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Lingua[gem] 21

Gabriel Antunes de Araújo


Lingua[gem] [organização]

1. Português ou brasileiro? Um convite à pesquisa BERNADETE ABAURRE, GABRIEL ANTUNES DE ARAÚJO, GISELA COLLISCHON,
Marcos Bagno, 6a ed. WALDEMAR FERREIRA NETTO, ZWINGLIO O. GUIMARÃES-FILHO, SEUNG HWA-LEE,
2. Linguagem & comunicação social — visões da lingüística moderna
GLADIS MASSINI-CAGLIARI, LEONARDO OLIVEIRA, MARIA ISABEL PEREIRA, FILOMENA SANDALO,
Manoel Luiz Gonçalves Corrêa
3. Por uma lingüística crítica RAQUEL SANTANA SANTOS, MANOEL MOURIVALDO SANTIAGO-ALMEIDA,
Kanavillil Rajagopalan, 2a ed. LUCIANI TENANI, MÁRIO VIARO
4. Educação em língua materna: a sociolingüística na sala de aula
Stella Maris Bortoni-Ricardo, 4a ed.
5. Sistema, mudança e linguagem — um percurso pela história da lingüística moderna
Dante Lucchesi
6. “O português são dois” — novas fronteiras, velhos problemas
Rosa Virgínia Mattos e Silva, 2a ed.
7. Ensaios para uma sócio-história do português brasileiro

8.
Rosa Virgínia Mattos e Silva
A lingüística que nos faz falhar — Investigação crítica
Kanavillil Rajagopalan | Fábio Lopes da Silva [orgs.]
O ACENTO EM
9. Do signo ao discurso — Introdução à filosofia da linguagem

10.
Inês Lacerda Araújo
Ensaios de filosofia da lingüística
José Borges Neto
PORTUGUÊS
11. Nós cheguemu na escola, e agora?
Stella Maris Bortoni-Ricardo, 2a ed. ABORDAGENS FONOLÓGICAS
12. Doa-se lindos filhotes de poodle — Variação lingüística, mídia e preconceito
Maria Marta Pereira Scherre
13. A geopolítica do inglês
Yves Lacoste [org.] | Kanavillil Rajagopalan
14. Gêneros — teorias, métodos, debates
J. L. Meurer | Adair Bonini | Désirée Motta-Roth [orgs.], 2a ed.
15. O tempo nos verbos do português — uma introdução a sua interpretação semântica
Maria Luiza Monteiro Sales Corôa
16. Considerações sobre a fala e a escrita — fonologia em nova chave
Darcilia Simões
17. Princípios de lingüística descritiva — Introdução ao pensamento gramatical
M. A. Perini., 2a ed.
18. Por uma lingüística aplicada INdisciplinar
Luiz Paulo da Moita Lopes (org.)
19. Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança lingüística
U. Weinreich | W. Labov | M. I. Herzog
20. As origens do português brasileiro
Anthony Julius Naro | Maria Marta Pereira Scherre
21. Introdução à gramaticalização — princípios teóricos e aplicação
Sebastião Carlos L. Gonçalves, Maria Célia L. Hernandes, Vânia Cristina C. Galvão [orgs.]
22. O acento em português — Abordagens fonológicas
Gabriel Antunes de Araújo [org.]
EDITOR: Marcos Marcionilo
CAPA E PROJETO GRÁFICO: Andréia Custódio
CONSELHO EDITORIAL: Ana Stahl Zilles [Unisinos]
SUMÁRIO
Carlos Alberto Faraco [UFPR]
Egon de Oliveira Rangel [PUCSP]
Gilvan Müller de Oliveira [UFSC, Ipol]
Henrique Monteagudo [Universidade de Santiago de Compostela]
José Carlos Sebe Bom Meihy [NEHO/USP]
Kanavillil Rajagopalan [Unicamp]
Marcos Bagno [UnB]
Maria Marta Pereira Scherre [UFRJ, UnB]
Rachel Gazolla de Andrade [PUC-SP] Apresentação
Salma Tannus Muchail [PUC-SP] 7
Stella Maris Bortoni-Ricardo [UnB]
1. O acento segundo
Fernão de Oliveira
MANOEL MOURIVALDO SANTIAGO-ALMEIDA
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ 11
A157 2. O acento na língua portuguesa
O acento em português : abordagens fonológicas / Gabriel Antunes de Araújo,
organizador ; Bernadete Abaurre... [et al.]. - São Paulo : Parábola Editorial, 2007.
WALDEMAR FERREIRA NETTO
(Lingua[gem] ; 22) 21
Inclui bibliografia
ISBN 978-85-88456-66-2
3. As proparoxítonas e o sistema
acentual do português
1. Língua portuguesa - Acentos e acentuação. 2. Língua portuguesa . Fonologia. I. Gabriel
Antunes de Araújo. II. Série.
GABRIEL ANTUNES DE ARAÚJO
ZWINGLIO O. GUIMARÃES-FILHO
07-2195 CDD: 469.5 LEONARDO OLIVEIRA
CDU 811.134.3’34
MÁRIO VIARO
37

Direitos reservados à 4. Acento latino e acento em português:


PARÁBOLA EDITORIAL que parentesco?
Rua Clemente Pereira, 327 - Ipiranga
MARIA ISABEL PEREIRA
04216-060 São Paulo, SP
Fone: [11] 6914-4932 | Fax: [11] 6215-2636 61
home page: www.parabolaeditorial.com.br
e-mail: parabola@parabolaeditorial.com.br 5. Das cadências do passado: o acento em português
arcaico visto pela teoria da otimalidade
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida
ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico ou me- GLADIS MASSINI-CAGLIARI
cânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema 85
ou banco de dados sem permissão por escrito da Parábola Editorial Ltda.
6. O acento primário no português uma análise
ISBN: 978-85-88456-66-2
unificada na teoria da otimalidade
© do texto: Gabriel Antunes de Araújo et alii SEUNG HWA LEE
© desta edição: Parábola Editorial, São Paulo, julho de 2007 121
7. Acento secundário em duas variedades
de português: uma análise baseada na OT APRESENTAÇÃO
FILOMENA SANDALO
MARIA BERNADETE ABAURRE
145
8. Acento e processos de sândi vocálico no português
LUCIANI TENANI
169

O
9. Proeminência acentual e estrutura silábica livro O acento em português — Abordagens fonológicas ofere-
seus efeitos em fenômenos do português brasileiro ce aos leitores uma introdução à problemática do acento em
GISELA COLLISCHONN
português. Embora relativamente bem estudado, o acento
195
primário (ponto de partida para as análises) em português é cercado por
10. O acento e a aquisição da linguagem controvérsias. Basicamente, as palavras em português podem ser oxítonas,
em português brasileiro
paroxítonas ou proparoxítonas, ou seja, o acento pode cair na última, pe-
RAQUEL SANTANA SANTOS
225 núltima ou antepenúltima sílaba, respectivamente, contando-se da direita
para a esquerda.
Bibliografia
259 Oxítona: café, solar
Paroxítona: telefone, salvo
Proparoxítona: sílaba, fósforo

Câmara Jr. (1970) afirma que o acento é distintivo e, portanto,


imprevisível. Desde então, vários autores (dentre eles Leite 1974; Mateus
1982, 1996; Bisol 1992ac, 1994ab; Andrade 1994; Massini-Cagliari 1999;
Cagliari 1999; Lee 1994, 2004b; Wetzels 2003, entre outros) têm se dedi-
cado a buscar explicações para o acento primário em português e refutar a
hipótese da imprevisibilidade.

No entanto, este livro pretende não se limitar somente ao acento pri-


mário. Apresentamos aqui uma coleção de textos que tanto pode ser lida
separadamente como pode ser aproveitada em conjunto. Se lidos separa-
damente, cada capítulo oferece uma discussão a respeito de um ponto es-
pecífico da questão do acento.

No capítulo 1, o filólogo MANOEL MOURIVALDO SANTIAGO-ALMEIDA apre-


senta uma versão modernizada (acompanhada da edição fac-similada) dos
capítulos XXVIII e XXIX da Grammatica da Lingoagem Portuguesa de Fernão
8 O acento em português - abordagens fonológicas Apresentação 9

de Oliveira (1536). Santiago-Almeida destaca exatamente os capítulos nos No capítulo 5, MASSINI-CAGLIARI discorre sobre o acento no português
quais há a primeira descrição fonológica do fenômeno do acento em por- arcaico, investigando “o posicionamento do acento em português no seu
tuguês. Oliveira, considerado o nosso primeiro gramático, introduz con- período medieval trovadoresco, na perspectiva da teoria da otimalidade (OT)”.
ceitos como cabo da sílaba (modernamente, a coda), além dos não menos A autora pretende contribuir com uma descrição prosódica do português
modernos sílabas grandes e pequenas (pesadas e leves), que aparecem à arcaico que, somada a outras descrições, possa “esboçar a história da evolu-
larga em qualquer descrição fonológica atual. Embora esteja próximo de ção dos fenômenos prosódicos ao longo da história da nossa língua”.
seu quinto centenário, o texto de Oliveira foi mantido intocado, salvo um
SEUNG HWA LEE, no capítulo 6, apresenta uma análise unificada do
ou outro erro de impressão da edição original que foram corrigidos por
acento primário (verbal e nominal) no português, como Massini-Cagliari,
Santiago-Almeida, além de umas poucas notas de rodapé.
na perspectiva teórica da OT, eliminando conceitos outrora empregados
WALDEMAR FERREIRA NETTO, no capítulo 2, faz uma breve apresentação como catalaxis, extrametricidade e outras irregularidades. De certa forma,
das hipóteses sobre o acento primário e defende que a relação entre acento as análises do acento tradicionalmente separam os nomes dos verbos. Lee
lexical e seus correlatos podem não ser tão evidentes como amplamente acredita que uma análise na qual as “formas de superfície são obtidas pelas
defendido na literatura. Além disso, o autor argumenta que “a perda da interações e ranqueamentos de restrições universais da OT que se aplicam
distinção da quantidade segmental, na passagem do latim vulgar para a paralelamente nas formas de superfície, dispensando derivações intermediá-
língua portuguesa, resultou no fato de que a mesma tornou-se mais uma rias, ciclos/níveis e regras” têm maior poder explicativo. Sem dúvida, uma
possibilidade de marca fonética para o acento lexical”. análise unificada do acento verbal e nominal é inovadora.

No capítulo 3, ARAÚJO, GUIMARÃES-FILHO, OLIVEIRA & VIARO mostram que SANDALO & ABAURRE, no capítulo 7, apresentam “uma análise do acento
as palavras proparoxítonas não são tão “esdrúxulas” como é comumente de- secundário no português brasileiro e no português europeu (PB e PE) basea-
fendido na literatura e, portanto, não devem ser tratadas como simples exce- da na teoria da otimalidade (OT)”. As autoras mostram que “uma análise
ção. Os autores tentam desconstruir os argumentos amplamente emprega- representacional: (i) gera todos os fatos do PB e do PE sem a necessidade de
dos para desqualificar as proparoxítonas e mostram que as palavras com acento postular nenhum caso de neutralização absoluta; (ii) não força o uso da
antepenúltimo entraram na língua de forma correlata às palavras oxítonas e noção de direcionalidade, o que implica uma simplificação da teoria
paroxítonas. Dessa forma, uma teoria sobre o acento deveria considerar o fonológica; e (iii) é capaz de gerar, em paralelo, formas variantes”.
acento na antepenúltima sílaba como parte da língua portuguesa. LUCIANI TENANI, no capítulo 8, pretende, ao “tratar do papel do acento
em contextos de bloqueio de processos segmentais, tecer considerações
MARIA ISABEL PEREIRA, no capítulo 4, faz o percurso do acento em latim
sobre a organização rítmica e prosódica” das variedades do português bra-
até o sistema acentual do português e conclui que “o acento português
sileiro e do português europeu. Dessa forma, a autora não se limita somen-
difere do latino em vários factores: possui dois subsistemas, com funciona-
te ao acento e defende que “o que diferencia o PB do PE não é o papel da
mentos consideravelmente diferentes; o condicionamento morfológico é
proeminência do domínio prosódico relevante para a aplicação das restri-
um dos princípios mais importantes na determinação da posição do acen-
ções rítmicas (...) mas o fato de um mesmo processo segmental ter compor-
to; possui formas lexicalmente marcadas quanto ao acento; no sistema ver-
tamento diferente em cada variedade”.
bal, há regras acentuais que concorrem entre si; possui morfemas deriva-
cionais com comportamentos acentuais específicos; resolve diferentemen- GISELA COLLISCHONN, no capítulo 9, tem por objetivo “dar conta do
te o processo de cliticização”. papel do acento em fenômenos do nível da palavra e da frase no português.
10 O acento em português - abordagens fonológicas

Procuramos mostrar como epêntese, síncope, ditongação, sândi e haplologia CAPÍTULO 1


se relacionam com o acento. A discussão desses fenômenos acaba por en-

O ACENTO SEGUNDO
volver também a estrutura silábica e seus efeitos”.

A aquisição do acento em crianças em fase de aquisição de linguagem é o


tema tratado por RAQUEL SANTANA SANTOS no capítulo final. Para Santos, uma FERNÃO DE OLIVEIRA…
grande questão sobre as mais diversas manifestações do acento, apresentadas
nos capítulos anteriores, é como as crianças adquirem-no ou levam-no em MANOEL MOURIVALDO SANTIAGO-ALMEIDA*
consideração ao adquirir regras fonológicas cujas propriedades os incluam.

O livro, portanto, foca, nos capítulos 1-6, o fenômeno do acento pri-


mário, enquanto a segunda parte, capítulos 7-10, lida com fenômenos
prosódicos mais amplos.

A bibliografia foi unificada ao final do volume. Dessa forma, ela se


constitui, por um lado, como uma fonte de referências, em sua maioria,
dedicada ao tema e, por outro, mostra que um grupo coeso de autores tem
servido como inspiração para as mais diversas discussões teóricas sobre o
acento em português.

O livro é indicado para aqueles que já possuem algum conhecimento


em fonologia da língua portuguesa e que desejam se aprofundar em algu-
ma questão pontual em relação à temática do acento, assim como para
aqueles que pretendem se iniciar nessa área.

N
Se organizar livros não é uma tarefa fácil, este volume é uma exceção. o capítulo XXVIII da considerada primeira gramática da
Os autores se dedicaram aos textos desde a concepção do projeto e arru- língua ou “lingoagem” portuguesa, de Fernão de Oliveira1, de
maram tempo em suas agendas para prepará-los. Agradeço enormemente acordo com a definição do autor:
a todos os autores pelos seus esforços. Agradeço também ao nosso editor
por todo o apoio e atenção dispensado ao nosso trabalho.

GABRIEL ANTUNES DE ARAÚJO


[Organizador]

*
Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, Universidade de São Paulo e Academia Brasileira
de Filologia.
1. Edição de 1536, fac-similada e disponível no sítio da Biblioteca Nacional: http://www.bnd.bn.pt.
12 Manoel Mourivaldo Santiago-Almeida O acento segundo Fernão de Oliveira 13

Acento quer dizer principal voz, ou tom da dição2, | o qual acaba de dar sua forma e O acento é tratado na gramática quinhentista em dois capítulos: no
melodia às dições | de qualquer língua. Digo às dições somente, por|que a linguagem, vigésimo oitavo, o autor trata do conceito e dos lugares do acento, fazendo
ainda no ajuntamento das di|ções e no estilo e modo de proceder, tem suas comentários comparativos entre as línguas portuguesa, latina e grega; o
particula|ridades ou propriedades (...) vigésimo nono capítulo é composto pelas regras de acentuação em portu-
guês. Nessa etapa, o gramático lista as palavras ou dições, com as devidas
Depois de dizer que espera tratar das particularidades ou propriedades exceções, que devem receber o acento na última sílaba, na penúltima síla-
da linguagem com maior acuidade em outra obra maior, Oliveira continua a ba e na antepenúltima sílaba. São, com outras palavras, as regras de acen-
dizer sobre o acento, que, como podemos deduzir pelo conceito que lhe é tuação dos vocábulos oxítonos, paroxítonos e proparoxítonos, no século
dado, não se distancia do que lhe é atribuído em outras gramáticas portugue- XVI, conforme a primeira gramática da língua portuguesa4.

sas, em todos os tempos. Fiquemos com, dentre tantos, dois exemplos.


De resto, cabe-nos ceder o turno a Fernão de Oliveira. Para tanto, edita-
I) O acento resulta da conjugação das propriedades de intensidade, du- mos as partes de sua gramática sobre o acento, atualizando a ortografia, acen-
ração e altura do som vocálico, e marca uma sílaba mais “forte” (ou tuação gráfica e pontuação, com barras verticais para anotar os limites das
“proeminente” na seqüência fonética) (cf. Mateus et alii 1989: 338). linhas do texto original, paralelamente, fac-similado5. As interferências feitas
II) Prosódia he huma parte da Grammatica, que ensina a pronunciar por conjectura estão entre colchetes e acompanhadas por notas.
as syllabas com o seu devido accento. A syllaba ou he longa (em Segue o gramático...
cuja pronunciação se levanta a voz, ferindo-se a vogal), ou he breve
(em cuja pronunciação se abaixa a voz sem se ferir a vogal). Exem-
plo: hora, em ho- é longa por se levantar a voz; e -ra é breve por se
abaixar a voz3 (Lobato 1770: 175-76).

Todos os conceitos têm como princípio o que etimologicamente é su-


gerido pelo vocábulo correspondente em latim acc‘ntus,us, que quer dizer,
“o levantar ou abater a voz numa sílaba”. O tema acento remete a outro Esta for|ma das dições, a que chamamos acento, sem a qual se mal co|nhecem uns
vocábulo também latino prosod0a,ae, “quantidade das sílabas”, que é deri- vocábulos dos outros, é necessária em cada | parte ou dição, e em cada uma não mais
vado do grego prosÇidía,as, “canto de acordo com”. Na estrutura profun- que só um acento, | ainda que aos gregos pareceu outra cousa, os quais deram | em uma
da, tanto prosódia, do grego, quanto acento, do latim, referem-se ao canto dição dois acentos e, ao contrário, a duas dições um | acento. E nisto derradeiro os
ou melodia das sílabas na pronúncia das palavras ou, conforme Oliveira, seguiram também os latinos |
na pronunciação das dições.

2. Dição: ou dicção, significando vocábulo, som ou conjunto de sons que exprimem uma idéia ou
significado. Isto é: palavra.
3. Pela própria descrição do que é longo (levantar a voz) e breve (abaixar a voz), o gramático
adverte que nas línguas vulgares ou românicas, como no próprio latim do século XVIII, “rigorosa- 4. Nunca é demais lembrar que não se deve confundir acento prosódico, que é a matéria deste
mente fallando, não há syllabas longas, nem breves (....)” (Lobato 1770: 175, nota a). Isso porque texto, com acento gráfico.
“na antiga pronunciação já se não distinguem as syllabas pelos tempos, a que chamão quantidade, 5. Para a lição cotejamos também a edição diplomática de 1831, feita pelo Visconde d’Azevedo e
mas sim pelo accento” (Lobato 1770: 175, nota a). Tito de Noronha (Oliveira 1536 [1831]).
14 Manoel Mourivaldo Santiago-Almeida O acento segundo Fernão de Oliveira 15

nas partes onde se misturam as dições, que eles chamam | enclíticas, as quais pronunci- outras gentes o têm como eles, e com tudo se pronunciam | ambos aqueles acentos ou
am debaixo de um acento | com a dição precedente. E se disto para que seja entendido, qual deles eles o saibam. | Eu não dou conta mais que escassamente da minha língua, a
pode|mos dar algum exemplo na nossa língua, seja nas par|tes em cujos cabos se | qual não tem mais nem outra cousa que o dito.
misturam os artigos, como fizeram|no por fizeram o, e querem-no bem por querem o
bem. Onde o artigo se mete debaixo do acento da dição precedente. Mas, | Aqui finda o vigésimo oitavo capítulo, que tratou do conceito e dos
lugares do acento, com observações comparando o português, o latim e o
grego. O vigésimo nono capítulo, que segue, é composto pelas regras de
acentuação do português quinhentista: Fernão de Oliveira lista as palavras
que têm o acento na última, na penúltima, e na antepenúltima sílaba.
a mim o contrário me parece. E é verdade na nossa língua que | não há dois acentos se
Segue o gramático... Capítulo XXIX:
não onde há duas dições e não | compostas ou juntas em uma. |

Na última sílaba estará o acento das nossas di|ções, quando elas acabam em r6, como
Os lugares deste acento de que falamos são entre | nós a última sílaba ou penúltima, ou
pomar, al|cacer, erva-doutor e Artur. Tirando alcácer por ca|stelo, o qual tem a penúltima
antepenúltima. | Daqui para trás o nosso espírito nem orelhas não consen|tem haver
grande, ainda que al|guns o pronunciam alcácere, com e no cabo. E então fica o |
acento. E a nação ou gente que outra cousa po|de sentir e consentir não se conforma
conosco, nem a músi|ca do nosso ouvido e do seu é uma e conforme. Isto digo |

acento na antepenúltima. Também tem o acento na últi|ma, as partes acabadas em z,


como rapaz, perdiz, arroz, | arcabuz; e quando acabam em l, como bancal, pichel, covil, |
porque na língua grega as dições, que depois de si têm partes | enclíticas ou atrativas, cerol, azul; e outro tanto, as acabadas em s, como Tomás, | nome próprio de homem, invés,
têm assinado um acento sobre a par|te enclítica e outro, seu próprio, sobre si, o qual às retrós, tirando Marcos, Lu|cas, e Domingos, nomes próprios, e tirando os verbos, os |
vezes fica | antes da penúltima. E isto acontece quando a principal dição | tinha o seu
acento na antepenúltima, porque então em res|peito de todo o ajuntamento fica antes 6. Embora Oliveira esteja fazendo referência às letras ou aos grafemas, devemos transportar o assunto
da antepenúlti|ma. E assim como os gregos têm isto, pode ser que também | para o nível sonoro da língua ou para os fonemas representados pelos referidos grafemas ou letras.
16 Manoel Mourivaldo Santiago-Almeida O acento segundo Fernão de Oliveira 17

almazém10, desdém | e outras têm o acento na última, como diz a regra. E al|gumas
pessoas dos verbos, como dissemos também se não |

quais nas partes de suas conjugações, como tempos e pes|soas, não guardam esta regra,
mas vão por outro caminho, | como logo diremos. Nem havemos de entender que estas
regras | têm verdade nas partes ou lugares declinados, se não | se particularmente se
poderem compreender nelas. E porque |

compreendem nesta regra, como amam, amavam, e amaram | (pretérito). As dições que
têm vogal grande no cabo têm | o acento nessa vogal grande, como alvará, eixoo,
chaminé, | guadameci, peru, calecu, cegu. Já dissemos que i e u se con|tam por vogais
grandes. As dições acabadas em diton|go têm o acento na última sílaba, ainda que com
esse diton|go tenham s ou til, como amei, amareis, amarão (futuro). | Contudo ressal-
os nomes e verbos nisto podem ter mais dúvida, sabere|mos que estas regras falam dos
vando nesta parte derradeira algumas pes|soas dos verbos como já dissemos.
nomes no singular e dos | verbos na primeira pessoa do presente do indicativo e no |
infinitivo. As dições acabadas em til têm o acento na | última, como escrivão, cidadão,
cidadã, aldeão, aldeã, tiran|do rábão, órfão, órgão, côvão, távão (mosca)7, ourégão,
pín|tão8, e Fárão, nome de lugar, e zímbão, cousa de frades. Ver|dade é que estes todos
têm a primeira ou penúltima grande, |
É tão próprio a nós [darmos]11 o acento na última, que | muitas vezes corrompemos a
melodia das línguas estran|geiras que aprendemos, querendo as conformar com a
nos|sa. E se assim fazem também outras gentes, eles o vejam. Eu | falo com os homens
da minha terra.

mas frângão tem vogal pequena nessa primeira sílaba. Nem | por isso deixa de entrar
nesta exceção porque não tem | tampouco o acento na última. Também as dições
aca|badas nesta terminação: em não têm muitas vezes o a|cento na última, como
linhagem, menagem9, mas vintém, | porém, também, ninguém, alguém, arrevém,

Na penúltima sílaba tem seu acento as dições que, não | tendo a última grande ou com
7. Espécie de mosca: mosca-da-madeira, mutuca. Grafado nos dicionários sem o acento agudo, alguma das condições já ditas, | têm essa penúltima grande, como estudaste, estudavas.
tavão, indicando que se trata, hoje, de um vocábulo oxítono.
8. Infere-se que o gramático esteja se referindo ao adjetivo píntão, paroxítono (dicionarizado
atualmente como oxítono), sinônimo de mestiço. 10. Antiga forma de armazém.
9. Antiga forma de homenagem. 11. No original, daremos.
18 Manoel Mourivaldo Santiago-Almeida O acento segundo Fernão de Oliveira 19

Ti|rando este nome que não é nosso próprio, último, e última, e | assim se se tirarem acento ao cabo da dição, e põem-no | antes na penúltima, como linguagem, giesta,
outros, não serão nossos como este. Os verbos | também em algumas partes têm o trouxeram.
acento na penúltima, po|sto que a última tenha as condições que dissemos que havia | de
ter para ter o acento em si. E as partes dos verbos que | a isso não têm respeito são como
estas: amas, andas, ames,

Na [ante]penúltima12 sílaba têm o acento as dições que têm essa | antepenúltima


grande, tendo as outras seguintes última e | penúltima pequenas, como amávamos, andáva-
mos, ár|dego, étego, áspero, cólera. E isto não sempre, mas pela | maior parte, porque as
segundas pessoas dos verbos | no plural, dos tempos que disse, seguem outra cousa13.

andes. E também apanhas, apanhes, acolhas, recolhas. E | porém não têm o acento na
penúltima as partes que, tendo | a antepenúltima longa, têm as outras duas seguintes |
pequenas, como amávamos, fazíamos, ainda que isto falta nas | segundas pessoas do
plural, assim no presente futuro e preté|rito do indicativo, como também no presente do
subjuntivo, assim | como dizemos, estudamos, riremos e digamos, onde o | acento está na
O plural dos nomes segue as regras do acento do seu | singular, ainda que mude ou
penúltima, não embargando que essa penúlti|ma seja pequena e antepenúltima grande,
acrescente as letras ou as sílabas | ou a quantidade delas, como moço, moços e mouço,
a qual se forma com
mouços | fermoso, fermosos, papel, papéis, arnês, arneses14, lição, li|ções. Nos verbos o
tema ou princípio são o presente | do indicativo e o infinitivo. Mas não sempre as outras

u ou i, vogais grandes. As dições que não têm nenhuma des|tas três sílabas de que
falamos grande, última, nem penúltima, | nem antepenúltima, pela maior parte, têm o
acento na penúlti|ma, como candea, zamboa, entoa, atroa. As dições que têm ou to|das
três estas sílabas grandes, ou a última com alguma |
partes do verbo seguem as formas destas primeiras po|sições, nem nos acentos, nem na
ortografia, posto que se for|mem delas. E como se tiram as exceções, quase se pode

12. No original, penúltima.


13. O autor está se referindo às formas paroxítonas: amáveis e andáveis.
qualquer das outras, escolhe, entre as outras, o nosso costu|me para lugar do acento e 14. No caso de arnês (oxítono) e arneses (paroxítono), a regra só se aplica se o gramático estivesse
considerando a sílaba /-nes/, que recebe o acento no singular, e não a posição da sílaba acentuada.
som principal da dição, ou par|te a última como lugar: rosalgar. E, contudo, da Levando em conta os demais exemplos do tópico, a segunda hipótese parece ser a considerada por
penúlti|ma e antepenúltima, antes escolhe a penúltima, tão gran|de amigo é de chegar o Oliveira, a não ser que, à época de sua gramática, arneses continuasse oxítono, como a forma no singular.
20 Manoel Mourivaldo Santiago-Almeida

en|tender do que fica dito, porque nesta pequena obra não há | lugar para falar mais CAPÍTULO 2
particularidades. E não somente nos | verbos, mas também nos nomes e em outras partes

O ACENTO NA LÍNGUA
há aí | exceções, das quais também assim nesta parte dos acentos, | como de qualquer
outra parte da gramática, aqui abas|ta amoestar o que nós assim fazemos.

Neste ponto, Fernão de Oliveira dá-se por satisfeito. Considerando o PORTUGUESA


objetivo deste texto — trazer, para as discussões modernas sobre o acento
WALDEMAR FERREIRA NETTO*
em português o ponto de vista de quem, há quase cinco séculos, observan-
do os sistemas acentuais do latim e do grego, primeiro se ocupou do tema Depois ficamos os cinco calados, a ouvir os grilos,
— também nos damos por satisfeito. que davam um extraordinário acento ao silêncio da noite recém-caída.
ÉRICO VERÍSSIMO, SOLO DE CLARINETA
Continua Fernão:

Porque já dissemos das sílabas e suas condições ou qua|lidades o que podemos alcançar e

O
a brevidade da obra reque|ria agora falaremos das dições. (...) acento lexical na língua portuguesa tem sido uma das preo-
cupações das diversas análises fonológicas que se fizeram no
Mas esta é outra história, ainda nos idos de 1500... Outros capítulos! Brasil e em Portugal. É possível detectar três hipóteses básicas
que tratavam da atribuição do acento na língua portuguesa (Ferreira Netto, 2001;
ver Cagliari, 1999, para uma descrição bastante detalhada dessas hipóteses):

 HIPÓTESE DO ACENTO LIVRE: previamente definido no léxico (Câmara


Jr., 1970; Barbosa, 1994).
 HIPÓTESE DO MOLDE TROCAICO: definido pela característica rítmica
padrão (Michaëlis de Vasconcelos, s/d [1911]; Bisol, 1992; Wetzels,
1992; Massini-Cagliari, 1999).
 HIPÓTESE DO ACENTO MORFOLÓGICO : definido pela qualidade do
morfema portador (Bisol, 1992; Andrade, 1992; Lee, 1995;
Cagliari, 1999; Mateus & Andrade 2000).

A hipótese do acento livre pressupunha que o acento na língua portuguesa


fosse definido lexicalmente, isto é, previamente marcado no próprio léxico da
língua, não sendo possível estabelecer regras para sua atribuição. O acento

*
Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, Universidade de São Paulo.
22 Waldemar Ferreira Neto O acento na língua portuguesa 23

seria um fenômeno atribuído diretamente à cadeia segmental da língua. A origem latina do português justifica o estabelecimento desse rit-
Câmara Jr. (1970) e Barbosa (1994), seguindo as definições de Trubetzkoy mo trocaico. Entretanto, historicamente, a língua portuguesa sofreu
(1970a [1939]), propuseram que o acento na língua portuguesa teria diversos tipos de influência, dentre as quais se pode salientar o grande
posição livre, i.e., não-previsível, e teria função culminativa, ou seja, se- número de palavras de origem árabe e de palavras de origem francesa e
ria único no vocábulo. Câmara Jr. (1970) e Barbosa (1994) propuseram provençal. Mais recentemente, pode-se acrescentar também, pelo me-
também que o acento na língua portuguesa fosse decorrente da maior nos no Brasil, algum léxico de origem indígena. Uma das características
força articulatória da sílaba acentuada sobre as demais, não havendo, mais marcantes da influência lexical estabelecida por essas línguas é o
pois, variações de grau de acentuação. fato de que as palavras cujo acento se localiza na última sílaba são pre-
dominantemente de origem estrangeira: francesa, árabe ou indígena.
A hipótese do molde trocaico pressupunha que a acentuação portu-
Essa característica acentual não era própria do latim, em que também
guesa estivesse vinculada à estrutura silábica da palavra. Nessa proposta,
predominava o ritmo trocaico.
assumia-se que o peso silábico, definido na língua portuguesa pela rami-
ficação da rima, fosse o fator condicionante da atribuição do acento Em que pesem suas diferenças, as três hipóteses tiveram de postu-
lexical: sílabas pesadas que se localizassem nas três últimas posições da lar uma restrição na posição do acento nas três últimas sílabas do vocá-
palavra atrairiam para si o acento. Quando da ausência de sílabas pesa- bulo. O que, de certa maneira, traz à tona a função culminativa pro-
das, o acento ocorreria na penúltima sílaba da palavra. Tinha-se dessa posta por Trubetzkoy (1970a[1939]: 183). Nesse caso, o acento seria
forma a retomada das discussões clássicas do começo do século XX, em um fato que dominaria todos os demais, i.e., estabeleceria uma saliên-
que se definia o português como uma língua de ritmo trocaico descenden- cia maior para a sílaba acentuada em relação às demais sílabas do vo-
te (Michaëlis de Vasconcelos, s/d [1911]). O problema residia nas formas cábulo. Segundo ele, os meios pelos quais se lograria essa saliência
proparoxítonas, pois estas receberiam acento na penúltima sílaba do radi- pertencem ao domínio da fonética. Entretanto, do ponto de vista de
cal, excluindo-se a vogal temática. A solução adotada por Bisol (1992c) e sua caracterização fonética, o acento lexical é uma das unidades mais
Andrade (1994) foi postular a extrametricidade da penúltima sílaba já fugidias que se podem descrever.
marcada no próprio léxico. A mesma questão permanecia em relação a
formas oxítonas com rima não-ramificada, cuja acentuação não poderia A segmentação de formas significativas na língua envolve a percep-
ser prevista pela regra. Para casos como esses, Bisol (1992c) propôs que ção de sons e, portanto, também envolve a análise de alguns de seus
houvesse uma consoante fonológica não-realizada foneticamente. aspectos físicos como freqüência e intensidade, e suas possibilidades
combinatórias como a duração e o acúmulo de freqüências, que se ca-
Na hipótese do acento morfológico, propôs-se a hipótese de que o racteriza como timbre. De fato, o som, tal como riscos e gestos, é a ma-
acento estivesse vinculado à estrutura morfológica da palavra. Respeitan- terialidade do uso da língua sem a qual não haveria possibilidade de con-
do-se a restrição relativa às últimas três sílabas, a acentuação deveria ser tato entre interlocutores. A análise dessa materialidade condiciona-se ne-
feita na última vogal do radical, excluindo-se, pois, a vogal temática. Essa cessariamente tanto à sua produção quanto a sua percepção. Dessa ma-
proposta tinha a vantagem de dar conta tanto das formas paroxítonas neira, compreender o canal sonoro, propriamente dito, pode trazer algu-
quanto das oxítonas, na medida em que ambas poderiam ser explicadas ma novidade para a compreensão de seu uso.
coerentemente pela hipótese. A questão, entretanto, permanecia aberta
para as formas proparoxítonas não-derivadas, cuja acentuação não pode- Ao observar um sonograma, como o que vai na Ilustração 1, pode-se
ria ser prevista por nenhuma regra. perceber a alternância concomitante das variações de freqüência e de
24 Waldemar Ferreira Neto O acento na língua portuguesa 25

intensidade — as linhas contínuas em cima e acima da mancha, respec- relação entre freqüência e intensidade, mas ela não se mostra suficiente-
tivamente. Ambas as linhas, de fato são uma decomposição do mente forte, R2=0,36, o que nos permite considerá-la apenas fraca, ou seja,
sonograma, que é a onda sonora propriamente representada. há apenas uma tendência de que, nessa frase, aumento ou descenso de
intensidade e de freqüência ocorram simultaneamente.

ILUSTRAÇÃO 1: Sonograma da frase E o qu(e) se pressupõe, pelo qu(e) ela diss(e), é


que ist(o) acontecia até um temp(o) atrás. A mancha em tom de cinza representa o
sonograma propriamente dito, as linhas pretas representam as variações de freqüência
e as linhas acima da mancha, as variações de intensidade. Ilustração 2: Correlação entre freqüência e intensidade da frase E o qu(e) se pressu-
põe, pelo qu(e) ela diss(e), é que ist(o) acontecia até um temp(o) atrás. R2=0,36 e
Essas alternâncias estabelecem um ritmo visivelmente marcado tanto P<0,05.

pela sucessão de picos de intensidade, intercalados por suas ausências, como Numa análise um pouco mais aprofundada, podemos verificar que essa
pela sucessão de picos de freqüência, por sua vez intercalados por seu correlação não se manifesta senão muito fracamente. A partir de uma amos-
descenso e ausência. Nota-se, portanto, que há saliências em pontos espe- tra extraída da fala de seis indivíduos, da qual foram analisadas freqüência
cíficos que não só facilitam a percepção da onda sonora, como induzem à e intensidade de cada ápice silábico, foi possível verificar que em todos os
segmentação em unidades rítmicas. casos, P<0,05, mas R2 não ultrapassou 0,42 quanto à força da correlação,
Fraisse entendeu ser essa dualidade de marcas que, alternadamente, usando o teste de Spearman. Dessa maneira, não há como afirmar que, na
constituía o ritmo (Fraisse 1956). Ele propôs que as estruturas rítmicas língua portuguesa, estejamos estabelecendo o ritmo de uma forma conjugada
elementares se organizassem mediante a aplicação de dois princípios, entre freqüência e intensidade.
aos quais chamou de princípio de distinção e princípio de assimilação. Outra característica da materialidade da linguagem envolve o conjunto
Segundo sua proposta, a aplicação desses princípios implicava o reco- de freqüências que ocorrem conjuntamente, durante um certo intervalo de
nhecimento das unidades rítmicas alternadas, que, no caso em questão, tempo. A qualidade dessas freqüências manifesta-se como o fenômeno do
ocorrem como presença e ausência, no caso da intensidade, e como tom timbre. De maneira bastante perceptível, aos ouvidos humanos, esse con-
alto, seu descenso e ausência, no caso da freqüência. O ritmo aparece, junto de freqüências ocorre de forma padronizada na linguagem e define a
portanto, como conseqüência de uma sucessão de picos de intensidade e correlação entre fato fonético e fato fonológico.
de freqüência formadores da seqüência sonora que é o canal usado pela
fala. (Não temos, por ora, o que dizer do ritmo dos canais da gestualidade Se fizermos uma avaliação das freqüências concomitantes que ocor-
rem nesses ápices silábicos, chamadas F1 e F2, encontraremos as correla-
e da “graficalidade”).
ções, entre as vogais e F1 de R2=0,61, que se pode considerar moderada,
Apesar de freqüência e de intensidade serem utilizados simultaneamente de R2=0,82, que se pode considerar forte. Para tanto podemos definir as
na composição do ritmo frasal, são fenômenos independentes que podem vogais por valores numéricos, em que [i e E a Œ  o u] e suas articulações
atuar de forma diversa. Conforme podemos notar na ilustração 2, há cor- com ressonância nasal como 7 6 5 4 4 3 2 1, respectivamente, para a
26 Waldemar Ferreira Neto O acento na língua portuguesa 27

comparação com F2, e por 1 2 3 4 4 3 2 1, respectivamente para compa- [a] entre vogais [o] e até entre vogais [u], as correlações são muito significa-
ração com F1. A disposição dos valores obtidos para F1 e F2 em um gráfi- tivas para serem desprezadas.
co com escalas invertidas dá-nos o triângulo equivalente ao espaço vocálico.
A definição das vogais por seus formantes, entretanto, não é suficiente
As análises foram realizadas com o software Speech Filing System (SFS),
para estabelecer critérios para a segmentação de palavras. Tomando-se em
produzido por Mark Huckvale, disponível no site: www.phon.ucl.ac.uk/ conta a possibilidade de seqüências de unidades que tornam a interpreta-
resource/sfs/ da University College London, Inglaterra. ção complexa, tal como os exemplos abaixo, pode-se notar que a seqüên-
cia segmental não é sempre suficiente para a definição lexical.
(1)
Eu tanto queria amá-la,
amá-la como ninguém,
de tanto querer amá-la
a mala ficou no trem
(desconhecido).
(2)
A viúva tinha a verdadeira generosidade, que consiste menos em prestar o
obséquio do que em dissimulá-lo... (Machado de Assis, Iaiá Garcia).
(3)
Por cláusula do estatuto ou, no seu silêncio, por deliberação dos associados,
podem estes, (...), receber em restituição, as contribuições que tiverem presta-
do ao patrimônio da associação (Código Civil Brasileiro, art. 61, § 1o).

A ambigüidade dessas formas encaixáveis decorre especialmente da


interpretação segmental das seqüências: “amá-la” e “a mala”, “em prestar”
e “emprestar” ou “tiver emprestado” e “tiverem prestado”, que se caracteri-
zam pela identidade. Nesses casos, podemos notar que a ambigüidade re-
Ilustração 3: Distribuição das vogais no espaço vocálico referente às medições de F1 solve-se pela avaliação semântica ou morfológica dos fatos lingüísticos, pois
e de F2.
foneticamente não há nenhuma possibilidade de distingui-los. Nesses ca-
Como se pode verificar na ilustração 3, os pontos referentes aos picos sos, é notável que o acento, embora culminativo, não é suficiente para
silábicos distribuem-se no espaço vocálico de maneira a formar um triângulo exercer papel delimitativo. Em outras situações, entretanto, o acento pode
com os vértices em [i a u], representadas no gráfico como “a i u” e seus assumir esse papel delimitativo.
equivalentes com ressonância nasal “« ã é”. As vogais intermediárias [e   o] (4)
— além de [], que possui estatuto ainda confuso na língua portuguesa, ...graças a Deus, nada faltava: tinha casa, comida, roupa lavada e engomada,
e, ainda por cima, os cobres do emprego (Aluísio Azevedo, O Mulato).
uma vez que, apesar de poder ser tratado como alofone de /a/, não tem uso (5)
obrigatório em determinadas posições tônicas, a par de [e o] e [E ] — José Anaiço é professor dos primeiros anos, ..., sem falar que está em terra
também podem ser encontradas no ilustração 3, com a representação “e é doutra geografia e doutra história (José Saramaço, Jangada de pedra).
0 (6)
o ó” e seus equivalentes com ressonância nasal “e õ”. Embora haja bastan- Junto à mesa das bebidas o professor Aníbal Americano conversava com o
te superposição de espaços, como facilmente se nota na presença de vogais Mapa-Múndi (Inglês de Sousa, O missionário).
28 Waldemar Ferreira Neto O acento na língua portuguesa 29

Como se pode notar, tais ambigüidades se resolvem por meios 38) verificou que “os principais correlatos do acento em português são (em
prosódicos e não-segmentais. Não se podem interpretar seqüências como ordem decrescente de importância): duração, intensidade e qualidade
“casa comida” como “casaco mida” pela ocorrência de sílaba acentuada vocálica” e que “no nível frasal, o acento do português é caracterizado por
em posição diferente em cada caso: “ca” e “sa” respectivamente. De ma- uma variação do padrão entoacional que se sobrepõe a uma sílaba tônica em
neira semelhante, “em terra doutra” não se permite interpretar como “en- nível lexical”. A se tomar o fato de que os ápices silábicos são os elementos de
terrado tra”, pois há acento tanto em “te” como em “do”. Também é o caso maior sonoridade, é possível imaginar que duração, intensidade e qualidade
de “mesa das bebidas”, que não se confunde com “mesadas bebidas” na vocálica decorrem especialmente dessa maior sonoridade. Como se pode
medida em que o acento localiza-se em “me” e não em “sa”. Tais fatos verificar na ilustração 4, as sílabas tônicas, marcadas em negrito — os círcu-
indicam que, na língua portuguesa, o acento, além de poder estabelecer los pontilhados abarcam o conjunto das vogais tônicas, definidas pelo léxico
uma função distintiva de palavras, como no exemplo tradicional de “sábia”, — caracterizam espaços bem definidos, ainda que não categóricos.
“sabia” e “sabiá”, também ocorre com função delimitativa, que permite ao
ouvinte distinguir palavras no curso sonoro da fala. O reconhecimento do
acento é pois um fenômeno que merece uma atenção maior.

Consoni et alii (2005) e Consoni (2006), a partir de trabalho de


fonologia experimental, verificaram que os ouvintes da língua portuguesa
têm grande facilidade para reconhecer a sílaba acentuada de palavras iso-
ladas com muito pouca massa fonética disponível, i.e., quando lhes são
apresentadas tão-somente seqüências de duas sílabas com acento alterna-
do aleatoriamente. O índice de acerto foi, quando o acento estava presen-
te, acima de 70%.

A possibilidade de a linguagem ser interpretada satisfatoriamente pelo


ouvinte em condições bastante negativas para a atividade comunicativa foi
objeto de discussão nos anos 1960 por parte dos teóricos da comunicação.
Cherry (1974 [1966]: 254) já afirmara que a “fala normal contém muito
maior número de pistas do que as estritamente necessárias para transmitir
uma mensagem. Ela forma um sistema de comunicação altamente ‘redun-
dante’. Se certas pistas forem eliminadas, por filtragem, distorção ou ruídos,
Ilustração 4: Espaço vocálico das vogais tônicas. Os círculos marcam a abrangência de
um número suficiente de outras ainda sobra para a conversação eficaz”. cada uma. Os círculos hachurados indicam formas pouco prováveis.

O reconhecimento do acento lexical é certamente uma das pistas possí- Embora a hipótese de que o timbre da vogal tônica possa ser sua pró-
veis para a segmentação das palavras na cadeia sonora. No entanto, trata-se pria característica seja uma possibilidade ainda não completamente des-
de uma característica acústica dificilmente determinável. A saliência óbvia cartada, é possível verificar que os dados acima apresentaram uma correla-
da sílaba tônica para os falantes nativos da língua portuguesa contrasta muito ção moderada somente para as vogais posteriores. Quanto às anteriores,
com a dificuldade de sua caracterização acústica. Massini-Cagliari (1992: não se obteve nenhum índice significativo. O trabalho de Consoni (2006),
30 Waldemar Ferreira Neto O acento na língua portuguesa 31

entretanto, verificou que a ausência de uma sílaba acentuada induz o ou- menor unidade prosódica seria a mora. Ao descrever cada uma dessas ca-
vinte à presunção de que, independentemente das pistas acústicas, a se- racterísticas prosódicas das línguas, Trubetzkoy arriscou a hipótese de que
qüência de duas sílabas tem a segunda sílaba como tônica. De certa ma- línguas silábicas teriam como correlato físico do acento a duração, a inten-
neira, esse dado implica o fato de que a seqüência “tônica átona”, qualquer sidade, ou ambos, e que as línguas moraicas teriam como correlato acústi-
que seja o correlato apresentado para a marcação da sílaba tônica, aponta co do acento a intensidade, a freqüência ou ambos.
para a formação de uma janela métrica, definida como pé, que no caso
Apesar de essas definições acústicas no acento não estarem suficientemen-
pode ser considerado trocaico (Michaëlis de Vasconcelos s.d. [1911];
te resolvidas na proposta feita por Trubetzkoy (1970a[1939]), ele estabeleceu
Massini-Cagliari 1992; Bisol 1999).
ainda duas funções básicas para o acento: culminativa e não-culminativa. A
A relação entre o acento lexical e o ritmo frasal na língua portuguesa função culminativa, segundo ele, seria a de estabelecer um pico máximo de
tem sido dada como fato perfeitamente estabelecido. De maneira geral, saliência prosódica em cada vocábulo. Esse pico máximo poderia ser usado
propõe-se que o ritmo da frase seja uma sucessão entre sílabas acentuadas distintivamente ou não, mas não poderia ter concorrentes no mesmo vocábu-
e sílabas não acentuadas. Said Ali (1999 [1948]) já chamara a atenção lo, sendo, portanto, a um só tempo culminativo e delimitativo, i.e., teria a
para esse fato, ao afirmar que diariamente fazemos versos que não apresen- função de delimitar o vocábulo como uma unidade prosódica. A função não-
tam o mesmo número de sílabas nem se marcam com pausas. Segundo ele culminativa não envolveria restrições dessa natureza. Assim, um mesmo vocá-
“são versos sem rima, pentassílabos, hexassílabos, heptassílabos etc., esparsos bulo poderia receber mais de um acento e ainda cada um dos acentos poderia
sem ordem entre a prosa comum” (Ali 1999[1948]:31). O autor chama a ocorrer com graus diferenciados no mesmo vocábulo. Não havendo função
atenção para o fato de que nas línguas européias o ritmo baseia-se nas culminativa, não haveria, pois, função delimitativa.
sílabas tônicas que, segundo ele, “sobressaem por se proferirem com maior
intensidade” (ib.: 31). O critério para a localização das sílabas é, além de De acordo com a terminologia proposta em Trubetzkoy (1970a[1939]),
fonético, perceptual, pois, “o ouvido leigo, prestando atenção, distingue cada um dos prosodemas estaria subordinado ao que o autor chamava de
em geral uma tendência alternante de fraca e semiforte” (ib.: 35) Como correlação, que se definia pela característica prosódica da língua em questão:
exemplos sugere quàlidáde, mònuménto e propórcionál.
Língua silábica Língua moraica
intensidade duração intensidade freqüência
A se tomar a proposta de Said Ali (1999[1948]), entende-se que a aplica-
ção dos princípios de Fraisse define as unidades silábicas fracas de um lado e
as semifortes e as fortes de outro como os elementos constituintes do ritmo na Função culminativa correlação de acentuação correlação de direção
língua portuguesa. A proposição de critérios perceptuais conjugados com a tonal
hipótese de saliência por intensidade para a localização do acento forte ou
lexical e do acento semiforte em contraposição à localização do acento fraco correlação de intensidade correlação de registro
Função não-
para o estabelecimento do ritmo, vai ao encontro da definição de Trubetzkoy culminativa prosódica (altura musical)
de línguas cuja unidade prosódica seja a sílaba.

A esse respeito, é interessante lembrar que Trubetzkoy (1970a[1939])


propôs que a diferenciação prosódica decorresse de dois fatos distintivos: Trubetzkoy (1970a[1939]) propôs que a língua portuguesa, a par de ou-
moras e sílabas. Assim haveria línguas cuja menor unidade prosódica — o tras línguas latinas, fizesse parte do grupo das línguas silábicas com acento
prosodema, segundo a terminologia do autor — seria a sílaba e línguas cuja culminativo. Segundo ele, a acentuação livre apresenta-se nas diversas línguas
32 Waldemar Ferreira Neto O acento na língua portuguesa 33

com formas muito variadas. “(...) A situação mais simples se apresenta É notável que a mesma palavra tenho, que ocorre com sua sílaba acen-
nas línguas que contam sílabas e nas que a correlação de acentuação é a tuada marcada como forte no primeiro verso, em todos os demais, tenha a
única correlação prosódica: na Europa apresentam esse tipo o portu- sílaba correspondente marcada como fraca. Assim, pelo menos no caso
guês, o espanhol, o italiano, o grego moderno, o búlgaro, o romano, o dos exemplos citados, embora se vincule ao acento lexical, aqui e ali, pode
ucraniano, o russo. Em algumas dessas línguas, as vogais acentuadas têm estar desassociada desse acento.
maior duração e as não-acentuadas são reduzidas, tanto quantitativa como
Dessa maneira, podemos imaginar que as unidades rítmicas também
articulatoriamente” (ib. p. 183, trad. minha). É interessante verificar que
podem desassociar-se do acento lexical. Mais recentemente, Hayes (1995)
as línguas moraicas, que têm a duração como fenômeno segmental
propôs que as unidades rítmicas fortes coincidiriam com maior intensidade
contrastivo — o latim, por exemplo, que opõe “.d.d.”, ‘comer’, de e#d.r.”,
‘produzir’— não poderiam valer-se da duração como fato acústico da expiratória, maior duração nuclear silábica ou com ascensão tonal, mas
marca prosódica de acento, mas tão-somente de ritmo. que seriam apenas tendências, na medida em que o fenômeno fonológico
poderia desconsiderar tais correlatos fonéticos, concluindo que rhythm is
Associando-se os valores 0 (zero) às sílabas fracas e 1 (um) às sílabas an abstract notion that cannot be directly observed (Hayes 1995: 9). Para
semifortes e fortes ao exemplo proposto por Ali (1999[1948]: 117): Mons- contornar o problema, Hayes (1995) assumiu que o ritmo se estabeleceria
tros fenomenais cuja ossada apavora, de Raimundo Correa, teremos, pois, a partir de alguns padrões previamente definidos. Tais padrões suceder-se-
a seqüência: 1001010010010. iam linearmente de maneira semelhante aos compassos musicais ou aos
(7) pés métricos. Desse ponto de vista, entre o ritmo frasal e a sucessão de
1 0 0 1 0 1 0 0 1 0 0 1 0 unidades rítmicas, haveria a proposição de uma unidade métrica, cuja con-
ó@ ó ó ó@ ó ó@ ó ó ó@ ó ó ó@ ó
figuração interna estaria de acordo com as diferenças requeridas para suas
’mo  s tros fe no me ’najs ’ku o ’sa da pa ’v ra
unidades (Fraisse 1956).
Embora a alternância ocorra principalmente entre fracas e fortes, há A solução proposta por Hayes (1995) estabeleceu um paralelo entre
exceções como no caso da quarta sílaba [no], que é dada como semiforte, a formação do ritmo frasal e a periodicidade das ondas sonoras. Entre-
e da sílaba [ku], que é dada como fraca. O estabelecimento das diferenças tanto, uma sucessão de pés trocaicos (ó@ ó)1 baseados principalmente no
entre forte e fraco, nesses dois casos específicos, exigiria explicações com- acento lexical forma um ritmo com alternância binária que nem sempre
plementares que não serão abordadas nesse trabalho, mas sugerimos a lei- se encontra na língua falada, ou que se encontra apenas parcialmente.
tura de Ali (1999 [1948]). Nossa atenção está precipuamente voltada para No exemplo abaixo, pode-se notar uma ocorrência rítmica referente a
a possibilidade de alteração de características acentuais próprias de cada uma alternância de acento em que os pés trocaicos — (10) ou (00), em
um dos itens lexicais. Novamente, é Ali (1999 [1948]) quem nos oferece que o acento poderia ser atribuído — não se sucedem regularmente:
exemplos desse fato: (00)(10)1(10)(00)0(10)01(10)(10)0(10)0(10)(00)0(1). As seqüências de
(8) três sílabas átonas, ainda que permitam alternativas para a formação de
0 1 0 0 1 pés métricos, não são suficientes para regularizar a distribuição de pés
Eu tenho um moreno, ew ’te ¯u) mo ’re métricos trocaicos.
Tenho outro de cor; te ’¯ow tRu dJi ’kor
Tenho um mais pequeno, te ’¯u) mais pe ’ke
Tenho outro maior. te ’¯ow tRu maJ ’çr 1. 10 na nossa notação.
34 Waldemar Ferreira Neto O acento na língua portuguesa 35

(9) (10)
qu(e) o esta(do) cresceu muito no interior em função e: al(i)ás em casos AL xT AL x I AL x TI
função da puxada do agronegóc(io). 040fr04 0,457267 0,058401 0,285563
0 0 1 0 1 1 0 0 0 0 040fr05 -0,03108 -0,06446 -0,05309
kJu. ’es. ta. kRes. ’seW. ’mui. tu. nu. i). te. 040fr07 0,179145 0,185109 0,133357
0 0 1 0 1 1 0 0 0 0
073fr04 0,296608 0,222672 0,283129
*RJo. Ri)J. fu)W. *sŒ)W. i. a. lJa. zi)J. fu)W. *sŒ)W.
0 0 1 0 1 1 0 0 0 0 073fr09 -0,00979 -0,0369 -0,10171
da *pu. Sa da. du. *a. gRo. ne. *gçs8 073fr11 0,327327 0,108893 0,352738
075fr01 0,284268 0,057378 0,176584
Hayes (1995) procurou resolver o problema criando vários níveis or- 075fr02 0,209135 -0,10843 -0,00098
ganizados hierarquicamente, de maneira a incorporar todos os pés métri- 075fr04 0,319444 -0,36111 -0,05738
cos numa mesma construção. Tratava-se de uma solução possível, sobre- 077fr04 0,205702 0,034175 0,08401
077fr14 -0,04851 0,22508 0,027481
tudo se não considerasse a possibilidade de correlatos fonéticos para a
077fr15 -0,11858 0,025031 -0,18045
formação do ritmo. Massini-Cagliari (1992: 38) verificou que “no nível 078fr04 0,076588 -0,09788 0,012331
frasal, o acento do português é caracterizado por uma variação do pa- 078fr06 0,361019 0,145969 0,305959
drão entoacional que se sobrepõe a uma sílaba tônica em nível lexical”. 078fr21 -0,14063 -0,14483 -0,15479
Ao isolar a freqüência no nível frasal, mantendo duração, intensidade e 080fr03 -0,13074 0,427669 0,272166
qualidade vocálica como o conjunto de características que podem servir, 080fr04 0,204532 0,164957 0,267261
080fr07 -0,09904 0,203615 0,004802
em conjunto ou separadamente, como correlato acústico do acento lexical,
a autora estabelece que não haja correlação necessária entre a freqüên-
Com exceção de um caso, a correlação do acento lexical com a fre-
cia e o acento lexical de forma imediata, mas tão-somente de forma
qüência, ou com a intensidade ou com ambas simultaneamente, é muito
mediatizada pelos procedimentos de adequação do acento lexical à
fraca e, algumas situações, negativa, o que não nos permite justificar a per-
prosódia frasal. De certa maneira, Massini-Cagliari (1992) aponta para o
cepção do acento por tais variações.
fato de que, a se seguir a hipótese de Trubetzkoy (1970a[1939]), a língua
portuguesa apresentaria uma prosódia frasal de tipo moraico. Tendo-se Na medida em que se pode descartar uma relação sistemática entre o
em vista que os acentos lexicais não se estabelecem fixamente em nenhu- acento lexical e os correlatos, freqüência, intensidade e timbre, pode-se
ma sílaba, senão na última, tal como os exemplos apresentados por Ali imaginar que o acento na língua portuguesa possa estar associado à dura-
reproduzidos acima, podemos propor que o acento se manifeste com ção, tal como tem sido proposto por diversos autores. Nesse caso, a hipóte-
função culminativa, i.e., correlação de direção tonal, na medida em que se do molde trocaico como a manutenção dos princípios da acentuação
há um que se sobressai sobre os demais. latina é a que melhor se estabelece para a língua portuguesa.

Pode-se verificar se a variação de ocorrência do acento lexical (AL) na O acento latino estava estreitamente vinculado à distribuição da quan-
frase está correlacionada com a alternância de freqüência entre núcleos tidade vocálica de suas formas lexicais. Embora a duração realizasse fun-
silábicos contíguos (T), com a alternância de intensidade entre desses mes- ção distintiva, na medida em que permitia variação entre formas, tinha uma
mos núcleos silábicos contíguos (I), ou, ainda, com a alternância entre importância fundamental na função culminativa/delimitativa, na medida
freqüência ou intensidade ou ambos (TI). A correlações que se verificaram em que a posição do acento era prevista pela distribuição dos segmentos
entre AL e T, I ou TI são as que vão a seguir: longos e breves nas sílabas antepenúltima e penúltima dos vocábulos. Ten-
36 Waldemar Ferreira Neto

do em vista que a duração propriamente dita era um fenômeno segmental, a CAPÍTULO 3


caracterização fonética da sílaba tônica teria de se realizar pela variação de
outra característica da onda sonora. Dessa maneira, pode-se imaginar que a
intensidade ou a freqüência poderiam ser utilizadas para esse fim. Entende- AS PROPAROXÍTONAS E O SISTEMA
mos que o timbre envolveria, por sua vez, uma maior duração na prolação
vocálica, comprometendo a quantidade como característica segmental. ACENTUAL DO PORTUGUÊS
A perda da distinção da quantidade segmental, na passagem do latim GABRIEL ANTUNES DE ARAÚJO*, ZWINGLIO O. GUIMARÃES-FILHO**,
vulgar para a língua portuguesa, resultou no fato de que a mesma tornou-se LEONARDO OLIVEIRA*** & MÁRIO VIARO****
mais uma possibilidade de marca fonética para o acento lexical. Houve,
portanto, uma “hipertrofia” das variações segmentais como fenômenos dis-
tintivos lexicais, e a variação acentual como fato lexical terminou por tor-
nar-se uma forma secundária cuja importância na língua ainda não parece
bem estabelecida. A posição final do acento lexical com característica
culminativa, entretanto, aponta para o fato de que, nessa posição, ao acu-
mular funções, a sílaba tônica apresenta todas as características próprias da 1. INTRODUÇÃO
correlação de acento e de correlação de direção tonal.

O
objetivo deste texto é refazer o estudo publicado por Araújo
& Oliveira (2006), utilizando, para tanto, um corpus amplo
— que contém 18.413 palavras proparoxítonas, todas pre-
sentes no Dicionário Houaiss (Houaiss & Villar 2001, doravante DH). Na-
quele estudo, Araújo & Oliveira apresentam uma análise baseada em um
corpus de 316 proparoxítonas e 319 paroxítonas escolhidas aleatoriamen-
te. Dessa forma, este texto, contando com uma amostra mais ampla, pre-
tende verificar a validade dos argumentos apresentados naquele artigo.
Araújo & Oliveira (2006) mostraram como as palavras proparoxítonas
têm sido tratadas nos trabalhos que discutem o acento primário no portu-
guês do Brasil (doravante PB). Ao defenderem que as proparoxítonas per-
tencem à gramática do português, embora sejam freqüentemente
desconsideradas ou rejeitadas nas análises, os autores afirmam que qual-
quer teoria sobre o acento deveria, necessariamente, levar em considera-
ção o estatuto dessas palavras.

*
Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, FFLCH, Universidade de São Paulo.
**
Instituto de Física, Universidade de São Paulo.
***
Department of Communication Sciences, University of Connecticut.
****
Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, FFLCH, Universidade de São Paulo.
38 Gabriel A. de Araújo, Zwinglio O. Guimarães-Filho, Leonardo Oliveira & Mário Viaro As proparoxítonas e o sistema acentual do português 39

Partimos de um corpus composto de 150.875 palavras, todas existentes no 1999; Cagliari 1999; Sândalo 1999; Lee 1995, 2004b; Amaral 2002, en-
DH. Trata-se, portanto, de um corpus de língua escrita composto de verbetes tre outros) afirma, em geral, que o acento na penúltima sílaba é o padrão,
não-lematizados. Foram ignoradas as abreviações, siglas, elementos de com- enquanto acentos na última (oxítona) e na antepenúltima (proparoxítona)
posição, estrangeirismos evidentes (como aardvark), bem como os homôni- sílabas são desvios. Câmara Jr. (1970) afirma que o acento é distintivo e,
mos e as palavras hifenizadas, formadas por justaposição. Esta lista das pala- portanto, imprevisível. Assim, o autor oferece uma série de pares mínimos
vras foi trabalhada com o uso de programas computacionais, desenvolvidos na acentuais que incluem palavras da mesma categoria (substantivos: S) e pa-
plataforma MatLab (The MathWorks, Inc., 1984-2002), que ainda contou com lavras de categorias diferentes (substantivo/verbo: V).
o auxílio de Leandro Mariano, do Instituto de Física da USP. Esses programas
(1)
separavam as sílabas, localizavam a tônica, transcreviam em alfabeto fonológico Oxítona/paroxítona
e fonético, e localizavam a posição das epênteses. Para casos complexos de bati (v) bate (v)
transliteração, como os oferecidos pelos grafemas x, e, o, utilizamos a ortoépia Pará (S) pára (v)
fornecida pelo dicionário. As separações e transcrições fonéticas foram subme- (2)
Paroxítona/proparoxítona
tidas, por amostragem, a uma verificação manual de 2.500 palavras (13,6%) e, duvida (V) dúvida (S)
por meio dela, pode-se estipular que a margem de erro é inferior a 0,5%. secretaria (S) secretária (S)
analise (V) análise (S)
Inicialmente, as principais descrições das proparoxítonas no PB serão resu-
midas. Em seguida, mostraremos que essas descrições falham ao desconsiderar Leite (1974), ao propor uma análise gerativa para o acento em portu-
as proparoxítonas como um traço marcante da língua. Essa rejeição se baseia guês, conclui que a acentuação nos substantivos é diferente da dos verbos,
normalmente nos processos de redução (síncope e apócope) que as transfor- pois não é possível utilizar o mesmo conjunto de regras para ambos. Sua
mam em paroxítonas e na suposta baixa freqüência das proparoxítonas. Apre- proposta inclui regras para cada tipo de acentuação, bem como regras que
sentaremos, para tal, uma análise dos contextos fônicos em que poderiam ocor- consideram determinados sufixos como, por exemplo, o superlativo e o
rer as reduções, levando-se em conta as 18.413 palavras proparoxítonas do diminutivo. Além disso, há uma série de condições para a aplicação das
corpus. A freqüência de uso das proparoxítonas foi avaliada, dessa vez, conside- regras. Leite não descarta as proparoxítonas, nem as rotula como excepcio-
rando-se sua ocorrência em páginas da internet em português indexadas pelo nais. Ao contrário, cria uma regra para explicá-las.
Google. Ao mesmo tempo, mostraremos que os processos de redução são res-
tritos e não gerais, como defendido na literatura. Em seguida, apresentaremos De modo geral, todos os autores posteriores a Leite (1974) afirmam
dados que demonstrarão que a introdução de palavras proparoxítonas na lín- que o padrão proparoxítono é marcado, ou mesmo não-natural, para a
gua se deu, sobretudo, nos séculos XIII e XIX e não somente no século XVI. Poste- acentuação da língua portuguesa.
riormente, abordaremos a questão da qualidade das vogais na sílaba tônica das As análises posteriores a Leite baseiam-se na teoria métrica ou na teoria
proparoxítonas. E, por fim, no sumário e nas conclusões, discutiremos o tema da otimalidade. Bisol (1992c, 1994a) apresenta uma regra que inclui os
da percepção na manutenção do acento proparoxítono no português.
verbos e os não-verbos recorrendo ao recurso da extrametricalidade para
dar conta de exemplos residuais. A extrametricalidade tem a função de
tornar elementos (em geral sílabas ou codas) invisíveis à aplicação da re-
2. AS PROPAROXÍTONAS
gra. Assim, todas as palavras proparoxítonas têm a sílaba final extramétrica.
A literatura que trata do acento lexical no PB (cf. Câmara Jr. 1970; Leite No que diz respeito ao verbo, a extrametricalidade é condicionada morfo-
1974; Andrade 1994; Bisol 1992c, 1994a; Mateus 1996; Massini-Cagliari logicamente. Isso resulta em um problema para a teoria fonológica, pois a
40 Gabriel A. de Araújo, Zwinglio O. Guimarães-Filho, Leonardo Oliveira & Mário Viaro As proparoxítonas e o sistema acentual do português 41

análise unificadora não é prevista, nesses termos, pela teoria. Ademais, Bisol (3)
(córre)go có rre <go>  [«kø‰g¨]
assume que o caso não-marcado para o não-verbo é marcado para o verbo. (fósfo)ro fós.fo <ro>  [«føsf‰¨]
Além disso, algumas regras fonológicas que se aplicam aos não-verbos não abób(o)ra  [a«bøb‰á] cf. abobrinha
se aplicam aos verbos. óculos  [«økl¨s] cf. oclinhos

Sândalo (1999) sugere que as formas proparoxítonas são mantidas no por- Pressupõe-se que as palavras proparoxítonas tenham entrado na língua por-
tuguês-padrão por meio da pressão da gramática normativa. Assim, ela cita o tuguesa na Renascença (século XVI) graças ao uso de termos eruditos do latim e
exemplo ‘abóbora’ que possuiria duas formas: [a’bçbRå], a forma fonética óti- do grego (cf. Williams 1975:28-29). Pretendemos avaliar essa hipótese cruzan-
ma, e [a’bçbRå], a forma sub-ótima, mantida na língua graças à pressão da do dados das proparoxítonas com as datas da informação etimológica do DH.
gramática normativa ou por ser sociolingüisticamente marcada. Dessa forma, pode-se concluir que a literatura, de forma geral, “resol-
Lee (1995: 141) afirma que “na maioria das palavras do português, o ve” a questão das palavras proparoxítonas considerando-as exceções às re-
acento cai na penúltima sílaba”. E, de fato, análises estatísticas como a de gras de acento1. Os argumentos comumente apresentados baseiam-se em:
Viaro & Guimarães-Filho (2006) indicam que cerca de 62% das palavras (4)
lematizadas do DH são paroxítonas. a. baixa freqüência absoluta (em relação às não-proparoxítonas)
b. síncope da vogal na sílaba pós-tônica ou extrametricalidade da
Após avaliar a análise de Bisol (1994a) e propor sua própria análise, Lee vogal/sílaba final
c. introdução tardia na língua (século XVI)
(1995: 152-165) afirma que as proparoxítonas, sobretudo aquelas termina-
das em sílabas pesadas, continuam problemáticas, por se tratar de um pa- Para avaliarmos cada um desses argumentos, analisamos uma amostra
drão excepcional. Como solução temporária, Lee assume que essas palavras que contém 18.413 proparoxítonas. As informações diacrônicas, no entan-
são marcadas na representação subjacente, ou seja, marcadas no léxico. to, foram obtidas das 10.590 palavras da amostra que possuíam datação.
Tendo em mãos essa lista com as datas de introdução na língua, fornecidas
Collischonn (1999: 140) afirma: “Podemos considerar que o acento pelo DH, as proparoxítonas foram avaliadas estatisticamente com o auxílio
proparoxítono é marcado, no sentido de que é menos usual. É um acento de programas na linguagem MatLab, com respeito à:
especial, contrário à tendência geral de acentuar a penúltima sílaba”, em-
(5)
bora não fique claro, no texto, o cálculo utilizado pela autora para a fre- a. Síncope: a mudança do acento proparoxítono para paroxítono a partir da
qüência dessas palavras proparoxítonas. queda da vogal pós-tônica.
b. Consoantes circunvizinhas à vogal acentuada.
Lee (2004b) mostra que o processo de síncope — o apagamento de c. Introdução na língua: a data do primeiro registro escrito, segundo o DH.
fonema no interior da palavra — poderia sugerir que as proparoxítonas são Uma vez que muitas palavras foram registradas somente pelo século de
comumente rejeitadas no português. Essa noção é crucial para desqualificar aparição nos documentos, trabalhamos apenas com os séculos.
d. Freqüência de uso normalizada da ocorrência da palavra no corpus de
as proparoxítonas na teoria do acento de Lee, pois, mostrando-se que as
páginas em português do banco de dados do Google2 no dia 18/7/2006.
proparoxítonas tendem à síncope, restariam à análise apenas as paroxítonas e. Qualidade da vogal acentuada.
e as oxítonas. Baseado em Massini-Cagliari (1999), ele assume não só que
as sílabas finais são extramétricas, ao lado do processo de síncope, mas
1. A raiz dessa rejeição, no entanto, não se sustenta cientificamente, como veremos, e sua causa
também mostra uma tendência de as proparoxítonas tornarem-se paroxítonas talvez possa ser encontrada na tradicional exclusão in limine das proparoxítonas nas regras de
(adaptado de Lee 2004b: 5). acentuação gráfica, formalizada por meio da frase ‘todas as proparoxítonas são acentuadas’.
42 Gabriel A. de Araújo, Zwinglio O. Guimarães-Filho, Leonardo Oliveira & Mário Viaro As proparoxítonas e o sistema acentual do português 43

3. APAGAMENTO VOCÁLICO E CONTEXTO FÔNICO ‘falar’. Portanto, as diferenças percentuais dependem da interpretação dada.
De qualquer forma, os dados podem sugerir que tanto paroxítonas quanto
A princípio, as palavras proparoxítonas não deveriam ser estranhas ao
proparoxítonas preferem sílabas acentuadas abertas.
português, pois havia proparoxítonas no latim e muitas das palavras
proparoxítonas do PB são originárias de empréstimos do latim e do grego PADRÃO VARIANTE
(eruditismos). FONOLÓGICO PAULISTANA

Abertas Fechadas Abertas Fechadas


Indicando as sílabas leves por L e as pesadas por P , as palavras
proparoxítonas são formadas por sete categorias (contando-se somente as Oxítona 14,2% 85,8% Oxítona 17,9% 82,1%
três sílabas finais), como em (6). O negrito indica o acento tônico. Convém Paroxítona 68,2% 31,8% Paroxítona 83,1% 16,9%
mencionar que o padrão PPP não foi encontrado no corpus.
Proparoxítona 79,6% 20,4% Proparoxítona 83,2% 16,8%
(6)
LLL, como em médico e bêbado Tabela 1: Sílabas tônicas em cada padrão acentual quando considerando o padrão
PLL, como em último e pérsico fonológico e uma interpretação dos fonemas conforme a realização fonética da
LPL, como em pênalti e récorde variante paulistana.
LPP, como em chálenger e cóferdã
Uma vez que a mudança do acento da antepenúltima para a penúltima
LLP, como em júpiter e lúcifer
PLP, como em ângelus e zíngiber sílaba foi comum na passagem do latim para o português, alguns autores
PPL, como em perfórmance e antíspasto generalizaram essa regra e passaram a defender que a mudança ainda é am-
A tabela 1 mostra as porcentagens de sílabas tônicas em cada padrão plamente ativa no PB. Massini-Cagliari (neste volume) afirma que o padrão
acentual. Deve-se considerar o corpus total de 150.875 mil palavras, sendo acentual proparoxítono é excepcional no português arcaico: “Como exem-
24,9% oxítonas, 62,5% paroxítonas, 12,2% proparoxítonas e 0,4% plos de nomes proparoxítonos mapeados no corpus de cantigas religiosas
monossílabos. Curiosamente, tanto as paroxítonas como as proparoxítonas podem ser citados: prologo, angeo, espirito, dicipolo, ydolo, letera, filosofo,
possuem cerca de 83% de suas sílabas tônicas abertas, ou seja, terminadas poboo, crerigo, paravoa, sabado, camara, lampada, Evora, folego, duvida,
em vogal, incluindo V, CV, CCV, CGV, e GV (onde V é uma vogal, C é uma citola, perigoo, vespera, Pascoa, Theophilo etc. Note-se que todas essas pala-
consoante e G é um glide). Nas oxítonas, o quadro é invertido, mas devemos vras são proparoxítonas terminadas em duas sílabas leves. Entretanto, há tam-
considerar que 38,6% das oxítonas do corpus são formas do verbo no infinitivo. bém casos (raríssimos) de proparoxítonas em que uma das duas últimas síla-
Os não-verbos oxítonos terminados em vogal não ultrapassam 18% do total bas é pesada, porque travada por consoante — exemplos: Locifer, mercores,
de oxítonas. Os dados referem-se à base com interpretação dos fonemas con- Princeps3, ome)es/omees.” Ademais, Massini-Cagliari (neste volume) acrescen-
forme a realização fonética da variante paulistana (Viaro & Guimarães-Fi-
lho, 2006). Quanto às oxítonas, por exemplo, essa interpretação considera a
3. No entanto, é preciso perceber que a palavra Locifer pode ser oxítona, uma vez que a passagem
consoante final do verbo no infinitivo pronunciada como [‰], como em [fa«la‰] de u para o é incomum nas tônicas, mas comum nas pretônicas. Nas Cantigas de Santa Maria 27:
‘falar’ e não previu o apagamento da consoante /r/ final, como em [fa«la] 6, os três primeiros pés dos versos hendecassílabos apontam para a situação átona, átona, tônica:
“Vencer dev’ a Madre daquel que deitou/ Locifer do Ceo, e depois britou/ o ifern’ e os santos dele
sacou, / e venceu a mort’ u por nos foi morrer”. Uma das formas antigas, citadas no DH, é Lucifel
(e não há, de fato, no nosso corpus, proparoxítonas terminadas em l). Para que a palavra Princeps
2. A contagem do algoritmo de busca não é muito precisa acima de 100 mil ocorrências absolutas, seja proparoxítona é necessário postular a ocorrência do fenômeno da epêntese, tal como conhece-
conforme discutido na literatura (cf. http://itre.cis.upenn.edu/~myl/languagelog/archives/ mos hoje, já no português medieval. Nas Cantigas de Santa Maria, apenas aparece a forma no
002373.html). plural princepes, que não tem a última sílaba pesada (Mettmann 1959).
44 Gabriel A. de Araújo, Zwinglio O. Guimarães-Filho, Leonardo Oliveira & Mário Viaro As proparoxítonas e o sistema acentual do português 45

ta que “processos fonológicos que transformam antigas proparoxítonas em (9)


córrego (córr<e>) go  [«kø‰g¨]
paroxítonas são bastante atestados” nas Cantigas de Santa Maria, como por
fósforo (fósf<o>) ro  [«føsf‰¨]
exemplo: perigo vs periglo, perigoo; poboo vs. pobro e poblo.
Em primeiro lugar, devemos olhar para os dados de uma forma dife-
Pereira (1916:46-50) afirma que o português já alterava a posição do
rente. Em (10), há uma lista com exemplos, comumente citados (cf.
acento em muitas palavras de origem latina: “Nem sempre observa a lingua
Ferreira Netto 2001) com o objetivo de provar que as proparoxítonas são
a lei glottica da persistencia da syllaba tonica latina (...) Refugindo ao
reduzidas para paroxítonas:
esdruxulo, a analogia reduziu todos os verbos ao typo dos paroxytonos na
conjugação do pres. do indic., deslocando para a penultima a tónica dos (10)
a abóbora  [a«bøb‰á] cf. abobrinha
proparoxytonos latinos”. Assim, havia a tendência da supressão da vogal
árvore  [«a‰v‰ˆ] cf. arvrinha
nuclear silábica medial e a posterior silabificação à esquerda como em fósforo  [«føsf‰¨] ?fosfrinho
(exemplos adaptados de FERREIRA NETTO 2001): xícara  [«ßik‰á] cf. xicrinha
chácara  [«ßak‰á] cf. chacrinha
(7) óculos  [«øklus] cf. oclinhos
cá.l0.dum  *cáldo  [«kaw.du] ‘caldo’
ál.t..ram  *áutra  [«ow.t‰a] ‘outra’ b cócegas  [«køská] cf. cosquinha
só.l0.dum  *sóldo  [«sow.du] ‘soldo’ física  [«fizgá] ??fisguinha
ví.r0.dem  *vérde  [«ve‰.de] ‘verde’ 4 pêssego  [«pezg¨] ?pesguinho
música  [«muzgá] ?musguinha
Ou a supressão da vogal nuclear silábica medial e silabificação à direita:
c córrego  [«kø‰g¨] cf. corguinho
(8)
d número  «
[ nu~‰¨]
dó.m0.num  *dómno  [«do~.nu] ‘dono’
cômodo  [«ko~d¨]
más.cß.lum  *másclo  [«ma.ßu] ‘macho’
só.c..rum  *sócro  [«so.g‰u] ‘sogro’
De fato, as palavras em (10) são reduzidas em diversas variantes do
Lee (2004b) mostra que as mudanças (de acento antepenúltimo para acento português, embora isso não ocorra em todas5. Entretanto, os diminuti-
penúltimo) em português podem ser explicadas paralelamente ao latim. Dessa vos listados em (10)a, por exemplo, são compartilhados por um grande
forma, ele assume que a noção de síncope é crucial para compreender as constan- número de falantes e oferecem forte apoio aos defensores da redução.
tes reduções de proparoxítonas para paroxítonas. Baseado em Massini-Cagliari Outro olhar sobre os dados em (10) revela que o ambiente fônico de
1999, ele assume que as sílabas finais são extramétricas e propõe a derivação em todas as palavras reduzidas permite que sejam “reduzíveis” de maneira
(9), pois assume que o pé em português é o troqueu silábico. Dessa maneira, a não-aleatória. A redução é, portanto, possível, havendo também uma
sílaba reduzida fica na posição fraca do pé, criando as condições para a ressilabificação em seguida. Se o elemento a ser ressilabificado é uma
ressilabificação e a alteração da posição do acento. Portanto, nos exemplos a se-
consoante /r/ ou /l/ no onset da sílaba final, a ressilabificação formará
guir, a sílaba fraca do pé é apagada, como visto em repetidas (3), parcialmente:

5. A variante em questão é corrente no PB. Há, também, algumas variantes do PB nas quais a síncope
4. Neste trabalho, o asterisco indica, normalmente, que a palavra é impossível segundo o sistema do ocorre de maneira mais freqüente. Assim, em alguns falares de MG e no interior de SP, por
PB. Esse uso surgiu no gerativismo, para a indicação da agramaticalidade. Apenas neste exemplo exemplo, há apagamentos que envolvem tanto a vogal pós-tônica como a consoante do onset da
está sendo usado com o sentido tradicional de palavra reconstruída (e, portanto, altamente prová- sílaba final, como em época > [«´pá], bêbado > [«beb¨], cândida > [ka)d‚á]/[«ka)dá] etc. Além disso,
vel). O uso ambíguo do símbolo advém da fusão de perspectivas até recentemente incompatíveis. na região central de MG há registros de apagamento completo de todas as sílabas pós-tônicas (cf.
Não se propôs nenhuma solução para resolver essa contradição. Lee 2004).
46 Gabriel A. de Araújo, Zwinglio O. Guimarães-Filho, Leonardo Oliveira & Mário Viaro As proparoxítonas e o sistema acentual do português 47

um onset complexo, desde que o onset da sílaba pós-tônica não-final (14)


número [«nu~‰¨]6
seja uma oclusiva ou uma labiodental, como em (10)a. Porém, há a cômodo [«ko~d¨]7
possibilidade de o elemento ser ressilabificado para a coda da sílaba
tônica. Nesse caso, deve ser necessariamente uma dos quatro consoan- A consoante /l/, contudo, não é ressilabificada, não ocorrendo, portan-
tes possíveis na posição de coda (cf. (10) b, c, d), o que equivale, segun- to, síncope quando essa consoante ocupar a posição de onset na sílaba pós-
do a descrição de Câmara Jr. (1970), a um dos arquifonemas: /S, R, N, L /. tônica não-final, apesar de /l/ ser uma consoante possível na posição de
coda. Assim, pressupomos que a síncope não ocorre, mesmo que o alofone
Dessa forma, ocorre síncope em uma palavra com acento na penúltima
[w] de /l/ também seja possível como elemento na coda. Nesse caso, é
sílaba (proparoxítona), nos seguintes casos: a sílaba pós-tônica é forma-
possível que a perda da distinção morfológica comprometa a lexicalidade
da por uma consoante (oclusiva ou labiodental) e uma vogal e a sílaba
da palavra. Pode-se ainda argumentar que, após a síncope da vogal, a con-
pós-tônica final possui no onset uma consoante líquida (/r/ ou /l/). Nes-
soante da sílaba apagada deverá manter uma fidelidade em seus traços,
se caso, a vogal da sílaba pós-tônica é apagada (síncope) e a consoante
inviabilizando assim sua mudança para [w].
líquida é ressilabificada, formando um onset complexo (quando o onset
complexo for possível). (15)
evangélico ??[eva~«Ω´wk¨]
(11) católico ??[ka«tøwk¨]
abóbora  [a«bøb‰á] cf. abobrinha
Outro caso a ser considerado ocorre com palavras que possuem [s] ou
óculos  [«øklus] cf. oclinhos
[z] no onset da sílaba final seguidos de [i]. Nesse caso, a vogal final é apa-
A sílaba pós-tônica não-final é formada por uma consoante e uma vo- gada e a consoante [s] é ressilabificada para a coda da sílaba pós-tônica,
gal, sendo que a consoante é um rótico /r/ ou /‰/. Nesse caso, a vogal da gerando, portanto, uma paroxítona. Portanto, temos aqui um caso distinto
sílaba é apagada e o rótico é ressilabificado para a coda da sílaba tônica. dos apresentados acima, pois a redução em (16) ocorre devido ao apaga-
(12) mento da vogal da sílaba átona final (apócope). É o que ocorre com 611
córrego  [«kø‰g¨] cf. corguinho palavras do corpus8.
A sílaba pós-tônica não-final é formada por uma consoante e uma vo- (16)
apólice [a«pølˆs]
gal [i], sendo que a consoante é uma realização das consoantes contínuas
elefantíase [elefa~«tßiáz]
coronais /s, z/. Nesse caso, a vogal pode ser apagada, ocorrendo
espalhamento do traço [voz] para o onset da sílaba seguinte. Consideramos também, por definição, que o processo de síncope
não ocorre quando as consoantes /p t k b t g f v d/ estiverem, após a
(13)
cócegas  [«køská] cf. cosquinha
física  [«fizgá] ??fisguinha 6
Câmara Jr. (1970: 59) afirma que “(...) depois de vogal nasal só se realiza um /r/ forte e nunca o /r’/
pêssego  [«pezg¨] ?pesguinho
brando próprio exclusivamente da posição intervocálica. Isto, que eu disse desde 1948, é repetido
música  [«muzgá] ?musguinha com outras palavras por Morais Barbosa, comentando a pronúncia obrigatória de genro, honra etc.
(Barbosa 1965, 92)”. No entanto, em realizações como [«nu~.‰¨], há um possível contra-exemplo.
A sílaba pós-tônica é formada por uma consoante e uma vogal, sendo 7
Ferreira Netto (2001: 178) menciona a transcrição [«ko~u~.du].
que a consoante é uma realização das consoantes nasais /m, n/. Nesse caso, 8
Casos semelhantes a este mereceriam um estudo mais detalhado de fonética acústica, uma vez que
também é possível imaginar casos de apócope do [i] após outras fricativas e africadas: cônjuge
a sílaba pós-tônica pode ser apagada ocorrendo espalhamento da nasalidade [«ko~ΩuΩ], tríade [«t‰iadΩ], pirâmide [pi«‰a~midΩ], satélite [sa«t´litß], tíquete [«tßikitß]. Um caso ainda
para a sílaba tônica (anteriormente oral). mais complexo é o de cóccix [«køksiks]  [«køkisi]  [«køkis].
48 Gabriel A. de Araújo, Zwinglio O. Guimarães-Filho, Leonardo Oliveira & Mário Viaro As proparoxítonas e o sistema acentual do português 49

síncope, nas posições de coda da tônica e onset da pós-tônica não-final. Posto isso, verificamos a natureza do cluster complexo (no onset da pós-
Isso se dá pelo fato de essas consoantes não serem permitidas, no siste- tônica) ou do elemento formador de coda nas palavras proparoxítonas, nos
ma do PB, se houvesse apagamento da vogal pós-tônica não-final, nem casos de síncope. Do total de 18.413 palavras com acento antepenúltimo no
como coda da tônica, nem como segundo elemento de um onset com- corpus, cerca de dois terços das palavras proparoxítonas não formam clusters
plexo da pós-tônica resultante. válidos quando é feito o apagamento mecânico da vogal da sílaba pós-tônica,
como em rápido > *ráp.do; calotípico > *calotíp.co; haféfobo > *haféf.bo. O
(17)
médico *[«m´dk¨] apagamento da vogal da sílaba pós-tônica gera sílabas com codas válidas em
bêbado *[«bebd¨] 4.287 casos ou 23,2% do total, como em física > fís.ca; anisúrico > anisúr.co;
rápido *[«xapd¨] gênese > gên.se. Em 439 casos, ou 2,4% do total, a sílaba pós-tônica não-final
pênalti *[«penltˆ]
época *[«´pká] é formada somente por uma vogal. Por fim, são geradas palavras cuja sílaba
pós-tônica possui um onset válido, como em abóbora > abó.bra, próspero >
Por enquanto, os fatos apresentados não contrariam as afirmações de prós.pro, útero > ú.tro em 2.158 (11,7%) dos casos, resultando em sílabas
Sândalo (1999) e Lee (2004b). Ambos os autores estão parcialmente corre- inválidas em 62,7 % das palavras, conforme apresentado na tabela 1. Há, ain-
tos. De fato, a gramática normativa (como qualquer outro instrumento lin- da, os casos em que o apagamento da vogal da sílaba pós-tônica não-final gera
güístico) exerce pressão sobre a língua. No entanto, pessoas com baixa uma seqüência de coda possível seguida por um onset complexo permitido,
escolarização ou mesmo sem escolarização alguma também produzem pa- como em périplo > pér.plo. Nesse caso, o onset supercomplexo formado por
lavras proparoxítonas. Além disso, o letramento, a universalização e a demo- três consoantes, rpl, como em *pé.rplo, não é possível em português.
cratização do acesso à escola tenderiam a aumentar a influência da gramáti-
ca normativa e, por conseguinte, a aumentar a ocorrência de proparoxítonas Freqüência Número de
relativa ocorrências
em muitas variantes. Possivelmente, os dois fatos (influência da gramática
normativa e produção de proparoxítonas) não sustentam uma relação de Síncope gera clusters inválidos 62,7% 15.538
causa e conseqüência. Por outro lado, o fenômeno de síncope ou redução Síncope gera codas válidas na sílaba tônica 23,2% 14.287
vocálica no PB não parece estar relacionado também com a diminuição da Síncope gera onsets válidos para sílaba pós-tônica 11,7% 12.158
freqüência das palavras proparoxítonas. A redução parece ser oriunda da
Sílaba pós-tônica intermediária é do tipo v 12,4% 14.439
possibilidade de estruturas silábicas menos marcadas prevalecerem em rela-
(portanto, não-apagável)
ção a estruturas mais marcadas. De fato, na proposta de Lee (2004b) não se
TOTAL 100% 18.413
mencionam exemplos de reduções que ocorrem quando a consoante na síla-
ba pós-tônica não é ressilabificável, ou seja, distinta de /S, R, N, L /. Portanto, Tabela 2: Validade dos clusters produzidos por síncope da vogal pós-tônica.
Lee (2004b) não menciona exemplos como em (17), nos quais a síncope
Para avaliar a confiabilidade desta análise, um segundo método foi
seria estruturalmente impossível nesses contextos. Os exemplos em (17) são
utilizado para comparação, com o uso de um programa de identificação
de palavras proparoxítonas que possivelmente pertencem também à expres- de encontros consonantais passíveis de epêntese9. Nesse método, verifi-
são de pessoas não-escolarizadas. Pode-se, inclusive, afirmar que todas são
de alta freqüência. Portanto, os argumentos comumente utilizados para
desqualificar as proparoxítonas (pressão da gramática, origem erudita, baixa 9. O programa identificava os encontros consonantais resultantes depois do apagamento da vogal
pós-tônica, como p.t, g.b, d.f etc., onde o ponto representa a divisão silábica entre os elementos da
freqüência) não podem ser aplicados nesses casos. coda e do onset.
50 Gabriel A. de Araújo, Zwinglio O. Guimarães-Filho, Leonardo Oliveira & Mário Viaro As proparoxítonas e o sistema acentual do português 51

cou-se se, após a sincope forçada da pós-tônica não-final, a transcrição madas por siglas proparoxítonas, ambas com adição vocálica, Varig e Etco.
automática gerava uma epêntese no local da vogal apagada, sendo consi- Portanto, siglas com acento proparoxítono são de fato minoritárias. Há 895
derados reduzíveis por síncope apenas os casos em que não ocorria epêntese. casos (1%) de paroxítonas (na forma ortográfica) que viram proparoxítonas
Obtivemos resultados similares aos obtidos pela análise de clusters válidos: após epêntese, como por exemplo, pacto > [«pakit¨]. Ademais, sobretudo no
67,5% de reduções inválidas e 32,5% de válidas. Portanto, os dados suge- que concerne aos substantivos, palavras oxítonas também podem ser trans-
rem que a síncope da vogal da sílaba pós-tônica não-final gera sílabas bem- formadas em paroxítonas, nos processos morfofonológicos conhecidos como
formadas em cerca de 1 a cada 3 palavras. Dessa forma, a síncope da vogal truncamento ou abreviação (cf. Araújo 2002). Sem dúvida, esse fato tam-
não explicaria todas as reduções possíveis. bém deve ser abordado pelas análises do acento.
Quednau (2002) sugere que o fenômeno da síncope depende da varia- (18)
ção dialetal e da velocidade da fala, porém na maior parte das variantes Maraca[«na~] Maraca
Morum[«bi] Morumba
urbanas, o apagamento não está lexicalizado e ainda possui forte conotação traves[«tßi] traveco
negativa. Por outro lado, a análise dos dados indica que o fenômeno da sapa[«ta~¨~] sapata
síncope pode ser claramente associado à gramaticalidade da sílaba resul-
tante. Nossos resultados sugerem que, quando ocorre o fenômeno do apa-
gamento da vogal pós-tônica, o processo é condicionado mormente por 4. INTRODUÇÃO TARDIA
regras de fonotática da língua, que não podem ser descritas somente em
Uma vez que o português pode ser rastreado diacronicamente, por meio de
termos sociolingüísticos.
registros escritos e reconstruções até o latim vulgar, é possível, teoricamente, usar
Outro argumento empregado contra as proparoxítonas se basearia na essas fontes para localizar a primeira aparição de determinada palavra desde os
epêntese vocálica. A vogal-padrão para as adições (próteses, epênteses e primórdios de seu uso. Se a hipótese da entrada na língua no século XVI justifica
paragoges) no português é [i], como em internet[i] e téc[i]nico etc. (cf. a excepcionalidade das proparoxítonas (posteriores às mudanças fonológicas que
Collischonn 2000). Nesse sentido, Lee (2004b) oferece um exemplo inte- alteraram a posição do acento na palavra), dois fatos estatísticos são esperados:
ressante. Para explicar determinadas variantes, o autor defende que ocorre primeiro, a data média da primeira documentação na língua para palavras
síncope da vogal [a] em lâmp[a]da resultando na forma *lampda. Uma proparoxítonas deverá ser maior do que para palavras não-proparoxítonas; e, em
vez que p não pode ocorrer como coda, nem como onset complexo (como segundo lugar, a distribuição empírica das palavras com acento na antepenúltima
*pd), a epêntese vocálica garante a boa-formação em lâmp[i]da. No en- deverá apresentar uma transição evidente ou um pico no século XVI, que
tanto, lâmp[i]da ou beb[i]do (seguindo a mesma argumentação) continuam corresponde à data da suposta introdução da maioria dessas palavras.
proparoxítonas. A relação entre epêntese vocálica e as proparoxítonas po-
Os gráficos da figura 1 mostram a evolução temporal do número de
deriam ser um tópico de uma pesquisa futura.
palavras criadas em cada século, presentes no Houaiss, de acordo com a
Massini-Cagliari (1992: 132), tratando da formação de palavras por si- tonicidade. Foi utilizada uma escala vertical logarítmica porque a introdu-
glas, menciona que praticamente inexistem siglas com acento proparoxítono. ção de novas palavras registradas no português no século XIX é de ordem
A autora cita apenas a palavra ÓVNI, como exemplo de sigla proparoxítona, de grandeza superior à dos demais séculos, fazendo com que o gráfico em
por causa da epêntese que ocorre entre o V e o N, como em ÓVNI, da mesma escala linear se torne ilegível. Uma forma interessante de discutir esses da-
forma que palavras como ritmo são paroxítonas apenas do ponto de vista da dos se dá por meio da relação entre as produtividades relativas de cada
ortografia. Além de ÓVNI, encontramos pelo menos duas outras palavras for- uma das tonicidades ao longo dos séculos (cf. figura 2). As barras verticais
52 Gabriel A. de Araújo, Zwinglio O. Guimarães-Filho, Leonardo Oliveira & Mário Viaro As proparoxítonas e o sistema acentual do português 53

no gráfico da figura 2 correspondem aos desvios-padrão dos percentuais entram na língua de forma regular em todos os séculos. Pode-se, de fato,
apresentados. Estes desvios-padrão foram determinados considerando que afirmar que há uma tendência para picos nos séculos XII, XVI e XIX, tanto
as palavras contidas no Houaiss correspondem a uma amostra das palavras para as proparoxítonas quanto para as não-proparoxítonas. O primeiro pico
portuguesas existentes e, portanto, sujeitas a flutuações amostrais. está associado ao próprio surgimento do português como língua indepen-
10
5 dente. O último pode estar ligado, entre outras coisas, às revoluções
oxítonas
paroxítonas
tecnocientíficas, à explosão demográfica na Europa e na América e à con-
proparoxítonas
solidação da escolarização universal que promoveu um letramento em
Número de palavras novas (escala logarítmica)

4
10
massa, resultando em um número maior de obras literárias e não-literárias
impressas. A correlação entre Renascença e proparoxítonas não é estatisti-
3
10 camente evidente como mostra a figura 2.
100
2 Oxítonas
10 Paroxítonas
90 Proparoxítonas

80
1
10
70

Freqüência relativa (%)


60
0
10
IX X XI XII XIII XIV XV XVI XVII XVIII XIX XX 50
Século
40
5
10
proparoxítonas 30
não proparoxítonas
Número de palavras novas (escala logarítmica)

20
4
10
10

0
3 IX X XI XII XIII XIV XV XVI XVII XVIII XIX XX
10
Século

Figura 2: Relação entre a tonicidade e a criação lexical. As barras verticais


2
são os desvios-padrão correspondentes às flutuações estatísticas amostrais.
10

A segunda previsão também se mostrou equivocada, pois há a entrada


1
de proparoxítonas mantém uma trajetória crescente, com destaque para os
10
séculos XIX e XX.
0
10
IX X XI XII XIII XIV XV XVI XVII XVIII XIX XX
Século

Figura 1: Evolução temporal do número de palavras criadas em


5. FREQÜÊNCIA DE USO E TONICIDADE
cada século, de acordo com a tonicidade.
A distribuição da freqüência de uso de cada tipo de tonicidade (oxítonas,
A primeira previsão estatística mostrou-se insustentável, como mostra a paroxítonas, proparoxítonas e monossílabos) foi comparada com a freqüên-
figura 1, uma vez que tanto as proparoxítonas como as não-proparoxítonas cia global das palavras do português. Assim, dividindo a freqüência de uso
54 Gabriel A. de Araújo, Zwinglio O. Guimarães-Filho, Leonardo Oliveira & Mário Viaro As proparoxítonas e o sistema acentual do português 55

das palavras em 4 partes (quartis) (denominadas de raras, incomuns, co- bas da palavra, ou seja, quanto maior o número de sílabas da palavra, me-
muns e freqüentes), cada uma das partes contendo aproximadamente 25% nor a chance de ela ser oxítona, enquanto com as proparoxítonas ocorre o
das palavras no global, obtivemos para cada tipo de tonicidade a distribui- oposto. É curioso observar que a freqüência relativa de paroxítonas se man-
ção apresentada na tabela 3. Esses resultados mostram que as palavras tém aproximadamente estável perto de 70% para palavras com quatro ou
mais sílabas (Guimarães-Filho et alii 2006).
proparoxítonas têm uma distribuição de freqüência de uso com uma ten-
100
dência para valores menos comuns do que as palavras não-proparoxítonas, Oxítonas
Paroxítonas
pois há quase 50% delas no quartil das palavras raras, e pouco mais de 10% 90
Proparoxítonas

no das freqüentes, quando o esperado era cerca de 25% em cada um. 80

Quartis de freqüência de uso10 70

Freqüência relativa (%)


Raras Incomuns Comuns Freqüentes 60

TODA A BASE 27,5 % 26,3 % 23,7 % 22,6 % 50

40
Raras Incomuns Comuns Freqüentes
30
Monossílabos 0,0 % 0,2 % 4,4 % 95,4 %
20
Oxítonas 21,1 % 27,2 % 26,1 % 25,6 %
10
Paroxítonas 26,3 % 26,4 % 24,2 % 23,1 %
0
Proparoxítonas 47,5% 24,8 % 16,4 % 11,4 % 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 ou mais
Número
Número de Silabas
de sílabas
Figura 3: Relação entre tonicidade e número de sílabas. As barras verticais
Raras Incomuns Comuns Freqüentes indicam os desvios-padrão correspondentes às flutuações estatísticas amostrais.

Não-proparoxítonas 24,7 % 26,5 % 24,7 % 24,1 % Para avaliar a importância do número de sílabas da palavra na freqüên-
Proparoxítonas 47,5 % 24,8 % 16,4 % 11,4 % cia de uso, verificamos os casos dos trissílabos, tetrassílabos e pentassílabos:
Tabela 3: Distribuição estatística da freqüência de uso, de acordo com a base de Raras Incomuns Comuns Freqüentes
páginas em português do Google, em termos da tonicidade das palavras.
Proparoxítonas 17 % 26 % 28 % 29 %
TRISSÍLABOS
Porém, um ponto que precisa ser esclarecido é se essa baixa freqüência Não-proparoxítonas 25 % 24 % 22 % 29 %
de uso se deve ao fato de a palavra ser proparoxítona ou às características Proparoxítonas 41% 27% 17% 14 %
das proparoxítonas, como, por exemplo, serem, em geral, palavras mais TETRASSÍLABOS
Não-proparoxítonas 28 % 28 % 24 % 20 %
longas que as de outro tipo (Viaro & Guimarães-Filho 2006). A relação
Proparoxítonas 50 % 26 % 16 % 29 %
entre tonicidade e o número de sílabas está apresentada na figura 3. A PENTASSÍLABOS
Não-proparoxítonas 33 % 29 % 21 % 17 %
freqüência relativa de oxítonas diminui com o aumento do número de síla-
Proparoxítonas 47,5% 24,8 % 16,4 % 11,4 %
TODOS
Não-proparoxítonas 24,7% 26,5% 24,7% 24,1%
10. Foram denominadas raras as palavras que ocorriam em menos de 10 páginas, incomuns aquelas
usadas em até 200 páginas, comuns para até 20 mil páginas e freqüentes para mais de 20 mil páginas Tabela 4: Distribuição estatística da freqüência de uso em termos da tonicidade de
(o maior número de ocorrências encontrado foi de 317 milhões para a preposição ‘de’). acordo com o número de sílabas das palavras.
56 Gabriel A. de Araújo, Zwinglio O. Guimarães-Filho, Leonardo Oliveira & Mário Viaro As proparoxítonas e o sistema acentual do português 57

Estes resultados mostram que, com o aumento do número de sílabas 6. QUALIDADE DA VOGAL
da palavra, há uma tendência geral de reduzir a freqüência de uso que
parece ser um pouco mais acentuada no caso das proparoxítonas, como A qualidade da vogal acentuada é relevante porque o PB tem um sistema
por exemplo, as proparoxítonas no grupo das freqüentes passam de 29% vocálico dependente do acento lexical. O número de vogais dependendo
no caso dos trissílabos para 9% no caso dos pentassílabos, enquanto no da posição do acento, para a maioria das variantes do PB é o seguinte:
grupo das raras passam de 17% para 50%. (19)
* Posição pré-tônica: 5 vogais: [i, u, e, o, a]. Para algumas palavras isoladas
Há ainda outros efeitos, como a data de criação da palavra, que tam- [´, ø] também.
bém precisam ser investigados antes de se concluir que o fato de a palavra * Posição tônica: 7 vogais: [i, u, e, ´, o, ø, a]
ser proparoxítona influencia de maneira significativa sua freqüência de uso. * Posição pós-tônica não-final: 5 vogais: [i, u, e, o, a]
Os resultados parecem indicar a existência desse efeito, embora com uma * Posição pós-tônica final: 3 vogais: [i, u, a]
intensidade bem menor do que a primeira análise indicava (sem distinguir Apesar de as vogais médias abertas terem sua distribuição limitada à
o número de sílabas). posição de acento, trata-se apenas de uma tendência e não de uma causa,
Para complementar a discussão sobre relação entre freqüência de uso e uma vez que as vogais médias fechadas [e, o] também ocorrem na posição
tonicidade, realizamos um segundo teste, filtrando as palavras simultaneamente tônica. Porém, qual é a distribuição específica de [´, ø] nas palavras
quanto ao número de sílabas e à data de criação lexical. Assim, tomando apenas proparoxítonas, comparada à distribuição nas palavras não-proparoxítonas?
palavras com 3, 4 ou 5 sílabas, obtivemos a distribuição de freqüências de uso em
termos da data de criação lexical, obtendo os resultados apresentados na tabela 5, A tabela 6 mostra a distribuição das sete vogais do PB na posição tônica.
que mostram que o efeito da tonicidade não é perceptível para as palavras criadas Vogal pós- Proparoxítonas Não- Oxítonas Paroxítonas
entre os séculos XIII a XVIII. A tendência de redução da freqüência de uso das tônica não-final Proparoxítonas
proparoxítonas criadas nos séculos XIX e XX pode estar ligada aos termos científi-
i 26,5 % 22,5 % 28,3 % 27,9 %
cos formados por radicais eruditos. Esses resultados indicam que a relação entre
freqüência de uso e tonicidade é um problema que precisa ser abordado com o u 22,6 % 44,7 % 25,0 % 23,8 %
uso de métodos estatísticos rigorosos, a fim de evitar conclusões equivocadas. e 44,4 % 13,5 % 16,8 % 25,2 %
Raras Incomuns Comuns Freqüentes ´ 12,0 % 44,7 % 25,3 % 22,9 %
SÉCULOS Proparoxítonas 16 % 19 % 17 % 68 %
o 77,7 % 46,7 % 25,1 % 10,6 %
XIII A XV Não-proparoxítonas 15 % 14 % 23 % 59 %
ø 25,2 % 45,7 % 26,9 % 22,7 %
SÉCULOS Proparoxítonas 13 % 24 % 25 % 38 %
XVI A XVII Não-proparoxítonas 10 % 23 % 30 % 37 % a 21,6 % 42,3 % 32,5 % 66,9 %

Proparoxítonas 44 % 27 % 18 % 11 % Tabela 6: Tipos de vogais nas palavras com acento antepenúltimo e não-
SÉCULOS
antepenúltimo com respectivas freqüências percentuais.
XVII A XX Não-proparoxítonas 26 % 29 % 26 % 19 %
Proparoxítonas 43 % 26 % 17 % 14 %
As maiores diferenças entre as duas categorias estão na distribuição das
TODOS OS
SÉCULOS vogas médias altas [´, ø]. Para as palavras com acento na antepenúltima, 37,2%
Não-proparoxítonas 26 % 28 % 24 % 22 %
das vogais acentuadas são médias altas e para as com acento não-proparoxítono
Tabela 5: Distribuição da freqüência de uso dos trissílabos,
tetrassílabos e pentassílabos com relação à data de criação lexical
somente 10,4% das vogais acentuadas são médias altas. Dessa forma, palavras
para palavras proparoxítonas e não-proparoxítonas. proparoxítonas têm 2,6 vezes mais chances de terem a vogal [´] na posição
58 Gabriel A. de Araújo, Zwinglio O. Guimarães-Filho, Leonardo Oliveira & Mário Viaro As proparoxítonas e o sistema acentual do português 59

acentuada e 4,4 vezes mais chances de ter a vogal [ø] na posição acentuada O objetivo deste capítulo foi legitimar a presença de palavras
do que palavras com acento não-proparoxítono. Isso sugere que há uma cor- proparoxítonas nas análises do sistema acentual do português do Brasil.
relação entre acento e vogais médias abertas em palavras proparoxítonas (cf. Mostramos que essas análises desqualificam as proparoxítonas por não dis-
Wetzels 1991, 1992). Essa correlação poderia ter uma motivação fonética, porem de instrumentos que possibilitem uma explicação unificada para o
assumindo-se que a diferença de qualidade está relacionada à altura da vo- fenômeno do acento lexical. Ao mesmo tempo, embora assumamos que,
gal. Uma vez que as sílabas acentuadas são mais longas e permitem que a estatisticamente, as proparoxítonas sejam marginais no sistema — circa 12%
abertura da vogal seja mais longa e menos precisa, tais vogais poderiam ter do corpus de 150 mil palavras —, acreditamos que as análises deveriam
surgido e ter permanecido restritas à posição tônica na maioria das variantes considerá-las como parte do sistema.
do português. No entanto, essa questão permanece aberta. Procuramos mostrar que as reduções (síncope e apócope) que transfor-
Interessante seria ainda observar qual a vogal que está na pós-tônica não- mam palavras proparoxítonas em paroxítonas ocorrem sob certas circuns-
final. Em ordem decrescente de freqüência temos: /i/ (65,3%), /a/ (10,9%), tâncias, dentre elas a possibilidade de uma consoante em coda ou onset ser
ressilabificada como segundo elemento de onset complexo ou como coda.
/o/ (10,5%), /e/ (9,7%) e /u/ (3,6%). É curioso observar que, embora seja o
Além disso, foi mostrado que explicações paralingüísticas como a pressão
caso mais freqüente, apenas 28% das palavras com vogal pós-tônica não-
da gramática normativa, a origem erudita da palavra ou a baixa freqüência
final /i/ são apagáveis (geram codas válidas ou onsets complexos válidos de-
de uso não são causa nem conseqüência da existência ou da manutenção
pois da síncope). Por outro lado, 81% dos casos com /u/ são apagáveis (para
das proparoxítonas.
as demais vogais pós-tônicas os percentuais são: /o/ 38%, /a/ 49%, /e/ 70%).
No entanto, algumas questões se colocam para pesquisa futura. Certa-
mente, proparoxítonas pertencem ao sistema do PB, embora, estatistica-
7. SUMÁRIO E CONCLUSÕES mente, o acento antepenúltimo seja minoritário, mas é necessário enten-
der as razões pelas quais a consoante /l/ não é ressilabificada e não ocorre
A dicotomia acento fonologicamente determinado vs. acento lexicalmente
síncope quando ocupa a posição de onset na sílaba pós-tônica, apesar de
especificado pode ser mais bem avaliada quando dados morfológicos, his-
/l/ (ou seu alofone [w]) ser uma consoante possível na posição de coda. A
tóricos e de freqüência são agrupados em uma análise. Os seguintes pontos
relação entre epêntese e as proparoxítonas também merece maior atenção,
são especialmente relevantes:
assim como a relação entre síncope e freqüência de uso.
(20)
a. Palavras proparoxítonas sempre existiram no português; Por fim, os dados em (10) mostram que, comumente, são criados onsets
b. As reduções (proparoxítonas > paroxítonas) ocorrem em determinados complexos fora da posição do acento, como em chá[k‰]a, embora Cristófaro-
contextos, embora haja também oxítonas que se transformam em
Silva (2002) julgue que a posição tônica seja a ideal para onsets complexos,
paroxítonas e paroxítonas que se transformam em proparoxítonas;
c. Não há evidências que sustentem que os falantes evitam o uso das ao lembrar casos de apagamento do onset complexo como em problema
proparoxítonas ou que haja um direcionamento para uma mudança de [po«b‰emá], ou de metátese do segundo elemento para a posição tônica,
posição de acento;
como em estupro [is«t‰up¨]. A formação desses onsets complexos, entretanto,
d. Palavras oxítonas e proparoxítonas, cujos padrões acentuais não são o
canônico, são encontradas em todas as épocas e são criadas com freqüên- também mereceria uma investigação mais detalhada.
cias proporcionais à sua representatividade no corpus;
e. Empréstimos recentes sugerem que o princípio de conservação do acento Por fim, não podemos ainda nos esquecer de que o julgamento dos
ainda está ativo. dados em aceitáveis ou não sempre foi problemático desde que surgiu o
60 Gabriel A. de Araújo, Zwinglio O. Guimarães-Filho, Leonardo Oliveira & Mário Viaro

conceito de agramatical no gerativismo. Há um certo elemento subjetivo CAPÍTULO 4


no julgamento da agramaticalidade, uma vez que isso depende da experi-
ência e da capacidade de percepção do indivíduo, que costuma aferrar-se a
suas convicções, tolerando alguns dados ou achando outros exagerados, ACENTO LATINO E ACENTO
EM PORTUGUÊS: QUE PARENTESCO?
conforme o momento ou até mesmo conforme a linha teórica. A apócope
do -e talvez ocorra numa palavra mais freqüente, aprendida mais esponta-
neamente, como apólice do que numa palavra como prosapódose, que é
rara, aprendida pela escrita e utilizada como jargão. Apesar de todo o contex- MARIA ISABEL PEREIRA*
to fônico ser parecido, há sabidamente palavras mais comuns que outras,
pronunciadas por poucas pessoas e em poucos discursos. Somente estudos
de fonética acústica de palavras proparoxítonas produzidas em situações
espontâneas poderão nos dar a certeza sobre os casos de síncope e apócope,
de modo que se possa generalizar como regra fonológica. Há fatores que
relativizariam a possibilidade ou a impossibilidade ditada pelo contexto
1. INTRODUÇÃO
fônico, ou seja, reforçariam a presença de mais proparoxítonas do que o

E
normal, quais sejam: a baixa freqüência de uso da palavra, a velocidade ste trabalho tem por objectivo mostrar como, na evolução do
mais pausada da fala individual/regional, a formalidade situacional do dis- latim para o português, se perderam os princípios estruturantes
curso e o policiamento normativo do falante. Esses fatores, contudo, não dos padrões acentuais, que se transformam, nesse percurso, em
parecem abalar nossa argumentação, pelo contrário, um aumento da quan- padrões de natureza muito diferente1. Partindo da apresentação das caracterís-
tidade de proparoxítonas no léxico do PB, ainda que motivada por esses ticas acentuais latinas e sua formalização, passando pelo processo de evolução
outros fatores, apenas reforçam a tese que propomos, a saber, que as para as línguas românicas, finalizaremos por aduzir um conjunto de argumen-
proparoxítonas são um elemento pertencente ao sistema da língua portu- tos que sustentam a defesa de alguns princípios definidores dos padrões acentuais
guesa tão digno de ser estudado quanto as oxítonas e as paroxítonas. do português actual, cuja descrição e formalização serão expostas.

2. O ACENTO LATINO
O acento latino pode ser apresentado como exemplo paradigmático de
um sistema acentual de carácter quantitativo, com especificidades que atraem
o interesse dos fonólogos, por constituírem um teste às potencialidades
teórico-metodológicas e descritivas dos diferentes modelos de análise.

*
Instituto de Língua e Literatura Portuguesas, Universidade de Coimbra. Investigação realizada no
âmbito do Centro de Estudos de Linguística Geral e Aplicada da Universidade de Coimbra,
financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia.
1. A ortografia lusitana foi mantida.
62 Maria Isabel Pereira Acento latino e acento em português: que parentesco? 63

Se a natureza quantitativa do acento latino, assim como as suas regulari- terísticas que fazem deste sistema acentual um caso de estudo para muitos
dades, são questões incontroversas, já a sua natureza fonética é motivo de fonólogos: a acentuação dos monossílabos e das formas com enclíticos.
discussão. Os autores divergem na especificação dessa natureza: acento mu-
Muitas têm sido as propostas de formalização destes princípios, enqua-
sical ou acento de intensidade?2 Os que defendem que o acento latino é de
tipo musical, usam como argumentos os textos dos gramáticos latinos, em dradas em diferentes modelos teórico-metodológicos (cf. Halle & Vergnaud
que se descreve o sistema acentual decalcando os conceitos da gramática 1987, Hayes 1995, McCarthy & Prince 1995a, Mester 1994, entre ou-
grega; os termos que são utilizados para designar algumas noções acentuais tros). No modelo métrico de Idsardi (1992), em que assentam as nossas
(como tónico e átono, por exemplo); ou a natureza quantitativa da métrica propostas de formalização dos padrões acentuais, a regra do acento latino
latina. A defesa de um acento de natureza intensiva baseia-se, sobretudo, nos pode formular-se de forma simples e com elevado grau de adequação6.
processos diacrónicos ocorridos seja no latim, seja na evolução para as lín- Este é um modelo de grelha com constituintes, inspirado nas concepções
guas românicas, na natureza fonética do acento nestas línguas, assim como de Halle & Vergnaud 1987, que propõe uma forma mais simples e eficaz
em algumas questões de natureza métrica3. Esta discussão parece, no entan- de construção da grelha. Esta construção parte do mecanismo básico da
to, um pouco ociosa, uma vez que todos os estudiosos concordam em que, a projecção, que pode ser projecção de marcas (representando as unidades
partir do século III d.C., o acento latino é de tipo intensivo, facto determinante segmentais) ou projecção de parêntesis (representando os limites dos cons-
da maneira como ocorreu a evolução para as línguas neo-latinas4. tituintes). A projecção de parêntesis constitui a forma de introduzir na gre-
lha informação sobre a estrutura silábica das formas. Nas línguas em que
As regularidades acentuais do latim são sobejamente conhecidas, sendo a
há princípios quantitativos a condicionarem a localização do acento, as
localização do acento determinada pela estrutura interna da penúltima sílaba:
unidades pertinentes são projectadas na grelha através de uma marca e de
(1)
um parêntesis, facto que irá condicionar a subsequente construção da gre-
i. acentuar a penúltima sílaba, se for longa5;
ii. se a penúltima sílaba for breve, acentuar a antepenúltima. lha e, obviamente, o resultado final.

Os princípios descritos dão origem a que a localização do acento esteja Além da projecção, este modelo propõe um conjunto de parâmetros
confinada ao limite direito da palavra, não envolvendo, porém, todas as síla- de construção da grelha, que as diferentes línguas devem especificar. O
bas finais; existem paroxítonos e proparoxítonos, mas não oxítonos polis- Parâmetro de Marcação de Limite (PML), que permite que se inicie a cons-
silábicos. Para além destas regularidades, há ainda a considerar outras carac- trução da grelha, é motivado pela verificação de que o acento se localiza,
geralmente, junto das fronteiras da unidade acentual, e é, em muitos casos,
2. Segundo Herrero Llorente (1971), podem identificar-se duas escolas, no que a esta questão diz determinante na localização do acento principal da palavra. O Parâmetro
respeito: uma escola francesa, que defende um acento de natureza musical; e uma escola alemã e de Construção Iterativa de Constituintes (CIC) dá conta da organização
anglo-saxónica, que se opõe a essa concepção, defendendo que o acento latino é um acento de
intensidade. rítmica das unidades e permite a construção de constituintes, geralmente
3. Entre os mais relevantes fenómenos que ocorrem no latim, encontram-se a apofonia e o binários. Além disso, o modelo dispõe de um Parâmetro de Colocação da
abreviamento iâmbico. Na evolução para as línguas românicas, são de referir os processos de queda
de vogais átonas. No que se refere às questões de métrica, referimo-nos, essencialmente, à verifica- Cabeça, que estabelece relações de proeminência entre os elementos de
ção de uma tendência para a correspondência entre o icto e o acento. um constituinte, através da projecção na linha superior da grelha do ele-
4. Este facto parece também apoiar a hipótese de que o sistema acentual latino terá sido sempre de
tipo quantitativo, já que é pouco crível que tivesse ocorrido uma mudança tão radical num lapso mento mais proeminente (a cabeça).
temporal que, em termos linguísticos, é razoavelmente curto.
5. Em latim, são longas as sílabas que integram uma vogal longa ou um ditongo, assim como as que
são fechadas por consoante, ou seja, são longas as que têm núcleo ramificado ou rima ramificada. 6. Cf. Idsardi 1992, e Halle & Idsardi 1995.
64 Maria Isabel Pereira Acento latino e acento em português: que parentesco? 65

Desta forma, para o latim, Halle & Idsardi propuseram as seguintes LINHA 0 (CIC, x xx (xx)
especificações (Halle & Idsardi 1995: 424): Cabeça) x (x x) x (x x (x) x mus
reprimitur reprimuntur
(2)
Linha 0 Projecção de sílaba: E PML: DED CIC: E Cabeça: E LINHA I (PML, x x (xxx)
Linha 1 PML: DDD Cabeça: D Cabeça) (x) x x) mus
x (x x) x (x x (x) x
Esta língua reflecte o facto de o peso silábico determinar a posição do reprimitur reprimuntur
acento projectando na Linha 0 as fronteiras esquerdas das sílabas relevan-
tes. Esta projecção de parêntesis é o elemento formal que dá conta da A forma reprimitur não possui sílabas pesadas e, por isso, só projecta mar-
natureza quantitativa do acento latino. O PML, ao inserir um parêntesis di- cas na grelha, sendo a acentuação proparoxítona o resultado da aplicação dos
reito à esquerda do elemento mais à direita, exclui a última sílaba da parâmetros normais. Reprimuntur, pelo contrário, projecta a penúltima sílaba
metrificação, garantindo a sua atonicidade. O CIC, regra direccional, sendo pesada na grelha e, da interacção dessa projecção com a aplicação dos outros
especificado como esquerdo, constrói constituintes binários da direita para parâmetros, resulta a acentuação paroxítona. O monossílabo mus projecta a
a esquerda, cujas cabeças, à esquerda, serão projectadas na linha superior. sua única sílaba, pesada, na grelha, o que vai originar a sua acentuação, uma
Na Linha 1, o PML introduz um parêntesis direito à direita do elemento vez que não se observa o contexto de aplicação da restrição.
mais à direita e a sua cabeça é o elemento mais à direita, o que garante a
localização do acento junto ao limite direito da palavra.
3. EVOLUÇÃO PARA AS LÍNGUAS ROMÂNICAS
Uma das peculiaridades do acento latino já atrás referida é a inexistência
de oxítonos polissilábicos. A parametrização proposta não garante essa As principais alterações que ocorrem no latim vulgar e que determinam a
impossibilidade, uma vez que existem vocábulos cuja última sílaba é longa, evolução das línguas românicas devem-se, sobretudo, à natureza fonética do
devendo, por isso, ser projectada a sua fronteira esquerda. Tal facto levaria acento. Segundo Serafim da Silva Neto, “a preponderância do acento inten-
sivo e a decadência da quantidade — fenómenos coincidentes e relacionados
à acentuação dessa sílaba, que, no entanto, não ocorre. É, assim, legítimo
— foram os agentes mais poderosos da formação das línguas românicas” (Silva
considerar que, em latim, actua da seguinte restrição:
Neto 1979: 164). A perda do valor fonológico da quantidade silábica é uma
(3) consequência da acção do acento de intensidade sobre a estrutura fonológica
Evitar x ( x #
da língua latina. Este tipo de acento alonga a sílaba sobre que recai, subverten-
Assim formulada, a restrição impede que a última sílaba dos polissílabos seja do o sistema da quantidade silábica7. Além disso, ele é também responsável
acentuada, mesmo que seja pesada, permitindo, paralelamente, a acentuação dos por processos de síncope e de apócope sofridos por vogais átonas, que origina-
monossílabos, sempre longos em latim. Observem-se os efeitos das parametrizações ram alterações na distribuição linear do acento dentro da palavra. Essas altera-
apresentadas sobre três exemplos das possibilidades acentuais do latim: ções têm como resultado a existência, nas línguas românicas actuais, de oxítonos,
paroxítonos e proparoxítonos, contrariamente ao que ocorria em latim, em
(4)
que os polissílabos apenas podiam ser paroxítonos e proparoxítonos.
LINHA 0 xxxx x x (x x (x)
(projeção) reprimitur reprimuntur mus
7. Afirma Nicolau: “L’accent d’intensité est lui-même une cause de la décadence et de la disparition
LINHA 0 (PML) x x (x) x x x (x) x (x)
de l’opposition des syllabes longues et des syllabes brèves, opposition qui caractérisait le latin
reprimitur reprimuntur mus
classique” (Nicolau 1930: 65).
66 Maria Isabel Pereira Acento latino e acento em português: que parentesco? 67

O acento, “alma da palavra”, é, assim, determinante na passagem do 4. O ACENTO EM PORTUGUÊS


latim para as línguas românicas. Estas herdam a sílaba acentuada das
A mais óbvia e inegável generalização que se pode fazer sobre o acento
palavras latinas, que, no entanto, não ocupa forçosamente a mesma posi-
em português diz respeito à sua localização: o acento pode afectar uma das
ção dentro da palavra, devido à acção de fenómenos fonéticos que envol-
três últimas sílabas da palavra e apenas uma dessas sílabas, obedecendo,
vem a queda de vogais postónicas. A distribuição do acento dentro da
portanto, à condição da janela de três sílabas, que não é violada nunca. Esta
palavra que podemos observar na maior parte das línguas românicas actuais
limitação pode ser claramente comprovada pelo facto de se verificar uma
(o acento pode ocorrer em qualquer uma das três últimas sílabas8), já
diferença acentual entre as formas do plural e as formas do singular de alguns
estava definida no proto-romance, tendo sofrido poucas e pouco impor- vocábulos. É sabido que o processo de formação do plural em português não
tantes alterações até aos nossos dias. interfere com a posição do acento, que se mantém na mesma sílaba em que
Carolina Michaëlis descreve da seguinte forma a evolução dos pa- ocorre na forma do singular. Porém, as formas do plural de espécimen, Lúcifer,
drões acentuais na língua portuguesa: “Nas palavras herdadas que perfa- Júpiter e sénior são especímenes, Lucíferes, Jupíteres e seniores. A explicação
zem o núcleo primitivo do vocabulário nacional, há e houve vocábulos para esta alteração só pode radicar no facto de, na formação do plural, se
de todas as espécies prosódicas. O número de graves prevalece, todavia, e acrescentar uma sílaba à forma superficial da palavra. A manutenção da síla-
de muito, sôbre as agudas e as esdrúxulas. Nas evoluções por que passou ba tónica iria criar um padrão sobresdrúxulo, que é, assim, evitado.
o latim vulgar e o romanço de Portugal manifesta-se claramente a ten- Uma observação atenta dos dados do português permite-nos verificar
dência de transformar proparoxítonas latinas em paroxítonas” (Michaëlis que, em certos contextos, a localização do acento se limita às duas últimas
de Vasconcelos 1956: 61). A autora refere ainda que dois terços das pala- sílabas da palavra. Esses contextos são descritos em (5):
vras do português arcaico apresentam acentuação paroxítona e, quanto
(5)
ao terço restante, a maioria dos vocábulos é aguda, notando-se, por isso, a. O acento não ocorre na antepenúltima sílaba quando a penúltima é fe-
uma tendência para evitar as esdrúxulas, que terão entrado no português chada por consoante;
com maior expressão numérica no Renascimento9. Entre 1200 e 1500, b. O acento não ocorre na antepenúltima sílaba quando a penúltima con-
tém um ditongo;
ocorreram evoluções prosódicas no português, tais como a passagem de c. O acento não ocorre na antepenúltima sílaba quando a penúltima con-
palavras paroxítonas a oxítonas (soo, doo, maa passam a só, dó, má) e de tém um ditongo ou vogal nasal.
proparoxítonas a paroxítonas (perigoo, bágoo, párvoo passam a perigo,
Além destas restrições, que não são violadas em palavras nativas, pode-
bago, parvo), que podemos considerar modificações pontuais, sem
mos encontrar uma tendência muito generalizada: o acento não ocorre na
consequências ao nível dos padrões acentuais. Assim, podemos concluir
antepenúltima sílaba quando a última é fechada por consoante10 (encon-
que, desde essa época, o sistema acentual do português se mantém inalte-
tramos, no entanto, algumas violações a esta restrição em palavras como
rável no seu funcionamento.
sífilis ou Júpiter).

Aparentemente, esta limitação das possibilidades acentuais está associada


8. A língua francesa constitui uma excepção a esta regularidade, pois estabeleceu um padrão à estrutura de determinadas sílabas. A apresentação feita em (5) pode ser
acentual fixo, consideravelmente diferente do das outras línguas românicas.
9. Michaëlis considera que o próprio termo utilizado para designar a acentuação proparoxítona
revela a estranheza deste padrão acentual. Com efeito, a palavra esdrúxulo, de origem italiana,
deriva de um verbo que significa ‘tropeçar’ e passou a ter em português “a acepção figurada de 10. Estamos a referir-nos apenas às formas de singular das palavras não-verbais, pois, como já foi
esquisito, excêntrico, extravagante” (Michaëlis de Vasconcelos 1956: 62). afirmado, o morfema /s/, que fecha a sílaba final das formas plurais, não afecta a localização do acento.
68 Maria Isabel Pereira Acento latino e acento em português: que parentesco? 69

assim reformulada: a localização do acento fica limitada se uma das duas definir-se essa relação como: as sílabas pesadas atraem o acento. Esta assunção
últimas sílabas da palavra tiver ou o núcleo ou a rima ramificados. não é verificável em português. Vejamos os factos12:
Estas restrições poderiam servir de argumento para uma análise quanti- (6)
tativa do sistema acentual do português, tal como tem sido feito para línguas a. numa forma nominal com índice temático, a penúltima sílaba tem a
mesma probabilidade de ser tónica, tenha ou não rima/núcleo ramificados
com padrões acentuais semelhantes, como o castelhano, por exemplo11. As-
(exemplos: pedaço [pÈ«dasu], desfalque [dÈS«fa:kÈ]);
sim, permaneceriam no português reminiscências do sistema acentual latino b. numa forma nominal sem índice temático, a última sílaba tem a mesma
que, como foi já referido, era de tipo quantitativo, sendo a localização do probabilidade de ser tónica, tenha ou não rima/núcleo ramificados (exem-
acento determinada por factores exclusivamente fonológicos, que não per- plos: café [kå«fE], chafariz [Såfå«|iS]);
mitiam excepções. A quantidade silábica, no latim, é estabelecida pela quan- c. nas formas verbais, não é possível estabelecer qualquer relação entre estru-
tidade vocálica e pela estrutura da rima. A generalidade dos autores reconhe- tura silábica e acento.
ce que o valor fonológico da quantidade vocálica se perde no latim vulgar. Os factos descritos em (6) permitem-nos afirmar que não há uma relação
Mas perder-se-á, por isso, o valor fonológico da quantidade silábica? regular entre a existência de sílabas pesadas próximo do limite direito da palavra
As teorias da sílaba que coexistem na fonologia actual defendem que o e a localização do acento. Consideremos as limitações acentuais atrás referidas.
peso silábico resulta da ramificação do núcleo, da ramificação da rima, ou
Algumas propostas quantitativas do tratamento do acento em portu-
de ambos. Assumem também que a pertinência da noção de peso silábico
guês utilizam como argumento o facto de serem maioritariamente oxítonas
está directamente relacionada com questões acentuais e tonais (geralmen-
as palavras com sílaba final que possui núcleo ou rima ramificados (ex:
te, as sílabas pesadas são aquelas que atraem o acento ou podem receber
herói [i«rOj], pastel [påS«tE:]). Falta, no entanto, generalidade a este facto.
mais do que um tom).
Em primeiro lugar, só se verifica no grupo dos não-verbos, a acentuação
A quantidade vocálica, factor que pode determinar o peso silábico, tem verbal ignora a estrutura das sílabas finais. A descrição da distribuição
como correlato fonético a duração e é independente das questões acentuais. acentual nos verbos exige o recurso a informação de carácter morfológico.
Numa dada língua, só se pode atribuir valor fonológico à duração/quantida- O acento, nas formas verbais, é paradigmático, não pode, em caso algum,
de vocálica se se provar que ela funciona como variável independente no ser atribuído a uma hipotética quantidade silábica, como se pode facil-
sistema fonológico. Em português, o principal correlato fonético do acento mente verificar ao compararmos certas formas:
é a duração. Verifica-se, portanto, que as sílabas tónicas são mais longas do
(7)
que as átonas. A sistematicidade desta relação permite-nos concluir que a
amava [å«mavå] / amávamos [å«mavåmuS]
distinção entre vogais breves e longas, em português, é o resultado da acentua- fizeste [fi«zEstÈ] / fizestes [fi«zEstÈS]
ção, não é o factor que determina a localização do acento. Consideremos falaram [få«la|å)w)] / falarão [fåla«|å)w)]
agora a possibilidade de as sílabas com núcleo ou rima ramificados terem As sílabas finais de amávamos e fizestes são fechadas por consoante, por
um estatuto especial no sistema acentual do português. Como foi referido isso, têm rima ramificada, enquadrando-se na configuração de uma sílaba
atrás, o peso silábico está intimamente ligado às questões acentuais e pode pesada. No entanto, não atraem o acento. Do mesmo modo, a alternância
acentual que se observa em falaram/falarão não pode ser justificada à luz
11. Há estudos sobre o português que defendem que esta língua possui um sistema quantitativo.
Curiosamente, não usam as restrições apresentadas como argumentos para apoiar essa proposta.
Veja-se Bisol 1994a, 1994b; Massini-Cagliari 1994. 12. As transcrições fonéticas referem-se ao português europeu.
70 Maria Isabel Pereira Acento latino e acento em português: que parentesco? 71

de uma fundamentação quantitativa. Tendo uma constituição segmental que se viola a restrição da descida do acento além da penúltima, no caso
idêntica, as diferenças acentuais destas formas não podem ser atribuídas a de esta ser pesada, mas não podemos daí concluir que se trata de uma
qualquer outro factor que não certas propriedades acentuais características prova concludente da vitalidade da regra. Com efeito, sendo o padrão
dos morfemas verbais que as constituem. proparoxítono marcado em português, é normal que não entrem facilmen-
Por outro lado, em português, existem muitos oxítonos (não verbais) te na língua novas formas com esse padrão.
cuja sílaba final não tem rima nem núcleo ramificados e que, no entan- A origem desta limitação acentual radica na especificidade da regra de
to, são casos regulares de acentuação. Vários são os argumentos que se atribuição de acento latina. Sendo esta uma regra sensível à quantidade
podem aduzir em favor do carácter regular deste padrão acentual: por silábica, em que a localização do acento depende da quantidade da penúl-
um lado, muitas dessas palavras são empréstimos (mais ou menos re- tima sílaba, que atrai o acento se for longa, e tendo o português mantido,
centes) e alguns sofreram deslocação acentual relativamente ao origi- na grande maioria dos casos, a sílaba tónica latina, é natural que não se
nal (ex: nazi [na«zi], bangaló [bå)gå«lO]); além disso, continuam a entrar encontre, no vocabulário português de origem latina, proparoxítonos com
com facilidade na língua portuguesa empréstimos com este padrão
a penúltima sílaba pesada. Seria, no entanto, forçado assumir que a língua
acentual (ex: ateliê [åtÈli«e]; por outro lado, a acentuação de acrónimos
portuguesa mantém um princípio quantitativo, em certa medida semelhan-
e hipocorísticos formados por truncamento e por reduplicação mos-
te ao latino, que determina a restrição da janela de duas sílabas.
tram-nos também que este padrão acentual não é irregular (ex: ONU
[O «nu], IBILI [ibi «li]13, Dani [da «ni], Nené [nE «nE]). O carácter regular Em português, observa-se um outro fenómeno com semelhanças flagrantes
deste padrão acentual, assim como a existência de dois sistemas acentuais, com o que acaba de se referir: a limitação acentual a uma janela de duas sílabas
verbal e não-verbal, são fortíssimos argumentos contra uma concepção também se verifica em palavras cuja sílaba final tem o ataque preenchido por
quantitativa do acento do português. consoantes palatais15 ou vibrante múltipla, como mostram os exemplos:
No entanto, o facto de que uma sílaba pesada na última ou penúltima (8)
posição da palavra limita o acento a uma janela de duas sílabas pode ser um a. capricho [kå«p|iSu] b. cigarra [si«gaRå]
orelha [o«re¥å] bezerro [bÈ «zeRu]
argumento poderoso a favor dessa concepção quantitativa. As restrições expos- aranha [å«|å)≠å] cachorro [kå«SoRu]
tas em (5) parecem ter ainda vitalidade no estádio actual da língua e apresen- desejo [dÈ «zåZu] casmurro [kåZ«muRu]
tam um reduzido número de excepções, o que pode apoiar essa hipótese.
Como nos casos observados anteriormente, também nestes a sílaba não
A observação do comportamento de empréstimos recentes ou de recua além da penúltima sílaba. A diferença reside nas condições em que
onomásticos estrangeiros não é muito elucidativa sobre a vitalidade actual esse facto ocorre. Nos exemplos apresentados em (8), não temos uma limi-
da regra, uma vez que se verifica uma grande variação na acentuação de tação acentual aparentemente dependente da estrutura da rima das últi-
empréstimos proparoxítonos com sílabas pesadas numa das duas últimas mas sílabas da palavra, a limitação parece estar ligada à forma de preenchi-
posições da palavra14. É verdade que é reduzido o número de palavras em mento do ataque da penúltima sílaba.

13. ONU é acrónimo de Organização das Nações Unidas, IBILI é acrónimo de Instituto Biomédico (muito) irregulares. Há algumas excepções, no entanto. O topónimo Manchester, por exemplo, é
de Investigação da Luz e Imagem. maioritariamente acentuado como paroxítono.
14. Em português europeu, actualmente, verifica-se uma tendência para manter a acentuação 15. Esta regularidade apresenta um número muito reduzido de excepções: os cultismos hipálage,
original dos onomásticos estrangeiros, mesmo quando se trata de padrões que, em português, são enálage, diálage, apófige, ápage, de origem grega; e os vocábulos de origem latina cônjuge e rémige.
72 Maria Isabel Pereira Acento latino e acento em português: que parentesco? 73

Tal como fizemos anteriormente, também para esta restrição acentual quer função na determinação do peso silábico, não devendo, portanto,
podemos invocar uma origem histórica. As consoantes palatais não exis- determinar a localização do acento dentro da palavra.
tiam em latim, resultam de um processo de evolução fonética complexo e
Assim, os factos relativos à limitação do acento às duas últimas sílabas
heterogéneo que, em muitos casos, simplifica grupos de sons16. A limitação
da palavra resultam de processos de evolução fonética que não julgamos
acentual é justificada por esta simplificação, que implica, geralmente, uma
merecerem uma atenção especial em análise sincrónica. As formas com
reorganização silábica, com perda de uma sílaba da palavra original latina.
consoante palatal ou vibrante no ataque da última sílaba são sempre casos
Assim, mesmo que a forma original fosse proparoxítona [como acontece
de acentuação não-marcada; as formas com sílabas pesadas na última ou
nos exemplos de (8a)], o desaparecimento da penúltima sílaba origina um
penúltima posição podem ser formas acentualmente marcadas (ex: acórdão),
padrão acentual diferente, paroxítono.
mas, geralmente, são não-marcadas (ex: nefasto, lombardo). As regulariza-
O caso das sílabas que preenchem o ataque com vibrante múltipla é ções sobre a acentuação do português podem ser adequadamente formula-
um pouco diferente. Esta consoante tem na sua origem uma sequência de das integrando estes factos sem recurso a uma análise quantitativa.
vibrantes geminadas, que, no processo de silabificação, se incorporam a
Em conclusão, parece-nos forçado assumir que existe ainda, no por-
sílabas diferentes (ex: car-rus). Assim, a penúltima sílaba de palavras em
tuguês, uma reminiscência do princípio quantitativo que determina a acen-
que este grupo ocorre é acentuada porque é longa. Como já referimos, o
tuação latina, pois que:
português herdou as sílabas tónicas das palavras latinas.
(9)
O facto que acabamos de expor tem consequências acentuais em tudo a. o peso silábico não desempenha qualquer função do sistema fonológico
idênticas às do caso anterior (sílabas pesadas na última ou penúltima do português, para além da sua possível influência sobre a distribuição
posição da palavra). No entanto, não podemos atribuir-lhe uma explica- acentual;
ção de carácter quantitativo. Estamos perante um condicionamento pos- b. os factos acentuais que podem apoiar uma concepção quantitativa do
sistema acentual só se verificam nas formas não-verbais, o sistema verbal
sivelmente determinado pelo ataque silábico, que, segundo a maioria dos
manifesta comportamentos que contradizem essas tendências;
fonólogos, não tem qualquer influência sobre o peso silábico, como afir- c. mesmo considerando apenas o sistema acentual não-verbal, o carácter
mam Halle e Vergnaud “in all languages known to us, stress assignment regular dos oxítonos terminados em vogal constitui um forte indício con-
rules are sensitive to the structure of syllable rime, but disregard completely tra a concepção quantitativa do acento;
the character of the onset” (Halle & Vergnaud 1980: 93). Neste caso d. a restrição acentual imposta por uma penúltima sílaba de rima complexa
específico, não estamos sequer a considerar uma estrutura do ataque, pode ser vista como um acaso histórico, paralelo a outros fenómenos, não
quantitativos, que têm um efeito semelhante, enquadrando-se perfeita-
apenas uma questão segmental: se um determinado tipo de segmento
mente, no estágio actual da língua, nas regularidades observáveis, que
ocupar o ataque de uma sílaba específica, verifica-se uma limitação
permitem formulações descritiva e explicativamente adequadas sem refe-
acentual. O conteúdo segmental das consoantes não desempenha qual- rência a princípios quantitativos.

Não sendo o acento em português determinado (sequer parcialmente)


16. O resultado final da evolução do latim para o português é determinado tanto pelos segmentos
pelo peso silábico, vários podem ser os seus princípios estruturantes: pode
envolvidos na transformação fonética, como pelos que lhe são vizinhos, ou ainda pela posição da
sílaba de que fazem parte dentro da palavra. Em posição medial, as consoantes palatais provêm, na ser o reflexo de estruturas meramente rítmicas, ser lexical, ou ser condicio-
maioria dos casos, de grupos de sons que podem ser: i) sequência de uma consoante e uma vogal
ou semivogal palatal (li, e>lh; ni, e>nh; di>j; si>j; si>x); ii) grupo consonântico (pl, cl, fl>ch; pl, cl,
nado pela estrutura morfológica das palavras. Em português, todos esses
fl, bl, gl>lh; gn>nh). factores contribuem para a distribuição acentual dentro da palavra.
74 Maria Isabel Pereira Acento latino e acento em português: que parentesco? 75

Vários são os autores que têm proposto análises dos padrões acentuais semelhantes apresentam diferentes comportamentos: o acento é lexicalmente
do português assentes no condicionamento morfológico17. Essas propostas marcado na forma não-verbal, o que não tem qualquer implicação na acen-
são apoiadas por um argumento muito poderoso: a existência de dois siste- tuação da forma verbal.
mas acentuais, verbal e não-verbal (característica que o português partilha
Deve ainda salientar-se uma outra característica verbal com implicações
com a maioria das línguas românicas). Vejamos algumas das diferenças que
acentuais: a aparente violação da janela de três sílabas. Como as formas ver-
legitimam essa distinção:
bais admitem a inserção de enclíticos, o acento pode encontrar-se à esquerda
(10) da antepenúltima sílaba. Esta é uma propriedade sintáctica dos verbos e a
Não-verbos: violação acentual é apenas aparente, visto que a colocação dos clíticos, sendo
a. apenas os radicais são passíveis de receber acento, os outros
constituintes morfológicos da palavra estão excluídos do processo; sintáctica, é posterior à atribuição do acento, sobre a qual não influi.
b. os morfemas flexionais são sempre átonos e não manifestam
qualquer relevância na atribuição do acento; Os factos aduzidos em (10) são, assim, suficientemente esclarecedores
c. o acento é, dentro de limites restritos, uma propriedade e justificam plenamente a distinção de dois subsistemas acentuais.
idiossincrática dos radicais (ex: cabide [kå«bidÈ] / lápide [«lapidÈ]).
Verbos: Foi já referido que o acento pode ser o reflexo da organização rítmica
a. os radicais não determinam a localização do acento, embora possam da palavra. O exemplo perfeito de um acento puramente rítmico é o acen-
recebê-lo;
to fixo, próximo de um dos limites da palavra, acompanhado de proemi-
b. as características acentuais dos morfemas flexionais determinam a locali-
zação do acento; nências secundárias em sílabas alternadas. Esse padrão é o resultado da
c. o acento verbal nunca é condicionado por propriedades idiossincráticas organização das sílabas em constituintes dentro dos quais se estabelecem
dos radicais, cada tempo/modo tem um padrão acentual característico, relações hierarquizadas de proeminência. O português não apresenta um
que não admite variação(ex: fábrica [«fab|ikå]NV/ fabrica [fa«b|ikå]V;
d. as formas verbais, ao permitirem a cliticização pronominal, permitem padrão desse tipo. No entanto, o facto de o acento se limitar a posições
também que o acento se encontre à esquerda da antepenúltima sílaba, próximas da fronteira direita da palavra, assim como a existência, referida
violando, superficialmente, a restrição da Janela das Três Sílabas (ex: falá- por alguns autores, de proeminências secundárias alternantes, indiciam uma
vamos-te [få«lavåmuStÈ]; cantávamo-vo-lo [kå)«tavåmuvulu].
organização da estrutura acentual determinada também, embora não ex-
Como se pode observar nesta enumeração, os verbos manifestam com- clusivamente, por factores de natureza rítmica.
portamentos substancialmente diferentes dos dos não-verbos. É de realçar,
A marcação lexical do acento, ou seja, a inclusão de informação relati-
sobretudo, o facto de serem os morfemas flexionais, nomeadamente, a vo-
va ao acento na entrada lexical de um morfema é um facto no subsistema
gal temática e o morfema de tempo/modo a determinarem a posição do acentual não-verbal. Os contrastes acentuais que se verificam em exemplos
acento, contrariamente ao que ocorre com os não-verbos, em que a flexão como cabide/lápide só podem ser explicados com recurso a uma justifica-
é inócua relativamente ao acento. Directamente dependente desta, outra ção desse tipo, já que ambas as formas têm uma estrutura segmental idên-
característica que nos parece também relevante é a inexistência de irregu- tica, o mesmo ocorrendo com a estrutura morfológica. As “irregularida-
laridades na acentuação verbal. Com efeito, as idiossincrasias acentuais des” acentuais são marcadas no léxico.
dos radicais não influenciam a localização do acento. Atente-se em exem-
plos como intérprete NV / interprete V, célebre NV / celebre V, em que radicais A existência de uma multiplicidade de factores a determinarem os pa-
drões de acento é comum a muitos sistemas acentuais. Hayes justifica-a do
seguinte modo: “Stress serves multiple purposes: it creates phonemic
17. Propostas deste teor são apresentadas em: Mateus 1983; Andrade & Laks 1992; Andrade 1994;
Lee 1995; Mateus & Andrade 2000. contrasts, marks morphological and syntactic structure, signals the
76 Maria Isabel Pereira Acento latino e acento em português: que parentesco? 77

distribution of focus, and so on (...). Thus many factors compete with rhythm lena Mateus: a sílaba acentuada é a última sílaba do radical (Mateus 1983:
in determining the location and timing of stresses, and the outcome can be 216). No que respeita aos casos marcados, podemos observar que o acento
thought of as a compromise between differing goals” (Hayes 1995: 31). É o se encontra geralmente na penúltima sílaba do radical e, muito raramente,
que ocorre em português, diferentemente do que ocorria em latim, em que na antepenúltima sílaba do radical.
o acento era determinado apenas por um factor.
Uma outra particularidade acentual dos não-verbos merece atenção: o
comportamento dos sufixos derivacionais. Quando se refere que o acento
regular não-verbal incide sobre a última sílaba do radical, não se faz distin-
5. REGRAS DE ACENTUAÇÃO EM PORTUGUÊS ção entre radical simples e derivado, pois têm ambos o mesmo comporta-
5.1. Não-verbos mento. A inserção de um sufixo derivacional “normal” interfere na locali-
zação do acento da palavra, já que ocupa um lugar no limite direito do
Assumimos atrás que, em português, a localização do acento é, pelo radical. Existem, porém, sufixos com comportamentos acentuais diferen-
menos parcialmente, condicionada pela estrutura morfológica da palavra. tes. Alguns são sistematicamente inacentuados, fazendo recuar o acento
Assim, desconsiderando as controvérsias existentes sobre o estatuto dos para a sílaba que imediatamente os precede (ex: róseo, dobragem, anémico,
constituintes, consideramos a seguinte forma canónica para os não-verbos: possível), outros, sendo polissilábicos, recebem o acento na sua sílaba mais
(11) à esquerda, dando origem a padrões marcados (ex: preparatório, felicíssimo,
RADICAL + ÍNDICE TEMÁTICO + NÚMERO alimentício, calvície, penugem). Esta sistematicidade no comportamento
Tendo em conta esta composição morfológica, e ignorando a discus- acentual dos sufixos é independente das características dos radicais a que se
são sobre as classes temáticas em português, com pouca relevância para juntam. Justifica-se, por isso, que se considere que estes sufixos são
esta questão, assumimos que as palavras não-verbais do português se distri- lexicalmente marcados. Em qualquer caso, porém, o acento não-verbal
buem por duas classes: as que possuem índice temático e as que não o concerne apenas o radical.
possuem. Esta classificação permite-nos extrair as regularidades acentuais Os factos descritos permitem uma tradução para a linguagem formal
fundamentais e é legitimada pelos diferentes comportamentos evidencia- do modelo métrico de Idsardi, que consiste no seguinte conjunto de
dos pelas formas de cada uma dessas classes. especificações paramétricas:
A observação dos dados do português permite-nos uma estrita identifi- (12)
cação dos casos marcados e não-marcados. Assim, constituem casos não- Parâmetros de acentuação não verbal
Domínio acentual: radical derivacional
marcados de acento não-verbal em português: as palavras com índíce Acentuação regular:
temático acentuadas na penúltima sílaba (ex: odalisca [odå«liSkå]) e as pa- Linha 0 PML: EED CIC: E Cabeça: E
lavras acentuadas na última sílaba (ex: maracujá [må|åku «Za], chafariz Linha 1 PML: DDD Cabeça: D
Acentuação marcada:
[Såfå«|iS]. São casos marcados: as palavras com índice temático acentuadas Linha 0 PML: n.a. CIC: E Cabeça: E
na antepenúltima sílaba (ex: súplica [«suplikå]), as palavras sem índice Linha1 PML: DDD Cabeça: D
temático acentuadas na penúltima sílaba (ex: fácil [«fasi:]) e as palavras sem Linha 0 PML: DED CIC: E Cabeça: E
Linha 1 PML: DDD Cabeça: D
índice temático acentuadas na antepenúltima sílaba (ex: sífilis [«sifÈliS]). Tendo
em conta estes factos, a formulação mais adequada para a regularidade A parametrização proposta para os casos regulares de acentuação
acentual não-verbal parece-nos ser aquela que foi proposta por Maria He- permite um tratamento adequado e homogéneo para todos os casos de
78 Maria Isabel Pereira Acento latino e acento em português: que parentesco? 79

acentuação “normal”. A aplicação do PML resulta na inserção de um Podemos verificar que todos os casos de acentuação não-verbal estão
parêntesis que marca o limite esquerdo de um constituinte definido na fron- contemplados na parametrização proposta.
teira direita do radical derivacional, estabelecido como domínio de aplica-
ção do acento. É esta especificação do PML o principal garante da atribui-
5.2. Verbos
ção do acento à última sílaba do radical derivacional, esteja ela na última
ou na penúltima posição da palavra. Vejamos a aplicação: O acento verbal em português apresenta aspectos mais complexos do
(13)
que o acento não-verbal, pois não permite a formulação de regularidades
Linha 2 x x x abrangentes. Nos verbos, tal como nos não-verbos, podemos observar uma
Linha 1 x) x x) x x) limitação da localização do acento às três últimas sílabas da palavra (os
Linha 0 x (x (x x (x (x x (x
casos de cliticização só aparentemente violam esta restrição). Também neste
pedaç ] chafariz ] faraó ]
grupo, a acentuação paroxítona é a mais frequente e a proparoxítona a
Nos casos marcados, encontramos duas possibilidades: as palavras menos frequente. No entanto, não parece adequado formular generaliza-
acentuadas na penúltima sílaba do radical e aquelas (em número muito ções relativamente ao acento verbal com base na distinção entre casos
reduzido) que são acentuadas na antepenúltima sílaba do radical. A marcados e casos não-marcados, fixados a partir das frequências de ocor-
marcação das primeiras é feita, de forma muito simples, através da in- rência. Com efeito, num dado paradigma modo-temporal, a sílaba tónica
formação de que o PML não se aplica, sendo a localização do acento das várias formas pode ocupar diferentes posições relativamente ao limite
obtida através da aplicação normal dos restantes parâmetros. Refira-se direito da palavra, sem que se possa dizer que um desses padrões é marca-
que a mesma estratégia é seguida para marcar os sufixos derivacionais do. Se tomarmos como exemplo o Pretérito Imperfeito do Indicativo, veri-
com comportamentos acentuais particulares. Observe-se o resultado da ficamos que todas as formas são acentuadas na penúltima sílaba, excepto a
aplicação dos parâmetros: 1ª pessoa do plural (falávamos). Não podemos, no entanto, considerar
(14) essa forma acentualmente irregular. Pelo contrário, a observação atenta
Linha 2 x x dos dados mostra-nos que, nas formas verbais que não são paroxítonas o
Linha 1 x) x) acento está sempre associado a determinados morfemas verbais, de forma
Linha 0 (x x (x x
súplic]a âmbar]
regular dentro de cada paradigma modo-temporal. Daí que as regularida-
PML: n.a. des acentuais verbais sejam mais adequadamente formuladas com referên-
cia aos seus constituintes morfológicos.
Para os casos em que o acento se encontra na antepenúltima sílaba do
radical, que podemos considerar irregularíssimos, é necessária uma A forma canónica das estruturas verbais é a seguinte:
especificação especial do PML (DED), como a que propusemos em (12ii), (16)
que exclui a última sílaba da computação métrica, construindo um consti- RADICAL + VOGAL TEMÁTICA + TEMPO/MODO+PESSOA/NÚMERO
tuinte binário de cabeça à esquerda, como acontece em:
Com vista à definição das generalizações pertinentes, considerem-se as
(15) formas dos diferentes tempos/modos dos verbos regulares das três conjuga-
Linha 2 x
ções. A observação dos tempos do presente mostra-nos que o acento pode
Linha 1 x)
Linha 0 (x x) afectar uma sílaba do radical (1ª, 2ª e 3ª PS e 3ª PP), a VT (1ª e 2ª PP do
Júpiter] Presente do Indicativo) ou o morfema TM (1ª e 2ª PP do Presente do Conjun-
80 Maria Isabel Pereira Acento latino e acento em português: que parentesco? 81

tivo). Porém, na forma fonética de superfície, ele encontra-se sempre na pe- Sintetizando, as regularidades acentuais verbais envolvem três princí-
núltima sílaba da palavra. Nos tempos do passado, o acento afecta a VT, pios diferentes e podem ter a seguinte formulação:
independentemente da posição em que se encontra a sílaba em que ela se
(18)
integra. Na maioria dos casos, os padrões são paroxítonos, mas ocorrem tam- a. acentuar o TM do Futuro e do Condicional;
bém oxítonos (1ª e 3ª PS do Pretérito Perfeito) e proparoxítonos (1ª PP do Im- b. acentuar a VT, se estiver seguida de morfema de TM;

perfeito do Indicativo, do Imperfeito do Conjuntivo e do Pretérito Mais-que- c. nos outros casos, acentuar a penúltima sílaba.
perfeito). Nos tempos do futuro, os comportamentos acentuais são significa- Estas regularidades acentuais são adequadamente descritas através das
tivamente diferentes. No Futuro do Indicativo e no Condicional, a sílaba seguintes especificações paramétricas:
acentuada incide sobre o morfema de TM, podendo encontrar-se na última ou
(19)
penúltima posição na palavra (Futuro) e na penúltima ou antepenúltima (Con-
Parâmetros de acentuação verbal
dicional). Estas particularidades acentuais coadunam-se com a complexida- Domínio acentual: palavra
de estrutural destes paradigmas, reflexo da sua origem e evolução histórica. Linha 0 i) TM]Fut., Cond – PML: EEE
ii) VT – PML: EEE
As formas não flexionadas do português, assim como o Infinitivo Pes- Condição: VT/___+TM
soal e o Futuro do Conjuntivo apresentam a mesma regularidade acentual: iii) CIC: E
Cabeça: E
a sílaba tónica é a que integra a VT e pode encontrar-se na última ou penúl- Linha 1 PML: DDD
tima posição da palavra. Cabeça: E

Dos dados descritos, podemos extrair alguns factos recorrentes: As especificações acima definidas dão-nos conta da complexidade
acentual verbal que já referimos. O subsistema acentual verbal manifesta três
(17)
a. as formas do Futuro do Indicativo e do Condicional recebem o acento no regularidades paralelas obtidas a partir das três possibilidades paramétricas
morfema de tempo/modo; propostas para a Linha 0. Deve salientar-se que esta proposta se enquadra
b. na maioria das formas verbais, o acento incide sobre a Vogal Temática; numa concepção lexical da organização da gramática e que se assume que as
c. quando não se observa nenhum dos casos anteriores, o acento afecta a regras do acento verbal são regras lexicais, não-cíclicas, que se aplicam uma
penúltima sílaba da palavra.
só vez, após a inserção dos morfemas flexionais verbais, estando as
As condições em que se acentua regularmente o morfema de TM estão especificações das alíneas (19 i, ii, iii) disjuntivamente ordenadas. Note-se
devidamente definidas: nas formas de Futuro do Indicativo e do Condicio- ainda que, contrariamente ao que ocorre com os não-verbos, o domínio
nal. O facto enunciado em 17(c) pode ser considerado como caso default, acentual é a palavra, especificação determinada pelo facto de que os morfemas
pois que se aplica quando não há outras condicionantes. Resta-nos estabe- flexionais desempenham um papel fundamental na atribuição do acento.
lecer em que condições se verifica a acentuação da VT, caso mais frequente A aplicação de (19) aos exemplos verbais gera as seguintes grelhas:
de acentuação verbal. Uma observação atenta permite constatar que a acen-
tuação da VT está associada à presença de um morfema de TM. Na verdade, (20)
Linha 2 x x x
as formas em que este morfema está presente (Pretérito Imperfeito do Linha 1 x) x) x)
Indicativo, Pretérito Imperfeito do Conjuntivo, Pretérito Mais-que-perfei- Linha 0 x x (x x x (x x x x (x x
to, Infinitivo Pessoal, e formas não flexionáveis) são acentuadas na VT18. fal+a+re+i fal+a+va+mos fal+e+mos

Nos diferentes exemplos de (20) aplicam-se as três parametrizações da


18. Para uma justificação de casos problemáticos, cf. Pereira 1999. Linha 0, uma vez que, em cada uma das formas se encontra um dos contex-
82 Maria Isabel Pereira Acento latino e acento em português: que parentesco? 83

tos de aplicação das diferentes especificações. A utilização deste aparelho troduzir na grelha informação sobre a estrutura silábica; o português projecta
formal, tal como foi definido em (19), permite uma descrição adequada apenas marcas, mas introduz na parametrização informação de carácter
dos factos empíricos. morfológico, quer na definição dos domínios acentuais, quer na definição
de condições de aplicação de certas regras.
Não devemos esquecer a questão, atrás referida, da acentuação das
formas cliticizadas, que parecem constituir uma violação a uma das gene- Certas características foram mantidas, no entanto, no processo evolutivo.
ralizações mais óbvias da acentuação do português: a limitação do acento Por um lado, o português confina a localização do acento às três últimas
às três últimas sílabas da palavra. Esta violação é, no entanto, apenas apa- sílabas da palavra, tal como o latim, o que é dado formalmente por idênti-
rente. O processo de cliticização é de natureza sintáctica, sendo, portanto cas especificações paramétricas da Linha 1. Por outro lado, latim e portu-
pós-lexical. Daí que a adjunção de um clítico a uma forma verbal não guês partilham uma outra característica fundamental: as relações de proe-
altere a localização da sua sílaba tónica (ao contrário do que ocorria em minência dentro do pé métrico. Nas duas línguas, o pé básico é o troqueu,
latim), mesmo que sejam criadas sequências átonas de difícil articulação. de predominância à esquerda, quantitativo em latim (troqueu moraico),
não-quantitativo em português (troqueu silábico). Ao nível dos princípios,
é nisto que assenta o parentesco.
6. CONCLUSÃO
O cotejo dos sistemas acentuais do latim e do português mostra-nos
que estamos perante dois sistemas muito diferentes, decorrendo essa dife-
rença sobretudo do facto de um deles apresentar um padrão de natureza
quantitativa, o que não ocorre com o outro. É, aliás, a perda do valor
fonológico da quantidade da língua latina que origina as grandes diferen-
ças que se observam entre as duas línguas. Sem o princípio estruturador do
sistema, a evolução ficou sujeita a variados condicionalismos históricos,
que resultaram no sistema actual do português. Assim, de uma regra sem
excepções assente num único princípio, de natureza fonológica, passámos
a um conjunto de regularidades, com excepções, dependentes de princí-
pios de natureza diversa. O acento português difere do latino em vários
factores: possui dois subsistemas, com funcionamentos consideravelmente
diferentes; o condicionamento morfológico é um dos princípios mais im-
portantes na determinação da posição do acento; possui formas lexicalmente
marcadas quanto ao acento; no sistema verbal, há regras acentuais que
concorrem entre si; possui morfemas derivacionais com comportamentos
acentuais específicos; resolve diferentemente o processo de cliticização.

Estas diferenças exigem um tratamento formal distinto, em que o ele-


mento principal dessa diferenciação reside na forma como se desencadeia
o mecanismo de projecção: o latim projecta marcas e parêntesis, para in-
CAPÍTULO 5

DAS CADÊNCIAS DO PASSADO:


O ACENTO EM PORTUGUÊS
ARCAICO VISTO PELA TEORIA
DA OTIMALIDADE
GLADIS MASSINI-CAGLIARI*

1. INTRODUÇÃO

C
omo desde sempre apontaram os estudos filológicos e desde
cedo mostraram os trabalhos em fonologia, o acento lexical,
como contexto de força, resiste mais fortemente a mudan-
ças, sendo a sua localização, até os dias de hoje, o ponto de aproximação
do ritmo, por um lado, entre latim e português, e, por outro, entre Portu-
guês Europeu (PE) e Português Brasileiro (PB). Sendo o Português Arcaico
(PA) o ponto medial entre esses extremos temporais, e sendo crucial a impor-
tância do posicionamento do acento lexical para a constituição da prosódia
de uma língua, uma vez que é a base de seu ritmo, o objetivo deste trabalho
é investigar o posicionamento do acento em português no seu período medie-
val trovadoresco, na perspectiva da teoria da otimalidade (OT).

A origem e a história dos fenômenos prosódicos da nossa língua, e sua


relação com os fenômenos segmentais, representam um assunto ainda, na

*
Departamento de Lingüística, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Araraquara/CNPq.
86 Gladis Massini-Cagliari Das cadências do passado: o acento em português arcaico visto pela teoria da otimalidade 87

sua maior parte, inexplorado. Desta forma, o presente capítulo preten- trata-se de versos agudos [Michaëlis de Vasconcelos (1912-13: 63, 399)].
de descrever um fenômeno prosódico específico de um ponto estratégi- Embora tal fato possa aparentemente sugerir para o PA um ritmo predo-
co do contínuo temporal do português. Assim, quando forem descritos minantemente iâmbico, Michaëlis de Vasconcelos (1912-13: 63) diz
mais pontos pretéritos ao longo desse contínuo, talvez seja possível es- que “isso não corresponde de maneira alguma ao organismo verdadeiro
boçar a história da evolução dos fenômenos prosódicos ao longo da do idioma”, sendo um reflexo da “estética rudimentar dos trovadores”.
história da nossa língua. Para ela, nos gêneros populares, quando os poetas se afastam dos mo-
delos franceses e provençais, surgem rimas graves, “em harmonia com o
carácter da língua”.
2. ACENTO EM PORTUGUÊS ARCAICO: ABORDAGENS TRADICIONAIS
Em geral, a vasta bibliografia que se desenvolveu sobre o PA concentra-
3. METODOLOGIA
se dos fins do século XIX até meados do século XX, sendo herdeira da
tradição de estudos filológico-lingüísticos própria ao “historicismo O corpus da presente pesquisa é composto de 1.233 cantigas medie-
oitocentista” (Mattos e Silva 1991: 46). Por este motivo, são raras, nessa vais galego-portuguesas profanas e religiosas, assim distribuídas: as 310
bibliografia, afirmações a respeito da prosódia dessa época. cantigas de amor contidas no Cancioneiro de Ajuda (A) (cf. Michaëlis de
Vasconcelos 1904), todas as 503 cantigas de amigo contidas no Cancio-
Quanto à localização do acento, os poucos autores que tratam do as-
neiro da Biblioteca Nacional de Lisboa (B) (cf. a edição de Nunes 1973)
sunto concordam em que o PA possuía uma grande quantidade de palavras
e todas as 420 Cantigas de Santa Maria (CSM) (segundo Parkinson 1998:
paroxítonas e oxítonas, mas discordam quanto à existência de proparoxítonas.
189). As cantigas foram lidas a partir das edições fac-similadas que os
Os que trataram de corpora fechados (como Nunes 1972, 1973, por exem-
cancioneiros de que foram retiradas receberam: a de 1994, da Távola
plo), principalmente compostos de textos poéticos, só puderam encontrar
Redonda, para o Cancioneiro da Ajuda (A); a de 1982, da Imprensa Na-
paroxítonos e oxítonos. Já os que fazem afirmações mais generalizantes,
cional — Casa da Moeda, para o Cancioneiro da Biblioteca Nacional de
admitem a existência de proparoxítonos, porém raros [Michaëlis de Vas-
Lisboa ( B ). Já, no caso das CSM , foram consultadas duas edições fac-
concelos (1912-13: 62), Teyssier (1987: 24)].
similadas — a 2003, para o manuscrito de Toledo (To) e a de Anglés
Em relação às alterações de posicionamento do acento do latim ao PA, (1964), para o códice dos músicos — Escorial ( E ) —, além de dois
chama a atenção dos estudiosos a “tendência de transformar proparoxítonas microfilmes, para os códices Escorial rico (T) e de Florença (F), além da
latinas em paroxítonas”, apontada por Michaëlis de Vasconcelos (1912-13: edição crítica de Mettmann (1986, 1988, 1989).
61), que atribui aos vocábulos esdrúxulos um “quid estranho, estrambótico”,
O presente trabalho segue a metodologia inaugurada em Massini-
no português daquela época. Essa tendência de “evitar proparoxítonos” no
Cagliari (1995). Por ser a rima em poesia metrificada a posição mais proe-
PA é também apontada por Nunes (1969: 68) e Bueno (1955: 30).
minente do verso, serão observadas todas as palavras que ocorrem nessa
Em relação ao ritmo do PA, de maneira mais geral, as informações posição no conjunto de cantigas analisadas, de modo a mapear todos os
coletadas nos estudos tradicionais são ainda mais escassas. A maior par- padrões (isto é, oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas) ocorrentes. Sendo
te das observações diz respeito a afirmações de Michaëlis de Vasconce- a estrutura métrica de textos poéticos obrigatoriamente alicerçada nas ca-
los sobre o Cancioneiro da Ajuda. Segundo essa autora, a grande maio- racterísticas rítmicas da língua que a ela dá suporte (cf. Abercrombie 1967,
ria dos versos desse Cancioneiro termina em palavras oxítonas, isto é, Cagliari 1981, 1984, Lehiste 1985, 1990), a focalização da posição de
88 Gladis Massini-Cagliari Das cadências do passado: o acento em português arcaico visto pela teoria da otimalidade 89

rima é importante, na medida em que se trata de uma proeminência rítmi- versos são construídos a partir (e jamais ao contrário) do ritmo lingüístico
ca, em nível lexical, reforçada em nível frasal, uma vez que, a exemplo do do idioma que lhes dá suporte, é a investigação do aproveitamento estilístico
PB, também no PA o último acento lexical constitui a principal proeminência das terminações graves e agudas (e nunca esdrúxulas) nessa posição de
rítmica do enunciado. Assim sendo, as proeminências lexicais nessa posição destaque que revela a tendência rítmica do PA.
são facilmente identificáveis e classificáveis, devido ao reforço que recebem,
Fonte versos versos Total
em nível rítmico. A posição de rima em versos metrificados constitui, portan- graves agudos
to, a posição ótima para a observação dos padrões de acento lexical, em um
Cantigas profanas:
período da língua para o qual não se possuem registros orais. Cancioneiro da Ajuda 3.652 6.216 6.868
Cancioneiro da Biblioteca
Além disso, glossários e vocabulários dedicados à língua dessa época são Nacional de Lisboa 3.185 5.720 8.905
fonte importante de informação a respeito dos limites de possibilidades do
Total (cantigas profanas) 3.837 (8,1%) 11.936 (25,3%) 15.773 (33,4%)
léxico (por exemplo, quanto a padrões possíveis de acentuação, mas menos
freqüentes, que, por esse motivo, podem não ter ocorrido no recorte do corpus Cantigas religiosas:
Cantigas de Santa Maria 16.539 (35%) 14.956 (31,6%) 1.495 (66,6%)
imposto pela metodologia). Foram consultados os glossários de Michaëlis
de Vasconcelos (1920) e Nunes (1973: 575-704, vol. III), o Índice Onomástico TOTAL 20.376 (43,1%) 26.892 (56,9%) 47.268 (100%)
e o Vocabulário de Lapa (1970), o Glosario de Mettmann (1972, 1989) e o Tabela 1: Tipo do verso, quanto à sua terminação
Lessico in Rima de Betti (1997), como fontes secundárias de informação.
Uma comparação entre os valores absolutos das ocorrências de cada
tipo de verso no corpus considerado pode levar à errônea conclusão de que
as oxítonas, ou o ritmo iâmbico, seja o padrão acentual canônico no PA,
4. ANÁLISE DOS DADOS: TIPOS DE VERSO dada a sua prevalência (56,9%, cf. tabela 1). Já Michaëlis de Vasconcelos
Observando a pauta acentual da última palavra de cada verso, pôde-se (1912-13: 63) alertava para o fato de que “isso não corresponde de manei-
constatar que os dois únicos padrões encontrados em posição de rima, no ra alguma ao organismo verdadeiro do idioma”. Em Massini-Cagliari (1995,
recorte da lírica medieval considerado, são as paroxítonas e as oxítonas — 1999), tive a oportunidade de investigar aprofundadamente o assunto, che-
tabela 1. Quando o verso acaba em uma palavra paroxítona, é dito “grave” gando à confirmação da intuição da renomada filóloga, a partir da obser-
(ou “feminino”); quando termina em uma oxítona, é “agudo” (ou “mascu- vação da maneira como os poetas da época consideravam na metrificação
lino”) —Pena (2000: 43-44). as sílabas átonas finais de verso.

O que a análise da relação entre o padrão de verso (grave ou agudo) e Com relação à consideração da terminação grave ou aguda dos versos,
o tipo de palavra, quanto à pauta acentual (oxítona, paroxítona ou proparoxí- há três possibilidades básicas de combinação: construir um poema inteira-
tona) que aparece na posição proeminente do verso revela é que, nessa mente com versos agudos, construí-lo apenas com versos graves, ou alter-
posição de relevo rítmico no verso, os únicos padrões possíveis são as nar versos graves e agudos. Como foi possível comprovar em Massini-Cagliari
paroxítonas e as oxítonas. Em outras palavras, não há proparoxítonas em (1995, 1999), há duas estratégias de metrificação diferentes que co-ocor-
posição de rima. Esta constatação confirma o caráter marginal — fora do rem na lírica medieval profana galego-portuguesa, quanto à consideração
“espírito” da língua — desse padrão prosódico, considerado como “estra- das sílabas átonas de final de verso. Na primeira estratégia, todas as sílabas,
nho”, “estrambótico” por Michaëlis de Vasconcelos (1912-13: 61). Sendo inclusive as átonas do final, fazem parte da estrutura métrica do verso —
a posição de rima o foco prosódico por excelência do verso, e sendo que os isto é, são consideradas, na contagem das sílabas poéticas do verso. Neste
90 Gladis Massini-Cagliari Das cadências do passado: o acento em português arcaico visto pela teoria da otimalidade 91

caso, um verso agudo de n sílabas corresponde a um verso grave de n-1 profana quer religiosa, quando há alternância entre versos graves e agu-
sílabas. Esse fenômeno ficou conhecido como lei de Mussafia1. Já na se- dos, apesar de haver, no conjunto de cantigas profanas, uma preferên-
gunda estratégia de versificação, as sílabas poéticas são contadas à moda cia pela estratégia conhecida como lei de Mussafia, isto é, pela consi-
atual, desconsiderando as átonas de final de verso. Neste caso, versos agu- deração das átonas de final de verso como participantes da estrutura
dos e graves têm a mesma quantidade de sílabas poéticas, mas os versos métrica do poema, enquanto nas cantigas religiosas essa estratégia apa-
graves têm uma sílaba fonética a mais, depois do acento final. Massini- rece menos do que a outra, em que as átonas finais são desconsideradas
Cagliari (1999: 156) mostra que a primeira estratégia predomina sobre a na contagem das sílabas poéticas.
segunda (45,5% contra 25,4%)2.
Estratégias de metrificação, Quantidade de can- Quantidade de
A presente pesquisa reviu a análise de Massini-Cagliari (1995, 1999) quanto à consideração das tigas: lírica profana cantigas nas CSM
para as cantigas de amigo, estendendo-a, com base na mesma metodologia sílabas átonas finais de verso (percentagem) (percentagem)
utilizada nesses trabalhos anteriores, para os corpora de cantigas de amor Somente versos graves 127 (15,7%) 164 (39%)
(Cancioneiro da Ajuda) e de cantigas religiosas (Cantigas de Santa Ma-
Alternância entre versos
ria). A tabela 2 mostra os resultados obtidos, que revelam a presença das graves e agudos
mesmas estratégias de metrificação observadas anteriormente nas cantigas
a. A última sílaba átona faz parte 91 (11,2%) 21 (5%)
de amigo também nas cantigas de amor3 e nas religiosas. da estrutura métrica do verso (lei
de Mussafia)
Como mostra a tabela 2, a alternância entre versos graves e agudos
b. A última sílaba átona não faz 80 (9,9%) 61 (14,5%)
é também uma estratégia de versificação disponível aos trovadores me-
parte da estrutura métrica
dievais, presente tanto na lírica profana como na religiosa. A este res- do verso
peito, em Massini-Cagliari (1995, 1999), comprovamos quantitativa-
c. Não é possível determinar se a 24 (3%) 22 (5,3%)
mente, para as cantigas de amigo, o que Nunes (1972: XLVII -XLVIII ) já última sílaba átona faz parte ou
apontara para as cantigas de amor de sua coletânea, que a estratégia de não da estrutura métrica do verso
alternar tipos de verso subdivide-se em duas, uma vez que o poeta pode Subtotal 195 (24,1%) 104 (24,8%)
adotar procedimentos de metrificação diferentes, quanto à considera-
Somente versos agudos 489 (60,2%) 152 (36,2%)
ção ou não da sílaba átona de final de verso, na contagem do total de
TOTAL 811 (100%) 420 (100%)
sílabas poéticas do verso. Com a análise de dados aqui desenvolvida, foi
possível comprovar que essas duas diferentes estratégias quanto à átona Tabela 2: Tipos de cantiga, quanto à estrutura métrica dos versos

final de verso estende-se a toda a lírica medieval galego-portuguesa, quer No conjunto de cantigas profanas, mas sobretudo nas de amigo, po-
dem ser encontradas diversas cantigas em que os versos alternantes graves e
1. Cunha (2004: 88) define a lei de Mussafia (1896) como “a correspondência de versos metrica-
agudos têm o mesmo número de sílabas aritméticas, mas não o mesmo
mente distintos, mas aritmeticamente iguais quanto ao número de sílabas”. A respeito da lei de número de sílabas poéticas (segundo nosso padrão atual de contagem), já
Mussafia, veja-se Massini-Cagliari (1999: 57-59) e as obras aí referidas.
2. Os 29,1% faltantes para inteirar os 100% dizem respeito a casos em que, apesar de haver
que, até a última sílaba tônica lexical do verso, os versos graves teriam uma
alternância entre versos graves e agudos, é impossível saber se o trovador considera ou não as átonas sílaba a menos. Neste caso, versos agudos de n sílabas equivalem a versos
finais na contagem das sílabas poéticas.
graves de n-1 sílabas. Em (1), como exemplo dessa estratégia de contagem,
3. Na tabela 2, os dados relativos às cantigas de amor encontram-se somados aos dados das cantigas
de amigo, formando o grupo rotulado como “cantigas profanas”. encontram-se reproduzidas a segunda e a terceira estrofes da cantiga B704,
92 Gladis Massini-Cagliari Das cadências do passado: o acento em português arcaico visto pela teoria da otimalidade 93

de Fernan Fernandez Cogominho, conforme a versão de Nunes (1973: O fato de poder haver alternância entre versos graves e agudos e de
123-124, vol. II)4. coexistirem duas estratégias opostas de versificação quanto às sílabas áto-
(1)
nas de final de verso é de crucial importância, porque fornece pistas na
Enquanto falades migo, (7*) direção do estabelecimento do padrão rítmico básico do PA, ou seja, do pé
dizede, se vos venha ben, (8) rítmico que serve de base à localização do acento lexical.
se vos disse novas alguen (8)
dos que el-rei levou sigo: (7*) Como foi dito anteriormente, uma análise superficial dos dados pode-
se se veen ou se x’estam (8) ria levar à errônea conclusão de que o padrão canônico do PA é o iambo,
ou a que tempo se verram. (8)
realizado plenamente, em nível lexical, nas palavras oxítonas, uma vez que,
Daria mui de coraçon (8) nas cantigas de amor, há um predomínio absoluto de versos agudos; mes-
que quer que aver podesse (7*) mo nos dados provenientes das cantigas de amigo, embora o predomínio
a quen mi novas dissesse (7*)
de versos agudos não seja tão marcante quanto nos dados provenientes de
del-rei e dos que con el son: (8)
se se veen ou se x’estam (8) A, é ainda bastante claro. No entanto, nas cantigas religiosas, há um leve
ou a que tempo se verran. (8) predomínio de versos graves, o que, em termos de pé rítmico básico, com-
bina mais com o padrão trocaico.
Já no exemplo (2), em que aparecem as duas primeiras estrofes da
CSM200, segundo a versão de Mettmann (1988: 242-243), todos os versos Em Massini-Cagliari (1995, 1999), considerei que os indícios na dire-
possuem a mesma quantidade aritmética de sílabas poéticas até a tônica ção de dois tipos rítmicos diferentes coexistindo naquela época são muito
final, desprezadas as sílabas átonas de final de verso. débeis e facilmente falseáveis. O argumento mais contundente a esse res-
(2) peito é o fato de essas estratégias de versificação distintas quanto à conside-
Ca, ontr’os que oge nados ração das átonas finais serem adotadas pelo mesmo trovador, em poemas
son d’omees muit’onrrados, diferentes, mas do mesmo tipo (todas cantigas de amigo). Embora não se
a mi á ela mostrados
mais be)es, que contarei. possa saber com certeza quais os autores das 420 CSM (porque são todas
Santa Maria loei atribuídas a Afonso X), foi possível verificar que o mesmo se verifica no
Ca a mi de bõa gente
corpus das cantigas de amor (isto é, o mesmo trovador utilizando-se das
fez v«r dereitamente duas estratégias opostas de versificação).
e quis que mui chãamente
reinass’ e que fosse rei. Ora, como um mesmo falante não pode ficar variando a tipologia rít-
Santa Maria loei mica conforme a situação, conclui-se que se trata de uma única e mesma
Na tabela 2, foram separados, dentre os exemplos de poemas em que língua a utilizada nas vertentes religiosa e profana da lírica medieval, que,
se alternam versos graves e agudos, os casos em que não é possível determi- por sua vez, dá suporte a versos construídos a partir de mais de uma estra-
nar se a última sílaba átona faz parte ou não da estrutura métrica do verso. tégia de versificação. Sendo assim, é preciso verificar qual tipo de pé rítmi-
co básico é capaz de estruturar as diferentes estratégias versificatórias
adotadas pelos trovadores medievais.
4. No exemplo (1), o algarismo entre parênteses representa a quantidade total de sílabas poéticas do
verso, segundo o costume atual de contagem (que despreza a átona final). No caso dos versos
Em Massini-Cagliari (1999: 164), mostrei que apenas um ritmo trocaico
graves, em que (supostamente) há uma sílaba poética a menos, esse algarismo aparece marcado
com um asterisco. possibilitaria a coexistência de estratégias versificatórias que ora conside-
94 Gladis Massini-Cagliari Das cadências do passado: o acento em português arcaico visto pela teoria da otimalidade 95

rassem, ora não, as sílabas átonas finais na contagem de sílabas poéticas. travada por consoante ou contendo um ditongo decrescente no núcleo) —
Embora ambas as estratégias de metrificação considerem o mesmo nível exemplos: amor, prazer, virgeu, pastor, Portugal, enton, mortal, coraçon, solaz,
prosódico (a sílaba) como nível de segmentação e contagem (daí resulta a Dinis, sandeu etc. Enquadram-se também nesse padrão as palavras paroxítonas
contagem de todas as sílabas, inclusive a átona final), elas escolhem níveis terminadas em sílaba leve precedida por uma sílaba pesada (padrão que in-
prosódicos diferentes como nível de delimitação do verso. Em outras pala- clui tanto as sílabas travadas por consoante como as sílabas contendo um
vras, ambas as estratégias elegem a sílaba como nível prosódico de conta- ditongo decrescente) — exemplos: alto, alva, semellança, grande, quebran-
gem, mas a estratégia que considera as sílabas átonas finais na contagem (lei to, Patriarcha, santa, guarda, carta, verdadeira, mandadeiro, fazenda, ende,
de Mussafia) mantém-se nesse mesmo nível para a delimitação do verso (o cousimento, festa, forte, morto, mouro etc. São também consideradas nesse
que faz com que a última sílaba do verso, mesmo que sendo átona, constitua padrão as paroxítonas terminadas em sílaba leve precedida por consoante
o limite final desse verso). Já a outra estratégia, a que conta as sílabas poéticas nasal ou lateral palatal —exemplos: maravilha, batalla, consello, agulla,
unicamente até a última tônica do verso, sobe para o nível do acento lexical Espanna, manha, sanha, parella, fillo, Reinna, vergonna, falla, fremosinha
(em outras palavras, o da palavra fonológica), para a delimitação do verso; etc. —, uma vez que Massini-Cagliari (2005a: 92-93) e Somenzari (2006)
dessa forma, o limite final do verso corresponde à última sílaba tônica. levantam evidências a favor da consideração das consoantes /¯/ e /¥/ como
Por outro lado, caso se verificasse no PA uma tendência rítmica iâmbica, complexas, com base na hipótese de Wetzels (2000) para o PB. Seguem tam-
não haveria possibilidade de consideração das sílabas átonas finais como bém esse padrão as palavras irmãa, louçãa, mão, pagão, romão, fe)o, meny)a,
integrantes do verso, quer se focalizasse a sílaba, quer a palavra fonológica, camy)o, bõa, algu)a etc., em que figuram palavras terminadas em hiato forma-
como nível de delimitação do verso, uma vez que essa sílaba átona final já do por vogal nasalizada seguida de vogal oral. Sendo a vogal nasalizada
não teria condições de ser segmentada, no primeiro nível prosódico (o da formada a partir de uma seqüência de vogal oral mais consoante nasal, a
sílaba), porque a construção de pés iâmbicos teria que considerar o radical sílaba que a contém deve ser considerada travada e bimoraica.
derivacional (e não a palavra) como domínio do acento — o que excluiria
As paroxítonas terminadas em ditongo crescente (por exemplo: egua,
a vogal átona final, no caso de palavras flexionadas, em que essa vogal
augua, lingua, mingua) seguem o padrão das paroxítonas terminadas em
portasse status desinencial.
duas sílabas leves, uma vez que, como foi mostrado em Massini-Cagliari
Da argumentação desenvolvida acima, conclui-se que todos os versos (2005a: 90-92), o status fonológico das seqüências QU- e GU- é de consoantes
aqui analisados, quer provenientes do corpus de cantigas profanas, quer complexas — portanto, /kw/ e /gw/. Desta forma, na verdade, não constitui
provenientes do de religiosas, são compostos a partir de um ritmo lingüísti- exatamente um ditongo crescente, no nível fonológico, o ditongo fonético
co básico trocaico. existente entre as duas últimas vogais da palavra. Portanto, no nível fonológico,
essas seqüências formam sílabas leves do tipo CV, com núcleos simples, mas
com onsets (também simples) preenchidos por consoantes complexas.
5. ANÁLISE DOS DADOS: PADRÕES DE ACENTO LEXICAL
O confronto de exemplos como soláz ([solaz]rad + Ogen + Onum), amíga
Os padrões mais recorrentes de acento lexical no PA registrado nas can- ([amig]rad + agen + O num) e amígas ([amig]rad + agen + snum) aparentemente
tigas profanas e religiosas, considerados canônicos, são as paroxítonas ter- apontam para a sensibilidade do PA ao peso silábico na atribuição do acento,
minadas em sílaba leve (isto é, sílaba aberta) — exemplos: amigo, religiosa, uma vez que a consoante /S/, quando corresponde à realização da desinência
lume, namorado, maravilhada, coitado, doo, mercee, eigreja, folia, requeza, de número plural dos nomes, parece ser invisível ao processo de contagem
braço etc. — e as oxítonas terminadas em sílaba pesada (sílaba bimoraica, de moras (fenômeno conhecido como “extrametricidade”, nas abordagens
96 Gladis Massini-Cagliari Das cadências do passado: o acento em português arcaico visto pela teoria da otimalidade 97

derivacionais não-lineares do acento). Também no caso da flexão de número Outro padrão acentual excepcional é o das proparoxítonas. No corpus
de palavras oxítonas terminadas em sílabas travadas, mesmo quando é necessá- de cantigas profanas e nos glossários que dão conta desse tipo de cantigas,
ria a epêntese de uma vogal para “corrigir” a estrutura silábica anômala forma- a ocorrência de proparoxítonas é bastante marginal. No corpus das canti-
da com a pluralização (exemplo: amór → amóres), a desinência de plural gas religiosas e nos glossários das CSM as proparoxítonas são um pouco
parece não interferir no peso da sílaba a que adere, cujo núcleo é justamente menos raras, embora seja esse padrão ainda bastante excepcional. No en-
a vogal epentética, já que o posicionamento do acento não se altera. tanto, esse tipo de pauta acentual jamais ocorre na posição rítmica mais
importante do verso (posição de rima). Mesmo nas cantigas religiosas, nas
A grande maioria das palavras mapeadas nos corpora de cantigas profa-
nas e religiosas e nos glossários considerados encaixa-se, quanto à pauta quais as proparoxítonas podem ser localizadas nas epígrafes das cantigas,
acentual, no padrão apresentado. Entretanto, foram mapeados padrões esse padrão ocorre apenas em posição medial.
que constituem exceção a essa tendência. Como exemplos de nomes proparoxítonos mapeados no corpus de can-
As oxítonas terminadas em sílaba leve constituem um desses padrões “margi- tigas religiosas, podem ser citados: prologo, angeo, espirito, dicipolo, ydolo,
nais”. Esse padrão engloba dois subtipos: o primeiro engloba advérbios e pala- letera, filosofo, poboo, crerigo, paravoa, sabado, camara, lampada, Evora,
vras invariáveis: aqui, ali, alá, assi, acá, aló, outrossi; o segundo, nomes (inclusive folego, duvida, citola, perigoo, vespera, Pascoa, Theophilo etc. Note-se que
substantivos próprios): rubi, javali, Tomé, Jessé, Salomé, aloé, Jesu, maravedi. todas essas palavras são proparoxítonas terminadas em duas sílabas leves.
Entretanto, há também casos (raríssimos) de proparoxítonas em que uma
Em Massini-Cagliari (1999: 173-174), considerando um corpus com- das duas últimas sílabas é pesada, porque travada por consoante — exem-
posto somente de cantigas de amigo, foram localizadas, entre as oxítonas plos: Locifer, mercores, Princeps, ome)es/omees.
finalizadas por sílabas leves, apenas palavras do primeiro tipo. A solução
encontrada para esses casos, naquele momento, foi considerá-los compostos: Porém, não apenas a pouca ocorrência atesta o caráter marginal desse
os primeiros, da preposição a com as formas monossilábicas dos advérbios padrão prosódico; processos fonológicos que transformam antigas
qui, li, lá, ssi, cá e ló, e o último, de outro e ssi. Essa hipótese foi formulada proparoxítonas em paroxítonas são bastante atestados. Mettmann (1972: 232),
com base no fato de que, a partir da consideração dos padrões ortográficos no Glossário das CSM, dá conta da ocorrência de perigo e periglo, ao lado de
do Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa (B), não é possível ter cer- perigoo. O mesmo tipo de variação ocorre com as formas poboo vs. pobro e
teza absoluta nem do status de “palavra”, com relação a esses exemplos, uma poblo (Mettmann 1972: 235). São atestadas também as formas cimiteiro,
vez que, nesse manuscrito, é muito comum duas ou mais palavras estarem cossairo e santuairo (Mettmann 1972: 62, 79 e 276, respectivamente).
escritas sem espaços delimitativos. Desta forma, pode ser que esses exem-
Um tipo bastante recorrente de proparoxítonas no universo das cantigas
plos, em vez de uma palavra, constituam duas palavras, ou seja, uma locu-
religiosas, mas também atestado em algumas poucas cantigas profanas, é o
ção adverbial. Consideradas essas formas perifrásticas, seu padrão acentual
daquelas terminadas por hiato, sempre constituído das seqüências ia ou io,
não seria excepcional, uma vez que, nas perífrases, cada uma das palavras
como em: Cecilia, neicio, Perssia, Basilio, Segovia, ostia. No entanto, há pa-
mantém sua integridade no nível do acento lexical, sendo o acento da base
lavras também terminadas em ia/io, cujo padrão acentual não é proparoxítono,
final dominante, no estabelecimento da relação de proeminência entre as
mas paroxítono, nas quais essas seqüências constituem ditongos crescentes
duas palavras. No entanto, a localização no corpus de nomes substantivos
no nível fonético — exemplos: nervio, novio, sobervia, relíquias, juyzio, bestias.
oxítonos terminados em sílaba leve não permite que a hipótese delineada
acima, mesmo que comprovada, seja generalizada, já que essas palavras não É a estrutura métrica do poema, em termos de contagem de sílabas
podem ser consideradas compostas ou perífrases em hipótese alguma. poéticas, que corrobora a diferença de padrão prosódico observada nos
98 Gladis Massini-Cagliari Das cadências do passado: o acento em português arcaico visto pela teoria da otimalidade 99

dois casos. É o que acontece, por exemplo, nos versos on/tre/ bes/tias/ d’a/ (cantasse); as formas do particípio (cantado) e do gerúndio (cantando) —
ra/da (CSM15)5 e a/ hos/ti/a /a /cos/tu/me/ ro/mã/a (CSM69)6, em que, no ou de oxítonos terminados em sílaba pesada — a 1ª e a 3ª pessoas do
primeiro, a seqüência ia constitui um ditongo e, no segundo, um hiato. Pretérito Perfeito do Indicativo (cante, cantou); a 1ª e a 3ª pessoas do Futu-
ro do Indicativo (cantar); e a forma do infinitivo (cantar); as três primeiras
Além da alternância entre os padrões proparoxítonos e paroxítonos,
pessoas do singular do Pretérito Perfeito do Indicativo — somente na 1ª
verificam-se, nesse grupo de palavras, os mesmos tipos de processos
conjugação (cantei, cantaste, cantou).
fonológicos que agem no sentido de transformar em paroxítonas palavras
originariamente proparoxítonas, fazendo com que os hiatos formados pe- No entanto, uma análise das formas verbais flexionadas mapeadas no
las seqüências ia/io sejam foneticamente realizados como ditongos, ou fa- corpus mostra que existem exceções aos padrões prosódicos acima. A maior
zendo com que a vogal i se consonantize, o que acaba por gerar variação: parte dos verbos que fogem a esse padrão corresponde a vocábulos
Basilio (CSM15) vs. Basillo (CSM15; Mettmann 1972: 40); Cecilia (B1271) paroxítonos terminados em sílaba travada — a 2PP e a 1ª e a 3ª pessoas do
vs. Cezilla ( CSM 89). Com relação a exemplos dessa mesma natureza, plural do Presente do Indicativo (cantas, cantades, cantamos, cantan); a 2ª
Mettmann (1972: 38 e 271) atesta Babilonna e sacrifiço. PS e a 3ª PP do Pretérito Imperfeito do Indicativo (cantavas, devias, partias;
cantavan, devian, partian); a 2PS e do plural e a 1ª e a 3ª pessoas do plural
Outro padrão excepcional de acentuação, que no entanto é bastante
do Pretérito Perfeito do Indicativo (cantaste, cantamos, cantaron); a 2ª PS e
paralelo ao padrão proparoxítono (e, por este motivo, tão marginal quanto
a 3ª PP do Pretérito Mais-que-perfeito do Indicativo (cantaras, cantaron); a
este), é o das paroxítonas terminadas em sílaba pesada — exemplos: virgen,
2ª PS e do plural e a 1ª e a 3ª pessoas do plural do Presente do Subjuntivo
omagen, orden, marmor/marmol, vermen, Ruben, omen, arvor/arvol, caliz,
(cantes, cantemos, cantedes, canten); a 2PS e a 3PP do Pretérito Imperfeito
alcaçar. Note-se que, na maior parte desses raros exemplos, a sílaba final é
travada por nasal; mas há também casos de travamento pelas demais con- do Subjuntivo (cantasses, cantassen); a 2PS e do plural e a 1ª e a 3ª pessoas
soantes permitidas na posição de coda. do plural do Futuro do Subjuntivo (cantares, cantarmos, cantardes,
cantaren). Note-se que, nessas formas verbais, os morfemas flexionais
Com relação aos verbos, os padrões mapeados são os mesmos já en- (desinências) nunca recebem acentuação. Obviamente, a vogal temática
contrados para os nomes e os demais itens lexicais não-verbais. A maior verbal, parte do tema do verbo, não tem status de desinência; pode, por-
parte segue o padrão canônico de paroxítonos terminados em sílaba leve7 tanto, ser suporte do acento. Para dar conta desse fato, bastaria formular
— a 1ª e a 3ª pessoas do Presente do Indicativo (canto, canta); a 1ª e a 3ª uma restrição, proibindo a atribuição do acento a desinências verbais.
pessoas do Pretérito Imperfeito do Indicativo (cantava, devis, partia); a 1ª e
a 3ª pessoas do Pretérito Mais-que-perfeito do Indicativo (cantara); a 1ª e a Na tentativa de expressar restrições dessa natureza, abordagens deri-
3ª pessoas do Futuro do Pretérito do Indicativo (cantaria); a 2PS e do plural vacionais recorrem à noção de extrametricidade, uma estipulação de
do Imperativo (canta, cantade); a 1ª e a 3ª pessoas do Presente do Sub- “invisibilidade” de certos elementos para regras de atribuição de acento. Es-
juntivo (cante); a 1ª e a 3ª pessoas do Pretérito Imperfeito do Subjuntivo pecificamente para este caso, em um trabalho anterior (Massini-Cagliari 1999:
176), formulei a seguinte estipulação: Marque como extramétrica a coda final
que porte elemento com status de flexão, ou seja, {N, S}. Note-se que essa
5. Equivalente, em CSM15, a per mort’ outra vegada, é end’ envergonnada, estranna e preçada, e
outros, todos versos graves de seis sílabas. estipulação não está definida em termos da invisibilidade da desinência em
6. Na CSM69, os versos são todos decassílabos graves. si, mas de um segmento específico, que carrega status de flexão — de rele-
7. Nesses exemplos, privilegia-se a forma da primeira conjugação, quando as diferenças morfológi-
cas entre as conjugações não redundam em diferenças no padrão prosódico; caso contrário, são
vância semântica, pois. Nesse sentido, nas desinências número-pessoais de
mostradas as formas das três conjugações. 1ª e 2ª pessoas do plural, -mos e –des/-tes, respectivamente, apenas o /S/ final
100 Gladis Massini-Cagliari Das cadências do passado: o acento em português arcaico visto pela teoria da otimalidade 101

é extramétrico, porque somente esse segmento, na desinência como um todo, mentos, pode ser somada a observação de Williams (1975: 211) de que,
posiciona-se na coda. Essa solução foi formulada, naquele momento, para nos “cancioneiros primitivos”, é possível a “coordenação” de dois futuros,
dar conta não somente da previsão do posicionamento do acento nas formas a partir de uma só “terminação”: direy e non estar.
verbais paroxítonas terminadas em sílaba travada, mas também das formas
Desta maneira, tanto nas formas desses dois tempos “regulares” quanto
da 2ª PS e da 3ª PP do Futuro do Pretérito do Indicativo, nas quais o acento
ao acento (as paroxítonas terminadas em sílaba leve: cantaria; e as oxítonas
recai sobre a desinência: cantarias (Futuro do Pretérito Indicativo 2ª PS);
terminadas em sílaba pesada: cantarei, cantarás, cantarán) como nas “irre-
cantarian (Futuro do Pretérito Indicativo 3ª PP).
gulares” (as paroxítonas terminadas em sílaba travada: cantarias, cantarian,
O problema com a solução adotada está em considerar as formas do cantaremos, cantaredes; as proparoxítonas(?): cantariamos, cantariades; e
Futuro do Pretérito como sendo simples, flexionando-se segundo o padrão as oxítonas terminadas em sílaba leve: cantará), os morfemas com status de
canônico do português (desde aquela época até os dias de hoje): radical + desinência verbal nunca recebem acento.
vogal temática + desinência modo-temporal + desinência número-pessoal.
Já as formas da primeira pessoa do singular do Pretérito Perfeito do
Nesse caso, e tradicionalmente, a desinência modo-temporal do Futuro do
Indicativo nas 2ª e 3ª conjugações (defendi, parti) apenas aparentemente
Pretérito do Indicativo é identificada como sendo -ria.
são terminados em sílaba leve. Na primeira conjugação, o acento, na pri-
Ora, acontece que as formas do Futuro do Pretérito, em vez de estabele- meira pessoa do Pretérito Perfeito do Indicativo, recai sobre a vogal temática:
cerem um paralelo, em termos de comportamento flexional, com as formas am[rad] + é[VT] + O[MT] + i[NP]. Ora, a única diferença, em termos de estrutura
“simples”, aproxima-se mais das formas do Futuro do Presente do Indicativo, morfológica, entre a forma da 1PS na primeira conjugação com relação à
considerado, em Massini-Cagliari (1999: 181), como compostas do infinitivo 2ª e à 3ª conjugações é o fato de a VT, nessas duas conjugações, ser de
do verbo principal seguido da forma flexionada no verbo aver no Presente natureza igual à da vogal da NP: defend[rad] + i[VT] + O[MT] + i[NP]; part[rad] +
do Indicativo — (3). Como compostas, essas formas possuiriam dois acen- i[VT] + O[MT] + i[NP].
tos, um para cada base; no estabelecimento da relação de proeminência
Porém, a grande questão, com relação aos padrões acentuais possíveis
entre esses acentos, o segundo tem precedência, seguindo o padrão do PA.
nas formas verbais flexionadas em PA, é determinar, com certeza, se existem
(3) formas proparoxítonas. Candidatas a esse padrão prosódico são as seguin-
cantar + éi
cantar + ás
tes formas verbais: cantavamos, deviamos, partiamos (Imperfeito Indicativo
cantar + á 1PP); cantavades, deviades, partiades (Imperfeito Indicativo 2PP); cantaramos
cantar + émos (Mais-que-perfeito Indicativo 1PP); cantarades (Mais-que-perfeito Indicativo
cantar + édes
2PP); cantariamos (Futuro do Pretérito Indicativo 1PP); cantariades (Futuro
cantar + án
infinitivo Presente do Indicativo do Pretérito Indicativo 2PP ); cantassemos (Imperfeito Subjuntivo 1PP );
cantassedes (Imperfeito Subjuntivo 2PP).
Os argumentos a favor de considerar esses dois tempos como compos-
tos são a variação entre formas do tipo viverey e ey a viver, viveria e ia a viver A dificuldade em estabelecer com exatidão o padrão acentual dessas
e possibilidade de mesóclise apenas nesses dois tempos: ir-m’ei, ir-m’ia. formas verbais consiste no fato de essas formas nunca aparecerem em posi-
Corrobora esta posição a seguinte afirmação de Michaëlis de Vasconcelos ção de saliência rítmica do verso (ou seja, em posição de rima). No entan-
(1904: XXII): “No futuro e condicional o acento recaía ora no infinitivo, ora to, mesmo aparecendo em posição medial, em alguns casos, é possível
no aussiliar, conforme as exijéncias do ritmo e suas pausas”. A esses argu- levantar pistas, a partir da estrutura métrico-poética da cantiga, que nos
102 Gladis Massini-Cagliari Das cadências do passado: o acento em português arcaico visto pela teoria da otimalidade 103

levam ao estabelecimento das formas específicas listadas acima como 5. O ACENTO DO PA: INTERPRETAÇÃO A PARTIR DA OT8
proparoxítonas. Por exemplo, no caso da primeira estrofe da CSM180, trans-
Segundo Kager (1999: 142-143), a extensa pesquisa de Hayes (1995)
crita em (4), em que aparece a forma deviamos, é possível ter a certeza de
sobre a tipologia das línguas quanto ao acento primário mostrou que os
que se trata de uma forma proparoxítona, a partir da contagem de sílabas
padrões acentuais são um domínio de forças potencialmente conflitantes,
poéticas dos versos. Na cantiga em questão, todos os versos são decassílabos
entre as quais o ritmo (pressão em direção à distribuição regular de sílabas
(com exceção do refrão, com cinco sílabas). Ora, para que o sexto verso
fortes e fracas), a sensibilidade ao peso silábico (pressão no sentido de com-
dessa estrofe seja decassílabo, é necessário que se constitua um hiato entre
binar sílabas pesadas com proeminências rítmicas) e a marcação de frontei-
as vogais i e a e que essa forma seja proparoxítona; caso fosse constituído
ra (pressão na direção de marcar as fronteiras de domínios morfológicos
um ditongo crescente entre essas vogais específicas, a forma obrigatoria-
por sílabas fortes). É à investigação das maneiras pelas quais essas forças
mente seria paroxítona.
contrárias atuam na geração dos padrões de acentuação do PA que é dedi-
(4) cado o presente trabalho. Mostrar-se-á como as pautas acentuais do PA são
Desta guisa deve Santa Maria
seer loada, ca Deus lle quis dar
o resultado da tensão entre duas dessas tendências: a tendência rítmica
todas estas cousas por melloria, trocaica e a marcação da fronteira morfológica do radical (raiz)/tema pelo
porque lle nunca ja achassen par; acento. Está em foco, também, a maneira como a sensibilidade ao peso
e por aquesto assi a loar
silábico se relaciona com essas duas tendências majoritárias.
deviamos senpre, ca por nos vela.
Vella e Miny)a... A análise dos dados desenvolvida nas seções anteriores mostrou que o PA,
Além dessa, foram mapeadas, no corpus de cantigas de amor, as em posição de foco rítmico (isto é, em posição de rima, no corpus em ques-
formas soubessedes ( A 131), deviades ( A 131), ouvessedes ( A 285) e tão), considera apenas dois padrões: versos graves (terminados em paroxítonas)
matassedes (A285). Já no corpus de cantigas de amigo, foram mapeadas e versos agudos (terminados em oxítonas). Com base na possibilidade de
apenas três formas: ouvessedes ( B579), queriades ( B579) e mostrassedes alternância desses dois padrões em uma mesma cantiga, chegou-se à conclu-
( B 648). Com relação a essas três ocorrências, em Massini-Cagliari são de que apenas um ritmo de base trocaico seria capaz de dar sustentação
(1995: 234), com base na hipótese de Vasconcelos (1959: 172) de lingüística a versos dessa natureza. Mostrou-se também que a grande maioria
que a forma da segunda pessoa do plural no imperfeito do indicativo, das palavras do PA possui, de fato, terminação grave (paroxítona) — o que
no PA , era paroxítona (falabádes), esses verbos foram considerados reforça a consideração de um ritmo básico trocaico e gera dois padrões de
paroxítonos. No entanto, as evidências aqui apresentadas exigem que acentuação: paroxítonas terminadas em sílaba leve e oxítonas terminadas em
essa posição seja revista. sílaba pesada. Outro fator importante a ser ressaltado é a “janela de três
sílabas” (para usar um termo de Bisol 1992a) na atribuição do acento: ape-
Mesmo tendo sido comprovada a existência de formas verbais nas as três últimas sílabas da palavra são acentuáveis (e, mesmo assim, a
proparoxítonas no PA, o caráter marginal dessa pauta prosódica, em re- antepenúltima, em condições excepcionais). O fato de terminarem as pala-
lação às paroxítonas terminadas em sílaba leve e oxítonas terminadas vras do PA em troqueus (e não se iniciarem por pés dessa natureza) comprova
em sílaba pesada (majoritárias), fica manifesto em duas dimensões: a a enorme importância da direcionalidade na construção dos pés: os pés — e
pouquíssima ocorrência de formas dessa natureza e a impossibilidade
de focalização de formas desse tipo na posição de saliência rítmica do 8. Versões anteriores da análise apresentada nesta seção aparecem em Massini-Cagliari (2001a,b e
verso (posição de rima). 2005b,c).
104 Gladis Massini-Cagliari Das cadências do passado: o acento em português arcaico visto pela teoria da otimalidade 105

portanto, o ritmo, em nível de atribuição de acento lexical — se constroem No entanto, como foi visto anteriormente, as palavras paroxítonas ter-
do final para o início da palavra (ou, em uma metáfora espacial, da direita minadas em sílaba leve não são a única pauta acentual encontrada no PA.
para a esquerda). É imprescindível, pois, iniciar esta análise pela tensão en- As oxítonas terminadas em sílaba pesada são também um padrão comum e
tre o tipo de pé adotado como base do ritmo da língua e a direcionalidade recorrente (evidenciado na enorme repetição de rimas agudas, sobretudo
na construção desses pés. Inicio, pois, por analisar a tensão entre duas restri- nas cantigas profanas, especialmente as de amor). A obtenção desses dois
ções de mesma natureza, uma vez que tanto a natureza do pé (troqueu) padrões concomitantemente é dada, nas abordagens derivacionais, pela
como a direcionalidade de construção dos pés são expressas ambas por res-
consideração de um ritmo baseado na construção de troqueus moraicos,
trições da família de alinhamento (McCarthy & Prince 1993).
da direita para a esquerda, em um sistema sensível ao peso silábico (Hayes
Alguns trabalhos de cunho otimalista têm mostrado (cf. Kager 1999: 1995, Massini-Cagliari 1995, 1999, especificamente para o PA).
171; Crowhurst & Hewitt 1995: 8) que, quando a restrição ALL-FT-X (defi-
nida de acordo com a teoria do alinhamento generalizado de McCarthy & Nas seções anteriores, sugeri que o acento, nas palavras do PA, é atribuí-
Prince 1993), não é dominada por outras restrições, isto é, ocupa a posi- do à segunda mora, contada a partir do limite final da palavra. Ora, desta
ção mais alta na hierarquia, somente um pé pode permanecer na margem análise decorre um sistema sensível ao peso silábico.
(direita ou esquerda) da palavra. Isto quer dizer que, nesse caso, quando a Wetzels (2003: 107) mostra que existe polêmica em torno da consideração
palavra tiver mais sílabas do que as necessárias para formar um pé na mar-
do português atual, tanto na variedade européia como na brasileira, como
gem da palavra, nem todas elas serão segmentadas. Em outras palavras,
sensível ao peso silábico na atribuição do acento. Segundo Wetzels, a origem
ALL-FT-X domina PARSE-σ (que prevê que as sílabas devem ser segmentadas
dessa polêmica talvez esteja em uma interpretação errônea de uma afirmação
em pés). Com relação ao PA, a restrição relevante é ALL-FT-RIGHT (todos os
pés à direita) ou Alinhe (Pé, direita, Palavra prosódica, direita), que pode de Trubetzkoy (1970b [1939]), segundo a qual apenas línguas que possuem
ser definida como: todo pé permanece na borda direita da palavra prosódica. distinção fonêmica entre vogais longas e breves poderiam constituir sistemas de
acentuação sensíveis ao peso da sílaba, isto é, uma regra de acento que conta
Como a borda em que o acento incide em PA é à direita, pode-se estabele- moras. Wetzels (2003: 131) conclui que há algumas línguas que contradizem
cer a seguinte relação de dominância: ALL-FT-R >> PARSE-σ. Porém, esse ranking
essa generalização, e que, portanto, a rejeição de uma regra de acentuação
não é suficiente para determinar qual o tipo de pé “construído”. Em termos
sensível ao peso para o português, ou qualquer língua sem distinções de dura-
otimalistas, a tendência trocaica do ritmo do PA pode ser alcançada através do
ção de vogais, não pode ser justificada apenas por razões tipológicas, mas deve
posicionamento alto da restrição TROQUEU (“troqueu”, ou RHTYPE=T, “tipo
rítmico = troqueu”), cuja definição é: os pés têm proeminência inicial. ser baseada em argumentos internos à estrutura da língua.

A interação entre essas restrições é responsável por gerar o padrão mais Ora, sendo o PA uma língua em que também não há distinções fonêmicas
recorrente de acentuação em PA, o paroxítono terminado em sílaba leve. É de duração entre vogais, o raciocínio desenvolvido por Wetzels para o por-
o que está demonstrado no tableau (5), a seguir: tuguês atual também se aplica. Portanto, não se pode descartar a priori a
sensibilidade ao peso silábico, quando se consideram os mecanismos de
(5)
atribuição de acento no PA.
/amig+o/ TROQUEU ALL-FT-R PARSE-σ
a. a.(mí.go) Na literatura que se desenvolveu a respeito da análise de sistemas rítmi-
b. a.(mi.gó) *! * cos sensíveis à quantidade das sílabas sob a perspectiva da OT, estabeleceu-
c. (á.mi).go *! * se que, quando as sílabas pesadas recebem obrigatoriamente acento, é por-
d. (a.mí).go *! * * que WSP-WEIGHT-TO-STRESS PRINCIPLE (Hammond 1997: 172), definida
106 Gladis Massini-Cagliari Das cadências do passado: o acento em português arcaico visto pela teoria da otimalidade 107

como sílabas pesadas são acentuadas, encontra-se em uma posição alta na português atual como uma língua que, na tensão entre as forças conflitantes
hierarquia das restrições. Neste sentido, poder-se-ia argumentar que é a que geram os padrões acentuais arroladas por Kager (1999), privilegia o
interação entre WSP, TROQUEU e PARSE-σ que produz a pauta acentual reforço, através do acento, de constituintes morfologicamente importantes
oxítona, quando a sílaba final é pesada. Neste caso, WSP tem que ser (marcação de fronteiras de domínio morfológico).
hierarquizada acima de TROQUEU. Os efeitos de uma hierarquização desse
tipo são mostrados no tableau (6): Pode-se perceber, com relação ao PA, que o alinhamento do acento com a
última vogal do radical (radical derivacional, no caso de palavras não-primiti-
(6)
vas) é uma tendência relevante. Tanto em amór, como em amíga, ou amígas, o
/amor/ WSP TROQUEU PARSE-σ
acento se posiciona sobre a última vogal do radical, não recaindo sobre vogais
a. a.(mór) *
portadoras de status gramatical, ou seja, desinências. É por este motivo que,
b. (a.mór) *!
em amigas, o acento não retrocede para a última sílaba, travada pela consoan-
c. (á.mor) *!
te que carreia a marca de número, mas cai na última sílaba de soláz, uma vez
No entanto, pode-se perceber que o PA dá mais prioridade à formação que, nessa palavra, a consoante final não é desinência de número, integran-
de troqueus do que ao peso das sílabas da palavra; na verdade, o que im- do o radical. É o que mostra o tableau , em que o alinhamento entre o
porta é somente a quantidade da última sílaba da palavra, uma vez que acento e a última vogal do radical é expressa pela restrição ALINHE (AC, D,
uma sílaba pesada na antepenúltima posição da palavra, seguida de duas RAD, D) (= alinhe o acento com a borda direita do radical), definida como a
leves, não atrai para si o acento: *cóytado. Desta forma, pode-se concluir sílaba acentuada é a última do radical, que é equivalente ao que propõe Roca
que, em PA, a restrição TROQUEU está hierarquizada acima de WSP. (1998: 12) para o espanhol, a partir da consideração da restrição FINσ´ST.
Além disso, a sensibilidade do PA ao peso das sílabas é relativa, em dois senti- (7)
dos. McGarrity (2003: 206) afirma que, quando WSP domina a hierarquia das /solaz+O+O/ ALINHE AC, D, RAD, D TROQUEU PARSE-σ WSP
restrições, o resultado é um sistema sensível ao peso silábico, tanto com relação a. so.(láz) *
ao acento primário, quanto com relação ao secundário. Neste sentido, a sensibi- b. (só.laz) *! *
lidade do PA ao peso das sílabas é apenas relativa, porque, embora as sílabas c. (so.láz) *!
pesadas finais atraiam para si o acento, sílabas pesadas em posição medial ou
/amig+a+O/ ALINHE AC, D, RAD, D TROQUEU PARSE-σ WSP
inicial de palavra não atraem obrigatoriamente o acento secundário. Porém,
a. a.(mí.ga) *
mesmo em se considerando a posição final da palavra a sensibilidade do PA à
b. a.(mi.gá) *! * *
quantidade é relativa, no sentido em que sílabas finais travadas por consoantes
c. (á.mi).ga *! *
que correspondem a marcas desinenciais (de número plural, nos nomes, por
d. (a.mí).ga *! *
exemplo, ou de número e pessoa, nos verbos) nunca atraem o acento.
/amig+a+S/ ALINHE AC, D, RAD, D TROQUEU PARSE-σ WSP
Talvez, então, o fato de o acento ser atraído para a sílaba final de amór
a. a.(mí.gas) * *
não esteja ligado à sensibilidade do PA ao peso das sílabas, mas à tendência
b. a.(mi.gás) *! * *
de marcação da fronteira morfológica entre radical e desinências. Essa ten-
c. (á.mi).gas *! * *
dência tem sido afirmada com freqüência, em relação ao comportamento
d. (a.mí).gas *! * *
do acento no PE (Mateus 1983) e no PB (Cagliari 1999) — o que coloca o
108 Gladis Massini-Cagliari Das cadências do passado: o acento em português arcaico visto pela teoria da otimalidade 109

À luz do que foi dito, ocorrências como amígo, amór, coytáda, salvadór, de restrições adotada até o momento — e que explica de forma bastante
Portugál, coraçón, entre outras, mais do que comprovar a sensibilidade do PA satisfatória as interações entre as pressões exercidas pelas tendências contrá-
à quantidade da última sílaba, na atribuição do acento, mostram que a rias que agem sobre o posicionamento do acento nas palavras do PA — não é
binaridade é um fator importante na construção dos pés trocaicos, uma vez capaz de prever e explicar a acentuação dos nomes proparoxítonos e demais
que se busca construir pés com dois elementos, no nível moraico: o PA forma itens lexicais que seguem esse padrão. Nesse tableau, a forma apontada como
pés bimoraicos, com duas sílabas leves ou com uma pesada. Entretanto, a ótima é a paroxítona dicipólo, e as duas formas proparoxítonas, marcadas
comparação entre amígo, cóyta e coytáda mostra que a binaridade no nível com ☺, não são escolhidas, no processo de avaliação dos outputs possíveis.
moraico é menos importante do que o tipo do pé construído (trocaico, isto (9)
é, com proeminência inicial), haja visto a acentuação em cóyta. Também o /dicipol+o+O/ ALINHEAC, TROQUEU ALL-FT-R BIN PARSE-σ WSP
tipo e a binaridade do pé são mais importantes do que a consideração da AC, D,
RAD, D
quantidade silábica (WSP), porque, como já foi mencionado, em palavras
do tipo coytádo, o acento se mantém na penúltima leve, não retrocedendo a. di.ci(pó.lo) **
para a antepenúltima, só porque esta é pesada — o que comprova, mais uma b.☺ di.(cí.po)lo * * **!
vez, a dominância de ALL-FT-R. Destas considerações, resulta a importância c.☺ di.(cí.po.lo) * * *
da restrição BINARIDADE, que pode ser definida como os pés são binários em
algum nível de análise (µ, σ), que interage com TROQUEU e ALL-FT-R, geran- Tradicionalmente, a colocação do acento nas proparoxítonas vem sen-
do o padrão conhecido como “troqueu moraico”, na teoria derivacional. do um problema clássico da fonologia do português atual, em ambas as
variedades, européia (Mateus 1975, 1983; Carvalho 1989; Andrade & Laks
No entanto, a binaridade dos pés não é tão importante no PA quanto o 1991; Mateus & Andrade 2000) e brasileira (Leite 1974; Duarte 1977;
tipo de pé a ser construído e a borda em que ele deve ser construído. Pode- Costa 1978; Maia 1981; Bisol 1992a; Wetzels 1992; Alvarenga 1993; Lee
se comprovar isto a partir da análise dos casos de oxítonas terminadas em 1995; Massini-Cagliari 1995, 1999 e Cagliari 1999). Até o momento, não
sílaba leve, como rubi e javali. Nessas palavras, tanto a binaridade dos pés tinha enfrentado este problema com relação ao acento do PA, uma vez que
como a segmentação das sílabas são sacrificadas para que o acento recaia no corpus com que então trabalhava não estavam presentes nomes
sobre a última vogal do radical — tableau (8): proparoxítonos. Além disso, não era possível decidir, apenas com elemen-
(8) tos do próprio corpus, qual a pauta acentual dos poucos verbos encontra-
/rubi+O+O/ ALINHE TROQUEU ALL-FT-R BIN PARSE-σ WSP dos, candidatos a proparoxítonos. Mas, dada a ocorrência de alguns nomes
AC, D, dessa natureza no corpus de cantigas religiosas e no de amor, isto faz-se
RAD, D agora imprescindível.

a. ru.(bí) * * Várias possíveis soluções têm sido apontadas, ao longo do tempo, para a
b. (ru.bí) *! acentuação “esdrúxula” (nos dois sentidos) das proparoxítonas do português.
c. (rú.bi) *! Do meu ponto de vista, tais soluções podem ser agrupadas em três tipos, que
passo a apresentar, porém não em ordem cronológica de seu aparecimento.
O problema com relação à abordagem do acento dos nomes e demais
itens não-verbais no PA aqui desenvolvida consista em explicar e prever o Um primeiro tipo de solução é adotar um padrão completamente dife-
padrão das proparoxítonas. Como se pode ver no tableau (9), a hierarquia rente de acentuação para casos marcados e para casos não-marcados (as
110 Gladis Massini-Cagliari Das cadências do passado: o acento em português arcaico visto pela teoria da otimalidade 111

proparoxítonas são, obviamente, o caso marcado, no PB e no PA). Lee (1995) oxítonas e nas paroxítonas, a hierarquia entre essas duas restrições específi-
adota uma solução desse tipo, uma vez que sua tese propõe que o acento cas é inversa. Por sua vez, Rosenthall (1994) apresenta hierarquias distintas
em nomes e verbos é gerado por subsistemas diferentes, que, por sua vez, para os subsistemas que geram os padrões acentuais na última, na penúlti-
também se subdividem em dois casos, o marcado e o não-marcado. Expli- ma e na antepenúltima sílaba. O problema com soluções desse tipo, na OT,
cando melhor, o que Lee (1995) propõe é que o acento dos nomes e dos está em como determinar que um input será avaliado por uma hierarquia
demais itens não-verbais é gerado, no caso não-marcado (paroxítonas e específica de restrições e não por outra. Além disso, a coexistência de duas
oxítonas), pela atribuição de um pé iâmbico na borda direita do radical (ou mais) hierarquias concomitantes para dar conta do mesmo fenômeno
(derivacional, nas palavras não-primitivas); já no caso marcado (proparoxí- coloca uma séria questão com relação ao status das próprias hierarquias,
tonas), o acento seria dado pela construção de um troqueu, nesse mesmo no âmbito da OT. Se a OT propõe que as restrições são universais e que a
domínio. Para os verbos, a situação se inverte, porque, no caso não-marca- hierarquia entre elas é o que distingue uma língua de outra, ou uma varie-
do (paroxítonas e proparoxítonas), o pé construído é o troqueu, enquanto, dade da língua de outra, como encaixar satisfatoriamente no arcabouço da
para o caso marcado (oxítonas), é o iambo. Em resumo, a solução apresen- teoria uma solução que propõe hierarquias conflitantes para um mesmo
tada por Lee (1995) propõe que haja dois subsistemas completamente di- fenômeno em uma mesma variedade de uma mesma língua?
ferentes para atribuição de acento nos verbos e nas formas não-verbais. A segunda solução clássica dada pelos estudos de caráter derivacional
Esta solução é aceitável, dentro do arcabouço teórico da fonologia lexical para a obtenção do padrão acentual das proparoxítonas no português é a
(Kiparsky 1982, Mohanan 1986). O que é questionável é o fato de o siste- postulação de uma estipulação de extrametricidade. A extrametricidade de
ma marcado dos verbos ser igual ao não-marcado dos nomes e o marcado um elemento pode ser definida como sua invisibilidade para as finalidades
dos não-verbos ser igual ao não-marcado dos verbos. Portanto, na verdade, de aplicação de regras rítmicas de atribuição de acento. O exemplo clássico
o que se tem não são dois sistemas subdivididos (o que totaliza quatro), mas de extrametricidade são as sílabas finais das palavras latinas, inacentuáveis.
apenas dois, ambos atribuindo acento a verbos e não-verbos. Além disso,
essa solução não consegue abrir mão de dois artifícios bastante criticados Com relação ao PB (Bisol 1992a), a solução típica dada pelos modelos
ao longo do desenvolvimento da fonologia de cunho gerativo: derivacionais ao padrão das proparoxítonas é estipular a extrametricidade
da última sílaba, que seria marcada no léxico enquanto tal. Dessa forma,
1) pressupõe que os casos marcados têm que, necessariamente, rece- excluída a sílaba final, o acento das proparoxítonas é dado pela construção
ber uma marca lexical, que os encaminhará para a regra de acento de um pé trocaico, no limite do domínio da palavra fonológica, excluída a
“correta”; caso contrário, receberão a acentuação não-marcada; sílaba final extramétrica.
2) continua a fazer uso de estipulações de extrametricidade para algu-
mas desinências verbais. Mas há variações quanto ao uso da estipulação de extrametricidade no
interior dos trabalhos derivacionais. Com relação às proparoxítonas do PE e
Uma solução semelhante à de Lee (1995), mas já dentro de um do PB, respectivamente, Andrade & Laks (1991) e Alvarenga (1993) aludem
paradigma representacional de fonologia, é dada por Lee (1999a), para o a sufixos acento-repelentes, entre os quais -voro, -gero, -fero. Por sua vez, Duarte
PB, e Rosenthall (1994), para o espanhol. Lee (1999a) propõe que o acen- (1977) e Maia (1981) fazem referência a seqüências inacentuáveis, entre as
to do PB é dado pelo alinhamento de um pé iâmbico junto ao radical. No quais -ic- (do sufixo -ica, -ico) e -im- (do sufixo -íssimo). A inovação dessas
entanto, apenas para gerar o padrão das proparoxítonas, propõe que a res- propostas consiste em considerar inacentuáveis as vogais da penúltima e
trição ALIGN (Σ, L, H(Σ), L) (=TROQUEU) deve ser hierarquizada acima de não da última sílaba das proparoxítonas. Com relação ao PB, o argumento
ALIGN (Σ, R, H(Σ), R) (=IAMBO). Nos casos não-marcados, ou seja, nas favorável à adoção da extrametricidade da penúltima sílaba provém da
112 Gladis Massini-Cagliari Das cadências do passado: o acento em português arcaico visto pela teoria da otimalidade 113

observação de que, com relação aos processos fonológicos de redução No âmbito da OT, tanto a estipulação da extrametricidade da sílaba final
(deleção, levantamento de vogais átonas etc.), as vogais da sílaba átona das proparoxítonas como a formação de um pé dactílico excepcional podem
não-final das proparoxítonas são muito mais débeis do que as da sílaba ser geradas a partir da ação da restrição de NON-FINALITY (=NÃO-FINALIDADE).
final. No entanto, esse tipo de procedimento fere a condição de perifericidade McGarrity (2003: 53) explicita que a restrição de NÃO-FINALIDADE não corresponde
(Hayes 1985: 195; Halle & Vergnaud 1987: 31-34), quando o domínio do exatamente à idéia de extrametricidade porque proíbe que pés na margem da
acento é tomado como sendo o da palavra fonológica, já que essa condi- palavra recebam acento, quer sejam trocaicos ou iâmbicos. Neste sentido,
ção estipula que o elemento extramétrico tem que ser periférico ao domí- embora dê conta de expressar a extrametricidade das sílabas finais do latim, de
nio, isto é, tem que estar posicionado nas suas margens. A vantagem de acordo com McGarrity, a alta hierarquização de NÃO-FINALIDADE talvez não seja
soluções como estas é que elas não mais consideram sílabas como a melhor solução para expressar a acentuação proparoxítona no PA, já que,
extramétricas, mas sufixos ou seqüências inacentuáveis. Por outro lado, esse nessa língua, nem todas as sílabas finais são inacentuáveis. De fato, ao contrá-
tipo de solução só explica o padrão acentual das proparoxítonas derivadas rio do latim, em que os padrões mais recorrentes são as paroxítonas e as
proparoxítonas, no PA, o padrão oxítono é o segundo mais recorrente, atrás
(como fonética e belíssima, por exemplo), mas não explica o padrão de
apenas das paroxítonas. No caso do PA, então, a solução seria hierarquizar NÃO-
abóbora, lâmpada e sábado, não-derivadas.
FINALIDADE acima de TROQUEU e ALINHE (AC , D, R AD , D) apenas para as
Uma terceira alternativa de explicação para a pauta acentual das proparoxítonas — o que não é uma solução satisfatória, dado o seu caráter ad
proparoxítonas do PB é dada por Wetzels (1992). Consiste em considerar hoc, ou “paroquial” (isto é, criado para resolver um problema específico de
um pé excepcional para dar conta dos padrões marginais das proparoxítonas uma única língua ou variedade), no jargão da OT.
e paroxítonas terminadas em sílaba pesada, como a solução apresentada
No entanto, apesar de paroquial, esta é uma solução melhor do que as
por Lee (1995), mas, ao contrário deste, Wetzels propõe pés excepcionais
propostas por Lee (1999a) para o PB e Rosenthall (1994) para o espanhol,
apenas quanto à quantidade de sílabas (ou de moras, já que considera um
uma vez que não recorre a hierarquias concorrentes dentro de uma mesma
sistema sensível ao peso silábico), mas não quanto à posição da cabeça do
variedade de língua. Assim, proponho a adoção de NÃO-FINALIDADE exclusi-
pé. Em outros termos, ao contrário de Lee, Wetzels nunca cogita a
vamente para as proparoxítonas, redefinida como NÃO-FINALIDADE(rad): nas
alternância de troqueus e iambos, mas apenas a alternância entre pés de palavras marcadas (proparoxítonas), a proeminência é não-final, com rela-
proeminência inicial, com duas ou três moras. Assim, Wetzels propõe pés ção ao domínio Radical. Note-se que a ação de NÃO-FINALIDADE, exclusiva
dactílicos (três sílabas leves) e espondaicos (uma sílaba — leve ou pesada para as proparoxítonas, acaba por fazer com que seja escolhida como for-
— seguida de uma sílaba pesada). Da mesma forma que as soluções que se ma ótima aquela em que é construído um pé de proeminência inicial
baseiam na postulação de algum tipo de extrametricidade, a proposta de (trocaico), mas com três sílabas — tableau 10) — muito semelhante aos
Wetzels acaba por gerar a inacentuabilidade das duas últimas sílabas das pés dactílicos propostos por Wetzels (1992).
proparoxítonas, embora, na sua proposta, nenhuma das duas sílabas áto-
(10)
nas finais fique não-segmentada. Em comum com os dois tipos de solução /dicipol+o+O/ *F IN ALINHE AC, TROQUEU ALL- BIN PARSE-σ WSP
anteriores, a de Wetzels também recorre à marcação dos casos excepcio- (rad) D, RAD, D FT-R
nais no léxico, já que os pés dactílicos e espondaicos são formados em um a. di.ci(pó.lo) *! **
nível mais profundo do léxico, na perspectiva da fonologia lexical, em que
b. di.(cí.po)lo * *! **
são gerados os padrões excepcionais de ritmo; os demais padrões, não ex-
c. di.(cí.po.lo) * * *
cepcionais, são formados em um nível mais superficial.
114 Gladis Massini-Cagliari Das cadências do passado: o acento em português arcaico visto pela teoria da otimalidade 115

Como foi mostrado anteriormente, no PA, assim como no PB, o comporta- A hierarquia de restrições adotada até o momento também explica e prevê
mento das paroxítonas terminadas em sílaba pesada é análogo ao das muito bem o padrão dos verbos paroxítonos terminados em sílaba travada — o
proparoxítonas, quanto ao acento. Como se pode ver a partir de exemplos como
que vem reforçar a idéia de que não há diferenças de comportamento entre
vírgen, mármor, o acento recai sobre a penúltima vogal do radical — exatamente
como ocorre nas proparoxítonas —, devido à ausência de desinências de gênero verbos e não-verbos no PA, quanto à acentuação. No tableau 12), aparece como
e número. Desta forma, NÃO-FINALIDADE(rad) deve ser reformulada como nas exemplificação a forma da 3ª PP do Pretérito Imperfeito do Indicativo (cantavan).
palavras marcadas (radicais especiais), a proeminência é não-final, com relação
(12)
ao domínio Radical, para que essa restrição dê conta de explicar e prever o
/cant+a+va+N/ ALINHE AC, TROQUEU ALL-FT-R BIN PARSE-σ WSP
padrão acentual também das proparoxítonas terminadas em sílaba pesada. Nes-
te sentido, em vez de considerar que algum tipo de marca lexical recai sobre a D, RAD, D
classe das proparoxítonas, proponho que uma marca é dada a radicais especiais, a. can.(tá.van) * **
que podem ser seguidos ou não de desinências de gênero. b. (can.tá).van *! * * **
Com relação às formas verbais do PA, os padrões mapeados no corpus são c. can.(tá).van *! * ** **
os mesmos encontrados para os nomes e demais itens lexicais não-verbais. d. (cán.ta.van) *! ** *
Isto quer dizer que foram encontrados os mesmos tipos de pauta acentual
manifestos nos nomes, e na mesma proporção, quanto à recorrência: predo- Também ficam automaticamente previstos e explicados pela hierarquia
minância de paroxítonos, mas com incidência significativa de oxítonos e ra- aqui considerada os padrões das formas verbais oxítonas terminadas em síla-
ros proparoxítonos. Nada faz crer, portanto, que verbos e não-verbos tenham ba travada, como é o caso da 1ª e da 3ª pessoas do Futuro do Subjuntivo e
um comportamento diferenciado, quanto à colocação do acento, no PA. do infinitivo pessoal (cantar) e do infinitivo impessoal. O mesmo vale para as
De fato, a hierarquia de restrições estabelecida até o momento para formas da 1ª PS do Pretérito Perfeito do Indicativo na 1ª conjugação (ex.
dar conta do padrão de acentuação dos itens não-verbais explica e prevê cantei) e para a 3ª PS do mesmo tempo/modo, em todas as conjugações (ex.
perfeitamente bem o padrão dos verbos paroxítonos terminados em sílaba cantou, defendeu, partiu), que formam oxítonas terminadas em ditongos.
leve. Em todas essas formas, percebe-se o mesmo jogo das forças conflitantes Já com relação à 1ª PS do Pretérito Perfeito do Indicativo na 2ª e na 3ª
que agem sobre a localização do acento que pôde ser deduzida da análise conjugações (defendi, parti), a situação é um pouco mais complicada. É
dos nomes e outros itens lexicais não-verbais: tendências concomitantes
preciso lembrar que, a exemplo do que acontece em todas as formas ver-
em direção da produção de um ritmo trocaico e da marcação com a proe-
bais do PA, a vogal temática está sempre presente na forma no input. Como
minência acentual da fronteira morfológica do radical. É preciso ressaltar,
no entanto, que, no caso dos verbos, o domínio morfológico a ser ressalta- já foi mostrado anteriormente, nessas formas verbais específicas, a vogal
do não é exatamente o radical, mas o tema verbal, que consiste na soma do temática e a vogal da desinência número-pessoal são de natureza idêntica.
Faz-se necessário, então, explicar por que não há o apagamento da vogal
radical com a vogal temática. É o que mostra o tableau (11).
temática, como acontece nas formas do presente (veja adiante), nem a for-
(11) mação de um hiato, como seria o padrão do PA, para seqüências de vogais
/cant+a+va+O/ ALINHE, TROQUEU ALL-FT-R BIN PARSE-σ WSP desse tipo, nos nomes (cf. Massini-Cagliari 2005a: 134-158). Para tal, faz
AC,D sentido recorrer à mesma restrição formulada em Massini-Cagliari (2005a)
TEMA, D para dar conta desse mesmo fenômeno — *HIATO, cuja definição é hiatos
entre VT e V(desinência), nas formas “do pretérito”, são proibidos, que proí-
a. can.(tá.va) * *
be a formação de um hiato entre a vogal temática e a vogal da desinência.
b. (can.tá).va *! * * *
Essa restrição atua em conjunto com MAX(VT, des.)-Pret., definida como
c. can.(tá).va *! * ** *
maximize VT e V(desinência) nos verbos do “pretérito”, que impede o apaga-
d. (cán.ta.va) *! ** mento da vogal temática nos tempos do “pretérito”, como ocorre nas formas
116 Gladis Massini-Cagliari Das cadências do passado: o acento em português arcaico visto pela teoria da otimalidade 117

do presente, através da maximização das vogais da VT e da desinência. A Para os tempos do Futuro, a solução de Roca (1998) para o espanhol é a
partir da ação conjunta dessas duas restrições, hierarquizadas acima de todas seguinte: a dominância de uma restrição FUTURO sobre todas as outras, que faz
as outras, é possível verificar, no tableau(13), que a forma ótima escolhida com que a primeira sílaba do morfema do futuro seja a cabeça do pé troqueu
corresponde àquela que preserva as moras provenientes de ambas as vogais. nas formas verbais do futuro do presente do indicativo e do futuro do pretérito
Este fato comprova que, embora de menos importância, quando comparada do indicativo. A necessidade de considerar uma restrição como essa deriva da
às tendências à produção de ritmo trocaico e à marcação de fronteira consideração dos tempos do Futuro como formas simples. Ora, já há algum
morfológica, a tendência à preservação das moras e à consideração do peso tempo estudiosos vêm apontando para o português atual (Mateus 1983 e Mateus
silábico na localização do acento em PA não deve ser menosprezada. & Andrade 2000, para o PE; e Bisol 1992a e Massini-Cagliari 1995 e 1999, e
Cagliari 1999, para o PB) essas formas do Futuro como compostas: do infinitivo
(13)
do verbo principal e, no caso do Futuro do Presente, as formas do verbo haver,
/part+i1+O+i2/ *HIATO MAX ALINHE TROQUEU All- BIN PARSE-s WSP
(VT, AC, D, Ft-R
no presente do indicativo, ou do pretérito imperfeito do verbo ir, no caso do
DES) TEMA, Futuro do Pretérito9. Em trabalhos anteriores — Massini-Cagliari (1995, 1999)
PRET. D —, as formas do Futuro do Presente e do Futuro do Pretérito do PA foram
a. par. (ti:) * * * consideradas como compostas. Em uma abordagem otimalista, ao considerar
b. (par.tí:) *! * como compostos esses tempos verbais, muda o input dessas formas, uma vez
c. (pár.ti:) *! * que são constituídas por duas bases, cada qual com sua estrutura morfológica
c. par.(ti<i>) *! * * * interna. Uma análise desse tipo dispensa a postulação de uma restrição paro-
e. par.(t<i>i) *! * * * quial como FUTURO, dando conta do padrão acentual dessas formas verbais a
f. par.(tí.i) *! * * partir da hierarquia que aqui vem sendo adotada — como se mostra no tableau
(15)10, uma vez que a restrição ALINHE (AC, D, Rad/Tema, D) não é violada
Ao contrário do que ocorre com os nomes proparoxítonos, nos verbos des- fatalmente, já que o acento recai sobre a última vogal do tema nas duas bases
sa pauta acentual o acento recai invariavelmente sobre a VT. Ora, como mos- componentes das formas do Futuro, tanto as do Futuro do Presente, como as
tra o tableau 14), isto é resultado da atuação de ALINHE (AC , D, Radical/Tema, do Futuro do Pretérito (ou Condicional). A ação de ROOTING (que estabelece
D), que pressiona no sentido a marcar a fronteira morfológica da base invariá- que todas as palavras devem ter um acento) garante que ambas as bases rece-
vel, à qual se adjungem as flexões, tanto nos verbos como nos não-verbos. bam acento, no nível primário.

(14) (15)
/cant+a+r/#/e+O+O+i/ ROOTING ALINHE TRO- ALL- BIN PARSE-s WSP
/cant+a+va+mos/ ALINHE AC, TROQUEU ALLFT-R BIN PARSE-s WSP AC, D, QUEU FT-R
D, TEMA, D TEMA, D
a. can.(tá.va.mos) * * ** a. can.(tár)#(éi) * *

b. b. can.t a.(réi) *! * ** *
can.(tá.va).mos *! ** **
c. (cán.t a).va.mos *! ** ** *
d. (can.tá).va.mos *! ** ** ** 9. Diferentemente de Bisol (1992) e Mateus & Andrade (2000), que consideram o condicional
como composto do infinitivo do verbo principal seguido do verbo haver, no imperfeito do indicativo.
e. can.t a.(vá.mos) *! ** ** 10. No tableau (15) o limite entre as bases é representado por “#”.
118 Gladis Massini-Cagliari Das cadências do passado: o acento em português arcaico visto pela teoria da otimalidade 119

/cant+a+r/#/i+O+ia+O/ ROOTING ALINHE TRO- ALL- BIN PARSE-s WSP (17)


AC, D, QUEU FT-R
/cant+a+e+s/ PCO *FIN TRO- ALINHE ALL- BIN PARSE-s WSP
TEMA, D (VT)- (PRES.) QUEU AC, D, FT-R
c. can.(tár)#(í.a) * * PRES. TEMA, D
d. can.t a.(ri.a) *! * ** * a. (cán.tes) *
Os únicos tempos verbais cujas formas não podem ser geradas atra- b. (cán).tes *! * * *
vés da hierarquia até agora considerada são os do Presente. Para re- c. can.(tés) *! * * * *
solver o problema, adota-se, aqui, a restrição NÃO -FINALIDADE(Presente), d. can.(tá.es) *! * *
redefinida como as formas do Presente (Indicativo e Subjuntivo) não e. (cán.t a.es) *! ** **
têm acento final, no domínio da palavra fonológica, hierarquizada aci-
ma de TROQUEU e ALINHE ( AC , D, Rad/Tema, D), ou seja, dominando No momento da avaliação dos candidatos [tableau 17)], sua ação faz com
todas as outras. Como fica demonstrado no tableau (16), o efeito da que sejam descartados os outputs que contenham a vogal temática expressa nas
ação dessa restrição é fazer com que o acento não se posicione na formas do presente, ou seja, faz com que não sejam escolhidos os outputs em que
sílaba final da palavra nas formas do presente, ou seja, nas formas do se forma uma seqüência de duas vogais, a VT e uma V(desinência) (tanto núme-
Presente do Indicativo e do Subjuntivo. Estabelece-se, portanto, uma ro-pessoal, como no Indicativo, como modo-temporal, como no Subjuntivo).
clara tensão entre *FIN (Pres.) e ALINHE (AC , D, Rad/Tema, D), uma vez
que a ação desta vai no sentido de posicionar o acento na última síla- A partir da ação conjunta de PCO(VT)-Pres. e de *FIN(Pres.), ficam previs-
ba, nas formas da 2ª PS (cantas) e da 3ª PP (cantan) do Presente do tos os padrões acentuais das formas da 1ª e da 2ª PP do Presente do Subjuntivo
Indicativo e da 2ª PS do Imperativo (canta), à qual pertence a vogal (ex. cantemos, cantedes). No caso dessas pessoas específicas do Presente do
temática verbal. Subjuntivo, a tensão entre as forças que vão no sentido do apagamento da
vogal temática e da não-atribuição do acento à última sílaba da palavra e,
(16)
contrariamente, à delimitação do tema como constituinte morfológico impor-
/cant+a+ O+s/ *FIN TROQUEU ALINHE ALL- BIN PARSE-s WSP tante acaba por fazer com que, nesse caso, o acento recaia, excepcionalmente,
(PRES.) AC, D, FT-R
sobre uma vogal que carreia status de desinência verbal. Apesar de excepcio-
TEMA, D
nal, por receberem essas formas acento sobre a desinência, a pauta acentual
a. (cán.t as) * *
da 1ª e da 2ª PP do Presente do Subjuntivo, num outro sentido, reforçam a
b. (cán).t as * *! * * * tendência rítmica trocaica do PA, garantida a partir desse padrão excepcional.
c. can.(tás) *! * * * *
(18)
No entanto, a ação isolada de *FIN(Pres.) não é capaz de explicar e /cant+a+e+mos/ PCO *FIN TRO ALINHE ALL- BIN PARSE-s WSP
prever a queda da vogal temática, sempre presente no input, nas formas da (VT)- (PRES.) QUEU AC, D, FT-R
PRES. TEMA, D
1ª PS do Presente do Indicativo (canto) e das 1ª, 2ª e 3ª PS e da 3ª PP do
a. cán.(té.mos) * * **
Presente do Subjuntivo (respectivamente, cante, cantes, cante, canten). Para
tal, formulou-se PCO(VT)-Pres. (=Princípio do Contorno Obrigatório com b. (can.té)mos *! * * * **
relação à vogal temática nas formas do Presente): seqüências de VT + c. can.(té)mos * *! * ** **
V(desinência) são proibidas nas formas do presente. (= Apague VT quando d. can.t a.(é.mos) *! * ** **
seguida de V(desinência) nas formas do presente). e. can.(tá.e.mos) *! ** * **
120 Gladis Massini-Cagliari

6. CONCLUSÃO CAPÍTULO 6
Com base na argumentação desenvolvida neste capítulo, chega-se à
conclusão de que, dentro do arcabouço teórico da OT, o padrão acentual
dos verbos e dos itens lexicais não-verbais, em PA, é gerado por uma mesma
O ACENTO PRIMÁRIO
hierarquia de restrições, que explica de forma bastante satisfatória as
interações entre as pressões exercidas pelas tendências a um ritmo trocaico
NO PORTUGUÊS
e à marcação da fronteira morfológica entre o radical e as desinências, ao UMA ANÁLISE UNIFICADA NA TEORIA DA OTIMALIDADE
mesmo tempo em que evidencia o papel (menos importante do que essas
duas tendências, mas também relevante) da consideração do peso silábico, SEUNG HWA LEE* 1
no processo de posicionamento da proeminência acentual, no nível da
palavra. Não se trata, pois, de negar a importância do peso silábico na
atribuição do acento do PA, mas de relativizar a sua relevância.

Na análise proposta, houve momentos de dificuldade em descrever carac-


terísticas próprias do PA a partir de uma abordagem tão universalizante quanto
a OT. Nesses momentos, optei por dar a aspectos particulares da língua uma 1. INTRODUÇÃO
solução também particular. Soluções desse tipo são, muitas vezes, criticadas

O
acento primário é um dos assuntos mais discutidos nos estu-
pelo fato de as restrições propostas, paroquiais, não terem um caráter univer- dos da fonologia do português. Na literatura, há um consenso
sal11. Ao contrário de Archangeli (1997: 15), que sugere que a adoção de de que o acento do português é previsível — o acento cai
restrições paroquiais é uma questão de fraqueza das análises, este capítulo pro- numa das três últimas sílabas. Encontram-se, no entanto, diferentes análi-
põe que restrições desse tipo desempenham o importante papel de apontar ses da questão do acento do português, que, na formulação da regra do
para soluções marginais dentro da língua, dadas, geralmente, a casos excepcio- acento, levam em conta:
nais, dificilmente explicados pela hierarquização de restrições de caráter uni-
versal. Em vez de ser o problema, este capítulo propõe que a adoção de restri- i) o domínio de aplicação: radical derivacional/palavra;
ções paroquiais é a solução para alguns casos de opacidade, comumente resol- ii) a sensibilidade à quantidade;
iii) a sensibilidade à categoria lexical.
vidos, na literatura, pela proposição de hierarquias de restrições alternativas em
um processo de avaliação paralelo, que, além de trazer para a teoria o proble- Além dessas divergências, essas análises têm utilizado noções tais como:
ma de estabelecer quais inputs serão avaliados por qual hierarquia, acaba por catalaxis (Andrade & Laks 1991; Bisol 1992c, 1994a), que acrescenta uma
esconder o fato de que o dado específico que necessita da ação de uma restri- mora para explicar palavras oxítonas que terminam em vogal;
ção paroquial para ser gerado é marginal, excepcional, dentro do contexto da extrametricidade (Bisol 1992c, 1994a; Massini-Cagliari 1995, 1999) —
língua. Assim, para dados marginais, soluções excepcionais. que significa que algum elemento (sílaba final ou consoante/mora final) da

*
Departamento de Lingüística, Universidade Federal de Minas Gerais/CNPq.
11. Na nota 3 do primeiro capítulo de seu manual didático de OT, Archangeli (1997: 15) afirma: 1. Agradeço aos professores Dr. José S. Magalhães, Dr. Luiz Carlos Cagliari e Dr. Marco Antônio
“There are numerous analyses involving constraints whose status as a universal is minimal at best. At de Oliveira pelos comentários e sugestões. Os erros que porventura persistirem são de minha total
this point, it is unclear whether this is a weakness of the model itself, or a weakness of the analyses.” responsabilidade.
122 Seung Hwa Lee O acento primário no português: uma análise unificada na teoria da otimalidade 123

palavra é invisível na análise métrica — para explicar os casos de acento (4)


excepcional (isto é, o acento das palavras proparoxítonas e o acento das a. caquí, café, urubú, jacaré, avô, avó
b. dúvida, máquina, médico, lâmpada, pêssego, pérola
palavras paroxítonas que terminam em consoante). Wetzels (1999), Massini- c. téc[i]nico, rít[i]mico
Cagliari (1999) e Magalhães (2004) tratam os acentos excepcionais/irre-
gulares como acento presente na representação subjacente (léxico). De acordo com Lee (1995, 1997, 2001, 2002), Pereira (1999), o acento
Neste capítulo, propõe-se uma nova análise unificada para os verbos e oxítono do não-verbo é considerado como o acento regular. Os autores
não-verbos que trata o acento como resultado de interação de restrições uni- defendem que o domínio de aplicação das regras de acento do não-verbo é
versais da OT (Prince & Smolensky 1993; McCarthy & Prince 1993, 1995b). o radical derivacional e a palavra oxítona compartilha a mesma estrutura
métrica com palavra que contém vogal temática (ou marcador de palavra)3
nos não-verbos, como em (5):
2. DADOS (5)
Os dados do PB permitem deduzir duas generalizações em relação ao acento a. [gát]o, [menín]o
primário (doravante acento). Em primeiro lugar, quando uma palavra termina b. [coronél], [café]
em vogal, o acento cai na penúltima sílaba, como exemplificado em (1): Os exemplos de (5) mostram que a última vogal do radical derivacional
(1) é acentuada nos não-verbos. Esta proposta dá conta da Regra do Ritmo
gáto, lívro, palávra, boníto, cáqui, fálo, fála (cf. Liberman & Prince, 1977) do PB — quando ocorre o choque de acen-
Em segundo lugar, quando as palavras terminam em sílaba pesada (con- tos, o acento da palavra desloca-se para a esquerda, como mostra (6).
soante ou ditongo), o acento cai na última sílaba, como mostra (2): (6)
a. menór, animál vs. mènorzínho, anìmalzínho
(2)
a. rapáz, felíz, país b. café, jacaré vs. càfezínho, jacàrezínho
b. anél, tonél, papél c. formál, felíz vs. fòrmalménte, félizménte
c. amór, tutór, menór d. um computadór lénto, *um computàdor lénto
d. irmã, atúm, armazém
e. herói, chapéu, degráu Os exemplos de (6) mostram que o acento das palavras oxítonas deslo-
ca-se para a esquerda, quando os sufixos -zinho, -mente são acrescentados
No entanto, a sílaba pesada na última sílaba do verbo não atrai o acen-
to, deixando o acento na penúltima sílaba ou antepenúltima sílaba das nelas. Em outras palavras, quando ocorrem dois acentos adjacentes, como
palavras, como (3) demonstra: em /kafE¤zínho/ — em que se verifica choque de acentos adjacentes —, o
acento do radical derivacional desloca-se para a esquerda. Isso não ocorre
(3)
fálam, falámos, faláram, falássemos nos sintagmas nominais como em (73d). Lee (1995, 1997, 2002) argu-
mentou que a abordagem de troqueu moraico não consegue explicar a
Por outro lado, diferentemente das generalizações feitas acima, há o
Regra de Ritmo no PB e não há necessidade de catalaxis.
acento oxítono, o acento proparoxítono e até o acento pré-proparoxítono2
no PB, quando a palavra termina em vogal, como em (4): Assume-se que o acento proparoxítono dos não-verbos é verdadeira-
mente irregular no PB pelas seguintes razões:
2. O acento pré-proparoxítono ocorre pela epêntese devido à estrutura silábica do PB na forma
fonética. Ele viola a restrição de janela trissilábica e implica na interação entre o acento e a estrutura
silábica. Deixarei uma análise mais profunda deste acento para um futuro breve. 3. Veja Lee (1995) sobre a discussão sobre o marcador de palavra.
124 Seung Hwa Lee O acento primário no português: uma análise unificada na teoria da otimalidade 125

i) as palavras derivadas4, novas, criadas ou as palavras de origem estrangei- ou seja, a sílaba pesada precedida da sílaba tônica leve perde consoante
ra não criam palavras proparoxítonas — as palavras de sigla ou de emprésti- final (cf. Lee 2003).
mo sempre respeitam essas generalizações no PB como (7) demonstra:
(10)
(7) homem > [õ)mI]
a. música → musicalizar, médico → medicina
b. BANESPA, COPASA
Este fenômeno ocorre para ajustar-se do acento irregular para o acento
c. PETROBRAS, UOL regular. Este capítulo, portanto, assume que os acentos irregulares dos não-
d. deletár (do inglês deléte), radár (do inglês rádar) verbos não são previsíveis pela gramática e estão listados na entrada lexical.
ii) as palavras proparoxítonas tendem a ser palavras paroxítonas, como Em outras palavras, as regras de acento se aplicam somente nas palavras
em (8): que se sujeitam às duas generalizações.

(8) O acento dos verbos mostra o comportamento bem diferente do acen-


a. córrego > [«kçrgU]; abóbora > [a«bçbRå], chácara > [«SakRå] to dos não-verbos. Lee (1995, 1997, 2003), Mateus (1983), Pereira (1999)
b. fósforo > [«fçsfRU]; lâmpada > [«lŒ)pIdå]5; árvore > [«arvRI] apontam que as regras do acento do português são determinadas morfolo-
Os fatos descritos acima mostram que as palavras proparoxítonas são gicamente. O argumento principal para tratar o acento do português como
formas marcadas no PB. No entanto, isso não é verdade para os verbos. Os o acento morfológico é a função distintiva, como em (11):
casos do verbo serão tratados mais adiante. (11)
Para complicar ainda mais as generalizações acima, os exemplos abai- o acento distingue categorias lexicais
sábiaN vs. sabíaV vs. sabiáN
xo mostram que o acento dessas palavras cai na penúltima sílaba ou na
fabrícaV vs. fábricaN
antepenúltima sílaba, embora as palavras terminem em consoante ou di-
tongo. Estes casos também são tratados como de acento irregular. De acordo com Hayes (1995) existem dois tipos de acento — o acento
fonológico e o acento morfológico. O primeiro determina o ritmo, como
(9) ocorre no francês, e o segundo distingue palavras, além da função rítmica.
a. lápis, tênis, píres, vírus
b. túnel, fácil, ágil, útil Além disso, a sílaba pesada na posição final do verbo não atrai acento,
c. flúor, caráter, dólar, açúcar diferentemente do não-verbo, como em (3), repetida aqui:
d. ímã, órfã
e. jóvem, hómem, pólen, órgão (12)
f. jóquei, vôlei, médio fálam, falámos, faláram, falássemos
g. Júpiter, Lúcifer, Émerson, Wáshington6, ínterim
Wetzels (1991, 1992) mostra que as palavras de acento irregular do
No exemplo abaixo, quando a última sílaba pesada não atrai acento, as não-verbo estão sujeitas à regra de Abaixamento Dactílico como em (13a)
e à regra de Abaixamento Espondaico como em (13b), ao passo que o
palavras também sofrem redução, como nas palavras proparoxítonas. Este
verbo não é atingido por essas regras, como comprova (13c):
fenômeno e conhecido como Encurtamento Iâmbico (Brevis Brevians)7,
(13)
a. fon[Ó]logo, ab[Ó]bora
4. O sufixo -ico é sempre átono e os sufixos de grau superior como -íssimo e -érrimo sempre b. m[Ó]vel, d[Ó]lar
carregam o acento na primeira vogal do morfema.
c. f[ó]ramos, esqu[é]çam
5. A vogal da segunda sílaba (pa) é sincopada e depois a vogal epentética [i] é inserida para satisfazer
sílaba do PB.
6. As palavras de acento proparoxítono, como em (9g), são a grande maioria de origem estrangeira.
Os exemplos acima mostram que a qualidade das vogais médias acentua-
7. Veja também Jacobs (1990, 2000), Prince (1991), Mester (1994) sobre a Brevis Brevians e a síncope. das é sempre média-baixa, em decorrência das regras de abaixamento
126 Seung Hwa Lee O acento primário no português: uma análise unificada na teoria da otimalidade 127

vocálico, quando a última sílaba pesada do não-verbo não atrai o acento, Ama:bá:mus Renegá:mus Amávamos Renegámos
Ama:bá:tis Renegá:tis Amáveis Renegáis
mas isso não ocorre no verbo. Amá:bant Rénegant Amávam Renegam
O acento dos verbos é muito mais complexo do que o dos não-verbos. As
análises anteriores mostram os usos significativos e arbitrários de extrametricidade Em (16a/c), as formas do singular e a forma de 3a pessoa do plural
na explicação do sistema de acento dos verbos. Por exemplo, o morfema de 1ª recebem o acento na vogal temática, enquanto o acento cai na penúltima
pessoa plural, -mos, é tratado como extramétrico às regras de acento, em falá- sílaba das formas de 1a e 2a pessoas do plural do latim, e esses acentos
vamos e, como visível às regras de acento, em falamos. mudam para a vogal temática no português. Em outras palavras, o sistema
Neste capítulo, argumenta-se que os fatores fonológicos e morfológicos acentual do português mantém paradigma uniforme. Os exemplos de (16b/
devem ser considerados para dar conta dos acentos dos não-verbos. Em d) mostram que o português mantém o acento na penúltima sílaba unifor-
primeiro lugar, o acento do verbo geralmente cai na penúltima sílaba e na memente — ou seja, diferentemente do latim. O acento do latim8 é sensí-
primeira vogal não-final logo após o radical ou na última vogal do radical vel ao peso silábico e é determinado fonologicamente:
(cf. Mateus 1983), como (14) demonstra:
i) em palavras de três ou mais sílabas, a penúltima é acentuada se for
(14) longa, como em (16a), isto é, se contiver uma vogal longa, um di-
fálo, fála, falámos, fálam, fále, falémos
tongo ou uma vogal breve seguida de duas ou mais consoantes;
Nas formas verbais do tempo pretérito, o acento pode cair numa das ii) em palavras de três ou mais sílabas, a antepenúltima é acentuada se
três últimas sílabas e a sílaba tônica sempre coincide com a vogal temática. a penúltima for breve, como em (16b).
(15) Com a perda de duração vocálica do latim para o português arcaico/
a. faléi, falóu, partí, vendí
b. faláram, faláva, falásse moderno, o acento do verbo recai na penúltima sílaba, como nos exem-
c. falávamos, falássemos plos de (14) ou na vogal temática no português. A idéia de PU pode ser
Nas análises derivacionais, os acentos destas formas foram tratados pela estendida para todas as formas verbais de tempo passado. Em outras pala-
introdução da extrametricidade, colocando a última sílaba extramétrica vras, nas formas verbais do tempo pretérito, o acento sempre cai na vogal
em (15c), pela introdução da Catalaxis em parti de (15a). Os exemplos em temática, embora ela fique numa das três últimas sílabas da palavra.
(15b) receberam o mesmo tratamento dos exemplos em (9). Os exemplos abaixo mostram que a primeira sílaba do morfema do
Harris (1973) propõe que o acento proparoxítono do verbo é resultado tempo futuro é sempre acentuada. Como nas formas verbais do tempo
da restrição Paradigmatic Uniformity (PU), segundo a qual há uma tendên- passado, o acento pode cair numa das três últimas sílabas.
cia forte para um paradigma ser uniforme. A tabela (16) abaixo mostra a (17)
mudança de acento que ocorreu do latim para o português: falaría, falaríamos, falaréi, falará, falaríamos, falarão etc.

(16)
Latim Português 8. O acento do latim clássico na OT (Prince & Smolensky 1993: 63):
Undominated: WSP, RhHrm, FTBIN, RhType=T, Lx.Pr
a. b. c. d.
Main Sequence:
Amá:ba Rénego Amáva Renégo LX.PR, FTBIN >> NONFINALITY(F´, σ´) >> EDGEMOST(σ´; R) >> PARSE-σ >> PARSE-µ
Amá:bas Rénegas Amávas Renégas Weight Effect: WSP >> PARSE-µ
Amá:ba Rénegat Amáva Renéga Bounding: EDGEMOST(σ´; R) >> PK-PROM
128 Seung Hwa Lee O acento primário no português: uma análise unificada na teoria da otimalidade 129

Apesar das fortes influências da morfologia, o acento do verbo sempre cai (18)
numa das três últimas sílabas. Conforme Lee (1995, 1997) observa, a influên- a. Posição do acento primário: à direita ou à esquerda
b. Extrametricidade: sim ou não
cia do peso silábico na atribuição do acento é oposta — a sensibilidade do c. Exaustividade de análise: pé iterativo ou pé não iterativo
peso silábico é marcada nos verbos. Além disso, as palavras proparoxítonas dos d. Direcionalidade do pé iterativo: de direita à esquerda ou de esquerda à
verbos são condicionadas morfologicamente, diferentemente das dos não-ver- esquerda
e. Forma do pé (posição da cabeça do pé): Iambo ou Troqueu
bos — ou seja, o acento proparoxítono do verbo é determinado pela gramáti-
f. Pé binário: estrito ou pé degenerado permitido
ca. O morfema envolvido é sempre o de 1ª pessoa plural. No entanto, este g. Sensibilidade à quantidade ou não
morfema não pode ser categoricamente extramétrico no português.
A abordagem pela teoria da otimalidade estabelece restrições a partir
Em resumo, os dados do PB discutido acima mostram que o sistema do acen- da teoria métrica parametrizada cima.
to no PB é mais bem explicitado, quando as estruturas morfológicas são levadas
em conta na atribuição do acento. Nos acentos regulares dos não-verbos, Em primeiro lugar, há restrições em relação à formação do pé (19):
(19)
i) o acento cai numa das duas últimas sílabas;
a. R OOTING (L X . P R W D ): as palavras lexicais têm de ser acentuadas
ii) a sílaba pesada na posição final da palavra atrai o acento; (Hammond 1995)
iii) o acento nunca cai na vogal temática. b. FTBIN (Pé Binário): os pés são binários no nível da σ
c. PARSE-s: as análises do pé são exaustivas
Por outro lado, o acento se torna irregular,
A direção de formação do pé é explicada pelo alinhamento esquerdo/
i) quando a última sílaba pesada não atrai o acento; direito do pé no domínio do acento:
ii) quando o acento cai na terceira ou quarta sílaba, a partir da mar-
(20)
gem direita da palavra. Direcionalidade de análise do pé: FT-L, FT-R
a. FT-R Right-to-Left: ALIGN (Foot, R, Word, R)
As propriedades dos acentos dos verbos podem ser resumidas pelo seguinte: b. FT-L Left-to-Right: ALIGN ((Foot, L, Word, L))
i) o acento cai na penúltima sílaba; FT-R, por exemplo, significa que o lado direito do pé deve ser alinhado
ii) o acento do verbo sempre cai na primeira vogal não-final logo após com o lado direito da palavra fonológica.
o radical ou na última vogal do radical;
iii) a sílaba pesada na posição final da palavra não atrai o acento; Em relação à posição do acento primário, existem as restrições de ali-
iv) a vogal temática atrai o acento no tempo passado; nhamento que forçam o acento primário para o lado direito do domínio
(RIGHTMOST) ou para o lado esquerdo do domínio (LEFTMOST).
v) o morfema do tempo futuro atrai o acento;
vi) o acento proparoxítono é previsível pela gramática. Em relação às formas do pé, existem duas restrições: FTFORM=IAMBO e
FTFORM=TROQUEU. A restrição WSP (Green 1996) – as sílabas pesadas são
acentuadas — explica a sensibilidade à quantidade ou não.
3. O ACENTO REGULAR DO NÃO-VERBO
Como foi observado na seção anterior, o acento do PB sempre cai
Hayes (1995) estabelece uma teoria métrica parametrizada para expli- numa das três ultimas sílabas. Isso significa que a formação do pé é não-
car o acento das línguas — de acordo com o autor, cada sistema de acento é iterativa no português. A restrição FT-R força a análise do pé do lado direito
considerado como uma escolha limitada particular dos seguintes parâmetros. para o lado esquerdo e entra em conflito com a restrição PARSE. O pé não-
130 Seung Hwa Lee O acento primário no português: uma análise unificada na teoria da otimalidade 131

iterativo é obtido pela dominância da restrição FT-R sobre a restrição PARSE No português, quando a palavra termina em consoante, o acento cai
(cf. Cowhurst & Hewitt 1995) na última sílaba e a formação do pé é não-iterativa. Portanto a restrição FT-
(21)
R domina a restrição WSP.
FT-R » PARSE9 (24) FT-R >> WSP
CANDIDATOS FT-R PARSE /formal/ FT-R WSP PARSE
a. s s s (s s) *** a. for(mál) * *
b. s s s s s ****!* b. (fór)mal *! * *
c. s (s s) (s s) *!* * c. (fór)(mál) *! *
d. (s s) s (s s) *!** *
e. (s s) (s s) s *!*** * Essa dominância garante (24a) como ótimo, embora ele viole as restri-
ções WSP e PARSE, enquanto o candidato mais competitivo (24c) viola so-
O tableau acima mostra que, em (21a), o candidato é escolhido como mente uma vez a restrição FT-R. No entanto a dominância FT-R sobre
ótimo, apesar das três violações da restrição PARSE e, em (21c), o segundo WSP deixa esta violação fatal. O tableau (25) mostra que o candidato que
pé está alinhado duas sílabas a partir da margem direita da palavra — há satisfaz a restrição PARSE é escolhido como ótimo.
duas violações da restrição FT-R. O candidato (21b) perde do candidato
ótimo por violar cinco vezes a restrição PARSE. O tableau abaixo mostra o (25)
acento regular do português que termina em vogal temática. /formal/ FT-R WSP PARSE
a. for(mál) * *!
(22)
b. (fór)mal *! * *
/bonito/ FT-R PARSE
c. (formál) *
a. bo (ní to) *
b. (bó ni) to *! *
A palavra oxítona que termina em consoante também satisfaz a restri-
c. (boní)to *! *
d. bo (ní) to *! **
ção FTBIN como em (26b), enquanto o candidato (26a) viola FTBIN e PARSE
e o candidato (26c) viola a restrição WSP.
No entanto, o GEN pode produzir a forma agramatical (boníto), a partir
de input. A restrição FTBIN é necessária para eliminar este candidato (26)
agramatical. A formação do pé no português é binária. /rapaz/ FTBIN FT-R WSP PARSE
a. ra(páz) *! *
(23)
FTBIN >> Parse b. (rapáz)
c. (rápaz) *! *
/bonito/ FTBIN FT-R PARSE
a. bo (ní to) *
*
Os tableaux (25)-(26) mostram que a restrição WSP e FTBIN influ-
b. (boníto) *!
enciam na determinação da forma do pé — as palavras oxítonas sempre
formam o pé iambo, diferentemente das palavras paroxítonas que termi-
9. A restrição de alinhamento Ft-L também está disponível no ranqueamento, mas não exerce papel
nam em vogal, nas quais a forma do pé é troqueu, como exemplificado
na determinação do pé, de modo que a restrição FT-R domina a restrição FT-L. em (27):
132 Seung Hwa Lee O acento primário no português: uma análise unificada na teoria da otimalidade 133

(27) (30)
TROQUEU >> IAMBO
/jacare/ FTBIN FT-R PARSE
/bonito/ TROQUEU FTBIN FT-R IAMBO a. ja(caré) *
b. ja(cáre) *
a. bo (ní to) ☺ *
Os dois candidatos estão em empate, violando somente a restrição PARSE
b. bo (ni tó) *!
uma vez. Além disso, o padrão da forma do pé é troqueu, quando a palavra
terminar em vogal, como em (27). O ranqueamento da restrição TROQUEU
Sem as restrições relacionadas à forma do pé, TROQUEU ou IAMBO, dois
sobre a restrição IAMBO é problemático para as palavras oxítonas que termi-
candidatos acima estão empatados, violando a restrição PARSE uma vez em
na em vogal, como o tableau (31) demonstra:
cada candidato. Com a dominância da restrição TROQUEU sobre a restrição
IAMBO, o candidato (27a) se torna ótimo. A interação entre iambo e troqueu (31)
será discutida mais adiante. /jacaré/ TROQUEU FTBIN FT-R IAMBO

Por outro lado, a palavra oxítona monossilábica viola FTBIN , mas a a. ja(caré) *!
dominância da restrição ROOTING sobre FTBIN garante (28a) como ótimo.  b. ja(cáre) *
(28)
ROOTING >> FTBIN10 Como a restrição TROQUEU está ranqueada na posição mais alta na
/fe/ ROOTING FTBIN hierarquia, o suposto candidato ótimo (31a) viola a restrição TROQUEU e
a. (fé) * perde para o candidato indesejável (31b). O mesmo ocorre nas palavras
b. fe *! ** oxítonas que termina em consoante:

As palavras oxítonas que terminam em vogal mostram o mesmo padrão (32)


acentual das palavras oxítonas que terminam em consoante, como o tableau /rapaz/ TROQUEU FTBIN FT-R WSP PARSE IAMBO
(29) demonstra. a. ra(páz) *! *
 b. (rapáz) *!
(29) c. (rápaz) * *
/jacare/ FTBIN FT-R PARSE
a. jaca(ré) *! ** O candidato (32b) comete uma violação fatal na restrição TROQUEU,
b. ja(caré) * embora satisfaça todas as restrições e o candidato (32a) perde para o candi-
c. (jacá)re *! * dato ótimo pela violação da restrição FTBIN. Por outro lado o ranqueamento
estabelecido acima prevê corretamente os acentos paroxítonos do verbo,
No entanto, o GEN pode criar o candidato com pé troqueu, como em como em fálam, falámos. Sobre o acento do verbo, discutiremos os deta-
palavras paroxítonas, exemplificadas no tableau (30). lhes na seção 5.

10. Veja os detalhes da interação da restrição FTBIN com outras restrições no português em Lee
Para resolver este problema, é necessário introduzir as abordagens apon-
(2002). tadas por Lee (1995, 2002), Mateus (1983) Pereira (1999), nas quais o
134 Seung Hwa Lee O acento primário no português: uma análise unificada na teoria da otimalidade 135

domínio do acento do não-verbo é o radical derivacional — ou seja, o c. (boní)}to *! * *


acento cai na última sílaba do radical, como foi discutido na seção anterior d. bo (ní)} to *! * ** *
e repetido a seguir.
O tableau a seguir mostra a aplicação da restrição ALIGN nas palavras
(33)
oxítonas que terminam em consoante.
a. café, jacaré
b. formál, felíz (37)
c. bonít +o, cás + a
/rapaz/ ALIGN TROQUEU FTBIN FTR WSP PARSE
Isso significa que a cabeça do pé sempre coincide com o lado direito a. ra(páz) * *!
do radical derivacional nos acentos regulares do português. Esta idéia pode b. (rapáz) *
ser transcrita em termos do alinhamento generalizado da OT: c. (rápaz) *! * *

(34)
ALIGN (Stem, Right, Head, Right): o lado direito do radical derivacional No tableau (37), o candidato (37a) perde do candidato ótimo pela viola-
coincide com o lado direito da cabeça do pé. ção da restrição PARSE e o candidato (37c) pela violação da restrição ALIGN.
Esta restrição entra em conflito direto com a forma do pé – TROQUEU. A introdução da restrição ALIGN traz algumas vantagens. Em primeiro
O lugar de alinhamento é marcado com a chave direita, representado pelo lugar, não há necessidade de estipular o conceito de Catalaxis [Bisol
símbolo ‘}’ nos candidatos. A restrição ALIGN sobre a restrição TROQUEU no (1992c), Massini-Cagliari (1995, 1997), Magalhães (2004)], para os casos
ranqueamento garante o candidato (35b) como ótimo, uma vez que o can- de palavras oxítonas que terminam em vogal, como em café(C), jacaré(C).
didato (35d) viola fatalmente a restrição ALIGN. Em outras palavras, o acento oxítono é tratado como o acento regular, sem
(35) nenhuma estipulação.
ALIGN >> TROQUEU
Em segundo lugar, a abordagem de alinhamento morfológico explica
/jacare/ ALIGN TROQUEU FTBIN FT-R PARSE IAMBO
a Regra de Ritmo (cf. Lee 1995, 2002), enquanto as abordagens com
a. jaca(ré)} * **! Catalaxis não dão conta da Regra de Ritmo, de modo que não há lugar de
b. ja(caré)} * * pouso para o deslocamento de acento.
c. (jacá)re} *! * * *
(38)
d. ja(cáre)} *! * * Regra de Ritmo
Abordagem da OT
Nas palavras paroxítonas que terminam em vogal, o candidato, que sa- /Jacaranda/ + /zinho/
tisfaz a forma do pé troqueu, é escolhido como ótimo — ou seja, a restri- Jaca(randa) + (zinho) Choque de acento
Jaca(ran da) (zinho) Regra de Ritmo
ção ALIGN não interfere na escolha do candidato ótimo, como o tableau
(36) demonstra. Troqueu Moraico
Jacaran(daC) + zinho
(36) Jacaran(daC) + (zinho) Choque de Acento
/bonito/ ALIGN TROQUEU FTBIN FTR PARSE IAMB *Jaca(ran da) (zinho) Não há lugar de pouso
a. bo(ní} to) * * Por último, a presente abordagem da OT concebe as idéias levantadas
b. (bó ni)} to *! * * * das análises derivacionais anteriores sem nenhuma estipulação – as sílabas
136 Seung Hwa Lee O acento primário no português: uma análise unificada na teoria da otimalidade 137

pesadas na posição final da palavra atraem acento e a palavra oxítona que (40)
termina em vogal é o acento regular. /MÁQUINA/ IDSTRESS ALIGN TROQUEU FT-R PARSE
a. ma(quína) *! *
b. (máqui)na * * *
4. O ACENTO IRREGULAR DOS NÃO-VERBOS c. (maquí)na *! * * *
d. (má)(quína) * *!*
Como foi discutido na seção 3, nos não-verbos, o acento se torna irregular, e. (má) quina * *!* **
i) quando a última sílaba pesada não atrai o acento; Embora o candidato (40a) viole somente restrição PARSE, satisfazendo
ii) quando o acento cai na terceira ou quarta sílaba, a partir da mar- as restrições que favorecem o acento paroxítono, a violação da restrição de
gem direita da palavra. fidelidade IDSTRESS é fatal e conseqüentemente ele perde para o candidato
Neste capítulo, assume-se que os acentos irregulares são marcados na ótimo (40b) que viola as restrições FT-R, ALIGN, PARSE. Os candidatos (40d/
representação subjacente. A introdução de uma restrição de fidelidade, e) se tornam agramaticais pelas duas violações da restrição FT-R, enquanto
IDSTRESS, explica a presença do acento irregular. A restrição IDSTRESS força o candidato ótimo viola esta restrição somente uma vez. As palavras
a preservar o acento dado pelo input e entra em conflito com a restrição proparoxítonas com sílaba tônica pesada mostram o resultado semelhante,
ALIGN, uma vez que o acento não cai na última vogal do radical: IDSTRESS como (41) demonstra.
>> ALIGN. O tableau (39) mostra a interação das restrições mencionadas. (41)
(39)
/fósforo/ IDSTRESS ALIGN TROQUEU FT-R WSP
IDSTRESS >> ALIGN
a. fos(fóro) *! *
/jóvem/ IDSTRESS ALIGN TROQUEU FT-R WSP PARSE
b. (fósfo)ro * *
a. (jóvem) * *
c. (fosfó)ro *! * * *
b. (jovém) *! * *
d. (fós)(fóro) * *!*
e. (fós) foro * *!*
No tableau (39), o candidato (39a) não atrai o acento, apesar de ter
sílaba pesada final, e conseqüentemente viola as restrições WSP e Align. A Nas palavras proparoxítonas, a síncope ocorre opcionalmente em síla-
dominância da restrição IdStress sobre a restrição Align garante (38a) como ba precedida da sílaba tônica, independentemente do peso dessa sílaba:
ótimo. A forma do pé do candidato ótimo criada é troqueu — (L H). Isso
(42)
motiva os Brevis Brevians — ou seja, a reestruturação do pé ocorre, fazendo a. córrego > [«kçrgU]; abóbora > [a«bçbRå], chácara > [«SakRå]
a sílaba átona ficar ainda mais fraca: (L H) -> (L L). Em termos da OT, os b. fósforo > [«fçsfRU]; lâmpada > [lŒ)pIdå]; árvore > [«arvRI]
Brevis Brevians ocorrem para satisfazer as restrições Align e WSP — (jóvi),
A síncope ocorre para ajustar o acento marcado (proparoxítono) para o
para dispensar a restrição IdStress que se aplica na entrada lexical com o
acento não-marcado (paroxítono) no PB (cf. Lee 1997, 2002, 2003). Em termos
acento marcado na representação subjacente. Em outras palavras, o acento
da OT, por outro lado, a síncope ocorre para satisfazer as restrições Align e Ft-R.
marcado é tratado como o não-marcado, cf. Lee (1995, 1997, 2002).
(43)
Os tableaux (40) e (41) mostram o acento proparoxítono e os candida- a. (L1 L2) L3  (L1 L3) chácara  chácra
tos ótimos violam a restrição FT-R e a restrição ALIGN. b. (H L1) L2  (H L2) fósforo  fósfro
138 Seung Hwa Lee O acento primário no português: uma análise unificada na teoria da otimalidade 139

5. O ACENTO DOS VERBOS importante na atribuição do acento dos verbos — o candidato (45f) viola
FTBIN e FT-R, apesar de satisfazer a restrição WSP e PARSE. O candidato
As propriedades dos acentos dos verbos discutidas na seção 2:
(45d) perde do candidato ótimo pela violação da restrição TROQUEU. Em
i) o acento cai na penúltima sílaba;
outras palavras, as restrições FTBIN, FT-R e TROQUEU exercem papéis cruciais
ii) o acento do verbo sempre cai na primeira vogal não-final logo após
na determinaçãoe do acento na formação do pé.
o radical ou na última vogal do radical;
iii) a sílaba pesada na posição final da palavra não atrai o acento No entanto, o ranqueamento estabelecido acima é problemático para
os verbos do tempo pretérito e do tempo futuro, nos quais o acento pode
permitem deduzir que o acento paroxítono do verbo forma o pé binário
cair numa das três últimas sílabas da palavra.
troqueu que está alinhado no lado direito da palavra. Como nos acentos
dos não-verbos, a dominância da restrição FT-R sobre a restrição PARSE Em primeiro lugar, os verbos de tempo passado sujeitam-se à restrição
constrói o pé não-iterativo, alinhando-o no lado direito da palavra, como o Paradigm Uniformity11 — o acento cai na vogal temática. Em termos da OT,
tableau (44) demonstra. podemos introduzir uma restrição de marcação, como abaixo:

(44) (46)
Paradigm Uniformity (PU): acentue a vogal temática nas formas
/demonstramos/ FT-R PARSE
a. demons(trá mos) verbais do tempo passado12
*
b. de(mónstra) mos *! * Esta restrição entra em conflito direto com a restrição TROQUEU no
c. (démons) (trámos) *!* acento oxítono e com a restrição FT-R no acento proparoxítono. Embora o
A partir do ranqueamento estabelecido para os não-verbos na seção candidato (47b) satisfaça todas as restrições estabelecidas que favoreçam o
anterior, sabemos que as restrições TROQUEU e FTBIN, FT-R dominam as acento paroxítono, ele viola a restrição PU, o que é fatal. O candidato
restrições WSP e P ARSE , uma vez que o comportamento do acento ótimo (47a) viola a restrição TROQUEU, portanto a restrição PU domina a
paroxítono do verbo é semelhante ao acento paroxítono regular dos restrição TROQUEU.
não-verbos. (47)
PU >> TROQUEU
(45)
TROQUEU, FTBIN, FT-R >> WSP, PARSE /perdi/ PU FTBIN TROQUEU FT-R PARSE
/cant am/ TROQUEU FTBIN FT-R WSP PARSE a. (perdí) *
a. (cán t am) * b. (pér di) *!
c. (cán) t am *! * * *
c. (pér)di *! * * *
d. (cantám) *! *
e. can(tám) *! * *
d. per (dí) *! * *
f. (cán) (tám) *!* *

11. Lee (2002) utiliza a restrição de alinhamento para PU. No entanto, essa proposta introduz
No tableau (45), o candidato ótimo viola somente a restrição WSP, IAMBO >> TROQUEU para explicar o acento oxítono do verbo, assumindo a regra de diferenciação
(Cagliari, 1999). No presente artigo, a PU como a restrição de marcação dá conta do acento oxítono
que é sempre respeitada nos não-verbos. Pelo fato de ser ranqueada no sem estipular o ranqueamento do trabalho anterior.
lugar bem baixo na hierarquia das restrições, a WSP não mostra o papel 12. As formas verbais do futuro do subjuntivo e do infinitivo pessoal também são sujeitos à PU.
140 Seung Hwa Lee O acento primário no português: uma análise unificada na teoria da otimalidade 141

Diferentemente do acento proparoxítono dos não-verbos, o acento nham somente de um pé, como em (49c) e (49d). O candidato (49a) é
proparoxítono dos verbos não tem o acento marcado na representação escolhido como ótimo, de modo que o candidato ótimo suposto (49d)
subjacente, como o tableau (48) demonstra. viola a restrição de marcação PU no primeiro pé.
(48) (49)
PU >> FT-R
/falar + a/ ROOTING PU FTBIN TROQUEU WSP
/falassemos/ PU FTBIN TROQUEU FT-R PARSE
a. (falár) (á) * *
a. fa (lásse)mos * **
b. fa(lára) *!
b. fala(ssémos) *! **
c. fa(lara) *! *
c. fala(ssé)mos *! * * ***
 d.(fálar) (á) * * *
d. (falá)(ssémos) *! **
e. (falá)ssemos *! ** **
Nas formas verbais do futuro, também ocorre a regra de ritmo que
f. (fála)(ssémos) *! * **
g. fa(lá)ssemos *! ** **
desloca o acento da primeira palavra no lado esquerdo. O deslocamento
do acento não ocorre quando o clítico é colocado entre duas palavras
No tableau acima, o ranqueamento da restrição PU sobre FT-R garante fonológicas, como o PE demonstra.
o candidato (48a) como ótimo, que viola as restrições FT-R e PARSE que
(50)
estão na posição baixa na hierarquia. Por outro lado, o candidato mais
falár-se-éi, *fálar-se-éi
competitivo, (48b), viola a restrição PU, o que é fatal, embora ele satisfaça
a restrição FT-R. Os outros candidatos violam as restrições mais prioritárias O exemplo acima mostra que as duas cabeças não entram em choque.
na atribuição do acento do verbo, como PU, FTBIN, TROQUEU. Para explicar o deslocamento do acento, portanto, é necessário introduzir
Em relação às formas verbais do tempo futuro que possuem os acentos uma restrição de marcação *CLASH (Kager 1995, 2001) que proíbe duas
oxítono, paroxítono e proparoxítono como nas formas verbais do tempo pas- cabeças do pé adjacentes.
sado, a restrição PU não exerce papel crucial na determinação do acento,
(50) *CLASH: duas cabeças do pé adjacentes são proibidas.
uma vez que o acento não cai na vogal temática. Por outro lado, Mateus
(1983), Bisol (1992c) e Massini-Cagliari (1999) tratam as formas verbais do A restrição de marcação *CLASH está relacionada com a regra de ritmo
futuro do presente e do futuro pretérito (condicional) como palavra compos- discutida na seção 2 e é uma restrição não-dominada no português. Ela
ta — as formas verbais do futuro do presente são compostas pelo infinitivo
garante o candidato (51d) como ótimo, de modo que o candidato mais
mais o verbo haver no presente indicativo e as formas verbais do futuro do
competitivo (51a) viola a restrição de marcação *CLASH.
pretérito são compostas pelo infinitivo mais o pretérito imperfeito do verbo ir
(cf. Massini-Cagliari 1999: 141). Se assumidas as formas verbais do futuro (51)
como compostas, o acento do futuro do pretérito tem a mesma solução do /falar + a/ ROOTING *CLASH PU FTBIN TROQUEU WSP
acento proparoxítono do verbo, como em (47) e o acento do futuro do pre- a. (falár) (á) *! * *
sente tem a mesma solução do acento paroxítono do verbo, como em (45). b. fa(lára) *!
Considerando as formas verbais como compostas, elas devem ter dois c. fa(lara) *! *
acentos e a restrição não-dominada ROOTING elimina candidatos que dispo- d.(fálar) (á) * * *
142 Seung Hwa Lee O acento primário no português: uma análise unificada na teoria da otimalidade 143

Pelo mesmo raciocínio da palavra oxítona acima, o tableau a se- luz do modelo da teoria de otimalidade (Prince & Smolensky 1993; McCarthy
guir mostra o acento das palavras proparoxítonas das formas verbais & Prince 1993, 1995b) e o acento do português resulta de interação entre as
do Futuro. restrições prosódicas/rítmicas (TROQUEU, FTBIN, FT-R) e as restrições morfo-
(52)
lógicas (como ROOTING, PU, ALIGN) – Morfologia >> Fonologia. A dominância
da morfologia sobre a fonologia significa que a morfologia exerce papel crucial
/falar+iamos/ ROOTING *CLASH PU FTBIN TROQUEU FT-R
na determinação do acento.
a. (fálar) (ía)mos * *
b. (fálar) i(ámos) **! Alguns pontos principais discutidos no presente trabalho podem ser
c. (falár) i(ámos) * *! assim resumidos:
d. (falár) (ía)mos *! * *
i) A abordagem da OT dispensa os conceitos de extrametricidade e
e. falar (ía)mos *! * *
Catalaxis, estipulados nas abordagens anteriores;
ii) O acento do verbo é insensível ao peso silábico, ao passo que o do
O candidato (52e) que dispõe somente um pé, violando a restrição ROOTING
não-verbo é sensível ao peso silábico. O acento oxítono do não-
e a restrição PU na primeira palavra fonológica se torna-se agramatical; o can-
verbo, que é sensível ao peso silábico, é obtido por A LIGN >>
didato (52b) comete duas violações na restrição PU; o candidato (52c), que
TROQUEU, uma vez que a restrição WSP está ranqueada na posição
satisfaz a restrição FT-R13, perde a competição pela violação da restrição
mais baixa na hierarquia das restrições e não influencia na determi-
TROQUEU em relação ao candidato ótimo; o candidato (52d) valoriza restrição
nação do acento. Naturalmente o lugar da WSP no ranqueamento
PU, mas viola *CLASH e TROQUEU, tornando-se agramatical.
explica a insensibilidade do acento do verbo. Além disso, a restri-
Em resumo, o acento paroxítono do verbo é determinado pelo ção ALIGN garante a palavra oxítona que termina em vogal como a
ranqueamento das restrições que valorizam a forma do pé troqueu, pé não- forma fonética correta.
iterativo e pé alinhado no lado direito da palavra fonológica; os acentos iii) Os acentos irregulares são marcados na representação subjacente e
oxítonos e proparoxítonos são obtidos através da restrição de marcação PU a restrição de fidelidade IDSTRESS garante o acento proparoxítono e
que força o acento para a vogal temática. Conseqüentemente o acento o acento paroxítono. No entanto, os pés no acento irregular sem-
proparoxítono nos verbos não é marcado na entrada lexical. pre respeitam as restrições FTBIN e TROQUEU.
iv) O acento do verbo se sujeita ao ranqueamento estabelecido no do
não-verbo – ROOTING, IDSTRESS >> ALIGN >> FTBIN, TROQUEU, FT-R
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS >> WSP, PARSE. No entanto, o acento proparoxítono do verbo é ob-
tido pela introdução da restrição de marcação PU que ajusta o acen-
Na abordagem da OT, diferentemente do que postula a teoria derivacional,
to para a vogal temática do Verbo – PU >> FTBIN, TROQUEU, FT-R.
as formas de superfície são obtidas pelas interações e ranqueamentos de res-
v) O deslocamento do acento é explicado pela restrição *CLASH que
trições universais da OT que se aplicam paralelamente às formas de superfí-
proíbe duas cabeças adjacentes.
cie, dispensando derivações intermediárias, ciclos/níveis e regras. O presente
vi) O acento do português é determinado pelo seguinte ranqueamento:
capítulo mostrou uma análise unificada do acento primário do português à
ROOTING, IDSTRESS, *CLASH >> PU, ALIGN >> FTBIN, TROQUEU, FT-R
>> WSP, IAMBO, PARSE.
13. Somente a violação da restrição FT-R do primeiro pé do lado direito foi considerada.
CAPÍTULO 7

ACENTO SECUNDÁRIO EM DUAS


VARIEDADES DE PORTUGUÊS
UMA ANÁLISE BASEADA NA OT*
FILOMENA SANDALO** & MARIA BERNADETE ABAURRE***

1. INTRODUÇÃO

E
ste capítulo apresenta uma análise do acento secundário no por-
tuguês brasileiro e no português europeu (PB e PE) baseada na
teoria da otimalidade (OT). Procuramos mostrar que uma análi-
se representacional:

(i) gera todos os fatos do PB e do PE sem a necessidade de postular


nenhum caso de neutralização absoluta;
(ii) não força o uso da noção de direcionalidade, o que implica uma
simplificação da teoria fonológica; e
(iii) é capaz de gerar, em paralelo, formas variantes.

*
A pesquisa na qual se baseia este trabalho foi financiada pela Fapesp e pelo CNPq e é uma versão
reduzida de trabalho de Sandalo, Abaurre, Mandel & Galves (2006), publicado em PROBUS 18
Secondary Stress in Two Varieties of Portuguese and the Sotaq Optimality Based Computer Program.
Concentramo-nos, neste capítulo, na análise lingüística baseada em restrições utilizada no progra-
ma Sotaq, desenvolvido por A. Mandel (IME/USP). O corpus utilizado no trabalho, assim como o
programa Sotaq, podem ser encontrados em http://www.ime.usp.br/~tycho/prosody/. A primeira
tentativa de abordar as diferenças rítmicas entre o português europeu e o português brasileiro com
base em um ranking de restrições foi proposta em Abaurre & Galves (1998), e este capítulo é um
desenvolvimento do insight inicial dessas autoras.
**
Departamento de Lingüística, Universidade Estadual de Campinas/CNPq.
***
Departamento de Lingüística, Universidade Estadual de Campinas/CNPq.
146 Filomena Sandalo & Maria Bernadete Abaurre Acento secundário em duas variedades de português 147

Embora tanto o PB como o PE atribuam o acento primário exatamente primário é atribuído a partir da construção, da direita para a esquerda, de
à mesma sílaba das palavras, a atribuição do acento secundário (ou acento pés troqueus moraicos não-iterativos. Essa é, por exemplo, a análise proposta
rítmico) é consideravelmente diferente, como se pode ver abaixo. Os exem- por Wetzels (1997), Bisol (1992a, 2000b) e Massini-Cagliari (1995), dentre
plos de (1) a (6) representam alguns casos possíveis de colocação de acen- outros. No entanto, algo deve ser dito a respeito do número significativo de
to secundário em PB e PE, de acordo com o julgamento de falantes nativos palavras terminadas em sílabas leves que são portadoras de acento na última
de ambas as variedades. As sílabas portadoras de acento primário estão em sílaba (e.g., café), e sobre o grande número de palavras com acento na
negrito e aquelas portadoras de acento secundário estão sublinhadas: antepenúltima sílaba (e.g., pérola). Além disso, embora cerca de 80% das
palavras terminadas em sílabas pesadas sejam acentuadas na última sílaba
PE: (1) a. A inteligência da catalogadora foi determinante ~
b. A inteligência da catalogadora foi determinante ~ (Bisol 1992a), há também muitas palavras com acento na penúltima sílaba,
c. A inteligência da catalogadora foi determinante ~ ainda que a última seja pesada (e.g., cadáver). De acordo com essa análise,
d. A inteligência da catalogadora foi determinante a maioria das exceções é tratada recorrendo-se à noção de extrametricidade
PB: (2) a. A inteligência da catalogadora foi determinante ~
b. A inteligência da catalogadora foi determinante silábica ou de moras, no caso de acento na penúltima sílaba de palavras
PE: (3) a. A modernização foi satisfatória ~ terminadas em sílabas pesadas. Para Bisol (1992a), essas palavras terminam
b. A modernização foi satisfatória por uma consoante que se manifesta superficialmente apenas quando um
PB: (4) a. A modernização foi satisfatória.
sufixo derivacional é acrescentado ao radical (e.g., café/cafeteira). Massini-
PE: (5) a. A catalogadora compreendeu o trabalho da pesquisadora ~
b. A catalogadora compreendeu o trabalho da pesquisadora Cagliari, por outro lado, postula vogais subjacentemente longas (i.e., vogais
PB: (6) a. A catalogadora compreendeu o trabalho da pesquisadora ~ que contam como duas moras) em posição final, nesses mesmos casos. Ambas
b. A catalogadora compreendeu o trabalho da pesquisadora as análises parecem arbitrárias, seja porque a consoante subjacente pode ser
Os fatos relativos aos acentos primário e secundário no português favo- mais bem analisada como epentética ou mesmo como parte do morfema
recem a hipótese de Hulst (1997), segundo a qual o acento primário não é derivacional (cf. Cote 2003, para uma análise de diferentes ocorrências da
um acento métrico. Hulst observa que, na maioria das línguas, a atribuição liaison em francês), seja porque é complicado postular vogais longas no léxi-
do acento primário não depende de uma marcação prévia exaustiva de co das línguas românicas (cf. Andrade & Laks 1991), especialmente se são
pés. Com efeito, a atribuição de acentos secundários em PB e PE independe postuladas como fonemas que ocorrem apenas em posição final de palavras.
do acento primário. Dado o alto número de palavras que continuam sem explicação, do
Seguindo a proposta de Hayes (1995) para o espanhol, assumimos, nes- ponto de vista da ocorrência do acento primário, em análises que postu-
te trabalho, que o acento primário em português é parte da informação lexical. lam troqueus moraicos no português, Lee (1994) revisita Câmara Jr.
Isto quer dizer que ele não é atribuído metricamente, embora seja, até certo (1953) e postula que /e/, /a/ e /o/ em posição final de nomes são vogais
ponto, previsível. Baseamos nosso pressuposto no fato de que, embora o acento temáticas fora do domínio do acento. De acordo com Lee, o domínio do
primário caia em uma das últimas três sílabas da palavra, nenhuma das aná- acento em português é a raiz, não o radical, e a atribuição de acento
primário baseia-se em um padrão iâmbico não-iterativo. De acordo com
lises métricas propostas para o português é capaz de prever com sucesso em
sua análise, palavras como mesa têm acento na penúltima sílaba porque
qual das três sílabas finais da palavra recai esse acento sem um uso excessivo
sua última vogal é a vogal temática, ou seja, um sufixo, e está, portanto,
da noção de extrametricidade, como discutiremos abaixo.
fora do domínio do acento. Palavras como café, por outro lado, têm acento
Considerando que muitas palavras do português têm o acento primário na última sílaba porque não têm vogal temática. Embora a análise de Lee
na última sílaba se ela for pesada, vários autores postularam que o acento tenha a vantagem de diminuir o número de exceções, ela é circular para
148 Filomena Sandalo & Maria Bernadete Abaurre Acento secundário em duas variedades de português 149

determinado conjunto de palavras, porque só podemos saber se uma vo- Passamos, agora, à questão central deste capítulo, ou seja, a colocação
gal é temática ou não (ou seja, um sufixo) nessas palavras, se soubermos do acento secundário, fenômeno que diferencia, de uma maneira não tri-
se ela é ou não acentuada (cf., e.g., mesa e sofá). Além da circularidade, vial, o português do Brasil e o português europeu.
esta análise tem ainda muitas exceções, já que palavras com padrão de
Sabe-se que a acentuação secundária no português do Brasil, como
acentuação proparoxítona e palavras proparoxítonas terminadas em síla-
no espanhol, segue um padrão binário (Carvalho 1988; Collischonn 1993;
ba pesada permanecem não explicadas, e a extrametricidade das sílabas
Abaurre & Galves 1998, entre outros). Como no espanhol, as exceções
e das moras continua necessária1.
ao padrão binário, no PB, correspondem aos casos de dátilos iniciais (ver
Em suma, embora uma análise métrica possa explicar o acento primário Harris 1989, para o espanhol e Collischonn 1993, para o português do
em um grande número de casos, ambas as alternativas de análise métrica Brasil). Não há consenso, no entanto, quanto à descrição da acentuação
aqui mencionadas requerem um uso considerável da extrametricidade lexical secundária no PE. Andrade & Laks (1991) propõem que o acento secun-
— ou de outros recursos ad hoc no caso das oxítonas com sílaba final leve — dário seja atribuído, em PE, através da construção de pés binários. Carva-
para resolver exceções, o que sugere que é mais econômico postular que o lho (1988, 1989) sustenta, por outro lado, que o acento secundário é
acento primário é fonêmico na língua. Hayes (1995) chega a essa conclusão atribuído através de pés ternários. Mais recentemente, Frota (1998) e
para o espanhol, cujos fatos relativos ao acento primário são muito seme- Vigário (1998) assumem que a acentuação secundária não é obrigatória
lhantes aos do português (Harris 1983). De acordo com Hayes, “main stress em PE e, se ocorre, tende a manifestar-se em pés ilimitados. Vigário (2003)
in Spanish is phonemic, though it can be predicted to a fair extent by complex afirma que a posição inicial de palavras fonológicas porta acento não-
lexical rules, whose character continues to be debated”2. primário em PE . Dada a falta de consenso a respeito da acentuação se-
cundária em PE, decidimos construir um corpus para análise. Esse corpus
1. Há também algumas análises do acento primário em português no quadro da OT: Sandalo tem dois objetivos:
(1999), Lee (2002), Bonilha (2004, 2005). Todas essas análises assumem que o acento primário é
previsível. Para dar conta da existência de padrões trocaicos e iâmbicos nos nomes do PB, Lee (ii) permitir uma visão mais precisa do fenômeno da acentuação se-
propõe duas hierarquias; Sandalo explora a idéia de acento determinado pela sonoridade, confor-
cundária em PE, e
me proposta de Kenstowicz (1994). Bonilha, como Sandalo, inspira-se também na proposta de
Kenstowicz, associando-a às idéias expostas em Gordon (1999, 2002). (iii) levar à formulação de hipóteses sobre a atribuição desse tipo de
2. Observe-se que a posição do acento primário em português muda quando sufixos são associados acento que possam ser checadas com base na intuição de falantes
para formar novas palavras (e.g. moderno, modernização). O acento primário do radical pode,
nesses casos, manter-se na forma de acento secundário (modernização) sob foco estreito, embora, nativos e na observação de mais dados, quando necessário.
sob foco largo, o acento secundário se manifeste na primeira sílaba de palavras com este padrão
silábico (modernização). Seria possível argumentar que atribuir acento primário no input também O corpus é constituído de 20 sentenças, que foram lidas três vezes por
no caso de palavras derivadas significaria uma perda em economia e que, portanto, uma análise três falantes nativos de português de Lisboa, e por dois falantes nativos de
derivacional baseada na fonologia lexical seria mais adequada. Uma possibilidade de evitar esse
problema, no entanto, é oferecida em Kager (2000) que, analisando a relação entre acento e português do Estado de São Paulo. Os dados foram transcritos com base
afixação no holandês, fornece evidência a favor da superioridade de uma análise representacional na percepção auditiva, mas foram usados espectrogramas como suporte
baseada na correspondência, com relação a uma análise derivacional/cíclica. De acordo com
Kager, alguns efeitos de bloqueio governados pelo acento, na afixação, que não podem ser captura- para as transcrições. Nossa análise propõe-se dar conta do fenômeno da
dos na fonologia lexical, decorrem naturalmente da interação entre restrições fonológicas e morfo- acentuação secundária em uma taxa de elocução normal, em sentenças
lógicas. Esse tipo de análise poderia, provavelmente, aplicar-se também ao português. Mas deixare-
mos este assunto para trabalhos posteriores. Neste trabalho, objetivando simplificar a análise, que transmitem nova informação (foco largo), como nas manchetes de jor-
manteremos a proposta de Hayes (1995) de tomar o acento primário como informação constante nais. A fala lenta e deliberada pode ser contexto para a manifestação de
do input. Em decorrência dessa decisão, postulamos, aqui, uma restrição (RIGHTMOST) que força o
acento primário a manifestar-se no último pé da palavra, o que, em alguns casos, força esse acento
padrões de acentuação que não serão aqui considerados. É sabido, por
a mudar para um sufixo. exemplo, que um padrão diferente de acentuação pode resultar daquilo
150 Filomena Sandalo & Maria Bernadete Abaurre Acento secundário em duas variedades de português 151

que, intuitivamente, é percebido como ênfase especial atribuída a um ele- (7)


( x )
mento particular de determinada seqüência. (x ) (x ) (x ) (x ) (x )
σ σ σ σ σ σ σ σ σ
A seguir, apresentamos uma descrição da acentuação secundária no
cons tan ti no po li ta nis mo
português europeu e brasileiro. Em 3, propomos uma análise para a acen-
tuação secundária baseada na OT, e argumentamos que a análise baseada (8)
em uma hierarquia de restrições é superior a uma análise baseada em re- ( x ) ( x )
(x) (x ) (x ) (x ) ( x ) (x ) (x ) (x )
gras para dar conta dos fatos do português.
σ σσ σσ σσ σσ σ σσ σσ σσ σσ
cons tan ti no po li ta nis mo cons tan ti no po li ta nis mo
(9)
2. UMA DESCRIÇÃO ( x )
(x ) (x ) (x ) ( x )
Nossos dados confirmam que o acento secundário no português do σ σ σ σ σ σ σ σ σ
Brasil segue um padrão binário (pés de duas sílabas) raramente violado. As cons tan ti no po li ta nis mo
exceções a esse sistema binário são constituídas principalmente pelos cha- Hayes (1995: 97) observa: “The crucial point of Harris’s analysis is that it
mados casos de dátilos iniciais (Prince 1983). O dátilo inicial (pé trissilábico relies on a temporary degenerate foot, set up in the middle of the derivation
com acento na primeira sílaba) não é, no entanto, obrigatório. Uma pala- (7), that either is expanded into a proper foot by destressing and reparsing, or
vra como abacaxi, por exemplo, pode ser acentuada como em abacaxi, is itself deleted”. Em nenhum dos dois casos, o pé degenerado se superficializa
apresentando um dátilo inicial, ou como abacaxi. e, de acordo com Hayes, este fato mostra que o ponto crucial da fonologia
do espanhol é a presença de uma restrição que bane pés degenerados.
Sabe-se que o espanhol apresenta o mesmo fenômeno (Harris
1983, 1989, Roca 1986). Nossos dados, no entanto, mostram que a Poder-se-ia argumentar que a análise de Harris poderia dar conta dos
análise de Harris (1989) não é adequada para o PB . Harris, no quadro fatos do português. Nossos dados, no entanto, mostram que essa análise
da teoria métrica, propõe uma análise para o espanhol em que as duas enfrenta problemas empíricos, como discutiremos abaixo.
formas variantes representam outputs alternativos para a resolução de
Uma análise acústica dos fatos do PB mostra que muitas palavras que
choques acentuais. De acordo com sua análise, o acento secundário contêm um número ímpar de sílabas sofrem um processo de apagamento de
em espanhol é atribuído pela construção de pés troqueus da direita vogal. O fato de que a vogal /i/ e outras vogais não baixas podem ser elididas
para a esquerda, na cadeia das sílabas que precedem a sílaba portado- em posição não acentuada no contexto t_s foi observado por Bisol (1991) e
ra do acento primário. Se for permitida a ocorrência de pés degenera- o fato de que vogais não baixas podem ser apagadas entre consoantes
dos em um estágio intermediário da derivação, ter-se-á, como resulta- (coronais) homorgânicas foi apontado por Bisol & Hora (1993). O apaga-
do, o tipo de choque acentual ilustrado em (7). Dátilos iniciais po- mento discutido por esses autores ocorre independentemente da estrutura
dem então ser derivados pela aplicação de uma regra de desacentuação métrica (cf. satisfatória e satisfeito, onde o /i/ pode sempre ser apagado entre
para a direita e por um novo parsing, como se vê em (8), onde uma o /t/ e o /s/). Observamos, no entanto, que há outros contextos que permitem
sílaba (ti) é deixada sem parseamento no meio da palavra. A outra o apagamento de vogal apenas se o número de sílabas da palavra for ímpar.
opção é resolver o choque acentual com desacentuação para a es- Considerando-se, por exemplo, o par modernização (cinco sílabas) e moder-
querda, como mostrado em (9). nizaria (seis sílabas), com acento secundário na sílaba inicial, observa-se que
152 Filomena Sandalo & Maria Bernadete Abaurre Acento secundário em duas variedades de português 153

o apagamento de /i/ ocorre apenas no primeiro caso. Consideramos esse se faz necessário, nesses casos, pelo fato de essas palavras já terem uma
último caso de apagamento de vogal um apagamento rítmico. estrutura binária [e.g., (mo der)Σ (ni za)Σ(ri a)Σ)ω]3.

Em outras palavras, a sílaba que na análise de Harris é deixada não (10)


A modernização foi satisfatória
parseada é aquela que, no PB, em alguns contextos, não se realiza porque [a mo dern za ção foi sats fa tó ria]
sofre apagamento. Assim, uma das possíveis realizações de uma palavra como
constantinopolitanismo é constan[tn]opolitanismo, com apagamento da vo- Portanto, o fato de o apagamento rítmico poder ocorrer quando o nú-
gal /i/ entre as consoantes coronais homorgânicas /t/ e /n/. Desse apagamento mero total de sílabas da palavra é ímpar é evidência contra uma análise
resulta uma estrutura binária perfeita, em termos de pés: ((constant)Σ (nopo)Σ derivacional do acento, segundo a qual o acento primário é gerado pela
(lita)Σ (nismo)Σ)ω. Alguém poderia argumentar que a estratégia empregada construção de pés no léxico e só as vogais pretônicas constituem o domínio
pelo português brasileiro para evitar pés degenerados é o apagamento de de aplicação do algoritmo de acento secundário no nível pós-lexical, con-
vogal (em vez do simples reparseamento). Assim, uma análise na linha da- forme proposto por Harris (1989) para o espanhol e por Collischonn (1993)
quela proposta por Harris poderia ser proposta, contanto que incorporasse para o PB4. É importante recordar que, em nossa análise, os acentos primá-
uma regra de apagamento de /i/. O fenômeno do apagamento de vogais em rios não são atribuídos a partir da construção de pés métricos no léxico. Tal
PB, no entanto, indica que os fatos são mais complexos do que uma análise
pressuposto é para nós crucial, já que assumimos uma restrição que milita
métrica poderia prever. As palavras contendo um número ímpar de sílabas a favor da binariedade e toma inteiras palavras como domínios e não ape-
podem ser o alvo para o apagamento rítmico de vogal, o que sugere que de nas sílabas pretônicas, como nas análises derivacionais. Em nossa análise
baseada na TO, o acento primário é uma propriedade da sílaba e é indicado
fato estamos diante de uma língua que prefere evitar pés degenerados, como
como parte do input. Os acentos primários lexicais não serão apagados,
sugere Harris. A realização registrada no corpus para o dado apresentado em
devido ao ranqueamento alto de uma restrição de fidelidade. Portanto, o
(10), no entanto, é problemática para a teoria métrica porque, se o acento
pé que contém uma sílaba marcada lexicalmente como contendo um acento
secundário resulta de uma alternância na ocorrência de acento e não-acento
primário terá, como cabeça, essa sílaba portadora do acento primário. Pelo
da direita para a esquerda nas sílabas que precedem a sílaba portadora de
fato de os pés portadores de acentos primários serem gerados pelo mesmo
acento primário, não haveria razão para o apagamento de vogal, uma vez
recurso computacional, eles também sofrem pressão para serem binários.
que existem quatro sílabas precedendo a sílaba com o acento primário em
modernização e, portanto, uma alternância binária perfeita resultaria de um
parseamento métrico das sílabas pretônicas. 3. Poder-se-ia argumentar que a direcionalidade não é realmente abolida desta análise, já que serão
utilizadas restrições de alinhamento. Note-se, no entanto, que o resultado do Alinhamento Genera-
Em (10), o apagamento vocálico prosodicamente induzido só faz sen- lizado (Generalized Alignment, McCarthy & Prince 1993) em uma dada análise é fundamentalmen-
te diferente do uso de um parâmetro de direcionalidade. Para discussão, ver Zoll (1998).
tido se assumirmos que há uma restrição que força a ocorrência de pés 4. Como observado por Luigi Burzio (comunicação pessoal, 2003), nos nossos dados, a vogal que
binários na palavra como um todo [i.e. (mo dern)Σ (za ção)Σ)ω], e que não sofre apagamento rítmico é sempre a terceira. Uma análise padrão em OT faria a previsão de que
qualquer vogal não baixa poderia ser apagada para se obter binariedade. Alguém poderia sustentar
é necessário introduzir direcionalidade (i.e., contagem da direita para a que teríamos, em conseqüência, um caso de opacidade que poderia ser usado como argumento
esquerda a partir do acento primário) para obter binariedade por meio da contra uma análise representacional. Isto ocorre porque a terceira vogal está no pé mais fraco,
assumindo-se que o primeiro pé é forte porque é o inicial (Beckman 1998) e, portanto, se poderia
alternância perfeita entre sílabas fortes e fracas, como previsto por uma propor que os pés são parseados primeiro, e somente depois da construção dos pés a cabeça do pé
análise baseada na teoria métrica. Observe-se que as palavras que têm um mais fraco poderia ser apagada. De acordo com essa análise, teríamos ordenamento e um nível
número par de sílabas não sofrem apagamento rítmico de vogal no PB . intermediário opaco. Observe-se, no entanto, que, se em um estudo mais detalhado se revelar verda-
deiro que é sempre a terceira vogal que é apagada, uma maneira possível de resolver o problema e
Interpretamos este fato como indicativo de que o apagamento rítmico não manter uma análise representacional seria recorrer às restrições-alvo propostas por Wilson (2000).
154 Filomena Sandalo & Maria Bernadete Abaurre Acento secundário em duas variedades de português 155

Esse é um ponto importante de nossa análise, uma vez que diferencia (12)
A abelha rainha oferece freqüentemente frutas.
crucialmente uma análise em paralelo de uma análise derivacional. A abelha rainha freqüentemente oferece frutas.
A catalogadora compreendeu repentinamente o trabalho da pesquisadora.
Proporemos, na próxima seção, que os fatos do português resultam de um A catalogadora repentinamente compreendeu o trabalho da pesquisadora6.
conflito de forças e não da computação de sílabas alternantes fortes e fracas,
como largamente assumido para o espanhol e também para o PB no quadro da Como se pode notar nos exemplos, não há diferença na acentuação
teoria métrica. Nesse nosso sistema, derivaremos os fatos relativos aos dátilos secundária se um advérbio segue ou precede um verbo. Se a frase fonológica,
iniciais sem postular pés degenerados que nunca se superficializam. Tais pés e não a palavra fonológica, fosse o domínio relevante, a proeminência no
degenerados representam casos de neutralização absoluta, e é consensual que advérbio não deveria ser permitida quando o verbo precede o advérbio, já
a neutralização absoluta deve ser evitada, dados os problemas que ela pode que neste caso o verbo e o advérbio estão na mesma frase fonológica. Ex-
representar para a aquisição da linguagem. Dado que nossa análise na TO torna plicamos a seguir.
possível gerar casos de dátilos iniciais em que não ocorre apagamento de vo- O fato de um advérbio poder ocorrer entre o verbo e seu objeto sugere
gal, pode ser que ela possa também ser estendida para o espanhol, evitando-se que o verbo moveu-se de sua posição-base próxima do objeto, para uma
a neutralização absoluta também na análise dos fatos dessa língua. projeção funcional mais alta (Costa 1988: 19-36). O advérbio pode, então,
Um processo de apagamento de vogal que força um sistema binário já ser adjungido à esquerda da VP, onde segue o verbo movido. Seguimos a
foi notado anteriormente (Bisol 2000b) com relação ao acento primário. teoria de fraseamento fonológico de Selkirk (1986, 1995), de acordo com a
Por exemplo, é sabido que palavras como abóbora são freqüentemente qual as frases sintáticas e fonológicas são alinhadas à direita ou à esquerda;
realizadas como abobra. Até onde sabemos, no entanto, esta é a primeira em português, elas são alinhadas à direita (Sandalo & Truckenbrodt 2002)7.
vez que um fenômeno semelhante é analisado com relação ao acento se- A borda direita de um verbo na seqüência verbo-advérbio, não sendo ela
cundário. Abaurre (1979) discute vários casos de apagamento de vogal no mesma de natureza frasal, não cria uma fronteira de frase fonológica, motivo
PB, mas o fenômeno não é associado à binariedade dos pés.
pelo qual o verbo e o advérbio são agrupados no interior de uma única frase
fonológica. Não se esperaria, portanto, acento no advérbio no caso de se-
O português europeu difere do português brasileiro pelo fato de não qüências verbo-advérbio se o domínio relevante fosse a frase fonológica, por-
ser um sistema binário, do ponto de vista rítmico. No português europeu, o que a sílaba inicial do advérbio estaria no meio da frase fonológica e não no
início de uma sentença tende a ser proeminente, como já notado por Frota seu início. Uma vez que a posição inicial de um advérbio pode, no entanto,
(1998) e Vigário (1998). Tal fato pode ser verificado no exemplo (11): ser portadora de proeminência na seqüência verbo-advérbio, tem-se aqui
(11)
O investigador já me ofereceu dinheiro ~
O investigador já me ofereceu dinheiro. que, até onde se sabe, Vigário (2003) foi quem primeiro apontou que a posição inicial da palavra
fonológica é proeminente, no PE.
6. Observe-se que o determinante o não recebe acento secundário em A catalogadora repentinamen-
Em nosso corpus, encontramos também proeminências no início de te compreendeu o trabalho da pesquisadora, porque isso criaria um choque acentual já que a forma
domínios menores (cf. A catalogadora compreendeu o trabalho da pesqui- verbal compreendeu tem acento primário na última sílaba. A respeito de restrições violáveis contra
sadora). Argumentamos, aqui, que esse domínio é a palavra fonológica5. A choques de acento, ver a seção 3.
7. Selkirk (1986) propôs uma teoria universal do mapeamento sintaxe-fonologia na qual se baseou
evidência vem de sentenças como: especialmente no alinhamento frasal orientado para a borda direita em Chi Mwi:ni. A teoria foi
posteriormente formulada com base na teoria da otimalidade em Selkirk (1995), trabalho em que
5. Ver Vigário (2003) para a apresentação do algoritmo para formação da palavra fonológica a noção de alinhamento orientado pelas bordas (Selkirk 1986) foi expandida com base na teoria do
(prosódica) no PE, e para uma discussão da importância desse domínio na língua. Note-se, também, alinhamento generalizado (McCarthy and Prince 1993).
156 Filomena Sandalo & Maria Bernadete Abaurre Acento secundário em duas variedades de português 157

evidência de que o domínio prosódico relevante, no caso, é menor do que a secundários, as regras de rearranjo para o PE poderiam ser tão complexas a
frase fonológica, a saber, a palavra fonológica. ponto de tornar complexa demais uma análise derivacional.

O fato importante é que o PE exibe pés ilimitados resultantes da atribui- Lembremos, neste momento, que o PB apresenta um fenômeno de apa-
ção do acento secundário. A transcrição dos nossos dados conforme feita gamento de vogais ritmicamente motivado. Sabe-se que o PE também apre-
por três falantes nativos do PE não indica alternâncias binárias nem ternárias8. senta apagamento vocálico (Mateus 1975; Mateus et al. 1983; Mateus &
Andrade 2000). Acreditamos que o apagamento de vogais também é influ-
Outro aspecto que diferencia o PE do PB com relação à acentuação enciado pelo ritmo no PE porque, de acordo com Vigário (2003), o apaga-
secundária diz respeito ao fato de as palavras funcionais poderem receber mento de [i] e [u] é muito produtivo em PE, mas, segundo essa autora, “the
acento secundário em PE (A catalogadora ~ A catalogadora). Ou seja, o PE presence of a prosodic word initial (non-primary) stress disfavors the deletion
aceita que o acento secundário recaia tanto na palavra funcional que inicia of [i] and [u] in prosodic word initial position”. Embora a afirmação de
uma palavra fonológica, como na primeira sílaba da primeira palavra lexical Vigário indique que o apagamento de vogal e o acento são fenômenos
de uma palavra fonológica. No PE, as palavras funcionais nunca recebem relacionados no PE, não vamos aqui desenvolver uma análise desse fenôme-
acento em pronúncias não-enfáticas. Finalmente, PE e PB também se dife- no porque não dispomos de uma descrição acurada dos fatos nem intui-
renciam pelo fato de que somente em PE existe a opção de não atribuir ções que nos permitam desenvolver tal descrição. Algumas das questões
proeminências secundárias às palavras com mais de uma sílaba pretônica que teriam de ser enfrentadas de maneira sistemática seriam: quantas vo-
(cf. O investigador já lhe devolveu o dinheiro). gais podem ser apagadas por pé? Que tipos de codas podem ser criadas?

A variação relativa à colocação do acento secundário em PE e PB é Não proporemos restrições para dar conta dos fatos do PB e do PE relati-
problemática para a teoria métrica porque, em uma análise derivacional, vos ao apagamento de vogais neste ponto do nosso trabalho, porque ainda
teríamos de postular que uma forma é a forma default e derivar a outra não chegamos a uma compreensão plena dos fatos do PE. Além disso, embo-
forma por meio de regras de rearranjo. Dado que o PE apresenta uma gama ra tenhamos um melhor conhecimento dos fatos do PB, ainda não compreen-
de variações que inclui até a possibilidade de não-atribuição de acentos demos satisfatoriamente a relação entre métrica e silabificação nesta língua.
Sabemos apenas que codas não usuais podem ser criadas de forma a garantir
a binariedade, mas não acreditamos que não haja limitações com relação a
8. É bem conhecida a observação de que palavras morfologicamente complexas podem manter tais codas, uma vez que em nossos dados o apagamento sempre envolve um
algumas propriedades de seu radical. Por exemplo, o acento primário pode ser preservado como
secundário nas palavras derivadas do inglês (Chomsky & Halle 1968). Note-se que, embora em segmento coronal que é, na maior parte dos casos observados, sonorante, na
nosso corpus ocorram palavras derivadas, não levamos em consideração a reatribuição de colche- coda resultante do apagamento (cf. modern(i)zação; codas com a seqüência
tes, indicativa de operações morfológicas, em nossa análise do acento secundário, porque nosso
corpus não traz indicações de que acentos primários sejam reinterpretados como secundários [r n] não são produtivas em PB, mas a seqüência ainda obedece à escala de
depois da afixação, quando as sentenças/palavras são elicitadas com foco largo. Andrade & Laks sonoridade, pois na variedade estudada o /r/ na coda é realizado como uma
(1991) argumentam, no entanto, que a morfologia de fato tem um papel na acentuação secundária
do PE. Notamos que a morfologia pode desempenhar um papel quando as palavras são elicitadas aproximante). Em outras palavras, optamos por evitar a abordagem do apa-
com foco estreito, como mencionamos na nota 1, o que pode explicar a discrepância dos dados gamento de vogais nesta altura do desenvolvimento do nosso trabalho, por
desses autores com relação a outras análises do PE. Questionamos, no entanto, a existência da
binariedade no PE em palavras não derivadas. De fato, Andrade & Viana (1999) não transcrevem a não dispormos de uma descrição completa dos fatos. É, no entanto, crucial
binariedade em palavras não derivadas como Tegucigalpa, que é transcrita por Andrade & Laks implementar o apagamento rítmico de vogais para gerar os fatos corretos
como Tegucigalpa. Como mencionamos anteriormente, uma análise mais detalhada das palavras
derivadas em português pode provavelmente ser conduzida na linha de Kager (2000), em uma
relativos ao acento secundário nesta variedade de português, na abordagem
perspectiva representacional. baseada na OT que será proposta na seção seguinte.
158 Filomena Sandalo & Maria Bernadete Abaurre Acento secundário em duas variedades de português 159

Em conclusão, uma análise na OT apresenta as seguintes vantagens: As restrições julgadas relevantes para nossa análise são as apresentadas
a seguir. Observe-se que descrevemos cada restrição de duas maneiras: uma
(i) gera os fatos do PB e do PE sem a necessidade de postular nenhum
forma intencional (em itálico), que procura traduzir uma idéia da função
caso de neutralização absoluta;
da restrição, e uma explicitação formal, indicando quando uma marca de
(ii) (não força o uso da noção de direcionalidade, o que implica simpli-
violação deve ser atribuída.
ficação da teoria fonológica; e
(iii) é capaz de gerar formas variantes em paralelo. A. RESTRIÇÃO DE FIDELIDADE. Na OT, as restrições de marca e de fideli-
dade são inerentemente conflitantes (Prince & Smolensky 1993). O ranking
das restrições de fidelidade e de marca decide o que se preserva do léxico.
3. UMA ANÁLISE BASEADA NA TEORIA DA OTIMALIDADE Utilizamos aqui uma restrição de fidelidade para garantir que os acentos
primários sejam preservados, já que, como se viu anteriormente, os acentos
Passamos agora a descrever nosso modelo de análise baseado na OT.
primários são idênticos em PB e em PE e não são modificados pela aplica-
Trabalhamos a partir das seguintes suposições. Os inputs serão sentenças ção da acentuação secundária. Esta restrição de fidelidade baseia-se na
de uma dada língua (no nosso caso, PB ou PE). As estruturas atribuídas por teoria da correspondência (McCarthy & Prince 1995b) e é nomeada a
Gen para cada input são decomposições em termos de pés. Na divisão em partir da família de restrições rotulada como MAXIMALITY (MAX), que garante
pés fornecida por Gen, cada sílaba está contida exclusivamente dentro de que o material lexical não seja apagado:
um pé. Além disso, esse modelo contém uma restrição específica de localida- MAXST:O apagamento de acentos lexicais não é permitido. Violada por um pé con-
de sobre o tipo de restrições que estamos considerando: cada restrição deve tendo acento fonêmico (i.e., uma sílaba acentuada no input) que não vem rotula-
ser checável, considerando-se cada pé individualmente, ou checando-se cada do como portador de acento primário.
par de pés adjacentes. A maioria das restrições já utilizadas em outros traba- B. RESTRIÇÕES DE MARCA. As restrições de marca requerem que as for-
lhos em OT pode ser expressa desta forma, de maneira que não estamos nos mas de output sigam alguns critérios de boa-formação. As restrições de
arriscando demais. Um aspecto importante do nosso modelo é que não nos marca referem-se apenas ao output e são cegas com relação ao léxico. Se
restringimos a um ranqueamento estrito de restrições, mas aceitamos com- não há nenhuma restrição de fidelidade em conflito com restrições de marca,
pletamente a possibilidade de trabalhar com algumas restrições não o léxico pode ser completamente modificado. As seguintes restrições de
ranqueadas. Prince & Smolensky (1993) mencionam que o ranqueamento marca, entrando em conflito com MAXST, geram a acentuação secundária do
livre é uma possibilidade de dar conta da aplicação opcional de regras, e português. O ranqueamento diferente dessas restrições de marca gera o
essa idéia tem sido aceita, desde então, por vários autores (dentre outros, ritmo diferente do PB e do PE:
Kager 1994, 1997; Anttila 1995). A razão para essa nossa opção é a grande
FOOTBIN/BINGRAD: Os pés devem ser binários. É sabido que as línguas acentuais têm
quantidade de variação livre observada em nossos dados e a impossibilidade uma clara tendência a manifestar padrões rítmicos e que o ritmo binário é o mais
de dar conta dessa variação de hierarquias de dominação estritas9. comum (Hayes 1995). Um ritmo binário é forçado na OT pela restrição prosódica
de marca FOOTBIN, primeiramente formulada por Prince (1980) e adotada por
Prince & Smolensky (1993). Esta restrição é violada por um pé que não tenha
9. Observe-se, no entanto, que não é claro se o ranqueamento livre pode ser aprendido (ver, por exatamente duas sílabas. BINGRAD é uma forma gradiente desta mesma restrição: os
exemplo, o algoritmo de aprendizagem de Tesar & Smolensky 1998, que pressupõe a dominação pés longos contam uma violação para cada sílaba que exceda as duas iniciais.
estrita). A ocorrência de grande quantidade de variação, como nos fatos relativos ao acento secundá-
rio do PE, e a necessidade daí decorrente de utilizar restrições não ranqueadas, pode abrir caminho PARSE: Todas as sílabas devem ser parseadas em pés. Kager (1999) chama a atenção
para uma visão probabilística da interação entre restrições, idéia já considerada por Kager (1999). para o fato de que FOOTBIN não é suficiente para gerar um ritmo binário (i.e.,
160 Filomena Sandalo & Maria Bernadete Abaurre Acento secundário em duas variedades de português 161

uma alternância binária de sílabas fortes e fracas). Tal alternância requer que mínio do acento secundário no PB é a palavra lexical, uma vez que uma
todas as sílabas sejam parseadas em pés (Hayes 1980; Halle & Vergnaud 1987; palavra funcional nunca pode ser portadora de acento, enquanto o PE
Prince & Smolensky 1993). Violada por toda sílaba que não é uma palavra funcio-
nal e que não esteja incluída em um pé. autoriza que toda palavra fonológica seja domínio para o acento secundá-
rio, já que uma palavra funcional pode receber acento secundário.
Segue-se da propriedade rítmica das línguas naturais que sílabas acen-
RIGHTMOST: Alinhar (Hd-FT, Right, PrWd, Right). Sabe-se que todas as línguas
tuadas adjacentes devem ser evitadas, assim como sílabas adjacentes não conhecidas têm acento primário no interior de uma janela situada em uma das
acentuadas. Restrições que proíbem choques de acento têm suas raízes em bordas do domínio relevante. RIGHTMOST simplesmente localiza à direita a janela
trabalhos que antecederam a OT, e.g. em Liberman (1975), Liberman & para o portugês. As restrições nomeadas a partir de EDGEMOST (Prince & Smolensky
1993) alinham o pé mais forte (ou pé-cabeça) com uma borda específica da
Prince (1977), Prince (1983), Hammond (1984), Selkirk (1984). Apresen-
palavra. RIGHTMOST alinha o pé-cabeça com a borda direita de uma palavra lexical
tamos as seguintes restrições que militam contra os choques de acento e os e garante que pés com acentuação secundária não sejam gerados na borda direita
lapsos acentuais: de uma palavra lexical. Violada por um pé portador de acento primário que não
contenha a última sílaba da palavra.
NOCLASH: Sílabas adjacentes não podem ser acentuadas. Violada por um par de
pés sucessivos cujas cabeças são adjacentes10. ALIGN: Alinhar (FT, L, PHW L). Esta restrição força todo pé a ter sua fronteira
esquerda alinhada com a borda esquerda de uma palavra fonológica. É típico de
CLASHINT: Sílabas acentuadas no interior de uma palavra lexical não podem ser línguas acentuais que constituintes sintáticos ou prosódicos tenham um único
adjacentes. Semelhante a NOCLASH, mas penaliza choques acentuais no interior pico prosódico (propriedade culminativa do acento). Isto é importante para o PE,
de uma mesma palavra. que permite um acento secundário por palavra fonológica. Seguindo McCarthy
& Prince, podemos dizer que esse fato é forçado por uma restrição de alinhamen-
CLASHEXT: Sílabas acentuadas em palavras sucessivas não podem ser adjacentes.
to. Uma vez que esta restrição alinha a fronteira esquerda de um pé com a frontei-
Semelhante a NOCLASH, mas penaliza choques através de juntura de palavras.
ra esquerda de uma palavra fonológica, ela força a inclusão de palavras funcionais
NOLAPSE: Sílabas não acentuadas dentro de um pé medial não podem ser adjacen- em um pé. Violada por um pé regular cuja fronteira esquerda não é a fronteira
tes. (Green & Kenstowicz, 1995). Violada por um pé interno (que não ocorre nem esquerda de uma palavra fonológica.
no início nem no final da palavra lexical) que contenha duas sílabas não acentua-
INTLEX: Não se podem formar pés com sílabas pertencentes a palavras diferentes. Até
das adjacentes.
onde sabemos, esta restrição foi primeiramente mencionada em Abaurre & Galves
C. RESTRIÇÕES DE ALINHAMENTO. A noção de alinhamento teve origem (1998). Tem suas raízes na noção de integridade lexical da sintaxe, de acordo com
a qual nenhum processo sintático pode se referir exclusivamente a partes de pala-
na fonologia prosódica (Selkirk 1986). O alinhamento serve para definir os vras. Estendemos aqui esta noção à fonologia. Aplicada à fonologia, ela deve ser
domínios dos constituintes prosódicos. Na OT, a noção de alinhamento foi entendida como uma proibição relativa à formação de domínios prosódicos su-
primeiramente utilizada por Prince & Smolensky (1993) (e.g., a restrição periores usando apenas parte(s) de domínios inferiores. INTLEX milita contra pés
formados a partir de sílabas pertencentes a palavras diferentes (lexicais ou funcio-
EDGEMOST) e posteriormente desenvolvida por McCarthy & Prince (1993). nais). Esta é uma exigência forte no PB. Violada por um pé contendo sílabas que
McCarthy & Prince propõem que todos os domínios lingüísticos sejam pertencem a palavras diferentes, mesmo se uma dessas sílabas for uma palavra.
definidos em termos de restrições de alinhamento generalizadas. Empre- TROCHEE: Todos os pés devem ter cabeça à esquerda (Hayes 1995). Hayes (1995)
gamos as restrições apresentadas a seguir para definir os domínios de acen- propõe que os pés tenham cabeça à esquerda (troqueus) ou à direita (iambos). Na
to do português. O ranqueamento diferente dessas restrições vai gerar os OT, a ocorrência desses tipos de pés é forçada por restrições de alinhamento. Utili-
zamos TROCHEE, que alinha a cabeça de um pé com sua fronteira esquerda. Vio-
diferentes domínios de acento no PB e no PE. Lembremo-nos de que o do- lada por um pé cuja cabeça não seja sua sílaba inicial.

10
Apresentadas as restrições, é importante que se tenha uma visão intuiti-
É importante notar que, embora a restrição geral NOCLASH tenha sido aqui apresentada, não a
utilizamos em nossa análise. Apresentamos essa restrição geral, na verdade, para poder introduzir as va da dinâmica dos principais conflitos que se estabelecem entre elas, para
restrições mais específicas que serão efetivamente usadas na análise do português: CLASHINT, CLASHEXT. que sua significação possa ser apreciada.
162 Filomena Sandalo & Maria Bernadete Abaurre Acento secundário em duas variedades de português 163

ALIGN conflita com FOOTBIN/BINGRAD porque a primeira restrição força a O conflito entre CLASHEXT e TROCHEE explica como se evitam choques
borda esquerda de cada pé a coincidir com a borda esquerda de uma palavra acentuais entre palavras no PB. Observe-se, no entanto, que, dado que estas
fonológica, gerando pés ilimitados, e a segunda restrição força a geração de restrições estão em posições relativamente baixas no ranking, há ocorrên-
pés binários, desconsiderando seu alinhamento com outros constituintes. Dado cias de choques acentuais entre palavras no PB. Em PE, por outro lado, já
que ALIGN é uma restrição mais alta na hierarquia do PE do que FOOTBIN, esta que TROCHEE ocupa posição mais alta, os choques acentuais através de
variedade de português apresenta pés ilimitados. O oposto é verdadeiro para palavras são mais freqüentes.
o PE. PARSE também conflita com FOOTBIN/BINGRAD quando uma palavra
Em seguida, temos MAXST que, com relação aos experimentos que con-
tem número ímpar de sílabas, já que neste caso é impossível a ocorrência de
duzimos, aparece como não dominada por outras restrições. Há, no en-
pés binários, apenas. Vale lembrar que o PE tem casos de dátilos iniciais. Este
tanto, alguns casos de retração de acento primário em PB, conforme discu-
fato decorre de um empate entre PARSE e BINGRAD no ranking. Se um dátilo
tido em Sandalo & Truckenbrodt (2002). No sistema da OT, este fato pode
é gerado, BINGRAD é violada uma vez. Mas, se apenas pés binários são gera-
dos em uma palavra com número ímpar de sílabas, PARSE é necessariamente ser capturado pela existência de outras restrições que não foram aqui con-
violada. Dado que essas restrições são equivalentes na posição que ocupam sideradas e que dominam MAXST. Em desenvolvimentos futuros deste traba-
no ranking, não importa qual das duas é violada. Se BINGRAD é violada, gera- lho pretendemos explorar tais restrições.
se o dátilo (σ σ σ). Se PARSE é violada, gera-se o outro padrão atestado, ou É importante ressaltar que, seguindo os pressupostos da OT, usamos as
seja, σ σ σ. Em outras palavras, pode-se gerar a variação livre sem recorrer a mesmas restrições em diferentes hierarquias para derivar os padrões acentuais
regras de reestruturação. Vejamos, abaixo, o que se pode dizer sobre a possi- do PB e do PE. Há, no entanto, uma exceção parcial, a saber, FOOTBIN/
bilidade de apagamento de uma vogal. BIN G RAD . Todas as restrições, exceto esta, têm violações categóricas.
Em oposição a ALIGN está também INTLEX, dado que esta última restri- FOOTBIN/BINGRAD é a manifestação de uma mesma restrição com duas di-
ção requer que uma palavra funcional seja extramétrica, enquanto a pri- ferentes maneiras de computar a violação. Enquanto as violações de FOOTBIN
meira força a inclusão de uma palavra funcional no domínio do acento são computadas como categóricas, as violações de BINGRAD são gradientes.
porque requer que a borda esquerda de cada pé coincida com a borda Vale lembrar que um pé longo será computado como uma única violação
esquerda de uma palavra fonológica. No PB, palavras funcionais são sem- de FOOTBIN, enquanto para o número de violações cresce com o compri-
pre extramétricas, o que é garantido em nossa análise pelo posicionamento mento do pé. A forte preferência por pés binários em PB tem sido atestada
mais alto de INTLEX com relação a ALIGN, no ranking de restrições desta em muitos trabalhos (Bisol 2000b; Wetzels 1997; Abaurre & Galves 1998;
variedade. Em PE há variação, podendo-se acentuar uma palavra funcional Collischonn 1993; Lee 1994; Massini-Cagliari 1995). Além disso, a análi-
ou a primeira sílaba de uma palavra lexical. Este resultado é garantido em se dos nossos dados mostrou que FOOTBIN é uma restrição muito fraca para
nossa análise pelo não-ranqueamento de INTLEX com relação a ALIGN em gerar os fatos corretos do PB, enquanto é muito forte para PE, mesmo quan-
PE, e pelo posicionamento mais alto de TROCHEE no ranking. Como INTLEX do em posição muito baixa na hierarquia11.
e ALIGN ocupam a mesma posição no ranking, não importa qual das duas
restrições é violada. Se ALIGN é respeitada, a palavra funcional é incluída
11
Há uma controvérsia na literatura a respeito das restrições gradientes. McCarthy (2002) argu-
no pé; se INTLEX é respeitada, a palavra funcional se torna extramétrica. menta contra as restrições gradientes, mas a necessidade da gradiência tem sido freqüentemente
TROCHEE garante que, em qualquer caso, a primeira sílaba do pé seja a observada (cf. Padgett 2002). As implicações desta escolha para a aquisição da linguagem restam
por ser investigadas. Se se demonstra que as restrições gradientes são de fato uma necessidade, pode
sílaba-cabeça, gerando-se assim palavras funcionais acentuadas quando a ser que a maneira específica (gradiente ou categórica) de computar violações de uma restrição não
restrição respeitada é ALIGN. seja um conhecimento inato, mas algo adquirido através da exposição ao input. Em outras palavras,
164 Filomena Sandalo & Maria Bernadete Abaurre Acento secundário em duas variedades de português 165

Seguem-se as hierarquias que propomos para o PB e para o PE, respecti- palavra como um todo (i.e. (mo dern)Σ (za ção)Σ)ω), e que não há necessi-
vamente, seguidas pelos tableaux com as avaliações de alguns outputs: dade de introduzir direcionalidade (i.e., da direita para a esquerda contan-
MAXST: RIGHTMOST: CLASHINT >> INTLEX >> BINGRAD: PARSE: NOLAPSE >> CLASHEXT
do-se a partir do acento primário) para obter binariedade por meio de
>>TROCHEE >> ALIGN alternância perfeita entre sílabas fortes e fracas, conforme previsto pela
MAXST: RIGHTMOST: CLASHINT >> TROCHEE >> ALIGN: INTLEX >> PARSE >> CLASHEXT análise da teoria métrica. Devemos lembrar também que, em nossa análi-
>> FOOTBIN: NOLAPSE
se, os acentos primários não são atribuídos por meio da construção métrica
(13) de pés no léxico. Este pressuposto é para nós crucial, já que não assumimos
PB:
uma restrição que milita a favor da binariedade e toma inteiras palavras
a modernização

RIGHTMOST
como domínio, e não apenas sílabas pretônicas, como nas análises

CLASHEXT
CLASHINT

NOLAPSE
BINGRAD

TROCHEE
derivacionais. Em nossa análise, o acento primário é uma propriedade da

INTLEX
MAXST

ALIGN
PARSE
sílaba, e é uma informação dada como parte do input. Os acentos primá-
1. (a moderniza)(ção) *! rios não são apagados devido ao fato de que uma restrição de fidelidade
2. a (moder)(niza)(ção) *! * aparece como não dominada na hierarquia. Portanto, o pé que contém a
3. a (moder)(niza)(ção) *! sílaba lexicalmente marcada com um acento primário terá como cabeça
4. a (modern)(zação) * * esta sílaba portadora de acento primário. Pelo fato de os pés portadores de
5. a mo(derni)(zação) *! * * acento primário serem gerados pelo mesmo instrumento computacional,
6. a (moderniza)(ção) *!** eles também sofrem pressão para ser binários. Este é um ponto importante
7. a mo(derniza)(ção) *!* da nossa análise, porque diferencia crucialmente uma análise em paralelo
de uma análise derivacional.
É importante lembrar que, no PB, as palavras que contêm um número
ímpar de sílabas podem ser alvos do apagamento rítmico de vogais. Como Além disso, é importante notar que se o apagamento de vogal deixar de
se mencionou anteriormente, uma forma como modernzação, em PB, é pro- ocorrer (por exemplo, na fala lenta ou enfática) nossa análise prevê um
blemática para a teoria métrica, porque, se o acento secundário resulta de empate, ou seja, a variação livre, como se pode notar nos outputs 3 e 5, o
uma alternância de sílabas acentuadas e não acentuadas da direita para a que corresponde à realidade.
esquerda na cadeia silábica que precede a sílaba portadora de acento pri- A análise proposta pode também prever a variação livre atestada em PE:
mário, não haveria razão para o apagamento vocálico, uma vez que há
quatro sílabas precedendo a sílaba com acento primário em moderniza- MAXST: RIGHTMOST : CLASHINT >> TROCHEE >> ALIGN : INTLEX >> PARSE >> CLASHEXT
>> FOOTBIN : NOLAPSE
ção, e, portanto, uma alternância binária perfeita resultaria de um
parseamento métrico. Nossa análise pode prever a forma atestada em uma (14)
PE:
análise prosódica. Um apagamento de vogal prosodicamente induzido faz
sentido, se assumirmos que há uma restrição que força a binariedade na a modernização

RIGHTMOST

CLASHEXT
CLASHINT

NOLAPSE
TROCHEE
TROCHEE

INTLEX
MAXST

ALIGN

PARSE
não consideramos FOOTBIN e BINGRAD duas restrições diferentes, uma vez que assumimos a hipó-
tese segundo a qual a maneira como as violações são computadas não é parte do conhecimento 1. (a moderniza)(ção) *! **
inato. As restrições é que são inatas; há, portanto, apenas uma restrição militando a favor da
2. a (moder)(niza)(ção) *!
binariedade.
166 Filomena Sandalo & Maria Bernadete Abaurre Acento secundário em duas variedades de português 167

3. a (moder)(niza)(ção) *! A modernização foi satisfatória


4. a (moderniza)(ção) * * |A moderniza|ÇÃO |FOI satisfa|TÓria ~
5. a mo(derni)(zação) *! * * * |a |MOderniza|ÇÃO |FOI satisfa|TÓria

Finalmente, é importante notar que, ao construir um tableau na OT, A inteligência da catalogadora foi determinante
introduz-se uma linha para cada output possível — no nosso caso, para |a |INteli|GÊNcia |da |CAtaloga|DOra |FOI determi|NANte ~
cada divisão da seqüência de sílabas em pés. Os tableaux elaborados ma- |A inteli|GÊNcia |da |CAtaloga|DOra |FOI determi|NANte ~
nualmente nunca são exaustivos. Testamos, portanto, nossa análise, por |a |INteli|GÊNcia |DA cataloga|DOra |FOI determi|NANte ~
meio de um programa computacional, Sotaq desenvolvido por A. Mandel |A inteli|GÊNcia |DA cataloga|DOra |FOI determi|NANte
(IME/USP) com base em nossa proposta. É interessante notar que, embo- O investigador já devolveu o dinheiro
ra um número extraordinariamente grande de outputs possíveis tenha sem- |o |INvestiga|DOR |JÁ devol|VEU |o |di|NHEIro ~
pre sido avaliado computacionalmente, somente um número relativamen- |O investiga|DOR |JÁ devol|VEU |o |di|NHEIro
te muito pequeno foi julgado gramatical pelo programa Sotaq, o que
corresponde aos fatos empíricos. Seguem-se, abaixo, alguns exemplos de O organizador apresentou a catalogadora
outputs previstos por nossa análise: |o |ORganiza|DOR |Apresen|TOU |a |CAtaloga|DOra ~
|O organiza|DOR |Apresen|TOU |a |CAtaloga|DOra ~
PB: |o |ORganiza|DOR |Apresen|TOU a cataloga|DOra ~
MAXST:R IGHTMOST:C LASHINT >>I NTLEX>>BINGRAD:P ARSE :NOLAPSE>> |O organiza|DOR |Apresen|TOU a cataloga|DOra
CLASHEXT>>TROCHEE>>ALIGN
A falta de modernização é catastrófica
A modernização foi satisfatória |a |FALta |DE moderniza|ÇÃO |É catas|TRÓfica ~
|a |MOderni|zaÇÃO |FOI |SAtisfa|TÓria |a |FALta de moderniza|ÇÃO |É catas|TRÓfica ~
A inteligência da catalogadora foi determinante |a |FALta |de |MOderniza|ÇÃO |É catas|TRÓfica
|a |in|TEli|GÊNcia |da |CAta|LOga|DOra |FOI |deTER|miNANte ~
|a |INteli|GÊNcia |da |CAta|LOga|DOra |FOI |deTER|miNANte
4. CONCLUSÃO
O investigador já devolveu o dinheiro
|o |INvesti|gaDOR |JÁ |DEvol|VEU o |di|NHEIro Este trabalho argumenta a favor de uma análise representacional para a
acentuação secundária na língua. Tal análise é considerada preferível a uma
O organizador apresentou a catalogadora
análise derivacional pelos seguintes motivos, já apontados anteriormente:
|o |ORgani|zaDOR |aPRE|senTOU |a |CAta|LOga|DOra
(i) ela gera os fatos do PB e do PE sem que seja necessário postular casos
A falta de modernização é catastrófica
de neutralização absoluta;
|a |FALta |de |MOderni|zaÇÃO |É |CAtas|TRÓfica
(ii) ela não força o uso da noção de direcionalidade, implicando, dessa
PE: forma, uma simplificação da teoria fonológica;
MAXST:RIGHTMOST:CLASHINT>>TROCHEE>>ALIGN:INTLEX>>PARSE>>CLASHEXT (iii) ela é capaz de prever a variação.
>>FOOTBIN:NOLAPSE
CAPÍTULO 8

ACENTO E PROCESSOS DE
SÂNDI VOCÁLICO NO PORTUGUÊS
LUCIANI TENANI*

1. INTRODUÇÃO

V
ários são os trabalhos que mostram as funções do acento na
fonologia do português. Neste capítulo, voltamos nossa atenção
aos contextos em que o acento bloqueia os processos de sândi
vocálico em português brasileiro (PB) e em português europeu (PE). O objeti-
vo principal deste capítulo é, ao tratar do papel do acento em contextos de
bloqueio de processos segmentais, tecer considerações sobre a organização
rítmica e prosódica das duas variedades do português que consideramos.

São estudados os contextos em que uma das vogais da seqüência vocálica


é acentuada, seja essa seqüência de vogais iguais ou diferentes1. Na próxi-
ma seção, apresentamos esses contextos segmentais restringindo essa ca-
racterização aos processos de degeminação (DG) e elisão (EL) no PB. Na
seção seguinte, descrevemos um experimento feito com o propósito de obter
dados do PB que permitissem observar em que contextos o acento bloqueia

*
Departamento de Estudos Lingüísticos e Literários, Universidade Estadual Paulista Júlio de
Mesquita Filho, São José do Rio Preto.
1. Lembramos que o acento também bloqueia a haplologia quando a primeira sílaba da seqüência
de duas for acentuada ou quando ambas as sílabas forem acentuadas (cf. Tenani 2003). Faz-se
necessário, porém, pesquisar mais detalhadamente a haplologia para se saber os contextos (segmentais
e morfofonológicos) que bloqueiam esse processo. Por essa razão, não consideramos a haplologia
neste texto.
170 Luciani Tenani Acento e processos de sândi vocálico no português 171

a DG e a EL. Esse experimento foi elaborado também com o objetivo de obter iii a Como uvas [«komU «uvas]
b Coma uvas [«koma «uvas]
dados do PB comparáveis a dados do PE, de modo que fosse possível identifi-
c Come uvas [«komI «uvas]
car semelhanças e diferenças entre o PB e o PE quanto aos processos de DG e
EL e, dado nosso objetivo principal, possibilitasse, inclusive, comparar PB e A partir da descrição de Bisol (1993), consideramos, neste trabalho, os
PE quanto às suas organizações rítmica e prosódica. A fim de realizar essa contextos de bloqueio de sândi motivados pela presença do acento e também
comparação, tomamos como ponto de partida as descobertas feitas por Fro- controlamos a fronteira prosódica tomando por base a argumentação de Abaurre
ta (1998) para o PE e adotamos a mesma metodologia de investigação para (1996), que retoma do trabalho de Bisol (1993) os contextos em que a segunda
fazer a coleta de dados do PB, a ser descrita na seção 3. A discussão dos vogal é acentuada tanto para a EL, em (2-i), quanto para a DG, em (2-ii), e
resultados obtidos para o PB e a comparação com o PE é feita na seção 4. Na observa que, em ambos os casos, o ambiente em questão é o mesmo: a segun-
última seção, é feita uma sistematização das semelhanças e diferenças en- da vogal da seqüência é portadora de acento nuclear no nível da frase fonológica
contradas para o PB e o PB no que diz respeito à organização rítmica e prosódica (identificada por f)3. No entanto, em (2-b), os processos não se aplicam.
dessas variedades do português, tendo por base a comparação do comporta- (2)
mento dos processos de sândi vocálico quando envolvidas seqüências em que i a [[Ele]φ [COMpra]φ [uvas CAras]φ ]I ⇒ Ele cómpr[u]vas caras
são acentuadas uma ou ambas as vogais analisadas. b [[Ele]φ [COMpra]φ [Uvas]φ ]I ⇒ *Ele compr[ú]vas
ii a [[Eu]φ [COMpro]φ [uvas SEMpre]φ ]I ⇒ Eu cómpr[u]vas sempre
b [[Eu]φ [COMpro]φ [Uvas]φ ]I ⇒ *Eu compr[ú]vas.

2. SOBRE O SÂNDI VOCÁLICO EM PORTUGUÊS BRASILEIRO Para Abaurre (1996: 45), tais fatos indicam que a análise feita por Bisol
(1993), “embora descritivamente adequada e perfeitamente coerente com
Ao caracterizar o sândi vocálico, Bisol (1993) traça um panorama com- a direção bottom-up de atribuição de acento e construção da grade métrica
pleto das possibilidades de aplicação e bloqueio da degeminação, da elisão por ela assumida, não parece realmente explicar por que a elisão e a
e da ditongação no PB. Resumidamente, pode-se afirmar que é o acento o degeminação se tornam possíveis quando o acento primário de palavra é,
fator que gera os contextos de bloqueio do sândi vocálico, pois: em suas palavras, ‘enfraquecido por razões prosódicas e rítmicas’”.
(A) quando ambas as vogais são tônicas, nenhum dos três processos se Ao levar em conta dados como os apresentados em (2), a autora afirma
implementam, como exemplifica (1-i); que “o bloqueio a esses processos ocorre quando [o] acento primário de
(B) quando a primeira vogal é tônica, como em (1-ii), a elisão não ocorre, palavra, atribuído no componente lexical, é também interpretado, pós-
como exemplifica (1-ii-b); lexicalmente, como acento frasal, portador de informação sintática, dentro
(C) quando a segunda vogal é tônica, como em (1-iii), nem a elisão nem de uma hierarquia de proeminências prosódicas sintaticamente motivadas”
a degeminação ocorrem, como exemplificam (1-iii-a) e (1-iii-b)2. (Abaurre 1996: 46). Desse modo, a EL ocorre em (2), mas é bloqueada em
(1) (2). Esse fato está relacionado, segundo a pesquisadora, ao algoritmo de
i a Vi isso [vi «isU] formação da frase fonológica (doravante, φ) na medida em que a proemi-
b Dá isso [da «isU]
c Vi este [vi «estSI] nência relativa de φ sinaliza a direção da recursividade sintática nas línguas
ii a Babá amorosa [ba«bamo «Roza]
b Babá elegante [ba«ba ele«gŒ‚tSI]
c Bebê urinado [be«be URi«nadU] 3. O algoritmo da frase fonológica utilizado é o adaptado por Frota (1998: 51) para o PE: “Phonological
Phrase (f) Formation: (a) f Domain: a lexical head X and all elements on its non-recursive side which
are strill within the maximal projection of X; (b) f Restructuring: optional, obligatory or prohibited
2. Mantivemos os mesmos exemplos de Bisol (1993). inclusion of a branching or nonbraching f which is the first complement of X into the f that contains X”.
172 Luciani Tenani Acento e processos de sândi vocálico no português 173

naturais (o que é, por definição, um parâmetro sintático). Como o portu- lógica”. “Esse conflito envolve, por um lado, princípios de boa-formação das
guês é uma língua de recursividade à direita (cf. Cinque 1993), ao acento seqüências fonológicas que se manifestam através da tendência à otimização
mais à direita será atribuído o valor forte, assim, o acento de φ mais à da cadeia silábica [...]; envolve ainda, por outro lado, a tendência a preser-
direita tem relação com a recursividade sintática. var a estrutura portadora da informação sintática relevante” (p. 48). Nesse
embate, a análise dos dados da DG e da EL indicia que a tendência para se
Recorrendo ao trabalho de Nespor (1994), Abaurre traz informações
preservar a estrutura portadora de informação sintática prevalece sobre a
sobre experimentos em aquisição da linguagem que parecem confirmar a
tendência à otimização silábica no nível da frase fonológica. Nessa afirma-
saliência prosódico-sintática do acento de frase fonológica e sua relevância
ção de Abaurre, está implícita outra a respeito da interface dos módulos da
no estabelecimento da interface entre os módulos fonológico e sintático.
gramática: a sintaxe tem prevalência sobre a fonologia.
Também Hayes (1995) afirma que a atribuição de acento no nível frasal
exibe diferenças marcantes com relação à atribuição do acento de palavra, Abaurre conclui seu texto observando que Bisol (1996a) não deixa de
as quais parecem corroborar uma interpretação do acento frasal como ten- perceber que o acento de frase fonológica está envolvido no bloqueio da
do uma natureza não puramente fonológica. Os resultados desses traba- DG e da EL, porém deixa de formalizar o fato considerado relevante que é a

lhos são tomados como base para a hipótese formulada por Abaurre (1996: referência à proeminência de nível hierarquicamente superior ao acento
47), segundo a qual “a implementação dos processos fonológicos, como o lexical, ou seja, o acento da frase fonológica. Dessa maneira, Abaurre (1996)
sândi externo no português, pode ser (em parte) regulada pelo acento frasal”. argumenta que é a frase fonológica o domínio prosódico de aplicação e
bloqueio dos fenômenos de sândi e, desse modo, o acento deste domínio
Abaurre (1996) ainda fundamenta o fato de o acento frasal estar relacio- deve ser mantido, o que mostra que, em PB, a necessidade de se preserva-
nado ao padrão de proeminências rítmicas nas afirmações feitas por Selkirk rem ao máximo os contextos estruturais portadores de informação sintática
(1984). Essa pesquisadora vincula explicitamente os possíveis padrões de prevalece sobre a otimização no nível silábico.
proeminências rítmicas dos enunciados às suas propriedades entoacionais
ao citar Selkirk (1984): Posto que a DG e a EL são bloqueadas pelo elemento mais proeminente
de φ, tem-se aí uma evidência da relevância desse domínio para o PB. Avan-
“os elementos tonais acentualmente relevantes (pitch accents) são atribuídos às pala-
çamos, porém, neste trabalho ao colocar em cena o choque de acentos.
vras na estrutura superficial independentemente dos padrões de acento frasal, e os
padrões frasais são parcialmente definidos como uma função da localização das Por meio de experimento, a ser apresentado na próxima seção, controla-
palavras que, na sentença, são portadoras do pitch accent” (apud Abaurre 1996: 47). mos a distância entre os acentos das palavras sujeitas ao sândi e a relação
de proeminência entre os acentos no domínio de φ. O controle dessas variá-
Em outras palavras, os padrões rítmicos são determinados pelos pa- veis se justifica em função dos fatos relativos ao choque de acentos em PB.
drões entoacionais, e esta relação pode definir, segundo Selkirk (1984), o
lugar da proeminência relativa de constituintes sintáticos, através de sua A literatura que trata do choque de acentos, especialmente os trabalhos
delimitação prosódica. que se inserem no quadro teórico da fonologia métrica, aponta a distância
entre os acentos e a estrutura prosódica como dois fatores que estão relacio-
Dessas considerações, torna-se evidente a importância do acento frasal e nados às restrições rítmicas identificadas nas línguas em geral4.
do seu estatuto prosódico, pois a este acento estão associadas informações
não apenas de natureza rítmica, mas também entoacional e, por fim, sintáti-
4. A relação entre esses dois fatores é estabelecida, segundo essa abordagem teórica, nos seguintes
cas. Como o acento frasal é aquele que bloqueia os processos de sândi em PB, termos: “Rhythm is represented (...) in terms of the grid, which is constructed on the basis of information
Abaurre (1996) interpreta esse fato como um conflito de natureza “teleo- contained in the prosodic tree. That is, each syllable is assigned one position, marked by an x on the first
174 Luciani Tenani Acento e processos de sândi vocálico no português 175

As configurações das grades métricas geradas desse mapeamento nem Portanto, pode-se afirmar que não há dúvidas da relevância de φ quer
sempre são bem-formadas. Em alguns casos, as proeminências estão tão pró- para o bloqueio da DG e da EL, quer para o bloqueio da resolução de choque
ximas que resultam em um choque de acentos (stress clash); em outros casos, de acentos. Neste texto, buscamos verificar a interação entre o bloqueio des-
as proeminências estão tão longe umas das outras que resultam em ‘lapsos’ ses processos de sândi e as estratégias de resolução de choque de acentos.
de acentos (stress lapses). Para solucionar essas configurações de modo a
implementar uma seqüência com uma maior alternância rítmica, regras de
reajustes são aplicadas. As estratégias de resolução de choque de acentos e o 3. EXPERIMENTO
nível em que esse choque é avaliado como uma configuração mal-formada
diferem entre as línguas. Além dessas duas variáveis, a direção (direita/esquer- A fim de alcançar nosso objetivo, foi feito um experimento em que é
da) em que operam os ajustes rítmicos também varia entre as línguas. controlada a tonicidade das vogais sujeitas ao sândi, de modo a relacionar
essa tonicidade à saliência prosódica de φ. Também consideramos a fron-
Em PB, o trabalho sobre choque de acentos de Abousalh (1997) mostra teira de frase entoacional (identificada por I)6, pois essa fronteira é crucial
que a resolução da colisão acentual opera dentro do domínio da frase para o PE. Ou seja, foram elaborados contextos em que o acento de palavra
fonológica por meio de uma estratégia de retração à esquerda do acento. é também interpretado como acento frasal, o qual se manifesta de modo
Já o choque de acentos entre φs parece não ser resolvido por essa mesma mais evidente por meio da variação de F0, conforme a literatura sobre o
estratégia, segundo a pesquisadora. Esse fato pode ser indício de que pro- acento em PB. Como nos interessa a comparação entre as duas variedades
vavelmente a língua deve dispor de algum outro mecanismo para resolver do português, controlamos a fronteira de I da mesma maneira que Frota
essa configuração rítmica. A autora aborda como estratégia de resolução (1998) o fez para o PE. Desse modo, foram elaboradas sentenças nas quais
dos choques apenas “o apagamento/movimento de acento, a inserção de a localização das fronteiras de φ e de I e os contextos de sândi foram siste-
pausas e de contornos entoacionais” (p. 19), pois opta por trabalhar “so- maticamente variados7. Abaixo, são dados alguns exemplos de sentenças
mente com uma transcrição orientada por critérios lingüísticos” (p. 18), do corpus, com indicação dos contextos de sândi (sublinhado), dos acentos
isto é, a análise se baseia em uma transcrição auditiva de dados não obtidos
(em caixa alta) e das fronteiras prosódicas relevantes.
em laboratório. Portanto, não são investigadas outras estratégias como a
inserção de uma batida rítmica (beat insertion) entre os acentos ou os (3)
a [a aLUna Árabe]φ [enviou uma carta]φ [à cantora]φ
correlatos acústicos das estratégias empregadas em PB. b [a aLUna]φ [Age] φ [com discrição]φ [em público]φ
c [a aLUna]φ [Age sempre]φ [com discrição]φ [em público]φ
Também Sandalo & Trunckenbrodt (2002) tratam do choque de acen- d [a aLUna,]I [Ávida por justiça,]I [falou com a diretora.]I
tos em PB e tomam por base julgamentos dos falantes sobre a possibilidade
de retração de acentos em sentenças lidas (como enunciados de jornal, por
exemplo), mas também não é aventada a possibilidade de haver outras 6. O algoritmo da frase entoacional utilizado é o adaptado por Frota (1998: 51) para o PE :
“Intonational Phrase (I) Formation: (a) I Domain: (i) all the φs in a string that is not structurally
estratégias de resolução de choque acentual. O bloqueio dessa regra de attached to the sentence tree (i.e. parenthetical expression, tag questions, vocatives, etc); (ii) any remaining
retração de acentos está submetido, segundo esses autores, a certas restri- sequence of adjacent φs in a root sentence; (iii) the domain of an intonation contour, whose boundaries
coincide with the positions in which grammar-related pauses may be introduced in an utterance; (b)
ções relacionadas ao estabelecimento das fronteiras de φ5. I Restructuring: (i) restructuring of one basic I into shorter Is, or (ii) restructuring of basic Is into a larger
I. Factors that play a role in I restructuring: length of the constituents, rate of speech, and style interact
with syntactic and semantic restrictions.”
grid level. Subsequently, the DTE (designated terminal element) of each higher prosodic category (excluding 7. A maioria das sentenças é elaborada com base no corpus construído por Frota (1998) para o PE,
[...] the clitic group), is assigned one additional x on a separate grid level” (Nespor 1990: 245). porém as sentenças não são exatamente iguais ao do PE por ter sido necessário fazer algumas
5. Considerações a respeito dessas restrições encontram-se em Tenani (2002). adequações para o PB.
176 Luciani Tenani Acento e processos de sândi vocálico no português 177

Em todas as sentenças em (3), o artigo a pertence ao mesmo φ do nome pois, é o acento dessa vogal que gera o bloqueio da DG e da EL quando esse for
aluna e, por essa razão, espera-se a aplicação da DG, uma vez que, como já interpretado como acento de φ10. Dessa maneira, foram considerados contex-
mostrado na seção anterior, φ é o domínio preferencial para a aplicação de tos em que a segunda vogal é tônica (v+v’) tanto para a seqüência de /a+á/,
sândi externo (porque sempre ocorre a aplicação desse processo nesse domí- como em (5a), que permite observar o processo da DG, quanto para seqüência
nio entre vogais átonas)8. Em (3a), aluna árabe é formada por φs passíveis de de /a+ú/, como em (5b), que caracteriza o contexto segmental da EL em PB.
sofrerem reestruturação, conforme previsto pelo algoritmo desse domínio, (5)
constituindo-se, assim, em uma unidade fonológica pelo fato de árabe cons- i a [a aLUna Árabe]φ [enviou]φ [uma carta]φ [à cantora]φ
tituir um φ não-ramificado que é complemento da cabeça lexical X (no caso, b [a aLUna Útil]φ [ganhou]φ [uma viagem]φ [de férias]φ
ii a [a aLUna]φ [Age]φ [com discrição]φ [em público]φ
aluna) do seu lado recursivo. Em (3b), a relação é entre as fronteiras de φ,
b [a aLUna]φ [Usa]φ [chapéu branco]φ [em público]φ
sendo os dois φs não-ramificados. Em (3c), a relação prosódica relevante se iii a [a aLUna]φ [Age SEMpre]φ [com discrição]φ [em público]φ
dá entre um φ não-ramificado, formado por um nome em posição de sujeito b [a aLUna]φ [Usa SEMpre]φ [chapéu branco]φ [em público]φ
iv a [a aLUna]I [Ávida por jusTIça]I [falou com a diretora]I
(aluna), e outro φ-ramificado, formado por um verbo e um advérbio (age
b [a aLUna]I [Útil mas desorganizada]I [encantou o público brasileiro]I
sempre). Cabe observar que, pelo algoritmo de φ, age sempre é mapeado em
dois φs, a saber: [age]φ [sempre]φ, que são passíveis de reestruturação: [age Posto que um dos nossos objetivos é a comparação da estrutura prosódica
sempre]φ. Estamos considerando, como também o fez Frota (1998) para o do PB com a de PE, optamos por levar em conta também o contexto em que
PE que a estrutura relevante é [age sempre]φ. Finalmente em (3d), a fronteira
o acento recai na primeira sílaba da seqüência da DG ou da EL. Em PE, dife-
prosódica considerada é do domínio I. Nesse caso, é prevista a fronteira de I rentemente do PB, o sândi vocálico também é bloqueado quando a primeira
vogal é acentuada, como em casos como (6). Considerando as seqüências /
entre aluna e ávida em razão de haver o mapeamento do parêntese ‘ávida
á+a/ [cf. (6a)] e /á+u/ [cf. (6b)] e as diferentes estruturas prosódicas [cf. (4)],
por justiça’ como um único I, o que a delimita em relação à porção anterior
busca-se obter dados comparáveis com os analisados para o PE.
e posterior da sentença em que é encaixada9. Todas as fronteiras prosódicas
consideradas são elencadas abaixo. (6)
i a [o maraJÁ aFOIto]φ [enviou]φ [uma carta]φ [à cantora]φ
(4) b [o maraJÁ huMILde]φ [recebeu flores]φ
Tipo de estrutura prosódica ii a [o maraJÁ]φ [aCEIta]φ [o papel]φ [de bandido]φ
a Mesmo φ b [o maraJÁ]φ [uSAva]φ [roupa branca]φ
b φ+φ-não-ramificado iii a [o maraJÁ]φ [aPEnas enviOU]φ [flores]φ [à bailarina]φ
c φ+φ-ramificado b [o maraJÁ]φ [uSAva SEMpre]φ [roupa clara]φ
d I+I iv a [o maraJÁ]I [aPÓS o conFLIto]I [repousou em seu quarto]I
Também foi controlada a tonicidade das vogais sujeitas ao sândi, de modo b [o maraJÁ]I [huMILde COmo a canTOra]I [recebeu os presentes]I
a relacionar essa tonicidade à proeminência prosódica do domínio da frase Finalmente, o último contexto analisado que envolve choque de acen-
fonológica. Com base nos trabalhos de Bisol (1992c, 1993, 1996a, b, 2000a) tos é a seqüência em que ambas as vogais são acentuadas, como ilustra (7).
e de Abaurre (1996), constata-se que a tonicidade da segunda vogal é crucial, Nas duas variedades do português, o sândi vocálico é bloqueado nesse contex-
to acentual. No entanto, em PB não se investigou por meio de qual estratégia
8. Os valores da duração encontrados para o intervalo vocálico /a+a/ em ‘a aluna’ nos levam a
afirmar que houve a DG nesse contexto. Isso não implica afirmar que não haja distinção em PB
entre ‘a aluna’ e ‘aluna’ quando considerados enunciados como: ‘a aluna árabe pagou meia 10. Vale lembrar que em Tenani (2002) se mostra que o acento de palavra ou de níveis superiores
entrada’ e ‘aluna árabe paga meia entrada’. a esse domínio não bloqueia o vozeamento da fricativa ou o tapping, mas bloqueia a haplologia
9. Encontra-se em Tenani (1997) uma análise das características prosódicas dos parênteses em PB. quando a primeira sílaba for a acentuada.
178 Luciani Tenani Acento e processos de sândi vocálico no português 179

é solucionado esse choque de acentos quando envolve um contexto de sândi consideradas [cf. (4)]. A interação dessas variáveis, somada aos dois contex-
vocálico nas diferentes estruturas prosódicas [cf. (4)]. Através da análise dos tos segmentais controlados, a saber /a+a/ e /a+u/, resulta em 32 estruturas
contextos exemplificados em (7) se quer comparar as estratégias de resolução (4 fronteiras prosódicas x 2 contextos segmentais x 2 posições de acento na
de choque de acentos em PB e em PE, quando o contexto segmental envolve seqüência x 2 contextos de distância entre os acentos). Essas variáveis são
um processo de sândi vocálico em diferentes estruturas prosódicas. esquematicamente apresentadas no quadro a seguir.

(7) Estrutura prosódica Mesmo φ


a [o maraJÁ Árabe]φ [apresentou]φ [bons resultados]φ
φ+φ não-ramificado
b [o maraJÁ]φ [Age]φ [com discrição]φ [em público]φ
c [o maraJÁ]φ [Age SEMpre]φ [com discrição]φ [em público]φ φ+φ ramificado
d [o maraJÁ]I [Ágil como um raio]I [encantou o público brasileiro]I
I+I
Ainda relacionada à tonicidade das vogais sujeitas ao sândi, foi sistemati-
Contexto segmental /a+a/
camente controlada a distância entre os acentos das palavras sujeitas ao
processo com o objetivo de verificar se o processo é bloqueado apenas quan- /a+u/
do sua aplicação gera choque de acentos, como em (8a). Essa distância foi Posição do acento na V+V’
considerada, como o fez Frota (1998) para o PE, em termos de número de seqüência vocálica
V’+V
sílabas: uma ou duas sílabas entre os acentos primários. Ao ser controlada a
distância entre os acentos, busca-se avaliar se há relação entre bloqueio/apli- Distância entre os acentos 1 sílaba
cação de sândi e a configuração métrica obtida. A partir das variáveis relacio- 2 sílabas
nadas ao acento das vogais, foram elaboradas seqüências em que:
QUADRO 1: Variáveis controladas
(I) a distância entre os acentos é ora de uma ora de duas sílabas átonas
Noutro conjunto de estruturas, apenas é considerada a seqüência de
[respectivamente, (8a) versus (8b)];
vogais acentuadas /á+á/ em quatro diferentes fronteiras prosódicas, o que
(II) ora a primeira vogal candidata ao sândi é átona e a segunda tônica resultou em mais 4 estruturas [cf. (7)].
[cf. (8-i) e (8-iii)], ora a primeira vogal candidata ao sândi é tônica e
a segunda átona [cf. (8-ii) e (8-iv)]. As sentenças elaboradas a partir dessas estruturas foram lidas duas vezes
por três informantes representantes do dialeto paulista, totalizando 216
(8) ocorrências (36x2x3). A seguir, são apresentados os resultados obtidos.
i a [a aLUna Árabe]φ
b [a asTRÓloga Árabe]φ
ii a [o maraJÁ aFOIto]φ
b [o maraJÁ afriCAno]φ 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
iii a [a aLUna]φ [Age]φ
b [a asTRÓloga]φ [Age]φ Nesta seção, comparam-se os contextos em que uma das vogais da se-
iv a [o maraJÁ]φ [aCEIta]φ qüência vocálica sujeita à DG ou à EL é acentuada com o objetivo de iden-
b [o maraJÁ]φ [aceiTOU]φ
tificar semelhanças e diferenças entre o PB e o PE quanto às suas organiza-
Em resumo, no primeiro conjunto de estruturas elaboradas, as variá- ções rítmica e prosódica. Por meio do quadro 2, visualizam-se os contextos
veis ‘tonicidade das vogais’ e ‘distância entre os acentos’ foram controladas em que há o bloqueio da DG e da EL em função da estrutura prosódica e da
de modo a assegurar a relação entre essas variáveis e as fronteiras prosódicas tonicidade das vogais das seqüências consideradas.
180 Luciani Tenani Acento e processos de sândi vocálico no português 181

O primeiro ponto a destacar diz respeito ao contexto segmental que Colocada essa primeira diferença entre PB e PE, passamos a comparar
caracteriza a EL. Enquanto no PE a EL é implementada quando /a/ é a se- os resultados para a seqüência em que uma das vogais é acentuada. Ao ser
gunda vogal, no PB esse processo somente ocorre quando /a/ for a primeira analisada a seqüência em que a primeira vogal é acentuada, verifica-se que
vogal da seqüência (cf. Bisol 1993). Portanto, para se tratar do processo
(I) quando a seqüência for de vogais diferentes, a EL é bloqueada em
que consiste no apagamento da vogal /a/ faz-se necessário considerar ca-
ambas as variedades;
deias segmentais em que essa vogal baixa não ocupa a mesma posição: em
(II) quando a seqüência for de vogais iguais, a DG é sempre bloqueada
PB, sempre será a primeira vogal, em PE, sempre a segunda vogal11.
em PE e é sempre implementada em todos os contextos prosódicos
EL DG em PB, como indicado no quadro (2).
PB
«V1≠V2 V1≠« V2 «V1=V2 V1=«V2 Ao ser considerada a seqüência em que a segunda vogal é acentuada,
Estrutura 1s 2s 1s 2s 1s 2s 1s 2s encontram-se mais uma vez semelhanças e diferenças entre as duas varie-
prosódica dades estudadas:
Mesmo φ EL /DT EL /DT EL /DT EL /DT DG DG DG DG (I) a EL é bloqueada nas duas variedades em um mesmo φ e entre φs
φ+φ não- EL /DT EL /DT EL /DT EL /DT DG DG DG DG quando ambos não são ramificados, mas obtêm-se resultados dife-
ramificado rentes, quando estão em jogo outras fronteiras prosódicas;
φ+φ ramificado EL /DT EL /DT EL /DT EL/DT DG DG DG DG (II) a DG é bloqueada apenas em um mesmo φ e entre φs em PB e sempre é
bloqueada em PE, independentemente da fronteira prosódica em jogo.
I+I EL /DT EL /DT EL /DT EL /DT DG DG DG DG
Antes de avançarmos na análise das diferenças, é preciso salientar o
PE «V1≠V2 V1≠«V2 «V1=V2 V1=«V2 fato comum às variedades do português estudadas: a EL é bloqueada quan-
do a primeira vogal for acentuada. Na literatura sobre o processo de reso-
Estrutura 1s 2s 1s 2s 1s 2s 1s 2s
prosódica
lução de encontro de núcleos silábicos, é comum a observação de que a
vogal acentuada não é apagada (cf. Nespor 1987). Esse fato indica qual
Mesmo φ EL /DT EL /DT EL /DT EL /DT DG DG DG DG
das vogais de uma seqüência analisada é eliminada pela regra de apaga-
φ+φ não- EL /DT EL /DT EL /DT EL /DT DG DG DG DG mento do elemento extraviado (cf. análise de Bisol 1996a). Portanto, nas
ramificado duas variedades do português, a EL consiste na eliminação da primeira vo-
φ+φ ramificado EL /DT EL /DT EL /DT EL/DT DG DG DG DG gal em uma cadeia vocálica que se delineia quando uma palavra que termi-
na com vogal é seguida por outra que inicia com vogal. Estudos que com-
I+I EL /DT EL /DT EL /DT EL /DT DG DG DG DG
param diferentes línguas apontam a elisão da primeira vogal como sendo o
Onde: V1: primeira vogal da seqüência vocálica; V2: segunda vogal da seqüência resultado mais comum translingüisticamente, embora também seja atesta-
vocálica; V: vogal acentuada; Negrito: bloqueio dos processos; CAIXA ALTA: aplicação dos
processos; EL: elisão; DG: degeminação; DT: ditongação. da a eliminação da segunda vogal de uma seqüência de duas (cf. generali-
Quadro 2: Bloqueio do sândi vocálico em PB e PE12 zações translingüísticas feitas por Casali 1997).

Um ponto importante a ser discutido quando da comparação entre


11. No PB, a presença da vogal baixa /a/ na segunda posição da seqüência preferencialmente resulta
em um ditongo decrescente (cf. Bisol 1993, 1996a).
diversas línguas é a direção da aplicação da EL. Casali (1997) atenta para o
12. No quadro está sendo considerada a seqüência /a+ú/ em PB, a seqüência /u+á/ em PE. fato de as línguas apresentarem fenômenos sincrônicos e diacrônicos que
182 Luciani Tenani Acento e processos de sândi vocálico no português 183

sugerem a tendência em preservar segmentos na posição de início de pala- b [o maraJÁ]φ [apaNHOU] maraj[a]panhou
iii a [o maraJÁ]φ [aPEnas aceitou] maraj[a]penas
vra. Um desses fenômenos freqüentes em várias línguas, inclusive em por-
b [o maraJÁ]φ [apaNHOU sempre] maraj[a]panhou
tuguês, é a manutenção de contrastes no início de palavra em oposição à iv a [o maraJÁ]I [aPÓS o conflito] maraj[a]pós
neutralização que é permitida em outras posições13. Isso sinaliza a existên- b [o maraJÁ]I [apeSAR da confusão] maraj[a]pesar
cia de uma assimetria entre as posições na palavra, de modo que se espera
No PE, a DG também é bloqueada quando a segunda vogal for acentua-
uma maior proeminência acústica no início de palavra, o que leva à preser-
da. Portanto, em PE, a DG sempre é bloqueada quando uma das vogais for
vação dos elementos nesse contexto. Essas considerações de Casali (1997)
acentuada, independentemente da localização do acento (isto é, se o acento
remontam à noção de Trubetzkoy (1939) segundo a qual certas posições
ocorre na primeira ou na segunda vogal da seqüência), do número de síla-
proeminentes são mais propícias a manter contrastes entre tipos particula-
bas entre os acentos, ou do tipo de estrutura prosódica. Esses achados de
res de traços e/ou segmentos. Estaria aí a motivação para a preferência, nas
duas variedades do português, pela preservação da segunda vogal de uma Frota (1998: 79), obtidos a partir de exemplos como em (10)14, revelam
seqüência vocálica (pois é o início de uma palavra) e a conseqüente elimi- que vogais acentuadas não sofrem DG. Esse fato em PE não depende do
nação da primeira vogal prosodicamente mais fraca (pois é final de uma status do acento (ou seja, se é acento de ω, como em (10-i), ou de φ, como
palavra). Essa configuração sugere que a direção da aplicação da EL é da em (10-ii), nem de uma restrição em evitar o choque de acentos (ou seja, o
esquerda para a direita em PB e em PE. bloqueio ocorre quando há choque de acentos, como em (10a), e também
quando há uma sílaba entre os acentos, como em (10-b)15. Segundo a
Ainda em se tratando da seqüência de vogal tônica seguida de átona, pesquisadora portuguesa, “this means that the importance of the stress status
observam-se resultados diferentes quando a seqüência for de vogais iguais. of any of the vowel bleeds the action of any rhythmical constraint due to
Enquanto no PE sempre o acento na primeira vogal leva ao bloqueio da DG,
clash avoidance” (Frota 1998: 90).
no PB esse acento não bloqueia a DG. Como discutido por Tenani (2002),
esse fato também pode ser interpretado como índice da atuação do princí- (10)
i a [a caNEta ÂMbar]φ b [a TÁbula ÂMbar]φ
pio de ressilabificação desencadeado pelo sândi. Segundo esse princípio, a ii a [o gaLÃ aFOIto]φ b [o gaLÃ afriCAno]φ
direção da ressilabificação é da esquerda para a direita e, desse modo, iii a [a aLUna]φ [Ama] b [a asTRÓloga]φ [Ama]
quando o acento está à esquerda na seqüência, como em (9), a DG não é iv a [o gaLÃ]φ [aPAnha] b [o gaLÃ]φ [apaNHOU]
bloqueada. É importante salientar que a DG se aplica mesmo quando a v a [a aLUna]I [ANtes de partir]I b [a asTRÓloga]I [ANtes de partir]I
primeira vogal acentuada é o elemento mais proeminente de φ, como se Diferentemente do PE, em que sempre há bloqueio da DG quando a
observa em (9-ii), e inclusive quando a aplicação da DG resulta em uma segunda vogal é acentuada, em PB o bloqueio ocorre apenas quando o acento
adjacência de acentos de φs, como exemplificado em (9-ii-a). Esse dado lexical for interpretado como sendo o acento do domínio f, como ilustram
sugere que a DG não afeta, nesse contexto, a proeminência de φ. (11-i) e (11-ii). Vale lembrar que em Tenani (2002) são apresentadas medi-
(9)
i a [o maraJÁ aFOIto]φ maraj[a]foito
14. Os exemplos dados em (10) são os apresentados por Frota (1998: 39 e 79).
b [o maraJÁ afriCAno]φ maraj[a]fricano 15. Vale observar que em PE são consideradas vogais orais e nasais. Essas últimas se realizam como
ii a [o maraJÁ]φ [aCEIta] maraj[a]ceita [å)] (por ex. ama [å)må]), sendo semelhantes às vogais orais átonas [å] (por ex. aluna [ålunå]). Em PB,
em uma seqüência de vogal oral-vogal nasal também é passível de sofrer sândi (por ex. casa antiga
ca[zã]tiga), porém isso não se verifica quando a vogal nasal ocupar a primeira posição na seqüência
13. Na literatura sobre o PB e o PE, há registro de haver grande neutralização das oposições entre as vocálica (por ex. maçã amarela - *ma[sã]marela). Nesse segundo contexto segmental, o bloqueio
vogais quando essas se encontram em posição átona final de palavra. Dos sete fonemas vocálicos do do processo se dá em razão do traço de nasalidade. Por essa razão, sempre foram consideradas
português, passa-se a apenas três nessa posição. vogais orais em PB .
184 Luciani Tenani Acento e processos de sândi vocálico no português 185

das de duração do intervalo vocálico que constituem evidências de que a mas entre φs a EL é bloqueada somente quando o acento da vogal for tam-
distância de uma a duas sílabas entre os acentos, nesses dois contextos, não bém o acento de φ [cf. (12-ii) versus (12-iii)]. Também entre Is a EL não é
é relevante para explicar o bloqueio da DG, pois mesmo quando os acentos bloqueada, como ilustra (12-iv). Por outro lado, a ditongação (indicada
não estão adjacentes, o bloqueio ocorre. Por outro lado, quando a proemi- por DT) é sempre permitida em um mesmo φ, entre Is e entre φs, exceto
nência de φ não coincide com a sílaba candidata à DG, como em (11-iii) e quando os acentos de φ estão muito próximos, como em (12-ii-a).
(11-iv), o processo não é bloqueado independentemente da proximidade Segundo Frota (1998: 88), os contextos em que os processos de
entre os acentos das palavras [cf. (11-iii-a) versus (11-iii-b)]. ressilabificação não se implementam são aqueles em que os resultados são
(11) configurações rítmicas mal-formadas, as quais não são resolvidas por meio
i a [aLUna Árabe]φ... * alun[a]rabe... de outras estratégias, ou seja, o bloqueio da EL se dá para serem evitadas
b [asTRÓloga Árabe]φ... * astrólog[a]rabe...
configurações interpretadas na língua como choque de acentos. Por trás
ii a [aLUna]φ [Age]φ ... * alun[a]ge...
b [asTRÓloga]φ [Age]φ ... * astrólog[a]ge... dessas restrições rítmicas, visíveis por meio do bloqueio do processo de
iii a [a aLUna]φ [Age sempre]φ ... alun[a]ge sempre... resolução do encontro de núcleos vocálicos, dois fatores estão atuando:
b [a asTRÓloga]φ [Age sempre]φ ... astrólog[a]ge sempre... distância fonológica entre os acentos e a estrutura prosódica. A relação
iv a [a aLUna]I [Ávida por justiça]I ... alun[a]vida...
b [a asTRÓloga]I [Ávida por justiça]I ... astrólog[a]vida... entre esses fatores é estabelecida por Frota a partir do arcabouço teórico
da fonologia métrica proposto por Nespor & Vogel (1986) e Nespor (1990).
Esse contraste entre PB e PE quanto ao bloqueio da DG remete-nos ao
contraste entre grego e italiano apontado por Nespor (1987). Em grego, a Nesses trabalhos, são freqüentes duas configurações de choque acentual,
DG é bloqueada caso o resultado da aplicação gere um choque de acentos. as quais estão presentes em PE quando os acentos de duas palavras se encon-
Em italiano, a DG se implementa mesmo quando o resultado for um cho- tram em um mesmo φ, como em (12-i), ou entre φs, como em (12-ii). A confi-
que de acentos. Embora nas duas línguas tenda-se a evitar o choque de guração de choque de acentos em PE é representada em (13). Em (13-I), é
acentos, a diferença entre elas se verifica nas estratégias de que dispõem apresentada a proposta de Frota (1998: 90) para a configuração mínima em
para minimizar um possível efeito de dissonância rítmica. Antes de tratar- que os acentos estão próximos o suficiente para resultar em um efeito de cho-
mos dessas estratégias, faz-se necessário completar o quadro comparativo que em PE16. Dada essa configuração, são esperados o bloqueio da ditongação
entre as duas variedades do português quanto ao bloqueio do sândi vocálico. em todos os contextos em (12-i). O mesmo efeito de choque é esperado em
(12-ii) e (12-iii), quando pelo menos um dos acentos envolvidos é o elemento
Um quadro semelhante ao bloqueio da DG em PB é o bloqueio da EL em PE.
proeminente de algum domínio prosódico mais alto que ω, o que configura um
(12) padrão de choque de acentos no nível de φ, como representado em (13-II).
i a [o PÚLpito ÂMbar]φ *púlpitâmbar; púlpit[w]âmbar...
b [o vesTIdo ÂMbar]φ *vestidâmbar; vestid[w]âmbar... (13)
ii a [o dançaRIno]φ [Ama]φ... *dançarinama; *dançarin[w]ama... I Choque de acentos no nível mais baixo
b [o MÚsico]φ [Ama]φ... *músicama; músic[w]ama... ω * *
iii a [o bailaRIno]φ [ANda sempre]φ... bailarinanda; bailarin[w]anda... Σ * *
b [o MÚsico]φ [ANda sempre]φ... músicanda; músic[w]anda... σ * (*) *
iv a [o bailaRIno]I [ANtes de partir]I ... bailarinantes; bailarin[w]antes...
b [o MÚsico]I [ANtes de partir]I... músicantes; músic[w]antes...
16. Para Frota (1998: 89), o bloqueio da EL dentro de f mesmo quando o output apresenta uma
Em PE, quando a segunda vogal é acentuada em seqüências de vogais sílaba átona entre os acentos de palavra (cf. 12) é evidência de que essa distância não é suficiente
diferentes, a EL é sempre bloqueada em um mesmo φ, como ilustra (12-i), para minimizar o efeito de choque de acentos dentro desse domínio.
186 Luciani Tenani Acento e processos de sândi vocálico no português 187

II Choque de acentos no nível mais alto As estruturas exemplificadas em (14)17 permitem verificar que a EL continua
a b sendo bloqueada mesmo quando a segunda vogal da seqüência não mais coin-
φ * * φ *
ω * * ω * * cide com a cabeça de φ. Esses resultados revelam que a proeminência da
Σ * * Σ * * cabeça à direita não é uma condição necessária para o choque de acentos seja
σ * (*) * σ * (*) *
evitado no nível mínimo definido para o PE e que, portanto, o bloqueio da
Essas expectativas de Frota não são confirmadas pelos resultados, po- elisão em um mesmo φ decorre de restrições rítmicas.
rém a autora argumenta que a ditongação, diferentemente da elisão, resul- (14)
ta em uma distância fonológica suficiente entre os acentos dentro de φ. Por a O ÚLtimo ANjo negro revoltou-se contra Deus.
essa razão, sempre se observam ditongos como resultado do encontro de *últimanjo; últim[w]anjo
b As OIto ÂNcoras pretas prenderam-se nos corais.
núcleos silábicos nesse nível prosódico [cf. (12-i)]. Mas a distância que a *oitâncoras; oit[w]âncoras
ditongação proporciona não é suficiente para resolver o choque de acentos
entre φs [cf. (12-ii)], o que é uma evidência de que o efeito de choque de Como já apontado, quando a segunda vogal é acentuada, os contextos
acentos nesse nível mais alto é maior do que dentro de φ. Outra evidência do bloqueio da EL em PE são iguais aos do bloqueio da DG em PB (cf. quadro
de que a língua busca banir o choque de acentos no nível de φ é dada pelo 3). Tem-se aí um fato relevante em comum entre as duas variedades do
contraste entre haver elisão quando a distância entre os acentos de φ no português: o bloqueio dos processos em que uma das vogais da cadeia
vocálica é eliminada em um mesmo φ e entre φs, quando a distância entre
output é igual a três sílabas e haver o bloqueio quando a distância entre
esses acentos é de duas sílabas [cf. (12-ii) versus (12-iii)]. A análise dos os acentos do output é menor que duas sílabas.
resultados da EL e da DT em PE leva Frota (1998: 91) a afirmar que o cho- DG/PB EL/PE
que de acentos entre φs é fortemente evitado, enquanto o choque dentro de Estrutura prosódica 1s 2s 1s 2s
φ é mais tolerado, provavelmente porque a língua tem outras estratégias
para resolver o ‘choque mínimo’ [cf. (13-I)], mas não para o choque no Mesmo φ DG DG EL/DT EL/DT

nível mais alto [cf. (13-II)]. φ+φ não-ramificado DG DG EL/DT EL/DT

Ainda a comparação entre (12-i) e (12-ii), por um lado, e dessas com (12), φ+φ ramificado DG DG EL/DT EL/DT
por outro, sugere a existência de um ‘directional head-effect’, pois a elisão é I+I DG DG EL/DT EL/DT
sempre bloqueada quando o acento da vogal mais à direita coincidir com a
Onde: negrito indica o bloqueio do processo; CAIXA ALTA indica a aplicação do
cabeça de φ [cf. (12-i) e (12-ii)]. Portanto, Frota (1998) constata que é impor- processo; 1σ e 2σ indicam o número de sílabas entre os acentos.
tante não apenas o nível em que o choque de acentos ocorre, mas também o Quadro 3: Bloqueio da DG em PB e da EL em PE

fato de a cabeça do domínio φ ser à direita. Ou seja, o choque entre os acentos Esse resultado da DG no PB também pode ser visto como decorrente
de φ e de ω não bloqueia a EL, mas os choques entre os acentos de ω e de φ ou de uma restrição rítmica semelhante à identificada em PE quando analisa-
entre os acentos de dois φs bloqueiam a EL em PE. A investigadora portuguesa do o contexto do bloqueio da EL . Trilhando o caminho percorrido por
ainda se pergunta se esse efeito da proeminência à direita também é relevante Frota (1998) para o PE, dois níveis de choque acentual podem ser defini-
para o choque de acentos definido como o choque mínimo em PE [cf. (13-I)]. dos para o PB:
(I) o choque de acentos no nível mínimo, que envolve acentos de ω
17. Em Frota (1998: 92) esses são os exemplos (52). dentro de um mesmo φ [cf. (13-i)]; e
188 Luciani Tenani Acento e processos de sândi vocálico no português 189

(II) o choque de acentos no nível mais alto, que envolve o acento de φ português é uma língua de recursividade à direita, o acento mais à direita
[cf. (13-ii)]. tem valor forte em relação aos demais dentro de φ. Portanto, a explicação
para o bloqueio da DG em PB está na preservação da proeminência do acen-
Ao seguir essa interpretação, o bloqueio da DG em PB seria condiciona-
to que traz informação sobre a direção da recursividade sintática da língua.
do pela restrição rítmica em evitar a proximidade dos acentos dentro de φ
e entre φs, quando o acento mais à direita for o proeminente de φ. Em Como o PE não difere do PB quanto à direção da recursividade sintática,
outras palavras, quando há choque entre os acentos de ω e de φ e entre os espera-se que em PE também o elemento mais à direita de φ seja preservado,
acentos de dois φs, a DG é bloqueada; mas quando há choque entre os pois esse elemento também traz uma informação sintática relevante para o PE.
acentos de φ e de ω e entre os acentos de ωs, a DG ocorre em PB. De fato, em PE também se observa a preservação da cabeça de φ quando
analisados os contextos de bloqueio da EL. Frota (1998) argumenta a favor de
Mas como em PE, faz-se necessário verificar o resultado do processo de
um ‘directional head-effect’ visível apenas no domínio de φ, mas não explora
sândi quando a segunda vogal acentuada não coincide com o elemento
esse efeito. No entanto, em PE parece haver evidências, por meio do bloqueio
cabeça dentro de φ. As estruturas que asseguram essa relação são
da EL, de que existe uma restrição para preservar a proeminência que carrega a
exemplificadas em (15)18. Os resultados das medidas da duração do inter-
informação da direção da recursividade sintática à medida que ao ser garantida
valo vocálico de /a+á/ confirmam que a DG se aplica quando a segunda a distância entre os acentos (sejam eles de ω ou de φ) é assegurada a proemi-
vogal da seqüência não coincide com o elemento proeminente de φ. Por- nência da cabeça de φ em relação aos demais acentos adjacentes.
tanto, em PB, o bloqueio da DG dentro de φ não é condicionado por restri-
ções rítmicas relacionadas ao choque de acentos no nível mínimo, mas por Entretanto, essa restrição rítmica que preserva a proeminência relativa
um princípio em assegurar a proeminência da cabeça de φ. de φ não é suficiente para explicar os resultados em PE. A análise do blo-
queio da EL leva a pesquisadora portuguesa a trazer evidências que revelam
(15)
a [A NOva Árabe NEgra]φ a nov[a]rabe negra que também estão em jogo restrições rítmicas que visam evitar o choque de
b [A ÚLtima Árabe NEgra]φ a últim[a]rabe negra acentos tanto dentro de φ quanto entre φs [cf. definição de choque de
acentos em (13)]. Portanto, em PE, desvenda-se mais claramente uma rela-
A implementação da DG nos contextos em (15) é mais uma evidência a
ção entre o bloqueio de processos segmentais e restrições rítmicas que vi-
favor da interpretação proposta por Abaurre (1996) para o bloqueio da DG
sam evitar o choque de acentos. Em PB, essas restrições rítmicas não são
em PB. Para essa pesquisadora brasileira, o bloqueio da DG é evidência da
identificáveis quando considerado o bloqueio da DG, mas são visíveis por
importância da preservação da proeminência rítmica do acento de φ, uma
meio do bloqueio da EL, como se argumenta a seguir.
vez que esse bloqueio sempre se verifica quando a segunda vogal carrega a
informação sobre a cabeça de φ. Essa informação é de natureza sintática Diferentemente dos resultados da EL em PE e da DG em PB são os resul-
porque a proeminência de φ é definida a partir de uma hierarquia de proe- tados de bloqueio da EL encontrados em PB. Quando a segunda vogal é
minências sintaticamente motivadas (cf. algoritmo de formação de φ). acentuada, como em (16), sempre a elisão da primeira vogal é bloqueada,
Como já argumentara Abaurre (1996), a proeminência relativa de φ sina- exceto quando há espaço suficiente entre os acentos de φ, como ilustra
liza a direção da recursividade sintática nas línguas naturais e, como o (16-iii-b) Por outro lado, esse choque dos núcleos silábicos resulta em um
ditongo em todos os contextos.

18. As sentenças analisadas foram ‘a nova árabe negra recebeu o tratamento na festa’, ‘a última árabe (16)
negra recebeu o tratamento na festa’. E as medidas de duração do intervalo vocálico foram compara- i a [aLUna Útil]φ * alun[u]til; alun[au]til
das com as medidas dos demais contextos estudados para confirmar a DG. b [asTRÓloga Útil]φ * astrólog[u]til; astrólog[au]til
190 Luciani Tenani Acento e processos de sândi vocálico no português 191

ii a [aLUna]φ [Usa] * alun[u]sa; alun[au]sa que há um efeito de choque de acentos no nível mais baixo, como definido
b [asTRÓloga]φ [Usa] * astrólog[u]sa; astrólog[au]sa
iii a [a aLUna]φ [Usa sempre] * alun[u]sa; alun[au]sa
em (13-I). Portanto, em PB, o bloqueio da EL dentro de φ é condicionado
b [a asTRÓloga]φ [Usa sempre] astrólog[u]sa; astrólog[au]sa por restrições rítmicas relacionadas ao choque de acentos no nível mínimo
iv a [a aLUna]I [Útil mas desorganizada] *alun[u]til; alun[au]til que envolve o acento de ω.
b [a asTRÓloga]I [Útil mas desorganizada] *astrólog[u]til; astrólog[au]til
(18)
A análise dos contextos de bloqueio da elisão permite mais uma vez a [A NOva Ursa BRANca]φ *a nov[u]rsa branca; a nov[au]rsa
atestar a relevância da proeminência de φ para o PB. Em todos os contextos b [A ÚLtima Ursa BRANca]φ *a últim[u]rsa branca; a últim[au]rsa
em (16-a), a elisão da vogal baixa resulta em um choque silábico, ou no Observa-se que, em todos os contextos, sempre é permitida a ditongação,
nível de ω — como ilustra (17-a )— ou no de φ —como ilustra (17-b). Já o que constitui uma evidência de que esse processo de otimização da cadeia
em todos os contextos em (16-b) a elisão da vogal não gera um choque de silábica gera um resultado que garante uma distância fonologicamente sufi-
acentos em nenhum nível e, no entanto, a EL é bloqueada quando a distân- ciente entre os acentos em um mesmo φ e entre φs, minimizando o efeito de
cia entre os acentos do output é menor que três sílabas. Dessa maneira,
“dissonância rítmica”. Nota-se que esse mesmo papel da ditongação foi cons-
somente em (16-iii-b) a aplicação da elisão é permitida e, assim, é preser-
tatado por Frota (1998: 90) ao analisar os mesmos contextos prosódicos no
vada a distância de três sílabas entre os acentos de φ, como se verifica em
PE. A diferença encontra-se, porém, no fato de em PE a ditongação não pro-
(17-c) e, conseqüentemente, é assegurada a proeminência de φ.
duzir uma distância fonologicamente suficiente entre os acentos de φ, pois
(17) nesse contexto também é bloqueada a ditongação, mantendo-se as vogais
a [aLUna Útil]φ separadas. Isso se deve à maior sensibilidade do PE em evitar o choque de
φ *
acentos entre φs, como já mostrado por meio das grades métricas em (13).
C=ω * *
Σ * * Em PB, o bloqueio da EL também decorre de uma restrição rítmica em evitar
σ * * (*) * * um efeito de choque de acentos de palavras prosódicas (indicada por ω). No
a lu na u til entanto, essa restrição não é suficiente para explicar os resultados para a DG.
b [aLUna]φ [Usa]φ l Quando há encontro de núcleos silábicos preenchidos por vogais iguais,
φ * * verifica-se em PB um princípio em preservar o elemento mais proeminente de
C=ω * * f. Em PE, esse princípio não é visível, pois, conforme argumentação feita por
Σ * *
σ * * (*) * *
Frota (1998), as restrições rítmicas visam evitar o choque acentual.
a lu na u sa Por fim, a análise do contexto em que no input os acentos estão adja-
c [asTRÓloga]φ [Usa SEMpre]φ centes revela, mais uma vez, semelhanças e diferenças entre as duas varie-
φ * * dades do português quanto à estratégia de resolução do choque de acentos.
C=ω * * *
Σ * * * Considerando as medidas de duração dos intervalos vocálicos /á+á/ nas
σ * * * (*) * * * * quatro fronteiras prosódicas investigadas [cf. (7)]19, encontram-se evidên-
as tró lo ga u sa sem pre
cias a favor da interpretação de que, no PB, uma das estratégias para resolu-
Mas, diferentemente do que ocorre com a DG , há o bloqueio da EL
quando a segunda vogal acentuada não coincide com o elemento cabeça
19. Uma discussão acerca da interpretação das medidas de duração do intervalo vocálico como
dentro de φ, como ilustra (18). O resultado apresentado em (18) revela evidência de inserção de batida rítmica é feita em Tenani (2002).
192 Luciani Tenani Acento e processos de sândi vocálico no português 193

ção do choque de acentos é a inserção de batida rítmica dentro de φ e Com base em nossos resultados, o PB não é um caso extremo semelhan-
entre φs. Na literatura, encontra-se a afirmação de que a retração do acento te ao PE e, como o inglês e o italiano, dispõe de regras de ajustes rítmicos
dentro de φ também ocorre (cf. Abousalh 1997; Sândalo & Trunckenbodt tanto no nível mínimo quanto no nível mais alto [cf. (13)]. Vale notar que
2002). Em Tenani (2004b), é apresentada uma análise da variação de altu- no PB duas estratégias operam para resolver o choque no nível mínimo e,
ra tonal de dados experimentais que não trazem evidência de haver dife- no PE, apenas uma. Essas diferenças no que diz respeito às estratégias de
rença de altura tonal que possa ser interpretada como uma estratégia de resolução de configurações rítmicas mal-formadas contribuem para que
resolução de choque acentual. haja diferenças rítmicas entre essas duas variedades do português.

No PB, há evidências de sempre ser resolvido o choque de acentos tanto


no nível mínimo (choque de acentos dentro de φ) quanto no nível mais alto 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
(choque de acentos entre φs). No PE, Frota (1998) mostra que apenas o
A comparação dos resultados obtidos para o PB segundo a mesma
choque de acentos dentro de φ é solucionado e que quando há uma fron-
metodologia e considerando-se os mesmos contextos prosódicos para o PE,
teira de φ entre os acentos nenhuma estratégia se observa. No quadro abai-
com base nos achados de Frota (1998), propicia a identificação das seme-
xo, visualizam-se as diferenças entre PB e PE quanto às estratégias de resolu-
lhanças e diferenças entre o PB e o PE quanto à organização rítmica e
ção de choque acentual mencionadas.
prosódica. Resumidamente, pode-se afirmar que, em PB, existe um efeito de
PB PE
direcionalidade esquerda/direita na medida em que apenas o acento mais à
direita do domínio φ bloqueia o processo da DG. Esse mesmo efeito é iden-
Diferença de altura tonal Não há Não há
tificado em PE quando é analisado o bloqueio da EL e da DT. Outro ponto
Retração do acento dentro de Oφ Há Não há em comum é que se verifica a atuação de uma restrição rítmica em evitar
choque de acentos dentro de φ. Essa restrição é visível em PB quando anali-
Inserção de batida rítmica dentro de φ
O Há Há
sados os contextos de bloqueio da EL e, em PE, os contextos da DG. Portan-
Inserção de batida rítmica entre Oφs s Há Não há
to, nas duas variedades do português, há restrições rítmicas que bloqueiam
Quadro 4: Estratégias de resolução de choque acentual em PB e PE a configuração de estruturas rítmicas mal-formadas e há um efeito de
Exceto a ausência da estratégia de resolução de configurações rítmicas direcionalidade esquerda/direita que decorre de uma restrição que preser-
mal-formadas por meio de diferenças na altura tonal, as duas variedades do va a proeminência do acento mais à direita de φ.
português diferem entre si quanto às estratégias disponíveis para solucionar Outra semelhança entre as duas variedades do português é que as restri-
o choque de acentos dentro de φ e quanto à avaliação de em que nível o ções que operam em cada variedade dependem do tipo do processo envolvi-
choque de acentos gera perturbações rítmicas. do e da estrutura prosódica que as contém. No entanto, o que diferencia o PB
do PE não é o papel da proeminência do domínio prosódico relevante para a
A ausência de uma estratégia de resolução de choque de acentos entre
aplicação das restrições rítmicas, que é o domínio φ, mas o fato de um mes-
φs em PE é interpretada por Frota (1998: 127) com base na distinção crucial
mo processo segmental ter comportamento diferente em cada variedade.
entre o nível mínimo e o mais alto em que ocorre o choque de acentos
como sendo evidência de que o PE figura “as an extreme case of the weaker Quando considerados os contextos em que o choque de acentos se
enforcement of rhythmic alternation by grid means that characterizes the configura já no input, outra diferença se verifica no que concerne às estra-
level(s) above the minimal clash level”. tégias de resolução dos efeitos de choque acentual. Enquanto o PB lança
194 Luciani Tenani

mão de duas estratégias para solucionar o choque de acentos dentro de φ, PE CAPÍTULO 9


dispõe de apenas uma estratégia. Enquanto o PB recorre à estratégia de inser-
ção de batida rítmica para resolver a adjacência de acentos de φ, o PE não
ajusta essa configuração em que as proeminências rítmicas não se alteram. PROEMINÊNCIA ACENTUAL
Esse quadro parece dar sustentação às percepções de brasileiros sobre
o ritmo do PE. Para falantes da variedade brasileira do português, há ‘mui-
E ESTRUTURA SILÁBICA
tos acentos’ na variedade européia, o que acaba por dificultar a compreen- SEUS EFEITOS EM FENÔMENOS DO PORTUGUÊS
são dos enunciados portugueses. O que parece estar em jogo é que as se-
BRASILEIRO
qüências em que o PE admite a adjacência de acentos entre φs são, pelos
falantes de PB, percebidos como “clusters rítmicos”, como configurações GISELA COLLISCHONN*1
mal-formadas. Concluímos este capítulo tendo apresentado evidências rít-
micas —por meio da análise de dados de bloqueio do sândi vocálico— de
que o domínio φ é ativo nas duas variedades do português estudadas. Espe-
ramos também ter mostrado a relevância de estudar o acento consideran-
do-se domínios prosódicos organizados hierarquicamente, pois assim se
pode observar como se dá uma intricada relação entre o acento, a estrutura
prosódica e os processos segmentais. 1. INTRODUÇÃO

O
objetivo deste capítulo é dar conta do papel do acento em
fenômenos do nível da palavra e da frase no português. Procu-
ramos mostrar como epêntese, síncope, ditongação, sândi e
haplologia se relacionam com o acento. A discussão desses fenômenos aca-
ba por envolver também a estrutura silábica e seus efeitos.

Começamos por trazer algumas informações fundamentais sobre o


acento. Na fonologia recente, há uma grande quantidade de abordagens
que dizem respeito à representação do acento e a seu funcionamento. Para
garantir clareza quanto às informações trazidas aqui, fazemos uma breve
retomada dos pressupostos adotados.

Em seguida, falamos brevemente sobre a sílaba e finalizamos com al-


gumas informações fundamentais sobre o modelo da teoria da otimalidade.
Na seqüência, tratamos individualmente dos fenômenos acima listados.

*
Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
1. Sou grata a Leda Bisol e a Luciani Tenani pela leitura atenta do capítulo e pelas sugestões.
196 Gisela Collischonn Proeminência acentual e estrutura silábica 197

2 . ACENTO mais proeminente dentre as sílabas acentuadas das palavras que constituem
a frase. Assim, determinada sílaba pode ser acentuada com referência a
A teoria métrica (Liberman & Prince 1977) considera o acento uma
diversos domínios diferentes. Vamos a um exemplo3:
propriedade da estrutura rítmica de um enunciado, determinada por con-
trastes de proeminência entre constituintes. Para que determinada sílaba (1)
[ x ]φ [ x ]φ Nível do acento frasal
de uma palavra posssa ser interpretada como acentuada, as demais sílabas [x ]ω [ x ]ω [ x ]ω [ x ]ω Nível do acento primário
da mesma palavra devem ser menos proeminentes do que ela. [σ σ σ σσ σ σ σ] Nível das sílabas
[já nin guém]φ [dor me tran qüilo]φ
Estabelecemos a seguir a distinção entre três tipos básicos de acento:
Neste exemplo, temos duas frases fonológicas (identificadas pelo sím-
G ACENTO PRIMÁRIO: é o acento mais forte de uma palavra, por exem-
bolo ‘φ’). O símbolo ‘σ’ indica, na linha mais baixa da grade, cada sílaba
plo, a sílaba tônica em cása2. Conforme Massini-Cagliari (1992),
individualmente. O símbolo ‘x’ denota a presença de um acento no nível
no PB, este acento caracteriza-se principalmente por uma duração
correspondente. Cada nível de acento corresponde na grade a determina-
maior da sílaba tônica como um todo em relação às demais sílabas
do domínio, por exemplo, o domínio ‘ω’, da palavra fonológica, corresponde
da palavra; mas também pode ser caracterizado por maior intensi-
ao acento primário.
dade dessa mesma sílaba ou pela qualidade da vogal, diferenciada
da qualidade das vogais das outras sílabas; As sílabas ‘guém’, de ninguém, e ‘qüi’, de tranqüilo são portadoras tanto do
G ACENTO FRASAL (ou principal): é o acento mais forte de uma seqüên- acento primário quanto do acento frasal de seus respectivos domínios. Por
cia de palavras, por exemplo, em vamos cantar; este acento é carac- outro lado, as sílabas tônicas de ‘dorme’ e ‘já’ apenas possuem acento primário
terizado no português, como — possivelmente — na maior parte e as sílabas ‘nin’, ‘me’ e ‘tran’ não possuem acento em nenhum nível.
das línguas, por uma variação da freqüência fundamental, que des-
Quando duas sílabas com acento primário são adjacentes, como no
taca a sílaba acentuada em relação ao resto do enunciado;
exemplo em (1), dizemos que há um choque de acentos. Muitas vezes, os
G ACENTO SECUNDÁRIO: uma palavra pode ter acento secundário, ou choques de acento são resolvidos na fala pelo deslocamento do acento da
seja, uma sílaba mais proeminente do que as demais sílabas que primeira palavra para a esquerda, como ocorre na palavra ‘fazer’ no exem-
não carregam acento primário (em palavras mais longas, podemos plo (2), ou seja, no nível da frase, pode-se inverter a relação de proeminên-
encontrar até mais de uma sílaba com acento secundário), por exem- cia entre as sílabas de uma palavra4.
plo, em herèditária, inèxistência, esquèciménto, fàntasmàgoría; em-
(2)
bora seja difícil determinar o expoente fonético principal para o [ x ]φ [ x ]φ Nível do acento frasal
acento secundário, Moraes (2003) observa que em português a va- [ x ]ω [ x ] ω [ x] ω [ x ]ω Nível do acento primário
riação na freqüência fundamental pode ser comumente associada [ σ σ σ σ σ σ σ ] Nível das sílabas
[não fa zer mal]φ [a nin guém]φ
ao acento secundário.

A sílaba que carrega o acento primário é a mais proeminente dentre as


3. Este exemplo e diversos outros ao longo do trabalho são de versos do Romanceiro da Inconfidên-
sílabas que constituem a palavra. A sílaba que carrega o acento frasal é a cia, de Cecília Meireles. Os demais são exemplos retirados dos textos com os quais trabalhamos, ou,
quando necessário, inventados.
4. Teoricamente, cria-se, assim, novo choque com a palavra ‘não’, entretanto, este choque parece
2. O símbolo agudo (´) indica acento primário e o símbolo grave (`) indica acento secundário. não ser um problema.
198 Gisela Collischonn Proeminência acentual e estrutura silábica 199

Chamamos a atenção, no exemplo acima, para o fato de que a seqüência Segundo Kager (1999), algumas das propriedades recorrentes do acen-
‘a ninguém’ constitui um só domínio de acento primário (palavra fonológica), to são: propriedade demarcativa: o acento tende a ser colocado próximo às
já que a preposição não possui acento. Cada palavra fonológica possui um (e bordas dos constituintes; propriedade rítmica: os acentos tendem a apre-
um só) acento primário. É o que se chama propriedade culminativa do acen- sentar padrões rítmicos com sílabas fortes e fracas espaçadas em intervalos
to (Kager 1999). Porém, a palavra fonológica não é necessariamente isomórfica regulares; e sensibilidade quantitativa: o acento tende a incidir natural-
em relação à palavra morfológica ou à sintática. Os monossílabos átonos (p. mente sobre elementos que tenham alguma proeminência intrínseca, por
ex. conjunções, preposições, pronomes), também chamados de clíticos (ou exemplo, sílabas com rima ramificada.
formas dependentes), não constituem uma palavra fonológica, embora se-
jam palavras do ponto de vista morfológico e sintático. Monossílabos tôni- Em relação à última propriedade, tem um papel importante a noção
cos, por outro lado, são portadores de acento primário (embora nestes casos de peso silábico. Sílabas pesadas são aquelas que têm rima ramificada (síla-
a noção de proeminência esteja prejudicada) e podem, inclusive, assumir o bas terminadas em consoante ou formadas por ditongo ou por vogal lon-
acento frasal, como no caso de ‘mal’ no exemplo acima. ga). Estas sílabas têm, em muitas línguas, a propriedade de atrair o acento.
Diz-se, então, que o acento é sensível ao peso silábico.
Como se pode observar, a estruturação fonológica de um enunciado
constitui-se de estruturas encaixadas em diversos níveis. As sílabas encai- A propriedade rítmica, isto é, o fato de os acentos tenderem a apresen-
xam-se em unidades maiores, que são as palavras, e estas, por sua vez, tar padrões rítmicos com sílabas fortes e fracas espaçadas em intervalos
encaixam-se na frase fonológica. Para cada unidade dos níveis da palavra e regulares, recebeu na fonologia gerativa recente uma interpretação em ter-
da frase, há um elemento mais proeminente, também chamado de cabeça. mos de pés. A noção de pé vem da tradição de análise da estrutura rítmica
Acima da frase fonológica, temos a frase entoacional que, grosso modo, da poesia grega e latina que distinguia diferentes células rítmicas (por exem-
corresponde a uma sentença completa, como no exemplo acima Já nin- plo iambos, troqueus, dátilos, anapestos).
guém dorme tranqüilo. Aqui também temos um elemento mais proeminen-
A teoria métrica (Hayes 1995) toma desse conjunto de pés dois tipos
te, a sílaba tônica da última palavra da seqüência.
basicamente: o troqueu e o iambo. Esses pés são responsáveis não somente
(3) por explicar a alternância de elementos fortes e fracos, mas também por
[ x ]I Nível do acento da frase entoacional determinar a localização do acento primário.
[ x ]φ [ x ]φ Nível do acento frasal
[x ]ω [ x ]ω [ x ]ω [ x ]ω Nível do acento primário O troqueu é um pé com a seguinte estrutura:
[σ σ σ σ σ σ σσ] Nível das sílabas
[já nin guém]φ [dor me tran qüilo]φ (4)
(* •)
Nas palavras, a localização do acento pode ser determinada por regras σ σ
da língua (ou parâmetros ou restrições, dependendo do modelo fonológico);
Ou seja, é um pé formado por duas sílabas, com proeminência na síla-
ou, então, pode ser uma propriedade intrínseca de cada palavra; neste caso,
ba mais à esquerda. O iambo, por sua vez, tem proeminência na sílaba
terá de ser especificada individualmente, na representação lexical. Portan-
mais à direita:
to, há línguas em que a localização do acento é determinada por regras ou
condições gerais e outras em que é uma propriedade lexical das palavras. A (5)
teoria métrica procura aperfeiçoar nosso entendimento principalmente a (• *)
respeito do primeiro tipo de língua. σ σ
200 Gisela Collischonn Proeminência acentual e estrutura silábica 201

Além dessas distinções, há ainda outra: o pé troqueu pode levar em (8)


[ [x ] φ [ [x ] φ Nível do acento frasal
conta o peso silábico. Neste caso, uma sílaba pesada (P) forma um pé [ x ]ω [ [x ] ω [x ] ω [ [x ] ω Nível do acento primário
sozinha, enquanto duas sílabas leves (L) juntas formam um pé. [ * ]Σ [* ]Σ [* ]Σ [ * ]Σ Nível dos pés
[σ σ σ σ σ σ σ] Nível das sílabas
(6) [não fa zer mal]φ [a nin guém]φ
(* •) ou (*)
σL σL σP Há uma variedade de regras em português que têm como característica
Neste caso, temos o troqueu mórico, pois as unidades de contagem dei- o fato de que mudam um padrão marcado de acento em um padrão não-
xam de ser as sílabas e ficam sendo as moras. As moras são unidades de marcado (isto é, de um pé excepcional para o pé troqueu). O caso mais
tempo de que as sílabas são constituídas: sílabas pesadas têm duas moras e conhecido é a síncope nas proparoxítonas, tornando-as paroxítonas.
sílabas leves, apenas uma5. No caso do troqueu mórico, cada duas moras Outro caso é o da monotongação do ditongo final, conforme vemos
formam um pé, com proeminência à esquerda. em (9), que torna paroxítonas marcadas em não-marcadas7:
Um pé pode ser entendido como um molde que se sobrepõe à estrutura (9) 0
segmental de uma palavra atribuindo proeminência a determinada sílaba a hom [ej]
0 > hom[i]
órf[ãw] > órf[u]
em relação às demais. Em geral, considera-se que as palavras são exaustiva-
mente constituídas de pés, o que significa que, em palavras mais longas, b móv[ej]s > móv[i]s
teremos mais de uma proeminência, cada uma delas correspondendo a jérs[ej] > jérs[i]
um pé. Por exemplo, no português, consideramos que o pé de acento é Em todos esses casos, uma mudança ocorre para corrigir uma estrutura
troqueu (mórico)6. Em (7), vemos algumas palavras com dois pés troqueus. acentual marcada. Além desses, temos também casos em que um fenôme-
(7) no não se aplica quando o resultado seria uma estrutura mais marcada. É o
(* .) (* .) que ocorre com a epêntese vocálica, que tende a não ocorrer em contexto
so sse ga do
pós-tônico. Estes fenômenos serão tratados nas próximas seções. Muitos
. (* .) (* .) desses processos observados mostram a contraposição entre duas forças —
e ter ni da de a estrutura de acento e a estrutura silábica — a qual será o fio condutor que
Desses dois pés, um é o mais proeminente e acaba sendo o portador do perpassa a discussão de todos os fenômenos em pauta.
acento primário, ao passo que o outro permanece como o acento secundá-
rio. Em português, é sempre o pé mais à direita o portador do acento primá-
rio. Podemos, então, acrescentar às representações anteriores, o nível dos 3. SÍLABA
pés. No exemplo em (8), cada palavra possui um pé troqueu, porém algumas Tendo em vista as dimensões do capítulo, não é possível apresentar em
delas possuem uma sílaba adicional, como é o caso de fazer. Vamos conside- detalhe os pressupostos teóricos que envolvem a representação da estrutu-
rar aqui que esta sílaba fique à parte, não inserida em nenhum pé. ra silábica (para uma introdução, ver Collischonn 2005a). Aqui, retoma-

5. A mora é a unidade de contagem usada na poesia japonesa do haikai: um haikai é constituído


por dezessete moras, distribuídas em três versos com cinco-sete-cinco moras respectivamente. 7. Consideramos paroxítonas marcadas aquelas em que a sílaba final átona é pesada, como em
6. Para discussão dessa questão, ver Collischonn (2005b), Bisol (2000b) e Lee (2002). ‘móvel’, ‘órfão’, etc.
202 Gisela Collischonn Proeminência acentual e estrutura silábica 203

mos resumidamente alguns fundamentos que estão em jogo nas análises não admite obstruintes em coda, ao passo que outras línguas (como o in-
apresentadas. glês e algumas línguas indígenas do Brasil) as permitem.

Em primeiro lugar, a sílaba é um constituinte da representação Muitas vezes, são necessárias alterações para que as seqüências
fonológica e, como tal, pode ser referida por regras fonológicas (ou outro fornecidas pelas representações subjacentes possam ser estruturadas em
tipo de mecanismo, por exemplo, parâmetro ou restrição). A sílaba divide- sílabas bem-formadas. Neste caso, segmentos que não cabem na estrutura
se em dois subconstituintes: onset-rima. A rima pode ser novamente dividi- silábica são apagados ou alterados ou, então, ocorre a inserção de outro
da em dois subconstituintes: núcleo e coda. Embora o onset possa ser cons- segmento (em geral, uma vogal) para permitir a associação adequada dos
segmentos restantes. Esta avaliação da boa-formação das sílabas se dá, no
tituído por mais de um segmento, não há evidência de divisão interna, por
mais das vezes, no nível da palavra.
isso a ramificação pára por aí. Rima e núcleo são constituintes obrigató-
rios, ao passo que onset e coda podem estar presentes ou não. No nível da frase, freqüentemente, ocorrem alterações da estrutura si-
lábica atribuída em nível da palavra. Por exemplo, no português, temos
Alguns aspectos da estruturação silábica:
reestruturações nas fronteiras entre palavras, que, muitas vezes, alteram a
a) em geral, a estrutura silábica não está presente nas representações estrutura silábica original, como veremos nos fenômenos tratados neste
subjacentes, mas é atribuída posteriormente, através de regras de capítulo. Entretanto, interessante notar que estas modificações obedecem
silabificação ou de mapeamento automático de um molde (template) aos requisitos vigentes na estruturação silábica em nível de palavra.
sobre a seqüência segmental; e Procuramos retomar nesta seção alguns pressupostos da fonologia atual
b) a organização dos segmentos no interior da sílaba obedece à sono- a respeito da sílaba, empregando para isso princípios e parâmetros. Na
ridade relativa destes segmentos. próxima seção, apresentamos um modelo teórico que emprega restrições
violáveis. Não obstante, as afirmações feitas aqui continuam válidas neste
Observam-se nas línguas do mundo algumas tendências, que podem
modelo teórico, adaptadas, é claro ao mecanismo das restrições.
ser caracterizadas como parâmetros e princípios (Levin 1995):
(10)
Princípio do onset máximo: sempre que dois ou mais segmentos podem
constituir um onset complexo, eles irão constituí-lo. 4. TEORIA DA OTIMALIDADE
Parâmetro do onset: uma língua pode exigir que as sílabas tenham onset ou,
Embora não seja propósito deste capítulo introduzir modelos teóricos
então, permitir a existência de sílabas sem onset.
Parâmetro de ramificação do onset: uma língua pode exigir onset simples ou em fonologia, cabe resgatar brevemente algumas informações a respeito
permitir a existência de onsets complexos. do modelo da teoria da otimalidade, já que faremos uso nas seções seguin-
Parâmetro da coda: uma língua pode proibir sílabas com coda ou, então, tes da idéia de forças referentes ao acento em conflito com outras forças,
permitir a existência de sílabas com coda.
especialmente as que se referem à estrutura silábica. Uma introdução mais
Parâmetro de ramificação do núcleo: uma língua pode proibir núcleo rami-
ficado ou permitir a existência de sílabas com núcleo constituído por dois completa pode ser encontrada em Schwindt (2005).
segmentos.
Como é sabido, esse modelo teórico postula que a gramática universal
Além dos parâmetros, as línguas também podem variar no sentido de contém um conjunto de restrições universais, restrições violáveis, diferente-
quais segmentos são admitidos em onset e coda. Essa informação é fornecida mente dos princípios do modelo de princípios e parâmetros, que sempre
por condições de língua particular. Por exemplo, o português brasileiro têm de ser respeitados. O que determina que numa língua certas restrições
204 Gisela Collischonn Proeminência acentual e estrutura silábica 205

serão violadas e outras não é o ranking entre elas8. Assim, para cada língua, rizontal. O ponto de exclamação (!) representa que um candidato violou
há um ranking específico constituído pelas restrições, que são as mesmas uma restrição crucial e está, automaticamente, eliminado.
para todas as línguas. (11)
Tableau
Há diversos tipos de restrições. Aqui falaremos rapidamente de algumas Restrições
restrições referentes à estrutura silábica e ao acento. Para informações mais

{
Input eao ONSET DEP IDENT
detalhadas sobre o português, vejam-se Lee (1999b e 2002) e, para infor- Candidatos pepapo *!
mações sobre as línguas em geral, Kager (1999). jaw *
As sílabas tendem a ter onset e evitam, se possível, a coda. Além disso, as eao *!

sílabas evitam onsets (ou codas) ramificados. As restrições que respondem Assim, para o input hipotético eao, postulamos três possíveis outputs:
por essas características são: ONSET (uma sílaba deve ter onset), NOCODA pepapo, jaw e eao. Da comparação entre estes três candidatos com o ranking
(uma sílaba não deve ter coda) e NOCOMPLEX (uma sílaba não deve ter onset de restrições resulta a escolha do candidato ótimo (aquele que se sai me-
ou coda ramificados). Essas restrições atuam, no componente fonológico, lhor na avaliação pelas restrições, indicado com o símbolo ).
de forma a resultar em sílabas bem-formadas; entretanto, para alcançar esse
Alguns exemplos de restrições de acento: a restrição FOOTBIN exige que
objetivo, elas entram em conflito com outras restrições. Por exemplo, se te-
os pés de acento sejam binários e a restrição TROCHEE exige que eles sejam
mos uma seqüência de três vogais, digamos, eao, para que tenhamos sílabas
troqueus9; a restrição PARSEσ exige que todas as sílabas façam parte de pés e
com onset, podemos inserir consoantes, por exemplo pepapo; ora, a inserção
a restrição ALIGNFT=RIGHT requer que o pé de acento primário esteja alinha-
de segmentos viola uma restrição (DEP), responsável por evitar que as pala-
do com a borda direita da palavra10.
vras se tornem maiores do que já são. Ou então, podemos transformar duas
das vogais em semivogais, jaw; essa modificação, entretanto, viola outra res- Embora a teoria da otimalidade proponha uma alteração radical em
trição (IDENT), que procura garantir a identidade entre os segmentos que relação aos modelos derivacionais anteriores, a respeito de como enten-
constituem as diversas realizações de um morfema. demos a organização da gramática fonológica, a tese de que não são
A teoria da otimalidade postula que a fonologia opera sobre formas regras ou parâmetros os responsáveis pelas modificações entre input e
lexicais, de entrada, chamadas inputs, traduzidos, no componente output, mas restrições, não altera substancialmente a forma como enten-
fonológico, em formas de saída, chamadas de outputs. Para cada input, demos a representação do acento e da sílaba. Isto significa que continua-
uma série de possíveis outputs é produzida, dos quais um será eleito o output mos a lidar com as mesmas entidades representacionais (onset, rima, coda,
ótimo. A escolha do output ótimo se dá pela comparação de todos os pos- pé troqueu, palavra fonológica etc.), ou seja, os pressupostos a respeito
síveis outputs com as restrições ranqueadas: aquele que satisfizer da melhor das representações fonológicas são mantidos. O que muda, e entende-
forma o conjunto de restrições, será o output ótimo. Uma forma de repre-
sentar essa escolha é o tableau, em que temos os candidatos a output na 9. Em Collischonn (2002) designamos estas restrições, respectivamente, BINPÉ e PÉ (ALINHCAB-
coluna vertical, encimada pelo input, e as restrições na primeira linha ho- ESQ
). Lee (2002) utiliza a designação RHTYPE (T) para a segunda.
10. Dizemos que as restrições de acento são mais complexas com relação ao PB porque um número
significativo de palavras viola essas restrições e parece obedecer a outras. Por exemplo, palavras
proparoxítonas, com um pé dátilo, violam a restrição FOOTBIN.. Palavras com acento final, como
8. Preferimos o termo ‘ranking’ ao termo ‘hierarquia’ ou outro equivalente por entender que ele ‘sofá’, parecem obedecer a outra restrição, que requer um iambo. Para uma discussão dessa ques-
traduz mais adequadamente a idéia da relação de dominância entre restrições conflitantes. tão, ver Lee (2002).
206 Gisela Collischonn Proeminência acentual e estrutura silábica 207

mos que com vantagem, é a forma como as restrições que lidam com Em termos diacrônicos, encontramos a síncope como um processo
esses elementos interagem, o que leva a ganhos no caráter descritivo das bastante ativo no latim vulgar, conforme exemplos em (14), retirados de
análises, porque muitas vezes podemos descrever com mais sofisticação Quednau (2002: 89):
determinados fenômenos, e no caráter explanatório, porque a nossa pers- (14)
pectiva se volta muito mais para o caráter universal de determinados efei- a o.cu.lum > o.clum ‘olho’ b vi.ri.dem > vir.de ‘verde’
tos ou propriedades fonológicas. ta.bu.lam > ta.bla ‘tábua’ ca.li.dum > cal.du ‘quente’

Se observarmos a estrutura silábica dos exemplos, veremos que nos ca-


sos em (14)a, a forma resultante ficou com onset ramificado na última
5. SÍNCOPE sílaba ao passo que, nos casos em (14)b, a penúltima sílaba ficou com a
rima ramificada. Como observa Quednau (2002), a simplificação na estru-
O termo ‘síncope’ é usado tradicionalmente para referir o apagamento
tura de acento (de marcado a não-marcado) tem como conseqüência uma
de uma vogal no interior de um vocábulo. A síncope de que vamos tratar
complicação na estrutura da sílaba.
aqui ocorre em português em palavras proparoxítonas (cf. Amaral 2002).
Duas forças estão em jogo aqui: a estrutura de acento e a estrutura silábi-
(12)
ácido > a[s]do ca. A estrutura de acento quer diminuir o número de sílabas pós-tônicas, quer
xícara > xi[k]ra que o pé dátilo seja regularizado para um troqueu, ao passo que a estrutura
silábica quer evitar sílabas muito complexas (isto é, com onset ramificado ou
As proparoxítonas formam um grupo relativamente pequeno de palavras
com coda). De certa forma, podemos entender que, na competição entre
em português, constituído principalmente por empréstimos do latim e do essas duas forças, é o acento que leva a melhor e a síncope acontece.
grego. Podemos considerar que o acento proparoxítono é marcado, no sen-
tido de que é o menos usual. É um acento especial, contrário à tendência Entretanto, como observa Amaral (2002), a síncope não acontece se a estru-
geral de acentuar a penúltima sílaba. Na literatura sobre o português, consi- tura silábica resultante for vetada na língua, por ex. ti[tl]o para título é possível,
dera-se em geral que essas palavras têm como característica a extrametricidade mas não ti[pk]o para típico. Assim, fica evidente que determinadas restrições da
estrutura silábica não são violadas no processo, ainda que o mesmo seja desenca-
da última sílaba (Bisol 1994a, Lee 2002), porém vamos considerar aqui que
deado pelas restrições de acento em detrimento de algumas das restrições da
essas palavras contêm um pé dátilo, ou seja, um pé constituído por três síla-
estrutura silábica11. Na seqüência, estudaremos casos em que o desencadeador
bas, das quais a primeira é acentuada, (* . .). Seja como for, essa caracterís-
do processo é a estrutura silábica e em que o acento funciona como regulador.
tica especial tem de ser informada lexicalmente para cada uma dessas pala-
vras. Assim, podemos entender a síncope como uma forma de regularizar o
pé de acento, através do apagamento da penúltima vogal. 6. DITONGAÇÃO
O apagamento da vogal implica reformulação da estrutura silábica da Dado que existem diversos fenômenos do português que são conheci-
palavra; nos dois exemplos acima, tínhamos três sílabas e ficamos com duas. dos como ‘ditongação’, deixemos claro que o fenômeno a que estamos nos
A reformulação implica mudanças no posicionamento de consoantes.
(13)
11. Merece discussão o porquê de ser apagada a penúltima vogal e não a última. Consideramos que
σ σ σ σ σ σ σ σ esse fato depende também de restrições, mas não entraremos em detalhes aqui a esse respeito.
g v v g f v v v Deve-se alertar também para o fato de que a síncope é um fenômeno variável. Até onde sabemos,
a s i d o → a s d o → a s d o não há uma análise detalhada da síncope do português em termos de restrições.
208 Gisela Collischonn Proeminência acentual e estrutura silábica 209

referindo, neste momento, é o que acontece, de forma praticamente cate- fator condicionador não exclusivo deste fenômeno, mas de uma série de
górica, transformando uma seqüência de VV pós-tônica em ditongo cres- fenômenos da língua portuguesa, como veremos a seguir.
cente (ou decrescente) como nos exemplos:
(15)
rédea > réd[j]a 7. EPÊNTESE
begônea > begôn[j]a
funéreo > funér[j]o ~ funére[w] Uma das características do português brasileiro que aponta para pro-
idôneo > idôn[j]o ~ idône[w] priedades da sílaba é a epêntese (inserção) de vogal em palavras como
A ditongação produz uma mudança na estruturação silábica: transfor- pneumático, psicologia, opção14. Embora, na fala culta, haja o esforço de
ma uma vogal plena, núcleo de sílaba, em semivogal12. Com isso, a se- evitar esta vogal, ainda assim, ela se manifesta como vogal reduzida. A
qüência pós-tônica é diminuída em uma sílaba, o que satisfaz a estrutura de epêntese pode ser entendida como o fenômeno contrário à síncope vocálica,
pois insere uma vogal onde ela não estava presente.
acento. Da mesma forma como na síncope acima, podemos visualizar aqui
a mudança de uma estrutura acentual marcada em não-marcada. Essa inserção tende a ocorrer entre seqüências de duas consoantes que
(16) não podem constituir sílabas bem-formadas. É o caso, por exemplo, de
(* . .) → (* .) oclusiva + fricativa, como em obséquio, subjugado, opcional, sucção, de
ré de a ré d[j]a oclusiva +oclusiva, como em captou, compactua, Magda, de oclusiva +
A ditongação, entretanto, difere da síncope pelo fato de, neste caso, nasal, como em abnegado, signo, admitir, de nasal + nasal ou líquida l,
estrutura de acento e estrutura silábica não estarem em competição. Da como em amnésia ou Kremlin, de fricativa bilabial + oclusiva como em
mesma forma que o acento, a estrutura silábica quer mudança, já que uma afta ou Luftal15.
seqüência de vogais em hiato é uma estrutura silábica marcada (porque Vejamos o exemplo de signo. Podemos imaginar que a palavra seja
contém uma sílaba sem onset). A ditongação faz com que surja uma sílaba estruturada em sílabas da seguinte maneira:
com onset ramificado (ou, no caso da formação de ditongo decrescente,
(17)
uma sílaba com coda), que é relativamente menos marcada do que uma σ σ
sílaba sem onset13. 7 1
s i g n o
Também é possível observar ocorrência variável de ditongação na parte
pré-tônica da palavra. Aqui, diferentemente da parte pós-tônica, o acento Entretanto, neste caso, a primeira sílaba terminaria em uma obstruinte,
não exerce pressão pela mudança, o que, possivelmente, explica a taxa o que não é permitido pelas condições que regem a estrutura silábica em
significativamente mais baixa desse tipo de ditongação (em torno de 60%,
conforme resultados de Simioni 2005). A ditongação é bloqueada quando 14. Em algumas obras, podemos encontrar o termo suarabácti (retirado da gramática do sânscrito)
a vogal que seria afetada é a portadora do acento primário, o que é um para designar esse tipo de fenômeno.
15. Como se pode depreender dos exemplos, as palavras em que ocorre este fenômeno são perten-
centes ao vocabulário erudito (de origem grega ou latina) ou são empréstimos de outras línguas. Na
passagem do latim ao português arcaico, as sílabas com coda de obstruinte desapareceram, isto é,
12. Em muitos casos, a mudança silábica é acompanhada de mudança segmental, por exemplo, sofreram apagamento ou vocalização do segmento em coda. Por efeito de um processo tardio de
quando uma vogal média é afetada e passa a ser alta. empréstimo, sílabas fechadas por obstruintes voltaram a fazer parte do léxico português. São essas
13. Essa é uma constatação baseada no ranking entre as restrições ONSET e NOCODA em português formas que o português brasileiro tende a modificar, transformando sílabas fechadas (CVC) em
(cf. Lee 1999b). uma seqüência de sílabas abertas (CV.CV).
210 Gisela Collischonn Proeminência acentual e estrutura silábica 211

português (como vimos na seção 3). Outra possibilidade de estruturação (20)


pigmew CODACOND DEP
silábica seria a seguinte:
a. pi.gi.mew *
(18) b. pig.mew *!
σ σ
1 1 Como a epêntese vocálica cria uma nova sílaba, surge a questão da
s i gn o interação com o acento, especialmente com o acento primário. Podemos
Mas, desta forma, a segunda sílaba teria um onset formado por uma ilustrar isso com formas como rítmico ou étnico. Caso ocorra a epêntese, a
seqüência de oclusiva + nasal, igualmente não permitido pelas condições sílaba tônica ficará na quarta sílaba a contar do lado direito da palavra,
de estrutura silábica. Fica evidente que a inserção da vogal é uma solução uma configuração altamente marcada em português. Restrições como
para modificar seqüências que, de alguma forma, não cabem no padrão FOOTBIN e ALIGNFT=RIGHT serão desrespeitadas pelas formas com epêntese.
silábico da língua. Em estudo sobre a realização variável da vogal epentética, Collischonn
(2002), constatamos que, na posição pós-tônica, a taxa de realização da
(19) vogal é significativamente reduzida em relação às demais posições.
σ σ σ
1 1 1 Na perspectiva de restrições adotada aqui, a inserção de uma vogal
s i g i n o
epentética tem de satisfazer duas exigências: estrutura silábica bem-for-
Podemos imaginar outras soluções possíveis para essas seqüências com- mada e acento. Na posição pré-tônica, estas duas exigências não en-
plexas, por exemplo, apagar uma das consoantes da seqüência ou, então, tram em conflito16 e, por isso, sempre que, de outra forma, uma estrutu-
modificar os traços de uma das consoantes para que a seqüência possa ser ra silábica mal-formada emergiria, a epêntese ocorre (criando-se uma
encaixada em uma sílaba bem-formada. É o que ocorre, segundo Piñeros nova sílaba). Na posição pós-tônica, a inserção de uma sílaba afasta o
(2001), no espanhol falado no Chile, que apresenta tendência a transfor- acento da borda final da palavra, provocando uma violação de
mar codas de obstruintes em semivogais: adquirir → a[j]kirir, absurdo → ALIGNFT =RIGHT ou de F OOT BIN . As baixas taxas de epêntese indicam que

a[w]surdo ~ a[j]surdo, magnifico → ma[w]nifiko ~ ma[j]nifiko. a língua prefere a violação de restrições silábicas à violação de restri-
ções de acento. Consideramos, então que as restrições de acento rele-
Na teoria da otimalidade, essas diversas soluções são vistas como processos vantes dominem as restrições de sílaba.
que as línguas escolhem em função de um conjunto de restrições universais,
(21)
ranqueadas de maneira específica para cada língua. Assim, uma língua prefere pakto FOOTBIN ALIGNFT=RIGHT CODACOND DEP
epêntese de vogal e não apagamento de uma das consoantes porque respeita
a. * . . *! *
uma restrição que proíbe apagamento de segmentos (MAXIO). Outra língua (pa. ki. to)
pode preferir o apagamento, em função da restrição que proíbe a inserção de b. * . *! *
segmentos (DEP). Uma terceira língua ainda pode preferir a mudança de um (pa. ki.) to
dos segmentos porque respeita essas duas restrições. Esse parece ser o caso dos c. * . *
exemplos do espanhol chileno, em que uma restrição de identidade é violada. (pak. to)

No português brasileiro, consideramos que a epêntese ocorre pela


16. Na posição pré-tônica, a epêntese interage com o acento secundário, mas, ao que tudo indica,
interação entre a restrição CODACOND, que proíbe obstruintes na coda, ex- neste caso a estrutura silábica domina a estrutura de acento, ou seja, não há bloqueio à epêntese em
cetuando-se /S/, com a restrição DEP. função do acento secundário. Mais do que isso, o acento secundário se adapta à estrutura silábica,
o que significa inclusive que a vogal epentética pode vir a ser portadora de acento secundário, como
fica evidente neste trecho da canção Vai passar, de Chico Buarque e Francis Hime: Dormia/A nossa
pátria mãe tão distraída/Sem perceber que era sub[i]traída/Em tenebrosas transações.
212 Gisela Collischonn Proeminência acentual e estrutura silábica 213

No tableau acima, a linha pontilhada indica que as restrições FootBin e se tornar alta [nos exemplos em (24), indicamos quando for possível tanto
AlignFTRight não estão ranqueadas entre si. O candidato a viola FootBin e a realização como ditongo crescente quanto como decrescente]17.
o candidato b, AlignFtRight, e, portanto, são eliminados da disputa, visto (24)
que o candidato c não viola nenhuma das duas. Embora o candidato c viole ‘nosso amor’ no[swa]mor
a restrição silábica CodaCond, ele se sai melhor na avaliação porque res- ‘eterna escuridão’ eter[najs]curidão
‘que o sonho’ [kju]sonho ~ [kiw]sonho
peita as restrições de acento, situadas acima no ranking. ‘sobre-humano’ so[bRju]mano ~ so[bRiw]mano
Até aqui, tratamos de casos de interação entre acento primário e estrutu- A degeminação ocorre quando as duas vogais que se encontram são
ra silábica. Os próximos processos a serem tratados envolvem o acento frasal. semelhantes. Conforme Bisol (2002), as duas vogais se fundem, resultando
daí primeiramente uma vogal longa que depois é encurtada.
(25)
8. SÂNDI nossa aflição noss[a:]flição noss[a]flição
sonho humano → sonh[u:]mano → sonh[u]mano
As palavras sofrem modificações quando concatenadas na frase. Essas esse esquema ess[i:]squema ess[i]squema
modificações são conhecidas como fenômenos de sândi. Sândi é mais um passa adiante pass[a:]diante pass[a]diante
termo que a lingüística ocidental tomou emprestado da gramática do A ditongação envolve a formação tanto de ditongos crescentes quanto
sânscrito e refere-se às modificações que resultam da justaposição de pala- de ditongos decrescentes. Dos três, é o processo mais freqüente, em vista
vras (sândi externo) ou de morfemas (sândi interno). de ser o menos restrito em possibilidades de aplicação. A ditongação so-
mente é bloqueada se as duas vogais da seqüência portarem acento primá-
Bisol (1992b, 2002) classifica os processos de sândi que afetam seqüên-
rio (26a). Se apenas a primeira (26b) ou a segunda vogal (26c ) for acentua-
cias de duas vogais na fronteira entre palavras em português em três tipos
da, a ditongação pode ocorrer livremente.
distintos:
(26)
(22) a ‘bambu oco’ *bamb[wo]co
a elisão: ‘camisa usada’ > cami[zu]sada ‘guri alto’ *gur[já]lto
b ditongação: ‘camisa estragada’ > cami[zaj]stragada b ‘sofá estragado’ sof[aj]stragado
c degeminação: ‘camisa amarela’ > cami[za]marela ‘café especial’ caf[Ej]special
c ‘de altas espumas’ d[j] altas espumas
A elisão apaga a primeira vogal da seqüência. Afeta basicamente a vo- ‘tomo água’ tom[w]água
gal baixa /a/, embora elisões de outras vogais também ocorram, mas sem
ter um caráter geral (ver Brescancini & Barbosa 2005: 42). A elisão e a degeminação, por seu lado, não se aplicam se a segunda
vogal for tônica.
(23)
‘minha história’ minh[i]stória (27)
‘vinha escondido’ vinh[i]scondido Elisão ‘era órfão’ *er[ѐ]rfão
‘murmura, imagina, inventa’ murmur[i]magin[i]nventa ‘tinha isca’ *tinh[i]sca
‘chega, humilde’ cheg[u]milde
‘reza ou pragueja’ rez[ow]pragueja
17. Não sabemos até agora se há alguma preferência na formação de um ou de outro tipo de ditongo
no português brasileiro. No português europeu, a formação de ditongo decrescente entre palavras
A ditongação forma ditongos com a vogal final de um vocábulo e a somente ocorre se a segunda vogal for arredondada e está sujeita a outras condições, que a tornam
inicial de outro, desde que uma das vogais da seqüência seja alta ou possa mais restrita do que a formação de ditongo crescente (Vigário 2003: 101).
214 Gisela Collischonn Proeminência acentual e estrutura silábica 215

Degeminação ‘menina alta’ *menin[a]lta Interessante observar nos exemplos acima é que as formas resultantes
‘filho único’ *filh[u]nico
não apresentam choque de acentos. Veremos mais adiante que o choque
A elisão também não se aplica se a primeira vogal for tônica, caso em pode ocorrer como efeito de degeminação, mas existe uma tendência a
que a degeminação não é bloqueada. evitá-lo no caso da elisão.
(28) Apresentamos aqui, para ilustrar uma análise em termos de restrições,
Elisão ‘araçá estragado’ *araç[i]stragado
‘sofá usado’ *sof[u]sado
um tableau, com duas restrições antagonistas, ONSET e MAXIO (conforme
Degeminação ‘perdi estabilidade’ perd[i]stabilidade Bisol, 2003). A restrição MAXIO proíbe o apagamento de segmentos. Ve-
‘sofá amarelo’ sof[a]marelo mos que, para que o sândi ocorra, a restrição ONSET tem de dominar MAXIO.
Este último bloqueio pode ser entendido como manifestação daquele (30) 19
fator condicionador geral de que falávamos na seção sobre ditongação, con- sõ.≠U # u.«mã.nU ONSET MAXIO
trário ao apagamento ou a outro tipo de modificação que afete a vogal porta- a. «sõ.≠U. u.«mã.nU *
dora de acento primário. Uma vez que, conforme Bisol (2002), na b. «sõ.≠U.u.mã.nU *!
degeminação a vogal não é apagada, mas fundida com a vogal seguinte, Como vimos, tanto elisão quanto degeminação não ocorrem se a se-
explica-se por que este bloqueio não atua neste caso, mas apenas no da elisão. gunda vogal for portadora de acento. Entretanto, não é o acento primário
As fronteiras entre palavras são, de certo modo, obscurecidas pelo sândi. propriamente que bloqueia, mas o acento frasal, como mostram os exem-
Podemos nos perguntar por que a língua aceita esse tipo de modificação plos a seguir:
que pode, inclusive, colocar em risco a inteligibilidade da comunicação. (31)
Existe uma motivação para todos esses processos, que tem a ver com a Elisão ‘Arcada óssea’ *arcad[ç]ssea
‘Cantava ópera italiana’ Cantav[ç]pera italiana
estrutura silábica: o português apresenta forte tendência a evitar sílabas
‘Não tinha outra solução’ Não tinh[o]utra solução
sem onset. Estes processos têm em comum o fato de modificarem uma síla- Degeminação ‘Canta árias’ *cant[a]rias
ba sem onset, seja através do apagamento da vogal (elisão, degeminação), ‘Ela canta árias maravilhosas’ Ela cant[a]rias maravilhosas
seja pela transformação de vogal em semivogal. O resultado é que a se- Em outras palavras, o acento da segunda vogal somente bloqueia catego-
qüência fonológica fica reduzida em uma sílaba. ricamente os processos de sândi e elisão quando também incidir sobre ele o
Das duas vogais em seqüência, uma delas, de preferência, a primeira, acento frasal. No exemplo “Cantava ópera” o acento frasal incide na vogal
deixa de ser núcleo silábico (ou é apagada ou se torna semivogal). Dessa tônica de ópera, bloqueando a elisão. Já em “Cantava ópera italiana”, o
forma, uma seqüência de duas sílabas, uma iniciada em vogal, resulta em acento frasal incide sobre a vogal tônica de italiana e não sobre a de ópera20.
só uma sílaba , com onset18.
(29) 19. Neste, e nos demais tableaux desta seção, usamos como input uma representação um pouco
menos abstrata, na qual já se aplicaram alguns processos fonológicos (tais como atribuição de
‘sonho humano’ “sõ.≠U # u.«mã.nU → “sõ.≠u.«mã.nU
acento, elevação da vogal átona fina, e nasalização da vogal tônica). Como alguns destes processos
‘nosso amor’ “nO.sU # a .«mo| → “nO.swa .«mo| (p.ex. acento e elevação da vogal) produzem informação necessária para a aplicação do sândi, uma
‘coisa igual’ “koj.za # i.«gwaw. → “koj.zi. «gwaw. análise completa em termos de restrições teria de considerá-los. Entretanto, para fins desta exposi-
ção, consideramos que estas informações já estejam pré-especificadas no input.
20. Neste exemplo, o verbo ‘cantava’ constitui uma frase fonológica distinta da de ‘ópera italiana’
18. Para uma representação detalhada destes processos em termos de estrutura silábica, ver Bisol porque, pelo algoritmo de Nespor & Vogel (1986), o complemento somente constitui frase fonológica
(2002: 232-236). com o verbo regente se não for ramificado. Para maiores informações, consulte-se Bisol (2005).
216 Gisela Collischonn Proeminência acentual e estrutura silábica 217

(32) Neste caso, ALIGN-L não pode dominar ONSET. No tableau (34), indica-
[ x ]φ [ x ]φ Nível do acento frasal
mos com o símbolo ( ) o candidato que deveria ter sido escolhido, mas
[x x ]ω [ x ]ω [ x ]ω Nível do acento primário
[σ σ σ σ σ σ σ σ σ σ] Nível das sílabas que, pelo ranking das restrições, perde para outro candidato.
[can ta va]φ [ ó pe ra i ta lia na]φ
(34)
«
Como explicar teoricamente este bloqueio do acento frasal aos proces- tomo «agwa ONSET MAXIO ALIGN-L
sos de elisão e degeminação? Segundo Abaurre (1996), o acento frasal a. «to.«mwa.gwa * *
precisa preservar a sua proeminência, já que carrega informação de natu- b. «to.mo «a.gwa *!

reza entoacional e, principalmente, de natureza sintática. Para Bisol (2003), a diferença é que, na ditongação, o segmento vocálico
Numa análise por restrições, necessitamos, portanto, de uma restrição afetado perde o status de núcleo de sílaba, mas não desaparece totalmen-
que domine a restrição ONSET, caso contrário, o sândi acontece como vi- te. Na elisão e na degeminação, a simultaneidade entre a perda de um
mos em (30). Bisol (2003) propõe que a sílaba que recebe o acento frasal segmento vocálico e o obscurecimento das fronteiras entre sílabas de pala-
deve coincidir (em termos de segmentos) com a sílaba tônica de uma pala- vras fonológicas distintas (uma das quais portadora do acento frasal) pare-
vra lexical. Para ilustrar, uma forma como *arcad[ѐ]ssea não é atestada ce ser fatal. Bisol (2003) utiliza um tipo de restrição especial, a conjunção
porque a sílaba que portaria o acento frasal, [dѐ], possui segmento originá- local de duas restrições distintas, para explicar este bloqueio22. A restrição
rio de outra sílaba, isto é, não coincide com a sílaba que porta o acento em questão é MAXIO & ALIGN-L. Determinada realização só viola essa res-
primário da palavra óssea. Em outras palavras, é como se as fronteiras entre
trição conjunta se violar simultaneamente as duas restrições de que ela é
palavras distintas não pudessem ser obscurecidas quando está em jogo o
composta. A seguir, em (35) e (36), apresentamos os tableaux com o ranking
acento frasal. Casos semelhantes de bloqueio ao sândi pelo acento frasal
foram relatados no português europeu (Vigário 2003: 109, 113), no espa- completo das restrições aqui consideradas23. Em (35), vemos como o can-
nhol ibérico, no galego e no catalão (Cabré & Prieto 2005: 130). didato com hiato é selecionado em detrimento do candidato com elisão.
(35)
Uma restrição de alinhamento, ALIGN-L (a borda esquerda do pé de
a|.«kada«çsea MAXIO & ALIGN-L ONSET MAXIO ALIGN-L
acento frasal deve coincidir com a borda esquerda da sílaba tônica de uma
a. a|.«ka.«dç.se.a *! * *
palavra lexical), poderia resolver a questão. Dominando ONSET, ela garan-
b. a|.«ka.da.«ç.se.a *
te a não-ocorrência do sândi, quando houver acréscimo de material ao pé
de acento frasal21. Em (36), vemos o candidato com ditongo selecionado em detrimento
do candidato com hiato.
(33)
a|«kada«çsea ALIGN-L ONSET MAXIO (36)
«
a. a|.«ka.«dç.se.a *! * tomo «agwa MAXIO &ALIGN-L ONSET MAXIO ALIGN-L
b. a|.«ka.da.«ç.se.a * a. «to.«mwa.gwa * *
b. «to.mo «a.gwa *!
Um problema para esta análise é o fato de que, quando há ditongação,
o bloqueio não ocorre, como vimos acima, ou seja, o pé de acento frasal
pode conter material adicional, não presente no pé de acento primário. 22. Para esclarecimentos sobre a conjunção de restrições, ver Kager (1999, Cap 9).
23. Bisol (2003) utiliza outras restrições, as quais se referem a outros aspectos da análise, não
tratados aqui, tais como a questão de qual das duas vogais na seqüência é apagada, o papel do
21. Para detalhes sobre as restrições de alinhamento, ver Schwindt (2005). conteúdo morfológico e a localização do acento.
218 Gisela Collischonn Proeminência acentual e estrutura silábica 219

No tableau (36), vemos que a ditongação produz uma violação à restri- (39)
[aluna útil]φ *alun[u]til
ção ALIGN-L, a qual, entretanto, não é suficientemente forte para eliminar o [aluna ]φ [usa]φ *alun[u]sa
candidato da competição [o mesmo ocorre em (35)]. Por outro lado MAXIO [a aluna ]φ [usa sempre]φ *alun[u]sa
& Align L não é violada pelo candidato (36a), porque na ditongação não [a aluna ]I [útil mas desorganizada]I *alun[u]til
ocorre apagamento de segmento, conforme Bisol (2003). A elisão apenas é permitida quando não resulta do apagamento da
Tenani (2004a) estuda os fenômenos de degeminação e elisão no por- vogal um choque de acentos.
tuguês brasileiro, comparando resultados de um estudo experimental, em (40)
que foram controladas tanto a estruturação em constituintes prosódicos [a astróloga ]φ [usa sempre]φ astrólog[u]sa
quanto a distância entre os acentos, com os de estudo semelhante no portu-
Como podemos ver no exemplo acima, os dois acentos não se tornam
guês europeu (Frota 2000). A autora não somente confirma a maior parte
adjacentes pela elisão da vogal, por isso ela pode aplicar-se. Desta forma, os
das observações de Bisol, como também traz novas informações sobre o
papel do acento no sândi vocálico. resultados de Tenani (2004a) sugerem a existência de uma restrição rítmica
que evita o efeito de choque de acentos primários atuando sobre a elisão24.
Com relação à degeminação, confirmou-se que o bloqueio ocorre ape-
nas quando o acento frasal incide na segunda vogal. Quanto ao papel do acento primário no bloqueio da elisão, os resulta-
dos divergentes de Bisol e Tenani possivelmente residem em algumas con-
(37)
dições adicionais, distintas nos dois tipos de pesquisa realizadas, que se
[aluna árabe]φ *alun[a]rabe
[astróloga árabe]φ *astrólog[a]rabe tornam mais nítidas quando consideramos os exemplos de aplicação de
[aluna ]φ [age]φ *alun[a]ge elisão, apresentados por Bisol (2002: 240), em que a segunda vogal é por-
[a aluna ]φ [age sempre]φ alun[a]ge
[a aluna ]I [ávida por justiça]I alun[a]vida tadora do acento primário.
(41)
Uma das observações a destacar é a de que a degeminação se aplica
A escola era mesmo tudo escol[E]ra
mesmo quando a primeira vogal é portadora de acento frasal, como nos Toda ela tem um toque disso tod[E]la
exemplos em (37). Tenani (2004a: 23) interpreta esse fato como indício de Na terceira eu dou um berro terceir[ew]
que a degeminação não afeta a proeminência do primeiro acento frasal. A segunda vogal, em todos os exemplos acima, pertence a uma palavra
(38) das categorias pronome ou verbo cópula, as chamadas categorias funcionais.
[O marajá]φ [aceita] φ maraj[a]ceita Segundo Bisol (1992b: 96), neste tipo de palavras, a vogal muitas vezes per-
[O marajá]I [após o conflito] I maraj[a]pós
de seu acento, o que explicaria a ocorrência da elisão. Embora Bisol (2002)
Vale registrar que a degeminação, tanto em (38) quanto em (37), tem não corrobore a afirmação, os exemplos apresentados não a contradizem.
como resultado dois acentos adjacentes, o que mostra que ela não é impe- Nos exemplos elaborados por Tenani, não ocorrem palavras desse tipo, as
dida quando tiver como resultado choque de acentos. Em outras palavras, palavras usa e útil, empregadas pela pesquisadora, não são palavras funcio-
a estrutura rítmica de acento cede à pressão da estrutura silábica.

Com relação à elisão, os resultados de Tenani (2004a) divergem dos de 24. Vale lembrar que Bisol (1992b: 96) rejeitara o efeito do choque acentual na elisão. Entretanto,
os exemplos de Bisol apresentavam acento frasal na segunda vogal, ao passo que os resultados de
Bisol (2002), porque a elisão é bloqueada quando incide acento na segun- Tenani identificam o efeito de choque acentual apenas quando a segunda vogal não for portadora
da vogal, independentemente de este acento ser frasal ou não. do acento frasal.
220 Gisela Collischonn Proeminência acentual e estrutura silábica 221

nais. Ou seja, o que a análise dos exemplos acima sugere é que, observadas as analisadas, 284, ou seja 21%, apresentaram o apagamento. Tenani (2003)
condições apropriadas, os resultados das duas pesquisas possivelmente não realizou um estudo experimental da haplologia no português brasileiro,
sejam tão distintos assim e sugerem que o papel do bloqueio do acento pri- seguindo metodologia aplicada por Frota (2000) no português europeu25.
mário na elisão tenha de ser repensado. A discussão dos resultados divergen-
Diferentemente dos fenômenos de sândi da seção anterior, não temos
tes seguramente indica a necessidade de realização de novas pesquisas a res-
uma motivação de estrutura silábica atuando neste processo, já que as síla-
peito do tema, bem como a respeito do acento nas palavras funcionais.
bas afetadas são originalmente bem-formadas.
Para concluir esta seção, retomando o fio condutor do nosso capítulo,
Quanto ao acento, à primeira vista, não podemos reconhecê-lo como
vimos que a estrutura silábica tem papel determinante na realização do
desencadeador do fenômeno, já que não há uma estrutura de acentos
sândi, provocando inclusive choques de acento. Vimos também que o acento
marcada nas formas originais, corrigida nas formas resultantes da haplologia.
bloqueia o sândi (exceto a ditongação), principalmente quando for o acen-
Também não há evidência clara de que o acento seja bloqueador da
to frasal. A análise em termos de restrições apresentada (cf. Bisol 2003)
haplologia. Tenani (2003) constatou que ela é bloqueada apenas quando a
mostra que uma restrição silábica, ONSET, domina uma restrição de acen-
primeira sílaba da seqüência for acentuada (Didi ditou), ou seja, quando a
to, ALIGN-L, mas, ao mesmo tempo, é dominada por outra restrição que é
sílaba a ser apagada é portadora de acento primário26.Quando as duas
uma combinação de restrição de fidelidade com restrição de acento,
forem átonas ou apenas a segunda for tônica, o processo pode ocorrer
MAXIO&ALIGN-L. Assim visualiza-se a interação complexa entre estrutura
livremente (autoridade ditou, autoridade dita). Embora a análise de Battisti
silábica e acento que ocorre neste fenômeno, interação de que dá conta
não tenha focalizado a questão sobre o que ocorre quando incide acento
satisfatoriamente o modelo de restrições da teoria da otimalidade.
frasal na segunda sílaba da seqüência, os exemplos em (42), bem como os
resultados de outras variáveis consideradas em sua análise, nos dizem que a
haplologia não sofre bloqueio neste contexto.
9. HAPLOLOGIA
Assim, vemos que, embora a haplologia tenha em comum com a
Outro fenômeno de fronteira entre palavras é o da haplologia. Haplolo-
degeminação a perda de uma sílaba, as condições que propiciam o fenô-
gia é o apagamento de uma sílaba no final de uma palavra quando a seguir
meno bem como as que o desfavorecem são distintas das que encontramos
vier uma palavra iniciada por sílaba semelhante. Vejamos alguns exemplos
na degeminação. Cabe perguntar o que motiva a haplologia, já que a estru-
retirados de Battisti (2005).
tura silábica não parece estar em jogo.
(42)
vonta[de]conhecer ‘vontade de conhecer’ Battisti (2005) observa que existe uma ligeira diminuição na taxa de
qualida[de]vida ‘qualidade de vida’ aplicação da haplologia quando as vogais da seqüência afetada não são
res[do]ano ‘resto do ano’
desconhecimen[t]otal ‘desconhecimento total’
idênticas (p. ex. jeito de ser). Isso sugere que é a semelhança entre as sílabas
merca[de]trabalho ‘mercado de trabalho’
Universida[do]México ‘Universidade do México’
25. As análises de Tenani (2003) e de Battisti (2005) restringiram-se às seqüências de sílabas com
Battisti (2005) estudou o fenômeno nos dados do Banco VARSUL (ban- oclusiva alveolar, /t/ ou /d/, como nos exemplos acima, embora o fenômeno também ocorra com
outras consoantes, mas de forma mais restrita.
co de entrevistas sociolingüísticas da região sul do Brasil, cf. Brescancini 26. Baseados em Battisti (2004), consideramos que na haplologia apaga-se a primeira sílaba da
2002) e constatou que ele não é insignificante, pois, de 1.341 ocorrências seqüência.
222 Gisela Collischonn Proeminência acentual e estrutura silábica 223

o fator que motiva a sua aplicação. Battisti (2005) defende que o que deter- de forma complexa. Buscamos mostrar que esses fenômenos podem ser en-
mina o apagamento é uma restrição contrária à existência de segmentos tendidos como efeitos da interação entre restrições de vários tipos diferentes.
idênticos — ou muito semelhantes — em seqüência (OCP). A dominância Em alguns fenômenos, restrições de acento determinaram a violação de res-
dessa restrição em relação a MAXIO explica o apagamento. trições de estrutura silábica, em outros ocorre o contrário. Não pretendemos
apresentar uma análise completa em termos de restrições de cada fenôme-
A sílaba apagada é, segundo Battisti, a da esquerda, o que pode ser
no, muito menos propor uma análise do ranking final resultante da análise
atribuído ao conhecido fato de o início de palavra ser mais resistente ao
conjunta de todos os fenômenos abordados. Buscamos, isto sim, evidenciar
apagamento do que o final. Exemplos como res[do]ano e merca[de]trabalho
a possibilidade de estudá-los através de restrições, identificando denomina-
comprovam que é a sílaba da direita aquela que foi preservada.
dores comuns por trás de processos por vezes bastante distintos.
A haplologia preserva a sílaba da direita intacta e, neste sentido, difere dos
fenômenos de sândi, que sempre envolvem algum grau de reestruturação silá-
bica (por exemplo, a elisão em minha história, de que resulta a sílaba [¯is]σ,
não presente no input). Ou seja, diferentemente dos fenômenos de sândi
vocálico, a ocorrência de haplologia nunca viola Align L. Isso explica por que
o acento frasal sobre a sílaba da direita não bloqueia a haplologia.

Enfim, o que estamos buscando mostrar aqui é que a haplologia (apa-


rentemente tão diferente dos outros fenômenos de sândi) é regida pelo
mesmo conjunto de restrições proposto em Bisol (2003) para o sândi vocálico
(além, é claro, de restrições adicionais, tais como OCP e outras relativas a
aspectos específicos deste processo).

Retomando o fio que segura a teia desta nossa exposição, vimos que, no
fenômeno de haplologia, estrutura silábica e acento não são antagonistas, no
sentido de que não exercem pressão contrária entre si. O que desencadeia a
haplologia não é nem uma nem outra, mas uma exigência sobre propriedades
da estrutura segmental, o OCP. Não obstante, as restrições de acento e sílaba, na
medida em que podem ter algum papel na escolha da forma realizada, são res-
peitadas, de acordo com a mesma hierarquia que regula os fenômenos de sândi.
Essa conclusão traz sustentação à análise em termos de restrições apresentada
na seção anterior, na medida em que não contradiz o ranking proposto.

10. CONSIDERAÇÕES FINAIS


Apresentamos, neste capítulo, alguns fenômenos do nível da palavra e da
frase da fonologia do português em que acento e estrutura silábica interagem
CAPÍTULO 10

O ACENTO E A AQUISIÇÃO
DA LINGUAGEM EM PORTUGUÊS
BRASILEIRO
RAQUEL SANTANA SANTOS*

1. INTRODUÇÃO

Q
uando se fala em acento, os que primeiramente vêm à mente
são o acento de palavra e o acento entonacional. Isto é, aque-
le que marca a proeminência da palavra (e muitas vezes é
distintivo: por exemplo, sabia vs. sabiá) e aquele que marca a principal proe-
minência da entonação (muitas vezes veiculando a informação de foco da
sentença). Mas existem muitos outros acentos, como visto neste volume. A
grande questão é: se esses acentos existem, as crianças devem adquiri-los, ou
levá-los em consideração ao adquirir regras fonológicas cujas propriedades
os incluam? É com esse fato em mente que, neste capítulo, discutiremos a
aquisição do acento de palavra e a aquisição de regras de sândi externo, que
levam em conta acentos de outros domínios. Nos diferentes trabalhos, dife-
rentes crianças foram analisadas (R. e T., do Projeto de Aquisição da Lingua-
gem — cf. Lemos 1995 —, e L. e N., do Projeto de Aquisição do Ritmo em
Português Brasileiro — cf. Santos 2003). Como em todos eles os dados de R.
foram analisados, é com seus dados que exemplificarei minhas exposições.

*
Departamento de Lingüística, Universidade de São Paulo.
226 Raquel Santana Santos O acento e a aquisição da linguagem em português brasileiro 227

2. A AQUISIÇÃO DO ACENTO DE PALAVRA Estágio III:palavra mínima maior do que o pé binário


Estágio IV: palavra fonológica (forma adulta)
Qualquer trabalho que pretenda tratar de aquisição se depara com duas
necessidades: ter uma teoria da linguagem (ao menos do componente com Este processo de aquisição segue a proposta de Selkirk (1984) e Nespor
que se está lidando) e uma teoria de aquisição suficientemente desenvolvidas & Vogel (1986). No entanto, ele assume como universais algumas propri-
e adequadas para dar conta dos dados empíricos. Nesta discussão, assumo edades que não o são nas propostas originais. Em primeiro lugar, não há
uma proposta inatista de aquisição da linguagem, assumindo que a aquisição nada na hierarquia prosódica que obrigue o constituinte pé a ter núcleo à
se dá através da marcação dos valores dos parâmetros (Chomsky 1981). No esquerda. Nespor & Vogel e Selkirk também não assumem que o constitu-
que respeita à teoria fonológica, assumo Nespor & Vogel (1986) para a inte pé seja binário. Pelo contrário, um dos pontos mais enfatizados é que
prosódia e Lee (1995) para o acento primário em português brasileiro. a hierarquia prosódica não é binariamente regida, isto é, os constituintes
não têm, a priori, um número mínimo de elementos que compõem o dado.
Tanto a quantidade de sílaba como a posição do núcleo são definidos para
2.1. A forma prosódica inicial e o algoritmo de acento primário
cada língua específica.
no português brasileiro
Fikkert (1994) propõe que a tendência trocaica é resultado da interação
A aquisição da estrutura prosódica da palavra tem recebido muita aten-
dos parâmetros responsáveis pela atribuição do acento de palavra junto
ção nos últimos anos. A maior parte deles se concentra, no entanto, em
com a ampliação do tamanho da palavra na fala das crianças. De acordo
discutir se essa estrutura prosódica inicial tem ou não um formato default, o
com a autora, o parâmetro de núcleo do pé tem seu valor default à esquer-
troqueu. A proposta de uma tendência trocaica inata decorre dos resulta-
dos de pesquisas sobre línguas, na maioria germânicas (cf. Allen & Hawkins da. Tão logo as crianças comecem a produzir palavras com duas sílabas,
1978, 1980; Gerken 1994; Archibald 1995 para o inglês; Fikkert 1994 e vemos o resultado da interação do tamanho de palavra com o núcleo à
Demuth 1996 para o holandês; Demuth 1996 para o sesoto; mas veja tam- esquerda formando um troqueu silábico. Dessa forma, nesta proposta o
bém Lléo 2002 para o espanhol; Allen 1983 para o francês e Rapp 1994 troqueu que surge nos enunciados iniciais resulta do algoritmo de acento
para o português brasileiro). Enquanto alguns pesquisadores argumentam primário ainda com seus valores default.
que essa tendência resulta do processo de aquisição da hierarquia prosódica No entanto, há alguns outros trabalhos argumentando contra a ten-
(cf. Allen 1983; Allen & Hawkins 1978, 1980; Archibald 1995, Demuth dência silábica inata. Hochberg (1988ab), Demuth (1996), Kehoe & Stoel-
1996, Kehoe 2001, Lléo 2002), outros a conectam com a aquisição do Gamon (1997), Vihman, DePaolis & Davis (1998), Demuth & Johnson
algoritmo de acento primário (cf. Fikkert 1994). (2003) apontam que as crianças adquirindo inglês, francês, quíchua e es-
Os proponentes de que o formato prosódico decorre da aquisi- panhol também cometem erros na direção de iambos. Santos (2001) e
ção da hierarquia prosódica argumentam ser esta hierarquia adquiri- Bonilha (2005), investigando a aquisição do acento de palavra em portu-
da dos níveis mais baixos para os mais altos. Demuth (1995) guês brasileiro mostram que, nessa língua, a criança tem uma tendência
exemplifica esta aquisição: iâmbica inicial. Baia (2005) também encontrou a mesma tendência ao
investigar a palavra mínima na aquisição do português brasileiro.
(1)
Estágio I: sílaba CV Santos (2006) aplicou a mesma metodologia que os estudos que en-
Estágio II: palavra mínima do tamanho do pé binário contraram a tendência trocaica, mas analisou um período maior de de-
228 Raquel Santana Santos O acento e a aquisição da linguagem em português brasileiro 229

senvolvimento — entre 1;3 e 2;0 —, dado que a literatura aponta a tendên- alterado (cf. gráfico 2). Em consonância com esta tendência iâmbica, trissílabas
cia trocaica por volta dos 1;8. O argumento para se observar um período paroxítonas são produzidas como iambos no período inicial (cf. gráfico 3).
anterior é que, se o troqueu é o default, poder-se-ia argumentar que aos 1;8 30

o parâmetro de núcleo do pé já estava marcado em português brasileiro. 2 7 .5


25
Assim, olhando para 1;3, há mais chances de olhar para uma mudança na 2 2 .5

tendência, caso ela ocorra. 20

1 7 .5

tokens
15
Ssw
W
Foram analisadas todas as palavras dissílabas oxítonas (ws), dissílabas 1 2 .5 Ww sS

10 Ss
paroxítonas (sw) e trissílabas paroxítonas (wsw) que ocorreram mais de 8 7 .5

vezes, levando em conta também a categoria das palavras (verbos e no- 5


2 .5

mes)1. Os resultados foram comparados com Fikkert (1994), que apresen- 0

1 ;3 1 ;4 1 ;5 1 ;6 1 ;7 1 ;8 1 ;9 1 ;1 0 1 ;1 1 2 ;0
ta o seguinte padrão de desenvolvimento para o holandês: age

Gráfico 1: produção de nomes sw por R.


Alvo estágio 0 estágio estágio estágio (2;3) estágio 4
1(1;10) 2(2;2) (2;4)

S S S, sw S, sw correto 6

5
SW S, SW SW SW SS, SW correto
4

tokens
WS - S, sw S, SW SS, WS correto 3 sw
ws
2
WSW - - SW SS, SWSW, wsw correto s

1
Tabela 1: Desenvolvimento do arcabouço prosódico de palavras em holandês.
0
1;3 1;4 1;5 1;6 1 ;7 1;8 1;9 1 ;10 1;11 2;0
Como é possível observar, as palavras trocaicas são produzidas correta- age

mente desde o estágio 0, enquanto as palavras iâmbicas são produzidas


Gráfico 2: produção de ws por R.
como troqueus até o estágio 2. Nos gráficos a seguir, apresento os resulta-
dos de Santos (2006) para o português brasileiro.

Os gráficos (1)-(3) mostram o desenvolvimento do arcabouço prosódico dos 20


17.5
nomes. Como é possível observar, a produção de troqueus é correta na maior 15
parte do tempo (cf. gráfico 1). Ela não muda o acento para iambos2, mas até 1;6 12.5

t oken s
sw
10
trunca-os para monossílabos. Por outro lado, as formas iâmbicas são produzidas 7.5
ws
s
corretamente desde o início, não sendo nem truncadas nem tendo seu acento 5 ws w

2.5
0

1;3 1;4 1;5 1;6 1;7 1;8 1;9 1;10 1;11 2;0
1. Como observado no capítulo 2, o algoritmo do acento primário é diferente para as duas categorias. age

2. Embora R. não mude o acento, L., a outra criança analisada, constantemente muda o acento de
troqueus para iambos, mas não o contrário. Gráfico 3: produção de nomes wsw por R.
230 Raquel Santana Santos O acento e a aquisição da linguagem em português brasileiro 231

No que se refere aos verbos, as formas produzidas são apontadas nos gráfi- Resumidamente, pode-se afirmar que há dois modelos diferentes em
cos (4)-(6). Como pode ser visto, tanto as formas trocaicas quanto as iâmbicas desenvolvimento nos processos de aquisição do holandês e do português.
são produzidas corretamente após 1;6 (cf. gráficos 4-5). No entanto, as formas Em holandês, as palavras monossílabas sofrem aumento, transformando-se
trocaicas sofrem mais truncamentos. As formas trissílabas paroxítonas são raras (4 em troqueus. As palavras trissílabas paroxítonas são truncadas para troqueus
tokens aos 2;0) e são, na maior parte, produzidas corretamente (cf. gráfico 6). e, no caso de erros, iambos tornam-se troqueus. Em português brasileiro,
por outro lado, o desenvolvimento é contrário: troqueus são truncados para
37. 5 monossílabos, trissílabos paroxítonos são truncados para iambos, e no caso
35
32. 5
30
de erros troqueus tornam-se iambos.
27. 5
25
sw
22. 5
Este contraste indica que a construção dos pés é específica da língua:
tokens

20
17. 5 ws
15
12. 5
s troqueu para o holandês, iambo para o português. Mais ainda, mesmo nos
10 ws w
7. 5
5
primeiros enunciados das palavras de R. não foi encontrada uma tendência
2. 5
0 em transformar iambos em troqueus, o que parece indicar que o parâmetro
1; 3 1; 4 1;5 1; 6 1; 7 1;8 1; 9 1; 10 1;11 2; 0

age de núcleo não tem um valor default a ele associado.


Gráfico 4: produção de verbos sw por R. Ainda mais importante, este estudo aponta para a proposta de acento
primário a ser utilizada nos estudos de aquisição. Há atualmente, 2 pro-
55
50 postas para a acentuação primária em português brasileiro, que propõem
45
40 pés opostos em sua formulação: Bisol (1992a) e Massini-Cagliari (1995)
35
tokens

30 sw
propõem que, para a atribuição do acento primário, deve-se formar um pé
25
20
ws
s
trocaico no final da palavra fonológica. Lee (1995) propõe que se forme
15
10 um constituinte binário com cabeça à direita (portanto, um iambo) à direi-
5
0 ta do radical. Ora, assumindo que a criança produza “erros” na direção do
1;3 1;4 1;5 1;6 1;7 1;8 1;9 1;10 1;11 2;0
ag e
padrão não-marcado de sua língua (e não na direção de casos marcados),
o fato de que os processos de R. geram iambos e não troqueus nos leva a
Gráfico 5: produção de verbos ws por R.
assumir que a proposta de Lee é a que melhor capta a acentuação em
português brasileiro. Abaixo apresento sua proposta, que adaptei para a
3
versão de princípios e parâmetros:
2.5

2 (2)
a. Domínio: não-verbo: α
tokens

sw
1.5 ws verbo: β
1 s
wsw
b. Constituinte: binário
0.5 c. Direcionalidade: direita para esquerda
0 d. Dominância (cabeça): não-verbo caso não-marcado: direita
1;3 1;4 1;5 1;6 1;7 1;8 1;9 1;10 1;11 2;0 caso marcado: esquerda
age verbo caso não-marcado: esquerda
caso marcado: direita
Gráfico 6: produção de verbos wsw por R. e. Iteratividade: não
232 Raquel Santana Santos O acento e a aquisição da linguagem em português brasileiro 233

f. Extrametricidade: não-verbo: marcador de palavra mais freqüentes do que os iambos, esse tipo de palavras usadas para se dirigir às
verbo: sufixo {–mos} (Imperfeito, Mais-que-
crianças fujam ao padrão da língua. No mais simples cenário, esse tipo de
perfeito, Futuro do Pretérito do Indicativo; e Imperfeito do Subjuntivo).
input seria o responsável pela produção de iambos pelas crianças5. No entan-
Cumpre chamar a atenção para outro fato no processo de aquisição que to, essas palavras têm algo em comum: a vogal final não é marca morfológica
corrobora a escolha pela proposta de Lee3. É interessante notar que as crian- (veja que palavras finalizadas por morfema de gênero, quando no diminutivo,
ças produzem mais iambos, muito embora 63% dos nomes recebam acento têm o marcador movido para o final: casa >> casinha, bolo >> bolinho, coco
na penúltima sílaba na língua adulta (cf. Cintra 1997). Ainda mais porque >> coquinho, enquanto essas palavras familiares mantêm a vogal final: xixi >>
esse número aumenta quando consideramos que os diminutivos são muito xixizinho, papá >> papazinho, cocô >> cocozinho (e não coquinho)).
usados na fala dirigida à criança e o morfema de diminutivo muda o acento
O fato de os troqueus começarem a ser mais produzidos do que os
da palavra (caFÉ >> cafeZInho). No entanto, se observamos a aquisição da
iambos na mesma época em que as crianças começam a trabalhar com as
morfologia nominal pelas crianças, observamos que o trabalho com gênero e
questões de gênero nos mostra que o algoritmo de acentuação deve consi-
diminutivos ocorre por volta dos 1;8. Para R., o trabalho com diminutivos
derar este morfema em sua formulação.
ocorre a partir de 1;9 [cf. (3)(4)], e com gênero a partir de 1;10 [cf. (5)(6)]4.
De acordo com os gráficos apresentados, é por volta desta mesma idade que
os troqueus começam a se tornar mais comuns na fala de R. 2.2. As estratégias de aquisição do acento primário
(3) [ bѐ.lэ]
«
= bola (R.1.7.?) Embora os resultados de Santos (2006) tenham levado em conta apenas a
(4) [ bѐ«l«).¯э] = bolinha (R.1;9.9)
(5) [«o.tU] = outro (R.1;10.0) troca de acento e o truncamento nas formas prosódicas das primeiras palavras,
(6) [«o.tэ] = outra (R.1;10.0) seu estudo não é contrário à proposta de Santos (2001), que propõe que, ao se
analisar o desenvolvimento das formas prosódicas iniciais e seu algoritmo de
De acordo com Lee (1995), o marcador de palavra é extramétrico e
acentuação, deve-se olhar não só para os processos de truncamento, mas tam-
por isso palavras como banana, apesar de produzidas como paroxítonas,
bém para as epênteses que as crianças fazem às suas palavras. Os estudos de
são resultado de um constituinte iâmbico mais uma vogal extramétrica (cf.
Fikkert (1994), Demuth (1995), por exemplo, levam em conta epênteses no
BaNAn]a). Isto é, deixando de lado a extrametricidade, o modelo adulto é
meio e no final das palavras, mas não no começo. Scarpa (1999) já mostra
igual ao da criança.
que, no início do processo de aquisição, as crianças ancoram suas produções
Observe também que palavras familiares são normalmente iâmbicas: cocô, no contorno entonacional. Assim é que as palavras serão truncadas ou aumen-
xixi, papá. É realmente estranho que, numa língua em que os troqueus são tadas para preencher determinado contorno. Santos (2001) assume esta pro-
posta de Scarpa argumentando que no processo de aquisição do acento a
proeminência entonacional é a primeira proeminência com que a criança
3. Há ainda um terceiro argumento para assumirmos a proposta de Lee (1995). Bisol (1992a) e
Massini-Cagliari (1995) propõem que o acento primário em PB é sensível ao peso silábico, enquan- trabalha, enquanto ainda não marcou os valores para os parâmetros responsá-
to para Lee, o PB não é sensível ao peso silábico. Pereira (1999) discute vários argumentos (tanto veis pelo acento primário, e que as estratégias de truncamento e mudança
sincrônicos quanto diacrônicos) para defender que o português não é sensível ao peso silábico.
acentual não são resultado de valores default para o acento primário, mas
Nossos dados apontam que, desde o início do processo de aquisição, as crianças nunca erram a
acentuação por causa da sílaba pesada. Isto é, se o valor paramétrico para o peso silábico fosse sim, estratégias que evidenciam a marcação da proeminência do nível entonacional.
esperaríamos encontrar, no início do processo, as crianças produzindo coisas como ‘movél’
[mѐ.«vEw], com a sílaba final atraindo acento. No entanto, dados como esse que nunca ocorrem.
4. Com isso não estou querendo dizer que R. não produzisse o morfema de gênero antes disso. Mas
é só nesta fase é que é possível observar que R. está trabalhando com este conceito, usando-o 5. No entanto, não é este o caso. Santos (em preparação) mostra que, na fala dirigida às crianças,
produtivamente. É nesta fase que podemos observar as duas formas de gênero em uma mesma sessão. 75% das palavras recebem acento na penúltima sílaba, e somente 25% recebem acento final.
234 Raquel Santana Santos O acento e a aquisição da linguagem em português brasileiro 235

Santos (2001) propõe que as crianças usam três diferentes estratégias que um significado dialógico (por exemplo, R. utiliza o tom descendente H*
para a marcação de proeminências acentuais em seus enunciados antes de L- L% para interrogativas e chamamentos). Por outro lado, um mesmo signi-
usar o algoritmo acentual: ficado dialógico pode ter mais do que um contorno entonacional (por exem-
plo, R. usa os tons H* L- L% e H* H H% para interrogativas).
i) uso das proeminências entonacionais dos diversos contornos utili-
zados; Vigário & Frota (1992), discutindo a aquisição da entonação do PE, apon-
ii) fixação de um contorno para o trabalho com o acento; tam que enquanto os enunciados têm apenas um significado prosódico, eles
iii) fixação de um arcabouço binário para o constituinte responsável não têm uma estruturação segmental. Frota & Vigário (1993) sugerem que se
pelo acento primário. categorizem os enunciados das crianças conforme os tipos frásicos fundamen-
tais (declarativa, interrogativa, exclamativa, chamamento) e os movimentos do
Estas estratégias ocorrem predominantemente em determinados perío- contorno (ascendente ou descendente; simples ou complexo). Segundo as
dos do processo de aquisição, mas ocorre uma justaposição entre elas. Na autoras, inicialmente há uma tendência por formas simples. Os dados encon-
tabela em (7), o uso das diferentes estratégias é apresentado, nos meses em trados por Santos (2001), no entanto, não confirmam essa tendência. Na tabe-
que ocorreram em R. la abaixo se encontra a ordem de aquisição do sistema entonacional de R.6:
(7)
Contorno Aquisição inicial Aquisição posterior
1;1 1;2 1;3 1;4 1;5 1;6 1;7 1;8 1;9 1;10 1;11 2;0 2;1 2;2
H*+ L L L% 1R 2Rh.h.
diversos contornos
Fixação de um contorno L* L L% 2R 2R low fall

Arcabouço binário L+H L L+H* L L% 3R

L+H L+H* L L% 3R
2;3 2;4 2;5 2;6 2;7 2;8 2;9 2;10 2;11 3;0 3;1 3;2 3;3 3;4
H* L L% 4R, 5R 9R
Fixação
de u m H* H L% 6R 7R
contorno
L+H* L L% 6R 2Rr.h., 2R1h.f., 2R1r.h.
Arcabouço binário
H* H H% 7R
Algoritmo acentual >>
L* L H% 8R
A seguir, cada uma dessas estratégias é descrita:
L* H H% 8R
a) Estratégia I: diversos contornos H* L H% 10R
Nos primeiros momentos do desenvolvimento prosódico, o que se en- H L* L H% 11R
contra são diversos contornos entonacionais associados a diferentes usos pe-
Tabela 2: Aquisição dos contornos entonacionais por R.
las crianças. Gebara (1984) descreveu a forma dos contornos entonacionais
de duas crianças (R. e T.) conforme seu significado dialógico. Seus resulta-
dos indicam que, embora haja um sistema distintivo entonacional sendo ad-
6. Gebara (1984) descreveu esse sistema através da notação de contornos. Santos (2001) adaptou
quirido, não há necessariamente uma isomorfia entre a relação de contornos sua transcrição para o sistema de notação proposto por Pierrehumbert (1987) de forma que se
conforme seu significado. Assim é que um mesmo contorno pode ter mais do possa observar a sobreposição do acento de palavra com as proeminências acentuais.
236 Raquel Santana Santos O acento e a aquisição da linguagem em português brasileiro 237

Como é possível observar na tabela (2), não há predileção por nenhuma entonacional, a criança acrescenta sons (filler-sounds) para preenchê-los
forma (simples ou complexa) nos diversos contornos. As crianças já produ- (cf. Santos 1995, Scarpa 1999):
ziam contornos complexos (nos termos de Frota & Vigário 1993) nas pri- (14)
meiras aquisições, e as aquisições posteriores não significam, necessariamente, R: [«fϯ.sэ] contorno: 2R
contornos mais complexos (10R, 11R, por exemplo, são contornos simples). ‘fecha’
Mãe: fecha. (R.1;6.22)
Formalmente, os contornos das crianças permitem sílabas fracas finais; (15)
[ka.le.«lE.lэ:] contorno: 2R rh
no entanto, a realização destas vai depender do acento lexical. Como o
‘?’ (posteriormente a mãe “adivinha” : ah, a janela) (R;1;6.6)
enunciado tem proeminência à direita (devido ao acento entonacional), a (16) [mђ.ma.«ma.na] contorno: 2R
expectativa (que se evidencia correta) é de maior quantidade de acentos ‘banana’ (R. 1;6.3)
finais nas palavras, quer nas aquisições iniciais ou mais tardias [cf. (8)(11)]: (17) [anaupo«po:] contorno: 9R
‘pegar (?) o popô (= chupeta)’ (R. 1;7.21)
(8) (18)
R: [ane«ne] contorn: 4R [t.E«ga:.ku] contorno: 5R
‘olha o nenê’ (R.1;3.6) ‘gato’ (R. 1;6.4)
(9) (19)
R: [akç«kç] contorno: 3R [ase«lEla] contorno: 9R
‘olha o cocó’ (R.1;6.22) ‘fez Lela’ (R. 1;7.8)
(10)
R: [«fϯ.sэ] contorno: 2R Como apontado na seção 1.1, a criança só começa a lidar com as
‘fecha’
fronteiras internas das palavras (no sentido que elas têm na língua adulta)
Mãe: fecha (R.1;6.22)
(11) aos 1;9. Gebara (1984) defende que até 1;10 as “palavras” dos enunciados
R: [«ßo] contorno: 2R das crianças também não têm o mesmo significado que a forma adulta.
‘fechou’ Assim, coloca-se em questão o fato de as crianças estarem lidando com
Mãe: fechou? (R.1;6.22)
palavras nesta fase. Se acrescentarmos a isso o fato de que as crianças privi-
É interessante observar o que ocorre com a seqüência segmental desses legiam o contorno entonacional em detrimento da seqüência segmental, a
contornos. Muito embora eles indiquem um amadurecimento prosódico proposta de que nesse período o acento ouvido nos enunciados da criança
no processo de aquisição, observamos que as seqüências segmentais nem é o acento nuclear entonacional (accent) e não o acento lexical (stress)
sempre são palavras na língua adulta: torna-se bem mais do que plausível.
(12) Pesquisadores contrários a esta proposta — de que o acento inicial dos
[da.«da.dis] = “? “ (R. 1;5.4)
enunciados infantis é o acento entonacional — argumentam que, no início
(13)
Pai: que que aconteceu com a garrafa? do processo de aquisição, as palavras das crianças têm a extensão de uma
[kõtika«fafa] contor: 2R rh sílaba (cf. Fikkert 1994; Demuth 1995, entre outros). No entanto, dois con-
‘aconteceu com a garrafa’(?) (R.1;6.6)
tra-argumentos se colocam. O primeiro é que essas pesquisas
Os dados (8)(11) e (14) mostram enunciados que se assemelham à metodologicamente procuram no output infantil sílabas que se assemelham
forma adulta; no entanto, (15)(19) mostram que, quando a seqüência à forma adulta. As sílabas inseridas no meio e no final das palavras (desde
segmental da fala do adulto não é suficiente para preencher o arcabouço que sejam as últimas palavras das sentenças) são consideradas, mas as síla-
238 Raquel Santana Santos O acento e a aquisição da linguagem em português brasileiro 239

bas inseridas à esquerda, no início das palavras, não são consideradas para núcleo baixo em movimento ascendente para trabalhar com o contorno
análise. Ora, ao proceder desta maneira, deixa-se de observar se as crian- entonacional, e posteriormente passa a trabalhar com outros tipos de con-
ças têm qualquer padrão de inserção de sílabas (cf. Lléo 2001 sobre o uso tornos, sempre descendentes.
de filler-sounds em espanhol e alemão). O segundo contra argumento é Sessão Ocorrências de contornos
que, ao assumir que as palavras de duas sílabas das crianças carregam acen-
1;5.10 a 1;7 somente 2R
to de palavra, essas teorias assumem uma proposta bottom-up de aquisição
de acento: num primeiro estágio, as palavras estão no nível da sílaba; no 1;9.8 10 ocorrências de 10R, 2 de 7R, 3 de 9R, 1 de 11R
segundo, no nível do pé. Neste caso, não há comprovações empíricas des- 1;9.9 e 1;9.20 somente 2R
ses trabalhos de que os níveis prosódicos superiores não estariam também
1;10.0 1 de 9R
projetados. O fato de que as proeminências nos enunciados iniciais estão
1;10.20 somente 2R
sempre à direita e de que as crianças, desde cedo, levam em conta o acento
do nível entonacional para aplicar as regras de sândi (como veremos na 1;11.3 7 ocorrências de 11R, 2 de 7R, 2 de 10R, 1 de 4R, 1 de 9R
seção 2), são evidências de que o nível entonacional está “ativo” neste perío- 1;11.12 6 ocorrências de 9R, 6 de 7R, 2 de 4R, 8 de 11R, 7 de 5R,
do. Assim, mesmo que as palavras das crianças tenham apenas uma sílaba, 1 de 8R, 1 de 2R
elas têm projetadas a proeminência acentual, como qualquer enunciado 1;11.25 somente 2R
do adulto [cf. (20)]:
Tabela 3: Ocorrência dos contornos entonacionais em R.
(20) Você foi ao shopping?
(x) enunciado Assim, a estrutura prosódica tem o acento nuclear entonacional mais à
(x) frase fonológica
(x) grupo clítico
direita. Pode ter mais de uma sílaba pré-tônica, mas somente uma pós-
(x) palavra tônica, opcional. É esta estrutura iâmbica que a criança usa como default
(x) pé em seus enunciados8:
(x) sílaba
Fui. [«fuj] (21)
b) Estratégia II: estruturação prosódica da unidade entonacional (L) L H* ( L) % contorno entonacional

A partir de 1;10 percebe-se o uso de uma estratégia diferente pelas O uso de filler-sounds associado sempre a um contorno descendente
crianças. As crianças passam a acrescentar filler-sounds apenas em um tipo indica que as crianças estão trabalhando com a estrutura deste contorno
de contorno7. No caso específico de R., no período de 1;5 a 1;8, ela usa entonacional. As crianças analisadas elegem um contorno default e traba-
filler-sounds apenas no tom 2R. A partir de 1;9 até aproximadamente 2;3 lham com sua estrutura gramatical prosódica (a formação deste contorno
os filler-sounds aparecem também em outros contornos: por sílabas com tons altos e baixos), preenchendo sua seqüência segmental
Apesar da aparente variedade, o que se observa é que R., inicialmente, com partes do enunciado do interlocutor, com filler-sounds ou com modi-
elege um contorno de movimento descendente, com possibilidade de pré- ficações na cadeia segmental.

7. No caso da segunda criança (T.) analisada por Santos (2001), Scarpa (1999) mostra que, 8. Veja que esta estrutura vai contra as propostas de que a criança trabalha inicialmente com a
durante esse período, todos os outros contornos desaparecem. estrutura sw.
240 Raquel Santana Santos O acento e a aquisição da linguagem em português brasileiro 241

Neste momento, os enunciados da criança são mais curtos, equivalen- preencha todo o contorno entonacional (ocorrendo principalmente — mas
do ao C (grupo clítico —Nespor & Vogel 1986) do adulto (embora não não exclusivamente — com enunciados de uma sílaba) [cf. (31)(32)]:
sejam necessariamente equivalentes nem em tamanho, nem em status (24)
fonológico). Muitas vezes, a palavra-alvo preenche totalmente esse contor- [a.te.«lo:] = tirou (R. 1;6.6)
no entonacional [cf.(21b)]. No entanto, nem sempre o recorte que a crian- (25)
[a.ki.«iw] = caiu (R. 1;7.?)
ça faz do input é isomórfico em relação ao arcabouço entonacional. O (26)
recorte pode ser ou menor, ou maior do que o contorno, e nesse caso, a [a.«se).så] = dá licença (R. 1;7.13)
criança preenche-os de diferentes maneiras (cf. a-c, por exemplo). (27)
[ka.«l«. ْѨ] = coelhinho (R.1;8.25)
(22) (28)
(L) L H* ( L) % contorno entonacional [pa.«s«. ْѨ] = palhacinho (R.1;8.25)
(w) w s (w) estrutura iâmbica (29)
[ka.«tSja] = plaquetinha (R. 1;8.0)
a. [a «p\j] = põe (R. 1;6.6) (30)
b. [be.«ke. dѨ] = brinquedo (R. 1;10.0) [dZi.«v«.ْå] = adivinha (R. 1;11.12)
c. [a ba.«l«). ْэ] = balinha (R. 1;8.25) (31)
[ko.«do:] = acordou (R. 1;7.13)
A maneira mais radical de preenchimento do contorno entonacional é
(32)
a mudança de acento, como é possível observar em (23) e não é muito [a.na.u.po.«po:] = ‘pegar o popô (= chupeta)’ (?) (R. 1;7.21)
comum porque o recorte do input é feito a partir da sílaba nuclear.
No lado direito do núcleo entonacional, as crianças ou mantêm a síla-
(23) ba mais adjacente (cf. Wijnem, Krikharr & Den Os 1994) [cf. (33)], ou
[g‫ש‬a.«va.do‫]ש‬ = gravador (R.2;0.5)
mantêm a mais complexa —CV(C) (de acordo com Gerken 1994) [cf. (34)],
Além do que, essa estratégia de mudança acentual somente se confor- ou alongam a sílaba receptora do acento frasal [cf. (35)]. Muitas vezes, o
ma ao contorno entonacional no caso de trissílabas. Nos demais casos, são que a criança produz é uma combinação das duas sílabas pós-nucleares:
necessárias outras formas de preenchimento. (33)
[ma.«lε.vå] = Malévola (R. 2;6.19)
As mudanças são comuns quando se trata de sílabas pré- e pós-nuclea- (34)
res. Essas sílabas átonas fronteiriças podem estar em quantidade maior ou [«õ).bUs] = ônibus (T. 2;0.21)9
menor do que as necessárias para preencher o contorno com que a criança (35)
[ka.«iw:] = caiu (R. 1;7.?)
está trabalhando. Caberá à criança inserir ou omitir sílabas para preencher
o contorno entonacional. Quaisquer que sejam as escolhas das crianças para preencher o contorno
com que estão trabalhando, o domínio com o qual estão lidando não é a
À esquerda do acento do arcabouço entonacional, R. e T. usam quatro
palavra, mas a frase entonacional. No entanto, percebe-se uma diferença no
estratégias de preenchimento do pré-núcleo entonacional: uso de filler-
trabalho das crianças com os contornos entonacionais. Na primeira estratégia
sounds [cf. (24)(25)]; recorte de sílabas pré-tônicas acentuadas (acento pri-
discutida, que surge mais inicialmente, há vários contornos não analisados.
mário ou secundário [cf. (26)(28)]; recorte da sílaba mais adjacente (faci-
litando o recorte do domínio de acentuação de palavra do input do adul-
to) [cf. (29)(30)]; ou alongamento da sílaba nuclear de modo a que esta 9. Esta foi uma estratégia encontrada apenas para a outra criança, T., e por isso o exemplo não é de R.
242 Raquel Santana Santos O acento e a aquisição da linguagem em português brasileiro 243

Nessa segunda estratégia, a criança trabalha com a estrutura prosódica, perce- mínimo trissílabas), em dissílabas durante todo o período analisado [cf.
bendo que é possível haver “desencontro” no tamanho das seqüências segmental (36)(40)]. Mas as crianças podem reduzir trissílabos paroxítonos tanto em
e supra-segmental. Esse desencontro é resolvido acrescentando-se filler-sounds, dissílabos oxítonos [cf. (37)(37)]], como em dissílabos paroxítonos [cf. (38)(40)]:
alongando sílabas, omitindo sílabas e/ou modificando-se o acento.
(36)
[dZ«.«ba] = embaixo (R. 1;11.12)
O uso de filler-sounds, aliado à preferência por um padrão de acentuação
(37)
do contorno entonacional, indica que a criança ainda faz uso do acento nu- [ve‰.«du] = verdura (R. 2;0.20)
clear entonacional pelo acento de palavra. Isto é, o trabalho com a estruturação (38)
prosódica do contorno indica que o acento ouvido nesses enunciados das crian- [«Zu.då] = ajuda (R. 1;8.25)
(39)
ças é o acento nuclear entonacional (accent) e não o acento lexical (stress). No [«kç.kå] = pipoca (R. 1;8.0)
entanto, esse mesmo uso do acento nuclear entonacional indica, para a crian- (40)
ça, a direção de aplicação do acento (borda direita da palavra). Mesmo nas [«ze).dU] = fazendo (R. 2;2.2)
seqüências mais iniciais da criança, ela tem como restrição que o acento (e Como vimos, a estratégia de cristalização de um tom (ou escolha de
não se discute aqui se o mesmo tem status entonacional ou lexical) deverá estar um tom entre vários) para o trabalho prosódico permite que a criança
em uma das últimas três sílabas10. Não há casos de violação dessa janela. Por perceba que o acento entonacional (accent) não é o mesmo que o acento
outro lado, os enunciados não têm essa limitação à direita do acento. Como de palavra (stress). Isto é, o contorno eleito pela criança para análise, como
visto em (32), os enunciados podem ter mais de duas sílabas pré-tônicas. visto, permite uma sílaba fraca final e uma sílaba pré-nuclear. Esse modelo
leva a criança a assumir que o acento de palavra em PB é atribuído na
Por outro lado, a restrição da quantidade de sílabas pós-tônicas e a
fronteira direita da palavra, mas não é necessariamente final:
liberdade quanto à quantidade de pré-tônicas indica para a criança de que
lado da palavra o algoritmo acentual de palavra deve ser aplicado. (41)
L H* L % contorno entonacional
c) Estratégia III: arcabouço do constituinte binário s w # padrão trocaico
w s # padrão iâmbico
Outra estratégia assumida pelas crianças — que ocorre predominante-
Essa possibilidade cria como template para a acentuação o consti-
mente entre 1;10 e 2;4 — é assumir que as palavras são dissílabas. Neste
tuinte frasal binário. Com esse arcabouço acentual, a criança se vê com
caso, esta estratégia difere da anterior porque não há mais necessidade de
dois domínios para acentuação: o domínio da palavra e o domínio da
uma sílaba pré-nuclear, como era necessário para preencher o contorno frase entonacional. Esses dois domínios serão co-ocorrentes e poderão,
entonacional LH*L. algumas vezes, criar modelos acentuais diferentes ou mesmo contraditó-
O template binário já foi discutido na subseção 1, então, aqui, discutire- rios, na visão da criança.
mos como as crianças trabalham com este constituinte. O fato de accent encaixar-se com stress e o fato de as sílabas fracas
serem opcionais permitem que a criança admita a ocorrência de produ-
Voltando-nos para os dados, observamos que as crianças reduzem as
ções tanto oxítonas [cf. (42)] quanto paroxítonas [cf. (43)]:
paroxítonas, que se conformavam ao contorno entonacional (portanto, no
(42)
L H* L % L H* L %
10. As palavras proparoxítonas só aparecerão muito mais tarde, porque este acento é gerado pela ta. «fε = café (R. 2;1.5) «
xa.bU =rabo (R. 2;2.2)
combinação do pé binário com a extrametricidade. w s # s w #
244 Raquel Santana Santos O acento e a aquisição da linguagem em português brasileiro 245

No entanto, nem sempre a forma-alvo se encaixa neste template biná- (56)


[ve‫ש‬.«du] = verdura (R. 2;0.20)
rio, e neste caso, como na estratégia anterior, as crianças omitirão sílabas (57)
ou as acrescentarão, de modo a preencher esse constituinte. [kaj.l«.¯U] = coelhinho (R.1;8.25)

Para o preenchimento do constituinte binário com cabeça à esquerda A discussão na subseção 1.1 nos apontou que as crianças privilegiam o
(sw), as crianças inserem filler-sounds pós-tônicos [cf. (44)], omitem sílabas constituinte binário ws no início do processo, mas que também produzem
pré-nucleares [cf. (45)], omitem sílabas pós-nucleares [cf. (46)(47)], trans- formas sw. De acordo com Lee (1995), palavras paroxítonas são geradas
formam os ditongos em duas sílabas [cf. (48)], ou, em alguns casos, tratam ou pela aplicação da forma marcada ou pela forma não-marcada combi-
as palavras como compostos fonológicos [cf. (49)]: nada com a extrametricidade. Os dados sobre aquisição de morfologia (tam-
bém apresentados na subseção 1.1) apontam que, por volta dos 1;10 as
(44)
[«doj.s‫]گ‬ = dois (T.2;4.18)11
crianças já lidam com o morfema de gênero. Assim, nossos dados indicam
(45) que, nesta fase, a criança já marcou os valores dos parâmetros para consti-
[«la.siw] = relógio (R. 2;2.2) tuinte (binário), cabeça (para nomes: valor default: ws, valor marcado: sw;
(46)
para verbos: valor default: sw, valor marcado: ws) e extrametricidade (vogal
[«mu.z‫]گ‬ = música (R.2;5.25)
(47) extramétrica). Se é assim, o que falta as crianças?
[«pl«.s‫]گ‬ = príncipe (R.2;6.19)
(48) Um arcabouço não produzido, até agora, é o das palavras proparoxí-
[«se:.U:] = seu (R.1;11.25) tonas. Esse padrão acentual é produzido pela combinação do valor marca-
(49) do com a extrametricidade. Quando a criança produz estas formas, ela
[«mu.z‫گ‬.«da.dэ] = música (R.2;5.25)
não está mais usando estratégias para marcar as proeminências de seus
Para o preenchimento do constituinte binário com cabeça à direita enunciados, mas está usando o algoritmo do adulto.
(ws), as crianças omitem sílabas pré-nucleares [cf. (50)(53)], omitem síla- d) O algoritmo adulto
bas pós-nucleares [cf. (54)(56)], ou usam da ditongação [cf. (57)]:
Só são encontradas formas nominais proparoxítonas. Nos enunciados
(50) de R., essas seqüências são produtivas a partir de 2;2:
[maj.«sa] = amassar (R. 1;11.12)
(51) (58)
[pi.«tãw] = capitão (R. 2;3.6) [«mu.zi.kå] = música (R. 2;2.2/2;3.6)
(52) (59)
[a.«bej] = acabei (R. 2;5.15) [«sa.ba.dU] = sábado (R. 2;2.19)
(53) (60)
[ka.«bej] = acabei (R. 2;5.15) [«pr«.si.p‫]گ‬ = príncipe (R. 2;5.5/2;5.15/2;6.19)
(54) (61)
[a.«ke] = aquele (R. 2;3.12) [Zi.«nas.tЀi.kэ] = ginástica (R. 2;6.8)
(55) (62)
[ve‫ש‬.«me] = vermelho (R. 2;3.12) [ma.«lε.vç.lэ] = Malévola (R. 2;6.19)

A produção dessas palavras pelas crianças indica que elas não estão mais
11. Esta estratégia foi utilizada apenas por T., a segunda criança analisada, e por isso o exemplo é apoiando a acentuação de seus enunciados no acento entonacional, pois este
de seus dados. cria, nas estratégias anteriores, a possibilidade de apenas uma sílaba pós-tônica:
246 Raquel Santana Santos O acento e a aquisição da linguagem em português brasileiro 247

(63) De acordo com Bisol (2003), a degeminação em português brasileiro


L H* L % estratégia de estruturação de contorno
se aplica se a segunda sílaba for fraca. Isto é, a degeminação pode ocorrer
s w # arcabouço acentual
entre duas sílabas fracas [cf. (65)], ou entre uma sílaba fraca e uma forte
É somente pela combinação do valor marcado com a vogal extramétrica, [cf. (66)], mas não ocorre se a segunda sílaba portar acento primário, quer
que as proparoxítonas são geradas: a primeira sílaba seja acentuada [cf. (67)], quer não [cf. (68)]:
(64) (65)
(x . ) [QUAdro hoRRÍvel]φ >> [kwa.d‰o.«xi.vew]
músic]a (66)
[falaRÁ amaNHÃ]φ >> [fa.la.«‰a.mã.«ْã]
(67)
[caFÉ] [EXtra FORte]φ >> *[ka.«fεs.t‰a.«fѐ‰.tЀ‫]گ‬12
3. AQUISIÇÃO DE REGRAS QUE LEVAM EM CONSIDERAÇÃO (68)
[SAbe Isso]φ[de cor]φ >> *[«sa.bi.su.dЋ‫گ‬.«kѐ‰]
O ACENTO — REGRAS DE SÂNDI EXTERNO
A elisão ocorre, segundo Bisol, quando a vogal da primeira sílaba é um
Os trabalhos sobre aquisição de regras fonológicas não são muitos, e
/a/ fraco e a segunda sílaba tem uma vogal diferente de /a/ [cf. (69)]. No
normalmente eles se concentram na aquisição de seus aspectos segmentais
entanto, a regra deve ser mais abrangente do que essa proposta. Especifica-
(cf. Stemberger 1989; Matthei 1989; Newton & Wells 1999, 2002, por
mente, ela também se aplica quando a primeira vogal é [+ alta] e [+ poste-
exemplo). Muitas dessas regras (por exemplo, mudança de acento, apaga-
rior], como em (70). Assim, assumo que o requisito para a elisão é que a
mento de acento) alteram diretamente a seqüência de sílabas acentuadas e
vogal seja [+posterior].
desacentuadas ou alteram a quantidade de sílabas de um enunciado, aca-
bando por mudar sua estrutura rítmica — as regras de sândi (juntura). É (69)
CAsa esTRAnha >> [«ka.zis.«t‰ãْa]
destas últimas que tratarei aqui. Mais especificamente, tratarei das regras (70)
de sândi externo que ocorrem entre palavras — as regras de sândi externo. gaROto eleGANte >> [ga.«‰o.te.le.«gã.t߈]

Quanto ao tipo de proeminência envolvida no contexto, Galves, Abaurre


3.1. O sândi externo no português brasileiro adulto & Scarpa (1999) e Bisol (2003) argumentam que ela pode ocorrer quando
as duas sílabas são fracas [cf. (69)], ou se a primeira sílaba é fraca e a segunda
São três as regras de sândi: degeminação, elisão e ditongação. Todas as carrega o acento de palavra [(cf. (71)]. No entanto, a regra é bloqueada se a
três levam em conta o acento em níveis superiores da hierarquia prosódica. segunda sílaba carregar, além do acento de palavra, o acento da frase
Assim, ao estudar sua aquisição, temos pistas sobre com quais níveis fonológica [cf. (74)], ou se a primeira sílaba carregar acento [cf. (72)(73)]:
prosódicos as crianças estão trabalhando em determinado momento de seu (71)
desenvolvimento lingüístico. Antes de discutirmos os dados de aquisição, [masTIgo]φ [ERvas aMARgas]φ >> [mas.«tßi.gε‰.va.za.«ma‰.gas]
vejamos resumidamente cada uma dessas regras. (72)
[compraRÁ]φ [omeLEtes]φ >> *[kõw.p‰a.«‰o.me.«lε.t߈s]
Para que as três regras se apliquem, o contexto mínimo necessário é o (73)
[compraRÁ]φ[Ovos QUENtes]φ >> *[kõw.p‰a.«‰ø.vus.«ke)j.t߈s]
de duas sílabas pertencentes a palavras diferentes, em que a primeira seja
uma sílaba aberta (CV) e a segunda seja uma sílaba sem onset (V). Cada
regra, então, tem outras especificidades. 12. O símbolo asterisco (*) indicará, a partir desta subseção, impossibilidade fonológica.
248 Raquel Santana Santos O acento e a aquisição da linguagem em português brasileiro 249

(74) tanto os aspectos segmentais quanto o acento primário, acento de frase


[masTIgo ERvas]φ >> *[mas.«t߈.«vε‰.vas]
fonológica e acento entonacional. Scarpa (1997) e Galves, Abaurre &
Finalmente, a ditongação ocorre entre duas sílabas fracas [cf. (75)], Scarpa (1999), discutindo a aquisição da degeminação e elisão por R. aos
entre uma sílaba acentuada e uma sílaba fraca [cf. (76)(78)], e entre duas 2;0 anos, argumentam que R. nunca aplica essas regras quando uma das
sílabas acentuadas [cf. (78)]. Mas ela não ocorre se a segunda sílaba carre- sílabas envolvidas porta o acento frasal, muito embora a aplicação das re-
gar o acento entonacional [cf. (79)(80)]: gras ainda seja instável. Tal fato é indício de que R. já lida com esse nível
(75)
de acento por volta dos 2;0, mas ainda está adquirindo os níveis mais bai-
[maCAco afriCAno]φ >> [ma.«ka.kwa.f‰i.«kã.nU] xos da hierarquia prosódica.
(76)
[caJU estraGAdo]φ >> [ka.«Zujs.t‰a.«ga.dU] Analisando dados de um período maior do processo de aquisição de R.
(77) — entre 1;8 e 3;6 —, Komatsu & Santos (2004) e Santos (2006) apontam
[[o moLEque Árabe]φ [saIU]φ]I >> [o.mu«lε«kja.‰a.bi sa.«iw] que não há apenas instabilidade, mas mudanças na aplicação das regras
(78)
[[coMI]φ [Uvas FREScas]φ]I >> [ko.«mju.vas.«f‰es.kas] durante o processo de aquisição da linguagem. Essas mudanças permitem
(79) identificar três estágios no processo de aquisição da linguagem. Primeira-
[moLEque Árabe]φ >> *[mu«lε.«kja.‰a.bˆ] mente descrevo os estágios, e depois discutirei como a aplicação das regras
(80)
[coMI Uvas]I >> *[ko.«mju.vas] de sândi por R. desvia-se da aplicação na fala do adulto.

De acordo com Bisol, a única informação prosódica relevante para a


ditongação é a posição do acento entonacional, enquanto a elisão e a 3.2.1. Estágios na aquisição das regras de sândi externo
degeminação também levam em conta o acento de palavra e o acento da
a) Estágio I:
frase fonológica. No entanto, Tenani (2002) mostra que, embora as regras
de sândi em PB — inclusive a ditongação — não sejam restritas a nenhum Trata-se de um longo estágio, que vai de 1;8 a 2;6 e pode ser dividido
domínio prosódico, são obrigatórias dentro de frases fonológicas, confor- em dois sub-estágios, de acordo com o tamanho dos enunciados de R. Os
me mostra o contraste a seguir [cf. (81)(82)]: dois sub-estágios têm as mesmas características: a aplicação das regras de
sândi é instável; a aplicação de regras de sândi é diferente das escolhidas
(81)
[eu vi [o meNIno]φ]I [[ e Ele finGIU ]φ não me VER]I por adultos; as regras não são usadas para otimizar o ritmo; e o acento
>> eu vi o [mi.«ni.nwi.«e.li] fingiu não me ver. frasal bloqueia as regras de sândi.
>> eu vi o [mi.«ni.nu.i.’e.li] fingiu não me ver.
(82) Sentenças curtas: aos 1;8, os enunciados de R. são curtos, freqüentemente
[eu vi [o meNIno esPERto]φ]I de 2 palavras, como é possível observar de (83)(86):
>> eu vi o [mi’ni.«nwis.«p´‰.tu]
>> *eu vi o [mi.«ni.nu.is.«p´‰.tu] (83)*[ «e).«ßa.gwa] ~ [ «e).«ßja.gwa] [«e).ße.«a.ga] 1;8.25
ENche Água
(84) [«ti.Ra.«o.tRa] [«ti.la.«o.ta] 1;8.25
TIra OUtra
3.2. O SÂNDI NA AQUISIÇÃO (85) [«ti.Ra.«ki] [«ti.Ra.a.«ki] 1;8.25
TIra aQUI
Voltando à aquisição, as crianças adquirindo português brasileiro, para (86) [na.«na.Ra.«ki] ~ [na«na.a.«ki] [na.«na.«ki] 1;8.25
aplicar as regras de sândi externo como os adultos, devem então dominar naNAR aQUI
250 Raquel Santana Santos O acento e a aquisição da linguagem em português brasileiro 251

R. não aplica regras de sândi nos casos de (83)(85), embora fosse possível do contexto de (91) a segunda sílaba é forte impede a aplicação da regra.
fazê-lo em (85). Por outro lado, aplica degeminação no caso (86). Esses exemplos mostram que R. obedece às restrições prosódicas da
O exemplo (83) é agramatical na fala adulta sem a preposição de. Mas degeminação e ditongação, levando em conta as proeminências do con-
em sentenças análogas, como bebe água, o sândi é rejeitado. Tanto em texto. No entanto, no que se refere às propriedades segmentais, os dados
(83) como em (84), a segunda sílaba do contexto é acentuada e R. não (92)(98) mostram que R. viola essas restrições:
aplica a regra de sândi, como o adulto. No entanto, dados apenas esses (92)
exemplos, não é possível dizer se o que bloqueia a regra de sândi é o acento [«e.sja.«ki] [«e.sa.«ki] 1;11.12
entonacional ou o acento primário porque ambos se sobrepõem. Somente Esse aQUI
(93)
quando suas sentenças passam a ter mais do que duas palavras é que é [u.d«.«¯e.‫ש‬wa.«ki] [a.di.«ne.la.«ki] 1;11.12
possível descobrir qual acento está bloqueando a regra, pois com três pala- o diNHEIro
~ aQUI
vras, já é possível que o encontro de sílabas para sândi envolva só o acento (94)
[«po.dЋi.pe.«ga.‫ש‬e.sja.«ki] [«po.di.pe.«gε.sa.«ki] 1;11.12
primário e não o acento entonacional.
POde peGAR Esse aQUI
(95)
O dado (86) nos mostra que R., neste período, já aplica regra de sândi.
[a.«ke.l‫گ‬.ke.«foj.«p‫ש‬aw.ni.«kã.p‫~ ]گ‬ [a.«ke.l‫گ‬.ke.«foj.«p‫ש‬u.ni.«kã.p‫]گ‬
Mas mostra também que ela aplica a regra no contexto errado. Este mes- ~ [a.«ke.l‫گ‬.ke.«foj.«p‫ש‬a. »u.ni.«kã.p‫]گ‬
mo dado nos aponta que R. não aplica a regra de sândi para uma otimização aQUEle que FOI pra uniCAMp
rítmica. Em (86), o output adulto é fraca-forte-fraca-forte. Ao aplicar a R: [a.«ke.l‫گ‬.ke.«foj.«pa.ni.«kã.po] 2;6.12
(96)
degeminação, R. acaba criando um encontro acentual em sua sentença: [«kjε.«i.swa.«ki] [«ke.«i.sa.«ki] 1;11.12
fraca-forte-forte. que É Isso aQUI
(97)
Sentenças longas: a partir de 1;11, junto com sentenças de duas pala- [«e.sjε.pe «ke.nuj.ew.«pujs.a «ki]
vras, R. produz também sentenças mais longas, em que o acento de palavra Esse É peQUEno e EU PUS aQUI
R: [e.vsε.pe «ke.nuj.ew.«pujs.a«ki] 2;6.12
do contexto de sândi não necessariamente é sobreposto pelo acento (98)
entonacional. [«nãw) «kε.‫ש‬we.sja.«ki] [«é.«kε.sja.«ki] 1;11.12
NÃO QUEro Esse aQUI
(87) [«tЀi.¯a.«a.gwa] [«tЀi.¯a.«a.ga] 1;11.12
TInha Água Os exemplos (92)(98) são contextos em que o adulto aplicaria
(88) [ka.«de.«e.l‫]گ‬ [ka.«de.«e.l‫]گ‬ 2;6.12 ditongação e R. aplicou elisão. Nos casos (91)(95) e segundo contexto de
caDÊ Ele
(89) [de.«pojs.«ε.«es.tЀ‫]گ‬ [de.«pojs.ε.«es.tЀ‫]گ‬ 2;6.12 (96), R. manteve a vogal /a/ independentemente de ela estar na primeira
dePOIS É ESte ou na segunda sílaba. Nos dados (96)(97), R. aplica elisão quando a pri-
(90) [«sç.«i.sU] [«sç.«i.sU] 2;6.12 meira vogal tem o traço [+anterior]. Em (98), em vez de aplicar a regra de
SÓ Isso
(91) [u.«kjε.«e.si] [u.kε.«e.si] 1;11.12 sândi, ela apaga as duas sílabas do contexto. Estes dados mostram que R.
O que É Esse ainda não domina as propriedades segmentais das regras de sândi externo.

Nos dados de (87) a (91), R. não aplica nenhuma regra de sândi, da Outro aspecto importante a ser observado nos dados acima é que, em
mesma forma que adultos não o fariam. Embora os contextos segmentais nenhum desses dados as regras de sândi são utilizadas para uma otimização
permitissem a aplicação das regras, o fato de que em (87)(90) e no segun- rítmica. Observe que, nos casos de (93) e primeiro contexto de (95), a
252 Raquel Santana Santos O acento e a aquisição da linguagem em português brasileiro 253

melhor opção rítmica seria não aplicar nenhuma regra, o que levaria a (102)
[«sç.a.«xojs] [«sç.a.«xojs] 3;0.15
uma alternância forte-fraca-forte-fraca. No entanto, R. aplica elisão e gera SÓ Arroz
a seqüência forte-forte-fraca-forte. (103)
[a.«ke.l‫گ‬.k‫گ‬.«põj.ka.nu.«dЋ«.¯wa.«s«)]
No entanto, há casos em que R. obedece tanto às propriedades aQUEle que PÕE canuDInho aSSIM
prosódicas quanto segmentais das regras, como é possível observar nos se- R: [a.«ke.l‫گ‬.k‫گ‬.«põj.ka.nu.«dЋ«.¯wa.«s«)] 3;0.15
(104)
gundos contextos de (97)(98) e nos exemplos a seguir: [vo.ko.«me.«tu.dwa.ko.«mi.da.da.da.ni.«ε.la]
(99) VOU coMER TUdo a coMIda da daniEla
[«es.tSja.«kI] [es.tSja.«kI] 2;6.12 R: [vo.ko.«me.«tu.dwa.ko.«mi.da.da.da.ni.«ε.la] 3;0.15
ESte aQUI
Cumpre chamar a atenção que em todos os dados (101)(104), a estru-
(100)
[ka.«de.u.t‫ש‬e).j.«z«.¯u] ~ [ka.«dew.t‫ש‬e).j.«z«.¯u] tura rítmica é otimizada. Em (101)(103), o resultado é forte-fraco-forte.
caDÊ o trenZInho Em (104), depois da aplicação da ditongação, o resultado é forte-fraco-
R: [ka.«dew.t‫ש‬e).j.«z«.¯u] 2;6.12 fraco-forte. Embora não seja ritmicamente perfeita, esta seqüência é me-
A aplicação de ditongação por R. nos dá mais detalhes sobre o tipo de acen- lhor do que sem a aplicação da regra: forte-fraca-fraca-fraca-forte. Alguém
to com que R. está lidando. Os dados em (91), (96)(97) são contextos em que a poderia argumentar que se a ditongação não fosse aplicada, seria possível
segunda sílaba carrega acento primário, mas não acento entonacional. Em to- acentuar a segunda sílaba fraca e criar uma seqüência ótima. No entanto,
dos esses casos, R. aplica a ditongação. Em (83)(84) e (87), onde a segunda esta segunda sílaba é o determinante a, um clítico fonológico que não
sílaba também carrega acento entonacional, R. não aplica nenhuma regra. Estes poderia nunca carregar o acento.
dados evidenciam que a proeminência com que R. está lidando para bloquear a O dado (105) abaixo mostra um caso em que os adultos aplicariam a
regra de sândi é o acento entonacional e não o acento primário. regra e o resultado seria uma seqüência menos eurrítmica. Não há nada
b) Estágio II: que bloqueie a aplicação da ditongação nesse contexto. Mesmo assim, R.
não aplica a regra e seu enunciado é mais eurrítmico do que o do adulto:
Neste estágio as regras ainda são instáveis, usadas algumas vezes de
(105)
maneira diferente dos adultos. A diferença deste estágio e do anterior é que [«faz.«u.ma.«mas.ka.Ra.k‫گ‬.pa.«RE.«sju.ma.ba.«ta.ta]
as regras são usadas para a otimização rítmica. FAZ Uma MÁScara que paREce Uma baTAta
R: [«faz.«u.ma.«mas.ka.Ra.k‫گ‬.pa.«RE.s‫گ‬.«u.ma.ba.«ta.ta] 3;0.15
Os dados (101)(103) mostram que, como os adultos, R. não aplica
nenhum processo de sândi nestes casos. Os dados (103)(104) mostram a Os dados (101)(105) mostram que R. ainda não domina todas as pro-
aplicação de regras. É interessante que (103)(104) têm o mesmo contexto: priedades das regras de sândi. Ela obedece às propriedades referentes às
as mesmas vogais e as mesmas proeminências acentuais. Em (103), no proeminências envolvidas, mas desobedece (ou como veremos na seção
entanto, embora o contexto seja favorável à ditongação, R. aplica elisão e, abaixo, não leva em consideração) às propriedades segmentais dessas re-
novamente, mantém a vogal [+posterior] que aparece na segunda posição. gras. Em todos os exemplos, as regras são usadas para a otimização rítmica.
Em (104), ela aplica a ditongação, como os adultos escolheriam: c) Estágio III:
(101)
[«sa.be.«ke).«Sã.ma.«e.s‫]گ‬ [«sa.be.«ke).«Sã.ma.«e.s‫ ]گ‬3;0.15 Este é o período em que R. aplica as regras como os adultos. As
SAbe QUEM CHAma Esse regras são estáveis, não há apagamento errado de segmentos nos casos
254 Raquel Santana Santos O acento e a aquisição da linguagem em português brasileiro 255

de elisão e degeminação e as regras não necessariamente tornam os (1999) afirmaram que a aplicação das regras de elisão e degeminação por R.
outputs mais eurrítmicos. era instável aos 2;0, mas não explicam o que significa esta instabilidade.
Olhando para os dados de um período de tempo maior, podemos identificar
Os dados (106)(109) são exemplares da aplicação de regras de sândi por
que instabilidade é essa, ou, melhor dizendo, no que a aplicação das regras
R. aos 3;6. Como é possível observar, em (106)(107), temos contextos para a
de sândi por R. é diferente do modo como os adultos as aplicam.
aplicação de ditongação. Embora tenhamos visto que R. obedece ao blo-
queio de aplicação de regra de sândi desde o primeiro estágio, (108)(109) O primeiro desvio quanto ao modelo adulto está na escolha das regras
formam um par mínimo que ilustra o bloqueio da regra quando a segunda a serem aplicadas. Como vimos, quando as sílabas do contexto envolvem
sílaba porta o acento entonacional. Nas duas sentenças, as sílabas do contex- vogais diferentes, pode-se aplicar a ditongação ou elisão. Levando-se em
to são acentuadas e a segunda tem o traço [+alto]. Entretanto, em (109), a consideração o fato de que a ditongação pode ocorrer entre sílabas acentu-
segunda sílaba carrega a proeminência acentual, que bloqueia a regra, en- adas (desde que não portem acento entonacional), ela tem mais contextos
quanto em (108) a segunda sílaba porta apenas o acento primário. R. aplica de aplicação do que a elisão, que só é aplicada se a primeira sílaba for
corretamente a ditongação em (108) e a bloqueia em (109): fraca. Bisol (2003) afirma que a ditongação é a regra preferida pelos adul-
tos. No entanto, como vimos nos dois primeiros estágios, R. freqüentemente
(106)
[«te)j.é.ma.Ѐu.ka.«d«.ْwa.«ki.ke.«pa.sa.sa«bãw] aplica a elisão. A questão é por que isso ocorre.
TEM Um machucaDInho aQUI que PAssa saBÃO
R: [«te).é.ma.Ѐu.ka.«d«.ْwa.«ki.ke.«pa.sa.sa«bãw] 3;6.23 Quando olhamos para o período em que R. aplica a elisão em vez da
(107) ditongação, observamos que, neste período, R. não produz sílabas com
[«sejs.ke.«sew.de.me.da.xe.«mϯ.dju] onset ramificado. Santos (1998) e Mezzomo & Menezes (2001) propõem
voCÊ esqueCEU de me DAR reMÉdio
R: [«sejs.ke.«sew.de.me.da.xe.«mϯ.dju] 3;6.23 a seguinte seqüência no desenvolvimento da estrutura silábica no portu-
(108) guês brasileiro: V, CV >> CVC, CVVglide >> CVglideV, CCV. Especificamente para
[«nãw.«pѐ.dЋ‫گ‬.la.«va.e.s‫گ‬.«pϯ] [«na)w.«pѐ.dЋ‫گ‬.la.«vaj.s‫گ‬.«pϯ] 3;6.23 R., estrutura silábica aparece nas idades apresentadas na tabela 4:
NÃO POde laVAR Esse PÉ
(109) V CV CVC CVV CCV
[«na)w.«pѐ.dЋ‫گ‬.la.«va.«‫ש‬e.s‫]گ‬ [«na)w.«pѐ.dЋ‫گ‬.la.«va.«e.s‫]گ‬ 3;6.23
NÃO POde laVAR Esse inicial medial Inicial e Ditongo Ditongo
medial decrescente crescente
pesado leve
3.3. Diferenças no uso que os adultos e as crianças fazem
das regras de sândi idade 1;5 1;11 1;5 1;11 1;6 1;5 2;0 2;0

Os dados apresentados na seção anterior mostram que as regras de sândi Tabela 4: Aquisição da estrutura silábica por R.

não são adquiridas de uma vez, mas que as propriedades das regras vão sen- Como se pode ver na tabela 4, as estruturas CCV aparecem na fala de R.
do adquiridas durante o processo de aquisição da linguagem. Como foi pos- aos 2;0, ao mesmo tempo que os ditongos crescentes. O fato de os dois
sível observar, as propriedades relacionadas às proeminências são as primei- tipos de estrutura aparecerem ao mesmo tempo corrobora a proposta de
ras a ser obedecidas. Também foi possível observar que, embora a aplicação Bisol (1989) de que o glide dos ditongos crescentes preenche a posição de
das regras ocorra desde as primeiras combinações de palavras, elas não o são onset, criando um onset ramificado. Os dados apresentados na seção ante-
da mesma forma que os adultos. Scarpa (1997) e Galves, Abaurre & Scarpa rior mostram que R. aplica elisão — que gera uma estrutura CV — em vez
256 Raquel Santana Santos O acento e a aquisição da linguagem em português brasileiro 257

de ditongação — que gera uma estrutura CVglideV — aos 1;11, mas com tação rítmica. Como foi possível observar, o uso das regras de sândi para a
pouca freqüência aos 2;6. Assim, podemos dizer que R. escolhe aplicar otimização rítmica varia durante o processo de aquisição. Em um primeiro
elisão em vez de ditongação não por causa das regras envolvidas, mas por- momento (1;8 e 1;11) as produções de R. não são necessariamente mais
que ela ainda não adquirira a estrutura silábica necessária que a aplicação eurrítmicas. Pelo contrário, elas resultam em encontros acentuais [cf. (88)]
da ditongação geraria. Quando esta estrutura silábica torna-se disponível, ou lapsos [cf. (85)]. A partir de 2;6, os enunciados tornam-se mais eurrítmicos,
R. começa a aplicar a ditongação. e as 3;0 todos os enunciados de R. que sofreram regras de sândi tornam-se
Outra diferença em relação à fala adulta está no fato de que R. aplica a mais eurrítmicos. O dado (105), por exemplo, é um caso em que o adulto
elisão desobedecendo aos contextos segmentais. Como visto, o contexto aplicaria a ditongação, mas criaria um encontro acentual. R. não aplica a
da elisão é que a primeira vogal seja fraca e [+ posterior] e a segunda vogal regra e seu enunciado tem a forma de uma seqüência forte-fraca-forte-fraca.
não seja /a/. No entanto, os dados (92)(93), (96) e (107) envolvem a vogal
/a/ na segunda sílaba, e os dados (91), (94) e (97) são casos em que a
primeira vogal é [+ anterior]. Embora todos os dados obedeçam à exigên- 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
cia de que a primeira vogal seja fraca, as propriedades segmentais violam
Neste capítulo, discutimos a aquisição do acento por crianças adquirindo
as exigidas pela elisão. Nossos dados indicam que a aquisição das regras
o PB. Os dados de aquisição, em geral, ajudam a separar teorias diferentes, quer
não se dá de uma vez, mas aos poucos. R. não domina todas as exigências
corroborando-as, quer refutando-as. É o que ocorre com a análise que fizemos
das regras de uma vez, e os aspectos prosódicos são privilegiados no pro-
para o acento primário do português. Os dados apresentados apontam que
cesso de aquisição, sendo os primeiros a serem adquiridos. Isto é, embora
uma teoria que assuma o pé iâmbico dá mais conta dos dados de aquisição.
R. já tenha o inventário fonológico do português brasileiro (alguns dos
exemplos aqui discutidos são de quando ela tem 3;0 anos), ela ainda não A utilização de dados para confirmar ou desconfirmar propostas tam-
incorporou as propriedades das vogais nas regras de sândi. bém leva em conta as línguas específicas. Como vimos, a proposta de uni-
Essa sensibilidade à prosódia desde um período bem inicial está em conso- versalidade de um arcabouço trocaico também não se sustenta. Embora
nância com vários estudos sobre a sensibilidade à prosódia por crianças bem sirva para explicar os dados de línguas germânicas, é desconfirmada quan-
novas. Alguns estudos mostram que a aquisição das propriedades segmentais do se olha para os dados do português brasileiro. Propomos, alternativa-
está relacionada com os domínios prosódicos. Hernandorena (1990), por exem- mente, que não haja uma marcação inicial (trocaica ou iâmbica). Esta
plo, mostra que a aquisição de consoantes está relacionada com sua posição na marcação é feita bem inicialmente pelas crianças, quando exposta à língua
estrutura silábica, e Marshal & Chiat (2003) e Morrisette, Dinnsen & Gierut que estão adquirindo.
(2003) apontam que as substituições consonantais ocorrem no nível do pé. Vimos que as crianças começam utilizando a proeminência entonacional
No que respeita à aquisição segmental, Vihman (1996) mostra que a no lugar do acento de palavra e que aos poucos ela vai marcando os valores
organização fonológica começa quando a criança já demonstra arcabouços dos parâmetros responsáveis pela marcação do acento de palavra.
prosódicos (sílabas, palavras). E Mattys, Jusczyk, Luce & Morgan (1999)
Finalmente, discutimos neste capítulo a aquisição de processos
mostram que, quando pistas fonotáticas e prosódicas se contradizem, crian-
fonológicos que alteram o ritmo dos enunciados. Como vimos, as caracte-
ças de 9 meses se baseiam nas pistas prosódicas para segmentar palavras.
rísticas destes processos não são adquiridas todas de uma única vez. Antes,
Finalmente, uma terceira diferença na aplicação das regras de sândi por características prosódicas, como o bloqueio do processo quando há um
R. em relação à fala adulta está no uso das regras de sândi para a implemen- acento entonacional envolvido, são adquiridas primeiro. Vimos também
258 Gisela Collischonn

que as crianças, enquanto não adquiriram todas as propriedades dos pro-


cessos, trocam um processo por outro. Especificamente, elas trocam a BIBLIOGRAFIA
ditongação pela elisão, seguindo um caminho contrário ao da fala adulta
(que privilegia a primeira). Como apontado, a causa para a substituição da
ditongação encontra-se não no processo em si, mas no fato de que a crian-
ça ainda não adquiriu a estrutura silábica necessária para o mapeamento
de uma sílaba com onset ramificado.

Ainda há muito a ser descoberto sobre a aquisição prosódica em geral e ABREVIATURAS


sobre o PB em particular. A expectativa é que este capítulo sirva como um APL Associação Portuguesa de Lingüística
BL Boletim de Filologia
convite para que outros pesquisadores se somem à empreitada. CEL Cadernos de Estudos Lingüísticos
CJL Canadian Journal of Linguistics
DELTA Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada
EPA Estudos Portugueses e Africanos
JCL Journal of Child Language
JP Journal of Phonetics
LG Language
LH Letras de Hoje
LI Linguistic Inquiry
LT Linguistic Theory
PY Phonology Yearbook
REL Revista de Estudos da Linguagem
RL Rivista de Linguistica
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ESTA OBRA FOI COMPOSTA EM ACASLONM 11/15 E
IMPRESSA PELA GRÁFICA ?????? EM CHAMOIS BULK
80G. DA RIPASA PARA A PARÁBOLA EDITORIAL EM
JULHO DE 2007.