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H I S T Ó R I A D A

CIÊNCIA
dos primórdios da formação humana até a
revolução científica na era moderna
uma síntese didática

ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO


ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

História da ciência: dos primórdios da formação humana até a


revolução científica na era moderna, uma síntese didática.

Primeira Edição

Cuiabá, MT
Edição do Autor
2018
Copyright © 2018 by Antonio Carlos Hidalgo Geraldo
Todos os direitos reservados

Ficha catalográfica
Geraldo, Antonio Carlos Hidalgo
História da ciência: dos primórdios da formação humana até a era
moderna, uma síntese didática [livro eletrônico] / Antonio Carlos Hidalgo
Geraldo. - 1ª edição - Cuiabá, MT: Edição do Autor, 2018.
117 p.
Bibliografia
ISBN: 978-85-540423-0-1
1.História da ciência – Síntese didática 2.Ensino das ciências naturais 3.
Professores e Bacharéis – Formação profissional.
CDU-001(091)

1ª Edição – agosto de 2018

Brasil

Capa: Wesley de Oliveira Neto

Edição do Autor

ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

achg2@hotmail.com
PREFÁCIO

Este livro tomou como base de conteúdo minha experiência como


professor de “História e Filosofia do Conhecimento Biológico”, para
alunos de licenciatura e bacharelado em Ciências Biológicas no Instituto de
Biociências da Universidade Federal de Mato Grosso - UFMT -, e o
trabalho de pesquisa desenvolvido pelo autor no Programa de Pós-
doutorado da Faculdade de Educação da UNICAMP, Campinas, SP, no
período de julho de 2015 a junho de 2016, sob supervisão do Prof. Dr.
Dermeval Saviani, na pessoa de quem venho agradecer a toda a equipe de
trabalho do referido programa de pós-doutorado que tornou possível o
desenvolvimento da pesquisa. Também foi importante para o
desenvolvimento da pesquisa citada, o afastamento das minhas atividades
de encargos didáticos por um ano, concedido pela UFMT, e o respaldo dos
colegas de trabalho do Instituto de Biociências - IB -, desta mesma
universidade, que assumiram meus encargos didáticos durante minha
ausência naquele período, em especial a Profª. Drª Renata Cristina Cabrera,
em nome de quem agradeço a toda a equipe do IB - UFMT.

Antonio Carlos Hidalgo Geraldo


Agosto de 2018
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO...............................................................................................................9

I - O CONHECIMENTO NA ERA PRIMITIVA..................................................23

1-Período paleolítico: dos primórdios da formação da espécie humana até

aproximadamente 10.000 anos atrás.............................................................................23

1.1-Artes e Linguagens...................................................................................................26

1.2-Crenças e visão de mundo na era primitiva: a magia..........................................28

2-Da revolução neolítica à formação das primeiras civilizações: de 10.000 a 5.000

anos atrás..........................................................................................................................31

II - A MITOLOGIA E O NASCIMENTO DO PENSAMENTO RACIONALISTA : o


conhecimento na Antiguidade, a era das primeiras grandes civilizações, de 5.000
anos atrás até o século V da era cristã..........................................................................37

1-A elaboração de calendários, a matemática, a linguagem escrita e a

astronomia........................................................................................................................43

1.1-A matemática e a linguagem escrita.......................................................................51

2-A razão: o nascimento da filosofia na era antiga.....................................................54

3-A Metafísica Idealista de Platão: Grécia 427-347 ac...............................................56


4-A Filosofia Finalista de Aristóteles: Grécia 384-322 ac.........................................58

5-Principais características do pensamento aristotélico.............................................59

6-A ciência Helenística e a Escola de Alexandria.......................................................68

7-O conhecimento na transição da Era Antiga para a Era Medieval......................73

III - ASPECTOS GERAIS DA SOCIEDADE E DO PENSAMENTO NA


EUROPA OCIDENTAL MEDIEVAL: do século V ao século XV da era
cristã..................................................................................................................................81

1-O contexto sócio-econômico da Europa Medieval................................................81

2-Cristianismo e Conhecimento na Europa Medieval...............................................85

3-Características Gerais da filosofia Cristã: o credo, os dogmas católicos, a

palavra revelada por Deus..............................................................................................88

4-A teologia natural na idade média.............................................................................91

IV - A REVOLUÇÃO CIENTÍFICA: o período que vai do século XV ao século


XVII..................................................................................................................................95

1-O contexto econômico, social e político europeu nos séculos XV, XVI e

XVII..................................................................................................................................95

2- O Humanismo, a Renascença e o Mecanicismo....................................................98

BIBLIOGRAFIA.........................................................................................................115
INTRODUÇÃO

O que entenderemos por conhecimento científico ao longo deste


trabalho?

O conhecimento científico é uma das formas em que se apresenta o


conhecimento humano em sentido geral; dentre as diferentes formas de
conhecimento com características específicas, podemos citar algumas: o
conhecimento popular (conhecimentos prático-utilitários do cotidiano
ou senso comum), o conhecimento mágico (que predominou na era
primitiva), o conhecimento mitológico (que predominou na era antiga,
na Mesopotâmia, no Egito, na Grécia, em Roma), o conhecimento
artístico, religioso, filosófico, científico e outros. Estes tipos de
conhecimento não são isolados entre si, pois sofrem influências mútuas.

A ciência visa compreender os elementos e fenômenos da natureza e


da sociedade e suas relações, buscando apreender as suas regularidades,
seus padrões de comportamento e de transformação, objetivando
estabelecer conceitos, leis, princípios, teorias, que representem e
descrevam estes elementos, fenômenos, relações e regularidades por
meio de uma linguagem própria de cada área de estudos e pesquisa;
objetivando, também, resolver os problemas que surgem para o homem
suprir suas necessidades no processo de produção de sua vida,
controlando ou transformando estas relações entre os elementos e os
fenômenos da natureza e da sociedade. Estas relações entre elementos e
fenômenos podem ser: relações de causalidade, de identidade, de
semelhanças e diferenças, de derivação, de quantidade, de variabilidade
qualitativa e quantitativa, de transformação, de impulsionamentos
recíprocos, de conexões, relações de complementariedade, relações de
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ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

contradição, e outras. Ao elaborar uma forma de compreender a


natureza e a sociedade, a ciência contribui também para a construção de
uma visão de mundo coerente e objetiva para a humanidade.

“compreender e relacionar os fenômenos, revelar sua lógica de manifestação,


controlá-los, conservá-los, transformá-los e adaptá-los às suas necessidades,
seguindo alguns princípios teórico-metodológicos...” (Geraldo, 2014, p. 34)

Quais as principais características do conhecimento científico?


Dentre as principais características específicas do conhecimento
científico, vejamos algumas: a objetividade, a metodologia, a
concreticidade e a sistematização lógica.
a) A objetividade: refere-se à condição de que os fenômenos da
realidade sejam compreendidos a partir de suas características
intrínsecas, isto é, compreender o objeto do conhecimento por seus
elementos formadores, as relações que estes estabelecem entre si,
tanto em suas partes como em sua totalidade e pelas causas materiais
que determinam a sua existência e seu processo de mudanças.
Buscando-se estabelecer uma conexão lógica objetiva, necessária,
entre o objeto que é representado e a própria representação do
objeto.
b) A metodologia: refere-se à condição de que a elaboração do
conhecimento científico passa necessariamente por um processo de
problematização da realidade que se quer compreender, de forma
planejada e sistemática, acompanhado de um levantamento e coleta
de dados baseados na observação objetiva, numa fundamentação
teórica, na experimentação, na comparação, na indução
experimental, na dedução, na análise, na síntese e no registro de
todas essas etapas, incluindo os resultados obtidos.
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História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

c) A concreticidade: refere-se à relevância do conhecimento construído


para o desenvolvimento da humanidade, em sentido cognitivo,
emocional, comportamental, axiológico (valorativo), econômico,
social, histórico e outros. Refere-se também à intencionalidade, ainda
que implícita, do conhecimento.
“Aqui entendida no âmbito da unidade teoria-prática social (...). Refere-se à
densidade do conteúdo histórico-social do conhecimento, sua inserção
enquanto parte de uma totalidade complexa que compõe a cultura humana
(...). Sua contribuição consciente na construção da visão de mundo do
homem e na melhoria da qualidade de vida dos homens”. (Geraldo, 2014, p.
39)

Cabe aqui ressaltar que a característica acima refere-se ao


conhecimento científico em sua totalidade, assim, podemos encontrar
partes específicas da produção cientifica que, devido ao seu alto grau de
especialização, não identificamos de forma imediata e direta sua
concreticidade como foi definida acima, todavia quando esses
conhecimentos específicos são compreendidos como parte fundamental
de outros conhecimentos cuja relação com as práticas sociais são mais
diretas, ai então, fica evidente a sua concreticidade mediadora. Como
exemplo podemos citar os trabalhos de taxionomia entomológica e suas
relações com as demais ciências que dependem dela: ecologia,
agronomia, medicina e outras. Assim, podemos compreender a
relevância histórico-social dos conhecimentos elaborados por um
taxionomista curador de uma coleção entomológica, na medida em que
estes conhecimentos são mediadores da elaboração de conhecimentos
em outras áreas cuja aplicabilidade nas práticas sociais humanas são
diretas, como as que citamos acima; além de que, os conhecimentos
científicos específicos que não têm uma aplicabilidade social direta são
fundamentais na edificação do arcabouço teórico-metodológico da
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estrutura de totalidade lógica das ciências, e, também neste sentido,


podemos compreender sua concreticidade mediadora.
d) A sistematização lógica: refere-se à condição de coesão e coerência
na estrutura lógica do conhecimento científico.
“As ideias que compõem o conhecimento científico devem combinar-se e
estabelecer conexões de sentido em dimensões parciais especificas e em
dimensões de estrutura e totalidade do conhecimento: conexões de
ordenação, de concatenação, de derivação, de interdependências, de
codeterminações, de movimento em sua forma e conteúdo, segundo um
conjunto de regras lógicas”... (Geraldo, 2014, p.40)

O conhecimento forma uma estrutura conceitual sistemática, com os


seguintes elementos básicos: fatos, fenômenos, conceitos, hipóteses,
teses, leis, modelos, métodos, e teorias, organizados em derivação lógica
e em conexão com princípios unificadores. Vejamos abaixo um exemplo
das relações entre estes elementos básicos do conhecimento científico e a
busca de conexões com princípios unificadores, conforme reflexão
desenvolvida por Mayr (1998), sobre os estudos da classificação da
biodiversidade ao longo da Era Moderna:
“A quase inconcebível riqueza dos tipos de organismos, todavia, apresentou
um sério desafio para a mente humana. O mundo ocidental preocupava-se
com a procura das leis (naturais), desde a revolução científica na mecânica e
na física. Contudo, nenhum outro aspecto da natureza era tão rebelde à
descoberta de leis como a diversidade orgânica. A única maneira de poder
detectar tais leis, assim se imaginava, era ordenar a diversidade, mediante sua
classificação. Isso explica por que os naturalistas dos séculos XVII, XVIII e
XIX eram tão obsessivos pela classificação. Isso lhes permitia colocar a
desconcertante diversidade pelo menos numa espécie de ordem. Por
coincidência, a classificação, eventualmente, conduziu de fato a uma
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História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

procurada lei: descendência (por modificação) de um ancestral comum. Tão


importante se afigurava esse proceder de ordenação aos zoologistas e
botânicos do século XVIII, que a classificação era tratada quase como
sinônimo de ciência.” (Mayr, 1998, p. 170)

Encontramos esta estrutura lógica relacionada com o contexto


histórico e social onde ocorre sua elaboração, no seu tempo e no seu
espaço geográfico e social, bem como no processo mais geral da
construção da humanidade em devir em sua totalidade. Isto significa que
o conhecimento científico não pode ser verdadeiramente compreendido
apenas como uma estrutura conceitual lógico-sistemática com significado
em si e “per si”, fora das práticas sociais nas quais e para as quais foi
construído. Portanto, precisamos apreender o conhecimento científico
como prática social, como elemento da cultura humana, derivado das
condições sociais das culturas onde é ou foi socialmente produzido.

Como compreender o conhecimento científico como processo


social, como produto cultural de um determinado período histórico, e,
ao mesmo tempo, como resultado da elaboração individual do
conhecimento, pelos homens de uma determinada sociedade?

Consideramos que os processos de “produção social do


conhecimento científico” e de “elaboração do conhecimento
científico”, devem ser compreendidos em sua especificidade (sua
diversidade) e em sua unidade (Saviani, 2000). Como esboço inicial para
a compreensão das relações de unidade-diversidade nestes processos,
podemos afirmar que o processo de elaboração do conhecimento é uma
forma de trabalho, e, como tal, apresenta os mesmos momentos
fundamentais apresentados pela categoria trabalho: apropriação e
objetivação (Duarte, 1993). A apropriação se refere à assimilação da
herança cultural dos conhecimentos (teorias, conceitos, categorias
lógicas, métodos) já existentes, que os indivíduos que elaboram o
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ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

conhecimento têm que realizar antes e durante o processo de elaboração


do conhecimento; e a objetivação se refere às inovações e
ressignificações teórico-metodológicas criativas que os pesquisadores
realizam no processo de elaboração do conhecimento científico, que
podem ser considerados individualmente ou por grupos de
pesquisadores.

Assim, o processo de elaboração do conhecimento científico,


como processo de trabalho, é mediado dialeticamente (determinado e
determinante) pela “correnteza” da força do desenvolvimento do
contexto cultural da sociedade onde vivem e trabalham os pesquisadores
(Bernal, 1979), considerando-se as suas múltiplas determinações
(econômicas, políticas, ideológicas, jurídicas, filosóficas, psicológicas,
linguísticas e outras), na medida em que os pesquisadores, em seu
processo de formação e desenvolvimento pessoal, assimilam e se apropriam
dos conceitos, das teorias, das categorias lógicas e dos métodos advindos
do passado e das práticas sociais de seu tempo; e é formado,
conjuntamente, pela objetivação das inovações criativas desenvolvidas
pelos pesquisadores no processo de elaboração e de ressignificação dos
conhecimentos (descoberta de novos fatos, ressignificação dos
fenômenos já conhecidos, novas hipóteses, novas teorias, novos
métodos, etc.).

O processo de produção social dos conhecimentos científicos,


por sua vez, deve ser compreendido como momento do processo de
produção e desenvolvimento do conhecimento humano em geral
(agricultura, comércio, finanças, religiões, filosofia, artes, indústria,
engenharias, medicina, regras sociais, etc.). A racionalidade e o
conhecimento humano não têm origem exclusivamente genética, foram
desenvolvidos ao longo do processo de evolução biológica e cultural do
homem, no seio do processo de produção da sua subsistência,
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História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

juntamente com o desenvolvimento da sua capacidade de trabalho, de


organização em sociedades, das suas características emocionais e do
desenvolvimento das linguagens complexas; portanto, a racionalidade e o
conhecimento humano se originam e se transformam ao longo do
processo de desenvolvimento das relações do homem com a natureza e
com os outros homens, como processo social e histórico.

A ação do homem evoluiu de, inicialmente, predominantemente


reflexa, como os demais animais, para uma ação predominantemente
reflexiva (Pinto, 1978), e o conhecimento foi sendo acumulando, fixado
socialmente, transmitido para as novas gerações e desenvolvido
historicamente, tendo os processos de produção social da vida material,
do desenvolvimento emocional e do desenvolvimento da linguagem
como principais elementos determinantes e mediadores. Desta forma, o
homem desenvolveu ao longo do tempo, as seguintes funções: a
sensação; a memorização; a percepção; a representação simbólica
dos objetos, dos seres, das substâncias, dos fenômenos e de suas
relações; a conceituação, como forma simbólica de fixação das
representações mentais; a construção de redes de conceitos e de
relações entre conceitos, isto é, as linguagens complexas; a
imaginação, criando e codificando mentalmente relações e formas, a
partir da estrutura cognitiva simbólica já existente e acumulada, que foi e
ainda é fundamental para o desenvolvimento da criatividade humana; as
habilidades cognitivas complexas (identificação, diferenciação,
classificação, quantificação, elaboração de conceitos, generalização,
indução, dedução, análise, síntese, resolução de problemas); a
determinação de objetivos e de finalidades, tanto em sentido
individual como social, tendo como referência suas necessidades; uma
grande variedade e precisão dos movimentos corporais, como os
movimentos das mãos e outros; a criação e a fixação social das
técnicas e dos instrumentos de trabalhos; dos métodos; criação dos
sistemas conceituais complexos, logicamente articulados e
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ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

estruturados, como as teorias; as formas estáveis de relacionamento e


coesão social; as emoções; os sistemas de comportamento e de
valores humanos; enfim, o conhecimento humano em sentido geral,
acumulado e fixado socialmente durante milhares de anos, tendo como
principal forma de materialização a linguagem e as construções materiais
desenvolvidas pelo homem ao longo da história (Geraldo, 2014, p. 06 e
07); e, portanto, do conhecimento científico em particular, como parte
deste processo de desenvolvimento histórico-cultural mais geral.

Todo este processo de desenvolvimento irá constituir a cultura


humana, em sua dimensão particular, nas diferentes sociedades que se
formaram ao longo da história, e em sua dimensão universal, no
conjunto que forma a cultura humana como totalidade em processo de
transformação e desenvolvimento contínuo. A cultura deve ser
compreendida como realidade em movimento, que influencia e
impulsiona o desenvolvimento das aquisições materiais (instrumentos,
construções e outras) e simbólicas (conceitos, métodos, técnicas, regras
sociais e outras) do seu tempo e lugar e que é influenciada e
impulsionada por estas mesmas aquisições; em outras palavras, a cultura
influencia e impulsiona a síntese e os resultados dos conhecimentos
materiais e simbólicos que são elaborados pelos indivíduos de um
determinado período e que se fixam social e historicamente, e, ao mesmo
tempo, é influenciada e tem o seu desenvolvimento impulsionado pelo
processo de elaboração e de desenvolvimento material, emocional e
conceitual-metodológico, ativo e criativo, realizado pelos indivíduos
humanos deste mesmo tempo. Isto acontece, também, com o
conhecimento científico e com seu processo de síntese e
desenvolvimento, uma vez que este tipo de conhecimento é parte da
cultura humana e será, então, efeito e causa ao mesmo tempo,
determinado e determinante, impulsionado e impulsionador, do
desenvolvimento cultural compreendido como totalidade histórica.
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História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

Portanto, a produção social do conhecimento e a elaboração


individual do conhecimento científico se complementam e se
impulsionam dialeticamente. Enquanto a elaboração do conhecimento
manifesta-se, principalmente, como um processo de construção e de
evolução conceitual teórico-metodológico, de ressignificação e de
criação, realizado por indivíduos ou por grupos de indivíduos, a
produção social do conhecimento manifesta-se, principalmente, nos
processos sócio-culturais que dão condições e suporte (material e
intelectual) aos indivíduos que se dedicam à elaboração do
conhecimento, bem como aos processos de seleção e fixação social e
histórica destes conhecimentos, que dependem da sua viabilidade e
aplicabilidade nas práticas sócio-culturais de uma determinada sociedade.

Assim, apesar de suas especificidades, temos que apreender o


movimento de síntese e unidade entre os processos de produção social
do conhecimento e de elaboração do conhecimento, como momentos de
um processo maior, coexistindo com suas diferenças e contradições,
impulsionando-se e transformando-se mutuamente, e contribuindo para
a totalidade dos resultados culturais da humanidade em seu devir
histórico.

Ainda na forma de esboço, podemos afirmar que as condições


(materiais e intelectuais) existentes e as necessidades e problemas
surgidos e enfrentados no processo de sobrevivência e de
desenvolvimento social do homem, bem como a criatividade, a
curiosidade e a imaginação, estão entre os principais elementos
mediadores da unidade entre a produção social e a elaboração individual
dos conhecimentos, como momentos do processo maior de
desenvolvimento cultural da humanidade e do processo de humanização
do homem, que não nasce homem, mas que se faz homem tanto no
sentido genérico, da humanidade em devir, como no sentido particular,
da construção da sua individualidade.
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ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

Estas categorias analíticas e descritivas podem contribuir para uma


compreensão de síntese da história da ciência: tanto diante de uma
abordagem “internalista”, como diante de uma abordagem “externalista”,
uma vez que, em determinados trabalhos deste campo de estudos, pode
predominar a necessidade de se enfatizar a evolução conceitual “interna”
de determinada área da ciência, já em outros trabalhos pode predominar
a necessidade de se enfatizar os determinantes culturais “externos” do
surgimento e da fixação social do conhecimento científico, sem que isto
signifique a exclusão da importância fundamental que ambas têm na
compreensão do desenvolvimento científico e sócio-cultural humano.

Devido à existência desta unidade-diversidade entre o processo


social de produção dos conhecimentos científicos e o processo
particular, específico, de elaboração dos conhecimentos científicos, às
vezes, mais de um pesquisador em um mesmo contexto social, de forma
independente, chegam a conclusões inovadoras semelhantes: como
Charles Darwin e Alfred Russel Wallace, pesquisadores ingleses que
desenvolveram seus trabalhos em meados do século XIX, ao
estabelecerem, de forma independente e no mesmo período, a teoria da
seleção natural como uma das principais causas da evolução e origem das
novas espécies biológicas.

Enfim, podemos afirmar que: a dimensão histórica do conhecimento


científico é elemento fundamental para a sua compreensão objetiva e
concreta, no sentido formal e dialético. Assimilando tanto a dimensão
interna da sua evolução conceitual-metodológica, das influências mútuas
dos conhecimentos específicos elaborados pelos homens de um
determinado período e no passado, como a dimensão dos
condicionamentos sócio-culturais, das práticas sociais, de seu contexto
mais geral.
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História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

Neste trabalho, vamos priorizar a exposição sintética do movimento


histórico do conhecimento em sua dimensão sócio-cultural, como
resultado e síntese de um determinado momento da totalidade do
processo de desenvolvimento histórico das sociedades, em outras
palavras, como resultado e síntese da totalidade das práticas sociais e do
desenvolvimento específico do conhecimento humano em suas
diferentes subáreas e das suas relações no processo de desenvolvimento
da humanidade em devir. Os detalhes das suas relações na elaboração
individual e específica do conhecimento, manifestados na sua evolução
conceitual e metodológica, com seus fluxos de indução e dedução, de
análises e sínteses, de reprodução, de ressignificação, de criação
conceitual e metodológica, de inclusão e exclusão conceitual, de teses e
antíteses, mutuamente partilhadas pelos homens de um determinado
período e local, apesar de sua importância fundamental, não seriam
possíveis de serem abordados e contemplados neste trabalho, devido aos
objetivos de síntese didática e totalizadora a que nos propomos.

Em sequência, precisamos nos perguntar: como se produz e se


desenvolve socialmente o conhecimento científico? Como surgem, se
fixam socialmente e se desenvolvem as novas teorias e os novos
métodos científicos?

Este processo ocorre num movimento histórico cíclico que se inicia


com as necessidades surgidas no processo de produção e de significação
da existência humana, que geram problemas para a humanidade; para a
solução dos problemas o homem constrói seus conhecimentos, inclusive
o conhecimento científico, delimitando assim, as técnicas, os métodos, as
teorias, de um determinado período, ressignificando criativamente os
conhecimentos já existentes e inovando, criando novos métodos, novos
conceitos e novas relações entre conceitos; a aplicação prática dos
métodos e teorias no processo de produção e representação da existência
humana, e as novas necessidades sociais e individuais que surgem neste
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ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

processo, condicionam o surgimento e a delimitação de novos


problemas, o que impulsiona a elaboração de novas hipóteses, novas
soluções, novas teorias e novos métodos. E o ciclo se reinicia, com seus
diferentes momentos impulsionando-se reciprocamente.
“Do conhecimento já adquirido ao desconhecido, movido pela força da
necessidade e das possibilidades humanas, sob as condições sociais materiais
(...) e intelectuais vigentes. É, pois, com base na abordagem do problema
histórica e socialmente considerado, abordagem esta que tem como
fundamento os conhecimentos já desenvolvidos e acumulados, que se inicia
a sistematização do conhecimento científico em novas teorias gerais e o
processo de movimento, conexão e totalização da representação dos fatos,
dos fenômenos, dos conceitos, dos modelos, das teses, das leis, das teorias,
através de uma forma específica da atividade cognitiva analítico-sintética,
pelos procedimentos lógicos de indução e dedução, próprios do
conhecimento científico.” (Geraldo, 2014, p. 57).

Na fase atual das sociedades contemporâneas, essa forma de


conhecimento (a ciência) tornou-se dominante em relação às outras
formas, como elemento fundamental no conjunto das forças produtivas
e da superestrutura ideológica da humanidade, e deve ser socializada para
todos os homens, como condição para a própria formação do indivíduo
e sua capacitação para a vida plena na sociedade.

O domínio do conhecimento científico é parte fundamental da


formação da cidadania. É um direito objetivo de todos os homens, pois é
um patrimônio da humanidade, na medida em que é produzido
histórico-socialmente no seio das relações sociais de produção da
existência humana e na medida em que é uma força produtiva, um meio
fundamental do processo de produção.
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História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

O acesso ao conhecimento científico tem consequências objetivas e


diretas na distribuição do poder, nas relações de poder, no acesso ao
controle sobre o presente e o futuro das relações do homem com a
natureza (a tecnologia) e dos homens entre si (a sociedade). Assim, o
ensino das ciências naturais deverá conter em seus princípios básicos os
fundamentos históricos do conhecimento científico: estudar e socializar a
ciência como processo e como produto, construído “a partir da” e “para
a” práxis social humana, como parte do processo de desenvolvimento da
humanidade (Geraldo, 2014).

Para isto, o ensino das ciências naturais tem que considerar o


desenvolvimento histórico das ciências e apreender os determinantes
histórico-culturais do conhecimento científico, compreendendo: a
contextualização, a problematização, a interdisciplinaridade, a
dialogicidade, a sistematização e o enfoque histórico dos conteúdos. A
aplicação adequada destes princípios didático-metodológicos, ao nosso
ver, é condição para a objetividade, a sistematização lógica (formal e
dialética), a totalidade teórico-metodológica e a concreticidade como
características fundamentais do processo de ensino, em direção à
construção de uma racionalidade crítica, problematizadora,
contextualizada e participativa.

Buscando contribuir com o ensino das ciências naturais


desenvolvemos, neste trabalho, inicialmente, uma leitura analítica e
comparativa de duas importantes obras de história do conhecimento
científico: A Ciência na História, de J. D. Bernal (7 volumes) e O
desenvolvimento do Pensamento Biológico, de Ernest Mayr (1.106 páginas).
Foram também utilizadas como referências principais, as seguintes obras:
Para Compreender a Ciência, (Andery, 2001); Ciência e existência (Pinto, 1978);
História ilustrada da ciência (4 volumes) (Ronan, 1987). Com o objetivo de
disponibilizar um texto didático sintético e conciso, com conteúdos
sistematizados, problematizados, interdisciplinares e contextualizados, de
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ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

história das ciências naturais, acessível aos estudantes iniciantes das


licenciaturas e bacharelados nas áreas das ciências naturais e aos
professores da educação básica. Realizando o processo de transposição
didática dos conteúdos científicos de história da ciência seguindo os
princípios da compreensibilidade, da sistematização, da concisão, da
fidedignidade com os conhecimentos científicos, da relevância e da
coesão e coerência textual.

Cabe finalmente ressaltar que, neste trabalho, nos limitamos ao


período que vai dos primórdios da formação humana até a revolução
científica na Era Moderna, tendo como foco as ciências naturais e sua
produção como prática social, como síntese. Assim, o estudo se detém
no século XVII com o mecanicismo, momento em que se configura a
ciência no sentido que a entendemos hoje, como um tipo de
conhecimento com características próprias, destacado da filosofia.
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História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

CAPÍTULO I

O CONHECIMENTO NA ERA PRIMITIVA

Como surgiram e se desenvolveram as habilidades cognitivas


complexas na espécie humana?

1- Período paleolítico: dos primórdios da formação da espécie


humana até aproximadamente 10.000 anos atrás.
Neste período ocorreu o estabelecimento de pequenos grupos sociais
humanos contínuos, com a formação e desenvolvimento de uma cultura
material e intelectual fixada socialmente, conservada, aperfeiçoada e
transmitida para as novas gerações por uma linguagem cada vez mais
complexa.
No aspecto da cultura material, neste período os homens viviam da
coleta de produtos naturais e da caça, e o elemento mais marcante é o
início e a evolução da utilização de instrumentos feitos principalmente
com pedra, madeira, ossos, peles de animais e fibras vegetais. Estes
instrumentos eram mediadores das atividades cotidianas, tais como:
instrumentos cortantes, raspadores, perfurantes, para amarração e para
armazenamento e transporte de água e de alimentos, chegando até ao
desenvolvimento do machado de pedra, da lança, do arco-e-flecha, da
corda, dos cestos, da cabaça, e outros.

No aspecto intelectual, vemos neste período a utilização de técnicas


como: o controle do fogo; a culinária; a pintura rupestre; a manufatura
de peças de estatuetas; a fixação de regras para a manutenção da coesão
social; o reconhecimento e localização de plantas comestíveis e
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ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

medicinais; a identificação de animais para a caça; o conhecimento dos


ciclos de crescimento e reprodução dos seres vivos, que possibilitaram a
coleta, a caça e a recoleta de alimentos; e o desenvolvimento e fixação da
linguagem lógica complexa. Observemos que toda esta “cultura
primitiva” do homem já implica no conhecimento e na fixação social de
diversas relações constantes e reiterativas entre os elementos e os
fenômenos da natureza e da sociedade.

“... os métodos que deram às sociedades humanas as vantagens de que


gozaram dependiam, em larga medida, do uso de utensílios materiais para
apanhar, reunir, transportar e preparar alimentos, e também de um meio de
comunicação rápido que permitisse a cooperação nestas tarefas
fundamentais – por outras palavras, uma linguagem. Pelo uso de utensílios, o
homem consegue um domínio muito maior e muito mais generalizado sobre
o meio ambiente que o de qualquer animal, por muito bem munido que
esteja com dentes, garras ou cornos. A linguagem, através do gesto e da voz,
além de servir para indicar a maneira mais eficaz de usar o utensílio, assegura
também a coerência do grupo e garante a transmissão às gerações vindouras
da cultura acumulada.” (Bernal, 1979, vol. I, p. 62-63)

Os instrumentos, as técnicas, as linguagens, as regras sociais, se


desenvolveram em inúmeras culturas humanas, de diferentes lugares,
com uma certa uniformidade e continuidade no tempo, com
aperfeiçoamentos, adaptações e combinações de métodos que descrevem
a evolução destes elementos culturais no tempo e nos diferentes lugares
onde habitou o homem primitivo. O desenvolvimento dos instrumentos
e das técnicas, no processo de trabalho e produção da vida material,
impulsionou o desenvolvimento das ideias, do planejamento e da
experimentação por tentativa, erro e acerto, para a inovação e para a
verificação dos aperfeiçoamentos dos utensílios, das ferramentas e dos
25
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

elementos da natureza que eram utilizados na subsistência, juntamente


com o desenvolvimento da linguagem, das emoções, das regras e dos
comportamentos de convivência social. Estes processos foram
fundamentais no desenvolvimento das habilidades cognitivas e das
características emocionais da nossa espécie, compondo um conjunto de
conhecimentos, habilidades e características que foram fundamentais
para o desenvolvimento das funções cognitivas complexas (identificação,
diferenciação, classificação, conceituação, quantificação, indução,
dedução, análise, síntese, generalização, resolução de problemas).

As operações mentais necessárias para se criar, fixar e desenvolver


socialmente as regras de comportamento social, a linguagem, as
ferramentas de trabalho, os instrumentos (mecanismos complexos como
o arco-e-flecha), as técnicas, como o domínio do fogo e sua utilização na
culinária, na cerâmica e posteriormente na metalurgia, irão formar a base
das habilidades mentais e características emocionais necessárias para o
desenvolvimento do conhecimento científico num momento bem
posterior.

O conhecimento do meio ambiente circundante pela observação,


pela identificação dos hábitos e características dos animais e das
diferentes plantas, dos seus ciclos de desenvolvimento e reprodução,
suas regularidades, suas relações constantes e reiterativas, com o objetivo
deliberado de suprir as necessidades de alimentação e defesa combinados
com o planejamento social das ações; todos estes conhecimentos, sua
fixação e transmissão social através da linguagem, somaram-se como
aspectos importantes e determinantes na formação das habilidades
cognitivas complexas e do desenvolvimento emocional da nossa espécie.

Assim, no conjunto dos elementos culturais primitivos, ainda que de


forma rudimentar, podemos visualizar as origens de diversas áreas do
conhecimento sistemático que se desenvolveram posteriormente ao
26
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

longo da evolução da nossa cultura, tais como: o direito (as regras


sociais), a mecânica (as técnicas, as ferramentas e seus mecanismos), a
química (o fogo e sua utilização na transformação de materiais, como a
culinária e a cerâmica por exemplo) e a biologia, com a observação,
fixação e classificação dos diferentes tipos de seres vivos, de suas
características e das relações que estabelecem com o restante do
ambiente, tais como: as relações com a água, com o solo, com luz do sol,
com as estações do ano e suas diferentes temperaturas, luminosidade,
ventos, pluviometria.

1.1- Artes e Linguagens

Qual a importância das artes e do desenvolvimento das linguagens na


formação das habilidades cognitivas humanas?

O desenvolvimento da pintura rupestre e das estatuetas de osso e


barro também é bastante significativo para indicar o grande
desenvolvimento das habilidades cognitivas complexas e das
características emocionais desde a era primitiva: no preparo das tintas e
dos instrumentos de pintura, nos ritos de sepultamento dos mortos, na
sistematização da imaginação e da intenção de determinar o sucesso nas
caçadas, e isso podemos constatar pelo grande número de pinturas,
desenhos e esculturas encontrados em sítios pré-históricos:

“Estas representações não se limitam exclusivamente ao aspecto exterior dos


animais; encontram-se também desenhos de ossos, do coração, das
entranhas, que nos oferecem prova de que a origem da anatomia se deve
buscar na arte de talhar as carcaças dos animais caçados. (...) representações
pictóricas que não são apenas a fonte das artes visuais, mas também a
origem do simbolismo gráfico, da matemática e da escrita, que vieram a
tornar possível a criação da ciência racional”. (Bernal, 1979, vol. I, p. 68)
27
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

O desenvolvimento da linguagem é outro aspecto fundamental a ser


destacado no processo de formação e desenvolvimento das habilidades
cognitivas e das características emocionais humanas. A vida cotidiana em
sociedade e o trabalho coletivo só são possíveis pelo desenvolvimento da
linguagem, em determinações recíprocas: à medida que se desenvolve a
vida em sociedade e o trabalho coletivo, desenvolve-se conjuntamente a
linguagem; e o desenvolvimento da linguagem impulsiona
reciprocamente o desenvolvimento da capacidade de produção, de
representação, de racionalização, as características emocionais e as regras
de coesão social. Temos que apreender as relações de unidade-
diversidade destes processos como totalidade em movimento, as suas
relações de mediação e de impulsionamentos recíprocos.

A linguagem é um elemento universal das diferentes culturas


existentes no tempo e no espaço, com as funções de comunicação, de
fixação cultural e de transmissão dos conhecimentos. Constitui em si
uma estrutura lógica de codificação, fixação, abstração e generalização:
dos elementos da natureza, dos fenômenos e de suas relações constantes
e reiterativas, das emoções, da imaginação, das intenções, do
planejamento individual e coletivo das ações humanas, do
comportamento e das regras sociais.

Juntamente com o desenvolvimento das formas de produção


material da existência, a evolução da linguagem, desde a era primitiva,
constituiu-se numa das bases principais para o desenvolvimento da
racionalidade e da emotividade humana: da capacidade de pensamento,
de raciocínio, de planejamento social das ações com base em finalidades
previamente definidas; desde as mais primárias características emocionais
e as mais rudimentares habilidades cognitivas até a cognição metódica,
racionalizada e sistematizada. Desenvolvendo-se as seguintes funções: a
sensação; a memorização; a percepção; a representação mental; a
identificação de características, propriedades e relações reiterativas dos
28
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

objetos e fenômenos; a conceituação (generalização); a imaginação; a


diferenciação; a classificação; a qualificação-quantificação; a análise-
síntese; a indução-dedução; a delimitação e resolução de problemas; as
características emocionais e o comportamento social humano.

“No próprio ato de criar uma linguagem, as sociedades humanas são


obrigadas a generalizar, a permitir que uma palavra sirva para exprimir
muitas coisas diferentes, a usar uma espécie de simbolismo ou estenografia
verbal. É a manipulação, dentro do cérebro, destes símbolos, juntamente
com a imaginação visual direta do que eles representam, que constitui o
pensamento humano. As fórmulas e teorias da ciência são apenas as extensões
naturais e cautelosas do processo de estruturar uma linguagem”. (Bernal,
1979, vol. I, p. 71)

1.2- Crenças e visão de mundo na era primitiva: a magia

De que forma o pensamento mágico primitivo contribuiu para o


desenvolvimento da racionalidade humana?

Outro aspecto importante da cultura primitiva deste período é o


desenvolvimento da visão mágica sobre o mundo, sobre as relações entre
os homens e destes com a natureza: a magia. Algumas das principais
características desta concepção de mundo são:
 A realidade é compreendida como sendo formada pela dualidade
espírito-matéria: espiritualismo.
 O mundo é povoado por espíritos que habitam e dão vida aos
homens, aos animais, às plantas, aos astros (sol, lua, estrelas), ao
mar, aos rios, ao vento, ao trovão, ao relâmpago, à chuva, etc:
animismo.
29
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

 As relações podem ser determinadas por imitações simpáticas:


comer a carne de um animal ou vestir a sua pele para adquirir
suas qualidades; pintar seres nas rochas para aumentar as chances
de obter sucesso na sua caça ou na sua coleta; fazer rituais de
cantos e danças para provocar chuva (associação de fatos ou
fenômenos por semelhanças e coincidências), prevenir os
perigos, para ter sucesso na caça e na coleta de alimentos:
simpatia.
 A origem e a organização da realidade são explicadas por meio de
totens, lendas e mitos. Estes se baseiam em animais, plantas,
objetos ou pessoas (ancestrais), que têm importância no cotidiano
do grupo e são reverenciados e considerados sagrados.
Os indivíduos da tribo, que se dedicam às tarefas de criação e
reprodução da magia são chamados de magos, pajés, oráculos, xamãs ou
sacerdotes, geralmente liberados da coleta de alimentos e da manufatura,
dedicam-se para:
 Comunicar-se com os espíritos através de: invocações
(chamamentos, contatos); feitiços; poções mágicas; rituais...
 Conhecer as ervas medicinais e os rituais religiosos que ligam os
homens aos espíritos.
 Prever o futuro; pedir aos deuses para interferirem nos
fenômenos da natureza (a chuva; a colheita; as doenças).
A magia é um conhecimento baseado nas relações do homem com
as condições que ele encontrava ao seu redor, nos fenômenos e nos
elementos da natureza, nas relações sociais, nas emoções e na imaginação
humana; com base numa referência: simbólica, simpática, imitativa,
espiritualista e animista. Os mitos da era primitiva se referem a
espíritos sagrados que originavam e ordenavam a vida de todos os
homens em igualdade, refletindo o modo de vida e a organização social
30
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

destas populações, organizadas na forma de “comunidades primitivas


igualitárias”.

Os espíritos, inicialmente, eram ideias imaginativas da continuidade


da vida dos ancestrais após sua morte, provavelmente ligadas aos
fenômenos psíquicos do sonho, da lembrança, do medo e da imaginação
e à crença na ideia de que os mortos continuavam influenciando no
mundo real, interferindo nos fenômenos naturais e nos destinos da
comunidade, por ação direta ou por magia. O conceito de espírito viria a
formar o conceito de “Deus” (espírito superior) que, posteriormente,
seria central na formação das religiões institucionalizadas (Bernal, 1979,
vol. I).

Quando o mago ou curandeiro se propõe a provocar chuva por meio


de rezas, cantos, danças e rituais mágicos, baseia-se na compreensão da
relação que existe entre a chuva e o desenvolvimento das plantas, e de
que a sobrevivência dos homens depende do mundo natural.

“Ele sente que há alguma conexão entre o homem e o mundo que o cerca,
algum entendimento primitivo de que, conhecido o procedimento correto, o
homem pode controlar as forças da natureza e colocá-las ao seu serviço.”
(Ronan, 1987, vol. I)

Além dos conhecimentos complexos descritos acima, os magos ou


sacerdotes, formulavam e reproduziam os mitos e rituais de magia;
detinham conhecimentos sobre várias substâncias e seus efeitos para o
homem: analgésicas, alucinógenas, abortivas, laxativas, embriagantes,
venenosas, estimulantes, relaxantes, nutritivas, e outras, baseados em
experiências do tipo “tentativa-erro-acerto”. Assim, controlavam o
conhecimento da natureza e o acesso direto aos espíritos, o que lhes
conferia uma função social e um status de poder que foi aumentando
31
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

com o desenvolvimento das sociedades. Aqui podemos ver os


rudimentos da formação, no pensamento humano, da necessidade de
conhecer, controlar e transformar a natureza e as regularidades nos seus
fenômenos (determinismo); compreender as relações sociais e seus
conflitos; e a necessidade de um conjunto ideológico sistematizado,
fixado culturalmente, e transmitido socialmente, importante na
manutenção e reprodução da coesão social e que serão partes
significativas da consciência científica futura.

Com a manipulação das ervas e poções, os magos, pajés ou


curandeiros, desenvolviam um certo conhecimento empírico das
substâncias naturais, inicialmente escolhidas por associações mágicas,
mas, gradualmente, seu sucesso ou fracasso determinaria a fixação das
substâncias mais eficazes, estabelecendo as suas relações reiterativas de
causa e efeito. Lentamente, um conjunto de conhecimentos práticos seria
reunido, utilizado e desenvolvido à luz da experiência, assim, os magos
tornaram-se os pioneiros no desenvolvimento dos rudimentos da
investigação experimental, ao fazer testes para encontrar as substâncias
que produzissem os efeitos desejados. Vemos aí os rudimentos dos
princípios da causalidade e da experimentação, que mais tarde serão
básicos para o desenvolvimento da racionalidade científica humana
(Ronan, 1987, vol. I).

2- Da revolução neolítica à formação das primeiras civilizações: de


cerca de 10.000 até aproximadamente 5.000 anos atrás.

Como o surgimento da agricultura e das cidades-estados


influenciaram no desenvolvimento da racionalidade humana?

Neste período constituíram-se as primeiras sociedades humanas


sedentárias, tendo como principal desenvolvimento técnico inicial a
agricultura e a pecuária, e em decorrência destas: o aumento
32
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

populacional; a construção de casas; a construção de canais para o


controle da água; o estabelecimento das cidades; o desenvolvimento dos
calendários; o desenvolvimento inicial da matemática; da escrita; da
metalurgia, da astronomia; da astrologia; da medicina... Como vimos
acima, toda esta evolução cultural foi possível a partir do
desenvolvimento gradual:
 Dos instrumentos: lanças, arco-e-flecha, machados, enxadas,
cabanas, barcos e outros;
 Das técnicas de interferência e controle dos fenômenos naturais:
controle do fogo, recoleta de plantas e caça de animais, cultivo e
utilização de plantas, domesticação de animais, cerâmica,
tecelagem, etc...;
 Da linguagem e das relações sociais, das regras de convivência e
da divisão social do trabalho.
 Das habilidades cognitivas e das características emocionais
humanas, com todos os aspectos que já comentamos acima e que
impulsionaram o desenvolvimento da racionalidade, da
capacidade de planejamento social das ações, da imaginação, das
emoções e do comportamento humano.

A agricultura e a sedentarização da sociedade, o aumento


populacional, o desenvolvimento da divisão social do trabalho, o
desenvolvimento dos instrumentos de trabalho e das técnicas de
produção, possibilitaram que o homem deixasse de ser
predominantemente coletor e caçador para ser predominantemente
produtor dos seus alimentos. Possibilitaram, também, a acumulação de
produtos alimentares vindos da agricultura e da criação de animais, com
a produção de excedentes que condicionaram: a necessidade da
construção e administração de canais de irrigação; a necessidade da
construção de armazéns para guardar o excedente da produção; a
33
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

necessidade da instituição de exércitos para vigiar e proteger os produtos


armazenados; e a necessidade do desenvolvimento dos meios de
transporte dos alimentos, tanto por via terrestre como fluvial e marítima.

Todos estes processos sociais culminaram com a instituição de


diferentes classes sociais dentro de uma mesma população; a instituição
da propriedade privada dos bens naturais e dos bens de produção,
surgindo também a instituição de uma classe social especializada na
administração das obras de interesse comum (tais como: canais de
irrigação, armazéns, templos, estradas, armas para a guerra...);
especializada também na organização e manutenção dos exércitos e na
reunião e distribuição do excedente produzido. Em outras palavras, o
acúmulo de produtos do trabalho gerou acúmulo de poder, divisão e
diferenciação social, e este poder foi apropriado pelas classes sociais que
passaram a administrar e dirigir as necessidades sociais comuns,
instituindo-se os primeiros estados.

O aumento populacional e o desenvolvimento da divisão social do


trabalho, com a formação de indivíduos especializados em diferentes
ocupações como: a cerâmica, a metalurgia, a manipulação e preparo do
couro, a manufatura de diferentes tipos de utensílios, ferramentas e
armas; a centralização dos templos destinados às práticas religiosas, a
centralização da administração da sociedade e dos conflitos nas relações
sociais; todos estes fatores em conjunto impulsionaram a formação e
desenvolvimento das cidades, que, juntamente com o desenvolvimento e
institucionalização social dos estados, formarão as primeiras cidades-
estados (Uruk, Ur, Nippur, Lagash, Umma, Tebas, Mênfis, Ugarit,
Biblos, Gericó, ... ) e as primeiras grandes civilizações (Mesopotâmia,
Egito e outras)
34
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

Neste processo de formação das primeiras civilizações, o


conjunto de avanços acima descritos impulsionaram o desenvolvimento
da racionalidade, conduzindo a um início de separação da abordagem
espiritualista para a abordagem técnica (empírico-experimental)
desenvolvendo-se cada vez mais e mais rapidamente: a agricultura; a
astronomia; a medicina; a metalurgia; a cerâmica; a tecelagem; a
construção civil (construção de casas, canais, templos, estradas); a
construção naval (barcos); o comércio; a matemática; as linguagens,
incluindo a criação da escrita (cuneiforme na Mesopotâmia, hieróglifos
no Egito e alfabética na Fenícia e depois na Grécia e em Roma); as
relações sociais; as características emocionais; o comportamento e as
regras sociais.

Observe-se que neste processo evolutivo, a racionalidade, as técnicas,


os instrumentos, a linguagem e as relações sociais, as características
emocionais e o comportamento social, impulsionam-se reciprocamente.
Nesta abordagem, a evolução humana não é constituída e derivada de
uma racionalidade fixa e inata (que nasce com o indivíduo e é herdada
geneticamente). Compreendemos aqui, que a evolução humana ocorre a
partir do desenvolvimento de uma racionalidade em constante
transformação, que é constituída por componentes biológicos e culturais
e cujo desenvolvimento é impulsionado reciprocamente com o
desenvolvimento das formas de produção, reprodução e representação
da vida material, emocional e social da humanidade: os meios de
produção (que incluem os instrumentos, as técnicas, as linguagens, os
bens naturais) e as relações sociais de produção, de representação, de
sentimentos e de convivência social.

O que consideramos como inatas no indivíduo são as


possibilidades biológicas de desenvolver a racionalidade e de
35
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

desenvolver as características emocionais e comportamentais humanas,


isto é, são transmitidas geneticamente as caraterísticas biológicas do
homem, tais como: a estrutura morfofisiológica do sistema nervoso, a
estrutura da mão, mas mesmo neste aspecto ocorre evolução, como na
estrutura fisiológica das relações entre a mão, o cérebro e o olho; as
demais características humanas, incluindo as habilidades cognitivas, as
linguagens, as regras sociais, as teorias, os métodos, as técnicas, os
instrumentos, as características emocionais e as regras do
comportamento social, são desenvolvidos histórico-culturalmente desde
os primórdios da evolução humana e deverão ser transmitidos para as
novas gerações, deverão ser assimilados e apropriados pelas novas
gerações no processo de desenvolvimento cultural, no seio do processo
histórico-social de produção e reprodução dos bens materiais e das
relações da vida em sociedade.

Observemos, também, que nesta perspectiva a categoria “trabalho”


é essencial (fundamental e primordial). Portanto, em nossa abordagem,
as categorias culturais, tais como: trabalho, sociabilidade, linguagem,
racionalidade, educabilidade e as características emocionais humanas,
estão historicamente imbricadas, inter-relacionadas, em dependência,
determinação e impulsionamentos recíprocos, formando uma totalidade
complexa em transformação ao longo da história da humanidade.
36
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO
37
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

CAPÍTULO II

A MITOLOGIA E O NASCIMENTO DO PENSAMENTO


RACIONALISTA: o conhecimento na Antiguidade, a era das
primeiras grandes civilizações, de aproximadamente 5.000 anos
atrás até o século V da era cristã.

Que fatores contribuíram para o desenvolvimento da mitologia e das


religiões institucionalizadas na era antiga?

Quais as principais características que diferenciam a magia, a


mitologia e as religiões monoteístas?

Quais as características principais do racionalismo da filosofia Grega


e como ele se diferencia das abordagens míticas sobre o surgimento e o
desenvolvimento dos fenômenos naturais?

Quais fatores sociais foram fundamentais para o desenvolvimento da


racionalidade na era antiga e quais características se desenvolveram na
racionalidade humana neste período?

As novas técnicas; o desenvolvimento da divisão social do


trabalho; a formação das sociedades sedentárias; o desenvolvimento da
agricultura; a domesticação e criação de animais; a metalurgia; a
construção de represas e de canais de irrigação; o grande crescimento
populacional; a formação dos exércitos; o acúmulo, armazenamento e
conservação de alimentos e outros produtos; o surgimento e o
crescimento do comércio contínuo e sistemático; a formação das
cidades-estados; a instituição da propriedade privada; do dinheiro; da
escravidão; da servidão coletiva; das diferentes classes sociais... Todo este
38
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

complexo cultural desenvolvido no período neolítico, impulsionou o


surgimento da realeza, que se uniu aos sacerdotes para administrar as
necessidades comuns da sociedade, para se impor como classes
privilegiadas e hierarquicamente superiores às demais classes sociais e
para garantir e reproduzir a coesão social.

Portanto, a realeza e os sacerdotes uniram-se:


 Para manter e reproduzir o processo de produção dos bens
materiais e a forma das relações sociais de produção: a
escravidão, a servidão coletiva, a servidão individual e familiar, as
formas de apropriação dos bens materiais e intelectuais e a
legitimação social destas formas de apropriação, como a
propriedade privada ou familiar, por exemplo;
 Para garantir e proteger o armazenamento e a distribuição dos
excedentes de alimentos e demais produtos;
 Para garantir e desenvolver o comércio e as guerras de conquista
e domínio;
 Para garantir o estabelecimento de leis, bem como a legitimação e
cumprimento das leis e dos costumes.

Ao longo da formação das primeiras cidades-estados, os sacerdotes


se especializaram, cada vez mais, na elaboração de um conjunto de
dogmas e práticas religiosas ritualísticas para reproduzir e perpetuar o
consenso social, para além da comunicação com os espíritos, num
mundo cada vez mais cheio de diversidades e desigualdades. O
surgimento e crescimento da propriedade privada, das diferentes classes
e setores sociais, da escravidão e da servidão coletiva, foram fatores
muito significativos neste processo.
39
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

Assim se formaram as bases para se desenvolverem a mitologia e as


religiões politeístas e monoteístas, deístas e institucionalizadas: como
instituições sociais sistematizadas, com diferentes funções, trabalhos
especializados, hierarquia e um corpo sacerdotal estabelecido;
arrecadação de bens e de dinheiro e acúmulo de poder (exemplo: o
dízimo era obrigatório desde o velho testamento). Observemos que os
totens e mitos da era primitiva eram espíritos sagrados que originavam e
ordenavam a vida de todos os homens em igualdade; já os deuses e os
mitos das cidades-estados e das civilizações da era antiga, eram seres
superiores que devam origem, governavam, controlavam e ordenavam os
homens, reproduzindo suas diferenças e hierarquias de poder (veja-se a
mitologia egípcia, mesopotâmica, grega e romana), portanto, a mitologia,
as religiões politeístas e monoteístas da era antiga irão se constituir e se
institucionalizar como uma nova forma de crenças e ideologia, não mais
baseadas na igualdade entre os homens e na magia simpática e animista,
como predominava na era primitiva, mas sim, baseadas nas desigualdades
e nas relações de poder, na hierarquia de poder e na dominação de uns
homens sobre os outros e na apropriação do produto do trabalho pelas
classes detentoras do poder.

Os mitos criados e legitimados neste período irão se compor de


narrativas que explicavam a origem (a história) e a organização da
realidade social, da natureza, do próprio homem, de suas relações com a
natureza e entre si, geralmente por meio de seres sobrenaturais (deuses,
espíritos, totens, criaturas lendárias: centauro, gigantes, heróis e outros).
Comunicando um sentimento coletivo sobre a realidade, cuja narrativa e
os fundamentos eram aceitos e partilhados com os demais membros das
comunidades, geralmente elaborados ou confirmados por uma
autoridade para estes assuntos, e esta autoridade geralmente é baseada:
na função social, como o sacerdote; no poder, como o rei; na pureza ou
na inocência, como no relato de uma criança.
40
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

O mito estabelece sentido, identidade e coesão à vida social na


medida em que: atribui identidade entre os homens de um mesmo grupo
social (relações de parentesco); fixa modelos da realidade, dos
comportamentos, das emoções e das atividades humanas (trabalho,
crenças, sentimentos, regras sociais, ritos); e explica a origem do mundo,
dos homens e da natureza. Estas características formam critérios para sua
aceitação. O mito estabelece, também, formas de interferência na
realidade, pela invocação dos “seres espirituais” (chamamento, súplica,
pedido) que se acredita terem poderes sobrenaturais sobre a realidade
objetiva e que alguns homens teriam poder e autoridade para se
comunicar com estes seres sobrenaturais. Como se o homem pudesse
“determinar”, através dos mitos, orações e rituais, realidades e
fenômenos naturais e culturais que não estão ao alcance de suas
determinações físicas imediatas (vai chover ou não? quem vai ganhar a
guerra? a caça ou a coleta vai ser produtiva?).

O discurso mitológico é formado por ideias aglomeradas, mediadas e


determinadas por:
 Emoções, sensações, imaginações, desejos;
 Associações de fragmentos heterogêneos de ideias (exemplo: os
raios e os ventos fortes são produzidos pela ira dos deuses; chove
porque uma deusa chora de paixão);
 Intuições, causalidades finalistas baseadas na imaginação, no
interesse e na admissão da existência de uma dualidade material e
espiritual na realidade.

Em resumo, a mitologia como forma de pensamento é baseada


predominantemente: na intuição, pressentimento ou adivinhação; na
imaginação; na emoção; na autoridade, no poder ou na tradição; na fé, na
crença, na confiança e nos compromissos intersubjetivos... Assim, chega-
41
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

se à conclusão de um problema, predominantemente, a partir dos


elementos e características citadas acima, e não, predominantemente, a
partir de uma base racional, empírica e objetiva.

Observemos que as características da magia e da mitologia se


fundiram e coexistiram ao longo da história, com vários pontos em
comum, tais como: a valorização do espiritualismo (crença na
coexistência da dualidade espírito-matéria na realidade); a estrutura lógica
mediada e condicionada, predominantemente, por emoções,
imaginações, necessidades e consensos intersubjetivos; veja-se, por
exemplo a história do Oráculo de Delfos na Grécia Antiga. Para maiores
detalhes sobre a mitologia grega, pode-se consultar as obras de Jean-
Pierre Vernant (“O Universo, os Deuses, os Homens” e “Mito e Pensamento
Entre os Gregos”, este último publicado pela editora Paz e Terra, 1990); ou
diretamente nas obras de: Hesíodo (“Teogonia”, sobre a origem dos
deuses), Ovídio (“Metamorfoses”) e Homero (“Ilíade” e “Odisseia”).

Apesar dos pontos em comum, a magia e a mitologia também


apresentam pontos importantes que as diferencia: a magia, animista e
simpática, predominou na era primitiva, quando as sociedades não eram
baseadas na diferenciação de classes, assim, a magia, como visão de
mundo, tinha as funções de representação e organização das relações dos
homens entre si e de suas relações com a natureza no âmbito das
comunidades primitivas, que eram baseadas na produção para a
subsistência igualitária e na divisão social do trabalho baseada
predominantemente nas diferenças de gênero e idade e portanto com
uma superestrutura ideológica hegemônica adequada às relações sociais
do modo de produção das comunidades primitivas; a mitologia, deísta,
politeísta e associada às funções da realeza e da aristocracia, tinha
funções de legitimação da diferenciação social e das hierarquias de poder
e controle sobre a maior parte da população e se desenvolveu
42
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

juntamente com a formação das primeiras grandes civilizações


(Mesopotâmia, Egito, Fenícia, Grécia, Roma, etc.), quando se
desenvolveu a divisão social do trabalho e predominou os modos de
produção escravista e de servidão coletiva; portanto, a mitologia
reproduzia os modelos de ideologia adequados a estas sociedades
divididas em diferentes classes e com diferenças no acesso à propriedade
dos bens naturais e culturais, com hierarquias de poder e diferenciação
nas condições da qualidade de vida dos homens que conviviam numa
mesma sociedade. Podemos destacar também, que as mitologias
(Egípcia, Mesopotâmica, Grega, Romana) constituíram a base para o
desenvolvimento das grandes religiões monoteístas (Judaísmo,
Cristianismo, Islamismo) como instituições sociais, com funções e
trabalhos especializados, com um corpo sacerdotal organizado e com
hierarquia, arrecadação de bens e acúmulo de poder, com uma literatura
e uma liturgia sagrada unificada, seguindo a lógica e a estrutura
organizacional das sociedades onde se formaram e se desenvolveram.

Por consequência do que vimos acima, os processos cognitivos de


indução e dedução, de análise e síntese, desenvolvidos no âmbito do
pensamento mágico-mitológico, são mediados e determinados
predominantemente e intrinsecamente por emoções (medos,
pressentimentos, desejos e outros), por interesses subjetivos, por
imaginações simbólicas, por necessidades individuais e sociais, e se
estabeleceram, se reproduziram e se fixaram socialmente, tendo como
base predominante a sua aplicabilidade social e o consenso
intersubjetivo. Portanto, neste tipo de pensamento a objetividade e a
sistematização teórica, são subordinadas e dependentes da mediação das
categorias acima descritas (emoções, imaginações, necessidade, consenso
intersubjetivo), e, assim, os processos de indução, de dedução, de análise,
de síntese, de conceituação e até mesmo de identificação, apresentam
43
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

estrutura lógica e resultados bem diferentes de como as entendemos na


abordagem científica atual. Com isto não estou dizendo que deixam de
ser “verdadeiras” ou “corretas”, apenas digo que apresentam estrutura
lógica próprias do conhecimento mágico-mitológico; e, apesar destas
diferenças, foi a partir das práticas sociais deste período, da estrutura
lógica deste tipo de racionalidade, da sua transformação e da sua
superação em novas sínteses cognitivas que se desenvolveram as
habilidades cognitivas de indução e dedução, de análise e de síntese,
como as entendemos atualmente, determinadas predominantemente por
uma abordagem empírica, experimental, metódica, logicamente
estruturada e sistematizada. Vejamos adiante, com mais detalhes,
algumas das práticas sociais deste período.

1- A elaboração de calendários, a matemática, a linguagem escrita e


a astronomia.

As fases de desenvolvimento das plantas, como a germinação, o


crescimento, a floração e a frutificação, geralmente ocorrem
acompanhando os ciclos anuais das diferentes estações climáticas. O
desenvolvimento biológico e o comportamento dos animais nos
ecossistemas também, geralmente, se relaciona com as diferentes
estações climáticas, como os períodos de fertilidade reprodutiva, o
nascimento, as migrações. Como o homem primitivo dependia da coleta
de vegetais e da caça dos animais para sua sobrevivência, desde os
primórdios de sua evolução, necessitava de um certo domínio de
conhecimentos sobre os ciclos das fases e dos períodos temporais do
desenvolvimento das plantas e dos animais, além disso, as estações
climáticas, tais como: o verão, a primavera, o inverno e o outono,
estabelecem, para uma determinada região geográfica, ciclos ambientais
de variações relativamente regulares na temperatura, na pluviosidade, na
luminosidade, o que determina necessidades e possibilidades nas ações e
44
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

no comportamento humano, específicas para cada estação do ano, assim


como nas características e fases fenológicas das plantas, no
desenvolvimento e no comportamento dos animais.

Portanto, para se relacionar com o ambiente, o homem tem que


adequar suas ações, aos ciclos da natureza, e para isso precisa conhecer e
prever o desenvolvimento destes ciclos. Daí decorre a necessidade do
estabelecimento, do registro, da fixação e da transmissão social de
conhecimentos sobre estes ciclos climáticos e suas relações com os ciclos
e fases de desenvolvimento das plantas e dos animais, portanto, daí
também decorre a necessidade do estabelecimento, do registro e da
fixação cultural de calendários, com os quais se pode prever os períodos
de tempo em que estes ciclos ocorrem nos diferentes tipos de
ecossistemas. Assim, o homem precisou desenvolver sistemas de registro
e contagem do passar do tempo, relacionando esta contagem do passar
do tempo com os ciclos climáticos das diferentes regiões onde ele
habitava: os calendários anuais.

Em outras palavras o homem precisava, e precisa até hoje, conhecer


e registrar os períodos de tempo e os ciclos que transcorrem entre as
diferentes fases de desenvolvimento das plantas e do comportamento
dos animais para resolver problemas, tais como: quando coletar os frutos
de uma determinada planta? Quando é o melhor período para a caça de
determinados tipos de animais? Quando é preciso armazenar alimentos
para sobreviver no inverno? Quanto alimento precisa armazenar para
sobreviver no inverno? Quanto alimento precisa coletar para suprir as
necessidades de todo o grupo? Estas são questões fundamentais para o
planejamento de todas as atividades dos diferentes grupos humanos.
Além de ter que resolver o problema de “como” coletar alimentos, caçar
animais, transportar, armazenar e conservar os alimentos, o homem
precisava resolver “quando”, “quanto” e “onde” realizar estas tarefas.
45
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

Conhecer e registrar os ciclos das estações do ano, com a contagem


dos períodos de tempo que transcorre entre as diferentes fases destes
ciclos, suas diferentes características e influências nas características do
meio ambiente e dos seres vivos; calcular o tempo que já se passou e
prever o tempo que ainda falta para se chegar a uma determinada estação
do ano, seja o inverno, a primavera, o verão ou o outono, são
conhecimentos fundamentais para o planejamento das ações e para a
própria sobrevivência do homem. Assim, para suprir estas necessidades e
resolver estes problemas, o homem desenvolveu os calendários: um
sistema de contagem do tempo, de registro e fixação do conhecimento
sobre os períodos de tempo que transcorrem ao longo dos ciclos naturais
das diferentes estações do ano. Para isso o homem, desde os primórdios
da sua evolução, teve que se basear nos próprios ciclos da natureza que
se relacionam direta ou indiretamente com as diferentes estações
climáticas, e os ciclos escolhidos para servirem de referência para se
estabelecerem calendários, foram os ciclos dos movimentos aparentes do
sol, das demais estrelas e da lua.

Podemos categorizar os movimentos do sol, das demais estrelas e da


lua, observáveis a olho nu, como aparentes, pois, na realidade estes
movimentos são causados pela interação entre os movimentos destes
astros com os movimentos do planeta terra (rotação em torno do seu
próprio eixo e translação em torno do sol por exemplo).

Os homens primitivos e da era antiga consideravam a terra como um


ponto fixo para a observação dos movimentos dos astros, assim, o
resultado que obtinham é o que chamamos de movimentos aparentes do
sol, das demais estrelas e da lua, e que passo a descrever a seguir, de
forma simplificada e em breves palavras.

Um observador no hemisfério sul, contemplando o horizonte


durante a noite, vê o movimento em bloco das estrelas ao redor da terra:
46
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

como se estas estivessem presas, em posições fixas, numa “abóboda


celeste”, ou melhor, numa “esfera celeste” que gira ao redor da terra,
sendo que as mesmas estrelas sempre nascem na mesma posição no
horizonte e fazem sempre a mesma trajetória.

Já o sol, visível durante o dia, também faz uma trajetória ao redor da


terra todos os dias, mas não nasce nem se põe na mesma posição do
horizonte todos os dias: a partir do dia 22 dezembro, aproximadamente,
um observador no hemisfério sul, olhando para o ponto onde nasce o
sol, verá o sol nascer diariamente no horizonte em pontos sempre mais a
sua esquerda, em comparação com um ponto fixo no horizonte da terra.
Então, o sol, a partir de 22 de dezembro, aproximadamente, se desloca
em dois movimentos aparentes distintos, um ao redor da terra (de
aproximadamente vinte e quatro horas), e outro em direção à esquerda
de um observador olhando para o sol ao nascer, como se traçasse uma
trajetória em espiral, até o dia 22 de junho, aproximadamente, quando o
sol deixa de se deslocar para a esquerda do observador e, a partir deste
dia, começa a se deslocar no sentido contrário, à direita do observador,
voltando neste sentido até o dia 22 de dezembro, quando se inicia um
novo ciclo.

Portanto, durante seis meses (aproximadamente 182 dias), para um


observador no hemisfério sul olhando para o ponto do horizonte onde
nasce o sol, com o passar dos dias, o ponto onde nasce o sol se desloca,
a partir de 22 de dezembro, para a esquerda do observador, até o dia 22
de junho, a partir daí, e nos próximos seis meses, o ponto onde nasce o
sol se desloca no sentido contrário, com o sol nascendo diariamente mais
à direita do observador, um pouco por dia, até voltar à sua posição de 22
de dezembro e o ciclo recomeça. Neste caso, o dia 22 de dezembro é
chamado de solstício de verão e o dia 22 de junho é chamado de solstício
47
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

de inverno (estas datas podem variar de um ou dois dias de um ano para


o outro).

O ponto médio que marca esta trajetória aparente do sol em espiral


ocorre quando o dia tem duração igual à duração da noite, isto ocorre
duas vezes (para um observador no hemisfério sul), uma vez quando o
ponto onde nasce o sol está se deslocando para a esquerda do
observador, no caso considerado acima, no dia 21 de março, e outra vez
quando o sol está se deslocando no sentido contrário, no dia 22 de
setembro. Estes dias são chamados de equinócio de outono (21 de
março) e equinócio da primavera (22 de setembro) e também podem
variar de um ou dois dias de um ano para o outro.

Observemos que quando o sol inicia seu deslocamento aparente para


a esquerda do observador, no caso considerado acima em 22 de
dezembro, no hemisfério sul, inicia-se a estação de verão, quando o sol
atinge a metade da sua trajetória para a esquerda, em 21 de março, inicia-
se a estação do outono, quando o sol inicia sua trajetória aparente de
volta, no sentido contrário, à direita do referido observador, dia 22 de
junho, inicia-se a estação do inverno e quando o sol atinge a metade
desta trajetória, dia 22 de setembro, inicia-se a estação da primavera.

Estes “movimentos” aparentes do sol, para a esquerda do


observador do nascer do sol durante seis meses e no sentido contrário
nos seis meses seguintes, vistos por um observador do nascer do sol
localizado no hemisfério sul, na realidade resultam do movimento orbital
da terra em torno do sol (translação), que dura um ano, isto é,
aproximadamente 365 dias; e as diferentes estações climáticas que se
sucedem ao longo deste período, resultam da interação deste movimento
orbital da terra com a inclinação (23° 27 minutos) do “eixo” central do
planeta terra em relação ao plano que contém sua órbita ao redor do sol,
que tem como consequência uma variação cíclica na quantidade de luz
48
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

solar que cada região da terra recebe ao longo do ano. Mas, como já
dissemos acima, os povos primitivos e da era antiga consideravam o
planeta terra como ponto estático no centro do universo, por isso
visualizavam e registravam os “movimentos” aparentes do sol na forma
como descrevemos anteriormente (durante seis meses, para a esquerda
do observador do nascer do sol e, nos próximos seis meses, para a direita
do mesmo observador localizado no hemisfério sul, perfazendo sempre
um ciclo anual).

O movimento aparente da lua é semelhante ao do sol, também faz


uma trajetória ao redor da terra, e também se desloca para a esquerda e
para a direita do observador, mas num ciclo bem mais rápido que o sol: a
cada 27, 33 dias a lua volta a ocupar o mesmo lugar na esfera celeste,
enquanto o sol demora 365 dias. A Lua apresenta um fenômeno
característico que são as quatro diferentes fases lunares: lua nova é
quando ela está quase invisível, vê-se somente uma borda crescente
muito fina do disco lunar; lua crescente é quando visualizamos metade
crescente do disco lunar até atingir a totalidade do disco; lua cheia é
quando todo o disco lunar é vivível; e lua minguante é quando a parte
visível da lua vai diminuindo até atingir o estágio de lua nova e o ciclo se
reinicia. Cada fase da lua dura aproximadamente uma semana, ou pouco
mais de 7 dias, e na totalidade, o ciclo completo das fases da lua dura
29,5 dias, aproximadamente um mês.

Há registros históricos de que o homem conhece e utiliza estes ciclos


de movimentos aparentes do sol, das demais estrelas e da lua, para
estabelecer calendários anuais, dividindo o ano em 360 dias, em
diferentes estações climáticas e em blocos de aproximadamente 30 dias,
os meses, baseados nas fases da lua, desde aproximadamente 6.000 anos
atrás.
49
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

Desta forma, os povos da antiguidade tinham um parâmetro para


medir o decorrer do tempo, para prever datas, planejar e organizar
eventos, rituais, períodos de chuva intensa, de enchentes, de coleta, de
caça, de plantio, de colheita, etc. Fixando datas e períodos de tempo,
estabelecendo ciclos naturais que se repetem anualmente como
parâmetro para comparar, fixar, verificar, transmitir, dar continuidade,
constância e objetividade para suas medidas de tempo e as relações com
as suas necessidades no processo de produção da vida material: suas
atividades de coleta, caça, plantio, colheita, previsão de quando se
iniciavam os períodos de chuvas, de frio, de enchentes dos rios. Os
calendários eram importantes também para estabelecer os ciclos anuais
dos rituais míticos e religiosos e das comemorações cívicas, importantes
na reprodução do consenso e da coesão social. Estas eram, e ainda são,
algumas das principais funções dos calendários.

Observemos que o número 360 (dias) era bastante regular e facilitava


os cálculos de períodos de tempo e da relação dos ciclos da natureza
com os ciclos dos movimentos dos astros: os povos antigos
consideravam que o movimento dos astros era circular ao redor da terra,
e dividiam o círculo em quatro partes obtendo quatro grupos de 90
(dias), aproximadamente a duração das quatro diferentes estações
climáticas e dos ciclos dos movimentos do sol, combinando com os
aproximadamente 30 dias (1 mês) do ciclo das quatro diferentes fases da
lua, dividindo-se, então, as estações climáticas em quatro grupos de três
meses cada uma e o ano em 12 meses. Dividindo-se um dia e uma noite
em 24 partes iguais de tempo, que corresponde ao período de tempo que
leva o sol para dar uma volta em torno da terra, temos aproximadamente
24 períodos de uma hora, e, desde a Mesopotâmia antiga, as horas foram
divididas em 60 minutos, lembrando que o sistema numérico sumério
utilizava uma base de sessenta unidades (sistema sexagesimal). Note-se
que são números múltiplos ou divisores entre si.
50
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

Contado empiricamente, o ano tem 365 dias, e os antigos sabiam


muito bem disso, por isso estabeleciam períodos determinados para a
correção dos erros dos seus calendários, mas preferiam manter a
correspondência e a coerência lógica dos seus calendários com os
modelos matemáticos das figuras geométricas do círculo e do
movimento circular, que podem ser divididos em 360 partes iguais, ou
“360 graus”, que correspondiam, aproximadamente, ao deslocamento
aparente diário do sol em relação às estrelas fixas e a um ponto fixo no
firmamento (aproximadamente 1 grau por dia), para a esquerda ou para a
direita, dependendo da época do ano, como vimos acima, o que facilitava
os cálculos, a fixação das datas, a previsão dos eventos e dos fenômenos,
o registro e a transmissão destes conhecimentos. Portanto, se contarmos
os dias um a um, em um ano temos aproximadamente 365 dias, mas aí
os cálculos para se determinar as estações do ano, os meses, as horas do
dia, não ficariam tão exatos, fáceis e justapostos em relação à figura do
círculo e do movimento circular, então, os antigos preferiam manter uma
harmonia de números inteiros (numérica, geográfica e lógica) em seus
calendários anuais, em comparação com a contagem empírica dos dias ao
longo de um período anual de tempo. Assim, vemos surgir a busca da
elaboração de modelos matemáticos para compreender e representar
fenômenos da natureza possibilitando a operacionalização e a fixação
social de técnicas e formas de atividades humanas associadas a estes
fenômenos naturais. Esta forma de abordar a compreensão, o registro, a
operacionalização e a transmissão social do comportamento dos
fenômenos naturais e seus ciclos, utilizando modelos matemáticos, ainda
que rudimentares, será fundamental para o desenvolvimento da
racionalidade humana, para o desenvolvimento das habilidades
cognitivas de indução, dedução, análise, síntese, conceituação e resolução
de problemas como os entendemos modernamente no âmbito do
51
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

conhecimento científico, como veremos adiante, no capítulo que trata do


desenvolvimento da ciência na era moderna.

1.1- A matemática e a linguagem escrita.

Os problemas gerados pela necessidade de administrar a coleta, o


armazenamento e a distribuição dos excedentes de alimentos e outros
produtos, como por exemplo o registro das diferentes quantidades
recebidas dos produtores, para serem armazenadas e posteriormente
distribuídas; os problemas gerados pela necessidade de contagem e
registro do transcorrer do tempo com a criação dos calendários; e os
problemas gerados com o crescimento das atividades comerciais,
impulsionaram o desenvolvimento da criação de sistemas de unidades
numéricas para a contagem e registro das quantidades, os sistemas e
unidades de medidas de comprimento, os sistemas e unidades de
medidas de peso e as operações aritméticas básicas (soma, subtração,
multiplicação e divisão). Já a construção civil em geral e as necessidades
da agrimensura, de medição, de divisão e de cálculo de áreas das terras
agricultáveis impulsionou o desenvolvimento do estudo das figuras
geométricas, daí vem a origem etimológica da palavra geometria:
medição de terras. Assim, o surgimento e a evolução da matemática e da
linguagem escrita, são uma consequência das necessidades e dos
problemas surgidos nas atividades próprias das sociedades sedentárias,
urbanas, agrícolas e comerciais.

Outro aspecto determinante neste processo é a necessidade de


registrar as regras e costumes do comportamento social, os mitos e os
rituais, destinados a legitimar e reproduzir as formas de distribuição de
poder nas sociedades; garantir a coesão social, a disciplina no
cumprimento das leis estabelecidas, a obediência, a aceitação das
diferenças de classe estabelecidas na cultura e a reprodução das relações
sociais de produção, sejam elas relações escravistas, de servidão coletiva
52
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

ou de subordinação por hierarquia administrativa, militar ou de


parentesco. Assim, tanto a matemática como a linguagem escrita se
desenvolveram rapidamente, juntamente com a organização das
sociedades agrícolas, urbanas e comerciais deste período. Culminando
com o desenvolvimento da escrita alfabética que ampliou para vários
setores da sociedade o domínio e o uso da língua escrita, pela facilidade
da sua aprendizagem e da sua operacionalização; a leitura e a escrita, que
antes eram de domínio exclusivo de sacerdotes e escribas, tornou-se
acessível aos comerciantes, aos artesãos, aos mestres de obras, aos
membros da aristocracia e das famílias ricas, aos médicos, aos
agrimensores, aos coletores de impostos, aos demais funcionários
graduados da administração estatal, aos especialistas na aplicação das leis
e dos costumes, ampliando e democratizando o desenvolvimento das
operações cognitivas complexas e da capacidade lógica de raciocínio, que
o exercício da escrita e da matemática necessitam, possibilitam e
impulsionam.

Vinda originalmente da fenícia, a escrita alfabética foi desenvolvida


em torno do século XII ac e se espalhou para a maioria das sociedades
da antiguidade, tais como na Grécia, na Península Itálica, no Oriente
Próximo e em todo Império Romano.

Em resumo, o desenvolvimento da agricultura, das cidades, da


produção e do armazenamento de excedentes da produção, do comércio,
da escravidão, da guerra, das construções de casas, templos, canais e
túmulos, impulsionou e foi impulsionado pelo desenvolvimento:
 Da matemática;
 Das técnicas mecânicas;
 Das técnicas de cerâmica, tecelagem e metalurgia;
 Da linguagem escrita;
53
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

 Do estudo e registro dos diferentes astros e seus movimentos


(astronomia) e a elaboração de calendários anuais;

Estas inovações foram fundamentais para o desenvolvimento da


racionalidade humana, possibilitando o desenvolvimento contínuo das
habilidades cognitivas complexas, iniciando a separação entre a
abordagem espiritualista e a abordagem indutiva (baseada em fatos
empíricos) na compreensão dos fenômenos naturais; buscando
desenvolver a “objetividade” e utilizar a experiência vivenciada nas
práticas sociais na compreensão da realidade natural, o que tornou
possível os avanços na elaboração de estudos e de teorias gerais,
racionais e universais, ainda na era antiga, como veremos a seguir.

Quando estudamos estes avanços no conhecimento humano, que


datam de períodos tão remotos, como as técnicas derivadas do controle e
utilização do fogo (culinária, cerâmica, metalurgia, destilação, e outras);
as técnicas derivadas dos instrumentos mecânicos, como a caça com o
arco e flecha, o sistema de rodas ligadas por um eixo que vai culminar
com a técnica de transporte de alimentos com a carroça; os sistemas
numéricos; as figuras geométricas e suas relações métricas; as linguagens
escritas; os calendários; as unidades de medidas, como o ângulo (que
mede o deslocamento em círculo), as unidades de medidas de
comprimento e os instrumentos que serviam para dividir os campos de
cultivo, e para a construção de casas, templos, armazéns, palácios,
túmulos e canais. Ficamos perplexos com os avanços alcançados pelo
homem no nível de desenvolvimento das funções cognitivas e da
resolução de problemas exigidos para tais descobrimentos, criações,
instrumentos e técnicas. Vemos claramente aí os rudimentos para a
superação-transformação das categorias dominantes do pensamento
mágico-mitológico, com as características que vimos na introdução deste
capítulo (emoções, imaginações, consensos intersubjetivos), para a busca
da construção e da estruturação do conhecimento do tipo de
54
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

racionalidade predominantemente indutivo-dedutiva, experimental,


analítico-sintética, objetiva, quantitativa, lógica, generalizadora e
relacional, que viria a marcar tão significativamente o processo de
produção e reprodução da nossa vida na era contemporânea.

2- A razão: o nascimento da filosofia na era antiga.

O desenvolvimento cultural que estudamos até agora, bem como sua


difusão entre as diferentes sociedades da era primitiva e antiga,
possibilitou o surgimento, de uma abordagem diferente da mitologia e da
magia, quanto à forma de análise e de síntese cognitiva e quanto aos
resultados obtidos: o conhecimento filosófico racional, que se
desenvolveu inicialmente na Grécia Antiga e inaugurou o longo caminho
na construção de uma racionalidade que procura:
 Identificar o objeto do conhecimento (o que é?);
 Analisar o objeto do conhecimento, identificando as partes em
que é formado, as diferentes funções e as relações entre suas
partes na constituição do todo (como é formado? Como
funciona? Como se modificam suas partes?);
 Estabelecer suas relações de causa e efeito;
 Determinar seu processo de surgimento e de desenvolvimento,
seu movimento de transformação (como é gerado? Como se
transforma? Como se “corrompe”, ou se “destrói”?);
 Concluir: por indução, por dedução ou pela combinação dos dois
métodos de raciocínio (indução-dedução, análise-síntese,
desenvolvidos de forma lógica e objetiva), na medida do possível,
livres da influência determinante das emoções, das imaginações,
dos interesses subjetivos imediatos. Observe-se que a abordagem
filosófica da natureza não se apresentou inicialmente “totalmente
livre” das categorias epistemológicas predominantes no
55
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

pensamento mágico e mitológico, apenas inaugurou uma nova


forma de compreender a natureza e a sociedade.
 Elaborar novos conceitos ou novas combinações e relações entre
conceitos já existentes, novas teorias (conjunto sistematizado de
conceitos e relações qualitativas e quantitativas entre conceitos),
buscando estabelecer novos níveis de objetividade, generalização
e de universalidade dos conceitos, das hipóteses e das teorias,
construindo os conhecimentos com base na experiência
vivenciada e na experiência racional.

Observemos que as causas, os elementos e processos que formam o


objeto do conhecimento filosófico racional que iniciou seu
desenvolvimento na Grécia antiga, são considerados, dentro dos limites
possíveis, imanentes e inerentes ao próprio objeto em estudo. Em outras
palavras: buscar conhecer as causas e os efeitos dos fenômenos naturais,
a partir do estudo destes mesmos fenômenos, em alguns casos, buscando
separar a abordagem espiritualista da abordagem naturalista da realidade.

O nascimento e desenvolvimento inicial da filosofia e do


pensamento racional sobre a natureza e a humanidade, remete-nos ao
século VI ac, e aos primórdios da história das cidades-estados da Grécia
Antiga, com Tales de Mileto, Anaximandro, Anaxímenes, Pitágoras,
Anaxágoras, Diógenes de Apolônia, Heráclito, Xenófanes, Parmênides,
Empédocles, Sócrates, e outros, que podem ser estudados na coleção
“Os Pensadores”, das editoras Abril Cultural (até a 3ª edição) e Nova
Cultural (da 4ª até a 8ª edição), nos seguintes volumes: Pré-Socráticos (vol.
I), Sócrates (vol. II), Platão (vol. III), Aristóteles I (vol. IV) e Aristóteles II
(vol. V); e em vasta bibliografia sobre o assunto disponível na nossa
literatura filosófica.

Estes filósofos que citamos acima, marcaram o início do


conhecimento filosófico no mundo ocidental, mas o apogeu e a síntese
56
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

deste tipo de conhecimento na era antiga, podemos representar a partir


das ideias e das obras de dois grandes pensadores gregos dos séculos V e
IV ac: Platão e Aristóteles, que serão fundamentais na formação da
cultura erudita e do pensamento sistematizado das sociedades ocidentais
medievais, modernas e contemporâneas. Devido aos limites de extensão
deste trabalho, apresentaremos apenas uma síntese dos principais pontos
abordados por Platão e Aristóteles.

3- A Metafísica Idealista de Platão: Grécia 427-347 ac.

Principais postulados da “teoria das ideias” de Platão:

• Tudo o que vemos, tudo o que observamos com os sentidos,


pertence ao mundo da aparência, a verdadeira realidade são as formas ou
ideias essenciais, permanentes e imutáveis, pertencentes ao mundo
inteligível;

• São as ideias e formas essenciais, os princípios verdadeiros, que


fundamentam e que importam para o conhecimento humano;

• A verdade, o conhecimento da realidade, só pode ocorrer pela


contemplação, pela revelação ou pela intuição das verdades e dos
princípios essenciais, das ideias e das formas eternas e imutáveis;

• Somente as ideias e as formas essenciais constituem a imagem da


perfeição e que podem iluminar a percepção dos homens; o mundo
material (da vivência cotidiana, das coisas sensíveis), mutável e
imperfeito é formado apenas pelas sombras (aparência) que vemos nas
paredes da caverna em que estamos presos ao longo da vida (mito da
caverna); estas “aparências” só podem ser “conhecidas”, pelas ideias,
pelos princípios, pelos conceitos, pelas teorias e pelas formas essenciais.
57
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

• Os conceitos (ideias) são absolutos e eternos, e são apreensíveis


a partir de princípios e virtudes (valores) fundamentais, tais como:
verdade, bondade, sabedoria, justiça e beleza;

• A natureza, o cosmos, também foi formada e é ordenada por


“princípios universais” eternos, que formam a harmonia matemática do
mundo. Estes princípios que organizaram o mundo material, o cosmos:
o sol, as estrelas, a lua, a terra e seus movimentos, e que ordenam o
cosmos de forma eterna e imutável, foram determinados por um
“demiurgo”, um artesão divino, um ser superior que foi e é a causa
inteligível do mundo material.

• Somente uma aristocracia “superior” de homens pode atingir


este ideal inteligível do espírito humano: o conhecimento do verdadeiro,
da justiça, do bom e do belo, que é inato e imutável. Esta aristocracia
superior é que deve governar a cidade e os demais homens.

Platão valoriza a razão e as virtudes humanas a serviço da justiça, da


verdade, da felicidade, da compreensão da natureza e da organização da
sociedade, numa perspectiva aristocrática, propondo um racionalismo
onde predomina o raciocínio dedutivo, que parte de princípios gerais
intuídos, que parte de conceitos universais, fundamentais e essenciais,
eternos e imutáveis, conforme o modelo axiomático da matemática de
construir, demonstrar e validar conhecimentos. Algumas das suas obras
que chegaram até nossos dias, que contém boa parte das suas principais
ideias, que tiveram grande influência na formação do pensamento
erudito nas sociedades posteriores à Grécia Antiga e que subsistem até
hoje como grandes obras filosóficas, são: “A República” (estudo sobre a
justiça, a política e o conhecimento); “O Banquete” (estudo sobre o amor)
e “Timeu” (estudo sobre a natureza, o homem e o cosmos).
58
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

4- A Filosofia Finalista de Aristóteles: Grécia 384-322 ac.

Aristóteles nasceu em Estagira, no norte da Grécia, seu pai foi amigo


e médico do rei na corte de Amintas III, pai de Felipe II da Macedônia e
avô de Alexandre “O Grande”. Aos 18 anos foi morar em Atenas, na
Academia, escola dirigida por Platão, onde viveu, estudou e lecionou por
vinte anos. Após a morte de Platão, em 347 a.c., mudou-se para Assos,
onde viveu e lecionou, por três anos, na corte de Hérmias, ex-aluno da
Academia.

Em 344 a.c., aos quarenta anos, é convidado para ser preceptor de


Alexandre, filho adolescente do rei Felipe II, que já dominava grande
parte das cidades gregas, e logo dominaria toda a Grécia. Em 336 a.c.,
Alexandre sobe ao trono e Aristóteles volta para Atenas e funda o
“Liceu”, com a ajuda de Alexandre, escola que existiu por mais de 400
anos. Após a morte de Alexandre, em 323 a.c., Aristóteles passa a ser
hostilizado pelos atenienses que não aceitavam o domínio macedônio na
Grécia, então tem que se exilar em Calcis, ao norte de Atenas, morrendo
poucos meses depois, no início de 322 a.c.

Sua obra abrange diversos ramos do conhecimento: filosofia,


astronomia, física, biologia, retórica, lógica, ética, política e teoria sobre
artes e poesia. O que nos interessa mais são as obras sobre lógica,
astronomia, física e biologia.

Numa visão de conjunto, sua obra representa uma síntese do


pensamento grego antigo. Este “pensamento”, trouxe inovações e
sínteses importantes nas concepções: de mundo (cosmologia); dos seres
vivos; do homem; do conhecimento, e das relações entre Fé (mito) e
Razão, entre espiritualidade e o conhecimento da realidade.
59
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

Qual era o contexto teórico onde viveu Aristóteles?

No século IV a.c., na Grécia, encontramos duas linhas de


pensamento, que tinham pontos em comum, mas que apresentavam
estrutura lógica e conceitual próprias: a tradição mitológica e a tradição
filosófica. As principais características gerais da tradição mitológica, já
estudamos acima. A tradição filosófica, como já citamos, desenvolveu-se
principalmente a partir do séc. VI a.c., com Tales de Mileto, Pitágoras,
Heráclito, Xenófanes, Parmênides, Anaximandro, Empédocles, Sócrates,
Platão e outros. Os problemas da origem, da constituição, da formação e
da “corrupção” (transformação, degeneração, envelhecimento, morte)
dos seres, eram recorrentes na filosofia grega que digladiava entre as
concepções de verdades, ideias e seres perfeitos e eternos (Parmênides e
Platão), que tem origem nas imagens aparentes dos astros, como o sol, a
lua, as estrelas, que nos aparecem visualmente como figuras geométrica
perfeitas e eternas, com movimentos cíclicos também perfeitos e eternos;
e as concepções de mudança, de imperfeição, de transformação, de
transitoriedade do ser e da realidade (Heráclito de Éfeso).

Aristóteles construiu uma concepção filosófica e cosmológica


própria, buscando inovar, assimilar parcialmente e resolver os problemas
das contradições entre estas concepções. Vejamos a seguir algumas das
principais características do seu pensamento.

5- Principais características do pensamento aristotélico.

Para Aristóteles, o objeto do conhecimento, o ser, a realidade, tem


uma essência que deve ser encontrada estudando-se a própria realidade.
A determinação da essência das coisas não deve ser projetada no mundo
das ideias (Platão) pré-concebidas ou dos espíritos sobrenaturais (Mito);
deve ser compreendia racionalmente (Razão) estudando-se os próprios
fenômenos.
60
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

Para compreender o ser (as coisas existentes, a natureza), Aristóteles


atribui quatro causas necessárias: a causa formal (forma), a causa material
(matéria), a causa eficiente (motriz e transformadora) e a causa final.

Para admitir e explicar a mudança, a transformação do ser, das coisas


existentes, da natureza, ele cria os conceitos de “ato e potência”, como
características imanentes do ser, sendo ato o estado em que ele se
apresenta aos sentidos, e potência o que ele pode vir a ser, determinado
pela sua causa eficiente (como exemplo podemos pensar uma fruta
quando ela está madura, está em ato, e sua forma apodrecida está em
potência), em outras palavras: o ser está em ato no momento que o
percebemos com nossos sentidos, e sua potência define o que ele pode
vir a ser, sendo que ambos são características próprias de cada ser.

Na obra de Aristóteles, o mundo, o cosmos, é formado por duas


dimensões: o mundo sublunar e o mundo celestial, a “abóboda celeste”.
O mundo sublunar é formado pela atmosfera, a terra e os seres que nela
habitam; a abóboda celeste é formada pelos astros tais como: a lua, o sol,
os planetas e as estrelas, todos fixos a esferas concêntricas em relação à
Terra. Estas esferas giram em movimento circular uniforme e eterno em
torno da Terra, que fica estática no centro do universo. Ao girar em
torno da Terra, as esferas celestes carregam consigo os astros que,
portanto, também giram ao redor da Terra em movimento circular
uniforme e eterno. Os astros celestiais têm forma circular perfeita.

Deus é a causa eficiente, a força motriz, do movimento circular


uniforme e eterno dos corpos celestes. As esferas e os astros que ficam
acima do mundo sublunar são formados pelo elemento “éter”: eterno e
indestrutível, imutável, diferente dos quatro elementos que formam o
mundo sublunar e dos corpos sublunares, que são corruptíveis,
destrutíveis, e que se transformam com o tempo (não são eternos como
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História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

os corpos celestes). Água, terra, ar e fogo são os quatro elementos


fundamentais que formam a matéria dos seres sublunares, que podem ser
formados por um deles ou por sua combinação.

Os elementos fundamentais da matéria têm movimento próprio,


espontâneo, em direção à sua causa final: o ar se move naturalmente para
cima em direção à atmosfera; o fogo também se movimenta
naturalmente para cima para a região entre a terra e o limite superior do
mundo sublunar; a terra e a água se movem naturalmente para baixo em
direção ao centro da terra; são movimentos todos retilíneos e naturais,
que cessam quando o elemento atinge seu lugar natural, assim, todos os
corpos tendem a um estado de repouso: cessando a força que lhes move,
ou atingindo seu “lugar natural”, a causa final do seu movimento, param
em estado de repouso. Já os corpos celestes, têm movimento circular,
uniforme, eterno e perfeito. Observe-se a coerência lógica entre os
conceitos e as concepções físicas de movimento e de estrutura da
matéria, com os conceitos e princípios filosóficos, como o princípio da
causa eficiente e o princípio das causas finais.

Os movimentos naturais dos corpos sublunares dependem da sua


“causa final” e de seus pesos: por exemplo, quanto mais pesado um
corpo composto de terra, maior a sua velocidade de queda em direção à
terra, a causa final do seu movimento, o seu “lugar natural”. Os
movimentos não-naturais dos corpos, dependem de uma força externa
aplicada por contato direto sobre o corpo que se move, como já
dissemos acima, cessando a força que impele o corpo, seu movimento
não-natural cessará e este ficará em repouso, em outras palavras: ficará
parado.

Os seres na terra são divididos em: a) seres animados: plantas,


animais e o homem. São aqueles que têm matéria, forma definida,
finalidade e eficiência próprias; e b) seres inanimados: os minerais (solos,
62
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

rochas, metais), estes não têm forma própria, nem finalidade, nem
eficiência (transformação) própria, somente matéria própria.

Todos os seres animados (vivos) possuem uma diferença qualitativa


em relação aos seres inanimados, a “alma vital” que se manifesta em:
potência (vital), forma (pré-definida), finalidade (causa final) e eficiência
(mudança, ciclo vital) própria, o que os diferencia dos seres inanimados
que só apresentam matéria própria (causa material). Os estudiosos
posteriores chamaram esta teoria sobre os seres vivos de “vitalismo”.

Os seres animados apresentam características específicas que os


diferencia em espécies que são fixas, não mudam suas características ao
longo do tempo, isto é, as diferentes espécies de seres vivos não têm
uma relação evolutiva, não há relações de ancestralidade entre duas
espécies diferentes. Cada espécie forma um “tipo”: mesmo que haja
muitas semelhanças entre duas espécies, como as semelhanças que
existem entre um gato e um leopardo, isto não significa que tenham uma
relação de ancestralidade comum. Esta teoria sobre a diversidade
biológica foi posteriormente conhecida como abordagem essencialista ou
“tipológica” (Mayr, 1998, p. 345-347; e p. 435).

As espécies biológicas apresentam atributos específicos que as


diferenciam a partir das funções vitais:

• Função nutritiva;

• Função reprodutiva;

• Função locomotora;

• Função sensorial (tato, olfato, visão, paladar, audição);


63
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

• Função pensante (intuição, análise, indução, dedução, síntese)

• Apresentam também diferentes formas de ciclo vital


(transformações ao longo da vida).

Esta abordagem embasou uma forma de classificação dos seres vivos


por semelhanças e diferenças fisiológicas e anatômicas: seres vivos e não
vivos; animais e vegetais, animais com sangue e sem sangue. Os seres
vivos se organizam em graus crescentes de complexidade e as diferenças
entre as espécies próximas são mínimas, indicando a existência de um
contínuo na constituição desde os seres inanimados (minerais) até as
plantas, os animais (cada vez mais perfeitos) e por fim o homem: numa
“escala da natureza”, em grau crescente de complexidade. Mas este
contínuo não significa “ancestralidade”, refere-se apenas às semelhanças
e proximidade no grau de complexidade de suas formas e das demais
funções.

“A natureza parte dos seres inanimados para os animais, em graus tão


pequenos que, na continuidade, não se percebe a qual dos dois campos
pertencem os de limite e os intermediários, porque depois do gênero dos
inanimados segue o das plantas (...) A passagem destas (as plantas) para os
animais é contínua (...) pois algumas espécies marinhas propõem o problema
para saber se são animais ou plantas, porque se acham unidas ao solo, e
muitas delas, arrancadas do solo, morrem.” (História animal, VIII, 1, 588, in
Andery, 2001, p.85-86).

Se observarmos a natureza numa perspectiva imediata, o ciclo


específico dos diferentes “tipos” de seres vivos sempre se repete nos
seres que nascem: filhos de gatos são sempre gatos também, mantendo-
se nos filhos as formas e as funções essenciais dos pais, e,
aparentemente, isto se repete eternamente e em todas as espécies; a
generalização desta observação formou a base para uma abordagem
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ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

tipológica e essencialista da diversidade das espécies vivas, segunda a


qual, as características de cada espécie são consideradas fixas, imutáveis.
Não havendo, nas obras de Aristóteles, menção a relações de derivação
evolutiva entre elas. Esta abordagem predominaria por mais de dois mil
anos e era coerente com a abordagem criacionista e da geração
espontânea para a origem das espécies.

Na sua abordagem tipológica as espécies são divididas em categorias


fixas e rígidas, como os conceitos e as classes sociais, e hierarquizadas do
mais simples ao mais complexo (no âmbito social do escravo ao
aristocrata).

O homem está no mais alto grau de complexidade na hierarquia dos


seres vivos, pois além de possuir todas as funções vitais, possui a
capacidade de raciocinar (função pensante) e planejar seus objetivos, que
os demais seres vivos não possuem.

Aristóteles entendia que o estudo dos seres vivos exige observação,


classificação, ordenação e experiências para que se descubra seus
atributos essenciais, sua causa final e sua sistemática (Andery, 2001).

“Deu nome a cerca de quinhentas espécies de animais (...). Há indícios que


suas observações incluíam dissecações e são apresentadas descrições
completas do camaleão, de caranguejos, lagostas, cefalópodes (lulas e
polvos), peixes e pássaros. Suas observações eram sempre meticulosas:
investigou o acasalamento dos insetos, o comportamento dos pássaros no
namoro, na construção do ninho e no cuidado com os filhotes, e estudou a
vida marinha. Estudou as abelhas, as esponjas e embriões de aves” (...)
organizou uma escala da natureza, de complexidade crescente, da matéria
inanimada até as plantas, depois as esponjas, águas-vivas, moluscos, até o
outro extremo da escala, com os mamíferos e o homem. Fez, também,
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História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

estudos de anatomia animal e humana, fisiologia e botânica.” (Ronan, 1987,


vol. I, p. 112-114).

Seu colega e sucessor na direção do Liceu, Teofrasto, realizou


trabalhos significativos na área de botânica, e lançou as bases para esta
ciência no Relato de Plantas: registrou cerca de 550 espécies e variedades
vegetais, descritas e classificadas em: ervas, vegetação rasteira, arbustos e
árvores, ressaltando as diferenças entre as características das variedades
selvagens e cultivadas. Distinguiu Gimnospermas de Angiospermas:
monocotiledôneas e dicotiledôneas. (Ronan, 1987, vol. I, p.115-116).

Para Aristóteles, o universo, o mundo, e os seres que nele habitam


são finitos, hierarquizados, governados por finalidades (causas finais)
pré-estabelecidas, onde imperam as diferenças qualitativas e leis
universais que sujeitam os seres e os fenômenos.

Como vimos acima, a terra e suas criaturas, o mundo sublunar, são


inferiores em relação ao mundo celestial (supralunar), pois todos que
pertencem ao mundo sublunar apresentam movimento retilíneo, nascem
e se corrompem (morrem), enquanto os seres do mundo celestial (lua,
planetas, sol, estrelas), são eternos, perfeitamente circulares e apresentam
movimento circular, cíclico, uniforme (com velocidade constante), eterno
e perfeito (Andery, 2001).

O homem possui três almas: a alma vegetativa, relativa ao


crescimento; a alma animal, relativa ao movimento; e a alma racional,
relativa ao pensamento e à contemplação. A última era prerrogativa
exclusiva do homem. A perfeição da alma racional era alcançar a Deus, o
motor de todo o universo. Esta conclusão teocêntrica foi importante
para a aceitação e incorporação de parte significativa do pensamento
aristotélico pelo cristianismo e pela ideologia da idade média (Bernal,
1979, vol. I, p. 216).
66
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

As características e o ciclo vital dos seres têm que ser estudadas pela
observação e pela comparação sistemáticas, pois o processo de
conhecimento inicia-se pela sensação e pela experiência:

“... a ciência e a arte vêm aos homens por intermédio da experiência (...) e a
arte aparece quando, de um complexo de noções experimentadas, se
exprime um único juízo universal dos casos semelhantes” (Metafísica, A, I, 2
a 9, in Andery, 2001).

Para Aristóteles, há quatro níveis progressivos do conhecimento: a


sensação, o nível mais elementar de conhecimento; a memória, que
armazena e conserva as sensações; a experiência, constituída pelos
conhecimentos adquiridos nas relações e fenômenos particulares; e o
conhecimento científico, que diz respeito a coisas universais e necessárias, os
conceitos científicos.

“O conhecimento científico é um juízo sobre coisas universais e


necessárias...” (Ética a Nicômaco, VI, 6, in Andery, 2001).

Para descobrir as qualidades essenciais das coisas, seus atributos, é


necessário o uso dos sentidos, a observação dos fenômenos em sua
singularidade, e a partir daí construir, por indução, afirmações universais
e necessárias, que contemplem suas causas determinantes (Andery, 2001,
p. 91).

“A indução é o ponto de partida que o próprio conhecimento universal


pressupõe, enquanto o silogismo procede dos universais. Existem pontos de
partida de onde procede o silogismo e que não são alcançados por este.
Logo, é por indução que são adquiridos.” (Ética a Nicômaco, VI, 143, in
Andery, 2001, p. 92)
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História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

A intuição é a base da apreensão dos primeiros princípios que regem


todas as demais formas da razão: a sabedoria prática, o conhecimento
científico e a sabedoria filosófica. O próprio processo de raciocinar
depende desta faculdade humana natural: a razão intuitiva. (Andery,
2001, p. 91)

Pela indução se constroem os conhecimentos universais e


necessários, e pela dedução se chega a verdades inéditas e sem a
necessidade de verificação, pois decorrem do verdadeiro raciocínio
perfeito e logicamente correto: o silogismo. Assim, Aristóteles estabelece
as bases para o desenvolvimento da lógica formal, superando a dialética
socrática e platônica. Neste ponto, para maiores detalhes sobre a lógica,
remeto o leitor, às seguintes obras: Bastos & Keller (1991); Geraldo
(2014, p. 40 até p. 55); Mates, B. (1968);

Alguns dos principais aspectos do legado de Aristóteles, além da


obra filosófica, física e biológica:
• A lógica formal (identificação; qualificação, classificação,
indução-dedução)
• A cosmologia;
• A concepção da imanência do ser, como objeto do
conhecimento.
• As relações de causalidade no processo de conhecimento.
• A indução, a observação, a comparação, a “experiência”, como
passos iniciais da construção dos conceitos universais.
• A ética como fundamento das relações humanas.
O pensamento platônico e o pensamento aristotélico permaneceram
ao longo da história das sociedades ocidentais como os principais
fundamentos do pensamento erudito por mais de dois mil anos,
formando as bases conceituais e teóricas não somente para a filosofia e
as ciências da natureza, mas também para a teologia e a religião cristã que
68
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

predominou no mundo medieval europeu, conforme veremos no


próximo capítulo.

6- A ciência Helenística e a Escola de Alexandria.

O domínio da Grécia pelos Macedônios no século IV ac e a


expansão do Império de Alexandre Magno até o Oriente Próximo,
incluindo a Mesopotâmia, a Pérsia, o Egito e parte da região norte da
Índia, culminou com a formação dos impérios helenísticos, oriundos da
fragmentação do Império de Alexandre Magno, após a sua morte.

Neste período, diferentemente do que aconteceu com as artes, a


literatura e a política, que ficaram relativamente “congeladas” nos moldes
do que foi produzido no período do predomínio das cidades-estados
gregas, especialmente de Atenas, as ciências da natureza, principalmente
a matemática, a astronomia e a mecânica tiveram um grande impulso de
desenvolvimento, enriquecidas com as contribuições e sínteses advindas
do intercâmbio cultural facilitado entre grandes civilizações, tais como: o
Egito, a Mesopotâmia, as civilizações do Oriente Próximo, a Grécia e a
Índia.

“Este arranque deve-se em grande parte às consequências económicas e


técnicas das conquistas de Alexandre: abrindo ao comércio grego um mundo
muito vasto, (...) prata cinzelada, cerâmicas moldadas, vidros, papiros,
tecidos tingidos, têxteis de padrão complicados – mas era agora
suficientemente vasto para que tais artigos pudessem ser produzidos em
grandes quantidades. (...) Outra fonte impulsionadora de novas técnicas, esta
ainda mais premente, era o estado quase permanente de guerra entre os
impérios, para a condução das quais se requeriam maquinismos cada vez
mais complexos. Os governantes macedônios dos estados helenísticos, ao
69
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

contrário do que viria a acontecer com os governantes romanos que os


haviam de suplantar, tinham sido educados na aura do prestígio da sabedoria
grega; não só a permitiam, como a encorajavam, em todos os seus aspectos.”
(Bernal, 1979, vol. I, p. 223-224)

Assim, no norte da África, na cidade de Alexandria, foi fundado o


Museu de Alexandria, com uma grande biblioteca e um complexo escolar
que incluía formação em: medicina, matemática, astronomia, mecânica e
outras ciências. Concretizando-se a deliberação de organizar e subsidiar a
atividade científica num centro de estudos avançados que deveria formar
o ponto focal da nova cultura helenística; lugar que atrairia homens
como Euclides, Apolônio, Arquimedes e Ptolomeu e que deveria
florescer durante sete séculos (Ronan, 1987, vol I, p. 116). Não foi o
único centro de estudos dos impérios helênicos, mas foi o mais
importante e influente pelos trabalhos científicos que produziu e um dos
primeiros da história que foi planejado, construído e sustentado pelo
estado.

Euclides trabalhou no Museu de Alexandria entre 320 e 260 ac,


escreveu uma das obras mais importantes da história da ciência, os
Elementos, uma síntese da geometria grega. A maneira lógica com que
Euclides faz cada proposição seguir-se às previamente demonstradas e
seu método de síntese – seus axiomas, postulados, teoremas e provas –
muito influenciou o pensamento ocidental e está entre os livros mais
importantes da nossa cultura científica. Escreveu também sobre:
astronomia matemática, teoria matemática da música e óptica (Ronan,
1987, vol. I, p. 117).

Apolônio de Perga, escreveu um importante livro de matemática:


Sobre as cônicas, estudando a elipse, a parábola e a hipérbole, curvas
obtidas quando se corta um cone (cerca de 320 ac). Este trabalho teve
grande importância para o estudo das órbitas dos planetas empreendido
70
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

por Keppler e Newton no período da revolução científica da Era


Moderna, que veremos adiante.

Arquimedes nasceu em Siracusa em 287 ac, e os estudiosos


acreditam que trabalhou em Alexandria por algum tempo; notabilizou-se
por seus inúmeros inventos mecânicos, como o parafuso sem fim e a
polia composta; pela demonstração matemática e utilização prática do
cálculo da densidade dos corpos, bem como pela demonstração
matemática do princípio da alavanca;

“... nos seus elementos de mecânica Arquimedes faz um relato completo e


quantitativo do funcionamento das máquinas simples e lança os alicerces da
estática, numa análise caracteristicamente grega das condições em que as
forças se equilibram exatamente; foi também ele fundador da hidrostática...”
(Bernal, 1979, vol. I, p. 233)

Aristarco de Samos, um grande sábio que viveu por volta de 310 a


230 ac, não se sabe ao certo se trabalhou na escola de Astronomia de
Alexandria, mas foi um dos primeiros pensadores a defender a teoria
heliocêntrica, que considera o sol como centro do universo conhecido
até então, considerou o movimento de rotação diário da terra em torno
do seu eixo e o movimento anual de translação da terra em torno do sol,
mas não conseguiu provar sua resposta para o problema da não
observação da paralaxe das estrelas, que é a diferença angular das estrelas
em dois extremos opostos da órbita da terra ao longo de um ano de
translação em torno do sol, pois a distância entre a terra e as estrelas é
muito grande, esta diferença angular é muito pequena e só pode ser
medida no século XIX dc, com instrumentos como o telescópio e
técnicas muito refinadas, que não existiam no tempo de Aristarco.
Assim, sua teoria astronômica com o sol no centro do universo foi
rejeitada pelos pensadores do seu tempo e caiu no esquecimento, sendo
71
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

revivida com sucesso no meio científico apenas no século XV dc, por


Nicolau Copérnico.

Ptolomeu viveu por volta do ano 100 até 170 dc, escreveu, dentre
outras obras importantes, o livro mais influente de Astronomia desde o
século II ac até o século XVII dc, o Almagest, título árabe-latino posterior
à sua publicação original, quando era conhecido em Grego como
Mathematike Syntaxis. O livro apresenta a teoria geocêntrica do universo
conhecido então, em bases matemáticas, apresentando uma descrição
geométrica para o movimento aparente dos astros e um método para o
cálculo do posicionamento dos astros ao longo do ano, dia após dia, e
com o passar dos anos, o que era fundamental para um sistema de
posicionamento para os navegantes que viajavam a longas distâncias.

“Com Ptolomeu, chegamos à última das grandes figuras da ciência


helenística a ao fim de um desenvolvimento intelectual admirável. (...) uma
tentativa de racionalizar o mundo da experimentação natural, sem recorrer à
intervenção divina. (...) A ciência romana foi a ciência grega consolidada e
confirmada, mas não continha contribuições romanas... Em 269 dc a
biblioteca (do Museu de Alexandria) foi parcialmente incendiada quando a
bela mas cruel Zenóbia, rainha de Palmira, conquistou o Egito; e foi
dilapidada, em 415 dc, por um ataque da multidão. (...) Hipácia, matemática,
filósofa, neoplatônica e dirigente do museu, foi brutalmente assassinada por
monges, enquanto uma multidão inflamada queimava a própria biblioteca.
(Ronan, 1987, vol. I, p. 131)

O período de domínio dos estados helenísticos foi do século IV ao


século II ac; a partir do século II ac, Roma com seu exército expandiu
seus domínios da Península Itálica para toda a Europa Ocidental, e,
finalmente, para o Oriente Próximo, o Egito, a Pérsia e a Mesopotâmia.
72
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

Tendo iniciado sua expansão de cidade estado para domínios de


império militar e comercial no século V ac, Roma atinge seu apogeu nos
séculos I e II da era cristã, e a partir do século III dc, inicia seu declínio
até a extinção do Império Romano do Ocidente no século V dc.

“O cimento do Império era o exército que o conquistara e que, com êxito


cada vez menor depois da era de Augusto, o defendia contra os bárbaros.
(...) Efetivamente, o Império era uma federação bastante frouxa de cidades
que se beneficiavam da Pax Romana para se entregarem ao comércio entre
si. As melhores terras eram cultivadas por grandes grupos de escravos
pertencentes às vilas dos cidadãos mais abastados. As áreas mais pobres – as
pagi, ou comunas rústicas – ficavam entregues aos nativos – os pagãos – que,
na sua grande maioria, seguiam os seus costumes tribais (e que, mais tarde,
se tornariam os camponeses da Idade Média e dariam origem ao nome país),
ou a colonos recém-instalados e escravos libertos das vilas – villane, vilões – que
gradualmente se transformaram nos servos.” (Bernal, 1979, Vol. I, p. 239)

Tomando a Era Antiga como totalidade, o Império Romano pode


ser considerado como período de apogeu do predomínio do modo de
produção escravista e como período de transição para a Era Medieval,
quando passa a predominar o modo de produção feudal na Europa
Ocidental.

No que diz respeito à produção de ideias científicas, os romanos não


acrescentaram nada de significativo; reproduziram algumas das ideias
filosóficas gregas usando-as para fundamentar e justificar suas formas de
governo.

“É comum responsabilizar o espírito utilitário dos Romanos pela brusca


decadência da ciência que se verificou por volta da época dos primeiros
imperadores. É muito mais provável que as causas sejam bem mais
73
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

profundas: que tenham a sua origem na crise geral da sociedade clássica, a


qual resultava da acumulação do poder nas mãos de um número reduzido de
homens riquíssimos (...), e também da brutalização generalizada de uma
população de escravos e de aquilo que podemos chamar (...) de ‘brancos
pobres’. O empobrecimento progressivo destas classes trabalhadores fez
baixar a procura de artigos, o que veio deprimir ainda mais a já precária
condição econômica de mercadores e artífices. Numa tal atmosfera não
havia incentivos para a ciência...” (Bernal, 1979, vol. I, p. 240)

7- O conhecimento na transição da Era Antiga para a Era


Medieval.

Ao longo dos séculos III, IV e V da era cristã, principalmente no


ocidente europeu, o império romano mergulhou numa profunda crise
com as seguintes características:
 Crise do sistema escravista de produção e de relações sociais;
 Crise na economia e nos valores dominantes (ideologia) baseados
numa oligarquia escravista e no politeísmo pagão;
 Ampliação do sistema de colonato (colonos que pagavam o uso da
terra com uma parcela do que produziam);
 Revoltas das camadas mais pobres da população, com a sobrecarga
de impostos e encargos a pagar para as camadas mais ricas e para o
estado romano;
 Escassez de mão de obra escrava;
 Esgotamento da expansão dos territórios, do domínio e da pilhagem
dos povos vizinhos do Império Romano;
 Incapacidade do exército de manter sob controle as divisas do
império;
 Divisões e disputas de poder dentro do exército;
 Retração do comércio em algumas regiões e setores, restringindo-se
cada vez mais aos artigos de luxo destinados às elites;
74
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

 Êxodo urbano, com o esvaziamento das cidades e a ruralização da


sociedade;
 Constantes incursões de pilhagem, no território do império,
realizadas pelos povos vizinhos os quais os romanos classificavam e
denominavam como “bárbaros”;
 Estagnação na produção de metais preciosos;
 Diminuição da disponibilidade monetária;
 Aumento das despesas do Estado com funcionários e com o soldo
dos militares;
 Os pequenos proprietários, que não conseguiam pagar os impostos,
arruinados, procuravam a proteção dos grandes proprietários rurais;
 Declínio quantitativo da população do império;
 Nas pequenas vilas rurais quase não havia transações em moeda e as
trocas e os pagamentos eram feitos em produtos;
 Uma crescente descentralização político-administrativa;
 Descrédito do politeísmo pagão e a ascensão do monoteísmo
cristão;
 Uma crescente repulsão ética, moral e religiosa pela instituição do
escravismo, e pela promiscuidade moral que tomou conta da classe
dominante do Império Romano.
 Invasões em massa dos vizinhos “bárbaros”, desestabilizando
progressivamente a ordem estatal e o poder imperial.

“... a partir da época de Adriano (117-138), a economia começa a


desmoronar-se. O exército, que fora uma grande fonte de riqueza na
aquisição de escravos e de despojos de guerra, torna-se um peso morto, (...)
A economia monetária estava a ser minada pela inflação, e dava lugar a uma
economia de troca, fundada sobretudo em produtos produzidos e
consumidos localmente, pelo menos em grande parte. As villas, onde os ricos
se refugiavam para escapar dos impostos, tornaram-se centros de produção
local e foram gradualmente substituindo as velhas cidades como centros
75
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

econômicos, enquanto o comércio se restringia cada vez mais aos artigos de


luxo. Estes eram apenas os derradeiros sintomas de uma doença inerente na
sociedade de classes do mundo antigo.” (Bernal, 1979, vol.I, p. 245)

Neste contexto de crise e contradições irá se constituir a sociedade


feudal da Europa Ocidental, assim, entre os séculos V e IX da era cristã,
veremos o estabelecimento e predomínio de um novo modo de
produção: o modo de produção feudal.

O escravismo, como forma dominante das relações sociais de


produção, que se constituiu em elemento impulsionador do
desenvolvimento das forças produtivas das sociedades até então, tornou-
se um entrave para o desenvolvimento destas mesmas sociedades; e a
superestrutura ideológica destas sociedades, tais como: as leis, as
religiões, as artes, as formas de pensamento, as formas político-
administrativas, que as constituíam, acompanharam o processo de
transformação da infraestrutura econômica.

Neste período final do predomínio do escravismo antigo e do


politeísmo pagão, o cristianismo monoteísta apresentou-se como uma
nova alternativa carismática de religião, de filosofia, de ética, de moral e
de ideologia para a reprodução da coesão social, pregando a existência de
um deus único, pai eterno de todos os homens, que devem viver em
igualdade perante o pai celestial e em regime de fraternidade, de caridade
e de humildade perante os outros homens. Pregando o perdão dos erros,
dos pecados e das dívidas, que tanto assustavam a classe dos pequenos
proprietários no Império Romano, e a divisão do pão, como valores
universais. Pregando as palavras reveladas por Jesus Cristo: filho, deus e
homem numa só pessoa, que foi martirizado, cumprindo profecias
antigas, para salvar a humanidade dos seus pecados e livrar os homens de
terem que passar pelas profundezas dos infernos depois da morte, desde
76
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

que seguissem os princípios, os valores, a doutrina, a moral, a liturgia e a


ritualística instituída pela Igreja fundada por Cristo.

Assim, com um forte apelo carismático para as camadas mais pobres


da população, o cristianismo apresenta o “Filho de Deus”, como sendo o
próprio Deus encarnado, como ser divino e humano ao mesmo tempo,
como filho de um carpinteiro, convivendo entre os pobres, ensinando e
servindo a humanidade, simbolizando, no imaginário social, que qualquer
pessoa poderia ter acesso a Deus. Ele não se configura como um rei
terreno, como os Faraós ou os cultos de divinização dos imperadores
romanos, nem como um guerreiro forte, vencedor de guerras e
conquistas, nem mesmo como candidato à realeza na sociedade; está
muito acima disso e “reina acima de todos”, inclusive sobre os reis
terrenos, num “Reino Espiritual”. Apresenta-se como um mártir, “que
foi crucificado, morto e sepultado; que ressuscitou dos mortos para
voltar ao convívio dos homens e, em seguida, voltar aos céus onde reina
sobre todos os homens”. Com uma mensagem de “amor ao próximo”,
de tolerância (perdão) e compaixão com os diferentes; uma mensagem de
humildade (“os últimos serão os primeiros no reino dos céus”); de
caridade para com os mais necessitados; de salvação espiritual eterna
para todos os homens que seguissem seus ensinamentos.

As religiões mais conhecidas da antiguidade, anteriores ao


cristianismo, eram politeístas, legitimavam o escravismo e o domínio dos
mais fortes sobre os mais fracos, preconizavam e legitimavam valores
próprios das camadas ricas e aristocráticas da sociedade e pregavam que
ao morrer todos os homens desceriam às profundezas dos infernos para
serem julgados, o que causava um pavor imenso nos homens daquele
tempo; o cristianismo pregava que, seguindo a doutrina e a moral cristã
durante a vida, os homens não desceriam ao inferno após sua morte,
pelo contrário, seriam salvos e conduzidos aos céus junto ao “Cristo
77
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

Salvador e Libertador”, e ao Deus Pai, que na liturgia e na teologia cristã


formam uma unidade.

A Igreja de Cristo foi se constituindo com um corpo instituído de


sacerdotes e uma hierarquia sacerdotal com rituais fixos, diferentemente
das religiões pagãs, politeístas, onde cada região ou cidade tinha um deus
como divindade principal e uma ritualística determinada pelas
autoridades sacerdotais locais. Além disso, a Igreja de Cristo evoluiu no
sentido de apresentar uma doutrina unificada e universal, incorporada
num conjunto de livros religiosos, que garantiam uma coerência e
continuidade de liturgia, de doutrina, de ritualística, de crenças filosóficas
e teológicas, indicando uma cultura literária criada, legitimada, unificada e
difundida pela classe sacerdotal e demais membros da Igreja Cristã. A
nova igreja, aos poucos e paulatinamente, vai se tornando uma referência
tão forte para o imaginário social, para a organização da sociedade e a
reprodução da coesão social que a própria aristocracia e as camadas ricas
do império romano foram se aproximando e se incorporando à estrutura
hierárquica clerical da igreja cristã, que irá se autodenominar “católica”
(universal), até o momento em que o próprio imperador romano e os
reis e autoridades mais locais, adotarão o cristianismo e a igreja cristã
católica como religião oficial do império. Esta aristocracia, juntamente
com as famílias mais poderosas dos povos “bárbaros” invasores,
convertidas ao cristianismo e incorporadas à estrutura clerical da igreja
cristã, irão constituir a nobreza e o clero como classes dominantes da era
medieval que vinha se constituindo, tendo a igreja católica como
instituição unificadora da ideologia e da estrutura político-administrativa
desta nova era.

“ O cristianismo cresceu do desespero e das aspirações das camadas


populares do Império Romano (...) O próprio Jesus, como Messias esperado,
foi considerado um revolucionário e sofreu a pena destinada aos
revolucionários (...) O atrativo popular do Cristianismo atingiu seus pontos
78
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

mais altos durante os primeiros dois séculos, exatamente na altura em que o


Império parecia mais seguro e glorioso aos seus cidadãos abastados e cultos;
mas era então que o domínio romano pesava mais sobre o povo e os
escravos; para eles não havia neste mundo qualquer esperança e poucas
razões para temer o seu fim (...) O cristianismo oferecia uma organização
compreensiva que (...) estava absolutamente decidida a não se deixar imiscuir
por forma alguma na civilização clássica, opressora e pecaminosa. Tornou-
se, inevitavelmente, um movimento político, representando, de início, as
aspirações das classes trabalhadoras oprimidas das grandes cidades ...”
(Bernal, 1979, Vol. II, p. 274-275)

A ascensão do cristianismo e da igreja católica não foi “a causa do


fim do Império Romano do Ocidente, mas um de seus sintomas”, e de
sua forma de transformação político-ideológica, pois a derrocada do
império se deu pelas crises e pelas transformações internas já citadas
acima, e pela invasão dos vizinhos “bárbaros”, que trouxeram consigo
outras formas de relações sociais de produção. No contexto de crise do
escravismo clássico e de transição para o feudalismo, o conhecimento
racional da natureza sofre uma retração e diminui de importância,
subjugado pelo conhecimento religioso que passa a ocupar todo espaço
ideológico social. Escolas são fechadas, inclusive a Academia e o Liceu
de Atenas, e o Museu de Alexandria.

Assim, com a desarticulação final do Império Romano do Ocidente


no século V da era cristã, foi se consolidando um novo modo de
produção: inicia-se a Era Medieval, com o predomínio do modo de
produção feudal e com uma nova composição da ideologia e do
conhecimento hegemônico, com implicações diretas no desenvolvimento
do conhecimento científico, como veremos no próximo capítulo.
79
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

“A economia feudal em si era em grande parte o produto da desorganização


produzida pelo colapso da economia clássica, e pelas invasões bárbaras e
perturbações sociais que aquele provocara...” (Bernal, 1979, vol. II, p. 313)
80
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO
81
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

CAPÍTULO III

ASPECTOS GERAIS DA SOCIEDADE E DO


PENSAMENTO NA EUROPA OCIDENTAL MEDIEVAL: do
século V ao século XV da era cristã.

Quais as consequências para o desenvolvimento do conhecimento


científico com a consolidação do modo de produção feudal e o
predomínio total da religião cristã na Europa?

1- O contexto sócio-econômico da Europa Medieval.

A Sociedade feudal tinha como base econômica a produção agrícola


local, em grande parte consumida no próprio feudo ou aldeia onde era
produzida, favorecendo o desenvolvimento e a disseminação de um
artesanato local e de um comércio baseado na troca de produtos.
Partilhando o trabalho agrícola, com a terra dividida em feudos, e os
feudos subdivididos em pequenas parcelas familiares de terra para o
cultivo agrícola e em terras comuns como as reservas de florestas e os
campos de pastagem. Uma vida cotidiana predominantemente rural,
comunitária e baseada em relações hierárquicas de servidão, suserania e
vassalagem.

Três grupos, ordens ou estamentos sociais predominavam: o clero, a


nobreza e os servos que cultivavam os campos; mas também havia os
trabalhadores livres, geralmente vivendo nas vilas maiores, os vilões:
artesãos (ceramistas, tecelões, sapateiros, alfaiates, ferreiros, marceneiros,
ourives...) profissionais liberais (barbeiros, açougueiros, médicos,
advogados, farmacêuticos, taberneiros...). O clero era responsável pelo
82
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

planejamento, organização, administração e evolução da doutrina, da


liturgia e da ritualística religiosa cristã, além das funções educativas,
assistenciais e de controle e regulação de parte das relações jurídicas civis
e criminais. A nobreza era responsável principalmente pela defesa militar,
a guerra, a administração dos feudos, a regulação e o controle de parte
das relações jurídicas civis e criminais. E os camponeses, em regime de
servidão individual-familiar, eram responsáveis pela produção de tudo
que sustentava a si mesma e as outras duas ordens sociais: o clero e a
nobreza, que juntas somavam aproximadamente apenas 10% da
população, mas que detinham todo o poder de mando, de legislação, de
julgamento e de punição.

Apesar da continuação da dominação de uma minoria sobre a


maioria dos trabalhadores, constatamos, neste período, o fim do
predomínio do escravismo, do paganismo mitológico e politeísta onde se
legitimava e se reproduzia a promiscuidade moral, a exploração e o uso
para qualquer finalidade de homens, mulheres e crianças, sem limites,
com poderes de castigos físicos e até de vida e morte de um homem
sobre os outros; onde os trabalhadores escravos eram uma propriedade
dos seus senhores; onde o mais forte dominava, subjugava e escravizava
os mais fracos, podendo vender ou doar uma família, ou parte dela, ou
apenas um indivíduo, para outro senhor, mesmo este que fosse de terras
distantes.

Com o desmoronamento das relações sociais escravistas e o


desenvolvimento das relações feudais de produção e de convivência
social, os progressos na área técnica desenvolvidos no período clássico,
foram disseminados para a produção agrícola nas aldeias rurais e
apropriados pelos camponeses; os trabalhadores não podiam mais ser
vendidos, nem transferidos para outros feudos, ficavam vinculados à
terra, às famílias e às paróquias onde eram registrados, nasciam e viviam;
83
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

assim, a vida comunitária e familiar, os costumes e os códigos de conduta


ética e moral, estabelecidos pela Igreja e pela tradição cultural das tribos
e dos clãs dos “bárbaros”, determinavam limites e hierarquias nas
relações sociais entre as classes sociais e dentro de uma mesma classe
social, tornando o sistema feudal muito mais humanizado e disciplinado
hierarquicamente do que o sistema escravista antigo.

“O sistema feudal era, quer do ponto de vista técnico, quer do ponto de


vista social, uma base muito mais sólida do que a plutocracia clássica para o
progresso futuro”. (Bernal, 1979, Vol. II, p. 312)

Isto não quer dizer que o sistema feudal era “mil maravilhas” para a
classe dos trabalhadores pobres, os servos, havia uma variação de
costumes e leis de uma região para outra e até de um feudo para outro.
Havia também excessos e abusos de poder legitimados pela ideologia,
pelos costumes e pela força militar opressiva; como por exemplo
podemos citar a extrema sobrecarga de impostos, taxas e obrigações que
pesavam sobre os camponeses e vilões que os condicionavam a uma vida
de pobreza e privações, tais como: a corveia, a talha, a banalidade, o
dízimo, o censo e outras obrigações.

Só podemos compreender o sistema feudal como um progresso em


direção a uma sociedade mais humanizada quando comparado ao
sistema escravista, cujos abusos de exploração da força de trabalho, a
promiscuidade moral, as privações, os castigos físicos, a matança e o
esfacelamento das famílias e das comunidades dos trabalhadores
escravos era geral, indiscriminada e legitimados, fazendo até mesmo
parte importante do processo de manutenção e reprodução do
escravismo.

Outro aspecto marcante da sociedade medieval eram os mosteiros,


onde viviam os monges e parte da hierarquia eclesiástica. A vida
84
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

monástica, seguia princípios comunitários, preceitos religiosos, estrutura


acadêmica para a formação de monges, de padres e de parte da
população e dos profissionais de serviços especializados que dependiam
de uma formação escolar em linguagem escrita e matemática, bem como
para a conservação e a reprodução de livros e textos, preferencialmente
os textos religiosos cristãos e a bíblia.

O período que vai do século V ao século X é conhecido como Alta


Idade Média, e corresponde ao processo de transformações que
consolidaram o sistema feudal na Europa Ocidental. Do século XI ao
século XIII, temos o período do auge da idade média; e do século XIV
em diante inicia-se a crise do sistema feudal, até sua substituição pelo
sistema capitalista de produção e de sociedade.

A partir dos séculos XI e XII, a economia feudal passou por um


aumento significativo da produção de alimentos, de têxteis, de
manufaturados em geral, e a produção de artigos para o mercado veio
predominar sobre a economia de subsistência, impulsionando o
desenvolvimento do comércio, do trabalho assalariado, dos transportes,
do uso de máquinas na produção, das atividades financeiras, da
economia monetária e das cidades europeias ocidentais. Neste período,
juntamente com o crescimento das cidades, começam a surgir as
primeiras universidades da Europa Ocidental, que, sob controle da igreja
católica, irão se ocupar da formação intelectual de clérigos e de
profissionais especializados como médicos, advogados, astrônomos e
teólogos, que dependem de uma formação acadêmica letrada, de
formação em matemática e de uma cultura erudita generalista. As
principais disciplinas eram: gramática, retórica, lógica, aritmética, música,
geometria e astronomia. Após esta formação básica, o estudante
aprofundava seus estudos em filosofia e teologia.
85
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

Estas instituições serão importantes na utilização e na divulgação dos


conhecimentos produzidos na antiguidade clássica e que não se
limitavam a uma relação direta com a doutrina cristã. Estes
conhecimentos foram conservados e divulgados inicialmente e
principalmente nos centros de estudos do oriente, mas que, no período
que estamos abordando, foram transmitidos para os principais centros
de estudos da Europa Ocidental.

“... Era preciso ensinar o clero a pensar e a escrever; era preciso afirmar e
defender os direitos espirituais e temporais da Igreja. De início estas
necessidades foram preenchidas pelo estabelecimento de escolas junto de
catedrais, como em Chartres e Reims. Mas, por volta do século XII, estas
escolas tinham-se desenvolvido, transformando-se em universidades, com
cursos organizados onde se ensinava as sete artes liberais, a filosofia e, acima
de tudo, a teologia.” (Bernal, 1979, Vol. II, p. 319)

2- Cristianismo e Conhecimento na Europa Medieval.

Com o desmantelamento do Império Romano do Ocidente, à


medida que o feudalismo substitui o modo escravista de produção, a
Igreja constituiu-se na força intelectual e administrativa das novas
sociedades, tornando-se a referência de unidade, de ordem, de
continuidade cultural, ideológica, jurídica, doutrinária, moral e ética das
sociedades medievais. Mesmo os “bárbaros” conquistadores, se
curvaram à força hegemônica do cristianismo e da igreja cristã, que
passou a controlar a vida e o pensamento do homem medieval da
Europa ocidental. Assim, a tendência descentralizadora e regionalista das
relações de poder, das relações jurídicas e administrativas do sistema
feudal era contrabalanceada pela força centralizadora, unitária,
hierárquica e organizada da Igreja Católica.
86
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

Qualquer tipo de pensamento, de teoria, de filosofia, de doutrina,


tinha que passar pelo crivo e pela aceitação das autoridades eclesiásticas
da igreja católica, e sendo rejeitada, tinha que desaparecer sob pena de
excomunhão, isto é, de exclusão total da sociedade, ou mesmo de
condenação à morte de seus protagonistas. Veja-se o exemplo de São
Francisco de Assis, que fundou uma nova irmandade cristã, com uma
doutrina baseada nos princípios do cristianismo primitivo, com forte
apelo para a aproximação e convivência popular e baseada nos votos de
pobreza, humildade e caridade frente a todos os seres vivos: ele foi até
Roma pedir permissão para o Papa para continuar sua pregação e
constituir sua Ordem Mendicante dos Frades Menores, o que,
inicialmente, lhe foi negado, depois lhe foi concedido parcialmente e sob
condições limitantes, com resistência de parte da cúria papal.

O conhecimento científico e erudito em geral, que não estivesse


alinhado diretamente com as doutrinas e filosofias aceitas pela Igreja, era
identificado com as doutrinas pagãs e heréticas e condenado à exclusão e
ao esquecimento. Foi assim que fecharam as escolas laicas, perseguiram
professores e pensadores, que tiveram que se mudar para as cidades do
oriente, além de queimar e proibir a circulação de livros e textos que não
interessavam para a doutrina católica dominante.

“Durante toda a Idade Média, pelo menos até princípios do século XIII, a
Igreja, mesmo na Itália, tinha nos padres e monges praticamente o
monopólio do saber, e até do próprio alfabetismo... A atitude da Igreja
medieval perante os assuntos humanos tinha sido estabelecida nos dias
tenebrosos da decadência do Império: que a vida neste mundo era uma
simples preparação para a eternidade no céu ou no inferno; esta atitude só a
pouco e pouco se foi transformando perante a melhoria incontestável da
condição humana, mas só seria afastada definitivamente no Renascimento.”
(Bernal, 1979, Vol. II, p. 317)
87
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

No período que vai do século V ao século XI, na Europa Ocidental,


o conhecimento científico ficou congelado pelo domínio total da
doutrina religiosa, mas no oriente o conhecimento científico floresceu,
principalmente nos estados árabes-islâmicos a partir do século VIII:

“Criaram uma ciência viva e florescente, embora em ponto algum tenham


atingido as alturas das especulações dos filósofos Jônicos ou igualado a
imaginação geométrica da escola alexandrina. Contudo, ao beber na
experiência de nações não-helênicas – como a Pérsia, a Índia e a China -,
puderam alargar a estreita base das ciências matemáticas, astronômicas e
métodos dos Gregos, iniciar as técnicas da álgebra e da trigonometria e
estabelecer os fundamentos da óptica; mas a extensão crucial da ciência
islâmica seria na química, ou alquimia, onde transformaram velhas teorias e
acrescentaram novas experiências, criando uma nova disciplina e
inaugurando uma nova tradição na ciência.” (Bernal, 1979, Vol. II, p. 302)

Além da conservação, da tradução e da transmissão dos


conhecimentos produzidos na antiguidade clássica, os centros de estudos
dos estados orientais, principalmente os árabes-islâmicos, trouxeram
contribuições de grande importância, como a assimilação dos algarismos
utilizados na matemática hindu, hoje conhecidos como “algarismos
arábicos”, que tiveram grande impacto na popularização da aritmética,
facilitando os cálculos das operações básicas, além do desenvolvimento
inicial da álgebra e da trigonometria, que possibilitariam grandes avanços
no desenvolvimento da astronomia, da cartografia, da agrimensura, da
arquitetura e do futuro desenvolvimento da própria matemática. Outro
exemplo significativo do desenvolvimento do conhecimento no oriente,
neste período, são as obras de medicina, tais como: o Howi, Liber
Continens, de Rhazes (865-925), o Canone, de Avicena (980-1037), e o
Colliget, de Averroes (1126-1198), que ainda eram utilizados como livros
texto na Europa do século XVII (Bernal, 1979, p.295); estes autores
88
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

também desenvolveram conhecimentos de botânica e de química, para a


seleção e a preparação de remédios.

3- Características Gerais da filosofia Cristã: o livro do Gênesis, o


credo, os principais dogmas católicos, a palavra revelada por Deus.

As principais características gerais do cristianismo são: o


monoteísmo e o criacionismo. O mundo não é eterno, como afirmava a
filosofia grega, foi criado por um único Deus.

“Deus criou o homem à sua imagem e semelhança”. Este dogma do


Antigo Testamento, que foi assimilado pela doutrina cristã, é muito
importante como marco para separar o homem dos animais e dos
demais seres da terra: o homem tem alma (espírito) como Deus; o
homem é racional e pode fazer escolhas na sua moral e no seu
comportamento; os animais e os demais seres da terra devem servir ao
homem, mas não podem ter espírito nem representar Deus (Gênesis 1).
Ficam excluídos, então, todos os cultos a divindades animais e de outros
tipos de seres, como astros por exemplo (sol, lua, estrelas).

Vejamos o “credo”, uma antiga oração cristã, elaborada no Concílio


de Niceia em 325 dc, e aprimorada ao longo do tempo, que contém os
principais dogmas da Igreja Católica:
“Creio em um só Deus, pai todo poderoso, criador do céu e da terra.
Creio em Jesus Cristo, seu filho, nosso senhor, o qual foi concebido pelo
poder do Espírito Santo.
Nasceu da Maria Virgem, padeceu sob Pôncio Pilatos.
Foi crucificado, morto e sepultado.
Desceu aos infernos, a mansão dos mortos.
Ressuscitou ao terceiro dia.
Subiu aos céus.
89
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

Está sentado à direita de Deus pai todo-poderoso, de onde há de vir julgar


os vivos e os mortos.
Creio no Espírito Santo, na santa igreja católica, na comunhão dos santos,
na remissão dos pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna.”

Ao longo de toda Idade Média a igreja defendeu o princípio segundo


o qual: todo o conhecimento sobre o mundo está contido nas palavras
reveladas. Excluía-se outras “explicações”: a ciência e a filosofia ficaram
subordinadas à teologia. Outro princípio bíblico era que: a natureza é
subserviente ao homem.

Dos primórdios do cristianismo, no primeiro século da era cristã, até


o século VIII dc, a filosofia metafísica e idealista de Platão predominou
nos fundamentos filosóficos dos conhecimentos teológicos da igreja
católica. Um conjunto de conhecimentos com abordagem teológica
chamados de Patrística, consolidados nos trabalhos de Aurélio
Agostinho de Hipona (354 – 430 dc), mais conhecido como Santo
Agostinho, bispo, professor e teólogo que escreveu diversas obras, das
quais citamos: Da Doutrina Cristã (397-426); Confissões (397-398) e a mais
conhecida A Cidade de Deus (413-426). Podemos citar também outros
teólogos deste período: Flávio Justino (100 – 165 dc), também chamado
São Justino Martir; Tito Flávio Clemente (150 – 215 dc), também
chamado São Clemente de Alexandria; Orígenes de Alexandria, o Cristão
(185 - 254); e Anício Mânlio Torquato Severino Boécio (480 - 525), mais
conhecido simplesmente por Boécio.

Do ponto de vista da lógica, da cosmologia, da física, da biologia e


da astronomia, principalmente a partir do desenvolvimento da teologia
escolástica por Tomás de Aquino, no século XIII, a igreja adotou as
ideias de Aristóteles, cerrando toda a produção e transmissão destas
áreas do conhecimento nos limites dos princípios dos conhecimentos
produzidos por Aristóteles e pelas autoridades eclesiásticas, impedindo
90
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

qualquer tipo de liberdade tanto metodológica como conceitual e teórica


para a continuidade da produção e da transmissão dos conhecimentos.

Assim, a teologia cristã e seus escritos, incluindo a bíblia e demais


escritos teológicos aceitos pela igreja, e os escritos aristotélicos,
delimitavam os argumentos de autoridade aceitos e legitimados neste
período da idade média, e, neste contexto, os argumentos de autoridade
e a lógica dedutiva representavam o máximo e o possível na metodologia
da produção e aceitação dos conhecimentos eruditos e tidos como
verdadeiros e absolutos.

Na cosmologia, tomando como base os escritos de Aristóteles


(primeiro motor, causas finais, causa eficiente, movimentos naturais,
movimentos forçados, universais necessários), considerava-se que Deus
era o princípio e a força motriz das esferas celestes, que coordenava o
movimento circular uniforme, perfeito e eterno dos astros (sol, lua,
planetas e estrelas), conforme a sua própria semelhança em perfeição e
eternidade. Assim se explicava a origem, a natureza e os movimentos do
cosmos. Deus era também a causa final do homem, seu princípio e sua
finalidade, sua imagem e sua semelhança refletidas na sua alma eterna,
cujo fim era ir de encontro a Deus, e, para isso, o homem tinha que
seguir a palavra revelada, a doutrina, a moral e a ritualística, coordenadas
pela igreja católica, representante e mediadora da ordem divina na terra.
Considerava-se que a palavra revelada por meio de Jesus Cristo e pelas
demais autoridades aceitas pela igreja era a verdade, o caminho e a luz
que conduz o homem para a vida espiritual eterna junto a Deus.

Observe-se que, a cosmologia geocêntrica, a filosofia metafísica


finalista, a física das causas finais, a biologia vitalista e tipológica
(tipológica no sentido de que as diferentes espécies eram consideradas
como formas fixas, imutáveis, desde a sua origem, seja pela criação
91
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

divina ou pela geração espontânea, isoladas das demais espécies, em


outras palavras, sem relações evolutivas) e a teologia escolástica cristã,
formavam um sistema de conhecimentos logicamente coerente, que
explicava o cosmos, os astros (sua constituição imutável pelo éter e seus
movimentos circulares e uniformes eternos), a terra, a constituição da
matéria sublunar (por meio dos quatro elementos: água, terra, ar e fogo),
o homem, sua origem e sua finalidade, os demais seres vivos e sua
diversidade, e a estrutura social (hierarquizada; dividida em estamentos
sociais, onde cada um cumpria sua função, determinados por sua
finalidade e por sua origem divina: nobreza, clero e servos). Estes
conhecimentos tomavam como base a metafísica, a física, a ética finalista
aristotélica e a teologia escolástica cristã.

O estudo das coisas naturais e qualquer aproximação empírico-


experimental ou observacional e comparativa com a natureza, com seus
elementos, fenômenos e relações eram inteiramente desprezados. Se
alguém perguntasse: quantos dentes tem um cavalo? A resposta estava na
bíblia ou nos livros de Aristóteles, não era preciso observar a realidade
para se obter uma resposta (Mayr, 1998, p. 115). O “argumento de
autoridade” era fonte de verdade por princípio e o seu questionamento
levava à condenação criminal daquele que ousasse questioná-lo, mesmo
que o questionamento estivesse baseado em fatos, (como exemplo deste
modo de pensar e de agir, leia-se o livro de Humberto Eco “O Nome da
Rosa”, editora Record, ou veja-se o filme de mesmo título).

4- A teologia natural na idade média.

Alguns intelectuais, dentro da igreja, defendiam que a natureza é uma


criação de Deus e é comparada a um livro, análogo à bíblia, e o seu
estudo é uma teologia natural, o estudo de uma obra revelada por Deus.
92
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

Desde a Era Antiga já haviam ideias precursoras da teologia natural.


Para Galeno, um famoso médico, farmacêutico e filósofo que viveu no
século II e escreveu importante obra de medicina, o mundo era obra
planejada por um criador sábio e poderoso; Platão via o mundo como a
criação de um artesão divino, inteligente, bom e racional (Mayr, 1988, p.
114).

A partir da Renascença, em parte dos círculos intelectuais, é aceita a


unidade entre ciência e religião, sendo que ambas foram sistematizadas
como uma Teologia Natural. “O teólogo natural estuda as obras do
Criador, a bem da teologia” (Mayr, 1988, p. 126).

Nesta abordagem, devemos estudar a natureza para compreender a


harmonia, a diversidade do mundo e a finalidade da criação. Veja-se que
o criacionismo continuou como sendo a base desta filosofia da natureza,
e os fenômenos da vida e do meio ambiente como um todo são
considerados como parte de um plano divino. Mas, nos limites de seu
contexto social e ideológico, a Teologia Natural muito contribuiu para o
desenvolvimento da ciência, pois protegeu e estimulou, na medida do
possível, os estudos sobre os seres vivos e a natureza em geral, em quase
todos as suas subáreas, num período em que os setores mais
conservadores da igreja e da sociedade não admitiam nem a descrição
nem a interpretação da natureza, relegando a ciência ao esquecimento e à
reprodução dos conhecimentos aristotélicos.

Devemos destacar, também, antes de encerrarmos este período, que


foi ao longo da era medieval que se desenvolveram algumas das grandes
instituições que influenciam o mundo até hoje: a igreja católica, a igreja
cristã ortodoxa, o islamismo; as universidades; os hospitais; os bancos; e,
ainda, que foi neste período que se desenvolveram os “embriões” dos
atuais países europeus; as diferentes e mais influentes línguas modernas
93
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

(inglês, francês, português, alemão, espanhol, russo, árabe e outras); a


notas musicais e alguns dos instrumentos musicais utilizados até hoje; e
grandes cidades importantes mundialmente até o presente momento.
94
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO
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História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

CAPÍTULO IV

A REVOLUÇÃO CIENTÍFICA: o período que vai do século


XV ao século XVII

Senhor meu Deus, como poderemos viver neste mundo onde a terra não está mais
fixa no centro do universo? Dizem que estamos flutuando num imenso espaço
vazio, e, junto com a terra, que gira freneticamente em torno de si mesma e em
torno do sol, nosso mundo está girando e virando de cabeça para baixo todos os
dias. Dizem ainda que o Senhor não é mais a força motriz do movimento dos
astros. Como pode ser? Não sinto os ventos destes “movimentos”, não vejo as
estrelas mudarem de posição! Viveremos como astros errantes ou como estrelas
caídas? Que destino nos espera se não temos mais causas finais para justificar a
nossa existência? Peço que me ajude a suportar tal destino inseguro, que me ajude
a entender estes novos tempos de conflitos e de mudanças...

1- O contexto econômico, social e político europeu nos séculos


XV, XVI e XVII.

Este é um período de transição, entre o fim do predomínio do modo


de produção feudal e o início da consolidação e predomínio do modo de
produção capitalista na Europa Ocidental.
Dentre as principais características deste período podemos citar:
 Crescimento da agricultura e da produção de alimentos em geral
(mais cereais, mais gado, mais peixe), crescimento do comércio (e
da navegação), crescimento dos banqueiros, da indústria de
manufatura, da vida urbana e da burguesia, aumentando a
acumulação e os lucros em dinheiro.
96
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

 “Fechamento” das terras dos feudos “liberando” (expulsando) os


servos para o trabalho assalariado.
 Aproximação entre os artífices (técnicos em fiação, tecelagem,
tintura de tecidos, olaria, vidraria, lentes, mineração, metalurgia,
navegação, construção naval, construção civil em geral,
farmacêutica, engenharia militar e urbanística, etc.) e os
estudiosos teóricos.
 Desenvolvimento de técnicas mais aperfeiçoadas: com a
utilização da bússola, da pólvora e dos canhões, do ferro fundido,
dos barcos a vela, do carvão mineral, da imprensa, dos fornos de
alta temperatura, das máquinas de levantar peso, das moendas,
dos destiladores, das lentes, dos óculos e telescópios, dos
relógios, da destilação e da produção de álcool, do papel, das
bombas de sucção e propulsão, da mistura de metais, da
experimentação em vários campos das atividades e dos
conhecimentos, análise e mistura de novos materiais como as
tintas por exemplo, as máquinas de tear, melhores transportes,
mais rotas marítimas (para a África, Ásia e América).
 Mercados mais amplos, aumento do consumo e dos lucros,
expansão dos pagamentos dos trabalhadores em dinheiro e não
em produtos ou serviços compulsórios como na idade média,
conhecimento de outros continentes e outras culturas.

Junto com estes processos de transformação ligados ao sistema


produtivo, e com o crescimento em importância da classe burguesa
comercial, manufatureira e financeira, novos valores irão se estabelecer
socialmente: concorrência, individualismo, valorização das virtudes
pessoais (capacidades), a independência pessoal, a liberdade e a virilidade
individual, o lucro, o apego aos bens materiais, a ostentação de riqueza, o
97
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

prazer imediatista (e não apenas depois da morte), a aceitação das


novidades...

No aspecto político, irá se consolidar um lento processo de


centralização do poder administrativo, legislativo e judicial, que irá
culminar com a formação dos estados modernos da Europa Ocidental:
com o empoderamento de parte da “alta” nobreza que compunham a
realeza, aliando-se e fundindo-se gradativamente e oportunamente às
forças da classe burguesa ascendente, concentrando-se um forte poder
militar sob o comando da realeza, seja com a formação e manutenção de
exércitos permanentes, seja com a contratação de mercenários para
somar o poderio militar dos estados centralizados nascentes. Tudo isso
em detrimento do poder político-militar dos senhores feudais, da parte
da nobreza que não estava diretamente ligada à realeza e do clero da
igreja católica centralizada em Roma.

Em consequência desta nova configuração econômica, política e


social, novas categorias lógicas, teóricas e metodológicas também irão se
estabelecer: o antropocentrismo, o empirismo e o racionalismo
mecanicista, a objetividade (compreensão e controle sobre a realidade
como ela é), a experimentação (no sentido de planejar o estudo dos
fenômenos, levantar hipóteses, testar as hipóteses em laboratório) a
precisão, a matematização das representações da natureza, o
operacionalismo (planejamento, definição de objetivos, estratégias de
ação e avaliação dos resultados), a produtividade, a competência técnica,
a acumulação de dinheiro, acumulação de bens e propriedades, a
inovação nas técnicas e nas teorias (novos problemas, novas técnicas,
novas teorias). A tônica direcionou-se para superar a abordagem
dogmática, dedutiva e contemplativa da natureza e da sociedade,
inovando e assimilando novas teorias, novos métodos, novas categorias
lógicas e novos valores.
98
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

Todo este complexo de mudanças e inovações impulsionaram o


surgimento de movimentos culturais e comportamentais que ficaram
conhecidos como: humanismo, renascimento e depois o iluminismo, que
veremos a seguir.

2- O Humanismo, a Renascença e o Mecanicismo.

O conhecimento vai deixando de ser exclusivamente um meio de


reconciliação do homem com o mundo através da espiritualidade em
deus, para ser um meio de compreender e controlar a natureza através do
conhecimento das suas leis e de suas regularidades (Bernal, 1979, vol. II,
p. 370).

Assim, neste período, veremos a transição do predomínio do


conhecimento contemplativo-espiritual que buscava a aproximação do
homem com deus, para o predomínio do conhecimento realista prático-
utilitário, para o controle e uso da natureza: e era isto que interessava à
burguesia, a nova classe social mercantil emergente. Juntamente com a
ascensão desta nova classe social, irá desenvolver-se uma nova ideologia:
uma nova filosofia, novas práticas políticas, novas leis, uma nova
literatura, um novo conhecimento do mundo, sobre o mundo e para um
novo mundo, e, portanto, uma nova forma de racionalidade e uma nova
ciência (Andery, 2001, p. 175-176).

O Humanismo e o Renascimento foram movimentos culturais que


possibilitaram e incentivaram a criação, a redescoberta e a propagação
das pesquisas: de novos valores, de novas ideias, das artes, das ciências
da natureza, da filosofia, tanto advindas da antiguidade clássica grega e
romana, como da capacidade inovadora do homem, cultivando um
pensamento e uma prática antropocêntrica, propagando princípios tais
como: “o homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são,
99
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

das coisas que não são, enquanto não são“ (Protágoras, Grécia, 490 - 415 a.C.),
enquanto que, como vimos anteriormente, na cultura medieval a fé, as
palavras reveladas por Deus, a doutrina Cristã, eram a “medida de todas
as coisas”.

No seu processo de ressignificação do mundo, os humanistas e os


renascentistas assimilaram valores do hedonismo (culto ao prazer e ao
individualismo), do platonismo e da escola pitagórica (a existência de
uma harmonia matemática que rege o mundo e seus movimentos, e que
deve ser compreendida pelo homem), do hermetismo (uma abordagem
do mundo e da realidade humana repleta de misticismo) e do
cientificismo (no sentido genérico de buscar uma explicação empírico-
racional do mundo). Observe-se o caráter contraditório destas correntes
de pensamento e de comportamento, mas que influenciaram a formação
da ideologia na era moderna.

A transição econômica e social se traduzia na transição do


teocentrismo da idade média para o antropocentrismo da era moderna.
O homem no centro das preocupações: uma nova filosofia, mudanças
nas artes, na arquitetura, na política, na literatura.

Enquanto o cristianismo representou um rompimento radical com


os valores e ideias do paganismo e os comportamentos da antiguidade
clássica escravista, configurando-se como um antagonismo daquelas
ideias e daquele modo de vida; o Humanismo e a Renascença como
movimentos sociais, políticos e culturais, buscaram inspiração no
classicismo antigo, que serviria de base, inicialmente para a crítica ao
feudalismo e sua ideologia, e posteriormente para a construção de uma
ideologia própria para a hegemonia da classe burguesa e para a
consolidação do capitalismo como sistema econômico e como estrutura
social (Bernal, 1979, vol. II, p. 372).
100
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

Alguns dos nomes importantes da literatura, das artes e das ciências


deste período que podemos citar, são: Petrarca, Giovanni Boccaccio,
Dante Alighieri, Thomas Morus, Nicolau Copérnico, André Vesalius,
Campanella, Erasmo de Roterdã, Leonardo da Vinci, Michelangelo,
Maquiavel, Francis Bacon, Galileu Galilei, Thomas Hobbes, Miguel de
Cervantes, William Shakespeare...

No renascimento predominou uma concepção realista da arte, que


buscava representar a natureza e o homem como eles realmente são, o
que necessitava da observação sistemática de montanhas, rochas,
árvores, flores, animais, “lançando, assim, os alicerces para uma geologia
e uma história natural” científicas. (...) tal arte requeria o estudo da
anatomia do ser humano, para melhor representá-lo nas pinturas e nas
esculturas e que permitiria a Willian Harvey descrever a circulação do
sangue (Bernal, 1979, vol. II, p. 388).

O conhecimento produzido neste período buscava superar a


escolástica, o aristotelismo e o pensamento medieval sobre o mundo, o
homem, a natureza e a sociedade. A nova forma de compreender a
ciência, inicialmente, se tornou indispensável para o desenvolvimento do
comércio e da guerra, depois será fundamental para a indústria, a
agricultura e a medicina (Bernal, 1979, volume II, p. 406).

“À medida que o capitalismo foi se constituindo, com o desenvolvimento do


comércio, da vida urbana, das técnicas e das formas de exploração da
natureza e das relações sociais de produção, que deram sustentação à
industrialização e à consequente consolidação deste modelo de sociedade, o
conhecimento científico foi ganhando espaço e se tornando predominante
sobre outros tipos de conhecimento. As próprias leis básicas da dinâmica da
sociedade capitalista voltadas para a acumulação privada de capital, a livre
concorrência, a expansão de mercados pela livre iniciativa individual, e a
101
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

divisão social do trabalho, vão condicionar e ser condicionadas pelo


gradativo desenvolvimento da racionalização do processo de trabalho, e o
consequente desenvolvimento do racionalismo, como expressão
sistematizada do conhecimento da natureza e das próprias relações sociais da
sociedade moderna e contemporânea.” (Geraldo, 2006, p. 13)

Todas as pequenas e grandes conquistas deste período, tanto as


técnicas como as teóricas e metodológicas, somando-se o “trabalho de
muitas mãos e mentes”, culminarão com a formulação das obras que
formaram a base para a edificação de toda a ciência moderna e
contemporânea, das quais podemos citar algumas das principais destas
obras que influenciaram o nascimento e o desenvolvimento inicial das
ciências da natureza:

 Nicolau Copérnico (Das Revoluções dos Corpos Celestes, de 1543);


 Johannes Kepler (A Nova Astronomia, de 1609; Harmonia do
Mundo, de 1618; Epítome da Astronomia Copernicana, de 1619; e
Tabelas Rodolfinas, de 1627);
 Galileu Galilei (Mensageiro Sideral, de 1610; Diálogo Sobre os Dois
Principais Sistemas do Mundo, de 1632; e Discursos e Demonstrações
matemáticas Sobre Duas Novas Ciências, publicado em 1638);
 René Descartes (Discurso Sobre o Método, de 1637; Geometria,
também publicado em 1637; e Princípios de Filosofia, publicado em
1644);
 Isaac Newton (Princípios Matemáticos da Filosofia Natural), publicado
em 1687.

Nicolau Copérnico (1474 – 1543), no livro “Das Revoluções dos Corpos


Celestes”, publicado no ano de sua morte, apresentou uma nova teoria
sobre a organização do universo conhecido naquela época: o
heliocentrismo. As principais ideias de Copérnico podem ser resumidas
assim:
102
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

Copérnico aponta as limitações do geocentrismo de Aristóteles e


Ptolomeu:
 As previsões do posicionamento dos astros ao longo do ano não
eram precisas e isso num grau tal que o calendário era
consideravelmente confuso.
 Não existia um conjunto único de conceitos ptolomaicos básicos:
alguns teóricos utilizavam os círculos concêntricos (como
Eudóxio), outros aplicavam variavelmente excêntricos, epiciclos e
equantes. Os primeiros permaneciam fieis ao princípio
aristotélico de considerar os movimentos celestes somente a
partir do movimento circular uniforme, não conseguiam explicar
todos os fenômenos observáveis, como o movimento retrógrado
dos planetas. Os segundos, explicavam melhor os fenômenos,
mas a custa de violar o princípio da exclusividade do movimento
circular uniforme dos corpos celestes.
 A teoria ptolomaica não podia explicar a forma do universo, e a
imutável simetria de suas partes.

Principais postulados do modelo heliocêntrico de Copérnico:


 O sol é o centro do universo.
 A terra move-se.
 A terra é um planeta e move-se de acordo com os mesmos
princípios dos outros planetas em dois tipos de movimento:
rotação (em torno do próprio eixo) e translação (orbitando ao
redor do sol).
 Existe mais de um centro do movimento celeste: o sol, ao redor
do qual os planetas se movem; e a terra, em torno da qual se
move a lua.
103
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

 As órbitas traçadas pelos planetas são fechadas, circulares e em


sua maior parte heliocêntricas.
 Os movimentos aparentes do sol e da lua são explicados a partir
de uma combinação dos seus movimentos com os movimentos
da terra (rotação e translação).

Outro astrônomo importante deste período foi Thycho Brahe (1546


– 1601), que desenvolveu registros dos movimentos e das posições dos
astros com precisão muito maior que seus antecessores, o que
possibilitou o desenvolvimento dos estudos matemáticos de Kepler
sobre as órbitas dos planetas.

Johannes Kepler (1571 – 1630), viveu na mesma época que Galileu e


partilhou do mesmo espírito crítico em relação aos paradigmas
aristotélicos, também buscando a matematização da compreensão do
mundo e o entendimento e descrição da harmonia matemática do
universo. Desde jovem tornou-se defensor do heliocentrismo, e da
harmonia geométrica que o novo sistema apresentava. Buscou
incessantemente demostrar matematicamente a geometria correta da
órbita dos planetas ao redor do sol, primeiramente utilizou o círculo
como figura geométrica de referência para a descrição matemática das
órbitas, mas como este modelo apresentava diferenças e discrepâncias
com os dados sobre o posicionamento dos astros, após um trabalho
exaustivo chegou à conclusão de que as órbitas dos planetas são elípticas,
tendo o sol como um dos focos da elipse. Estabeleceu também a relação
constante de que: o raio vetor da órbita dos planetas percorre áreas iguais
em tempos iguais, o que significa que quando o planeta está próximo do
sol a sua velocidade é maior que quando ele está longe do sol, portanto
as órbitas dos planetas não são circulares e seu movimento não é
uniforme, mas com variação na velocidade, que aumenta quando o
planeta se aproxima do sol e diminui quando o planeta se afasta do sol;
também determinou a relação constante entre o raio das órbitas dos
104
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

planetas e seus períodos de translação, demonstrando que quanto mais


longe o planeta está do sol, maior é o período de sua órbita.

Galileu Galilei (1564 - 1642), viveu num período em que fervilhavam


a novas ideias de questionamento das teorias aristotélicas. A redescoberta
do pensamento pitagórico (matematização e harmonia do cosmos),
empolgava os novos pensadores. Estudou o movimento de queda dos
corpos e equacionou matematicamente o movimento retilíneo uniforme
e o movimento uniformemente acelerado, provando que havia erros na
teoria aristotélica da queda dos corpos segundo a qual os corpos caem
em velocidade proporcional ao seu peso. Aperfeiçoou o telescópio e foi
pioneiro na sua utilização em observações astronômicas, descobrindo
rugosidades na superfície da lua, que seriam montanhas e depressões, e
descrevendo as manchas solares, desbancando a teoria aristotélica da
perfeição geométrica dos corpos celestes. Ainda com o apoio do
telescópio, escreveu e nomeou quatro satélites do planeta Júpiter,
demostrando a existência de outros “centros de gravidade” no mundo, o
que desbancava as considerações físicas de Aristóteles de que a terra era
o único centro de gravitação do cosmos. Adotou, defendeu e divulgou o
sistema heliocêntrico de Copérnico, desbancando o geocentrismo de
Aristóteles, de Ptolomeu e da igreja católica. Desenvolveu e utilizou em
seus trabalhos a noção de inércia da física clássica, desbancando o
princípio da tendência ao repouso dos corpos (no sentido da ausência de
movimento) da física aristotélica; a inércia será enunciada e utilizada
como lei física na obra de Isaac Newton, mas sua concepção básica já se
encontra nos conceitos e relações descritas no “Discursos e Demonstrações
matemáticas Sobre Duas Novas Ciências” de Galileu. Desenvolveu a noção de
movimentos relativos, explicando matematicamente a queda dos corpos,
desbancando a física do movimento dos corpos de Aristóteles. Além de
apresentar a estrutura e a aplicação prática do seu método científico
experimental e matemático e de escrever sobre a necessidade de se dar
105
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

um novo significado para as relações entre o conhecimento religioso e o


conhecimento científico, entre fé e razão, superando os princípios
fundados pela teologia escolástica sobre estas relações, consolidados por
Tomás de Aquino no século XIII e que predominaram até o século
XVII. Enfim, Galileu desenvolveu um trabalho muito importante no
sentido de iniciar uma nova concepção da física em bases
predominantemente experimentais e matemáticas, superando a física
predominantemente qualitativa e finalista de Aristóteles, abrindo
caminho para a síntese newtoniana que se seguiu.

Tomando como base os trabalhos de Copérnico, Kepler, Galileu e


de outros contemporâneos que apresentavam diferentes soluções para o
problema das causas da atração exercida pelo sol sobre os astros que o
orbitavam, Isaac Newton (1643 – 1727) desenvolveu uma teoria da
gravitação universal, consolidando o novo sistema heliocêntrico para a
explicação do universo conhecido então, em bases matemáticas;
consolidou também, uma nova concepção física para o movimento dos
corpos, sintetizando a nova concepção das ciências físicas em bases
racionalistas, matemáticas e experimentais, revolucionando a astronomia,
a mecânica, a estática, a dinâmica, a ótica, a própria matemática e outras
áreas. Sua principal obra foi publicada em 1687, com o título “Princípios
Matemáticos da Filosofia Natural”, onde estabelece as principais leis do
movimento (exemplo: a aceleração de um corpo é diretamente
proporcional à força aplicada sobre ele e inversamente proporcional à
sua massa); e a lei da gravitação universal da mecânica clássica (matéria
atrai matéria na razão direta do produto de suas massas e na razão
inversa do quadrado da distância entre seus centros de massa). Enfim,
seu trabalho sintetizou, inovou, ampliou, influenciou e impulsionou o
desenvolvimento da matemática, da astronomia, da engenharia, da física,
da filosofia e muitas outras áreas do conhecimento humano.
106
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

A partir destas obras, causas finais cedem lugar a causas mecânicas e


o universo hierárquico da Idade Média é substituído por outro: partículas
e corpos independentes reagem livremente uns sobre os outros, guiadas
apenas pelas leis naturais que irão mobilizar as forças da natureza a
serviço do homem. A contemplação sublime e espiritualista cedendo
lugar à ação prática (Bernal, 1979, vol. II, p. 374).

Constitui-se um novo método de construir e legitimar


conhecimentos, por meio da observação sistemática e comparativa dos
fenômenos, por meio dos cálculos precisos na quantificação das relações
entre as variáveis do fenômeno, por meio da delimitação de hipóteses
explicativas, da experimentação e do teste das hipóteses, bem como da
formulação de leis universais e necessárias. Assim, a construção e a
estruturação lógica do conhecimento científico moderno, se consolidou
juntamente com o desenvolvimento das habilidades cognitivas
complexas próprias desta nova forma de racionalidade, que inicia seu
desenvolvimento neste período, criando ou ressignificando as seguintes
características e procedimentos cognitivos combinados: a identificação
do objeto do conhecimento, a indução (em bases observacionais e
comparativas sistemáticas e em bases experimentais), a dedução, a
experimentação metódica, a análise, a sínese, a objetividade, a
quantificação, a classificação, a estruturação lógico-formal e,
posteriormente, lógico-dialética, a generalização, a formação de
conceitos, a estruturação lógica totalizadora e relacional dos
conhecimentos, e a resolução de problemas.

A cosmologia (astronomia), a física, a matemática e a metodologia


científica nos séc. XVII E XVIII, foram influenciadas e influenciaram: o
indutivismo experimentalista de Francis Bacon, que preconizava que o
conhecimento provém da experiência sensível; o empirismo mecanicista
de Thomas Hobbes; e o racionalismo mecanicista de René Descartes,
107
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

que se baseava na lógica matemática. Observemos a diversidade


epistemológica que foi importante desde o início do desenvolvimento
científico: o indutivismo experimentalista, o empirismo e o racionalismo
mecanicistas.

Se as condições sociais impulsionaram uma nova ideologia e uma


nova ciência, esta ciência nova irá impulsionar uma nova forma de vida,
num processo de impulsionamento recíproco. Tornando-se a ciência e a
tecnologia partes importantes nas forças produtivas da sociedade.

“Com o desenvolvimento científico, a racionalidade empírico-mecanicista


substitui a racionalidade finalista-essencialista (mito, religião e racionalismo
clássico) e o conhecimento científico passa a ser dominante, adquirindo
força de legitimidade e hegemonia sobre as demais formas de conhecimento
humano, ocupando um espaço de poder que reuniu ideologia dominante e
tecnologia (...) Até a idade média, o conhecimento sobre a natureza, ou o
conhecimento científico “lato senso”, estava mais ligado à filosofia do que às
técnicas. A partir da idade moderna, o conhecimento científico passa a ser
fundamental e decisivo para o desenvolvimento técnico do homem
(produtividade, competência, acumulação, objetividade, operacionalidade),
até atingir a fase de completa integração entre ambos: a tecnologia, a partir
da revolução industrial ” (Geraldo, 2014, p.63)

Estes são acontecimentos importantes para a história do homem,


pois o capitalismo pode ser apenas uma fase da história humana, mas a
ciência é uma aquisição permanente da humanidade (Bernal, 1979, vol.
II, p. 369).

Tomando como referência o resumo apresentado por Pierre Lucie


(1978), vejamos a seguir, mais detalhadamente, os principais passos
sucessivos do método experimental de investigação proposto por
Galileu:
108
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

a) Observação sistemática e fundamentada do fenômeno que se quer


investigar;
b) Delimitação do problema que se quer elucidar;
c) Tanto o enunciado (pergunta) como a solução do problema
devem ser elaborados numa linguagem matemática;
d) Em seguida é necessário caracterizar o fenômeno investigado por
um conjunto de parâmetros sucessivos de medição, é a chamada
construção do modelo matemático;
e) Após, definem-se as hipóteses de solução do problema;
f) Estas hipóteses se expressam na forma de equações matemáticas.
g) As equações devem ser testadas pela experimentação em
laboratório, onde se controla as variáveis e sua determinação no
fenômeno.
h) O resultado da experiência permitirá decidir se o modelo
matemático proposto, e se as hipóteses (relações entre a variáveis)
levantadas, são verdadeiras ou falsas. (Lucie, 1978, p. 141-143)

Vejamos, a seguir, em outras palavras, o processo de pesquisa


experimental de forma sintética:

“Segundo este método, o fenômeno estudado deve ser isolado e


decomposto em suas causas determinantes e determinadas, suas variáveis;
devem ser estabelecidas as relações de causa e efeito entre estas variáveis,
preferencialmente em laboratório, onde a quantificação controlada das
relações entre estas variáveis deve se estabelecer com precisão e objetividade,
isto é, com isenção total de interferências subjetivas de qualquer espécie. Os
passos principais do método científico clássico seriam: a) delimitação do
problema; b) levantamento de hipóteses de solução; c) isolamento das
variáveis importantes para o problema em estudo; d) experimentação
controlada (controle das variáveis) para teste das hipóteses, quantificando as
109
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

relações entre as variáveis. Se as hipóteses forem confirmadas se


transformam em leis gerais, se não se confirmarem serão refutadas.”
(Geraldo, 2006, p. 13)

Assim, neste período, se desenvolveu e se consolidou uma nova


cosmologia: o heliocentrismo, que substituiu o geocentrismo. As esferas
fixas que sustentavam os planetas e seus movimentos circulares e
uniformes, com velocidades constantes, nos céus, são substituídas pelas
órbitas dos planetas que flutuam ao redor do sol, inclusive a terra,
combinando forças de atração e movimentos de rotação e translação; o
universo que era considerado finito, hierarquizado e movido por
espíritos é substituído por um universo infinito e mecânico.
Desenvolveu-se, também, uma nova Física, deixando os conceitos e
postulados exclusivamente qualitativos e finalísticos da concepção
aristotélica, e construindo conceitos, postulados e relações estruturadas
em bases mecânicas e matemáticas. Os corpos celestes não são mais
perfeitos, imutáveis, eternos e incorruptíveis, mas são regidos pelas
mesmas leis mecânicas que vigoram aqui na terra. Esta nova física e nova
cosmologia serviram de base para uma nova visão do homem: do seu
lugar no tempo e no espaço, de sua relação com os deuses, de seu
conhecimento e do conhecimento da natureza, do conhecimento sobre
seu corpo, e neste sentido podemos citar as obras de anatomia de André
Vesalius (1543) e sobre a circulação do sangue de Willian Harvey (1628).

Entre os anos de 1662 e 1666, veremos o início da


institucionalização da ciência com a fundação e consolidação das
primeiras sociedades científicas: a Royal Society (Inglaterra) e a Academia
Royale (de Paris), que se concentraram no estudo dos problemas
técnicos centrais de sua época: os problemas da bombagem e da hidráulica,
da artilharia e da navegação (veja-se Bernal, vol. II, p. 448-457), que foram
seguidas pela fundação de muitas outras sociedades científicas.
110
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

O Mecanicismo.

Ao longo do século XVII, juntamente com todas as mudanças já


enunciadas acima, irá se consolidar uma nova filosofia sobre a natureza:
o mecanicismo. Para esta filosofia, a natureza como um todo e suas
partes, como o corpo dos seres vivos, os sistemas da terra e o próprio
conhecimento humano, funcionariam como sistemas mecânicos, com
relações de causa e efeito mecânicos, do microcosmo até o macrocosmo,
funcionando como máquinas ou como um relógio, onde o movimento
de cada engrenagem determina o movimento da engrenagem seguinte.
Os fenômenos da natureza devem ser explicados de forma similar à
mecânica: partículas, formas, extensão, quantidade, movimentos, forças,
colisões e transferência de movimento de um corpo para outro. Explicar
matematicamente as relações mecânicas que formam o mundo natural, é
a principal missão do filósofo natural.

Para os mecanicistas deístas, há um ser espiritual superior que planeja


e cria o mundo natural e seu funcionamento. Como tem que haver um
“relojoeiro“ que planeja e cria os mecanismos do relógio, “Deus” planeja
e cria os mecanismos do mundo natural, e, como no relógio, estes
mecanismos seguem seus movimentos obedecendo os “princípios”
fundadores dos seus mecanismos de funcionamento. É importante
destacar que os pensadores ligados a esta concepção filosófica entendiam
em novas bases as relações entre o conhecimento religioso e o
conhecimento científico, buscando apreender as especificidades do
conhecimento religioso e do conhecimento científico em relação à
humanidade, ao desenvolvimento da sociedade e da cultura como um
todo; e com as relações entre ciência e religião, não mais definidas em
termos de hierarquia e subordinação da ciência em relação à teologia,
como predominava na era medieval.
111
História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

Para os mecanicistas materialistas, os mecanismos do mundo são


regidos por leis naturais combinando partículas em movimento, forças e
corpos independentes. Sendo que estas “leis naturais” estão escritas em
linguagem matemática. Aplicada à biologia, a filosofia mecanicista afirma
que os sistemas vivos e os fenômenos que se manifestam neles são
mecanicamente determinados e são de natureza físico-química (forças,
movimentos e relações entre partículas). Portanto, os organismos vivos
são considerados como máquinas.
Opondo-se às explicações vitalistas que defendiam a existência de
uma “força vital” que explica a vida e os fenômenos a ela relacionados, o
mecanicismo faz distinção entre os fenômenos que ocorrem nos seres
vivos (que teriam uma “alma” sensitiva, ou “irritabilidade”) e os
fenômenos que ocorrem com os seres não vivos (que seriam formados
por matéria inanimada – sem a “alma” sensitiva), observe-se que neste
aspecto, para os mecanicistas, o termo “alma” não tinha um sentido
sobrenatural, mas fisiológico.
Os métodos propostos pelos mecanicistas fisicalistas não se
adequavam às necessidades de todas a áreas das pesquisas biológicas, que
tiveram que seguir caminhos científico-metodológicos próprios, dois
deles são: a) o surgimento de uma tradição químico-qualitativa, que se
concentrava nas qualidades e nas características dos componentes
químicos dos seres vivos; e b) o estudo da diversidade biológica, que se
ocupava de descobrir e descrever, com riqueza de detalhes, espécies
diversas de organismos vivos, baseando-se na observação e na
comparação sistemáticas (Mayr, 1998, p. 121-122).
Os instrumentos inventados pelos mecanicistas irão contribuir com
os estudos biológicos; dentre estes instrumentos podemos citar: o
termômetro, o barômetro e o microscópio que abriu um grande campo
de estudos dos microrganismos. Foi possível a descrição dos tecidos de
animais e de plantas (com o nascimento da histologia); descobriu-se o
112
ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO

plâncton de água doce, as células sanguíneas, os protozoários, as células


somáticas em geral, as células reprodutivas: o espermatozoide e o óvulo.
As viagens de exploradores a outros continentes traziam para a
Europa plantas e animais exóticos, o que levou à construção de vastas
coleções de seres vivos, que irão servir de base para os estudos
biológicos da diversidade, desenvolvendo-se a Taxonomia (Lineu), que
estuda a classificação dos seres vivos. Buffon, com sua História Natural
(1749), deu ênfase para o estudo dos animais e de sua história natural
(modo de vida, hábitat, comportamentos adaptativos e reprodutivos,
desenvolvimento), estudos comparativos de anatomia e estudos dos
fósseis, buscando as relações mútuas entre os diferentes grupos de seres
vivos (espécies, gêneros, famílias, classes, filos). A ampliação dos estudos
da diversidade biológica possibilitou, também, que fossem lançadas as
ideias iniciais sobre a evolução dos seres vivos a partir da ancestralidade
comum (Erasmus Darwin e Lamarck).
A metodologia experimental foi muito importante, também, para o
desenvolvimento da fisiologia em diferentes aspectos, como nos estudos
sobre as funções dos órgãos com Albrecht Von Haller. Ainda eram
muito poucos os estudiosos que se dedicavam profissionalmente
exclusivamente aos estudos biológicos; a grande maioria destes eram
médicos, mas havia alguns outros profissionais que se dedicavam aos
estudos dos seres vivos nas horas vagas. Os conhecimentos biológicos
ainda eram segmentados e não haviam se desenvolvido teorias gerais que
unificassem os princípios da biologia como uma ciência. Esta unificação
de grandes teorias teve que esperar o desenvolvimento da citologia, da
evolução, da bioquímica no séc. XIX e da genética e da ecologia no séc.
XX.
As inovações teórico-metodológicas introduzidas nos conhecimentos
das áreas das ciências da natureza, da matemática, da filosofia e das
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História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

ciências sociais e humanas, no período que abordamos neste capítulo,


lançaram as bases para todo o desenvolvimento científico futuro,
configurando a ciência no sentido que a entendemos hoje, impulsionada
pelos interesses da nova classe social hegemônica (a burguesia) e pelo
novo modo de produção (o capitalismo); consolidando-se a aproximação
das ciências com o desenvolvimento da tecnologia, culminando com a
sua total interdependência a partir da revolução industrial que se sucedeu
ao período que estamos encerrando.
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ANTONIO CARLOS HIDALGO GERALDO
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História da ciência: dos primórdios da formação humana ate a revolução científica na era moderna,
uma síntese didática.

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Sobre o Autor

Sou Licenciado em Ciências Naturais pela UFMT (1988).

Especialista em Teoria e Prática do Currículo (1996).

Mestre em Educação pela mesma universidade (1998).

Doutor em Educação: Ensino de Ciências e Matemática pela


UNESP (2006).

Professor do Instituto de Biociências da UFMT, nas áreas de


“Ensino de Ciências da Natureza”, “Ensino de Biologia” e de
“História e Filosofia do Conhecimento Biológico”.

e-mail: achg2@hotmail.com