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As Tecnologias da Informação e da Comunicação - TICs - compõem dispositivos-chave para a


compreensão do momento histórico entendido como Sociedade da Informação. Os sujeitos que
nessa sociedade vivem já não são mais os mesmos; tem seus desejos e suas práticas alterados, a
todo instante, por informações que a eles chegam através da internet, do celular, da televisão e de
tantas outras tecnologias.

Pierre Lèvy (1997) discute a problemática da sociedade de informação dentro de uma perspectiva
que considera que, numa sociedade em rede, todo indivíduo é um disseminador e informação,
caracterizando-se como um ͞nó͟ numa imensa teia de informação. Esta ͞sociedade em rede͟ torna
insignificantes as distâncias geográficas e permite que se encontrem pessoas com interesses em
comum, síncrona ou assincronamente.

Na visão de Lèvy, a sociedade de informação é viabilizada pelo ciberespaço, definido como um


espaço de comunicação aberto pela interligação mundial dos computadores e das memórias
informáticas. Diferentes tipos de dispositivos tecnológicos tornam possível o acesso a este espaço: o
computador pessoal ʹ o , o celular, o   e outros aparatos. Os dados acessíveis por
tais dispositivos circulam em diferentes formatos (texto, imagem, vídeo), caracterizando assim um
ambiente essencialmente multimidiático.

Estas transformações contemporâneas compõem o que Lèvy chama de cibercultura. Antes de nos
aprofundarmos neste conceito, torna-se necessário introduzir uma discussão acerca do que se
entende, aqui, por cultura.

Na visão do antropólogo Clifford Geertz, a falha da antropologia tradicional está em buscar


͞universais fixos͟:

͙ pode ser que nas particularidades culturais dos povos ʹ nas suas esquisitices ʹ sejam
encontradas algumas das revelações mais instrutivas sobre o que é genericamente humano.
E a principal contribuição da ciência antropológica à construção ʹ ou reconstrução ʹ de um
conceito do homem pode então repousar no fato de nos mostrar como encontrá-las.
(GEERTZ, 1989, p.22)
Lèvy (1997), de certa forma, discursa de forma consoante à fala de Geertz, quando afirma que a
cibercultura é um espaço de ͞universalidade sem totalidade͟. A cibercultura é universal porque
promove a interconexão convergente e generalizada, mas comporta uma diversidade de sentidos
que dissolve a totalidade. Em outras palavras: a interconexão mundial de computadores forma a
rede, mas cada nó dela é produtor de heterogeneidade e diversidade de assuntos, abordagens,
discussões e desejos, sempre em renovação. Esta renovação constante se dá de cada nó em direção
à rede e da rede de volta ao nó: ͞O dentro detém o fora e o fora desmancha o dentro͟ (ROLNIK,
1997, p.27)

Retomando a visão de Geertz, a cultura não deve ser vista como um padrão concreto de
comportamento ʹ costumes, usos e tradições de um determinado povo ʹ mas sim como um
conjunto de mecanismos de controle ʹ planos, receitas, regras, diretrizes e instruções aos quais o
indivíduo se sujeita.

Historicamente, estes processos de sujeição e controle dos indivíduos tem se desenvolvido de


diversas formas, das mais concretas (atuando sobre os corpos) às mais sutis (que controlam suas
almas e intelecto).

Na contemporaneidade, a sociedade disciplinar diagnosticada por Michel Foucault dá lugar à


sociedade de controle, delineada por Gilles Deleuze (1992), para quem a autoridade, antes exercida
por agentes humanos ou instituições disciplinadoras, cede lugar a um controle pulverizado, não-
personalizado, exercido através de diferentes tecnologias. O exercício deste controle pode se dar
através das mesmas tecnologias que possibilitam o advento da Sociedade da Informação.Para
Deleuze, a sociedade do controle era o que Foucault anunciava como o nosso futuro próximo, o que
em termos práticos significa que as tecnologias que nos vigiam não são mais visíveis e imóveis, mas
difusas, não exigindo do sujeito o confinamento, mas permitindo controle dinâmico pela mobilidade.
Em parte, a ausência de resistência a estas tecnologias de controle se dá pela sensação de autonomia
que provoca no sujeito conectado, que se sente ativo, controlador de sua própria identidade dentro
destes espaços.

Na Internet não há tutor, professor, pai, chefe ʹ em certa medida anda-se como se quer,
busca-se o que se quer. Isto frutifica facilmente no abuso da liberdade (pornografia, por
exemplo, ou plágio). Por isso mesmo, os jovens preferem o mundo virtual ao da escola,
também porque este lhes parece ultrapassado. Os jogos ͞bons͟ transmitem a sensação de
autoria (fazer um ͞avatar͟, mudar regras do jogo, modificar os cenários, discutir on-line,
etc.), algo que a escola não está conseguindo. (DEMO, 2006, p. 23)

Pierre Lèvy (2001), por outro lado, acredita que é justamente o caráter polifônico, descentralizado da
rede que possibilita que os indivíduos exercitem ações de resistência a este controle, tornando
possível, assim, que se tire proveito da facilidade de acesso à informação para subverter a tentativa
de disciplinarização imposta.

Nos últimos anos, a Internet tem mudado significantemente a maneira como os brasileiros ʹ em
especial as parcelas mais jovens da sociedade ʹ adquirem informações e relacionam-se socialmente.
Os relatórios do IBOPE / NetRatings apontam que, em dezembro de 2008, o Brasil já atingia a marca
de 24,5 milhões de usuários residenciais ativos de internet, valor que caracteriza um aumento de
14,7% em relação ao mesmo mês de 2007. Este valor também indica que o número de internautas
residenciais dobrou em três anos. Ao considerarmos os usuários que acessam a internet no seu local
de trabalho, em escolas, lan houses, bibliotecas e telecentros, o número de pessoas de 16 anos ou
mais de idade com acesso aumenta para 43,1 milhões.

O mesmo relatório mostra que cerca de 15 milhões de usuários residenciais brasileiros navegam em
comunidades (incluindo redes sociais, bate-papos, fóruns e blogs), o que equivale a cerca de 80% do
total de internautas ativos domiciliares. Desses, mais de 13 milhões (70% do total de usuários)
entraram em redes sociais.

Esta presença crescente dos brasileiros na Internet e nas Redes Sociais torna urgente que a pesquisa
em educação passe a refletir sobre estes novos territórios que se configuram na sociedade de
informação. A utilização das tecnologias nos ambientes educacionais já é bastante significativa, e
tende a crescer cada vez mais rapidamente. No entanto, o modelo que prepondera ainda é aquele
baseado no instrucionismo, onde imperam as cópias e as receitas prontas. Acerca deste ponto, Pedro
Demo comenta:

Esse problema, contudo, só pode ser resolvido com aprendizagem autêntica. E como
aprendizagem virtual autêntica deve-se entender aquela de estilo reconstrutivo,
interpretativo, aquela que é geradora de autoria. Em outras palavras: deve ajudar a criar, e
não virar um mecanismo de mera replicação de conhecimentos sem fonte definida. (DEMO,
2006)

O modelo de realização desta nova educação deve, portanto, considerar o que há de específico na
linguagem da rede e utilizá-la em favor de novas produções de sentido e de vida; este modelo não
deve seguir a hierarquia da árvore-raiz, mas a pluralidade do rizoma. Enquanto o modelo da árvore-
raiz é ͞decalque͟, reproduçãoVV    , o rizoma é mapa, ͞voltado para uma experimentação
ancorada no real͟, aberto, desmontável, reversível, sujeito a modificações permanentes, sempre
com múltiplas entradas, ao contrário do decalque, que ͞volta sempre ao mesmo͟. (DELEUZE e
GUATTARI, 1995)

  



 

Os conceitos de ͞sociedade͟ e ͞rede͟ são indissociáveis; sempre nos agrupamos em redes, desde o
começo dos tempos. Estamos todos conectados por diversos fatores combinados: nossos anseios,
interesses e desejos nos unem. Assim posto, fica claro que as redes não são novidades. A novidade
está na sua virtualidade.

Pierre Lèvy (2001) acredita que "A virtualidade não tem absolutamente nada a ver com aquilo que a
televisão mostra sobre ela. Não se trata de modo algum de um mundo falso ou imaginário. Ao
contrário, a virtualização é a dinâmica mesma do mundo comum, é aquilo através do qual
compartilhamos uma realidade". O virtual, desta maneira, não é antagônico ao real; é parte do que
chamamos de real. O virtual existe enquanto oposição ao atual, ao presencial. É um espaço de
significado simbólico que representa uma nova geração de sistemas de comunicação.

As diversas formas de comunidades virtuais, o protocolo P2P, os fóruns temáticos, a explosão dos
blogs e wikis, as febres do Orkut, Facebook e Twitter são prova de que o ciberespaço se transformou
em uma ͞Central de Distribuição de Sentidos͟ (ROLNIK, 1989). Os espaços viabilizados pelos sites de
redes sociais reúnem milhões de usuários, em busca de novos laços ou procurando o fortalecimento
daqueles que já existem.

Howard Rheingold (1993) fala das comunidades virtuais não apenas como espaços para encontro,
mas também como um meio utilizado pelas pessoas para atingirem diversos fins. Steven Johnson
(2001) compartilha, igualmente, dessa visão:

Podemos ver os primeiros anos da web como uma fase embrionária, evoluindo através de
seus antepassados culturais: revistas, jornais, shoppings, televisões etc. Mas hoje já há algo
inteiramente novo, uma espécie de segunda onda da revolução interativa que a computação
desencadeou: um modelo de interatividade baseado na comunidade, na colaboraçãomuitos-
muitos. (JOHNSON, 2001,  )

Para Felix Guatarri, a informática e a tecnociência são formas hiperdesenvolvidas da própria


subjetividade, entendidos aqui como territórios existenciais em uma formação histórica específica.
Na constituição desta subjetividade, estão incluídos elementos do contexto histórico (componentes
semiológicos significantes que se manifestam através da família, educação, esporte, cultura, meio
ambiente, arte e religião) o desenvolvimento em escala das produções maquínicas de subjetividade
(elementos fabricados pela indústria das mídias, cinema, máquinas lingüísticas etc. e por último, os
aspectos etológicos e ecológicos relativos à subjetividade humana, a ecologia social e a ecologia
mental.

Por subjetividade entendemos um conjunto de condições que torna possível que instâncias
individualistas e/ou coletivas estejam em posição de emergir como território existencial
auto-referencial em adjacência ou em relação com uma alteridade ela mesma subjetiva
(GUATARRI, 1992, p.19)

Os territórios por onde circulávamos ʹ tão bem definidos quando a lógica dominante era disciplinar ʹ
parecem dissolver-se. O lugar da produção da subjetividade na contemporaneidade já não é mais um
espaço determinado, e tampouco é um espaço que possa ser caracterizado como único. O ͞regime
de colaboração muitos-muitos͟ gera uma polifonia muito rica, articuladora da diferença, e ao mesmo
tempo sujeitada a um controle invisível.

O território pode ser relativo tanto a um espaço vivido, quanto a um sistema percebido no
seio da qual um sujeito se sente ͞em casa͟. O território é sinônimo de apropriação, de
subjetivação fechada sobre si mesma. Ele é o conjunto de projetos e representações nos
quais vai desembocar, pragmaticamente, toda uma série de comportamentos, de
investimentos, nos tempos e nos espaços sociais, culturais, estéticos, cognitivos (GUATTARI e
ROLNIK, 1986, p.323).

Estes tempos e espaços sociais e culturais que constituem possibilidades para a construção de
territórios vem sendo investigados, na contemporaneidade, por um viés etnográfico que dá conta de
um conceito de cultura como mecanismo de controle. Dentro desta perspectiva, o pensamento
humano é baseado em um tráfego público de símbolos (no sentido semiótico) ʹ palavras, gestos,
objetos ou qualquer coisa que seja usada para exteriorizar uma experiência.
Em se tratando das novas subjetividades (con)formadas através das tecnologias de informação e
comunicação, a Etnografia Virtual ʹ uma adaptação das ferramentas do tradicional método
etnográfico para o estudo de comunidades e culturas que formam-se e manifestam-se no
ciberespaço ʹ pode ser considerada como uma abordagem apropriada, ao contemplar estudos
comportamentais dos usuários considerando a maneira própria com que as pessoas vêem a si
mesmas, suas experiências e o mundo que as cerca.

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A etnografia é um método de pesquisa desenvolvido pelos antropólogos para estudar culturas e


sociedades. Etimologicamente, etnografia significa "descrição cultural". Para os antropólogos, o
termo tem dois sentidos:

(1) Um conjunto de técnicas que eles usam para coletar valores sobre os valores, os hábitos, as
crenças, as práticas e o comportamento de um grupo social; e

(2) Um relato escrito resultante do emprego destas técnicas. (ANDRÉ, 1995)

Clifford Geertz considera que a etnografia deve ser uma ͞descrição densa͟, capaz de dar conta as
diversas estruturas conceituais e significativas que constituem as ações humanas.

Em contraste com a descrição superficial, a descrição densa é aquela que consegue


diferençar ações que, no nível fenomênico, parecem iguais, mas que têm significados
diferentes (duas contrações de pálpebras, por exemplo; uma pode ser um sinal conspiratório,
que leva em consideração a conduta de um interlocutor, sendo, assim, ação social; uma
outra pode ser um mero tique nervoso, que o indivíduo executa involuntariamente, sem
fazer referência a qualquer pessoa). (GEERTZ, 1989)

A etnografia, portanto, pode ser vista como uma constante leitura dos ͞textos͟ que circulam pelo
campo de estudo. Geertz esclarece de forma enfática que fazer ͞etnografia é como tentar ler (...) um
manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários
tendenciosos, escritos não com os sinais convencionais do som, mas como exemplos transitórios de
comportamento modelado͟ (op. Cit.).

De acordo com o conceito de cultura como controle, Hymmes e Goffman (1981) entendem que,
quando um grupo de indivíduos se reúne, uma ordem social é desenvolvida para este grupo
particular de indivíduos. A etnografia está interessada no micro significado desta produção de
subjetividades para estas pessoas em particular. Existe este interesse geral de relacionar o que
vemos com todos os outros modos de ser e fazer que nós conhecemos, mas existe também o
interesse no estudo de caso local, de ser específico sobre o significado das relações micropolíticas de
um grupo particular de pessoas. A pesquisa etnográfica se interessa por alguma coisa que é universal
sobre a linguagem enquanto ela mesma, na forma que a conhecemos- mas só podemos aprender
sobre a universalidade estudando os casos particulares. Em cada caso, estamos vendo um universal
concreto (ERICKSON, 1986 apud MATTOS, 2001).
Dentro do campo da pesquisa em educação, a apropriação da etnografia coincide com a percepção
da escola como um ͞espaço social em que ocorrem movimentos de aproximação e afastamento,
onde se produzem e reelaboram conhecimentos, valores e significados.͞ (ANDRÉ, 1995)

Esse tipo de pesquisa nos ajuda a chegar mais perto da escola para entender como operam,
no seu dia a dia, os mecanismos de dominação e resistência, de apropriação e rejeição, ao
mesmo tempo em que são veiculados e reelaborados conteúdos, atitudes, modos de ver e
sentir a realidade e o mundo. (ANDRÉ, 1995b)

A pesquisa etnográfica, portanto, permite ao pesquisador visualizar as relações e tensionamentos


praticados no dia-a-dia do processo de ensino-aprendizagem, possibilitando contato direto com a
constituição dassubjetividades nestas situações.

HALL (1978) apud LÜDKE e ANDRÉ (1986) listou um conjunto de características essenciais em um
etnógrafo. De acordo com ele, é necessário que o pesquisador apresente capacidade de tolerar
ambiguidades, de trabalhar sob sua própria responsabilidade e de guardar informações
confidenciais. Além disso, o pesquisador deve manter um certo distanciamento ʹ que não significa
neutralidade ʹ para manter o rigor. Ele deve lidar com percepções e opiniões já formadas,
reconstruí-las em novas bases, considerando as experiências pessoais, o referencial teórico e os
procedimentos metodológicos específicos, ͞ultrapassando seus métodos e valores, admitindo outras
lógicas de pensar e entender o mundo͟ (DAUSTER, 1989 apud ANDRÉ, 1998 p. 104).

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O termo ͞netnografia͟ ou etnografia virtual foi cunhado a partir da década de oitenta por Robert V.
Kozinets (1998), especialista em marketing com interesse especia eml cibermarketing. Segundo o
autor, a netnografia, ou etnografia virtual, é

Uma descrição escrita resultante do trabalho de campo que estuda as culturas e


comunidades on-line emergentes, mediadas por computador, ou comunicações baseadas na
Internet, onde tanto o trabalho de campo como a descrição textual são metodologicamente
conduzidas pelas tradições e técnicas da antropologia cultural. (KOZINETS, 1998)

Nas ciências sociais o termo ͞etnografia virtual͟ parece ser melhor aceito ʹ possivelmente em uma
tentativa de diferenciar o método de pesquisa de uma ͞ferramenta͟ desenvolvida para a pesquisa
em marketing. Williams (2007) utiliza o termo ͞etnografia virtual͟, concluindo que as novas
tecnologias de difusão da informação e a expansão dos ambientes online requerem métodos de
͞pesquisa online͟ adaptados e pertinentes a esta realidade. Já Amaral et al (2008) utilizam o termo
͞netnografia͟, e falam sobre o delineamento deste campo de estudo no Brasil:

Essa vertente metodológica começou a ser explorada a partir do surgimento de comunidades


virtuais, no final dos anos 80. No Brasil, entretanto, ainda são poucos os estudos voltados
para essa questão, seja no que diz respeito à metodologia em si ou aos objetos analisados. Sá
(2002) discutiu a questão da aplicação da metodologia para a compreensão das redes
digitais. Montardo e Rocha (2005) questionaram a pertinência dos estudos netnográficos ao
campo da comunicação e da cibercultura. Duarte (2008) apropriou-se do método para
análise das comunidades de cosplayers do Orkut. Por sua vez, Amaral (2008) enfatiza o
caráter mais imersivo do pesquisador, no que constitui uma reflexão sobre esse nível de
aproximação entre pesquisador-objeto, designada como autonetnografia (2008). (AMARAL et
al, 2008)

Independente do termo utilizado, um fato interessante a se considerar é que o incremento de


pesquisas de cunho antropológico no ciberespaço é um sinal de que a Internet não é mais apenas
considerada um artefato cultural passando a ser considerada também como um contexto cultural (ou
espaço por onde se configuram territórios e subjetividades).

Na visão de Kozinets (1997), a netnografia pode ser utilizada de três maneiras:

a) como metodologia para estudar comunidades virtuais puras; b) como metodologia para estudar
comunidades virtuais derivadas; c) como ferramenta exploratória para estudar diversos assuntos.

Para este autor, as comunidades virtuais puras são aquelas cujas únicas interações se dão nas
comunicações mediadas pelo computador. Neste caso, os estudos ͞devem ser baseados
fundamentalmente numa participação direta e total imersão (do pesquisador) nestas culturas͟. Por
outro lado, quando as comunidades se manifestam no ciberespaço e também na ͞atualidade͟, elas
são consideradas derivadas. Neste caso, a netnografia deve ser utilizada como parte do método,
atuando em conjunto com entrevistas presenciais ou por telefone e grupos de discussão. (KOZINETS
1997, p.87).

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A netnografia mantém as premissas básicas da pesquisa levantadas a partir dos trabalhos de Geertz
(2001): manter postura inicial de estranhamento do pesquisador em relação ao objeto; consideraros
aspectos subjetivos da situação investigada; considerar os dados resultantes como interpretações de
segunda e terceira mão; e considerar o relato etnográfico como sendo de textualidades múltiplas.
Por se tratar de uma transposição de metodologia do espaço físico ao espaço on-line, ao utilizar a
netnografia faz-se necessário incluir procedimentos específicos acerca da tipologia dos objetos
estudados (AMARAL et al, 2008).

Para Amaral et al (2008), uma das maiores riquezas da etnografia virtual é a capacidade do método
de dar conta de diferentes contextos (uma vez que não existe uma cultura do ciberespaço, mas uma
polifonia de culturas):

Uma etnografia virtual pode observar com detalhe as formas de experimentação do uso de
uma tecnologia, se fortalecendo como método justamente por sua falta de receita, sendo um
artefato e não um método protocolar, é uma metodologia inseparável do contexto onde se
desenvolve, sendo considerada adaptativa. (AMARAL et al, 2008)

Para Kozinets (1997), a netnografia exige combinação entre participação imersa e observação
cultural com relação às comunidades pesquisadas, sendo que o pesquisador deve ser reconhecido
como um membro da cultura. Em relação à coleta de dados, Kozinets também destaca que as notas
de campo das experiências no ciberespaço que devem ser combinadas com os ͞artefatos͟ da cultura
ou comunidade, como arquivos ͞baixados͟, postagens em newsgroups, transcrições de sessões de
bate-papo, postagens e comentários em blogs, trocas de e-mails, além de imagens e arquivos de
áudio e de vídeo. Nesse sentido, Kozinets (2002) destaca que uma das vantagens é que as entrevistas
netnográficas já ͞vem transcritas͟ e dessa forma não se tem uma dependência tão grande da
memória do netnógrafo.

Kozinets (op. Cit.) , enquanto ͞criador͟ do método, também fala da necessidade de submissão do
pesquisador a questões de ética na pesquisa. O pesquisador precisa ter consciência do conceito de
público e privado e respeitar estes limites, obtendo o consentimento do informante para expor
informações a respeito de qualquer tipo de conteúdos produzidos por ele.

O autor aponta quatro aspectos a serem levados em conta pelo pesquisador a fim de reconhecer
uma comunidade virtual, de forma que os sujeitos de pesquisa sejam analisados em contexto com os
territórios onde interagem:

a) familiarização entre os indivíduos; b) compartilhamento de linguagens, normas e símbolos


específicos; c) revelação das identidades; d) manutenção e preservação do grupo pelos participantes.

A partir dessa validação da comunidade e de seus membros, Kozinets (2007) recupera os quatro
procedimentos básicos de metodologia específicos da transposição da etnografia para a netnografia.
São elas: ͞Entrée cultural; coleta e análise dos dados; ética de pesquisa; e feedback e checagem de
informações com os membros do grupo͟. Estas etapas podem ocorrer de forma concomitante,
assíncrona, ou como o pesquisador melhor desejar.

1) A ͞Entrée cultural͟ inclui todos os procedimentos realizados imediatamente antes do trabalho de


campo do etnógrafo. O pesquisador precisa levantar com exatidão todas as questões que pretende
investigar, a fim de se dirigir aos sujeitos mais adequados quando em busca destas respostas. Uma
vez selecionados os sujeitos, é importante que se observe as interações ocorridas entre os membros
da comunidade on-line em questão para que se torne possível cartografar a maneira como estes se
constituem enquanto sujeitos.

2) Segundo Kozinets (2002), três tipos de captura de dados são eficazes na etnografia virtual. A
primeira são os dados coletados e copiados diretamente das interações entre os membros das
comunidades on-line de interesse. A segunda captura refere-se às informações que o pesquisador
observou das práticas comunicacionais dos membros das comunidades, das interações, simbologias
e de sua própria participação. Neste momento da pesquisa, fica claro o caráter interpretativo da
netnografia, uma vez que os dados passam pelo filtro da observação do pesquisador.A terceira
etapa, finalmente, compreende os dados levantados em entrevistas com os indivíduos, através da
troca de e-mails ou em conversas em chats, mensagens instantâneas ou outras ferramentas.

3) Confiabilidade das interpretações: uma vez que a netnografia é principalmente baseada na análise
de discursos textuais, o autor sugere que a análise do pesquisador deve estar focada no ato, e não no
indivíduo. Em suma, a análise do etnógrafo virtual há que estar focada no acontecimento, entendido
por Deleuze (2000) como ͞o próprio sentido͟. Deleuze adverte ainda que ͞o acontecimento pertence
essencialmente à linguagem, mantém uma relação essencial com a linguagem; mas a linguagem é o
que se diz das coisas͟ (pg. 34).
Além desta questão semiótica do acontecimento, o pesquisador deve sempre considerar quea
comunicação analisada em netnografia é diferente da observada na etnografia tradicional, já que é
mediada por computador (tornando-se assim sujeita a toda uma série de protocolos lingüísticos já
estabelecidos para estes novos suportes). É importante destacar ainda que é possível combinar
dados netnográficos com outros (entrevistas, grupos focais, sondagens, etc.) a fim de se obter uma
compreensão mais profunda sobre determinada população estudada.

4)Quanto às questões de ética na pesquisa, os principais questionamentos de Kozinets (2002) são se


as informações publicadas online são públicas ou privadas e o que seria um uso consensual destas
informações. Assim, o caminho eticamente recomendável é que o pesquisador se identifique e
identifique o interesse de sua pesquisa, solicitando permissões necessárias para o uso das
informações obtidas em postagens e em conversas com os participantes.

5) Verificação dos participantes: Kozinets (op. Cit.) recomenda que seja realizada a verificação dos
dados pelos próprios membros do grupo, ação que legitima e dá credibilidade à pesquisa. . Esse
procedimento permite que se obtenha insights adicionais sobre a pesquisa, que se levante as
fragilidades da mesma e que se estabeleça um contato contínuo entre pesquisadores e pesquisados.

Considerando estes aspectos concernentes à aplicação da etnografia virtual, torna-se visível que este
método configura-se menos no formato de um ͞como fazer͟ e mais no sentido de um ͞como olhar͟.
De acordo com Sandra Montardo e Maria Liliana Passerino (2006),

Uma etnografia virtual pode observar com detalhe as formas de experimentação do uso de
uma tecnologia, se fortalecendo como método justamente por sua falta de receita, sendo um
artefato e não um método protocolar. É uma metodologia inseparável do contexto onde se
desenvolve, sendo considerada adaptativa. (MONTARDO e PASSERINO, 2006)

Neste nível, a etnografia virtual apresenta-se como um método capaz de atuar positivamente num
processo de cartografia da produção de subjetividade nas Redes Sociais da Internet.

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Pierre Lèvy (2002) afirma que as comunidades virtuais são uma nova forma de se fazer sociedade.
Estas novas comunidades operam de forma (muitas vezes) transitória e desprendida de tempo e
espaço, baseada muito mais na cooperação e trocas objetivas do que na permanência de laços. E isso
tudo só se torna viável com o apoio das novas tecnologias de comunicação.

A partir do entendimento destas comunidades virtuais como produtoras de novas subjetividades,


passa a tornar-se necessária uma maneira de visualizar as cartografias destes fluxos. É preciso
considerar que o ciberespaço, dado seu caráter descentralizado e rizomático, ao mesmo tempo em
que opera como dispositivo cultural caracteriza-se também como um espaço onde podem
manifestar-se novos modos de ser.

Conforme ilustrado no texto, a etnografia virtual já foi abraçada por autores de diferentes áreas, que
vão desde a antropologia à comunicação. Acreditamos que a apropriação deste método pelos
pesquisadores da área da educação também há de ser frutífera, no sentido de possibilitar ao
pesquisador um entendimento aprofundado, afiliado à ͞descrição densa͟ de Geertz, das
possibilidades que as comunidades virtuais oferecem para a educação.

Nossa intenção, com este trabalho, foi refletir acerca de novas formas para compreender estes
modos de ser que se manifestam no ciberespaço. A netnografia, ou etnografia virtual, apresenta-se
como uma opção metodológica interessante, visto que seu caráter assumidamente focal,
experimental, detalhista e interpretativo torna o estudo invariavelmente permeado pelos afetos e
desejos que mapeia. A etnografia, ao preocupar-se com a diferenciação entre o tique nervoso e a
piscadela, dá conta do aspecto semiótico das relações, muitas vezes deixado de lado pelas
investigações científicas. A etnografia abraça a polifonia, o rizoma; a etnografia virtual está aberta à
diferença, ao específico e ao microscópico. E neste tempo em que estamos todos invariavelmente
conectados, esta polifonia muito nos diz respeito e nos interessa.

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