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INSTITUTO SUPERIOR POLITÉCNICO DE GAZA

DIVISÃO DE AGRICULTURA
CURSO DE ENGENHARIA FLORESTAL

PROJECTO FINAL

DETENÇÃO DE MUDANÇAS DE COBERTURA FLORESTAL NUM FRAGMENTO DE


MECRUSSE EM MACUACUA- DISTRITO DE MANJACAZE

Relatório de Monografia apresentado e defendido como requisito para a obtenção do grau de


Licenciatura em Engenharia Florestal

Autor: Simões José Elias

Tutor: dr. Arão Raimundo Feniasse (MSc)

Co-tutores:

Engo Mário Sebastião Tuzine (PhD)

Engo Severino José Macôo

Lionde, Agosto de 2018


INSTITUTO SUPERIOR POLITÉCNICO DE GAZA

Projecto de Licenciatura sobre Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento


de Mecrusse em Macuacua - Distrito de Manjacaze, apresentado ao Curso de Engenharia
Florestal na Divisão de Agricultura no Instituto Superior Politécnico de Gaza, como requisito para
obtenção do grau de Licenciatura em Engenharia Florestal.

Autor: Simões José Elias


Tutor: dro. Arão Raimundo Feniasse (MSc)
Co-tutores:
Engo. Mário Sebastião Tuzine (PhD)
Engo Severino José Macôo

Lionde, Agosto de 2018

i
ÍNDICE
ÍNDICE DE TABELAS .................................................................................................................. v
ÍNDICE DE FIGURAS .................................................................................................................. vi
ÍNDICE DE ANEXOS .................................................................................................................. vii
LISTA DE ABREVISTURAS E SIGLAS ................................................................................... viii
DECLARAÇÃO ............................................................................................................................. ix
DEDICATÓRIA .............................................................................................................................. x
AGRADECIMENTOS ................................................................................................................... xi
RESUMO ..................................................................................................................................... xiii
1. INTRODUÇÃO ........................................................................................................................... 1
1.1 Problema do estudo e justificativa ......................................................................................... 2
1.2. Objectivos ............................................................................................................................. 4
1.2.1. Geral ............................................................................................................................... 4
1.2.2. Específicos ..................................................................................................................... 4
2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA .................................................................................................... 5
2.1. Cobertura florestal em Moçambique ........................................................................................ 5
2.2. Situação actual das Florestas em Moçambique ........................................................................ 5
2.2. Descrição, ocorrência e características do Mecrusse ........................................................ 5
2.3. Mudanças de cobertura florestal e Mudanças Climáticas ........................................................ 6
2.4. Teledeteçção como uma ferramenta de detenção de mudanças de cobertura ....................... 7
2.5 Sensoriamento remoto ........................................................................................................ 7
2.3. Landsat 7ETM+ e Landsat 8OLI ...................................................................................... 8
2.6. Resposta espectral de alvos ............................................................................................... 9
2.6.1. Água ............................................................................................................................. 10
2.6.2 Vegetação ................................................................................................................ 10
2.6.3. Solos ............................................................................................................................. 11
2.7. Processamento de imagens ................................................................................................. 11
2.7.1. Correção geométrica .................................................................................................... 12
2.7.2. Correcção atmosférica .................................................................................................. 12
2.8. Classificação ....................................................................................................................... 13
2.8.1. Classificação não-supervisionada .................................................................................... 13
2.8.1.1. Modelo de ISODATA ............................................................................................... 13
2.8.2. Classificação supervisionada ........................................................................................... 14
2.8.2.1. Modelo de Máxima verossimilhança ........................................................................ 14
3. MATERIAIS E MÉTODOS...................................................................................................... 15
3.1. Descrição da área de estudo ................................................................................................ 15
3.2. Clima ................................................................................................................................... 15
3.3. Topografia, solos e hidrografia ........................................................................................... 16
3.4. Uso e cobertura de terra ...................................................................................................... 16
3.5. Vegetação ............................................................................................................................ 17
3.6. Aspectos socioeconómicos ................................................................................................. 18
4. METODOLOGIA...................................................................................................................... 19
4.1. Materiais ............................................................................................................................. 19
4.2. Métodos .............................................................................................................................. 19
4.3. Aquisição de dados ............................................................................................................. 20
4.4 Pré-processamento das imagens .......................................................................................... 21
4.4.1. Correção geométrica .................................................................................................... 22
4.4.2. Delimitação da região de interesse e combinação de bandas ....................................... 22
4.4.3. Correção atmosférica.................................................................................................... 23
4.5. Classificação de imagens satélite ........................................................................................ 25
4.6. Classificação não-supervisionada: Fase I ........................................................................... 25
4.6.1. Pontos da amostra de validação ................................................................................... 25
4.6.2. Número de pontos de amostra por cada classe ................................................................ 26
4.7. Classificação supervisionada: Fase II ................................................................................. 27
4.7.1. Validação dos dados no campo (trabalho de campo) ................................................... 27
4.7.2. Descrição das classes de uso e cobertura da terra ........................................................ 28
4.8. Avaliação da Exactidão da Classificação ........................................................................... 28
4.8.1. Índice Kappa (K) .......................................................................................................... 29
4.9. Detenção de mudanças........................................................................................................ 30
4.10. Estimativa de áreas e os fluxos de mudanças no fragmento de Mecrusse ........................ 30
4.11. Cálculo da taxa de desflorestamento................................................................................. 31
5. RESULTADOS E DISCUSSÃO .............................................................................................. 32
5.1. Uso e cobertura de terra no fragmento de Mecrusse em Macuacua ................................... 32
5.1.1. Mecrusse denso ............................................................................................................ 34
5.1.2. Mecrusse aberto............................................................................................................ 34
5.1.3. Matagal ......................................................................................................................... 34
5.1.4. Pastagens e agricultura ................................................................................................. 35
5.1.5. Solo exposto e área habitada ........................................................................................ 35
5.2. Avaliação de classificação .................................................................................................. 35
5.3. Mudanças de cobertura de Mecrusse e uso da terra ............................................................ 36
5.4. Áreas e fluxos de mudança ................................................................................................. 39
5.5. Factores que concorrem nas mudanças de cobertura florestal no fragmento de Mecrusse .. II
5.5.1. Exploração de madeira .............................................................................................. II
5.5.2 Agricultura e exploração de estacas .............................................................................. III
5.6 Taxa de desflorestamento do Mecrusse em Macuacua ........................................................ III
6. CONCLUSÃO .......................................................................................................................... VII
7. RECOMENDAÇÕES..............................................................................................................VIII
8. BIBLIOGRAFIA ....................................................................................................................... IX
9. ANEXOS .................................................................................................................................XIII
ÍNDICE DE TABELAS
Tabela 1. Resolução espacial de alguns satélites ............................................................................ 8

Tabela 2. Principais bandas do sensor ETM+ ................................................................................ 9

Tabela 3. Sensor, órbita/linha, data, formato e resolução espacial das imagens utilizadas. ......... 21

Tabela 4. Amostras de validação de classificação ........................................................................ 26

Tabela 5. Classes de uso e cobertura da terra utilizadas ............................................................... 28

Tabela 6. Esquema da matriz de confusão ou de erros ................................................................. 29

Tabela 7. Relação entre os valores de índice kappa e o desempenho da classificação ................ 30

Tabela 8. Quantificação de áreas de cada classe de uso e cobertura de terra em hectares e em


percentagem de 2000 e 2017. ................................................................................................. 32

Tabela 9. Matriz de confusão para classificação de 2017 ............................................................ 36

Tabela 10. Matriz de mudanças de cobertura durante os 17 anos ................................................ 39

Tabela 11. Desflorestamento anual bruto e líquido (ha/ano) e respetivas taxas (%/ano) durante o
período 2000-2017 ...................................................................................................................V

Tabela 12. Área florestal bruta e líquida ao longo do período de referência..................................V


ÍNDICE DE FIGURAS
Figura 1. Relação entre as bandas espectrais dos alvos (objectos) naturais. ................................ 10

Figura 2. Mapa de localização da área de estudo. ........................................................................ 15

Figura 3. Mapa de uso e cobertura de terra do Distrito de Manjacaze ......................................... 17

Figura 4. Fluxograma que sintetiza as etapas usadas para a elaboração deste trabalho ............... 20

Figura 5. Processo de descarga das imagens satélite na página web da USGS............................ 21

Figura 6. Imagem da margem esquerda com shp de manjacaze a vermelho e o roi a amarelo, e a
margem direita a região de interesse extraída. ....................................................................... 23

Figura 7. Imagem da margem esquerda antes de sofrer a correção atmosférica e imagem da


margem direita corrigida pelo flaash. ..................................................................................... 25

Figura 8. Pontos de validação ....................................................................................................... 27

Figura 9. Mapas de cobertura de 2000 e 2017 ............................................................................. 33

Figura 10. Variação de classes no fragmento de Mecrusse .......................................................... 37

Figura 11. Mapa de mudanças de cobertura entre 2000 a 2017 ................................................... 38

Figura 12. Mapa da localização do desflorestamento .................................................................. IV


ÍNDICE DE ANEXOS
Anexo 1. Actividades que provocam as mudanças .....................................................................XIII

Anexo 2. Validação de pontos amostrais ................................................................................... XIV

Anexo 3. Fluxo de mudanças de cobertura entre 2000 a 2017................................................... XVI


LISTA DE ABREVISTURAS E SIGLAS
CENACARTA Centro Nacional de Cartografia e Teledetecção
DNFFB Direcção Nacional de Florestas e Fauna Bravia
ENVI Environment for Visualizing Images
ETM+ Enhanced Thematic Mapper Plus
GPS Global Positioning System
Ha Hectares
INE Instituto Nacional de Estatística
IPCC Intergovernmental Panel on Climate Change
ISPG Instituto Superior Politécnico de Gaza
LANDSAT Land Remote Sensing Satellite
M Metros
MAE Ministério da Administração Estatal
MAXVER Máxima Verossimilhança
MICOA Ministério para a Coordenação da Acção Ambiental
NASA National Aeronautics and Space Administration
OLI Operational Land Imager
PEDD Plano Económico para o Desenvolvimento do Distrito
REDD+ Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal
SIG Sistema de Informação Geográfica
TIFF Tagged Image File Format
UNFCCC United Nations Framework Convention on Climate Change
USGS United States Geological Survery
INSTITUTO SUPERIOR POLITÉCNICO DE GAZA

DECLARAÇÃO
Declaro por minha honra que este trabalho de culminação do curso é resultado da minha
investigação pessoal e das orientações dos meus tutores, o seu conteúdo é original e todas as fontes
consultadas estão devidamente mencionadas no texto, nas notas e na bibliografia final. Declaro
ainda que este trabalho não foi apresentado em nenhuma outra instituição para propósito
semelhante ou obtenção de qualquer grau académico.

Lionde, Agosto de 2018

________________________________

(Simões José Elias)


DEDICATÓRIA

Aos meus pais:


José Elias e Maria João (os meus Deuses).

Ao meu irmão e minha cunhada:

Castro Elias e Marta Suzana Elias. Que sempre cuidaram da família (os heróis da família).

Aos meus irmãos:

António Elias (in memoriam); Tomas Elias (in memoriam); Castro Elias; Lucinda Elias e José Elias
júnior. Pelo amor, confiança, força e apoio.

Os meus queridos sobrinhos:

Virgulino; Ivanda; Winnie; Helma; Luana; Castro Júnior, Igory e Aiton. Que venha o futuro.

Dedico
AGRADECIMENTOS

A Deus, que me ajudou a ultrapassar os obstáculos e me deu forças suficientes para que o meu
sonho tornasse numa realidade.

A minha família, pelo apoio moral e financeiro prestado, tornando possível a minha formação.

Ao Centro Nacional de Cartografia e Teledeteção (CENACARTA), especialmente aos senhores


Marcos, Pondja e Maria pelos conhecimentos transmitidos em GIS e Teledetecção durante o
estágio.

Ao meu tutor dr. Arão Raimundo Feniasse, que soube conduzir-me e que acreditou em mim, na
realização do trabalho, também pela paciência e pelo apoio, agradeço imenso pela atenção e
disponibilidade imediata na interação Estudante-Docente.

Aos meus Co-tutores, Eng. Mário Sebastião Tuzine, pela sugestão do tema, apoio em trabalhos de
campo e contribuição para a realização deste trabalho e Eng. Severino José Macôo, pelo apoio,
atenção e dicas profissionais.

Os meus Profundos agradecimentos ao corpo docente do DEF, que diretamente ou indiretamente


contribuíram na minha formação, com especial destaque aos docentes: dr Arão Feniasse. Engo.
Severino Macôo, dr Sérgio Bila, Engo Emídio Matusse, Engo. Pedro Wate, Enga Juvência Yolanda,
Engo Edson Massingue, dr Eleutério Mapsanganhe, Engo Arménio Cangela.

Aos meus companheiros de Classe, Ladina, Arlindo, Fátima, Iolanda, Fanuel, Valdimiro, Gulamo,
Eunice, Nelson, Lelia, Bila, especialmente aos GIS_Macucua_Forest, Araújo, Alexandre,
Raimundo, Pindula e Salomão, pela companhia, confiança e cooperação durante o curso e durante
a elaboração deste trabalho, vocês foram a chave do meu sucesso.

Aos amigos e colegas do DEF e do ISPG, Célia, Elizabeth, Delfa, Ângela, Gracinda, Bacar, e a
todos cujos nomes não foram mencionados, mas que sempre estiveram ao meu lado e directo ou
indirectamente influenciaram na realização do meu sonho.

O meu muito obrigado


“O Espaço é hoje um sistema de objectos cada vez mais artificiais, povoado
por sistemas de ações igualmente imbuídas de artificialidade, e cada vez mais
tendentes a fins estranhos ao lugar e a seus habitantes”.

[…] “Seu entendimento é, pois fundamental para afastar o risco de alienação, o risco
de perda de sentido de existência individual e coletiva, o risco de renúncia ao
futuro”.

Milton Santos

“Ninguém vive se projeções relativas ao devir ainda que seja em nome de próprios
filhos. A angústia do futuro torna-se um sofrimento do presente. Precisamos operar
com uma dialética temporal: pensar no futuro sem abandonar o presente. Isso
repercuta sobre o presente. Somos seres de raízes e de mudanças, de comunidade e
de universalização.

Quando o futuro está doente, acaba ocorrendo um retorno ao passado…”

Edgar Morin
RESUMO
O presente trabalho foi realizado no fragmento de Mecrusse em Macuacua. Teve como objetivo,
avaliar as mudanças de cobertura florestal através de imagens satélite Landsat 7ETM+ e 8 OLI
(30x30 m de resolução espacial) dos anos 2000 e 2017. Para identificar e cartografar as mudanças
de cobertura, as imagens foram classificadas pelo software Envi 5.3, onde foi usado algoritmo
Isodata na classificação não-supervisionada e o algoritmo Máxima Verossimilhança na
classificação supervisionada. Depois foram feitos cruzamentos das imagens das duas datas pelo
módulo Change Datection Difference Map da operação Change Detection do ENVI 5.3 para
obtenção da imagem de mudanças. Com auxílio do software ArcGIS 10.3 foram produzidos mapas
de cobertura de uso e cobertura de terra dos anos 2000 e 2017 através das imagens classificadas e
o para de mudanças através da imagem de mudanças. Por fim determinou-se a taxa de
desflorestamento pelo método de Puyravaud com base no desflorestamento líquido e bruto. Os
resultados mostram que o rigor estimado pela avaliação dos dados no campo foi de 85% de índice
kappa. Durante os 17 anos houve mudanças no fragmento de Mecrusse em Macuacua na ordem de
33.29 % (3672.45 ha) do Mecrusse denso e 56.4% (1765.26 ha) do Mecrusse aberto. Verificou-se
um pequeno aumento do Mecrusse no fragmento, todavia, a área cartografada como Mecrusse em
2000 sofreu uma redução significativa durante o período em análise a uma taxa bruta de 0.88%,
cerca de 115.81 ha/ano. De uma forma geral, durante os 17 anos o Mecrusse em Macuacua foi
convertido, na sua maioria, para Matagais, Agricultura e Pastagens, sendo que os principais
factores que influenciaram nessas mudanças foi a exploração de madeira e estacas de Androstachys
johnsonii e a prática de agricultura.
Palavras-chave: Imagens satélite; Mudanças de cobertura; Desflorestamento
ABSTRACT
The present work was carried out in the Mecrusse fragment in Macuacua. The objective of this
study was to evaluate the changes in forest cover through Landsat 7ETM + and 8 OLI satellite
images (30x30 m spatial resolution) of the years 2000 and 2017. To identify and map coverage
changes, the images were classified by Envi 5.3 software, where Isodata algorithm was used in the
unsupervised classification and the Maximum Likelihood algorithm in the supervised
classification. Then, the images of the two dates were crossed by the Change Datection Difference
Map module of the ENVI 5.3 Change Detection operation to obtain the change image. With the
help of ArcGIS 10.3 software coverage maps of land use and coverage of the years 2000 and 2017
were produced through the classified images and the change to the changes image. Finally, the
deforestation rate was determined by the Puyravaud method based on net and gross deforestation.
The results show that the accuracy estimated by the data evaluation in the field was 85% kappa
index. During the 17 years there were changes in the Mecrusse fragment in Macuacua in the order
of 33.29% (3672.45 ha) of the dense Mecrusse and 56.4% (1765.26 ha) of the open Mecrusse.
There was a small increase of Mecrusse in the fragment, however, the area mapped as Mecrusse in
2000 underwent a significant reduction during the period under analysis at a crude rate of 0.88%,
about 115.81 ha / year. In general, during the 17 years Mecrusse in Macuacua was converted, for
the most part, to Matagais, Agriculture and Pastures, and the main factors that influenced these
changes were the exploitation of wood and cuttings of Androstachys johnsonii and the practice of
agriculture.
Keywords: Satellite images; Changes in coverage; Deforestation
Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

1. INTRODUÇÃO

As florestas tropicais são muito ricas em biodiversidade e desempenham várias funções no


sequestro de carbono, produção primária líquida e no ciclo hidrológico. Nas últimas décadas, o
desmatamento tornou-se a principal causa de mudanças da cobertura e uso do solo nos trópicos,
causando vulnerabilidade às populações humanas locais (Cincotta e Engelman, 2000). Estima-se
que cerca de 20 a 25% das emissões de dióxido de carbono resultem do desmatamento e degradação
florestal nos países em vias de desenvolvimento (Harris et al., 2008).

Moçambique é um dos países africanos com uma grande diversidade de florestas naturais. A
cobertura florestal natural em Moçambique é cerca de 40,1 milhões de hectares (51% do país), dos
quais 26,9 milhões (67% de toda a área florestal) constituem a floresta produtiva e 13 milhões estão
integrados em áreas de conservação (Marzoli, 2007).

Na Província de Gaza, onde se situa o fragmento de Mecrusse em Macuacau, a cobertura florestal


é de cerca de 4 milhões de hectares (50.2% da província) dos quais cerca da metade (2 milhões de
hectares) constituem florestas produtivas e a outra metade integrada nas áreas de conservação e
florestas de proteção (Marzoli, 2007). Segundo o mesmo autor, a taxa de desflorestamento anual
nacional entre 1990 e 2002 foi de 0,58%, o que representa uma conversão anual de 219 000 hectares
de florestas para outros tipos de uso. A extração de madeira, lenha e fabricação de carvão,
queimadas descontroladas, agricultura itinerante ou abertura de pequenos campos agrícolas dentro
das florestas são apontadas como as causas do desmatamento e degradação florestal em
Moçambique, Sitoe et al (2012).

Com o advento dos computadores, aliada a crescente e rápida evolução da teledeteção e dos
sistemas de informação geográfica (SIG), as imagens satélite tornam possível, na atualidade, a
realização de estudos detalhados de detenção de mudanças nos recursos florestais, seu
monitoramento, bem como, efetuar estudos relacionados com a avaliação e previsão de tendências
futuras do seu uso e distribuição (Larsson & Stromquist, 1993).

Detenção de mudanças é um processo de avaliação de diferenças no estado da floresta. A avaliação


rigorosa das características destas mudanças fornece a base para melhor compreender as relações
e interações entre os fenômenos naturais e humanos para melhor gerir e utilizar os recursos
disponíveis (Congalton 1991).

ELIAS. Simões José 1


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

1.1 Problema do estudo e justificativa

As mudanças na cobertura florestal têm despertado interesse, dentro e fora do meio


científico, devido aos possíveis impactos ambientais e socioeconómicos dessas mudanças, que
causam preocupações desde o nível local até o global (Aspinall, 2008).

Em termos globais, são questões de interesse a diminuição da camada de ozono e o aumento do


nível do mar (como resultado do aquecimento global). Em termos regionais, as questões ambientais
relacionadas a mudanças no uso e cobertura do solo são bem conhecidas: poluição do ar e da água,
degradação do solo, desertificação, acidificação, assim como as questões de perda de
biodiversidade. Em nível local, podem ser citados os problemas de erosão, sedimentação,
contaminação e extinção de espécies. Em termos socioeconómicos, as mudanças de uso do solo
afectam as estruturas de emprego, produtividade da terra e a qualidade de vida (Aspinall, 2008).

No país pouco se sabe sobre mudanças de cobertura vegetal por tipo florestal ao nível nacional,
assim como ao nível provincial, muito menos aos níveis mais desagregados de regiões (Sitoe et al.,
2012).

Por outro lado, no fragmento de Mecrusse em Macuacua não existem estudos documentados sobre
mudanças de cobertura do Mecrusse, sabendo se apenas que o seu processo de alteração sob pressão
antrópica pode ser elevado, desde os anos 50 nas construções das linhas férreas e actualmente na
exploração de madeira serrada e estacas. Esta crescente pressão torna-se preocupante, tornando em
consideração o facto de não se saber da influência dos vários sectores produtivos e até que ponto a
área florestal é reduzida numa altura em que o uso sustentável dos recursos naturais (florestais em
particular) é uma questão importante para o desenvolvimento sustentável.

Recentemente, o desflorestamento evitado foi reconhecido como elegível para a compensação por
redução de emissões de dióxido de carbono. Como resultado, foi lançado o mecanismo para a
Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD+) nos acordos pós-
Quioto no âmbito da United Nations Framework Convention on Climate Change (UNFCCC). Mas
a reduzida informação sobre mudanças de cobertura vegetal, desmatamento e degradação florestal
constitui um entrave para o sucesso de qualquer acção e para a tomada de medidas sobre o
reflorestamento, associado a uma gestão sustentável das florestas (MICOA, 2010).

ELIAS. Simões José 2


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

Neste contexto, este estudo pretende avaliar as mudanças de cobertura florestal num fragmento de
Mecrusse em Macuacua, bem como determinar a taxa de desflorestamento. O mesmo poderá servir
de base para intervenção nas áreas que apresentarem grandes indicadores de mudanças, permitindo
assim, a definição de políticas e estratégias adequadas de utilização e gestão desses recursos, assim
como servir de alerta para adoção de práticas mais racionais de uso dos recursos florestais pelas
comunidades locais, voltados para a minimização das perdas de cobertura florestal.

ELIAS. Simões José 3


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

1.2. Objectivos
1.2.1. Geral

 Avaliar as mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua,


através de imagens Landsat 7 ETM+ e 8 OLI.

1.2.2. Específicos

 Gerar mapas de cobertura florestal e das diferentes formas de uso do solo (dos anos 2000 e
2017) no fragmento do Mecrusse;
 Identificar e cartografar mudanças de cobertura florestal no fragmento de Mecrusse;
 Identificar as causas de mudanças de cobertura florestal de Mecrusse;
 Determinar a taxa de desflorestamento no fragmento de Mecrusse;

ELIAS. Simões José 4


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

2.1. Cobertura florestal em Moçambique

Moçambique tem uma superfície de cerca de 784 755 km², que se estende entre os paralelos 10°
27’ e 26° 52’ Sul e 30° 12’ e 40° 51’Este, com uma população de 28 milhões de habitantes (INE,
2017) maioritariamente (85%) vivendo na zona rural. O país tem uma taxa anual de crescimento
populacional de 2.5% que é considerada uma das mais altas do continente. A maioria da população
depende dos bens e serviços providenciados pelos ecossistemas com particular destaque as
florestas naturais. Estima-se que a cobertura florestal do país em pouco mais de 50%, ou seja, pouco
mais de 40 milhões de hectares (Marzoli 2007).

2.2. Situação actual das Florestas em Moçambique

Apesar deste grande potencial florestal, Moçambique enfrenta enormes desafios na gestão destes
recursos, em parte devido a grande demanda da indústria florestal, e pelo facto de cerca de 85%
das necessidades energéticas serem satisfeitas pela energia de biomassa. Estima-se que a taxa anual
de desmatamento é de cerca de 0.58%, equivalente a 219 000 hectares de florestas que se perdem
anualmente (Marzoli, 2007). As principais causas principais desse desmatamento e degradação
florestal são a pressão humana através da agricultura itinerante, produção de carvão, recolha de
lenha e as queimadas descontroladas Marzoli (2007). Por outro lado, a exploração florestal
desorganizada e ilegal contribuem em 50 a 70% da produção total anualmente (Mackenzie, 2006).

2.2. Descrição, ocorrência e características do Mecrusse

Mecrusse é um tipo de floresta onde a principal espécie, e ocasionalmente, a única no dossel


superior, é Androstachys johnsonii. É a espécie dominante e co-dominante com uma cobertura
relativa variando de 80 a 100% (Mantilla e Timane 2005). Androstachys johnsonii (Família
Euphorbiaceae) é nativa da África e é o único membro do gênero Androstachys. Hoje, a floresta
de Mecrusse é encontrada principalmente em Moçambique (Cardoso, 1963).

Em Moçambique, as florestas dominadas por Mecrusse são encontradas principalmente nas


províncias de Inhambane e Gaza e nos distritos de Massangena, Chicualacuala, Mabalane,
Chigubo, Guijá, Mabote, Funhalouro, Panda, Mandlakaze e Chibuto, (Direção Nacional de
Geografia e Cadastro- DINAGECA, 1997).

ELIAS. Simões José 5


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

A. johnsonii pode crescer até 20 m, é uma árvore de folhas perenes. Os galhos jovens são cobertos
por uma camada branca (Molotja et al., 2011). A alelopatia é mediada pela liberação de certos
metabólitos secundários pelas raízes das plantas e desempenha um papel importante no
estabelecimento e manutenção de comunidades de plantas terrestres (Molotja et al., 2011). A
madeira é bastante resistente ao ataque de fungos e insetos. No entanto, as árvores em pé são muitas
vezes atacadas por fungos, que danificam a estrutura da madeira (Bunster, 2006). A madeira de A.
johnsonii é usada para pavimentos, usos marinhos, torneiras, móveis e interiores; Embora estes
usos estejam limitados pela disponibilidade limitada de grandes tamanhos (Bunster 2006).

As árvores florescem em Outubro e Novembro e as frutas maduras podem ser encontradas em


Novembro até Março. As flores são polinizadas pelo vento, os frutos são comidos por pequenos
antílopes, esquilos e pássaros, e esses animais podem dispersar as sementes. As sementes germinam
prontamente, e as plantas jovens são resistentes e podem sobreviver em locais bastante secos e
quentes. As árvores são muitas vezes cercadas por inúmeras mudas (Molotja et al., 2011).

2.3. Mudanças de cobertura florestal e Mudanças Climáticas

Actualmente é consenso científico que o rápido aumento da temperatura média global registada na
superfície terrestre e nos oceanos desde meados do século XX e projectadas a continuar até os
finais do século XXI, é causado principalmente pelas actividades humanas que contribuem para a
emissão de gases de efeito de estufa (Zolho, 2010).

Em retrospectiva, gases de estufa tais como o vapor de água, dióxido de carbono, metano, ozono,
entre outros, ocorrem naturalmente na atmosfera e são responsáveis pelo processo de absorção e
emissão de radiação infravermelha que permite a manutenção da temperatura atmosférica e da
superfície do planeta - efeito de estufa - criando um ambiente propício para a manutenção da vida
no planeta Terra. Contudo, a partir da Revolução Industrial (1780-1850) quando os maiores
avanços tecnológicos mundiais tiveram lugar, resultou num aumento significativo da concentração
destes gases (dióxido de carbono, metano, ozono, clorofluorcarboneto e óxidos nitroso) na
atmosfera. Estes gases resultaram das transformações de materiais e da queima de combustíveis
fósseis, principais alavancas do desenvolvimento. O aumento de gás de efeito de estufa (GEE) na
atmosfera contribuiu significativamente para o fenómeno do “aquecimento global” (IPCC, 2007).
Para além das emissões de GEE na atmosfera, contribuíram para o aquecimento global as

ELIAS. Simões José 6


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

queimadas descontroladas e a redução da cobertura vegetal no planeta, que é o principal


reservatório do CO2 (Zolho, 2010).

O aquecimento global como resultado da combinação da concentração de GEE, a conversão do uso


de terra e o desmatamento, induziram a um desequilíbrio das forças de manutenção do sistema
climático global, que consequentemente promove o aumento da temperatura global, alteração dos
padrões da precipitação, alteração do ciclo de eventos climáticos extremos (cheias, seca, ciclones),
alteração dos padrões entomológicos das espécies (Pastor e Post, 1986)

2.4. Teledeteçção como uma ferramenta de detenção de mudanças de cobertura

Teledeteção é uma forma de obtenção de informações sobre a superfície da terra através da


interpretação de dados adquiridos pelos sensores a bordo de satélites, Ribeiro et al., (2012); Petta
etal., (2008). A sua utilização é baseada em técnicas da interpretação supervisionada e não-
supervisionada de imagens de satélites, sendo mais vantajoso, a utilização da classificação
supervisionada uma vez que o classificador possui informações da área de estudo (Diallo et al.,
2009).

A utilização da teledetecção para a detecção de mudanças de cobertura de florestal deve-se ao facto


de estas resultarem na alteração dos valores de refelectância, os quais podem ser detectados pelos
sensores (Zubair, 2006) e para além de oferecerem uma visão sinóptica de áreas muito grandes, a
forma digital na qual são disponíveis torna as análises mais eficientes e a produção dos mapas é
feito a custos relativamente baixos (Diallo et al., 2009). Com tudo, o sucesso da sua utilização não
só depende da selecção cuidadosa de dados e métodos apropriados, mas também da combinação
com técnicas convencionais (Diallo et al., 2009).

2.5 Sensoriamento remoto

Sensoriamento Remoto é a utilização conjunta de sensores, equipamentos para processamento de


dados, equipamentos de transmissão de dados, aeronaves, com o objetivo de estudar o ambiente
terrestre através do registo e da análise das interacções entre a radiação electromagnética e as
substâncias componentes do planeta Terra (Koffer, 1992).

A diversidade de aplicações do sensoriamento remoto faz com que um número cada vez maior de
pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento utilize essa ferramenta. Uma das principais
vantagens dessa técnica com relação aos estudos ambientais é ela permitir a análise de grandes

ELIAS. Simões José 7


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

áreas, mapeamentos contínuos e em intervalos regulares, permitindo a obtenção de dados


multiespectrais, multitemporais e em diferentes resoluções espaciais (Koffer, 1992).

As imagens podem ser consideradas sob vários tipos de resolução, destacando-se a resolução
espacial, espectral, radiométrica e temporal.

Tabela 1. Resolução espacial de alguns satélites


Satélites Sensores e ou banda Resolução espacial (m)
GEOEYE-1 Visível e infravermelho próximo 0.41
Pancromático 1.64
Ikonos Visível e Infravermelho próximo 1
Pancromática 4
Quick Bird Visível e infravermelho próximo 2.8
Pancromático 0.7
Spot 5 HRV mono e HRG multi 10 e 20
HRV Pancromática 5
ETM+ 30
Landsat TM++ 15
TM 30
OLI 30
Fonte: USGS, (2018).

2.3. Landsat 7ETM+ e Landsat 8OLI

O programa Landsat desde 1972 tem possibilitado a aquisição repetitiva de imagens da superfície
terrestre até os dias actuais. A missão do programa é proporcionar imagens multiespectrais
calibradas, com resolução espacial relativamente alta se comparada a sensores meteorológicos. O
programa até agora tem uma série de 8 satélites desenvolvidos e lançados pela National
Aeronautics and Space Administration (NASA) em intervalos médios de 4 anos (United States
Geological Survery - USGS, 2018).

O satélite Landsat ETM+ 7 foi lançado em 1999, tem resolução espacial de 30 metros, temporal
de 16 dias e constitui um sistema de varredura multiespectral com 8 bandas. As bandas de 1 a 5 e
7 são bandas do visível com resolução espacial de 30 m, a banda 6 é do infravermelho termal e tem
resolução espacial de 120 m, a banda 8 é pancromática com resolução espacial de 15 metros. A
resolução radiométrica de 8 bits propicia a diferenciação de 256 níveis de cinza. Uma falha
mecânica no sistema ETM+ resultou em problemas na coleta de dados a partir de 31 de maio de
2003 (U.S. Geological Survey, 2018). A Tabela (2) que se segue mostra as principais aplicações
das bandas do sensor ETM+, e seu respectivo intervalo espectral
ELIAS. Simões José 8
Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

Tabela 2. Principais bandas do sensor ETM+


Banda Faixa do espectro Intervalo espectral Aplicações
Mapeamento de águas costeiras
Diferenciação entre solo e vegetação
1 Azul-Verde 0,45-0,52 µm
Diferenciação entre vegetações coníferas e
decídua
2 Verde 0,52-0,60 µm Reflectância da vegetação verde sadia
Absorção da clorofila
3 Vermelho 0,63-0,69 µm
Diferenciação de espécies vegetais
Infravermelho Levantamento de biomassa
4 0,76-0,90 µm
Próximo Delineamento de corpos d’água
Infravermelho Medidas de umidade da vegetação
5 1,55-1,75 µm
Médio Diferenciação entre nuvens e neve
Mapeamento de estresse térmico em
Infravermelho
6 10,40-12,50 µm plantas
Termal
Outros mapeamentos térmicos
Infravermelho
7 2,08-2,35 µm Mapeamento hidrotermal
Médio

Fonte. USGS (2018)

O satélite Landsat 8 foi desenvolvido pela NASA em conjunto com US Geological Survey, lançado
em 2013, é composto por dois instrumentos, o Imageador Operacional da Terra (Operational Land
Imager - OLI) e o Sensor Infravermelho Térmico (Thermal Infrared Sensor - TIRS). A resolução
espacial para o comprimento de onda visível é 30 m, o comprimento de onda térmica 100 m, e a
pancromático 15 m. O OLI tem duas novas bandas espectrais, uma para detecção de nuvens cirrus
e outro para observar zonas costeiras. A resolução temporal permanece 16 dias, com
aperfeiçoamento da resolução radiométrica para 12 bits, podendo diferenciar 4.096 níveis de cinza
(USGS, 2018).

2.6. Resposta espectral de alvos

O fluxo de energia electromagnética ao atingir um objecto sofre interacções com o material que o
compõe é parcialmente reflectido, absorvido e transmitido pelo objecto (Sasen, 2010). Por outro
lado, Florenzano (2002), ressalta que, os alvos da superfície terrestre como a vegetação, a água, e
o solo, reflectem, absorvem e transmitem radiação electromagnética em proporções que variam
com o comprimento de onda, e de acordo com as suas características físico-químicas.

ELIAS. Simões José 9


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

Figura 1. Relação entre as bandas espectrais dos alvos (objectos) naturais.


Fonte: Sausen (2010)

2.6.1. Água

A água apresenta alta absorvência, ou seja, absorve grande parte da energia electromagnética
incidente. A curva de refletância típica da água é baixo entre 0,38 s 0,7 µm, figura 1. A água absorve
toda energia solar incidente em comprimentos de onda superiores a 0,7 µm. logo o balanço
energético se reduz a α=1. Esta propriedade torna-se importante em mapeamento de corpos de água
usando informação espectral do infravermelho, pois sendo a refletância nula é mais fácil
discriminar a água de outros elementos (Lillesand e Kiefer, 2000).

Na realidade é difícil encontrar água totalmente pura na natureza. Os corpos de água geralmente
contem outros elementos dissolvidos ou em suspensão, que alteram a sua resposta espectral a
aparência. Estes elementos podem causar absorção de energia ou espalhamento. Quanto mais turva
for à água, em decorrência da presença de materiais em suspensão, maiores serão seus valores de
refletância isto é, a turbidez da água aumenta a refletância de corpos de água. A reflectância é
linearmente proporcional a turbidez entre 0,5 a 0,7 µm. (Centeno 2003).

2.6.2 Vegetação

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Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

Quando o alvo de interesse é a vegetação, as folhas são os elementos que mais contribuem para o
sinal detectado pelos sensores contribuindo em maior parte com os comprimentos de ondas que
serão absorvidos pelos sistemas sensores. Os principais aspectos relacionados com o
comportamento espectral de uma folha verde sadia nos comprimentos de onda do visível (0,4-
0,7µm), no infravermelho próximo (0,7-1,3 µm) e no infravermelho médio (1,3-3,0 µm) são
definidos por vários fatores (Moreira, 2001).

Na região do visível, a maior parte da radiação incidente é absorvida pelos pigmentos presentes
nas folhas. Estes pigmentos (clorofilas a e b, carotenos e xantofilas), absorvem a energia solar
radiante nesta faixa de comprimento de onda, e a convertem em calor, fluorescência ou em energia
estocada através da fotossíntese. A curva de refletância da folha verde sadia apresenta duas bandas
de absorção bem marcadas, centradas em 0,45 µm, região do azul, e 0,65 µm, região do vermelho;
permitindo um pico de refletância em aproximadamente 0,54 µm, região do verde, (Swain e Davis,
1978).

2.6.3. Solos

A textura do solo é determinada pelas proporções de argila, silte e areia. Os solos argilosos são
compostos por partículas muito pequenas, consequentemente com poucos espaços livres,
resultando em um solo mais compacto. Já nos solos arenosos, onde as partículas são maiores, os
espaços entre elas são grandes, permitindo maior quantidade de ar ou de água. Nos solos argilosos,
pelos espaços serem menores, a água não é drenada, nem evaporada tão rapidamente quanto nos
solos arenosos. Assim, quanto maior o conteúdo de água, menor a refletância, principalmente nas
bandas de absorção da água, e quanto mais fina a textura, maior é a refletância (Lillesand e Kiefer,
2000).

Na porção do visível, o aumento da quantidade de água causa uma diminuição na refletância, que
explica o fato dos solos escurecerem ao serem molhados. Nas regiões do infravermelho próximo e
médio, a diminuição da refletância com o aumento do conteúdo de água deve-se a baixa refletância
da água nestes comprimentos de onda (Lillesand e Kiefer, 2000).

2.7. Processamento de imagens


A comparação de imagens distanciadas no tempo, sob qualquer forma, traz vários tipos de
problemas que devem ser considerados minuciosamente em todas as etapas do trabalho, sob pena

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de invalidar as conclusões obtidas, dado o carácter acumulativo dos erros e sua independência da
fonte, (Kiel, 2008).

Quando a comparação foca na detenção de mudanças este problema se avulta, pois os algoritmos
empregados nestas técnicas não são capazes de evitá-los e na maior parte das situações, também
não conseguem controlá-los, de forma que as estimações da ocorrência e da influência sobre os
resultados dependerão em grande parte da experiência do operador em se precaver, isolando as
variáveis independentes o quanto puder. A seguir são discutidos os tratamentos dos fatores de erro
mais importantes na detenção de mudanças, (Kiel, 2008).

2.7.1. Correção geométrica

Logo após o processo de aquisição das cenas pelos sensores, estas não possuem qualquer vínculo
com a superfície terrestre no que diz respeito às coordenadas. Essas imagens estão sujeitas a uma
série de distorções espaciais, não possuindo precisão cartográfica quanto ao posicionamento dos
objetos nela representados (Crosta, 1993).

Segundo Novo (1989) correção geométrica é a reorganização dos pixéis de uma imagem em relação
a um sistema de projeção cartográfica. Esta reorganização pode ser obtida por várias técnicas de
reamostragem dos pixéis da cena. Os mais comuns são: “vizinho mais próximo”, “interpolação
bilinear” e “convolução cúbica”. A reamostragem dos pixéis pode ocasionar a modificação da
qualidade radiométrica dos dados, de forma que a técnica do “vizinho mais próximo” não modifica
a radiometria dos dados e a “convolução cúbica” é a técnica que impõe a alteração mais acentuada.

A correção geométrica tem a função de reorganizar os “pixéis” da imagem em relação a um


determinado sistema de projeção cartográfica. Ela objetiva minimizar as distorções geométricas,
provenientes das características do sensor utilizado e das variações decorrentes do movimento do
mesmo durante a passagem sobre o alvo, (Luiz, et al, 2003).

2.7.2. Correcção atmosférica

Na detenção de mudanças, quando duas imagens de datas distintas são comparadas, as condições
da atmosfera destas duas datas estão registadas nos dados das imagens e participarão da
comparação, causando diferentes efeitos, principalmente quanto maior ou menor for a presença de
água e aerossóis (nevoeiro) nos instantes da captura, (Kiel, 2008).

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Na prática utiliza-se técnicas mais simples, que produzem resultados satisfatórios. A técnica do
mínimo histograma é uma delas, e baseia-se no fato de que, sombras de nuvens densas e de relevo
e corpos de água limpa, por hipótese, deveriam ter radiância nula, consequentemente níveis de
cinza zero. Portanto, valores de níveis de cinza não nulos, encontrados nestas áreas são
considerados provenientes de efeito aditivo do espalhamento atmosférico. A técnica consiste em
subtrair de cada pixel de cada banda espectral de toda a imagem, o menor valor medido nestas
áreas. (Meneses e Almeida, 2012).

2.8. Classificação
A classificação de imagens consiste na identificação de tipos de cobertura de solo, de acordo com
os padrões de resposta espectral dos elementos. A classificação pode ser feita de dois métodos,
não-supervisionada e supervisionada (Moreira, 2001).

2.8.1. Classificação não-supervisionada


A classificação não-supervisionada é um procedimento em que a interação do analista com o
sistema é mínima. No entanto, certos algoritmos necessitam que o analista forneça alguns
parâmetros na fase de treinamento. Embora os classificadores não-supervisionados sejam indicados
nos casos em que o analista não possui conhecimento da área de estudo, eles também podem ser
usados quando se conhece a área. Isto é feito quando se quer eliminar a subjetividade no processo
de obtenção das amostras de áreas, para criar o pacote de treinamento, como indicado no processo
supervisionado (Moreira, 2001).

2.8.1.1. Modelo de ISODATA

O método de classificação ISODATA é, provavelmente, o mais conhecido e é descrito como um


meio de interpretação de imagens de deteção remota assistida por computador. O programa de
classificação identifica padrões típicos nos níveis de cinza. Esses padrões são classificados
efetuando-se visitas de reconhecimento a alguns poucos exemplos escolhidos para determinar a
sua interpretação. Em razão da técnica usada nesse processo, os padrões são geralmente referidos
como agrupamentos ou nuvens (“clusters”). Neste tipo de classificação, as classes são
determinadas pela análise de agrupamentos (“cluster analysis”). Os pixéis nas áreas de treino são
submetidos aos algoritmos de agrupamento que determinam a agregação natural dos dados,
considerando a sua distribuição num espaço de n dimensões (no caso, bandas espectrais), (Moreira,
2001).

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Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

2.8.2. Classificação supervisionada


Na classificação supervisionada, o usuário define as classes e apresenta amostras ao computador,
e a partir das quais ele pode calcular parâmetros estatísticos para descrever cada classe. Uma vez
definidas as classes e calculados os seus descritores todos os pixéis na imagem são classificados.
Na classificação supervisionada o usuário contribui com o seu conhecimento a respeito da área
para definir as classes de interesse. Assim ele identifica na imagem áreas onde as classes puras e
informa ao computador que a partir dos valores correspondentes a estas regiões, calcula parâmetros
estatística para cada classe (média e variância, por exemplo), (Meneses e Almeida, 2012).

A fase mais importante deste processo é a amostragem, pois é nela que o usuário define as classes
e escolhe as amostras representativas. Esta decisão depende do interesse do usuário e pode ser
diferente em cada aplicação, (Moreira, 2001).

2.8.2.1. Modelo de Máxima verossimilhança

O classificador de máxima verosimilhança (Maxver) é um dos algoritmos mais utilizados no


processamento de imagens de satélite. Apesar de não ser computacionalmente tão eficiente como
o algoritmo do paralelepípedo, é um dos classificadores que apresenta melhores resultados,
(Meneses e Almeida, 2012).

O algoritmo assume que as assinaturas espectrais das áreas de treino de cada classe apresentam
uma distribuição Gaussiana. Para isso, avalia a média, variâncias e covariâncias das áreas de treino,
para assim determinar a distribuição Gaussiana de cada uma delas. O classificador de máxima
verosimilhança tem a grande vantagem de utilizar métodos probabilísticos para a classificação de
imagens. Contudo, a classificação pode ficar comprometida se não existirem pixéis suficientes nas
áreas de treino que permitam valores significativos de médias, variâncias e covariâncias. A
classificação também pode ser prejudicada se existir um grau elevado de correlação entre bandas,
ou se as classes não tiverem um comportamento de uma distribuição Gaussiana, (Meneses e
Almeida, 2012).

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3. MATERIAIS E MÉTODOS
3.1. Descrição da área de estudo
O estudo foi realizado no Posto Administrativo de Macuacua, distrito de Manjacaze. O distrito de
Manjacaze situa-se a Sul de Moçambique, entre as latitudes de 24º 04’ 19’’ e 25º 00’00’’ Sul e
entre as longitudes de 33º 56’ 17’’. A Norte está limitado pelo Rio Uwaluezi, braço do Rio
Changane que o limita com o Distrito de Chibuto; a Sul o Oceano Indico; na parte Oeste estão os
Distritos de Chibuto e Xai-Xai e a Este os distritos de Inharrime, Panda e Zavala da Província de
Inhambane (Plano Estratégico de Desenvolvimento de Distrito-PEDD, 2008).

Figura 2. Mapa de localização da área de estudo.

3.2. Clima

O Clima do Distrito é tropical seco, com temperatura médias mensais entre 17 e 28º C. A quantidade
média de precipitação por ano é de 805,2 mm. O mês com maior precipitação é Janeiro, com uma

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precipitação de 132,1 mm. O mês com menor precipitação é Agosto, com uma média de 22.9 mm
(Ministério da Administração Estatal-MAE, 2014).

3.3. Topografia, solos e hidrografia


O Distrito de Manjacaze tem uma altitude média inferior a 100 metros, excepto pequenas manchas
de elevações com 100 a 200 metros de altura que se situam sobretudo no Posto Administrativo de
Chidenguele. Destacam-se depressões ocupadas por vales compostos por solos argilosos de
aluviões turfosos e profundos (PEDD, 2008).

O Distrito de Manjacaze possui cerca de 70 lagoas que são o seu principal potencial hídrico. Estas
lagoas partem geralmente de nascentes e formam uma cadeia interligada de lagoas que nas encostas
desenvolvem solos hidromórficos bastante ricos em matéria orgânica que cobrem uma área de
cerca de 4500 hectares (MAE, 2014).

3.4. Uso e cobertura de terra


Conforme o mapa da figura (3) que se segue, o distrito de Manjacaze tem como principais
formações vegetais, as seguintes:
 Matagal aberto;
 Floresta de baixa altitude fechada;
 Arbustos;
 Pradaria arbonizada.

ELIAS. Simões José 16


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

Figura 3. Mapa de uso e cobertura de terra do distrito de Manjacaze


Fonte de dados. Base topográfica simplificada-CENACARTA (1999).

3.5. Vegetação
A vegetação do distrito ocupa uma área de 92.180 hectares, sendo que as principais formações
vegetais são:

 Brenhas costeiras ao longo da costa e formações lenhosas das zonas aluvionares ao longo
dos rios, nas margens das lagoas e depressões diversas. Este tipo de vegetação é sempre
verde, sub-planáltica, de mato cerrado e esparso;
 Vegetação herbácea passando de arbustos à árvores de grande porte (Mecrusse e Chanfuta)
que constituem a maior fonte de madeira valiosa no Distrito e Província. Estas espécies, de
1ª classe, existem em abundância no norte do Distrito, em Macuácua;
 Savana Decídua de Miombo, constituída maioritariamente pela Brachystegia spiciformis,
largamente usadas como combustível lenhoso, é bastante apreciada pelo seu valor
energético e facilidade de combustão (MAE,2014).

ELIAS. Simões José 17


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

3.6. Aspectos socioeconómicos


As comunidades locais vivem na base da agricultura de subsistência, dedicando-se à produção de
milho, mandioca, arroz, amendoim, mexoeira e feijão nhemba. As populações locais dedicam-se
também à caça e produção de estacas de Mecrusse para fins comerciais (PEDD,2008).

O distrito possui cerca de 92 mil hectares de florestas naturais, que a população local aproveita para
o fabrico de utensílios domésticos e para artesanato, produção de mel, colheita de produtos
medicinais, caça, entre outro tipo de aproveitamento. O desflorestamento e a erosão constituem
problemas, particularmente em torno da capital do distrito e em Chidenguele. Esses problemas são
ocasionados pelo corte de árvores para lenha e produção de carvão, tanto para o consumo doméstico,
como para a venda (MAE, 2014).

O distrito de Manjacaze tem um potencial turístico atractivo, com destaque para o Posto
Administrativo de Chidenguele. As praias de Chizavane, Chidenguele, Muholove e Dengoine
possuem um grande atractivo em termos de beleza natural. As lagoas apresentam um grande potencial
paisagístico bem como para prática de desporto náutico (MAE,2014).

ELIAS. Simões José 18


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

4. METODOLOGIA
4.1. Materiais
Para a realização deste trabalho foram usados os seguintes materiais:

Envi 5.3

 Pré-processamento de imagens satélite;


 Classificação e validação.

ArcGis 10.3

 Seleção de dados de treinamento e validação;

 Produção de mapas temáticos;

GPS Map 64s

 Registo das coordenadas para a validação no campo;

 Localização dos pontos de classes no treino.

Máquina fotográfica

 Captação de fotografias das diferentes formas de cobertura vegetal e uso de solo no


fragmento.

Google Earth pro

 Ajudou na validação dos dados no campo por confirmação das classes.

4.2. Métodos
As etapas metodológicas utilizadas na realização deste estudo se encontram esquematizadas no
fluxograma da figura (6) que se segue.

ELIAS. Simões José 19


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

Área de estudo Parâmetros das classes Trabalho de campo

Aquisição Pre- Classificação não-


de processamento supervisionada
imagens de imagens
satélite
Validação
Acompanha
Mapa de cobertura mento das
actividades
no fragmento
Classificação supervisionada

Mapa de cobertura 2000 Mapa de cobertura 2017

Mapa de mudanças

Mapa de Desflorestamento

Figura 4. Fluxograma que sintetiza as etapas usadas para a elaboração deste trabalho

4.3. Aquisição de dados

Para a realização deste estudo foram utilizadas duas imagens de satélite dos sensores ETM+ e OLI,
a bordo do satélite Landsat 7 e 8 respectivamente. As imagens da área de estudo foram
seleccionadas e descarregadas gratuitamente a partir do sítio do USGS Global Visualization
Viewer. As principais características das imagens estão apresentadas na tabela (3) que se segue.

ELIAS. Simões José 20


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

Tabela 3. Sensor, órbita/linha, data, formato e resolução espacial das imagens utilizadas.
Sensor Órbita/linha Data de aquisição Formato Resolução espacial
ETM+ 167-077 3/12/2000 TIFF 30 Metros
OLI 167-077 5/12/2017 TIFF 30 Metros

O período de cobertura das imagens é de 17 anos e a seleçção obedeceu aos seguintes critérios:

 Imagens do mesmo período (datas próximas) – com a comparação de uma mesma época
do ano para todas as imagens as influências do clima foram minimizadas;

 Imagens do período seco – permitiram melhor distinção dos diferentes tipos de vegetação.
Onde o sinal verde corresponde à vegetação florestal, pois as gramíneas encontram-se secas
por deficiência de água no solo;

 Livres de cobertura de nuvens – as nuvens e as respectivas sombras projectadas obstruem


a resposta espectral dos objectos à superfície.

A figura (5) que se segue demostra o processo de aquisição das imagens no sítio do USGS Global
Visualization Viewer disponível em <http://www.glovis.usgs.gov/.

Figura 5. Processo de descarga das imagens satélite na página web da USGS


4.4 Pré-processamento das imagens
Atendendo as recomendações de correçção prévia das imagens aos procedimentos de detenção de
mudanças de cobertura florestal, foi realizada uma etapa de pré-processamento. Sua finalidade foi

ELIAS. Simões José 21


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

dotar a comparação das imagens satélite com maior segurança possível contra erros de comissão e
omissão, que poderiam ser causados por factores advindos de contribuições atmosféricas, capazes
de introduzir artefactos nas imagens e erros de registro das imagens, que por sua vez provocariam
falsas conclusões. Atendendo a estas necessidades, a fase de pré-processamento correctivo das duas
imagens incluiu tratamentos básicos de correção geográfica, correção atmosférica e recorte da área
de interesse.

4.4.1. Correção geométrica

As imagens Landsat 7 e 8 foram obtidas em formato TIFF e georreferenciadas em Universal


Tranversal Mercator (UTM) para a zona 36 Norte. Por isso, foi imprescindível reprojectar as
imagens para a zona de Moçambique, UTM 36 Sul, tendo sido feita pelo módulo coordinate
conversion do ENVI 5.3.

4.4.2. Delimitação da região de interesse e combinação de bandas

A região de interesse foi definida como sendo aquela coberta de Mecrusse no posto administrativo
de Macuacua. Para extração das áreas de interesse das imagens satélite utilizou-se a ferramenta
vetorial Region of interest (ROI), construindo um polígono base na imagem de 2000 para em
seguida abri-lo na imagem de 2017. O polígono foi extraído com sucesso, no entanto para garantir
que a área de interesse fosse exclusivamente do Posto Administrativo de Macuacua, foi necessário
abrir o arquivo shapefile (SHP) do distrito de Manjacaze onde sobre o mesmo foi delimitada a
região de interesse. A imagem da figura (9) que se segue demostra o processo da extração da área
de interesse.

ELIAS. Simões José 22


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

Figura 6. Imagem da margem esquerda com SHP de Manjacaze a vermelho e o ROI a amarelo, e
a margem direita a região de interesse extraída.

Quanto a combinação de bandas, para uma boa identificação dos alvos, foi usada uma composição
colorida falsa cor de 4,3,2 para o RGB (Vermelho, Verde e Branco). A escolha da combinação de
bandas depende das feições que se deseja realçar e no caso do presente estudo pretendia-se realçar
o padrão e a distribuição da vegetação.

4.4.3. Correção atmosférica

O método de correção aplicado foi o contido no módulo FLAASH, que permite a correção
atmosférica das bandas espectrais do visível, utilizando informações das bandas do infravermelho
próximo e do infravermelho curto (até 3 mm).

O primeiro passo foi a transformação dos valores discretos dos contadores digitais dos pixéis, que
representam a reflectância dos alvos da superfície acrescida de ruídos e da contribuição
atmosférica, nos valores analógicos de radiância que o sensor captou originalmente.

As imagens foram transformadas em valores de radiância através da ferramenta de calibração de


imagens Landsat 7 ETM+ e 8 OLI, que retornou um meta arquivo para cada imagem contendo as

ELIAS. Simões José 23


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

respectivas bandas de interesse: 1,2,3,4,5,6,7, para Landsat 7 e 8 já calibradas e com valores de


radiância. A ferramenta utilizou a fórmula (1) que se segue:
L max ʎ−Lminʎ
Lʎ =(𝑄 𝑐𝑎𝑙 max − 𝑄 𝑐𝑎𝑚 min) (𝑄𝑐𝑎𝑙 − 𝑄𝑐𝑎𝑙min) + Lminʎ Fórmula (1)

Onde:

 Lʎ : radiância espectral na abertura do sensor em W sr-1 m-2 μm-1;


 Lmax e Lmin: são a radiância máxima e mínima expressas em Wm-2 sr-1 para o sensor e
banda em questão e que são fornecidos pelo fabricante do satélite;
 Qcal: valor de pixel calibrado quantificado;
 Qcalmax e Qcalmin: valores de pixéis calibrados correspondentes a radiância máxima e
mínima respectivamente.

No segundo passo, converteu-se o formato do arquivo original BSQ para o formato digital BIL.
Por fim, transformou-se a radiância de cada banda em valores de reflectância aplicando a fórmula
(2) que se segue:

𝜋.𝐿ʎ.𝑑2
𝜌ʎ=𝐸𝑠𝑜𝑙ʎ . Fórmula (2)
𝑐𝑜𝑠𝜃𝑠

 𝜌ʎ: reflectância planetária ao nível do satélite

 𝜋: constante matemática aproximadamente igual 3,14159 (pi);

 d: distância do sol à terra em unidades astronómicas (1 U. A=15000000 km);


 Esolʎ : radiância solar média espectral fora da atmosfera em W m-2 μm-1;
 𝜃𝑠: zênite solar do centro da imagem.

A figura (7) que se segue, apresenta a comparação de duas imagens da aplicação da correção
atmosférica utilizando o módulo FLAASH, onde é possível notar a diferença dos valores dos pixéis
entre a imagem da margem esquerda (imagem de 2000 antes de sofrer a correcção atmosférica) e
imagem da margem direita (imagem de 2000 depois de sofrer a correçção atmosférica), ambas com
combinação 4,3,2 do RGB.

ELIAS. Simões José 24


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

Figura 7. Imagem da margem esquerda antes de sofrer a correçção atmosférica e imagem da


margem direita corrigida pelo FLAASH.

4.5. Classificação de imagens satélite


4.6. Classificação não-supervisionada: Fase I
Na primeira fase de classificação de imagens satélite, fez-se a classificação não-supervisionada
através do ENVI 5.3, usando o algoritmo Isodata, tendo-se optado pela combinação de bandas
espectrais 4,3,2 para o RGB. Definiu-se 4 a 8 classes de cobertura com objectivo de identificar e
agrupar as classes de cobertura com a mesma reflectância ou seja, actividade fotossintética. O
classificador retomou imagem já classificada com 8 classes (Mecrusse Aberto, Mecrusse denso,
Matagal, Agricultura, Pastagens, Solo exposto e Área habitada), pela dificuldade de separar as
classes Agricultura, Pastagens, Solo exposto e Área habitada foram agrupadas em duas (classes
Agricultura/Pastagens e Solo exposto/Área habitada).

4.6.1. Pontos da amostra de validação

As amostras de pontos de validação foram determinadas pela fórmula de Rosenfield et all (1982),
citado por Fidalgo (1995).
𝑧 2 𝑥 𝑃 𝑥 (1−𝑃)
𝑛𝑜 = Fórmula (3)
𝐸2

Onde:

ELIAS. Simões José 25


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

 𝑛𝑜 : Numero total de pontos da amostra


 z: valor na função de distribuição z acumulada, que é igual a 1.96 para o intervalo de
confiança de 90%;
 P: exatidão de classificação mínima desejada, que é igual a 0.85 para uma exatidão mínima
desejada de 85%;
 E: erro máximo de estimativa desejada, que é igual a 0.1 para um erro máximo estimado de
10%.

4.6.2. Número de pontos de amostra por cada classe


Após ser determinado o número total de pontos de amostra, determinou-se o número de pontos de
amostra por cada classe com base na proporção das classes, de acordo com a fórmula (4) abaixo
indicada:
AE
NAE = NTA ATA Fórmula (4)

Onde:

 NAE: número de pontos de amostra por estrato


 NTA: numero total de pontos da amostra
 AE: Área de estrato em hectares
 ATA: Área total amostrada

Como o principal objetivo deste estudo não é o mapeamento propriamente dito de uso e cobertura
de terra, mas sim a avaliação das mudanças de cobertura florestal, os pontos de validação foram
ponderados e alocados na sua maioria na parte que contempla o Mecrusse, como demostra a tabela
4 e figura 8.

Tabela 4. Amostras de validação de classificação

Classes Área (ha) % Pontos de amostra Pontos de validação


Mecrusse denso 7933.95 16.3 7.97 18
Mecrusse aberto 4259.61 8.7 4.28 11
Matagal 10994.58 22.5 11.04 7
Agicultura e Pastagens 18924.30 38.8 19.01 9
Área habitada e solo exposto 6670.17 13.7 6.70 7
Total 48782.61 100 49 52

ELIAS. Simões José 26


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

Figura 8. Pontos de validação

4.7. Classificação supervisionada: Fase II


4.7.1. Validação dos dados no campo (trabalho de campo)

A primeira fase da classificação supervisionada foi o trabalho de campo. Calculado o número de


pontos por amostra, seguiu-se a sua confirmação ou validação, onde foram marcados os 52 pontos
amostrais no ArcGIS e registou-se as coordenadas que posteriormente foram introduzidas no GPS
(Global positioning system) com a orientação UTM (Universal Transversal Mercator) para a
localização dos pontos, confirmação ou rejeição das classes de cobertura. De forma a aumentar a
precisão também fez-se a observação minuciosa das imagens SPOT de 2018, no Google Earth Pro.

Durante as actividades de campo, fez a identificação das possíveis causas das alterações de
cobertura (actividades que ocorrem no fragmento). A identificação das causas das mudanças foi
com base nas observações e acompanhamento das actividades durante sete (7) dias. Nas áreas sem
florestas, procurou-se saber aos exploradores locais, a quanto tempo as áreas estavam
desflorestadas, e em caso de áreas de queimadas procurou- se saber da possível causa da queimada
e da idade. Nesse processo, com auxílio de uma máquina fotográfica, fez-se capturas de fotografias
das diferentes características que as áreas apresentavam.

ELIAS. Simões José 27


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

4.7.2. Descrição das classes de uso e cobertura da terra

Para descrever as classes de uso e cobertura de terra, foi adaptado o esquema de classificação do
Centro Nacional de Cartografia e Teledetecção (CENACARTA), que define as classes de solo
exposto, agricultura, zonas húmidas, pradarias, matagal, floresta aberta e floresta fechada.

As classes de cobertura de terra foram agrupadas em cinco classes principais de acordo com a
tabela (5) que se segue: Este agrupamento de classes foi necessário para permitir a correcta
interpretação dos resultados obtidos da classificação das imagens satélite.

Tabela 5. Classes de uso e cobertura da terra utilizadas


Item Classes Sigla Cor
1 Mecrusse denso MD
2 Mecrusse aberto MA
3 Matagal Mt
4 Agricultura/Pastagens Ag/Pa
5 Área habitada/Solo exposto AH/SE
Adaptado de CENACARTA

Feita a descrição das classes, foi realizada a classificação supervisionada através do ENVI 5.3
utilizando o classificador Máxima Verossimilhança.

4.8. Avaliação da Exactidão da Classificação


Com objectivo de avaliar o grau de concordância dos resultados da classificação obtidos pela
interpretação de imagens de satélite com as verdades de campo, foi realizada a Avaliação da
Exactidão da Classificação. Para tal, criou-se uma matriz de confusão também denominada matriz
de erro ou tabela de contingência na qual foram listadas as classes resultantes da interpretação de
imagens e as classes referentes à classificação de campo (verdade de campo), como ilustra a tabela
(6) a seguir.

ELIAS. Simões José 28


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

Tabela 6. Esquema da matriz de confusão ou de erros

Classificação Verdades de campo


de imagens X+i E0
P11 Σ(P11…P14)
P22 Σ(P21…P24)
P33 Σ(P31…P34)
P44 Σ(P41…P44)
xi+ Σ(P11…P15) Σ(P21…P25) Σ(P31…P35) Σ(P41…P45)
Eco
Exatidão global (EG) Índice kappa (K)
Fonte: Adaptado por Mavie (2012)

Classes obtidas pela classificação das imagens de satélite


Verdades de campo
Parcelas corretamente classificadas
Somatório do Xi+ ou de X+i (Somatório da linha ou da coluna marginal)

A matriz acima gerou dados que foram usados para calcular o índice da validação da classificação.
Neste estudo empregou-se o índice Kappa (K), para a análise de qualidade de mapeamento,
calculado a partir da fórmula (5) abaixo indicada:

4.8.1. Índice Kappa (K)

N *  di    l (i ) *  c(i ) 
M M

i 1 i 1
N 2    l (i ) *  c(i ) 
K= Fórmula (5)

Onde:

 N é número de pixéis de verificação; M é número de classes.

Moreira (2001) adaptou a tabela do estudo de Landis e Koch (1977) como ilustra a tabela 7 que
mostra que o índice kappa pode ser usado para avaliar o desempenho da classificação.

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Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

Tabela 7. Relação entre os valores de índice kappa e o desempenho da classificação


Índice Kappa Desempenho da classificação
<0 Péssimo
0<k≤0,2 Mau
0,2<k≤0,4 Razoável
0,4<k≤0,6 Bom
0,6<k≤0,8 Muito bom
0,8<k≤1,0 Excelente

4.9. Detenção de mudanças


De referir que para o presente estudo, interessava identificar nas imagens as áreas que perderam,
ganharam e mantiveram a cobertura florestal ao longo do período entre 2000 e 2017.

Estas áreas foram identificadas através do módulo Change Datection Difference Map a partir da
operação change detection do ENVI 5.3 que consistiu na intersecção das imagens já classificadas,
e resultou numa única imagem indicando as áreas de mudanças de uma determinada classe de
cobertura para outra e incluindo aquelas que se mantiveram durante o período em análise.

4.10. Estimativa de áreas e os fluxos de mudanças no fragmento de Mecrusse


As áreas das classes foram obtidas para cada um dos mapas (2000 e 2017) através do módulo Class
statistics do ENVI 5.3, multiplicando o número de pixéis que cobre cada classe de cobertura por
0,09 hectares correspondente à resolução espacial do sensor do Landsat 7 ETM+ e 8 OLI (30 X 30
m), de acordo com a fórmula (6) que se segue:
𝐴𝐶 = 𝑁𝑃𝑋 𝑅𝐸 Fórmula (6)

Onde:

 AC- área de classe; NP-numero de pixéis de cada classe; RE- resolução espacial do sensor

A partir do módulo Change Datection statistics da operação change detection produziu-se uma
matriz das mudanças e a partir desta, determinou-se o fluxo das mudanças da cobertura.

Para a estimativa do fluxo de mudanças agrupou-se as mudanças em dois grupos; mudanças


positivas (ganho de cobertura) e mudanças negativas (perda de cobertura). Para cada grupo,
extraiu-se da matriz de mudanças as áreas correspondentes, conjugando-se aos pares de transição
todas as classes de cobertura e depois determinou-se a participação relativa de cada transição, em
cada grupo.

ELIAS. Simões José 30


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

4.11. Cálculo da taxa de desflorestamento


As taxas foram estimadas com base no desflorestamento bruto e líquido. Para determinar a taxa de
desflorestamento bruto assumiu-se que a cobertura foi removida e as áreas desflorestadas
permaneceram como tal durante o período em análise. Na taxa líquida, pelo contrário, as áreas
desflorestadas que recuperaram a cobertura florestal ao longo do período em análise foram
incluídas na classe Mecrusse no ano final. Para tal, as classes Mecrusse denso e Mecrusse aberto
foram reunidas numa só “classe Mecrusse” e as restantes classes agregadas noutra “classe não
floresta”.

O cálculo foi efectuado com recurso ao módulo Class statistics do ENVI 5.3, que permitiu
determinar a quantidade de pixéis convertidos de floresta para não floresta e vice-versa, tendo como
base a área florestal do início do período de referência. O número de pixéis foi posteriormente
convertido em área e a taxa de desflorestação calculada com base na equação de Puyravaud (2003)
descrita a seguir:
1 𝐴2
R = 𝑡2−𝑡1 x ln (𝐴1) Fórmula (7)

Onde:

 R: taxa de desmatamento;
 ln: logaritmo natural;
 A1: área do Mecrusse no início do período em análise (t1).
 A2: área do Mecrusse no final do período em análise (t2);

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5. RESULTADOS E DISCUSSÃO
5.1. Uso e cobertura de terra no fragmento de Mecrusse em Macuacua
Com base na classificação digital de imagens dos satélites Landsat 7 ETM+ e Landsat 8 OLI, foram
encontradas 5 classes de uso e cobertura de terra, as quais estão apresentadas na tabela 8, com as
suas respectivas áreas em hectares e em percentagem de cobertura em relação a área total do estudo.

Tabela 8. Quantificação de áreas de cada classe de uso e cobertura de terra em hectares e em


percentagem de 2000 e 2017.
2000 2017
Classes
Pixel contado Área ha % Pixel contado Área ha %
MD 122582 11032.38 22.6 88155 7933.95 16.3
MA 34778 3130.02 6.4 47329 4259.61 8.7
Mt 80881 7279.29 14.9 122162 10994.58 22.5
Ag/Pa 245066 22055.94 45.3 210270 18924.3 38.8
AH/SE 58722 5284.98 10.8 74113 6670.17 13.7
Total 542029 48782.61 100 542029 48782.61 100
Onde: MD.= Mecrusse denso, MA.= Mecrusse aberto, Mt.=Matagal, Ag/Pa. =
Agricultura/Pastagens, AH/SE. = Área habitada/Solo exposto.

A área total de estudo é de 48782.61 hectares. Em 2000 o Mecrusse cobria uma área de cerca de
14162.4 hectares (29% da área de estudo), e em 2017 cobria uma área de 12193.56 hectares (25%
da área de estudo). Outras formas de uso de solos encontradas no fragmento foram Áreas de
agricultura/Pastagens, Matagais e Áreas habitacionais/Solo exposto.

A figura (11) abaixo mostra os mapas de uso e cobertura da terra dos anos em análise (2000 e 2017)
resultante da classificação digital de imagens dos satélites Landsat 7 ETM+ e Landsat 8 OLI.

ELIAS. Simões José 32


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

Figura 9. Mapas de cobertura de 2000 e 2017

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Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

5.1.1. Mecrusse denso

Ao analisar os resultados da Tabela 7 e Figura 11, é possível verificar que no ano 2000 o Mecrusse
denso em Macuacua ocupava uma área de 11032.38 hectares, extensão que corresponde a 22.6%
da área toral de estudo. Actualmente o Mecrusse denso ocupa uma área de 7933.95 hectares (16.3%
da área total).

Estas áreas são constituídas por árvores vigorosas. Notou-se a presença de árvores de Androstachys
johnsonii. Esse comportamento deve-se ao efeito alelopático de Androstachys johnsonni, pois,
segundo Mantilla e Timane (2005) Mecrusse é um tipo de floresta onde a principal espécie, e
ocasionalmente, a única no dossel superior, é Androstachys johnsonii. A alelopatia é mediada pela
liberação de certos metabólitos secundários pelas raízes das plantas e desempenha um papel
importante no seu estabelecimento e manutenção (Molotja et al., 2011).

Dentro desta classe observou-se indícios, ainda que poucos, de exploração de madeira no passado,
actualmente estas áreas estão sob exploração de Androstachys johnsonii.

5.1.2. Mecrusse aberto

Em 2000, o Mecrusse aberto ocupava uma área de 3130.02 hectares (6.4% da área total),
actualmente ocupa uma área de 4259.61 hectares (8.7% da área de estudo).

Nestas áreas verificou-se indícios de queimadas no passado, exploração florestal no passado, cepos,
troncos caídos, e áreas de agricultura. São espécies predominantes Androstachys johnsonnii,
Guibourtia conjugata e Brachystegia spiciformis.

Apesar dessas áreas terem sofrido uma exploração selectiva de árvores no passado, observou-se
uma onda de exploração menos selectiva nessas áreas. Algumas destas áreas são interrompidas por
áreas de agricultura e pastagens (maioritariamente com campos abandonados), formando aquilo
que Marzoli (2007) classificou como floresta com agricultura.

5.1.3. Matagal

Em 2000 os Matagais ocupavam uma área de 7279.29 hectares (14.9 % da área de estudo) e em
2017 esta área era de 10994.58 hectares (22.5 % da área de estudo). São áreas com predominância
de pequenas matas ao longo e dentro do fragmento. As espécies arbóreas mais predominantes são
Sclerocarya birrea, Combretum apiculatum, Acacia nigrescensis

ELIAS. Simões José 34


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

5.1.4. Pastagens e agricultura

Em 2000 áreas de Agricultura e Pastagens eram de 22055.94 hectares (45.3 da área de estudo) e
em 2017 esta área era de 18924.3 hectares (38.8 % da área de estudo). Fazem parte dessas áreas,
áreas de agricultura com culturas ou abandonados (áreas em pousio). São maioritariamente
constituídas por arbustos e árvores de pequeno porte. Estas áreas apresentam estrato graminal curto.

Nos campos recentemente abertos notou-se presença de árvores queimadas, mortas e algumas ainda
em pé, outras ainda vivas. Essas áreas estavam constituídas por culturas de milho, mandioca e
feijão nhemba. Estes resultados estão em concordância com o PEDD (2008) segundo o qual, as
comunidades locais vivem na base da agricultura de subsistência, dedicando-se à produção de
milho, mandioca, arroz, amendoim, mexoeira e feijão nhemba.

5.1.5. Solo exposto e área habitada

Em 2000 áreas habitadas e solo exposto eram de 5284.98 hectares (10.8 da área de estudo) e em
2017 esta área era de 6670.17 hectares (13.7 % da área de estudo). Estas áreas apresentavam solo
desprovido de vegetação, foi possível notar áreas recentemente preparadas para a agricultura.
Nessas áreas encontravam-se também algumas comunidades que para além de agricultura praticam
a caça e exploram estacas de Androstachys johnsonnii. Esses resultados coincidem com o estudo
do MAE (2014), que afirma que para além da agricultura, as populações locais dedicam-se também
à caça e produção de estacas de Mecrusse para fins comerciais.

5.2. Avaliação de classificação

A tabela 9 mostra a precisão avaliada pelo índice Kappa, obtido a partir da comparação simultânea
da classificação visual de 52 pontos amostrais de trabalho de campo como verdade terrestre e da
classificação digital da imagem do Landsat 8.

ELIAS. Simões José 35


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

Tabela 9. Matriz de confusão para classificação de 2017

Verdade terrestre
Classificação MD MA Mt Ag/ Pa AH/SE Total E co Eco%
MD 16 2 0 0 0 18 43149 11.11
MA 1 9 1 0 0 11 43142 18.11
Mt 0 0 6 1 0 7 43107 14.29
Ag/ Pa 0 0 1 8 0 9 43109 11.11
AH/SE 0 0 0 0 7 7 0/7 0
Total 17 11 8 9 7 52 19146
Eo 1/17 2/11 2/8 1/7 0/7 6/52 46/52
Eo% 5.88 18.18 25 11.11 0
EG% 88.46
k %= 85%
Onde: MD.= Mecrusse denso, MA.= Mecrusse aberto, Mt.=Matagal, Ag/Pa. =
Agricultura/Pastagens, AH/SE = Área habitada/Solo exposto, EG= exatidão global K=Índice
Kappa, Eco.= Erros de comissão; Eo = erros de omissão

A avaliação da precisão pelo índice kappa (K) mostra que a classificação foi excelente.
De acordo com o índice de exactidão global (EG), a probabilidade de que as classes obtidas
pela interpretação das imagens de satélite correspondam a verdade no campo é de
88.46% e a perfeição da classificação, medida pelo índice kappa (K), é de 85%.

De acordo com a tabela de referência de Lands & Koch, (1977) adaptada por Moreira (2001),
(tabela 7) valores de índice kappa (k) entre 80 a 100% revelam uma excelência de classificação.

5.3. Mudanças de cobertura de Mecrusse e uso da terra

Com base na tabulação cruzada dos mapas de 2000 e 2017 foi possível, detectar, quantificar e
cartografar as mudanças de cobertura de Mecrusse em Macuacua.

A figura (10) a baixo indica a variação das classes de cobertura no fragmento de Mecrusse durante
os 17 anos.

ELIAS. Simões José 36


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

Variação

Area habitada e solo exposto


Classes de uso e cobertura de terra

Agicultura e Pastagens

Matagal

Mecrusse aberto

Mecrusse denso

-4000 -2000 0 2000 4000 6000


Área (ha)

Figura 10. Variação de classes no fragmento de Mecrusse

Das 5 classes consideradas, registaram-se alterações negativas nas classes Mecrusse denso (MD) e
Agricultura/Pastagens (Ag/Pa), enquanto as classes de Mecrusse aberto (MA),
Agricultura/Pastagens (Ag/Pa), Área habitada/Solo exposto (AH/SE) registaram aumento.

Mavie (2012) encontrou resultados semelhantes ao Analisar as mudanças de cobertura florestal no


Distrito de Gondola, onde registaram-se alterações negativas das classes floresta densa e outras
formações lenhosas, enquanto que as restantes (Floresta aberta, Áreas de agricultura, Outras áreas)
registaram aumento, sendo que as actividades que provocaram mudanças em Gondola foi a
exploração de madeira, produção de carvão e agricultura itinerante.

ELIAS. Simões José 37


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

O mapa da figura (11) que se segue indica a cartografia dos diferentes tipos de mudanças que
ocorreram no fragmento de Mecrusse em Macuacua durante os 17 anos

Figura 11. Mapa de mudanças de cobertura entre 2000 a 2017

Em relação a dinâmica de mudanças, foram constatadas duas situações distintas: Modificações e


conversões de cobertura de uma classe a outra e, áreas de classes de cobertura que não sofreram
mudanças capazes de serem detectadas. Quanto há mudanças, é possível verificar no mapa de
mudanças (figura 11) casos de ganho e parda de cobertura.

ELIAS. Simões José 38


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

5.4. Áreas e fluxos de mudança


Para encontrar as áreas que mantiveram e as áreas que sofreram mudanças de uma classe para outra foi criada uma matriz de mudanças
apresentada na tabela (10) que se segue.

Tabela 10. Matriz de mudanças de cobertura durante os 17 anos

Classes Classes de cobertura 2000


de cobertura MD MA Mt Ag/Pa AH/ SE Total de classe
2017 Área (ha) % Área (ha) % Área (ha) % Área (ha) % Área (ha) %
MD 7359.93 66.71 405.54 12.96 10.08 0.14 158.4 0.72 0 0 7933.95
MA 2762.64 25.04 1364.76 43.6 73.89 1.02 58.32 0.26 0 0 4259.61
Mt 677.34 6.14 1114.11 35.6 4436.28 60.94 3630.51 16.46 1136.34 21.5 10994.6
Ag/Pa 232.38 2.11 239.76 7.66 2616.57 35.95 14383.5 65.21 1452.06 27.48 18924.3
AH/SE 0.09 0.19 5.85 1.19 142.47 1.96 3825.18 17.34 2696.58 51.02 6670.17
Total de classe 11032.4 100 3130.02 100 7279.29 100 22055.9 100 5284.98 100 48782.6
Mudanças 3672.45 33.29 1765.26 56.4 2843.01 39.09 7672.41 34.79 2588.4 48.98
Variação -3098.4 -28.09 1129.59 36.09 3715.29 51.04 -3131.6 -14.2 1385.19 26.21
Onde: MD.= Mecrusse denso, MA.= Mecrusse aberto, Mt.=Matagal, Ag/Pa. = Agricultura/Pastagens, AH/SE = Área habitada/Solo
exposto.

ELIAS. Simões José 39


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

Da área mapeada como Mecrusse denso em 2000 (11032.38 ha), 33.29% (3672.48 ha) sofreu
mudanças e os restantes 66.91 % (7359.93 ha) não sofreu mudanças possíveis de serem detectadas.
Da área de mudanças, 25% (2762.64 ha) foi transformada para Mecrusse aberto, seguido por
Matagal 6.14% (677.34 ha) e por Agricultura/Pastagens 2.11% (232.38 ha). A transformação de
Mecrusse denso em Mecrusse aberto corresponde a degradação florestal que se verificou no
fragmento devido ao corte selectivo de árvores.

O Mecrusse aberto até o ano 2000 abrangia uma área de 3130.02 ha, dos quais 43.6% (1364.76 ha)
não sofreram mudanças possíveis de serem dectetados e, 56.4% (1765.26 ha) mudaram de
cobertura. Nesta classe, a cobertura florestal foi maioritariamente convertida em Matagal, cerca de
35.6% (1114.11 ha) seguido de Mecrusse denso com 12.96% (405.54 ha) e por fim
agricultura/pastagens com 7.66% (405.54 ha).

De uma forma geral, durante os 17 anos o Mecrusse em Macuacua foi convertido, na sua maioria,
para Matagais, Agricultura e Pastagens. No entanto verificou-se uma grande transição de Mecrusse
denso para Mecrusse aberto.

Pouco prováveis são as transições directas de agricultura/pastagens (158.40 ha) para floresta densa
tendo em conta o período 2000/2017 e a dinâmica da regeneração natural da floresta nativa em
Moçambique. Na maioria dos casos, a regeneração dá-se através da
rebentação de toiças e do banco de plântulas e, em ambos casos, o crescimento das
árvores é lento, e o desenvolvimento aéreo torna-se significativo apenas a partir dos 8
anos (Grundy,1995; Frost,1996). Erros de classificação resultantes de dificuldade de
separar espectralmente culturas e ou vegetação em estágios iniciais de regeneração com
a floresta, podem estar na origem da ocorrência destas transições.

No entanto, a conversão do Mecrusse para Áreas de agricultura/ Pastagens e Matagal que verificou-
se nesse estudo está em linha com outros estudos que revelam mesma tendência em Moçambique
(Ferro,2005; Mananze 2012; Mavie 2012; Cumbula 2015). Na área de estudo, esta tendência deve
ser o reflexo da exploração selectiva de madeira e estacas, que diminui a densidade de árvores,
abrindo espaço para abertura de pequenas machambas pelas comunidades locais, que depois de um
tempo são abandonadas e, a médio prazo essas áreas viram pastagens e a longo prazo viram
matagais.

ELIAS. Simões José I


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

Da área total de mudanças (18541.44 ha), 37,35% (6925.14 ha) correspondem a mudanças
positivas e 62.65% (111616,30 ha) correspondem a mudanças negativas. Quanto ao fluxo, nas
mudanças positivas a transição Agricultura/pastagens para Matagal apresentou maior fluxo e, nas
mudanças negativas a transição Agricultura/pastagens para Área habitada/solo exposto apresentou
maior fluxo (ver detalhes na tabela 2 do anexo 3).

As mudanças entre as classes áreas de Agricultura para Matagais e vice-versa representam, talvez,
um ciclo que é determinado pelo esgotamento de nutrientes no solo e o tempo de recuperação da
mesma área, depois de um certo período de abandono (pousio).

De uma forma geral, pode-se notar que a maior transição de Mecrusse denso para Mecrusse aberto
não é um desflorestamento completo, uma vez que manchas de florestas permanecem, e ainda se
realiza exploração nessas áreas. Contudo, não há dúvidas de que a pressão humana está causar
degradação do Mecrusse.

5.5. Factores que concorrem nas mudanças de cobertura florestal no fragmento de


Mecrusse
Três grandes factores contribuem para mudanças de cobertura florestal no fragmento de Mecrusse
em Macuacua.

5.5.1. Exploração de madeira

O fragmento de Mecrussse em Macuacua abastece a província de Gaza e não só. As indústrias do


distrito de Manjacaze a sul do fragmento e as do distrito de Chibuto a norte do fragmento detêm
várias conceções e licenças simples para exploração de Androstachys johnsonii (ver figura 2a do
anexo 1).

Práticas de exploração não adequadas, como por exemplo corte de árvores antes de atingirem o
diâmetro mínimo de corte, foram verificadas durante o trabalho de campo, podem estar a concorrer
para o declínio do fragmento.

Associado a cadeia de exploração, foi possível notar que durante o transporte dos toros, do
fragmento para as serrações, registram-se constantes avarias dos camiões o que leva com que, em
algumas ocasiões, o camião pernoite dentro do fragmento e por mau maneio do fogo que os
trabalhadores acendem durante a noite, contribuem para as queimadas descontroladas.

ELIAS. Simões José II


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

5.5.2 Agricultura e exploração de estacas

As necessidades de combustível lenhoso, material de construção e abertura de machambas são


actividades que contribuíram para as mudanças de cobertura florestal. Aquando da realização do
trabalho de campo, foi possível notar a exploração de estacas, lenha, caça e práticas agrícolas
inapropriadas no fragmento (ver figura 2b do anexo 1).

Esta afirmação é sustentada pelo facto de terem sido vistas muitas machambas abandonadas, áreas
queimadas como forma de preparação de campos agrícolas. Ademais, muitos exploradores de
estacas e lenha, para evacuarem o seu produto, abrem vários caminhos abatendo várias árvores, as
vezes desnecessariamente, contribuindo na diminuição da cobertura (ver figura 3a, 3b do anexo 1).

Ribeiro & Nhabanga, (2009) referem que a exploração florestal causa mudanças de cobertura em
Moçambique, particularmente nas áreas de ocorrência de espécies gregárias tais como
Androstachys johnsonii onde o corte de estacas é quase corte raso. Em geral, porém, o carácter
selectivo da exploração florestal resulta na degradação de florestas. Abertura de caminhos de
arraste e transporte primário das madeiras, pode abrir acesso a áreas que eram de difícil acesso.
Portanto, a combinação de fatores como agricultura, exploração de madeira criam degradação,
podendo levar ao desmatamento.

5.6 Taxa de desflorestamento do Mecrusse em Macuacua


O mapa da Figura (12) que se segue indica a localização do desflorestamento bruto no período
2000 – 2017, e a tabela 10 apresenta as taxas de desflorestamento líquido e bruto para o mesmo
período.

ELIAS. Simões José III


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

Figura 12. Mapa da localização do desflorestamento

O mapa mostra que o desflorestamento do Mecrusse em Macuacua está localizado na parte sul
(onde se localizam as maiores serrações do distrito) e norte (onde se localizam algumas serrações
do distrito Chibuto), assim como nas zonas marginais e um pouco espalhado na zona central
(próximo da principal estrada que que liga o fragmento de sul a Norte, ate ao distrito de Chibuto).

ELIAS. Simões José IV


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

Verifica-se também uma tendência de progressão do desflorestamento em direcção à parte central


do fragmento, onde se situa a maior porção de Mecrusse denso.

Como era espectável, a taxa de desflorestamento líquido é inferior à taxa bruta. Esta diferença
reflecte o facto de a taxa bruta captar a redução da área florestal do início do período de referência
que, na taxa líquida é compensada pela inclusão das áreas regeneradas. A tabela 11 apresenta a
tendência da área florestal bruta e líquida ao longo do período de análise, calculada tendo em conta
a área no início do período e as alterações ocorridas nos anos subsequentes.

Tabela 11. Desflorestamento anual bruto e líquido (ha/ano) e respectivas taxas (%/ano) durante o
período 2000-2017
Desflorestamento Área (ha/ano) %/ano
Bruto 115.81 0.88
Liquido 90.48 0.67

Tabela 12. Área florestal bruta e líquida ao longo do período de referência


Área 2000 2017
Bruta 14162.40 12193.56
Liquida 14162.40 12624.30
De acordo com a Tabela 11, em um período de 17 anos a taxa de desmatamento líquido anual foi
de 0,67%. A abordagem da taxa líquida assemelha-se à aplicada por Marzoli (2007), para estimar
taxas de desflorestamento em Moçambique entre 1990 – 2002. A taxa líquida
obtida neste estudo (0.67 %) situa-se ligeiramente acima da taxa média anual nacional (0.58 %)
mas, superior à taxa média anual na Província de Gaza (0.33%). Essa disparidade deve-se, talvez,
a desflorestamento localizado numa escala regional, uma vez que este fragmento abastece matéria-
prima para toda a Província de Gaza e não só. A taxa bruta é superior à taxa líquida, reflectindo o
facto de acumular o desflorestamento registado em todos os anos em análise.

Essa tendência do desflorestamento (maior que a taxa média anual nacional e provincial) verificado
neste estudo vai de acordo com a verificada por Cumbula (2015) ao analisar a dinâmica do Mangal
no estuário de Limpopo entre 1994-2014, que obteve 0,6 e 0.8% para o desflorestamento líquido e
bruto respectivamente.

ELIAS. Simões José V


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

Uma observação importante é que o desflorestamento tende aumentar desde 1990 a esta parte. Parte
deste aumento reflete a crescente população que vem se registando no país. Em 1997 a população
era de 16 milhões de habitantes, em 2007 a população cresceu para cerca de 20.5 milhões de
habitantes, e os dados preliminares do censo 2017 indicam uma população de cerca de 28 milhões
de habitantes (Instituto Nacional de Estatística – INE,2007, 2017). Este crescimento foi mais
acelerado nas zonas rurais, onde se localizam os recursos florestais, e mais de 85% das populações
dependem destes recursos para a sua sobrevivência (Marzoli,2007).

ELIAS. Simões José VI


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

6. CONCLUSÃO
De acordo coma interpretação dos mapas, e do trabalho de campo constatou-se que:

A maior porção do Mecrusse denso situa-se na zona central do fragmento, e a parte sul
principalmente ao longo das estradas e próximo das aldeias, verifica-se um mosaico de Mecrusse
aberta e agricultura itinerante;

Durante o período em análise (2000-2017), 18541.44 ha (38.01%) do total da área de estudo,


mudaram de cobertura e 30241.17 ha (61.99%) não registaram mudanças possíveis de serem
detectadas. As áreas ao longo das vias de acesso e perto das aldeias são as que registaram transição
abrupta negativa da cobertura e as que passaram das classes de cobertura mais baixas para as mais
altas encontram-se em zonas mais afastadas de habitações e das vias de acesso.

As mudanças de cobertura que se verificaram são uma combinação de vários factores,


nomeadamente: expansão de áreas de agricultura, exploração de madeira e estacas de Androstachys
johnsonii.

A taxa de desflorestamento bruto do Mecrusse observada no presente estudo foi de 0,88%/ano


correspondente a 115.81 ha por ano, o que sugere que o fragmento de Mecrusse em Macuacua está
a reduzir a um ritmo acelerado.

ELIAS. Simões José VII


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

7. RECOMENDAÇÕES
Com base nos resultados deste trabalho, recomenda-se o seguinte:

Aos investigadores

 Que se façam mais estudos sobre Mudanças de cobertura florestal de Mecrusse, usando
imagens de satélites de alta resolução espacial, como IKONOS e QUICKBIRD, empregando
classificador orientado a objecto, com vista a fornecer uma informação mais detalhada;
 Adicionalmente, recomenda-se que a partir deste estudo se faça um estudo de estimativa de
biomassa e carbono no Mecrusse em Macuacua, de modo a relacionar áreas de mudanças com
a quantidade de carbono perdido.

Às entidades governamentais:

 Implementar e acompanhar tecnicamente a prática de agricultura permanente/de conservação


nas comunidades locais;
 Desenvolver fontes alternativas de rendimento (que sejam economicamente mais rentáveis) de
forma a minimizar o índice de desflorestamento feito pela comunidade local como: aquacultura,
entre outras actividades.
 Reforçar a fiscalização e implementação da lei de florestas para com os concecionários e
exploradores por licenças simples no fragmento.

ELIAS. Simões José VIII


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

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ELIAS. Simões José XII


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

9. ANEXOS
Anexo 1. Actividades que provocam as mudanças

Figura 1. Trator a entrar no fragmento de Mecrusse para atividades de exploração de madeira

A B

Figura 2. a. Exploração de madeira; b. Exploração de estacas

ELIAS. Simões José XIII


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

A B
Figura 3. a. Área de Mecusse queimada; b. Área de Mecrusse com agricultura

Anexo 2. Validação de pontos amostrais

Figura 4. Processo de validação de pontos amostrais

ELIAS. Simões José XIV


Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

Tabela1. Coordenadas de pontos amostrais


Ponto X Y Classe de cobertura
1 591121 7313147 Agricultura/pastagens
2 587655 7311616 Mecrusse denso
3 586595 7314814 Matagal
4 590016 7315146 Área habitada/Selo exposto
5 587880 7314737 Mecrusse denso
6 593056 7316080 Mecrusse aberto
7 593187 7309267 Mecrusse aberto
8 597133 7307795 Mecrusse aberto
9 589322 7314259 Mecrusse aberto
10 591429 7310629 Mecrusse denso
11 593826 7312865 Mecrusse aberto
12 595891 7308068 Mecrusse denso
13 594998 7310089 Mecrusse aberto
14 591822 7317396 Mecrusse denso
15 589294 7310157 Mecrusse denso
16 589851 7311661 Mecrusse aberto
17 596830 7310736 Mecrusse denso
18 587126 7321077 Agricultura/pastagens
19 594838 7311497 Agricultura/pastagens
20 590623 7325883 Agricultura/pastagens
21 588449 7313119 Matagal
22 588058 7317409 Área habitada/Selo exposto
23 585055 7323834 Matagal
24 588435 7320590 Área habitada/Selo exposto
25 587454 7319395 Área habitada/Selo exposto
26 583910 7322946 Área habitada/Selo exposto
27 589564 7324631 Matagal
28 590447 7322420 Mecrusse denso
29 587939 7326038 Mecrusse denso
30 585034 7316555 Agricultura/pastagens
31 582531 7321661 Mecrusse denso
32 588943 7319052 Mecrusse denso
33 586037 7317445 Mecrusse denso
34 587660 7310711 Área habitada/Selo exposto
35 587736 7316248 Mecrusse denso
36 585396 7322041 Mecrusse aberto
37 589834 7313530 Matagal
ELIAS. Simões José XV
Detenção de mudanças de cobertura florestal num fragmento de Mecrusse em Macuacua

38 584247 7319265 Mecrusse aberto


39 590865 7309230 Agricultura/pastagens
40 584571 7320928 Mecrusse denso
41 592237 7316578 Matagal
42 587937 7325031 Mecrusse denso
43 586258 7319270 Mecrusse denso
44 587379 7323019 Mecrusse denso
45 597464 7306558 Mecrusse aberto
46 582145 7323019 Mecusse aberto
47 591657 7319792 Mecrusse denso
48 591366 7324262 Agricultura/pastagens
49 591121 7313147 Agricultura/pastagens
50 591121 7313147 Agricultura/pastagens
51 591121 7313147 Matagal
52 591121 7313147 Mecrusse denso

Anexo 3. Fluxo de mudanças de cobertura entre 2000 a 2017


Tabela 2. Mudanças positivas e negativas das classes de cobertura e uso de solo em Macuacua
Mudanças positivas Área (ha) % Mudanças negativas Área (ha) %
MA para MD 405.54 5.86 MD para MA 2762.64 23.78
Mt para MD 10.08 0.15 MD para Mt 677.34 5.83
Mt para MA 73.89 1.07 MA para MT 1114.11 9.59
Ag/Pa para MD 158.40 2.29 MA para Ag/Pa 239.76 2.06
Ag/Pa para MA 58.32 0.84 MA para AH/SE 5.85 0.05
Ag/Pa para Mt 3630.51 52.43 Mt para Ag/pa 2848.95 24.53
AH/SE para Mt 1136.34 16.41 Mt para AH/SE 142.47 1.23
AH/SE para Ag/Pa 1452.06 20.97 Ag/Pa para AH/SE 3825.18 32.93
Total 6925.14 100.00 Total 11616.30 100.00

ELIAS. Simões José XVI