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Situações Clínicas 2: Infantil

O conteúdo na íntegra, de cada capítulo, é de responsabilidade única e exclusiva do autor.

COORDENAÇÃO EDITORIAL
Ana Maria Lopez Calvo de Feijoa
Elaine Lopez Feijoa
1
CONSELHO EDITORIAL
Ana Frota
Roberto Novaes de Sá
Henriette Tognetti Penha Morato
Virgínia Moreira
Elza Dutra

SÉRIE
Psicologia Existencial e suas Práticas

ORGANIZADORA DA SÉRIE
Ana Maria Lopez Calvo de Feijoa

REVISÃO TÉCNICA E DE PADRONIZAÇÃO


SUMÁRIO
As organizadoras

CAPA, PROJETO GRÃFICO E DIAGRAMAÇÃO


Rejane Megale

CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO

S623 l'REFACIO .................................................... . 7


Situações clínicas 2 : infantil / organizadoras Ana Maria Lopez Calvo de Feijoa, Elaine
Lopez Feijoa. - l.ed.- Rio de Janeiro, RJ: IFEN, 2017. lJMA OU QUATRO CRIANÇAS EM UM CONSULTÓRIO DE PSICOLOGIA: JOSÉ
192 p. ; 23 cm (Psicologia Existencial e Suas Práticas ; 6)
I'., TAMBÉM, MENINO MALUQU!NHO, JOÃO SEM MEDO E BENTINHO?
Inclui bibliografia Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo................................. 17
ISBN 978-85-63850-10-2

1. Psicologia clínica infantil. 2. Psicologia existencial. 3. Psicologia fenomenológica. 4. IJA TRAVESSIA DO AUTISMO À EXPERIÊNCIA: UM FAZER CLÍNICO FENO-
Psicologia infantil. 1. Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de
Janeiro. II. Feijoa, Ana Maria Lopez Calvo de, 1952-. III. Feijoa, Elaine Lopez. IV. Série.
MENOLÓGICO-HERMENÊUTICO
Lúcia Scarlati. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51
CDD 155.4
0024/2017 CDU 159.9-053.2
AS EXPERIÊNCIAS DOCES E AMARGAS DE JUJUBA
Bibliotecária: Eliane Lemos ( CRB:5866) Marta Velasque Ribeiro. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93

Todos os direitos desta edição reservados ao


Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial do Rio de Janeiro TITO E LUIZA: CRIANÇAS HIPERATIVAS?
Rua Barão de Pirassinunga, 62 - Tijuca - Rio de Janeiro - Brasil Myriam Moreira Protasio ........................................ 121
www.ifen.com.br 1 e-mail: edicoesifen@ifen.com.br

i\ CLÍNICA PSICOLÓGICA INFANTIL PELA ABORDAGEM FENOMENOLÓGICO-


FXISTENCIAL: UMA APOSTA NÃO-MORALIZANTE
t ltávia Helena Garcia Britto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 165
AS EXPERIÊNCIAS DOCES E
AMARGAS DE JUJUBA

Marta Velasque Ribeiro

Primeiro atendimento do dia. Era uma sexta-feira, dia


de bons encontros. Verifiquei minha agenda e conferi a ida-
de do próximo analisando: era uma criança. Respirei fundo
para recuperar a disposição física perdida depois de uma
intensa semana de trabalho. Abri a porta e pedi para que o
responsável pela criança entrasse. À minha frente, uma jo-
vem senhora que sustentava seus lindos cabelos grisalhos.
Ela parecia preocupada: olhava-me tão intensamente que a
impressão que tive era a de que não respirava. Também pare-
cia surpresa, o que se confirmou com seu elogio espontâneo
ao meu cabelo: "que cachos lindos você tem, Doutora! Um dia
cu já tive um assim", parecendo lamentar pelos muitos pro-
cedimentos químicos utilizados para "domar" seus fios. Não
houve tempo de agradecer. Antes que algo pudesse ser dito,
da disparou em lágrimas:
94 Situações Clínicaa 2 /\·. "xperiências doces e amargas de Jujuba 95 11

llt.

- Ela bebeu álcool uma vez, Doutora. Corremos com c/11 , 111 inne fissura e que precisava ser reparada com urgência. De
para o hospital. Foi desesperador! Outra vez jogou água sanitári11 111odo geral, pensar na possibilidade de uma criança que atenta
sobre o próprio corpo e ficou com queimaduras enormes. Ess11.~ , , nitra a própria vida é inconcebível. A Psicologia do Desenvol-
feridas não saram, Doutora. Tem uma crise alérgica que não te111 ' 1111ento4, por exemplo, nos traz um conhecimento prévio sobre ,1·11

:1',
remédio que resolva, quase ficou cega e perdeu muito cabelo. Ou " lllodo de ser criança, e por meio dessa poderíamos descrever
tra vez essa menina comeu três tubos de pasta de dente, ficou co111 i~ , , >mportamentos considerados inadequados, desajustados. Nes-
~
uma irritação no estômago e uma infecção no intestino. Minh11
neta quer se matar, Doutora! Ela só tem nove anos e quer morrei:

Esse foi apenas um dos fragmentos do discurso de Dona


Moça 1, avó de Jujuba 2, uma menina de nove anos de idadl'.
,
' '
·.1· sentido, Jujuba se enquadrava perfeitamente no quadro de
·.111tomas de uma criança desajustada. Porém, o comportamento
'1, · Jujuba apontava descaradamente a fragilidade da estrutura
, 111 modo de ser adulto, ao desafiar o mundo adulto a entrar em

, '>ntato com seu próprio posicionamento frente ao mundo.


i 'I •.

.• 1:1,
l

1111111
•I

Dona Moça, ao relatar os momentos de desespero vividos nos Dona Moça denunciava que algo precisava ser feito e car- 11!

últimos anos ao lado da neta, mostrava sofrimento em busca dl' 1 cgava junto de si, em seu discurso, os atravessamentos institu-

uma resposta para o que acontecia com Jujuba: ' ionais que vieram na forma de pedidos de encaminhamento, e
li idos eles conferiam-me um lugar de especialista, a profissional I:
,11:
- Acho que minha neta está ficando maluca. Não sabemos responsável por identificar e corrigir a fissura na existência frá- 1
111

mais o que fazer. Já tentamos de tudo, de tudo mesmo, pois graças gil de Jujuba.
a Deus temos condições financeiras para arcar com tudo que Ju Não havia nenhuma informação além das habituais (peso, 111111

juba precisa. Mas nada parece adiantar(. .. ) ela é só uma criança. idade, sexo) nos relatórios de encaminhamento da menina.
11

• 1.1,
Os médicos do CAPSP onde ela também já foi acompanhada me Nós exames laboratoriais de Jujuba, as informações eram de- I
1'
1
":

disseram que não podemos interná-la, e nem eu quero isso. Deus sencontradas, mas apontavam para a suspeita de distúrbios ali- I'

nos livre! Ela só tem nove anos! mentares e transtornos mentais tais como ansiedade, depressão 'li'•!

(tratados com fármacos), assim como ideações suicidas. Nos 1

:11
Contando o número de psicólogos (as) que passaram na relatórios dos últimos psicólogos (as), já eram possíveis maio- 1

curta existência de Jujuba, eu era a quinta profissional e esse fato res delineamentos do comportamento de Jujuba. Dentre eles, 11111
1

só aumentava a angústia de Dona Moça, cujo discurso se apre- agressividade, choro demasiado sem motivo aparente, irritabi-
sentava agonizante e desesperado. O modo como aquela mu- lidade, e até mesmo um possível transtorno obsessivo por pro- 1'il
lher me apresentava Jujuba parecia a de uma criança com uma dutos de limpeza foi sugestionado (devido ao uso inadequado 1

de álcool, água sanitária, pastas de dentes, xampus, sabonetes). :.11.'1ji:.

1,1'
Nome fictício. !,'

2 Nome fictício.

j
4 Disciplina que estuda aspectos psicológicos do desenvolvimento de
3 Centro de Atenção Psicossocial Infanto-Juvenil. crianças, dentre eles a estrutura cognitiva.

lllli
96 Situações Clínicas 2 /\·. experiências doces e amargas de Jujuba 97

Para engrossar o caldo dos muitos especialistas que pas 1.11 durante esses anos dedicados à clínica psicológica. Educar
saram na vida de Jujuba, também recebi um relatório detalha , ·~ ouvido$ e abrir o coração exige de mim, ou melhor, de nós
do da escola da criança, que reforçava a necessidade da mesma 1•rnfissionais comprometidos na relação que estabelecemos com

entrar imediatamente em psicoterapia. Dentre as observações, , , outro, um exercício diário de desconstrução de nossos dis-
diziam que Jujuba apresentava comportamentos que perturba ' LJrsos já naturalizados, dos nossos preconceitos enraizados, do
vam a ordem na sala de aula, agressividade, recusa a obedecer;\ 11osso saber-poder institucionalizado, e também uma dose extra
professora, a realizar as tarefas obrigatórias, choro e desorgani 'lc sensibilidade. Sensibilidade essa que nos permite colocarmo-
zação. Sobre as dificuldades de aprendizagem da criança nada 11os diante desses encontros, também como um ser falível e vul-
se disse a respeito, pelo contrário. Apesar dos comportamentos 11crável a nossa inexorável tarefa de ter de ser no mundo. Isso
apresentados, Jujuba ostentava uma caligrafia invejável e sabia ·;ú é possível quando estamos abertos ao encontro com o outro,
ler e escrever perfeitamente. , om o fenômeno que a nós se apresenta (o que não significa
Diante das informações apresentadas, algumas dúvidas diminar a razão, mesmo porque essa é uma faculdade impres-
poderiam ter surgido: o que fazer? Por onde começar o "trata ' indível para se pensar o sentido do existir). Ainda, sensibili-
menta" de Jujuba? Seria esse um caso difícil de ser trabalhado? ' !ade que nos ensina a desconstruir as verdades ditas absolutas,
Qual suposto transtorno mental Jujuba sustentaria ao ponto de ;1s obviedades do cotidiano, e como psicólogos, a objetividade

fazê-la atentar contra a própria vida? Embora essas indagações pura das Ciências Naturais, que já nos dizem de antemão como
sejam perfeitamente compreensíveis, esses questionamentos <> homem é e ignoram sua singularidade e sua complexidade.

passaram longe de minha escuta naquele momento. A práxis de Essa dose extra de sensibilidade se faz extremamente neces-
uma clínica psicológica pautada por um pensar que busca re- sária na clínica infantil, porque apesar de não tomarmos como
tomar o caráter sensível da existência e dialogar com as tensões diferente o ser-aí da criança e do adulto (ambos são indetermi-
que lhe são próprias nos leva à concepção que, diante da queixa, nados, inacabados, sempre se constituindo junto ao mundo que
o que interessa para que a análise aconteça é ir ao fenômeno se abre como possibilidade), o atendimento infantil possui algu-
tal como ele se mostra. Dessa forma, não importa definir ou mas peculiaridades. Nesta clínica se faz necessário muitas das
categorizar o "problemà: pois para entender do que se trata o vezes sentar-se no chão, sujar-se de tinta, encher balões, contar
fenômeno é preciso vê-lo do lugar de onde ele se encontra. Era e inventar estórias, brincar de esconde-esconde, montar caba- '1

preciso ouvir Jujuba e deixar que ela mesma se apresentasse. nas embaixo da mesa, apostar corrida e, às vezes, deixar perder
Este texto é uma experimentação viva da minha prática a competição. É esse sentido lúdico, do brincar, que aterroriza
enquanto profissional psicóloga, porém não só! Ele também muitos psicólogos diante da possibilidade concreta do atendi-
fala de um encontro: do encontro da minha existência com a mento infantil, e alguns profissionais chegam a duvidar da possi- 1

existência de Jujuba. E é nesse sentido que cada linha escrita bilidade da prática de uma clínica psicológica infantil que tenha
aqui se torna viva. Viva, assim como são todos os discursos que como base os princípios da Filosofia Fenomenológica e Existen-
tenho educado os meus ouvidos a ouvir e meu coração a escu - cial, principalmente diante de experiências consideradas limites.
98 Situações Clínicas 2 As experiências doces e amargas de Jujuba 99

Nesse sentido, a análise fenomenológica do discurso 5 dl' l onhecer Jujuba. Dona Moça me respondeu preocupada, pois
Jujuba tem muito a nos dizer, pois esta só foi possível primeiro 1eria que trazer a neta à força: ''ela não vai entrar na sala com a
porque a sensibilidade esteve presente, segundo porque parti- senhora, Doutora. Ela nunca entra, nunca fica sozinha. Só Deus
mos do princípio básico de que homem e mundo não aconte- sabe como os atendimentos dela eram difíceis. Seus últimos psi-
cem separados, dicotomizados, mas que eles se constituem jun- cólogos carregam marcas de arranhões", conta sorrindo, mas
tos. O ser-aí (Heidegger, 1996) é um ser histórico que se cons- visivelmente sem jeito. Dona Moça suspeitava que esse tenha
titui na sua época. O ser-aí é sempre meu e tem um caráter dl' sido um dos motivos que fizeram sua neta ser constantemente
singularidade, mas essa singularização só é possível acontecer encaminhada, porém não tinha certeza. E mesmo não tendo
na relação do ser-aí no mundo. Essa relação não é separada: ela certeza, dizia entender, porque ''era impossível continuar aten-
se dá junto. Isso significa que nosso horizonte histórico altera dendo a menina se essa não parava de gritar". Dona moça me
as formas de subjetivação e determina o modo como o homem contou que Jujuba gritava muito às vezes, ao ponto de morder
movimenta-se em sua própria existência. a própria língua.
A existência é sempre aquela que é possível para cada um A criança é movimento singular, que ao ser afetada em seu
dentro do horizonte histórico no qual está cooriginariamente percurso pelas demandas do adulto também encontra seus pró-
inserido, e é somente nesse horizonte que Jujuba pode interro- prios caminhos de resistência, ainda que essa resistência seja
gar seu próprio sentido, pois levamos em consideração o mun- pela via da dor. Jujuba gritava, arranhava, desmaiava, vomitava,
do onde ela habita. adoecia, uma vez que "a criança, um ser aí que se mostra desde
O presente capítulo é um convite à reflexão dos aconteci- sempre como um existente, não pode prescindir, portanto, de
mentos a nossa volta e como esses atravessam a nossa práxis. Na seu caráter de indeterminação, de sua liberdade, da responsa-
encruzilhada do mundo, onde todos nos encontramos, existem bilidade por sua existêncià' (Feijoa, 2011, p. 101). Escutei aten-
mecanismos discriminatórios perpetuados socialmente que rede- tamente, porém não forneci a Dona Moça orientações sobre
finem experiências e fazem sofrer. Muita das vezes, por não pos- como ela deveria agir para convencer Jujuba a vir a meu encon-
suirmos um senso crítico e político, corremos o risco iminente de tro. Como essa tarefa seria executada era responsabilidade de
repeti-los em nossos discursos, contribuindo, dessa forma, para Dona Moça. Como essa notícia seria recebida também era de
sua manutenção. A análise do discurso clínico da experiência in- responsabilidade de Jujuba.
fantil aqui apresentada nos permite ampliar a leitura desses fenô- Chegado o dia de conhecer Jujuba, desci as escadas em
menos e engendrar novos recursos de ação, escape e resistência. sua direção. Ela me olhou longamente e, ao contrário do que
Depois de ouvir atentamente tudo que Dona Moça tinha pudesse ser esperado, demora alguns instantes para me rece-
a falar, agendei com ela um próximo encontro, dessa vez, para ber com um sorriso largo, apesar de ausência dos dentinhos de
leite. Dona Moça me olhou surpresa e aparentemente satisfeita
1111,!

5 A situação em debate aqui apresentada é fictícia, fruto de recortes apre- com a atitude da neta. Jujuba era uma menina negra, de olhos 1::,

sentados em supervisão clínica. cor de mel e cabelos crespos. Vestia um vestido longo e amarelo,
!'1,''
1::

j !!11

I''
100 Situações Clínicas :Z !\·. experiências doces e amargas de Jujuba 101

e coincidentemente, eu também. Aproximei-me de Jujuba e 1111' 1111 ". "É verdade. São iguais aos seus'', respondi. Ela sorriu. Per-
apresentei dizendo apenas meu nome. Sentei-me ao seu lado, 1·.1111tei se ela gostou dos meus cabelos e ela balança a cabeça
ali mesmo na recepção e começamos um pequeno diálogo: , 0111 um sinal afirmativo. Perguntei se ela gostava dos dela,

11ma vez que seus fios pareciam com os meus: "não tia, dos
- Você é a moça que vai brincar comigo? (perguntou Jujuba) 1111·us eu não gosto. Eu queria ter o cabelo bom, iguais aos da
- Não sei. Sou? (respondi) 111inha prima. Dos meus eu não gosto, não gosto não. Não gosto
111csmo. Ter o cabelo ruim, tia, é muito chato!", respondeu ela,
Ela voltou-se para avó e a interrogou: 1·m tom agressivo. Jujuba respirou profundamente e fez uma
- Vovó, essa será minha nova psicóloga? longa pausa, esperando, talvez, alguma reação minha. Tam-
lil'.'tn brinquei com os cabelos de Jujuba e não a questionei so-
Dona Moça não respondeu. lire o que acabara de confessar. Jujuba, então, continuando o
- Você quer uma nova psicóloga, Jujuba? (perguntei) diálogo perguntou:
- Não, mas eu quero brincar com você. Tia, você quer bri11
car comigo? (ela perguntou) - Tia, ninguém implica com os seus cabelos?
- Sim, às vezes. Mas parece que com os seus implicam sem-
Não foi preciso dizer mais nada: o encontro já havia acon {'re, não é mesmo?
tecido. Perguntei apenas onde ela desejava brincar. Ela me res - Tia, como é que você sabe?
pondeu prontamente: "lá na sala dos brinquedos", mostrando - Você acabou de dizer. E como é ter o cabelo ruim?
-se já familiarizada com esse espaço, e em um movimento es - É chato, tia. Na escola onde estudo tem muitas meninas de
pontâneo, segurou minha mão. cabelo bom e elas são mais bonitas.
Ao entrarmos na sala, ela mesma fechou a porta e começou - São bonitas porque tem o cabelo bom?
o movimento exploratório pelos objetos em exposição naque- -Também.
le espaço. Ela abriu avidamente os armários e perguntou com - E o que mais elas têm?
curiosidade o que havia dentro das caixas coloridas. Visivel- - Ah, tia! Sei lá! Eu acho elas mais bonitas.
mente cansada e com dor, Jujuba se sentou no tapete da sala
enquanto procurava uma posição confortável. Tentou em vão Foi necessário, aqui, ficar atento ao caráter impessoal da
cobrir as cicatrizes e feridas de seu corpo. Sentei-me ao seu lado Cala de Jujuba, mesmo apreendida como pessoal. Buscar o cará-
sem interrogá-la a respeito, pois é somente a partir da fala, do ter particular pedindo para que o analisando especifique de que
discurso do analisando, que o fenômeno tem a possibilidade de ou de quem se fala ajuda -o a não se perder no geral.
se mostrar. Nesse sentido, era necessário esperar com paciência.
Ela acariciou a pele dos meus braços, puxou devagar - Mais bonitas do que quem, Jujuba?
meus cabelos, e enquanto o fazia, disse: "parecem molinhas, - Do que eu, tia. Mais bonitas do que eu, tia.

1:11

....J 'i, :1
1
102 Situações Clínk111 1 "" .. xperiências doces e amargas de Jujuba 103 i' 1

1)e acordo com Kierkegaard (1961), o homem não pode


- Então todas as meninas de cabelo bom são mais bo11il1u
, 1 ··xplicado a partir de nenhuma essência universal, pois o
do que você?
'1 do homem consiste na sua própria existência singular. No 1
- Ah não, tia. Tem umas meninas feias lá na escola e 1·/1u :1:1

não são ''pretinhas". , 111.111to, ainda que não seja possível falar de um tipo de crian- ~'I
1 !·
•,.1. 11ão podemos ignorar a realidade psicossocial de crianças
- E essas meninas feias têm o cabelo bom? 1111
11
,,11

- Têm tia, têm sim. 111 1'.ras, bem conhecida e ao mesmo tempo tão negligenciada 11'1 ·
:,,1
1

I '' l.1 sociedade em geral e o poder público. As particularidades 1f'.'


- Não existe nenhuma menina que você conhece com rn/11• 1 'i'
, 111 ico-raciais, regionais e educacionais dessas crianças no Bra- ,1 11

los iguais aos seus que você ache bonita, Jujuba? 11,111
1,·I,
.il iriam diversas realidades, e muitas das vezes um verdadeiro
6
.il •ismo entre elas. Os racismos individual e institucional de- 1~r
'1
Jujuba fez uma longa pausa, tentando puxar na memúrln I~
alguém que a representasse. Ela deitou-se no tapete da sala dl· 1 •· 1n ser reconhecidos também como :11!
1
, 1111

vagar e eu acompanhei o seu movimento fazendo o mesmo. Jo:ln •11111111

Um sistema, uma vez que se organiza e se desenvolve 1111


fechou os olhos, continuou brincando com os meus cabelos l' ~I
1,1

através de estruturas, políticas, práticas e normas ca- ,·11111


com a pele do meu braço e respondeu pausadamente:
pazes de definir oportunidades e valores para pesso- ~
as e populações a partir de sua aparência atuando em 1111111,'

- Tem sim, tia! Mamãe! Mamãe era muito bonita! Na ver


dade, ela era muito bonita mesmo. Você, você também é muito
diferentes níveis: pessoal, interpessoal e institucional
~
linda, tia, e eu também gosto daquela moça que faz novela. Fs (Geledés, 2005, p. 9). tf,
'·11

queci o nome dela. Ela também é bonita. ~


Estes valores estão enraizados na nossa cultura e dissemi-
~~
Foi necessário ir devagar com Jujuba, passo a passo, evi
11 am um estereótipo de que tudo que é divergente dos padrões ff
denciando como muitas das vezes aquilo que se pensa ou fala
não é uma verdade absoluta e que nosso próprio discurso est;\
•icidental e europeu é estranho, e quanto mais se distancia desse
padrão, mais feio é. ~ 1111111

Não é nossa pretensão investigar a dimensão psicológica


l1t~
repleto de contradições. Jujuba se achava feia porque era negra
do racismo e nem mesmo buscar compreender (com a atenção
e de cabelo crespo: provavelmente foi o que ouviu a vida toda.

~
que se merece) a dinâmica dos mecanismos discriminatórios
Ao mesmo tempo, Jujuba se deparou com mulheres negras que
que fazem perpetuar as desigualdades étnico-raciais. Porém,
ela também achava bonita. A questão aqui nada tem a ver com

l~
são evidentes ao longo dessas linhas os efeitos psicossociais 11i:'
a máxima "a beleza está nos olhos de quem vê". Não era dessa
do preconceito racial, pois a longa exposição às situações de
beleza, do senso comum, que Jujuba estava falando. Ela fala de
11111:

como ela se via no mundo e de como o seu mundo a via tam- ~1r1',
bém: negras com cabelo crespo são feias e, com exceção, algu- 6 Realização: Geledés - Instituto da mulher negra. Disponível em: www.

~,~
'I'
mas são bonitas. Então, não devemos ser apressados. observatoriodegenero.gov.br

J ~li
1 '

11

104 Situações Clínic111 2 /\·. "xperiências doces e amargas de Jujuba 10~

desvalorização causam efeitos múltiplos de dor, angústia e til' Chegada a hora de nos despedirmos, Jujuba perguntou Sf:!
gação. O que aqui se pretende é fazer uma análise fenomeno I '< ideria voltar. Disse a ela que sim, se ela quisesse. Jujuba mf:!
lógica do discurso clínico cujo fenômeno do preconceito racial .d iraçou e disse que pediria a avó, e se ela deixasse, viria corr:1
sequer foi problematizado pelos múltiplos atravessamento~ 'nteza. Devolvi carinhosamente o abraço e nos despedimos.
institucionais que passaram pela vida da analisanda em qucs Nos encontros seguintes, Jujuba falou da sua rotina esco·.
tão; pelo contrário, foi naturalizado, e talvez por esse motivo l.1r. Jujuba estudava em uma escola de classe média localizad<t
não observado como possibilidade. Se não nos atentarmos u 11a Região dos Lagos, no Estado do Rio de Janeiro. Jujuba falot1
isto, corremos o risco de tratar o sofrimento proveniente da~ 'lc como alguns colegas de classe implicavam com o seu cabelo,
questões étnico-raciais e tantos outros como um problema téc , <im seu nariz, boca, tom de pele e outros aspectos físicos d~
nico, de não aceitação, de baixa autoestima, de culpabilização, "<'LI corpo e queixou-se de sua professora. Sabemos que a es·.
repetindo o discurso do senso comum de que pessoas negras , <>la exerce grande influência na ideologia que se adota come,
se vitimizam e, consequentemente, silenciando o sofrimento 1iadrões consensuais de conduta, tendo em vista que a escola~
daquele que fala. 11111 espaço social privilegiado de construção do conhecimen ·-
A falta de sensos crítico e político fazem com que muitos 1<i. Porém, para crianças marcadas pelas diferenças, pode set
estudantes e profissionais atribuam o sofrimento causado pelas lambém lócus de reprodução de estereótipos e discriminação.
vivências do racismo como algo individual e trabalham no sen <)s próprios mecanismos didáticos estigmatizam, por exemplo,
tido, prioritariamente, da aceitação e superação da autoestima. os povos não-brancos e pregam o etnocentrismo da raça bran-.
Porém, toda vez que na Psicologia agimos dessa forma e não , a na medida em que não leva em conta a pluralidade étnica,
compreendemos os impactos psicossociais que essa questão cultural e religiosa no Brasil, que hoje já é garantida por lei7. A
traz às vidas das pessoas, praticamos a mesma violência quc lalta de materiais didáticos que tragam imagens positivas de,
essa população julga sofrer todos os dias. negro e do índio e que não demonizem a suas heranças religio-.
Durante muito tempo as questões étnico-raciais não fo sas demonstra de maneira consistente a discriminação sofrid<t
ram consideradas tema relevante para discussão e até hoje não por essas crianças na escola.
se encontram nas grades curriculares dos cursos de Psicologia.
A consequência disso é o acúmulo no mercado de trabalho de - Sabe, tia? Às vezes eu fico triste e nem sei por quê.
profissionais despolitizados no que tange não somente a temas - E o que você faz para a tristeza passar?
como enfrentamento do racismo na sociedade brasileira, mas - Não passa, tia.
todas as outras políticas públicas que a Psicologia está direta - Você está triste agora?
mente inserida. Isso só reafirma a necessidade dos psicólogos
refletirem sobre suas práticas, independente de perspectivas
7 Lei 10.639/03, alterada pela Lei 11.645/08, que torna obrigatório o ensi.
teóricas ou áreas de atuação, questionar e problematizar suas no de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana em todas as escola~
próprias posturas e práxis. públicas e particulares do Ensino Fundamental até o Ensino Médio.
1
/\·. •>xperiências doces e amargas de Jujuba 107
106 Situações Clínic111 1

- Não, agora não. - Tia, deixa eu te contar: às vezes fico com tanta raiva da-
- E em que horas você fica mais triste? Sabe dizer? •111de povo. chato que me dá uma vontade de gritar e não consigo
- Quando tenho que ir à escola. Eu odeio a minha esco/11. 1•11rar de chorar, e quando vejo, já estou mordendo a língua e às
1·(';:es ela sangra.
- E o que acontece na escola que te deixa tão triste?
- Gente chata, tia. Um monte de gente chata. Eu não qucl'/11 - E morde a língua porque está com raiva?
mais estudar lá, mas vovó me obriga a ir. Às vezes tenho vonl11di1 - Sim. É, mais ou menos.
de jogar todo mundo daquela escola num buraco bem fundo. - E quando morde a língua a raiva passa?
- Quem você gostaria de jogar num buraco bem fundo? - Não! Mas ligam para a minha vovó.
- Minha professora! Aquela bruxa! Ela seria a primeira if 111' - Hum, hum! Entendo. Parece que morder língua é o único
eu iria empurrar. E a Paçoca, a Maria-Mole, a Suspiro e a Pipo111 wito que você encontra pra sair dos lugares onde não quer ficar,
(referindo-se a colegas de classe) vão todas junto também! 11é Jujuba? Principalmente na sua escola chata.
- E o que elas fazem que jogá-las no buraco é a únic11
solução? Jujuba escutou em silêncio.
- Implicam comigo todo santo dia! Tem que ver, tia! M1• Em outro encontro, Jujuba pediu para desenhar e fez um
xingam às vezes, e a professora não faz nada. desenho de si mesma (uma menina branca, de cabelos lisos,
- Entendo, mas pelo jeito jogá-las no buraco não vai dai' loiros e olhos claros). Ao ver o desenho perguntei:
não, né? Então, o que você pode fazer?
- Ah! Eu me jogo no buraco então. (diz sorrindo) - Quem é essa pessoa no seu desenho?
- Lá no buraco ninguém irá te "encher o saco", né? - Sou eu, tia. Ficou bonito?
- Ah é! Fico lá sozinha! - Parabéns, Jujuba. Você desenha muito bem! O desenho
- Sozinha? Mas Jujuba, me parece que você já está se sentin está muito bonito. Pelo visto de mentirinha você pode ser como
do sozinha, e nem está na no buraco fundo. queria e não como você é de verdade, né?
Jujuba ao ouvir isso ficou em silêncio, e inesperadamenll'
me respondeu: Jujuba levantou-se da cadeira em um salto e me entregou
- Mas eu tenho a tia agora! (E me abraçou) seu desenho. Enquanto o fazia, disse:

De fato, Jujuba tinha aquele espaço como oportunidade de - É, tia, até parece que você não sabe. Ser preta é muito

falar do seu sofrimento, ser ouvida na sua dor e não ter sua dor si· ruim. Às vezes eu gostaria de ser branquinha.
I'
lenciada. A não diferenciação de "brincadeiras" racistas por parll'
da professora de Jujuba fez com que Jujuba percebesse que recla- A "identidade" (o eu, o si) da criança é construída não
mar para a sua professora as agressões sofridas não adiantava e só a partir do olhar que ela tem de si, mas também da relação

J
ela criou mecanismos próprios para lidar com seu sofrimento. que ela tem com o olhar do outro sobre ela. Jujuba se reali-
:,1
108 Situações Clínic .. 1 As experiências doces e amargas de Jujuba 109

..~
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za na concretude de sua existência e no movimento dcs~11, "!#"
if - Nas festas da escola, tia. Eu nunca sou escolhida para ser
ou seja, no espaço e no tempo onde ela acontece, "ao modo r1 princesa. A professora só me escolhe pra ser a árvore. Tia, não
i

como cada indivíduo configura sua própria existência bu~ ,·xistem princesas pretinhas?
cando elucidar os elementos que estão nas bases de cada co11 - Existem sim, Jujuba. Na verdade, existem várias. Mas
figuração" (Protasio, 2015, p. 55-56). Compreender o sentido {'Oucas pessoas conhecem. i,.,
111'
da frase "ser preta é ruim" é entender o contexto histórico 1• - Tia, então a tia me conta? Conta, tia, as histórias de prin- hl
! '
social no qual Jujuba está inserida e na qual ela também 1111• (Csas pretinhas.
incluía. Desejar ser "branquinha" só faz sentido pela exist1\11
eia a priori de uma ideologia discriminatória que desqualifil 11 No mundo encantado da Disney, crianças negras não exis-
a sua cor de pele e privilegia o não-negro, uma vez que a hi.~ tem. Não há personagens que de fato as representem como po-
tória não é uma abstração universal, mas o próprio aconkd dem ser representadas. Se muito, uma princesa que vira sapo!
mento da existência. Na literatura infantil, os príncipes e reis e princesas e rainhas
Perguntar a Jujuba "branquinha como?" fez-se desnecc~ são loiros de olhos azuis, ou seja, com características europeias.
sário, uma vez que o discurso de Jujuba, nesse sentido, não cm Os negros ficam nos papéis subalternos, pequenos, sem muito
pontual e circunstancial. Jujuba não era exceção e não falava só destaque. São as bruxas más, os vilões que morrem no final ou
dela, uma vez que em toda expressão singular também residi· as árvores. As marcas da discriminação racial estão muitas ve-
o universal. Foi preciso compreender que a história de Jujuba, zes implícitas em letras de músicas, na mídia e na literatura in-
embora singular, não era individual. Jujuba falava dos discursm fantil. A maioria das histórias e contos apresentados às crianças
hegemônicos de nossa época, e para ouvi-los foi necessário ir ou lidos por elas enfatiza apenas a cultura eurocêntrica. 1

até onde Jujuba estava, ou seja, para compreender o discurso Comecei a ler com Jujuba uma série de livros que trazem li'
1

de Jujuba foi preciso habitar seu universo. E se o problema não crianças negras como protagonistas8 e também alguns contos afri- "
estava apenas em Jujuba, seus sintomas também não poderiam canos. Lemos livros tais como: O Mundo no Black Power de Tayó
ser "tratados" somente no âmbito individual. (Kiusam de Oliveira), Os Mil Cabelos de Ritinha (Paloma Mon-
Kierkegaard (1986) assinala que para se conhecer, o ho teiro & Daniel Gnattali), Bia, Tatá e Ritinha: Cabelo Ruim!? Como i,,'!1 I
mem deve se voltar para si próprio e observar-se em sua vida assim? (Neusa Baptista Pinto), A Bela Wika Yawuwu (Neuza Loza- ;1i11'1

cotidiana. Foi necessário ampliar meu campo de visão para no ), Cinderela e Chico Rei (Cristiana Agostinho e Ronaldo Simões
,. 11r
enxergar como Jujuba enxergava, ou seja, será na existência Coelho), Galo Barnabé vai ao Baile (Jonas Ribeiro), O Gatinho de 111:
!'':1!!
mesma, na experiência vivenciada por cada indivíduo que en Sara (Gisele Gama Andrade), dentre outros. Jujuba pediu à avó i 1

contraremos elementos para se pensar sobre a singularidade de que comprasse livros infantis como esses para ela e me presenteou : ,1111
1''

cada existente. Indaguei a Jujuba em que momentos ela gostaria com dezenas deles, na medida em que fiz o mesmo com Jujuba. :1\1.
11111 1

de ser "branquinha'' e me debrucei em buscar junto a Jujuba o 1 11·11

J
sentido que ela dava ao que acabara de dizer. X Ver indicação de leituras nas referências. 'l
111,ll' 1.·,
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! il .!
110 Situações Clínica• 2 !\·; experiências doces e amargas de Jujuba 111

Segundo Santos (2001), o racismo ocorre quando se atribui Após chorar copiosamente, Jujuba confessou:
a um grupo determinados aspectos negativos em razão de sua~
características físicas ou culturais. Jujuba se viu representado - Fiquei com tanta raiva, mas com tanta raiva que cuspi
,I'
1:1,
nos livros e filmes que passou a ler e assistir, assim como nas 11da. É isso mesmo que ouviu, tia: eu cuspi na cara dela. Sou preta il
1

''

histórias, nos contos e publicações que passou a ter interesse, t' 111csmo, mas não sou piolhenta. Não podem falar assim comigo.
sozinha passou a sugerir algumas atividades para os nossos c11 iill11

contras. Nesse momento, foi preciso dar um passo atrás e deixar Após se acalmar, Jujuba se aproximou de mim, sentou-se
Jujuba ao seu próprio cuidado, no sentido de deixá-la caminhar , om a cabeça aos meus pés e perguntou: !:I:!!;
por si mesma, sem tentar desonerá-la da sua tarefa de ser.
Nas semanas seguintes Jujuba resolveu fazer um painl'I - Tia, você acha que eu fiz mal em cuspir na professora?
com mulheres negras que achava bonitas. Disse que colocaria
na parede de seu quarto com a ajuda da avó. Depois decidiu
colocar as poucas mulheres negras que encontrava nas revistas
Jujuba expressou um sentimento de culpa e mostrou-se
ansiosa pela minha resposta. Foi necessário ficar atenta ao que '
1

'
e jornais. Enquanto recortava, disse: Jujuba acabara de relatar, sem deixar transparecer a minha ex-
pectativa em relação à sua atitude. Busco junto com Jujuba seus
- Essa é linda! Essa também! Ah! São todas bonitas. Serna 1)róprios referenciais e mostro-me compreensiva. Sem possíveis
·'
~I\
~i\
na que vem vou colocar uma foto minha aqui, tia. O que acha? julgamentos, respondi:
- Então você também é bonita?
1',l11·
- Ah, tia! Não sou não, mas vou colocar assim mesmo. - Uns poderiam dizer que o que você fez foi muito errado, e ,1111':,

outros, que foi bastante certo. Mas o que você acha, Jujuba? '
'dl
'1 '

Em outro encontro, Jujuba apareceu muito chateada. Per - Acho que não foi muito certo, não! Mas poxa, tia, ela tinha
guntei o que houve para ela estar assim. Jujuba contou que brigou que ter conversado com a menina que fez isso comigo. Não acha?
com uma coleguinha da escola que a chamou de "preta piolhen - Sim, eu acho. Mas como é que vai ser, Jujuba?
tà: e que chateada contou tudo para a professora. Perguntei o qul' - É, tia ... cuspir em todos que falarem mal de mim não vai
a professora fez. Jujuba diz que após ouvir sua queixa a professora dar, né? (caímos as duas na gargalhada). Não, tia, não vou mais :
1

1,

respondeu: "se continuar batendo nas coleguinhas assim, não vai cuspir em ninguém, porque acho isso errado. Mas também não é I' !•

111·11!
poder reclamar quando for xingada. O que você quer, menina? certo o que fazem comigo. Temos que fazer alguma coisa. 1
111'

Você é preta mesmo'. Perguntei o que sentiu ao ouvir isso:

- Fiquei com raiva, tia, mas dessa vez não gritei, não chorei
Jujuba depois desse episódio passou a trazer situações do
cotidiano fora da escola que também a incomodavam. Passou
)
e nem mordi a língua. a falar das relações que estabelecia com seus familiares, da per-
- E o que você fez, Jujuba? da recente da mãe, de alguns medos e expectativas. Na medi-

~
112 Situações Clínicas 2 l\o. experiências doces e amargas de Jujuba 113

da em que nossos encontros iam ocorrendo, Jujuba passou a llli necessário habitar o mundo singular de Jujuba e ao mesmo
questionar o próprio espaço analítico, fazendo perguntas para lnnpo não perder de vista os discursos plurais do nosso mun-
as quais eu não tinha respostas (e nem mesmo preocupaçilli , 1, i, e isto permitiu que o fenômeno emergisse e Jujuba abrisse o
em obtê-las), e por muitos meses passamos a inventar e rei11 ·.1·11 campo de possibilidades, que muitas vezes apareceu restrito
ventar respostas para nossas próprias dúvidas e a se divertir diante de um fenômeno.
com a falta de respostas. Terminados os painéis, Jujuba decidiu escrever um peque-
Ouvir do cotidiano de Jujuba era ouvir do modo como ela 1H >livro e começamos a registrar sua história. Na verdade não

se posicionava, escapava e resistia às demandas do seu mundo, "t' configurou em um livro de história, mas apenas em recortes

pois a existência humana só ganha sentido na sua própria abcr ,· colagens de figuras, palavras e frases que faziam sentido na
tura, porquanto essa é sua condição original. Jujuba passou a 1·xperiência dela. Em um desses encontros, ela relatou um epi-
buscar ferramentas que poderiam auxiliá-la no enfrentamento :Jidio emblemático:
das tensões de sua própria vida.
Em outro encontro, Jujuba chegou trinta minutos depois - Sabe, tia ... um dia eu fiquei muito chateada com a tia
do horário e justificou o atraso ao afirmar que perdeu a hora na "Pamonha". Eu derrubei suco de laranja sem querer no tapete da
frente do computador: msa dela, aí ela me disse: "você já é preta, nem parece minha so-
/1rinha, e ainda fica assim, com essa falta de educação". Quando
- Sabe, tia, procurei na Internet por que as pessoas brancas t'U ouvi isso, tia, fiquei com muita raiva. Eu fui pra casa. Quando
não gostam de negros. t'U cheguei em casa esperei todo mundo dormir, fui na copa e

- E o que encontrou, Jujuba? esfreguei a pele com água sanitária, com a ajuda de uma bucha
- Não entendi muita coisa não, tenho que ler mais. Mas tia, de cozinha. Eu não conseguia parar, tia (. ..) aí depois me levaram
não são todos os brancos não, só a maioria mesmo. Eu descobri pro hospital. Fiquei lá um tempão, comi muita gelatina (... )sabe,
também que existe uma lei que prende gente que xinga a gente acho que minha tia não gosta muito de mim.
porque somos negros. A tia sabia? - E isso dói muito, né? (perguntei)
- Sim, eu sabia! - Um pouco, tia. Mas eu não vou mudar, né? Minha tia é
- Pois é! Se me xingarem, vou dizer a eles que a polícia pode que tem que parar de ser babona.
prender todo mundo.
- Ah! Então não vai mais cuspir nas pessoas? Jujuba, em mais um dos encontros de colagem, passou a
- Não tia! Não vou mais gastar saliva! (responde sorrindo) contar suas experiências amargas em inúmeros episódios em
que se sentiu triste, incomodada e discriminada. Jujuba pas-
Quando algo aparece, ele sempre aparece em um horizon sou a compartilhar outros episódios em que se viu desespera-
te em que a coisa é, abrindo inclusive a possibilidade de nos da, em que desejou ser outra pessoa que não ela mesma. Conta
comportarmos em relação a esse algo (Feijoa, 2011). Assim, das vezes em que tentou modificar seu corpo e retirar a grande
114 Situações Clínicas 2 As experiências doces e amargas de Jujuba 115

mancha preta que era a sua pele: "tenho a pele suja de preto, lia. 11 istória: "vou ser professora, tia. Vou ensinar às outras crianças
Foi minha professora quem disse': disse ela certa vez. Falou do 11scoisas boas que aprendemos com a África':
prazer que sentia em tomar banho, comportamento esse repc Em outro encontro, percebi que as feridas do corpo de Ju-
tido várias vezes ao dia. Falou também o quanto ficava feliz ao juba estavam cicatrizando e comento sobre o fato:
comprar produtos de limpeza de pele, xampus, sabonetes. Ela
tinha vários em casa e sempre pedia de presente aos tios. - Então Jujuba, os machucados de sua pele estão sarando, né?
A suposta ideação suicida, motivo das idas e vindas ao - É, tia. Eu parei de tirar as casquinhas dela e também não
hospital e razão principal do encaminhamento de Jujuba, não fico lavando toda hora.
se configurou como tal. Jujuba não queria morrer, pelo con
trário. O que vinha sendo considerado como atentado contra Jujuba percebeu que ao tirar as casquinhas das feridas do
a própria vida não era outra coisa senão desespero. Desespc seu corpo, essas não cicatrizavam e davam à pele a aparência
ro esse que estará sempre presente na nossa existência, mes mais clara. Jujuba esperava que todo o seu corpo ficasse claro,
mo que encoberto. Jujuba tentava em meio ao seu sofrimento apesar da dor que sentia.
definir-se, fixando o seu olhar em apenas um dos extremos dl·
sua existência e esquecendo-se que a existência é também con - E o que acontece que não tira mais as casquinhas?
cretude e o corpo é a materialidade da existência. Voltar-se para - Eu não sei, tia. Só não sinto mais vontade.
a concretude de sua própria existência e ao mesmo tempo não - E não sente mais vontade de quê?
atender às solicitações do mundo causava a ela inúmeras ten - A tia sabe, a tia sabe. Eu sou eu.
sões, mas é "no decorrer de sua vida que a criança tomará para
si, o seu modo de ser, sem perder jamais sua incompletude e As feridas na pele secaram gradativamente, apesar das
sempre colocando em jogo as determinações de seu mundo" enormes cicatrizes que carregará em seu corpo e das experiên-
(Feijoo, 2011, p. 91). cias amargas vivenciadas por ela. Jujuba dizia se sentir sozinha,
Jujuba contou que certa vez ouviu o motorista de taxi cha dizia que gostaria de ter mais amiguinhas negras e "brancas tam-
mar de "macaca velhà' a sua avó e que este a mandou comprar bém, tia, mas que não me xinguem': Jujuba gostava de dançar, e
bananas. Jujuba relatou que não gostou do que ouviu e que na- começamos a procurar juntas lugares e projetos nas imediações
quele momento ficou com tanta raiva que mordeu a própria lín- que pudessem nos ajudar nessa direção. Encontramos alguns
gua sem querer e que quase sangrou. Quando ela se deu conta, projetos, e dentre eles, o de um grupo que ensinava capoeira,
ela parou e gritou para o motorista: "racismo é crime, sabia? Da jongo e outros ritmos de Cultura Africana para as crianças do
próxima vez mando te prender, pra você comer as bananas que mi- bairro e que ficava relativamente próximo da escola dela. Jujuba 1
11!
11
1

nha avó comprará pra você na cadeia" e o motorista calou a boca. convenceu a avó a deixá-la participar desses grupos e empolga- 11,1

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Jujuba dizia que quando crescesse seria advogada e que va-se com cada novo passo de capoeira que aprendia, encan- 11,1
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iria colocar gente ruim na cadeia, mas que antes iria estudar tava -se pelos instrumentos, pelo ritmo, e principalmente pela l1i
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116 Situações Clínicas 2 As experiências doces e amargas de Jujuba 117

gama de conhecimento que passou a adquirir com as pessoas - E como você se sente, Jujuba?
desses lugares. Jujuba, apesar da pouca idade, possuía um senso - Ah, tia, me sinto bem ... eu me sinto... sei lá, tia. Eu me
crítico bastante apurado e passou a fazer uso dessa habilidade. sinto eu mesma.
Em outro encontro, Jujuba apareceu com um pequeno
turbante na cabeça, que foi feito pela mãe de alguma amiguinha Jujuba fez um novo desenho de si, ostentando seu cabelo
de acordo com ela: crespo, e disse ao me entregar: "crespos também são lindos". No
nosso último encontro dei a Jujuba um presente e ela me retri-
- Gostou, tia? buiu com outro: "tia, eu não vou me esquecer de você", disse ela
1

- E se eu disser que não gostei, o que vai fazer? ao receber o presente. Jujuba me disse que tinha uma surpresa
- Nada, a cabeça é minha. e nesse momento, visivelmente emocionada, pediu para que eu
- Você está muito bonita de turbante, Jujuba. me abaixasse e sussurrou algumas palavras ao pé do meu ouvi- li

- É, tia, eu sei, mas me chamaram de macumbeira na escola do. Reconheci imediatamente o dialeto africano. Compreendi
hoje, tia. suas palavras e respondi: "Jujuba, vou me lembrar de você toda
- E o que você fez? vez que olhar para mim''.
- Nada, tia. Tenho que pesquisar sobre isso também.

As discriminações étnico-raciais não se relacionam apc Considerações finais


nas com a cor de pele, mas com diversos elementos da Cultura
Africana, roupas, costumes, religião, tradições, cabelo etc. Juju A discriminação racial, por ser um sistema, não vai desapare-
ba continuou falando das pessoas chatas que a incomodavam t' cer da sociedade porque o analisando resolveu se aceitar ou elevou
percebeu que "gente chatà' sempre existirá. Jujuba ainda dizia a sua "autoestimà'. Não se trata de um problema individual de não
sentir-se sozinha às vezes, apesar das novas amiguinhas que fez aceitação e compreender isso já é o primeiro passo para discutir-
em outros espaços de empoderamento. mos essa temática dentro da Psicologia e não cairmos nos discur-
sos do senso comum, seja com adultos ou com crianças. Se nos ati-
- Ah, tia! Viver num mundo de gente chata não é fácil. i\., vermos apenas àquilo que pode ser categorizado, deixamos de lado
vezes tenho vontade de empurrar todo mundo num buraco e dei o não dito, o que escapa, corremos o risco iminente de repetirmos
xar eles lá. Mas não posso fazer isso com ninguém, né tia? atos discriminatórios e sustentarmos com nossa práxis e posturas
- Mas isso não impede que tenhamos a vontade. a manutenção de um sistema que faz sofrer. Desse modo, mante-
- É! Fiz uma cartinha de natal para a minha professoro. mos a Psicologia e a nossa prática profissional alheias à vivência
Coloquei num envelope bem grande todas as reportagens sohrc· das pessoas negras e indígenas, negando a sua realidade social e
racismo que tinha juntado durante o ano e entreguei a ela. F/11 ·;ua carga histórica. Como resultado, acentua-se a tendência quast'
me olhou de cara feia, mas dessa vez não me disse nada. generalizada para a individualização de questões sociornlturais.

I~
118 Situações Clínicas 2 As experiências doces e amargas de Jujuba 119 1

j!

Vista de sua perspectiva história, a Psicologia enquanto ci Jacó-Vilela, A. M. Ferreira, A. AL & Portugal F. T.(2005). História da Psicolo-
ência e profissão vem transformando-se ao compreender que a gia: rumos e percursos. Rio de Janeiro: Nau editora.
construção de sua práxis está intimamente ligada ao seu discurso lfridegger. M. (1996). Seminário de Zollikon. Ed. Mmerdad Boss. Tradução
e percurso consolidados historicamente. O fenômeno do racismo de Gabriela Arnhold & Maria de Fátima de Almeida Padro. São Paulo:
Vozes.
e suas repercussões psicológicas não eram até então de interessl'
para Psicologia. Por décadas, psicólogos desenvolveram teorias Kierkegaard, S. ([1848], 1961.). Desespero humano: a doença mortal. São Pau-
lo: Livraria Tavares Martins.
que sustentaram o binômio superioridade/inferioridade das raças
______ (1986). Ponto de vista explicativo da minha obra como escri-
humanas. Tais teorias por muito tempo ratificaram as diferenças
tor. Porto: Edições 70.
raciais, principalmente com a aplicação de testes de mensuração,
Protasio, M. M. (2015). O si mesmo e as personificações da existência finita:
largamente utilizados para demonstrar a superioridade de urna comunicação indireta rumo a uma ciência existencial. led. Rio de Janeiro:
raça sobre a outra (Jacó-Vilella, 2005). A Psicologia calou-se dian IFEN.
te dessa temática e deixou essa discussão para outras ciências, es Santos, H. (2001). Discriminação racial no Brasil. Disponível em: www2.tjce.
quivando-se de suas responsabilidades éticas e não pensando nas jus.br
consequências e nas implicações políticas de seu discurso.
Compreender que nossa prática psicológica é também um
discurso, um saber (ainda que não se pretenda hegemônico ou Indicações de leitura
verdadeiro) se fez fortemente necessário para sustentar as estra-
tégias de enfrentamento utilizadas junto a Jujuba. Acompanhar Almeida, G. (2008). Bruna e a galinha D'angola. Editora Palias.
o fenômeno da discriminação racial e o olhar de Jujuba sobre ABAD, E. R. (2009). Contos Africanos. Tradução: Raquel Parrine. Editora Calis.
seu mundo e, ao mesmo tempo, não perdendo de vista o olhar Fanon, F. (2008). Pele negra, máscaras brancas. Bahia: Editora Edufba.
do mundo sobre Jujuba, exigiu doses extras de sensibilidade e
Massarani, M. (2004). Adamastor, o Pangaré. Editora Melhoramentos.
um exercício diário de paciência, desconstrução e reinvenção
Machado, A. M. (2005). Menina bonita do laço de fita. Cortez editora.
do meu lugar enquanto analista e do meu próprio olhar sobrl'
minha existência, uma vez que como mulher negra eu também Munanga, K. (2009). Negritude: usos e sentidos. São Paulo, Editora Autêntica.

estava, desde o princípio, incluída no discurso de Jujuba. Pires. H. (2003). A semente que veio da África. Editora Petrópolis.
Rumford, J. (2011). Chuva de manga. Editora Brinque Book.

Referências

Feijoo, A. M. L. C. (2011). A existência para além do sujeito: a crise da sub


jetividade moderna e suas repercussões para a possibilidade de uma clínirn
psicológica com fundamentos fenomenológico-existenciais. Rio de Janeiro:
VIAVERITA.