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SEDUFSM

S I N D I C AT O Impresso

ANDES
Especial
9912248799/2009-DR/RS

NACIONAL Sedufsm

CORREIOS

Publicação mensal da Seção Sindical dos Docentes da UFSM / ANDES - Dez. 2010 / Jan. 2011 ISSN 2177-9988

Carreira, o dilema para 2011


FRITZ NUNES

O ano de 2011 inicia com uma


série de interrogações. Uma delas se
refere à forma como será tratado o
funcionalismo público federal. O
novo governo fala abertamente em
contenção de gastos. Mas, e o
salário dos professores? E as verbas
do REUNI? Uma das heranças do
governo Lula para o de Dilma se
refere a uma proposta de nova
carreira para os professores das
universidades federais. Anunciou-
se na metade de 2010 uma proposta,
que acabou sendo retificada no mês
de dezembro, cujo conteúdo
mantém a essência prejudicial à
maioria da categoria. O que fará o
novo governo? Seguirá as
recomendações dos técnicos do
Ministério do Planejamento? São
algumas questões ainda sem
resposta. Na SEDUFSM, o GT
Carreira discute uma proposta que
será encaminhada ao 30º Congresso
do ANDES-SN, em fevereiro, em
Uberlândia (MG). Leia mais nas
GT Carreira da SEDUFSM discute proposta para encaminhar ao 30º Congresso do ANDES-SN págs. 02, 06 e 07.

RENATO SEERIG FRITZ NUNES

Ainda nesta edição:


Sindicato encaminha
novas ações judiciais
Radar, pág. 03

Hospitais Universitários
sob ameaça privatista
Pág. 07
Pedro Brum Santos, do conselho editorial, fala no lançamento Professores relatam dificuldades na Unipampa e UFFS

Sindicato lança Alerta contra Historiador fala


‘D Palavra' “precarização” das IFES sobre “visibilidade”
A SEDUFSM lançou, no dia 20 de dezembro, No 5º Encontro da Regional RS do ANDES- do negro
a primeira edição da revista 'D Palavra' SN, docentes alertaram para a precarização do Com a palavra, págs. 08 e 09
Extra-classe, pág. 11 ensino nas IFES.
Radar especial, págs. 04 e 05

Acesse: www.sedufsm.org.br Acompanhe: http:/ / twitter.com/ sedufsm


02 DEZEMBRO 2010 / JANEIRO 2011 Publicação da Seção Sindical dos Docentes da UFSM / ANDES

EDITORIAL Clauber

Desafios se renovam
Ao iniciarmos um novo ano, sempre pensamos que ele
pode ser melhor que o anterior. Contudo, a expectativa é
sempre um desejo, algo que tem muito a ver com esperança,
fé. Já a realidade, nem sempre pode ser vista com olhos de
um otimismo simplista. O ano de 2010 finalizou com pelo
menos duas dificuldades claras: o projeto de lei
complementar que propõe o congelamento do salário dos
servidores, até 2019, apesar de parecer contrário da
relatora, deputada não-reeleita, Luciana Genro, pode
voltar à pauta e ser apreciado por um parlamento que hoje
é maioria em favor do novo governo; e a outra ameaça que
paira no ar, a proposta de nova carreira para os docentes,
reafirmada em dezembro de 2010, no Ministério do
Planejamento, e que aprofunda os prejuízos para os menos
graduados e aos que já estão aposentados.
Para que ninguém pense que esse editorial foi escrito por
alguém que está de má vontade com a recém empossada,
presidente Dilma Rousseff, podemos citar as primeiras
matérias de jornais veiculadas após o dia 1º de janeiro. O
centro das discussões se dá em cima de um
contingenciamento de recursos, cortes no orçamento, para
equilibrar as contas públicas. Ou seja, depois de um
período de bonança, em que o Estado mostrou-se o grande
indutor do consumo, para evitar que o país naufragasse na
crise que atingiu duramente os Estados Unidos, agora vem
PONTO A PONTO
a conta para pagar. E o setor público, ao que tudo indica,
deverá dar uma importante parcela de contribuição nesse FRITZ NUNES
Progressão gera críticas
ajuste. Uma normativa que mantém a desigualdade entre os
O que se vislumbra, portanto, não tem nada a ver com um professores e privilegia os cargos administrativos em
céu de brigadeiro. Até mesmo porque a crise, que estourou detrimento da docência. Foi dessa forma que a diretoria
em 2008, continua, aos poucos, tragando mais países e da SEDUFSM, reunida no dia 24 de novembro (foto),
ameaçando a disseminar seus efeitos mundo afora. O qualificou a proposta de resolução elaborada na
governo brasileiro, que vendeu todo esse processo como universidade por uma comissão docente, cujo objetivo é
regulamentar a progressão funcional e/ou a concessão
uma marolinha , agora, mesmo sem dizer claramente, de retribuição por titulação de docentes na UFSM . No
inicia a tomada de medidas amargas, que afetarão a entendimento dos diretores, a resolução não deve ser
população. Uma delas, indubitavelmente, é o aumento dos implementada nos termos em que foi apresentada.
juros para conter a subida dos preços e o aumento da Para o presidente do sindicato, Rondon de Castro, o que
inflação. está sendo apontado na proposta de resolução tem um caráter produtivista e vai na contramão do que
A nós, o que cabe fazer? Como diz aquele velho chavão: está sendo discutido pelo Movimento Docente de todo o país em relação à carreira. O dirigente da
Ano novo, vida nova. Mesmo que procuremos manter o pé SEDUFSM também avalia que a proposta não pode ficar restrita a um grupo de notáveis .
na realidade, sem falso otimismo, sabendo que será um ano
difícil, também temos que ter claro que, evitar retrocessos e Reitor convida SEDUFSM
obter avanços sempre dependeu da disposição e da
capacidade de mobilização. Ficar de braços cruzados e se Em audiência ocorrida no dia 20 de dezembro, o reitor da UFSM, professor Felipe Müller, procurou
atirar ao desânimo em nada ajudará. Logo, arregacemos tranqüilizar a SEDUFSM em relação às discussões sobre a progressão na carreira . Conforme o
as mangas. Afinal, já estamos em 2011, com os desafios e as dirigente da universidade, o que existe, por enquanto, é apenas uma minuta de resolução . O reitor de
energias renovadas. comprometeu com a abertura das discussões e convidou a SEDUFSM, representada pelo presidente e
vice, professores Rondon de Castro e Julio Quevedo, a integrar a comissão. A partir dessa conversa, o
presidente da SEDUFSM comunicou a Administração Central que o indicado do sindicato para
participar dos debates é o professor Carlos Pires, ex-presidente do sindicato e, atualmente, na 2ª vice-
EXPEDIENTE presidência da Regional RS do ANDES-SN.

A diretoria da SEDUFSM é composta por:


Presidente: Rondon Martim Souza de Castro; Vice-presidente: Julio Ricardo
Quevedo dos Santos; Secretária-geral: Leila Wolff; Tesoureiro-geral: Sérgio A. ANDES em Santa Catarina Arquivo/ANDES-SN
Massen Prieb; Primeira secretária: Carmem Deleacir Ribeiro Gavioli; Primeira
tesoureira: Glaucia Vieira Ramos Konrad; Segunda suplente: Rejane Terezinha O processo de mobilização articulado pelo ANDES-SN
Pereira dos Santos e Terceiro suplente: Luís Eduardo de Souza Robaina. no último período surtiu efeito e culminou na retirada da
Jornalista responsável: Fritz R. F. Nunes (MTb nº 8033) obstrução para o Sindicato Nacional atuar nas instituições
Estagiário de jornalismo: Mathias Rodrigues federais de ensino superior no Estado de Santa Catarina.
Relações Públicas: Estefânia Adams; Vilma Ochoa (licenciada)
O anúncio foi feito oficialmente pelo ministro Carlos
Arquivista: Cláudia Rodrigues
Demais funcionários: Claudionéia Petry, Márcio Prevedello, Paulo Marafiga e
Lupi (foto com Marina Barbosa Pinto) aos representantes
Maria Helena Ravazzi da Silva. da diretoria do ANDES-SN, durante audiência, ainda no
Diagramação e projeto gráfico: J. Adams Propaganda mês de novembro. A retirada foi a principal reivindicação
Ilustrações: Clauber Sousa e Reinaldo Pedroso levada ao ministro pelas quase duas mil pessoas que
Impressão: Gráfica Pale, Vera Cruz (RS) Tiragem: 1.500 exemplares participaram do Ato Público em Defesa da Autonomia
Obs: As opiniões contidas neste jornal são da inteira responsabilidade de quem as Sindical, promovido pelo ANDES-SN, em 21 de outubro,
assina. Sugestões, críticas, opiniões podem ser enviadas via fone(fax) como parte da luta em defesa do Sindicato Nacional.
(55)3222.5765 ou pelo e-mail sedufsm@terra.com.br
Informações também podem ser buscadas no site do sindicato:
Na audiência, o ministro se comprometeu a não permitir a ocorrência do mesmo erro em casos similares,
www.sedufsm.org.br reconhecendo o direito do ANDES-SN de atuar em todo o território nacional, conforme consta no registro
A SEDUFSM funciona na André Marques, 665, cep 97010-041, em Santa sindical da entidade. De acordo com o ministro, mesmo que o Ministério venha a conceder novos registros
Maria(RS). para sindicatos regionais de base docente, o ANDES-SN poderá representar sua base de forma oficial.
Publicação da Seção Sindical dos Docentes da UFSM / ANDES DEZEMBRO 2010 / JANEIRO 2011 03

RADAR

Debate sobre cotas indígenas na UFSM


A SEDUFSM é uma das entidades que universo de 23 inscritos no vestibular. A
JOANA D ARC ROCHA

está inserida nas discussões da UFSM sobre discussão teve por pauta a questão do
a implementação das cotas indígenas. No acesso e a permanência dos alunos e
último dia 22 de dezembro, o vice- alunas indígenas na UFSM. No entanto,
presidente da seção sindical, professor as lideranças sinalizam para as questões
Júlio Ricardo Quevedo dos Santos, junta- das particularidades de cada grupo étnico
mente com a diretora, professora Glaucia e que a forma de ingresso deveria atender
Konrad, o conselheiro, professor Diorge essas particularidades, já que a maioria
Konrad, junto com outras entidades e dos indígenas advém de suas comuni-
professores da UFSM, se reuniram com dades locais e não tem lugar para ficarem
lideranças indígenas na universidade. O em Santa Maria durante o vestibular, bem
professor Paulo Roberto Cardoso da como após o ingresso.
Silveira foi um dos presentes, já que é o vice Foi discutida a necessidade de que os
na comissão presidida pelo professor vestibulandos indígenas sejam acolhidos
Quevedo, intitulada de Comissão de durante as provas de vestibular. No
Implementação e Acompanhamento do tocante ao acesso, as lideranças pro-
Programa de Ações Afirmativas de Inclu- pugnaram sobre a necessidade dos
são Racial e Social da UFSM . indígenas vestibulandos realizarem uma
As lideranças indígenas que estiveram prova em sua própria língua, o que
presentes pertencem aos povos Guarani, evidenciaria a sua cultura.
Kaingang e Charrua. A visita, que foi inter- PROEJA- Durante a reunião avaliou-
mediada pelo GAPIN (Grupo de Apoio aos se que é necessário ampliar o número de
Povos Indígenas), ocorreu na sala Joél vestibulandos indígenas, sendo que o
Abilio Pinto dos Santos , no prédio 74 do reduzido número em 2011 foi atribuído Lideranças indígenas e entidades discutem cotas e formas de inclusão na UFSM
Campus Universitário da UFSM. A reunião ao fato de que muitos necessitam concluir ensino superior, pois como se deliberou suais, além de lutar pelos direitos dos
ainda teve a participação do pró-reitor de o ensino médio. Sobre esta questão, a no item 2, do 29º Congresso, a entidade povos indígenas no seu acesso e
Graduação da UFSM, professor Orlando professora Roselene Pommer sinalizou tem que: permanência na UFSM.
Fonseca, e das professoras Maria Media- para o PROEJA indígena, como uma Posicionar-se favoravelmente ao Na reunião, o GAPIN esteve represen-
neira Padoin e Roselene Pommer, e da maneira de formar e capacitar os indíge- sistema de cotas, como política transitória tado por Matias Rempel, Joana D'arc Rocha
militante do Movimento Negro de Santa nas a usufruírem os seus direitos de para a universalização do acesso e e Ramiro Rosa. Já as lideranças indígenas
Maria, professora Maria Rita Py Dutra. acesso à UFSM. permanência à educação superior. A estiveram representadas por Wherá Photy
O tema principal da discussão foi a Para o professor Julio Quevedo, a diretora Glaucia Konrad salientou aos Benites da Silva, cacique Guarani; Mauri-
reserva de vagas para os indígenas na reunião veio ao encontro dos anseios representantes dos povos indígenas que o cio da Silva Gonçalves, também da etnia
UFSM, já que em 2011, 11 indígenas daqueles que realmente desejam sindicato está empenhado em fazer a sua Guarani; Selso Jacinto, Kaingang e, Ângela
deverão ingressar na universidade, num democratizar e universalizar o acesso ao parte na defesa das deliberações congres- Maria Lima de Moura, da etnia Charrua.

Aprovadas quatro novas ações judiciais


FRITZ NUNES
contribuinte os valores pagos a entanto, a Administração continuou a realizar os
título de Imposto de Renda descontos de 11% sobre tais rubricas até o mês de
calculados sobre FGTS e juros fevereiro de 2006.
moratórios pagos em ações 3. Ação visando ao pagamento de Juros Progressivos
judiciais. Já há decisões de para Servidores optantes pelo FGTS, até setembro de
procedência inclusive tomadas por 1971.
juízes federais de Santa Maria. O Trabalhadores da iniciativa privada e servidores
entendimento dos magistrados vem públicos, anteriormente regidos pela Consolidação das
sendo o de que os juros, que Leis do Trabalho CLT, que optaram pelo regime do
objetivam recompor a demora no Fundo de Garantia por Tempo de Serviço FGTS antes
pagamento dos valores salariais, de 22 de setembro de 1971 ou que fizeram opção
não constituem acréscimo na esfera retroativa a partir de 11 de dezembro de 1973, têm direito
patrimonial do contribuinte, a receber valores correspondentes aos juros não
devendo ser afastados da base de creditados de forma correta em suas contas. Os juros
cálculo do Imposto de Renda. creditados nas contas vinculadas (à taxa fixa de 3% ao
2. Ação visando à restituição de ano) não obedeceram ao disposto em lei, que definia a
indébito tributário quanto à incidência de juros progressivos de 3% a 6% sobre os
incidência indevida de PSSS sobre depósitos.
adicionais de periculosidade, de 4. Não incidência de Imposto de Renda (IR) sobre o
Professores autorizaram sindicato a ingressar com ações insalubridade e de irradiação valor total recebido cumulativamente em decorrência de
ionizante, após a Lei 10.887/2004. ações judiciais ou pagamentos administrativos.
Na assembleia realizada pela SEDUFSM, no dia 15 de A iniciativa é para que a contribuição dos servidores Servidores que receberam créditos pagos pela via
dezembro, foi aprovado o encaminhamento de quatro públicos ao Plano de Seguridade Social do Servidor judicial sobre os quais houve descontos indevidos de
novas ações judiciais que pleiteiam direitos dos PSSS, não incida sobre parcelas relativas aos adicionais Imposto de Renda podem pleitear na justiça a devolução
docentes. Após os esclarecimentos prestados pelo de insalubridade, periculosidade, irradiação ionizante - do valor recolhido a maior. Tal direito decorre do fato de
advogado Heverton Padilha, do escritório Wagner decorrentes do local de trabalho. Os descontos que, em diversos casos, há incidência da alíquota
Advogados Associados, o ingresso das ações, mediante indevidamente realizados entre 2004 a 2006 podem ser máxima do IR sobre a parcela única a ser paga por meio
substituição processual, aquela em que o sindicato recuperados na via judicial. Desde que foi alterada a de precatório ou requisição de pequeno valor. No
representa a categoria, foi aprovado por unanimidade legislação que disciplina a contribuição dos servidores entanto, esse modo de cálculo é ilegal, pois deveria ser
pelos participantes. Confira a seguir o teor dessas ações: ao Plano de Seguridade, em 2004, essas parcelas considerada a alíquota vigente à época em que deveria ter
1. Ressarcimento dos valores recolhidos a título de deixaram de integrar a base de cálculo da contribuição, ocorrido o pagamento, bem como a parcela devida na
Imposto de Renda, sobre os Juros Moratórios e/ou FGTS sendo tributadas apenas se o servidor optasse época correta e não em uma única vez, pois o valor
recebidos em razão de pagamentos na via judicial. expressamente pelo desconto em razão de cálculo mais acumulado, somado aos juros e correção monetária
O objetivo desta ação é que a União restitua ao vantajoso do benefício previdenciário futuro. No implica maior tributação.
04 DEZEMBRO 2010 / JANEIRO 2011 Publicação da Seção Sindical dos Docentes da UFSM / ANDES

RADAR ESPECIAL

O Estado e os interesses privados Fotos: FRITZ NUNES

Um Estado que a cada dia que passa serve mais ao


pensamento neoliberal, em que os ideais passam a ter
relação com os interesses privados. Esse processo,
qualificado como de reforma do Estado brasileiro,
iniciou no governo Collor, foi aprofundado no
governo FHC e não cessou no governo Lula. A
avaliação é do professor César Augusto Minto
(USP), da Faculdade de Educação da Universidade
de São Paulo. A abordagem do docente foi realizada
na noite de sexta, 3 de dezembro, durante a abertura
do 5º Encontro da Regional RS do ANDES-SN, no
auditório da SEDUFSM. Cerca de 20 pessoas
participaram, entre professores das diversas univer-
sidades federais do estado e estudantes que integram
a nova diretoria do DCE da Universidade Federal do
Rio Grande do Sul (UFRGS).
César Minto, que atualmente ocupa a função de 2º
secretário da direção do ANDES-SN, faz uma
distinção entre o que se aprovou na Constituição de
1988 e as mudanças no Estado brasileiro a partir da
reforma administrativa que teve seu arcabouço
filosófico implantado durante o governo Fernando
Henrique Cardoso (1995-2002). A partir da reforma,
Minto ressalta que o Estado passou a ter uma função
mais gerencial, enquanto que o entendimento ante- Professor César Minto falou na SEDUFSM sobre construção do Estado neoliberal
rior era de que ao Estado competia a formulação de direitos sociais, atualmente o que temos é a restringindo ao papel de coordenador da Política
políticas públicas, bem como a execução dessas transformação desses direitos em serviços . Nacional de Educação. Fazendo uma síntese: antes,
políticas. Especificamente em relação à Educação, Minto o Estado centralizava responsabilidades, mas a partir
Uma das principais mudanças, segundo ele, se destaca que nos anos 80, o Estado era o elaborador e da reforma administrativa, o Estado descentraliza
refere às funções do Estado . Conforme o professor executor da Política Nacional de Educação; a partir responsabilidades, passando muitas dessas tarefas a
da USP, enquanto na concepção anterior havia dos anos 90, o Estado passa a ser o gestor, se estados e municípios.

Qualidade e eficiência, mas sem cidadania


A partir da visão que se tem de Estado, os conceitos em autonomia da escola para executar diretrizes
sofrem alterações. Enquanto na visão dos constituintes centrais, mas abrindo brechas para a busca de recursos
(1988), a qualidade no setor público, especialmente no extras.
educacional, significava gestão democrática e César Minto lembrou ainda que a tônica antes da
formação do cidadão, a partir da reforma neoliberal, o reforma administrativa, mas após a Constituição de
conceito de qualidade passou a ser sinônimo de eficácia 1988, era de que o Estado se responsabilizava pela
e eficiência, com a formação de cidadania passando a contratação e manutenção de pessoal próprio. Já no
um segundo plano. período posterior entra em cena a terceirização de
No que se refere à universalização, segundo Minto, pessoal. Em sua fala conclusiva, o professor de
enquanto nos anos 80 a ideia era de que houvesse uma Educação da USP acabou deixando uma polêmica no
universalização dos diversos níveis e etapas do ensino, ar, que acabou sendo levantada em algumas questões na
nos anos 90 o ponto central passou a ser apenas a parte do debate. Segundo ele, o processo de
universalização do ensino básico. O palestrante desregulamentação do Estado está bastante avançado
também analisou a questão da autonomia. Enquanto no e sua reversão é bastante difícil. O essencial, conforme
período anterior, o objetivo era a autonomia dos Minto, é fazer o debate sobre que pontos se pode barrar
Minto: difícil reverter quadro das políticas neoliberais sistemas e das unidades, nos anos 90, passou a se falar ou ao menos oferecer resistência.

O que foi a reforma?


Durante o primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso (1995- sendo necessária à modificação para que o País ingressasse no novo
1998), a Administração Pública Federal passou por mudanças século seguindo a onda reformista praticada noutros países, sobretudo no
significativas em face da chamada "Reforma Gerencial de 1995". Segundo Reino Unido e na Nova Zelândia.
os mentores dessa Reforma, um dos focos era melhorar a eficiência no Foi criado, então, o Ministério de Administração Federal e Reforma do
serviço público, através da aprovação de normas que instituiriam práticas Estado, MARE, cujo papel principal era não só criar as diretrizes da
gerenciais, adotando-se um novo modelo de administração denominado reforma, mas trabalhar pela implementação das mudanças no âmbito do
administração gerencial, em detrimento da administração burocrática, Congresso Nacional. O coordenador de todo esse processo foi o
então existente no país. economista e professor Luís Carlos Bresser Pereira, que comandou a pasta.
Firmou-se um entendimento de que o modelo existente, baseado, em (Fonte: http://jus.uol.com.br/revista/texto/17153/a-reforma-
regra, na concepção de Max Weber sobre burocracia, era ultrapassado, administrativa-brasileira-1995-1998-sob-a-otica-weberiana)
Publicação da Seção Sindical dos Docentes da UFSM / ANDES DEZEMBRO 2010 / JANEIRO 2011 05

RADAR ESPECIAL

As precariedades da expansão
Durante o 5º Encontro da Regional
Fotos: FRITZ NUNES
por vários exemplos. Um dos casos
RS do ANDES-SN foi possível ouvir de citados é o de Uruguaiana, local em que
algumas seções sindicais as dificul- o prédio da instituição teria sido
dades enfrentadas a partir da expansão construído em um antigo curtume.
das universidades federais. O evento, Entretanto, segundo Rocha, não foi
coordenado na manhã de sábado, 4 de feita uma avaliação técnica do local, e a
dezembro, pela 1ª vice-presidente da construção acabou tendo que ser
Secretaria Regional do ANDES-SN no abandonada. Posteriormente, foi
estado, Laura Fonseca, teve por obje- comprado um prédio que pertencia à
tivo ouvir relatos das ações e da mobili- PUC. Em São Gabriel, a desorga-
zação dos professores nas diversas ins- nização começa já na entrada do campi.
tituições e a, partir disso, apontar pro- O espaço para o trânsito é caótico e a
postas conjuntas. Foi a partir desse qualquer momento pode ocorrer algum
diálogo que se pode constatar que a acidente, alerta o docente.
precariedade que o ANDES-SN aponta O relato de situações difíceis também
em relação à expansão tem uma face foi dado pela professora Angélica
concreta. Pinho, da Unipampa, campi de Dom
Jefferson Rocha, professor de Econo- Pedrito. Docente do curso de
mia da Universidade Federal do Pampa Jefferson Rocha (microfone): dificuldades estruturais e políticas na Unipampa Zootecnia, Angélica ressalta que o fato
(Unipampa), em São Gabriel, informou zados a serem feitos, entretanto, as tata ele, esse discurso não se positivo é que desde março conse-
que, apesar de concursos recentes construtoras desistiram sem concluir sustenta mais como justificativa para guiram se mudar para um prédio novo,
realizados, o déficit no quadro de a obra. a manu-tenção da precariedade. A porém, a falta de profissionais para a
pessoal ainda é alto. Há uma sobrecarga As dificuldades na Unipampa tam- nossa reitora, que na verdade é uma docência ainda é uma constante.
de trabalho, obrigando alguns profes- bém são políticas. Conforme Rocha, a inter-ventora, boicota Funcionam atualmente dois cursos e,
sores a estarem 20 horas na sala de aula. instituição foi construída sem um sistematicamente a atuação do para 2011, a previsão é de que sejam
O espaço físico também é um proble- projeto de universidade e com o sindicato (Sesunipampa) na abertos dois novos. Em concurso
ma. Os cinco cursos existente naquele discurso de que ajudaria a resolver instituição , denuncia o professor. recente foram aprovados três profes-
campi da Unipampa funcionam em um problemas em uma região deprimida O professor de Economia em São sores, mas o número ainda é
único prédio. Outros dois foram autori- economicamente . Entretanto, cons- Gabriel destaca que a falta de um insuficiente, destaca Angélica.

Sem laboratórios O milagre das vagas


As dificuldades com a expansão da rede federal, a
partir de uma política imposta pelo MEC, com a
aquiescência da maioria dos reitores, não causa
dificuldades apenas em novas instituições como a
Unipampa e UFFS. Em Pelotas, a meta, segundo o
professor Henrique Mendonça, é aumentar o número
de alunos de 8 mil para 25 mil até 2012, ou seja, mais
que triplicar. Como fazer isso se a previsão do governo
é de aumentar em apenas 25% o orçamento global,
questiona o diretor da ADUFPel. Em função do
programa de expansão (REUNI), o reitor da
Universidade Federal de Pelotas estaria comprando
um número grande de prédios antigos da cidade.
Apesar de a ADUFPel não ter conseguido instalar o
Ildemar Mayer e os dois semestres sem laboratório na UFFS Observatório do REUNI , conforme orientação
aprovada em Congresso, a direção da entidade não
Um dos novatos no encontro sediado pela
foge de fazer as críticas que considera pertinentes. E
SEDUFSM, o professor Ildemar Mayer representou a
uma delas se refere aos cursos que estão sendo
Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), campi
implementados a partir do programa de expansão.
de Cerro Largo. A UFFS também é um modelo
Mendonça cita dois exemplos: um curso de graduação
multicampi, funcionando no estado nos municípios de
em games e um outro chamado de Engenharia
Erechim e Cerro Largo. Há ainda os campi de Chapecó
Industrial de Madeira , que contaria com o estímulo de Fernanda: estudantes sem sala de aula na UFRGS
(SC), Realeza e Laranjeiras do Sul, no Paraná.
empresas de fabricação de celulose, como é o caso da Votorantim.
Mayer é professor do curso de Química e relatou que
Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a maior do estado e uma das maiores do
o início do trabalho na UFFS foi bastante difícil.
país, também haveria bastante precariedade na expansão. Conforme a estudante de Farmácia e que
Foram dois semestres (2009) sem laboratórios ,
integra a chapa eleita do DCE da instituição, Fernanda Puebla, foram 20 novos cursos a partir do
explicou ele. A principal dificuldade informada se
REUNI. Entre as novidades, o curso de Dança noturno, em que, segundo ela, não há uma sala
refere à carga de trabalho excessiva. Em Cerro Largo
específica para as aulas. Também não há como jantar à noite. Situação parecida viveria o curso de
existe um total de 37 professores atuando, sendo um
Relações Internacionais, em que os alunos assistiriam aulas nos corredores.
deles na condição de Visitante. Pelos cálculos que
O 5º Encontro da Regional RS do ANDES-SN, realizado para a troca de ideias e apontamento de
fizeram, a necessidade do quadro seria de pelo menos
soluções para os problemas comuns, contou com a participação de 20 pessoas, representando diversas
90 professores. Os obstáculos que têm se apresentado
instituições do estado. No domingo, 5, pela manhã, na SEDUFSM, se reuniram apenas os integrantes
levaram a que ocorresse uma mobilização no sentido
da secretaria Regional do ANDES-SN: Laura Souza Fonseca (UFRGS), Carlos Pires (SEDUFSM),
de buscar a sindicalização, destacou Ildemar Mayer.
Billy Bastos (APROFURG), Elmo Swoboda (APROFURG) e Candido de Souza (UFRGS) para tratar
de temas específicos.
06 DEZEMBRO 2010 / JANEIRO 2011 Publicação da Seção Sindical dos Docentes da UFSM / ANDES

OPINIÃO
Arquivo/ ANDES-SN

O que você espera


do governo Dilma?
Fotos: MATHIAS RODRIGUES
Paulo Afonso Burmann, 52
Nova versão da Carreira
anos, professor do
departamento de Odontologia
Restauradora, atual diretor do
Centro de Ciências da Saúde.
A expectativa é que se
continue afirmando os
investimentos na área de
educação, e que se defina, no
Ensino Superior, um plano de
carreira adequado à nova dimensão da universidade
e à nova realidade social e econômica do país. Há de
se valorizar a classe docente para superar um
problema estrutural do Brasil, arraigado nas
questões da educação. Deve ser implementado um Proposta de carreira do governo continua trazendo prejuízo aos docentes
novo e considerável investimento na educação O secretário de Recursos Humanos do docentes da ativa , resume ela.
básica e no Ensino Médio, como forma de suprir as Ministério do Planejamento, Orçamento e Marina Barbosa Pinto acrescenta que, a
demandas existentes no setor e qualificar inclusive o Gestão, Duvanier Paiva, apresentou à diretoria do diretoria do Sindicato Nacional identificou outros
Ensino Superior. A saída para o país é pela educação, ANDES-SN, no dia 2 de dezembro, uma outra problemas na versão apresentada pelo governo,
versão da proposta de carreira docente do como a manutenção da nomenclatura atual, com a
não me parece que haja outro caminho viável.
governo federal. A versão mantém a mesma instituição da nova classe de Professor Sênior no
Também se espera o investimento consistente, estrutura da proposta anterior, divulgada em julho final da tabela, após a de Professor Associado. A
adequado e racional na área da saúde. Apesar de se de 2010, e não contempla as sugestões proposta prevê o enquadramento dos professores
propagar que o país tem um dos melhores sistemas apresentadas pelo movimento docente que, nesta nova classe até o nível 2, tendo como regra
de saúde pública do mundo, há de se convir que organizado pelo ANDES-SN, deliberou sobre o para acessar cada nível um total específico de
tema em assembléias de base e em reuniões anos como doutor.
temos muito a fazer nessa área .
nacionais da categoria. No geral, a regra para progressão passa a
De acordo com a presidente do Sindicato respeitar o Artigo 57 da Lei de Diretrizes e Bases
Eni de Paiva Celidonio, 58 Nacional, Marina Barbosa Pinto, o governo da Educação LDB, que prevê oito horas/aulas
anos, professora do curso de insiste em desconsiderar a carreira única e em como referência. Entretanto, o governo acres-
Letras. desprezar os aposentados, ao contrário do que é centa, como fator de aceleração da progressão, a
defendido pela entidade. O secretário deixou necessidade de que o professor ministre oito
Não espero nada. Porque eu
claro que, na visão do governo, a carreira única horas/aulas especificamente na graduação.
nunca espero nada de governo não procede. Ele disse que há, no máximo, a Em relação à Dedicação Exclusiva, a proposta
nenhum, eu deixo acontecer. possibilidade de um acompanhamento entre as inclui uma nova exceção : a percepção de
Eu não tenho mais idade para carreiras de nível superior e do ensino Básico, gratificações para encargo de curso e concurso. A
esperar nada. Isso é pra não Técnico e Tecnológico - EBTT. Duvanier nova versão também aproxima o teto salarial dos
também foi bastante explícito quanto à condição docentes do já previsto na carreira de Ciência &
levar susto. Eu acho que
do aposentado: a nova carreira só valerá para os Tecnologia. (Fonte: ANDES-SN)
governo é que nem time de
futebol, pode estar cheio de craques e, de repente,
perder na prorrogação, então, não fico esperando .
Construção docente
Francisco Lovato, 49 anos, Os diretores do ANDES-SN apresentaram ao que a proposta do movimento não seja
servidor técnico- secretário de Recursos Humanos a proposta de desconsiderada , acrescentou Marina.
administrativo lotado no carreira docente construída pela base da De acordo com Duvanier Paiva, o governo
DERCA. categoria neste último semestre, e que se trabalha com duas vertentes. No caso dos
encontra no Caderno de Textos do acordos fechados e assinados, os
Eu espero que a Dilma dê próximo Congresso do Sindicato enviaria ao Congresso Nacional nos
continuidade às ações do Nacional, em que será pauta para Proposta primeiros dias da nova legislatura
governo Lula e incremente deliberação. do movimento (fevereiro de 2011). No caso das
outras ações ao seu governo, O secretário de Recursos não pode ser categorias que não chegarem a
Humanos do MPOG, porém, foi um acordo, mas alcançarem
como desenvolvimento de
incisivo ao afirmar que a desconsiderada pontos consensuais, toda a
postos de trabalho, melhoria na negociação tomará como base a (Marina Barbosa Pinto, negociação em curso será
saúde. A educação evoluiu bastante, no meu ponto de presidente do
proposta do governo. Segundo detalhada em um memorial,
ANDES-SN)
vista, já que foram disponibilizadas mais vagas nas ele, outra proposta até poderá ser repassada ao novo governo com o
instituições de Ensino Superior. Há de se melhorar apresentada, mas não servirá como caráter de medidas de compromisso
um pouco a qualidade desse ensino. Também espero base. Duvanier esclareceu ainda que o do governo Lula . Diretores do
governo não admite a idéia da carreira única e ANDES-SN e representantes do governo
que ela mantenha essa melhor distribuição de renda de paridade entre ativos e aposentados. O voltaram a se reunir no dia 17 de dezembro.
vinda do governo Lula . ANDES-SN reafirmou a necessidade de que o Acompanhe matéria na página 07. (Fonte:
governo estabeleça uma negociação de fato e ANDES-SN)
Publicação da Seção Sindical dos Docentes da UFSM / ANDES DEZEMBRO 2010 / JANEIRO 2011 07

HUs recebem “presente de grego” Ciro Oliveira, 26 anos, acadê-


mico do curso de Ciências
Os Hospitais Universi- Sociais.

MATHIAS RODRIGUES
tários (HUs) receberam um Acredito que o governo Dilma
verdadeiro presente de vai ser um governo de continui-
grego , através da edição dade, não só do governo Lula,
extra do Diário Oficial da como do governo FHC. Conti-
União, no dia 31 de dezem-
bro. Neste dia, o presidente
nuará com as políticas neolibe-
Lula assinou a Medida rais e, prova disso, são essas
Provisória (MP) 520, que tentativas de reformas para a
autorizou a criação da retirada de direitos trabalhistas e
Empresa Brasileira de essa herança do último dia do governo Lula, que foi a
Serviços Hospitalares S.A. criação de uma estatal dos hospitais, que os privatiza .
(EBSERH). A finalidade da
empresa estatal de direito
privado, conforme o gover- Julio Ricardo Quevedo dos
no, é a prestação de serviços Santos, 49 anos, professor do
gratuitos de assistência departamento de História, vice-
médico-hospitalar e presidente da SEDUFSM.
laboratorial à comunidade, Eu espero do novo governo que
às universidades, às institui- haja muito diálogo, negociação,
ções de apoio ao ensino e HUSM está entre os hospitais universitários ameaçados de privatização pela MP 520 que tenhamos salários dignos,
pesquisa e à formação de justiça social e a reparação de
pessoas na área da saúde pública. Seu foco será o público , avalia. Além disso, a empresa está
injustiças cometidas contra o
gerenciamento dos hospitais universitários e a autorizada a patrocinar entidade fechada de
contratação dos profissionais que neles trabalham. previdência privada, subordinando o dinheiro dos funcionalismo público .
O regime jurídico da empresa é o que gere trabalhadores ao mercado financeiro.
empresas privadas, inclusive quanto aos direitos, Para o diretor do Centro de Ciências da Saúde
obrigações civis, comerciais, trabalhistas e (CCS) da UFSM, professor Paulo Afonso Burmann,
tributários. A contratação de funcionários será feita é preciso olhar com cautela a MP . Burmann diz
pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), achar estranho o conteúdo da Medida, que estaria
ELES DISSERAM
depois de aprovados em concurso público. A MP dando um indicativo de que o caminho dos hospitais
Se vier alguma coisa diferente, nós vamos simples-
autorizou ainda a celebração de contratos tempo- universitários pode ser o da privatização. No contato
rários de trabalho para a implantação da empresa, feito pelo Jornal da SEDUFSM, na quarta, 5, no mente vetar . (Ministro da Fazenda, Guido Mantega, em resposta
mas eles só poderão ocorrer durante os primeiros 180 fechamento da edição, o diretor do CCS informou às ameaças do PMDB de votar um salário mínimo acima de R$ 540.
dias, contados da sua constituição. A empresa que pretendia se reunir com a direção do Hospital Zero Hora, 5 de janeiro de 2011, pág. 05)
também está autorizada a patrocinar entidade Universitário para fazerem uma avaliação conjunta Na calada da despedida, o governo dito 'popular',
fechada de previdência privada, oferecendo, da medida governamental. presenteia a população . (Loiva Chansis, dirigente da
portanto, um fundo de pensão para seus empregados. Elaine Resener, professora do curso de Medicina e ASSUFSM, se referindo à publicação da Medida Provisória 520, em
AVALIAÇÃO- Na avaliação de entidades também diretora do HUSM, diz que é perceptível que 31 de dezembro de 2010, criando a Empresa Brasileira de Serviços
sindicais ligadas à educação, a instituição da há várias interpretações do texto da MP , então, há Hospitalares, uma espécie de fundação que atuará junto aos
estatal sinaliza o intuito do governo federal em de se analisar bem . Elaine destaca que a sua posição Hospitais Universitários. Diário de Santa Maria, 5 de janeiro de
transferir para as mãos da iniciativa privada a é de defesa dos hospitais 100% SUS , pois 2011, pág. 04)
responsabilidade sobre os hospitais universitários convênios privados não resolveriam os problemas
brasileiros. Segundo Sônia Lucio, 2ª vice-presidente dos HUs e ainda trariam conflitos internos . Ela não O Estado brasileiro tem que resgatar sua dignidade em
da Regional Rio do ANDES-SN, é fácil encontrar na acredita em privatização, mas, se ocorrer algo assim, relação aos mortos e desaparecidos na ditadura. Como
peça elementos que denotam seu caráter privatista. os reitores terão que lutar contra. A diretora informou disse a presidente Dilma, não se trata de revanchismo .
A MP prevê regimes de trabalho temporários e ainda que cancelou suas férias e que iria se reunir (Maria do Rosário, secretária de Direitos Humanos do governo Lula,
celetistas em vez de realizar concursos e assegurar tanto com o reitor, Felipe Müller, como também com no discurso de posse, reivindicando a criação pelo parlamento da
recursos. Além disso, os bens materiais e o diretor do CCS para discutir essa questão que, Comissão da Verdade. Folha de São Paulo, 4 de janeiro de 2011,
trabalhadores das Universidades são transferíveis segundo ela, pegou a todos de surpresa . (Fontes: pág. A8)
para as mãos da empresa, esvaziando o patrimônio Agência Senado; ANDES-SN e SEDUFSM)

ANDES reafirma defesa da Carreira


A diretoria do ANDES-SN apresentou da carreira, mantém a disposição de continuar a impacto financeiro. A minuta apresentada pelo
documento oficial com a compilação das suas negociação. Esta é a nossa contribuição para governo é uma manifestação concreta dos nossos
propostas para a Carreira Docente, no dia 16 de viabilizar um acordo que possa contemplar ambas limites. Ela é fruto de muitas negociações e foi
dezembro, durante a última reunião realizada com as partes , afirmou. melhorada em função das discussões já travadas. As
os representantes do governo Lula para debater o A diretora do Departamento de Relações de mudanças até podem parecer tímidas para os
assunto, no Ministério do Planejamento, Trabalho da Secretaria de Recursos Humanos do servidores, mas para nós são resultados de um
Orçamento e Gestão (MPOG). O documento passou MPOG, Marcela Tapajós e Silva, reforçou a grande esforço .
a constar do memorial que o governo que saía iria importância do documento para o processo. É Atendendo à reivindicação sistemática do
deixar para ser entregue ao governo Dilma, importante que vocês deixem esse documento aqui ANDES-SN, o MPOG convidou um representante
possibilitando assim a continuidade das registrado. Com certeza nós teremos a oportunidade da Secretaria de Ensino Superior do MEC para
negociações. de continuar a discuti-lo, embora ainda não participar da mesa de negociação, Marcus Aurélio
O secretário-geral do ANDES-SN, Márcio tenhamos condições de nos comprometermos com Brito.
Antônio de Oliveira, na oportunidade, propôs que prazos. Afinal, é um novo governo que se inicia e Já na SEDUFSM, neste início de janeiro, o GT
governo e movimento docente estabelecessem o ainda não sabemos quem serão os atores aqui na Carreira voltou a se reunir para finalizar uma
compromisso de que nos primeiros meses do SRH , justificou. proposta para a carreira docente. A proposição será
próximo ano o processo entrasse em fase A diretora acrescentou que, em função dos transformada num Texto de Resolução (TR) e
conclusiva. Márcio ressaltou que o Sindicato cenários previstos acreditava ser possível aprimorar encaminhada ao 30º Congresso do ANDES-SN, que
Nacional, embora tenha oficializado em documento a minuta de projeto já apresentado pelo governo, acontecerá de 14 a 20 de fevereiro, em Uberlândia
os pontos que considera importante na formulação desde que as mudanças não impliquem em mais (MG). (Fontes: ANDES-SN e SEDUFSM)
08 DEZEMBRO 2010 / JANEIRO 2011 Publicação da Seção Sindical dos Docentes da UFSM / ANDES

COM A PALAVRA

Arilson dos Santos Gomes

Visibilidade do

Fotos: RENATO SEERIG


negro é uma
realidade

Em diversos setores da sociedade, a presença do PERGUNTAS&RESPOSTAS


negro ainda é escassa. A universidade, o espaço
acadêmico, é um desses redutos, inicialmente
P- Como o sr. avalia o programa de cotas raciais do Estado de Direito. Estado este que, infelizmente,
criados para uma elite branca, mas que aos poucos, é
no país? Esse tipo de ação tem se demonstrado ser demorou no passado a concluir seu processo
ocupado não apenas por pessoas de pele negra, mas,
uma política correta de inclusão do negro? Por escravista e sequer pensou na condição desta
especialmente por pessoas comprometidas em quê? população, como citou o abolicionista e político
resgatar a participação dos afrobrasileiros na R- Somente pode-se pensar em um programa como Joaquim Nabuco, após o 13 de maio. Portanto, estas
história do Brasil. E um desses nomes, no Rio estes se analisarmos o conjunto da política em políticas são corretas, legítimas. Dois pontos
Grande do Sul, certamente é o de Arilson dos Santos questão. Cotas são meios de uma política extensa, objetivos corroboram com estas Ações. O primeiro,
Gomes. Aos 33 anos, ele atua como professor de conhecida conceitualmente como Ações é que são políticas de caráter coletivo, visando à
História na rede municipal de Alvorada (RS) e ocupa Afirmativas. Este procedimento, executado pelo melhoria do grupo. E o segundo é que ela tem prazo
a 1ª secretaria da Associação Nacional de História estado tem um período determinado. E visam de validade, sendo um mecanismo pontual de
(ANPUH-RS). Arilson é mestre em História pela permitir que grupos étnicos melhorem suas inclusão, jamais interminável.
PUC-RS, instituição na qual cursa também um condições sociais, afetadas por algum
doutorado. É autor de uma obra recente: Joaquim motivo. No caso das populações negras, a P- Sempre que se fala em políticas de
Nabuco, o visionário político das ações de inclusão marginalização imposta após a abolição
Mais ação afirmativa, nas cotas raciais,
social . O historiador esteve em Santa Maria no dia da escravidão. Situação concreta e, do que racismo, acaba-se por citar políticas com esse
22 de novembro para participar da atividade infelizmente, sentida na atualidade. o que existe em viés nos Estados Unidos. O país
Novembro Negro , programação do Cultura na Se verificarmos os dados de acesso ao citado é um bom exemplo de
ensino superior, emprego, salário,
nossa sociedade políticas que permitiram ao negro
SEDUFSM (ver página 10). E essa é apenas uma
dentre tantas atividades cumpridas por esse sul- habitação, em fim, indicadores é ignorância e conquistar algum espaço e ser
mato-grossense, que mora em Porto Alegre desde os sociais, verificar-se-á, que a qualidade preconceito respeitado na sociedade?
sete anos. Um conhecedor da história dos negros, de vida dos negros em nosso país é R- Os Estados Unidos e o Brasil são
cujo aprofundamento em pesquisas lhe permite inferior a de outros grupos. Sem citar as sociedades diferentes. Com processos
dificuldades intangíveis cotidianas, como os históricos peculiares. Lá o sujeito é
afirmar que, apesar da tentativa de ocultação dessa
discursos de inferiorizações criados, geradores de identificado como negro a partir de sua origem
história, a visibilidade do negro hoje é uma
estereótipos. Na própria mídia, como pesquisou o sanguínea, como analisou o sociólogo Demétrio
realidade. Sobre as críticas às políticas de ações antropólogo Iosvaldir Bitencourt Jr., não faz muito Magnoli. Por exemplo, algumas pessoas que são
afirmativas (cotas raciais), Arilson as vê como tempo que assistimos negros em comerciais claras aqui no Brasil e se autodeclaram brancas,
resultado do debate democrático. Favorável às televisivos ou fazendo papéis de protagonistas em mesmo com familiares negros, lá seriam
cotas, ele destaca que representam tão somente um novelas e filmes. Coincidência? Logicamente que consideradas negras. Ou seja: uma é uma sociedade
mecanismo de inclusão , o que não significa que não. Acabam sendo reflexos e resultados deste bi-racial. Já no Brasil em virtude de políticas
serão eternas. Acompanhe a seguir a entrevista fenômeno. Estas políticas são reivindicadas pelas oriundas dos censos demográficos iniciados pouco
concedida ao Jornal da SEDUFSM, através de organizações e intelectuais representantes deste antes do final do Império, em 1872, se criou grupos
correspondência eletrônica. grupo, em negociações dentro da estrutura jurídica raciais: subdivididos em brancos, pardos, mestiços,
Publicação da Seção Sindical dos Docentes da UFSM / ANDES DEZEMBRO 2010 / JANEIRO 2011 09

pretos, etc. Lá nos EUA, o estado intensificou a divisão conquistada, em substituição ao 13 de maio, produção do conhecimento. Inclusive, a música
racial, alterada após a Guerra Civil (1861-1865) e considerada data concedida, pensou muito mais nos composta por Aldir Blanc e João Bosco em memória a
sensivelmente modificada nos anos 60 com a luta pelos reflexos de conscientização representada pela data. João Cândido, líder da sublevação, foi sensivelmente
direitos civis. Porém, embora com avanços sociais, Seria o pensamento do negro ativo, resistente, lutador, alterada pelos sensores do período da ditadura militar.
culturalmente ainda hoje os Estados Unidos mantêm guerreiro, valente e determinado em busca de sua Originalmente a música intitulada O Almirante
suas separações, em que pese à dinâmica existente liberdade. Diferentemente daquele que nos foi Negro fora alterada para O Mestre Sala dos Mares .
nestes aspectos. Aqui o estado ordenou, porém, sem ensinado, sem vontades e passivo, libertado por uma Além do nome outros versos foram alterados da
dividir. Entretanto, no final do Império, o racismo ação bondosa. Portanto, é a história vista por outros melodia. Esta situação prejudicou a difusão do
científico era respaldado por grande parte de nossos ângulos. E isto a atualidade vem possibilitando. A acontecimento. Outro fator foi que durante muito
políticos e intelectuais vinculados ao poder, e nesta visibilidade para referenciais como Zumbi é uma tempo a história dos negros neste país foi concentrada
hierarquização quanto mais branco, mais ocidental, realidade. No entanto, devemos cuidar para que esta nos estudos sobre a escravidão. Pesquisas
mais europeu, considerava-se melhor o grupo para o data ou referência não fique congelada. Pois, corre-se o extremamente importantes e que necessitam
desenvolvimento da nação, pensavam. No entanto, no risco real de invisibilizá-la ou torná-la exclusiva. Por prosseguir. Porém, estudos da participação do negro no
aspecto cultural aceitou-se a participação dos grupos exemplo, ao concentrar-se as atividades somente em período republicano agindo politicamente,
negros, pardos e mestiços a vida nacional. novembro e se discutir estas questões somente em uma reivindicando espaço, lutando pela melhoria de sua
Principalmente após os ensaios de Gilberto Freyre e as época determinada pelos grupos negros, pode-se criar o condição e negociando com a sociedade mais
políticas getulistas, instauradas no Estado Novo. mito. Inclusive, a historiadora Emilia Viotti da Costa ao abrangente, ainda são escassas, em que pese toda a
Porém, socialmente, com poucos avanços materiais na falar sobre a democracia racial brasileira, diz que nós produção acadêmica recente. Acredita-se que, com a
vida dos descendentes de aplicação efetiva da Lei
africanos. Ainda eram na maioria 10.639/03, que obriga o ensino da
analfabetos e desempregados. história do negro nos currículos
Mesmo entendendo nossa escolares, atendendo seu artigo
complexidade original, o estado primeiro, que explica sobre: o
foi inoperante nas demandas resgate da contribuição do povo
sociais. Já os Estados Unidos com negro nas áreas social, econômica
toda sua divisão racial, postulou a e política pertinentes à História do
vanguarda das Ações Afirmativas. Brasil , motivarão aprofun-
Até mesmo as reações dos negros, damentos sobre a Revolta da
em virtude do ódio racial plantado Chibata. Entre outros, que
naquela sociedade, foram ocuparão espaços relevantes na
diferentes. Portanto, os Estados historiografia e na vida de todos,
Unidos podem ser considerados desde o ensino básico até o
exemplo em forma, mas não em superior. Outro caso a ser citado é
conteúdo, visto que temos uma o do político negro Carlos Santos,
origem extremamente complexa, primeiro governador negro em
inclusive nas relações humanas e exercício no Rio Grande do Sul. E
afetivas. No entanto, o atraso que é tema de nossa pesquisa de
social, fardo advindo dos séculos doutoramento, desenvolvida junto
de escravidão, atingiu os ao Programa de Pós-Graduação
descendentes de africanos nas em História da PUC-RS. Carlos
Américas. O que faz dos negros, Santos, além de defensor de sua
independentemente dele viver na origem sindical, auxiliou também
sociedade norte-americana ou no reconhecimento de sua origem
brasileira, um grupo mais étnica. Na historiografia
vulnerável socialmente, por fatores já citados. Neste construímos e desconstruímos mitos. O que se deve encontramos apenas duas obras sobre este intelectual,
sentido, o estado deve atuar nesta questão. São primar é para que a temática negra seja vivenciada em escritas por Elvo Clemente e Luiz Torres. Entende-se
desafios. nosso cotidiano, sem receios e sem totalizações. A que muitas produções ainda devam ser realizadas para
partir do momento que reconhecermos nossas o reconhecimento da história negra.
P- O mês de novembro é considerado o período de diferenças, com respeito, certamente teremos mais
afirmação da Consciência Negra, a partir da luta de facilidade em reconhecer símbolos transformadores, P- No Brasil existe ou não racismo?
Zumbi dos Palmares, por exemplo. No Brasil, já independentemente de qual grupo esta referência R- Se em nosso país não existissem problemas raciais, o
existe mais naturalidade em aceitar uma história que venha a representar, constituindo-se referência na que explicaria a Lei 1.390, de 3 de julho de 1951,
venha daqueles que se opunham ao status quo ou vivência popular e nacional. chamada Afonso Arinos, que incluiu como
ainda temos dificuldade em jogar luz sobre esses contravenção penal o preconceito de raça ou cor? Ou a
fatos? P- Por que ainda hoje episódios como a Revolta da Lei 7.716, de 5 de janeiro de 1989, conhecida como Lei
R- Acredito que estamos melhorando. Em virtude da Chibata (ou dos Marinheiros) ainda não ocupam um Caó, que definiu como crime práticas resultantes de
quantidade de informações disponibilizadas na espaço importante na historiografia do país? preconceito de raça ou cor? Temos desafios para
atualidade, em que muitos mecanismos, inclusive R- Esta história foi a da luta contra a repressão e a enfrentar, pois somos uma sociedade mestiça, mas que
digitais, auxiliam neste reconhecimento, a sociedade desumanidade a que eram impostos aqueles insiste em hierarquizar seus componentes pelo
aos poucos vem entendendo a necessidade em aceitar marinheiros, em sua maioria negros. As principais fenótipo. Quanto mais escuro o ser humano,
as diferenças, sem que isto seja entendido como uma pesquisas sobre o tema foram realizadas por Edmar infelizmente, mais obstáculos surgem em seu dia-a-dia,
adversidade ou luta dos contrários. A própria história Morel, Mário Maestri e Álvaro Pereira do Nascimento. salvo raras exceções, que comumente associamos ao
enquanto ciência, em suas formas de análise e métodos, Para Maestri, os marinheiros foram vencedores, mérito. As políticas de ações afirmativas continuam em
em conjunto com outras disciplinas vem inovando. O mesmo com a forte reação conservadora da marinha, já discussão, seja em meios acadêmicos, populares,
grande problema é fazer com que a história crítica que a chibata às costas, executada a cada ato de políticos, ou até nas relações cotidianas mais comuns,
pensada em aspectos cotidianos, ganhe mais força. infração, fora extinta. No entanto, devemos questionar: entre vizinhos e amigos, tornando-se um ótimo
Refletindo de maneira mais abrangente, se analisarmos quem durante muito tempo escreveu a história neste exercício democrático. Acredita-se que, mais do que
com prismas da história tradicional, Zumbi não foi um país? É importante ressaltar que as elites que racismo, existe em nossa sociedade muita ignorância e
vencedor. Pelo contrário. Mas sua valorização vem ao dominavam no período eram extremamente preconceitos. Existe a falta de sensibilidade, a ausência
encontro de uma demanda referencial de um conservadoras. E após este acontecimento, muitos se por parte de algumas pessoas da reflexão e,
determinado grupo. Quando o 'Grupo Palmares', de mantiveram no poder. Ao menos muitas de suas principalmente, do agir contra a acomodação e os
Porto Alegre, propôs simbolicamente a data do 20 de ideologias. Os próprios militares continuaram a conservadorismos.
novembro, dia em que Zumbi foi morto, como data influenciar a cena política e, conseqüentemente, a
10 DEZEMBRO 2010 / JANEIRO 2011 Publicação da Seção Sindical dos Docentes da UFSM / ANDES

EXTRA-CLASSE

Cultura na SEDUFSM e o ‘Novembro Negro' Fotos: RENATO SEERIG


A atividade Novembro Negro
promovida pelo Cultura na
SEDUFSM, no dia 22 de novembro,
trouxe à tona dois aspectos impor-
tantes no debate sobre a negritude: o
primeiro deles se refere ao protago-
nismo dos gaúchos em relação à própria
valorização da data do 20 de novembro
como Dia da Consciência Negra.
Segundo o historiador do Memorial
Rio Grande do Sul, Arilson dos Santos
Gomes, foi em Porto Alegre, na década
de 1970, através de um grupo chamado
Palmares, que iniciou o debate em que
se considerou que a data de valorização
do negro deveria ser em novembro, e
não naquela referida à abolição da
escravidão, em 13 de maio.
O segundo elemento resgatado no
debate se referiu aos 100 anos da
'Revolta dos Marinheiros', também
conhecida como 'Revolta da Chibata'.
Na abordagem feita pelo historiador e
professor da Universidade de Passo
Fundo (UPF), Mário Maestri, foi
lembrado o papel de João Cândido, um
afro-sul-rio-grandense que liderou uma A mesa de debates: Mário Maestri, Julio Quevedo, Arilson Gomes e Carlos Pires
revolta de marinheiros que colocou em na Rússia, em 1905. Questionado se barcos, precisaram enviar dos rebeldes foram cumpridas em
xeque uma prática da Marinha que, era possível nesta época (1910) haver marinhei-ros à Europa. E nesse par-te, mas, mesmo após serem
mesmo em 1910, mais de 20 anos após canais de comunicação para que os contato com outros trabalhadores anistiados no Senado, boa parte deles
o fim da escravidão, ainda tratava os marujos brasileiros pudessem se ingleses é que os marinheiros acabou perseguida, presos e até mortos.
marujos negros como cativos , apropriar dessas informações, o brasileiros tiveram aces-so a muitas Segundo Maestri, alguns frutos positi-
burlando a própria lei, que proibia o uso historiador explicou que esse período informações, inclusive relacionadas a vos geraram desse movimento. Desde
do chicote e do tronco para as punições. da República (1905-1910) era de como se organizar para pressionar e aquele período, nunca mais se repetiu o
Maestri, um estudioso do assunto, bonança econômica, devido às reivindicar. uso do açoite aos marinheiros e as
destacou que a revolta dos marinheiros exportações do café. Em função A Revolta da Chibata foi muito condições de trabalho melhoraram.
na cidade do Rio de Janeiro teve influ- disso, o governo brasileiro acabou exitosa, num primeiro momento, e o Entretanto, é flagrante o fato de que, até
ência advinda de uma outra rebelião importando navios de guerra de governo foi obrigado a negociar. hoje, o único almirante negro da
famosa, a do 'Encouraçado Potemkin', primeira linha. Para operar esses Entretanto, conforme explica o Marinha foi o rebelde João Cândido.

Política de silenciamento mas delas políticas e outras culturais. presidente da Regional RS do ANDES-SN,
Gomes resgata, por exemplo, o caso de Custódio Carlos Pires. Quevedo também integra o Grupo de
Joaquim de Almeida, conhecido como O prín- Trabalho de Etnia, Gênero e Classe (GTEGC), que
cipe . Custódio nasceu e viveu em Bagé (1831- ajudou na organização dessa atividade.
1935) e era considerado um pai das religiões Após o debate ainda aconteceu a apresentação
afro. Chegou a receber visita de Borges de dos integrantes do grupo de capoeira Barra-
Medeiros, esperançoso em curar um câncer. Outro Vento . Formado por cerca de 80 alunos, o grupo,
exemplo foi o de Carlos Santos, que viveu de 1904 coordenado pelo professor André Luiz Alves
a 1989 em Porto Alegre, tendo sido deputado ( Piu-piu ) foi representado por 18 deles, que
estadual, e o primeiro negro a assumir o governo abrilhantaram a parte final do evento.
do estado, em 1967, na condição de presidente da
Assembleia Legislativa.
Cerca de 150 pessoas prestigiaram o debate O Cultura na SEDUFSM, na edição de novem-
O historiador Arilson Gomes destacou em sua bro, ocorreu na noite de segunda, 22, no plenário
exposição um trabalho que tem como origem a sua da Câmara de Vereadores de Santa Maria e teve um
dissertação de mestrado, o surgimento dos oásis dos maiores públicos entre todas as edições do
em meio ao deserto. Usando conceitos da filósofa projeto (44 no total). Cerca de 150 pessoas lotaram
Hannah Arendt, ele argumentou que, ao longo dos as dependências do Legislativo municipal para
anos, houve uma política de silenciamento sobre ouvir os dois palestrantes do Novembro Negro .
a participação do negro na sociedade brasileira. O debate teve a coordenação do professor de
Em meio ao processo de discriminação existente, História da UFSM e vice-presidente da
os oásis foram construídos por figuras que SEDUFSM, Julio Quevedo. Quem prestigiou o
acabaram se tornando expressivas entre os negros evento, fazendo parte da mesa, foi o professor do
e que levaram à sociedade suas mensagens, algu- departamento de Geociências da UFSM e 2º vice- Show de capoeiristas ao final do evento
Publicação da Seção Sindical dos Docentes da UFSM / ANDES DEZEMBRO 2010 / JANEIRO 2011 11

EXTRA-CLASSE

‘D Palavra' é a revista da SEDUFSM Fotos: RENATO SEERIG


O presidente da SEDUFSM, No encerramento da cerimônia, o
Rondon de Castro, abriu a cerimônia professor Rondon de Castro entregou
agradecendo aos presentes e flores a Cecília Pires, professora
recapitulando como foram as ações aposentada da UFSM que atualmente
do sindicato no último semestre. Para leciona na Unisinos, e que havia escrito
o professor, a revista D Palavra um texto para a D Palavra e veio a
efetivou sonhos levantados em Santa Maria especialmente para o
mesas de reunião e é mais uma forma evento. Homenagear o passado e lutar
do sindicato crescer, atraindo novos pelo futuro era a intenção da
filiados. O sindicato é nossa homenagem. E pode ser algo que a D
trincheira na luta por uma univer- Palavra ajude a alcançar.
sidade pública, gratuita e de
qualidade, e, acima de tudo,
socialmente referenciada , enfatizou
ele.
Quem utilizou o microfone após
Rondon foi o diretor do Centro de
Artes e Letras, Pedro Brum Santos,
que falou em nome do Conselho
Pedro Brum Santos, do conselho editorial, fala das características da revista Editorial da revista. Pedro lembrou
que a intenção do conselho com a
Na noite de segunda, 20 de dezembro, Além de diretores e conselheiros do revista era fazer algo que, sem fugir
em seu auditório, a SEDUFSM lançou sindicato, representantes de das questões da categoria docente,
seu novo projeto: a revista D Palavra . sindicatos, como da ASSUFSM, não se restringisse a isso . O
Cerca de 50 pessoas estiveram representantes do DCE, setores da professor também enalteceu o fato de
presentes ao evento para prestigiar a imprensa e diversos professores a revista ter sido feita em um curto Cecilia Pires, uma das colaboradoras
mais recente produção da entidade. estiveram no coquetel. período de tempo. da revista, foi homenageada

Repercussão
O perfil da publicação E a revista 'D Palavra' já repercute fora de Santa Maria. O presidente do
Sindicato dos Docentes da Universidade Estadual do Ceará (Sinduece)
O nome da revista - D enviou correspondência solicitando exemplares da publicação. Segundo o
Palavra- surgiu a partir professor Epitácio Macário, o tema do produtivismo acadêmico interessa
de diversas sugestões muito àquela entidade. Macário entende que a reportagem produzida pela
entre integrantes do revista da SEDUFSM pode servir como instrumento de pesquisa e
conselho editorial da inspiração ao trabalho realizado por aquela seção sindical.
revista, que é composto
pelos professores
Humberto Gabbi REINALDO PEDROSO
Zanatta, Reinaldo
Pedroso, Pedro Brum
Santos, Vitor Biasoli,
- O Congresso é reciclável?
Máucio e Rondon de
Castro. A publicação - Não, é orgânico...
está prevista para ter Tema de capa do primeiro número já repercute
periodicidade anual, fora da UFSM
com possibilidade de ser antecipada para semestral. O primeiro número,
com 16 páginas, enfoca em sua reportagem central o tema do produtivismo
acadêmico. A manchete de capa traz como título: O professor na linha de
produção .
Além disso, a publicação traz sessões de fotos, que tem entre os autores,
os professores Ronai Pires da Rocha, do departamento de Filosofia da
UFSM e Carlos Dominguez, do curso de jornalismo do Centro de Ensino
Superior do Norte do Rio Grande do Sul (CESNORS). Apresenta ainda
artigos assinados pelos professores Elvandir da Costa, do departamento de
Direito da UFSM e Cecilia Pires, aposentada do departamento de Filosofia
da UFSM, atualmente lecionando na Unisinos. A contracapa fecha a revista
com cartuns do professor aposentado do departamento de Desenho
Industrial da UFSM, Reinaldo Pedroso.
Para quem ainda não conhece a revista, ela pode ser consultada e lida no
site da seção sindical: www.sedufsm.org.br. A 'D Palavra' também se
encontra aberta a sugestões, seja de artigos, crônicas, poesias, fotos ou
mesmo de temas para a reportagem principal.
(Desenho participante da coletiva Expolixo , promoção do Curso de Desenho Industrial/Programação Visual/UFSM)
12 DEZEMBRO 2010 / JANEIRO 2011 Publicação da Seção Sindical dos Docentes da UFSM / ANDES

ARTIGO DICA CULTURAL

A safra do
FI LM E

melhor vinho
A economia tem a má fama de ser uma ciência
lúgubre e os economistas geralmente são vistos
de alcançar o fundo do poço , a economia
atingirá o crescimento de forma rápida e vigorosa;
como aves agourentas portadoras de más notícias. outros dão a forma de um U , em que a recessão
Se alguém se der ao trabalho de consultar as perdurará por um bom tempo antes de
opiniões dos economistas, no final de começar a recuperação; por último,
2009 sobre as perspectivas para 2010,
Nem no existem ainda os mais pessimistas, que
verá que as previsões, em sua pessimismo acham que a recuperação terá o INVESTIGAÇÃO SOBRE
esmagadora maioria, eram pessimis- os economistas formato W , um mergulho duplo no
tas. Nesse caso, melhor teria sido chegam a um qual a economia experimenta uma UM CIDADÃO ACIMA DE
consultar os búzios que sempre consenso recuperação rápida antes de afundar QUALQUER SUSPEITA
preveem bons augúrios. Eles teriam outra vez.
ficado mais próximos da realidade, já que o Enquanto para as economias desen- (Indagine su un Cittadino al
ano de 2010 foi a safra do nosso melhor vinho volvidas, por enquanto, a recuperação parece ter di sopra di Ogni Sospetto)
nestes últimos trinta anos. a forma de U , para os emergentes, em particular Itália 112 min., 1970
Talvez a explicação para esse comportamento o Brasil, parece que a letra V é a que melhor Vencedor do Oscar® de Filme
dos economistas esteja nos fundamentos da teoria representa o que aconteceu nos últimos dois anos. em Língua Estrangeira e Indicado
econômica dominante, em particular, na Depois de três trimestres negativos em 2009, a ao Oscar® de Roteiro Original
ideia de escassez. Alguém sempre tem que partir do quarto trimestre daquele ano, a
Direção: Elio Petri
lembrar-nos que vivemos num mundo economia iniciou uma recuperação vigorosa que
Quem viu?
onde os recursos são escassos e, se permite projetar uma taxa de expansão do PIB de
Alexandre Maccari Ferreira (*)
esbanjarmos no presente, pagaremos 7,5% em 2010, depois de três décadas de
caro no futuro. Se uma família gasta estagnação e lento crescimento. A taxa de
Há filmes que são datados pela época da
mais do que ganha isso certamente a desemprego de novembro de 2010, nas
produção e há obras que continuam a
levará a ruína; se o governo gastar seis regiões metropolitanas pes- acompanhar a história do cinema.
mais do que arrecada irá quisadas pelo IBGE, ficou em Investigação de um Cidadão acima de
endividar-se ou causar inflação 5,7% - a menor taxa Qualquer Suspeita, de Elio Petri, mesmo
e assim por diante. Para a desde o início da que inserido no filão temático do cinema
político italiano produzido em grande
maioria dos economistas, série (março/2002).
escala durante as décadas de 1960 e 1970,
portanto, poupar é sempre A inflação, medida é um exemplo deste último caso. A trama
melhor de gastar. Não pelo IPCA, pode traz um influente policial italiano (Gian
importa o quanto alguém ficar um pouco Maria Volontè) que conduz as investi-
replique que as crises acima da meta de gações sobre um crime que ele mesmo
cometeu. Dessa forma, ele incrimina um
econômicas, na maioria, 4,5%, mas jovem de esquerda pela morte da amante
têm como causa excesso e comparado (Florinda Bolkan) que também man-
não falta de poupança. com o nos- tinha relações com o policial. Por chefiar
O pior é que nem no so passado o caso, ele tem certeza de que é o único
pessimismo os economistas inflacionário, que não poderá levantar qualquer tipo de
suspeita. Por isso mesmo não se preocupa
chegam a um consenso. não assusta nem em deixar pistas no local do crime que
Tome-se, como exemplo, o um pouco. apontem diretamente para seu nome.
caso da recuperação econô- Lendo esses nú- Antônio Cândido, em artigo sobre o
mica após a crise financeira meros, o brasileiro filme de Petri, analisa o papel da polícia,
global de 2008. Criou-se uma pode ficar otimista destacando que o poder policial
dificilmente é o principal na engrenagem
curiosa teoria baseada nas letras para 2011? Tudo indica que sim, mas, para social ainda que possa em determinadas
do alfabeto V, U e W. Alguns acham que a não estragar a festa, aconselho a não ouvir a circunstâncias assumir uma força própria
recuperação terá a forma de um V , isto é, depois opinião dos economistas. incontrolável. Investigação sobre um
cidadão acima de qualquer suspeita vale
pela reflexão social e pela relevância
José Maria Pereira cinematográfica, emblemáticas na
discussão ética da história.
Doutor em Economia, professor aposentado da UFSM e atual professor da Unifra. (* Professor de História da Unifra)