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Cartas de Amor à Morte em Soneto

O termo lírico originou do latim “lyricu” que quer dizer “lira”, um instrumento musical grego. Isto,
pois durante a Idade Média, os poemas eram cantados e divididos por métricas (a medida de um
verso, definida pelo número de silabas poéticas e ainda hoje o poema lírico contém musicalidade e
ritmo. O poema lírico existe um sujeito poético que não deve ser confundido com o autor, pois pode
nem sempre representar diretamente o autor. É um tipo de texto com várias camadas e bastante
subjetivo, devido à língua figurada usada.

Avaliando o poema Despondency, de Antero de Quental, podemos observar algumas das


características da lírica presentes no texto: Despondency é um dos exemplos mais comuns do poema
lírico, é um soneto – uma forma poética de origem italiana, que surge no século XIII e que é um
poema composto por quatro estrofes, sendo os dois primeiros quartetos e as duas últimas tercetos –
com versos decassilábicos, exceto o último, que é dodecassilábico . Despondency é um poema
bastante musical no qual o sujeito poético interioriza um forte sentimento de tristeza e de abandono
como é indicado pelo título.
O sujeito poético deste poema demonstra um conhecimento próprio de um conteúdo psíquico
pessimista que se foca num sentimento de tristeza e abandono, tal como assim o é descrito no
próprio título e demonstra sempre esse conhecimento próprio bem como o de uma indiferença com
a vida através do uso constante de reticencias, que também impõem um ritmo soluçante ao poema,
através de substantivos como por exemplo, “noite”, “morte”, “escuridade” (que dão um tom negro e
de desespero ao poema), através da repetição constante da expressão “Deixá-la ir” e do uso de
verbos como roubar, levar, arrojar, perder.

É preciso ainda realçar que Antero tinha duas facetas, sendo que este poema faz parte da sua faceta
noturna, que é aquela que anuncia o seu fim (Antero acabou por se suicidar) e passa-se numa fase
da sua vida pessimista, intensa e desencantada e algo que é possível sentir através dos elementos
usados neste poema - que Antero se estivesse a referir à morte e a antecipar a mesma e que
analisando o último terceto deste poema, parece que esta traz um descanso e uma felicidade que
são jubilantes e merecedores.

Ao longo do soneto verifica-se uma gradação na forma como o poeta apresenta os vários elementos
que estão inexoravelmente votados à morte: não só a ave (que nos dá a ideia que fica ao abandono
e sem razão de viver), mas também a vela, a alma, a nota e a esperança. Esta sequência de imagens
é usada para simbolizar a precariedade da vida. Note-se que a vela envolta pelos ventos do Sul não
terá qualquer hipótese de salvação, assim como "a alma lastimosa" que por ter perdido a "fé e paz e
confiança" (pedras basilares que sustentam a vida) se entrega abnegadamente à morte como único
refrigério.

Os recursos expressivos marcados neste soneto são: a metáfora, a anáfora e a adjetivação. O ritmo
ligeiro, provocado pela repetição anafórica da expressão “Deixá-la ir”, pelo paralelismo e pela
pontuação exprimem essa fragilidade e sentimento de abandono que já foram aqui apontados.
Ainda é possível apontar o uso de verbos de tom disfórico como “roubar”, “levar”, “arrojar” e
“perder”, e de adjetivos de natureza negativa como “lastimosa”, “queda”, “silenciosa” e
“desprendida”.
Tendo em conta o conteúdo deste poema lírico, a maneira como é elaborado, o estado psíquico de
Antero de Quental nesta sua fase negra, no qual podemos encaixar este poema, podemos dizer que
esta obra é uma carta de amor à morte em soneto, um chamamento para que se livrasse do que o
prendera e um suspiro de alívio.

Nuno Peleja - 138263