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FILOSOFIA: RESUMO DAS AULAS 7, 8 e 9

As aulas 7, 8 e 9 devem ser compreendidas como a continuidade do debate em teoria do


conhecimento.
Neste debate, já foram estudadas as posições de Sócrates, Platão e Aristóteles. As aulas 7, 8 e 9 se
dedicam à explicação de Descartes, dos Empiristas ingleses (David Hume e John Locke) e de Kant,
respectivamente.
Como se verá, as posições destes autores podem ser compreendidas como pólos opostos no debate
de teoria do conhecimento, enquanto que Kant poderia ser apontado como o pensador responsável
por elaborar uma crítica entre os dois campos em oposição.

AULA 7: DESCARTES

Inicialmente devemos apontar que o pensamento de Descartes poderia ser abordado segundo
vários temas, desde política, passando por artes ou religião. Entretanto, estudaremos este autor
segundo o enfoque da teoria do conhecimento.
A teoria do conhecimento de Descartes tenta nos demonstrar como, para ele, se dá conhecimento.
Pode-se dizer que Descartes se colocou o seguinte desafio: verificar os vários tipos de
conhecimento existentes e dentre eles destacar um tipo de conhecimento que pudesse ser chamado de
indiscutivelmente verdadeiro. Assim, de início devemos apontar que, para este autor, O
CONHECIMENTO VERDADEIRO É AQUELE DE QUE NÃO SE PODE DUVIDAR
(SENDO ASSIM, O CONHECIMENTO VERDADEIRO É AQUELE CARACTERIZADO
POR SER INQUESTIONÁVEL, INDUBITÁVEL).

Assim sendo, Descartes vai tentar demonstrar os vários tipos de conhecimento e, em seguida, vai
tentar demonstrar qual é o conhecimento verdadeiro e porque este conhecimento é inquestionável
enquanto que os outros tipos são questionáveis.
Para o autor, há três tipos de idéias que compõe o conhecimento humano:

IDÉIAS ADVENTÍCIAS: São as idéias adquiridas, pelos sentidos, do mundo exterior ao


indivíduo. O indivíduo utiliza seus sentidos para compor idéias em sua mente que tiveram origem
no mundo exterior (obs.: Só para efeito de curiosidade: “adventício” é o adjetivo que significa
“fora do lugar de origem”. Assim, as idéias são adventícias porque embora elas estejam na mente
humana, elas tiveram origem no mundo exterior.). EXEMPLOS: as idéias de cavalo; casa;
mesa; pássaro; computador; carro; flor; etc.
IDÉIAS FICTÍCIAS: São as idéias compostas a partir da combinação de idéias adventícias
(ou de partes de idéias adventícias) associadas à criatividade, imaginação, fantasia, etc. Estas
idéias não correspondem a nada no mundo exterior, ou seja, elas se referem a coisas que não
existem no mundo exterior percebido pelos sentidos. São produtos da criatividade fantasiosa da
mente humana. EXEMPLOS: cavalo alado; sereia; dragão; etc.

IDÉIAS INATAS: São as idéias desenvolvidas a partir da nossa CAPACIDADE DE


QUESTIONAR/ REFLETIR/ DUVIDAR. Estas idéias já nasceram com o ser humano, embora de
forma não-desenvolvida. Assim, todas as idéias que, para existir, não dependeram dos nossos
sentidos, mas, ao contrário, dependeram APENAS da nossa CAPACIDADE DE QUESTIONAR/
REFLETIR/ DUVIDAR podem ser apontadas como idéias inatas. Deste modo, devido ao fato de
as idéias inatas não mobilizarem o conhecimento adquirido pelos sentidos, mas apenas utilizarem
o pensamento racional, estas idéias podem ser chamadas de PURAMENTE RACIONAIS.
EXEMPLOS: as idéias matemáticas; os conceitos filosóficos; a capacidade humana de não se
conformar com o que lhe é imposto e, assim, questionar tudo, etc. A grande idéia inata é a nossa
CAPACIDADE DE QUESTIONAR/ REFLETIR/ DUVIDAR e tudo que for desenvolvido a partir
desta idéia central será considerado idéia inata.

Uma vez explicados os tipos de conhecimento, podemos agora demonstrar qual é o conhecimento
verdadeiro, isto é, o conhecimento inquestionável e porque ele pode ser apontado como
inquestionável. Do mesmo modo, podemos demonstrar porque os outros conhecimentos são
questionáveis.

Comecemos pelo mais óbvio:


As idéias fictícias são facilmente questionáveis e, por isso, facilmente percebemos que elas não
são verdadeiras. Muito tranquilamente nós podemos perceber que elas só existem porque foram
criadas pelo ser humano.

Mais difícil, entretanto, é perceber porque as idéias adventícias não são inquestionáveis, sendo,
ao contrário, questionáveis.
Para Descartes, as idéias adventícias são adquiridas pelos sentidos. Ocorre que os sentidos nem
sempre nos levam para o conhecimento verdadeiro, ou seja, muitas vezes nós podemos vir a ser
enganados pelos sentidos. Assim sendo, não é possível ter certeza absoluta do conhecimento
adquirido pelos sentidos (isto é, das idéias adventícias), pois ora eles nos levam para a verdade e ora
nos levam para o engano. Como não é possível confiar em todos os casos (pois haverá casos em que
recairemos em engano), pode-se dizer que há casos em que o conhecimento adquirido pelos sentidos
podem ser questionados. Logo, se estes conhecimentos podem ser questionados (mesmo que apenas
em alguns casos), devemos chegar à conclusão que as idéias adventícias são questionáveis, não
sendo, portanto, inquestionáveis, não sendo, consequentemente, indiscutivelmente verdadeiras.
Devemos perceber a sutileza do argumento: não é que o mundo exterior (cujo conhecimento nos
adquirimos pelos sentidos) não exista. Não se trata de dizer que o mundo exterior não existe. Na
verdade se trata do seguinte: nada me garante que ele exista indiscutivelmente. E eu não posso ter
essa garantia porque eu só posso perceber esse mundo pelos sentidos e, como esse meio é um meio
que pode me levar ao engano, logo não posso confiar totalmente na existência do mundo exterior.

Assim sendo, podemos apontar agora, porque as idéias inatas é que são verdadeiras, indiscutíveis
e inquestionáveis.
Aparentemente é possível questionar as idéias inatas, ou seja, é aparentemente possível
QUESTIONAR nossa CAPACIDADE DE QUESTIONAR/ REFLETIR/ DUVIDAR. Entretanto,
isso é possível apenas na aparência, pois na prática se nós questionamos nossa capacidade de
questionar esse já é o próprio exercício de nossa capacidade de questionar. Assim como se nós
pensamos sobre nosso pensamento este exercício mental já é a nossa própria capacidade de pensar
que está operando...
E a confirmação final é quando tentamos pensar que nós não estamos pensando...
Como se vê não é possível pensar que não estamos pensando e, mesmo que conseguíssemos, isso
já seria a nossa própria capacidade de pensar.
Portanto, nossa CAPACIDADE DE QUESTIONAR/ REFLETIR/ DUVIDAR é algo que não é
possível superar. Sempre estaremos pensando.
A conclusão que se tira disso é a seguinte: a única certeza que podemos ter é a nossa própria
capacidade individual de pensar e, todo conhecimento para ser chamado de verdadeiro deve ser
aquele desenvolvido pelo próprio indivíduo, sozinho, a partir de sua própria capacidade de pensar.
Essa conclusão leva ao famoso cogito ergo sum de Descartes: PENSO, LOGO EXISTO.
Esta frase não quer dizer que o meu pensamento é a causa da minha existência. Na verdade
essa frase que dizer que a única certeza que cada indivíduo pode ter é: 1) que ele, enquanto
indivíduo, pensa; 2) como quem pensa é ele (o indivíduo dentro de seu corpo), logo pode concluir
indiscutivelmente que ele existe.
Veja que essa frase é a forma de Descartes demonstrar que cada indivíduo só pode ter certeza
indiscutível da própria existência, pois ele pode conclui isso a partir da veracidade indiscutível do
próprio pensamento dele.

AULA 8: EMPIRISTAS (JOHN LOCKE e DAVID HUME)

Como comentado em aula, o objetivo de estudar os empiristas está mais em verificar suas
semelhanças do que em apontar a especificidade de cada um dos filósofos. De qualquer maneira, só é
possível demonstrar suas semelhanças a partir do que cada um argumentou.
Cabe ressaltar, ainda, que o pensamento de Locke e Hume poderia ser abordado segundo vários
temas, desde política, passando por artes ou religião. Entretanto, estudaremos estes autores segundo
o enfoque da teoria do conhecimento.

LOCKE

O pensamento de Locke se coloca de forma oposta ao pensamento de Descartes. Para ele, o


conhecimento só pode ser adquirido a partir do contato com o mundo empírico.
Para este filósofo, o ser humano é uma TÁBULA RASA, isto é, cada ser humano é um vazio de
informações, um quadro em branco que só será preenchido a partir do contato, através dos sentidos,
com o mundo empírico exterior a nós.
Deste modo, o conhecimento se inicia a partir das EXPERIÊNCIAS PROPORCIONADAS
PELOS SENTIDOS, desenvolvendo-se, em seguida, através da reflexão, em IDÉIAS SIMPLES
(são as idéias que existem para identificar diretamente uma coisa no mundo. Exemplos: pé, cana,
carro, árvore, etc.) ou IDÉIAS COMPLEXAS (idéias derivadas das idéias simples e que não
encontram nada no mundo empírico exterior que a identifique precisamente. Por exemplo, pé de
cana é uma idéia complexa, pois não existe uma coisa no mundo que seja o pé de cana. Esta
expressão depende de duas idéias simples anteriores que a compõe. Veja que pé é uma idéia simples,
cana é outra idéia simples. Pé de cana é uma idéia complexa que embora tenha conexão as idéias
simples de pé e de cana, na verdade significa uma terceira coisa...)
HUME

O pensamento de David Hume se assemelha ao pensamento de Locke.


Para este filósofo, o ser humano é uma caixa vazia de informações quando nasce e todas as idéias
que nós desenvolvemos só são possíveis a partir do contato, através dos sentidos, com o mundo
empírico exterior.
Assim, segundo ele, o conhecimento verdadeiro se dá a partir do CONTATO, ATRAVÉS DOS
SENTIDOS, COM O MUNDO EMPÍRICO EXTERIOR. Este contato nos confere certas
IMPRESSÕES sobre o mundo. Entretanto, é inevitável desenvolver algumas IDÉIAS a partir deste
contato com o mundo empírico e com as impressões que vamos percebendo. Estas idéias já são,
entretanto, cópias modificadas (imperfeitas) das impressões que vivemos e sentimos. Ou seja,
embora estas idéias guardem alguma semelhança com a sensação que tivemos quando sentimos a
coisa no mundo (coisa, aliás, que está idéia está tentando se referir) ainda assim esta idéia nunca será
equivalente à sensação que tivemos e que a originou.
Para Hume, as idéias excessivamente abstratas, ou seja, que não se referem de forma direta a
nada no mundo empírico (são idéias insatisfatórias), pois mesmo que elas tenham conexão com o
mundo exterior, ainda assim essa conexão é muito distante e muito modificada em relação à
impressão que a originou. Como é muito modificada é excessivamente imprecisa.

Neste momento é importante fazer um balanço para refletir as semelhanças e diferenças entre
PLATÃO, ARISTÓTELES, DESCARTES e EMPIRISTAS (LOCKE e HUME), percebendo as
vantagens e desvantagens de cada um deles.
Conforme explicado em aula, todas essas comparações podem ser resumidas em um quadro:

DESCARTES EMPIRISTAS
PLATÃO SIM NÃO
ARISTÓTELES NÃO SIM
CONHEC. PRECISO NÃO SIM
CONHEC. IMPRECISO SIM NÃO
CONHEC. CONFORMISTA NÃO SIM
CONHEC. INCONFORMISTA SIM NÃO
Neste ponto é importante ressaltar uma discussão filosófica relevante: sempre devemos saber
identificar de que dimensão a discussão filosófica está tratando, ou seja, se é da dimensão das coisas
empiricamente consideradas ou das idéias que as representam. Isto é, devemos aprender a reconhecer
que existem dois níveis CONEXOS, mas que não são idênticos:

nível das idéias (teorias) que representam (explicam) estas coisas empíricas
====
nível das coisas empíricas

Assim, uma coisa é a coisa no mundo realmente existente; outra coisa é a idéia (ou teoria) que a
explica e representa.

AULA 9: KANT

Kant efetuou uma síntese entre os filósofos racionalistas e os filósofos empiristas, isto é, tentou
demonstrar que ambos isoladamente estavam equivocados em seus argumentos no debate sobre
teoria do conhecimento.
Filósofos racionalistas, como Descartes atribuíam todo o conhecimento à capacidade intelectual
dos seres humanos, isto é, atribuíam o conhecimento à capacidade de pensar, ao poder do
pensamento. Já os empiristas argumentavam pela prevalência dos sentidos e por um contato mais
efetivo com o mundo empírico.
Kant demonstrou que o conhecimento era o modo como o ser humano se relacionava com aquilo
que ele (ser humano) queria conhecer. Ou seja, o conhecimento não estava nas coisas tais como elas
se apresentam diante de nós e nem apenas na nossa racionalidade. O conhecimento é o modo como
nosso pensamento racional organiza e dá sentido às intuições percebidas pelos sentidos.
Nossos sentidos percebem o mundo exterior sempre de um ponto específico no tempo e no espaço
e esta percepção, em sua forma mais imediata e crua, é chamada de INTUIÇÃO PURA, que,
entretanto, logo dá origem à chamada INTUIÇÃO EMPÍRICA (que já é um tipo de percepção de
mundo marcada por uma mescla entre o conhecimento adquirido pelos sentidos e o conhecimento já
organizado pela atividade do pensamento). Como se vê, a partir daquilo que os sentidos percebem (e
esta percepção é marcada pelo ponto no tempo e no espaço), o pensamento já inicia sua atividade de
organizar as intuições.
O ENTENDIMENTO é o espaço do pensamento. Daí surgir, então os chamados JUÍZOS, que é
quando se alcança, enfim, o conhecimento.
O mais importante, contudo, é perceber o seguinte:
Os sentidos são uma forma passiva de conhecimento (daí notarmos que tal passividade gera
conformismo, como vimos acima na aula 8). O pensamento é uma forma ativa de conhecimento
(daí notarmos que tal ativismo gera inconformismo, como vimos acima na aula 8). Quando
dizemos que os sentidos são uma forma passiva de conhecimento queremos dizer que os sentidos
apenas se adaptam àquilo que eles percebem. Já quando dizemos que o pensamento é uma forma
ativa de conhecimento queremos dizer que o pensamento busca organizar, segundo os princípios
da racionalidade, aquilo que se quer conhecer.
Devido ao fato de Kant querer fazer uma síntese tem-se que ele defende uma teoria do
conhecimento em que a partir daquilo que os sentidos intuem passivamente, o pensamento passa a
atuar (agir) para dar sentido lógico (o pensamento atua para organizar aquilo que foi intuído
pelos sentidos). O conhecimento é esse processe de intuir e organizar, logo necessita tanto dos
sentidos e suas intuições e da atividade do pensamento.