto. Estas palavras de Freud (1933) são relevantes: A menina
continua na situação edípica por um período indefinido, e só a abandona no
final da vida e mesmo assim de maneira incompleta. Portanto, o superego
feminino não é tão rígido e duro quanto o masculino; ele só se consolida
gradualmente, e continua menos

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tirânico e menos absoluto. Na menina, a situação edípica continua a ser parte
de sua vida emocional durante todo o período de latência. Será talvez esse fato
responsável pela sua pronta inclinação para a heterossexualidade no princípio
da puberdade? De qualquer modo, observamos na adolescêncja feminina uma
pressão regressiva que exerce sua influência na direção de um retorno à mãe
pré-edípica. Essa pressão regressiva, determinada em seu vigor pela fixação
existente, encontra a reação no exercício da independência excessiva, da
hiperatividade e uma inclinação vigorosa para o outro sexo. Esse impasse é
notavelmente demonstrado na adolescência, no apego frenético da menina aos
rapazes, na tentativa de resistir à regressão? Uma regressão resultará, tanto
para o menino como para a menina, numa dependência passiva com uma
supervalorização irracional da mãe, ou do representante da mãe.

3. Perguntou-se frequentemente por que a pré-adolescência é tão diferente no


menino e na menina, por que o menino se aproxima de sua
heterossexualida.de, introduzida pela puberdade, por meio de uma
perseverança prolongada na pré-adolescência com uma recapitulação extensa
e por vezes complicada dos impulsos pré-genitais. Nada comparável pode ser
observado na menina pré-adolescente. Não há dúvida de que o meio social
tem uma influência aceleradora ou retardadora sobre o desenvolvimento
adolescente, e, em consequência, uma comparação significativa dos padrões
de desenvolvimento só pode ser feita entre meninos e meninas de um meio
semelhante.

A pré-adolescência, como fase marcada por alvos libidinais heterogêneos no


menino e na menina, dá motivo a sérias tensões nas crianças dessa idade. A
menina aproxima-se da heterossexualidade mais direta e rapidamente do que o
menino. O valor relativo da masturbação como uma saída corporal para a
tensão sexual, para o menino e para a menina, pode contribuir na facilidade
com que a menina se volta para a heterossexualidade. Creio, porém, que
acontecimentos anteriores na vida da menina têm mais peso do que este. A
diferença observável no comportamento pré-adolescente é anunciada pela
repressão maciça da pré-genitalidade, que a menina tem de fazer antes de
poder passar à fase edípica; de fato, essa repressão é um pré-requisito para o
desenvolvimento normal da feminilidade. A menina afasta-se da mãe ou, para
sermos mais precisos, retira dela a libido narcísica que era a base para a
supervalorização confortadora dela, e transfere essa supervalorização para o
pai. Tudo isso é bem conhecido. Apresso-me portanto a dizer que a menina, ao
afastar-se da mãe, reprime as moções Pulsionais que estavam intimamente
relacionadas com o cuidado e assistência corporal que ela lhe proporcionava,
ou seja, o âmbito total da pré-genitalidade. O retorno a esses modos de
satisfação, na puberdade, constitui a base para a correlação entre a
delinquência feminina e a perversão. A re-

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gressão e a fixação surgem sempre como condições necessárias e


complementares.

Parece, portanto, que a menina. que na adolescência não pode manter a


repressão d•e sua pré-genitalidade encontrará dificuldades no seu
desenvolvimento progressivo. Uma fixação na mãe pré-edípica e um retorno às
satisfações desse período resultam, com freqüência, no comportamento de
atuação que t•em como tema central o bebê e a mãe e a recriação de uma
união na qual mãe e filho se confundem. As mães solteiras adolescentes e
suas atitudes para com os filhos oferecem amplas oportunidades de estudo do
problema.

Em contraste com a situação da menina, a do menino é totalmente diferente.


Como ele preserva o mesmo objeto amoroso por toda a infância, não enfrenta
a necessidade de reprimir a pré-genitalidade, que de modo geral é igual à da
menina. Mack Brunswick (1940), em seu trabalho clássico A Fase Pré-Edípica
no Desenvolvimento da Libido, diz: Uma das maiores diferenças entre os sexos
é a proporção enorme em que a sexualidade infantil é reprimida na menina.
Exceto nos estados neuróticos profundos, nenhum homem recorre a qualquer
repressão semelhante de sua sexualidade infantil.

O menino adolescente que volta às satisfações das pulsões pré-genitais


durante episódios regressivos transitórios ainda está em relativa consonância
com seu desenvolvimento progressivo sexo-adequado; não está com ele,
certamente, em nenhuma oposição fatal. Os distúrbios de comportamento
causados por esses movimentos regressivos não são necessariamente tão
prejudiciais ao seu desenvolvimento emocional quanto o são para a menina.
Paradoxalmente, a relação da menina com a mãe é mais persistente e
freqüentemente mais intensa e perigosa, do que a relação do menino. A
inibição que ela encontra quando se volta para a realidade a leva de volta para
a mãe por um período marcado por exigências amorosas mais intensas e mais
infantis. (Deutsch, 1944).

4. Segue-se que há basicamente dois tipos de delinquentes femininas: um que


regressou à mãe pré-edípica; e outro que mantém desesperadamente um pé
na fase edípica. O problema •central de relação de ambos é a mãe. Esses dois
tipos de delinquentes cometem ofensas que se parecem e que são iguais
perante a lei, mas que são essencialmente diferentes quanto à dinâmica e
estrutura. Temos, num caso, uma solução regressiva, enquanto no outro temos
uma luta edípica que não chegou nunca a qualquer grau de internalização ou
solução.

As considerações teóricas tendem a apoiar a tese de que a delinqüência


feminina é, com frequência, precipitada por uma forte pressão regressiva no
sentido da mãe pré-edípica e o pânico que essa rendição provoca. Como
podemos ver facilmente, há duas soluções para a menina que enfrenta um
fracasso ou decepção edípicas e que é incapaz de
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superá-la. Ou ela regride em sua relação objetal para a mãe, ou mantém uma
situação edípica ilusória com o único objetivo de resistir à regressão. Essa luta
defensiva é manifestada pela necessidade compulsiva de criar na realidade
uma relação na qual ela é desejada por e necessária para seu parceiro sexual.
Essas constelações representam as precondições paradigmáticas da
delinqüência feminina.

5. Tenho a impressão de que esse segundo tipo de menina delinquente não só


sofreu uma derrota edípica nas mãos de um pai — literal ou figuradamente —
distante, cruel ou ausente, mas além disso também testemunhou a insatisfação
da mãe com o marido; mãe e filha partilham o desapontamento e um laço forte
e altamente ambivalente continua a existir entre elas. Nessas circunstâncias,
nenhuma identificação satisfatória com a mãe pode ser realizada; em lugar
disso, uma identificação hostil ou negativa forja uma relação destrutiva e
indestrutível entre mãe e filha. As jovens adolescentes desse tipo fantasiam,
muito conscientemente, que se pudessem estar no lugar da mãe, o pai
mostraria o seu verdadeiro eu, que ele seria transfigurado pelo seu amor no
homem de seus desejos edípicos. Na vida real, essas jovens delinquentes
escolhem promiscuamente parceiros sexuais que tenham evidentes defeitos de
personalidade, negados ou tolerados com uma submissão masoquista.

Em termos mais gerais, podemos dizer que o seu comportamento delinquente


é motivado pela necessidade que tem a menina da posse constante de um
parceiro que lhe sirva para superar, na fantasia, um impasse edípico e mais
importante do que isso, para vingar-se da mãe que odiou, rejeitou ou
ridicularizou o pai. Além disso, observamos o desejo da moça delinquente de
ser sexualmente necessária, desejada e usada. Fantasias de despeito e
vingança para com a mãe são numerosas; na verdade, o próprio ato sexual é
dominado por essas fantasias, dis.so resultando a falta de prazer sexual.
Procuramos em vão, nessas moças, o desejo de um filho; se ficam grávidas, é
um ato de vingança ou competição que se reflete na sua atitude para com ele:
Bem poderia ser dado a outra pessoa.

6. A delinqüência feminina baseada na regressão à mãe pré-edípica apresenta


um quadro dinâmico totalmente diferente. Helene Deutsch (1944) chamou
nossa atenção para a dissolução, pela menina, da dependência passiva da
mãe como precondição para o desenvolvimento normal da feminilidade; essas
ações de separação são típicas da primeira adolescência. Deutsch continua:
Uma tentativa pré-púbere de libertação da mãe, que falhou ou foi demasiado
fraca, pode inibir o crescimento psicológico futuro e deixar uma marca
definitivamente infantil em toda a personalidade da mulher.

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A moça delinqüente que fracassou em sua libertação da mãe protege-se contra


a regressão por uma exibição desordenada de pseudo-heterossexualidade. Ela
não tem relação com seus parceiros sexuais nem por eles se interessa; de fato,
sua hostilidade para com os homens é grande. Isso é ilustrado por um sonho
de uma menina de 13 anos, em que acusou a mãe de não amá-la, e que por
despeito passou a ter relações sexuais com rapazes adolescentes; no sonho,
diz ela, teve 365 filhos, um para cada dia do ano, de um menino a quem matou
com um tiro depois disso. O menino serviu-lhe apenas para satisfazer
necessidades orais insaciáveis. Conscientemente, ela estava quase obcecada
pelo desejo de um filho que, em sua infantilidade faz-de-conta lembrava o
desejo da menina peque.na de ter uma boneca.

Um comportamento que à primeira vista representa o recrudescimento de


desejos edípicos revela-se, dessa maneira, a um exame mais cuidadoso,
relacionado com pontos de fixação anteriores situados nas fases pré-genitais
do desenvolvimento libidinal, onde foi experimentada uma privação ou um
superestímulo rigorosos, ou ambos.

A pseudo-heterossexualidade desse tipo de menina delinquente serve como


defesa contra a atração regressiva da mãe pré-edípica, isto é, contra a
homossexualidade. Uma menina de 14 anos, ao lhe ser perguntado por que
precisava de dez namorados ao mesmo tempo, respondeu com justa
indignação: Tenho de fazer isso; se eu não tivesse tantos namorados, diriam
que sou lésbica. Essa mesma menina estava preocupada com a ideia de se
casar. Contou essas fantasias à assistente social, a fim de provocar sua
interferência protetora. Quando a assistente mostrou-se indiferente aos seus
planos de casamento, ela explodiu em lágrimas e a acusou: Você me
pressionou! Eu não quero me casar!

Podemos ver claramente, no caso, como a atuação heterossexual deve sua


premência, ou sua pressão decisiva, à necessidade frustrada de ser amada
pela mãe. A preocupação da menina com o casamento mascarava o seu
anseio da mãe pré-edípica e encontrou uma satisfação substituta no disfarce
de pseudo-amor heterossexual.

Uma decepção aguda com a mãe é frequentemente o fator precipitador


decisivo na ilegitimidade. A unidade mãe-filha é indiretamente restabelecida,
mas nas circunstâncias mais desfavoráveis para a filha. As mães solteiras
desse tipo só podem encontrar satisfação na maternidade enquanto a criança é
dependente delas; elas se voltam contra o filho logo que os anseios de
independência se afirmam. O resultado é a infantilização da criança.

7. Mais uma possibilidade está aberta à menina que se fixou na mãe, ou seja, a
identificação com o pai. Essa resolução do conflito edípico é muitas vezes
causada por uma rejeição dolorosa pelo pai. A menina que dessa forma
assume o papel masculino vigia ciosamente
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a mãe e desafia qualquer homem que a deseje possuir. Geralmente referimo-


nos a essa constelação como inveja do pênis; esse fator não merece a
importância imensa que lhe era atribuída antigamente, na etiologia da
delinqüência feminina. E claro que seu papel na cleptomania não pode ser
negado, e a preponderância desse sintoma nas mulheres testemunha sua
significação etiológica. Mas o fator dinâmico da inveja do pênis não pode ser
separado da acusação subjacente à mãe, de que sua negativa, aparentemente
consciente, da satisfação esperada, impediu à criança a superação de sua
avidez oral de acordo com a origem oral da regulação da autoconsideração
pelos elementos exteriores, o pênis ou o símbolo fecal que foi obtido pelo
roubo, furto ou trapaça é em última análise sempre visto, em todas essas
formas, como tendo sido adquirido oralmente, pelo ato de engolir (Fenichel,
1939).

Essas considerações teóricas são exemplificadas no seguinte resumo de caso,


relativo a Nancy, uma jovem adolescente. O tratamento do caso não faz parte
desse resumo; é o registro clínico, ou o comporta- mento de linguagem, que
nos interessa, a fim de verificarmos as ideias expressas acima.

Quando Nancy tinha 13 anos constituiu-se, para a família, as autoridades


escolares e o tribunal, num problema de delinqüência sexual; o fato de que
roubava só era conhecido pela mãe. Em casa, Nancy era incontrolável e
verbalmente agressiva; usava linguagem obscena, amaldiçoava os pais e fazia
o que queria, a despeito de qualquer interferência adulta. Os nomes feios que
Nancy me diz estão cheios de sexo, era a queixa constante da mãe. Apesar
dessa aparente independência, Nancy nunca deixava de contar à mãe as suas
explorações sexuais, ou pelo menos de fazer alusão a elas de maneira capaz
de provocar a curiosidade, raiva, culpa e solicitude maternas. Mostrava à mãe,
com satisfação, histórias que escrevera e que consistiam principalmente de
linguagem obscena. Nancy era uma leitora ávida de livros de sacanagem;
roubava dinheiro da mãe para comprá-los. A mãe estava disposta a dar o
dinheiro, mas Nancy explicou à assistente social que não queria isso: Eu queria
tirar o dinheiro, e não que ele me fosse dado.

Nancy culpava a mãe, com raiva, por não ter sido enérgica com ela quando era
pequena: Mamãe devia ter sabido que eu fazia as coisas para chamar sua
atenção e para que os adultos questionassem a meu respeito. Jamais se
casaria com um marido que soubesse dizer apenas, Sim, querida, mas com um
homem que a esbofeteasse quando estivesse errada. A crítica implícita nessa
observação dirigia-se evidentemente ao seu pai, um homem fraco. Ela não o
culpava por ser um homem sem

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instrução, tendo uma renda modesta como açougueiro, mas sim pela sua
indiferença e seu papel apagado na família. Nancy cresceu num pequeno
apartamento num bairro muito populoso. Sua família queria para ela as coisas
boas da vida e encontrou meios e maneiras de pagá-las; assim, Nancy tinha
aulas de dança, ginástica e oratória; com a puberdade, todas essas atividades
foram suspensas.

Nancy preocupava-se quase exclusivamente com o sexo. Esse interesse


chegou a proporções anormais pouco depois da menarca, aos 11 anos. Ela se
gabava de ter muitos namorados, de ter relações sexuais e de na escola
convidar meninas de sua idade para entrarem para seu clube de sexo. Nancy
só gostava de meninos maus que roubavam, mentiam e tinham uma ficha
criminal, rapazes que sabiam como tratar uma menina. Ela mesma queria
roubar e fumar, mas não acompanhava os rapazes nas suas excursões
delinquentes porque podia ser apanhada. Nancy se perguntava por que ela
sempre era capaz de conquistar um rapaz, se uma outra moça estivesse atrás
dele, mas só nesse caso. Havia conseguido uma posição de respeito entre as
moças, porque estava sempre pronta a desafiá-Ias para uma briga: Tenho de
mostrar-lhes que não estou com medo delas.

Nancy admitiu para o assistente social que sentia desejo sexual, mas negou ter
cedido a esse desejo: disse que usava o corpo apenas para atrair os rapazes e
conseguir a sua atenção. Foi, porém, encontrada em situação de intimidade,
num sótão, com vários rapazes, confusa, com as roupas em desalinho e
molhada. Foi nessa ocasião que seu caso foi levado ao tribunal. Nancy foi
colocada em prisão domiciliar, sob a condição de submeter-se a tratamento. À
luz das provas, ela não negou mais à assistente social que tinha relações
sexuais, mas passou a expressar a esperança de ter um filho. Explicou que
praticava relações sexuais para vingar-se de sua mãe. Ela, Nancy, manteria a
criança e se casaria com o rapaz. Estava convencida de que sua mãe não a
queria, e na verdade jamais a quisera. Nessa época Nancy teve um sonho no
qual tinha relações sexuais com adolescentes; no sonho, tinha 365 filhos, um
por dia durante um ano, de um rapaz que matou depois disso.

Nancy devaneava muito. Suas fantasias relacionavam-se com o casamento e


ela tinha um grande desejo de ter um filho. Temia não ser atraente para os
rapazes e nunca se casar. Fisicamente, Nancy era bem desenvolvida para a
idade, mas estava descontente com seu corpo, especialmente com a pele,
cabelo, altura, olhos (óculos) e orelhas (os lóbulos eram presos aos lados do
rosto). Em casa, ela era extremamente pudica e nunca permitia que a mãe a
visse nua. Nancy só podia imaginar uma causa para todos os seus problemas,
decepções e angústias — a mãe, a quem devia caber a culpa. Acusava-a de
separá-la de

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seus amigos — de ambos os sexos —, de negar-lhe a satisfação que
experimentava em ter amigos, de colocar um cadeado no telefone para isolá-la
do mundo. Nancy disse que precisava de amigas, amigas íntimas que se
tornassem irmãs de sangue; ela e SaIly gravaram suas iniciais nos respectivos
braços usando uma lâmina, como prova de sua amizade eterna. A mãe brigou
quando ela lhe mostrou a cicatriz; para Nancy foi mais uma demonstração de
que sua mãe não queria que tivesse amigas íntimas. Decepcionada, tentou
fugir de casa, mas o laço com a mãe era sempre demasiado forte, e ela voltava
logo depois.

A despeito da veemente rejeição de sua mãe, Nancy precisava de sua


presença a cada momento. Insistia, por exemplo, em que a mãe a
acompanhasse nas visitas à assistente social. Estando desorientada quanto a
um emprego de verão, Nancy achou que a mãe devia aceitar o cargo de
conselheira de um acampamento de férias, e ela a assistiria como a
conselheira júnior. Nancy não tinha nenhuma consciência da incapacidade de
sua mãe para esse trabalho, nem era capaz de avaliar de maneira objetiva as
suas próprias possibilidades.

Nancy continuou suas acusações: se a mãe tivesse outros filhos, não apenas
um, e menina, sua vida seguramente teria sido diferente. Na primeira entrevista
com a assistente social, que indagou com simpatia o objetivo da visita de
Nancy, a menina manteve-se em longo e obstinado silêncio e, de repente,
começou a chorar. Em suas primeiras palavras, expressou a sua necessidade
esmagadora de ser amada, e disse: Como filha única fui sempre muito solitária.
Ela havia sempre desejado um irmão ou irmã, e implorava à mãe que tivesse
outro filho. Sonhou que estava cuidando de crianças, e que eram realmente os
filhos de sua amiga. A mãe de Nancy dizia, no sonho: É uma vergonha que
crianças tão bonitinhas não tenham uma mãe boa para tomar conta delas;
vamos adotá-las. No sonho, Nancy ficava muito alegre e corria para a sua
assistente social para dizer-lhe que iam adotar as crianças. A assistente
respondia que isso custaria muito dinheiro, e Nancy respondia: Mas você não
sabe que somos ricos? Ao acordar, Nancy pediu à mãe que adotasse uma
criança. A criança, disse Nancy, terá de ser um menino, pois só sei mudar
fraldas de meninos. Ela se imaginava num emprego de verão cuidando de
crianças, numa família, no campo. Quando ficou um pouco mais velha, aos 14
anos, ela na verdade teve um emprego de férias com crianças numa creche de
um centro comunitário. Ali, ela era uma criança entre outras crianças, uma irmã
mais velha que ajudava as menores em suas brincadeiras. Nancy sempre
gostara de tomar conta de crianças, de ter uma criança nos braços,
especialmente crianças bem pequenas. Quando sua prima ficou grávida,
Nancy

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planejava tomar conta da criança, mas disse: Eu tomarei conta dela por três
meses, é divertido; mas depois, quero receber.

Nancy ligou-se, durante esses anos de preocupação sexual, a uma jovem


grávida, de 20 anos, que se casara aos 16 anos, tinha três filhos e vivia de
maneira incerta e promíscua. Nancy participava indiretamente da vida sexual e
da maternidade dessa mulher, cuidando de seus filhos quando ela estava
ausente. Isso exigia que pernoitasse fora quando a jovem não voltava por um
ou dois dias. Nancy passou a faltar às aulas. Certa vez, levou as três crianças
para sua própria casa, para cuidar delas enquanto a amiga participava de uma
aventura sexual e desaparecia durante três dias. Nancy tomava enfaticamente
o partido de sua amiga contra o marido, por quem, dizia Nancy, outrora estivera
apaixonada. Também protestava violentamente contra as acusações feitas por
sua mãe à amiga, comentando com a assistente social: Minha mãe tem uma
mente que é um esgoto. Nancy sabia que ela compreendia a amiga, conhecia
sua infelicidade pela morte do pai quando ainda criança, e sabia que nunca
amara a mãe. Dizia: inútil argumentar com minha mãe, e resumia a situação,
acrescentando: Eu e minha mãe nunca nos compreendemos. Depois dessas
discussões, Nancy tinha medo de que o aborrecimento que causava pudesse
matar a mãe, que tinha pressão alta.

Nancy encontrou um refúgio temporário, embora perigoso, na casa dessa


amiga casada. Sentia-se segura com a amizade estreita com essa mãe grávida
que sabia atrair os homens e ter muitos filhos. Nancy também se comprazia
com a raiva e ciúme da mãe, que desaprovava a amizade. Sentia que tinha
uma amiga com quem podia partilhar tudo. Durante esse período, Nancy
afastou-se das meninas de sua idade, sentindo que nada tinham em comum
com elas. Um testemunho embaraçoso do fato de que havia ultrapassado as
meninas de sua idade foi a resposta a um grupo delas, que falavam de roupas.
À pergunta De que tipo de roupas você gosta mais? Nancy respondeu
secamente: Roupas de mulher grávida. Esses incidentes arrastaram Nancy
cada vez mais profundamente para a vida familiar de faz-de-conta com a
amiga. Nancy amava essa mulher, e disse à assistente social: Não posso
afastá-la do pensamento.

Em suas relações com a assistente social, Nancy flutuou entre a proximidade e


a distância; essa instabilidade expressou-se bem em suas próprias palavras:
Quando penso em vir até aqui, não tenho vontade; mas quando estou aqui,
sinto-me bem, tenho vontade de falar. Admitiu finalmente que gostaria de fazer
confidências à assistente social, mas advertiu-a, confessando ser uma
mentirosa compulsivo. Sugeriu que ambas revelassem uma para a outra
segredos de suas vidas, pois com isso poderiam aprender uma com a outra. A
necessidade de intimidade que

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se fazia sentir em relação à assistente social era também responsável pelas


freqüentes fugas em relação a ela.
Nancy passou, por fim, a repudiar essas coisas grosseiras, rudes, dos
adolescentes e sua imaginação voltou-se para o teatro, onde se valeu dos
interesses e das atividades Iúdicas de seus anos de latência. Devaneios
incontrolados e infantis de conhecer atores de cinema, desmaiar na frente
deles, e ser descoberta como uma nova estrela acabaram dando lugar a uma
abordagem mais séria do estudo da técnica teatral. Como atriz,

Nancy esperava tornar-se uma senhora, entendendo por isso ser educada,
falar educadamente, comportar-se bem; com isso, tinha a certeza de que os
Outros gostariam dela. Nancy apegou-se à representação teatral durante toda
a sua adolescência; na verdade, aos 16 anos conseguiu uma certa projeção
em produções teatrais do verão. O palco tornara-se o território legítimo onde
podia expressar sua impulsividade em muitas direções e onde suas
necessidades exibicionistas foram lentamente disciplinadas pelo código
estético da representação. Nessa época, Nancy havia se tornado um tanto
pudica; era sociável com seus colegas, mas apenas para promover seus
interesses pessoais nas produções dramáticas. Tão boa manipuladora quanto
a mãe, Nancy passou a relacionar-se narcisicamente com o meio e aprendeu a
explorar os outros. O interesse pelo teatro tornou-se a sua identidade, em torno
da qual tomou forma a integração da sua personalidade. O núcleo dessa
identidade remonta às boas coisas da vida que a mãe de Nancy sempre quis
para a filha. Na adolescência, Nancy voltou a essas aspirações impostas, que
haviam sido transmitidas às crianças pelas aulas de representação, durante os
anos de latência. Foi precisamente esse interesse artístico que serviu, na
adolescência, como uma sublimação para a fixação não resolvida na mãe. A
identidade profissional salvou Nancy da regressão e da delinqüência, mas
também impediu uma progressão para o encontro objetal maduro; afinal de
contas, era ainda aos desejos da mãe que continuava a satisfazer pela sua
atividade artística. Quando lhe lembraram, aos 16 anos, o seu desejo de ter
filhos, ela respondeu com aversão: Filhos é coisa de criança.
Não nos parece necessário indicar os aspectos desse caso que ilustraram a
importância etiológica da fixação na mãe pré-edípica, no comportamento
delinquente de Nancy. Sua pseudo-heterossexualidade era, evidentemente,
uma defesa contra a volta à mãe pré-edípica e contra a homossexualidade. A
única relação segura que Nancy teve foi uma folie à deux com uma mãe-
namorada grávida. Esse apego e a identificação passageira tornaram a
atuação sexual temporariamente esquecida. Mas o avanço em seu
desenvolvimento emocional foi impossível até que

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um interesse sublimado, o de se tornar atriz, se consolidasse nela. Esse ideal


do ego — adolescente e provavelmente transitório — resultou numa
autorepresentação relativamente mais estável, e abriu caminho para a
experimentação adolescente para processos de integração do ego.

O comportamento delinquente de Nancy só pode ser compreendido em


conjunto com os distúrbios de personalidade de sua mãe. Examinando melhor
a patologia familiar, reconhecemos — citando Johnson e Szurek (1952) — o
uso involuntário da criança para a atuação parental de seus próprios impulsos
mal integrados e proibidos.

A partir da análise de adultos que também eram pais, conhecemos suas


fantasias inconscientes delinquentes, perversas e anormais e sabemos
também a frequência com que os pais se identificam com o filho e a vida
instintual das várias idades da criança. Mas muitos filhos esses pais não
mostram tendência à atuação dos anseios inconscientes delinquentes,
perversos e anormais de seus pais; na verdade, muitos demonstram quanto a
isso uma capacidade de resistência que faltava totalmente a Nancy. As
crianças buscam normalmente, em seu meio, experiências compensadoras que
neutralizem até certo ponto as deficiências existentes na dieta emocional da
família. Isso ocorre especialmente com crianças no período de latência, mas
também com crianças menores que estabelecem relações significativas com
irmãos mais velhos, vizinhos, parentes, amigos da família e outros. Em
contraste, crianças como Nancy são totalmente incapazes de suplementar suas
experiências emocionais em seu ambiente mais amplo, mas continuam vivendo
sua vida social empobrecida nos estreitos limites de sua família.

Parece, portanto, que um tipo especial de interação de pai e filho deve existir a
fim de impedir que a criança estabeleça progressivamente sua vida mais ou
menos independente. Essa qualidade da relação entre pai e filho está num
padrão sadomasoquista que impregnou não só a vida instintual da criança, mas
também afetou adversamente o desenvolvimento de seu ego. A ambivalência
primitiva, com raízes na fase da mordida da organização oral, constitui um
núcleo para um padrão duradouro de interação entre mãe e filho; é levado,
como um tema dominante, por todos os estágios do desenvolvimento
psicossexual. As polaridades amor-ódio, dar-receber, submissão-dominação,
continuam existindo numa dependência recíproca ambivalente entre mãe e
filho. A modalidade sadomasoquista inunda gradualmente toda a interação da
criança com o meio e acaba influenciando o desenvolvimento do ego por meio
da introjeção de um objeto ambivalente. Assim, as funções inibitórias são mal
desenvolvidas e a tolerância à tensão é pequena. A fome de estímulo dessas
crianças representa a expressão duradoura da sua avidez oral. Será, talvez, o
comportamento impulsivo de Nancy

Página 242

um aspecto essencial de uma organização de pulsões amplamente sado-


masoquista? Szurek (1954) observou que dois fatores, as fixações libidinosas e
a internalização das atitudes parentais, determinam quais os impulsos da
criança que se tornam egossintônicos e quais os que são reprimidos. Na
medida em que esses fatores interferem com a experiência satisfatória da
criança em qualquer fase de desenvolvimento, as atitudes internalizadas são
caricaturadas como vingança (isto é, sadisticamente) e os impulsos libidinais
são masoquistamente distorcidos, isto , a energia libidinal do id e do superego
é fundida com a raiva e angústia consequentes da frustração repetida. O caso
de Nancy é de interesse à luz dessas considerações. Portanto, passaremos
agora à sua primeira infância, em busca das experiências que tiveram um
papel primordial e criaram nela uma predisposição em termos da fixação
sadomasoquista na mãe pré-edípica, e do fracasso de adaptação na
puberdade.

Nancy era filha única, nascida dois anos depois do casamento. Era desejada
pela mãe, que queria muitos filhos. O marido pretendia esperar dez anos; sua
mulher, incapaz de tolerar essa demora, quis adotar uma criança, mas sua
solicitação foi rejeitada. Pouco depois, ficou grávida.

Nancy foi amamentada no seio durante seis meses; aos quatro meses, o bebê
começou a morder o bico do seio, provocando considerável dor na mãe.
Apesar dos seus protestos, o médico insistiu cm que continuasse a amamentar.
Dois meses depois, quando isso se havia transformado numa tortura, ela teve
permissão para tirar a criança do seio. Durante dois meses, mãe e filha
empenharam-se numa batalha em torno de chupar e morder, oferecer e
recusar o seio. Um efeito duradouro desse período pode ser identificado na
persistente recusa de Nancy de beber leite. A criança começou a chupar o
dedo aos três meses, hábito que foi cortado à força pelo uso de luvas.
Podemos supor que a criança tivesse estímulo e satisfação insuficientes com a
alimentação a uma idade ainda muito tenra. Começou a falar com cerca de um
ano e andou bem aos 16 meses.

Quando Nancy entrou no jardim de infância vomitava diariamente antes de ir


para a escola; esse sintoma desapareceu depois de várias semanas de
comparecimento forçado. A professora notou então que a criança ignorava sua
presença de uma maneira que sugeria uma deficiência auditiva. Os testes
demonstraram que tal suposição era incorreta. Quando Nancy começou o
primeiro ano, tinha ataques de raiva na escola e tentou fugir. Sua mãe a vigiava
e forçava a voltar à aula; depois de algumas semanas, as fugas cessaram para
sempre. A partir de então, seu comportamento na escola foi motivo constante
de reclamações. Durante todos os seus anos de latência, Nancy foi teimosa,
irritadiça, resmungona e reclamadora. Nancy dormiu no quarto dos pais

Página 243

até os 8 anos. Teve, nessa época seu próprio quarto. Começou a sofrer então
de pesadelos e a procurar o quarto dos pais. Nenhuma medida disciplinar pôde
impedir que perturbasse o sono dos pais; certa vez em que ela se recusou a
voltar para seu quarto, a mãe obrigou-a a passar a noite sentada numa cadeira,
no quarto dos pais. Depois disso a criança deu-se por vencida, permaneceu no
seu quarto e não se queixou mais de pesadelos. Nancy conhecia poucas
crianças e só raramente brincava com elas; preferia a companhia da mãe,
Tinha companheiros imaginários durante toda a sua infância e muito
provavelmente durante os anos de latência. Na primeira fase da adolescência
costumava ficar sozinha na cama e proibiu a mãe de escutar. A mãe estava
apenas tão curiosa sobre a vida privada de Nancy quanto esta sobre a vida
privada da mãe. Em relação à falta de amigos de Nancy, a mãe observou:
Nancy quer amor demais.

Dois fatores complementares na relação inicial entre mãe e filha parecem ter
predisposto Nancy e a mãe a um apego ambivalente duradouro. A mãe
esperava ter filhos a fim de satisfazer suas próprias necessidades infantis,
enquanto Nancy — dotada talvez de uma pulsão oral excepcionalmente forte
— fazia exigências à mãe que esta não era capaz de atender. Essa batalha de
interesses pessoais que não eram reciprocamente tolerados continuou sem
cessar e sem solução até a puberdade de Nancy. Sua sujeição à disciplina
cruel da mãe, e sua entrega dos sintomas às custas da satisfação masoquista
revelam a integração progressiva de uma relação objetal sadomasoquista que
impediu o desenvolvimento de qualquer individuação bem-sucedida. Pelo
contrário. resultou no estreito e simbiótico envolvimento da criança com a mãe
arcaica.

As tentativas de separação de Nancy, na primeira infância e puberdade, são


evidentes na sua criação de companheiras imaginárias e em seu apego à mãe-
amiga aos 13 anos. Essas tentativas de libertação não foram bem-sucedidas; a
pseudo-heterossexualidade era a única saída liberta a essa menina dominada
por impulsos, como uma maneira de satisfazer sua voracidade oral, de vingar-
se da mãe egoísta e de proteger-se contra a homossexualidade. O
comportamento delinquente Nancy remonta, portanto, a antecedentes que a
predispuseram a isso, localizados na segunda fase oral (sádica). O círculo se
fechou.

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