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INVENTÁRIO DA ARQUITETURA ÍTALO-GAÚCHA EM MADEIRA

COMO PROCESSO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL EM PATO


BRANCO - PR

GABRIEL, MARCO A. M. (1); WEIGERT, IVILYN (2)

1. Faculdade Mater Dei. Curso de Arquitetura e Urbanismo.


Rua Mato Grosso, 200. CEP: 85501-200 Pato Branco/PR
marcoamgabriel@hotmail.com

2. Faculdade Mater Dei. Curso de Arquitetura e Urbanismo.


Rua Mato Grosso, 200. CEP: 85501-200 Pato Branco/PR
ivilynw@yahoo.com.br

RESUMO
O artigo se refere ao relato de experiência e resultados obtidos pelo trabalho de inventário da
arquitetura ítalo-gaúcha em madeira na cidade de Pato Branco e municípios próximos do Sudoeste
do Estado do Paraná. Desenvolvido pelos autores em conjunto com alunos do curso de Arquitetura e
Urbanismo da Faculdade Mater Dei desde 2013, tem como objetivo principal a educação patrimonial
e a valorização da cultura local por meio do cadastramento da tradição construtiva regional,
transformando o discente em agente patrimonial e elemento aproximador entre a comunidade e a sua
própria história. A salvaguarda dos bens é dificultada pelo desenvolvimento econômico em contraste
com a simplicidade desta arquitetura vernacular. Orientados pelos autores, os estudantes são
responsáveis por localizar e enumerar os imóveis de interesse, documentar graficamente por meio de
desenhos técnicos e modelos físicos e registrar a memória dos moradores originais. O trabalho
resultou, em 2015, uma exposição de maquetes de repercussão estadual junto à comemoração dos
cinquenta anos da Igreja Matriz de Pato Branco, e incluiu a recuperação do desenho da igreja original
em madeira. A pesquisa encontra-se em processo de inventário urbano, com a catalogação de
aproximadamente 380 edificações construídas entre o início e o meio do século XX.

Palavras-chave: Arquitetura em madeira. Arquitetura ítalo-gaúcha. Educação patrimonial. Arquitetura


vernacular. Pato Branco/PR.
1. Inventário da arquitetura ítalo-gaúcha em madeira como processo
de educação patrimonial em Pato Branco – PR

O inventário da arquitetura ítalo-gaúcha em madeira como processo de educação


patrimonial em Pato Branco-PR é uma iniciativa estabelecida pelos autores em 2013, no
curso de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade Mater Dei. O objetivo principal é a
documentação do conjunto construído remanescente do período inicial de urbanização da
cidade e região, fortemente atrelada à chegada dos descendentes de europeus do Rio
Grande do Sul e Santa Catarina, principalmente italianos e alemães, que ocorreu entre as
décadas de 1920 e 1960. O trabalho, que ocorre de forma colaborativa, transforma os
alunos de arquitetura em agentes ativos do processo de patrimonialização: orientados pelos
autores, que são arquitetos e professores do curso, os docentes partem a campo e auxiliam
na busca por exemplares históricos, bem como seu levantamento físico e iconográfico, além
do registro da história dos moradores e famílias originais.
A memória coletiva é o entrelaçamento das memórias individuais dos habitantes de
um mesmo lugar em relação à passagem do tempo. Identidade cultural de um povo é a
manifestação física dessa memória coletiva que, sendo a priori não tangível porque é
necessariamente memória, só se materializa se for transmitida. Patrimônio cultural é, por
consequência, o conjunto da existência material e do processo de transmissão da identidade
cultural. O problema da preservação do patrimônio é, mais grave do que a depredação da
manifestação física, a quebra do processo de transmissão - porque ela significa o
desentrelaçamento da memória coletiva.
O problema de Pato Branco, participante da pouca cultura arquitetônica generalizada
do panorama brasileiro, é justamente a desconexão, que a completa inexistência de registro
desta arquitetura e o desconhecimento da população em relação à sua própria história
causa sobre a identidade coletiva representada nas residências cinquentenárias. O
processo de substituição da arquitetura original, que se acelerou a partir dos anos 90, é não
orgânico e está pautado sobre valores comerciais e a errônea sensação de modernidade
que a verticalização dos centros urbanos traz. Sem um processo ativo de transmissão desse
conhecimento, a memória construída da cidade e região está fadada a virar madeira de
demolição.
O processo de documentação do acervo de edifícios em madeira de Pato Branco e
região passou a fazer parte do conteúdo programático da disciplina de Arquitetura Brasileira
há quatro anos, sendo estendido para a disciplina de Técnicas Retrospectivas em 2014
visando o monitoramento e a análise do estado de conservação dos imóveis previamente
catalogados. Durante os três primeiros anos do programa os alunos, em grupos, fizeram o
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levantamento detalhado de aproximadamente 45 casas urbanas e rurais, além de edifícios
de outras funções, como moinhos e um hospital, edificados em tábuas e mata-juntas. Em
2017 o trabalho evoluiu para um inventário urbano em que os exemplares de interesse
foram mapeados e catalogados em maior número. Esta experiência despertou o olhar dos
alunos para imóveis até então pouco notados na paisagem, ao identificar e inventariar este
patrimônio remanescente, uma vez que sua presença é pontual e pulverizada na malha
urbana.
Para Ferraz (2011, p.159), preservar o patrimônio hoje “é educar, compreender a
complexidade de nossas cidades, dar referência do melhor de nossa produção”. O tema da
educação entra nas discussões mundiais na década de 1970. Está presente na Declaração
de Amsterdã de 1975 entre as considerações essenciais deliberando que o patrimônio não
sobreviverá se não for apreciado pelo público e especialmente pelas novas gerações. A
conservação também não é tarefa única para os especialistas. A população deve ter
participação ativa inclusive na realização de inventários e na tomada de decisões, desde
que obtenha as informações de forma objetiva e completa (CONSELHO DA EUROPA,
1975).
No primeiro seminário brasileiro sobre a preservação e revitalização dos centros
históricos, realizado pelo comité brasileiro do ICOMOS em 1987, este tema foi abordado
reforçando a necessidade de uma ação integrada entre as entidades federais, estaduais e
locais, e também da participação da comunidade, que estaria desta forma, exercendo seu
direito à cidadania (ICOMOS, 1987). Para que a população possa participar de maneira
efetiva, “convém fornecer-lhe os elementos para apreciação da situação; de uma parte,
explicando-lhe o valor histórico e arquitetônico das edificações a serem conservadas e; de
outra parte, fornecendo-lhe todas as indicações sobre os regulamentos definitivos e
temporários” (CONSELHO DA EUROPA, 1975, p. 7).
No processo cognitivo coletivo deste trabalho, mais do que o simples registro do
conjunto construído, a relação de parceria entre professores e alunos tem a clara intenção
de formar novos arquitetos defensores e difusores da ideia da preservação da identidade
cultural local. São eles que vão auxiliar na sensibilização da população como profissionais e
participantes da comunidade. Aos professores, cabe a compilação das informações e
formalização do registro que foi criado por centenas de mãos: ano a ano, o acúmulo de
informações nos permitiu finalmente redigir este artigo, que é o primeiro texto sobre a
arquitetura tradicional do Sudoeste do Paraná a ser publicado.
Em Pato Branco a Lei Nº 1523 de 03 de dezembro de 1996 que dispõem sobre a
preservação do patrimônio natural e cultural do município. Nela, está prevista a criação do
Conselho Municipal do Patrimônio Cultural - COMPAC. Passados mais de vinte anos, tal
conselho deliberativo jamais foi instituído. Na mesma Lei, está previsto no capítulo III todo o
processo de Tombamento dos imóveis, porém a nenhum foi atribuída proteção alguma. Não
foram encontradas referências quanto às normativas em outras cidades da região. A
preservação tanto ambiental quanto do patrimônio histórico e cultural também está prevista
no Estatuto das Cidades, Lei Nº 10.257 de julho de 2001. Algumas das cidades cujos
imóveis de interesse foram identificados possuem menos de vinte mil habitantes, o que as
isenta da elaboração de um plano diretor.
Por falta de acesso à informação da população para formular o senso crítico próprio,
o patrimônio cultural do sudoeste do Paraná perece. Grande parte dos imóveis preservados
não foram demolidos apenas porque permanecem como propriedades dos pioneiros que os
construíram. O valor afetivo por eles demonstrado reflete o sentimento que o trabalho busca
despertar nos alunos e na população em geral de que a “arquitetura é uma manifestação
cultural que, uma vez preservada, integrará a memória da comunidade” (POSENATO, 1989,
p. 59).
O Sudoeste do Paraná, uma das dez mesorregiões do estado, foi a que mais
cresceu no período de 2005 a 2009, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), com Pato Branco e Francisco Beltrão liderando esse crescimento
(FETRACONSPAR, 2012). Tradicionalmente as cidades com maior desenvolvimento
econômico são as que apresentam as maiores perdas no âmbito do patrimônio histórico. Em
Pato Branco, a especulação imobiliária devido à verticalização determina a valorização
elevada dos terrenos na região central, acentuando as demolições de imóveis históricos.
Aqueles situados nas regiões rurais encontram-se mais preservados, pois permanecem em
uso muitas vezes com funções diferentes das originais.
Por se tratar do que a Carta de Veneza cita como “obras modestas” (ICOMOS,
1964), sua preservação é dificultada. Entretanto, a pesquisa realizada durante os últimos
quatro anos atribui a estas edificações um valor inegável, pois elas são a materialização do
processo de ocupação da região, com significação cultural adquirida.
Visando salvaguardar este acervo arquitetônico regional em risco, por meio da
valorização cultural, a metodologia de trabalho desenvolvida junto aos alunos em Pato
Branco atende aos objetivos previstos nas Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de
graduação em Arquitetura e Urbanismo, normatizadas com a Resolução CNE/CES nº 2, de
17 de junho de 2010. Entre as ações pedagógicas previstas no Art. 3º, § 2º, o item IV
descreve a importância da “valorização e a preservação da arquitetura, do urbanismo e da
paisagem como patrimônio e responsabilidade coletiva” (RESOLUÇÃO CNE/CES nº2/2010,
p. 2). O Art. 6º que trata dos conteúdos curriculares do curso, no § 5º, determina algumas
das atividades, práticas e teóricas, dentre as quais:

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V - pesquisas temáticas, bibliográficas e iconográficas, documentação de
arquitetura, urbanismo e paisagismo e produção de inventários e bancos de
dados; projetos de pesquisa e extensão; emprego de fotografia e vídeo;
escritórios-modelo de arquitetura e urbanismo; núcleos de serviços à
comunidade. (RESOLUÇÃO CNE/CES nº2/2010, p. 4).

Na organização da atividade foi determinante a relação entre as disciplinas


curriculares citadas. O inventário foi estruturado em três momentos: o primeiro, realizado em
sala de aula, onde foram ministrados os conteúdos teóricos; o segundo quando os alunos
foram a campo, orientados pelos professores arquitetos das disciplinas, para realização dos
levantamentos métrico e fotográfico e entrevistas; e o terceiro quando os trabalhos foram
apresentados e expostos na própria Faculdade e em exibições para a comunidade, incluindo
maquetes em escala 1/25.

Imagem 01: Maquetes preparadas pelos alunos. Fonte: Marco Gabriel, 2015.

Na estruturação teórica realizada em sala de aula foi apresentado o embasamento


histórico referente ao processo de ocupação da região relacionado com a migração de
descendentes de italianos e alemães do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, além dos
poloneses e ucranianos que migram para a região a partir do Centro-Oeste do Paraná mais
tardiamente (BRISKIEVICZ, 2010). Desta forma foi possível compreender a influência na
arquitetura em madeira que esses grupos exercem, trazendo as habilidades construtivas
das regiões de origem e aplicando esses saberes nas novas ocupações a partir da década
de 1930. A Faculdade possui alunos de toda a região e, após o lançamento da atividade,
muitos deles apresentaram expontaneamente imóveis pouco conhecidos, localizados em
regiões rurais ou núcleos urbanos de menor porte.
O contato com os moradores é essencial para despertar o interesse pelos imóveis.
Os levantamentos gráficos e fotográficos são complementados por entrevistas com os
moradores, realizados in loco e documentados de forma escrita ou em vídeo. As famílias
mais tradicionais dispunham de fotos antigas e muitas gentilmente às emprestaram para
digitalização. Nunca foram encontrados projetos originais de nenhuma edificação, muito
provavelmente porque registros gráficos raramente existiram, dado o costume de construção
familiar.
Na disciplina de Técnicas Retrospectivas foram inventariados imóveis de caráter
especial, entre eles um hospital em madeira de dois pavimentos situado na cidade de Dois
Vizinhos, em 2015. É também na disciplina que a prática profissional passa a utilizar a
arquitetura local como objeto de estudo técnico, aproximando os alunos da realidade do
restauro de forma prática.
Este exercício de preservação cultural através de uma prática de ensino não é
inédito. Uma das experiências de grande sucesso foi a realizada pelo professor Nestor
Torelli Martins e seus alunos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Porto Alegre –
Instituto Riter dos Reis, na cidade de Antonio Prado, no Rio Grande do Sul em 1985. Este
trabalho foi organizado e publicado por Julio Posenato e tornou-se uma referência enquanto
metodologia e resultados alcançados. O professor afirma:

A identidade cultural de uma nação se formula através do testemunho das


suas realizações espirituais e materiais. Esta identidade é integrada, entre
outros referenciais (...) pelas edificações que deram suporte às atividades
humanas. Estes são sempre testemunhos que relatam a experiência de vida
desenvolvida por nossos antepassados, e que nos auxiliam a enfrentar com
maior conhecimento os desafios do futuro (POSENATO, 1989, p. 59).

O trabalho realizado em Pato Branco seguiu uma metodologia similar, alcançando


resultados práticos, como o interesse demonstrado pelos alunos em conhecer e aprofundar
o estudo sobre as edificações locais, o aprendizado da metodologia de análise e
documentação arquitetônica e a sensibilização da comunidade.

2. A história do patrimônio vernacular em madeira na cidade de


Pato Branco/PR

2.1 As raízes ítalo-gaúchas

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A arquitetura vernacular em madeira desenvolvida na cidade de Pato Branco entre
as décadas de 1930 e 1960 tem raízes formais no processo de migração de descendentes
de italianos, alemães, ucranianos e poloneses do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina
para a região Sudoeste do Paraná após a resolução de conflitos políticos em relação à
posse da área entre os governos estaduais, paranaense e catarinense. Em sua grande
maioria de proveniência italiana (VOLTOLINI, 1996), os gringos, como foram chamados
pelos caboclos que já residiam na região, deixam as terras montanhosas e pouco produtivas
de origem em busca de terras mais fáceis para o cultivo no Paraná (CANTÚ, 2006, p.128).
No início do século XX, o incipiente contingente populacional da região girava em
torno de três e seis mil habitantes, grupo majoritariamente composto de peões, agregados e
agricultores provindos de Palmas, Clevelândia e Campos Gerais e posseiros refugiados da
região do Contestado, de origem luso-brasileira, além de argentinos e paraguaios à procura
de erva mate. O embate da revolução de 1924-25 entre os primeiros colonos do Sudoeste e
revolucionários oriundos de movimentações militares do Rio Grande do Sul, notadamente as
tropas capitaneadas por Carlos Prestes, desestabilizou o processo de colonização inicial,
mas favoreceu o aumento da migração do Rio Grande do Sul para a região (WACHOVICZ,
1987).
Estabelece-se aí, de início, uma íntima relação entre o desenvolvimento
arquitetônico e social da nova comunidade e o meio ambiente sudoestino. A região da
antiga colônia rural Bom Retiro em Clevelândia, da qual Pato Branco se origina, era
dominada por uma densa cobertura vegetal de araucárias. Se por um lado a presença
dominante do pinheiro-do-paraná dificultou a vida do gringo em cumprir sua determinação
agrícola, por outro ponto de vista serviu como matéria-prima construtiva base para novo
núcleo populacional e possibilitou o ciclo econômico extrativista que impulsionou a economia
da cidade entre as décadas de 1940 e 1960.
Os descendentes de europeus que se fixaram ali desenvolveram décadas antes nas
suas localidades de origem sulista, um trato da madeira como substrato arquitetônico que é
não autóctone. Os italianos, em especial, foram assentados em regiões do planalto
meridional gaúcho a partir da década de 1870, onde os terrenos de encosta, menos
prósperos que as terras baixas do estado ocupadas pelos alemães - que haviam chegado
cerca de cinquenta anos antes - eram abundantes em pinheiros e carentes em rocha
(Gutierrez; Gutierrez, 2000). Oriundos principalmente de planícies e colinas do vêneto,
estavam acostumados à utilização de blocos cerâmicos e de pedra para a construção de
invólucros murais, sendo a escassa madeira, material para pisos, esquadrias e estruturas de
telhado. A arquitetura de paredes e coberturas de madeira na Itália predomina apenas nas
cotas mais altas, mas apresenta-se na forma de blocausse, onde troncos ou pranchões de
madeira são assentados horizontalmente. Mais que italiana, o blocausse é uma técnica
genérica compartilhada por populações de diversas regiões alpinas europeias, como
franceses, austríacos e suíços (POSENATO, 1989, p. 23).
Da utilização inicial do blocausse, que se mostrou economicamente e termicamente
inviável, o colono passa a utilizar a madeira “para com ela recriar a forma da arquitetura em
alvenaria própria da colina italiana” (POSENATO, 1989, p. 23). Criou-se aí a tipologia
construtiva composta por estrutura em esqueleto de vigas e esteios fechada por tábuas
verticais arrematadas por mata-juntas que, pregadas à estrutura, funcionam
concomitantemente como vedação e contraventamento (IMAGUIRE JR ;IMAGUIRE, 2011,
p.31). Para Weimer (2012, p.174), “à medida que os imigrantes se aperceberam das
vantagens da construção em madeira, as tábuas se tornaram a matéria-prima por
excelência dessa cultura”. Apesar do sistema de tábuas e mata-juntas ser partilhado por
outras culturas construtivas mundiais onde há o emprego de coníferas, o desenvolvimento
da “casa de araucária” acontece sem influências externas identificáveis (BATISTA, 2011, p.
28-29).
Mazzarotto e Batista (2013) acreditam que, em relação às formas de habitar, os
imigrantes constroem de forma muito similar à sua terra natal, mesmo aqueles que não
tiveram acesso à mão de obra patrícia ou materiais similares utilizados na região de origem.
Também mantém viva a herança etrusco-romana de uma arquitetura popular austera,
despojada e essencial em contraposição à ornamentação da arquitetura oficial
(POSENATO, 1989, p.23). Entretanto, sofrem influência inicial dos alemães, principalmente
no que se refere à utilização dos sótãos altos para secagem de grãos, processo
relativamente mal sucedido que leva os italianos a ampliarem os porões, criando as
tradicionais cantinas (WEIMER, 2012, p.174).
Ao movimentar-se das regiões originárias para o sudoeste paranaense, os
descendentes trouxeram consigo costumes arquitetônicos pré-estabelecidos que se
desenvolvem em Pato Branco e região sem influências externas significativas, dada a
distância do núcleo urbano em relação à centros mais expressivos, como Curitiba, a
indisponibilidade inicial de outros materiais e a não existência de qualquer costume
construtivo desenvolvido pelas populações anteriores. Dessa conjunção histórica surgiu, por
parte dos autores deste artigo, a escolha do termo “ítalo-gaúcho” para a denominação desse
movimento arquitetônico, porque apesar da existência de outros descendentes de europeus,
foram os costumes construtivos dos italianos gaúchos que se fixaram no Sudoeste com
mais força.

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2.2 A arquitetura em madeira de Pato Branco entre as décadas de 1940 e
1960

A destinação agrícola inicial da região de Pato Branco faz com que os gringos
desenvolvam ali, inicialmente, uma arquitetura em madeira de forte caráter rural, como os
telhados de duas águas e sótãos expressivos conforme atestam fotos da década de 1940. O
conjunto residencial em torno da pequena Igreja de madeira era basicamente composto por
construções de um pavimento implantadas sobre o alinhamento predial das precárias
estradas de terra.
Entretanto, houve uma clara mutação dessa arquitetura em direção às tipologias
citadinas nas décadas seguintes. O sucesso comercial do surgimento das serrarias
expandiu o centro urbano de Vila Nova e lhe deu vocação comercial. Proliferaram, neste
momento, volumes arquitetônicos em madeira de até três andares, fortemente conectados
com o alinhamento predial devido à função comercial do térreo, no centro da colônia. Os
telhados altos com sótão, sem clara função no meio urbano, cedem lugar às coberturas de
quatro ou mais águas feitas com telhas francesas. As posturas urbanas e características da
estrutura de madeira sem reforços diagonais desencoraja a criação de projeções
volumétricas (com a exceção de pequenos avarandados), dando às edificações um aspecto
robusto e essencialmente prismático. Apesar da estreita ligação entre a implantação e o
traçado viário, os volumes afastam-se nas laterais dos terrenos, dadas às necessidades de
insolação e ventilação do material.
Os esforços decorativos são mínimos, sendo basicamente compostos por chanfros e
balaústres em janelas e avarandados. Há, porém, um esforço contínuo de alinhamentos
entre os elementos das fachadas, que lhes confere um aspecto clássico, mesmo que não
haja qualquer menção física à modenaturas ou arquiteturas em relevo. O fato também é
auxiliado por certa regularidade de proporções verticais das janelas tipo guilhotina e portas
em pranchões de madeira, que lhes garante um aspecto de ritmo.
A unidade estilística destas construções é um forte indício da popularização da
técnica ítalo-gaúcha, que se sobrepõe às contribuições construtivas de outras populações
de descendência europeia. Por meio da análise de fotografias antigas, foi possível localizar
poucos exemplares de casas com telhado tipo bungalow (ou chanfrado), tipologia descrita
por Batista (2007, p.48) como de influência germânica e normanda, da qual não há mais
registro. Em Palmas-PR, a 100 km de Pato Branco, há pelo menos três exemplares bem
conservados desta técnica no reduzido conjunto remanescente do município, o que é
possivelmente fruto da proximidade com Santa Catarina e da arquitetura teuto-brasileira do
estado vizinho. Esta estética também possivelmente foi ignorada em Pato Branco pela
escassez de mão-de-obra de carpintaria especializada que o estilo demanda. Também não
há qualquer indício de influência do ecletismo que se manifestou sobre a arquitetura em
madeira de Curitiba e região, fortemente marcada por valores decorativos ditos românticos e
pela contribuição de descendentes de poloneses e ucranianos.
As exceções à típica ausência de estilo da arquitetura vernacular local são dois
edifícios com funções especiais e que já que foram demolidos: a segunda igreja em madeira
edificada na cidade (conhecida como Igrejinha) e o edifício original do Colégio Vicentino
Nossa Senhora das Graças.

Imagem 02: Rua Tapajós em 1948 e a Igrejinha. Fonte: Instituto Prosdócimo Guerra.

A igrejinha de tábuas e mata-juntas, iniciada em 1935, foi assentada sobre o ponto


mais alto do que hoje é a Praça Getúlio Vargas. O terreno foi delimitado pelo engenheiro
Duilio Trevisani Beltrão, ao qual é atribuído por Pozza (2014) também o projeto da
construção, fato que carece de evidências documentais. A edificação ficou pronta em 1937
(VOLTOLINI, 1996) e apresentava típicos traços do ecletismo tipológico neogótico, muito
comum nas construções religiosas paranenses entre o final do século XIX até as primeiras
décadas do século XX, principalmente em Curitiba, onde Maiolino (2007) lhes atribui uma
forte influência dos imigrantes europeus não ibéricos.

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A igreja possuía uma única torre interseccionada no eixo da fachada frontal, a qual
servia como entrada principal, planta tipo salão e abside semicircular de desenho sextavado
que delimitava o altar-mor. O volume arquitetônico do presbitério é complementado por dois
ambientes retangulares de função incerta, mas que provavelmente compunham a sacristia.
O coroamento da torre sineira em pirâmide galbada, esquadrias encimadas por arcos
ogivais. A dramatização vertical do telhado longitudinal e a supressão dos beirais inclinam o
traço em direção ao modelo das hallenkirche. A edificação foi demolida quando da
construção da atual Igreja Matriz, entre 1960 e 1965.
O Colégio Vicentino, ou colégio das irmãs, foi edificado “em 1949, com projeto de
Otto Kar Hedmundo Schirmer, alemão vindo de Porto Alegre” (VOLTOLINI, 1996, p.240),
descrito como “hábil desenhista e exímio em cálculo” (CVNSG, 2015). O projeto foi
executado pelo próprio Otto e pelo Senhor José Merlin em cerca de dez meses
(BOCCHESE, 2004) e evidencia a origem germânica do seu autor. A edificação era
composta de um volume prismático retangular de dois pavimentos e outro, transversal e
com porão devido ao desnível do terreno, que se conectava à lateral esquerda do anterior,
formando um “T” – atribuindo a si um valor de transepto. Segundo Imaguire Jr e Imaguire
(2011) tal interação volumétrica, relativamente comum nas residências de telhado chanfrado
de influência alemã, amplia consideravelmente a área do sotão.
O aproveitamento do sótão também foi otimizado pela presença de duas
protuberantes mansardas na fachada frontal, novamente estranhas à cultura local. O beiral
longitudinal galbado e misulado nos oitões do “transepto”, unido ao pequeno lanternim
piramidal (que faz as vezes de torre do zimbório na intersecção de coberturas), confere ao
edifício um aspecto secular bastante alinhado à origem religiosa da educação providenciada
pelas irmãs. O valor visual da cobertura seria facilmente atrelado ao neogótico. Entretanto,
diferente da igrejinha de 1937, as esquadrias da construção apresentam arcos abatidos no
piso superior e vergas retas no inferior, o que dissipa o valor estilístico de revival – mesmo
que o grupo de janelas dos oitões se assemelhe de certa forma, ao formato de vitrais do
gótico primitivo. O colégio existiu até 1975, quando foi demolido por apresentar “visíveis
sinais de deterioração” (VOLTOLINI, 1996, p.243), sendo substituído por edificação em
alvenaria sem valor arquitetônico considerável.
Ainda no centro da cidade, a popularização de blocos cerâmicos autoportantes por
volta do início da década de 1950, vindos de união da Vitória / SC, faz surgir uma tipologia
de construção mista, em que a fachada principal é executada em alvenaria e o resto do
volume é edificado em madeira. Interessantemente, tais fachadas assumem uma roupagem
no estilo Art Déco tardio, pautado pelo direcionamento horizontal dos frisos e linhas gerais,
presença de platibanda, valorização estética das entradas e arredondamento em esquinas.
Há apenas duas edificações remanescentes deste modelo, ambas da década de 1950. A
alvenaria autoportante também foi utilizada para porões e na construção do andar térreo de
alguns exemplares, comumente imóveis de esquina, mas sem alterar a identidade estilística
ítalo-gaúcha das residências nestes casos.
Em torno do pequeno centro, a presença de lotes maiores possibilitou uma
implantação mais criativa da linguagem ítalo-gaúcha. Sem função comercial, a existência de
edificações de dois andares parece não ser justificada e, portanto, o conjunto é
majoritariamente composto por residências unifamiliares de um pavimento. Sem as amarras
volumétricas que a sobreposição de andares causa na técnica da casa de araucária, a
adição e subtração de volumes de acordo com as necessidades do programa arquitetônico
gera uma variedade interessante de soluções espaciais, o que dificulta a categorização do
conjunto em tipologias.
A variedade também é explicada pelo costume local de construção familiar. Na
ausência de construtores profissionais ou inviabilidade econômica de sua contratação, são
os próprios moradores que se lançam a projetar e edificar suas habitações. Não houve,
durante as décadas de 1940 e 1960, qualquer necessidade de aprovação gráfica de projetos
em Pato Branco, o que explica a liberdade tectônica, a ausência de registros técnicos e
ausência de lirismo decorativo que a contratação de profissionais provavelmente causaria.
Este fato diverge de Curitiba, onde a arquitetura em madeira estava condicionada às
especificações do código de posturas e aprovação de projeto desde 1919 (BERRIEL, 2011).
Unido à estandardização da madeira possibilitada pela introdução de equipamentos de
serraria mais modernos, tal fato causou certa tendência à repetição de soluções formais
para as casas de tábuas, que se diferenciavam entre si justamente pelo trabalho de
ornamentação promovido pelos profissionais (BATISTA, 2011). O ecletismo, ainda muito em
voga na capital paranaense durante a primeira metade do século XX, adiciona valores
decorativos ao conjunto que, mesmo tradicionalmente atrelado à tradição dos imigrantes,
carregam certo aspecto genérico do ecletismo brasileiro. É o caso dos famosos
lambrequins: comumente atrelados à identidade arquitetônica de italianos e poloneses na
capital, eram na verdade, segundo Imaguire Jr e Imaguire (2011), uma obrigatoriedade
estabelecida no código de 1919 da qual não se sabe o motivo exato.
Sem as obrigatoriedades das construções curitibanas, a arquitetura em madeira de
Pato Branco é verdadeiramente uma construção coletiva da identidade cultural local, em que
a unidade do conjunto é dada pelo partilhamento da técnica e elementos construtivos.
Apesar da individualização da construção familiar, os componentes básicos destas
residências são comuns a quase a todas elas: os avarandados generosos, as esquadrias do
tipo guilhotina de tamanho padronizado, os telhados cobertos por telhas francesas, as
portas almofadadas e, sempre que o terreno permite porões ou elevações generosas do

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solo, que com frequência emulam a condição de piano nobile junto das escadarias de
acesso.
As plantas claramente nascem da memória da interação formal entre os dois
ambientes sociais dos edifícios, a sala e a cozinha. Originalmente volumes separados na
arquitetura rural do imigrante italiano nos pampas gaúchos, pelos perigos do fogo e falta de
isolamento da fumaça dos fogões rudimentares (GUITERREZ; GUTIERREZ, 2000), a
cozinha passa ser incluída no corpo da casa principal, mas acaba tradicionalmente
assumindo valor volumétrico de anexo, o que pode ser percebido nos jogos de telhado.
Assim, enquanto os quartos são acessados pela sala (o estar íntimo), a cozinha sempre
assume algum distanciamento dessa conexão, principalmente naquelas em que as áreas
molhadas foram adicionadas a posteriori. Consequentemente, as varandas adquirem um
interessante valor de ligação entre sala e cozinha (além dos banheiros, que sofrem o
mesmo processo porque se popularizam tardiamente), elevando-se à condição de terceiro
ambiente social da casa. Se a cozinha é o coração do lar, pelo aspecto aconchegante dos
tradicionais fogões a lenha e hábitos alimentares dos gringos, a varanda é, por excelência, o
verdadeiro estar social da residência - local em que o morador recebe as visitas para um
típico chimarrão. Por vezes, varandas foram modificadas para se transformar em garagens
cobertas. Mesmo assim, a função social perdura.
Sobre as coberturas, ao contrário de Curitiba, onde telhados de duas águas são mais
numerosos nas tipologias apresentadas por Imaguire Jr e Imaguire (2011), o conjunto
patobranquense dá clara preferência às soluções de quatro ou mais águas, relativamente
raras na capital. A proliferação de tacaniças é provável fruto da inutilidade dos sótãos em
meio urbano, bem como maior adaptabilidade aos desenhos de planta e a depuração da
influência da linguagem germânica sobre a italiana.
Na década de 1960 surge uma tipologia que Batista (2007, p.48-49) descreve como
“casa modernista ou funcionalista” que, sofrendo influência da construção de Brasília,
“possui pé direito mais baixo, em torno de dois metros e cinquenta centímetros, telhados
com águas desencontradas, com formas volumétricas semelhantes às casas de alvenaria
produzidas na época”. Também cita que, acompanhando a evolução tecnológica da
indústria de construção civil, incorpora elementos industrializados “como janelas metálicas,
pilares em tubos, calhas e condutores”. Residências mais simples e de desenho seriado,
que Batista (2011) atribui em Curitiba a modelos pré-fabricados comercializados por
serrarias e que, pela similaridade, devem ser fruto de processos semelhantes em Pato
Branco (apesar da falta de registros); apresentam telhados de duas águas voltados para as
laterais dos terrenos, mas novamente não há referência a sótão.
2.3 O fim do ciclo da madeira em Pato Branco, novas arquiteturas e o
conjunto remanescente

Após o início modesto das serrarias familiares, a cidade recebe madeireiras que
industrializam “o pinho em grande escala para comercialização nos maiores centros
consumidores do país e no exterior” (VOLTOLINI, 2000, p.64), introduzindo métodos mais
modernos, como a Serra Tissot e a serra Pery. Entretanto, a exploração desenfreada da
mata de araucárias da região acaba por sinalizar o precoce fim do ciclo da madeira. Em
1967, ano da criação do IBDF (Instituto Brasileiro De Desenvolvimento Florestal), Pato
Branco havia consumido cerca de 95% da sua floresta de pinheiros. O fomento às empresas
de reflorestamento, que introduziram espécies exóticas no Brasil como os Pinus, aliadas às
novas legislações de exploração da madeira, acabaram por cercear a atividade comercial
em larga escala das serrarias do município. Uma vez que Pato Branco não foi incluído em
nenhum programa de reflorestamento na época, outros ciclos econômicos acabaram por
prevalecer (VOLTOLINI, 2000).
É também entre o final da década de 50 e início anos 60 que a cidade passa a
receber as primeiras edificações monumentais em alvenaria, além da introdução do
concreto, que trazem ao centro as aspirações do modernismo tardio pós-Brasília. A primeira
construção imponente, a atual Igreja Matriz São Pedro Apóstolo, projeto atribuído a Benedito
Calixto de Jesus Neto (POZZA, 2014), foi edificada em blocos cerâmicos autoportantes e
possui características semelhantes ao neorromânico, mesmo estilo empregado pelo
arquiteto em sua obra mais famosa, a Basílica do Santuário de Nossa Senhora Aparecida.
Os primeiros edifícios modernistas da cidade, entre eles a atual Prefeitura e o
Colégio Agostinho Pereira, inauguram a tendência de substituição dos antigos casarões de
tábuas por edifícios contemporâneos, processo que se intensifica a partir dos anos 1970.
Ainda nos anos 60, a popularização de elementos industrializados, principalmente as
esquadrias de ferro e vidro do tipo “vitraux”, passam a ocupar o espaço das tradicionais
janelas guilhotina em madeira (IMAGUIRE JR; IMAGUIRE, 2011), causando uma
modificação no padrão da arquitetura tardia do ciclo e, em certo grau, inaugurando a
tendência de substituição de elementos por soluções mais modernas que se verifica dali
para frente.
Zani acredita que:

(...) a ocorrência de construções em madeira em todo o território


paranaense, desde o final do século XIX até a década de 1970, nos revela
uma cultura arquitetônica, que não foi provisória nem transitória, pois serviu
de abrigo à população por várias décadas e continua servindo em alguns

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casos, mas aos poucos vai desaparecendo das paisagens pelas constantes
demolições (ZANI 2013, p.12).

O esforço de inventário da arquitetura ítalo-gaúcha da cidade feito pelos autores em


conjunto com os alunos da Faculdade Mater Dei localizou, desde 2013 até o momento,
cerca de 380 residências edificadas entre 1940 e 1970 dentro da cidade e no seu perímetro
rural. Apesar do número relativamente expressivo de remanescentes, sua localização
pulverizada dentro do tecido urbano do município afeta gravemente seu valor de conjunto e
favorece a destruição das casas. A maior parte dos imóveis inventariados apresenta certo
grau de modificação, principalmente no que se refere à instalação de áreas molhadas em
alvenaria, substituição de esquadrias e telhas.

Imagem 03: Residência da década de 1960 no interior do município. Fonte: Marco Gabriel, 2016.

Dos antigos casarões de dois andares completamente executados em madeira,


foram localizados apenas dois exemplares até agora e que estão na área rural do município.
O edifício Fazolin e o edifício Lola Cantú, citados anteriormente como exemplares de
construções com fachada de alvenaria autoportante de inspiração Art Déco, são os dois
únicos exemplares em área urbana que possuem mais de um pavimento em madeira. Um
terceiro edifício, pertencente à família Bertani, tido popularmente como o primeiro casarão
de dois pavimentos da cidade, teve seu andar térreo revestido em alvenaria e foi
intencionalmente descaracterizado por volta de 2009. Até agora, a residência mais antiga
inventariada é a casa Scattolla que, segundo os moradores, foi construída na década de
1940.

Residências com andar térreo em alvenaria e andar superior em madeira são


relativamente comuns no centro da cidade, principalmente em terrenos de esquina. Tais
edifícios continuam a funcionar como misto de residência e comércio. Fora do raio imediato
da Praça Getúlio Vargas, as residências de um pavimento são dominantes nos bairros
adjacentes, assim como na área rural. Devido ao perfil geográfico irregular da cidade, as
residências com porão distribuem-se irregularmente no perímetro urbano.

3. Resultados do trabalho

Além do inventário e de exposições internas no meio acadêmico da Instituição, o


objetivo principal da pesquisa é atingir a população, para que vislumbrem na preservação do
patrimônio histórico arquitetônico a segurança e o sentimento de pertença que sua
conservação pode causar. Segundo Ferraz (2011, p.58), “devemos reacender nas
comunidades, nas vilas e nas cidades o sentido de pertencimento, de apropriação social do
patrimônio histórico”. Uma vez que qualquer processo de tombamento é improvável em
curto prazo, dadas as forças econômicas antagônicas do município, optou-se por agir sobre
a comunidade buscando incorporar na mentalidade coletiva a ideia de valor patrimonial.
A oportunidade veio com a comemoração dos 50 anos da Matriz de São Pedro
Apóstolo, em junho de 2015. Atendendo um pedido da paróquia, a Faculdade Mater Dei foi
encarregada de realizar uma exposição, intitulada “Comunidade é Igreja – os 50 anos da
Igreja Matriz São Pedro Apóstolo”, para a qual foram confeccionadas duas maquetes: uma
que reproduz o aspecto original da Matriz (ela foi parcialmente descaracterizada duas vezes
entre 2000 e 2010), e outra que resgata o desenho original da Igrejinha de 1938, processo
feito por pesquisa iconográfica. As maquetes foram posicionadas sobre a reprodução da
topografia do terreno da atual Praça Getúlio Vargas, num esforço de reproduzir a
ambientação original do conjunto. O trabalho contou com a colaboração de 40 alunos e
levou 45 dias para ficar pronto.
A exposição foi complementada por quinze maquetes de residências cinquentenárias
da cidade, além de painéis que contam sua história, e que foi o primeiro passo em direção à
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difusão da noção de patrimônio cultural na cidade. Os modelos funcionam, no processo,
como ferramenta para elevar as casas à condição de objeto histórico para treinar o olhar do
leigo. A concentração das maquetes, em contraposição ao posicionamento pulverizado dos
remanescentes originais, funciona no sentido de reproduzir a ambientação original da
cidade. Dessa maneira, os visitantes podiam vislumbrar as semelhanças entre elas e
compreendê-las como uma camada histórica bem definida.
A exposição contou com milhares de visitantes, além do alcance de público causado
pelas divulgações em rádio, jornais, revistas, televisão e exibições posteriores. Proprietários
das residências expostas foram convidados para a abertura e, orgulhosos, contavam a
todos sobre a importância de seus imóveis e sua história. Essa exposição foi responsável
pela sensibilização de uma parcela significativa da comunidade que, ao circularem e
conversarem com outros presentes, resgataram memórias de tempos passados, de seus
pais ou avós, que contribuíram para a construção da cidade e região.

Imagem 04: Exposição “Comunidade é Igreja”, realizada em 2015. Fonte: Ivilyn Weigert, 2015.
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